Issuu on Google+


500 Milhas de Ă gua Doce Uma famĂ­lia velejando no extremo sul do Brasil.


Celso Rossi

500 Milhas de Água Doce Primeira Edição


Sumário Capítulo I

- Esforço em família .................9

Capítulo II

- Artes do Comandante...........19

Capítulo III

- Aulas de Comércio ...............31

Capítulo IV

- O Banco Cristóvão Pereira.....37

Capítulo V

- Ilha do Vitoriano...................45

Capítulo VI

- São Lourenço do Sul..............51

Capítulo VII

- Lagoa Pequena......................59

Capítulo VIII

- Pelotas..................................73

Capítulo IX

- Canal de São Gonçalo............79

Capítulo X

- Santa Isabel do Sul................87

Capítulo XI

- Arroio Bretanha.....................93

Capítulo XII

- Jaguarão................................99

Capítulo XIII

- Ilha Grande do Taquari........107

Capítulo XIV

- Rio Cebollati........................113

Capítulo XV

- O Extremo Sul do Brasil.......121

Capítulo XVI

- Santa Vitória do Palmar.......133

Capítulo XVII

- Arroio Curral D’Arroios e dos

Afogados.....................................................143 Capítulo XVIII - Rio Taquari.........................155 Capítulo XIX - Enfim, o Sol!....................163


Capítulo XX

- De Volta à Lagoa dos Patos..173

Capítulo XXI

- Barra Falsa e Bojuru..............179

Capítulo XXII - Porto Barquinho...................185 Epílogo ........................................................193 Fotos............................................................211 Glossário de Termos Náuticos......................233 Sugestões de Leitura....................................239 Waypoints....................................................243


Agradecimentos Aos amigos Emílio, de Tapes; Pepe, de Pelotas, e Adriel, de Rio Grande, pelas dicas e waypoints que fizeram dessa viagem muito mais um passeio que uma aventura. Ao pessoal do Clube Náutico Tapense, pelo apoio e simpatia, que nos fizeram sentir em casa durante a nossa permanência. Aos pescadores das lagoas, que encontramos pelo caminho e nos auxiliaram sempre que precisamos. A Luiz Alberto Rossi, meu pai, pela revisão dos originais deste livro e à minha mãe, Lieselotte, por ter suportado com bravura, ver seus netos velejando tão longe das suas asas. A Gabriel e Valentina, filhos e tripulantes, por ter escolhido nascer na nossa família e pelos momentos inesquecíveis que passamos juntos. A Paula Andreazza, minha parceira de sonhos e realizações, pela ousadia, pela coragem e determinação que viabilizaram a realização dessa e de muitas outras histórias.


Capítulo I Esforço em Família


U

m barulho diferente na cabine me desperta às duas e cinco da madrugada. O tubo de detergente, que estava sobre a pia da cozinha tinha caído no chão. Tudo escuro, penso que poderia ser algum bicho, mas logo mudo de idéia ao acender a lanterna e compreender o que estava realmente acontecendo. O Mojud estava adernando lentamente para bombordo e esta inclinação havia derrubado o tubo de detergente. - Estamos encalhados!- Acordo a Paula e busco, no meio da penumbra da cabine ainda mal iluminada pela lanterna de pilhas, as minhas roupas, que procuro deixar sempre à mão. Quando ergo a perna para vestir a calça do abrigo, sinto uma fisgada, um choque, na base da coluna, que me arranca um grito de dor. Chegamos esta tarde ao abrigo do farol Cristóvão Pereira, vindos do Pontal de Santo Antônio e do Clube Náutico Tapense, dando início à nossa tão sonhada viagem à Lagoa Mirim, ao extremo sul do Brasil, na divisa com o Uruguai. Logo após a velejada da tarde, com algumas horas de vento fresco, ancoramos o Mojud contra o barranco de areia da pequena enseada abrigada logo atrás do farol e me rendi aos apelos do Gabriel para ir pescar com ele, de tarrafa, atrás de tainhas para o jantar que, segundo ele, estavam pulando ao redor do barco na nossa chegada. Tirei o agasalho e coloquei apenas uma camiseta, já suja e um pouco úmida, com a intenção de proteger o tórax do vento frio. Ajoelhei11


500 Milhas de Água Doce

me na proa do bote inflável e, enquanto o Gabriel manejava os remos buscando uma melhor posição, ia tarrafeando, com alguma dificuldade de equilíbrio, ao lado dos juncos que margeiam o lado sul da enseada. Depois de umas vinte ou trinta tentativas infrutíferas - ou impeixíferas - , voltamos para o barco. A tarde já estava um pouco mais fria, mas eu não tinha percebido. Quando fui entrar na cabine, curvando um pouco o corpo, senti uma dorzinha aguda na coluna lombar. Em questão de segundos, essa dor foi tolhendo os movimentos das minhas costas e pernas e, em menos de quinze minutos, só conseguia me locomover pela cabine tal qual um paraplégico, sustentado exclusivamente pelos braços. Não era apenas a dor que me impedia de sustentar o corpo sobre as pernas, era como se simplesmente não houvesse resistência física para tanto. Há vinte anos eu sonhava com esta viagem. Durante muito tempo, a Paula e eu a planejávamos e tínhamos trabalhado muito duro para conseguir estar ali, com o barco e o tempo justos para aquela viagem. Logo na nossa saída, tendo ainda mais de trinta dias pela frente, um descuido bobo estava arriscando seriamente a realização desse sonho. Pior: o Mojud já tinha sido vendido e esta era a viagem de despedida, sem chance de um adiamento, pois o novo dono estava ansioso para levar o barco para o estaleiro e promover uma reforma geral, após a qual não teríamos mais direito de usá-lo. Logo comecei a questionar todas as minhas crenças, indagandolhes qual seria o seu senso de justiça para me proporcionar tal infortúnio. A natureza e a localização da dor, faziam supor uma hérnia de disco ou outra lesão do gênero, que me obrigaria a ficar em repouso absoluto. A Paula percebeu meu estado de espírito despencando ladeira Abaixo: pôr-do-sol na Lagoa dos Patos.

12


Esforço em Família

abaixo e logo me despertou desse pesadelo de autopiedade, trazendo-me à luta para uma nova estabilidade emocional. Algumas horas mais tarde, entretanto, era ela quem se deixava abater por um mau humor terrível, acompanhado de TPM, ao constatar que todo o meu serviço de bordo, especialmente o de convés - à noite -, agora lhe caberia. Quando anoiteceu, o convés estava realmente uma bagunça, com cabos emaranhados, redes de pesca, balde, toldos mal dobrados, enfim: um caos. “Tudo bem, amanhã se arruma. Não há vento e nenhuma indicação de que venha a ocorrer qualquer mudança nas próximas doze horas.” - pensei. Puro engano. Pelas dez da noite, o vento rondou para Leste, fazendo o barco girar noventa graus, ficando de proa para a praia. Preocupado com esta nova situação, sugeri à Paula que subisse ao convés e colocasse outra âncora pela popa, fazendo o Mojud retornar à posição inicial, com o costado ao longo da praia, num local fundo, ao lado da areia, sem qualquer risco para o barco em qualquer situação de vento. Com a cara amarrada e resmungando muito, ela subiu ao convés para fazer o que eu havia sugerido. Pelo assobio nos estais e pelo martelar das adriças no mastro, eu percebia que o vento aumentava de intensidade. O barulho da corrente da âncora reserva, arrastada pelo convés, misturando-se aos gritos da Paula dando orientações ao Gabriel em meio ao rugido do vento, eram as peças de um angustiante quebra-cabeças que, deitado em meu beliche, atormentado mais pelo peso da responsabilidade que pelas lancinantes dores na base da coluna, eu tentava montar. Mais alguns minutos e os dois voltaram para dentro da cabine, encharcados com a chuva que, além do vento, também compunha o quadro e a Paula sentenciou, como sempre, enfática: - Vai ficar assim mesmo! Está muito perigoso lá fora e não podemos perder mais ninguém da tripulação. Aquele olhar inconfundível de repreensão não deixava dúvidas quanto a quem ela culpava pela água gelada que escorria pelo seu rosto, enquanto despia o casaco impermeável. Como se aquilo ainda não tivesse sido o suficiente, agora eu a acordava, com o barco encalhado de lado, com tudo inclinado e inclinando cada vez mais. Pior que isso: o leme tinha sido amarrado para 13


500 Milhas de Água Doce

boreste e esse encalhe certamente o estaria enterrando na areia, forçando seu eixo ou podendo até mesmo quebrar, a qualquer momento, e nos deixar sem condições de navegação. Nas emergências, o nosso organismo parece liberar algum tipo de anestésico, talvez da própria adrenalina, que fez com que minhas dores ficassem em segundo plano, ou o anti-inflamatório que eu estava tomando já estava fazendo efeito.O fato é que em alguns segundos eu já estava no cockpit, analisando a situação, enquanto a Paula vestia um agasalho. O vento leste, forte, que agora havia sumido, tinha “enchido” o alagado onde estávamos ancorados, mas, antes de cessar completamente, tinha rondado o suficiente para inverter a nossa posição inicial, colocando-nos agora de lado sobre a parte mais rasa da praia. Tendo o vento parado de soprar, a água começou a voltar para a lagoa e o alagado começava a esvaziar novamente, deixando o Mojud, como um troféu, quase em seco sobre a praia. Conforme a água ia abaixando, o barco ia adernando mais e mais e as nossas chances de desencalhá-lo diminuindo. Apesar do Mojud ser um barco de bolina, com o fundo praticamente chato, a inclinação do barranco da praia o estava colocando numa posição de inclinação acentuada. Minha primeira lembrança foi tentar proteger o leme, pois esse era o maior dano em potencial que o encalhe nos poderia causar num primeiro momento, já que a bolina estava totalmente recolhida. Pedi à Paula que descesse do barco e começasse a cavar na areia dentro da qual o leme já estava mais de um palmo enterrado. O peso do barco sobre o seu eixo ou sobre sua pá poderia danificá-lo a qualquer momento. Chamei o Gabriel, que custou a acordar e, como de costume, levantou resmungando impropérios, mas veio se apresentar ao trabalho. Ele desceu à praia e, junto com a Paula, começaram a tentar empurrar a popa do Mojud na direção da água, enquanto eu abria a retranca a bombordo, lado para o qual ele estava adernado, e me pendurava na ponta da mesma, pendendo o meu corpo para fora do barco, iniciando, assim, um movimento de vaivém, para tentar livrar o encalhe. Com esta movimentação toda, a Valentina, que normalmente tem um sono muito pesado, acordou e veio juntar-se a nós. Chamei o Gabriel para cima do barco a fim de, junto comigo e a 14


Esforço em Família

Valentina, balançarmos o bordo no sentido da água, enquanto a Paula continuava empurrando pelo lado de fora. O Mojud balançava, mas não cedia nem um centímetro, parecendo que o movimento o estava enterrando cada vez mais na areia. O Gabriel desceu mais uma vez para forçar na popa junto com a Paula. Mais esforço, mais balanço, mas nada de progresso. Pedi que o Gabriel e a Valentina pegassem o bote e levassem a âncora principal, de quinze quilos, até esticar o cabo de quarenta metros em direção ao meio do alagado, perpendicularmente à popa do Mojud. Assim, caçando o cabo pela catraca oposta, o barco era adernado ainda mais na direção da água, puxando-o ao mesmo tempo para o desencalhe. A Paula continuava cavando ao redor do leme e eu observava tudo, tentando analisar se estávamos executando a melhor estratégia ou se haveria outra solução melhor. Engasgava-me num sentimento de profunda frustração, por não poder pular para a água e ajudar a empurrar o barco. Talvez a minha força seria o tanto que estivesse faltando para o Mojud ceder na direção da água. Minha coluna estava imprestável e qualquer outra imprudência da minha parte poderia complicar ainda mais a nossa situação. Desaparecendo na escuridão do alagado, o Gabriel remava o bote com a Valentina à popa, usando de todas as suas forças para sustentar a pesada âncora, esticando o cabo que eu segurava. Quando o cabo de âncora chegou ao final, ao meu comando, escutei apenas o barulho da âncora sendo derrubada do bote, enquanto o Gabriel, com medo do escuro, pedia pelo foco da lanterna, que eu alternava entre o trabalho da Paula e o das crianças. Âncora unhada, cabo esticado, eu dava voltas com a manivela e o molinete rangia como se estivesse no seu último esforço. O Gabriel e a Paula continuavam a empurrar pelo lado de fora e a Valentina circulava ao meu redor, querendo ajudar em alguma coisa a mais, mas simplesmente eu não via nada mais que pudesse ser feito. Vendo que todos os nossos esforços estavam sendo infrutíferos e que qualquer acidente, com algum cabo que estourasse, poderia tornar a situação ainda mais dramática, sugeri que abandonássemos o esforço e entrássemos, para aguardar o clarear do dia. - Agora não! - protestou a Paula. - Se esperarmos mais, o nível da água vai abaixar cada vez mais e talvez amanhã seja impossível tirar esse barco daqui. Além do mais, já estou com esse leme quase todo fora 15


500 Milhas de Água Doce

da areia. No mesmo momento, começamos a sentir uma leve brisa, que soprava da praia para dentro do alagado contra o lado de boreste. - Que tal levantarmos a vela grande para usar a força do vento para nos ajudar? - sugeriu a Paula. Realmente, talvez pudesse ser esta a força extra que faltava, em substituição aos meus braços e pernas. Sugestão aceita, pedi que ela subisse a bordo para içar a vela grande, já que eu estava impossibilitado de me mover pelo convés, além do cockpit. Vela em cima, retranca caçada contra o vento, Paula e Gabriel empurrando ao lado da popa, eu caçando mais e mais o cabo da âncora na catraca de boreste e a Valentina torcendo em voz alta para que tudo funcionasse, enquanto pendia seu corpo pela borda para ajudar com os seus trinta e poucos quilos de peso.

16


Esforço em Família

A princípio, nada aconteceu. Passados alguns minutos, a Paula gritou: - Ele está mexendo! Acho que ele mexeu! Acho que vai sair! A alegria foi geral. Com gritos de entusiasmo, utilizamos o resto das nossas forças e vimos o Mojud começar a afastar-se, centímetro a centímetro, com a popa para dentro d'água. Assim que o barco voltou a flutuar novamente, lançamos outra âncora pela proa e entramos para a cabine. Apesar de eufóricas, as crianças não demoraram a dormir. Tentaram ainda, surpreendentemente, pleitear por um banho, mas estávamos exaustos e o pedido não foi atendido. No dia seguinte ficaríamos por ali mesmo, descansando da aventura noturna e observando o desenvolver da minha dor na coluna.

17


CapĂ­tulo II Artes do Comandante


N

ão era a primeira vez que as artes do comandante comprometiam os planos e, o que é pior, a segurança do resto da tripulação. Alguns meses antes, tínhamos feito uma deliciosa velejada até o Porto Barquinho, próximo de Mostardas/RS, onde passamos dias memoráveis, curtindo pescarias, gostosos bate-papos com aperitivos junto com as tripulações dos veleiros Passatempo, do comandante Adriano, e Refúgio, do comandante Rogério Rocca. Logo na nossa chegada, aconteceu um fato curioso. Sem conhecer bem os baixios da boca do canal, encalhamos o Mojud na margem esquerda, próximo aos juncos. Para evitar que o barco fosse jogado mais para a margem, pois o vento nos empurrava nesse sentido, mandei o Gabriel e a Valentina levarem a âncora, de bote, até o outro lado do canal. Assim, puxando o barco pelo cabo de âncora, ele deveria sair do Abaixo: Adriano e Rocca, de bote, atrás das capivaras. Refúgio aportado no Barquinho.

21


500 Milhas de Água Doce

encalhe. A execução não se mostrou tão fácil quanto a idéia, mas depois de uma meia hora de força daqui, puxa de lá, com a ajuda do Rocca e da Bia, que vieram do Refúgio para nos ajudar, conseguimos liberar o Mojud. A âncora, entretanto, negou-se a deixar o fundo do canal, ficando trancada em alguma coisa. Como era a nossa âncora principal, resolvi mergulhar para tentar soltá-la. A profundidade era de dois metros e meio a três metros, com um pouco de correnteza, mas não foi difícil chegar até ela, que estava presa em um tronco de árvore submerso. Quando soltei a âncora e comecei a subir para a superfície, entretanto, comecei a sentir alguma coisa arranhando o meu peito, na medida em que nadava para cima. Pensei que fossem galhos da árvore que prendera a âncora, mas foi grande o susto, de ambos os lados, quando chegamos juntos à superfície: eu e uma grande tartaruga, cara a cara! Não sei quem ficou mais surpreso, mas o fato é que eu pulei para um lado e ela para o outro. Noutro dia, uma incursão de bote, com o Adriano, para ver as famílias de capivaras no seu ambiente natural, foi especialmente estimulante. Dessa vez, sem qualquer contato físico com elas. Tudo corria perfeitamente bem, estávamos tomando “um banho” de ecologia, numa imersão total naquele ambiente cheio de animais silvestres, num dia-a-dia colorido pelas coisas simples da vida a bordo, banho de rio, pôr-do-sol, aves piando ao amanhecer: um paraíso. No dia programado para a volta, resolvemos cruzar a lagoa e pernoitar mais uma vez no Biru, onde tem uma praia ótima para passear e serve de abrigo aos ventos dos quadrantes norte a sudeste. Caso o vento rondasse, poderíamos entrar com o barco em algum dos alagados que formam piscinas dentro da península que corre ao sul da praia do Biru, nos quais os barcos de pouco calado, como o nosso, ficam abrigados para qualquer condição de tempo. Abaixo: Adriano e as capivaras.

22


Artes do Comandante

No dia seguinte, pela manhã, desembarquei a pé, pela popa, e fui até a praia, caminhando pela água rasa. No caminho, vi uma bela cobra verde, reluzente, de quase um metro de comprimento. Acostumado a lidar com cobras, mesmo com as tradicionais venenosas, como as jararacas, corais e jararacuçus, não relutei em pegar aquela cobra verde, com um ataque rápido, pegando-a pelo pescoço e, em seguida, pelo rabo, para levá-la até o barco e mostrar para as crianças. A Valentina logo trouxe a filmadora para registrar o momento. De pé na popa do Mojud, eu segurava a cobra com delicadeza, para não comprometer suas vértebras, enquanto o Gabriel, a Paula e a Valentina experimentavam a textura das escamas e dos movimentos lentos do seu corpo. Relaxado e descuidado, talvez com excesso de auto-confiança, não percebi quando a cobra virou a cabeça e abocanhou a parte lateral do meu dedo indicador da mão direita. Não senti muita dor, mas logo tentei retirar o dedo da sua boca, o que, para minha surpresa, mostrou-se impossível: os dentes da cobra, voltados para dentro, cravavam cada vez mais fundo. Quanto mais eu puxava a mão para fora, mais a boca da cobra se prendia ao meu dedo. O Gabriel divertia-se, às gargalhadas, com a minha situação. - Dá licença, pai! Dá licença! - reclamava a Valentina, enquanto eu me virava de costas, indo em direção ao deck de popa, e, dessa forma, cobrindo com meu corpo as excitantes imagens que ela estava filmando. Só mesmo quando eu coloquei a mão dentro dágua, deixando a cobra totalmente livre, de volta ao seu ambiente, presa apenas pelos seus próprios dentes cravados na minha carne, foi que ela se dignou a abrir a boca e seguir seu rumo, orgulhosa da sua façanha. Logo em seguida, como precaução, fui até o banheiro e lavei o ferimento com bastante água e sabão. A dor aumentava, gradativamente, e o dedo começou a inchar bastante. Peguei o telefone celular e liguei para o serviço de informações toxicológicas para relatar o caso e pedir instruções. - Normalmente, essas cobras verdes, de acordo com a descrição que você nos dá, não são venenosas, mas há registros de casos de acidentes com cobras verdes, especialmente de maior porte, como é o caso, em que houve inoculação de veneno, e as decorrentes reações no organismo das vítimas, semelhantes às das cobras peçonhentas comuns. - Informou o atendente, do outro lado da linha. 23


500 Milhas de Água Doce

- Como devo proceder? - Perguntei. - Você deve ficar em repouso e procurar um hospital o mais rápido possível. - Respondeu. Agradeci a atenção, forneci-lhes o número do nosso telefone, pois eles procuram acompanhar, passo a passo, o desenrolar dos acidentes comunicados, e desliguei. Chamei a Paula e o Gabriel: - Vocês acham que conseguem levar o Mojud de volta até o clube, sozinhos? - Peguntei. A minha mão já estava inchada feito um balão. - Tu não tinha nada que inventar essa história de mexer com cobra! - Recriminou-me a Paula, enfática, deixando claro o quanto reprovava a minha idéia, que agora se mostrava irresponsável. - Claro que conseguimos! - Afirmou , confiante, o Gabriel. - OK. Então eu vou ficar de repouso, deitado aqui dentro da cabine, e vocês levam o barco até o clube. Se precisarem de ajuda na hora de chegar no box, eu assumo. - Falei. Os preparativos habituais para levantar âncora começaram a movimentar o convés acima da minha cabeça, enquanto eu ficava imaginando, e conferindo os ruídos, se eles não estavam esquecendo de nada. Ligaram o motor, recolheram a âncora e partimos. O percurso entre a praia do Biru e o Clube Náutico Tapense tem aproximadamente treze milhas náuticas, ou cerca de vinte e quatro quilômetros. Se considerássemos a velocidade do motor, em torno de cinco nós, ou seja, cinco milhas por hora, em três horas estaríamos chegando a Tapes, e ao hospital. Abaixo: Trazendo a cobra a bordo. A mordida no dedo do comandante, para o divertimento do Gabriel.

24


Artes do Comandante

Este raciocínio estaria certo se não houvesse vento contrário. Na rota do Biru até Tapes, teríamos de navegar cerca de cinco milhas na direção noroeste, mais seis milhas na direção norte e, finalmente, mais duas milhas na direção oeste, por dentro do canal dragado que conduz até o clube. Os minutos se passavam lentamente e meu braço começava a inchar. Na medida em que saíamos do abrigo do mato, junto da praia, o vento começava a agir sobre o barco, com seus assobios característicos e a ondas a bater no costado, iniciando uma sinfonia que já me era familiar, mas naquela situação tomava outros tons. A parte mais difícil da navegada começaria assim que vencêssemos a baliza que marca o final do banco de areia que fecha o chamado Saco de Tapes, pois então teríamos de navegar praticamente contra o Nordestão, que há horas soprava acima dos vinte nós, e as ondas, que já estavam de bom tamanho. Deitado no beliche, acompanhava, com expectativa, a chegada ao final do banco, quando a Paula mudou de rumo e o barco começou a caturrar violentamente contra as ondas. O Mojud é um barco grande para ter um motor de popa, pois a hélice fica muito para trás do barco. Navegando sobre ondas, especialmente em sentido contrário, sempre que a proa mergulha nos cavados, a popa é lançada para cima e, com isso, a hélice fica totalmente fora dágua, perdendo a resistência da água e fazendo disparar a aceleração do motor. Além disso, a hélice fora dágua pára de empurrar o barco justamente no momento em que a proa recebe pela frente uma nova onda. Como resultado, o seguimento do barco é interrompido, só voltando ao movimento após um novo mergulho da hélice - desta vez Abaixo: Colocando a mão, com a cobra mordendo, dentro dágua. Os furos dos dentes da cobra e o que não se deve fazer: chupar a mordida.

25


500 Milhas de Água Doce

mergulhando quase todo o motor junto - dentro dágua. Não foi preciso muito tempo para perceber que o barco não estava avançando a motor contra as ondas e o vento. Chamei a Paula e sugeri que abrissem um pouco da vela grande, para auxiliar o motor e ganhar mais velocidade. Abrir a vela de proa seria mais arriscado, pois, com a força do vento, qualquer descuido poderia fazer com que ela se desenrolasse inteira, provocando uma situação caótica no convés, com vela e cabos chicoteando para todos os lados. Um risco sério de acidentes mais graves. O Mojud não dispõe de amantilho, que é um cabo que vem do tope do mastro até a ponta da retranca, para evitar que a mesma despenque sobre o convés. Sempre usamos a própria adriça da vela grande, com seu gancho de engate rápido para sustentar a retranca, quando ela está sem a vela armada. Assim, para que se execute a tarefa de içar a vela grande, é preciso que um tripulante segure a ponta da retranca no ombro, retire o gancho da adriça e alcance para o outro tripulante que a levará até junto ao mastro, onde engatará na manilha presa ao olhal da vela e a içará, puxando a outra ponta da adriça que se encontra em um moitão no pé do mastro. Não é uma tarefa muito difícil de ser executada por dois adultos, com o barco estável. As condições em que estávamos, entretanto, com o barco balançando violentamente para todos os lados, com o barulho do vento e os chuviscos constantes das ondas que quebravam contra o costado eram muito duras, até mesmo para dois tripulantes adultos e acostumados à tarefa. A Paula, que já estava acostumada à tarefa, foi até o pé do mastro, para a a função de içar a vela, enquanto o Gabriel sustentava a retranca no ombro e controlava o leme, o que, normalmente, era minha função. Valentina estava abrigada, comigo, na cabine, espiando pela gaiúta e tentando me descrever o que estava acontecendo. No meio do barulho incessante do vento assobiando no estaiamento e das ondas chocando-se contra o casco, eu tentava decifrar o que a Paula e o Gabriel gritavam um com o outro sobre o convés. No meio da operação de içamento da vela grande, quando o Gabriel conseguiu soltar o gancho da adriça da ponta da retranca e tentava alcançá-la para a Paula, o vento arrancou o cabo das suas mãos e a adriça voou livre para o ar, para longe de seu alcance. Saindo do topo do mastro, aquele cabo de mais de dez metros de comprimento, com um gancho metálico na ponta, voava loucamente pelo ar, tal qual o chicote de 26


Artes do Comandante

um boiadeiro. Conforme o barco rodava sobre o próprio eixo, sem que o Gabriel conseguisse mantê-lo alinhado ao vento, aquela adriça voadora cruzava o convés, ameaçadora, de um lado para outro. Percebendo que não mais conseguiria içar a vela grande, a Paula voltou para o cockpit e soltou a retranca sobre o convés, antes que fosse atingida pelo gancho que parecia querer sortear uma vítima para agravar ainda mais a situação. Restava agora apenas a vela de proa, como último recurso para auxiliar o motor a nos empurrar para a frente, pois da forma como estávamos progredindo, sendo arrastados pelo vento na direção dos baixios desertos ao sul de Tapes, o encalhe seria apenas uma questão de minutos. A Paula resolveu correr o risco e abrir um pouco da vela de proa, desenrolando-a não mais de dois metros. Amarrou bem o cabo do enrolador para garantir que ele não se soltasse inadvertidamente, o que abriria toda a vela numa fração de segundo. Agora, além de caturrar improdutivamente contra as ondas, o Mojud adernava perigosamente, transformando o convés numa zona de risco. Mais alguns minutos se passaram e o único deslocamento que estávamos obtendo era em direção à praia, a sotavento. Com isso, a profundidade ia diminuindo e as ondas aumentando em altura. Num determinado momento, o Mojud mergulhou profundamente a proa contra uma onda mais alta e a água invadiu o barco, como uma cascata pela gaiúta de proa, que estava com a fechadura defeituosa. Uma nova onda, nova caturrada violenta, mais um balde dágua para dentro da cabine. A situação estava ficando cada vez mais perigosa. Eu não poderia submeter minha tripulação - minha família - a essa situação angustiante por muito mais tempo. Deixei o beliche e subi ao convés. Estava realmente impossível seguir para Tapes com o Mojud, contra o vento e as ondas. Assumi o leme e mudei de rumo, voltando na direção da praia do Biru. Não podia colocar toda a minha família em risco dessa forma. A outra opção seria seguir para Arambaré, cerca de vinte e cinco milhas, com vento em popa e través, mas eu não conhecia a região e poderia piorar ainda mais a situação. Decidi voltar para o abrigo da praia e contatar o clube, via rádio, 27


500 Milhas de Água Doce

para ver da possibilidade de ser socorrido por um barco maior, com motor de centro, que pudesse navegar contra aquelas ondas. Colocando o Mojud no rumo da praia, agora navegando razoavelmente, entreguei o comando para o Gabriel e fui me deitar novamente. Quando chegamos no abrigo do mato e a Paula e o Gabriel ancoraram o Mojud, eu já começava a sentir uma dor localizada abaixo da axila no braço direito. Era sinal de que o veneno estava subindo pelo braço e o corpo estava lutando contra as toxinas. Chamei o Clube Náutico Tapense pelo rádio VHF, fiz um relato da situação a bordo e perguntei sobre a possibilidade de um barco maior vir me socorrer nas próximas horas. - Vamos verificar a disponibilidade de um barco e voltamos a fazer contato. Aguarde na escuta, no canal 16. Câmbio. - Foi a resposta. Alguns minutos mais tarde, apareceu um veleiro, vindo do sul. Chegou até o abrigo das ondas, cerca de cinqüenta metros da praia e ancorou, a uns cem metros de distância de nós. Era um barco maior do que o nosso, com motor de centro. Certamente, teria melhores condições de enfrentar o percurso até Tapes. Aquilo me tranqüilizou. Fiz contato com eles, via rádio, e expliquei a situação. Eu disse que pretendia passar a noite ali, aguardando uma melhora no tempo para ir a Tapes. Perguntei se eles poderiam me prestar socorro, caso o meu estado piorasse nas próximas horas. - Claro que sim! Prontamente! - Respondeu o comandante. Deixarei o rádio ligado no canal 16 toda a noite. - Acho que não será preciso, mas, de qualquer modo é tranqüilizante poder contar com os amigos. Muito grato. Ficarei com o rádio ligado, na escuta. Boa noite. - Veleiro Mojud! Veleiro Mojud! Clube Náutico Tapense. - Era o pessoal do clube chamando. - Sim, Clube Náutico Tapense. Aqui Mojud, pode falar. Respondi. - Conseguimos um barco grande, com motor de centro, de um dos sócios do clube e o marinheiro Baiano está pronto para sair. Informaram. Fiquei satisfeito com a presteza no atendimento ao meu pedido, 28


Artes do Comandante

mas, com a opção de socorro dos nossos novos vizinhos, agradeci e dispensei a ajuda do clube. - Pense bem. Se você quiser, o barco pode ir agora mesmo, enquanto ainda há luz do dia. À noite vai ser mais difícil. - Insistiram. Agradeci mais uma vez, mas recusei o auxílio. Talvez não desse em nada, afinal era apenas uma cobra verde. À noite, sentia dores e um pouco de tontura. Quando a Paula veio deitar, por via das dúvidas, me despedi dela. Se a situação se agravasse durante a noite, não sabia em que condições - ou se - acordaria. Talvez pudesse ter convulsões, inconsciência, emorragia. Tudo me passava pela cabeça, mas já não podia fazer mais nada a não ser esperar. Amanheceu sem vento. Agradeci por poder ver o sol nascer mais uma vez, agradeci aos nossos vizinhos pelo apoio e rumamos para Tapes. Lá chegando, fui ao hospital, fiz exames, tomei injeções de prevenção contra Tétano, mais alguns remédios e estava novo em folha. Passado o susto, prometi para a Paula que jamais voltaria a mexer com cobras.

