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A MONTANHA ano 5 | número 9 | maio 2017

Os primeiros 60 anos do Clube Excursionista Light e mais histórias...

Abril 2016

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Revista do CEL

PAPO DE


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editorial

2017 é um ano especialíssimo para o Clube Excursionista Light, pois marca a comemoração do sexagéssimo aniversário do CEL.

Para essa data organizamos uma mega festa e produzimos diversos produtos. Tudo isso foi contado por Karla Paiva na matéria com um título muito sugestivo.

Outra matéria que também tem a ver com essa comemoração é a que conta sobre o Projeto Vias do CEL, que tem como objetivo catalogar nossas conquistas e registrar todas as informações sobre cada uma delas.

ano 5 | número 9 | maio 2017 CEL - Clube Excursionista Light Presidente: Karla Paiva Vice-Presidente: Secretaria-Geral: Rogério Bandeira Tesouraria: Claudio Van e Norma Bernardo Diretoria Técnica: Amanda Danielle Diretoria Social: Gabriela Lima Diretoria de Ecologia: Daniel Arlotta Diretoria de Comunicação: Claudney Neves Diretoria Cultural: Fernando Araújo Projeto Gráfico inicial: Paulo Ferreira Organização: Claudney Neves Editoração: Karla Paiva Foto de capa: Montanhistas na Pedra Bonita Foto: Francisco Thomaz Lisboa Papo de Montanha é uma publicação do CEL - Clube Excursionista Light. As opiniões expressas pelos autores são de inteira responsabilidade dos mesmos e não representam a opinião da revista Papo de Montanha e do CEL.

Fale Conosco: cel@celight.org.br Av. Marechal Floriano, 199/501 Centro, Rio de Janeiro - RJ Tel.: +55 21 2253-5052 Siga-nos: /celight.org.br /ClubeExcursionistaLight

A parte técnica vem com a segunda parte do artigo sobre Backpacking light, onde Alexandre Charão apresenta várias opções de equipamentos leves, com os quais sua longa caminhada ficará bem mais agradável.

E para terminar, Carrasqueira nos leva em uma viagem de sonho pelas terras de Gengis Khan, totalmente imperdível!

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Backpacking Light

índice

Como viajar leve - Parte 2 .................................................................................. 04

Nossos primeiros 60 anos Aniversário do Clube Excursionista Light........................................................... 16

Vias do CEL Nossas conquistas nas paredes ......................................................................... 22

Montanhas Altai Na trilha de Gengis Khan..................................................................................... 32 Abril 2016

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Backpacking Light Como viajar leve - Parte 2 QUE MATERIAIS USAR PARA UMA CARGA LEVE E PASSO RÁPIDO NA MONTANHA?

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Ano passado publicamos no informativo do CEL uma matéria sobre Carga Leve, Passo Rápido abordando o Histórico, os Princípios, as Técnicas Básicas e as Técnicas Avançadas para poder caminhar mais leve e curtir mais a montanha. Citei também diversas marcas e modelos de materiais de caminhada, principalmente dos três itens mais pesados. Prometi ao Clube Excursionista LIGHT que continuaria este ano, na época da ATM.

Texto: Alexandre Charão Fotos: acervo do autor e site dos fabricantes

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Relembrando o final da matéria anterior... E sobre o restante do material, além dos TRÊS MAIS? Falaremos sobre todos os itens até o final da matéria, não se preocupem. É claro que materiais de ponta e mais leves custarão mais caro; no final farei algumas sugestões sobre materiais, preços, onde comprar e sites de Backpacking Light para se informar e saber onde conseguir material mais leve.

INTRODUÇÃO

Lembrando que os 3 itens mais importantes de serem trocados logo são a barraca, a mochila e o saco de dormir. De 2016 para 2017 tivemos algumas novidades no mercado e vou trazer para vocês 3 ou 4 opções para cada um destes itens. Vou listar o topo de linha, o bom, o mais barato e sempre que existir, algum material nacional, para que possamos valorizar nossa indústria. Além disso, o material brasileiro costuma ter uma disponibilidade maior, facilitando a vida de quem está começando este fantástico caminho que é o Pack Light, Walk Fast. Recomendo o seguinte site para iniciar sua busca: www. outdoorgearlab.com . Eles têm várias seções diferentes bem específicas, uma para Mochilas, outra para Mochilas Super Leves, tem também testes de barracas comuns e outras para packlight, exibem também comparativos de sacos de dormir ultra-leves etc..

EQUIPAMENTOS MAIS IMPORTANTES PARA A REDUÇÃO DO PESO TOTAL DA MOCHILA (THE BIG THREE)

Começo esta parte da matéria relembrando que não adianta nada investir numa panela de titânio se a sua barraca pesa mais do que 3 kg. É necessário primeiro reduzir o peso da mochila vazia, da barraca e do saco de dormir para aí então pensar na redução de outros itens. É por isso que começo falando destes 6

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2 equipamentos mais pesados. Não importa em que ordem você vai fazer esta mudança, contanto que comece com um destes 3. Pessoalmente, percebi que só reduzir a barraca ou o saco de dormir já me permitiu abandonar a minha cargueira tradicional e usar uma mochila de ataque para travessias curtas (de até 3 dias). Inclusive as mochilas super leves descritas abaixo costumam ter um volume de carga bem menor do que as cargueiras, geralmente transportam algo entre 45 e 65 litros e nada mais. Ou seja, pode ser interessante mudar sim sua barraca ou saco de dormir antes de mudar a mochila, senão estes dois itens não vão caber.

OPÇÕES DE MOCHILA PARA CAMINHADA Opção nacional: CONQUISTA ROCK N ROLL 50 A Mochila Rock’n Roll 50 é simples e funcional. Possui um compartimento principal bem espaçoso, bolsos grandes e de fácil acesso e um estofamento confortável. Com um peso surpreendente: apenas 840 gramas.


Opção equilibrada:

Top de linha:

REI Co-op Flash 45 Pack - Men’s Z-PACKS US$ 149 US$ 350 Materiais mais avançados trazem bastante conforto mesmo quando se retiram alguns itens básicos da mochila. Uma boa opção se uma compra no exterior for possível.

Opção avançada:

A top das mochilas, junto com algumas outras poucas marcas. São cargueiras muito leves, de menos de 1 kg. Variam de 500 g a 800 g dependendo da capacidade e do nível de acessorização. Recomendo fortemente a versão com bolso externo grande, com zíper, para ter objetos importantes a mão como casaco, mapa e lanterna. Recomendo também ter duas pochetes na barrigueira, cabe um lanche numa e a máquina fotográfica na outra.

Sierra Designs Flex Capacitor 40 a 60 litros, BARRACA PARA DUAS PESSOAS US$ 199 Todas as barracas descritas nesta seção são para 2 pessoas. É Opção bem raro irmos para a montanha sozinhos mais avançada ou em 3 mas algumas barracas tem pois foi projetada por Andrew sim a versão para 1 e para 3 pessoas, Skurka, um dos escolha com cuidado. Todas são papas do Pack- barracas para 3 estações, ou seja light. Se você incluem o inverno brasileiro porém puder investir não são feitas para neve. Recomendo 50 dólares bastante o uso de tapete de chão para a mais, vale os modelos importados, mais leves e muito a pena. finos, para aumentar a duração do É produzida seu equipamento. A barraca pode ser em dois taum dos últimos itens a ser adquirido, ma-nhos diferpois o peso e o volume de um entes e você pode escolher o seu tamanho de barriguei-ra ao encomendar o produto. modelo mais convencional podem Excelente opção, mesmo que ainda pese ser divididos entre os integrantes da caminhada ou você pode bivacar só mais do que 1 kg. com a lona externa da barraca.

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Opção nacional:

Opção profissional:

AZTEQ Nepal 2p R$ 700

Z-packs Duplex tent - Peso: 595 g US$ 600

Quem diria que poderíamos um dia comprar barracas em sites como Ponto Frio! É uma boa escolhar, apesar de ainda pesar 2,5 kg. Indicada para aqueles que ainda acampam com iglus pesadas de quase 4 kg.

É difícil imaginar porque gastaríamos tanto dinheiro numa barraca. Talvez este investimento só sirva para quem vai passar, a cada ano, semanas caminhando. O peso muito baixo vai aumentar muito o conforto. De qualquer forma sempre é útil citar que ela existe, ou seja, é importante ter um benchmark, uma referência do que o mercado de Pack Light oferece. Também precisa de bastões para armá-la. Uma alternativa a este preço tão elevado seria a MSR FlyLite 2 a US$ 349 (eu sei, eu sei, ainda muito caro!).

