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Belém, quarta-feira, 28 DE março de 2007

oliberal

ATUALIDADES n 3

sim

vicente cecim vicentefranzcecim@gmail.com

É possível ser Sísifo feliz? Meditação não é fuga. Também não é algo misterioso. Da meditação nasce a vida pura e sagrada. E, então, você trata todas as coisas como sendo sacras. KRISHNAMURTI

N

estes tempos aflitos da temível palavra stress é possível alcançar a paz pessoal? Ou estamos condenados àquilo que o poeta russo Boris Pasternak, autor do mundialmente célebre – apesar de proibido na Rússia stalinista romance Doutor Jivago, definiu em uma frase: “Viver não é passear por um jardim”? Estamos condenados pelos deuses, como o Sísifo do mito grego, a rolar montanha acima uma pedra que sempre cairá? Muitos são os caminhos para a vida serena apontados pelas religiões autênticas – e vendidos pelas mercenárias – e há quem esteja tentando há muitos anos alcançá-la também pela psicanálise – Wood Allen, por exemplo, que sustenta seu analista há décadas, sem receber alta – ou pelas drogas. O certo é que não se sabe mais quando o caminho se torna um desvio, e grave, até mesmo da mera vida estressante para algo muito pior. A dependência supersticiosa fanática, a dependência prolongada do analista ou a, fulminante, porque pode ser destruidora, dependência química. Mas consta que, apesar de tudo, o Caminho existe e há muito, muito tempo, foi colocado à disposição de qualquer um por Buda, o Desperto, Siddhartha Gautama. Por volta do século VI AC, Gautama nasceu no atual Nepal, filho do rei Suddhodana, que queria porque queria para o filho o destino de um rei e tentou por todos os meios dele esconder os sofrimento do mundo. Mas um dia Gautama viu um homem velho e seu cocheiro Chandaka lhe disse que a vida era assim, que todas as pessoas envelheciam, e mais:

dade é que eu estava em fuga fosse do que fosse que a vida estava me doando então - pois me doía - eu estava cometendo a mais bruta violência que se pode cometer exatamente contra o que dá sentido à existência: a unidade de todas as coisas.

morriam. Foi a gota d’água: Gautama deixou o palácio e sumiu montado em seu cavalo Kanthaka para viver como mendicante e asceta. Conta a lenda que os “cascos do cavalo eram abafados pelos deuses” para impedir que os guardas soubessem de sua partida. Gautama sentou-se sob uma árvore durante longos anos, a Árvore de Bodhi, disposto a não se levantar enquanto não descobrisse a verdade. Quando veio a aluminação, compreendeu as causas do sofrimento e os caminhos para eliminá-lo. Elas estão expostas em suas Quatro Nobres Verdades, o coração dos ensinamentos budistas. Realizadas, elas podem levar ao Nirvana, um estado de suprema liberação, como se disse, ao alcance de qualquer ser – e se torna possível viver em perfeita paz mental livre da ignorância, inveja, orgulho, ódio e outros estados aflitivos. O Nirvana é o fim do Samsara – que o atual Dalai Lama chama de aflições mentais – e sobre o qual o nosso poeta Max Martins fez o poema Nirvana Samsara. Siddhartha também inspirou o romance de Hermann Hesse.

Alcançar o Nirvana estaria ao alcance de qualquer um? Ou só daqueles que nascem sob estranhos e transcendentes encantamentos. Ou milagres? Afinal, no Oriente, o Mahapadana Sutta e o Acchariyaabbhuta Sutta contam que durante o nascimento de Bu-

Naquele banco escuro – se deu então uma Clarão – e tudo se iluminou.