29


Capítulo III Aulas de Comércio


E

stávamos prontos a zarpar do Cristóvão Pereira rumo ao Bojuru, às 6 da manhã. O sol começava a tingir o céu com seus tons rosados, eu ligava o motor, para ir aquecendo, enquanto a Paula fazia as arrumações finais e começava a recolher a âncora. As crianças dormiam. Havia um barco de pesca, que tinha passado a noite no mesmo local, e manobrava para sair. Ele cruzaria o nosso cabo de âncora. Acenei para o pescador, cumprimentando-o, e ele veio cruzar por nosso bombordo. O horizonte estava carregado, com algumas nuvens pesadas no sudoeste - lado para o qual pretendíamos sair. Sinalizei, com gestos, nossa intenção de rumo e, apontando para o céu e para o horizonte, indaguei a opinião do pescador, que devia ser conhecedor da região. - Acho que não é um bom negócio! - Gritou o pescador. Ele sabia que seria uma travessia de seis a oito horas, sem qualquer abrigo pelo caminho. Estava prevista a entrada de uma frente fria de sudoeste e poderíamos ser apanhados no meio do caminho. Nas minhas decisões, procuro privilegiar sempre a prudência, pois as conseqüências de uma decisão afoita podem ser muito desagradáveis. Resolvemos, então, passar mais um dia no fundeadouro, ao lado do barco de pesca “Jaca Custou”, pois quem se atreveria a contrariar opinião de tão ilustre origem? À tarde, para distrair a tripulação, propus uma partida de Canastra, de duplas, depois das tarefas domésticas e dos estudos das 33


500 Milhas de Água Doce

crianças. Valentina adorou a idéia, mas o Gabriel logo protestou, dizendo que não iria mais fazer só as coisas que os outros gostam. Disse que iria ficar jogando seu videogame a tarde toda e que ninguém nem nada o tiraria desse seu interesse pessoal. Frustrada com a perspectiva de não ter mais a partida de Canastra, Valentina começou a chorar e a criar o maior caso, dizendo que o videogame era dela e então não o deixaria jogar. Para distrair a tripulação, acabei criando uma confusão que agora tinha que desatar. A solução estaria em descobrir algo que para o Gabriel fosse mais tentador que sua tarde de videogame, mas que, para consegui-lo, ele dependesse da Valentina. Dessa forma, ela teria melhores condições de “negociar” sua partida de Canastra. O Gabriel tem duas fraquezas: um bom almoço - que não seja vegetariano - e a timidez para falar com pessoas estranhas, terreno no qual a Valentina é mais desenvolta. Dei, então, uma nova idéia: irem até o “Jaca Custou” e oferecerem duas latinhas de cerveja gelada, que eu agora estava impossibilitado de consumir, em troca de uma tainha para o assado do almoço. A saliva brotou de imediato na boca do Gabriel, que já tinha a barriga roncando de fome, a ponto de já ter até tomado a iniciativa de começar a preparar o almoço. Ante todas as negativas, minhas e da Paula, de irmos até os pescadores para propor a troca, o Gabriel acabou se resignando e se submetendo, como era previsível, a uma “negociação” incondicional com a Valentina: não apenas concordou com o jogo de Canastra, como assumiu, para fazer sozinho, todas as tarefas domésticas que, diariamente, dividia com a irmã. Tudo isso para que ela fosse, sozinha, remando até o barco dos pescadores para propor a troca. Percebendo uma boa oportunidade de fazê-lo vencer a timidez, coloquei como condição que ele fosse junto, para remar e pegar o peixe. Mesmo sem ter a incumbência de falar com os pescadores, o Gabriel ainda hesitou por mais de trinta minutos, antes de sucumbir ao desejo de saborear uma tainha assada no almoço. Finalmente, partiram os dois, rumo a sua primeira experiência de “comércio náutico”. Com fome, expectativas de um belo assado, uma sacola com duas latinhas de cerveja, mais um balde para trazer o 34


Aulas de Comércio

almejado peixe, partiram remando para abordar o barco pesqueiro. Lá chegando, entretanto, o Gabriel percebeu que, sendo o mais velho, seria muito mais embaraçoso se ele ficasse quieto e tremendo de vergonha, enquanto sua irmã caçula tomasse a iniciativa das negociações. Assim, antes que a Valentina abrisse a boca, ele mesmo se antecipou dizendo: - Opa! Não querem trocar um peixe por duas latinhas de cerveja? Eles disseram que só tinham duas tainhas. Ainda assim, colocaram-nas no balde das crianças e deram ainda mais três traíras de bom tamanho. Queriam até oferecer mais, porém a Valentina recusou, agradecendo muito e dizendo que já era o suficiente. Chegaram de volta excitados, felizes com a façanha e com quase três quilos de peixe. O Gabriel teve a sua tainha assada para o almoço e a Valentina pode vencê-lo, mais tarde, na partida de Canastra. Mais um dia se passou e estou arrependido por não ter ido hoje para o Bojuru. Já estamos há três dias ancorados no alagado do Cristóvão Pereira e já abortamos duas saídas. Hoje, chegamos a navegar mais de uma hora, até dobrar a bóia que demarca o final do banco do Cristóvão Pereira. Quando dobramos a bóia e levantamos a vela para pegar o fraco vento norte pela popa, divisei uma barra cinza a umas dez milhas à frente, que ia de um lado a outro do horizonte. Isso, somado ao vento norte, que não é bom presságio, fez-me desistir mais uma vez e voltar para o abrigo, sob protestos do Gabriel, Abaixo: Gabriel preparando para baixar âncora no abrigo do Cristóvão Pereira; Valentina e Gabriel indo negociar com Jaca Custou, e, à direita, as tainhas na mesa.

35


500 Milhas de Água Doce

que fechou a cara e ficou emburrado por mais de uma hora. Acho que a parte mais difícil no comando de um barco é a tomada de decisões. O resto depende apenas de técnica, treinamento, preparo físico, espírito esportivo, etc. Tomar decisões como a de sair para uma travessia mais longa, sem nenhum ponto de refúgio no caminho é que pode ser o fator decisivo entre um bom programa e um dia de angústias, medos, riscos, etc. A Valentina não se importa. Parece que ela compreende melhor a hierarquia a bordo e se submete com mais resignação, apesar de muitas vezes eu sentir que ela não entende as minhas decisões. Especialmente quando adio uma travessia. Ela não parece sentir medo do que pode vir a acontecer. É como se o futuro, para ela, fosse um território insondável e, portanto, pra que se preocupar com ele. Talvez seja a pouca idade... ou sabedoria nata. Já as minhas decisões são tomadas com base em vários aspectos, que vão desde os meus poucos conhecimentos de meteorologia até o nível de disposição que me encontro no momento, para enfrentar eventuais dificuldades na navegação. Até porque, em caso de ter de encarar uma tempestade pela frente, o mais provável é que o resto da tripulação vá para a segurança do interior da cabine e eu tenha de assumir sozinho o manejo do barco. De qualquer forma, para poder avaliar uma decisão, só mesmo esperando que o tempo passe para constatar o que o futuro nos reservou.

36


Capítulo IV O Banco Cristóvão Pereira


A

quela barra de nuvens, e o vento norte, no transcorrer do dia, apresentou-se como sendo nada de muito sério, mas acabamos perdendo mais um dia de saída. Ou, ganhando mais um dia no Cristóvão Pereira, que é um lugar belíssimo! No dia seguinte, finalmente, veio o “Rebojo”: um vento de sudoeste, forte, entre 25 e 30 nós, bem da direção para a qual tínhamos de ir. Inviável prosseguir a viajem. Ao longe, na lagoa, fora do abrigo, víamos ondas de mais de dois metros de altura, deslocarem-se numa velocidade impressionante no rumo nordeste. Seria impossível enfrentá-las com o nosso barco, com pouco peso e motor de popa. À vela, nem pensar, pois seriam horas e mais horas de bordos molhados e desgastantes e submetendo o Mojud a um risco de quebra desnecessário. Abaixo: Do abrigo do mato de pinus, com o zoom da câmera, dava para ver as ondas viajando para nordeste, a mais de duas milhas de onde estávamos.

39


500 Milhas de Água Doce

Resolvemos mudar de ancoradouro e saímos do alagado do Cristóvão Pereira, indo ancorar bem junto à praia, onde um mato alto de pínus protege dos ventos dos quadrantes sul, sudoeste e sudeste. Para que o Mojud não ficasse muito pesado, visando um melhor rendimento, eu havia pedido à Paula que não exagerasse nas provisões, pois em poucos dias estaríamos em São Lourenço do Sul, onde poderíamos abastecer novamente. Com o subseqüente adiamento da nossa saída, dia após dia, as nossas provisões começaram a escassear. Na sexta-feira, as crianças tinham cavado um enorme buraco na areia da praia e prepararam uma fogueira. Como estava ficando tarde e muito frio, a Paula as convenceu a deixar para acender o fogo no dia seguinte, quando compraríamos mais peixe do “Jaca Custou” para assar na fogueira, pois a previsão do vento contrário era para mais três dias. No sábado, conforme o combinado, Paula e eu pegamos o bote inflável e fomos a remo, por meia milha, até o local onde os pescadores estavam fundeados, tendo recém retornado da lagoa, com suas redes e espinhéis. Como já tínhamos dividido alguns pastéis com eles, no dia anterior, eles se recusaram a receber o pagamento por três belas tainhas, que nos deram com satisfação: estava garantido o assado na praia. Perguntei a eles sobre o vento e o estado da lagoa “lá fora”, e eles disseram que já estava bem mais calmo. Apesar de continuar soprando, o Sudoeste estava mais fraco e as ondas tinham diminuído muito de tamanho. Na remada de volta para o Mojud, a Paula e eu decidimos zarpar imediatamente, apesar de já serem quase dez horas da manhã e que tal Abaixo: Descartando o resto do macarrão do almoço, Paula se diverte alimentando os lambaris da Lagoa dos Patos - verdadeiras piranhas em miniatura.

40


O Banco Cristóvão Pereira

travessia nos levaria a chegar à noite no abrigo do Bojuru, 30 milhas ao sul. O Gabriel protestou, mais uma vez. Agora eles estavam prontos para fazer o assado das tainhas na fogueira, que tanto trabalho lhes dera no dia anterior, mas ante às promessas da Paula de fazer o assado na próxima parada, ele se rendeu e partimos. O Farol Cristóvão Pereira situa-se na base de um banco que avança duas milhas e meia no sentido do meio da Lagoa dos Patos, na direção norte. Eu tinha aproveitado nossas “férias forçadas” em seu abrigo para sondar uma passagem que permitisse ao Mojud cruzar o banco, logo na sua base, pois há pequenos canaletes, com profundidades de quase um metro, nos quais poderíamos passar, com a bolina e o leme levantados. Dois dias antes, eu tinha feito esse percurso a pé e não teria dificuldade em achar o mesmo trajeto navegando. Assim fizemos. Levantamos o leme e a bolina e contornamos o farol, a menos de vinte metros de distância rumando em direção da passagem sobre o banco. Ainda ventava sudoeste, agora com 10 a 15 nós, e dava para perceber a extensão do banco de areia, por meio das ondas que quebravam a barlavento, milhas para para dentro da lagoa. Na passagem que eu supunha existir, quebravam menos ondas, o que era um indício de maior profundidade. Navegávamos com pouco mais de meia aceleração, contra o vento e as ondas e estávamos quase chegando à parte mais rasa do banco, quando deparamos com as bóias de uma rede, cruzando a nossa frente, a Abaixo: Passando rente ao farol Cristóvão Pereira, para atalhar o caminho por sobre o banco. Pouco depois, encontraríamos uma rede cruzando o nosso caminho.

41


500 Milhas de Água Doce

menos de 20 metros da proa.

Imediatamente, reverti o curso do motor, dando marcha à ré, para travar o barco. A rede se estendia a perder de vista, desde a praia, ao longo do banco, na direção do meio da lagoa. De nada adiantaria todo o trabalho de sondagens que eu havia feito, se tivéssemos que voltar ao farol e contornar novamente o banco. Além disso, aumentaria em mais duas horas o tempo estimado para a travessia e, com isso, o risco, pois à tarde o vento geralmente aumenta de intensidade e estava soprando no sentido oposto ao qual pretendíamos rumar. Se voltasse a soprar forte como no dia anterior, mesmo que já tivéssemos avançado mais da metade do caminho, teríamos de retornar, pois seria impossível navegar contra as ondas. Teríamos que voltar para o abrigo do Cristóvão Pereira. Pedi à Paula que soltasse a âncora e pulei na água para verificar a profundidade e a possibilidade de passar sobre a rede. Antes disso, caminhei até a parte mais rasa do banco, uns duzentos metros à frente, onde quebravam as ondas, para confirmar se 42


O Banco Cristóvão Pereira

havia mesmo alguma passagem, pois tinha arrebentações ao longo de toda a testa do banco. Partes mais rasas, na altura do meu joelho e partes mais profundas, pela minha cintura, mesclavam-se formando um labirinto difícil de configurar. Voltei até o Mojud, do outro lado da rede, e pedi que o Gabriel me passasse um cabo pela proa, para que eu tentasse puxar o barco avante, por cima dela. Tal qual um cavalo xucro, que se tenta subjugar pelo cabresto, o Mojud corcoveava sobre as ondas logo atrás de mim. Passei caminhando sobre a rede, usando toda a força que dispunha, cravando os dedos dos pés no fundo de areia e inclinando o corpo para frente, para não ser arrastado pelo barco, que se recusava a me obedecer, sofrendo o embate das ondas e do vento. Centímetro a centímetro, ia ganhando terreno. A bordo, a Paula tentava ajudar, empurrando com uma vara de bambu, mas obtinha pouco resultado, pois o Mojud corcoveava demais, dificultando uma pressão constante sobre a vara. O barco, aos poucos, foi passando por sobre a rede, mas quando esta chegou ao leme, travou completamente o seguimento. Foi a vez da Valentina assumir o leme, para que o Gabriel pudesse tentar soltar a rede do leme, com a ajuda do croque. Enquanto isso, eu a Paula tentávamos manter o barco alinhado ao vento para que não fossemos jogados de volta ao percurso tão duramente conquistado. Livre da rede, voltei ao trabalho de puxar o Mojud por sobre o banco, a passos curtos e lentos, na direção onde eu supunha estar a passagem. Logo que passei da rebentação, entretanto, o Mojud, que estava mais atrás, começou a sofrer todo o embate das ondas, enquanto, onde eu estava, a profundidade começava a aumentar rapidamente, tirando-me as condições de continuar puxando da mesma forma. Gritei para o Gabriel ligar o motor e arrancar com o barco sobre as ondas. O motor pegou e o Mojud ganhou um avanço rápido para frente. No uso das minhas últimas forças, icei-me para fora d'água, pelo cabo com o qual estava puxando o barco, até alcançar a estrutura do guarda-mancebo, numa manobra difícil, com a correnteza do deslocamento do barco segurando o meu corpo dentro d'água e quase dois metros de proa acima para escalar. 43


500 Milhas de Água Doce

Uma vez a bordo, e vendo o Mojud deixar o banco e a arrebentação na sua esteira, lembrei das minhas dores na coluna, que quase me haviam paralisado uma semana atrás. Depois de todo aquele esforço, com o corpo molhado, castigado pelo vento, numa sensação térmica entre 12 e 15 graus centígrados, não senti mais nada. “Thanks God!”

44


CapĂ­tulo V Ilha do Vitoriano


O

vento sul continuava soprando a 15 nós, bem na nossa cara. Era ruim para o barco, pois ficava subindo e caindo sobre as ondas. Ruim também para o desempenho, pois o motor de popa, quando a proa afundava, ficava fora d'água bem no momento em que outra onda pela proa trancava o barco. Não dando para fazer um rumo direto para o Bojuru, guinamos 30 graus para bombordo. Assim, pegávamos o vento pela bochecha de boreste e conseguíamos negociar melhor as ondas. Depois de duas horas navegando nesse rumo, que estava nos levando cada vez mais próximo da praia, resolvi mudar para sudoeste. Dessa forma, se o vento continuasse a aumentar, teríamos mais lazeira, mais espaço entre o nosso rumo e a praia, onde um encalhe a favor do vento era totalmente indesejado. Plotando nossa posição na carta náutica, a cada meia hora, para não perder o controle da navegação, marquei um ponto 12 milhas à frente, à sudoeste, desde o qual, caso desse pane no motor, pudéssemos chegar à vela, num só bordo de orça, até o abrigo do Bojuru. Assim que tracei a linha da direção do vento e esse ponto imaginário sobre a carta, percebi que ele ficava eqüidistante entre o Bojuru, na margem Leste, e a Ilha do Vitoriano, na seqüência do mesmo rumo que já estávamos fazendo, onde também poderia vir a ser uma boa opção de pernoite. Quando chegamos ao tal ponto, decidi fazer a opção pela Ilha do Vitoriano, pois o rumo em que navegávamos já estava sendo bem

47


500 Milhas de Água Doce

assimilado pelo barco e pela tripulação e, sendo para nós desconhecida, seria um atrativo a mais para determiná-la como próximo destino. Apesar do vento ter dado uma pequena rondada para sudoeste, pudemos abrir velas e desligar o motor, mantendo o rumo direto para a Ilha do Vitoriano. A Lagoa dos Patos é bem larga nesse ponto, de modo que navegamos um bom tempo sem ver qualquer sinal de terra em qualquer dos quadrantes. O GPS acusava o pôr-do-sol para as 17:38hs e, pela velocidade que estávamos avançando, chegaríamos à ilha meia hora mais tarde, ainda com um pouco de luz para procurar um bom abrigo. Ao entardecer, o vento foi acalmando, alisando as ondas e o sol escondeu-se, definitivamente, por trás de algumas nuvens no horizonte, além da Ilha do Vitoriano, que agora já era visível. Conforme o sol foi descendo, começou a tingir as nuvens em tons de laranja e vermelho, que refletiam nas águas à nossa frente em tons de um dourado impressionante. Para oeste, o céu e a lagoa fundiam-se em tons de cinza e azul e a leste, de laranja, vermelho e dourado: uma cena digna de uma pintura surrealista. A pouco menos de uma milha de distância da ilha, percebi a silhueta de um barco de pesca que navegava próximo da costa e, subitamente, desapareceu atrás da vegetação. Isso só podia ter uma explicação: devia haver um abrigo alagado no interior da ilha. Rumei naquela direção. Lá chegando, vi que havia, realmente, uma lagoa interna, porém o local por onde a canoa tinha passado era como uma barragem rasa de areia, com dois pontos onde a água passava, quase cascateando, para dentro. O da esquerda, com pouco mais de três Abaixo: Gabriel recolhendo a vela grande, na chegada à Ilha do Vitoriano, antes do anoitecer.

48


Ilha do Vitoriano

metros de largura, não me parecia confiável. O da direita era mais largo e, possivelmente, teria profundidade para o Mojud passar. Rumamos para ele. A uns dez metros da entrada do alagado, encalhamos. Vesti um calção e pulei n'água, passando o comando do barco para o Gabriel e fui sondar a profundidade do passe. Em toda a sua extensão, a água não ficava muito acima dos meus joelhos e, certamente, em alguns pontos, menos de meio metro de água. Pedi à Paula que me passasse um cabo pela proa e que todos desembarcassem, para aliviar o peso e conseguir, assim, a máxima flutuabilidade. Lá de dentro do alagado, os pescadores gritavam qualquer coisa. Eu apenas escutava suas vozes, pois já estava escuro, mas não conseguia entender. Enquanto eu puxava o Mojud, arrastando seu casco sobre a areia do fundo, para dentro do alagado, percebi que os pescadores vinham na nossa direção, remando em uma pequena canoa. Quando passamos pela entrada e a profundidade aumentou para um metro e vinte, começando também o fundo lodoso, ligamos o motor e fomos procurar um local para ancorar, mais no meio do alagado. Nesse momento, chegou a canoa dos pescadores, um tanto incrédulos pelo fato de termos passado por uma entrada tão rasa, nos informando que o acesso para o alagado era pelo outro lado da ilha, com quase dois metros de profundidade. Isso explicava o fato de ter uma embarcação de pesca de médio porte, cabinada, fundeada dentro do alagado. Por fim, sem vento, e ancorados dentro de um abrigo perfeito Abaixo: Surpresos com nossa entrada por uma passagem tão rasa, ao anoitecer, dois pescadores vieram até o Mojud para oferecer ajuda. É bom ter sempre cachaça e chocolate a bordo, para essas ocasiões.

49


500 Milhas de Água Doce

para ventos de qualquer direção, buscamos o aconchego e o calor no interior da cabine, para fazer a janta, nosso costumeiro jogo de cartas e ir dormir. Meus músculos dos braços e das pernas estavam moídos, por ter rebocado o Mojud tanto na saída quanto na chegada. Acho que o “esporte da vela” é ainda mais um esporte quando se trata de um veleiro oceânico, com bolina, que pode ser conduzido à vela, a motor ou a cabresto.

Lagoa dos Patos

Ilha do Vitoriano

Ilha do Vitoriano Banco do Vitoriano

50


Capítulo VI São Lourenço do Sul


O dia amanheceu frio e ainda sem vento, na Ilha do Vitoriano. Às seis horas, ouvi o motor do barco de pesca sendo acionado e me espichei para fora da gaiúta para conferir o trajeto que ele faria para sair do alagado, pela tal parte mais profunda da qual tinham me informado. O barco saiu na direção da costa, contornando toda a ilha pelo norte e leste e, finalmente, cruzou o Banco do Vitoriano, bem na base, entre a ponta da ilha e os areais que emergiam alguns centímetros sobre a superfície. Tomamos café, arrumamos o convés e partimos rumo a São Lourenço do Sul. Contornamos a ilha, marcando os pontos no GPS, e cruzamos sobre o banco, a uma profundidade de pouco mais de um metro. Logo começou a soprar um vento leste fraco e aproveitamos para abrir as velas em asa-de-pombo, com a vela grande a bombordo e a buja a boreste, sustentada pelo “pau de spinaker”. Rumando no sentido sudoeste, para São Lourenço, tínhamos ainda outro banco que se estende mais de oito milhas náuticas, cortando transversalmente a Lagoa dos Patos e o nosso caminho. A Lagoa dos Patos é muito respeitada - e até temida - pelos navegadores gaúchos. Três motivos contribuem para isso: os inúmeros bancos de areia que a cortam transversalmente, em alguns casos a mais de dois terços da sua própria largura, os ventos fortes e as ondas muito cavadas, formadas por esses ventos, em função da pouca profundidade 53


500 Milhas de Água Doce

da lagoa entre cinco e sete metros. Assim, qualquer erro de navegação ou vento muito forte agindo sobre a embarcação pode provocar o encalhe sobre esses bancos, onde quebram ondas de até mais de dois metros de altura numa distância de mais de 20 quilômetros da terra, em alguns casos. Essas condições podem resultar em destruição da embarcação e na inclusão de alguns nomes a mais na extensa lista de fatalidades registradas nessas águas. Assim, a próxima decisão a tomar seria: passar pela base do Banco do Quilombo, em algum passe, ou contorná-lo, num percurso de mais de 16 milhas náuticas, ou mais de 30 quilômetros. Alguns pescadores, na Ilha do Vitoriano, haviam me falado de uma estaca sobre o banco do Quilombo, que indicava um passe mais profundo. Minha dúvida era: como encontrar tal estaca, numa extensão de banco tão grande? Às vezes, tais estacas não são mais que simples bambus enterrados na areia. Além disso, estávamos nos aproximando do banco com vento em popa, o que não é indicado, pois, em caso de encalhe, o vento agravaria ainda mais a situação.

Ilha do Vitoriano

Banco do Vitoriano

São Lourenço

Banco do Quilombo

Resolvi rumar para a base do banco, no ponto onde ele sai de terra para, a partir daí, segui-lo longitudinalmente, procurando a tal estaca. Quando estávamos a menos de uma milha de terra, avistei um barco de pescadores que também se dirigia para o banco. Rumamos na direção dele e, ao encontrá-los, perguntei sobre a tal passagem. Eles 54


São Lourenço do Sul

disseram que era além do areal que estava à vista, mas, se o nosso barco tinha pouco calado, poderíamos segui-los, pois eles também estavam no rumo de São Lourenço do Sul e passariam sobre uma área menos rasa, na base do banco. Assim o fizemos. Mesmo com vento em popa, abaixamos as velas e fomos a motor, seguindo o barco dos pescadores. Durante mais de meia hora, navegamos sobre profundidades inferiores a um metro, mas, finalmente, conseguimos nos livrar do banco. Agradecemos aos amigos e fomos adiante. A entrada da barra do Rio São Lourenço possui um canal dragado, muito bem sinalizado. Saindo da lagoa e entrando no rio, entretanto, a situação é outra. O rio faz um “s” logo na entrada e esconde pedras submersas em uma das curvas e um banco na outra. Não há qualquer sinalização que marque os limites das pedras submersas e do tal banco. Para quem já conhece, é fácil, mas a carta náutica não faz qualquer referência a tais obstáculos, que são riscos de encalhe e até de naufrágio. São Lourenço do Sul é uma referência regional em termos de navegação à vela, especialmente se considerarmos que nos séculos XIX e início do século XX foi um dos mais importantes centros de navegação comercial do Sul do Brasil, na época em que tal transporte era feito basicamente por veleiros. Logo após contornarmos o “S” da desembocadura do Rio São Lourenço, na Lagoa dos Patos, deparamos com o trapiche do Iate Clube, na margem direita, onde uma pequena placa voltada para o lado do rio informava que visitantes deveriam procurar espaços com marcas amarelas. Assim, não se corre o risco de, inadvertidamente, chegando de uma travessia, ocupar o box de algum sócio do clube que, ao voltar de um Abaixo: A melhor opção para cortar caminho sobre os bancos é pedir informações aos pescadores.

55


500 Milhas de Água Doce

passeio, encontraria um “intruso” ocupando sua vaga. Passamos pela popa de mais de vinte barcos e, ao final, encontramos as tais marcas amarelas, onde aportamos o Mojud, prendendo nossas amarras. Com a proa contra o trapiche do iate clube, na margem direita, escutávamos o som de alto-falantes bem a nossa frente: era domingo e estava acontecendo um festival de coros de colégios adventistas, num enorme salão ao lado do clube; pela popa, o cheiro forte de peixe, vindo da outra margem do rio, da fábrica da Japesca, que recebe o produto da pesca dos pescadores de São Lourenço do Sul, beneficia e comercializa. Barulho, cheiro de porto pesqueiro: logo estaríamos acostumados com isso, mas naquele momento era impactante, pois vínhamos de dez dias de ancoradouros silenciosos, longe da civilização. Fui até a secretaria registrar a entrada do Mojud e perguntar se havia algum restaurante, bar ou supermercado nesta margem direita do rio: “Não há nada. Nesta época do ano, só lá do outro lado. Há uns barcos que cobram cinqüenta centavos para fazer a travessia”. Soava até cômico aos meus ouvidos, após tantos dias de viagem no nosso próprio barco, ter de pagar para atravessar um rio com pouco mais de trinta metros de largura. Eu estava sedento por um refrigerante gelado e borbulhante e o Gabriel por um bom bife. Não tínhamos onde guardar o nosso bote inflável na outra margem, de modo que não deu outra: trocamos de roupa e fomos pegar o “táxi” para cruzar o rio. Na volta do almoço, o Gabriel veio me mostrar um pequeno cartaz que tinha desenhado: "R$0,40 para cruzar o rio." A Valentina gostou da idéia e fez seu próprio cartaz, ainda mais elaborado, com os dizeres: “R$0,50 a travessia. Você rema e eu ganho Abaixo: Valentina saindo para mais um traslado; Mojud atracado logo ao lado da churrasqueira e Gabriel assando seu sonhado churrasco.

56


São Lourenço do Sul

dinheiro. Moço bonito não paga, mas também não atravessa. O nome do barco é Seu Suor”. E outras mais. O vento Sul voltou a soprar forte e a saída para Pelotas teve de esperar. São Lourenço é uma cidade muito agradável, com pessoas simpáticas. As crianças curtiram bastante a função de atravessar de bote o rio, para fazer compras no centro. A Valentina ia se creditando cinqüenta centavos por passageiro a cada perna. Tanto ela quanto o Gabriel já são muito safos no bote a remo. A Paula é quem precisa de um pouco mais de treinamento. A Paula foi fazer as compras para abastecer o Mojud para a próxima etapa e, desta vez, nem me surpreendi quando chegou um caminhão baú no iate clube, perguntando pelo veleiro Mojud. O convés desapareceu debaixo das caixas e mais caixas que desembarcaram do caminhão e foram, aos poucos, sumindo dentro das tulhas do Mojud, habilitando-nos agora a ir até a África, sem escalas. Abaixo: Entregadores chegam, de caminhão, para abastecer o Mojud com as provisões para mais trinta dias. O supermercados, geralmente, não cobram por esse serviço.

57


Capítulo VII

Lagoa Pequena


O

vento sul continuava soprando, mas parecia que tinha diminuído de intensidade. A distância que nos separava do próximo abrigo, Arroio Grande, ou Lagoa Pequena, era de oito e treze milhas, respectivamente. Uma pequena distância, de modo que resolvemos partir logo depois do almoço. Desta vez a saída da barra do Rio São Lourenço foi mais fácil, em termos de navegação, pois o GPS havia gravado o nosso percurso de entrada e bastava, portanto, seguir sobre a mesma linha. Navegamos até o final do canal e tomamos o rumo da Lagoa Pequena. Mesmo a motor, tínhamos de fazer bordos, rumando um pouco para um lado e um pouco para outro, pois era improdutivo e muito molhado seguir direto contra o vento e as ondas. O Gabriel e a Valentina ficaram recolhidos na cabine, cada um Abaixo: Navegando contra o vento e as ondas, barco e timoneiro molhados.