Opção boa: Guepardo Trekking 2 R$ 400 Pesando 1,8 kg, é outra boa opção no mercado nacional. A vantagem deste modelo é que ela usa os bastões de caminhada como armação, seguindo assim um dos princípios do Carga Leve, que é a dupla utilização de alguns materias (mas te obriga a sempre caminhar com bastões). Ela é vendida com vareta de metal, porém o peso sobe para 2,1 kg.

Opção leve: Big Agnes Fly Creek 2p US$ 350 Pesando 1,1 kg, é um grande avanço na redução de peso. Para quem puder encarar este custo maior, vale muito a pena. É a melhor relação custo-benefício do momento. Sempre verifique outras marcas do mesmo nível, pode haver algum lançamento mais recente que reduza um pouco o preço ou o peso. 8

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SACO DE DORMIR

Assim como para a barraca e para a mochila cargueira, o objetivo é chegar o mais perto possível de 1 kg de peso para cada um destes materiais. Em outras palavras, os três equipamentos mais pesados deveriam somar, idealmente, 3 kg. O problema é o alto custo destes equipamentos. A transição pode ser feita aos poucos, pois são materiais caros. Uma vantagem imediata de começar a mudança pelo saco de dormir é o tamanho muito reduzido destes sacos, permitindo que você use uma mochila de ataque grande para aquela travessia de 2 ou 3 dias, antes de investir numa mochila mais leve. Opção nacional: Trilhas & Rumos Super Pluma

Este saco de dormir nacional apresenta 3 versões, que variam de R$ 220 a R$ 440. A temperatura de conforto mais


baixa é encontrada na versão Super Pluma Gelo. O peso varia de 1,4 kg a 1,7 kg.

eu esclareço vários destes pontos enquanto nesta segunda parte, falo mais dos equipamentos em si. Mountain Hardwear MTN Speed 32

Decathlon Esta loja apresenta diversos modelos com pesos e preços diferentes: Forclaz 0 C Pesa 1,6 kg Custa R$ 249

US$ 350, próximo a 450 gramas. Aparentemente a MH vai trocar este modelo por outro parecido.

Feathered Friends Vireo

US$ 300, abaixo de 500 g.

Camping 0º C Pesa 1,2 kg Custa R$ 699

Makalu I -5ºC R$ 799 Encontrado facilmente aqui no Brasil, é uma das opções mais baratas feitas de duvet. Pesa 1280 g.

Opção boa: A partir daqui já temos modelos sem capuz, é uma forma de cortar o peso. Acreditem, pode causar espanto no começo mas eu me adaptei muito bem, basta dormir com um gorro ou com o anorak, usando o capuz deste. De novo estaríamos aplicando aquela regra do duplo uso, seu gorro de frio não precisa ser usado só do lado de fora da barraca, por que não usar para dormir? E o anorak? Vai levar só para caso de chuva? Não, use-o toda noite para aumentar seu conforto térmico. Se você não leu a primeira parte desta matéria, sugiro que o faça, lá

KLYMIT KSB 20 Down Sleeping Bag EMS® Mountain Light 20 Sleeping Bag, custa US$ 250. Considerando o câmbio, pode ser uma excelente alternativa aos sacos de dormir do Brasil custando acima de R$ 750.

Opção topo de linha: Zpacks™ 900 Fill Power Down

Você poderá escolher diversas temperaturas de conforto, de +5C até -12C. Para aventuras no Brasil, recomendo o modelo de -1C, para caminhadas em lugares mais frios e com chance de neve, pode ser usado o -7C ou até o -12C. O que muda é a quantidade do enchimento de duvet (a qualidade é a mesma). Lembrando que nestes modelos não existe o capuz e que o zíper é opcional, você tem que marcar que quer com zíper na hora da compra. Tudo para reduzir o peso! Abril 2016

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OUTROS MATERIAIS

Eu comecei pelos três itens mais pesados da sua mochila (incluindo ela própria!), foque neles para a sua futura mudança para o Carga Leve. Quando tiver a oportunidade, sem pressa, comece a mudar os itens abaixo. O impacto no peso total da sua mochila será pequeno mas às vezes podemos conseguir uma redução do volume que, conforme já foi explicado, pode nos permitir usar uma mochila de ataque para aquela travessia de 2 ou 3 dias ao invés de usar uma cargueira. A partir daqui eu não dividi mais em opção barata, boa e topo de linha pois são materiais mais em conta e que impactam menos no peso total carregado. Cada leitor poderá decidir sozinho a opção que mais lhe convém.

Isolante Guepardo – 170 g

Mais leve e com película metálica para refletir o calor do corpo

Decathlon Forclaz A100 (400g) ou A200 (730g, R$ 250)

São colchões infláveis, que aumentam o conforto e o isolamento térmico. Este poder de isolamento é medido pelo fator R, quanto maior o número, melhor o isolamento. Infelizmente só vemos tal medida em isolantes mais elaborados. Atenção, o modelo A100 é curto, você terá que usar algo embaixo das pernas para poder isolar todo seu corpo do frio do chão.

ISOLANTES

A pergunta inicial aqui é: você pretente transportar seu isolante dentro ou fora da mochila? Se for fora, os de enrolar são mais baratos. Se for dentro de mochila, até é possível enrolar um isolante de EVA e colocar dentro da mochila, porém isto ficará mais difícil quando você migrar para um mochila menor e mais leve. Além disto a vegetação no Brasil tende a agarrar no isolante do lado de fora. Com o tempo eu migrei para os infláveis pois dão muito mais conforto e poder de isolamento do frio do chão (fator R, vide abaixo).

Therm a Rest NeoAir® XLite® US$120, 350 g

Este é campeão do isolamento e do conforto. Existem versões para homens e para mulheres, assim como versões para inverno, com fator R ainda mais alto (não acho útil).

Isolante Conquista 9mm – 330g

Se o peso dos infláveis te preocupa, a Klymit já desenvolveu soluções como o:

fino.

INERTIA OZONE, 273 g, US$ 80

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Não recomendo o de 6 mm, é muito

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INERTIA X FRAME, 258g, US$ 65

Espiriteira a álcool Atenção, pra diminuir o peso eles O preço varia de fizeram buracos no colchão, pode ser 20 a 40 dólares, o desagradável se você se mexe muito peso de 20 a 100g . durante a noite

Para finalizar esta parte de ISOLANTES, queria lembra que é possível usar mochilas mais leves, sem armação nenhuma e usar justamente o isolante para criar a rigidez e transferência de carga dos ombros para a cintura. É possível usar isolantes rígidos, de EVA, para obter tal resultado. Lá fora existem mochilas que usam o isolante inflável, cheio porém dobrado, para funcionar como armação da mochila. Ou seja, de dia o isolante é armação, de noite você dorme sobre ele. Mais uma vez eles aplicaram o conceito de dupla função para um dos itens da sua mochila.

FOGAREIROS Mini fogareiro COMPACT Guepardo R$ 110, 168 g

Convém comprar 1 ou 2 pequenas garrafas para transportar o álcool. A vantagem deste sistema é que você só levará quantidade necessária para a sua travessia. Vamos dar um exemplo: para uma caminhada de 2 dias, você leva um pequeno de bujão de gás de 250g, certo? Para 3 dias, basta um bujão também mas o peso do metal (bujão vazio) estará com você até o final. Se for uma travessia de 4 dias, você provavelmente usará 2 bujões, ou seja, por causa de 1 dia a mais na montanha sua carga de gás duplicou! Agora, se você usar álcool, logo aprenderá a levar a quantidade certa para cada refeição. Detalhe: é bem mais difícil cozinhar com a espiriteira, sugiro levar comidas semi-prontas: congeladas para o primeiro dia, desidratadas e liofilizadas para o restante, com mais outras que não precisam de cocção para complementar, como batata palha, frango ou feijão já cozidos no vapor.