Ticiano - “Sísifo”

da o bodhisattva de Tusita desceu dos céus para o útero de sua mãe. E Jesus, o Cristo, o iluminado ocidental, além de nascer de uma virgem também foi anunciando por um Anjo. E nós – que nascemos hoje em dias em hospitais – os que podem pagar – ou ainda ajudados por vizinhas caridosas nas casas muito pobres? Bem, temos agora as chamadas Redes Sociais - em que todos estão sós mas se sentindo - pelo menos virtuamente - juntos, e diante do computador experimentam seus momentos de alegria, e conversando com amigos afastam por algum tempo as tais aflições mentais. Web Nirvana? Tratar disso pede toda uma outra profunda imersão, que não caberia aqui neste espaço e ficará para um próximo. Hoje, vamos ouvir o que teve a nos dizer sobre iluminação pessoal e vida serena alguém que nasceu como nós - sem milagres, alem do milagre que já é nascer – e viveu como nós: natural e simplesmente. Krishnamurti. A minha descoberta do sábio indiano Jiddu Krishnamurti - que aqueles que o amaram chamavam carinhosamente de Krishnaji - se deu uma tarde, num banco de praça. Momento terrivelmente ruim da

minha vida - desses desvãos em que se cai numa escuridão por dentro e numa escuridão por fora e então se passa a vagar nas névoas e os dias se transformam em noites e o próprio Sol se oculta dos sentidos - desaparece no Céu. Ao cair naquele banco, exausto de existir - embora, como se diz, ainda na flor da idade: eu era uma flor, mal nascida e já morrendo, vejam só - também me caiu nas mãos um livro de Krishnamurti. Foi o primeiro. E funcionou como, digamos, uma âncora inversa, pois me trouxe à tona de mim mesmo. E o que foi que o Krishnamurti me ensinou naquele banco de praça? Ensinou algo tão evidente, que só depois de visto a gente se pergunta, espantado: - Como é que eu não vi antes? Ensinou que o observador é a coisa observada. E o que isso? É isto: ao me separar das coisas como elas são - por temor, aversão, incapacidade de assumir o presente qualquer que ele fosse naqueles dias sombrios ou seja agora, e as devidas responsabilidades pelos meus atos & suas consequências, quaisquer que elas fossem ou sejam, e separar a vida entre eu & Ela, Vida - pois a ver-

Krishnamurti: na Via da Meditação Ter a percepção daquilo que somos, com absoluta certeza, e examinar o que está acontecendo verdadeiramente no agora é permitir que o movimento integral do ser, do mim, se revele. E surgirá uma transformação radical, se não houver passado e nenhum observador, que é o próprio passado. Neste caso, obviamente, não há lugar para a autoridade. Não existem também intermediários entre sua observação e a verdade. Ao fazermos isso, nos tornamos uma luz para nós mesmos. E não precisamos perguntar a ninguém, em momento algum, o que fazer. Na nossa própria ação de observar está o ato, e a transformação acontece. Sinta-a. Ter a liberdade para observar e, consequentemente, nenhum tipo de autoridade, é essencial. Logo, a busca pela experiência, que todos nós desejamos, deve chegar ao fim. Vou lhes mostrar por quê. Todos os dias passamos por diversos tipos de experiências. Recordá-las é mantê-las na memória, e a memória distorce a observação. Se, por exemplo, você é católico, você se condicionou durante dois mil anos a todas as suas ideologias, crenças, dogmas, rituais, ao salvador, e deseja provar aquilo que chama – seja lá o que for. Vai pôr em prática seja lá o que for, porque está condicionado. Na Índia

Jiddu Krishnamurti

acreditam em diversos deuses, estão condicionados a eles, têm visões desses deuses, e os enxergam conforme seu condicionamento. Quando nos aborrecemos com as experiências físicas, queremos outros tipos de experiências, principalmente a espiritual, para descobrirmos se Deus existe, se podemos vislumbrá-Lo. E, segundo seu passado, você terá visões e experiências, porque sua mente foi assim condicionada. Cuidado, veja quais as implicações contidas nas experiências. O que é necessário numa experiência? A presença do experimentador. O experimentador consiste em tudo aquilo pelo qual ele anseia, tudo que lhe foi dito, enfim, seu condicionamento. Ele quer experimentar

algo que chama de Deus, nirvana, ou qualquer outra coisa. Então, ele vai experimentar. Porém a palavra experimentar implica reconhecimento, e reconhecimento significa que você já conhece. Portanto, não é algo novo. Quer dizer que a mente que busca uma experiência, na verdade, está vivendo o passado, e não há como compreender alguma coisa nova, original. Então, é necessário livrar-se do desejo de experimentar. É extremamente árduo vivenciar esse tipo de meditação, porque todos pretendemos ter uma vida fácil, confortável, feliz, isenta de problemas. Quando surge algo difícil, que exige toda nossa atenção e energia, dizemos: “Acho que isso não me serve, vou procurar outro caminho.”

