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Copyright© by Ana Maria César

Capa Célia Lins Revisão desta Edição Fernanda Caldas Produção Gráfica Edições Bagaço Rua dos Arcos, 150 • Poço da Panela Recife/PE • CEP 52061-180 Telefax: (81) 3205.0132 Email: bagaco@bagaco.com.br www.bagaco.com.br V657p César, Ana Maria - 1941 O Tom Azul, ou, a inconsistente permanência do amor / Ana Maria César. Recife: Bagaço, 2a Edição, 2011. 176 p. 1. FICÇÃO BRASILEIRA - Pernambuco. I. Título.

CDU 869.0(081)-3 CDD B8693

ISBN ?????????? IMPRESSO NO BRASIL – 2011


O Tom Azul

Tema da rosa breve

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epois veio o amor. Foi assim. Chovia intensamente, ruas alagadas e escorregadias, a neblina a se interpor entre os carros, faróis inúteis e a batida. Mantinha-me à direita, dentro da faixa. Duvidava, o outro motorista levaria isso em conta. Motoristas são sempre assim, donos de razão insofismável, senhores da verdade e da rua. Preparei-me para descer, apesar da chuva. Preparei-me mais ainda para enfrentar meu antagônico colega de trânsito. Imaginei um grosseiro motorista de táxi, ou quem sabe um desses garotos modernos, todo gíria, ou um desses senhores de antanho, indignados com a liberação da mulher, a me olhar do alto de sua competência. Nada seria de estranhar. Diante de mim, uns olhos castanhos. Cabelo preto escorrido e pingos de chuva a deslizarem pescoço 35


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abaixo, empapando a camisa azul-índigo. Eu o olhava apavorada, creio, pois foi logo dizendo: – Não se preocupe. Não foi sua culpa. Perplexa o escutava. e ainda permaneci incrédula quando me puxou até meu carro, abriu a porta e me empurrando: – Entre, você está se molhando toda. Baixei o vidro, gritei um muito obrigada. Apoiou as mãos na porta e perguntou meu telefone. Gaguejei o número, ele repetiu e desapareceu em meio à chuva. Atrás, carros buzinavam. Telefonou à noite. Convidou-me para sair. Fomos a cinemas, restaurantes. Levei-o a teatros e concertos. Dizia gostar. E eu feliz, encontrara a alma gêmea, o príncipe encantado. Casamos em tarde anil. Branco, meu vestido tomou coloração violácea quando raios incidentes de sol me inundaram à saída da igreja. Levava sonhos, os mais românticos, roteiros-de-filmesdécada-de-cinqüenta, felizes para sempre, e eu pensando, ao término da película, o the end gravado na tela, tudo seria só amor. E eu pensando... Ainda pensava assim quando voltamos da luade-mel. A pele macia de carícias, o terno olhar da mulher bem-amada, as mãos impudicas de bisonhas explorações, o corpo farto de desejos tantos, a alma desnuda, entregue toda, submissa e feliz. Uma manhã acordei ao som de violinos. Meu aniversário, e ele trouxera ao quarto nosso som. Cortinas 36


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cerradas não me deixavam enxergar quase nada. Forte o perfume de rosas a inundar o ambiente e já me sentia flutuar quando seus braços me envolveram. Em cama atapetada de pétalas de rosas. Ano seguinte, quase esqueceu a data, chegou tarde do trabalho, fora um dia horrível, não tivera tempo de comprar meu presente, – qualquer dia a gente sai e compra o que você quiser. o beijo ligeiro e o boa-noite. Imensa e branca a noite. Da cor branca do Oeste "que absorve o Ser e o introduz no mundo lunar". Branca e fosca, a noite. Silêncios nasciam então de um quase nada e se eternizavam. Silêncios biformes. Distintos. E mesmo quando falávamos, persistia o silêncio. Biforme e distinto. Insisti. Falei de flores, pra não dizer que não, falei de coisas banais, lembranças comuns, de gente, de bichos, do último pôr-de-sol, do tom azul, profundo e absoluto, nunca mais captado. E ele: – Amanhã preciso sair cedo. Vou levar o carro ao conserto. Claro. O carro. O conserto do carro. Aquele barulhinho que não se sabia o motivo. Irritante, o barulho. O carro. Claro. Plantei rosas amarelas e salmões. Por serem híbridas precisam de cuidados especiais. Entreguei-me ao trabalho de adubá-Ias, pulverizá-Ias contra pragas 37