PANELAS

Estamos quase chegando ao fim da matéria. Não vou descrever aqui todas as opções existentes no mercado mas acho importante frisar que sempre temos que ter uma MSR Pocket Rocket REFERÊNCIA antes de comprarmos US$ 45, 73 g algo. Isto vale para tudo, para mochila, Confiável, leve e fácil saco de dormir, lanterna, tênis de de encontrar, é a melhor caminhada e panelas também. opção para quem quer No momento as panelas mais leves são feitas em titânio. O valor já cozinhar usando bujão caiu bastane. De novo, não adianta de gás. Acaba de sair a nada investir numa destas se a sua versão 2. Lá fora existem barraca ainda pesa mais do que 3kg bujões de somente 110g, ótimos para travessias rápidas. Como este ou mais do que 2,5 kg. Comece pelo item não existe no Brasil e não pode entrar BIG THREE, os três mais e só depois em aviões, eu uso fogareiro a álcool para venha para estes últimos itens da matéria. travessias mais curtas. Abril 2016

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Referência em panela: As marcas MSR, TOAKS e Evernew dominam o mercado. Preste atenção na capacidade e no tamanho do fogareiro que vai usar, panelas muito grandes ficam instáveis sobre pequenos fogareiros a álcool. Prefira cozinhar o mínimo possível se for fazer Packlight, ou seja use alimentos que basta aquecer, como os liofilizados. Numa recente travessia no Parques Torres Del Paine, eu sempre comia na panela e minha esposa no prato, evitando de levar duas panelas. Levamos só uma outra caneca de metal para poder fazer o café sem ter que lavar a panela principal. Ou opte por um conjunto de panela mais tampa que já sirva de panela secundária como este daqui: TOAKS TITANIUM 1300ml Pot with pan US$60

Outra opção, no caso da comida liofilizada, é utilizar o próprio saquinho onde ela vem acondicionada para fazer a refeição. Leve uma longa colher para não sujar as mãos toda hora. A outra pessoa poderá comer na panela, portanto nem precisa mais de prato na sua caminhada!

CONCLUSÃO

A prática do Carga Leve está longe de ser uma busca desenfreada por materiais caros de primeiro linha. É um filosofia, fundada por Ray Jardine e reforçada por pessoas como Andrew Skurka e Ryan Jordan. Veja os sites deles e leia a primeira parte da matéria Comece aos poucos e nunca teste dois materiais importantes na mesma aventura e no frio, você pode ter surpresas desagradáveis. Use material nacional até onde for possível. Vá progredindo aos poucos, mudando o equipo que puder mudar, testando primeiro em percursos que já conhece. Quando já estiver bem acostumado 12

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com o seu novo equipamento, aumente o nível de dificuldade, escolha caminhadas maiores ou então tente fazer em menos tempo trajetos que já fez antes. Você vai perceber que se trata de uma filosofia muito bonita, de caminhar mais leve, o que aumenta a sua velocidade e portanto terá mais tempo para parar, tirar fotos e curtir a montanha. A própria caminhada será mais gostosa, pois você não se sentirá aquele burro de carga durante as pirambeiras mais fortes. Será possível, também, juntar duas caminhadas numa só, como Serra Fina e Rebouças-Mauá ou então você poderá visitar recantos e outras trilhas

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que antes, com a mochila muito pesada, você não se animava de ir. A prática do montanhismo traz diversos benefícios para o ser humano e as técnicas do Carga Leve, Passo Rápido só tendem a te ajudar na montanha. Acredito que tais técnicas ainda pareçam um pouco difíceis ou estranhas mas acredito bastante que em breve veremos cada vez mais pessoas caminhando com mochilas mais leves. Quem sabe não está na hora de lançar um livro para o Carga Leve (Packlight) no contexto do Brasil? Até a próxima! Deixo aqui meus agradecimentos ao Clube Excursionista Light pela oportunidade de ceder um espaço para a disseminação do conhecimento.

As excursões em grupos pequenos podem ser divertidas pois permitem que os participantes comparem os materiais.

O autor (à esquerda) Alexandre Charão Montanhista desde 1990, sócio do CE Carioca, já foi presidente do mesmo e vice-presidente da FEMERJ 14

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Nossos primeiros

60 anos

Texto: Karla Paiva Fotos: Claudney Neves e acervo do CEL

Em novembro de 1956 o Clube Excursionista Light, teve seu primeiro registro no boletim diário de informações da nossa vizinha de frente. Sim, para quem ainda não ligou os nomes, nosso CEL tem muito a ver com a distribuidora de energia elétrica. Seus funcionários montanhistas foram os responsáveis pela fundação e, com a ajuda de novos sócios, pela compra da nossa sede. Citando um trecho do nosso primeiro boletim, em 12 de fevereiro de 1957 nasceu de verdade o CEL, nos moldes mais avançados da técnica e da cultura moderna, dentro do mais alto espírito de esportividade, advinda da não existência de competição, promovendo a prática do excursionismo e montanhismo entre seus filiados e mantendo a harmonização de seus associados, com uma vida social e esportiva.

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De lá até agora seguimos exatamente isso! O que hoje chamamos de Família CEL é muito do que esta palavra significa. Entre altos e baixos, o Clube e seus sócios sempre estiveram sob os cuidados dos mais experientes e esse exemplo é percebido por muitos, que na sequência passam a ser quem continua todo o processo. E o mais impressionante, tudo realizado com trabalho voluntário, assim como nossos Clubes irmãos. A força que nos move para continuar esse trabalho é o desejo de ver nosso Clube Excursionista Light sempre no topo e vanguarda de várias ações, como o Papo de Montanha, projeto que dissemina o conhecimento e se aproxima de uma centena de palestras. E a nossa revista de mesmo nome, que hoje é referência com diversos artigos importantes e estudos inéditos. Conversas, treinos no muro, exposições, noites gastronômicas e da cevada, já que hidratar também é importante, hahaha... Além de todas nossas atividades nas montanhas.

A festa

Para organizar a comemoração dos nossos 60 anos foi criada uma comissão formada por sócios e diretores (Thatiana Marques, Paulo Ferreira, Gabriela Lima, Marcus Carrasqueira, Claudia Eloy, Miriam Gerber, Gabriel Ferreira, Cláudia Teixeira, Claudney Neves e eu) que pensaram em cada detalhe de uma grande comemoração. Logo surgiu a ideia de uma logo comemorativa... Elaborei um desenho em tons terrosos, para remeter ao montanhismo (natureza, terra, pedra...) e também porque ela harmoniza com o dourado, que seria a cor da borda da logo. Parece até que estou falando do conceito de uma cerveja artesanal... Hehehe... Para o fundo do desenho, me inspirei em logos antigas de clubes de montanha do

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mundo todo... Que utilizavam sempre o desenho de montanhas estilizadas, raios de sol bem simétricos, quase desenhos geométricos, que hoje dão um “ar” que chamamos de vintage ou retrô. Seguindo esse estilo procurei fontes densas e com características bem particulares, traços fortes. Para mim, 60 anos remete a bodas, e estas, à metais, mais precisamente o ouro. Por fim, bolinhas menores no entorno que além de dar um toque delicado na layout geral, representariam pequenas luzes que festejam a comemoração de uma data tão importante para o montanhismo carioca. O Carrasqueira fez um levantamento das pessoas que tiveram participação no clube como sócios, guias, diretores e ex-presidentes para uma homenagem durante a festa. Produzimos troféus para os veteranos e certificados para os expresidentes. Outra iniciativa foi o Projeto Vias do CEL, que incentivava os sócios a repetirem as vias do clube no mês que antecedia seu aniversário! Ainda nesta edição, Claudney Neves conta mais detalhes sobre esta divertida comemoração.

Fernando (Velho) Vete Produzimos também camisas, chapéus legionários e adesivos vendidos antes, durante e depois da comemoração, e que ainda estão venda em nossa sede, galera! A festa foi conduzida pela nossa diretora social, Gabriela Lima e contou com a presença de mais de cem pessoas que desfrutaram de um buffet de petiscos deliciosos feitos pela própria diretora.

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Nossos ex-presidentes

erano e nossa diretora social

Tivemos o apoio de três empresas que valorizam a nossa história e seguem em parceria contínua, fornecendo equipamentos com preço diferenciado para nosso clube e sócios. Adventura e Makalu estão localizadas no centro do Rio com uma grande variedade de produtos e um excelente atendimento, muito obrigada, vocês garantiram um brilho especial para a festa. A terceira e não menos importante, Eventsys, montou o formulário para inscrição dos interessados em repetir as vias do clube na semana anterior ao nosso aniversário. Queremos agradecer também a todos que tornaram isso possível, fundadores, veteranos, presidentes, diretores, guias, sócios, amigos e simpatizantes de todos os tempos, que puderam ou não comparecer na nossa festa. A todos vocês o nosso muito obrigado, pois é por tudo que realizaram que chegamos aqui, comemorando nossos primeiros 60 anos.

Karla Paiva é sócia desde 2012, já foi diretora social, diretora de comunicação social e é atual presidente do Clube Excursionista Light

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Mais algumas fotos da nossa festa...

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Nossas conquistas nas paredes

Vias do CEL

Desde que entrei no CEL, em 2005, tive muita curiosidade em saber quais vias de escalada pertenciam ao Clube. Isso comeรงou com uma nova linha finalizada nesse mesmo ano, a Moby Dick, em Niterรณi, conquistada pelo, entรฃo sรณcio, Theo e companhia.