61


500 Milhas de Água Doce

Acima: Enquanto as crianças seguem com seus estudos regulares, no aconchego do interior da cabine, Paula tenta se esconder do vento frio e cortante, timoneando o Mojud. Não há roupa que chegue.

cuidando de seus interesses: ela desenhando e ele jogando videogame. A Paula timoneou a maior parte do tempo, desde a saída de São Lourenço. Quando estávamos chegando no través do Arroio Grande, vi que dava para seguir adiante, por mais uma ou duas horas. Rendi a Paula no leme e, em menos de um minuto, percebi uma bandeira preta, a uns duzentos metros para o lado da costa, quase no nosso través. Olhei imediatamente para o outro bordo, mas não vi outra bandeira. À frente, por entre os carneirinhos formados pelo vento que quebrava a crista das ondas, vi algo que pareciam ser bóias brancas, a menos de vinte metros da nossa proa. Minha reação foi imediata, cortando o motor e guinando para boreste, na direção da praia. Era mesmo uma rede, bem na nossa frente, cortando transversalmente o nosso caminho, numa extensão de mais de um quilômetro. Abaixo: Gabibatímetro - Gabriel e sua vara de bambu, com marcas de meio em meio metro. Nas aproximações, o método tradicional é mais confiável que o eletrônico.

62


Lagoa Pequena

Acima: O vento sul castigando permanentemente, durante nossa descida rumo a Pelotas. Na proa, Gabriel e Paula ajudando a decifrar o labirinto de redes na entrada do arroio.

Ao fazer a curva, vi as bóias passando a menos de dois metros do nosso costado. - Esta foi por pouco!- Exclamei. Era perto de quatro horas da tarde, quando avistamos o que parecia ser a entrada da Lagoa Pequena. Havia uns barcos de pesca atracados contra a praia que, interrompida em sua extensão por juncos e uma pequena entrada de água, faziam supor a desembocadura de algum arroio ou canal. A última milha de aproximação foi um grande labirinto de redes e bancos de areia, que nos gerou muita tensão. Logo na boca do canal, demos uma pequena encalhada sobre uma parte mais rasa e um barco de pescadores, que vinha voltando das redes, nos confirmou que aquela era mesmo a entrada para a Lagoa Pequena e também nos sugeriram contornar a entrada pela margem esquerda do canal, à nossa direita, onde tinha mais profundidade. Abaixo: Pescadores acampados na boca do canal que leva à Lagoa Pequena. Gabriel e Valentina desfrutam da paisagem belíssima que margeia o canal em ambos os lados.

63


500 Milhas de Água Doce

Percebi uma forte correnteza em sentido contrário. Pela primeira vez navegávamos num canal tão estreito, com pouco mais de dez metros de largura, em média, por onde estavam escoando as águas de uma lagoa que, contradizendo o nome, tinha mais de oito milhas de extensão de sul a norte, com suas águas empurradas pelo vento na direção desse sangradouro, pelo qual avançávamos. Entre São Lourenço do Sul e Pelotas, há uma ponta de terra que avança na Lagoa dos Patos, formando um cabo. Essa ponta é formada basicamente pela Lagoa Pequena, que é fechada pela Ilha da Feitoria. A Lagoa Pequena possui, assim, duas passagens, uma ao norte desse “cabo”, outra ao sul, de modo que podemos cortar caminho por águas interiores. O canal de entrada norte, pelo qual estávamos navegando, com mais de cinco milhas de extensão e bem profundo, é exuberante. Cercado por matas antigas, juncos, banhados, árvores belíssimas adornadas com barbas-de-bode, que reluzem prateadas contra a luz do sol. É um deleite navegar por quase duas horas, observando aves de todos os tipos, ao redor do canal que serpenteia por entre fazendas de criação de gado. Em alguns pontos, a vegetação aquática avança sobre o leito do canal, reduzindo sua largura para dois ou três metros, formando ainda uma pista sinuosa sobre a qual tenho de timonear com cuidado para não enroscar o hélice do motor de popa, que fica do lado direito do barco. Quando chegamos à boca da lagoa, o sol já estava se pondo e o vento sul, forte, na cara, mais uma vez, sugeriu-nos que voltássemos para dentro do canal à procura de um abrigo para passar a noite. Manobrar na entrada da Lagoa Pequena constituiu uma tarefa bem complicada, pois saímos do canal profundo para dentro do leito de Abaixo: Em alguns momentos, os encalhes sobre a vegetação boiadeira é inevitável, pois ela fecha totalmente o canal.

64


Lagoa Pequena

lodo da lagoa, com pouca profundidade, e o vento forte nos arrastando lateralmente para cima dos juncos. Quando conseguimos, finalmente voltamos ao canal. Agora com vento de través e a favor da correnteza. Para manter a governabilidade, com a ação do leme na água, era necessário avançar muito rápido, pois só assim conseguia evitar que o vento nos jogasse de lado contra a margem esquerda do canal. Assim que percebi uma parte mais larga e abrigada do vento por juncos altos e espessos, guinei a proa para cima da vegetação, contra o vento, e atiramos a âncora sobre uma espécie de capim grande que, na verdade, era como se fosse uma margem flutuante, pois, apesar da âncora ficar em seco sobre o capim, abaixo dele havia mais dois metros e meio de profundidade. Não era uma ancoragem muito segura, mas o pior que poderia acontecer era a âncora se soltar e irmos bater na outra margem, a menos de trinta metros, ou rolarmos, correnteza abaixo, até sairmos na Lagoa dos Patos novamente. À noite, o vento aumentou ainda mais e rugia contra o mastro e as velas amarradas sobre a retranca. O Mojud se movia para um lado e para o outro e eu não consegui dormir, indo a toda hora até a gaiúta, com uma lanterna, para verificar se ainda estávamos ancorados sobre a grama boiadeira. Amanheceu ventando forte e era sinal de que teríamos de adiar a partida mais uma vez, pois, segundo informações que obtive dos pescadores, havia muitas redes na Lagoa Pequena, além de antigas estacas de pesca do camarão, quebradas perto da superfície, o que tornaria a navegação difícil e perigosa, contra a água esbranquiçada pelo Abaixo: Para sair de um emaranhado de plantas boiadeiras, aproveitamos a boa vontade - e o reboque - de um pescador. Enquanto Valentina aproveita a navegada recostada sobre a retranca, o Gabriel trabalha junto ao motor para manter a hélice safa das raízes das plantas.

65


500 Milhas de Água Doce

vento e pelas ondas. Resolvi mudar de ancoradouro para ter uma noite de sono, sob o abrigo de árvores e com o barco bem amarrado em terra. Com pouca bolina abaixada, o motor de popa no lado esquerdo, ao lado do leme, a correnteza forte descendo o canal e o vento soprando perpendicularmente, simplesmente não conseguimos manobrar o Mojud para descer o canal em busca de abrigo. Apesar de estarmos atracados sobre a vegetação, a vara de bambu, de três metros, que tínhamos a bordo, não conseguia alcançar o fundo abaixo da grama. Depois de várias tentativas infrutíferas, decidi seguir novamente rumo à Lagoa Pequena, contra a correnteza, para, na boca da lagoa, fazer o retorno e voltar a descer o canal para buscar o tão sonhado abrigo para a próxima noite. Após dar a volta, na entrada da lagoa, voltamos a descer o canal, em alta velocidade, empurrados pelo vento e pela correnteza, ziguezagueando entre a vegetação flutuante. Num certo ponto, a correnteza tinha deslocado uma ilha flutuante, que tinha bloqueado totalmente o canal, por uma extensão de uns dez metros. Ao avistar tal obstáculo, acelerei ao máximo o motor e, segundos antes de atropelar essa ilha flutuante, coloquei o motor em ponto morto para evitar emaranhamento no hélice. O Mojud passou sobre a ilha, porém sem a propulsão do motor, acabou por ser jogado pelo vento contra a margem esquerda do canal, ficando cercado pela vegetação flutuante de vários tipos, sem a possibilidade de ligar o motor novamente. Esse canal, que liga a Lagoa dos Patos à Lagoa Pequena estava marcando a sua presença na nossa viagem. Dessa vez, resolvemos usar as âncoras para rebocar o Moujd. Com o bote inflável, levávamos as âncoras até um ponto bem adiante, no canal, e em seguida puxávamos o barco pelo cabo, avançando lentamente para fora da vegetação, em busca de um local livre que nos permitisse ligar o motor novamente. Depois de meia hora na faina com as âncoras, sem obter muito sucesso, chegou um barco de pescadores, que vinha subindo o canal. Vendo a nossa situação, ofereceu-nos reboque até um porto abrigado e com um bom barranco para amarrar o Mojud: a garantia de um dia de leituras e uma boa noite de sono. 66


Lagoa Pequena

Tivesse o Mojud um motor de centro, talvez fosse mais fácil de manobrar num espaço pequeno e com correnteza, mas também seria mais difícil de limpar a hélice, que estaria inacessível, abaixo do casco. São Lourenço do Sul

Lagoa Pequena Lagoa Pequena

Ilha da Feitoria

Ilha da Feitoria

Pontas de estacas

Lagoa dos Patos Pelotas

Lagoa dos Patos

Canal São Gonçalo

Um novo dia amanheceu frio, mas com pouco vento. Pelo menos essa era a situação no portinho onde estávamos atracados. Resolvemos seguir viagem. Desta vez foi fácil manobrar o Mojud, com pontos sólidos de apoio em terra, pouco vento e sem a correnteza do dia anterior. Quando chegamos na boca da Lagoa Pequena, o vento voltou a Abaixo: Junto ao pé do mastro, Valentina maneja o cabo de içamento da bolina, seguindo as instruções do comandante no cockpit.

67


500 Milhas de Água Doce

aumentar. A profundidade era de menos de um metro e já deparamos logo com uma rede quilométrica, que contornamos e voltamos a seguir no rumo da saída sul da lagoa. A todo o momento, avistávamos pontas de estacas, algumas com mais de dez centímetros de espessura, mal aflorando na superfície. Somando-se às redes, à pouca profundidade e ao vento contrário, essas estacas contribuíam significativamente para aumentar a tensão a bordo, exigindo atenção constante à proa. Retirando as coordenadas a partir da carta náutica, eu tinha marcado o ponto de saída da Lagoa Pequena no GPS, e estava seguindo em linha reta na direção do mesmo. Após quase duas horas de navegação, e já avistando uma reentrância nos juncos da margem, que eu supunha ser a saída, apresentou-se um novo obstáculo pela frente: milhares de pontas de estacas, distantes não mais de um metro uma da outra, formavam um verdadeiro paliteiro, bloqueando, aparentemente, toda a nossa frente. Em seguida, senti o Mojud começar a encalhar, sobre um fundo de areia com lodo duro e com pequenas algas, que apareciam atrás da turbulência do motor. Teríamos de fazer uma sondagem com o bote, se conseguíssemos vencer o vento a remo, para achar um novo caminho, pois já estávamos navegando com a bolina e o leme totalmente recolhidos. O frio era muito intenso para fazê-lo a pé, e especialmente perigoso, sobre um fundo de lodo cheio de restos de estacas. Pedi à Paula que largasse a âncora, pois apesar de estarmos raspando no fundo, o vento nos empurrava lateralmente, em direção à Abaixo: Na saída da Lagoa Pequena, encontramos um pescador para nos indicar a direção do canal, pelo meio dos juncos. Após alguns metros, nova confusão - Valentina sugere um caminho e Gabriel outro.

68


Lagoa Pequena

margem oposta da lagoa. Com a velocidade com que estávamos sendo arrastados, entretanto, a âncora não conseguia unhar sobre aquele fundo duro e liso. Falei ao Gabriel para soltar a segunda âncora. Mesmo com duas âncoras arrastando pela proa, sendo uma de 15Kg, o Mojud ainda não alinhava ao vento. Num determinado momento, percebi que já não estávamos mais batendo contra o fundo. Dei ordem para recolher as âncoras e liguei o motor. O Mojud recuperou então o controle e rumei na direção de uma canoa de pesca, onde um pescador parecia examinar seu espinhel. Pedi informações sobre a saída para Pelotas e ele informou que deveríamos contornar a margem sul da Lagoa Pequena, vindo pelo lado oeste, pois em linha reta não havia profundidade suficiente, além de ser a maior parte da área coberta com restos de estacas semi-submersas. Teríamos de navegar rente aos juncos, onde encontraríamos profundidades ao redor de um metro ou até mesmo mais do que isso. Assim fizemos e, agora contornando a lagoa rente aos juncos da margem sudoeste, conseguimos passar por trás do baixio e do paliteiro de pontas de estacas. Toda a margem sul era coberta por juncos altos e não conseguíamos avistar qualquer saída. Mais adiante, avistei outro barco de pescadores, ancorado ao lado dos juncos e rumei na direção dele, para pedir informações novamente, pois isso já estava ficando costumeiro: pedir informações em cada “esquina”. Perguntei onde era o canal de saída para a Lagoa dos Patos e ele apontou para os juncos, a uns vinte metros de onde ele estava. Abaixo: O verdadeiro canal de saída da Lagoa Pequena era nada mais que uma sanga de um metro de largura de água livre no meio da vegetação, mas o gabibatímetro acusava mais de dois metros de profundidade.

69


500 Milhas de Água Doce

Acima: Gabriel anuncia a chegada na parte larga do canal. Navegando com o motor a pleno, contra a forte correnteza, levantamos ondas contra as margens, apesar do pequeno avanço real.

- Aqui por dentro dos juncos? - Perguntei, mais uma vez, para ter certeza. Ele fez sinal de positivo. Acelerei o motor e avançamos sobre os juncos que, naquele ponto, eram um pouco mais esparsos. Uns cinqüenta metros adiante, estávamos em uma nova área livre de juncos. Novamente, porém, o único caminho que víamos era para a direita, com uns dez a quinze metros de largura, cercado de juncos pelos dois lados. Este, entretanto - era fácil de perceber -, voltava para a Lagoa Pequena e não para a direção da Lagoa dos Patos. Bem na nossa frente aparecia uma pequena sanga, com pouco mais de um metro de largura e que logo - uns dez metros adiante desaparecia, em alguma curva, ou simplesmente estava bloqueada pela grama boiadeira. Acenei, mais uma vez, para o pescador que, do outro lado dos juncos, ainda nos observava e gesticulei, com o braço, inquisitivo, se Abaixo: Canoas de pescadores cruzam pelo estreito canal, rebocando duas ou mais canoas de carga: um trem fluvial.

70


Lagoa Pequena

devia ir em frente, para dentro do riacho ou pegar à direita, pelo caminho mais largo. Ele confirmou mais uma vez, gesticulando de forma decidida e quase impaciente, que eu deveria seguir em frente. Poderia ser gozação do pescador, pois a superfície de água livre que aparecia pela nossa proa era menos da metade da largura do Mojud. Eu tinha de decidir rápido, pois o vento nos arrastaria em alguns segundos daquela posição, bem defronte ao riacho. Não avistando qualquer obstáculo sólido o suficiente a ponto de causar qualquer avaria no casco, apenas aguapés, juncos, boiadeiras e outros tipos de vegetação, decidi seguir em frente, aproveitando a velocidade que ainda tínhamos. Acelerei ao máximo o motor de 15HP e entramos no meio daquela vegetação, contra a correnteza - tão forte que chegava a formar marolas longitudinais. As únicas partes do barco que cabiam no leito da sanga eram justamente o leme e o motor. Até o bote inflável, rebocado atrás, pelo lado direito da popa, oposto ao motor, vinha sendo arrastado inteiro por cima da vegetação. O Gabriel vibrava com a aventura de ver o Mojud, com o motor a pleno, subindo aquele riacho estreito e sinuoso, contra uma forte correnteza, enquanto nos afastávamos cada vez mais da Lagoa Pequena e nos embrenhávamos naquilo que mais parecia ser um grande brejo. A única opção era seguir em frente, pois não teríamos como dar a volta. Não havia espaço suficiente para isso. Uns cem metros mais à frente, o riacho foi alargando e tomando forma, com barrancas bem definidas, com cinco a dez metros de largura. Foi um alívio sentir que aquele era, realmente, o caminho certo. Era muito difícil controlar o barco, pois, apesar de ser uma sanga funda, em torno de dois metros e meio, eu preferia manter a bolina quase toda levantada, para oferecer menos resistência ao motor, que, mesmo sendo superdimensionado para o Mojud, mal conseguia vencer a correnteza. Por duas vezes cruzamos com canoas de pesca que vinham descendo o canal, vindos da Lagoa dos Patos. Uma delas vinha navegando à vela, rebocando três outras canoas menores, como um pequeno trem, nas quais vinham as redes, peixes e outros equipamentos. O espaço era pequeno para cruzarmos, sobrando dois ou três metros de 71


500 Milhas de Água Doce

lazeira entre o casco do Mojud e as canoas que passavam. Foi assim que, numa curva para a esquerda - lado para o qual o Mojud tem mais dificuldade de virar, pois o motor fica no lado esquerdo da popa, ao lado do leme - a correnteza nos jogou com velocidade para fora do leito do canal. A proa avançou uns quatro metros sobre a vegetação e a Paula, que estava em pé, de costas, filmando, não viu o que estava acontecendo e quase caiu sentada sobre o convés, com a brusca parada do barco. Assim como subiu na vegetação e no suposto barranco, que deveria haver por trás dela, o Mojud parou e começou a descer de ré. Esperei até safar a proa da vegetação e tocamos adiante. Mais uma milha e estávamos saindo do canal e entrando na Lagoa dos Patos, no rumo de Pelotas, com vento forte e ondas na cara, mais uma vez.

72


CapĂ­tulo VIII Pelotas


V

oltamos a navegar na Lagoa dos Patos, logo ao lado do Canal da Feitoria, por onde passam todos os navios que entram na lagoa pelo porto de Rio Grande. É um movimento intenso de navios de grande porte. O vento Sul continuava soprando forte e íamos avançando a motor, negociando com as ondas que, nesse ponto, têm espuma branca, de água salgada. Logo começamos a deparar com mais obstáculos: estacas de madeira por toda parte. Algumas chegam a sugerir terem sido trapiches ou plataformas, no passado, que foram abandonados no meio da lagoa: seria uma temeridade navegar fora do canal à noite, uma loteria com grandes chances de ser premiado com uma estaca fincada no casco. Decidimos rumar para dentro do canal, onde havia menos riscos de batermos em alguma estaca. As ondas, entretanto, são desencontradas e o trajeto se torna bem molhado no cockpit. Pelotas já aparece no horizonte e isso serve de estímulo a irmos em frente: em breve, estaremos atracados no Veleiros Saldanha da Gama. Do ponto onde entramos no canal, ficou um pouco confusa a sinalização, pois não vínhamos seguindo suas bóias na seqüência, forçando-me a uma atenção especial na navegação, descendo a cada quinze minutos para plotar a nossa posição na carta náutica. O Canal da Feitoria tem de cinco a seis metros de profundidade, dragado no meio de uma área de baixios. Dava para ver nitidamente a água marrom, sobre as partes mais 75


500 Milhas de Água Doce

rasas, e verde, vindo do mar, demarcando bem os limites do canal por onde navegávamos.

Ilha da Feitoria

Lagoa dos Patos

Pelotas

Canal São Gonçalo

Ocano Atlântico

Rio Grande Lagoa Mirim

Mesmo já tendo avistado o ponto no qual o Canal da Feitoria recebe o canal do São Gonçalo, pouco mais de uma milha à frente, resolvi cortar caminho, tomando um rumo mais direto na foz do “rio” São Gonçalo. Sendo apenas um canal natural de ligação entre a Lagoa Mirim e a Lagoa dos Patos, o São Gonçalo não é um rio, na expressão verdadeira da palavra. Com essa mudança de rumo, conseguimos um rendimento melhor, pois dentro do Canal da Feitoria, no rumo em que estávamos, Abaixo: Abrindo velas para velejar novamente na Lagoa dos Patos, tendo Pelotas no horizonte.

76


Pelotas

contra o vento e as ondas, o máximo que conseguíamos render era dois a três nós. Fora do canal, entretanto, voltamos a ter nossa atenção redobrada por causa das estacas, que estavam por todo lugar. Muitas delas sumiam e voltavam a aparecer, conforme as ondas passavam por sobre suas pontas, num tenebroso jogo de esconde-esconde. Às vezes eram alinhadas entre si, outras vezes em grupos, ou simplesmente isoladas. Algumas saindo dois a três metros para fora d'água, outras - a maioria - quebradas bem rente à superfície. A Valentina e o Gabriel iam cuidando, cada um de um bordo, na proa, para me dar o sinal, a tempo, para desviar de alguma que colocasse nosso casco em risco. Quando estávamos chegando próximos das bóias que balizam o canal de São Gonçalo - entrada para Pelotas -, comecei a avistar, bem na nossa frente, uma meia milha adiante, umas esguichadas de água para cima, saindo da superfície da lagoa, tal qual uma baleia com seu esguicho. Logo que as crianças perceberam os esguichos, começaram a insistir para que fôssemos mais perto, ver do que se tratava, mas, por prudência, imaginando ser algum destroço que, pela pressão das ondas, espirrava água para cima, de alguma cavidade submersa, preferi ir direto para a direção de Pelotas. O São Gonçalo estava desaguando forte na Lagoa dos Patos, devido às intensas chuvas que tinham provocado enchentes algumas semanas antes, de modo que o nosso rendimento, a motor, era de pouco mais de três nós. Três horas mais tarde, atracamos num box do Veleiros Saldanha da Gama, em Pelotas, conectamos o fio de energia para carregar as baterias e fomos descansar um pouco. Abaixo: Entrando no canal São Gonçalo e chegando no Veleiros Saldanha da Gama: banho quente, pizza de forno à lenha e cerveja gelada.

77


500 Milhas de Água Doce

O Gabriel e a Valentina estavam ansiosos por um passeio à cidade. A Valentina queria comprar uma sandália, para substituir uma que “afundara” durante a viagem e o Gabriel, uma calça de abrigo. A Paula e eu queríamos apenas jantar fora, numa pizzaria, talvez. Um táxi veio nos apanhar no clube e nos conduziu até o centro, com um rápido “pit stop” num posto de gasolina, para deixarmos nossos galões de combustível e bujões de gás, para reabastecer o Mojud. É incrível como desacostumamos com as coisas da cidade, após algumas semanas a bordo. Estar ao lado do motorista de um automóvel que trafega em meio ao trânsito de outros automóveis e pedestres é algo assustador! Uma vez no centro da cidade, a Paula nos conduziu direto a uma grande loja de departamentos, cheia de gente circulando em espaços apertados: parecia um pesadelo, algo irreal. Como podemos nos acostumar a isso e viver nessa loucura urbana consumista, sem perceber toda a artificialidade? Jantamos numa ótima pizzaria, com forno à lenha, e, às nove horas da noite, já estávamos de volta ao Mojud, para preparar a saída do dia seguinte e dormir.

78


Capítulo IX Canal de São Gonçalo


À

s nove e trinta da manhã, soltamos as amarras no Veleiros Saldanha da Gama e voltamos a subir o São Gonçalo. Logo que saímos do clube, já começamos a passar pela zona portuária e ao lado de prédios enormes, abandonados. Parecem ser antigos abatedouros. Uma cena pitoresca nos chama a atenção: uma enorme garça pousada na proa de uma pequena canoa, na qual um velho pescador repassava sua rede. Pereciam ser velhos amigos. Algumas milhas adiante, avistamos as pontes. A primeira, baixa, de estrada de ferro, e logo após duas pontes altas da BR116. Uma delas parece estar abandonada. Logo que nos aproximamos da ponte da estrada de ferro, notei que a parte móvel, situada entre duas torres metálicas, começou a subir. Há uma cabine, com um operador encarregado do trabalho. Abaixo: Passando sob a ponte elevadiça da estrada de ferro e sob as pistas da BR116. A correnteza contrária gerava turbilhonamento entre as pilastras.

81


500 Milhas de Água Doce

Não é necessário qualquer tipo de comunicação. Basta dirigir-se para a ponte que ela será aberta. Uma das pilastras da ponte rodoviária que está abandonada parece ter sido abalroada, pois está bem danificada na sua base e na parte de cima, na ponte, há reforços metálicos segurando o vão. A correnteza sob as pontes é bem forte, gerando muita turbulência, de modo a fazer pressão lateral sobre o leme. Fomos navegando contra a correnteza, programados para chegar até a eclusa às onze horas da manhã. A eclusa do São Gonçalo, rio ou canal, foi construída para evitar que a água salgada do mar, em épocas de seca, avance para dentro da Lagoa Mirim, prejudicando, assim, as lavouras de arroz, que se abastecem de suas águas. Havia um barco de pescadores que vinha nos seguindo e que, estranhamente, rumou para a margem oposta à eclusa, passando diretamente pelo canto da margem direita do canal, por onde deve haver uma passagem estreita, que permanece aberta para barcos pequenos, que não dependam da eclusa, especialmente quando o desnível de águas é pequeno e quando a água da Lagoa Mirim corre para a Lagoa dos Patos. Na verdade, antes da construção da eclusa, não havia margem esquerda ou direita, pois ora as águas corriam para a Lagoa dos Patos, ora para a Lagoa Mirim, conforme o nível de cada uma. De qualquer modo, o Mojud não poderia passar por lá, pois há uma estrutura de concreto, como uma ponte, que cruza todo o canal, a uma altura de uns cinco metros, aproximadamente. Encaminhamo-nos para o setor das comportas, que fica no lado direito de quem se dirige para a Lagoa Mirim. Abaixo: Chegando na eclusa do São Gonçalo. É proibido sair do barco, durante a atracagem, mas é irresistível a busca por um melhor ângulo para as fotos.

82


Canal de São Gonçalo

Às cinco para as onze, atracamos o Mojud ao lado da enorme parede de concreto. Posicionei o barco logo junto a uma das escadas que sobem até uma passarela. É proibido o desembarque, mas a Paula subiu as escadas, com a filmadora, para tomar algumas cenas. Em poucos minutos, a enorme porta de aço, que estava a cinqüenta metros à nossa frente, começou a baixar, mergulhando na água. Alguns aguapés começaram a surgir das águas borbulhantes que saíam da comporta, como se eles também precisassem fazer uso de tal sistema para descer o canal. Quando a comporta desapareceu totalmente, debaixo d'água, soou o toque de uma sirene, que avisava para que nós soltássemos as amarras e ingressássemos no compartimento central da eclusa. Liguei o motor e navegamos. Passamos por sobre o local onde a comporta estava mergulhada e tornamos a atracar o Mojud contra a parede, no interior da eclusa, para que a comporta que havia abaixado subisse novamente e pudesse ser aberta a outra, à nossa frente. O São Gonçalo estava em cheia, de modo que o desnível de um lado e de outro da eclusa não ultrapassava os trinta centímetros. Após ser aberta a segunda comporta, soaram dois toques da sirene, como a se despedir de quem parte, e pudemos partir rumo à Lagoa Mirim. Quase todo o São Gonçalo tem uma largura aproximada de duzentos metros, com exceção dos trechos entre as ilhas, onde chegamos a navegar em menos de cinqüenta metros de largura, contra a correnteza que fica mais forte, espremida nesses pontos, quando a Lagoa Mirim está muito cheia. Logo partindo da eclusa, rumo à Mirim, a vegetação nas margens é sempre a mesma e o relevo é baixo. A navegação seria monótona, não Abaixo: Paula soltando a amarra, quando a comporta termina de baixar e libera nossa saída rumo à Lagoa Mirim.

83


500 Milhas de Água Doce

fossem as aves de todos os tipos, que avistamos a todo o momento. Mais adiante, no contorno da Ilha Grande, a paisagem torna-se exuberante, tanto com as árvores belíssimas, quanto com os pássaros e com o próprio do canal, que toma formas e cursos diversos. A correnteza está forte, na direção da Lagoa dos Patos, e a profundidade é grande, já desde a margem, onde rapidamente cai para cinco ou seis metros e, no meio, chega a ter doze metros. A carta náutica da Lagoa Mirim, onde está registrada esta parte do São Gonçalo, não confere com o GPS, além de ser muito antiga e inexata. Ao entardecer, estávamos nos aproximando de uma ilha, que eu julgava ser a Ilha do Sangradouro, já na boca da lagoa. Havia um rapaz numa canoa, examinando uma rede a poucos metros da margem. Fomos até ele, para perguntar se era mesmo a Ilha do Sangradouro. - Não. A Ilha do Sangradouro fica uma hora e meia adiante. Esta é a Ilha Pequena. - Disse ele. O rapaz seguiu seu rumo, subindo o canal pela margem direita, manobrando sua pequena canoa apenas com o auxílio de uma vara de bambu, de uns quatro metros de comprimento. Como ele navegava rente à margem, a dois ou três metros do barranco, era raso o suficiente para que seu bambu alcançasse o fundo para empurrar a canoa. Eu me perguntava: como ele faria para cruzar um rio tão profundo? Eu não tinha visto remos a bordo da canoa. O vento começou a soprar um pouco mais forte e desligamos o motor, conseguindo um desempenho de três a quatro nós somente à vela. O rapaz, na sua canoa, seguia seu rumo paralelo ao nosso. Algumas vezes atrás, noutras na nossa frente. Abaixo: Navegando à vela e motor, contra a correnteza, Valentina mergulhada na leitura e Gabriel conduzindo o Mojud com competência.

84


Canal de São Gonçalo

Navegamos, lado a lado, por quase meia hora, quando ele, uns vinte metros à nossa frente, resolveu cruzar o canal. Aí exclamei: - Ah! Agora eu descobri como você faz para cruzar o rio! Ao invés de usar a vara de bambu para se empurrar, ele a manejava como se fosse um remo de duas pás. Com uma extrema habilidade, fazia sua canoa navegar rápido, cruzando a nossa frente, indo para a outra margem do canal, que, naquele trecho, deveria ter uns cem metros de largura. O sol se pôs e comecei a procurar um lugar para ancorarmos. Umas luzes começaram a brilhar, ao longe, na margem esquerda do canal: era Santa Isabel do Sul, um pequeno vilarejo assinalado na carta náutica. Avistei um pequeno curso d'água, de uns três ou quatro metros de largura, desaguando no canal, logo à nossa frente. Ele era um desaguadouro de um alagado na margem direita. Resolvi embicar o Mojud ali e ancorar, para passar a noite. A correnteza do São Gonçalo, entretanto, somou-se à do desaguadouro e, bem no momento em que eu conduzia a proa do Mojud para dentro do canalete, o barco foi desviado para a margem, ao lado, encalhando sobre o lodo raso. Falei ao Gabriel para largar a âncora pela proa, mas ela não ficou bem unhada, pois estava praticamente na vertical. Resolvi tirar o barco dali a motor, dar uma volta e entrar novamente no desaguadouro. Desta vez, prestando mais atenção à correnteza. Nesse momento, entretanto, me descuidei do leme, que estava aberto e, quando liguei o motor, dando marcha à ré, um barulho forte e uma trepidação no motor me deram conta da mancada. Abaixo: Aproveitando a tranqüilidade das águas do canal, Paula prepara um empadão de forno. A vegetação nas margens e a fauna variada são um espetáculo à parte.

