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VICENTE Textos e Ilustrações

Nelson Cardoso


Era uma vez Vicente, o bicho preferido de Zeus. Certo dia o mais poderoso de todos os Reis, Zeus, zangou-se com todos os bichos e todos os homens da Terra e disse:

Ouçam!

Oh bichos do mar e das ĂĄguas e dos ares! Oh homens e mulheres das aldeias, vilas e cidades! Oh meninos e meninas das praias, planĂ­cies e montanhas!


Ouçam-me! Como castigo, durante Quarenta Dias mandarei chover, sem parar, sobre o vosso Planeta!

E tu, Noé, construirás uma Barca maior que

o Titanic!


E NoÊ construiu a Barca, para ele e para a família e amigos... E animais!, tudo quanto eram os bichos da terra e dos ares, da selva e da quinta‌ O corvo esolhido:

Vicente!


E a Barca navegou, navegou no Planeta alagado pelo dilúvio, durante 40 loooongos dias… até que…

Vicente,

o Corvo, o bicho preferido de Zeus… ... se chateou!


Ai Ai‌ Cheiinhos de medo de Zeus, repetiram em coro todos os animais!

Ai Ai!...


Naqueles dias o coração do pobre Vicente chorava de tristeza.

Andava furioso, até! Iria mostrar a Zeus, que a bicharada nada tinha a ver com aquele castigo! Não são os animais que constroem fábricas e andam de carro e deitam pauzinhos de gelado pelo chão!


Calcorreva toda a Barca, nervoso, resmungava: “Não temos nada que estar aqui presos! Não é Justo!” “Vou-me embora!” “Vou-me embora!... e, revoltado gritou…

Cruá! Cruá! Parecia de noite pois havia muiiiiiiitas nuvens, densas, escuras… O mar agigantava-se em ondas que queriam virar a barca.


Mas voou; voou dali para longe. Cruá! Cruá! … ia, agora mesmo… embora… Livre!) Livre! gritou; gritou sem parar

Cruá! Cruaá!... Cruaaá!


E, sem medo lanรงou-se ao vento frio e chuvoso de asas abertas e livres, sobre o mar sem fim.


Lá no cimo, sem a balbúrdia de mil animais fechados, pensava “Que bom silêncio!” Lá em baixo os animais espantavam-se:

Uau! Que corajoso! Quem me dera ser assim, e ter asas para voar!


“Que poliglotas e trogloditas de Babel! Que tropel! À balbúrdia da Barca

não a quero!

Aqui em cima só ouço o bom silêncio…”


Zeus, porém, era muito esperto. Sabia tudo e não se deixava enganar. Precavido, cuspiu um mar de fogo nos céus o mais alto que conseguiu! Mas Vicente, que era forte, e queria muito ser Livre…

Passou-o! Chamuscou algumas penas, mas fugiu a todas aquelas labaredas rumando ao horizonte.


Na Barca estavam caladinhos que nem ratos… Zeus, O Super-Rei, trovejou a pergunta:

– Noé, que é do meu amado Vicente? Todo aquele jardim zoológico que era a Barca, ficou a tiritar de medo. Quem andava sobre duas ou quatro patas parou como estátua “um, dois, três macaquinho-à-chinês”, à coca e a bichanar

Ai Ai


– Noé, que é do meu amado Vicente?

Nada. Ninguém sabia nada do Vicente, o Corvo. Pelo convés da Barca, só silêncio. Zeus relampejou: – Noé, que é do meu amado Vicente? À terceira vez todos os bichos desapareceram.


À proa só estava Noé, que era já um velhinho com 600 anos de idade. Na secretária tinha um monóculo, uma bússula, um compasso, um mapa, papel, pena e Tinta-da-china e um mata-borrão! Vês? Vês aqui no mapa? Ele deve ter rumado a Oeste! Como se Zeus não soubesse o que significava “Oeste”, Noé repetiu e disse:

“Rumo ao pôr-do-Sol!”


O rato, com pena do incompetente Noé, rugiu como um leão. – Oh Zeus!, o Vicente partiu…

– Quem disse tamanha barbaridade? Quem me afronta?