Texto: Claudney Neves Fotos: Claudney Neves e acervo do CEL

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Fiquei alucinado com essa história de subir por onde ninguém tivesse subido ainda. Essa semente se manteve dormente por um tempo e brotou pouco depois, quando comecei a conquistar minhas próprias vias, tendo um grande boom em 2009, ano de nascimento da maioria delas. Aí estão incluídas vias de 15 a 1000 m de extensão, esportivas, tradicionais, com proteção fixa, móvel, em árvore e tudo mais... São poucas, mas gosto muito de todas.

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Ficava angustiado quando conversava, por exemplo, com André Ilha, que tem centenas de conquistas, mas não recorda onde estão algumas delas. Pra que isso não acontecesse com as vias do Clube, sugeri que iniciássemos um trabalho de catalogação dessas crianças. Isso ficou somente no campo das ideias e em conversas de “último grampo”, até que em 2012 Lucas Figueira e Claudinha Gonçalves compraram a ideia e começaram a listar as vias, incluindo as informações básicas. Mas algum tempo depois os dois saíram do Clube e o trabalho ficou engavetado até ano passado, quando aproveitei as comemorações de 60 anos para colocar tudo o que foi coletado em um site, http://www. viasdocel.celight.org.br/.

Capa do site

Inicialmente, tínhamos apenas o básico como o nome da via, graduação, localização e conquistadores. Partindo daí começamos a completar as informações. Assim nasceu o Projeto Vias do CEL, que tem como objetivo catalogar todas as nossas conquistas e descrever a via, ano de conquista e conquistadores, como chegar, produzir o croqui, traçado na parede, trilha no GPS (que 24

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dá pra baixar) e gerar um histórico de verificações, analisando as proteções e substituindo o que fosse necessário. Para a reforma das vias em estado precário, estamos, hoje (maio 2017), com um estoque de cerca de 100 proteções. Já recuperamos totalmente a Alda Pacheco, intermediamos a Chang Wei e substituímos alguns grampos da Marizel, além disso, estamos planejando reativar o Teto Cadu e modernizar a Cadu Céu, com possibilidade de continuação de conquista na linha.


Lista de vias

Grampos da Marizel

É possível que seja preciso substituir algumas proteções na Reino Mágico, em Santa Maria Madalena, e terminar a reforma da

Marizel, onde faltam trocar poucas proteções. Hoje temos 34 vias catalogadas e mais algumas estão por vir. Muitas já estão com todas as informações na página, completinhas, uma beleza, como é o caso da clássica 12 de Fevereiro, a não tão clássica Chang Wei, a recentemente reformada Alda Pacheco, a via que começou tudo isso, Moby Dick e as duas linda linhas de Santa Teresa, Santa Trepadeira e Carnaval em Santa Teresa, além de mais algumas… As páginas de muitas ainda precisam ser completadas e esse é o nosso trabalho agora. Abril 2016

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Além da página com informações das vias, também estamos resgatando algumas histórias sobre as conquistas, os nomes e curiosidades.

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Muita gente já colaborou e continua pondo a mão na massa. Para que esse histórico também não se perca, incluímos uma página no site com os nomes dessas nobres almas http://www.viasdocel.celight.org.br/colaboradores/

João Nobre e Mineiro (CEL) na via Meajude

Esse é um trabalho contínuo e precisaremos de ajuda, sempre, seja com mão-de-obra para reformar as velhinhas, repeti-las, verificá-las, produzir croquis ou simplesmente acessando o site e apontando possível erros, seja de informações incorretas ou de português. E caso repitam alguma, não deixem de marcar suas fotos com #ViasdoCEL nas redes sociais. Comentários nas páginas também são super bem-vindos.

Boas escaladas e não esqueçam da nossa história!

Leandro do Carmo (CNM) no final da via Moby Dick 30

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MONTANHAS ALTAI: Era uma vez um carioca apaixonado pelo montanhismo! Um dia foi convidado por Manoel Morgado para compor uma expedição comercial rumo às Montanhas Altai, na Mongólia. Seu interesse foi despertado, porém o panorama não estava nem tranquilo, nem favorável: único inscrito no site, dólar em ascensão alucinante e indefinição do guia brasileiro. Ele se manteve firme na decisão e seu agente, Luis Morales, sustentou o projeto por mais tempo, período suficiente para que a paulista Elga Oliveira validasse presença. 32

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GENGIS KHAN Texto: Marcus Vinicius Carrasqueira Fotos: Agnaldo Gomes, Karla Haje e Marcus Carrasqueira

Com a confirmação de dois integrantes, o operador convidante concluiu que seus custos financeiros estavam cobertos e vislumbrou uma oportunidade de treinar outro guia nos caminhos mongóis. Escalou o paulistano Agnaldo Gomes como líder do grupo, para alegria do montanhista praiano, pois ambos já tinham participado da mesma expedição ao Monte Elbrus, na Rússia, alguns anos antes, quando tiveram um ótimo convívio. Como dizem na Cidade Maravilhosa, ficou suave! Tal qual a música sertaneja, agência sem cliente não faz programação e guia

sem participante não realiza expedição, uma coisa puxa a outra e mais duas inscrições foram anotadas a menos de um mês do embarque. A goiana Cristina Martin e a brasiliense Karla Haje completaram o time daqueles seres que gostam de se embrenhar pelos roteiros não convencionais em lugares pouco conhecidos, nem sempre bem compreendidos nas suas escolhas. A enciclopédia britânica informa que as Montanhas Altai (Ouro, do turco) se estendem por 2 mil km entre o deserto de Gobi e a Sibéria Ocidental, uma fronteira Abril 2016

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natural entre Kazaquistão, Rússia, Mongólia e China. Sua formação aconteceu há 400 milhões de anos durante os grandes afloramentos, sendo que, há cerca de 2,6 milhões de anos, novos levantes foram registrados. A cordilheira está localizada na parte central da Ásia e tem, no pico Belukha, sua maior altitude, com 4506 m. Terremotos ainda são comuns ao longo da falha geológica, demonstrando atividade tectônica que continua modificando o conjunto rochoso.

A viagem do Rio de Janeiro até Ulan Bator (Herói Vermelho), capital da Mongólia, ocorreu em 07.07.16, demorando intermináveis 30 horas, passando por São Paulo, Abu Dhabi e Seul. A diferença de fuso é de 12 horas a mais. Amassado é pouco para caracterizar o meu estado de chegada! Variações de sono e insônia já eram esperadas, porém o sintoma mais marcante do descompasso metabólico foi fome em horários inapropriados. Usei uma camisa branca com o logotipo promocional das Olimpíadas 2016 que fez muito sucesso por onde passava, atraindo a curiosidade de viajantes e policiais nas alfândegas. Alguns sisudos uniformizados até puxaram papo, apontando para o emblema! Ulan Bator é uma das estações da maior ferrovia construída pela engenharia mundial, a mística Transiberiana, com extensão de 10 mil km entre Moscou e 34

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Pequim. Esperava encontrar uma cidade nos moldes do meu imaginário oriental, com casas baixas tipo pagode, população usando indumentárias típicas e riquixás puxados pela tração humana. Só que não! A arquitetura da urbe é o reflexo mais visível da transição pela qual a nação está passando, exibindo um verniz moderno com alguns arranha-céus espelhados, shoppings barulhentos, franquias americanas fast food, gente se vestindo à moda ocidental e muitos carros entupindo as ruas com suas infernais buzinas. Como morador de Copacabana, me senti em casa! Mas nem sempre foi assim! Os livros de História ensinam que a Mongólia ficou independente da China em 1921, com apoio da então poderosa URSS. Em 1925 a conta foi mandada e um regime comunista foi instalado na jovem república, perdurando por 75 anos. Como Rússia e China passaram


a maior parte do século XX em permanente estado de tensão política, as relações com os sínicos sofreram fortíssimo distanciamento, situação que terminou com a dissolução do Partido Comunista Mongol, em 1990. Desde então, a Mongólia experimenta um sistema parlamentarista, multipartidário e com eleições diretas a cada quatro anos, além de um renascimento cultural e religioso sem precedentes. O país segue economicamente pobre, com mais da metade dos 3 milhões de habitantes vivendo abaixo da linha da pobreza. A geografia deixou a Mongólia em posição delicadíssima, sanduichada por fronteiras quilométricas entre dois gigantescos vizinhos brigões; quando eles se desentendem, haja diplomacia e paciência para suportar as pressões!

