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Belém, domingo, 15 DE dezembro de 2013

magazine n 11

sim

vicente cecim

vicentefranzcecim@gmail.com

Michaux: o Poeta e o Macaco

Escrever é percorrer a si mesmo. Aliás, escrever e viajar são coisas parecidas, são duas técnicas da alma. Exatamente como amar. HENRI MICHAUX

V

ocê sabia que foi um macaco do Museu Emílio Goeldi quem revelou a um dos mais belos e originais poetas do século XX, o belga Henri Michaux – o que é o Homem? Pois nesta página Sim você vai saber como isso aconteceu. Na nossa adormecida cidade. E a cidade nunca soube. E, também, provavelmente vai receber a sua própria Revelação da Poesia de Michaux - um poeta esquecido pelos mercantis editores brasileiros, que nossos leitores só podem ler no original, em francês, ou nas traduções feitas em Portugal, mas que não chegam ao Brasil. O encontro de Michaux com o nosso macaco é contado pelo próprio poeta no seu livro Equador, que li em uma tradução para o espanhol, achada em Madri. E foi assim. Mas, antes, é bom saber mais sobre Michaux para ter a dimensão do impacto desse acontecimento – que certamente se refletiu, pela importância que o poeta então muito jovem deu a ele, em Belém, no despertar de uma obra que abalou a literatura mundial. Paciência, logo conto. Primeiro – quem foi Henri Michaux? Ele mesmo nos diz, com uma frase, em um dos seus livros mais surpreendentes: Les grandes épreuves de l’esprit/ As grandes provas do espírito: - O ser escapa e transborda por todos os lados. E sua vida, ao longo de 85 anos – de 1899, quando nasceu em Namur, na Bélgica,

a 1984, quando se despediu de nós, em Paris – foi esse transbordamento. Michaux dedicou toda ela a interrogar o nosso eu e o mundo, através de viagens reais e imaginárias, sonhos, poemas, pinturas e também experiências com alucinógenos. No começo, queria se tornar padre, mas foi dissuadido pelo pai. Passou por uma crise religiosa. Foi estudar Medicina. Abandonou tudo e se lançou em viagens por toda a Terra, resultando de uma delas, em 1933, o seu livro Un barbare en Asie/Um bárbaro na Ásia. De outra, feita antes à América do Sul, imergindo na Amazônia, surgiu o livro Équateur/Equador, em 1929 - que começou pelos Andes e terminou aqui, em Belém – e é a viagem que agora nos interessa – mas, Paciência, pr at i q u e m o s essa Virtude . Siga mos com Michaux. Foi por essa época que a descoberta de Lautréamont o levou a começar a escrever. Lautréamont? Quem? O também alucinatório poeta uruguaio Isidore Ducasse que com o nome Conde de Lautréamont igualmente abalou a literatura, no século XIX, escrevendo Les Chants de Maldoror/Os Cantos de Maldoror e, junto com Arthur Rimbaud, inspirou o Movimento Surrealista. Além dos textos de viagens – vividas & imaginadas - e poemas, Michaux começa a pintar. Lhe interessavam Paul Klee, Max Ernst, Giorgio de Chirico e Salvador Dali. Em 1937, fez sua primeira exposição. Ilustrou seus livros de poesia. Editou a mítica revista

Hermes. Sofreu os horrores da Segunda Guerra Mundial. Aos 57 anos, começou a usar mescalina e haxixe – ele queria ir além dos estados de percepção convencionais – e sobre esse assunto fez um filme. Michaux foi premiado, em 1960,

na Bienal de Veneza. Mas cinco anos depois recusou o Grande Prêmio de Literatura a ele dado na França. Afinal, como o grande homo ludens que havia se tornado, o que ele gostava mesmo, após essa intensa busca de um sentido mais

amplo para a Vida, era de brincar com seus dedos, que considerava seus melhores companheiros, deitado em sua cama – como relata em seu livro Minhas propriedades – que li em tradução para o português, feita em Portugal, é claro.