85


500 Milhas de Água Doce

Logo desliguei o motor e verifiquei que a hélice estava intacta, porém o cabo de nylon, que é usado para erguer a pá do leme, havia se rompido e, com isso, eu não conseguiria içá-la. O Mojud tinha encalhado no lodo, novamente, porém, desta vez, com o leme abaixado e também afundado num lodo colante. Disse ao Gabriel que fosse com a Valentina, de bote, levar a âncora mais adiante da proa, para que o barco ficasse mais garantido na ancoragem, apesar de encalhado, pois passaríamos a noite ali e, caso houvesse alguma mudança forte de vento ou subisse o nível das águas, não correríamos o risco de sermos arrastados correnteza abaixo. A Valentina segurava a âncora, na popa do bote, e o Gabriel, remando, reclamava da pouca profundidade. De repente, ele gritou, em meio à penumbra: - Pô! Pulou um peixe aqui pra dentro do bote! A borda do bote inflável deve ter uns quarenta centímetros acima d'água, mas, mesmo assim, um lambari havia pulado para dentro: era mais uma modalidade de pesca, dentre tantas que já tínhamos experimentado nesta viagem. Mais tarde, temendo que o leme pudesse sofrer alguma avaria, resolvi entrar na água para tentar tirá-lo do lodo e consertar o cabo de içamento. A temperatura do ar devia estar abaixo de dez graus e a água estava gelada. Tirei a roupa e, rapidamente, mergulhei na popa do Mojud. Enfiando os pés no lodo até os joelhos, abaixei-me dentro d'água e puxei a pá do leme para trás, arrancando-a do lodo e logo achando o resto do cabo de içamento. Agarrei-o e pulei para cima do deck de popa. Amarrei as duas pontas do cabo rompido e rapidamente fui para dentro da cabine, para me secar, antes que congelasse de frio. Toda a operação não deve ter durado mais de trinta segundos.

86


CapĂ­tulo X Santa Isabel do Sul


N

o dia seguinte, pela manhã, substituí o cabo partido, desencalhamos o Mojud e fomos até a outra margem do São Gonçalo, onde aportamos com a proa na areia, por entre barcos de pescadores que nos olhavam com ares de curiosidade e surpresa: estávamos em Santa Isabel do Sul. Nosso consumo de combustível, subindo o São Gonçalo, contra a correnteza, estava sendo maior do que eu previra e preferi providenciar um pouco mais de gasolina de reserva. Desembarquei pela proa, pulando direto na areia de praia, e fui me informar sobre onde eu poderia conseguir uns quinze litros de gasolina. Caminhando por uma rua de areia batida, perpendicular à praia, fiquei surpreso ao ver ruínas de uma fachada de uma casa muito antiga, ricamente decorada com ladrilhos portugueses, sobre portas de arcos Abaixo: Chegada a Santa Isabel do Sul; ruínas do tempo do império e uma igreja que vale à pena ser visitada.

89


500 Milhas de Água Doce

ainda sustentados por paredes de tijolos carcomidos pelo tempo. Mais adiante, um campo de futebol, onde uns garotos batiam bola e, ao lado, uma igreja, igualmente muito antiga, com três campanários. Santa Isabel do Sul serve de entreposto de pesca, onde os pescadores chegam com traíras e jundiás, pescados nos dias anteriores e, num pequeno salão, as moças da vila cortam os filés e os colocam em caixas com gelo para serem comercializados. Consegui a gasolina, mas de uma procedência muito duvidosa: de um tonel sujo, aspirada por uma mangueira imunda e filtrada por uma

Ilha Grande

Santa Isabel do Sul

Ilha Pequena

Arroio das Palmas Ilha do Sangradouro Arroio Sarandi

Arroio Chasqueiro

Arroio Canhada

mangrulhos Sangradouro Ponta do Salso

Arroio Grande

Ponta Alegre Arroio Canhada Grande

Farol

Lagoa Mirim

90


Santa Isabel do Sul

Acima: Detalhes da igreja de Santa Isabel do Sul.

peneira entupida de tanto resíduo acumulado. “Vou usar esta gasolina só como último recurso”, - pensei. Voltei para o Mojud e seguimos a viagem. Logo adiante, começamos a cruzar com muitos barcos de pescadores que, em duplas, vinham da Lagoa Mirim descarregar o fruto do seu trabalho em Santa Isabel do Sul. Finalmente, deparamos com a Ilha do Sangradouro e a Lagoa Mirim. Marquei no GPS a rota dos mangrulhos que assinalam um canal dragado em mil novecentos e antigamente, mas que ainda serve de referência à navegação. Como de costume, muitas bóias e bandeiras de redes por todos os lados. Fica difícil decifrar onde uma rede começa e onde termina. A maioria delas são semi-submersas, de modo que não é possível avistar as bóias de flutuação que, de outro modo, serviriam como sinalização da rede em toda a sua extensão. Pouco antes de passarmos pelo segundo mangrulho, senti um baque no leme e, imediatamente, soltou-se o cabo de içamento do mordedor, abrindo a pá do leme: era uma rede submersa cruzando o canal. Abaixo: Os mangrulhos do canal dragado no sangradouro da Lagoa Mirim.

91


500 Milhas de Água Doce

- Assim fica difícil!- Exclamei. - Nem no canal, balizado, se tem a tranqüilidade de navegar sem ficar se prendendo em redes. Por sorte, tinha vento e estávamos com o motor levantado, pois, se uma rede pegasse na rabeta do motor, poderia arrancá-lo de seu suporte. O vento nordeste, finalmente, deu o ar da graça e pudemos começar a velejar a cinco, seis e até sete nós, no rumo desejado. O alinhamento do canal conduz no rumo da Ponta Alegre, que marca o fim da parte estreita sangradouro da Lagoa Mirim.

92


CapĂ­tulo XI Arroio Bretanha


C

ruzando a Ponta Alegre, pelo meio dia, rumamos para oeste, com vento de três quartos, a boa velocidade, rumo ao Arroio Bretanha. Na costa, que vai ficando por boreste, uma enorme praia de areias claras e um antigo farol, ao qual pretendo retornar mais tarde, talvez na volta. Muitas redes transversais à linha da praia, deixam a navegação bastante tensa e nos obrigam a dar jaibes para contorná-las. Essa é sempre uma manobra arriscada, com ventos fortes. Ao entardecer, após quarenta milhas navegadas, chegamos, finalmente, à foz do Arroio Bretanha. Com vento nordeste e ondas, foi um pouco complicada a nossa chegada, pois era difícil localizar a parte mais funda, uma vez que, segundo a informa��ão que eu tinha, deveria contornar a enseada pela Abaixo: O farol da Ponta Alegre, Valentina meditando no púlpito de proa e Gabriel se preparando para sondar a profundidade na entrada do Arroio Bretanha.

95


500 Milhas de Água Doce

Acima: A casa de máquinas na boca do Arroio Bretanha, um bando de cisnes nadando no banhado e Paula observando as diversas espécies de pássaros do local.

beira do mato de eucaliptos lá existente. Acontece que, justamente por esse lado, era onde apareciam areais, aflorando na superfície.

Arroio Canhada Grande

Arroio Bretanha Arroio dos Arrombados

Arroio Juncal Rio Jaguarão

Lagoa Mirim

M M Ilha Juncal M

Ilha Latinos

Uruguai

M

Brasil

Ponta Latinos M - Mangrulhos

96


Arroio Bretanha

Arrastamos um pouco no fundo, mas, por fim, conseguimos entrar no arroio, cuja boca é bem marcada por uma grande construção branca, que servia de casa de bombeamento de água. O arroio é fundo, sem qualquer vegetação que não seja o pasto sobre os barrancos. Muitas aves de todos os tipos e tamanhos. Logo que fizemos a primeira curva, surpreendemos um ratão do banhado, com bigodes tão grandes que lhe pareciam pesar o focinho. No meio do campo, avistamos um pequeno banhado com centenas de aves. Cisnes brancos, com pescoços pretos, maçaricos e muitas outras que não pude identificar. Parecia que estávamos num verdadeiro parque ou jardim zoológico, porém sem cercas ou tela ao redor. Abaixo: A paz e tranqüilidade de um porto natural, na neblina da manhã, no Arroio Bretanha.

97


Capítulo XII Jaguarão


A

manheceu sem vento, com neblina e um céu azul querendo dominar o cenário. Decidimos rumar para Jaguarão, subir o rio até o Iate Clube Jaguarão, especialmente para abastecer de água e gasolina. Já tínhamos decidido seguir direto, sem subir o rio, pois, não sei porque, achava que gastaríamos mais de oito horas para ir e outras oito para voltar. No final, teriam sido três dias que poderíamos ter recuperado, no nosso cronograma já tão atrasado, na descida até o Chuí. A Lagoa Mirim estava espelhada e logo na saída do Arroio Bretanha, fomos escoltados por um bando de marrequinhas pretas que, ao nos aproximarmos, começam a bater asas e a correr sobre a água, sem levantar vôo, de um modo muito engraçado. Na foz do arroio, estava um grupo grande de cisnes, que permitiu que chegássemos bem próximos. Foi um momento e tanto! No caminho para o Rio Jaguarão, passamos pela Ponta Negra e resolvemos entrar no Arroio Juncal. Alguns sarandis fecham a saída do arroio, deixando uma passagem bem demarcada, com pouca largura, mas boa profundidade. É um local muito bonito, com alagados logo na entrada. Era domingo e havia vários barcos de pescadores de fim-de-semana ancorados pelo local. Demos a volta, marcamos os pontos no GPS, para marcar a entrada, e rumamos para a baía, onde o Brasil tem fronteira com o Uruguai, onde encontra-se a foz do Rio Jaguarão. 101


500 Milhas de Água Doce

Acima: Pequenas lagoas no meio da ponta de areia na margem brasileira da foz do Rio Jaguarão. Mojud ancorado para o almoço, enquanto Celso e Valentina escolhem pedrinhas na areia.

Ancoramos logo na boca do rio, entre os marcos da fronteira, para almoçar e fazer um passeio na bela praia que se estende pelo lado brasileiro. A areia da praia tem lençóis de pedrinhas multicoloridas e a Valentina se deliciou catando pedrinhas para a sua coleção. O pai dela também, especialmente por ser local de restos de comunidades indígenas, o que atraiu ainda mais a minha curiosidade. O Rio Jaguarão estava com pouca correnteza, o que nos permitia subi-lo numa boa média de seis nós, a motor. Em alguns momentos, soprava uma brisa de popa e aproveitávamos para abrir as velas, mas a velocidade caía muito e estávamos ansiosos para chegar antes do anoitecer. Assim, acabamos nos rendendo à velocidade - e ao ruído - do motor de popa. Em alguns pontos, há verdadeiros labirintos, de ilhas e canais, que nos convidam a tomar o rumo errado e cair em algum “beco sem saída”. Abaixo: O Mojud sobe o Rio Jaguarão, em asa-de-pombo, enquanto Paula aproveita o sol e as crianças estudam na espaçosa cabine.

102


Jaguarão

Acima: Ao pôr-do-sol, a chegada ao Iate Clube de Jaguarão.

A carta náutica da Lagoa Mirim, no que concerne ao Rio Jaguarão, não confere nem com o GPS nem com o que você encontra pela frente, especialmente em época de cheia, quando o rio alaga as margens. Chamei o Iate Clube Jaguarão pelo rádio e pedi informações. O funcionário do clube, Bento, chamou o Sr. Couto, um dos sócios do clube, para nos auxiliar a encontrar o caminho. Após algumas descrições e informações trocadas de parte a parte, concluímos que estávamos na “Volta do Negro Morto”. Mesmo com as dicas do Sr. Couto, algumas milhas à frente optamos pelo caminho da esquerda e acabamos noutro “beco sem saída” na margem uruguaia. A partir da Ilha Santa Rita, tínhamos os waypoints marcados no GPS e então não houve mais problemas. O Rio Jaguarão, na sua segunda metade até a cidade de Jaguarão, é todo intercalado por espigões de pedra. São como pequenos molhes de pedra que saem da margem em direção ao meio do rio. Todos estão Abaixo: Ao amanhecer, a neblina enfeita as simpáticas dependências do clube. Ao lado do Mojud, ainda dorme o alemão Jorge, no seu “Ten-percent”.

103


500 Milhas de Água Doce

Acima: A ponte sobre o Rio Jaguarão, com as torres da alfândega em cada cabeceira.No meio da ponte, Paula, Gabriel e Valentina defronte à marca de divisa entre Brasil e Uruguai.

Jaguarão

Brasil Rio Branco

Volta do Negro Morto

Rio Jaguarão Uruguai

Lagoa Mirim

Abaixo: A arquitetura local é um especial atrativo turístico.

104


Jaguarão

submersos e, por esse motivo, não se pode descuidar da rota sob pena de abrir um rombo no casco. O objetivo da construção de tais espigões foi o de fixar o curso do rio, que também serve de fronteira entre Brasil e Uruguai. Era domingo à tarde e a nossa chegada ao clube estava sendo esperada por vários sócios, com suas famílias. Logo após atracarmos o Mojud, tivemos uma longa sessão de apresentações e cumprimentos, que a Paula e as crianças - mais tímidas nessas ocasiões - enfrentaram com bravura. Depois do merecido banho quente, agasalhamo-nos, pois estava muito frio, e fomos, a pé até a cidade, procurar um restaurante para “jantar fora”. Era noite de domingo e, em pouco mais de vinte minutos de caminhada, chegamos até a praça central de Jaguarão. Fomos surpreendidos pela beleza das construções antigas, pelo intenso movimento de pessoas, passeando à noite, pelas ruas da praça iluminada, defronte à igreja. Não achamos o restaurante que queríamos, mas não ficou faltando nada. Havia vários trailers de cachorro quente ao redor da praça, com mesas na calçada, servindo sanduíches muito bem preparados. A gentileza e a simpatia em todos os lugares em que fomos era nota mil! Ao lado do Mojud, estava atracado um barco alemão, de uns vinte e quatro pés, chamado “Ten-per-cent” do alemão Jorge. Ele já estava há um mês no clube e era fácil de entender o porquê. Apesar do Iate Clube de Jaguarão não ter uma grande infra-estrutura - é um clube muito pequeno -, a hospitalidade que seus sócios oferecem, a todo o momento vindo da cidade para perguntar se precisávamos de algo, da beleza da cidade e da simpatia de seu povo, fazem com que a gente vá adiando a saída. No dia seguinte à nossa chegada, fomos até o lado uruguaio do rio, na cidade de Rio Branco, atravessando a pé a ponte, que tem nas suas cabeceiras os postos de fiscalização dos dois países. A ponte foi construída em 1930 e possui quatro pequenas torres de cada lado, onde se abrigam as dependências da Polícia Federal brasileira e uruguaia. É uma construção magnífica. O Gabriel disse parecer estar nas pontes de Londres. A pequena cidade uruguaia de Rio Branco concentra seu comércio em apenas uma rua, mas vale à pena ir até lá para comprar 105


500 Milhas de Água Doce

queijos e doce de leite. Voltamos ao iate clube, onde o Sr. Couto fez contato por rádio com “Control Rio Branco”, e solicitamos a permissão para navegar com o Mojud em águas uruguaias, no que fomos atendidos sem qualquer restrição. Aproveitamos o resto do dia para as crianças estudarem e a Paula e eu fizemos uma faxina completa no Mojud.

106


CapĂ­tulo XIII Ilha Grande do Taquari


P

reenchi o livro de registros de chegadas e saídas do Iate Clube Jaguarão, deixei uma mensagem de agradecimento, assinado pela tripulação. Despedimo-nos dos funcionários e do alemão Jorge, que prometeu nos encontrar pelo caminho, e saímos do clube às 10 horas da manhã. Descemos o Rio Jaguarão a motor, pois o vento era muito fraco. Fui marcando os pontos no GPS, da metade do rio até a foz, onde nos havíamos perdido na subida do rio. À uma da tarde, chegamos à foz do rio, na saída para a Lagoa Mirim, com cerração fechada à frente. Ancoramos o Mojud numa enseada muito bonita, que fica na margem esquerda do Jaguarão, e fui até uma canoa de pescadores, que estava atracada contra o barranco, para pedir informações sobre a passagem do banco da Punta Muniz. Abaixo: Finalmente, ventos mais favoráveis para velejar.

109


500 Milhas de Água Doce

Consultei o livro do Décio Emígdio e registrei no GPS a passagem do banco, pois a cerração estava prometendo fechar a nossa mangrulho

Rio Jaguarão mangrulho

mangrulho

Uruguai

Banco do Muniz

Rio Tacuari mangrulho

Ponta Santiago

Ponta Parobé

Ilha Grande do Tacuari

Banco do Tacuari

Mangrulho

Abaixo: Velejando rumo à Ilha Grande do Taquari.

110

Brasil


Ilha Grande do Taquari

visão. Saímos a motor, mais uma vez, com a lagoa espelhada e a costa sumindo na neblina atrás de nós. A Paula já tinha preparado o almoço e fomos comendo durante a navegada, com o barco totalmente estável. Passamos pela frente do balneário Lago Merim, onde uruguaios e brasileiros têm suas casas de veraneio, deixamos a foz do Rio Taquari por boreste e rumamos direto para a Ilha Grande do Taquari. Pelas três da tarde começou a soprar uma brisa de nordeste e aproveitamos para abrir as velas e economizar um pouco de gasolina. A Ilha Grande do Taquari possui uma lagoa interna, ao norte, e outra com entrada pelo lado leste, além de um pequeno alagado pelo lado sul. Estava entardecendo, quando chegamos à lagoa norte, circulamos por seu interior, onde havia uma pequena praia e alguns barcos de pesca ancorados, e seguimos para circular a ilha, procurando um outro abrigo, um pouco menor, pois o tempo não estava firme e eu preferia fundear num abrigo mais protegido, com menos área alagada. Fomos contornando a ilha pelo oeste, rumando para o sul, e encontramos o pequeno alagado, que julgamos apropriado para ancorar o Mojud. A água era bem transparente, podendo ver-se o cabo da âncora por vários metros dentro dela. O Gabriel preparou seu material de pesca e eu montei uma vara com isca artificial, para tentar algo no arremesso e recolhida: nada; só lambaris... Os mosquitos apareceram. Eram enormes e muito numerosos. Picavam mesmo por sobre o abrigo de moletom ou por cima das meias. Abaixo: Abrigados num dos alagados da ilha, assistimos ao belo entardedecer; à noite, a âncora garrou e quase fomos nos enroscar contra as árvores secas, ao fundo.

111


500 Milhas de Água Doce

Resolvemos entrar para a cabine, antes que eles se combinassem e nos levassem voando para qualquer lugar. Dentro da cabine, a Paula esperava com café quente, queijo uruguaio, mel e “croassants”: uma delícia! Três horas da manhã, sou acordado por barulhos esquisitos na popa. Levanto rápido e abro a gaiúta para ver do que se trata: a âncora havia garrado, o Mojud estava sendo arrastado pelo vento e já estávamos entrando no meio de umas moitas de árvores secas que, com a lagoa cheia, estavam semi-submersas. Visto rápido o agasalho, pois está muito frio, e chamo a Paula, para que ela se agasalhe e venha recolher a âncora. Abaixo o motor, dou a partida e espero que aqueça alguns segundos, antes de engrenar a marcha, pois, frio, ele apagaria. Enquanto isto, a Paula sobe ao convés e vai até o cabo da âncora. Não há tempo para que ela recolha a âncora: o Mojud está entrando de lado no meio das árvores. Engreno a marcha ré e começamos e sair de popa, rebocando a âncora que, apesar de superdimensionada para esse barco, tinha se emaranhado em galhos no fundo e, por esse motivo estava sem a menor condição de unhar. Quando o vento nordeste apertou, de madrugada, ela simplesmente arrastou o monte de entulho junto conosco. Voltamos para o local onde estávamos fundeados. Desta vez, cheguei o mais próximo possível do mato. Não dá para dizer que cheguei próximo de terra, pois, com a cheia da Lagoa Mirim, estava tudo debaixo d'água. Nesta nova tentativa, a âncora unhou decentemente no fundo de lodo e fomos dormir novamente.

112


CapĂ­tulo XIV Rio Cebollati


P

ela manhã, tomamos café e fomos conhecer a lagoa do lado leste, que também fica no interior da Ilha Grande do Taquari. O vento nordeste continuava soprando a pouco mais de 15 nós e convidando a aproveitá-lo e descer logo, rumo ao Rio Cebollati, maior afluente da Lagoa Mirim. Assim, apenas marcamos o ponto de entrada da lagoa leste no GPS e arribamos. O vento já estava mais forte e a Paula içou a vela grande já na primeira forra de rizes. A carta náutica mostra o Rio Cebollati desembocando na Lagoa Mirim no meio de uma ponta de terra que avança para dentro da lagoa. Como a carta é datada de 1911, certamente este relevo já é outro. Eu tenho o ponto de entrada na barra, marcado no GPS, colhido do livro do Décio Emígdio, porém, não sei se posso rumar diretamente para ele ou se deverei, vindo do norte, contornar primeiro a tal ponta de terra. Não sei se a entrada do rio está ao abrigo do vento que nos empurra ou bem de Abaixo: Com o vento em popa aumentando, abrimos a buja, com o pau de spinnaker; Paula e Valentina passam horas confabulando no convés.

115


500 Milhas de Água Doce

frente para ele. Ainda haveria mais um banco a cruzar, de modo que tomamos um rumo mais na direção da Ponta dos Afogados, pois assim chegaríamos à boca do Cebollatí mais pelo través da costa, o que, pelo desenho da carta náutica, parecia ser o mais recomendado.

Uruguai

Ponta Sarandi Arroio Sarandi Grande

Banco Sarandi Ponta Canoa

Ponta dos Afogados Rio Cebollati

Ponta Cabollati

Brasil

Ponta Magra

116


Rio Cebollati

O Nordestão já estava soprando acima de 25 nós, com ondas grandes pela popa, quando avistamos a ponta de terra, coberta de vegetação, cortando o nosso rumo, umas quatro milhas à frente. Sem dúvida, era a tal ponta de terra da desembocadura do Rio Cebollati. Minha dúvida era se ele desembocava a barlavento ou a sotavento daquela ponta de terra: se eu devia rumar diretamente na direção para onde indicava o ponto do GPS ou se deveria contornar a terra. À distância, não podíamos distingüir a entrada do rio e o vento em popa, forte, não nos daria muito tempo para decidir o que fazer: nossa capacidade de manobra estava restrita, pois se avançássemos além do ponto, na direção da praia, não teríamos como voltar contra aquele vento, nem mesmo a motor. Qualquer falha na navegação, significaria um encalhe na beira da praia, com as ondas quebrando sobre o costado do barco. Resolvi baixar a vela grande e deixar metade da buja, sustentada pelo pau de “spinaker”. Isso me daria uma possibilidade maior de recolher a vela, sem precisar ir até o convés, pois bastaria caçar o cabo do enrolador da buja e o pau de “spinaker” fecharia para a proa até encostar no estai, junto com ela, no momento em que eu percebesse que acionar apenas o motor fosse a melhor saída, pois a profundidade já estava diminuindo, conforme a terra se aproximava. A qualquer momento, eu teria que guinar para boreste, ou para bombordo, caso não achasse a entrada do rio. Sem profundidade para bolina e leme, só nos restaria a opção de sair dali a motor, o que, com ondas grandes e cavadas, é muito difícil. O vento nos empurrava rapidamente para a praia à nossa frente. Já estávamos com o ecobatímetro marcando dois metros de profundidade, quando vi, à direita, a entrada do rio, ou, pelo menos, o que Abaixo: Ondas pela popa forçam o comandante a ficar atento ao leme para prevenir as perigosas atravessadas.

117


500 Milhas de Água Doce

parecia ser isso. Gritei para o Gabriel abaixar o motor e tocar adiante, enquanto eu mudava de rumo para oeste e ia até a proa retirar o pau de “spinaker” para que pudéssemos caçar a buja o suficiente para que ela auxiliasse o motor, pois agora pegaríamos o vento de través e as ondas, de mais de um metro e meio de altura, rugiam sobre a nossa alheta de boreste. Por sorte, ainda havia uns cem metros de lazeira entre o Mojud e a praia, de modo que conseguimos avançar até a suposta entrada do rio, que, na verdade, tratava-se de uma pequena ilha na boca do Cebollati. Contornamos a ilhota por sotavento e entramos, agora com certeza, no Rio Cebollati, empurrados em popa pelo Nordestão, que continuava soprando forte, porém agora com ondas mais “civilizadas”.

Rumamos até a Ilha do Padre, onde o Cebollati se bifurca, mas resolvemos voltar para um abrigo que já havíamos visto na entrada do rio. Nosso plano era aproveitar o vento favorável para seguir viagem, rumo ao fundo da Lagoa Mirim, no dia seguinte. 118


Rio Cebollati

O rio estava cheio, de modo que amarramos o Mojud no tronco de uma árvore, ao abrigo de uma ilhota, que estava totalmente submersa, mas cuja vegetação nos protegia do vento. Largamos outra âncora pelo través e fomos pescar, pois o local parecia ser um bom pesqueiro. O Gabriel preparou o material e foi pegar uns lambaris para isca. A Valentina logo trouxe a sua vara também. Depois de uns vinte minutos com as linhas na água, a Valentina começou a gritar: - Peguei! Peguei! Peguei! - recolhendo a linha, com afobação e euforia, e iça um jundiá a bordo. Enciumado, o Gabriel já fecha a cara. - Que saco! Sou eu quem faz tudo. Arrumo o material, pego a isca, destranco as linhas no fundo e ela é quem pega. - Reclama. Passam mais dez minutos e ela grita, novamente: - Peguei! Peguei! Peguei! Desta vez, para o desespero do Gabriel, era uma joaninha de bom tamanho. O Gabriel desistiu, de vez, da pescaria e ficou pescando apenas lambaris. Para ser solidário, ao final, disse que limparia os peixes. À noite, o luar estava magnífico, compondo com as árvores desfolhadas e alagadas da ilha e o reflexo do rio um cenário de fantasia. Estava muito frio: preferimos nos recolher para o costumeiro jogo de cartas e depois dormir. Abaixo: Bem abrigados numa reentrância do Rio Cebollati, Valentina pesca todas as joaninhas: é o dia dela.

119


CapĂ­tulo XV O Extremo Sul do Brasil


S

aímos do Cebollati com vento fraco, de nordeste, e conseguimos velejar confortavelmente para o nosso rumo. Tracei uma rota mais para o lado da costa brasileira, para livrar com segurança a Ponta Magra e a Ponta Pelotas. Passando pela Ponta Pelotas, guinamos para oeste para costear as terras uruguaias, à procura do Arroio Pelotas. Não foi difícil localizar o arroio, apesar de sua boca ser estreita e do ponto da rota ser colhido da carta náutica, que possui uma diferença real com a navegação pelo GPS. A Paula preparou um quibe no forno e, quando entramos no Arroio Pelotas, resolvemos almoçar por ali mesmo. A foz do arroio é adornada por lindos salseiros, sendo que a margem esquerda possui um barranco de areia, com mais de dois metros de altura, que desce quase verticalmente até a profundidade de sete Abaixo: A entrada no Arroio Pelotas, ancorado contra o barranco de areia e Valentina brincando nas árvores: um dos mais belos luguares de ancoragem.

123


500 Milhas de Água Doce

Ponta Magra

Ponta Pelotas

Arroio Curral d’Arroios

Uruguai Brasil

Arroio Pelotas

mangrulho Porto de Santa Vitória

Saco da Felizarda

Arroio San Luiz

Santa Vitória do Palmar

Saco de São Miguel

Arroio São Miguel

Chui 18 de Julho

Forte San Miguel Oceano Atlântico

124


O Extremo Sul do Brasil

metros. É perfeito para encostar a proa, colocando-se a âncora na areia e deixar o barco encostar no barranco por qualquer dos lados, sem risco. Na margem direita do arroio, o terreno é gramado e coberto por salsos baixos. Logo que a Valentina viu o lugar, sentenciou: - Hoje vamos fazer um piquenique! Enquanto o Gabriel pescava lambaris, no deck de popa do Mojud, e o quibe assava, no forno, a Paula, a Valentina e eu fomos fazer uma incursão de bote para dentro do Arroio Pelotas. Uma vegetação variada e muito viçosa, contrastando com o que havíamos visto nos últimos dias, encheu nossos olhos de encantamento. Pássaros coloridos voavam, de uma margem à outra do arroio, à medida que íamos avançando, e os peixes pulavam à nossa volta. Um gavião de bom tamanho apenas nos observava passar, com seu olhar altivo, do topo de uma árvore. Remamos uns trezentos metros arroio acima e logo retornamos, pois era hora do piquenique, que acabamos fazendo sobre a areia, na frente do Mojud, estendendo uma toalha no chão e sentando-nos ao redor. Esse era, sem dúvida, um dos lugares mais lindos que já havíamos aportado, desde que começáramos a velejar com o Mojud pelas águas das lagoas. Ainda tínhamos a tarde inteira pela frente, e a intenção de chegar logo ao fundo da Lagoa Mirim, pois estava anunciada a chegada de uma frente fria, com ventos do quadrante sul, o que nos fez juntar os restos do piquenique e recolher a âncora para seguir viagem. O vento acalmou totalmente e o céu começou a fechar cada vez mais, prenunciando a virada do tempo. Abaixo: A facilidade de desembarcar direto sobre a areia, para curtir uma refeição na praia, logo ao lado do Mojud.

125


500 Milhas de Água Doce

Acima: O vento parou completamente, dando lugar à neblina e a uma estranha sopa de letrinhas, feitas de espumas.

A lagoa foi ficando lisa e pudemos presenciar um fenômeno bem curioso: os restos de espumas das rebentações das ondas agrupavam-se em pequenos círculos, do tamanho de um biscoito e conectavam-se entre si, formando as mais variadas figuras. A superfície da lagoa estava ficando tal qual uma sopa de letrinhas. Chamei a Valentina para ver as espumas e ela logo se encantou, começando a descobrir letras e números formados pelas espumas, agrupadas de modo estranhamente regular. Uma hora após deixarmos o Arroio Pelotas, estávamos navegando defronte a desembocadura do Rio São Luiz. Com cerca de cem a duzentos metros de largura na boca, com uma vegetação comum em ambas as margens, o São Luiz não nos pareceu convidativo. Assim, seguimos direto para o fundo do Saco São Miguel, a parte mais estreita da Lagoa Mirim, tendo pouco mais de uma milha de largura, e, ao fundo, a boca do Arroio São Miguel: nosso destino mais ao sul. Abaixo: A proa do Mojud cortando as águas totalmente transparentes do sul da Lagoa Mirim, adentrando o Arroio São Miguel e passando ao lado de um marco da divisa, servindo de cais para os pescadores.