PREPARATIVOS

Viajar para lugar tão exótico significa se cercar de segurança através de informações sobre tudo que puder ser levantado: costumes, crenças, geopolítica, economia, gastronomia e idioma, entre outras. Importante saber o que te espera e como lidar com as diversidades. A Mongólia possui duas dezenas de etnias, sendo que mongóis são dominantes no centro e leste, seguidos por kazaques concentrados no oeste e tuvans, uigures e demais minorias dispersas. O budismo permeia a maioria da população, as doutrinas tradicionais são frequentemente praticadas, o islamismo predomina entre os kazaques e o catolicismo também tem seu reduto. Etnias, línguas e religiões combinam e se recombinam entre si por todo o território, fazendo da Mongólia uma exemplar colcha-de-retalhos de tolerância e convivência. De Ulan Bator (mongol-budista com 1 milhão de habitantes) partimos para Olgiy (kazaque-islâmico com 20 mil habitantes), a 1600 km na extremidade ocidental, em voo de três horas. Se já foi impossível estabelecer comunicação em mongol, pior foi entender kazaque.

Todavia, povo é povo em qualquer lugar e o jeitinho brasileiro logo arrancou sorrisos afetuosos das amistosas pessoas com as quais cruzávamos na rotina diária. Cristina, Elga e Karla mostraram uma habilidade incomum para fazer contato, conquistando rapidamente atenção entre os comerciantes - que respondiam com negociação clássica, mas alguns usavam malandragem rasteira: a moeda local mudava para dólar quando entrávamos nas lojas, mantendo o valor numérico! Hospedamo-nos no hostel da operadora enquanto seu staff fazia os preparativos finais para a expedição, supervisionados pelo Agnaldo. No dia seguinte, partimos cedo em dois veículos russos tracionados parecendo kombi: um levando o grupo e outro transportando mochilas, equipamentos, mantimentos e combustível. Nosso objetivo foi realizar um trekking de 120 km em oito dias pelo Parque Nacional das Montanhas Altai, de 600 mil hectares, com cume do Malchin Uul. Na prática, uma travessia com acampamento móvel. A viagem por estrada de terra nos faria saltitar por longas oito horas e, tanto do alto quanto do chão, constatamos a enormidade e dominância das desérticas estepes siberianas, ecossistema que, junto com o clima de inverno extremamente rigoroso, faz da Mongólia um dos países relativamente menos povoado do planeta, com taxa demográfica inferior a 2 hab/ km2. As estatísticas indicam que 30% da população nacional são nômades que ocupam as pradarias nativas das regiões altas no verão para nutrir seus rebanhos de carneiros, cabras, cavalos e iaques. No inverno voltam com os animais para o abrigo dos vilarejos, nas partes baixas do relevo. Esse movimento é repetido todos os anos a 9 mil anos, desde o fim da era glacial, revelando uma incrível capacidade de adaptação daqueles povos ao meio ambiente! As famílias vivem em uma espécie de cabana redonda montável Abril 2016

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chamada ger ou yurt, moradia peculiar que se transformou em um dos mais destacados cartões-postais da Mongólia. A saída foi programada de tal sorte que chegamos a um efervescente aglomerado

humano no meio do nada no momento do Naadam local, o maior festival popular da Mongólia, uma mistura de Jogos Olímpicos e feira livre. As comemorações são nos meses de julho e agosto e envolvem competições de três modalidades esportivas: luta livre mongol, corrida de cavalos e tiros com arco e flecha. No meio dessa balbúrdia organizada, parentes se reencontram, crianças se divertem, mulheres se socializam nos palavreados, jovens flertam e ambulantes motorizados vendem alimentos industrializados, roupas, produtos de higiene pessoal e limpeza, cosméticos, brinquedos e tudo mais que couber em seus veículos. Aproveitamos para fotografar, filmar e saborear uma autêntica manifestação cultural de origem secular. A festa é bonita, colorida, participativa e respeitosa, sendo o evento mais aguardado pelos mercadores, turistas e viajantes. Apesar do estilo ancestral de vida e das limitações materiais, o smartphone já faz parte integrante do cotidiano lá naqueles confins de meu deus, sinal dos tempos! 36

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A dureza dos 200 km da viagem foi amenizada pelas instrutivas conversas que valeram por verdadeiras aulas da querida Cristina, uma biblioteca ambulante de saberes de aventuras e aventureiros, fonte revigorante de erudição e aprendizado que nos capturou pela oratória arrebatadora. Após o preenchimento da papelada na portaria Sirgali do parque, chegamos ao nosso destino antes do entardecer (22:00 hs na latitude 48º N no verão). Era um lugar plano e elevado na topografia de um vale glaciar, com o lago Hoton Nuur represado pelas nevadas montanhas Altai, uma paisagem ricamente emoldurada com as luzes do crepúsculo. Os deuses nos recepcionaram em grande estilo! Passaríamos a noite acampados nesse local privilegiado. Pela primeira vez o grupo estava completo: Noolan, o guia kazaque, Tamara, a cozinheira, Baibolat, o encarregado dos animais, e Haba e Mukhamet, os jovens auxiliares gerais. Os dois motoristas, Saken e Bohin, retornariam dali para a Olgiy. Os bichos merecem uma descrição à parte, pois havia quatro cavalos para transporte do staff e quatro camelos para levar a carga pesada, cada um carregando entre 100 kg a 150 kg. O time estava em campo e a partida iria começar! Os clubes de montanhismo promovem excursões que podem ser definidas, via de regra, como viagens de recreação em locais próximos de cidades (turísticos ou naturais), com controle dos fatores externos, geralmente em grupo e com guia. Já uma expedição, grosso modo, pode ser assinalada como viagem de vários dias com propósito empírico


(estudo ou conhecimento) em ambientes naturais longínquos, envolvendo logística complexa, com maior nível de risco, em grupo e com equipe de apoio e guia. Como disse Amyr Klink, expedição é um desafio de organização. Esse era nosso intento na Mongólia!

TREKKING

Pela manhã, ao abrir o zíper da barraca, fui impactado com a beleza estonteante do cenário, com as pontudas e esbranquiçadas montanhas tipo alpino emergindo do imenso tapete esverdeado, nitidamente refletidas nas águas calmas do sistema lacustre. Recuperado do bom choque, fui para a barraca-refeitório. O delicioso café-da-manhã anunciava o padrão da alimentação; a descontração dos participantes indicava a intensidade do entrosamento; a simpatia dos apoiadores pressagiava o nível do relacionamento. Seria o início de dias inesquecíveis! Os dois dias iniciais da caminhada seguiram pelo vale do rio Tsagaan Us rumo à sua cabeceira, com altitude média de 2250 m, distância de 41 km e temperaturas mínimas de 8º C nas madrugadas. No dia inaugural vimos dezenas de tendas nômades com suas famílias e seus animais pastando na vegetação nativa. Não há o conceito de propriedade particular e não vi nenhuma cerca durante todo o trajeto, porém, de algum modo, parece que existe uma convenção entre vizinhos de tal forma que os rebanhos pastam separados uns

dos outros, respeitando uma delimitação imaginária. A cada passagem do grupo nas proximidades dos gers, crianças de bochechas rosadas corriam ao nosso encontro, sempre muito risonhas e curiosas com aqueles ETs de roupas cromatizadas e esquisitas. Sempre levo souvenires nas minhas viagens e a petizada fez a festa com língua-de-sogra e dentadura vampiresca. Enquanto registrávamos o exotismo do lugar, nosso foco foi desviado para uma gritaria vinda de uma pequena multidão que avançava em nossa direção. Homens, mulheres, adolescentes, idosos e crianças jorravam de um veículo na estrada abaixo da trilha e acenavam para nós, trotando a passos largos. Noolan pediu que parássemos, pois os nativos queriam nos fotografar. Ou seja, os exóticos erámos nós, claro! Contamos 23 cabeças saídas da kombi russa, proeza digna do Guinness! O bando falava e ria simultaneamente e se revezava aos montes ao nosso lado com tanta alegria, espontaneidade e ingenuidade que nos entregamos à farra! Entramos no clima e pedimos para sermos clicados com nossas máquinas também. Em dado momento tive o impulso de trocar de adereços com o cidadão a mim ladeado, passando minha mochila, bastões e óculos escuros para ele e incorporando sua vestimenta mongol. Foi uma explosão de gargalhadas com pitadas de histeria coletiva! Apoteose social. Naquele instante, mais do que integração entre pessoas, houve uma fusão harmoniosa de