Agora, observe seus medos, prazeres, tristezas e toda a complexidade contida nos relacionamentos diários. Observe tudo atentamente. Observar significa que não há um observador, portanto, não há porque reprimir, negar, aceitar, mas apenas observar o seu medo. Quando o medo está presente, ele distorce a percepção. Quando estamos em busca do prazer, também. A tristeza traz consigo uma carga pesada. Nesses casos, a mente que está aprendendo a meditar deve abandonar tudo isso e compreender diariamente o que são os relacionamentos. Estes são muito mais árduos, porque nos relacionamos nos baseando na imagem que criamos uns dos outros. É muito importante entender este fato para que possamos nos aprofundar na questão da meditação. Não é à toa que pouca gente consegue meditar correta e adequadamente. (...)

Meditação é o senso de total compreensão da vida como um todo. É o absoluto silêncio da mente. Apenas nesse completo e inalterado silêncio está a verdade.

Acreditem se puderem: iluminou dentro e, se ampliando, ao meu redor, fora de mim. Naquele tarde, naquele banco de praça, naquele dia antigo daqueles anos distantes, dia submerso em trevas, como já foi dito, Krishnaji foi quem me fez entender que o Sol desaparecido para mim - não havia sumido para as outras pessoas. Que os dias continuavam claros e luminosos para aqueles que não estavam em fuga, se ocultando, se separando da vida por temor à vida, e estavam escuros somente para mim: para mim que havia me tornado o observador separado da vida observada. Mas certamente não foi uma iluminação como a de Buda – porque ainda não aprendi a me tornar instantaneamente as coisas observadas - o que o budismo diz, e tempos depois me diria, com outras palavras: - Tu és aquilo. Mas foi um começo: naquele banco fiquei sabendo que o pior que podemos fazer com nós mesmos é nos separarmos da Vida, quebrarmos a Unidade. Daria um livro falar de como essa compreensão tem me ajudado a permanecer, resistir e superar muitas situações em que tenho ímpetos de fugir - por temor, aversão, incapacidade de assumir o presente, qualquer que ele seja em dias sombrios, e as devidas responsabilidades pelos meus atos & suas consequências, quaisquer que elas sejam - se alguma coisa me dói. Pois há coisas que doem e coisas vão nos doer – a menos que saibamos em vez de alimentar, desnutrir a dor.

Há uma via para a Felicidade? Segundo Krishnamurti, há – através da Meditação. O antigo Homo Faber pode desnutrir um pouco a dor - fazer uma casa para se abrigar do mau tempo das cavernas foi uma das suas contribuições à espécie. E o mais recente Homo Sapiens que se desenvolveu em nós pode dar sua contribuição nos ajudando a entender que a dor faz parte da existência humana e como podemos deixar de alimentar o animal da dor com as nossas próprias mãos. Mas eu espero a contribuição incomparavelmente superior do Homo Ludens - que está vindo ou já veio e poucos de nós perceberam – aquele que se deixa jogar pela vida enquanto joga o jogo da vida. Talvez no sonho de uma divindade – segundo as palavras de Angelus Silesius que citei em um livro de Andara: “Ao criador agrada o jogo de criar. A criatura é o seu gosto de brincar.” Krishnamurti foi uma manifestação desse homem lúdico. E não espere que um livro dele caia no seu colo em um banco de praça sombrio. Corra para a livraria mais próxima. Albert Camus escreveu: É preciso imaginar Sísifo feliz. Não apenas ver Sísifo rolando a pedra montanha acima, e tendo que descer para subir com ela outra ver, pelos séculos e séculos. Mas vê-lo quando está descendo para buscar de novo a pedra, livre do seu peso, brincando, cantando – e demorando o quanto quisesse – porque os deuses que o condenaram ao suplício se esqueceram de determinar o tempo da descida. Tentemos não apenas imaginar, mas ser, sim – Sísifo feliz.

eporquenão?


Sim 2 é possível ser sísifo feliz vicente franz cecim