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Belém, domingo, 30 DE março de 2014

oliberal

magazine n 11

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Coletivo Dirígivdfgdf

sim

vicente cecim

vicentefranzcecim@gmail.com

Drones II: Dos filmes para a vida Serdespanto só não poderá perder também as asas Para que o osso Pai não o deserde De VIAGEM A ANDARA

V

ocê consegue ver o outro como um barco vazio? Pergunta enigmática, mas vamos já decifrar o

enigma. Quando um barco com um homem se choca com um barco com outro homem, eles se acusam mutuamente. E brigam. Nós, humanos, somos assim. Mas estamos condenados a ser assim para sempre? Os mestres chineses do Tao abrem em nós um novo olhar que pode nos libertar desse primeiro impulso agressivo, e nos pedem para fazermos a seguinte reflexão: E quando um barco com um homem se choca com um barco vazio, o que acontece? Não havendo outro com quem brigar, o homem do barco atribui o que aconteceu à correnteza. E se diz para prestar mais atenção. Agora, desfeito o enigma, lhe refaço a pergunta. E você só não a responde - pelo menos a si mesmo - se não quiser: - Você consegue ver o outro como um barco vazio? Se ainda está no escuro, desta vez vai ficar claro como um relâmpago na noite. É mais ou menos como a frase que todo mundo diz mas poucos praticam: - Tira por menos. É disso que se trata. Desenvolver em nós uma Consciência mais ampla, capaz de, generosamente, atribuir as colisões humanas não apenas e sempre aos outros - mas, também, às correntezas da Vida que a todos nos arrastam. Afinal, nós também não vivemos dizendo que estamos no mesmo barco? E, no entanto, perdemos o tempo humano que tivemos para aprender essa Generosidade, ao longo da nossa História - e investimos em Máquinas de Destruição, também vazias de generosidade, que agora fazemos colidir com os outros homens. E assim chegamos à continuação, na página Sim de hoje, do assunto da página do domingo passado: Drones: Chegaram os Exterminadores do Futuro. Como um jornal não é um livro, que se pode voltar uma página e reler o que foi dito antes, transcrevo nesta um trecho da anterior, para situar quem não a leu no centro do nosso assunto. Eis:

Os Drones - os Robôs Assassinos os Exterminadores do Futuro, já estão sobrevoando as nossas cabeças, ocupando os céus que nos protegem. De olho em nós, em todos como multidão e em qualquer um especificamente, como o Pan-ótico infernal concebido

pelo filósofo Jeremy Benthan. Programados pela ciência bélica para atirar primeiro, e dispensados por ela de perguntar depois. Eles foram dotados de total autonomia para decidirem quando e em quem atirar. Não dependem de uma ordem humana - nem prestam conta a ninguém. E inocentados a priori - pois uma máquina não pode ser acusada de um crime. E - horror, horror - como ninguém deu a ordem, todos os que as enviam aos céus do mundo como máquinas de matar também são inocentes. Restam as vítimas: que podem ser milhares de pessoas que estão se manifestando nas ruas - como recentemente no Brasil contra a corrupção dos políticos e a incompetência do Governo - ou uma única pessoa, programada na memória mecânica do Drone para ser localizada em qualquer parte do mundo, identificada como inimigo e eliminada sumariamente. Como o jovem Snowden - perseguido pelos serviços secretos dos EUA até os confins da Terra por ter denunciando para o mundo as redes de espionagens que Washington usa para tramar suas conspirações econômicas, políticas e militares contra os países não aliados, ou submetidos aos Estados Unidos da América, como o Irã, ou favorecer seus cúmplices, como a Inglaterra e Israel. Proseguindo com a página de hoje. Mas não são só os EUA que estão inundando os Céus de Drones - Aviões Robôs Assassinos, e aperfeiçoando com a mesma finalidade destruidora os Soldados Robôs Assassinos, seus cúmplices na Terra. Outros países já se lançaram nesta corrida mortal: do Oriente, como a China, ao Ocidente, como a Inglaterra, para citar só dois deles.

As Leis da Robótica Quando Isaac Asimov começou a escrever seus livros sobre robôs, gênero literário que os norte-americanos chamam de ficção científica e os franceses preferem chamar literatura de antecipação, ele teve o cuidado de criar, antes, em seu livro Eu, Robô, como condição para a coexistência dos robôs com os seres humanos, como prevenção de qualquer perigo que a inteligência artificial pudesse representar à humanidade, as 3 Leis da Robótica. São elas: A primeira: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal. A segunda: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por se-

res humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei. A terceira: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis. Depois, no livro Os Robôs do Amanhecer, o próprio robô Daneel viria a instituir uma quarta lei. A Lei Zero: Um robô não pode fazer mal à humanidade e nem, por inação, permitir que ela sofra algum mal. Asimov nasceu na Rússia em 1920 e se foi em Nova Iorque em 1992, trocando bem jovem a Rússia pelos EUA, e além de escritor de ficções imaginativas era um cientista, um bioquímico. Se tornou um dos mestres contemporâneos mais famosos da ficção científica. O outro, Arthur Clark, autor de 2001 Uma Odisseia no Espaço, e, como Asimov, também cientista, um físico. Por que Asimov teve a prudência de criar as Leis da Robótica? Ele sabia que a Ciência sempre usou o Imaginário liberto dos escritores de ficção científica em benefício próprio. Uma dessas apropriações, para citar um exemplo clássico, foi a transformação de uma máquina imaginária, que nasceu trafegando no fundo de oceanos imaginários, em uma máquina real para passou a circular nos oceanos reais. O submarino Nautilus, que o escritor francês Jules Verne criou, no século XIX, em seu romance 20 Mil Léguas Submarinas. As apropriações da Imaginação dos escritores pelos cientistas foram muitas, desde então. Os próprios robôs criados por Asimov foram tomados como referência. E a coisa se tornou frequente já com os cientistas clássicos. Quando surgiram os cientistas teóricos plenamente aceitos pela Física quântica, a Nasa e outros centros de pesquisa passaram a encomendar aos escritores de ficção científica romances que antecipassem suas buscas nos laboratórios e no Cosmos. E assim: - Vamos pedir a Arthur Clark que escreva um romance, usando sua liberdade de invenção, por exemplo, sobre as viagens espaciais além do Sistema Solar. Ele nos dará ideias novas, simulará com que tipo de naves e como poderíamos fazer isso. Aliás, Clark deu a ideia dos satélites

de comunicação em órbita da Terra. Atualmente, é uma prática comum: o escritor faz a experiência inicial com Palavras, como Literatura, com a liberdade inventiva e descomprometida com resultados objetivos - e seu livro passa a circular na comunidade científica que tenta, em seus laboratórios, converter essas palavras em inventos científicos, concreto, e os tornar realidades. Até aí, tudo bem: que a mente científica, mesmo a teórica, intimidada pela Razão Pragmática que no fundo continua a coibindo, use mentes livres dessa Razão que navegam pela Intuição Imaginativa. O que vai se tornando progressivamente mau, e uma deformação criminosa dessa parceria, é quando o cuidado, digamos, Ético, dos escritores, é deixado de lado pelos cientistas - que o separam e jogam fora, como o joio do trigo, e passam a usar apenas o joio - submetidos, cooptados, comprados pelos grandes interesses de governos, instituições militares, industriais e por todas as formas de interesses egoístas e contra os interesses humanos. O caso dos Drones & Soldados Robôs Assassinos é o mais alarmante. Neles, as Leis da Robótica são viradas do avesso e se tornam: Em vez de, a primeira: Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra algum mal. Ela se tornou: Um robô pode ferir um ser humano e, por sua ação, fazer com que um ser humano sofra algum mal. Em vez de, a segunda: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei. Ela se tornou: Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, mesmos nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei. Em vez de, a terceira: Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis. Ela se torna: Um robô deve proteger sua própria existência, mesmo que tal proteção entre em conflito com a Primeira e Segunda Leis. E a quarta lei, criada pelo próprio

Robôs inteligentes: só o rosto é humano

robô Daneel: Um robô não pode fazer mal à humanidade e nem, por inação, permitir que ela sofra algum mal? Ela se tornou: Um robô pode fazer mal à humanidade e, por sua ação, permitir que ela sofra o mal.

A linguagem dos Drones A repórter investigativa Cora Currier fez um minucioso Dossiê sobre o uso humano contra o humano dos Drones & Soldados Robôs. Cora escreve para o site do jornal New Yorker e outras publicações, é pesquisadora para livros de história e política e fez Estudos Sociais na Universidade Harvard. Eis alguns dos jargões usados para acionar essas máquinas de matar: AUMF: Authorization for Use of Military Force/Autorização para Uso de Força Militar é lei do Congresso dos EUA, que dá ao presidente autoridade para usar toda a força necessária e apropriada contra qualquer pessoa ou grupo. Bush e Obama exigiram para si amplos poderes para deter e matar suspeitos, baseados nessa lei. AQAP: Al-Qaeda in the Arabian Peninsula/Al-Qaeda na Península Arábica é o grupo afiliado à al-Qaeda que tem base no Iêmen. Os EUA aumentaram o número de ataques com Drones no Iêmen, nos quais foram assassinadas pessoas não identificadas como militantes. GLOMAR: É a resposta a um pedido de informação sobre programa secreto, cuja existência não possa ser nem confirmada nem negada. A CIA agora responde assim a qualquer pergunta sobre seu programa de Drones: - Glomar. JSOC: Joint Special Operations Command/Comando Conjunto de Operações Especiais é um segmento militar altamente secreto que conduz o programa dos Drones no Iêmen e na Somália. PERSONALITY STRIKE/Ataque a personalidade. Ataque uma pessoa apontada como líder terrorista. SIGNATURE STRIKE/Ataque assinatura. Ataque contra algum suspeito de ter atividade política militante, mesmo que sua identidade seja desconhecida. Esses ataques se baseiam na análise de um padrão de vida - informações que a CIA reúne sobre comportamentos que a levem a catalogar alguém como um perigo. Esse tipo de ataque foi Bush quem inaugurou no Paquistão e agora é autorizado por Obama também no Iêmen. TADS: Terror Attack Disruption Strikes/Ataques para interromper ação terrorista. Expressão usada para ataques em que não se conhece a identidade do alvo a ser assassinado. Apesar de tudo, em um mundo assim, eu ainda acho que nós podemos, sim, nadar contra essa correnteza atroz. - Ver o outro como um barco vazio. E deixar cada um viver sua vida cheio de vida e em paz.


Sim 43 Drones II: Dos filmes para a vida