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culturas simbolizada pelo intercâmbio dos trajes, uma das cenas mais emocionantes que já vivenciei como montanhista! No Livro das Maravilhas do Mundo, Marco Polo descreve experiências antropológicas similares no contato com o povo oriental, acolhido que foi por Kublai Khan (neto do poderoso Gengis Khan) em Karakorum, capital do império Mongol, conquistando crédito na corte a ponto de ter sido confiada a ele a missão de entregar uma princesa chinesa na Pérsia, consolidando acordo político. Seu relato possui uma impressionante riqueza de detalhes, sendo o testemunho da fascinação humana por viagens, novas paisagens e terras distantes. No século XIII, o mercador italiano foi um dos pioneiros europeus a fazer uma travessia intercontinental, a Rota da Seda, façanha que justifica o título de maior viajante de todos os tempos, conforme citado na obra literária Montanha em Fúria, de Marcus Gasques. O Governo da Mongólia ergueu uma estátua em homenagem à memória de Marco Polo no centro de Ulan Bator, reconhecendo a relevância desse personagem para a História do país. Cometi um erro primário ao levar uma bota seminova, causando incômodo em dedos de ambos os pés logo nas primeiras horas do trekking. Não tive dúvidas: descalcei, envolvi as áreas afetadas com protetor de bolhas e usei tênis pelo resto da caminhada. Os curativos descolavam com a umidade e tinham que ser trocados periodicamente com tal rapidez que iria zerar minha cota de band-aids e esparadrapo antes do término da empreita. Tomei uma medida radical: usei silver tape, o “bombril” do montanhista, resolvendo 38

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definitivamente o problema! Essa fita também foi útil para reparar rasgos acidentais nas lonas das barracas. O planejamento do kit de primeiros socorros é vital para a segurança de qualquer expedição. Nos dias subsequentes haveria mais demandas pelo estojo. Karla também reclamou de bolhas e se cuidou com seus próprios medicamentos, mesmo sintoma aduzido por Noolan em decorrência dos seus coturnos militares. Em seguida, Tamara caiu do cavalo (literalmente) e torceu a mão, ficando bastante inchada; dei minha pomada de arnica, que foi consumida diariamente. Haba apresentou quadro de alergia, ficando com a face intumescida que quase fechou os olhos; cedi alguns comprimidos de polaramine e ele amanheceu melhor. Os pequenos ferimentos cutâneos foram amenizados com um pó antisséptico cicatrizante que levei, muito requisitado. Por fim, Baibolat desabou devido à alta febre e foi atendido pela prestativa Karla, uma mãezona nata que acudiu aos adoentados e aflitos com maestria, constantemente antenada e preocupada com o bem estar do grupo, dona de calma monástica e voz aconchegante que tranquilizava o mais ansioso dos mortais. O líder kazaque nos conduzia pelas pastagens nativas com determinação. No segundo dia o vale afunilou, os nômades sumiram, o espaço de trânsito foi reduzido e apareceram grandes distâncias alagadas, espremidas entre os penhascos verticais e o rio. Perguntamos sobre o prolongamento do caminho onde estávamos e Noolan informou que existia pela parte intermediária da parede, mas desaconselhou. Depois


de andarmos por um bom tempo com as canelas chafurdadas surgiu um límpido rastro em terra firme, seco e bordeando o rochedo. O guia optou por enfrentar o terreno pantanoso, situação que causou muito incômodo entre os participantes. Notei a trilha e não entendi o motivo da sua rejeição. Cedi ao meu instinto, me desgarrei do grupo, segui a pista e achei sua continuação já mais larga, subindo pelos platôs da encosta e demonstrando ser regularmente pisoteada. Avisei aos demais, para alívio geral! Havia uma alternativa factível que foi des-prezada. Noolan é um sujeito na faixa dos trinta anos, casado, tem uma filhinha, fala kazaque, mongol, russo e estuda chinês, o único do staff a falar inglês, é campeão regional de xadrez, ministra aulas do idioma bretão na escola local e luta pelo seu aperfeiçoamento intelectual e financeiro. Sua atuação como guia ainda precisa de um upgrade, apesar de ser uma ótima pessoa no trato social. Nesse incidente ele agiu como condutor e tomou uma decisão que descuidou do conforto e, talvez, da segurança do grupo, qual seja, o melhor traçado a ser percorrido, principalmente por se tratar de clientes comerciais com pouca intimidade no montanhismo. Esse foi um dos dois únicos pontos merecedores de crítica durante a expedição, pois o saldo foi amplamente positivo. Salústio já dizia que o sucesso pode esconder os erros!

sob pastejo anual sofrem um processo de seleção negativa, ou seja, plantas são rotineiramente eliminadas ou impedidas de crescer devido à pressão alimentar dos animais, tingindo o cenário com um verde monótono. Em contrapartida, a vegetação surge com toda a sua diversidade nos locais onde não há pastoreio, cumprindo seu ciclo biológico, crescendo e florescendo em multicores que agradam aos olhos e tocam fundo na alma. Por onde passávamos colhíamos cebola nativa, enriquecendo as refeições noturnas. A vida explode em festa no curto verão mongol! A temperatura diurna pode chegar a abafados 26º C. A oferta de energia solar mexe com o comportamento animal. O Parque Nacional das Montanhas Altai é completamente esburacado por milhares de tocas de esquilos e marmotas, facilmente avistados ao longo do dia. Os nômades kazaques erguem vários e pesados totens de pedra no topo das montanhas, cercando seus vales, acreditando que esses elementos espantem ursos e lobos, predadores comuns dos rebanhos. No vale ocupado por pastores budistas deparamo-nos com um totem feito de queijo, exercendo a mesma função. Dentre os campesinos itinerantes há aqueles que dominam a arte ancestral do adestramento de águias caçadoras, uma ave semidomesticada que passa a existência com seu domador.

ZONA SILENCIOSA

No terceiro dia despedimo-nos do vale do rio Tsagaan Us e transpomos a serra até as nascentes do rio Khar Salaa, cujo passo está a 3150 m de altitude. Andamos 16 km até o ponto de acampamento, a 2950 m acima do nível do mar. Não encontramos mais nômades ou rebanhos desde o segundo dia. A vegetação herbácea tinha mudado de feição, se metamorfoseando em lindas flores sarapintadas com tal intensidade que parecia flanarmos em um quadro de Claude Monet. As áreas Abril 2016

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Nenhum animal é tão marcante quanto o mosquito! De hábito gregário, formam esquadrões que perseguem insistentemente os seres de sangue quente. São insetos grandes e me picaram no ombro, por cima de duas camisas. Passar repelente não surtiu efeito. Cheguei ao extremo de usar anoraque e balaclava para me proteger. Durante a viagem vi operários trabalhando na reparação da estrada usando um tipo de chapéu de apicultor, com rede em volta da cabeça. Não por acaso o site lonelyplanet alerta sobre mosquitos no país. Os budistas creem que os perturbadores pernilongos encarnam os espíritos dos ferozes guerreiros de Gengis Khan, personagem máximo da História da Mongólia, idolatrado em esculturas e denominações por toda a nação. O império Mongol foi o maior já visto no planeta, dominando 20 milhões de km2 no seu auge (América do Sul tem 17 milhões de km2), sendo dividido em quatro partes entre os descendentes após sua morte. Ainda assim, Kublai Khan controlou 1/5 da área do mundo conhecido à época. Reza a lenda que o mausoléu de Gengis Khan possui uma fortuna incalcu-

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lável advinda dos saques de guerra e nunca foi achado, integrando a lista das preciosidades misteriosas mais procuradas pelos modernos Indianas Jones, tais como a sala de âmbar do tzar Pedro I, as minas do rei Salomão e a tumba da rainha Nefertiti. Nos quarto e quinto dias, descemos pelo vale do rio Khar Salaa (afluente) e subimos pelo vale do rio Branco (principal) até a portaria Shiveed Khairkhan do parque, caminhando 26 km em altitude média de 2450 m. A temperatura mínima na madrugada continuava em 8º C, diminuindo para cerca de 20º C na faixa diurna. Depois do encharcado episódio do segundo dia, o staff da operadora disponibilizou os cavalos para ajudar o grupo a cruzar vários riachos. Alguns córregos poderiam criar sérias dificuldades, pois a corrente do degelo era forte; em outros, bastava tirar as botas e atravessar. Nesses vales voltamos a encontrar gers, porém em número bem menor, indicando que estávamos nos aproximando do Ukok Plateau, a chamada Zona Silenciosa. O isolamento crescia e, a cada dia na trilha, aumentava a sensação de termos deixado a humanidade para trás.