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e insetos, protegê-Ias do excesso de sol e sobretudo dos formigueiros. Rosa-de-damasco, pálida e discreta; a rosa-chá, também chamada da China; a singela Eglantine, de cinco pétalas, amarela e mediêva; rosa Fashion, crespa nas pontas, corola à mostra, tirante a salmão. Antiga, muito antiga minha predileção pelas rosas. Rosas de ontem, rosas de minha infância, cultivadas em meu jardim onde aprendi a conhecê-Ias e amá-Ias. A rosa-amélia, toda frocada, conhecida como rosa-de-cem-folhas, desmaiava ao entardecer. A cor e a rosa. Havia a La France, de linhagem nobre. Plantada no canteiro central, minha mãe se ocupava dela pessoalmente. Beirando a janela do meu quarto crescia uma roseira. Daria flores na primavera, disseram. Chamavam-na de Palmeirão. Minha mãe insistia na pronúncia polneiron, até que indaguei. E ela: – Esta rosa tem o nome do roseirista francês que a criou, Paul Néron. Minha mãe conhecia de rosas. Eu me detinha bem mais no mistério de sua transitoriedade. Fazem-se belas, escolhem cores, perfumam-se toda para durar tão pouco – l 'espace d 'un matin – como em poema de Malherbe. Rosa-de-jericó, a rediviva. Renasce após murchar. Talvez não passe de lenda. Desejo dos roseiristas de eternizar o belo. Durante algum tempo procurei adquirir uma muda. Percorri chácaras e roseirais. Ninguém a possuía. Mas todos já haviam ouvido falar da rosa que renascia. Lenda, talvez. 38


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Rosas se apresentam brancas, vermelhas, amarelas e cor-de-rosa, sobretudo. Mas existe uma rosa, a portuguesa, – quem a possuir, por favor... – debruns violáceos, fundo carmim, avesso azulado com reflexos de cobre. A inverossímil rosa azul.

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Tema da lealdade

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alei de lealdade quando me referi a meu cajueiro. É uma dessas palavras que me acossam, me invadem e então preciso dissecá-Ia. Antônimo de hipocrisia. "Procedimento conforme as leis da honra e do dever". Honra, honra-apreço, honra-estima, posicionamento em relação a outrem, as suas qualidades, talentos e virtudes. Dever, atitude de aceitação, ti da em compromisso. Inexiste enquanto não houver acordo. A lealdade se encontra circunscrita a noções de espaço: núcleo e circunjacências. Não tenho como ser leal ao povo chinês, a partidos políticos espanhóis, a um cidadão siberiano ou a uma criança africana. Posso ser solidária. Mas não, leal. Lealdade exige proximidade, laços. Consonância. Ato consciente e acordado. Sentimento único. Transparente. Diverso do amor, 41


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muitas vezes transfigurado em egoísmo, violência, mentira e paixão. Ninguém mata por lealdade, asseguro. Por amor, sim. Falei tudo isso ao anoitecer de um domingo. Sentados na sala, assistíamos a um programa de televisão. Ele me ouviu – ou teria sido apenas impressão – não concordou, nem discordou. Ignorou apenas. Dia seguinte avisou que estaria fora por uma semana. Coisa intrigante, viagem. Ir, sem deixar de ficar, pois pressupõe regresso. Viajar, verbo intransitivo. A gente apenas viaja. E pronto. Na primeira vez que viajou, fiquei só tristeza. Caminhava pela casa à escuta de ruídos – a chave tornando a lingüeta da fechadura; o aroma nicotina de mistura à lavanda; o cheiro agreste de seu corpo. A presença dele enchia os espaços. Os meus e os da casa. Permanecia todo ele no aconchego dos lençóis. No regresso, nem sentir mais que se houvera afastado. Depois, a ausência foi se fazendo. Surgiam então os vazios e os silêncios. Procurava sua fala, sua imagem, sua mão e só aquela carência a se insinuar devagarinho em cada canto, nos recantos de mim própria. Viajou de novo e fiquei alerta. Precisava descobrir. Tudo se mostrava normal, tranqüilo. O vento sussurrante penetrava pelas frestas das janelas, pois era agosto. O crepitar da cerâmica, apenas o sol a se arremessar manhã a dentro através da vidraça translúcida. Tudo se revelava absolutamente normal. 42


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Houve uma vez. Procurava um objeto qualquer, colocara-o não sabia onde. Gavetas e armários remexidos, súbito salta-me às mãos velho cachimbo, hábito dos primeir03 tempos de casado. O odor característico me acendeu desejos antigos de carícias ingênuas, o aconchego na rede a balançar devagarinho, o luar todo tolo a nos espiar. Houve uma vez.

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O Tom Azul  

O Tom Azul - Prêmio Dulce Chacon da Academia Pernambuca de Letras publicado pela Editora Bagaço. Projeto Gráfico da 2ª Edição.

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