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MEMORIA ALENTEJANA CEDA (Centro de Estudos Documentais do Alentejo — Memória Colectiva e Cidadania) | Director: Eduardo M. Raposo | Periodicidade Anual: 2020

VIAJANDO POR CAMINHOS DE SANTIAGO ENCONTROS COM O ALENTEJO

N.º 42

3€


SUMÁRIO

EDITORIAL

CEDA 03 Jimi Hendrix - 50 anos 05 5º Aniversário do Cante e Grupo de Trabalho CADERNO TEMÁTICO 08 Viajando por Caminhos de Santiago 09 Vila Viçosa 11 Alandroal 12 Elvas 13 Campo Maior 14 Arronches 15 Portalegre 16 Marvão 17 Castelo de Vide 18 Alpalhão 18 Inquérito sobre o Caminho da Raia 19 Entrevista a Pedro Beato 22 Simbologia dos Caminhos de Santiago 23 O Caminho Central Via Tejo 26 Entrevista a Padre Sezinando Alberto ENTREVISTA 31 José Veloso 35 José Manuel Castanheira IDENTIDADE 39 Amor e Vinho - Da Poesia Luso-Árabe à Nova Música Portuguesa (Séculos XI/XXI) lançado na Cuba 41 O Cante e as Tabernas 42 O Vinho de Talha 43 Cante em Paris ENTREVISTA 45 Francisco Naia CRÓNICAS 47 Talha e Vitualha - Restaurante Três Bicas 48 Casas com Alma - Pelo Vale de Santarém POESIA VIRTUAL 49 Feliciano de Mira PATRIMÓNIO NATURAL 50 Entrevista a Gonçalo Ribeiro Telles ACONTECENDO 52 Destaque 54 Livros 60 CDs 61 Exposições 62 Teatro e Património 63 Diversos 64 A fechar

Foto: Pedro Soares

01 Editorial

Eduardo M. Raposo Director Presidente do CEDA

Viajando por Caminhos do… Alentejo “O caminho faz-se caminhando” A ideia desta edição nasceu em Março de 2019 num início de tarde soalheira na Casa Mãe da Rota de Vinhos em Palmela. Estamos à conversa com o então presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, António Ceia da Silva – que muito recentemente tomou posse como novo presidente da CCDRAlentejo. Ceia da Silva, com o verbo fluente e cativante que o caracteriza, logo nos seduziu com os projectos estruturantes que a ERT Alentejo e Ribatejo tinha previsto lançar em breve, nomeadamente os Caminhos de Santiago Alentejo e Ribatejo, como referimos na Caderno que é o tema central desta edição. Os Caminhos de Santiago era um assunto que nos vinha a despertar algum interesse nos últimos anos, nomeadamente com a passagem pelo Cabo Finisterra em 2018, não na qualidade de caminhante mas de viajante descendo a costa desde La Coruña e visitando pequenos portos como Malpica de Bergantiños, Laxe, Camariñas, Muxía, assim como o contacto - e a leitura do que escreveram – pessoas que fizeram os Caminhos de Santiago. No regresso da entrevista comentávamos com o Alex Gandum que este tema teria de ser assunto para um número da Revista. Quando no início deste ano nos preparávamos para começar os preparativos de repente surge a pandemia e ficou tudo adiado. Mas não desistimos e logo no final da primeira vaga, iniciamos os contactos para a sua concretização. Quando, no final do Verão estava finalmente assegurado a sua viabilidade, começou-se, paralelamente, a preparar o evento “Encontros com o Alentejo. Viajando por Caminhos de Santiago” que acabou por ser adiado mas que esperamos retomar logo que tal seja possível, em 2021. Mas se o percurso foi adiado, esta edição que agora vos chega às mãos, sofreu apenas um atraso. A Equipa da Memória Alentejana continuou a trabalhar empenhadamente em pleno segundo surto pandémico. Assim apresentamos um Roteiro que se inicia em Vila Viçosa, seguindo-se Alandroal, Elvas, Campo Maior, Arronches, Portalegre, Marvão, Castelo de Vide e terminando em Alpalhão., mas dadas as circunstâncias, apenas com a participação directa da Câmara Municipal de Vila Viçosa, enquanto a de Campo Maior prevê participar na próxima edição. Incluiu-se ainda uma breve reportagem fotográfica, sobre o percurso realizado por um pequeno grupo de membros da direcção do CEDA, que em alternativa percorreu, no primeiro fimde-semana de Outubro as Etapas do Caminho Central via Tejo – entre Vila Franca de Xira e Santarém, com cerca de 65 quilómetros e que possibilitou ainda o tema para a crónica Casas com Alma. Gostaríamos de realçar ainda dois aspectos centrais do Caderno

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EDITORIAL “ Viajando pelos Caminhos de Santiago”: Falámos da entrevista realizada a Pedro Beato que, no âmbito da ERT, coordenou este projecto, onde este nos elucida como surgiu o projecto, do que na pratica consta, que parcerias, protocolos realizados, como funciona a sinalética, que apoios e quais as motivações em que Beato sintetiza dizendo que “Os Caminhos de Santiago são uma experiência de reflexão” Também no âmbito do Caderno surge “A Grande Entrevista”, ao Padre Sezinando Alberto, que é natural de Azinheira dos Barros (Grândola) e que foi durante vários anos Reitor do Santuário Nacional Cristo-Rei. Depois foi pároco em Borba e está agora em Alcácer-do-Sal. Relativamente jovem mas já com um vasto curriculum eclesiástico Alentejanista convicto, integrou o Grupo Coral “Amigos do Alentejo” do Feijó, o Padre Sezinando é um homem fraterno e solidário que conhecemos pessoalmente em 2017, quando procurávamos apoios para realizar em Almada o 3º aniversário do Cante e depois de vermos esboroar apoios prometidos por entidades laicas, foi o Padre Sezinando que, tendo acreditado no projecto e sem pedir nada em troca – qualquer destaque ou visibilidade, pois nesse fim-de-semana estava em Azinheira dos Barros – acabou por viabilizar o evento com o programa inicialmente previsto. Sezinando Alberto diz-nos da emoção de, quando ao viajar da Diáspora, começa a sentir os ares do Sul após passar a Marateca – como aconteceu numa crónica inédita de Mário de Carvalho numa crónica inédita que escreveu para a nossa Revista e como nos muitas vezes sentimos. O título é significativo: “Nem imagina o quanto eu tenho o Alentejo no coração”. Ainda no Caderno é apresentado um inquérito com carácter científico, que pretende ser um instrumento de trabalho futuro para as entidades e concelhos participantes, que – está a ser preparado por uma equipa interdisciplinar de docentes do ISEC Lisboa (Instituto Superior de Educação e Ciências): as Professoras Ana Pereira Neto e Ana Barqueira e respectivos discentes.

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Nesta edição a rubrica figuras destaca um arquitecto, um cenógrafo e um cantor, respectivamente José Veloso, José Manuel Castanheira e Francisco Naia. O primeiro deles, completou este ano 90 anos, figura fascinante de lobo do mar, de Lagos, realizou um vasto conjunto de projectos em sete concelhos alentejanos. Empenhado politicamente desde a juventude, diznos que “A actividade de arquitecto é para mim uma causa indissociável da causa maior da democracia.” O projecto SAAL, que coordenou no Algarve, possibilitou a participação directa no apoio técnico à construção do Bairro da Associação de Moradores 25 de Abril, na Meia Praia, Lagos, que ficou conhecido pelo Bairro dos Índios da Meia Praia. Conheci-o pessoalmente quando após o ter visto na televisão denunciando a provável futura demolição, procurei-o, ele contou-me que “assessorou” o Zeca Afonso, numa mesa de café, em Setúbal, quando este escrevia o tema homónimo; ficámos amigos e descobrimos amigos comuns – Fernando Caeiros – a amizade solidificou-se. A outra figura é um dos mais prestigiados cenógrafos portugueses a nível internacional. Conhecemo-nos recentemente e num curto espaço de tempo tivemos oportunidade de concretizar o acolhimento de duas exposições inéditas – de cartazes de teatro e de serigrafias sobre Almada, a participação num catálogo. O Castanheira é também arquitecto, professor universitário autor, pintor para além de ter sido distinguido diversas vezes e ter assumido cargos nacionais e internacionais curiosamente quando preparávamos estas entrevistas descobrimos que ele e o José Veloso também são amigos. A terceira é sobre um amigo de há vários anos, com projectos realizados conjuntamente, que a propósito de da reedição dos temas de quatro EPs saídos antes de 1974 e agora reunidos no CD Canções de Resistir. Francisco Naia é entrevistado por António Ramos. Nesta edição pode ler ainda do recente lançamento na Cuba, em local e ambiente certo . na Adega do Canena – do livro Amor e Vinho. Da Poesia Luso-

Árabe à Nova Música Portuguesa (Séculos XI/XXI), de notícias do Rancho dos Cantadores de Paris, a propósito do Cante na Sorbonne, e do seu mais recente disco Alentejo Ensemble , de um trabalho que realizámos recentemente sobre o Cante e as Tabernas e de um artigo sobre o Vinho de Talha assinado pelo amigo José Roque, que além de cantador, presidente da MODA – Associação do Cante Alentejano e activista da valorização da nossa identidade é também um pequeno produtor deste divino néctar. Há também lugar à Poesia Visual por Feliciano de Mira e com muita actualidade José Alex Gandum publica uma entrevista inédita realizada há 10 anos de uma figura maior da sociedade portuguesa desparecido aos 98 anos em plena fecho desta edição: falamos de Gonçalo Ribeiro Teles. Logo a abrir, na rubrica CEDA, destaque para o ciclo de colóquios “Jimi Hendrix anos 60. Uma pedrada no charco” e o “5.º Aniversário do Cante Património da Humanidade” e o futuro do GTCCA. As crónicas “Talha e Vitualha” e “Casas com Almada”, como é tradição, da autoria de Ana Pereira Neto e a rubrica Acontecendo, com doze páginas sobre livros, discos, exposições, teatro, notícias dos vestígios arqueológicos na Adega Cooperativa da Vidigueira – de um adega do século XVIII – das Talhas construídas em Campo Maior, de uma rubrica sobre o Cante – “Quando o melro assobia , por Paulo Ribeiro”, na Rádio Voz da Planície, ou o Plátano do Rossio de Portalegre, Árvore Portuguesa de 2021, os 90 anos da morte de Florbela e as comemorações do 25 de Abril e do Cante em 2020 completam esta edição da Memória Alentejana, fruto da resiliência de pequena equipa que a leva até si, amigo(a) leitor(a). Esta edição, feita em condições particularmente difíceis é tanto a prova que não devemos nem podemos desistir e resulta de uma mensagem de esperança para continuar a levar até si esta nossa linha editorial de valorização da memória e do nosso património identitário. Um abraço e Saúde! eduardomraposo0@gmail.com


JIMI HENDRIX 50 ANOS

CEDA

CICLO DE COLÓQUIOS

“Jimi Hendrix - anos 60. Uma pedrada no charco” na passagem dos 50 anos do seu desaparecimento físico O Centro de Estudos Documentais do Alentejo -Memória Colectiva e Cidadania em parceria com a Junta das Freguesias de Charneca de Caparica e Sobreda, realizou em Setembro um ciclo de colóquios com a designação "Jimi Hendrix - anos 60. Uma pedrada no charco” para assinalar a passagem dos 50 anos do desaparecimento físico deste enorme guitarrista e nome maior da música. O primeiro teve lugar no dia 3. Intitulado "Jimi Hendrix. O contexto musical de 60 e o movimento flower power", contou com três nomes maiores do panorama musical português: António Manuel Ribeiro, Fast Eddie Nelson e o crítico musical Nuno Pacheco - que iniciou com uma intervenção excelente dando-nos um rigoroso contexto, através do zoom, directamente de sua casa, onde se encontrava de quarentena. Foi uma noite "gloriosa", ou como referiu Eddie Nelson estes momentos únicos: "Foi uma noite fixe. Já tinha saudades de conversar pessoalmente com pessoas que gostam de música". A TV Almada fez a cobertura integral do evento e no final pediu depoimentos aos oradores, ao CEDA que moderou e ao presidente da Junta das Freguesias de Charneca de Caparica e Sobreda, Pedro Matias. O segundo colóquio, realizado a 10 de Setembro, teve como tema "Vilar de Mouros ou o Woodstock português e a génese do Rock nacional" e como oradores o veterano Edmundo Silva, dos Seiks, o radialista – antena 3 – Nuno Calado e o músico e professor José Carita e neste segundo colóquio, precisamente no mês em que passou 50 anos do desaparecimento – ocorrido em Setembro de 1970 – do "maior guitarrista da história do Rock". para que a memória do seu legado não

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caía no esquecimento, a imensa beleza da sua música e a sua postura de irreverência... e também dos músicos, autores, compositores e intérpretes que deixaram o seu nome e a sua arte associados à génese do Rock nacional! No segundo colóquio a Junta das Freguesias de Charneca de Caparica e Sobreda este representada pelo seu Vice-presidente, Miguel Lourenço. A realização deste ciclo de colóquios foi a prova da importância, nestes tempo difíceis, ainda que em condições especificas que asseguram a segurança, que não devemos parar, que não podemos parar, que devemos manter o debate de ideias, em prol da Arte, em prol da Cultura, em prol da Cidadania, contributo modesto mas certamente eficaz para a defesa e o aprofundamento da Democracia!.. e uma mensagem de esperança e solidariedade para os artistas e todos os trabalhadores das artes e da cultura que tão desamparados têm estado.

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JIMI HENDRIX 50 ANOS

Fotos José Alex Gandum

CEDA

Um abraço fraterno e o bem haja aos nossos parceiros, os amigos autarcas Pedro Matias, presidente, a sempre incansável Alda Fidalgo, vogal da Cultura e ainda Miguel Lourenço, vice presidente, assim como a todos os companheiros do CEDA, que

participaram na realização deste ciclo de colóquios, ao Américo Jones, autor dos cartazes. Aos oradores e a todos os participantes! Eduardo M. Raposo


5º ANIVERSÁRIO DO CANTE

CEDA

“Almada Homenageia o Cante” O 5º aniversário do Cante Património Cultural Imaterial da Humanidade foi assinalado em Almada, entre 29 de Novembro e 14 de Dezembro novamente com a designação "Almada Homenageia o Cante", uma organização do Grupo de Trabalho do Cante do Concelho de Almada (GTCCA). A Cerimónia de Abertura realizou-se no Auditório do Edifício do Poder Local, no Feijó, onde o respectivo presidente, o Amigo Luís Palma recebeu o Grupo Juvenil de Cante Alentejano da Diáspora em Almada. De seguida apresentamos a Comissão de Honra e em seguida usaram da palavra os Amigos autarcas presentes, presidentes quer da Junta de Freguesia anfitriã, assim como da Charneca de Caparica e Sobreda, Pedro Matias, representantes da Assembleia Municipal e da CMA, e a Directora Regional de Cultura do Alentejo, a Amiga Ana Paula Amendoeira. “Feira de Artes e Enogastronomia” e cinema transtagano O Cante nas Freguesias aconteceu na manhã do dia 30 de manhã, pelo Grupo Coral Etnográfico "Amigos do Alentejo” do Feijó, que actuou nas freguesias do Feijó, Sobreda, Trafaria e Caparica. À tarde, na Oficina de Cultura, abriu a “Feira de Artes de Enogastronomia”. Com um programa diversificado, iniciou com Cante pelos grupos seniores do concelho: “Amigos do Alentejo” e femininos "Recordar a Mocidade, do CIRL" e as "Cantadeiras de Essência Alentejana", tendo ainda acontecido, de improviso, uma homenagem simbólica a Joaquim Afonso, antigo dirigente dos “Amigos do Alentejo” e figura incontornável do cante em Almada que muito cativou a assistência. De seguida houve lugar o colóquio “A salvaguarda do Cante. Revisitação da herança”, com

Foto Ana Baião

no 5º aniversário do Cante Património da Humanidade

excelentes intervenções de José Roque, presidente da MODA – Associação do Cante Alentejano e cantador da Cuba e Feliciano de Mira, artista multimédia, investigador e ensaísta, Évora. Enquanto se ia-se degustando enchidos, queijo, pão, a doçaria e o mel, respectivamente das “Cantadeiras”, da “Alma Alentejana” e de Luísa Santos, bem como provas com o inconfundível néctar da região, fosse da Adega Marcolino Sebo, de Borba ou de Manel Zéi Janes, da Tasca do Reguengos, houve ainda lugar para um agradável momento de música popular alentejana por Francisco Naia e José Carita. Nos dias 29 e 30 aconteceu ainda a projecção dos filmes Raiva, de Sérgio Tréfaut e Al Berto, de Vicente Alves do Ó, respectivamente no Feijó e na Chsarneca de Caparica. Almada capital do Cante na Diáspora O ponto alto terá sido, porventura, no dia 1 de Dezembro, com a realização do desfile e a actuação conjunta de treze grupos da Área Metropolitana da Lisboa e Ribatejo. O encontro teve lugar no Fórum Municipal Romeu

Correia onde, rodeados por uma multidão, interpretaram "Alentejo é nossa terra", após terem desfilado nas principais avenidas da cidade e, apesar da chuva, que ameaçava e no final se fez sentir, cada grupo interpretou um tema cada, junto à entrada do Fórum. No total contabilizou-se cerca 2.000 pessoas só nesta actividade, quer no desfile como no interior e entrada do Fórum, o que somando ao restante programa, terão estado envolvidas cerca de 4.500 pessoas. Este foi um momento invulgar, de uma beleza e uma força de arrepiar, nomeadamente durante a actuação conjunta com muitas centenas de pessoas a cantar em uníssono: também pela singularidade do momento, reafirmou Almada como a "Capital do Cante na Diáspora". Na tarde de domingo a Feira funcionou de novo com as mesmas propostas enogastronómicas e a actuação do Grupo de música tradicional “Rumores d'Além Tejo”. “Cante e Arte Chocalheira em Diálogo” As comemorações prosseguiram dia 4 de Dezembro, com a inauguração da

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CEDA

5º ANIVERSÁRIO DO CANTE E GRUPO DE TRABALHO

Exposição "Cante e Arte Chocalheira em Diálogo", que esteve patente no Edifício do Poder Local, no Feijó. Composta por trabalhos da fotojornalista Ana Baião (Expresso), cedida pela Casa do Cante de Serpa (CMSerpa), poemas visuais, desenhos e infogravuras de Feliciano de Mira, exemplares paradigmáticos cedidos pela Fábrica Chocalhos Pardalinho, de Alcaçovas e painéis com modas da autoria de José Borralho, Francisco Barão e Paulo Bicho. No encerramento, dia 14 de Dezembro, actuaram os grupos femininos do concelho e realizou-se e um colóquio homónimo pelo antropólogo Paulo Lima. Apesar de algumas dificuldades, visto esta grande realização ser garantida por uma pequena equipa, onde o CEDA teve o teve central de coordenação e com algum apoio logístico das Juntas de Freguesia envolvidas – transportes e divulgação a que a CMA também deu algum apoio, assim como financeiro - "Almada Homenageia o Cante" em 5ª edição, reafirmou a pujança do Cante em Almada e a importância decisiva do trabalho realizado pelo GTCCA na afirmação da salvaguarda do Cante nos últimos cinco anos e como esta expressão de cultura popular é acarinhada pela vasta comunidade com mais de 50.000 membros, descendentes e naturais do Alentejo radicados em Almada

O Grupo de Trabalho de Cante do Concelho de Almada e a futura estrutura associativa No início do pandemia estava-se em fase de discussão para encontrar uma solução às limitações a que está sujeita um entidade ad oc como é o caso do GTCCA: sem estatuto associativo não tinha qualquer autonomia para realizar candidaturas ou obter apoios, tendo de se socorrer de uma das associações para realizar as candidaturas em nome de GTCCA, para além dos apoios à

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realização do ensino em sala de aula, concretizadas pelo monitor Paulo Bicho, com coordenação pedagógica pela docente Cármen Rosa, da Escola Básica Maria Rosa Colaço, do Agrupamento de Escolas Francisco Simões. Esta discussão, adiada devido à pandemia, mas que será retomada pelo que seja possível, veio pôr à reflexão e debate uma proposta do presidente da Junta das Freguesias de Charneca de Caparica e Sobreda, que depois de amadurecida, poderá vir a dar resposta a uma necessidade, que se tem vindo a fazer sentir, de um reforço organizativo e de encontrar novas formas de promover a salvaguarda do Cante: “O Cante tem que ser pensado, tem que ser debatido, não é só cantar”, como muito bem sintetizou Feliciano de Mira, de Évora, cantador, autor, artista plástico e investigador, um dos participantes neste novo projecto para dar um passo em frente, numa perspectiva não apenas local, mas também regional, nacional e internacional, como o próprio Cante, que pertence ao universo: Exemplo é a e x i s t ê n c i a d o Ra n c h o d o s Cantadores de Paris – com quem, logo que a situação pandémica permita, se espera realizar parcerias – como a consolidação da divulgação do Cante junto da comunidade científica, com comunicações em congresso internacionais, como foi o caso do congresso PHI (CHAM-FCSL/UNL) na Sorbonne, referido nesta edição – são novos caminhos que permitam elevar esta trabalho de salvaguarda do Cante a outros patamares e de lhe dar outra dimensão. Aspectos a considerar, ainda em análise, que se poderão vir a concretizar: a formação, investigação e promoção do Cante no quadro das ciências sociais, ciências da educação e outras - ensino formal e informal visando a salvaguarda do Cante, a cultura alentejana e questões relacionadas com aculturação; a realização de encontros de cariz científico e social com intuitos formativos, visando a autoestima

identitária e o desenvolvimento local; edição de artigos ou de publicações periódicas. A Associação poderá promover: a promoção das marcas identitárias do património material e imaterial, através de workshops, eventos e encontros diversos - científicos e outros - e ainda a organização de conferências, colóquios, seminários, círculos de estudo e formação avançada, especializada e pósgraduada; a recolha e o tratamento de informação, o desenvolvimento de projetos e de programas de investigação, de educação, de formação, de assistência técnica e consultoria, em articulação com empresas e instituições, públicas ou privadas, designadamente universitárias, nacionais, comunitárias e internacionais, ou através dos meios adequados ao seu dispor, tendo em atenção os interesses específicos dos seus associados e das instituições e empresas com as quais forem estabelecidos protocolos de cooperação. A Associação poderá difundir os resultados dos estudos e dos projetos desenvolvidos, através de suportes escritos, audiovisuais e informáticos adequados, constituindo-se, para o efeito, como editor dos mesmos. Eduardo M. Raposo


CADERNO TEMÁTICO

POR CAMINHOS DE SANTIAGO ENCONTROS COM O ALENTEJO

Foto Ana Pereira Neto

VIAJANDO 7


CADERNO TEMÁTICO

Viajando por Caminhos de Santiago Em Março de 2019, no âmbito da BTL, a Memória Alentejana entrevistou o então presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, António Ceia da Silva – que muito recentemente tomou posse como novo presidente da CCDRAlentejo. Ceia da Silva, na entrevista realizada na Casa Mãe da Rota de Vinhos em Palmela – em destaque na anterior edição da Memória Alentejana – apresentou alguns projectos estruturantes que a ERT Alentejo e Ribatejo tinha previsto lançar em breve, dando especial ênfase aos Caminhos de Santiago Alentejo e Ribatejo. Como dizia “São 1.300 km, 750 sinalizados fisicamente e que vão envolver três caminhos: o Caminho da Raia, o Caminho Central e o Caminho Nascente. Desde Mértola até Santa Justa, no concelho de Alandroal, desde Almodôvar a Nisa ou à Golegã, vamos ter um conjunto de percursos altamente procurados pelo mercado que nos interessa.” Foi assim que ainda em 2019 era lançado oficialmente,este projecto, com a edição de diverso material do apoio, nomeadamente o Guia Caminhos de Santiago Alentejo e Ribatejo, e a respectiva versão online, ao mesmo tempo que era implementada a sinalética. Este foi, todavia, apenas no Caminho Central e no Caminho Nascente, ao passo que o Caminho da Raia, ainda que com a considerável extensão de 310 km - é quase um subcaminho, pois aparta-se do Caminho Nascente em Mértola e, já no concelho de Nisa, em Alpalhão, une-se de novo a este – não tem ainda sinalética colocado, fazendo-se a orientação de forma exclusivamente digital. Claro que a pandemia veio alterar tudo e esta edição, pensada para o 1º semestre de 2020, no final da

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Primavera, que coincidiria com uma actividade no terreno também acabaria por ficar adiada. Mas não desistimos e logo no final da 1ª vaga, iniciamos os contactos para a sua concretização. Um roteiro, duas entrevistas e um inquérito Quando, no final do Verão estava finalmente assegurado a sua viabilidade, começou-se, paralelamente, a preparar o evento “Encontros com o Alentejo. Viajando por Caminhos de Santiago”, que acabou por ser adiado - mas que esperamos retomar logo que tal seja possível, em 2021 – onde se iria percorrer, num fim-de-semana uma parte considerável do Caminho da Raia, iniciando-se em Vila Viçosa, seguindo-se Alandroal, Elvas, Campo Maior, Arronches, Portalegre, Marvão, Castelo de Vide e terminando em Alpalhão. Mas se o trajecto foi adiado, esta edição que agora vos chega às mãos, sofreu apenas um atraso de pouco mais de um mês. A Equipa da Memória Alentejana continuou a trabalhar com afinco e empenho, enquanto a segunda vaga do COVID19 alastrava. Assim apresentamos um Roteiro, onde se esperava uma maior participação local, mas, dadas as circunstâcias, conta apenas com a participação directa da Câmara Municipal de Vila Viçosa, enquanto a de Campo Maior prevê participar na próxima edição. A Memória Alentejana resolveu, mesmo assim, apresentar o previsto Roteiro, com ou sem participação de mais municípios. Surge também uma entrevista a Pedro Beato que, no âmbito da ERT, coordenou este projecto. A Grande Entrevista desta edição é com o Padre Sezinando Alberto,

natural de Azinheira dos Barros (Grândola) e que foi durante vários anos Reitor do Santuário Nacional Cristo-Rei - alentejanista convicto, tendo integrado o Grupo Coral “Amigos do Alentejo” do Feijó - foi posteriormente pároco em Borba e actualmente é-o em Alcácer-do-Sal. Incluiu-se também uma reportagem, fotográfica, sobre o percurso realizado por um pequeno grupo de membros da direcção do CEDA, que em alternativa percorreu, na 1º fimde-semana de Outubro as Etapas do Caminho Central via Tejo – entre Vila Franca de Xira e Santarém, com cerca de 65 quilómetros e que possibilitou ainda o tema para a crónica Casas com Alma. Esta reportagem é antecedida de um breve artigo sobre a simbologia e depoimento dos Caminhos de Santiago. Mas um dos aspectos que gostaríamos de destacar neste Caderno com cerca de 30 páginas será o Inquérito a empresários de hotelaria, restauração e outros, assim como dos autarcas dos referidos concelhos sobre a implementação e repercussões dos Caminhos de Santiago localmente. Este inquérito com carácter científico, que pretende ser um instrumento de trabalho futuro para as entidades e concelhos participantes - que esperamos vir a disponibilizar em breve – está a ser preparado por uma equipa interdisciplinar de docentes do ISEC Lisboa (Instituto Superior de Educação e Ciências): as Professoras Ana Pereira Neto e Ana Barqueira e respectivos discentes, resultante de uma parceria entre o CEDA e a Memória Alentejana com as referidas docentes desta prestigiada instituição do ensino superior Boas leituras! Eduardo M. Raposo


ROTEIRO - VILA VIÇOSA

CADERNO TEMÁTICO

Vila Viçosa “Vila Ducal Renascentista”

Paço Ducal de Vila Viçosa, vendo-se em primeiro plano a estátua equestre de D. João IV.