126


O Extremo Sul do Brasil

Conforme nos aproximávamos do fundo do Saco São Miguel, íamos percebendo, cada vez com mais nitidez, os detalhes da Serra São Miguel: a única conformação de montanhas ao redor da Lagoa Mirim. Encontramos a boca do Arroio São Miguel, que, notadamente, estava com suas águas bem acima das margens. Logo adiante da boca, há um marco de pedra, grande, que é um dos marcos da divisa de territórios entre Brasil e Uruguai. O marco está do lado brasileiro, emergindo da água, e uma cena curiosa: três ou quatro barcos de pescadores atracados contra ele, e os pescadores todos empoleirados sobre os degraus do marco, tal qual um bando de biguás sobre um mangrulho. Fomos seguindo o São Miguel acima, pois nossa intenção era chegar até o limite máximo navegável por veleiro, onde há uma ponte, que corta o rio e marca a divisa Sul do Brasil. Nas proximidades da boca do arroio, na sua primeira milha, ficamos muito decepcionados, pois nada havia além de copas de sarandis emergindo das águas, formando o curso do arroio. Este, por sua vez, estava coberto de pequenas plantas boiadeiras, semelhantes a pequenos repolhos flutuantes, que, às vezes, chegavam a cobrir todo o leito, de margem a margem, por grandes distâncias. Essas plantas formavam um grande tapete verde, sobre o qual o Mojud cruzava a motor sem grandes dificuldades, deixando-o ondulando mansamente na nossa esteira. A duas milhas arroio acima, começou a surgir uma vegetação marginal muito bonita, com copas de árvores sem folhas, na maioria salseiros e outras árvores, cobertas por “barba de pau”. Parecia um cenário sinistro de filme de terror, mas, ao mesmo tempo, muito bonito. Navegamos por quase uma hora arroio acima, quando Abaixo: Com a cheia da Lagoa Mirim, tornou-se impossível decifrar o traçado do rio e resolvemos voltar.

127


500 Milhas de Água Doce

deparamos com uma área totalmente inundada, sem qualquer vegetação marginal que pudesse nos sugerir o curso do arroio, apenas alguns moirões de cercas, que afloravam de vez em quando sobre a superfície, sempre coberta por aquele imenso tapete de “repolhinhos”. Sem conseguir distinguir o curso do arroio das terras das fazendas inundadas, resolvemos dar meia volta e procurar um abrigo, pois já estava anoitecendo e o tempo estava muito incerto. Após uns quinze minutos, descendo de volta o arroio, encontrei um local, com um pequeno barranco de musgos aflorando sobre e superfície, com alguns sarandis protegendo contra ventos dos quadrantes sul e oeste e amarrei o Mojud contra o tronco de um arbusto. Deixei alguns metros livres de cabo, para que o barco pudesse se ajeitar de um lado ou de outro, caso mudasse o vento durante a noite. Tudo arrumado e recolhido no convés, colocamos o mosquiteiro na gaiúta principal, para nos proteger dos poderosos mosquitos, e fomos nos abrigar no interior da cabine. À noite, fiz contato, por rádio, com o Controle Chuí, estação de rádio uruguaia, para informar nossa localização e pedir permissão para o pernoite. Eles me deram o prognóstico do tempo, com previsão de “tormentas y rachas de fuerza 7”- temporais e ventos de até 35 nós. Logo após a comunicação com a rádio uruguaia, recebemos um chamado do veleiro “King's Son”, do comandante Adriel, que estava abrigado num arroio no Saco da Felizarda, defronte Santa Vitória do Palmar. Ele disse que pretendia subir o São Miguel e que já conhecia o caminho, pois tinha feito o percurso dois anos antes e, na ocasião, havia Abaixo: Sob uma chuva fina, Celso e Valentina observam o King’s Son, à frente, descobrindo o caminho com registros antigos de GPS, para chegar até a ponte que marca o extremo sul da nossa viagem.

128


O Extremo Sul do Brasil

Acima: A placa rodoviária que indica a distância de 8Km até a cidade de San Miguel; a ponte e os dois marcos da divisa e o King’s Son procurando um local para aportar.

marcado os pontos no GPS. O tempo estava meio incerto, mas combinamos para nos encontrar no dia seguinte, quando ele subiria o arroio São Miguel e, a partir do nosso ancoradouro, seguiríamos junto, na sua esteira. O dia amanheceu nublado, com alguma garoa e sem vento. Nada das tormentas anunciadas pela rádio uruguaia. O “King's Son” chegou até nós e partimos, a motor, subindo o arroio até a divisa. Foi mais de uma hora subindo o São Miguel. O Gabriel foi todo o tempo no leme, mantendo - às custas de muitas advertências da minha parte - uma distância prudente da popa do King's Son. Caso ele encalhasse, teríamos tempo de parar o Mojud sem abalroá-lo. Na divisa sul do Brasil, o arroio São Miguel segue adiante em solo uruguaio, sendo cortado por uma ponte e uma estrada que, na margem direita do arroio, o lado norte da estrada é Brasil, o resto é Abaixo: Valentina e Gabriel no marco uruguaio da divisa, com o Mojud sobre a vegetação ao fundo. Sob chuva fina, a caminhada até o Fuerte San Miguel.

129


500 Milhas de Água Doce

Acima: Valentina, Celso e Adriel entrando no forte, sobre a ponte elevadiça; o pátio do Museo del Uniforme e a vista por sobre as muralhas, com a ponte, os mastros dos barcos e o curso do Arroio São Miguel, ao fundo.

Uruguai. Na margem esquerda do arroio ambos os lados da estrada pertencem ao Uruguai, onde, próximos do arroio - da divisa encontram-se as instalações da polícia e da “Aduana”, somente no lado uruguaio. Estava difícil de encontrar um barranco do rio para desembarcarmos. Todas as margens eram cobertas por banhados e vegetação boiadeira, não permitindo uma aportagem para descer em seco. Seria impossível atingir com o bote a remo um lugar firme o suficiente para que desmbarcássemos. Resolvi avançar com o Mojud direto sobre a vegetação e, assim, chegar o mais próximo possível do barranco.Tive de acelerar e avançar o barco sobre um grande manto de aguapés e vegetação boiadeira até que encalhasse totalmente. Depois disso, tivemos de puxar o bote por cima da vegetação e colocá-lo na proa, para, passando sobre ele, alcançarmos um terreno um pouco mais firme. O “King's Son” atracou na nossa popa, de modo que o Adriel pode se utilizar da nossa “ponte” para ir em terra. No topo da Serra San Miguel, a pouco mais de um quilômetro da ponte, está o Fuerte San Miguel, construído pelos espanhóis em 1737, mesmo ano da fundação de Rio Grande. O forte foi reconstruído em 1936 e encontra-se em estado de conservação primorosa. Nas suas dependências foi instalado o “Museo del Uniforme” e está aberto a visitas diariamente. Caía uma chuva fina, mas enfrentamos a caminhada e valeu a pena. Lá de cima do forte se avista toda a planície ao redor, em especial a parte sul da Lagoa Mirim, o Arroio São Miguel e o Mojud, ancorado 130


O Extremo Sul do Brasil

junto à ponte, no extremo sul do Brasil. Esse era o destino mais longínquo da nossa viagem. A partir de agora, a viagem começaria a ser de retorno.

131


Cap铆tulo XVI Santa Vit贸ria do Palmar


P

ensamos em ir até o Chuí para comprar gasolina, mas o Adriel sugeriu que o fizéssemos em Santa Vitória do Palmar, pois a cidade era mais próxima do porto e gastaríamos menos com táxi. Almoçamos, desencalhamos o Mojud daquele mar de aguapés e boiadeiras e voltamos a descer o Arroio São Miguel, desta vez, debaixo de chuva o tempo todo. No final da tarde, antes de chegar à beira da lagoa, procuramos um abrigo para ancorar e, por coincidência, achamos o mesmo local em que havíamos amarrado o Mojud na noite anterior. Desta vez, a previsão uruguaia se confirmou. A partir das oito e meia da noite, começaram a cair raios ao longe e, em uma hora, estavam sobre nós. Chuvas fracas, médias e fortes se intercalavam. Raios, raios e mais raios clareavam a paisagem lá fora e o interior da cabine. O vento, entretanto, continuava norte ou nordeste, o que indicava que esta instabilidade iria continuar. Não consegui dormir a noite inteira, por causa dos barulhos diversos: ventos, chuvas, raios e o Mojud se movimentando para lá e para cá, contra o barranco do arroio. Ao amanhecer, um raio muito próximo de nós fez a Valentina saltar da cama assustada. O Gabriel, que também já estava acordado, fez apenas os seus costumeiros comentários sarcásticos. A Paula levantou e foi se deitar com a Valentina. Já iam mais de doze horas de chuvas e raios. 135


500 Milhas de Água Doce

Eu tinha combinado com a rádio Control Chuí de fazer um contato às oito horas da manhã, mas era totalmente inapropriado ligar o rádio entre tantos e tão constantes raios que caíam à nossa volta. Quando acalmava por alguns minutos e eu pensava em ligar o aparelho - conectar os cabos da bateria e da antena - bastava eu me aproximar, que já vinha outro clarão e trovão. Somente às onze e meia da manhã os raios sossegaram de vez e pude fazer o contato com a Control Chuí e os uruguaios nos informaram que a previsão era de mais ventos e mais chuvas para o dia seguinte, porém não tão intensos. Aproveitei que tínhamos sinal no telefone celular e liguei para o Clube Náutico Tapense, do qual somos sócios, e pedi ao Marcos que verificasse a previsão do CPTEC para o Chuí, onde nos encontrávamos. Alguns minutos mais tarde, ele ligou de volta: “Não tenho boas notícias para vocês”, disse ele. “Mais chuvas pela frente,” finalizou. A espera de mais um dia ou dois para sairmos do São Miguel não era o maior problema. O grande desconforto era a umidade. Já tínhamos muitas roupas molhadas a bordo, resultado das navegadas debaixo de chuva e do passeio até o Forte San Miguel. Além disso, havia algumas goteiras insistentes. Duas delas na minha cabine: uma na minha cabeça, vinda da gaiúta, que às vezes me acordava com pingos na testa, outra nos pés da cama, onde as cobertas e os lençóis já estavam molhados. A Paula evitava cozinhar qualquer tipo de comida que pudesse gerar vapor, pois a umidade dentro da cabine já estava acima de 80%, dando preferência a assados, que ajudavam a secar um pouco o ambiente, com o calor do forno. Com o barco todo fechado - apenas a ventilação da gaiúta de entrada permitindo a passagem do ar - o fogão consumia muito oxigênio e isso gerava mal-estar na tripulação. Meu casaco impermeável já estava molhado por dentro e por fora. Quando eu tinha de ir ao convés, tirava toda a roupa seca, colocava outra já molhada e subia para executar as tarefas de convés o mais rápido possível, para voltar ao interior da cabine, tirar a roupa molhada - gelada - secar-me, como desse, com uma toalha já úmida e, por fim, tentar aquecer o meu corpo com uma roupa seca novamente. Numa das minhas idas ao convés, instalei um pequeno toldo sobre a gaiúta de proa. Na verdade, apenas abri a gaiúta com ele amarrado aos pés dos guarda-mancebos, pois, se instalasse um toldo 136


Santa Vitória do Palmar

mais alto, uma rajada mais forte de vento poderia arrancá-lo e me fazer voltar ao convés novamente. O Mojud, realmente, não estava bem equipado para muitos dias de chuva e umidade dentro da cabine, e isso estava abaixando a moral da tripulação. Como que percebendo isso, o São Pedro deu uma forcinha e abriu uma pequena janela no céu, às quatro horas da tarde, deixando bater um pouco de sol sobre nós. Rapidamente, estendemos cabos entre os estais e colocamos as roupas, lençóis e cobertores a secar. Por pouco tempo que fosse, já ajudaria. O simples fato de poder subir ao convés, respirar um pouco, sentir o vento e o sol, já foi um grande alívio para o espírito de todos: estávamos prontos para mais dois dias de chuva. E ela voltou. Pior: à noite, a Paula sentiu nossos lençóis molhados na altura da cintura. Enfiei a mão por baixo do colchão e percebi que estava tudo ensopado. Retiramos, rapidamente, os lençóis de cima e colocamos sacos plásticos de lixo sobre o colchão, para evitar a umidade que agora nos atacava por todos os lados. Amanheceu com vento sul, finalmente, e o Arroio São Miguel, que já havia subido quase um metro, voltou a esvaziar, mostrando novamente suas barrancas. Logo cedo, fui ao convés e subi na retranca, para examinar o horizonte, de um ponto mais alto. O céu ainda estava totalmente encoberto, com chuvas em alguns pontos, mas era hora de sair. Chamei o Gabriel para recolher a âncora e soltar as amarras, enquanto a Paula e a Valentina ainda dormiam. Ele veio cheio de boa vontade, pois já estava cansado de ficar preso naquele lugar, debaixo de chuva. Logo que entramos na lagoa, abrimos as velas em asa-de-pombo, pois o vento sul era de popa rasa, para sair do Saco de São Miguel. Quando viramos para nordeste, após dobrar a Ponta do Paraguaio para cruzar o Saco da Felizarda, o vento rondou para sudeste, de modo que tivemos de caçar bem as velas, para orçar rumo ao porto de Santa Vitória do Palmar. Conforme avançávamos na direção do porto, o vento ia aumentando e uma chuva ia despontando bem no nosso destino. 137


500 Milhas de Água Doce

Eu estava um pouco tenso, na chegada, pois me informaram que eu encontraria uma base de um mangrulho que já não existe mais, que marca a extremidade de um conjunto de molhes de proteção submersos, que contornam o lado sul de um trapiche e que eu deveria navegar entre esse trapiche e o espigão de pedra submerso, até atingir um pequeno canal utilizado como porto pelos pescadores. O problema das informações que eu recebera era com relação às medidas: “contorne por perto do trapiche, pois você não verá os molhes que o circundam”- perto quanto? Dez metros, vinte? - “Entre o espigão de pedra e o trapiche”. - Qual a distância entre ambos? Dez metros? Cinqüenta? Cem? Tudo isso tinha ficado muito vago, apesar das minhas insistentes indagações por mais precisão. Eu teria que descobri agora, na hora em que estivesse entrando a motor, com uma rajada de vento de 30 nós, de sudeste, acompanhada de chuva fina que voava horizontalmente direto nos olhos. O trapiche, finalmente, apresentava-se como uma imensa estrutura de concreto, construída sobre pedras, que eu estava deixando por bombordo, contra o qual o vento queria nos empurrar com violência. Um novo padrão de ondas se apresentava, confusas, vindo de diversas direções, geradas pela maior profundidade do local dragado, superior a cinco metros. Não poderia me afastar muito deste trapiche e das pedras da sua base, pois, pelo outro lado, por boreste, em algum lugar, a uma distância desconhecida de nós, a uma profundidade desconhecida, uma parede de pedras submersas, cujo objetivo era “proteger” a entrada do trapiche nos atemorizava. Fomos entrando, vencendo o vento, as ondas e o fantasma do molhe submerso. A Valentina ia dentro da cabine, a postos para manejar a bolina. A Paula e o Gabriel iam na proa. Ele com o bambu, para conferir a profundidade, e ela preparada para lançar âncora, ao meu comando. Vencemos a parte tumultuada, entre as docas de concreto, sobre as ondas nervosas, contra a rajada de vento sudeste e sem bater no tal espigão de pedras submerso e adentramos no pequeno canal dos pescadores, com águas tranqüilas e barrancas altas, de areia e terra. Apesar do espaço estreito, com não mais de vinte metros de largura, do cheiro forte de peixe, misturado com carniça e estrume de vaca, de estarmos entrando num meio de pessoas que nos olhavam como diferentes e - talvez - indesejados, para mim aquele buraco que havia 138


Santa Vitória do Palmar

sido cavado para fornecer aterro à estrada que corria ao lado era, naquele momento, um paraíso. Encostei o Mojud contra o barranco, por boreste, passando uma âncora pela proa e outra pela popa.

Porto de Santa Vitória do Palmar

mangrulho

trapiche

molhes submersos

Desembarquei e fui até um grupo de pescadores, que consertava o motor de um barco de pesca. Eu tinha de comprar gasolina e, para isso, precisava de um táxi. Logo que me aproximei do grupo, um dos pescadores, que parecia ser uma espécie de chefe, dirigiu-se, interrogativo para mim. Expliquei que precisava comprar gasolina e, para isso, tinha de conseguir um táxi. O pescador, com ar sério e até um pouco ríspido, olhou para a outra margem e gritou: - Ô guri! Vai até em casa e pega com a mãe o telefone do ponto de táxi! Dois garotos que estavam na estrada, na outra margem do canalete, imediatamente puseram-se a pedalar para casa. Fiquei um pouco por ali, como que interessado pelo serviço deles, e, depois de algum tempo, como os garotos não voltavam, voltei até o Mojud. Peguei minha agenda e uma caneta, para anotar o número do ponto de táxi e, uns dez minutos depois, voltei até os pescadores. 139


500 Milhas de Água Doce

Logo chegou um outro rapaz, me estendendo a mão, com um telefone celular. - Eu tenho telefone.- Disse.- Preciso apenas saber o número do ponto de táxi. Nisso, o “pescador chefe”, austero, de barba grisalha, que tinha me atendido antes, pegou o telefone e disse: - Dá aqui! Eu vou chamar. Se não ele pode pensar que é trote. Ele digitou o número que o rapaz trouxera num pequeno pedaço de papel. - Alô! É do táxi?! - gritou o pescador - Aqui no Cebinho!... É! AQUI NO CEBINHO! Ele falou tão alto, que em ambas as margens do canal todos pararam para ouvi-lo. Parecia ser um homem mais que respeitado - até temido - no lugar. - Muito obrigado.- Estendendi a mão, em agradecimento. Qual é o seu nome? - perguntei. - Cebinho. - respondeu, com o mesmo ar austero. Voltei para o Mojud, preparei os galões, peguei meus documentos, dinheiro, e chegou táxi para nos levar ao centro de Santa Vitória do Palmar. A Valentina veio comigo e o Gabriel nos atravessou o canal, com o bote, até onde estava o carro tinha estacionado. O que o Sr. Cebinho tinha de austero o João, motorista do táxi, tinha de risonho e conversador. Passava mais tempo conversando e olhando para o meu lado do que prestando atenção aos pedestres e ciclistas, que pareciam achar normal um táxi naquela velocidade tirar finos tão estreitos de seus corpos e bicicletas. O táxi do João devia, certamente, ser equipado com algum tipo de piloto automático, com sensor protetor de pedestres, pois não acredito que o motorista estivesse mais atento ao percurso que ao seu interlocutor - ou ouvinte: eu. A conversa girou entre as plantações de arroz e a crise no setor, que agora “plantam” ovelhas no lugar do arroz; sobre a crise, que gera assaltos e violência, que causou inclusive a morte do seu irmão, num assalto, com catorze facadas, enquanto dirigia o táxi para ele, e que deveríamos nos cuidar com o barco por ali, etc., etc.. Fomos ao posto de gasolina e ao supermercado e voltamos para o 140


Santa Vitória do Palmar

barco. Quando descemos do táxi e o Gabriel “nos remava” de volta para o Mojud, a Valentina perguntou: - Pai, foram catorze ou dezessete facadas que o irmão dele levou?.. O vento ainda estava forte e já eram mais de meio dia, mas nem a Valentina nem o pai dela queria passar a noite ali. Almoçamos, manobramos o Mojud com os cabos de âncora e partimos de volta para cruzar entre o trapiche e os molhes submersos. Desta vez, porém, com o auxílio do GPS, que havia gravado, com precisão, a nossa entrada e com vento a favor: agora sei entrar e sair do porto de Santa Vitória do Palmar, sem susto.

141


Capítulo XVII Arroio Curral D’Arroios e dos Afogados


O

vento era sudeste, proporcionando uma velejada gostosa rumo ao próximo ponto de abrigo. Pelas informações que eu recolhera, optei por buscar o Arroio Curral D'arroios. Mais uma vez, o tempo estava incerto, de modo que fui procurando outros possíveis pontos de abrigo pelo caminho. Achamos um canal de irrigação e entramos. Havia um acampamento de pescadores fechado, algumas canoas vazias e semi-afundadas dos dois lados do canal e um cachorro branco, que parecia estar de guarda do acampamento. A Paula achou o local sinistro e pediu para seguirmos adiante. Navegamos mais uma hora e achamos o Arroio Curral D'arroios. Este nome deve ser pelo fato deste receber, ao longo de seu curso, uma série de desembocadouros de outros pequenos arroios. Logo na boca do arroio, tinha uma pequena enseada, na margem esquerda, e ali aportamos o Mojud, contra o barranco de areia. Uns cem metros ao lado, um banhado com flamingos colhereiros cor-de-rosa, davam-nos um show de recepção. Na verdade, o banhado era de plantações de arroz, que cercavam o lugar. Para não mudar a rotina, assim que ancoramos, o Gabriel pegou seu caniço de pescar lambaris e se instalou na popa do Mojud para providenciar iscas para traíras e jundiás. Em poucos minutos, já estavam os dois, Gabriel e Valentina, com seus caniços prontos, com lambaris nos anzóis, tentando peixes maiores. Na pescaria anterior, a Valentina que tinha se dado bem, para 145


500 Milhas de Água Doce

Acima: Um barco com bolina pertmite a entrada em canais rasos, em busca de melhores abrigos. Ao centro, flamingos colhereiros, com uma linda plumagem cor-de-rosa.

desespero do Gabriel. Desta vez, a sorte se inverteu e ele pegou um jundiá, logo de saída, de mais de meio quilo. Dali uns quinze minutos pegou outro, maior ainda, e a Valentina começou a ficar irritada. O próximo jundiá fisgado foi dela, mas ficou tão excitada que deixou o caniço de lado e começou a recolher a linha com as próprias mãos. Quando tentava erguer o peixe pela popa do barco, a linha se enroscou entre a escadinha e o motor e arrebentou. Já começou o choro. Para complicar ainda mais, o Gabriel embarca seu terceiro jundiá, enorme, com quase dois quilos. Aquilo foi o fim. Acabou a pescaria para ela, que jogou a carretilha n'água e desembarcou pela proa. Saiu caminhando para longe, chorando de raiva. Preocupado que ela pudesse cair em algum buraco de irrigação pois havia muitos ao redor - o Gabriel foi atrás dela, mas ela não deixou que ele se aproximasse. Logo em seguida, foi a Paula, tentando acalmála. Por sorte, no caminho ela achou uma linda pena cor-de-rosa de um Abaixo: Foi a vez do Gabriel se esbaldar na pescaria de jundiás. Um atrás do outro, um maior do que o outro.

146


Arroio Curral D’Arroios e dos Afogados

Acima: Valentina indignada com a sorte do irmão. E mais um jundiá de mais de cinqüenta centímetros!

flamingo colhereiro e resolveu, com ela, fazer uma caneta à moda antiga, e, assim, a vida a bordo voltou ao normal. À noite, o céu estava com menos nuvens, permitindo que eu ficasse estudando as estrelas e depois visse a lua nascer, bem avermelhada, sobre as luzes de Santa Vitória do Palmar. O dia seguinte amanheceu nublado, frio, com chuviscos. O tempo não estava nem um pouco convidativo a sair para velejar, mas a viagem é longa, temos um prazo para devolver o barco. Nossas reservas de água e baterias são limitadas, de modo que não podemos nos dar ao luxo de ficar muitos dias num só lugar, esperando o tempo melhorar. Saímos cedo, para seguir viagem. O vento leste vinha da margem que estávamos costeando, o que propiciava uma boa velejada sem ondas contra as quais lutar. As redes, entretanto, são nossos maiores obstáculos. O vento aumentando, com rajadas de 25 nós, o Mojud adernando, mesmo com pouca vela, obrigava-nos a ficar atentos, o tempo todo, para as bandeiras e bóias que tentavam nos auxiliar na difícil charada de descobrir onde começava uma rede e onde terminava. “Por onde podemos passar?” Essa é a pergunta constante. Uma pergunta que vai se tornando cada vez mais angustiante, sempre que vamos nos aproximando, a seis ou sete nós, das bandeiras ou bóias. O Mojud tem bolina retrátil, que levanta para trás caso encontre qualquer obstáculo. O mesmo acontece com o leme, desde que tal obstáculo esteja abaixo da madre do leme - a parte fixa, que mergulha cerca de 45 cm abaixo da superfície da água. Com velas cheias e vento forte, não é nem um pouco aconselhável ficar preso pelo leme, que pode ser danificado, deixandonos sem condições de guiar o barco para qualquer lugar. Chegou a hora de sermos sorteados: senti um pequeno solavanco 147


500 Milhas de Água Doce

embaixo do barco, com a bolina fechando para dentro de sua caixa e em seguida o Mojud perdeu o movimento para frente. A Paula estava ao leme e eu logo olhei para baixo e vi as bóias, que estavam submersas ao longo de um cabo de nylon de meia polegada, prendendo na base do leme e o barco começou imediatamente a arribar, saindo do rumo.

Folguei rapidamente a escota da vela grande e pulei até o molinete, para soltar a buja. Gritei para o Gabriel que viesse com o remo, para tentar soltar a rede, enquanto eu recolhia a buja sobre o seu enrolador e tentava controlar o barco, que não aceitava entrar em orça, insistindo em ficar de popa para o vento, com a vela grande tracionando para frente, apesar de estarmos sendo presos pelo leme. 148


Arroio Curral D’Arroios e dos Afogados

Finalmente, com bastante esforço, o Gabriel conseguiu livrar o leme da rede e seguimos em frente. O vento leste estava forte e procurávamos alcançar a Ponta dos Afogados, que era a ponta de uma península, formando uma enseada na parte leste da Lagoa Mirim. Ao fundo desta enseada está o Arroio dos Afogados, um bom abrigo, com mato alto, que protege dos ventos de qualquer quadrante. Quando chegamos à Ponta dos Afogados, verificamos que a ponta da península que estava desenhada na carta náutica, na verdade, era uma grande ilha. Levei o Mojud até a margem de sotavento - abrigada do vento para ancorar junto à praia, almoçar e examinar o local, em busca de algum abrigo seguro para passar a noite. Paula foi preparar o almoço, Gabriel - lógico - foi molhar seus anzóis e a Valentina foi comigo explorar a ilha para decidir se seguiríamos viagem ou se encontraríamos um abrigo por ali mesmo. A vegetação da ilha estava muito fechada e não nos permitiu grandes explorações, mas voltei para o Mojud decidido a cruzar entre a ilha e a base da península, para cortar caminho rumo ao Arroio dos Afogados. Assim fizemos. Logo após o almoço, o Gabriel foi para a proa, com a vara de bambu, para sondar o caminho, e eu fui ao leme, motoreando com cuidado, para encontrar a passagem. Não foi difícil cruzar por trás da ilha e logo estávamos com o rumo livre na direção da boca do Arroio dos Afogados, apesar do vento forte, de proa, por mais uma hora de motoreada.

Uruguai

Banco Sarandi Ponta Canoa Ponta dos Afogados Ponta dos Afogados

Rio Cebollati

Arroio dos Afogados

Ponta Cabollati

Brasil Ponta Magra

149


500 Milhas de Água Doce

A água dessa parte da lagoa estava com uma cor marrom bem escura, quase opaca, dando um ar sinistro às ondas que se erguiam à nossa proa. Rumamos para o ponto que tínhamos marcado no GPS, orientado por uma consulta com o Sr. Pepe, em Pelotas. Aproximamo-nos da boca, mas não tínhamos como ter certeza de qual era a entrada do arroio, uma vez que havia um sarandizal no local e tudo em volta estava alagado, aparecendo dois ou três pontos com pequenas entradas que poderiam ser a boca do arroio. O livro do Décio comentava sobre uma chata de ferro afundada na margem esquerda do canal e também sobre uma baliza que sinalizava o ponto de entrada. Chegando próximo ao arroio, avistei apenas algo como um poste escuro, de mais ou menos um palmo de espessura, mas, à distância e com as más condições do tempo, não dava para definir se era de madeira ou de ferro. Por outro lado, eu estava em dúvida sobre a indicação do livro, quando se referia à margem esquerda do arroio, ou seja, se essa era realmente a margem esquerda do arroio - de quem desce o arroio - ou à esquerda de que entra. Aquele pedaço de poste escuro estava notadamente à esquerda da boca que eu achava fosse a do Arroio dos Afogados, mas bem defronte a outra entrada que também poderia ser a verdadeira boca. Cabia-me decidir se aquilo era a baliza, junto à qual eu deveria passar, ou se era parte dos destroços da tal chata de ferro, da qual eu deveria guardar uma distância segura. Acabei optando pela segunda alternativa e entramos na passagem mais estreita, entre os sarandis, com quatro ou cinco metros de Abaixo: Chegando no Arroio dos Afogados, procurando um lugar para amarrar o barco e passando o cabo num galho que emergia do fundo, que mais tarde me tirou o sono.

150


Arroio Curral D’Arroios e dos Afogados

largura, deixando o poste bem à nossa esquerda. Acertamos. Logo adiante, o arroio começou a serpentear, com apenas parte do leito livre de aguapés, tal qual a descrição que havia no livro. Achamos um cantinho, numa das bifurcações do arroio e amarramos a proa num pedaço de tronco de salso, que emergia da água. A popa, amarramos noutra árvore. Pela profundidade e pela correnteza que passava transversalmente por debaixo do barco e pela conformação das árvores que se seguiam adiante pelo nosso través, eu pressentia que, na verdade, poderíamos estar amarrados transversalmente ao próprio curso do arroio que, a partir de onde estávamos, pelo lado norte, era totalmente coberto por vegetação. As outras pernas do arroio pareciam ser mais paradas, em termos de correnteza e com água mais limpa. A noite foi recheada de ventos fortes de todos os quadrantes que, apesar de estarmos abrigados por árvores, mexiam com o barco para um lado e para outro. As chuvas fortes e intermitentes também contribuíam para me tirar o sono. Com o vento mais forte, eu perdera a confiança no tronco de salso no qual tinha amarrado a proa e as chuvas fortes me levaram a supor que poderíamos ter um aumento considerável na correnteza que passava transversalmente por baixo do Mojud e até na pressão que a vegetação flutuante pudesse exercer sobre o casco, nessa amarração pouco convencional. Não consegui pregar o olho a noite inteira, conferindo as amarrações e “viajando” em elucubrações. Abaixo: Gabriel esticando um cabo de amarração, Valentina fazendo o seu nó “Lais de Guia” e o Mojud sossegado aproveitando a segurança do abrigo.