Agnaldo se mostrou um animador competente, sempre tirando da cartola um repertório inesgotável de piadas, performances, caras e bocas que mantinham o bom astral quando o desânimo queria se instalar, um fabuloso talento da arte teatral desperdiçado. E foi assim, nesse clima divertido, que topamos com nítidos petróglifos bem à nossa frente representando arqueiros, cavaleiros, cabras, cervos, raposas e cães. Desde o primeiro dia vimos círculos, lápides e cemitérios de pedra que apontavam para uma ocupação milenar. As montanhas Altai têm sido habitadas desde o Neolítico e os antropólogos admitem que os cavalos foram domesticados nas vastas estepes da região. A evolução do povo mongol está ligada à parceria com esses animais. A escavação dos sepulcros mostra que os líderes tribais foram enterrados com honrarias, incluindo seus equinos. Encontramos dezenas de figuras ornamentando rochas aleatoriamente espalhadas pelo vale, descansando há milênios sem nenhum cuidado especial por parte do Governo, apesar da Unesco reconhecer o lugar como patrimônio de valor cultural. Em ambiente tão rico de informações visuais costumo caminhar empregando a técnica cerveró: um olho na trilha e outro na paisagem! Um seixo escuro e liso se destacou em meio a tantos outros na lateral do caminho. Peguei e, de imediato, notei que não poderia ser natural, desconfiando que fosse algo produzido pela mão humana. O guia kazaque confirmou que se tratava de um artefato de pedra polida, uma machadinha dupla partida em ambas as pontas e, por isso, sem utilidade. Tropecei no lixo do homem primitivo! Perguntei se deveria entregar no museu e Noolan disse que a instituição tem coleções de armas iguais e intactas, não havendo interesse nesse objeto quebrado. Trouxe comigo! Os nômades não escrevem mais nos penedos, mas continuam descartando seu

lixo pelas estepes. O local está ficando feio com prática tão indesejável. Vimos garrafas de vidro propositadamente entupindo as entradas das tocas de marmotas, montes de plásticos jogados atrás de grandes blocos rochosos e latas de bebida atiradas pelas janelas dos carros em movimento, manchando a imensidão verde das pradarias. Quando um veículo enguiça e uma peça é trocada, as pessoas deixam-na ali mesmo, onde quer que seja. Foi assim que vi escapamento e correia nos pastos. Os arqueólogos do futuro não mais encontrarão ferramentas de pedra polida, mas resíduos sólidos da sociedade industrial, provando sua tese científica da dominação planetária do Antropoceno pelo pernicioso Homo poluidus, esse sim o pejorativo homem primitivo! Baibolat é um homem discreto de meia idade que parecia conhecer de longa data as pessoas locais que encontrávamos: guardas-parques, pastores e guias. Mukhamet, seu ajudante, e Haba, o faztudo do grupo, rapazes de vinte e poucos anos e já com filhos, estavam sempre por perto, sorridentes. Todos insinuavam ter muito que conversar, mas infelizmente a barreira da língua não permitiu, restando a linguagem corporal. Com regularidade, a caravana de cavalos e camelos da operadora saía depois de nós, ultrapassava nosso grupo e nos esperava no lugar de acampamento. Os saborosos lanches e repastos eram servidos nos Abril 2016

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horários apropriados, mas na maioria das vezes tivemos que montar as barracas individuais e isso gerou algumas queixas dos participantes. A situação se agravava devido à pressa que tínhamos em chegar ainda com o corpo quente a tempo de enfrentar as gélidas águas dos córregos para obter algo próximo a um banho, mesmo que tcheco! No meu caso, eu mesmo me encarregava de armar e, pela manhã, desarmar, quando necessário; fiz isso por toda a minha vida de montanhista. A lentidão no cumprimento dessa obrigação foi o segundo ponto merecedor de crítica durante a expedição.

Visitamos dois gers na viagem. A estrutura básica é a mesma, arredondado, ambiente coletivo com camas, mesa, armário, despensa e fogão no centro irradiando calor, consumindo esterco desidratado, combustível secular, pois lenha é escassa. Não existe agricultura e a dependência dos rebanhos é total. A mulher é encarregada das tarefas domésticas e produção dos laticínios, inclusive uma aguardente popular feita de leite de égua (citada por Heródoto em seus escritos). O homem cuida dos animais, dos serviços braçais e da segurança familiar. Vimos alguns produtos comprados nos mercados. As crianças ajudam nas atividades e não estudam nessa época, frequentando a escola no inverno, quando voltam para as cidades. Fomos amavelmente recepcionados com uma atraente refeição de comidas típicas caseiras: queijo, manteiga, pães, biscoito e airag (a tal bebida). Experimentei de tudo com bastante atrevimento, mas alguns 42

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petiscos não foram bem compreendidos pelos degustadores. Noolan diz que os jovens estão se fixando nas cidades, interrompendo a sequência habitual dos antecessores e deixando mais deserto o interior. A cada ano diminui o número de tendas instaladas, sintoma revelador do dramático choque da ocidentalização sofrido pela Mongólia sobre as novas gerações, fenômeno poeticamente mostrado no filme Camelos Também Choram (indicado ao Oscar de melhor documentário em 2005), da diretora mongol Byambasuren Davaa.

ESCALADA

Os sexto e sétimo dias foram reservados para a ascensão ao Malchin Uul. Trilhamos 15 km e chegamos ao campo-base Tavan Bogd, na altitude de 3100 m e temperatura mínima de 5º C na madrugada. Dormimos aqui por duas noites, sob a vigilância das maiores montanhas da Mongólia. O lugar é extraordinário, magnificamente instalado ao lado da geleira Potanini que, segundo a bibliografia, é a maior das 1499 geleiras que compõem o Altai, com 20 km de comprimento. Todos os vales por onde andamos são de origem glaciar, distinguindo-se pelo formato em U, morenas clássicas, rochas angulares e afloramentos alisados pelo arrastar de toneladas de massa gelada por milhares de anos. Encontramos dois pesquisadores


que medem o deslocamento do gelo. Eles informaram que a geleira Potanini encolheu 5 km nos últimos 30 anos. O aquecimento global é um fato inquestionável! O guia kazaque disse que o derretimento propiciou a recuperação de um cadáver mumificado desde a era glacial, semelhante ao famoso caso Otzi, descoberto na década de 1990 nos Alpes italianos. O corpo mongol foi levado para uma universidade da Alemanha. No campo-base tivemos uma surpresa: uma latrina nojenta de madeira com privacidade parcial. Durante o trekking nos desprendemos das amenidades da civilização e nos mimetizamos na natureza nesse quesito. Os pedregulhos foram disputados pelos participantes assim como os postes são perseguidos pelos canídeos. “É o que temos”, dizíamos, e acocorávamonos resignadamente em prol da futura calefação dos gers. Não tive problemas de abastecimento de água, pois sempre havia algum riacho descendo das montanhas.

O uso de purificador foi uma precaução adicional, mas confesso que relaxei depois de constatar a boa qualidade dos recursos hídricos, bebendo direto da fonte. O dia adicional no campo-base foi saudado por todos: um descanso para staff e animais e uma oportunidade de socialização com os poucos vizinhos. Um desses lindeiros de barraca era o alpinista canadense Al Hancock com sua namorada mongol, que estavam ali para se divertirem no quintal dela. Realmente um sujeito do bem, sem estrelismo e bom de papo. Seu projeto esportivo é completar os Big 14 e já concluiu Shishapangma, Manaslu, Cho Oyu, Makalu, K2 e Everest. Tamara é uma mulher de meia idade, casada e com filho, era a primeira a acordar e a última a dormir, voz de comando no grupo e finalmente encontrou outra conterrânea para tricotar, a também cozinheira de uma família de quatro franceses que foram conhecer a geleira Potanini. Elga exibiu um manancial infinito de causos politemáticos

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e uma enorme capacidade retórica, com direito a entusiasmos verbais, sonoplastia e suspense durante a narração que, taciturnos, ouvíamos atentos, entretidos com suas estórias bem contadas. A escalada do Malchin Uul (Pico do Pastor, de 4037 m) consumiu tranquilos 12 km e 7 horas de duração, entre ida e volta. Subida de pouca dificuldade técnica, sem incidência do mal da altitude e com cuidado ao pisar no terreno repleto de rochas soltas. Despertamos a montanha com nossa euforia quando chegamos ao marco budista, com suas dezenas de bandeirolas de oração entrelaçadas entre si e esvoaçando ao vento. Não havendo mais o que subir, fiquei com um pé na Mongólia e outro na Rússia. A amplitude visual do conjunto dos glaciares formadores da geleira Potanini é esplendorosa! A bandeira do CEL gosta de passear e chegou a mais um cume estrangeiro, sendo orgulhosamente empunhada pelas mãos dos novos colegas. Com a baixa da adrenalina todos se renderam à formosura cênica, calandose para apreciar o panorama e sentir a energia. O único som percebido vinha dos sussurros do estandarte provocado pela fria brisa que soprava na vastidão branca. Ao contrário de Blaise Pascal, o silêncio dos espaços naturais não me apavora, me apraz! Malchin Uul faz parte de um alinhamento de cimeiras próximas e visíveis entre si no qual se encontram o Khuiten Uul (Pico Gelado), de 4374 m, o teto mongol, e o Nairandal Uul (Pico da Amizade, com 4180 m), pois seu topo é o ponto de encontro de três países: Mongólia, China e Rússia. O nome é bonito e deveria traduzir o sentimento de cooperação patriótica que intitulou o acidente geográfico. Não é bem assim! China e Rússia fecharam suas fronteiras e entravam a passagem dos cidadãos mongóis, prejudicando aqueles de origem kazaque que anseiam voltar para as terras de seus antepassados e reencontrar 44