A bela Callipole nasceu medieval, mas tornou-se vila ducal renascentista. A procura da alma calipolense não terá sentido sem ir ao encontro do corpo. Dito doutro modo, da constituição da Casa de Bragança (1442), a grande casa senhorial do reino. De facto, a história de Vila Viçosa começa com a edificação do Paço Ducal, em 1501, por iniciativa de D. Jaime, cuja construção está na génese dos factores excepcionais que marcaram o início do percurso triunfal da “vila ducal”. A Princesa do Alentejo, cativa ao primeiro golpe de vista. Com um subsolo rico em mármores, as pedreiras constituem o núcleo metafórico da paisagem local. O volume das aplicações, históricas e actuais, dos diferentes tons de mármore, em forma de monumentos e edifícios, deixaram ao longo dos séculos uma marca inconfundível. O mármore das pedreiras locais é a mãe da arquitectura. Mas, é, sobretudo, o ventre da nossa história. Tudo isto, embelezado pela riqueza das artes

decorativas, de que são testemunhos a qualidade e a quantidade das decorações fresquistas, sobretudo, dos séculos XVI e XVII, e os revestimentos azulejares que ilustram um percurso evolutivo do azulejo português, até ao século XVIII. A terra de Florbela Espanca, adquire, ainda, excepcionalidade acrescida pela conjugação de múltiplas expressões históricas, patrimoniais e culturais: singularidade da sua matriz urbanística; maravilhosos monumentos, como por exemplo, o Terreiro Ducal, considerado uma das mais belas praças-rossio do País, a Porta dos Nós, o Pelourinho e o Cruzeiro da Serpente, que conformam um mostruário de formas e de estilos artísticos; espaços de singular beleza natural, como é o caso da Tapada Real, denominada como um famoso lugar de delicias, que conserva as suas características originais; simbolismo da Capela Real do Paço de Vila Viçosa, condizente com o estatuto social da Casa de Bragança;

Pelourinho de Vila Viçosa.

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CADERNO TEMÁTICO

ROTEIRO - VILA VIÇOSA

Vista aérea de Vila Viçosa. © CMVV / Francisco Piqueiro

dissipa-se a pujança da vida cortesã, mas a Casa brigantina permanece através do Paço, que simboliza o seu poder, da ligação devocional a Nossa Senhora da Conceição, declarada, em 1646, Rainha e Padroeira de Portugal, pelo rei D. João IV, e dos túmulos ducais da Igreja dos Agostinhos, consagrados à perpetuação da sua memória. Cheia de encanto e de sinais de pura harmonia, a vila funde o modelo renascentista com o moderno, bem representado pela intervenção urbanística do Estado Novo que converteu a Praça da República numa extensa Alameda.

Hoje, Vila Viçosa constitui um caso excepcional de autenticidade e integridade pelo que chegou aos nossos dias do seu património cultural, que se encontra íntegro nas suas linhas fundamentais e que continua a influenciar a vivência da vila. Enfim, é o projecto cultural e urbanístico, portador de uma singular e duradoura marca seiscentista, que está na base da candidatura do Bem Vila Viçosa, vila ducal renascentista à Lista do Património Mundial, recentemente entregue na Comissão Nacional da UNESCO. Município de Vila Viçosa

Fotos Flávio Lopes

importância da arquitectura abaluartada, particularmente, o Castelo artilheiro que constitui uma das jóias da arquitectura militar portuguesa; edificações religiosas, cuja numerosa lista inclui igrejas, conventos, ermidas e oratórios; conjunto de casas senhorias, dispersas pelas típicas ruas, avenidas e praças; qualidade das colecções dos núcleos museológicos; encanto dos seus jardins e da sua paisagem urbana, embelezada pelas janelas e varandas floridas e sublinhada pela presença de um contínuo de laranjeiras. Sem a presença física dos Duques,

Vila Viçosa, vista geral do interior da Igreja de Nossa Senhora da Graça.

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Vila Viçosa, Porta dos Mós.


ROTEIRO - ALANDROAL

CADERNO TEMÁTICO

Alandroal Ou o Alentejo no seu melhor Castelo do Alandroal, Rocha da Mina, Fortaleza de Juromenha, Santuário de Nª Srª da Assunção da Boa Nova (Alandroal), Castelo de Terena, Igreja de Nossa Senhora da Assunção de Terena, Igreja da Misericórdia em Terena, Pedra Alçada em Santiago Maior, Igreja da Nossa Senhora da Consolação no Alandroal, ou Pelourinho de Alandroal... eis alguns dos locais turísticos e monumentos que é obrigatório visitar no concelho do Alandroal. Com extensa fronteira com Espanha, o concelho do Alandroal foi muita influenciado historicamente por essa proximidade. A sede de concelho, Alandroal, foi elevada a vila em 1486 por Carta de Foral pelo rei D. João II, depois de ter sido fundada em 1298 por D. Lourenço Afonso, Mestre de Avis. E Alandroal porque nas terras do concelho existem aloendros, ou alandros, cuja madeira é muita utilizada no artesanato local. Mas indo mais atrás, é possível encontrar um santuário rupestre Rocha da Mina - que fica implantado num esporão rochoso, contendo escadas e outros pavimentos talhados na rocha. O concelho era tido como protegido por deuses antigos desde tempos imemoriais,

tendo atingido no período romano um misticismo bem perceptível no designado Santuário Endovélico São Miguel da Mota. As actuais festas e romarias vão buscar mitos antigos. Destas destacam-se a romaria de Nossa Senhora da Boa Nova, em Terena, celebração que se realiza nas imediações do santuário da Nossa Senhora da Boa Nova, um templo fortaleza, com um grandes significados patriótoco e religioso. Por outro lado, a Festa da Santa Cruz, na Aldeia da Venda, os tempos antigos são recriados através de uma

manifestação cultural, entendida como a representação da salvação de uma pecadora, a qual segue Jesus Cristo no caminho para o Calvário. Hoje, o rio Guadiana e a mais-valia do Alqueva contribuem em muito para moldar a paisagem do concelho, onde as tradições da pesca e as edições da Mostra Gastronómica do Peixe do Rio são factores que trazem muita gente à região. São muitos os pontos de interesse que os caminhantes encontram neste concelho. José Alex Gandum

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CADERNO TEMÁTICO

ROTEIRO - ELVAS

Elvas Da riqueza do património às descobertas gastronómicas

Elvas ficou no ouvido com uma canção que fez um grande êxito nos idos de 70 do século passado. Mas Elvas não precisa de ser cantada para ser uma das mais importantes cidades alentejanas, até do país. A começar pela sua localização: bem próxima de Espanha, desde muito cedo, Elvas foi um importante bastião estratégico, que muito contribuiu para a história de Portugal e para que este país mantivesse a sua independência mesmo nos períodos mais críticos. Elvas tem a curiosidade de ficar dentro de uma fortificação em forma de estrela, o que lhe valeu ser classificada como Património Mundial, da Humanidade, designada como Cidade-Quartel. Dentro das suas muralhas não faltam museus, igrejas e um vasto património militar, cultural e imaterial. O património histórico e militar está muito bem preservado. Dele constam um aqueduto, o castelo, os fortes e os

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fortins, as muralhas e o centro histórico. Igrejas são 20 e conventos sete, o que faz da arquitectura religiosa de Elvas uma arquitectura imponente e mística. A isso há que acrescentar as ruas sinuosas, estreitas e íngremes, ideais para serem descobertas em percursos a pé. O grandioso Aqueduto da Amoreira, um ícone fundamental da cidade, tem cerca de sete quilómetros de comprimento e é composto por 843 arcos, e curiosamente foi construído pelo mesmo autor da Torre de Belém, em Lisboa, o arquitecto Francisco de Arruda. Elvas está dentro da maior fortificação abaluartada do mundo, uma estrutura em forma de estrela cujo perímetro ronda os dez quilómetros, sendo um testemunho riquíssimo da evolução da estratégia militar até ao século XIX, e que valeu para preservar a independência de Portugal face a Espanha, tendo ainda servido de base ao general

Wellington durante as Invasões Francesas no início do século XIX. Mas Elvas não tem só património edificado. Na cidade também é possível encontrar um Museu de Arte Contemporânea e o Museu de Fotografia João Carpinteiro. Continuando a viajar pelos muitos museus, de assinalar o Museu Rural, o Museu Etnográfico, o de Arqueologia, o Museu do Ferrador e o Museu da Cera da Piedade. Falta abordar a rica gastronomia que vai desde as migas com entrecosto, passando pela carne de porco à alentejana até ao ensopado de borrego. Nos doces destacam-se as ameixas de Elvas, acompanhantes obrigatórias da sericaia, mas quem tiver espaço no estômago ainda pode provar as azevias, os nogados, as enxovalhadas ou as filhós. Por tudo isto e muito mais, Elvas é local de passagem obrigatória. José Alex Gandum


ROTEIRO - CAMPO MAIOR

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Campo Maior Terra de café e flores Conhecida hoje em dia como terra de café e de flores, Campo Maior é muito mais que isso. Situada no Alto Alentejo, bem encostada a Espanha, a vila raiana tem uma história riquíssima: crê-se que tivesse sido uma povoação romana, dominada depois cerca de meio milénio por mouros, e só reconquistada nos inícios do século XIII por cavaleiros cristãos. A aldeia foi elevada a vila em 1255, ainda pertencendo ao lado espanhol, o que viria a mudar em 1297 com o Tratado de Alcanizes, quando a localidade passou para mãos portuguesas, tornando-se com D. Dinis, que lá colocou parte da sua família - uma importante praça forte de Portugal.Recebeu Foral Novo por parte de D. Manuel em 1512, tornando-se nesse século refúgio da comunidade judaica fugida da Inquisição de Castela. No século XVII, Campo Maior tornou-se num importante centro militar, presumindo-se que um quarto da sua população na altura fossem militares. Talvez por esse motivo, no século seguinte uma violenta trovoada desencadeada a meio de uma noite do mês de Setembro de 1732 provocou um incêndio incontrolável no paiol da vila que continha milhares de munições e uma grande quantidade de pólvora. Crê-se que cerca de dois terços da população tenha morrido. Só no século XVIII terminou a reconstrução da vila e o século XIX começou muito agitado com cercos espanhóis e invasões francesas, de que Campo Maior saiu sempre vencedora. Já na segunda metade desse século um grande surto de cólera dizimou outra vez boa parte da população. O património edificado de Campo Maior é importante, como o seu

Castelo, a Praça-forte ou a Capela dos Ossos. Das Festas e Romarias sobressaem as Festas do Povo também conhecidas como Festa das Flores, que normalmente se realiza de quatro em quatro anos e que consiste no revestir de todas as ruas da vila de flores de papel feitas pela população durante muitos meses. Em termos económicos e sociais, Campo Maior vive em grande parte da implantação de uma fábrica de

café - Cafés Delta - desde os anos 60 do século XX, gerida pelo empresário Rui Nabeiro e família. Os cafés são o principal motor económico da localidade, em termos de empregos e contactos com o exterior. De salientar a existência de um Centro de Ciência do Café, um dos museus mais conhecidos e visitados na região. José Alex Gandum

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ROTEIRO - ARRONCHES

Arronches

Foto Vítor Oliveira

Foto Câmara Municipal de Arronches

Pontes, Museus, Gastronomia

Foto Vítor Oliveira

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Na vertente museográfica, temos o Museu de (A) Brincar; o Museu de Arte Sacra de Arronches e Museu Rural de Mosteiros. Na gastronomia, podemos encontrar a típica cozinha alentejana com os seus pratos de Açorda, Ensopado de Borrego, Sopas de Cação e Tomate, Gaspacho Rico e Pobre, Presinhas do Alguidar entre outras iguarias. Bom passeio e bom apetite! João Santos

Foto: Emílio Moitas

Mosteiros); Igreja de Nossa Senhora da Esperança séc. XVI (Freguesia da Esperança), mais tarde reconstruída no séc. XVIII e destacamos também a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção séc. XVI, posteriormente reedificada no séc. XVIII. Para além deste património, temos também as pontes, são cinco as que rodeiam a sede de concelho, donde destacamos a Ponte do Caia de seis arcos séc. XV; a Torre Medieval e as fontes, Fonte de Elvas e Fonte do Vassalo séc. XVIII.

Seguindo o percurso “Caminho da Raia”, inserido nos Caminhos de Santiago, sentido Campo Maior – Arronches (N371), encontramos a Freguesia de Assunção vila e sede do concelho de Arronches, neste aprazível ambiente alentejano, deixamos aqui algumas sugestões turísticas: Na sua religiosidade temos a Igreja e Convento de Nossa Senhora da Luz, fundada no séc. XVI, pela ordem dos Agostinhos Calçados; Igreja de Nossa Senhora da Graça (Freguesia de


ROTEIRO - PORTALEGRE

CADERNO TEMÁTICO

Portalegre Um oásis para quem vem do Sul

Portalegre é capital de distrito do Alto Alentejo, mas é considerada como uma cidade de transição entre o Alentejo e as Beiras, dada a morfologia do seu terreno, mais acidentado que a característica planura e colinas baixas tipicamente alentejanas. Essas características únicas da paisagem, da flora e da fauna estiveram na base da criação do Parque Natural da Serra de São Mamede, o qual abrange uma parte significativa do concelho de Portugal. Historicamente, Portalegre teria sido fundada no século XII a.C. Em

termos cristãos, no século XII a futura cidade partiu de um pequeno povoado, onde a principal actividade tinha a ver com dar abrigo e mantimentos aos viajantes, já que era local muito procurado por ser aprazível pois era a região mais verdejante e que contrastava com a aridez da paisagem para quem vinha do sul. A povoação ainda foi disputada por D. Dinis e um seu irmão, governada pelos Álvares Pereira, palco de algumas revoltas populares e como resultado do seu crescimento em importância em 1549 foi criada a Diocese de Portalegre por bula do Papa Paulo III e elevada a cidade em 1550. Transformou-se na quarta cidade de Portugal no volume de receitas do imposto sobre as judiarias, e um dos maiores centros de indústria de tecidos. São inúmeros os locais de interesse que merecem ser visitados em Portalegre. Eis alguns: Sé Catedral, Igreja do Nosso Senhor do Bonfim, Convento de Santa Clara, Museu Municipal, Museu da Tapeçaria de

Portalegre ou as suas 30 fontes históricas, que forneceram água à cidade em exclusividade até aos anos 40 do século passado. Em termos de gastronomia, realce para a doçaria conventual ou nas palavras de um seu natural, "a água, a carne, o vinho, as ervas aromáticas vêm como que dar uma pincelada final num quadro de que gostamos muito". O mesmo residente realça ainda "os aromas que aqui encontramos caracterizam a comida, o campo, as estações do ano". Para terminar "há uma luz que nos invade na maior parte dos dias do ano, que determina as cores das Estações do Ano, o seu rasgar pela imensidão dos campos, a sua alternância entre cores quentes e menos quentes cativam o nosso olhar a qualquer instante", pois "o ruído que o silêncio provoca quando deambulamos pelo campo, pelos pequenos aglomerados, pelas vias e ruelas carregadas de história é algo que só aqui se interioriza". José Alex Gandum

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CADERNO TEMÁTICO

ROTEIRO - MARVÃO

Marvão Com o seu castelo estratégico milenar Já perto do termino da viagem chegámos a Marvão, onde do cimo de uma elevação escarpado se avistam dezenas de quilómetros em redor. O topónimo Marvão deriva de Ibn Marwan, figura do Islão peninsular que, no final do século IX, aqui se fortificou em discórdia com o califa. Na crónica de al-Rázi (século X), surge a primeira referência, ainda que conserve parcelas dedicadas a tempos anteriores. Conhecida como Amaia de Ibn Maruán, por oposição a outra Amaia, a das ruínas (SIDARUS, 1991, p.13), a provável cidade romana homónima, localizada no sopé do monte. Esta referência, de 876-877, permite concluir que Marvão era então um povoado com relevância militar, uma vez que, em outras ocasiões, Ibn Marwan ameaçou retirar-se para o Monte, numa clara afirmação de revolta militar contra Córdova (IDEM, p.16). Nos séculos seguintes terá perdido importância, face à relativa paz no seio no al-Andalus. Com o advento das taifas, manteve uma certa homogeneidade nesta zona, polarizada em torno de Badajoz. (Saúl GOMES, 1996, p.341, nota.) É possível a existência de uma importante comunidade moçárabe. No século XII, período de importante estratégica enquanto ponto militar (BARROCA, 2000, p.1265), entre o avanço do reino de Portugal, a resistência das tropas islâmicas e a proximidade para com Castela, Marvão é conquistada entre 1160 e 1166 (COELHO, 1924, p.73). Em 1214 aparece mencionada na demarcação do termo de Castelo Branco (PERES, 1969, p.281). Em 1226, terá recebido foral de D. Sancho II, ainda que o esforço de povoamento (na dependência das exigências militares ditadas pela proximidade da fronteira com

Castela) possa recuar ao reinado de D. Afonso II (MARQUES, 1996, p.41). Finalmente, em 1271, D. Afonso III doou a vila a seu filho, D. Afonso Sanches, nobre que constituiu um verdadeiro senhorio fronteiriço na região e que aí se fortificou contra seu meio-irmão, D. Dinis. Só a partir de 1299 se inicia a construção do actual castelo, onde encontramos características góticas. Do recinto fazem parte dois níveis diferenciados. O primeiro, mais pequeno e no extremo oposto ao da povoação, corresponde ao castelo propriamente dito, com uma entrada em cotovelo protegida directamente pela poderosa e quadrangular torre de menagem, associada à defesa activa do reduto, com apenas de dois pisos. Neste nível superior, existe a porta da traição, também protegida por pequeno torreão, e uma cisterna,

que SIDARUS, 1991, pp.22-23 admite poder ser ainda islâmica. O recinto inferior, mais vasto, permitia amplo espaço para aquartelamento e movimentação de tropas, com um complexo sistema de entrada, com tripla porta protegida por outros tantos adarves e por várias torres. No século XVII, Marvão viu reforçada a sua importância no quadro das Guerras da Restauração. Sob o impulso do abade D. João Dama, reformulou-se o dispositivo, com baluartes estrelados a proteger as principais portas e o extremo da fortaleza. Nessa altura, porém, Marvão já só possuía 400 habitantes e com menor relevância face a Castelo de Vide, onde se concentraram os principais esforços de defesa contra Espanha. Eduardo M. Raposo

Fonte: http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/70363/

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ROTEIRO - CASTELO DE VIDE

CADERNO TEMÁTICO

Castelo de Vide Casco histórico, diversas igrejas, fontes e Roteiro Judaico

Foto Câmara municipal de Castelo de Vide

Senhora da Penha séc. XVI, como o próprio nome indica fica situada num ponto elevado, de onde se poderá vislumbrar a magnífica paisagem natural deste concelho e Igreja de Nossa Senhora da Alegria séc. XVII. Estas são apenas alguns exemplos das 27 igrejas que poderão ser visitadas no concelho, inseridas também num “Roteiro das Igrejas”. Além dos roteiros já referidos, existem mais dois roteiros, o Roteiro Arqueológico (com dois percursos) e Roteiro Turístico. Na área do desporto, existem diversos percursos de pedestrianismo e BTT, uma outra forma de conhecer o concelho com um contacto mais próximo com a natureza. Nas festividades, consoante a época do ano que se visite Castelo de Vide destacamos: Carnaval Trapalhão (fevereiro); Semana Santa (altura da Páscoa); Mercado Medieval (agosto/setembro); Festival Andanças (agosto) entre muitas outras atividades. Depois de tantos sítios para ver e visitar, falta referir a gastronomia e doçaria que pode ser encontrada em Castelo de Vide. Na gastronomia

temos: Sarapatel; Alhada de Cação; Molhinhos em Tomatada; Migas com entrecosto, estas são normalmente confecionadas com batata ou mistura de pão com batata; Fígado à Moda de Castelo de Vide e Pezinhos de Coentrada. Na doçaria temos: Boleimas; Bolo Finto; Bola da Massa; Biscoitos Escalados; Broas de Mel; Enxovalhada e Queijadas de Requeijão. Na página de internet da Câmara Municipal de Castelo de Vide, poderão encontrar mais informação sobre esta gastronomia (receitas com historias) e sobre as outras atividades referidas. Bom passeio e bom apetite! João Santos https://discoverportugal2day.com/castelo-de-vide/

Quase no final do “Caminho da Raia”, inserido nos Caminhos de Santiago, sentido Marvão – Castelo de Vide (N246-1), penetramos no concelho até à sua encantadora sede, que nos faz recuar até à Idade Média. Onde podemos destacar alguns locais: A Sinagoga Medieval - inserida também num “Roteiro Judaico” para melhor se compreender a ocupação judaica em Castelo de Vide; o seu Castelo com origem no séc. XIII. Dois locais a não perder para quem visita Castelo de Vide. Existem também várias fontes de água: Fonte da Vila; Fonte do Montorinho; Fonte da Mealhada; Fonte de Pêro Boi; Fonte dos Besteiros e Fonte do Martinho. Estes são alguns exemplos de belas fontes a ser visitadas no concelho, inseridas também num Roteiro das Fontes. Na parte religiosa, Castelo de Vide têm em seu património, inúmeras Igrejas: Igreja de Santa Maria da Devesa, atual Matriz do séc. XIX, com início da sua construção no séc. XVIII; Igreja de São João, das mais antigas do concelho, do séc. XIV; Igreja de São Salvador do Mundo com origem no séc. XIII; Igreja de Nossa

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CADERNO TEMÁTICO

ROTEIRO - ALPALHÃO

Alpalhão Fim do Caminho Em Alpalhão, já no concelho de Nisa, a Caminho da Raia que se tinha separado do Caminho Nascente em Mértola encontra-se no de novo com este. Em Alpalhão chegamos pois ao fim deste percurso iniciado no Alandroal e depois de oito etapas e de quase 200 quilómetros percorridos, entramos nesta pequena vila com origens medievais, encontramos na Igreja do Espírito

Santo, também designada da Misericórdia, uma imagem do Apóstolo, que, como refere o Guia dos Caminhos de Santiago (p. 185) “(…) tudo indica ser a do “Santiago Peregrino do Manto” . Chegámos ao fim deste último percurso (de parte) do Caminho da Raia que nos propusemos percorrer. Esperamos que tenha sido do vosso agrado.

INQUÉRITO SOBRE O CAMINHO DA RAIA

Foto UpStream

No âmbito da atividade científica do ISEC Lisboa, bem como no desenvolvimento de atividades de investigação orientada nesta instituição, em parceria com o CEDA e o CHAM, estamos a desenvolver pesquisa sobre o

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impacto dos Caminhos de Santiago no contexto empresarial conexo à atividade turística da região Alentejo/Ribatejo. Tendo em conta a dificuldade na atividade de recolha informativa, nomeadamente daquela que

concerne a impossibilidade de se proceder, no contexto pandémico, a levantamentos com base em trabalho de campo, numa primeira fase de pesquisa utilizamos um levantamento mediante inquérito, cuja apresentação de resultados será apresentada antes do final do primeiro semestre letivo do ano escolar 2020/21. Pese o nosso interesse em perceber o nível de informação que o tecido empresarial das áreas abrangidas pelos Caminhos de Santiago tem sobre este, com os constrangimentos originados pelo COVID- 19, decidimos restringir a nossa pesquisa àqueles que se inserem no Caminho da Raia, essencialmente nos concelhos de Alandroal, Arronches, Campo Maior, Castelo de Vide, Elvas, Marvão, Portalegre e Vila Viçosa. Ana Pereira Neto ISEC Lisboa, CHAM/UNL. Ana Barqueira ISEC Lisboa


ENTREVISTA PEDRO BEATO

CADERNO TEMÁTICO

PEDRO BEATO Coordenador dos Caminhos de Santiago Alentejo e Ribatejo Memória Alentejana - Quando o então Presidente da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo, António Ceia da Silva, concedeu uma entrevista à Memória Alentejana em 2019 e nos falou no projeto estruturante Caminhos de Santiago Alentejo e Ribatejo, ficámos tão curiosos e interessados que logo aí comunicamos que gostaríamos de dedicar uma edição da Revista aos Caminhos de Santiago. Na sua qualidade de Coordenador dos Caminhos de Santiago Alentejo e Ribatejo, pode explicar-nos como surgiu a ideia de criar Caminhos de Santiago que passam pelo Alentejo e pelo Ribatejo, e o que são exatamente esses Percursos?

“Os Caminhos de Santiago são uma experiência de reflexão” O Alentejo e o Ribatejo também já têm os seus Caminhos de Santiago. Uma iniciativa que partiu da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo e que tem como Coordenador Pedro Beato. A Memória Alentejana falou com o principal responsável dos Caminhos de Santiago que partem do Algarve e passam pelo Alentejo e pelo Ribatejo, que aferiu que está tudo preparado para que os peregrinos destes Caminhos encontrem toda a informação, conforto e segurança para fazer os percursos à sua maneira. Sozinhos ou em pequenos grupos. Com as mais diversas motivações, mas com um desejo único: chegar um dia a Santiago de Compostela como peregrino e cumprir um dos Caminhos mais notáveis e percorridos a nível mundial.