151


500 Milhas de Água Doce

Pela manhã, tomamos café e nos aprontamos para sair. Nove e trinta, saímos do arroio, apesar da chuva fraca que caía, pois estávamos com muita vontade de seguir viagem, especialmente por causa da umidade que estava se instalando a bordo e que nos fazia sonhar com uma escala em Jaguarão. Lá poderíamos colocar nossa estufa elétrica para funcionar no banheiro do barco e, assim, secar roupas de cama, meias, abrigos, etc. Havíamos escutado a rádio de Santa Vitória do Palmar, pela manhã, e o locutor falava de ventos dos quadrantes sul e sudeste, o que para nós significaria uma condição favorável para seguir em frente e uma razoável estabilidade no tempo por algumas horas. Ao sairmos da boca do arroio, entretanto, a situação era outra. O vento que soprava era noroeste fraco, o barômetro estava caindo e o céu estava muito suspeito em vários quadrantes. Somei as circunstâncias e, mesmo já estando uns duzentos metros fora do arroio, dei ordem ao Gabriel, que estava no leme, para que desse a volta: iríamos voltar para o abrigo e esperar o tempo se definir. Sob protestos efusivos, o Gabriel obedeceu. A Paula também não gostou nem um pouco da mudança de planos. A Valentina, como sempre, não protestou contra as decisões do comandante, especialmente quando fundamentadas na segurança do barco e da tripulação. Mandei o Gabriel e a Valentina aproveitarem a manhã para fazerem mais um módulo dos seus estudos regulares, o que se somou à frustração da partida adiada e o humor do Gabriel ficou terrível. Prometi que ao final dos estudos, pelas onze e meia, faríamos uma nova tentativa. Dito e feito. Onze e trinta, soltei as amarras do Mojud, liguei o motor e comecei a navegar descendo as curvas do Arroio dos Afogados, na direção da boca da lagoa. A Paula estava ao meu lado e as crianças no interior da cabine, sentadas à mesa, concluindo os estudos do dia. - É bem provável que a gente ponha o nariz pra fora do arroio e eu decida abortar a saída mais uma vez, - falei para a Paula, já prevendo que ela poderia querer me pressionar a seguir em frente. Segui firme no rumo, vencemos a barra e, tão logo nos afastamos das ondas mais picadas, mesmo sem dizer nada para a Paula, que estava ao meu lado, empurrei a cana de leme para boreste e dei a volta no Mojud para retornarmos ao abrigo. 152


Arroio Curral D’Arroios e dos Afogados

Com a mesma firmeza com que a alertei de que eu não me submeteria a pressões para seguir viagem, enfrentei as ondas contrárias na saída da barra do arroio. Agora o vento soprava de oeste, já com cerca de 20 nós, colocando paredes de ondas de quase um metro e meio na nossa frente, quebrando sobre a estreita e rasa saída do arroio. Por um lado, ondas quebrando sobre o baixio, por outro, os possíveis destroços da tal chata de ferro. Não me restava outra opção que não fosse a de encarar as ondas de frente. Na terceira onda, empurrado pelo potente motor Honda 15Hp, que tive de deixar com boa aceleração, para que não fossemos jogados de lado, o Mojud projetou mais de um terço de seu casco no ar e voltou a cair no cavado atrás da onda, submergindo a proa contra a onda seguinte que já se fazia alta pela frente, invadindo o barco pela gaiúta da proa. - Está entrando um monte de água pela gaiúta! - gritaram as crianças lá de dentro. Esse retorno não seria mais fácil do que a saída, pois, com apenas um palmo de bolina abaixo do casco e com a pá do leme totalmente levantada, o barco fica com sua manobrabilidade muito reduzida e a cana de leme extremamente pesada. Resolvi entrar acelerando para dentro da estreita boca do arroio, pois era a única forma de ter alguma dirigibilidade com tão pouca bolina. Tive de usar toda a minha força para manter o Mojud no rumo, temendo pela cana de leme, que poderia partir a qualquer momento, sendo empurrado pelo motor e pelas ondas cavadas, que tentavam jogar a popa do barco ora para um lado ora para outro. Se o Mojud atravessasse naquela situação, iria virar e encalhar sobre a vegetação das margens do arroio, com possibilidades de danos consideráveis. Somando-se a isso, a cor tenebrosa da água agitada da 153


500 Milhas de Água Doce

lagoa naquele local e o sugestivo nome do Arroio dos Afogados, davamme um quadro completo de tensão, aventura, angústia, adrenalina, etc. Eu podia estar em casa agora, com um pacote de salgadinhos e um copo de Coca-Cola, assistindo um filme na TV por assinatura... Talvez, um dia, isso venha a me satisfazer totalmente. Hoje, ainda não. Desta vez escolhemos o outro lado do arroio para atracar e o Gabriel e a Valentina colocaram o barco entre quatro árvores, tão seguro quanto no trapiche do clube. O vento oeste aumentou e rugia na lagoa lá fora. Dentro do abrigo, até o sol resolveu aparecer e transformar o Mojud num varal flutuante, para secar o que fosse possível. “Do jeito que está o tempo, não podemos perder qualquer oportunidade de sol, pois não sei quando ele irá aparecer de novo”, pensei. Dormi bem. O Mojud não mexia um centímetro, o vento acalmou e só tivemos silêncio à noite. Como é boa uma noite inteira de sono tranqüilo!

154


Capítulo XVIII Rio Taquari


S

aímos cedo do Arroio dos Afogados. O céu estava encoberto, com neblina e chuva em alguns lados, mas com vento fraco. Navegamos a motor, sem destino definido. Rumamos norte até onde as condições do tempo permitiram. Passamos rente à Ponta Canoa - uma península na margem leste da Lagoa Mirim, que se mostrava um local belíssimo, com muitos pássaros e salseiros, praias de areia e alagados; porém, nesta margem oeste da península, nenhum sinal de abrigo para entrarmos. O vento começou a soprar de nordeste e decidimos cruzar a lagoa para conhecer o Rio Taquari, em território uruguaio. Foi uma navegada tranqüila, com vento folgado e poucos momentos de chuva. A barra do Rio Taquarí é marcada pelas casas do Balneário Lago Merín, umas quatro milhas por boreste de quem chega e por um mato de pínus, na margem direita do rio. Há praias de areia em ambas as margens, mas, logo na entrada, avistamos na margem esquerda algo como uma pequena ponta de areia avançando para dentro do rio, com um pouco mais de um metro de altura, formando uma piscina interna, com acesso junto à margem. Navegamos para lá e colocamos o Mojud com a proa contra a areia, ficando a âncora uns dez metros à frente e num nível acima do convés, tal a altura do barranco. Era uma piscina funda, com uns trinta metros de comprimento por vinte de largura, cercada de areia por todos os lados. 157


500 Milhas de Água Doce

Banco do Muniz

Rio Tacuari

mangrulho

Uruguai

Ponta Santiago

Ponta Parobé

Ilha Grande do Tacuari

Banco do Tacuari mangrulho

Brasil

Banco Sarandi Ponta Canoa

Ponta dos Afogados

Fiz contato com a rádio Central Lago Merín, informando da nossa chegada e da intenção de passar a noite. Perguntei se tinham algum prognóstico do tempo, mas disseram que sua estação de rádio era apenas um posto de escuta, sem estrutura, e não dispunham dessas informações. Chamei a rádio Controle Rio Branco e pedi a previsão do tempo. Eles disseram que ainda não tinham nada atualizado e sugeriram que eu entrasse em contato às 18 horas. Chamei, então, o Iate Clube Jaguarão, informando nossa posição e se alguém poderia fornecer uma previsão para os próximos dias. Abaixo: O Mojud dentro da “piscina”, formada dentro da ponta de areia na foz do Rio Taquari; o comandante preparando um lugar mais afastado para os combustíveis, durante o próximo temporal, e o leito do Taquari trazendo para a lagoa as ilhas de aguapés que as chuvas torrenciais descolaram das cabeceiras.

158


Rio Taquari

Ficaram de chamar mais tarde. Às seis da tarde, contatei a Rádio Controle Rio Branco, que passou o prognóstico de céu nublado com tormentas. Vento noroeste, rondando para oeste, força 4 passando a força 7 na seqüência do dia. A previsão do CPTEC, fornecida pelo pessoal de Jaguarão, não foi muito mais animadora: tempo instável e vento chegando a 40 nós mais de 70 Km/h - no dia seguinte. Resolvemos ficar por ali mesmo e nos preparar para frente fria que estava para chegar. Ao entardecer, o sudeste, sul e sudoeste já estavam apresentando nuvens mais carregadas, com esparsos clarões de raios. À noite, o vento rondou. Não consegui dormir e fui fazer toda a minha costumeira tarefa de colocar os galões de gasolina, tanque e botijão de gás sobressalente no bote. Desta vez, tive medo que o vento pudesse virá-lo, se ficasse amarrado na popa do Mojud. Assim, peguei a âncora reserva e atraquei o bote a uns quinze metros de distância de onde estávamos. Tudo isso debaixo de vento forte e chuva. No dia seguinte, o vento não estava mais tão forte, mas a temperatura estava alta, com ventos dos quadrantes norte e noroeste. A tripulação ansiosa para seguir viagem, mas o tempo muito incerto. Decido ficar nesse abrigo até a frente fria entrar. Chuva o dia todo e a noite toda. O tal vento forte ainda não entrou, mas permanece nas previsões uruguaias, agora com força 8, e nas brasileiras, com mais de 40 nós. Desta vez o vento chega. Ruge no mastro e estaiamento. O barranco de areia que nos serve de porto, agora nos manda uma chuva horizontal de pedrinhas de areia, que castigam o casco: é uma orquestra Abaixo: Amarrado com dois cabos pela proa e um pela popa, o Mojud sofre a ação dos fortes ventos, que jateiam de areia o seu casco; Adriel, no King’s Son, chegando no Taquari para abrigarse dos ventos de quase 50 nós.

159


500 Milhas de Água Doce

Acima: Ao final do dia, o sol aparece apenas para dizer adeus; a “piscina” começa a ficar cada vez mais tomada pela vegetação boiadeira, e Celso e Adriel discutem uma forma de abrir caminho para sair.

de diversos instrumentos. Pelo menos parou de chover. Levo os lençóis para o convés, para arejá-los um pouco, mas não há prendedor que segure e o vento quase os arranca das minhas mãos. Fora do barco, sobre a praia, é difícil caminhar contra o vento, que nas rajadas deve estar chegando perto dos 100 Km/h. No início da tarde, chega o veleiro “King's Son”, que decide vir para o mesmo abrigo onde estamos. O vento oeste, que sopra forte, empurra todos os aguapés e boiadeiras, que descem o Rio Taquarí, bem para a boca de saída da piscina que nos serve de abrigo, fechando completamente a saída. Durante o dia seguinte, o Adriel vem comigo no bote, para tentarmos desimpedir a saída. Utilizando um remo de madeira e uma pequena âncora com cabo, vamos puxando as ilhas de aguapés para dentro do alagado, pois para fora, contra o vento, seria impossível, para tentar abrir uma passagem. À uma hora da tarde, o “King's Son” sai do abrigo, motoreando entre as moitas e aguapés, e vai ancorar na margem contrária do Taquarí. Abaixo: Após algumas horas de trabalho, removendo aguapés, o King’s Son aproveita o espaço aberto para ir ancorar na outra margem do rio.

160


Rio Taquari

Acima: Na manhã seguinte, a “piscina” está totalmente coberta por um tapete verde de aguapés que sofrem a pressão do vento e da correnteza, numa camada compacta ao redor do Mojud.

Quando faço menção de sair também, a Paula, que já estava com o fogão e a pia cheios de preparativos para o almoço, protestou. Adiamos a saída para o dia seguinte, quando as previsões já anunciavam ventos mais “civilizados”. Tirei o Mojud do fundo do abrigo, trazendo-o mais para perto da saída, pois os aguapés estavam invadindo tudo e, quando a “piscina” ficasse toda tomada de boiadeiras, eu preferiria estar com o barco próximo da saída. Amanhecemos no meio de um tapete verde, tão compacto que, quando desci até o deck de popa para pegar água, não a achei e quase tive o impulso de sair caminhando por sobre aquela vegetação que envolvia o Mojud. O vento que pressionava a manta de boiadeiras para dentro do abrigo já estava mais fraco, entre 20 e 25 nós, e as ondas na saída da enseada eram “aceitáveis”. Teríamos assim mais condições de manobrar o Mojud para fora do ancoradouro. Saímos com o motor acelerado, triturando as boiadeiras e empurrando o Mojud em direção à saída, com facilidade. Do outro lado do rio, o King's Son acompanhava a nossa manobra e, tão logo nos livramos daquele imenso tapete vegetal, nos dirigimos para lá, para limpar as plantas enroscadas no hélice e no leme, para então seguir viagem. Assim que saímos da barra do Rio Taquarí, pegamos o vento em popa, já um pouco mais forte, atingindo cerca de 30 nós nas rajadas e formando ondas muito altas e extremamente cavadas e velozes. A Paula vinha bem no leme. Fui para dentro da cabine examinar a carta náutica, programar a navegação e marcar os pontos no GPS. 161


500 Milhas de Água Doce

Subitamente, uma onda maior, que vinha em um ângulo diferente das demais, somou-se a outra e, pegando o barco pela alheta, adernou violentamente o Mojud. No cockpit, a Paula rapidamente retomou o controle, voltando ao rumo, enquanto a Valentina era jogada de um bordo ao outro. Dentro da cabine, o Gabriel e eu, já acostumados com as fortes adernadas do barco, não percebemos esta adernada mais forte, a não ser pelo fato de muitas coisas voarem das prateleiras. Dois copos de vidro, embalagens de requeijão cremoso que a Paula estava guardando, voaram para o chão e quebraram. Uma cabeça de repolho, que estava bem acondicionada numa rede que fica presa ao teto da cabine, junto ao pé do mastro, foi parar sobre os livros na prateleira de bombordo, num claro indício de que o Mojud havia adernado mais de 60º . Repolho

Rede de Frutas

O susto passou. A Paula continuou no leme enquanto eu tratava de juntar os cacos de vidro do chão da cabine. O Gabriel logo colocou um agasalho e foi para o cockpit, pois, pelo jeito, estava ficando “bom” lá fora. O Mojud desenvolvia uma boa velocidade e resolvemos rumar um pouco mais para oeste, buscando o abrigo da Ponta Juncal, para navegar sobre ondas menores e seguir até a Ponta Alegre.

162


CapĂ­tulo XIX Enfim, o Sol!


A

o entardecer, passamos pelo farol da Ponta Alegre, entre as redes e a praia, em busca do abrigo do qual tínhamos boas recomendações. Bem na ponta da península, com o sol se pondo, subi na retranca e, lá de cima, pude avistar um grande lago interno. Faltava apenas encontrar a entrada. Conforme fomos contornando a ponta da península, a praia dava lugar a um cenário de árvores desfolhadas, talvez pelo inverno, totalmente inundadas, das quais só emergiam parte dos troncos e as copas. Várias bóias de redes, ao redor, tornavam nossa navegação mais complicada. Vi uma pequena canoa, empurrada por um motor de popa, engembrado de uma roçadeira, com um pescador rumando em direção ao Abaixo: Feliz com o sol e uma boa velejada, Gabriel timoneia o Mojud ao largo do farol da Ponta Alegre.

165


500 Milhas de Água Doce

interior do alagado. Sinalizei para ele, que veio em nossa direção. Não parecia estar muito contente com a nossa presença por perto das suas redes, mas logo se prontificou a nos guiar por meio de um caminho mais apropriado a uma pequena canoa do que ao nosso veleiro. Ponta Alegre Arroio Canhada Grande

Farol

Arroio Bretanha Arroio dos Arrombados

Arroio Juncal Rio Jaguarão

Lagoa Mirim

M

Uruguai

M Ilha Juncal M

Banco do Muniz

Rio Tacuari

Ilha Latinos Ponta Latinos

M M

M - Mangrulhos

Ponta Santiago Ponta Parobé

Brasil

Fomos seguindo a canoa por uma “trilha” tortuosa, pelo meio da mata, roçando os ovéns nas copas das árvores secas, até chegar a um alagado mais descampado. Agradecemos ao pescador, dando-lhe uma latinha de cachaça que sempre temos a bordo para essas eventualidades - e seguimos por nossa conta. Logo adiante, identificamos o curso de um arroio, pelo alinhamento das árvores nas suas margens e pela profundidade, que aumentou para mais de três metros. 166


Enfim, o Sol!

Mais uma vez, encontramos um “box” no meio das árvores, para dormir atracados “nas quatro”, sobre uma água muito transparente.

Quando fomos usar o bote, para levar os cabos até os troncos, percebemos que faltava um remo. Durante nossa travessia, o dingue havia sido amarrado inclinado atrás da popa do Mojud. As ondas íngremes que nos alcançavam a todo o momento acabaram por afrouxar a rosca do pino que prendia o remo que, soltando-se, liberou o remo para a água. À noite, terminamos a leitura do livro “Albatroz”, que estávamos fazendo em voz alta, nos últimos dias. O livro é um relato tenebroso sobre um naufrágio próximo à costa leste dos Estados Unidos. Foi um bom teste para os nervos da tripulação, ficar lendo sobre barcos afundando, náufragos sendo comidos por tubarões, dias à deriva num bote inflável, ondas gigantescas, etc. Abaixo: Nos alagados da Ponta Alegre, muitos locais para amarrar o barco com total segurança.

167


500 Milhas de Água Doce

A Valentina já tinha recém lido, comigo, o livro “Resgate no Pacífico”, relatando uma tempestade com força de furacão, que pegou uma regata de barcos de cruzeiro, entre a Nova Zelândia e Tonga. Vários barcos tiveram de ser abandonados, um desapareceu com tripulação e tudo, muitos resgates foram bem sucedidos. Dois dias depois de terminar a leitura do livro, durante uma travessia de 30 milhas que fazíamos entre uma margem e outra da Lagoa dos Patos, a Valentina comentou: - Agora não tenho mais tanto medo de que o barco afunde. Não é assim fácil de afundar. Aqueles barcos viravam, capotavam, entrava água, uns estavam quebrados e, ainda assim, muitos foram encontrados flutuando depois de tudo aquilo, mesmo depois de terem sido abandonados pelas suas tripulações. Dia 26 de maio. Ao clarear do dia eu já estava de pé para rumar para Pelotas. - Está realmente muito frio! - exclamei para mim mesmo. Saímos do alagado seguindo o traking do GPS, do traçado que tínhamos feito na entrada, no dia anterior. Sem problemas. O vento rondou para noroeste, uma direção que não nos favorecia velejar rumo ao canal do Sangradouro. Seguimos a motor, contra o vento e as ondas, até a margem noroeste do Sangradouro para, abrigados das ondas e com um melhor ângulo de orça, abrir as velas e seguir o resto a pano. O céu abriu e o sol brilhou forte. O vento noroeste nos proporcionava agora uma velejada majestosa, com uma orça perfeita, barco adernado, leme suave. O Gabriel foi para o leme e exclamou com um sorriso: - Agora sim! Isso que é velejada! Abaixo: Gabriel no leme e Paula no controle da vela grande, orçando rumo ao fundo do sangradouro, para o canal São Gonçalo.

168


Enfim, o Sol!

Acima: Já navegando no São Gonçalo, Valentina se direvte com as rajadas de vento que adernam o barco sem maiores riscos, pois não há ondas no canal.

Entramos à vela no canal São Gonçalo. A correnteza estava forte e o vento um pouco inconstante, mas o suficiente para garantir que estaríamos às cinco da tarde à postos para a abertura da eclusa. Depois do Gabriel, foi a vez da Valentina. Ela ficou um bom tempo no leme. Quando o vento apertou um pouco mais, sentei ao seu lado e fiquei com a escota da grande sob meus cuidados. O Mojud adernava bastante e ela estava firme na cana do leme. Numa rajada mais forte, eu demorei a soltar a escota do mordedor e a borda falsa foi para a água. Mesmo estando no lado de sotavento do cockpit na parte de baixo ela não se rendeu: com uma mão no tubo do púlpito de popa e outra na cana de leme, ela timoneou com bravura e competência, com o Mojud adernando a quase 45 graus. Foi uma vitória para ela, ao que o Gabriel logo protestou: - É... A mim vocês não deixam botar o guarda-mancebo n'água. A descida do canal São Gonçalo foi gloriosa e chegamos bem a Abaixo: Quando, numa rajada mais forte, o guarda-mancebo mergulha nágua, a brincadeira começa a perder a graça...

169


500 Milhas de Água Doce

tempo de passar as eclusas, às cinco da tarde. O sol já tinha se posto quando chegamos às pontes e eu tinha receio de que o funcionário responsável pelo levantamento da ponte da estrada de ferro não nos visse aproximar a tempo de abrir passagem ao nosso mastro de onze metros. A ponte estava com meia abertura e parecia não se mexer. A forte correnteza a favor, dividida pelas pilastras das pontes de BR116, formava uma turbulência que dificultava o controle do leme. Vendo que a ponte do trem não subia, quando nos aproximamos a uns duzentos metros, descendo com a correnteza, pedi ao Gabriel que buscasse nossa lanterna forte, para fazer sinais de luz para o operador. Em poucos instantes a ponte começou a subir e passamos com folga por baixo de sua estrutura metálica. Chegamos ao Veleiros Saldanha da Gama ao anoitecer, saudosos de um bom banho de chuveiro quente. Após o banho, chamamos um táxi para ir ao centro, jantar numa boa pizzaria com forno à lenha, acompanhada de cerveja preta. Como essas coisas ganham novos sabores, após tantos dias de vida longe da civilização! Ao amanhecer, o termômetro no interior da cabine marcava 10 graus centígrados. Lá fora devia estar 5 graus. Colocamos as baterias para carregar, deixamos as crianças arrumando o barco - elas é que pediram!- e fomos até a cidade procurar um remo substituto para o que perdemos, pois um bote de inflar com um só remo só gira sobre si mesmo, sem ir para frente. Folheando um jornal da cidade, a Paula viu que iria estrear um show de dança no teatro 7 de Abril, a R$2,00 por pessoa: estava marcada a nossa agenda para a noite. Pelotas foi - e continua sendo - um grande pólo cultural do Rio Grande do Sul. Há prédios belíssimos do século XIX. O teatro 7 de Abril, onde fomos assistir ao show de dança, data de 1834. Possui três andares de galerias, além do auditório no térreo. Está totalmente preservado e nos leva a uma viagem no tempo. O Gabriel e a Valentina ficaram muito impressionados. Voltamos para o Mojud com uma sensação de satisfação muito grande por perceber que a vida a bordo não se resume a lugares desertos, pescarias, travessias e pores-do-sol. Possibilita-nos também todo um lado turístico e cultural. Podemos visitar novas cidades, conhecer sua 170


Enfim, o Sol!

cultura local e desfrutar de tudo isso levando a casa nas costas, gastando vento para a nossa locomoção.

171


Capítulo XX De Volta à Lagoa dos Patos


S

aímos do clube Veleiros Saldanha da Gama às 8:30 da manhã. Eu esperava conseguir algum “waypoint” - ponto de coordenadas do GPS - com o Sr. Pepe, para que pudéssemos seguir até a Ponta dos Lençóis com um pouco mais de garantia de sucesso. Às nove, contatei o clube por rádio e me informaram que ele, provavelmente, só apareceria por lá à tarde. Seguimos assim mesmo. Tracei um rumo saindo do São Gonçalo, diretamente entre a Ilha da Saragonha e a Ponta Rasa, para depois tomar o rumo nordeste, na direção da Ponta dos Lençóis. Logo que cruzamos o Canal da Feitoria, começamos a encontrar aquelas estacas fincadas ali e acolá. Algumas bem visíveis, outras apenas despontando no cavado das ondas. Abaixo: Paula prepara o lanche para voltar à Lagoa dos Patos; Celso conduzindo o Mojud, tendo o Veleiros Saldanha da Gama ao fundo, e Valentina timoneando nas águas verdes vindas do Atlântico.

175


500 Milhas de Água Doce

Fomos seguindo com vento em popa, acompanhando a profundidade pelo ecobatímetro. Quando estávamos navegando bem entre a Ilha da Saragonha e a Ponta Rasa, encalhamos. O ecobatímetro estava acusando dois metros de profundidade, mas já estávamos com menos de meio metro a um bom tempo. Foi complicado desencalhar o Mojud de ré, contra o vento, por uma área grande de pouca profundidade. Decidi abandonar a idéia de conhecer a Ponta dos Lençóis. Rumamos novamente na direção do Canal da Feitoria. Em toda essa área, entre Rio Grande, Pelotas e a Ilha da Feitoria, é muito difícil de navegar. Há bancos de areia muito rasos, um canal estreito por onde têm de passar todos os navios que navegam entre Rio Grande e Porto Alegre e, para complicar um pouco mais, milhares de estacas de madeira fincadas por todos os lados. Em alguns lugares, elas estão em grupos de dez a vinte, formando bretes ou simplesmente agrupados, noutros, estão isoladas. Algumas são finas, com pouco mais de cinco centímetros de espessura, outras são verdadeiros postes no meio do nada, no meio da lagoa. Apesar do Mojud ter pouco calado e do vento estar calmo, decidi navegar pelo canal. É mais movimentado, com navios indo e vindo, mas corremos menos riscos de encalhar ou espetar alguma estaca no casco. O movimento era considerável. A cada meia hora, tínhamos de cruzar ou ser ultrapassados por algum navio. Eu procurava conduzir o Mojud bem pela direita do canal, ao longo de uma profundidade em torno de quatro metros, deixando bastante claro para os navios, de qual lado do canal navegávamos. Abaixo: Dividindo o Canal da Feitoria com um navio que passa muito rápido, causando ondas que preocupam o camandante, enquanto o Gabriel tenta abaixar o motor para melhor controlar o barco, com vento muito fraco.

176


De Volta à Lagoa dos Patos

Mesmo assim, lá pelas tantas, um navio alemão, vermelho, de transporte de algum tipo de combustível - pois era equipado com uma balsa de abandono rápido - apareceu na nossa popa, em alta velocidade. Dava para perceber que ele estava vazio, pois seu casco estava todo para fora d'água e o bulbo frontal, quebrando as ondas, levantava uma espuma de água na proa com mais de três metros de altura. Pensei que ele fosse diminuir a velocidade ao nos ultrapassar, mas não o fez. Passou por nós a toda velocidade, bem próximo, justo no local onde o Canal da Feitoria faz uma curva estreita, pouco antes da Ilha Marechal Deodoro. Quando vi as ondas que vinham na esteira do navio, quase transversais, cavadas, com mais de um metro de altura e muito velozes, falei para o Gabriel abaixar rápido o motor, pois estávamos com pouco vento e, com o auxílio do motor teríamos mais controle sobre o barco. Ele conseguiu abaixar o motor e ligar, mas não houve tempo suficiente para aquecer e quando engrenei a marcha ele apagou. As ondas chegaram e consegui manter o Mojud de popa para elas, sem maiores riscos, mas confesso que fiquei assustado. Nesse local, passamos por algumas áreas com água bem verde, salgada, muito transparente. Há vários tons de água e diferentes transparências na metade sul da Lagoa dos Patos. Com vento fraco, ficamos várias horas navegando no Canal da Feitoria. Desse modo, era mais seguro procurar abrigo na margem oeste, pois na outra margem só chegaríamos à noite. Tomamos o rumo do Arroio Grande, que é o primeiro abrigo ao sul de São Lourenço do Sul, mas, como já estava próximo do pôr-do-sol e essas cercanias de bocas de arroios são ainda mais “ornamentadas” por redes de pesca em várias direções, optei por rumar diretamente para o Arroio Corrientes, que estava mais próximo. Conhecíamos a entrada do Arroio Corrientes, pois já o tínhamos percorrido na ida, para ter acesso à Lagoa Pequena, de modo que, à exceção do ziguezague das redes quilométricas na aproximação, a entrada do arroio foi fácil. Tomamos o rumo da margem esquerda, à direita de quem entra, evitando, assim, o banco no qual tínhamos encalhado na primeira vez. Logo na boca do arroio, vê-se vários pedaços de ferro, como partes de trilhos de trem cravados dentro d'água, saindo transversalmente, de ambas as margens, na direção do meio do arroio. 177


500 Milhas de Água Doce

Decerto foi uma antiga tentativa de construir uma barragem, fechando a boca do arroio para evitar a entrada da água, às vezes salgada, da Lagoa dos Patos, quando esta é invadida pela água do mar. Passamos pelas estacas de ferro e pelos barcos dos pescadores, que sempre estão ocupando a praia na margem direita, e fomos à procura de um abrigo para passar a noite.

178


CapĂ­tulo XXI Barra Falsa e Bojuru


P

ela manhã, o vento soprava nordeste fraco e, como era desejo das crianças voltar à Barra Falsa, onde havíamos passado bons momentos no verão do ano anterior, rumamos direto para lá. A travessia da Lagoa dos Patos, neste ponto, é de 30 milhas quase 60 Km. Quando se chega próximo da metade do caminho, já se perde a visão de terra e se navega como se estivéssemos no meio do oceano. A velejada foi muito gostosa, orçando o tempo todo, mas contra ondas pequenas, pois o vento não passava de 15 nós. Mais uma vez, vários tons diferentes de água iam se intercalando e, para decepção da tripulação, quando finalmente nos aproximamos da entrada da Barra Falsa, a cor da lagoa, segundo a própria exclamação do Gabriel, era “marrom bom-bom”. Abaixo: Ao chegar à Barra Falsa, Gabriel constata decepcionado: “A água está marrom bom-bom!”; o canalete, junto à parte sul da barragem é um bom abrigo e com águas profundas.

181


500 Milhas de Água Doce

Demos a volta nas ilhotas que ficam na boca da Barra Falsa e rumamos para a enseada norte, onde costumávamos ancorar. O alto nível da água da lagoa, entretanto, cobria todas as belas ilhotas de areia e a cor escura e a temperatura gélida da água foram um legítimo “banho de água fria” para as intenções dos pescadores de bordo a pescar de tarrafa atrás das tainhas. Não nos furtamos da tentativa, é claro, mas após alguns minutos, com as canelas geladas e sem ter pego nada, a decisão mais sensata era desistir. Rumamos, então, para o canalete que fica no lado sul da barragem que fecha a barra falsa propriamente dita. É um canal estreito, mas profundo. É um bom abrigo e, nesse local, as águas estão mais limpas.