(Os ratos não se medem aos palmos - nem Zeus mede um rato, da ponta da cauda, à ponta do focinho) – Eu, o rato! O Vicente partiu… – Partiu?! Partiu como?! – Então? Abriu as asas e voou! Queres procurar atrás das cordas? Debaixo das camas? Por entre roupa?


O Noé, de 600 anos, transpirava transpirava... Com os nervos, o coração não aguentou e…

Zau! desmaiou. É no que dá o stress e o colestrol alto! Zeus também entrou em pânico, pois pensou ter morto de susto o pobre Noé. Mas não, não matou. Deu-lhe um tabefe e o Noé acordou. – Ai o meu Vicente!, Ai o meu Vicente! Zeus resmungava, Noé choramingava.


Seguia a Oeste, rumo ao p么r-do-Sol. Como se fosse uma baleia, que soubesse onde comer peixinho, foi namorando as ondas at茅 Lisboa. Cheirava a mar. Mas os bichos s贸 pensavam no castigo que agora Vicente apanharia, se Zeus lhe pusesse as m茫os em cima.


40 dias depois, a Barca andava à deriva. Sem rei nem roque vogava ao sabor das marés. Iria Zeus puxar o corvo por uma orelha? (Ah!, perdão, os corvos e os sapos não têm orelhas!), dar-lhe umas palmadas? E o Vicente? Teria vencido a tempestade e o dilúvio durante a noite? Onde estaria, ensopado, com frio e com fome? O horizonte não se deixava ver e o Vicente não se via no horizonte.


De repente, um lince com visão raio-x mais forte que a do super-homem, descobriu terra.

Terra! Terra!... Terra! – não se calava. Ainda o Diabo esfregava um olho e já toda agente sabia das notícias. Terra? Sim, mas só uma mão-cheia… Só um outeirito com a crista de fora d’água. Não era montanha nem monte, nem ilha nem ilhota… Há que ter esperança!, esperar que a água desça…


Mas onde está Vicente?

Olha!, está ali!, é ele! É ele! Cada vez mais perto se via o seu corpo preto. Tão preto que a sua figura franzina, sobre o horizonte, parecia um melro pousado num estendal de roupa.

Viva! Ganhou o Vicente! Gritaram todos, para orgulho de Noé e fúria de Zeus.


A água subia, subia sempre e o outeirito onde estava o Vicente, a minguar a minguar.

Ai a terra!

cada vez mais pequena! Ai o Vicente! Será que ele se vai afogar? – Não sejas orgulhoso, Vicente!, vem para aqui! – pediram-lhe as avestruzes.


Os elefantes faziam apostas com os macacos será que ele vai molhar os pés? será que desiste e vem a choramingar? Do montinho onde repousava, ofegante, vitorioso, o preto Vicente, via a Barca a subir com a maré.


Em três golfadas, o mar ia levando para o fundo o frágil e forte corvo. Ensopado do bico às patas fez uma carantonha às ondas e elas encolheram-se. Na Barca, o peito dos bichos pulava de pânico.

“É agora! A onda vai levá-lo!” Mas não. Ninguém queria acreditar O corvo negro desafiou Zeus, resistiu, e ia vencer o combate ao Super-Rei.


Já não sabia onde pôr as patitas o montito fora engolido pelas águas.

Cruá! Era clarinho como a água! O Vicente ia vencer, ser Livre e contra isso Zeus nada podia. Fechou o Rei as torneiras dos céus. O seu bicharoco favorito secou as penas e disse-lhe adeus!

Cruá!


Vitória Vitória, Ganhou o Vicente… Vitória Vitória, Corvo bem Valente! PS: Ninguém sabe muito bem o que terá acontecido ao Vicente. Uns viram-no a passarinhar pela Ponta de Sagres, no Algarve, a apanhar sol. Outros dizem que descobriu uma ilha nos Açores… de nome Corvo... Vicente, O Corvo Inteligente!.

Ah! E arranjou uma namorada!, uma corvina! com quem baila no Atlântico ao Pôr-do-Sol.



Vicente