Pedro Beato - Tudo o que fazemos na Região de Turismo do Alentejo e Ribatejo tem princípio, meio e fim. Fazemos planos estratégicos e operacionais para dinamizar o produto turístico, e dentro destes planos os quais iniciámos em 2014 para várias temáticas -, um deles era o tour cultural e paisagístico, daí a identificação de várias possíveis temáticas para rotas e caminhos, por exemplo. Sendo assim, agregado ao valor da UNESCO, onde temos várias candidaturas (somos a Região com maior número de classificações), chegou-se à conclusão que os Caminhos de Santiago seriam uma excelente oportunidade de divulgar e promover aquilo que de melhor o Alentejo e Ribatejo têm para usufruir. Como foi isso feito? Com uma equipa especializada para o efeito, com os nossos autarcas e os nossos técnicos. Fizemos uma inventariação muito significativa de todos os recursos culturais, tendo sido identificados em vários pontos a questão dos Caminhos de Santiago. Analisámos a matéria e conseguimos perceber que havia uma identificação, um histórico, um espólio daquilo que era uma passagem de peregrinação. Aliada a esta iniciativa, também a lista indicativa da UNESCO que, coincidentemente, na mesma altura foi entregue pela Direcção Geral do Património Cultural (DGPC). Esta lista indicativa da UNESCO refere os

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CADERNO TEMÁTICO Caminhos de Santiago pelo país todo, onde nós temos dois Caminhos. Quais são esses dois Caminhos? O Caminho Central e o Caminho Nascente. O Caminho Central começa em Santiago do Cacém, passa em Alcácer e vai ter a Santarém. O Caminho Nascente começa em Mértola, passa em Beja, Évora, Nisa, e depois segue para a Região do Centro. Foi aqui uma feliz coincidência e nós, naturalmente reconhecendo esta marca internacional, esta grande bandeira, identificámos que teríamos que indagar por este Caminho. No fundo estávamos a criar valor, porque os Caminhos de Santiago são reconhecidos no mundo inteiro e achamos que poderíamos ter aqui de facto um chamariz muito significativo, até porque tínhamos essas evidências, tínhamos essa realidade da peregrinação. Como é que iniciaram esse trabalho? Iniciámos da única forma possível, que é fazer bem: fomos a Santiago de Compostela, estivemos com o Governo da Galiza, demonstrámos a nossa intenção e queríamos à data ter as regras para fazermos bem, para cumprirmos a identificação da sinalética, mantendo - e isto é uma ressalva muito importante - o espírito Jacobeo, o espírito daquilo que no fundo é o Caminho de Santiago. E na prática que Caminho é? Não é só um caminho pedestre, é também um caminho espiritual, de experiência pessoal, com uma dimensão e uma perspetiva de olhar o território, uma forma diferente de olhar a cultura, de olhar as pessoas, de olhar a convivência de uma outra maneira. Nós pretendíamos manter esse espírito, e não apenas ter uma grande rota. O que queríamos - e fizemo-lo - foi manter este espírito Jacobeo, este espírito daquilo que as pessoas de todo o mundo que querem fazer os Caminhos a pé, de bicicleta, a cavalo, sintam que de facto estão nos Caminhos de Santiago. Foi nesta base que criámos este projeto e que o lançámos há cerca de um ano. INICIATIVA DA ERT DO ALENTEJO E RIBATEJO A ideia partiu do Turismo ou resultou de algum protocolo com outras entidades? Este projeto partiu da iniciativa da Entidade da Região de Turismo do Alentejo e Ribatejo, personalizado pelo seu antigo presidente António Ceia da Silva, com base em propostas feitas por mim próprio,

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ENTREVISTA PEDRO BEATO

enquanto coordenador do projeto. Na altura também era coordenador do Plano Estratégico do Tour Cultural e Paisagístico, de onde derivaram também outras rotas que hoje já estão em comercialização, como, por exemplo, a do Megalitismo, das Fortificações, da própria cultura avieira, entre outras. Na Região do Alentejo e Ribatejo nós fazemos acontecer, não temos dossiers para pôr na gaveta. E fazêmo-lo sempre numa estreita articulação com o território e com as entidades. E aqui vou ao encontro da sua questão em relação ao protocolo: o que fizemos depois de termos vindo de Santiago de Compostela foi contactar com duas associações de peregrinos, que no fundo também fazem parte da nossa equipa para questões específicas ligadas aos Caminhos. É muito relevante termos essas duas entidades - o Espaço Jacobeu e a Via Lusitana - a protocolar connosco. De referir que também a Federação Portuguesa do Caminho de Santiago e a rede de albergues - entidades que têm foco exclusivo no Caminho de Santiago - protocolaram connosco. E como é que essas entidades protocolaram com uma Região de Turismo? Porque nós respeitamos aquilo que é a essência, a matriz, a autenticidade, a identidade do Caminho de Santiago, e isso é reconhecido por outras entidades. Mas também a Galiza, que fez connosco um protocolo onde reconhece o nosso projeto como exemplar - porque cumpriu todos estes parâmetros -, acrescentou-lhe valor e fê-lo em tempo recorde. Conseguimos fazer o que nem todos acreditavam que conseguiríamos fazer, e mais ainda no curto espaço de tempo em que o fizemos, para acrescentarmos ainda mais valor a este espírito Jacobeo descrito pelo próprio caminho pois quem o faz e vai a Compostela sente exatamente aquilo que refiro. Que papel têm as dioceses da Região do Alentejo e Ribatejo? Têm um papel também relevante: fizemos protocolos com as dioceses da nossa Região, com Portalegre, Beja e a Arquidiocese de Évora. Essas parcerias passam pela questão da abertura das Igrejas em alguns pontos, com a identificação de pontos e ajustes de horários para a bênção do peregrino, algo que é muito relevante para quem esteja a fazer o Caminho e procure esta dimensão mais religiosa. Como as motivações dos peregrinos são variadas, na aproximação

que temos com a Galiza, fizemos ainda um protocolo com a designada Oficina do Peregrino, que é quem tutela a Igreja em Santiago e responsável pela Catedral de Santiago de Compostela. CREDENCIAIS DO PEREGRINO Está a referir-se às Credenciais do Peregrino... Sim, nós adquirimos as credenciais do Peregrino, que é o passaporte onde os peregrinos vão pondo os carimbos à passagem pelos diversos locais. Onde se podem adquirir as credenciais? As credenciais só estão disponíveis nas igrejas e não nos postos de turismo, o que representa bem esta diferenciação entre o turista e o peregrino: nesta postura há uma dimensão de fé e de religião, a pessoa tem de ir ao sítio próprio, que é a igreja. No nosso território existem vários pontos onde podem ser fornecidas essas credenciais com uma curiosidade: desta nossa parceria e presença junto de Santiago de Compostela, as credenciais que temos são as credenciais internacionais. As credenciais que são disponibilizadas em Compostela e que seguem por correio para todo o mundo têm os nossos caminhos no Alentejo, porque outrora não tinham. Nós fizemos essa proposta e a Oficina do Peregrino concordou. Uma mais-valia para toda a região do Alentejo... Cada vez que das milhares e milhares de credenciais saem de Compostela para o mundo o Alentejo lá vai agregado a cada uma dessas credenciais e isso também importa porque estamos a posicionar uma vez mais o nosso Alentejo com projetos diferentes e um foco muito acrescentador. Para ter acesso ao documento que valida tem de ter pelo menos 100 km a pé ou 200 km de bicicleta. Como estamos numa espécie de ano zero, temos peregrinos que fazem todo o percurso até Compostela, tal como em Espanha, mas também há pessoas que vão colecionando etapas de forma sequencial e vão carimbando as suas etapas na credencial até chegarem finalmente a Compostela. Neste momento, há muitas pessoas a optar por esta forma. Quando o peregrino chega a Santiago tem de ir à Oficina, que é uma entidade religiosa. Nos primeiros meses, antes da pandemia, tiveram uma adesão significativa?


Nós apresentámos este projeto em setembro do ano passado e lançá-mo-lo no dia 4 de setembro mês, em Santiago do Cacém, com todos os bispos e entidades ligadas ao Governo, como a então Secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, e ainda inúmeros presidentes de Câmara, além de outras entidades oficiais. Foi um lançamento com 250 pessoas na igreja matriz, com a presença do Conselho Jacobeo, que é a entidade operacional e o braço operacional do Governo da Galiza para gerir tudo o que tem a ver com os Caminhos de Santiago. Depois, naturalmente, meteu-se o Inverno e o grande momento de que estávamos todos à espera - pois tínhamos muitas entidades, como a Federação dos Caminhos de Santiago espanhol, os Amigos de Santiago (que também têm um protocolo connosco), a Federação Europeia...- tínhamos tudo preparado para Fevereiro/Março, pois com a Primavera o tempo começa geralmente a melhorar, e pronto, depois todos sabemos o que aconteceu nessa altura. No entanto, já tínhamos muitas viagens confirmadas, embora as pessoas não precisem de confirmar nada, mas víamos pelo fluxo de e-mails, pedidos de informação, etc, que dava para perceber o interesse e a adesão das pessoas. E isto até pelas visitas ao próprio site, o qual nessa altura já contava com milhares de visitas. Percebemos a tendência da procura e agora estamos reféns como todo o mundo está, até porque um número significativo dos nossos Caminhos têm um alcance no mercado externo, pois cerca de 80% deste mercado é internacional. Aproveitamos para fazer alguns ajustes pois há questões dos próprios Caminhos que estão sempre em execução porque estamos a falar em espaços abertos. É o ano zero, por assim dizer. Uma família que queira fazer um destes Caminhos o que tem de fazer? Pode ir ao site e descarregar o Guia, o qual tem cinco idiomas, tem um mapa, com as indicações de onde começa e onde acaba, quais os principais pontos de interesse. No site podem ainda ter acesso às nossas recomendações, e depois há etapas mais planas, outras com mais declives, umas longas outras menos, pode fazer o que entender e como entender. É conveniente comunicar a algumas entidades que pretendemos ou que estamos a fazer determinado Caminho?

CADERNO TEMÁTICO

Fotos Pedro Beato

ENTREVISTA PEDRO BEATO

É sempre recomendável fazer uma comunicação pelo menos às pessoas mais próximas, embora haja rede de telemóvel praticamente ao longo de todos os percursos. Estamos a falar de natureza, espaço aberto, por isso convém manter algum contacto, mas não há nenhum regulamento obrigatório. CAMINHOS CERTIFICADOS Os Caminhos estão certificados? Ao abrigo de um Decreto-Lei, somos a primeira - e até agora a única entidade que se candidatou à certificação dos Caminhos de Santiago. Entregamos recentemente na DGPC a nossa candidatura. Na nossa certificação também indicamos que a entidade gestora é a ERT do Alentejo e Ribatejo. Com essa certificação, o peregrino poderá partilhar com as respectivas entidades, para que as pessoas se possam sentir mais confortáveis e seguras. Há quem o faça sozinho, pois também é um Caminho de reflexão. Neste preciso momento sabem se haverá peregrinos a fazer estes Caminhos? Em todos os momentos há sempre alguém a fazer estes Caminhos. Curiosamente, em certas localidades os residentes até utilizam os Caminhos para as suas caminhadas, onde também usufruem da sinalética... com a vantagem que quem utiliza estes troços até fica mais receptivo a perceber e porventura ajudar os peregrinos. Há uma diferença entre estes peregrinos e os peregrinos de Fátima? Há uma grande diferença. O peregrino de Fátima é o peregrino dos dias 13, caminham pelo asfalto e geralmente em grupo. Os peregrinos dos Caminhos de Santiago caminham mais por caminhos de terra batida (cerca de 60% dos percursos

dos nossos caminhos), pelo meio da natureza, numa lógica individual ou em pequenos grupos. A perspetiva é diferente. E com a contemplação da paisagem, com tempo, ao contrário da peregrinação a Fátima. Só acrescentar que no nosso território também fomos a primeira entidade a por a sinalética dos Caminhos de Fátima, porque os Caminhos de Fátima são coincidentes com os Caminhos de Santiago no Ribatejo. Pusemos ambas as sinaléticas nos mesmos postes, por exemplo, privilegiando a segurança e a paisagem, a qual se desenrola ao longo do rio Tejo até Santarém. E há cada vez mais pessoas a optar por esta via mais segura. É em Santarém que divergem os Caminhos de santiago e de Fátima. Que motivações têm estes peregrinos? Os Caminhos de Santiago são uma experiência de reflexão. As motivações são religiosas, são de fé, são espirituais, são desportivas. Pode não se ser peregrino mas chega-se a Compostela peregrino, através do encontro com outros peregrinos, pois estar nos albergues, mesmo nos hotéis, percebe-se logo quem vai fazer o Caminho, há logo conversas em comum, depois combinam um almoço, trocam contactos, e é esse contexto que torna o Caminho especial porque as pessoas vão todas com a mesma motivação. Tivemos ainda o cuidado especial de ter o espírito Jacobeo, porque é este espírito que marca a diferença entre uma Rota e os Caminhos de Santiago. Para terminar, onde é que os interessados encontram rapidamente os Caminhos de Santiago na internet? Em https://www.visitalentejo.pt/pt/oalentejo/cultura/caminhos-de-santiago/. Entrevista por José Alex Gandum

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SIMBOLOGIA DOS CAMINHOS

Simbologia dos Caminhos de Santiago São inúmeros os Caminhos de Santiago. Partem de determinados locais e terminam em Santiago de Compostela. De há um ano e pouco para cá, há mais dois Caminhos: o do Alentejo Central e o do Alentejo Nascente. Mas o que são e como nasceram os Caminhos de Santiago? Tudo começou quando, no século IX, os restos mortais de São Tiago - um dos 12 apóstolos de Jesus Cristo - foram encontrados em Compostela. A partir daí a cidade tornou-se um dos centros mais importantes da devoção Católica. Recorde-se que na Idade Média, a

Igreja absolvia dos pecados todos os que realizassem esta peregrinação, tendo sido ali erigida uma Catedral. São sete as rotas principais que conduzem a Santiago de Compostela, em percursos feitos a pé, de bicicleta ou a cavalo, em distâncias e pontos de partida escolhidos por cada peregrino, onde se privilegia o contacto com a Natureza. Todos os percursos são assinalados por símbolos com o intuito de auxiliar os peregrinos a perceber que se encontram no trilho correcto. Alguns desses símbolos são, inclusive, t ra n s p o r ta d o s p e l o s p ró p r i o s

peregrinos, para facilitar a sua identificação com as comunidades locais por onde passam. Dos principais símbolos, destaca-se a Concha de Vieira, que é o símbolo mais conhecido relacionado com Santiago de Compostela, à qual é atribuída vários significados. A Cruz de Santiago, as Setas Amarelas, o Cajado, a Cabaça, o Chapéu de Aba Dobrada, o Abraço ao Apóstolo, o Incensário, a Credencial ou as Pedras no Caminho são outros dos símbolos ligados aos Caminhos de Santiago. José Alex Gandum

Foto Rosário Pereira

Testemunho de uma Peregrina O Caminho de Santiago é uma alquimia do tempo com a alma. Um encontro com o nosso interior, a descoberta do autoconhecimento e o encontro de respostas mesmo sem as procurarmos. Quando saí para fazer o meu primeiro caminho, não tinha nenhum motivo, queria apenas fazer algo diferente para descansar e sentir a experiência do que era sair de mochila às costas com meia dúzia de coisas sem o conforto dito normal! A experiência foi mágica, única e descobri o verdadeiro espírito do que, para mim, é viver. Sobretudo descobri o que me faz mais feliz, as coisas simples da vida. Entretanto, voltei a fazer outros caminhos e os motivos que me levaram a percorrer tantos quilómetros na direção do Apóstolo Santiago de mochila às costas, é saber que vou encontrar respostas para as incertezas da vida. É saber que vou viver emoções e absorver histórias. É ter a necessidade de libertar lágrimas e sorrisos, é sentir a liberdade. Ser peregrino é ter um espírito audaz e aventureiro, é querer partilhar, é prescindir dos bens materiais, principalmente do conforto. O caminho é um mistério e cabe a cada peregrino desvendar o motivo porque o levou a percorrer aqueles quilómetros. É um ensinamento e faz acreditar que à chegada nos aguarda uma verdade que nos acompanhará para o resto da vida. O caminho tem uma energia exclusiva que nos marca para sempre. Rosário Pereira - Peregrina

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CAMINHO CENTRAL VIA TEJO

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O Caminho Central Via Tejo em imagens

Na manhã chuvosa do dia 5 de Outubro, três membros da direcção do CEDA – a Ana, o José Chaves e o Eduardo metiam-se ao caminho, partindo de Vila Franca de Xira, com o objectivo de percorrerem o Caminho de Santiago até Santarém, isto é, o Caminho Central Via Tejo, que nestas etapas coincide com o Caminho de Fátima. A chuva acabou por não se fazer sentir. Foi muito agradável, todavia, na última etapa - Vila Nova da

Rainha-Azambuja - o troço assinalado não estava transitável obrigando-nos a fazê-lo pela EN1 cerca de 10 km. Depois de uma pernoita num agradável Alojamento Local, na Azambuja, o segundo dia foi passado, após a Vala Real, a percorrer o Vale de Santarém, com o Tejo, quase sempre em fundo; terminando à tardinha do dia 6, com cerca de 65 quilómetros percorridos. Aqui fica o registo em imagens.

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CAMINHO CENTRAL VIA TEJO


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Fotos Ana Pereira Neto

CAMINHO CENTRAL VIA TEJO

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GRANDE ENTREVISTA

PADRE SEZINANDO ALBERTO

Foto Gentilmente cedida por Padre Sezinando

Memória Alentejana - Padre Sezinando Alberto, o senhor nasceu numa aldeia do concelho de Grândola - Azinheira dos Barros - numa altura em que a emigração portuguesa estava no auge. Como foi crescer numa pequena aldeia? Os seus pais estiveram sempre presentes? E a relação com os avós e outros familiares contribuíram para a pessoa que se viria a tornar?

“Não imagina o quanto eu tenho o Alentejo no coração” Alentejano de Azinheira de Barros, Grândola, recorda os tempos da meninice com as histórias dos mais velhos e os mergulhos no Sado, o Zeca Afonso a cantar no 1º de Maio (de 1974). Sentiu o apelo da fé aos 12 anos, entrou para o seminário aos 18, fez um percurso que o levou a cargos de maior importância na Igreja, como foi a reitoria do Cristo-Rei, que dirigiu durante mais de década e meia. Com uma grande capacidade de gestão, não só dos crentes, está actualmente empenhado em projectos de apoio aos membros mais indefesos da nossa sociedade. Herdou da mãe e da avô materna a caraterística de “não ser atado”. Profundamente ligado à terra-mãe, emociona-se quando sente o “cheiro” do (nosso) Alentejo, pois não pode viver se este (nosso) Alentejo sadino. Tem saudades de cantar alentejano, nos “Amigos do Alentejo”, do Feijó. Gosta de ser o pároco de Alcácer-do-Sal. Padre, cidadão empenhado e sensível, alentejanista convicto, amante da Pátria Alentejana. Falámos de Sezinando Luís Felicidade Alberto, com que ficamos à conversa.

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Padre Sezinando Alberto - Dou graças a Deus por ter nascido e crescido numa terra pequena, onde a proximidade com as pessoas era intensa. Aprendia-se com os mais velhos e recordo-me perfeitamente de passar muito tempo a ouvir histórias contadas por pessoas idosas, sobre factos e acontecimentos passados, histórias essas, que me fizeram perceber o sentido e o valor das coisas, a tomar gosto pela história da terra e a aprender a ser alentejano. Tenho saudades dos serões passados no verão sentado na rua com a vizinhança, que infelizmente, à exceção da minha mãe, já não está ninguém. Como foi saudável jogar às escondidas ou a brincar aos cowboys, bem como andar de bicicleta ou ir às escondidas da minha mãe, ao rio Sado dar um mergulho. Hoje, ao olhar para trás vejo que o tempo passa rápido, as pessoas da minha idade aquando eu era criança, já morreram quase todas, porém, ficaram as marcas e recordações positivas que muitas me deixaram. Quando vou ao cemitério, gosto de percorre-lo todo, pois aí eu percorro a minha infância através das memórias que me veem à cabeça ao estar junto das sepulturas de quem contribuiu para o meu crescimento. Rezo por todos com um sentimento de gratidão, na certeza que um dia


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Quando se deu o 25 de Abril de 1974 ainda não tinha quatro anos. Lembra-se de alguns pormenores (pessoais, familiares ou sociais) dessa altura? Tem alguma imagem registada, ainda que vaga, dos anos seguintes, quer no concelho, quer na região? Em termos pessoais recordo-me de uma prima minha dizer à minha mãe que o rádio não apanhava nada era só ruido. Depois que havia uma revolução em Lisboa, de ver a vizinhança a dizer que era uma guerra. Recordo-me ter ido com os meus pais e toda a população ouvir o Zeca Afonso à Serra da Penha, a Grândola, no dia 1 de maio, da multidão que isso levou, bem como os tratores e camionetas engalanadas com muita gente dentro a

movimentar bandeiras e a dizer: O povo unido jamais será vencido. Recordo-me perfeitamente do início da reforma agrária e a controvérsia que isso gerou na aldeia, una a favor, outros contras. Da presença da GNR e do medo que isso nos gerava e de nós crianças, sem saber o que aquilo significava, a dizer nas brincadeiras, o povo está com o MFA.

“NA MINHA TERRA (FELIZMENTE) EXISTEM ALGUMAS PESSOAS COM CURSOS SUPERIORES”

Na altura certa foi estudar para Grândola. Como se deslocava de Azinheira dos Barros para a Vila? Havia muitas crianças nessa altura? Era um dia inteiro fora de casa. Íamos de autocarro. Havia muitos montes entre a minha aldeia e Grândola, onde existiam muitos jovens como eu a frequentarem a escola. O autocarro ia por esse caminho. Atualmente, nada existe desse movimento. Até na minha aldeia a escola fechou. Certamente terá sido das poucas crianças que conseguiu prosseguir os estudos noutros locais, posteriormente em Beja ou Setúbal e mais tarde Lisboa. Com que idade nasceu a sua vocação para a religiosidade? A sua família estava ligada à Igreja? Na minha terra existem algumas pessoas com cursos superiores. Uma terra pequena, mas que felizmente tem dado de tudo, médicos, professores, engenheiros, juízes, advogados, etc. A vocação à vida sacerdotal é um processo que se vai desenrolando, digamos, um tempo em que Deus através de acontecimentos e pessoas, vai provocando sobre aquele que escolheu, sentimentos de inquietação interior, onde se colocam várias perguntas, e que depois se descobre que é necessário fazer uma experiência seria sobre a vocação.

Foto José Alex Gandum

também chegará a minha hora. A minha ligação à minha terra é tão grande, que será lá, junto dos meus conterrâneos, que eu quero ser sepultado. Claro que os meus pais marcaram a minha vida. O meu pai já faleceu, dele guardo a memória da honestidade, da humildade, da descrição daquilo que fazia. Era um alentejano nato, onde a sua presença em casa era símbolo da autoridade e do respeito. Da minha mãe que felizmente ainda vive, aprendi a generosidade e o desapego das coisas, o valor de dar sem que se queira receber. A minha mãe esteve sempre muito presente na minha vida e quando ao longe a vejo caminhar, as lágrimas muitas vezes caem-me, pois, também ela já não é a Maria da minha infância, as limitações já são muitas, mas ainda me reconforta a sua alegria quando não se esquece de trazer as guloseimas que bem sabe que são do meu agrado. Só conheci avós, a paterna morreu tinha eu 8 anos. Uma pessoa que eu posso dizer que não sabia o que era a maldade. A minha avó materna viveu quase até aos 100 anos, vivia longe, em Montes Velhos, Concelho de Aljustrel, o contacto era apenas algumas vezes no ano, porém, tanto dela como da minha mãe, acho que aprendi, como se diz no Alentejo, a não ser atado.

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Entra-se no seminário, um período muito rico de crescimento humano, espiritual e intelectual. Na caminhada de seminário vemos com certeza aquilo que Deus quer de nós. Comigo foi assim, aos 12 anos senti que queria ser padre. Tive este sentimento em 1982, quando uma equipa de missionários veio passar 15 dias à minha terra. Só entrei aos 18. Sobre isto, daria quase um livro. Tive 11 anos na formação. Passei por Beja, Braga, Setúbal e Lisboa. Foi um tempo muito rico, onde fui muito feliz. Recordo esses tempos com saudade dos meus formadores. Ao contrário de muitos colegas, onde a família é muito religiosa, tendo uma influência para a tomada de decisão, comigo não foi assim. A minha família não pratica a fé, à exceção da minha mãe que iniciou o seu percurso espiritual com a minha entrada no Seminário de Beja. Apesar de ser uma família não praticante, sempre apoiou a minha decisão.