Lagoa dos Patos

Enseada

Engenho

Barragem

Barra Falsa

182


Barra Falsa e Bojuru

Conforme íamos entrando, um banhadal a boreste enchia-se de movimento, com os ratões do banhado buscando esconderijos. No dia seguinte, deixamos o canalete e rumamos para o Bojuru, sempre costeando a margem que, nesta região, é belíssima, com dunas de areia cobertas por alguma vegetação de médio porte e coqueiros se sobressaindo. Quando estávamos chegando na ponta do Bojuru, onde já se avista uma pequena ilhota formada por pedras de um antigo farol, encontramos uma enseada voltada para o nordeste. A Valentina avistou as altas dunas que se aproximavam da margem e nos convidou a um passeio pelas areias brancas. Entramos nessa enseada e ancoramos junto a uma pequena praia, ao fundo. Colocamos roupas mais leves, pois não estava mais tão frio, e fomos explorar as dunas. Mais tarde, enquanto o Gabriel voltava para o Mojud para pescar e a Paula para preparar o almoço, fiquei fazendo castelos de areia com a Valentina. Procuro aproveitar ao máximo esses momentos, pois ela já está com onze anos e, talvez, até a próxima viagem ela já não se interesse mais por essas brincadeiras e vou ter de esperar que venham os netos para curtir momentos como esses novamente. Almoçamos e contornamos a ponta do Bojuru, passando entre a ilhota de pedras e a ponta de terra, e fomos buscar a entrada do alagado que serve de abrigo para ventos de qualquer quadrante, para passar a noite. São, pelo menos, três bons locais de abrigo nesta enseada do Bojuru. Um mais a oeste, junto à praia, onde geralmente ficam os barcos dos pescadores, e outros dois mais a leste, sendo o último com acesso por Abaixo: Ancorados numa enseada na ponta do Bojuru, fomos conhecer as dunas e matar o desejo da Valentina, de fazer castelos de areia.

183


500 Milhas de Água Doce

entres os juncos, um pouco difícil de encontrar, mas com uma bela piscina interna, com mais de 50 metros de diâmetro e profundidade ao redor de 2 metros. Farolete do Bojuru

Lagoa dos Patos

Lagoa dos Patos

Bojuru

Bojuru Dunas

Dunas

alagados abrigados

Barra Falsa

Mais uma vez, o Gabriel tentou de tudo para pegar algum peixe, mas não obteve sucesso: era o dia do peixe, novamente.

184


CapĂ­tulo XXII Porto Barquinho


N

a manhã seguinte, como de costume, acordei cedo, guardei a âncora e saí motoreando, enquanto o sol ainda estava abaixo do horizonte e o resto da tripulação ainda curtia o calor das cobertas. Aos poucos, o sol e um a um dos tripulantes foi colocando a cara pra fora, enquanto íamos rumando norte, em direção ao Cristóvão Pereira ou ao Porto Barquinho. O vento era fraco, rondando entre norte, noroeste e nordeste, bem de frente, nos fazendo motorear o tempo todo, com exceção de um pequeno trecho, entre o banco Dona Maria e o Farol Cristóvão Pereira, onde pudemos orçar com algum rendimento, contra um vento norte, ao lado de um rebocador que puxava uma enorme chata de ferro, com um guindaste gigantesco. Depois, o vento voltou a diminuir de intensidade e optei por Abaixo: Valentina deslumbrada com um enorme guindaste sendo rebocado no meio do nada. Três veleiros de Porto Alegre contra o barranco do Porto Barquinho, onde se pode descer pela proa direto na grama.

187


500 Milhas de Água Doce

cruzar sobre o banco da ponta do Cristóvão Pereira, passando entre as arrebentações, que indicam as áreas mais rasas e contornando o farol a menos de 30 metros de distância. Passamos por dentro da área abrigada ao lado do farol e saímos pela boca leste do alagado, junto à praia, seguindo direto para o Porto Barquinho, onde o Gabriel ainda tinha esperanças de pescar alguma coisa. Era sábado e o arroio do Porto Barquinho parecia um clube náutico, com quatro veleiros atracados contra o barranco. Atracamos a uns cinqüenta metros de distância deles, o Gabriel foi iscar suas linhas para traíra, a Paula foi começar a limpeza no interior do barco e eu e a Valentina resolvemos fazer uma faxina no convés. Mais tarde, fui até os barcos dos vizinhos para fazer uma visita. Eram quatro barcos maiores que o Mojud e muito bem equipados. Oito homens ao todo. Reclamavam que suas esposas os tinham estimulado na idéia de comprar seus barcos, até mesmo ajudado na escolha, mas que não os acompanhavam nas navegadas. Os contrastes entre nós eram muitos. Apesar de estarem todos em barcos bem maiores, mais novos e mais bem equipados que o Mojud, estavam-se dizendo “boas-vidas”, pois já estavam há quatro dias navegando - era domingo. Perguntaram se era a primeira vez que eu vinha até o Porto Barquinho. - Não. - Respondi. - Aqui é o nosso quintal de casa, pois o nosso barco fica no clube de Tapes. - Estão chegando de Tapes?- Um perguntou. - Da Barra Falsa.- Respondi. Abaixo: Duas famílias de capivaras pastam tranqüilamente no banhado próximo a Mostardas.

188


Porto Barquinho

Acima: Apoiado sobre a cruzeta do mastro do Passatempo, Adriano fotografa a Lagoa dos Patos e os molhes de proteção do Porto Barquinho; Celso, “lá embaixo”, no convés, e o Refúgio e o Mojud aportados ao longo do curso do canal.

- Então, já estão há vários dias fora de casa...- outro comentou. - Na verdade, - complementei - estamos vindo do Chuí. Estivemos na divisa sul do Brasil com o Uruguai. Estamos há quarenta dias navegando. Com um pouco mais de conversa, eles perceberam que havia, sim, muitos contrastes, principalmente pelo fato de eu estar velejando com a minha esposa e filhos, que estudavam a bordo e que estávamos construindo um barco de aço de 41 pés para nos mudarmos definitivamente para ele. - Para mim, - disse - barco é como sítio: ou você mora nele, ou vai no dos outros. Nossas diferenças tinham começado no ponto de partida. Eles queriam velejar e, para isso, batalharam anos para comprar grandes barcos e mantê-los bem equipados. Abaixo: Velejando sozinho, com o leme solto, o Mojud conhece o caminho de casa; as nuvens permitem alguns raios de sol bem sobre o nosso destino, e o Gabriel dança de alegria na proa do barco.

189


500 Milhas de Água Doce

Quando despertou em mim o sonho de velejar, tratei de construílo desde a base: primeiro, uma companheira que já tivesse o mesmo sonho; segundo, educar os filhos dentro dessa realidade - inclusive com estudos por correspondência - terceiro, uma atividade profissional que pudesse viabilizar tempo e dinheiro; por último, o barco em si. No dia seguinte - segunda-feira - os barcos vizinhos saíram de madrugada rumo a Porto Alegre. Tomamos café e, apesar do nosso cronograma permitir que ficássemos mais um ou dois dias por ali, a previsão do tempo e os ânimos da tripulação estavam mesmo sugerindo que partíssemos rumo a Tapes. O vento era oeste, fraco. Bem de proa, mais uma vez. Navegaríamos a motor até o Pontal de Santo Antônio e de lá até o clube à vela, com vento de través ou orça folgada. Mais algumas horas a motor, cruzando a Lagoa dos Patos de leste para oeste e, quando estávamos quase chegando ao pontal, o vento rondou, mais uma vez. Agora vinha de noroeste: de novo vento na cara! Paramos para almoçar na praia do Biru e, de lá até o clube, o Gabriel pediu que eles assumissem o comando. Vendo que já era hora de checar as habilidades e responsabilidades de ambos, concordei. A Paula e eu ficamos na cabine, enquanto o “comandante” Gabriel dava ordens à “marujo” Valentina, para levantar âncora, ligar o motor, baixar o leme, baixar a bolina, etc. A Valentina demonstrou capacidade - e força - para realizar todas as tarefas de bordo, até mesmo içar a vela grande, sem auxílio de qualquer guincho ou molinete: no muque mesmo! Nas proximidades do canal do Clube Náutico Tapense, foi a vez do Mojud velejar sozinho. Com poucas ondas e em orça cerrada, ajustei Abaixo: Enquanto o Gabriel confere o enrolador da vela de proa, Celso e Paula preparam-se para uma última chegada com o Mojud.

190


Porto Barquinho

as velas e soltei o leme. O barco ajustou-se no rumo do clube e nos levou até lá, com suavidade, por mais de meia hora, sem pedir qualquer correção no leme, que permaneceu solto o tempo todo. Por fim, chegamos de volta ao clube e atracamos o Mojud no seu novo box, onde ficará aos cuidados do seu novo dono e conduzirá uma outra família a passeios pelas redondezas. Por um instante, uma melancolia se instalou em mim. Algumas emoções confusas e contraditórias afloraram ao mesmo tempo. Tínhamos realizado um sonho planejado durante muitos anos. Um sentimento de autoconfiança se reforçou sobre a minha capacidade de conduzir um barco à vela a tantos lugares diferentes, nas mais diversas condições de tempo, e trazê-lo de volta sem qualquer dano e sem acidentes entre os tripulantes. Um forte sentimento de gratidão me fez rezar um Pai Nosso. O mesmo que rezei quando estávamos sendo açoitados por relâmpagos, lá no Arroio São Miguel, no fundo da Lagoa Mirim. Um sentimento de dívida para com o Mojud, que abrigou a mim e a minha família durante todo esse aprendizado, de mais de três anos, sem que eu tivesse lhe retribuído da mesma forma, na sua pintura ou no seu acabamento interno. Era uma despedida. Estávamos entregando o Mojud para o seu novo dono e para nós começava uma nova fase. Nosso Multichine 41, em construção na Metallic Boats, em Triunfo, era um barco para água salgada. No Mojud, já tínhamos percorrido todos os destinos almejados, desde o Rio Pardo até o final da Lagoa Mirim. Os novos desafios, agora, deveriam ser em mar aberto e, para isso, precisaríamos de outro barco. Abaixo: Na chegada no novo box, o marinheiro Baiano nos aguarda com alegria, por termos chegado sãos e salvos, após 500 milhas de novas histórias e experiências.

191


500 Milhas de Água Doce

A vertigem emocional surgia - talvez - da incerteza quanto ao dia em que voltaríamos a navegar novamente. Seria em um ano? Dois? Dez? O fato era que agora estávamos numa nova fase, na qual tínhamos de mergulhar de cabeça, com todas as nossas energias e com todas as nossas esperanças, rumo a um novo sonho, ainda maior.

192


EpĂ­logo


I - O Barco

U

m dos temas mais controversos entre os aficcionados do esporte à vela é aquele que trata do barco ideal. Logicamente, isso irá depender das finalidades para as quais ele será utilizado. No nosso caso, a idéia era navegar com a família pelas águas do interior do Rio Grande do Sul, compreendendo o Rio Jacuí, Guaíba, Lagoa dos Patos e Lagoa Mirim e seus afluentes. A Paula tinha apenas uma exigência quanto ao barco: que o mesmo tivesse banheiro, no qual se pudesse tomar banho. Isso significava um barco acima de 24 pés, ou seja: um investimento superior a US$15 mil. Minhas exigências diziam respeito à parte de fora do barco: simplicidade no manejo das velas, pouco calado, encalhe em pé, motor potente e confiável, cockpit grande, passadiço largo e livre para se cruzar de proa a popa por qualquer dos bordos. Aos vinte anos de idade, eu tivera o meu primeiro barco: um catamarã, de 23 pés, de compensado naval. Possuía uma pequena cabine em cada casco e calado de pouco mais de 30 cm. Eu podia encalhar a proa em qualquer praia, era um barco veloz, mas sem nenhum conforto interno e muito ruim de manobrar. Em alguns 195


500 Milhas de Água Doce

casos, velejando com ventos médios e ondas, era simplesmente impossível cambar - virar de bordo, passando com a linha do vento pela proa - sem ter de ligar o motor para concluir a manobra, tal o efeito que o vento e as ondas faziam sobre os cascos. Sair e chegar no clube era também um tormento. Não apenas pela largura excessiva do barco, mas pelo fato dele não girar sobre o seu eixo ao comando do leme. Não possuindo uma bolina central ou quilha, no meio do barco, ao virar o leme para um lado, sua resposta era jogar a popa para o outro lado. Era mais ou menos como um automóvel, cujas rodas de direção fossem na traseira e não na frente. Depois do catamarã, tive um monocasco de 17 pés. Tinha bastante espaço interno, apesar do pequeno tamanho: beliches para quatro pessoas, mas sem cozinha ou banheiro. Possuía uma quilha móvel, mas seu calado mínimo era de mais de um metro e a quilha não recolhia totalmente para dentro do barco, de modo que, em caso de encalhe, o barco adernaria para algum lado. Só me permitia aportar em praias com barranco, cuja margem fosse profunda. Navegando, era pouco estável, sendo grande, e, ao mesmo tempo, pequeno para as ondas do Guaíba. Ter um barco num clube, para uso somente aos finais de semana, representava um gasto considerável, quando divididos pelos dias efetivamente velejados. Decidi, então, que só voltaria a ter barco quando pudesse vir a morar nele, pois esse, sem dúvida nenhuma, era o meu sonho. Quinze anos mais tarde, já numa nova fase, junto com a Paula e já tendo vencido várias etapas preparatórias para a realização desse sonho, sofri um acidente. Subi num monte de pedras, que tinha removido de uma escavação, e a pedra sobre a qual eu estava em pé desequilibrouse e rolou, junto com outras de mais de uma tonelada. A chance de sair vivo de tal situação era pequena e sofri apenas algumas escoriações. Decidimos, naquele momento, que era hora de procurarmos um barco para voltar a navegar. Ainda não tínhamos o dinheiro, mas os negócios nos quais trabalháramos nos últimos doze anos, davam sinais de que, em mais um ano, começariam a render o suficiente para pagar as prestações de um barco comprado, com pagamento parcelado. Nossa intenção era comprar um barco de fibra de vidro, para treinarmos nas lagoas gaúchas, e, posteriormente, adquirir um barco 196


Epílogo

maior, entre 40 ou 45 pés, para morar, navegando pelo mar. Já tínhamos nos definido pelo modelo do barco. Por casualidade, um amigo de vários anos estava produzindo “kits”, em Curitiba, de um modelo adaptado de um projeto “Van de Stadt”, com 29 pés, um metro e noventa de pé direito dentro da cabine, bolina canivete - que levanta para trás -, lastro interno e fundo chato - encalhando em pé.

N

L

D E

M

B

P I A

F

C

R

O Q G

J

H

A - cabine de popa

J e M - beliches

B, D, P e Q - prateleiras de roupas

M(tulha) - tanque de água e baterias

C, H e J(tulha) - depósitos de alimentos

N - prateleira de livros

E - banheiro

O - beliche de proa

F - salão

O(tulha) - depósito

G - cozinha

R - caixa de âncora

I - mesa

Nosso desafio era encontrar um barco desses pronto - a Paula se negava a encarar a possibilidade de ficar anos a fio construindo um barco - cujo proprietário quisesse vender, e mais: em condições que nos permitissem comprar. Fazendo contatos daqui e dali, tomamos conhecimento de que havia um barco em Rio Pardo, no interior do Rio Grande do Sul, cujo proprietário poderia ter interesse em vender. Quando falei com ele por telefone, entretanto, ele disse que não estava pensando em vender, pois, apesar de ainda não ter colocado a mastreação e velas, já tinha concluído o interior e o estava utilizando a motor, navegando pelas redondezas. - Se você fosse vender,... - perguntei - quanto você pediria pelo 197


500 Milhas de Água Doce

barco? Ele pensou um pouco e me deu o preço. - Posso pagar parcelado? - perguntei. - É... Pode. - respondeu. Fomos até Rio Pardo e constatamos que era realmente o que queríamos. Conseguimos fechar o negócio; porém, com uma condição: antes de nos entregar, ele utilizaria o casco para fazer uma forma, em fibra de vidro, e, com ela, fazer outro barco para si, pois ele também estava convencido de que aquele era o barco ideal para as águas doces do Rio Grande do Sul. Levou mais de seis meses para termos o barco, mas tivemos igual maleabilidade para concluir o pagamento, de modo que tudo se ajustou bem para ambos os lados. Ficamos três anos com o Mojud e ele cumpriu com todas as expectativas que tínhamos dele: não consigo imaginar um barco melhor para quem gosta de navegar em rios e encalhar na praia, desembarcando direto na areia. Esse pouco calado permite, também, que se procure locais mais abrigados para passar a noite: geralmente, em arroios e alagados. Para os próximos planos, com maiores desafios, outro barco teria de ser adquirido. Procuramos desde Rio Grande até João Pessoa, entrando em todos os clubes e marinas que encontramos, conversando com vendedores e proprietários de barcos, mas não encontramos nenhum que se enquadrasse nas nossas necessidades. Por fim, a Paula se rendeu à opção de contratar a construção de um barco novo, de acordo com as nossas exigências. Assim, nos definimos pelo projeto do Multichine 41, porém, com uma quilha retrátil, desenhada especificamente para as nossas necessidades. Um barco de aço, forte o suficiente para resistir a impactos de eventuais encalhes sobre arrecifes ou objetos flutuando em alto mar. Com doze metros de comprimento, temos mais conforto interno, com três cabines, dois banheiros, ampla cozinha, sala de estar e refeições, além de uma oficina, para pequenos reparos e almoxarifado. Será um barco com possibilidade de encalhe em seco, em pé, podendo ser arrastado para fora d'água, para limpeza e pintura, e depois retornar ao mar por seus próprios meios, através de guinchos e talhas. 198


Epílogo

O desafio financeiro é bem maior, também, mas esse é o nosso caminho, do qual depende a realização dos nossos sonhos e teremos de enfrentar.

II - A Tripulação E

ncontramos muitos barcos, nos clubes e ancoradouros, sendo tripulados somente por homens. Quase todos têm família: mulher e filhos. Poderia até supor que os homens gostam de ter um “clube do bolinha” para descansar das rotinas domésticas e profissionais. Não é o caso da maioria dos navegadores que encontramos, que se queixam da solidão, de que sua família não os acompanha, pois prefere o conforto de uma casa a uma aventura a bordo. Acho que não há receitas para resolver esta questão. Talvez, trazendo mais conforto e aconchego para o interior do barco e criando rotinas de jogos entre a família e outras atividades de diversão em grupo, se possa tornar os passeios de barco mais atrativos. Além do que, trazendo a família, é possível dividir os serviços de bordo. Um barco pode ser um casulo familiar, com aconchego e Abaixo: Paula timoneando numa velejada noturna, cruzando a Lagoa dos Patos, entre Tapes e Mostardas.

199


500 Milhas de Água Doce

carinho, ou um cubículo espartano, mais parecido com uma cela que com um ninho. Como meu plano - meu sonho de juventude - era morar a bordo de um barco, meu desafio era o de conseguir uma companheira com a mesma idéia e formar uma família com foco nesse horizonte. Poderia ter colocado anúncios nas revistas náuticas, nos classificados dos jornais, em revistas femininas, mas essa idéia não me ocorreu. O acaso fez com que meu caminho se cruzasse com o da Paula e que, ao redor de uma mesa de bar, falássemos dos nossos sonhos e descobríssemos que eles tinham algo em comum: um barco à vela. A partir daí, lentamente, nossas atividades profissionais - e também domésticas -, foram se aproximando cada vez mais, até que as nossas vidas vibrassem no mesmo tom. Nossa biblioteca náutica acumula mais de cinqüenta livros do gênero, entre livros técnicos e relatos de aventuras no mar. É muito importante aprender com os erros dos outros e utilizar as experiências relatadas, nas mais impressionantes histórias que se pode encontrar, para melhor desenvolver a aptidão para enfrentar as mais diversas situações a bordo. Tanto eu como a Paula participamos de vários cursos de formação técnica, tanto para a obtenção das habilitações de Arrais e, posteriormente, de Mestre, para a condução de embarcações, quanto outros correlatos, como meteorologia - fundamental para quem vai se colocar vulnerável às condições do tempo - e medicina alternativa, para manter em bom funcionamento o “equipamento humano” a bordo. Quando os filhos foram nascendo, já estava decidido que eles não cursariam escolas normais, a não ser por pequenos períodos de experiências de relacionamento com outras crianças. A agenda escolar, com aulas de segunda a sexta-feira e férias em alguns poucos meses prédeterminados, não se compatibiliza com o dia-a-dia de quem quer ser dono de seu tempo e decidir sobre novos rumos a todo o momento. O Gabriel foi alfabetizado por mim, já a Valentina passou pela escola no período de alfabetização. Moramos em lugares diferentes, muitas vezes longe da cidade, implantando áreas naturistas, e as crianças nos acompanham. Finalmente, após alguns anos de experiências diversas de estudos em casa e em algumas escolas, conseguimos matriculá-los no

200


Epílogo

sistema de ensino à distância do colégio Anglo Americano, no Rio de Janeiro. A escola remete os polígrafos das matérias, com o conteúdo a ser estudado e exercícios internos, mais as provas a serem preenchidas e remetidas para o Rio, ao final de cada polígrafo. O meu trabalho é apenas de monitorar e acompanhar a rotina de estudos e de remeter o material para a escola. O Gabriel e a Valentina já estão ficando adolescentes e, como tal, sempre acham a grama do jardim do vizinho mais verde. Quando estão com preguiça de fazer seus estudos - que são de apenas duas horas e meia por dia - reclamam desse sistema, dizem que preferiam estudar numa escola normal, com colegas, recreio, etc. Já os amiguinhos deles os invejam, dizendo que adorariam ter um sistema de ensino como o deles, com muito mais tempo para brincar. Nós percebemos, também, que suas vidas são saudáveis, relacionam-se bem com pessoas de qualquer idade, têm acesso à internet, TV por assinatura e todo o mar de informações que esses instrumentos trazem para dentro das nossas vidas. No momento em que eles quiserem seguir suas próprias carreiras profissionais, terão tempo hábil de se preparar para qualquer vestibular e ingressar em qualquer universidade, se isso realmente for de seu interesse. Por outro lado, não serão pressionados a fazer qualquer tipo de escolha profissional aos dezesseis ou dezessete anos, quando todos os demais adolescentes sofrem a pressão social e familiar para escolher uma carreira e passar no vestibular. Há inúmeras maneiras de se desenvolver profissionalmente e a universidade não é a única porta para a realização profissional. Convivemos com os nossos filhos vinte e quatro horas por dia e isso é uma dádiva. Serão poucos anos durante os quais nossos filhos serão crianças e adolescentes. Depois disso, para o resto das suas - e das nossas - vidas, eles serão adultos. Acho uma insensatez o sistema que está montado atualmente na sociedade. As crianças são pressionadas a viver em bandos e a competir, desde a tenra idade. São aprisionadas a agendas cada vez mais cheias e complexas, enquanto os pais, que trabalham fora, quase não as vêem. Talvez fiquem juntos nos finais de semana, mas isso também é raro, pois

201


500 Milhas de Água Doce

em sábados e domingos cada um vai procurar os seus interesses pessoais e as suas turmas de amigos. Geralmente, os pais só percebem que não curtiram a infância e juventude dos seus filhos quando se tornam avós. Pode até ser um pouco de sentimentalismo e romantismo da minha parte, mas quando estamos ancorados em alguma praia deserta, em pleno “dia útil” (como se os outros dias fossem inúteis) e período escolar, e vemos nossa família unida, rindo e se divertindo, celebrando a vida, sentimos a certeza de que não deixamos esse tempo passar desapercebido. A Valentina tem talento nato para o desenho e o Gabriel, como a maioria dos garotos da sua idade, para a informática. A Valentina devora livros, de qualquer tema, com muita avidez e memoriza tudo. O Gabriel tem muita persistência na pesca, responsabilidade nas atividades e é muito inteligente. Ambos dominam as conversas quando estamos ancorados ao redor de outros barcos, confraternizando com outras pessoas. Não tenho qualquer dúvida de que estão sendo bem preparados para o futuro. Especialmente para escolher o seu próprio futuro, num terreno que lhes traga felicidade.

III - O Roteiro A

escolha da Lagoa Mirim como destino da nossa viagem foi movida por vários atrativos. O Arroio São Miguel, na divisa entre o Brasil e o Uruguai, é o ponto mais distante, em água doce, que pode ser alcançado, navegando à vela, desde o nosso clube de origem. Isso, para nós, representava um desafio e um bom campo de treinamento para toda a tripulação, durante um período mais longo, 202


Epílogo

BRASIL ARGENTINA

Rio Pardo

Porto Alegre

Tapes

Lagoa dos Patos URUGUAI

Pelotas Jaguarao

Oceano Atlântico Rio Grande

Lagoa Mirim Chui

sujeito a mudanças no tempo e nos humores de dois adultos e dois adolescentes convivendo, às vezes, nos limites dos poucos metros quadrados do interior da cabine, durante os dias de chuva. A Lagoa Mirim tem o atrativo das águas limpas - especialmente nos períodos de seca - e pela fauna, que é em parte protegida pela reserva ecológica do Taim. Dezenas de espécies de aves, de diversos tamanhos e cores, nos recepcionavam nos arroios e alagados, sempre que chegávamos para nos abrigar durante a noite, ou durante os períodos de mau tempo. Apesar de apresentar um maior número de redes espalhadas ao longo das águas brasileiras, a Mirim oferece uma quantidade muito grande de abrigos - especialmente para barcos de pouco calado - o que se traduz por uma navegação mais segura e tranqüila, tendo-se sempre algumas opções de refúgios a cada duas ou três horas de navegação. O canal São Gonçalo constitui um deleite, especialmente com vento a favor, pois seu leito é profundo e suas margens apresentam uma vegetação variada, mudando o cenário a cada hora. Há bons pontos de recarga para baterias, água, gasolina e 203


500 Milhas de Água Doce

abastecimento em geral, especialmente nos clubes, como em São Lourenço do Sul, Pelotas e Jaguarão. Todos esses clubes alegam que mantêm escuta no rádio VHF, canal 16, dia e noite. O único que passou no teste, entretanto, foi o Iate Clube de Jaguarão, que sempre atendeu os nossos chamados e que alcança quase toda a Lagoa Mirim. Apesar dos rádios dos clubes de São Lourenço e Pelotas estarem localizados junto às portarias, onde deve haver um vigia dia e noite, várias vezes não recebemos respostas das nossas chamadas. Em Jaguarão, apesar do rádio ficar localizado no escritório do clube, que nem sempre está aberto, ele fica permanentemente ligado e há um alto-falante externo, de modo que se ouve o canal 16 em toda a área do clube. Vale à pena reservar um ou dois dias para cada uma dessas escalas, para conhecer as cidades. Sempre se encontra surpresas agradáveis e um conhecimento maior sobre esses pólos históricos do Rio Grande do Sul.

IV - Ancoragens e Pernoites T

enho um sono muito leve e, portanto, dificuldade para dormir com o barco rondando ao redor de uma âncora, num abrigo ou enseada. Prefiro sempre procurar os buracos, alagados, arroios, nos quais posso amarrar o barco contra árvores, arbustos ou simplesmente contra uma barranca de rio, jogando a âncora em terra. Durante quase todo o tempo em que estivemos fazendo essa viagem, só ancoramos a mais de cinco metros de terra em duas ou três ocasiões. Ainda assim, foram ancoragens dentro de alagados ou 204


Epílogo

pequenas enseadas, que davam proteção contra ondas de qualquer lado. É possível fazer essa viagem tendo todos os pernoites com a proa ou o costado encostado em terra firme ou, pelo menos, bem amarrado em árvores para qualquer viração no tempo. Em muitos desses abrigos, especialmente em área brasileira, há pescadores que ali também buscam refúgio. Desse modo, os pescadores são sempre uma boa fonte de orientação sobre abrigos e passagens sobre bancos de areia e outros obstáculos. É conveniente ter a bordo algum estoque de latas de cerveja, cachaça ou chocolate, que podem servir como agradecimento ou até mesmo como moeda, na troca por peixe fresco.

V - O Tempo A

s condições do tempo são uma variável imponderável, mas que deve ser considerada, pois dela depende o sucesso da viagem. O sucesso, nesse caso, não é atingir o ponto mais distante, mas retornar ao ponto de partida, com o barco e a tripulação intactos. Isso, para mim, além de dispor de combustível suficiente para o percurso a fazer, implica em molhar o dedo na boca e levantar acima da cabeça para ver de que lado vem o vento. Fiz um curso de meteorologia, especialmente para navegadores, li alguns livros, ouço a previsão das rádios, consulto a internet, acompanho as variações do barômetro, mas, ainda assim, sempre tenho dúvidas. Ir do Bojuru ao Cristóvão Pereira pode até ter a mesma distância entre Pelotas e o sangradouro da Lagoa Mirim, mas no resto é totalmente diferente. No primeiro caso, são 30 milhas de travessia sem qualquer abrigo, entre uma costa rasa de areia e as pontas dos bancos, que não convidam à navegação pela outra margem da lagoa, onde há mais 205


500 Milhas de Água Doce

refúgios. Uma mudança de tempo no meio dessa travessia pode ser bem desagradável. Eu prefiro deixar a tripulação um pouco mais impaciente, ficando um dia a mais num bom abrigo, do que submetê-la ao medo de uma situação incerta, com ondas cavadas e vento forte que, algumas vezes, escolhem o rumo para o qual vão te levar. De qualquer modo, com exceção dos bancos, que avançam muitas milhas para dentro das lagoas, em especial na Lagoa dos Patos, um encalhe em qualquer das margens dificilmente traria risco à vida da tripulação, pois não há pedras ao redor e todas as margens são rasas. No caso de uma embarcação ser jogada contra uma costa, seja de areia ou de juncos, bastaria aos tripulantes desembarcar e procurar por socorro. O mesmo não se poderia dizer no caso de encalhe sobre a ponta de algum banco, onde a distância de terra poderia colocar em risco de afogamento eventuais náufragos, especialmente em más condições de tempo, com ondas e à noite. Não quero dizer, com isso, que não há riscos para quem navega pelas lagoas. Muitos barcos e vidas foram perdidos nos últimos séculos em suas águas. Há ventos fortes nas lagoas e ondas cavadas, com até mais de dois metros de altura, que se deslocam em grande velocidade e que podem, em caso de descuido do timoneiro, tombar um veleiro, inundá-lo e afundá-lo. Nessa hora, vai prevalecer a perícia da tripulação e as qualidades da embarcação, como elemento decisivo entre uma história a mais para contar e uma tragédia a mais para a história. Abaixo: Gabriel observa um Pampeiro, temporal localizado, que veio para cima de nós na Barra Falsa: essa é a base da nuvem, que tem a forma de um imenso cogumelo.