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parentes no pertinho Kazaquistão, apenas 70 km dali. Um estranho conceito de amizade! Claes Grundsten relata no livro As Mais Belas Trilhas do Mundo seu momento meditativo quando estava no cume dessa montanha: “Do lado chinês predomina paisagem alpina carregada de neve; do lado mongol a terra é ondulada e tem longos trechos sem árvores; do lado russo um amplo platô se estende em direção ao pico Belukha (ponto mais alto da cordilheira). Talvez lá se encontre Shambala, a terra prometida dos textos sagrados tibetanos. Pelo menos foi o que pensou Nicholas Roerich, filósofo russo especialista em Tibete, no início do século XX. Shambala, mais tarde, inspirou James Hilton a criar o mito de Shangri-la no romance Horizonte Perdido”. As condições climáticas do trekking foram ótimas. O sol durante o dia deixava um mormaço no ar, ameno na medida em que subíamos no relevo e com dois breves chuviscos que não atrapalharam o desempenho do grupo. O cume estava aberto e expunha uma visão circunferencial de 360º. Os topos permaneciam nevados no verão, demonstrando que as Montanhas Altai recebem significativa umidade marítima das monções, mesmo incrustradas a 3000 km do oceano Índico, no coração do continente. No oitavo dia deixamos o campo-base e seguimos por 14 km pelo vale do rio Oigor até a portaria Tavan Bogd do parque, na altitude de 2700 m, onde os veículos nos aguardavam. Totalizamos 120 km de trilha no lugar mais remoto que já pisei. Tivemos a chance de compartilhar parte desse trecho com um grupo de trinta cavaleiros americanos, incluindo sua comitiva com staff, camelos de carga e cozinheiro yankee. Também avistamos seis trekkers ingleses que caminhavam independentes com suas pesadas mochilas cargueiras, indicando que esse setor do parque é frequentado por aventureiros em busca


de emoções esportivas. Encontramos um casal de espanhóis acampados ao lado de um ger. Identificar nossos carros ao longe foi como ouvir o grito de “terra à vista” da gávea de uma caravela conquistadora perdida no mar; mais do que refeições e cama, era nosso passaporte para banhos decentes. O reencontro com Saken e Bohin, os motoristas, foi assaz caloroso. Um enxame de palavras em kazaque preencheu o ar ao nosso redor, todos falando com todos enquanto carregávamos os veículos. Aqui o grupo começou a se desfazer, pois Baibolat e Mukhamet retornariam com os animais por outros caminhos. A despedida

foi um misto de júbilo e tristeza, mas de alívio para camelos e cavalos: acabara seu suplício! Ainda dormiríamos essa noite em barracas nas proximidades da vila de Khukh Khutul, na baixada fluvial ao lado de um rio, certamente o lugar com mais mosquitos em todo o trekking.

DESPEDIDAS

A comemoração foi no restaurante de Olgiy, aditivada pelo aniversário da Karla, mas todos os colegas ganharam presentes que premeditadamente levei para a confraternização final. Esses agrados simbolizaram minha satisfação em fazer parte de um grupo campeão, contribuindo para a consolidação dos novos laços sociais. Meu retorno ao Brasil foi marcado pelo atraso no primeiro voo,

em Ulan Bator, devido a tempestade, derrubando todas as conexões seguintes! De Seul para Abu Dhabi havia uma saída diária e teria vaga somente três dias depois. Deu ruim! Sem visto preliminar, oficialmente não podia entrar na Coréia do Sul e, ao mesmo tempo, não podia deixar o país, confinado ao setor de trânsito do aeroporto, uma espécie de purgatório de viajantes azarados. Pior: minha bagagem estava retida em algum depósito alfandegário e não tinha permissão para resgatá-la, ficando apenas com as vestes do corpo. Senti-me como Viktor Navorski, personagem de Tom Hanks no filme O Terminal. Faltou uma generosa Catherine Zeta-Jones para me ajudar! Não tinha acesso ao balcão da companhia aérea, que ficava no setor comercial, mas podia falar por telefone. Eles infligiram a condição de dialogar apenas com minha agência paulistana, pois o bilhete tinha sido emitido por empresa. Lamentavelmente, também impuseram outro pagamento de passagem, porém com possibilidade de ressarcimento futuro após análise protocolar do caso, fato que não se concretizou decorridos sete meses do perrengue, abrindo sério precedente de insegurança nas viagens comerciais. Meu agente foi excepcional, negociando de sua casa nos horários mais impróprios devido à diferença de 12 horas de fuso e pelo voo atrasado ter sido em um sábado. Saio dessa experiência desagradável com a certeza de ter um agente confiável para ser acionado nos raros casos emergenciais. O meu não me decepcionou, indo muito além do profissionalismo para solucionar a situação. Devo um abraço sincero a ele! A Mongólia é singular, interessante, desconhecida, fantasiosa, exótica, bela, mística, amigável, receptiva, religiosa, curiosa, segura, misteriosa, barata, contrastante, mutante, tradicional, moderna, antiga, jovem, acolhedora, surpreendente e tantos outros adjetivos elogiosos. Faz por merecer! Tive uma Abril 2016

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excelente impressão, um país que se abre cada vez mais para o turismo, importante alternativa de renda para o primo pobre asiático. Vimos alemães, americanos, australianos, canadenses, chineses, coreanos, espanhóis, franceses, indianos, ingleses, japoneses, mas nenhum latino. Quando dissemos ser brasileiros, os gringos arregalaram os olhos como certa esposa perdulária de político cassado! Os mongóis foram forjados pelo gene da sobrevivência. Parte do progresso do sapiens deu-se naquele território, confirmando a tese evolucionista de Charles Darwin: “Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas quem se adapta”. A estepe siberiana não apresenta riqueza de recursos naturais, porém os povos encontraram uma maneira de viver com o que é ofertado pelo ambiente. Tal processo é bem retratado por Akira Kurosawa no filme Dersu Uzala, a história de um caçador mongol que detém o conhecimento da vida na natureza, empregando-o não para subjugá-la, mas para sobreviver junto a ela, numa harmonia própria do homem natural. Em entrevista, o diretor japonês disse que “podemos aprender muito com Dersu; se a natureza é destruída, os seres

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humanos serão destruídos também”. Essa é a equação a ser resolvida pela Mongólia de hoje, ter que se reinventar na fase póscomunismo e se ajustar às tendências político-econômicas do século XXI, crescer sem perder valores sociais, culturais e ambientais. Uma expedição é bem sucedida quando oferece a vivência esperada, existe beleza paisagística a ser apreciada e rola química entre participantes e staff, formando uma equipe coesa e leal. A teimosia do carioca se mostrou acertada. Fui abençoado por encontrar pessoas formidáveis, entrosamento perfeito, bom clima geral, sem acidentes, sem extravio de bagagem (meu trauma) e tantos outros percalços não ocorridos. Agradeço aos amigos de trekking Agnaldo Gomes, Cristina Martins, Elga Oliveira e Karla Haje pela prazerosa companhia, ao meu agente Luis Moralles pela dedicação fraterna e ao staff mongol Baibolat, Bohin, Haba, Mukhamet, Noolan, Saken e Tamara pelo trabalho correto. A viagem foi permeada por grande ludicidade, satisfazendo minha proposta de diversão nas férias. Afinal, envelhecemos quando deixamos de brincar! Será que voltarei à Mongólia para atravessar o deserto de Gobi? Veremos! Sau bol.


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Programação permanente na sede do CEL - Todas às terças e quintas: Muro de escalada e reunião social; - Terceira semana do mês: Palestra/debate no Papo de Montanha; acesse:

www.celight.org.br e fique sabendo da programação do clube e as vantagens de se associar.

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Papo de Montanha - Maio 2017  

Papo de Montanha é uma publicação do CEL - Clube Excursionista Light (celight.org.br)

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