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CADERNO TEMÁTICO “O MAIOR DESAFIO (ENQUANTO PADRE) FOI A MINHA NOMEAÇÃO PARA REITOR DO SANTUÁRIO DE CRISTO REI” Qual foi o seu maior desafio desde que foi ordenado Padre? Como surgiu o cargo de Reitor do Santuário do Cristo Rei? A vida de padre é feita de desafios como deve calcular, mas sem dúvida o grande desafio até ao presente, foi a minha nomeação para reitor do Santuário de Cristo Rei, que nem sei como surgiu, nada fiz para tal. Tive três anos como pároco da Quita do Conde e em pouco tempo desenvolvi algum trabalho em termos de alguns melhoramentos na paróquia. Um dia no caminho para Fátima, o então bispo de Setúbal, D. Gilberto Reis, perguntou-me se estava disponível para sair da paróquia, quando lhe disse que sim, informou-me que ia para o Santuário para saldar uma divida de um milhão setecentos e vinte mil euros. Posso dizer que quando, saí, quase 17 anos depois, para além do investimento feito a divida ficou paga. Se ser reitor do Santuário foi um desafio, não é menor o ter tomado a decisão de sair de Almada e vir para o Alentejo. Estive em Borba 10 meses e agora estou em Alcácer do Sal, mesmo junto da minha terra. Deus saberá os porquês. Um dia entenderei. Onde exerceu funções eclesiásticas deixou a sua “marca” de rigor, organização e persistência, deixou obra da maior relevância. Um Padre também tem de ser (ou deve ser) um bom gestor? A função dum padre não é ser gestor, é ser pastor, saber estar e viver com o povo que lhe é confiado. Ser sinal de esperança, um arauto da paz. Anunciar Jesus, o seu amor pelos homens, dar a mão a quem está caído, ajudar a levantar, é a missão do padre, porém, existem paróquias e organismos eclesiais que têm pessoas e bens a seu cargo, logo aí, o padre tem que ser um gestor, um bom gestor, embora a lógica

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de gerir é pautada pela doutrina social da igreja. As pessoas estão em primeiro lugar. No Santuário de Cristo Rei, ninguém ganha o ordenado mínimo. Quando lemos a sua história de vida, sem ter acesso ao ano do seu nascimento e à sua fotografia, ficamos com a ideia que o Padre Sezinando Alberto será uma pessoa menos jovem, em função de toda a obra realizada, do tudo onde participação e desenvolveu. Afinal, é ainda relativamente jovem. Como conseguiu conciliar tantas e tão variadas atividades? Já fui jovem. Assumi o Santuário com 32 anos. Agora tenho 50. Sou assim, seminovo. Consegue-se conciliar tantas e tão variadas atividades, porque acima de tudo a obra é de Deus, não é minha, é Ele quem dá a graça para ter força e dinamismo. É algo estranho, saí do Santuário, não por ter esgotado as ideias ou projetos, saí porque achei que devido a um conjunto de sinais, era a altura. Neste momento estou envolvido num projeto da construção de um lar para mulheres idosas vítimas de violência doméstica a ser criado na minha terra. Fui convidado para o efeito pelo Ministério da Igualdade. É um projeto piloto, em janeiro lançaremos o concurso público. Também tenho em mãos outro lar que vou apresentar a candidatura para financiamento. Se tudo for aprovado, a Fundação que faço parte, vai criar perto de 40 postos de trabalho, para além da resposta social que vai dar. O Alentejo necessita. A sua passagem por várias paróquias e não só e a sua obra fixa-se essencialmente pelo distrito de Setúbal, mas ainda colaborou com outras Dioceses e outros Santuários, inclusive internacionais. Quer-nos falar um pouco do seu percurso eclesiástico e nomeadamente dos seus aspetos mais marcantes. Não gosto muito de falar de mim, nem naquilo que faço, mas Nosso Senhor deu-me oportunidades de poder fazer

parte de muitos projetos, entre eles destaco a Associação dos Reitores dos Santuários de Portugal, da qual ajudei a fundar e ainda sou presidente, A Obra Nacional da Pastoral do Turismo, o Instituto Internacional do coração de Cristo, com sede em Cáceres, Espanha e a Fundação Padre Américo com sede na minha terra. “QUANDO NÃO PODIA IR À TERRA, IA A VENDAS NOVAS COMER UMA BIFANA PARA SENTIR OS ARES DO ALENTEJO” O Alentejo está-lhe no sangue. Vê-se isso pela ligação que mantém com a sua terra-Natal, e não só. Depois de deixar o Santuário Nacional do Cristo-Rei foi o responsável pela Paróquia de Borba e presentemente é responsável pela Paróquia de Alcácer do Sal. Tal significa um regresso ao Alentejo Litoral, à nossa (sou natural da Funcheira) região. Mantém fortes ligações familiares ou emotivas à região sadina? Nem imagina o quanto eu tenho o Alentejo no coração. Nunca cortei as ligações à região. Logo que fui ordenado padre, passado pouco tempo, comprei um velho celeiro agrícola e adaptei-o a casa, onde quase todas as semanas lá ia. Semana em que não pudesse ir ao Alentejo, era uma semana muito longa. Quando não podia ir à terra, muitas vezes a meio da semana, ao final do dia, deslocava-me a Vendas Novas para comer uma bifana e regressava, Este era assim um modo de sentir os ares do Alentejo. Ainda hoje, quando passo à Marateca em sentido norte sul, sinto outro alento. Não sei explicar. Tenho uma forte ligação á terra, à agricultura, durante algum tempo, ainda brinquei um pouco com isso, mas claro, deixei, não é a minha vida, mesmo assim, gosto de todos os anos apanhar as azeitonas para ter azeite para gasto de casa. Uma maneira de também manter as


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Como alentejano atento, o que pensa do futuro do Alentejo, em especial tendo em conta o envelhecimento da população, a desertificação de algumas aldeias e até vilas, e o impacto das alterações climáticas num território que está a ser ameaçado pelas secas, pelas culturas intensivas e superintensivas, como o olival moderno, como o amendoal? Não sou um velho do restelo. Quero desenvolvimento e trabalho para o Alentejo e melhores dias para os meus irmãos alentejanos. É com isso que eu sonho. Durante anos queríamos Alqueva, agora temos Alqueva e dizemos mal do regadio. Não entro nessas polémicas, não tenho formação suficiente para tal. A Igreja foi uma das entidades mais atingidas pela pandemia que vivemos. Todavia, percebe-se uma tentativa de adaptação a esta realidade atípica por parte da hierarquia eclesiástica, encontrando alternativas para manter o contacto com os fiéis,

Foto Gentilmente cedida por Padre Sezinando

raízes alentejanas foi o facto de ter pertencido ao Grupo Coral Amigos do Alentejo do Feijó. Lá eu sentia o nosso Alentejo de uma forma muito intensa. Aqueles homens, a maneira como cantavam recordavam assim os valores associados à região. Tenho saudades do grupo. Só quem é alentejano da diáspora é que entende isto, aliás, acho que todos sofremos daquilo que eu chamo da nostalgia do regresso, isto é, pensa-se um dia regressar de vez, mas muitas vezes tal não acontece. Eu regressei, não sei se por muito ou pouco tempo, ou para sempre. Tenho tudo entregue nas mãos de Deus. Gosto muito de estar em Alcácer, é a minha região. Em Borba, gostei menos, pois é um Alentejo muito diferente daquele em que nasci e cresci, mas também foi uma experiência que me ajudou a crescer e a perceber a diversidade do Alentejo.

mas também no apoio aos mais desfavorecidos, apesar das muitas limitações, quer em termos físicos quer até em termos financeiros. N o s e u e n t e n d e r, c o m o conseguirá a Igreja ultrapassar este estado de coisas? O lugar da Igreja é estar junto do Povo, sentir os seus anseios e tentar responder às suas necessidades. Em tempo de pandemia queremos ser missionários da esperança. Perante as dificuldades surgidas pela pandemia, a Igreja confia em Deus e faz tudo para salvar vidas e sabe que à semelhança de outros dramas ocorridos na História, tudo vai ficar bem.

A Revista Memória Alentejana onde a sua entrevista vai sair tem como tema os Caminhos de Santiago que passam pelo Alentejo e Ribatejo. O que acha deste projeto da Entidade Regional de Turismo do Alentejo e Ribatejo – que o Centro de Estudos Documentais do Alentejo está a dar o contributo com a edição da Revista. Acha que este projeto e a sua realização póspandemia poderá contribuir para coesão social do Alentejo, com a fixação das pessoas nas suas comunidades de origem, com a criação de postos de trabalho?

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Foto Pedro Beato

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Por outro lado, pensa que poderá trazer contributos para o turismo de cariz religioso? Era bom que esta iniciativa contribuísse para tudo aquilo que diz, no entanto, à semelhança de tantos outros projetos, julgo que não passará por um programa de boas intenções. O tempo dirá e eu estarei aqui para com humidade reconhecer o fracasso destas minhas palavras. Oxalá que assim seja. “NA PANDEMIA SOMOS CHAMADOS A (RE) DESCOBRIR O VALOR DA VIDA HUMANA” Qual a importância de São Tiago e o que simboliza para um Homem como o senhor? Sou pároco de Alcácer do Sal, onde a Ordem Militar de Santiago teve a sua sede por quase 400 anos. É propósito

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meu criar num dos espaços que tenha, uma exposição permanente alusiva á presença desta ordem em Alcácer. São Tiago é uma figura atual, pois para além da sua ação para a manter unida a primitiva Comunidade Cristã de Jerusalém, teve sempre uma forte preocupação pelos mais vulneráveis dessa Comunidade. Deixou tudo para seguir Jesus ao ponto de dar a vida por Ele. Dar a Vida pelo próximo é assim um desafio sempre novo e atual. Neste ano atípico de 2020 temos vivido e estamos ainda a viver situações muito difíceis quer para as camadas sociais mais desfavorecidas, mas também para quem está profissionalmente está ligado ao comércio, à hotelaria, mas também às artes e ao espetáculo. Gostaria de nos

deixar uma mensagem de esperança, uma mensagem de futuro, para o Alentejo, para Portugal, para o mundo? Esta pandemia veio obrigar a sociedade a refletir sobre o modo como se estava a viver. Com a pandemia descobrimos o valor dos afetos, que somos seres de relação, que necessitamos uns dos outros para podermos viver e conviver em sociedade. Na pandemia também descobrimos o grande valor da liberdade que passa sem dúvida pela responsabilidade. Na pandemia somos chamados a (re) descobrir o valor da vida humana. Quando este flagelo passar, se não tivermos descoberto isto, então não aprendemos nada. Voltar a viver como se nada tivesse acontecido seria um erro que se pagaria caro. Estou certo que todos estamos a aprender e por isso, é com esperança que todos devemos olhar o futuro. O momento é muito difícil, sério, a todos os níveis, mas o caminho não será baixar os braços, será a resiliência para ultrapassar as dificuldades na certeza que melhores dias virão, aliás, é isto que de forma heroica, fazem muitas empresas. Como padre recordo: Cristo venceu o mundo, não tenhais medo. Entrevista por Eduardo M. Raposo (com José Alex Gandum)


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ENTREVISTA

JOSÉ VELOSO O Arquitecto da Liberdade e da Democracia O Arquitecto do Povo Memória Alentejana - Nasceu em Lagos, em 1930. Qual a primeira memória de Lagos da infância que tem? Fale-nos das suas vivência nos anos 30, 40 e 50 e quando se deu a grande mudança em Lagos, de cidade de então para a urbe turística de hoje.

A bordo do Hobby

“A actividade do arquitecto é indissociável da causa maior pela democracia” Marcamos encontro no café Oceano. Pedimos uma bica. Está sentado e fita-nos com o olhar bondoso, fraterno, sereno, com as suas suíças de velho lobo do mar, boné e blusa de marujo. Ficamos à conversa, ou melhor, ficamos a ouvi-lo – ainda que ele, como bom conversador gosta também de ouvir - no seu leve sotaque algarvio com nove décadas. Sentimo-nos transportados para outros tempos e latitudes e lutas com o decorrer das suas histórias deliciosas das aventuras marítimas – como quando atravessou o Atlântico à vela, das Caraíbas a Lagos, na pouca usada rota diagonal - nas lutas antifascistas. Palavra puxa palavra e acaba por vir à baila a actualidade, as aberrações arquitectónicas e outras e sentimos algum desencanto com algum défice democrático nos poderes pós Abril. Revemo-nos - como se de um irmão mais velho, mais experiente se tratasse - na sua sapiência e nos valores da identidade e da liberdade de que não abdica e saboreamos as inúmeras vivências pessoais, profissionais, humanas, humanistas, sempre na luta permanente pela liberdade, pela dignidade e pela cidadania. Falamos de José Veloso, o Arquitecto da Liberdade e da Democracia, o Arquitecto do Povo. Aqui a fica a síntese de muitas conversas.

Arquitecto José Veloso - A minha infância em Lagos nos anos 30, foi feliz e sem problemas na cidade imóvel no tempo e no espaço, onde nada acontecia, numa paz fictícia escondendo as realidades duma estratificação social e económica em aparente equilíbrio. O Algarve era então praticamente desconhecido do País, poucos privilegiados visitavam a Praia da Rocha, ou sabiam da qualidade dos frutos algarvios, do mar e da terra. Em 1941, a minha família, do nível social com acesso aos dispendiosos graus superiores do sistema de ensino que vigorava, mas inexistentes ou de deficiente qualidade no Algarve, mudou-se para Lisboa, só nas férias escolares indo a Lagos, que permanecia em sossegado bom viver, só abalado por pontuais e logo reprimidas lutas do operariado conserveiro ou marítimo. No final de 1950, o turismo descobriu o Algarve, as praias, o clima, o baixo custo de vida, os locais naturais ou habitados puros na sua genuína autenticidade e, principalmente, uma população indefesa perante a tormenta que se aproximava. Lagos foi poupada durante os primeiros anos, apenas alguns ingleses se fixaram na Praia da Luz. Mas o interesse pelo Algarve turístico era imparável e a imagem de progresso e riqueza tomou conta das autoridades locais e nacionais, que deixaram a cobiça especulativa conduzir o

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ENTREVISTA

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Barracas no Algarve

processo de ocupação do território e dominar a economia. Lagos tornou-se pasto de desenfreada descaracterização da qualidade urbana e ambiental que lhe dera fama. O TRANSPORTE DOS VOTOS DA CDE EM 69 E A SOLIDARIEDADE NO II CONGRESSO DA OPOSIÇÃO DEMOCRÁTICA DE AVEIRO, EM 73 A luta pela Liberdade e pela democracia terá começado aos 17 anos com o despertar de um percurso para a cidadania quando é interrogado pela PIDE por ter assinado uma petição ao ministro de Educação para autorização da criação da Associação de Estudantes na ESBAL. Segue-se a participação activa na candidatura do General Humberto Delgado, é candidato nas listas oposicionistas em 1969, participa no apoio às lutas dos trabalhadores, entre muitas outras acções até ao 25 de Abril, apesar das perseguições pela PIDE, da devassa da vida pessoal e profissional. Recorde-nos um momento mais marcante dessa luta que durou 28 anos Das minhas acções pela democracia em Portugal, destaco dois factos, que retiro do livro que editei Houve Fascismo em Portugal, testemunhos de um cidadão, (esgotado), por exemplares da lealdade, solidariedade e coragem de cidadãos com que lidei nessas ocasiões. Em 1969, tive que ir, por precaução sozinho, de automóvel a Lisboa para trazer para o Barlavento os votos com os

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nomes dos candidatos algarvios da Oposição Democrática CDE às eleições-farsa para a Assembleia Nacional. Iria recebe-los na tipografia às 10 horas e tinha combinado com um apoiante local da CDE em Odeceixe, que pelas 13 horas lhe entregaria no seu café os votos a distribuir na freguesia. Escapar à vigilância da PIDE fez que só saísse de Lisboa às 10 horas da noite. À uma hora da noite, em Odeceixe às escuras, lá estava ele no café à espera e não fez perguntas ou comentário sobre o atraso de 12 horas. Em 1973, em Aveiro, tive que ir, com a minha mulher Maria Luísa, companheira de sempre, ao hospital para tratar de ferida profunda na cabeça, efeito da carga policial sobre os participantes no III Congresso da Oposição Democrática, que iam ao cemitério em homenagem à memória do democrata aveirense Mário Sacramento. O enfermeiro que atendeu não perguntou nada e, após cuidadoso tratamento, disse que não havia nada a pagar. Pretendemos deixar um óbulo para a Misericórdia e aquele desconhecido não quis aceitar, dizendo apenas que para receber dinheiro teria que me identificar. “O SAAL FOI UM MEIO PARA POPULAÇÕES MARGINALIZADAS PRATICAREM O DIREITO DEMOCRÁTICO À HABITAÇÃO” Fale-nos da paixão, porventura central da sua vida: a arquitectura. Do projecto SAAL, do Bairro dos Índios da Meia Praia e nomeadamente dos

projectos realizados em sete concelhos alentejanos : Aljustrel, Castro Verde, Cuba, Mértola, Niza, Odemira e Ourique. A actividade de arquitecto é para mim uma causa indissociável da causa maior pela democracia. Desde o 25 Abril que dou a preferência ao trabalho para autarquias locais e cooperativas, em projectos de equipamento público e habitação. Destaco os projectos feitos para autarquias alentejanas na promoção da qualidade de vida das populações. Abracei o Serviço de Apoio Ambulatório Local SAAL, instituído em 1974 pelo II Governo Provisório. Considero que mais do que se destinar a acabar com o flagelo nacional dos bairros de barracas, o SAAL foi um meio para populações marginalizadas praticarem o direito democrático à habitação, trazido pela Revolução. O bairro da Associação de Moradores 25 de Abril, construído com o apoio técnico e financeiro do Estado no âmbito do SAAL é, exemplarmente, a prova viva disso. Um grupo social homogéneo marginalizado, de famílias de pescadores, alcunhados de «índios da Meia Praia» porque as barracas em que viviam tinham começado por ser palhotas de colmo, acreditou no SAAL e foi o primeiro a realiza-lo, em epopeia que continua a ser estudada por analistas e investigadores sociais e dar origem a filmes, teses e reportagens. A outra grande paixão é o mar: navegar foi para si uma necessidade vital. Quer falar-nos um pouco das suas viagens pelo Guadiana e da aventura do atravessamento do Atlântico pelo caminho mais longo, desde


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as Caraíbas via Açores até Lagos. Nascido em terra da borda d'água de tradições marinheiras, é natural gostar das coisas do mar, principalmente barcos veleiros. Sempre quis um barco de vela, em Lisboa fui duma equipa do Clube Naval de Lisboa e frequentei o Centro de Marinharia no Alfeite. Em Lagos, participei na criação do Clube de Vela de Lagos, onde fui dos Corpos Sociais, membro de Juris e tripulante em regatas. No objectivo da vela para todos, criei o famoso Troféu Shell, iniciei em Portugal a classe para crianças «Optimist», organizei Semanas da Vela, etc. Fiz regatas e cruzeiros com mulher e filhos, construimos o nosso veleiro “Belaluisa”. Subir o Guadiana no silêncio do barco à vela, parando para aprender com as gentes do rio, até à surpresa da chegada a Mértola, foi uma revelação, ficou um depósito de memórias. Aos 66 anos, um companheiro das andanças por cima de água ao sabor de ventos e marés, desafiou-me para trazer um veleiro da ilha de Santa Lúcia, no sul das Caraíbas, para Lagos. Aproximando-se a época dos tufões na rota que seria a mais aconselhável para nós, decidimos, com mais um tripulante exigido pela seguradora, atravessar o Atlântico na pouco usada rota diagonal. Duas semanas de bolina solitária até aos Açores, vimos baleias e um só navio, ao longe. Uma semana até Lagos rematou viagem de encantamentos. “O FUTURO SUSTENTÁVEL DO ALGARVE PASSA POR UM PLANEAMENTO E ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO ENRAIZADO NO SABER E NA CULTURA E DIRIGIDO AO DESENVOLVIMENTO” Quanto a si, que alterações são decisivas para o desenvolvimento no Algarve, em que a coesão social seja um facto. Que sectores considera prioritários,

ENTREVISTA

A bordo do Sirius

A bordo do Belaluisa

especialmente neste contexto de pandemia, em que o sector turístico é quase hegemónico: maior diversidade nas áreas económicas, transportes públicas, habitação a preço controlado, intervenção da sociedade civil, outros... A política de destinar o Algarve à única condição de prestador de serviços na monocultura do turismo serventuário de poderosos interesses externos ao Pais, foi a sua condenação à sazonalidade dependente de factores aleatórios, ao encerramento das actividades produtivas e transformadoras e ao esmagamento

dos genuínos valores culturais e patrimoniais. Lagos chegou ao extremo, com demolições, mal disfarçado abandono e desinteresse e a promoção, como “ex-libris” da cidade, da mentira dum nunca existente mercado de escravos. O futuro sustentável do Algarve, tem que passar, sem alternativa, por um planeamento e ordenamento do território enraizado no saber e na cultura e dirigido ao desenvolvimento e não ao crescimento, na diversificação de actividades com destaque para a investigação e novas tecnologias, na recuperação racional dos recursos naturais, e na actualização dos meios

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ENTREVISTA

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de produção e dos transportes públicos, tudo na perspectiva da justiça social e criação de emprego com direitos. “ACEITEI TRAZER PARA A PRAÇA PÚBLICA O DEBATE SOBRE A ARQUITECTURA, CONTRIBUINDO PARA UMA MASSA CRÍTICA INFORMADA”

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CDE em Lagos em 1969

Fotos gentilmente cedidas por José Veloso

Que significado teve para si a recente participação como convidado no Mestrado Integrado em Arquitetura do ISMAT – Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes e a mais que justa homenagem que ali lhe fizeram em Dezembro de 2019, com a excelente exposição e a edição do livro catálogo? A iniciativa do Mestrado Integrado em Arquitectura MIA, do Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes ISMAT, de Portimão, promovendo nesta cidade uma Mostra (eu quis que se chamasse assim, sem a carga do prestígio de ser uma Exposição) de projectos dos gabinetes e ateliers que dirigi, tenho que dizer que me surpreendeu, por representar uma apreciação de que nunca pensei serem merecedores. Aceitei por duas razões. Uma, a de ter como princípio corresponder com o meu melhor, como cidadão e como profissional, naquilo para que seja chamado e corresponda às orientações que pretendi dar aos actos da minha vida. Outra, pela oportunidade de trazer para a praça pública o debate sobre a Arquitectura, no intuito do desenvolvimento na população de uma massa crítica informada, assim capacitada para a participação democrática nas decisões sobre o rumo a dar ao evoluir da sua cidade. Foi neste sentido que, no decorrer da Mostra, tiveram lugar dois debates abertos, sobre o Serviço de Apoio Ambulatório Local SAAL e sobre um polémico edifício que projectei em 1970, construído na Praia da Luz. Reconheço ainda que me foi muito

Em 27 de Abril de 1974

agradável a boa receptividade da Mostra e do livro. O arquitecto não abandonou a luta pela defesa de uma sociedade mais justa, seja a luta política, autárquica, partidária, mas também a defesa do património identitário da sua cidade, Lagos. Como vê a Democracia hoje, o exercício da cidadania e o futuro? O rumo sofrido pelo encantamento dos tempos esperançosos do 25 de

Abril, defraudando muitas das expectativas de uma justiça social alargada a toda a população portuguesa, não me fez perder a confiança nas virtualidades da aprendizagem constante que é a prática da democracia, enquanto fez ressaltar que o caminho a percorrer é longo e difícil e exige uma atenção e luta permanentes, de participar nas quais não me quero demitir. Entrevista por Eduardo M. Raposo


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ENTREVISTA

JOSÉ MANUEL CASTANHEIRA O alquimista cenógrafo da arquitectura do palco

“O teatro emana da própria vida” José Manuel Castanheira é um dos mais prestigiados cenógrafos portugueses a nível internacional. Jovem, chegou a Almada vindo de Castelo Branco, e começou aí a “dominar” o mundo circundante do seu quarto num décimo quarto andar, sobre o Tejo. Terá sido aí, desse lugar estratégico frente à cidade branca e ao lado do Mar da Pa l h a - o n d e o s v i a j a n t e s marítimos ao longo dos milénios aportaram - que começou a “viajar pelo universo”, criando uma poética da cenografia no teatro, que o levou à admiração e prestígio pelos seus pares.

Arquitecto, cenógrafo, pintor e autor, José Manuel Castanheira é Doutor em Cenografia e Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura de Lisboa, onde lecciona desde 1982. Distinguido internacionalmente com diversos prémios, nomeações e prestigiados cargos, tem dirigido seminários, estágios e formação em vários países europeus e latino-americanos, mas é em França, em Espanha e no Brasil que alcança maior destaque, tendo em Portugal assumido cargos de relevo no Teatro Nacional D. Maria II e na Fundação

Gulbenkian, entre outros. Autor de dez livros, dois em co-autoria, assinou mais de 300 cenografias para teatro, desde 1973, em 15 países tendo feito também cenografia para cinema, televisão, exposições e museus. Individualmente expôs cenografia e/ou pintura em várias galerias e museus, onde destacamos Bruxelas, Mérida, Madrid, Praga, Lisboa, Figueira da Foz, Coimbra, Fundão, Almada, Porto, Paris onde realizou uma retrospectiva no Centre Georges Pompidou, (1993), que marcou a sua ascensão internacional. Colabora regularmente com a Companhia de Teatro de Almada (CTA) desde 1986, para onde já realizou mais de 15 cenografias e assina há v á r i o s a n o s a s exc e l e n t e s exposições patentes durante o Festival de Almada. Recentemente distinguido pela S o c i e d a d e Po r t u g u e s a d e Autores, foi vencedor do “Melhor Tr a b a l h o C e n o g r á f i c o ” d o s Prémios Autor 2020, com a cenografia para “Reinar depois de morrer ”, de Luis Vélez de Guevara, com encenação de Ignacio Garcia, uma coprodução entre a CTA e a Compañía Nacional de Teatro Clásico, de Madrid, estreada em Almada, com digresssão ao Porto, no Teatro Nacional de S. João e re-estreia em Madrid com elenco espanhol. Ainda em Almada, na Oficina de Cultura, expôs “Sessenta e seis cartazes de José Manuel Castanheira” (2019) e “PANORAMAS IMAGINÁRIOS. ALMADA ou UM LUGAR À JANELA” de aguarelas (2020). É com José M. Castanheira que ficamos à conversa.