206


Epílogo

VI - A Rotina de Bordo M

esmo que não estivéssemos com crianças - adolescentes a bordo, seria importante criarmos uma rotina básica para as atividades do dia. Isso contribui para a manutenção do espírito elevado da tripulação, na medida em que cada um sabe que determinadas atividades não tão prazerosas - como lavar a louça, por exemplo - não durarão para sempre. É muito difícil, no transcorrer de vários dias de uma viagem como essa, não sucumbir ao sono mais cedo do que normalmente faríamos, se estivéssemos em casa, vendo um filme na TV. Desse modo, quando menos esperamos, nos vemos recolhidos às 8:30 ou 9:00 horas da noite. Isso contribui para os dias de navegadas, de modo que ninguém precisa fazer esforço - ou colocar um despertador - para acordar antes do sol nascer. É importante sair cedo para os novos destinos, para evitar que eventuais imprevistos nos obriguem a procurar o abrigo após o pôrdo-sol, quando estaremos bem menos aptos a escolher um bom local para passar a noite. Saindo pelas sete horas da manhã e fazendo pernas de seis horas, em média, estaremos chegando ao próximo destino por volta do meio dia ou duas da tarde, a tempo de preparar o almoço, descansar e passar o resto do dia explorando a área, pescando, lendo, etc. À noite, após a janta, um jogo de cartas cai bem, como um tipo de diversão que une a tripulação ao redor de uma mesa para brincar, conversar sobre as histórias do dia, combinar o dia seguinte e esperar o sono chegar. Também contribui para fazer esquecer as pequenas brigas que aconteceram durante o dia e leva a tripulação para a cama “com a alma limpa”. Tanto ancorados quanto navegando, é muito importante que todos conheçam a hierarquia a bordo e as tarefas de cada um, dentro de suas capacidades. 207


500 Milhas de Água Doce

Apesar do GPS ser um instrumento fantástico - e já indispensável para a navegação -, costumo plotar, de hora em hora, nossa posição sobre a carta. É o melhor meio de “olhar de cima” o nosso percurso, a direção da qual está vindo o vento, o destino que estamos almejando e eventuais abrigos de emergência pelo caminho. Também é importante lembrar que os obstáculos que podem significar risco à navegação, como pedras submersas, cascos soçobrados, bancos, etc., estão na carta náutica, e não no GPS. O banho... Bem, cada barco tem sua estrutura. Nossa família é naturista, de modo que estamos habituados a ficar nus, uns na frente dos outros. Nos dias quentes, o banho é uma diversão no deck de popa, com prenda para quem perder o sabonete dentro d'água. Quando a água é boa, mas a temperatura não convida a um banho ao ar livre, engato uma mangueirinha na saída de água do motor de popa, que vai até um pequeno chuveirinho no teto do banheiro. Além de bombear a água, o motor a aquece: é um luxo! Se a água está muito fria... Bem, aí nem o aquecimento do motor dá conta. Nesse caso, colhemos água da lagoa em galões plásticos de 5 litros, aquecemos no fogão e apelamos para o famoso “banho de canequinha”. Quanto às roupas, é bom ter um conjunto para uso durante o dia e outro para após o banho. Assim, você pode usar as mesmas roupas por vários dias sem sentir o desconforto de estar com roupas sujas sobre o corpo dia e noite. Todo dia, ao entardecer, não importa se esteja ancorado na lagoa ou dentro de algum arroio ou alagado: colocar telas em todas as aberturas, para evitar a entrada de mosquitos. Um descuido e eles invadem de repente: será uma noite de batalha. Pela manhã, as telas podem ser retiradas e até o pôr-do-sol não haverá grandes invasões. Com relação à tela - mosquiteiro -, quanto menores os furinhos, melhor, pois há mosquinhas muito pequenas, que passam pelos buracos.

208


Epílogo

VI - Abastecimento Q

uando a Paula saiu para ir ao supermercado, em Tapes, antes de partirmos, pedi a ela que não exagerasse nas compras, pois logo estaríamos em São Lourenço, depois em Pelotas, Jaguarão, etc., de modo que haveria outros lugares para abastecer o barco. Eu temia sobrecarregar de peso o Mojud e, assim, enfrentar dificuldades maiores em caso de lagoa picada, com ondas embarcando pela proa. Ela atendeu meu pedido e embarcou provisões para uma semana. Uma semana depois, estávamos ainda retidos no Cristóvão Pereira, pelo mau tempo e vento forte contrário, e as provisões estavam acabando, pressionando a uma saída precipitada do abrigo. Quando chegamos a São Lourenço, ela abasteceu o Mojud para mais de um mês de navegação, sem remorsos. Já havia bastante tempo, tínhamos aposentado a geladeira de bordo, que era a gás/12V/110V. Nunca tive coragem de ligá-la no gás, por temer vazamentos e, se ligasse nas baterias, em poucas horas estaríamos às escuras. Assim, vendemos a geladeira e compramos uma caixa de isopor. O gelo em barra é um desconforto, mas chega a durar quatro a cinco dias, após o que, consumimos apenas alimentos que não precisam de refrigeração. Posso dizer que não sentimos falta do gelo a bordo durante alguns dias. Assim, quando chegamos em alguma cidade, a bebida gelada é sempre um atrativo a mais para ser curtido e comemorado. As frutas e os legumes ficam bem conservados, por bastante tempo, depositados sobre uma rede que montei entre a coluna do pé do mastro e a parte de cima da cabine de proa. É um local bem ventilado e preserva por bastante tempo os alimentos. Os pães podem durar até quatro ou cinco dias. Após isso, nada como o gostoso aroma de uma fornada de pães-de-minuto - ou mesmo pães de verdade - feitos a bordo. 209


500 Milhas de Água Doce

Falando em comida, sempre é bom lembrar que o gengibre é um excelente preventivo contra enjôos. Nas nossas primeiras navegadas, a Paula preparava sanduíches com mel, maçã, queijo e gengibre cortado em fatias bem finas. Além de saboroso, mantêm a tripulação esperta. Com relação a carnes,... Bem, a Paula é vegetariana, mas o resto da tripulação ainda não. Quando não há peixe para o almoço, podemos ter guisado de carne de soja que, se bem preparado, com molho de tomates, engana qualquer um e não há problemas para o armazenamento por longos períodos. Para os dias frios e úmidos, optamos por pratos de forno. Cozinhar arroz, sopa ou macarrão, dentro de uma cabine pequena onde lutamos contra a umidade, seria um contra-senso. Consumimos refrigerantes enquanto dura o gelo, mas depois disso aproveitamos as embalagens plásticas para preparar sucos em pó, de pacotinhos, que “descem melhor” à temperatura ambiente. Velejar é ótimo para o espírito e nos proporciona momentos inesquecíveis de contato com a natureza. Um veleiro de oceano pode custar o mesmo que um segundo carro e ser um grande atrativo para unir a família de um modo saudável e trazendo divertimento a todos. Bons Ventos.

210


Chuvas no Cristóvão Pereira

Pôr-do-sol no Porto Barquinho

Mojud e Refúgio aportados contra o barranco do Porto Barquinho Emas típicas do local


Refúgio espelhado no canal.

Adriano e Rocca explorando a região, em busca das capivaras.

Do topo do mastro do Passatempo, dá para avistar os molhes de proteção do Porto Barquinho.


Velas, vento, sol e ĂĄgua...

Que prazeiroza integração do homem com os elementos naturais!


O vento parou. Gabriel recolhe as velas...

... na aproximação da Ilha do Vitoriano.


Enfrentando o vento sul na Lagoa dos Patos.

A caminho da Lagoa Pequena.


Valentina no seu recosto predileto.

Gabriel sondando a profundidade de um canal com pouco mais de 1m de superfĂ­cie livre.

Trem barco...


Voltando a velejar na Lagoa dos Patos.

Canal São Gonçalo: Valentina aproveita para ler enquanto Gabriel conduz o Mojud em meio a uma natureza exuberante.


Detalhes da bela igreja de Santa Isabel do Sul. Esperando o almoรงo.

Crianรงas cumprindo com seus estudos regulares.

Colhereiros cor-de-rosa.


Ponte da estrada de ferro: será que passa?

A eclusa do São Gonçalo é uma atração à parte.


Valentina curtindo seus pensamentos na proa do Mojud.

Paula buscando uma aproximação maior com os pássaros da Lagoa Mirim.

Um bom abrigo para amanhecer um novo dia e rumar para a foz do Rio Jaguarão.


Subindo o Rio Jaguarรฃo para passar dias agradรกveis no simpรกtico iate clube da cidade.


A belĂ­ssima ponte que liga o Brasil ao Uruguai.

Velejando em ĂĄguas uruguaias.


Velejando com ventos calmos, rumo ao abrigo da Ilha Grande do Taquari.

Vento e ondas pela popa exigem atenção constante no leme.


Alegria de fisgar um belo jundi谩.

Arroio Pelotas

Valentina exercitando seus n贸s.

Arroio dos Afogados


Gabriel na proa, tentando decifrar o curso do Rio São Miguel.

As belas composições das margens alagadas.

King’s Son mostrando o caminho até o forte San Miguel.


Amanhecer nos alagados da Ponta Alegre.

Esperando a melhora do tempo e dos ventos força 7, na “piscina” do Rio Taquari.

O sol, finalmente, reaparece no entardecer.


Ao amanhecer, preparando a navegação para mais uma etapa da viagem.

Dividindo o estreito Canal da Feitoria com navios nem sempre cordiais.


Celso e Valentina se divertindo nas adernadas.

Saindo do Veleiros Saldanha da Gama.

No Canal da Feitoria... À ver navios.

...A ĂĄgua do mar invade a Lagoa.


Com o Mojud ancorado no Bojuru...

... fomos nos divertir nas dunas.

Hora do lanche.

Abrigo no canalete ao lado da taipa da Barra Falsa.


Veleiros pernoitando no Porto Barquinho...

... onde se pula da proa para a grama.

Antes do sol nascer, a saĂ­da para cruzar a Lagoa dos Patos.

Os raios de sol sobre Tapes: de volta para casa.


ApĂŞndice


Glossário de Termos Náuticos ADERNAR - É a inclinação de uma embarcação sobre um dos lados, sob o efeito do vento sobre as velas. ADRIÇA - Cabo usado para içar velas. AMANTILHO - Cabo que vem do topo do mastro, com a finalidade de sustentar a retranca. AMARRA - Cabo ou corrente presa numa âncora ou bloco de concreto para amarrar uma embarcação. ÂNCORA - Peça com peso proporcional ao do barco,que é jogada ao fundo da água com a finalidade de segurá-lo. AUTONOMIA - É o período que a embarcação consegue navegar sem abastecer. ARRIBAR - Guinar a favor do vento, afastando a proa da embarcação da linha do vento. BALÃO - Vela de proa, fabricada de tecido fino, usada com vento em popa ou de través folgado. BARLAVENTO - Lado de onde sopra o vento. BIRUTA - Indicador da direção do vento, instalado no tope do mastro. BOCA - Largura da embarcação, considerando-se, para tanto, sua parte mais larga transversalmente. BOLINA - Lâmina de madeira ou fibra, articulada longitudinalmente na parte debaixo do casco para evitar a deriva durante a orça.

233


500 Milhas de Água Doce

BOMBORDO - Lado esquerdo da embarcação, quando se olha da popa para a proa. BORESTE - Lado direito da embarcação, quando se olha da popa para a proa. BOTE - Pequena embarcação de proa fina e popa quadrada, possuindo uma grande boca em relação ao comprimento. BORDA - Parte superior do costado. BUJARRONA - Ou Buja, é a vela triangular que é içada na proa de um veleiro. CABINE - Parte interior do barco, destinado ao alojamento dos tripulantes ou passageiros. CABO - Denominação dada à corda de uso náutico. CAÇAR - Ato de puxar ou esticar um cabo, para regular as velas. CALADO - É a profundidade de água necessária para a flutuação de um barco. Distância que vai da linha da água até a parte inferior da quilha. CAMBAR - Mudar de rumo, passando as velas da embarcação de um lado para o outro. CATRACA - Molinete movido a manivela, para caçar as escotas e adriças. CATURRAR - Balanço de um barco, quando mergulha nas ondas. CARTA NÁUTICA - Representação gráfica de uma área de águas navegáveis. Mostra os meridianos de latitude e longitude. Informa os navegadores sobre a profundidade das águas, faróis, bóias, perigos submersos, etc.

234


Apêndice

CASCO - É o corpo de um barco sem mastros, velas, estais ou qualquer outro elemento que compõe uma embarcação. COCKPIT - Local no convés do barco onde está instalado o leme e o assento para o timoneiro. CONVÉS - A cobertura superior de um veleiro. Pode ainda ser chamado de coberta ou tombadilho. COSTADO - Parte externa do casco de um barco. CRUZETA - Barra transversal de reforço do mastro. Serve de apoio aos ovéns. CUNHO - Peça de madeira ou metal, onde se prendem escotas, amarras ou adriças. DEFENSA - Equipamento de proteção temporária do casco, que é colocada entre o costado e o cais ou outra embarcação. DOGHOUSE - Armação de lona ou aço, instalada sobre a entrada do barco, para proteção dos respingos das ondas e da chuva. ENROLADOR - Equipamento instalado no estai de proa, com a finalidade de enrolar a vela de proa em torno do estai, permitindo a regulagem por meio de cabos desde o cockpit. ESCOTA - Cabos usados para caçar as velas, regulando-as em função da relação do rumo da embarcação e da direção do vento. ESCOTILHA - Abertura em cabina ou convés. Apresentam-se como uma espécie de tampa de alçapão, também chamada de gaiúta. ESTAI - Cabos de aço fixos na proa e na popa do veleiro, com a função de sustentar o mastro. ESTIBORDO - O mesmo que Boreste.

235


500 Milhas de Água Doce

GAIÚTA - Entrada e janelas de uma embarcação. Proteção de lona ou madeira, que é colocada sobre uma escotilha, impedindo a passagem d'água. Entende - se, também , como uma pequena cabina. GENOA - Vela de proa, de diferentes tamanhos. GPS - Sistema de Posicionamento Global (em Inglês, Global Position Sistem), opera com dados fornecidos via satélite, calculando e fornecendo a localização geográfica da embarcação. JAIBE - Ato de passar a vela de um barco de um lado para outro, com o vento cruzando pela popa. LEME - Peça de superfície plana, situada na popa da embarcação, com a finalidade de controlar o rumo do barco. É acionado pela cana de leme, roda de leme ou timão, situados no cockpit. MANILHA - Peça metálica em formato de “U”, fechada por pino móvel, com a função de unir cabos e ferragens de convés. MASTRO - Peça de madeira ou metal, que se arvora em um barco com a finalidade de sustentar as velas. MESTRE - Significa comandante de um barco. A palavra deriva do magister navis da Roma antiga. No Brasil a palavra mestre e capitão já significaram a mesma coisa. Porém, com o tempo, mestre ficou sendo o capitão de navios da pequena cabotagem e a palavra capitão para os que comandavam navios de longo curso. MILHA NÁUTICA - Medida de distância cuja unidade é de 1.852 metros. MOITÃO - Roldana utilizada para guiar cabos de adriças e escotas. NÓ - Laço apertado de um cabo. Unidade que mede velocidade e corresponde a 1.852 metros por hora. OLHAL - Orifício reforçado instalado nas velas para permitir a passagem de cabos de adriça e amarração. 236


Apêndice

ORÇAR - Movimento da embarcação em direção à linha do vento. Navegar contra o vento, em ângulo menor que 90 graus. OVÉM - Cabo de aço que auxilia na sustentação lateral do mastro. PAU DE SPINNAKER - Tubo de alumínio utilizado para manter aberta a vela balão. POPA - Extremidade traseira de um barco. PORÃO - Nome dado a espaços de grandes dimensões que se abrem no convés e vão até o fundo do casco. Local destinado ao depósito da carga. PROA - Extremidade dianteira de um barco. QUILHA - Peça que se salienta como a mais inferior do fundo de um barco, longitudinal à linha do casco, auxiliando na direção. RETRANCA - Barra transversal, instalada na parte de baixo do mastro, para manter a vela grande aberta. RIZAR - Diminuir a área vélica de um barco, geralmente para diminuir o adernamento causado pelo efeito do vento. SOTAVENTO - Lado para onde sopra o vento. SAFO - Tripulante ágil e eficiente nas manobras. Estado de liberação, desenrosco. TRAVÉS - Direção do vento, ou de marcação, no ângulo de 90 graus em relação à proa da embarcação. VELA GRANDE - Vela instalada entre o mastro principal e a retranca. VELOCIDADE - Ela é medida em nós, cada nó corresponde a 1.852 metros por hora. 237


500 Milhas de Água Doce

WAYPOINT - Ponto de localização geográfica, com latitude e longitude, marcado pelo GPS.

238


Sugestões de Leitura Coletânea da Biblioteca do Autor

ALBUQUERQUE, João Francisco Sombra de. O Guardian Velejando o Pacífico. Alagoas: Sergasa. ALEXANDER, Caroline. Endurance. São Paulo:Cia de Letras, 1999. AMORIM, Aderbal Torres de. Quatro Mil Milhas Além. Porto Alegre: Mercado Aberto Ltda. BARROS, Geraldo Luiz Mendonça de. Meteorologia para Navegantes.Rio de Janeiro: Ed. Marítima, 1999. BARROS, Geraldo Luiz Miranda de. Segurança no Mar. BARROS, idem. Navegação Astronômica. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. Graf. Brasileira Ltda., 1978. BARROS, Roberto Mesquita de. Do Rio à Polinésia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. Marítimas Ltda., 1986. BELOV, Aleixo. A Caminho de Casa Vol.1. Salvador: Bigraf, 1989. BELOV, Aleixo. A Caminho de Casa Vol.2. Salvador: Bigraf, 1989. BELOV, Aleixo. A Caminho de Casa Vol.3. Salvador: Bigraf, 1990. BODE, Richard. Velejando com a Vida. Rio de Janeiro: Sextante 1999. BORDEAUX, P.M.. La Vela. Barcelona: Ed. Juventud, 1967. CALLAHAN, Steven. À Deriva 60 dias Perdidos no Mar. Rio de Janeiro: Ed. Marítimas Ltda., 1986. 239


500 Milhas de Água Doce

CECCON, Eneida Regina. Cozinhar a Bordo-Rapunzel. São Paulo: Aventura Editorial Ltda. CECCON, Marçal. Rapunzel Nos Mares do Sul. Aventura Editorial Ltda., l998.

Rio de Janeiro:

CECON, Marçal. Guia Náutico da Costa Brasileira. CECON, Marçal. Rapunzel. Rio de Janeiro: Ed. Marítimas Ltda., 1994. CHICHESTER, Francis. La Vuelta al Mundo Del GIPSY MOTH . Barcelona: Ed.Juventud, 1967. DEUS, Edson de. Passageiros do Vento. 2ª ed. Salvador: Ed. Gráfica, 1999. EMYGDIO, Décio Vaz. Lagoa Mirim, um paraíso ecológico. Pelotas: Editora Livraria Mundial, 2000. FAMÍLIA SCHÜRMANN. Dez Anos no Mar. Rio de Janeiro: Record, 1995. FORN, Hernan Alvarez. Mensagem em Garrafa. Rio de Janeiro: Ed. Marítimas Ltda. FURTADO, Alexandre Alex. Um Veleiro, Muitas Histórias. Porto Alegre: Ed. Do Autor, 1999. HAYS, Daniele e David. Meu Velho e o Mar. São Paulo: Martins Fontes, 1996. JANICHON, Gerard. Damien do Spitsberg ao Cabo Horn. Rio de Janeiro: Ed. Marítimas Ltda., 1986. JANICHON, Gerard. Damien Antártica à Vela. Rio de Janeiro: Ed. Marítimas Ltda., 1986. KLINK, Amyr. Cem Dias Entre Céu e Mar. 7ª ed. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1985. 240


Apêndice

KLINK, Amyr. As Janelas do Parati. São Paulo: Cia de Letras, 1993. KLINK, Amyr. Mar Sem Fim. São Paulo: Cia. das Letras, 2000. KNIPPLING, Geraldo Werner. O Guaíba e a Lagoa dos Patos. Porto Alegre: Edição do Autor, 1993. LINK, Geraldo Tollens. Velejando o Brasil de Porto Alegre ao Oiapoque. 3ª ed. Porto Alegre: Ed. Metrópole, 1979. MOITESSIER, Bernard. O Longo Caminho. Rio de Janeiro: Ed. Marítimas Ltda., 1984. MOWAT, Farley. O Barco que Não Queria Flutuar. Rio de Janeiro: Ed. Marítimas Ltda., 1989. OTRANTO, Álvaro. De vento em Proa. Rio de Janeiro: Aventura Editorial, 2000. PAIVA, Cláudio. Inferno do Mar. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995. PALLEQUER, Bernard. Pequeno Guia do Céu. São Paulo: Livraria Martim Fontes Ed. Ltda 1ª Ed., 1991. PEAZÊ, Luís Alvídia. Um Horizonte a Mais. Rio de Janeiro: Stylita Ed. Ltda., 2000. PIVEN, Joshua and BORGENICHT, David. Como Sobreviver a Situações Limites. Frente Ed. Ltda., 2001. ROBINSON, Bill. The Handbook of Sailing . ROOS, Willy de. Da Groenlândia ao Estreito Bering. Rio de Janeiro: Ed. Marítimas Ltda., 1992. SAN MARTIN, Eduardo. Terra a Vista. POA. Artes e Ofícios Ed.Ltda., 1998.

241


500 Milhas de Água Doce

SANADA, Vera e Yuri. Como Viver a Bordo. Porto Alegre: LPM Editora S.A. SCHMIDT, João G.. Aprenda a Velejar. Rio de Janeiro:Ed.Tecnoprint Ltda. SCHÜRMANN, Heloisa. FAMÍLIA SCHÜRMANN: um mundo de aventuras. Rio de Janeiro: Record, 2000. SETTI Jr, Helio. Aventuras no Mar. 5ª ed. Porto Alegre: LPM, 1998. SLOCUM, Joshua. Velejando Solitário ao Redor do Mundo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1991. SMEETON, Miles. O Destino do TZU Hang. Rio de Janeiro: Ed. Marítimas Ltda., 1988. TESTA, Serge. A Volta ao Mundo em 12 Pés. São Paulo: Ed. Iluminuras, 1996. XAVIER, Paulo and COPSTEIN, Raphael. Pelas Águas do Rio Grande. Porto Alegre: Magister, 1993.

242


Apêndice

Waypoints

Saco de Tapes Latitude C. Náutico Tapense Canal CNT bóia 1 Canal CNT bóia 2 Canal CNT bóia 3 Canal CNT bóia 4 Canal CNT bóia 5 Canal CNT bóia 6 Canal CNT bóia 7 Canal CNT bóia 8 Canal CNT farol Pau do Hugo Três Butiá Barra do Adauto Praia do Roncador Praia do Biru Capão da Lancha

St-cnt Stcnt1 Stcnt2 Stcnt3 Stcnt4 Stcnt5 Stcnt6 Stcnt7 Stcnt8 Stcnt9 Stpauh St3but Stadau Stronc Stbiru Stcapl

Longitude

o

30 39,955' 30o40,675' o 30 40,517' 30o40,377' 30o40,262' 30o40,147' 30o40,068' o 30 40,044' 30o40,044' 30o40,038' 30o46,229' 30o38,000' o 30 38,357' 30o41,601' 30o48,058' 30o47,018'

51o23,407' 51o21,626' o 51 21,944' 51o22,218' 51o22,434' 51o22,667' 51o22,920' o 51 23,073' 51o23,173' 51o23,226' 51o21,357' 51o21,538' o 51 19,973' 51o19,660' 51o17,258' 51o18,724'

Lagoa dos Patos Itapuã Barba Negra través Naufrágio Álvaro Alberto Naufrágio Rio Negro Pontal de Santo Antônio Banco Desertores passagem N

Lpitap Lpbngr Lpn-aa Lprneg Lppont Lpdesn 243

30o23,100' 30o32,000' o 30 47,370' 30o48,500' 30o50,103' 30o54,116'

51o03,600' 51o07,500' o 51 11,607' o 51 09,500' 51o17,707' 51o19,051'


500 Milhas de Água Doce

Latitude o

Banco Desertores passagem S Lpdess 30 54,262' Porto Barquinho aproximação Lpbar1 31o01,333' Porto Barquinho entrada molhes Lpbar2 31o03,084' Cristóvão Pereira balisa banco Lpcper 31o02,000' Cristóvão Pereira aprox. 04 Lpcpe4 31o04,263' Cristóvão Pereira aprox. 03 Lpcpe3 31o04,673' Cristóvão Pereira aprox. 02 Lpcpe2 31o04,000' Cristóvão Pereira aprox. 01 Lpcpe1 31o03,000' Cristóvão Pereira abrigo Lpcpe5 31o03,972' Capão da Marca través Lpbdma 31o14,000' Ilha do Vitoriano abrigo Lpvit1 31o15,343' Ilha do Vitoriano aprox. 1 Lpvit2 31o15,390' Ilha do Vitoriano aprox. 2 Lpvit3 31o15,832' Ilha do Vitoriano aprox. 3 Lpvit4 31o15,802' Ilha do Vitoriano banco Lpvitb 31o16,358' Capão da Marca Lpcapm 31o18,500' São Lourenço farolete Lpslo1 31o23,380' São Lourenço boca Lpslo2 31o22,840' Banco do Quilombo farolete Lpquil 31o27,000' Bojuru balisa banco Lpboju 31o27,500' Bojuru aproximação Lpboj2 31o29,000' Bojuru abrigo Lpboj1 31o29,708' Arroio Grande Lpargr 31o30,000' Barra Falsa aproximação Lpbfal 31o32,833' Barra Falsa boca Lpbfa1 31o33,360' Lagoa Pequena aproximação Lplap2 31o35,434' Lagoa Pequena entrada norte Lplap1 31o35,825' Lagoa Pequena intermediário Lplpq1 31o37,949' Lagoa Pequena saída sul Lplaps 31o40,500' Canal da Feitoria x C. S. Gonçalo Lpfepe 31o47,292' Canal S. Gonçalo boca na L. PatosLpcsgl 31o47,500' Veleiros Saldanha da Gama Lpsgpe 31o46,719' Clube Veleiros Saldanha da Gama Sgcvsg 31o46,690' Eclusa do Canal São Gonçalo Sgeclu 31o48,767'

244

Longitude 51o19,191' 51o01,000' 51o00,578' 51o10,000' 51o09,831' 51o09,342' 51o08,500' 51o08,000' 51o09,952' 51o14,000' 51o37,209' 51o37,768' 51o37,465' 51o37,185' 51o36,839' 51o13,333' 51o57,460' 51o57,970' 51o45,500' 51o26,000' 51o23,500' 51o25,293' 52o00,000' 51o27,833' 51o27,940' 52o00,327' 52o00,851' 52o03,144' 52o04,000' 52o10,659' 52o12,500' 52o18,861' 52o18,771' 52o23,000'


Apêndice

Lagoa Mirim Latitude Longitude Ilha do Sangradouro Mangrulho Sangradouro Mangrulho Sangradouro Mangrulho Sangradouro Mangrulho Sangradouro Arroio Chasqueiro Ponta Alegre Arroio Canhada Grande Arroio Bretanha aproximação Arroio Bretanha boca Arroio dos Arrombados Arroio Juncal aprox. 3 Arroio Juncal aprox. 2 Arroio Juncal aprox. 1 Arroio Juncal boca Iate Clube Jaguarão Rio Jaguarão

Sgisan 32o08,767' Lmman1 32o09,200' Lmman2 32o10,883' Lmman3 32o14,017' Lmman4 32o17,534' Lmacha 32o16,084' Lmpale 32o22,333' Lmacgd 32o27,567' Lmabr2 32o29,617' Lmabr1 32o29,600' Lmaarr 32 o33,750' Lmaju4 32o39,155' Lmaju3 32o38,732' Lmaju2 32o38,439' Lmaju1 32o38,451' Jaguar 32o34,331' Jag-01 32o34,407' Jag-02 32o34,540' Jag-03 32o34,772' Jag-04 32o35,011' Jag-05 32o35,337' Jag-06 32o35,560' Jag-07 32o35,589' Jag-08 32o35,541' Jag-09 32o35,311' Jag-10 32o34,994' Jag-11 32o35,047' Jag-12 32o35,249' Jag-13 32o35,468' Jag-14 32o35,813' Jag-15 32o36,057' Jag-16 32o36,198' 245

52o37,400' 52o38,167' 52o39,867' 52o41,200' 52o42,200' 52o46,950' 52o42,650' 52o49,417' 52o57,733' 52o57,917' 53o00,500' 53o04,778' 53o04,989' 53o05,259' 53o05,353' 53o22,008' 53o22,113' 53o21,951' 53o21,714' 53o21,582' 53o21,496' 53o21,187' 53o20,958' 53o20,742' 53o20,529' 53o20,222' 53o20,031' 53o19,851' 53o19,717' 53o19,285' 53o18,713' 53o18,366'


500 Milhas de Água Doce

Latitude Longitude Jag-17 32o37,330' Jag-18 32o37,255' Jag-19 32o36,277' Jag-20 32o36,214' Jag-21 32o37,680' Jag-22 32o38,299' Rio Jaguarão entrada no rio. Jag-23 32o38,723' Rio Jaguarão boca Rjboca 32o39,734' Mangrulho Aprox. Rio Jaguarão Lmmanj 32o40,600' Ponta Muniz - passagem Lmpmun 32o43,100' Mangrulho Aprox. Rio Jaguarão Lmmjag 32o43,400' Rio Taquari Lmrtaq 32o46,356' Ilha do Taquari abrigo N Lmitaq 32o53,967' Ilha do Taquari abrigo S Lmitas 32o54,756' Arroio dos Afogados boca Lmafog 33o07,267' Mangrulho Ponta dos Afogados Lmmafo 33o04,750' Rio Cebollati boca Lmceb1 33o08,950' Rio Cebollati aproximação Lmcebb 33o08,936' Rio Cebollati abrigo Lmital 33o09,308' Ponta Pelotas - través Lmtrpe 33o22,233' Arroio Curral d'Arroios Lmacur 33o23,538' Arroio Pelotas Lmapel 33o27,509' Santa Vitória aprox. 2 Lmsvt2 33o29,810' Santa Vitória aprox. 1 Lmsvit 33o29,483' Santa Vitória abrigo Lmsvt1 33o29,973' Rio São Luiz Lmslui 33o31,400' Rio São Miguel Lmsmig 33o36,150'

246

53o17,324' 53o16,852' 53o16,368' 53o14,938' 53o14,430' 53o13,145' 53o11,157' 53o10,817' 53o10,433' 53o10,717' 53o04,350' 53o18,247' 53o17,117' 53o17,430' 53o22,533' 53o24,433' 53o37,183' 53o36,543' 53o38,096' 53o30,634' 53o26,286' 53o35,393' 53o26,311' 53o26,533' 53o26,024' 53o32,517' 53o31,933'



500 Milhas de Água Doce