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ENTREVISTA

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Com Mila e Chico Buarque em 2007

Memória Alentejana - José Manuel Castanheira, nasceu em Castelo Branco, em 1952. Ainda jovem, acompanhou a sua família quando esta se radicou em Almada, no final dos anos sessenta. Pode-nos falar desse tempo da meninice: que imagens guarda da sua terra natal, dos primeiros contactos com Almada, como era então a nossa cidade e o que significou para si vir para Almada. José Manuel Castanheira - Em 1969 o meu pai veio trabalhar para Lisboa e a família escolheu viver na outra banda, primeiro na Caparica, depois Almada. Em 1974 casei e voltei a viver na Costa. É um tempo longínquo, onde tudo era novidade e tão diferente da Beira Baixa. Tempos que coincidem com a entrada nas Belas Artes, com a ida para o serviço militar e embarque forçado para a guerra (Moçambique); as descobertas como o xadrez, o cinema, o teatro, novos amigos, o GIT da Trafaria. Mas foi também nesse tempo agitado, diverso, luminoso, que conheci a minha mulher e com ela tanta gente maravilhosa que seria decisiva na minha vida, como Romeu Correia, Fernanda Lapa, José Gomes Ferreira, Bernardo Santareno, Lagoa Henriques, Mário Viegas,

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Rogério de Carvalho, Alberto Pimenta, ... Aterrar em Almada-Caparica com 19 anos foi talvez perceber que, ao contrário da pacata vida na Beira, o mundo era afinal uma paisagem aberta sem limites. “FAZIA TEATRO COMO SE TUDO FOSSE UMA INVENÇÃO DE ESPELHOS, ONDE O PÚBLICO (QUE NESSE TEMPO ERA ÁVIDO) ”NO ACTO DE PARTICIPAR SE PODIA OLHAR” Licenciado em Arquitectura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa e doutorado pela Faculdade de Arquitectura, considerado um especialista na área da Arquitectura dos Teatros e na Cenografia do Espectáculo, com inúmeras solicitações internacionais e uma obra caracterizada pela diversidade e interdisciplinariedade: Cenografia do Espectáculo, a A r q u i t e c t u r a Te a t r a l , a Cenografia de Exposições e a Pintura. Gostava que nos falasse do início do seu percurso artístico, nomeadamente a primeira cenografia em 1973, de

como era o teatro então, certamente diferente da actualidade. A primeira cenografia foi no GITT da Trafaria, “Os Pequenos Burgueses” de Gorki numa encenação da Fernanda Lapa. Havia em mim, talvez por ter vivido os primeiros 12 anos numa aldeia, Escalos de Cima, onde a minha mãe foi professora primária, e, assim, ter tido os primeiros amigos num mundo pobre, rural, uma espécie de consciência social. No teatro, desde o princípio, segui um percurso em que, primeiro intuitivamente, depois consciente, lhe conferi um papel imprescindível na vida de qualquer comunidade. E, o teatro que comecei a ver nesse final dos anos 60, no essencial, era isso mesmo. Sentia que estava a cavalgar uma onda de mudança, sem saber qual nem para onde, que ansiava mudar o mundo e que, através das várias criações, poderia passar uma brisa impregnada desse desejo, que contudo era abstracto. Fazia teatro como se tudo fosse uma invenção de espelhos, onde o público no acto de participar se podia olhar (e nesse tempo havia um público ávido). Queria agarrar os grandes textos da dramaturgia universal que mais incisivamente poderiam estimular esse exercício. Inventar espaços, cenografias, que envolvessem os espectadores para deixarem de ser passivos. E no íntimo acreditava que na percepção de cada obra lhes conseguiria segredar: “Olhem para a vida que levamos. Por favor revejam-se aqui ao espelho!” “ADQUIRIR A CONSCIÊNCIA DE COMO É DIFERENTE EM CADA LUGAR O MODO DE PENSAR O MUNDO PODE DAR UM OUTRO SENTIDO À VIDA E À ARTE” Desde então desenvolveu intensa e multifacetada actividade: A exposição retrospectiva da sua obra cenográfica no Centre Georges Pompidou, em 1993 –


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exibida de novo em 2015 no FITA - marcou a sua ascensão internacional, que se consolida com os convites para o júri mundial da Quadrienal de Cenografia e Arquitectura Teatral de Praga, em 2001, orientação do 3º WorKshop dos mestres da Cenografia em Barcelona. Dirigiu seminários, estágios e formações em Portugal e noutros dez países, e em 2017 integrou o júri de doutoramento em Estudos Te a t r a i s d a U n i v e r s i d a d e Sorbonne Nouvelle, Paris. Quernos falar um pouco do seu percurso, nomeadamente de alguns aspectos mais marcantes? Esta é a pergunta de resposta impossível. Podia falar de grandes montagens, de espectáculos inesquecíveis, de encontros m a r a v i l h o s o s . Ta m b é m d e reconhecimento, de prémios. Mas num longo percurso há tanta coisa marcante que é difícil enumerar só dois ou três. Tanto lugar, tanta gente. Talvez a viagem seja um factor decisivo. Tantos países, teatros, directores, escritores, actores, técnicos, colaboradores. Em cada novo lugar, um novo universo. Melhor que a viagem, dizer talvez, aprender a fazer a viagem. Nesta polifonia de lugares e culturas aprender como é complexo e diverso o modo de usar a vida, citando Georges Pérec. Como é diferente em cada lugar o modo de pensar o mundo. E adquirir a consciência disso pode dar um outro sentido à vida e à arte “OS AGENTES CULTURAIS FORAM COLONIZADOS PELA ECONOMIA” O Castanheira nasceu na Beira Baixa, região que tem muitas similitudes com o Alentejo, nomeadamente o Norte. Como vê o apoio ao desenvolvimento das artes cénicas e das artes em geral fora dos grandes centros metropolitanos? Considera que há diferenças?

ENTREVISTA

Com José Saramago em 2006

"Reinar Depois de Morrer" (2019)

A arte deveria ser um dos veículos para promover e intensificar a identidade da cada lugar, de cada cultura. A febre da globalização trouxe um turbilhão de novidades e seus agentes que remam em sentido contrário. A produção artística, um pouco por todo o lado, é substituída pela importação de produtos descontextualizados. Os agentes culturais foram colonizados pela economia. Na cultura, no teatro precisamos, com urgência, repensar profundamente o sentido e o propósito de produzir e/ou programar.

Colabora regularmente com a CTA desde 1986, ainda quando esta estava alojada na Academia Almadense. Acompanhou o percurso da CTA e tornou-se uma das referências fundamentais desta companhia e do Festival de Almada, um dos mais importantes a nível europeu. Almada começou em oitenta um percurso que a levaria a ser considerada a “Capital do Teatro”, com cerca de 40 grupos, mais de 30 activos. Estes grupos

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que então faziam parte do teatro amador, todavia hoje não participam na programação do Festival de Almada. Há vários “divisões” no Teatro almadense? Como vê esta situação? Habituei-me a admirar e respeitar a riqueza e a dinâmica cultural de Almada. Não esqueço que eu próprio comecei no GIT-Trafaria, grupo amador do concelho. O teatro amador em Portugal seguiu o abandono (declínio) das colectividades a partir do final dos anos 80. Um dos muitos problemas do nosso teatro pós 25 de Abril foi a ruptura do tecido teatral, que se mantém. A saúde da actividade teatral passa entre muitos factores pela coexistência activa e dinâmica de todas as formas teatrais: infantil, escolar, universitário, amador, comercial, repertório, experimental, musical, etc... Todos têm o seu lugar de máxima importância na textura cultural. Mas em Portugal há rupturas neste sistema. Quanto ao Festival de Almada, sim, é mesmo em cada ano um grande acontecimento para o teatro profissional, nacional e internacional, e participei em muitas edições com exposições e/ou espectáculos. “ENQUANTO EXISTIR A HUMANIDADE O TEATRO SOBREVIVERÁ” Esta pandemia tornou 2020 num ano atípico. Ainda que Almada tenha realizado o festival, as coisas não estão nada fáceis. Enquanto cenógrafo e criador, como tem lidado com esta situação e como vê o futuro das Artes e da Cultura em Portugal, ao nível nacional e ao nível local? Quer deixar uma mensagem de esperança para o futuro, nomeadamente para os homens e as mulheres do teatro? Repito o que disse outro dia numa conferência dos prémios Pritzker (para Olot-Barcelona): estamos numa suspensão da vida, paragem que

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"Os Pequenos Burgueses" (1972)

Exposição no Centro Pompidou em Paris (1993)

poderia ser uma grande, e inesperada, oportunidade para repensarmos a forma como a nossa civilização avança. Reflectir, discutir seriamente sobre o significado do desenvolvimento, sobre a vertigem desta corrida desenfreada. Deveria ser uma travagem, pausa, para pensar no papel das máquinas que inundam e ameaçam o nosso tempo e espaço. Grandes criadores contemporâneos fizeram isso mesmo, mas pouco ou quase nada lhes ligaram. Lembro-me por exemplo das obras primas (gritos?) de Stanley Kubrick ou de Akira Kurosawa. Sobre o teatro: O teatro emana da própria vida. Assim o teatro espelha, por vezes com incrível nitidez, o que está mal, o que está podre, na alma humana. A muita gente isto não interessa, pois colide com os seus interesses. Mas enquanto o homem for homem, enquanto existir a humanidade o teatro sobreviverá, simplesmente porque ele é uma necessidade primária. Tal como Tchekhov (aprendi com ele), quero acreditar num futuro melhor próximo ou mais longínquo. Mas só serei capaz desse exercício se puder continuar cada manhã a abrir a janela e a poder reflectir livremente sobre o quotidiano. Entrevista por Eduardo M. Raposo

Vai e Vem" de João César Monteiro (2002)

"As Troianas" (1996)

"Memorial do Convento" em São Paulo (2003)

Fotos gentilmente cedidas por José Manuel Castanheira

ENTREVISTA

"Tio Vânia" (1980)


AMOR E VINHO

IDENTIDADE

Amor e Vinho

Foto Ana Baião

Da Poesia Luso-Árabe à Nova Música Portuguesa (Séculos XI/XXI) lançado na Cuba

Foi lançado na Cuba, na Adega do Canena, no dia 7 de Novembro - no fim de semana que antecedeu o S. Martinho - o livro Amor e Vinho. Da Poesia Luso-Árabe à Nova Música Portuguesa (Séculos XI/XXI), de Eduardo M. Raposo. Com a presença de diversos e bons amigos do autor: o Mário João e a Fátima, vindos da Porto, a Ana Baião, fotojornalista do semanário Expresso, que esteve na Cuba a realizar um levantamento fotográfico sobre as tabernas e o Vinho de Talha, a Paula Santos, directora da Biblioteca Municipal José Saramago em Beja, que fez a apresentação da obra e a jornalista da Rádio Voz da Planície, Ana de Freitas. Da terra e das redondezas: José

Roque, presidente da MODA – Associação do Cante Alentejano, cantador e produtor de Vinho de Talha, Raúl Amaro, presidente da Junta de Freguesia de Vila Ruiva, Maria João Roque, presidente da Associação de Empresários da Região da Vidigueira, Francisca Bicho, presidente da Associação Cultural Fialho de Almeida, entre outros, os familiares de João Canena – o pai, a mãe, D. Virgínia e o irmão Gonçalo – assim como o irmão do autor - Carlos e a Elsa. Outros justificaram a ausência pelas mais diversas razões. Como escreve o Editor Fernando Mão de Ferro – Edições Colibri, na badana do livro: O presente livro, para além da preciosa

informação sobre a relevância poética árabe na Língua Portuguesa, ao longo da sua história, tem o aliciante de nos confrontar com a realidade de há muito conhecida mas que, nos nossos tempos, tende a ser esquecida e escamoteada – os portugueses são um povo resultante de diversos encontros étnicos ao longo de séculos de convivência entre si. • É destes encontros, por vezes pacíficos, por vezes de conflito, que somos descendentes, em maior ou menor grau. Esta constatação deveria ser argumento político e cultural contra os radicalismos que hoje proliferam e que tanto incitam à violência e à intolerância. • Mil anos de poesia em mais de 180 poemas, desde o século de Almutâmide,

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génese da nossa poesia lírica passando por D. Diniz, João Roiz de Castelo Branco, Bernardim Ribeiro, Gil Vicente, Camões, Bocage, Pessoa, chegando à Nova Música Portuguesa, onde se destaca Janita Salomé, Vitorino, Rui Veloso, Sérgio Godinho, Trovante, Luís Represas, Fausto, Brigada Victor Jara, J o r g e Pa l m a e J o ã o A f o n s o , «cantautores» e intérpretes, que cantam o amor e o vinho, o sol, o sul e o mar da nossa expansão. A Poesia assume assim o elo agregador da nação portuguesa como aconteceu em momentos decisivos da nossa história: no século XIX, com Luís de Camões, no Ultimatum, ou com José Afonso, no 25 de Abril de 1974, com «Grândola Vila Morena». “ESTE TEMPO E ESTE VAGAR DE SUBLINHAR O SIGNIFICA DO NOSSO PATRIMÓNIO: Maria Paula Santos, que numa intervenção de excelência apresentou a obra, começou por traçou o percurso do autor: (…) Uma das questões importantíssimas, para além de investigar e editar, prende-se com esta missão, e o Eduardo refere na introdução, que é de devolver a história, devolver a memória e a identidade às pessoas, este legado que lhes pertence por direito próprio.”

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AMOR E VINHO

Referiu o percurso das realizações ligadas ao Alentejo – CEDA e as revistas Memória Alentejana, Alma Alentejana, os livros e exposições sobre o Canto de Intervenção e as três biografias realizadas. O percurso do autor relacionado com a poesia Luso-Árabe e Almutâmide – espectáculos, um festival, roteiros, um guião para um filme – desde uma comunicação em 2008 na Universidade de Évora, destacando: “Este tempo e este vagar que o Eduardo imprime àquilo que faz. Esta missão de destacar e sublinhar e trazer à memória aquilo que pertence à nossa identidade, sublinhar o significado desse nosso património pessoal, social e cultural, missão que cabe aos historiadores; é isso que o Eduardo tem feito, mas com todo o tempo. E é muito curioso que quer o Amor quer o Vinho, exigem esse tempo e esse vagar (…) não é uma coisa imediata.” “A relação, que interessa muito ao Eduardo, entre a poesia e a música, resgatada ao longo dos tempos, surge neste livro. Mas quando estas duas linguagens se encontram, provoca naqueles que usufruem desse encontro um outro significado, uma outra dimensão. O Eduardo fala do sentido que a música ganha quando se encontra com a poesia e que este ganha quando se encontra com a música; esse encontro transforma a vida das pessoas que dá significado a uma época - exemplos: Canto de Intervenção, “PREC Cantar a Revolução no Alentejo”. E se cada um de nós tem uma música da nossa vida, juntar a poesia à música (…) é uma outra dinâmica, muito mais forte, muito mais transformadora, quer da realidade individual, quer social.” Esta história que o Eduardo nos conta do Amor e do Vinho, esta relação tão intensa da poesia e da música atravessa a História que nos define hoje e isso é muito importante. (…) porque, como ele próprio diz: “Cantar é um acto de celebrar a vida”

(…) Termino lendo um excerto na conclusão, que define muito aquilo que o Eduardo é na forma como nos passa esta missão de nos trazer à nossa memória e sublinhar na nossa memória esta nossa identidade: E assim termino, sentado, como um bom alentejano, à soleira da porta ao final do dia, bebendo um divino Vinho de Talha, dois mil anos depois da sua génese romana, entre Cuba e Vidigueira, porque como escrevi de início, numa soleira da porta, numa adega ou no universo, neste Sul mediterrânico, onde o Sol dá o tom certo da sensualidade dos corpos e o vinho produz a languidez da libertação dos sentidos, onde Amor e Vinho marcaram nos últimos mil anos a nossa poética. . O autor a presença dos amigos ou apoios e referiu que espera que esta obra possa ser um contributo para o êxito da candidatura do Vinho de Talha a Património da Humanidade. João Canena, em breves palavras, congratulou-se por acontecer um evento cultural deste género na sua Adega e mostrou-se disponível para continuar a apoiar a cultura. Seguiu-se um breve momento de poesia, Este livro teve patrocino da Direção Regional de Cultura do Alentejo, da Quinta da Pigarça -Vinho de Talha e da Junta das Freguesias de Charneca de Caparica e Sobreda. Na ocasião procedeu-se à abertura de duas talhas: branco e tinto. Eduardo M. Raposo

Foto Ana Baião

Capa de Raquel Ferreira sobre fotografia de João Canena

IDENTIDADE


CANTE E AS TABERNAS

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O Cante e o Vinho: revisitando espaços de convívio entre tradição e inovação Apresentamos a síntese de um trabalho de campo realizado em Fevereiro e Março em Pias, Serpa, Vila de Frades, na Cuba e Almada (Laranjeiro e Caparica), a sair em breve nas Actas do Congresso PHI 2020, do CHAM, FCSH/Universidade Nova de Lisboa. Logo que a pandemia o permita pretendemos continuar este trabalho para uma provável apresentação no II Congresso do Cante, previsto para Junho, em Beja.

Taberna do Manuel Rui com elementos do Grupo Coral Bafos de Baco - Cuba

Tradicionalmente, Cante e vinho aparecem associados, pois é nestes locais de convívio, as tabernas que ainda hoje existe Cante mais genuíno, cantado de improviso. A taberna constitui uma realidade sociológica, com a sua autenticidade, que promove o convívio e a convivência, onde um público relativamente jovem é um veículo privilegiado na difusão não formal do Cante. Ao vivenciarmos alguns desses momentos de encontro, fomos desafiados a conhecer melhor esses lugares. Assim, propusemo-nos a

realizar esta tarefa com o apoio de um inquérito, ainda que apenas indicativo, em locais representativos, apresentando registos com informação rigorosa, efectuado em oito estabelecimentos, num universo de 60 respondentes, em quatro concelhos do Alentejo e da Diáspora. Procuramos entender as características desses lugares, se foram restaurados de acordo com o projeto original ou sofreram adulteração? Quem são os frequentadores assíduos, quais as faixas etárias mais representativas, o predomínio ou não da presença

masculina, local de nascimento e residência? Em que medida cumprem o seu papel de lugares de convívio e exaltação dos sentidos? O diálogo estabelecido entre o Cante e o vinho, nestes locais tradicionais, a par do caminho de inovação empreendido para resgatar a auto-estima identitária, tem permitido um novo prestígio e estatuto social a estes locais de convívio. Eduardo M. Raposo CHAM, FCSH, Universidade NOVA de Lisboa

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IDENTIDADE

VINHO DE TALHA

Foto José Roque

O Vinho de Talha

Há algo de profundamente retemperador e libertador na paisagem alentejana, no espaço sem fim, na imensidão das planícies ondulantes, no céu amplo e de uma azul imaculado, na linha de horizonte infinito. A paisagem discorre suave por entre a vinha e os campos de cereais, pintada ora de um verde intenso no final do Inverno, ora cor de palha no final da Primavera, ora ocre no calor dos meses de Verão. Existe uma associação direta entre o Alentejo e o Vinho que se traduz na presença milenar da vinha por estas paragens. Os testemunhos do passado são evidentes nos indícios arqueológicos presentes um pouco por todo o Alentejo, evidências materiais da presença ininterrupta da cultura do vinho e da vinha na paisagem alentejana. Recomendo uma visita à Vila Romana de São Cucufate. Foram os romanos que generalizaram a cultura do vinho e da vinha no Alentejo. A influência romana foi tão decisiva para o desenvolvimento da viticultura

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alentejana que ainda hoje, mais de 2000 anos passados, as marcas da civilização continuam a estar patentes nas tarefas do dia a dia. Uma influência que pode ser observada através do uso de algumas ferramentas agrícolas, como o podão, mas sobretudo na técnica de fermentação em talhas de barro. Considerada em risco de extinção a produção do vinho de talha tem sabido resistir no Alentejo. A técnica herdada dos romanos caracteriza-se acima de tudo pela simplicidade de processos e, como tudo na vida, a beleza das coisas está na sua simplicidade. "O Alentejo tem sido o grande guardião dos vinhos de talha, tendo sabido preservar até aos dias de hoje este processo de vinificação desenvolvido pelos romanos. Ao longo dos tempos, a técnica de fazer vinho em talhas foi sendo passada de geração em geração, de forma quase imutável. A feitura de vinho por processos artesanais e utilizando métodos arcaicos de vinificação caracteriza-se por uma enorme simplicidade que

está ao alcance de quase todos saber fazê-lo, valendo-lhe por isso os nomes de "vinho caseiro", "vinho dos amigos" ou "o tareco". A utilização de grandes vasilhas de barro - potes ou talhas - garantem um processo de vinificação único, por o barro ser um material poroso e assim permitir uma microxigenação no interior da vasilha - que é previamente pezgada processo quase em desuso pela trabalheira que dá e escassez de pessoas conhecedoras da técnica, que consiste em besuntar a talha com pez, uma resina natural, de forma a evitar a oxigenação excessiva. O facto de não permitir a utilização de corretivos e por admitir variações locais de processos e de castas utilizadas (Antão Vaz, Roupeiro, Pe r r u m , M a n t e ú d o , L a r i ã o , Diagalves... em branco, Tinta Grossa, Trincadeira, Periquita... em tinta), garantem-lhe uma ligação de grande autenticidade ao "terroir". Seguindo os processos mais clássicos ou adotando alguma modernização (os romanos não tinham luz elétrica), o vinho de talha mantém-se como um produto singular, sublime representante da milenar cultura do vinho no Alentejo, dignamente honrado pelas suas principais catedrais: Vila de Frades e Vila Alva. É, por isso, reconhecido que este que é um património único que conserva e congrega elementos elementos culturais diferenciadores, numa região com características geográficas e demográficas singulares, a que se pretende associar uma estratégia de desenvolvimento sustentável, por via da conservação das suas condições de reprodução e pela promoção de atividade associadas que gerem dinâmica económica através do turismo cultural. José Roque


CANTE EM PARIS

IDENTIDADE

Cante em Paris

Foto Eduardo M. Raposo

O Congresso PHI e o Rancho dos Cantadores de Paris

Rancho dos Cantadores de Paris em actuação na Sorbonne

Em Outubro de 2019, no Congresso internacional PHI, vimos apresenta a comunicação de nossa autoria “Criatividade e Inovação no Cante do Estado Novo à actualidade”. Este congresso interdisciplinar é uma organização do CHAM – Centro de Humanidades, centro de investigação da FCSH da Universidade Nova de Lisboa, que tem como parceiros congéneres nacionais – como o CIAUD da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa ou o Instituto Camões da Língua e a Fundação Oriente. Como parceiros internacionais encontramos CREPAL– Universidade de Sorbonne Nouvelle e o CRIMIC – Sorbonne University. Neste congresso PHI – Proportion, Harmony and Identities - onde aconteceram conferências e comunicações de 110 investigadores de 15 países e alguns deles os maiores especialistas das temáticas em estudo – foi de uma responsabilidade acrescida vermos incluída no programa esta comunicação. Em seguida o Rancho de Cantadores

de Paris fez uma breve actuação ao átrio da Maison de la Recherche que emocionou a assistência composta pelos investigadores que em salas diferentes participavam no congresso e convergiram para ouvir o voz do Alentejo, ouvir o Cante com alma. No final ouviam-se exclamações: belo, lindo, magnifique e posteriormente investigadores felicitavam pelo momento dizendo até, talvez com algum exagero: “Foi o melhor do congresso”. Sem dúvida foi bonito, muito bonito e marcou o congresso.

Rancho dos Cantadores de Paris Disseminação internacional do Cante

No início da noite dirigimo-nos, eu e a Ana, para o pub irlandês, “The Quiet Man”, rue des Haudriettes, 5, perto do Pompidou, um espaço de referência para a música tradicional de várias partes de mundo: francesa, irlandesa, russa. Neste terça-feira, dia

8, era a noite do Cante. Quando descemos as escadas íngremes de apertado pub, com os habitués ao balcão, numa pequena sala uma dúzia de pessoas entoavam a “Grândola”. Estava dado o mote: foram momentos magníficos numa noite única, naquele ambiente descontraído, com pessoas vindas de várias partes do mundo – Madagáscar, Argélia, Guadalupe, Rússia, Itália, Brasil e franceses(as), claro, e um lusodescendente que nesse dia apareceu, mas não integra o grupo, o Mário, a mãe nasceu na Vidigueira. Sob a direcção do Carlos Balbino, natural de Cascais, jovem com apenas 31 anos mas já muito conhecedor do Cante e da musica portuguesa, que está a realizar um trabalho magnifico de disseminação do Cante adaptado à realidade parisiense, afinal a salvaguarda do Cante que deve ser adaptada a cada realidade. Este projecto iniciado em 2016 foi resultado de um grupo de pessoas que participaram num atelier que o Carlos – encenador, músico e

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IDENTIDADE

CANTE EM PARIS

Fotos Ana Baião

Do Rancho dos Cantadores de Paris recebemos o seguinte documento que temos o gosto de divulgar:

Rancho dos Cantadores de Paris - Serpa

Rancho dos Cantadores de Paris - Paris

animador cultural - dirigiu para realizar um espectáculo de teatro de sua autoria “Le dernier corrida”, de homenagem ao tauromaquia portuguesa e à Praça de Toiros de Cascais. Os participantes do Rancho de Cantadores de Paris são, para que conste: Carlos, Anna, Julia, Claire, Karim, Estela, Cécile, Romy, Rakoto, Mathieu, Caroline, Mélaine, Marie Odile e Pénépole. Já foram divulgados no documentário “Os

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Cantadores de Paris”, de Tiago Pereira. Um abraço fraterno para os(as) amigos(as) do Rancho de Cantadores de Paris. O Cante, máximo denominador comum da identidade alentejana, marca desta forma pungente presença em Paris e esteve no coração da capital francesa, numa das mais conceituadas universidades da Europa e do mundo. Eduardo M. Raposo

Caras amigas e caros amigos da Compagnie des Rêves Lucides, Para comemorar o sexto aniversário do Cante Alentejano como Património Cultural e Imaterial da Humanidade pela Unesco, o grupo internacional Rancho de Cantadores de Paris edita um álbum de introdução ao Cante Alentejano contemporâneo. Este CD conta com a participação de 16 artistas e grupos emblemáticos, demonstrando a pluralidade de uma tradição que vive tanto das referências do passado como do sincretismo cultural e artístico do presente. Introduzindo o Cante em França, os textos das 160 páginas do digibook foram redigidos em Português por Carlos Balbino, e traduzidos em Francês por Marie Odile Thiry-Duarte. As ilustrações e o desenho gráfico foram elaborados por Anna Turtsina, e as fotografias por Ana Baião. O álbum contém igualmente com os testemunhos dos coordenadores Mariana Cristina (Ceifeiras de Pias) e Filipe Pratas (Ganhões de Castro Verde). O prefácio é assinado pela Prof. Dra. Salwa El-Shawan Castelo-Branco. Estamos eternamente gratos à Câmara Municipal e à Casa do Cante de Serpa, à Direcção Regional da Cultura do Alentejo (Ministério da Cultura de Portugal), e ao Instituto Camões (Embaixada de Portugal em Paris). O disco é inteiramente produzido pela Compagnie des Rêves Lucides, associação francesa de interesse geral, e que faz igualmente a distribuição no estrangeiro. A distribuição portuguesa é assumida pela Compact Records.


FIGURAS

ENTREVISTA

FRANCISCO NAIA Eps “Amigo João”, “Canto Suão”, “Porque Teimas em Voar”; de concertos e divulgação dos meus trabalhos e canções por todo o país , Europa, Canadá, etc. São todos discos em vinil. Porém, com as novas tecnologias e a vinda dos CDs veio permitir que pudéssemos regravar os disco de vinil Assim fiz os “Cantos do Resistir” no intuito de trazer para a atualidade os dezasseis lindos temas destes quatro EPs citados, onde cantei o Alentejo no seu todo e encanto. Com esta (porra) da epidemia, suspendi concertos e a divulgação, apesar da venda deste CD ainda poder ser feita pessoalmente, a solicitação, pela internet pelas FNACs, ou através da Editora, a “Ovação”-

Canções do Resistir A propósito da saída ainda em 2019 do seu último trabalho discográfico calhou falar com este artista que para além disso é o Amigo sempre solidário.

Memória Alentejana - Ao gravares este CD Canções do Resistir revisitando o teu passado distante de início de carreira artística, que emoções te assaltaram? Francisco Naia - Naturalmente, depois de vir da guerra, surgiu uma contestação generalizada contra a guerra e contra o regime opressor. Daí, o meu reencontro com o José Afonso, meu professor de história em Aljustrel, Baixo Alentejo, no Externato D. Filipa de Vilhena, bem como com outros músicos e cantores, no mesmo âmbito. Nestas deambulações, surge o convite para gravação de um disco EP na editora RCA/TELETRA. O disco chamou-se “Barco Novo”, isto entre 1968 /69, seguido dos

Quais as influências que mais contribuíram para iniciares a partir dos anos 60 esta tua faceta de vida como artista, quer escritor, quer cantor? As influências foram muito diversificadas nomeadamente pelo quotidiano, pelas pessoas que fui conhecendo: mineiros, trabalhadores rurais, operários ( vivi em Aljustrel, no Barreiro, vivo em Almada), meios académicos, personalidades influentes do contexto político-social, oposto e contestatário do regime vigente, nomeadamente antiguerra, pela democracia, pelos oprimidos, contra os monopólios e pela liberdade; contra a opressão, repressão, tortura e pela libertação dos presos políticos, etc. São várias as canções que apontam para a questão da guerra colonial. Era um grande tema e preocupação naquela época, não era?

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ENTREVISTA

Muito se contestou a guerra colonial através da poesia, das canções, dos poema cantados, com destaque para os poemas de Manuel Alegre cantados e musicados por Adriano Correia de Oliveira, e também com destaque para o José Afonso, Manuel Freire, Luís Cília e muitos outros. Eu próprio fiz várias canções, com destaque para temas como Barco Novo, Trovador de Pardais, Barquinha vai, vem etc. Havia momentos de contestação generalizada muito aberta. A Censura andava sempre vigilante naqueles tempos de opressão e ditadura. Tiveste problemas com ela? A censura era outro dos males que nos afligiam, muitas das nossas canções eram diretamente indiretas, mas mesmo assim, muitas ficavam proibidas de reproduzir na rádio. Eu tive discos censurados e poemas cortados, mas havia sempre quem passasse os discos na rádio e as nossas entrevistas eram muito abertas e

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FIGURAS

objetivas, bem como as entrevistas na imprensa. O programa de televisão Zip-Zip fez com que o país te ficasse a conhecer. Foi um momento em que houve magia, não foi? Foi o máximo, o Zip- zip. Participei numa das sua edições no Teatro Villaret. Cantei o Barco Novo, acompanhado pelo Fernando Alvim. Apresentei 10 temas para escolha. A censura só não cortou três canções. Numa delas, exatamente o Barco Novo, cortaram uma estrofe, que dizia “ Barco Novo traz heróis recolhidos nos porões/ a vida fechou-lhes as portas sob o chumbo dos caixões”... Mas eu cantei a estrofe, sem medo, e fui muito aplaudido pelo público em pé. Foi um grande momento que nunca esquecerei. Depois do teu regresso de Angola e da guerra, acabas por fazer parte do grande movimento de cantores que pelas colectividades, bairros, vilas e aldeias, cantavam

os novos sons da esperança contra a ditadura ( osé Afonso e todos os outros...). Como essa experiência de vida mais te marcou? Vim da guerra. Regressei à Faculdade de Letras para terminar a licenciatura, que não tinha concluído, devido à mobilização para a tropa. A partir desse momento e desde 1968, continuei a cantar e a fazer concertos por todo o lado na companhia de cantores e músicos diversos: nas escolas, universidades, coletividades, associações de estudantes, bairros, montes, adros de igrejas e cemitérios, cine clubes e grupos desportivos, museus, bibliotecas etc. Muitas vezes tínhamos que dar a volta à policia e à GNR cheios de “miúfa”, mas valentes: José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, José Jorge Letria, Vieira da Silva, António Bernardino, António Portugal, Rui Pato, A. P. Braga, Carlos Alberto Moniz, Teresa Paula Brito, Mário Piçarra, Grupo Intróito, Francisco Fanhais, José Fanha, Mário Viegas, Júlio Pereira etc, etc, etc. E ainda havia os Cantores e músicos emigrados, com destaque para Luís Cìlia, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Tino Flores, Luísa Bastos e outros mais... E agora? Partilha um pouco os teus projectos artísticos actuais e futuros. Neste momento com covid à porta, resta-nos avançar com projetos adiados ou pensar novos projetos, perspetivando um futuro próximo, que certamente será diferente, não esquecendo também a memória da história que a Revolução de Abril escreveu para memória futura. a) Relativamente ao presente, estou a ultimar um novo CD, 12 temas, que designei por : AI ALENTEJO, não deixes de me encantar” b) Preparo um livro, com o Maestro José Carita, na escrita musical, designado por: “Francisco Naia Poemas, Músicas e Canções. (poemas e partituras)” c) Escrevo, componho, canto e dou aulas na Universidade Sénior de Almada Entrevista por António Ramos


TALHA E VITUALHA

CRÓNICAS

Restaurante Três Bicas

Foto Ana Pereira Neto

Viana do Alentejo

Em plena época de abertura de talhas após um evento que nos levou à Cuba passámos, no regresso a casa, por Viana do Alentejo. Em começos de novembro chovia copiosamente e procurámos refúgio acalentador num espaço que nos foi anteriormente recomendado por quem já o conhecia. Entrámos no restaurante Três Bicas, que fica junto ao fontanário homónimo, perto de uma das entradas da vila. Espaço pequeno, com uma pequena esplanada coberta, com interior que apresenta duas áreas de serviço distintas: uma com barra para serviço de bar, facilmente adequado ao serviço de take-away, e a outra com uma sala iluminada por luz natural com toalhas de pano, harmoniosamente enquadradas na decoração interior.

A carta apresenta-se ao cliente com uma oferta gastronómica à base de carne de porco preto, bem caraterístico da região. O bacalhau também surge nesta apresentação ao cliente, com uma designação que sugere o afeiçoamento ao gosto dos alentejanos de Viana. Escolhemos grelhada de secretos de porco preto com migas de azeitona, acompanhada com abacaxi grelhado. Uma dose chegou perfeitamente para satisfazer o apetite de duas pessoas e, pese na carta de vinhos não estarem contemplados os de talha, uma vez que estamos perto da triangulação vitivinícola de vinhos de talha, foi acompanhada por vinho de Borba. A particularidade deste espaço reside no ambiente calmo, familiar e acolhedor que, de facto, acolhe de

imediato a quem por ele entra. É muito bom estarmos a falar com quem nos acompanha na refeição sem ouvir as conversas de outros e, sem quem nos oiça. A carta e os sabores surpreendem por alguns rasgos de originalidade, tal como o abacaxi grelhado nos secretos de porco. Tradição à mesa com alguma criatividade é algo que nos agrada quando fugimos às vulgares apresentações com arroz e batata frita. Nas sobremesas, não detetámos muita originalidade, nomeadamente em possíveis especialidades locais. Quando voltarmos a Viana, sabemos já onde nos podemos dirigir se quisermos almoçar ou jantar. Ana Pereira Neto ISEC Lisboa, CHAM- UNL

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CRÓNICAS

CASAS COM ALMA

A propósito da Rota dos Caminhos de Santiago Alentejo-Ribatejo, na impossibilidade de experienciar com demais membros do CEDA o Caminho da Raia, devido ao constrangimento pandémico fui, no mês de outubro, com dois companheiros desta Associação, fazer o Caminho Central do Tejo. Iniciámos o nosso caminho em Vila Franca de Xira e terminámo-lo em Santarém. Atravessar o vale que tem o nome desta cidade, foi uma experiência inolvidável, pela beleza de tudo o que os nossos sentidos puderam experienciar. O natural e o cultural que a paisagem nos ofertava era um misto emocional que nos marca a memória e nos faz querer continuar. Nesta pequena crónica não irei determe somente na apreciação e descrição de um imóvel, mas antes na apreciação do espírito dos lugares, com cunho rural e urbano que me marcaram ao longo do percurso A nossa paragem na Vila da Azambuja era um objetivo muito ambicionado uma vez que, não tendo por hábito andar muito, nos sentíamos já um pouco cansados, e, chegados lá fomos de imediato para o local que escolhemos para nos alojarmos, a Casa da Rainha. Neste imóvel, situado na Rua da Rainha, bem no centro da vila, sentese o respeito que a proprietária tem pela memória do lugar. Apesar de estar todo remodelado segundo os princípios normativos para o Alojamento Local, mantêm-se as características únicas de um espaço interior que teve parte da sua existência funcional marcada pela ausência da eletricidade. A luz natural que entra pela janela do corredor que dá acesso às unidades de alojamento, torna-o particularmente interessante do ponto de vista estético, como pode ser denotado na foto que apresentamos.

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As portas altas, de madeira, mantêmse originais, salvo o pormenor da fechadura; ainda são encimadas pelas aberturas de vidro por onde a luz podia passar. Para conforto dos hóspedes, estas aberturas foram tapadas, de forma simples, respeitando a autenticidade do espaço onde a madeira impera. Falando da madeira, tivemos nesse espaço a possibilidade de sentir um chão de tábua corrida, muito provavelmente original; envelhecido com o garbo dos anos. Embora curta, a nossa presença no espaço foi marcada pelo merecido ambiente de repouso. Convém, contudo, dizer que a experiência no exterior do alojamento podia ter corrido bastante mal, não fosse o carinho com que o dono da Pastelaria Favorita nos brindou com a confeção de bitoques, quase na hora do fecho do seu estabelecimento. A nossa chegada, num fim de tarde, ocorreu num domingo, dia em que não há restaurantes abertos na vila. E, como no dia seguinte era o feriado do 5 de outubro, todos os cafés e pastelarias estariam fechados, tivemos de ir abastecer-nos de material para a nossa segunda etapa de caminhada, a um supermercado que estava quase a fechar. Ao longo de todo o nosso caminho fomos observando a nobreza do aglomerado das casas rurais que o tempo envelheceu. Algumas destas casas mantinham somente em bom estado a parte habitacional; o restante conjunto estava em ruína ou semiruína. Contudo havia exceções, nomeadamente quando em algumas, situadas bem junto ao Caminho, havia indicação de Turismo Rural ou de Alojamento Local. A criação de produtos turísticos que permitam o conhecimento através das experiências que possam beneficiar esses locais e os visitantes, são de facto uma mais valia para potenciar

Foto Ana Pereira Neto

Pelo Vale de Santarém

Casa da Rainha

uma volta a estes espaços que, pese a calma subjacente ao espírito que move o peregrino, podem ser apreciados a um outro ritmo numa outra oportunidade, em que este possa deter-se por mais tempo com o objetivo de conhecer cada um dos locais por onde passou. A paisagem descansa a alma, mas o corpo precisa de alentos que requerem outro ritmo e tempo para seu desfrute. No Caminho, pese a calma, há objetivos de metas diárias e o tempo não permite apreciações demoradas para tudo o que envolve produtos do sistema turístico. Contudo, o desejo da revisitação fica alimentado por toda a perceção assimilada nos percursos. A presença do cavalo lusitano, que imaginámos ver assim que ouvimos o som que nos estimulou os sentidos ao passarmos por uma das quintas que ficava bem perto do caminho que íamos percorrendo, é algo que tomámos registo para uma possível reserva num futuro próximo. Em tempos de pandemia vive-se e sonha-se; eu alimento o meu de andar a cavalo na lezíria e de descansar o corpo numa dessas casas onde se vive ainda a ruralidade tão característica dos meus tempos de meninice, bem a sul, no Algarve. Ana Pereira Neto ISEC Lisboa, CHAM- UNL


FELICIANO DE MIRA

POESIA VIRTUAL

Feliciano de Mira, Arraiolos (1957) é artista multimédia, progenitor de poéticas de outra tradição, através de escritas experimentais em várias linguagens e suportes. Realizou intervenções públicas de todo o tipo e algumas exposições individuais. Entre as exposições colectivas onde participou, destaca a Experimentus-Linha Clara (Igreja de S.Vicente, Évora, 2019) e Quando chego à minha terra não há que haver arreceio (Galeria Solar Ferrão, Salvador, 2016). Tem intervenções performativas, musicais, de ensino e investigação académica, nomeadamente sobre o Cante.

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PATRIMÓNIO NATURAL

ENTREVISTA

GONÇALO RIBEIRO TELLES

Foto José Alex Gandum

José Alex Gandum - Professor, tem dito que em face do mundo actual toda uma filosofia sobre áreas protegidas - muitas das quais tiveram a sua assinatura - e sobre a conservação da natureza está ultrapassada. Porque razão tem essa ideia? Gonçalo Ribeiro Telles - Porque o mundo rural está a acabar. Não se pode inventar todas as potencialidades e funções do mundo rural através de uma nova visão de conservação da natureza. É preciso encarar o problema de frente e não é com o desenvolvimento das áreas protegidas e com novos estudos que se chega a alguma conclusão.

“Um mundo urbano utópico destruiu o mundo rural” Gonçalo Ribeiro Telles desapareceu há poucos dias, aos 98 anos de idade, mas deixou uma obra muito extensa na área da arquitectura paisagista, e não só, o que podia não ter acontecido se não tivesse Ribeiro Telles um tio-avô que morava num 5º andar na Rua das Pretas, em Lisboa, de onde desde muito cedo uma visão sobre grande parte da capital despertou no futuro arquitecto paisagista um espírito arquitectónico, paisagístico e crítico. Viria a ser também político, passando por diversos Governos e estando na génese de inúmeras medidas ambientais, ainda hoje vigentes. Tido como um visionário, Ribeiro Telles lamentava-se, contudo, em muitas das conferências e das entrevistas que dava, que os poderes instituídos não o deixavam fazer tudo aquilo que ele pretendia fazer. Ainda assim, fez muito, não só na capital (onde os Jardins da Fundação calouste Gulbenkian se destacam), estando também esteve na génese de muitas áreas protegidas, áreas que ele viria a criticar nesta entrevista inédita feita nos finais de 2010 e que nunca tinha sido publicada. Muito ligado a Coruche, Gonçalo Ribeiro Telles deixou obra arquitectónica nesta vila ribatejana, fronteiriça com o Alentejo, expresso em grande parte no livro editado em 2005, "Coruche na Obra do Arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles"

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Mas as áreas protegidas não são importantes? As áreas protegidas têm importância e c o n t i n u a r ã o a t e r, m a s c o m o laboratórios, referências, modelos, pedagogia... e isso interessa a quem? Interessa principalmente aos que não são do mundo rural. As áreas protegidas foram feitas para desenvolvimento científico como laboratório e para dar a conhecer àqueles que não são do mundo rural qualquer coisa que possa justificar esse mundo. Ah, e para criar bons empregos desnecessários a pessoas que fazem parte da elite governativa. Mas o que se verifica hoje - e que é gravíssimo é a queda drástica do mundo rural, o que vai arrastar todas as políticas relativas às áreas protegidas. E de quem é a culpa para a queda do mundo rural? O principal culpado é o fenómeno urbano, que afastou as populações das aldeias,condenando à morte as aldeias, e tornando este país num caos... foi também a reflorestação errada, que acabou por provocar... desflorestação. Aliás, a desflorestação foi o primeiro acto de despovoamento. A desflorestação é um fenómeno urbano, pois parte de decisões tomadas nas cidades, decisões que preferem criar um grande mercado


ENTREVISTA

internacional em detrimento dos mercados locais. E é assim que se mandam vir produtos de locais a milhares de quilómetros de distância, aumentando aquilo a que chama a pegada ecológica, quando esses produtos podiam ser produzidos localmente. E aponta alguma solução para os incêndios florestais em Portugal? Incêndios florestais? Portugal não tem incêndios florestais... Como assim, Professor? Se todos os anos ardem milhares de hectares de floresta... Ardem milhares de hectares de eucaliptais e aglomerados de pinheiro bravo. Isso não é floresta. A verdadeira floresta felizmente não arde ou arde pouco. Conhece grandes incêndios em florestas de castanheiros ou no montado? Pois, na verdade não. Mas mesmo os outros incêndios são muito prejudiciais para a biodiversidade, não? Claro. Nos tempos pré-históricos alguns incêndios tinham uma função útil, mas hoje em dia são completamente inúteis. Destroem os solos, dizimam milhões de animais e os seus habitats, e espalham muito CO2 que não faz falta nenhuma... além do mal que fazem às populações rurais, as quais só pensam em fugir para locais mais "seguros", leia-se vilas e cidades... e até para o estrangeiro. Mas não se pode fazer nada para conter esses tais incêndios? Desde que a pastorícia acabou e as aldeias começaram a ficar vazias ou quase só habitadas por velhos, ficou cada vez mais difícil evitar grandes incêndios nas manchas de eucalipto e pinheiro bravo. E a coisa é regular: os grandes incêndios de 2003 e 2005 vão repetir-se para o ano com certeza [nota da redacção: 2011], e depois vai voltar a haver outros grandes incêndios em 2017 ou 2018... é que a vegetação cresce e fica disponível para arder a cada sete, oito anos. E isto porque nesse intervalo os poderes políticos e económicos nada fizeram para o evitar ou mitigar. Sendo que os incêndios no futuro serão ainda mais catastróficos por causa do

PATRIMÓNIO NATURAL

aquecimento global, coisa que muita gente, até cientistas, ainda não acredita. Há nisto tudo um problema de ordem cultural? Exactamente, e isso ultrapassa até o problema económico. Esse problema de ordem cultural até destrói a esperança. O que vemos à volta é um caos distorcido. Há que recuperar uma dignificação do mundo rural para uma função essencial para a espécie humana, que é o contacto com a natureza, a produção de alimentos, fornecimento de água, etc.... enquanto é tempo. Então, como vai ser a cidade do século XXI? Na relação urbano-rural temos de rever desde a base a ideia se necessitamos ou não do mundo rural. O maior problema é a destruição do mundo rural pela frustração do desaparecimento específico de espécies, pela morte das aldeias, não há caminhos locais, fecham-se escolas e outros serviços públicos. É claro que as pessoas que conseguem sair das aldeias, saem, e vão para as vilas e para as cidades. Ficam os que não conseguem sair, normalmente os mais velhos... e depois ainda há a questão da agroquímica, que vai acabar com o resto da agricultura tradicional. Mas não se poderia transportar um pouco do mundo rural para as cidades? Hoje pensam-se as cidades em grandes edifícios, com muitos andares, com uma vacaria no 1º andar, com uma horta no telhado, com umas palmeiras nas empenas... utopia que só serve para desclassificar o mundo rural. Até porque o problema da biodiversidade está intimamente ligado com o mundo rural, não vale a pena fazermos charquinhos com rãs se não houver uma preservação e uma dignificação do mundo rural. Posso dar-lhe um exemplo aqui bem perto da falta de respeito do urbano intelectualóide pelo rural genuíno: o espaço que fica entre as dunas e a barreira das falésias da Costa da Caparica são os terrenos agrícolas mais produtivos da Europa, porque se conjugam ali uma série de factores propícios à agricultura, inclusive gente que sabe trabalhar a terra.

No entanto, aprova-se um Polis que quer encher aquele espaço de construções para bairros sociais, em forma de caixotes intervalados com pequenos metros quadrados de relva que ainda por cima consome água da companhia... Mas os bairros sociais também são necessários... Claro que são, mas não devem ser construídos em espaços agrícolas. Ainda há muito terreno com menores aptidões agrícolas que podem ser urbanizados. Qual é a relação de um mundo que está a desaparecer, de um mundo de que dependemos historicamente, até dos seus conhecimentos, e como vamos substituir quer no tempo quer espacialmente esse mundo? Tudo se resume ao problema do desaparecimento das aldeias. É a própria história da humanidade que é mutilada. E depois também há motivos dos quais ninguém fala e que também afastaram as novas gerações do campo. Por exemplo, nos foros do Ribatejo e do Alentejo cresceram herdades ou companhias que enriqueceram muita gente, pela qualidade dos solos e a aposta certa em certas culturas. Mas isso também trouxe o reverso da medalha: os filhos e netos desses proprietários puderam ir estudar para as cidades e para o estrangeiro e quase nenhum voltou à sua terra - uma excepção ou outra no que toca aos vinhos, mas pouco mais. Em resumo, muita coisa contribuiu para o desaparecimento do mundo rural: o não aproveitamento dos baldios, o fim da pastorícia, o alastramento da agroquímica com culturas cada vez mais intensivas em detrimento da agricultura tradicional adaptada aos solos e ao clima, os interesses da floresta industrial e da celulose, e em grande parte também por culpa dos que decidem estas coisas a partir de gabinetes nas grandes cidades sem nunca terem sujado as mãos na terra. O problema da sustentabilidade já não se põe com o mundo rural mas com um mundo urbano utópico.

Entrevista por José Alex Gandum (Outubro 2010)

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ACONTECENDO

DESTAQUE O Alentejo e a Luta Clandestina. António Gervásio um Militante Comunista

Luís Godinho Edições Colibri, Lisboa; 2019, 122 pp. Tomamos conhecimento deste trabalho ainda em 2019, antes do livro sair, no final do ano. Ficamos desde logo na expectativa até porque António Gervásio – recentemente desaparecido - foi uma das nossas fontes orais para a exposição “PREC – Cantar a Revolução no Alentejo”, de nossa autoria e que coordenámos para o município montemorense, que assinalou a passagem dos 35 anos desse breve mas intenso período histórico e que esteve patente na Biblioteca Municipal Almeida Faria, em Montemor-o-Novo. Temporadas passadas na região, no fim da primeira década deste século: estive em 2009 numa “residência literária” na galeria 90cre, do amigo pintor Manuel Casa Branca, para redigir a minha Tese de Doutoramento, que originou o livro editada muito recentemente, referido nesta edição, assim como em visitas assíduas noutras alturas. Tal permitiu o contacto próximo com figuras do concelho, como, entre outros, o então presidente da Câmara Municipal, Carlos Pinto de Sá, Custódio Gingão, antigo

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DESTAQUE

dirigente da Reforma Agrária e autarca. Ambos participaram com depoimentos na referida exposição, no colóquio em Montemor e o último inclusive participou num outro colóquio realizados no âmbito de itinerância, no Crato. Posteriormente, a realização de três edições da Jornadas Literárias “A Poesia da Terra em Monte Maior” que coordenámos e outros, sobretudo durante os executivos de Carlos Pinto de Sá - um autarca de excepção como o posterior trabalho em Évora veio reafirmar possibilitou criar e desenvolver laços de amizade com estas figuras e outras, mais aprofundados com o Mestre José Salgueiro – que perdurou até ao seus desaparecimento físico em 2019, com a colaboração nos seus livros e a realização de duas homenagens pelo CEDA e pela Memória Alentejana, respectivamente pelos seus 90º e 100º aniversário. Esta vivência na região permitiu medir o pulso deste que foi um bastião na luta oposicionista contra a ditadura e no pós 25 de Abril com aquela conquista concretizada, mas depois interrompida, a Reforma Agrária, de mudar a fisionomia dos campos do Sul, e tragicamente marcada pelo assassinato dos trabalhadores, António Casquinha e José Caravela, em 27 de Setembro de 1979, na devolução de terras pela GNR. Como é bom de ver, não podemos deixar de saudar mais um contributo para o registo da memória que tem marcado a História do Alentejo, ao longo dos séculos e neste caso no século XX, na luta pela dignidade alcançada com a Reforma Agrária – que mais do que as conquistas sociais alcançadas, e foram importantes - foi essa dignidade usurpada ao longo de muitas e muitas décadas, para nos cingirmos só ao século passado, dessa imensa multidão de “servos da gleba” dos tempos modernos. Claro que com o salazarismo teve a sua continuidade, talvez com mais repressão do que anteriormente. Todavia nos finais de 1910, acabara a República de ser implantada, eclode uma vaga grevista sobretudo aos distritos de Évora e Portalegre, mas posteriormente também se estende ao Ribatejo e ao Oeste, tendo como limites Alcobaça e Moura, mais ao Sul e em que

Montemor-o-Novo participa. Em Janeiro de 1912 assiste-se a um movimento grevista ímpar de trabalhadores rurais reagindo à falta de cumprimento pelos proprietários rurais dos acordos alcançados em meados de 1911, com cerca de 20 mil grevistas no concelho de Évora, que no distrito ultrapassa os 50 mil; com a participação de corticeiros, pedreiros e todas associações de classe, confrontos graves que provocaram a morte do operário rural Manuel Charneca de Machede e muitos feridos. Tal traduz-se em manifestações por quase todo o país e numa greve geral de solidariedade em Lisboa península de Setúbal, que depois de acordos vários e seu incumprimento pelo governo, Lisboa é entregue a um comandante militar, a Casa Sindical cercado e 700 activistas sindicais presos, alguns deles só libertados em 1918. Estes movimentos grevistas significam uma ruptura com a República mas são também o sinal inequívoco de capacidade organizativa do proletariado rural, sob a sindicalismo revolucionário, que vai possibilitar a posterior realização do I Congresso dos Trabalhadores Rurais, em Agosto de 1912, em Évora. É neste contexto, porventura mais repressivo, que nasce António Gervásio, em plena ditadura militar, em 25 de Fevereiro de 1927. Em 1945, com 18 anos torna-se militante do PCP, depois de participar em várias lutas em 1952 passa a funcionário na clandestinidade. Escapa três vezes a emboscadas da PIDE, devido a denúncias, a uma da GNR e posteriormente, com mais sete militantes comunistas, protagoniza a célebre fuga de Caxias, a 4 de Dezembro de 1961, no antigo carro blindado de Salazar, após 16 meses preso – trata-se de segunda prisão – com espancamentos, inclusive no tribunal, “estátua” e tortura do sono, greve de fome. A última prisão, a mais longa, de quase três anos, com 18 dias de tortura do sono – cerca de 400 horas – termina com a libertação de Peniche a 27 de Abril de 1974. Até 2004 assume cargos partidários – Comissão Política e Comité Central – é eleito deputado à Consituinte, duas vezes para a Assembleia da República e deputado municipal, assim como na defesa da Reforma Agrária. Posteriormente assume funções regionais no PCP.


DESTAQUE

Com uma escrita viva e cativante, Luís Godinho, jornalista e director do Diário do Alentejo, traça o percurso e o retrato da “personalidade fascinante do entrevistado”, num contributo que é de louvar, mas sabe a pouco, pois não apresenta uma investigação nos Arquivos da PIDE – ANTT – que certamente enriqueceria a obra. Baseia-se sobretudo nas entrevistas ao biografado e investigação em periódicos; mas outros depoimentos de quem privou com António Gervásio, para além do de Carlos Pinto de Sá, que assina o prefácio, poderiam ser um complemento de maior interesse, até porque um apoio tão diversificado – cinco câmaras municipais e duas freguesias - pouco usual nos dias de correm, poderiam ter possibilitado uma obra de maior fôlego, onde a referência, ainda que fruto de citação, da visão ortodoxa de Gervásio e proximidade a Estaline (pp. 110 e 111), não será muito abonatória para memória biografado; a obra poderia ter um trabalho heurístico mais profundo, no que às fontes concerne, pois a existência das fontes não significa obrigatoriamente a sua publicação ou referência directa. Assim prevalece a visão do jornalista que nem sempre será coincidente com a do investigador, pois o trabalho é meritório, dá-nos uma visão diacrónica de uma personagem que assume o devir histórico num contexto profundamente repressivo onde a solução é a luta, as grandes lutas colectivas e o assumir de responsabilidades partidárias para dirigir essa luta, em desfavor da vida familiar – ele e a mulher, na clandestinidade, separam-se do filho com tês anos que é criado pelos avós e tios. Parece-nos que o caracterizou e marcou António Gervásio foi um passado de abnegação, onde os seus legítimos direitos individuais ficam em segundo plano face à necessidade da luta colectiva contra a ditadura salazarista, onde foi um dos protagonistas. É isso que fica para a História. Mais uma contribuição para as lutas sociais nos campos do Sul, uma homenagem a “todos aqueles que participaram na luta por um Portugal livre e democrático”, aqui protagonizado por António Gervásio, um militante comunista. Eduardo M. Raposo

ACONTECENDO

DESTAQUE 'Não há Planeta B' - dicas e truques para um ambiente sustentável

Carmen Lima Editora Chá das Cinco, Lisboa; 2020, 207 pp. “Ao longo dos anos o Planeta Terra tem enfrentado vários problemas ambientais que nos têm preocupado, desde o abandono de resíduos sem controlo às alterações climáticas, da poluição do ar à destruição da camada de ozono, da seca à poluição dos rios e oceanos, da dependência de energias fósseis à perda de biodiversidade. Afinal que futuro vamos deixar para as gerações mais jovens?" É com estes alertas que Carmen Lima abre o seu livro 'Não há Planeta B', apresentado em Setembro passado na Feira do Livro de Lisboa. 'Não há Planeta B' é como um manual de boa conduta para com o único Planeta conhecido que tem vida. Na Introdução a autora faz uma viagem pelas grandes ameaças à humanidade como são a poluição, o uso desmedido de plásticos e a sua deficiente descartagem, passando pelo desaparecimento de muitas espécies de abelhas - essenciais para a vida na Terra - até à aceleração das alterações

climáticas a que se tem assistido nos últimos anos. "Neste livro pode encontrar pequenos gestos - dicas, truques, conselhos - que tornarão a sua vida muito mais verde", diz a autora. E depois de um enquadramento, onde se aborda os recursos finitos, a desflorestação, as formas de energia ou a pegada ecológica, surgem os conselhos úteis. O que cada um de nós pode fazer para diminuir a poluição ambiental, para reduzir as emissões e o plástico nos oceanos até às preocupações com a (falta de) saúde em consequência da poluição. E muita da poluição ambiental passa pelo tipo de alimentação que as pessoas têm hoje em dia, que com base numa agricultura e pecuária intensivas têm um enorme impacto negativo no ambiente. Sugere-se que as pessoas optem por uma agricultura biológica e uma alimentação sazonal. O descartável parece que veio para ficar. Infelizmente. As consequências do uso de material de demorada degradação e a gestão incorrecta dos resíduos de plástico provoca poluição a diversos níveis, com um impacto dramático nos meios marinhos, especialmente. Não faltam, por isso, no livro conselhos e dicas para mitigar a chamada cultura descartável. A reciclagem é um dos temas mais caros a Carmen Lima. Mas também a mobilidade sustentável e um voto de confiança nos jovens. Os seus conselhos são fundamentais para quem deseja viver num ambiente e num Planeta mais limpo, até porque "Não há Planeta B"! Carmen Lima é coordenadora do Centro de Informação de Resíduos da Quercus e coordenadora fundadora do SOS Amianto - Grupo de Apoio às Vítimas de Amianto, e mais recentemente o rosto do novo contentor castanho, em Lisboa, onde podem ser depositados restos de alimentos (crus ou cozinhados). É licenciada em Engenharia do Ambiente, pós graduada em Gestão Ambiental e em Construção Ambiental, e mestre em Planeamento e Construção Sustentável, encontrando-se a realizar o doutoramento em Engenharia do Ambiente no IST. José Alex Gandum

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ACONTECENDO Revista de Estudios Extremeños Tomo LXXIV

Centro de Estudos Extremeños Diputación de Badajoz, Badajoz; 2019, 638 pp. Este primeiro número da Revista de Estudios Extremeños de 2019 (janeiroabril), revista histórica e artística fundada em 1927, aborda uma série de artigos, com grande diversidade temática, com temas que vão desde a pré-história até aos nossos dias. Podemos destacar vários e interessentes artigos: Arqueologia en el rio Zapatón. El poblamiento y necrópolis megalítica de las Calderas de Manuel Rubio Andrada - o estudo está centrado em duas partes, uma mais relacionada com os vestígios habitacionais e a outra, mais com a necrópole; um outro artigo, Villafranca de los Barros (Badajoz) en la Guerra de Sucesión Espanõla (1701-1714) de Juan José Sánchez González, aborda duas questões, por um lado a ideologia que fundamenta a atuação do concelho de Villafranca e por outro lado o apoio que a população dá ao exército e por ultimo, mais um artigo intitulado, Anotaciones para la historia tauriana de Barcarrota de Francisco Joaquín Pérez González, um estudo sobre as tradições taurinas desde os seus primórdios, nesta povoação. João Santos

LIVROS

Os «Pretos do Sado» História e memória de uma Comunidade Alentejana de Origem Africana, Séculos XV-XX.

Isabel Castro Henriques Edições Colibri, Lisboa; 2020, 311 pp. Neste livro a autora, que se tem dedicado ao longo da sua carreira à pesquisa sobre temas de História africana, apresenta-nos a análise de uma comunidade de alentejanos com raízes africanas. Pese o cariz científico da obra, com cunho histórico e etnográfico, a leitura desta obra é bastante acessível. Isabel Castro Henriques generosamente presenteia o leitor com um anexo documental, algo que não é muito comum num historiador. A História da singularidade num Alentejo vasto e plural, escrita por uma mulher cuja sensibilidade acolhe perspetivas pouco comuns, nomeadamente as que informam sobre a realidade e as suas dinâmicas, fundamentadas na lógica de integração bio sociocultural. Ana Pereira Neto ISEC Lisboa, CHAM /UNL.

Jeremias e o Desenvolvimento Sustentável

Manuel Collares Pereira Livros Horizonte, Lisboa; 2020, 200 pp. "Uma interessante e original iniciativa, porque, a meu ver, a faixa etária a que se destina não é a juvenil como erroneamente se poderia assumir, mas é susceptível de interessar uma audiência muito mais vasta", As palavras são do antigo Presidente da República portuguesa, Jorge Sampaio, e são uma frase do prefácio, que ele assina, do mais recente livro do engenheiro Manuel Collares Pereira, até 2019 investigador e coordenador da Cátedra de Energias Renováveis, entre outras atribuições, da Universidade de Évora. Jeremias é motorista de autocarro, e quando trava conhecimento com um passageiro habitual, por acaso professor, vai conversando sobre muitos dos problemas da actualidade, como as alterações climáticas, o ambiente ou a energia. A conversa estende-se a outros interlocutores, mais novos, e o Jeremias acaba por enveredar por uma actividade de cariz social mas ligada à sustentabilidade do planeta. O autor não esqueceu a cidade de trabalho e num dos capítulos refere mesmo: "Chegaram a Évora, essa cidade Património Mundial, que alberga a segunda mais antiga universidade portuguesa (criada em 1559). Deram, a pé, uma volta pelo centro histórico...". ‘J e r e m i a s e o D e s e n v o l v i m e n t o Sustentável' é um livro para ser seguido como um manual de boas condutas para com o Planeta Terra. José Alex Gandum

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LIVROS

Os Livreiros de Lisboa nos Séculos XVI e XVII: estratégias económicas, sociais e familiares.

ACONTECENDO

Os Sonhos da Revolução dos Cravos

Antologia O 25 de Abril de 1974 Testemunhos da Luta pela Democracia e pela Liberdade

Maria José Maurício Edições Colibri, Lisboa, 2020; 190 pp. Jorge Fonseca Edições Colibri, Lisboa; 2020, 226 pp. Uma obra muito interessante para historiadores e público que tem paixão pelos livros e pela atividade que lhes está associada, como por exemplo a impressão e distribuição/comercialização. Como indicado no título, para além destes aspetos relacionados com os livros, podemos encontrar informação que ilustra de uma forma muito vivida os aspetos e estratégias socioculturais do sistema livreiro de Lisboa no período mencionado. Pese o seu teor científico, é bastante acessível para quem tem interesse na generalidade por História e especificamente pela História do Livro. Pelo rigor metodológico, e pela riqueza informativa é, sem dúvida, um trabalho essencial de partilha de dados para quem queira fazer investigação nesta área, que ainda tem muito por descobrir e ser dado a conhecer. Ana Pereira Neto ISEC Lisboa, CHAM /UNL.

A autora revela ”factos pouco conhecidos de como o Movimento das Forças Armadas preparou e concretizou a acção libertadora do 25 de Abril de 1974; de como um Povo Inteiro não hesitou em fazer parte activa deste Movimento; e de como um grito de Alegria – «O Povo está com o MFA!» - um outro se sentia como resposta imediata - «O MFA está com o Povo».” (…) como escreve no prefácio o Capitão-de-Mar-e-Guerra, Almeida Mora. Maria José Maurício trata, desde final do dia 24 de Abril, os preparativos do golpe militar, seguindo o percurso dos comandantes da Marinha - e a sua “Neutralidade Activa” – Martins Guerreiro e Vítor Crespo e a sua participação no Posto de Comando das Forças Armadas, onde vão assumir funções e posteriormente, quando a revolução está na rua, as campanhas de dinamização cultural de responsabilidade da 5ª Divisão – estrutura saída da reestruturação orgânica do Estado Maior General das Forças Armadas, quando em Agosto de 1974, o general Costa Gomes assume a sua chefia. Encontramos dados quantitativos detalhados relativamente às campanhas de dinamização, as eleições para a Assembleia Constituinte, em Abril de 1975 e o contexto militar até 25 de Novembro de 1975. Referência ainda à formação do sindicato dos CTT e o surgimento de um movimento grevista feminino em Setúbal, consubstanciase como um interessante contributo para um melhor conhecimento e compreensão da «Revolução dos Cravos», enquanto movimento transformador colectivo. Eduardo M. Raposo

Coordenação de Carlos Almeida Contreiras e Fernando Mão de Ferro Edições Colibri, Lisboa; 2020, 525 pp. Quem desse uma volta demorada por alguns stands da última Feira do Livro de Lisboa, em Setembro passado, veria muitos livros sobre a temática do 25 de Abril de 1974. Começa-se finalmente a conseguir escrever e - melhor - interpretar o que se passou há pouco mais de 40 anos. Infelizmente, a maior parte desses livros estavam em saldo e não pareciam despertar muito interesse nos leitores, os quais formavam filas para obter autógrafos de autores mediáticos. Esta Antologia feita de testemunhos sobre o 25 de Abril de 1974 é mais que um livro, é um documento histórico, iconográfico, poderoso, coordenado por dois profissionais que souberam - e conseguiram - reunir algumas dezenas de testemunhos das mais variadas personalidades, algumas mediáticas, outras desconhecidas, desde Carlos Brito ou Cláudio Torres, passando por Francisco Seixas da Costa, até José Viale Moutinho ou Luís Raposo. Na impossibilidade de reproduzir parte do testemunho de cada interveniente, importa aqui citar os coordenadores: "Para reproduzir os testemunhos da luta pela liberdade e pela democracia, até chegarmos a Abril de 1974, é necessário pôr a nu retalhos da alma de um Povo, que, durante meio século, lutou para conseguir aqueles objectivos" (Carlos de Almeida Contreiras), "... de nunca esquecer os

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ACONTECENDO míticos cantores José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Luís Cília, Francisco Fanhais e alguns outros. Eles foram responsáveis pelo despertar de consciências, inclusivamente, dos jovens militares" (Fernando Mão de Ferro). José Alex Gandum _____________________________ O Cavador que lia livros no tempo de Salazar

LIVROS

Francisco Cantanhede vai muito mais longe, vai buscar a luta anónima e colectiva de homens e mulheres pela sobrevivência e dignidade, a procura do conhecimento como transformador das coisas do mundo, e através de uma escrita ora contida ora envolvente, explicar as vidas no Alentejo da ditadura e mostrar os caminhos traçados para a sua transformação. É um livro didáctico, sincero e escrito com uma ternura enorme para os que agora, longe desses tempos, os conheçam e para melhor admirarem os seus protagonistas. Nas palavras da prefaciadora, Aurora Rodrigues: “O cavador que lia livros no tempo de Salazar é uma obra que me fez reviver e me comoveu. Uma obra contra o esquecimento”. Um livro cuja leitura se recomenda vivamente para todas as idades... _____________________________ O Mundo Rural Onde Vivi e outras memórias

“seu tempo” por onde se passeiam uma infinidade de personagens carregadas de humanidade. No dizer de Helena Roseta que prefaciou o livro: “Insisti com o Acácio para que publicasse estes testemunhos. Não apenas pelo seu valor antropológico e histórico, mas sobretudo pela riqueza dos detalhes, a fluidez da escrita, a recuperação de nomes, costumes, expressões e modos de falar profundamente alentejanos e a picardia de alguns episódios verdadeiramente hilariantes. Como se estivéssemos perante um Fernão Mendes Pinto de meados do século xx, à descoberta de um tempo e de um país que já não existe, mas que deixou marcas na nossa história e na nossa cultura.” Nas palavras do autor, ele viveu com “gente que trabalhava de sol a sol; dente que chegava a matar a fome com bolotas cozidas; gente que tinha de roubar lenha (...)Brinquei com os gaiatos que nunca calçaram botas.” _____________________________ Um Ranger na Guerra Colonial

Francisco Cantanhede Edições Colibri, Lisboa; 2019, 235 pp. Espantoso, é a palavra que não me sai da cabeça e por isso a escrevo. Espantoso é este livro por ser enorme por dentro e pequeno e normal por fora. Livro complexo pela sua forma já que não sendo um livro de História possui, e muito bem contadas, histórias verdadeiras. Ressalve-se que o autor não achou despiciendo fornecer uma extensa bibliografia para quem pretenda aprofundar conhecimentos! Livro complexo, pois, trata de memórias ouvidas contar, memórias de vidas vividas e sofridas, que mostram até à saciedade o que era o quotidiano dos operários agrícolas e suas famílias no Alentejo. Ainda há espaço para outras memórias, mais pessoais, quase biográficas. Assim se consegue construir uma fonte de memórias históricas, aliadas ao romancear de cenas vividas. Não tivesse o autor a experiência bem conhecida entre pares de professor de História, autor de enumeros manuais escolares, conferencista e formador de professores e este seria mais um livro importante sobre o nosso passado em Ditadura Fascista.

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Acácio Alferes Edições Colibri, Lisboa; 2020, 177 pp. Mais um livro de Memórias tendo este o condão de já ser escrito com a certeza que as transformações hodiernas irão fazer desaparecer muito do que ainda hoje se acha tradicional. Até a própria linguagem se vai perdendo à medida que as actividades económicas que lhes estavam ligadas desapareceram. Assim, o autor fornece mesmo um glossário. Cheio de histórias interessantes umas mais ligadas ao tempo infantil e de adolescência e outra parte mais à experiência adulta, o autor conseguiu um trabalho de grande realismo e rigor aliados a uma escrita agradável cheia de pormenores reais do

José Saúde Edições Colibri, Lisboa; 2019, 215 pp. Em boa altura o autor decidiu escrever as suas memórias vividas dos tempos de guerra. Saudamos esta edição por ela conter mais do que é habitual nestes livros de Memória, cujo número já é significativo e que constituem per si uma biblioteca sobre o que foi essa guerra tão devastadora para os que a viveram e suas famílias e que tem três nomes: do ultramar, de independência e colonial. Felizmente que para o autor os anos já foram passando, amadurecendo-o quanto


LIVROS

aos efeitos quer da guerra quer das suas consequências, permitindo-lhe um olhar abrangente e apaziguado das mesmas. Numa escrita coloquial, sem eufemismos, robustecida pela sua experiência profissional de jornalista, José Saúde vai transmitindo aos leitores, casos e episódios mais marcantes, quer perturbadores quer humorísticos, que são no seu conjunto a sua própria construção de memórias de tempos difíceis, de coragem e medos, de preocupação e brincadeiras, de sobrevivência. Por lhe ter calhado viver o final da guerra, numa das nossas antigas colónias onde ela chegou a ser mais dura, a Guiné-Bissau, e ter assistido e feito parte do cessar fogo então conseguido graças à Revolução do 25 de Abril, José Saúde trata de uma situação que é rara ver referida em livros de temática similar, ajudando a compreender esses momentos tão estranhos, de contentamento e receios, de estranhezas, que foram os de se ter podido de certo modo, confraternizar, com aqueles que eram os inimigos temidos ou odiados. Estão de parabéns a Editora e o autor, por nos terem dado a conhecer episódios marcantes de uma guerra que continua a ser um tempo de Memória Colectiva em construção. António Ramos _____________________________ Os Tibúrcios. Da Antiga Roma à Lusitânia

ACONTECENDO

encontramos também dois livros de poemas e alguns de contos. A autora fez de novo uma incursão na História – estou a lembrar-me de O Fronteiro do Sul, passado em plena Idade Média - neste caso transporta-nos ao período romano, sempre com a Hispânia em pano fundo e o regresso, quase sempre, à sua Beja natal – Joseia nasceu bem perto, em Baleizão – e a um mundo agrário com laivos senhoriais que perdurou até aos inícios da segunda metade do século, em plena meninice de Joseia. Romance a dois tempos, onde um nobre tribuno de todo poderoso império romano, com alguma proximidade com o imperador não impede a sua queda na sequência da nobre senhora sua mãe aderir à nova religião, o cristianismo - então uma religião de escravos - a sua villae é alvo de um ataque fratricida que provoca dor, morte e destruição. A consequência é a queda em desgraça e o ostracização com perca dos bens e exílio do patrício romano e família forçado para o norte montanhoso da Hispania. Todavia, é o seu filho natural, legitimado, Antoninus Tiburtius “belo como o pai, suave como sua mãe”, que acaba por, ao longo dos séculos, ter descendentes estabelecidos na então florescente Baja, beleza que de geração em geração chega à avó Catarina Inácio Tibúrcio, “a mais bela da terra”, que conta histórias à neta, Maria Tibúrcio Narciso e certamente transmite a invulgar beleza, como se subentende. Mis um livro de Joseia Matos Mira, a não deixar de ler.

Fernando Mão de Ferro Edições Colibri, 2020; 301 pp. Reúne um conjunto de contos do Alentejo, de onde ressalta, poesia, lendas, histórias de fazer recordar e reviver outros tempos. Que provocará certamente grande emoção no leitor, não só no leitor alentejano ou de origem alentejana, mas também em todos aqueles que se emocionam ou apreciam a nossa identidade cultural. Uma identidade com muitos paralelos de norte a sul. João Santos _____________________________ Contos Alentejanos, cozendo o pão, costurando a vida

Eduardo M. Raposo _____________________________ Antologia do Conto Alentejano Maria Vitória Afonso Edições Colibri, Lisboa; 2019, 114 pp.

Joseia Matos Mira Edições Colibri, Lisboa; 2019, 136 pp. Um novo trabalho de Joseia Matos Mira, o 17º título, o 10º romance, onde

Um livro de contos memorialísticos que atinge agora uma segunda edição, sendo a primeira de 2012, certamente que é um trabalho literário que se afirmou por si, pela qualidade dos temas tratados e os artifícios de escrita da autora. Folheando e lendo estes contos, percebemos o amor e carinho com que foram construídos, onde um olhar poético realça de forma superior o que pareceria comezinho. Sempre em torno dos lugares à volta de Colos, fica a região delimitada, as festividades, os afazeres domésticos e dos campos, a vida sofrida mas nem por isso deixada de ser assumida com a alegria própria dos jovens. Os contos são como histórias contadas aos

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ACONTECENDO

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mais pequenos, não tivesse sido a autora professora do 1º Ciclo, da antiga Primária como se é uso dizer. São contos que desvendam personagens cheias de vida, acontecimentos uns tristes outros alegres mas sempre tecidos com pormenores de enorme riqueza humanística. Maria Vitória, enche estes contos com sentidos da vida, pois neles existem os cheiros e sabores passados, os sons idos e as cores que enriquecem a memória e que a fazem ser mais real, quase palpável. Fechamos os olhos e ali estamos de regresso aos lugares, às pessoas, aos familiares que já partiram. Sonhamos. Como é dito a certa altura : “Queria revivido o meu fulgor, A alma a recordar todo o amor, Da minha longínqua mocidade”. Os parabéns para a autora e a editora que são repetentes em divulgar estas histórias do coração.

são, para quem as lê, um exercício imagético e estético muito agradável sobretudo para quem, no ritmo acelerado do quotidiano, tem falta de tempo para olhar para si e para o outro. Um contador que encanta e que nos enleva na promoção do desejo para analisar os nossos registos quotidianos, sempre que tenhamos tempo para captar os momentos de desassossego ou de paz. Ao ler este livro lembro Cesare Pavese, imaginando-o num feliz ofício de viver no contexto do nosso Alentejo. Contudo, sente-se a alma de Eduardo, um artista que vê e exercita as emoções através da escrita simples, mas plena e serena. A quietude da apreciação dos elementos da vida que se vive em amor e com amor, o refogar da soma que o autor refere logo a seguir ao Prefácio de autoria de António Coimbra de Matos.

António Ramos

_____________________________ Landroal D'Encantar - Histórias &Contos para Ler, Ouvir e Partilhar

cimento aglutinador da narrativa se consubstancia numa filosofia de empirismo através da natureza, feminina na sua essência. Com um prefácio realizado pelo Professor Catedrático Vítor S. Gonçalves, datado no Ano 1 do Covid 19, neste livro, o imaginário confunde-se e funde-se numa realidade de conhecimento feita através dos percursos simbólicos que vão ocorrendo nos eixos espaciais e temporais das narrativas. No contar destas histórias e contos, usando a performance vocal, podem ser sempre acrescentados pontos visando a inteligibilidade no universo das crianças mais novas, nomeadamente as dos 6 anos. Conforme referido numa das badanas, deste primeiro livro infanto-juvenil de Ana Paula Fitas, será a Educação a chave para a salvaguarda do futuro da Humanidade. A cada um dos leitores caberá a tarefa de transmitir pedagogicamente as mensagens que nos chegam neste enlevo D'Encantar. Haja quem realmente queira compreender e transmitir conhecimento, para que a memória seja perene e faça sentido, agora e no futuro

_____________________________ Ana Pereira Neto ISEC Lisboa, CHAM /UNL

Contos de Divã- Histórias de Dupla Face

_____________________________ Com Coentros e Conversas à Mistura

Ana Paula Fitas Edições Colibri, Lisboa; 2020, 127 pp. Eduardo Luciano Edições Colibri, Lisboa; 2020,113 pp. A arte de viver nas pinceladas sensíveis sobre a realidade vista e sentida através dos filtros emocionais de Eduardo Luciano, com desenhos de António Couvinha e, na capa, do próprio autor. As metáforas das pequenas estórias, ou contos, que constituem momentos de libertação criativa emocional para o autor

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Uma edição conjunta da Colibri com o Município de Alandroal, de um livro que encanta, desde logo, pela componente de ilustração, design e paginação a cargo de Grão de Pó. A leitura desta obra que, conforme indicado na contracapa se enquadra na etno-literatura para crianças dos 6 aos 106 anos, transporta-nos para um universo contextualizado no Alentejo onde o

António Galopim de Carvalho Âncora Editora, Lisboa; 2019, 186 pp. De um livro do Professor Galopim de Carvalho seria de esperar algo relacionado com dinossauros ou com Geologia. Mas nem só esses temas foram explorados e


LIVROS

divulgados pelo "pai" dos dinossauros. Galopim de Carvalho é um exímio cozinheiro e já o provou em inúmeros livros publicados, onde mistura muita conversa com petiscos inventados ou recuperados por si, em especial ligados à tradição gastronómica alentejana. O mais recente trata-se de 'Com coentros e conversas à mistura', vem no seguimento de 'Açordas, migas e conversas' e é o 12º livro da Colecção Sopa de Pedras, todos da autoria de Galopim de Carvalho, sendo os dez primeiros dedicados à temática geológica. Logo na dedicatória, o Professor refere que o livro é dedicado "à memória de minha mãe, que me iniciou na cozinha, era eu criança...". O autor do prefácio - Virgílio Nogueiro Gomes - refere que "o autor tem um tipo de escrita tão especial que, para mim, seu leitor assíduo, já a reconheço mesmo que não esteja assinada". Aos 89 anos, o Professor Galopim de Carvalho tem uma presença diária e intensa no Facebook - como já referimos várias vezes em edições anteriores da 'Memória Alentejana' - onde coloca textos das mais variadas temáticas e sempre com uma actualidade impressionante.

ACONTECENDO

alentejano. Apresenta-nos uma publicação, editado no início deste ano (2020), onde aborda a vida e obra deixada, pelo Insigne Escultor Nicolau Chanterene, como autor o designa, que deixou uma presença, na história da arte portuguesa. No caso de Évora, Chanterene representa o melhor da sua arte escultórica, na sua época de maior exuberância. Esta edição literária é um importante registo da arte escultórica a nível nacional e em particular em Évora, que nos permite conhecer a cidade de uma nova perspetiva. João Santos _____________________________ Teatro por Adolfo Bugalho

José Alex Gandum _____________________________ Nicolau Chanterene Um Insigne Escultor em Évora, 15321542

entidade associativa e depois de 20 anos de existência sabemos valorizar e respeitar estes actos e congratulamo-nos por realizações como esta - que nem sempre são fáceis de realizar, quando não surgem inúmeras dificuldades para as concretizar. Valorizar a memória identitária, resgatando do limbo do esquecimento os valores, as realizações que contribuíram para mudar a vida e a visão do mundo de quem as souber percepcionar, assim como a autoestima das comunidades, é seguramente de louvar. Ainda para mais se essas vivências têm o teatro como cerne, muito mais nos sensibiliza e recorda-nos o nosso percurso, iniciado há mais de 35 anos no teatro amador, no ensino e posteriormente na reportagem e crítica teatral. Voltando ao livro, nele encontramos quatro peças: “O Pregão”; “A Sombra de um Brilho”; “Eu e o meu Chapéu” e “Toada”, esta última com o subtítulo de Exercício Teatral, inédita e nunca levada à cena e tal como a anterior, ainda que publicada, nunca encenada. As anteriores foram escritas propositadamente para o Grupo Cénica da Sociedade Recreativa 1º de Dezembro, surgido em 1951, que teve como principais impulsionadores o autor e o Ti Júlio, actor amador na mocidade. A primeira peça foi levada à cena em 1960, 1978 e 1997 e a seguinte escrita e encenada em 1961 e noutras datas, pelo referido grupo, sempre com muito sucesso. Estas informações são-nos transmitidas por um amigo próximo do autor, Mário Beliz Rainho, palavras sentidas onde adivinhamos a emoção de recordar um grande amigo. Para ele e para o Grupo de Amigos de Castelo de Vide, o nosso abraço fraterno. Eduardo M. Raposo

Adolfo Bugalho Edições Colibri/Grupo de Amigos de Castelo de Vide, Lisboa; 2020, 143 pp.

Francisco Bilou Edições Colibri, Lisboa; 2020, 184 pp. Francisco Bilou é autor de vários livros e artigos sobre o património cultural

Em boa hora o Grupo de Amigos de Castelo de Vide meteu mãos à obra e reuniu “num único livro as peças de teatro escritas pelo médico Adolfo Bugalho (1907-1986) – natural do Porto como Francisco Bugalho (o seu irmão poeta), mas castelo-vidense por adoção como ele”, como refere na contracapa Maria do Carmo Fernandes Alexandre, foi sempre um compromisso para esta associação regionalista local, que refere a alegria que é agora realizá-lo. É com muito gosto e alegria que saudamos este gesto associativista. O CEDA, que edita esta revista desde 2001 é uma

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ACONTECENDO É Assim Uma Espécie de Cante

Paulo Ribeiro e os Camponeses de Pias Panóplia d´encantos, Beja; 2019 De Beja, chega-nos mais um trabalho sobre o Cante com assinatura do Amigo Paulo Ribeiro. O Paulo Ribeiro «cantautor», compositor, músico, é “(…) senhor de uma versatilidade de registos onde saboreamos as sonoridades transtaganas eivadas de modernidade”- in entrevista à Memória Alentejana, 2010. A sua voz, melodiosa como que brotando da terra do nosso imenso sul, onde adivinhamos a textura fraterna de mil anos de poesia bebida num copo de vinho numa roda de cantadores. A voz tem-na emprestado, ao longo de 30 anos de percurso musical, desde o pop-rock - Anonimato - e a outros projectos – Eroscópio, Baile Popular, Tais Quais - com João Gil, Vitorino, Tim, Jorge Palma, Celina da Piedade, Sebastião Santos e também o contador de histórias Jorge Serafim, com quem tem partilhado o espetáculo de música, contos e poesia de inspiração árabe Jorge Serafim e as Vozes da Cal”, ambos iniciados em 2014. Ou “Jorge ou Mosto – este como uma nova abordagem ao Cante, ou “Modas de Viés” e “Canções Decantadas – A Pop e o Cante em fusão”onde tradição e inovação se conjugam. E trabalhos mais intimistas, a solo, como Aqui Tão Perto do Sul, No silêncio das casas, Paulo Ribeiro Canções 1998-2002, O céu como tecto e o vento como lençóis, a partir da obra poética do escritor Manuel da Fonseca. “Ou em parcerias pontuais connosco, seja no Pax-Julia ou no Festival Islâmico de Mértola – com “Festa Almutâmide da Poesia. O Príncipe dos Poetas – de Beja a Agmate”- ou breves recitais sobre o Amor e o Vinho na Biblioteca Municipal de Montemor-o-Novo -ambos em 2011 - ou Biblioteca Municipal de Beja – onde também actuou na inauguração da Exposição “PREC-Cantar a Revolução no Alentejo” , em 2010. Também em apresentação de livros e discos – fosse em Amoreiras-Gare, 2011 – CD As nossas modas. Cante ao Baldão. Cante ao Despique. Violas Campaniças – Grupo Cantares da

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CD

Serra de S. Martinho das Amoreiras – ou no nosso Cantores de Abril, de novo na Biblioteca de Beja, 2014. Sempre fraterno, sempre solidário. Sempre com o Cante na Alma. Em 2018 assume a direção artística do FESTIVAL B, em Beja, onde apresentou pela primeira vez o espetáculo “É assim uma espécie de Cante”, que deu origem ao presente disco. Profundo conhecedor do Cante, pois o Paulo é, desde 2004, ensaiador de diversos grupos corais masculinos, femininos, juvenis e infantis e mais recentemente formador de crianças do pré-escolar e 1.º ciclo, no âmbito do projeto Cante na Escola, promovido pela Câmara Municipal de Beja, de salvaguarda do Cante; como aconteceu em muitos concelhos do Alentejo e até na Diáspora, como é o caso de Almada. Paulo Ribeiro foi várias vezes premiado: Prémio Jovens Autores (2000), Sociedade Portuguesa de Autores; Prémio Mais Música (2011), Revista “Mais Alentejo” e Medalha de Mérito Artístico e Cultural (2012), Câmara Municipal de Beja Assim, mais do que um regresso ao Cante – onde sempre esteve presente - é uma nova forma de olhar o Cante, ou como o autor refere: “O cante é uma entidade viva e logo dinâmica. Devemos preservá-lo mas também procurar a partir da sua matriz reinventá-lo e adaptá-lo aos dias de hoje. A tradição sempre me interessou, mas não a encaro como uma peça imóvel adormecida numa vitrine de museu. O mundo rural como o conhecíamos há décadas atrás desapareceu… espero sobretudo que este trabalho, ao incluir também modas originais da minha autoria, possa reflectir o tempo em que vivemos.” Neste inovadora abordagem ao Cante, Paulo Ribeiro apresenta-nos temas dos Xutos e Pontapés, Rui Veloso, Ala dos Namorados, Madredeus, Boss AC, Pedro Abrunhosa, três temas que musicou, respectivamente de Manuel da Fonseca (“Aldeia Nova”), João Monge (Tenho saudades, mais nada), Romão Janeiro (“Minha mãe, sou um mainante”) e “Cantiga do Tempo Novo”, integralmente de sua autoria. Mantendo os Pontos – que ele faz e/ou Rodrigo Aleixo, José Rodrigues, Miguel Cachola (filho), Fábio Cascalheira, Manuel Carmona, Jota-A, Filipe Coelho – e sendo os Altos assegurados por Oliveiros Aleixo e/ou Hilário Serra, o Coro é composto pelos 28 elementos de um dos mais prestigiados grupos corais alentejanos, o Grupo Coral Etnográfico “Os Camponeses de Pias”. Parabéns, Paulo, um abraço extensivo a todos os participantes, por este disco inovador e certamente importante enquanto contributo para a salvaguarda do nossos Cante. Eduardo M. Raposo

Canções do Resistir

Francisco Naia Ovação, Lisboa; 2019 O título já diz quase tudo. Francisco Naia realizou um novo trabalho saído em 2019 com as suas primeiras gravações em EPs entre os anos de 1969 e 1972. São dezasseis canções por onde o conhecido cantautor nos vai desfiando o conjunto de problemas que nesse tempo de ditadura mais afligia os jovens e população: a guerra colonial, a miséria e o desejo de uma vida melhor. Nestas canções, o cantor faz-se ouvir como um “baladeiro”, que era a forma carinhosa com que os jovens cantores de protesto eram considerados pelo público, procurando seguir as pisadas de José Afonso, Adriano e outros. Quase todas as canções têm letra sua, às quais confere já personalidade própria de execução graças à sua voz ímpar de tenor e onde nalgumas já se sentem as melodias alentejanas que estarão depois, e para sempre, ligadas à sua obra posterior. Um trabalho ainda emotivo, realizado como o apoio técnico de muitos dos seus amigos. Este CD, para além de garantir para o futuro próximo o registo destas canções, também são uma troca de afectos do autor para o seu público, uma partilha das emoções que essas canções promoviam então, servindo para protestar contra a ditadura e despertar os que as ouviam para a necessidade de mudanças. Um CD a procurar ter e ouvir com cuidado, distribuído por Ovação – www.ovacao.pt Para saber mais sobre o artista e a obra propomos a leitura da entrevista que nos deu nesta Revista. António Ramos


EXPOSIÇÕES

ACONTECENDO

Forma, Cores, Pedras e Amizade Guika Rodrigues Exposição na Livraria Tantos Livros Sob a capa da amizade que une dois artistas plásticos, uma alentejana e um húngaro, surgiu a exposição sobre a temática Forma, Cores, Pedras e Amizade num dos poucos espaços em Lisboa dedicados à arte e à atividade livreira- a Livraria Tantos Livros. A mertolense Guika Rodrigues apresentou a sua mais recente produção artística numa exploração cromática diferente daquela à qual estávamos habituados. A sua inspiração das paletas ocres, ligadas à terra e ao Alentejo vivo e quente, evoluiu para uma utilização cromática com inspiração dos elementos mais femininos da natureza. Num conjunto que associa profundidade quase tridimensional, através da utilização de tons metálicos, imprime à matização, que é um dos seus identificativos de criatividade plástica, a recriação de formas que a luz revela através das sombras, em microcosmos transtaganos ou de outra ordem bio sociocultural. Ana Pereira Neto ISEC Lisboa, CHAM /UNL

(RE)MONTADO: Passagem e Presença Projeto de Artes e Escrita Visual Feliciano Mira e Manuel Casa Branca Galeria Municipal de Montemor-oNovo, 27 de Novembro a 18 de Dezembro Conhecemo-nos há cerca de um ano, em Évora, num jantar, após a apresentação do livro “ Uma Vida com História. Cláudio Torres” da autoria de Eduardo M. Raposo – que assina texto do catálogo - que ocorreu na Galeria da Casa de Burgos. Entre um tinto e a descoberta de afinidades electivas, como diria o nosso amigo comum, este projeto veio tomando forma e ganhou o seu espaço. espaço esse que não será apenas esta exposição em Montemor, avizinhandose Évora para fevereiro de 2021. Liberdade e honra O património Eco-Histórico que vamos percorrendo na paisagem do Montado Alentejano, evoca diversas leituras: os cuidados e a agressão que esta paisagem vem acolhendo.

Sobreiros e Megálitos, cores, formas e disrupções. Colhemos estes referentes através do desenho, do vídeo, fotográfico, pictórico e caligráfico e montamos, (re)montamos, criando superfícies compositivas visuais. A escrita simbólica e mágica integra igualmente as composições e os registos mais automáticos e os mais demorados. O diálogo que estabelecemos na passagem pelo Montado, ou em frente a um copo de vinho (pode ser alentejano) vai construído a narrativa. Construir e remontar, reclamar uma entidade, um espaço. E depois há que dizer que na Grécia Antiga, os sobreiros eram símbolos de liberdade e honra. Para a realização deste projecto contámos com o apoio da Câmara Municipal, Lita Oliveira (fotografia) e Beatriz Casa Branca Santos (Fotografia e design do catálogo), e com a colaboração da Cooperativa Cultural e Artística do Alentejo - CAL, na produção do Vídeo, com o título “ Transfiguração”,

apresentado na exposição, uma ideia de Feliciano de Mira com Manuel Casa Branca, realização de Rui Cacilhas, sonoplastia de João Bastos, e Pedro Grenha que colaborou com o realizador na captação de imagem, montagem e Pós-produção. Feliciano de Mira e Manuel Casa Branca

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ACONTECENDO O Presidente da República, a propósito do Festival de Almada: “O festival de teatro em Portugal”

Obras na Adega Cooperativa de Vidigueira, Cuba e Alvito põem a descobertro adega centenária nas suas instalações

O Festival de Almada, este ano em 37ª edição e com formato adequado ao contexto pandémico, realizou-se entre 3 e 26 de Julho. Abriu com a obra-prima do dramaturgo Tennessee Williams “Bruscamente no Verão passado”. Com uma programação quase exclusivamente nacional – 17 espectáculos nacionais, um italiano e dois espanhóis – foi um dos poucos festivais de teatro a nível europeu que se realiza, pois este ano foram quase todos cancelados. Conforme referiu o seu director artístico, Rodrigo Francisco: “Talvez no futuro esta edição do Festival de Almada seja recordada como histórica pelo mero facto de ter chegado a realizar-se”, para depois explicar que o festival se realiza por vontade do público, que foi consultado para o efeito. Este ano os colóquios, 14 na totalidade foram transferidos para a Esplanada do “foyer” do Teatro Municipal Joaquim Benite (TMJB). As exposições, sempre magníficas, com a assinatura de José Manuel Castanheira, deixaram os espaços tradicionalmente reservados na Escola D. António da Costa e transferem-se para o TMJB. Falamos da exposição dedicada ao homenageado, neste caso o actor, encenador, professor e cidadão empenhado que é Rui Mendes, “O actor que queria ser sinaleiro”, no foyer do Teatro e a Exposição /instalação que com a magia e mestria que caracteriza a arte de J. M. Castanheira, este ano denominada “O sonho de J. Anjos cansados que carregam outros anjos”.

Eduardo M. Raposo

Ao recuperar o espaço da sua loja de vinhos, a Adega Cooperativa de Vidigueira, Cuba e Alvito deparou com uma Adega antiga, datada do século XVIII, que consistia de um edifício antigo para produção de vinho dentro da própria adega. Durante os trabalhos de remodelação do espaço, surgiram estruturas antigas, com várias fases de construção e adaptação à função que agora retoma: uma Adega tradicional num edifício nobre da vila de Vidigueira. Após esta descoberta a Adega optou por alterar o sentido da decoração inicial, deixando à vista a estrutura da Adega Velha, o que permitirá ao seu visitante usufruir do espaço conforme este foi criado e permitir a todos ter contacto com a história. José Miguel de Almeida, presidente da Adega, refere que “a Adega Cooperativa de Vidigueira Cuba e Alvito está sediada junto da zona nobre e de primeira ocupação da vila de Vidigueira. De facto, não esperávamos que o edifício contíguo à Loja da Adega albergasse uma construção antiga com estas características, o que só vem dignificar esta Adega e a região.” Segundo os responsáveis, a Adega Velha pretende ser um complemento da Casa das Talhas, o espaço de enoturismo da Adega, cujo foco é o Vinho de Talha e toda a sua abrangência história e cultural. Este novo espaço de enoturismo, denominado Adega Velha, pode ser visitado todos os dias das 9h00 às 19h00 horas.

serviam não só para o vinho como também para a conservação da azeitona ou da aguardente. O seu fabrico assentava especialmente em algumas famílias, que passavam os seus conhecimentos de geração em geração. E o barro era o material utilizado porque no Alentejo a madeira não era habitualmente utilizada para a

fermentação das uvas. A tradição de construir os potes ou talhas de barro perdeu-se com o tempo, mas tenta-se reavivar o interesse pelo seu fabrico, nomeadamente em Campo Maior, em virtude da procura cada vez maior do Vinho de Talha. José Alex Gandum

fabrico das talhas em Campo Maior Com o reavivar do Vinho de Talha também ganharam relevo os potes ou talhas de barro onde este vinho é produzido, alguns deles centenários mas ainda hoje utilizados. Campo Maior foi um dos principais centros de produção destes recipientes, que

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TEATRO E PATRIMÓNIO

“Este não é um festival mas o Festival de Teatro em Portugal”. Foi assim que o Presidente da República (PR) terminou a sua intervenção na Abertura oficial de Festival de Almada, na noite de abertura. Na cerimónia, Marcelo Rebelo de Sousa distinguiu com a Ordem de Mérito o actor Rui Mendes, o homenageado do Festival de Almada. O PR, que estava acompanhado por Rodrigo Francisco, Director Artístico do Festival, pela Presidente da Câmara Municipal de Almada, Inês de Medeiros e pelo Secretário de Estado do Cinema, Audiovisual e Média, Nuno Artur Silva, quando chamou o homenageado ao palco para lhe entregar o galardão disse que ambos pertenciam a um grupo de risco o que, todavia, “não deve impedir as pessoas de ir ao teatro”, pois “o risco diminui com a cultura”. Marcelo começara a intervenção com palavras entusiastas: “Finalmente. Finalmente. Foram meses há espera deste momento”, para rematar que o festival é um exemplo das “pontes que é preciso lançar perante o medo que subjaz à construção de novos muros contra os quais é preciso lutar”, por serem “um retrocesso para a democracia e para a liberdade. No mesmo dia o Primeiro-Ministro, António Costa, assistia à representação de “Mártir”, de Marius von Mayenburg, encenada por Rodrigo Francisco.


DIVERSOS

90 anos da morte de Florbela

No passado dia 8 de Dezembro - dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Vila Viçosa – passaram 90 anos da morte de Florbela Espanca, nome decisivo da poesia lírica, que teve maior divulgação pública pela voz melodiosa de Luís Represas, com o belo poema e marcante poema “Perdidamente”, com música de João Gil, pelo Trovante - álbum Terra Firme (1987), posteriormente editado no duplo CD Uma só noite (1999). A poetisa que nasceu precisamente a 8 de Dezembro de 1894, faleceu em Matosinhos – onde a biblioteca municipal tem o seu nome - com 36 anos de idade. Nesta edição onde Vila Viçosa tem destaque, também por isso, a Memória Alentejana não poderia deixar de referir esta data de celebração da Vida, da Poesia e do Amor, associada a este nome maior da Poesia e da luta pela dignificação da Mulher. _____________________________ “Quando o melro assobia” Rúbrica de Paulo Ribeiro na Rádio Voz da Planície

«Quando o melro assobia» é o novo espaço de rádio que leva até aos ouvintes da Rádio Voz da Planície, de Beja, uma sugestão semanal de cante alentejano, à sexta-feira, às 07.30, às 09.30, às 16.30 horas e às 18.45 horas. O músico Paulo Ribeiro é o autor desta nova rubrica. Como nos diz o Paulo Ribeiro, «cantautor», músico, compositor, intérprete e ensaiador : “Trata-se de uma rúbrica, com uma apresentação de um tema, com duração de cerca de cinco

ACONTECENDO

minutos. No início aparecem os Ganhões de Castro Verde, com um breve excerto de “Quando o melro assobia” e Vitória Leandro, do Grupo das Rosinhas da Boavista apresenta-me. Em cada emissão apresento um tema. Agora no 6º aniversário do Cante Património da Humanidade será “Alentejo. Alentejo”, depois no período do Natal teremos Os Cantes ao Menino. É mais uma forma de divulgar o Cante.” Parabéns, Paulo por mais este contributo que vem consolidar o teu papel como um dos maiores protagonistas na valorização e salvaguarda no nosso Cante. E com um jingle muito sugestivo. A ouvir, à sextafeira, na Rádio Voz da Planície em 104.5 FM.

em representação de Portugal ter ficado em terceiro lugar, de novo o Alentejo representa o nosso país neste prestigiado concurso europeu. É motivo de orgulho para todos os alentejanos(as)! Um abraço para Portalegre! Eduardo M. Raposo _____________________________ 25 de Abril de 2020

_____________________________ Plátano do Rossio de Portalegre Árvore portuguesa de 2021

O plátano do Rossio de Portalegre venceu a votação online para "Árvore Portuguesa do Ano de 2021" com 2401 votos e vai representar Portugal no concurso "Árvore Europeia do 2021". Considerado o maior plátano da Península Ibérica, quer ao nível da copa e do perímetro do tronco. Com um porte majestoso - 23 metros de comprimento, sete metros de perímetro de tronco e 37 de diâmetro de copa", como refere o Vice-presidente da Câmara Municipal de Portalegre, João Nuno Cardoso "esta é a mais antiga árvore classificada de interesse público em Portugal, tendo sido registada a 28 de Agosto de 1939". Plantada em 1838 - tem 182 anos - pelo médico e botânico José Maria Grande, ainda conforme o autarca "considerada um dos ex-libris da Portalegre" (...) "esta é também uma árvore importante para a cidade a nível sociológico". Depois de um 2018 o Sobreiro Assobiador de águas de Moura ter sido a árvore Europeia do Ano e no ano seguinte a Azinheira Secular do Monte do Barbeiro, de Alcaria Ruiva, Mértola,

Vamos comemorar Abril! Não sendo possível realizar as actividades colectivas, como é o caso do tradicional desfile em Almada, a Associação Amigos da Cidade de Almada lançou um desafio ao Movimento Associativo Almadense para cada Associação gravar um pequeno vídeo alusivo ao 25 de Abril. O CEDA e mais 14 associações de Almada participaram. Viva o 25 de Abril! https://www.facebook.com/watchparty /238558050585128/ _____________________________ 6º Aniversário do Cante Património da Humanidade Na passagem do 6º Aniversário do Cante Património Cultural Imaterial da Humanidade o CEDA e o Grupo de Trabalho do Cante do Concelho de Almada, neste ano atípico, assinalam assim, com simplicidade, mas com a dignidade que se impõe tão importante data. No vídeo encontramos breves depoimentos dos autarcas Luís Palma, Alda Fidalgo e ainda José Roque e Eduardo M. Raposo, podemos visualizar o momento mágico, na manhã de 27 de Novembro de 2014 em que o Cante foi inscrito nas Listas de Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO. Boa visualização. https://drive.google.com/.../11ZlrkxqdE yzQPLwDItX71Z.../view

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A FECHAR CEDA Centro de Estudos Documentais do Alentejo - Memória Colectiva e Cidadania Inscrição Sócio | Tipo de sócio Individual - Quota anual de 12,5€ (inclui um exemplar da Revista Memória Alentejana) Coletivo - Quota mínima de 25€ (inclui dois exemplares da Revista Memória Alentejanaa) Se pretende ser apenas assinante da Revista Memória Alentejana (dois exemplares - 5€/ ano) Enviar correio electrónico ou carta com os seguintes dados: 123456-

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Locais de distribuição e venda: A Memória Alentejana pode ser consultada: • Municípios, Bibliotecas Municipais e Associações Culturais, através das respectivas Comunidades Intermunicipais • É também distribuída para a Direcção Regional de Cultura do Alentejo • Para a Entidade Regional de Cultura do Alentejo • Para as Bibliotecas Públicas • Para a Comunicação Social: Diário do Sul, Diário do Alentejo, Folha de Montemor, Rádio Voz da Planície e outros Está à venda em livrarias e locais de referência: Alentejo Livraria Nazareth – Praça Giraldo, Évora Quiosque Bandeirante (junto à Rodoviária), Beja Livraria A das Letras – Avº 25 de Abril, 8, Sines Pensão Carvalho – Rua Gago Coutinho, 13, Sines Lisboa Casa do Alentejo – R. Portas de S. Antão, 58 Livraria Tantos Livros – Av. Marquês do Tomar, 1B Livraria Pó dos Livros - Av. Marquês do Tomar, 89 Livraria Colibri – Faculdade de Letras, Cidade Universitária Margem Esquerda do Tejo Tabacaria Grua – Praça do MFA, 6, Almada

Sede: Casa do Alentejo Rua Portas de Santo Antão, n.º 58 · 1150-268 Lisboa Delegação em Almada: Casa das Associações, Rua Mário Casimiro, Charneca de Caparica

Estatuto Editorial A Revista Memória Alentejana é uma publicação sem fins lucrativos, propriedade do Centro de Estudos Documentais Alentejanos (CEDA), dedicada essencialmente a temas que dizem respeito ao Alentejo. Publicada desde 2001, a Memória Alentejana pauta-se pelos valores da dignidade da pessoa humana, da liberdade, da democracia, da independência, do pluralismo e do rigor jornalístico e ético. Desde sempre que a Memória Alentejana tem abordado exaustivamente temas que dos pontos de vista histórico, geográfico, social ou cultural, são caros às gentes alentejanas, recorrendo a uma investigação aturada e séria. A informação fornecida baseia-se em entrevistas, reportagens, artigos de opinião e investigação, e informação geral, onde as raízes culturais alentejanas estão em destaque, embora possa abordar temas de âmbito nacional ou outro. Como publicação sem fins lucrativos, a Memória Alentejana tem actualmente periodicidade anual e vive de contribuições de entidades públicas, podendo, no entanto, também contar com o apoio de entidades privadas, sendo que essas contribuições não têm carácter regular. Ficha Técnica: Nº 42 - 2020 | Sede da Associação, Editor e Redacção: Casa do Alentejo, R. Portas de Santo Antão, 58, 1150-268 Lisboa | Redacção: 939 457 523 | Publicidade: 965 090 022 | E-mail: cedalentejo@gmail.com | Proprietário: CEDA – Centro de Estudos Documentais do Alentejo – Memória Colectiva e Cidadania | Edição: Memória Alentejana | Os artigos publicados são da responsabilidade dos respectivos autores. Estes têm a liberdade de escrever segundo o Novo Acordo Ortográfico ou não | Director: Eduardo M. Raposo | Coordenação Editorial: Eduardo M. Raposo e José Alex Gandum | Editor de Imagem: José Alex Gandum | Editores: Ana Pereira Neto e João Santos | Conselho Editorial: António Borges Coelho, António Ventura, Cláudio Torres, Manuel Malheiros, Moisés Espírito Santo, Rogério de Brito | Colaboraram neste número: Ana Barqueira, Ana Pereira Neto, António Ramos, Feliciano de Mira, João Santos, José Roque, Manuel Casa Branca e Rosário Pereira | Fotografia: Ana Baião, Ana Pereira Neto, Eduardo M. Raposo, José Alex Gandum, José Roque, Pedro Beato, Rosário Pereira, UpStream (ERT Alentejo e Ribatejo) | Revisão: Eduardo M. Raposo e José Alex Gandum | Capa: UpStream (ERT Alentejo e Ribatejo) | Paginação: 4iD – Design Gráfico | Impressão: Gráfica Jorge Fernandes, Lda. - Charneca de Caparica | Depósito legal: 172 511/1 | ISSN:1645-6424 | Registo: ICS 124487 A Memória Alentejana contou com os apoios:

ENTIDADE REGIONAL DE TURISMO

DRC ALENTEJO

Colaboração:

Freguesia

CHARNECA DE CAPARICA E SOBREDA

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Apoio na distribuição:


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