A Lição do Macaco

Poemas de Henri Michaux Notas de Botânica Neste país não há folhas. Percorri várias florestas. As árvores parecem mortas. Erro. Elas vivem. Mas não têm folhas. A maioria com o tronco muito duro, tendo em toda parte apêndices fininhos como peles. As Barimas, semelhantes a espectros, inteiramente cobertas por tais asas vegetais; levantam-se, vemos voar a pessoa escondida. Não, o que está embaixo é só um tronco. Há também, na floresta Ravgor, de pequenas árvores sem galhos, encorpadas e crespas como cestos. Os Karrets, eretos até a altura de cinco ou seis metros, onde de repente obliquam, apontam e partem-se como peixes-espada rumo às vizinhas. Outras, com grandes ramos dançantes, flexíveis demais, serpentinas. Outras, com curtos e firmes ramos e toda em garfos. Outras, todo ano, formam uma lenhosa cúpula. As encontramos enormes, velhas, carapaça sobre carapaça, e se pega um incêndio na floresta (nunca se sabe), cozinham a fogo baixo, sozinhas, durante seis, sete semanas, até que tudo em volta, sobre as trilhas, não seja nada além de cinzas e a frieza da natureza mineral. Outras, que se estendem sob a chuva e rincham; Acreditaríamos estar numa floresta de couro. As árvores em profusão de cachos, e árvores amplificando-se.

Árvores com rostos cavados nas extremidades, e portanto duas tiras. Por grande vento foram trazidas estas fisionomias, e voavam, ou melhor, flutuavam lentamente, como peixes, peixes que vão enfim reconquistar o rio após uma viagem penosa, mas o vento lhes caçava e eles iam se empalar nas árvores-garfos, ou, em centenas, reviravam-se ao chão formando um imenso tabuado de berlindes, amontoando-se e risonhas. Os Badeges têm raízes alpinistas. Uma raiz sai de repente, vem apoiar-se contra um ramo imponente, com ar de uma cenoura monstruosa. E nela há outras, a casca de seu tronco abre-se ao dia, como capôs de automóveis com suas frestas de ventilação, e à noite fecham-se estritamente, e não acreditaríamos nunca que elas tivessem sido abertas uma vez. Os indígenas se nutrem de uma amêndoa cuja carcaça é extremamente dura. À tarde eles as colocam nas fendas das árvores, e retiram-nas de manhã, já rompidas, prontas para comer. A árvore mais agradável é a Vibon. A árvore de lã. Viver em sua coroa: é de se ambicionar. Seus galhos têm uma quantidade inumerável de ramificações, e cada um secreta uma antena de lã, de modo a existir ali uma grande cabeça lanosa. É o Buda da floresta. Mas acontece que os Balicolica (estes são pássaros) vêm habitá-la. Cagam em toda parte. E então é um odor infecto que aí se forma, e faz a árvore arder. A árvore de armação de guarda-chuva;

outras inteiras em brânquias, se você as acerta com um golpe forte, caem abrindose como um maço de cartas. Outras com a cabeça esponjosa, e se por distração penetramos a mão nela, um líquido pardo esguicha pra todo lado. O Kobo, que produz três abas de madeira todo ano, e apodrecem em novembro, e por um nada se desprende e caem em cima de você como grandes biombos. Os Romans, sem altura nenhuma, dificilmente a coroa sai da terra, isso lhe é suficiente, porém amplas… amplas. Às vezes, se vê planícies e é uma floresta que está, uma floresta de Romans. Os galhos repousam sobre o chão, alongados como serpentes, e os mais jovens: podemos vê-los avançar, e, se o solo é arenoso e seco, os escutamos. Nos galhos em arcos das Riquátes, símios passam e saltam continuamente. O tronco das Comaravas não é cilíndrico. Sua forma é aquela dos pianos de cauda, vistos do alto. Mas são tão altas quanto torres, e sem galhos. Têm tal massa de madeira, francas, que não se dissimulam como o fazem as árvores das regiões temperadas, sempre prestes a tornarem-se folhosas; reunidas em quinze ou vinte, elas formam menires de madeira. São curiosas estas reuniões (quase alinhamentos), talvez seja porque elas matam em torno delas tudo quanto vive. Mas porque não são nunca mais de quinze ou vinte? E entre elas, não poderia crescer nem mesmo o capim, ou os musgos, esfome-

ados como são, apesar de seus ares de pedra. O solo é liso e seco e os insetos não passam por ele – clareiras, templos. Há também pequenos arbustos. Tais plantas saem do chão como mãos. Elas constituem o mato. Parecem querer vos folhear. É preciso cortá-los para passar, e eles sangram abundantemente um líquido azul violeta que mancha forte e a mancha não sai. A caminhada mais penosa é a nos Comvodges. Saem da terra os milhares de fios. Amassam-se sobre o solo até a altura de uns dez metros. Ao meio, caminha-se como sobre colchões perfurados, o equilíbrio quer fugir a cada passo. Aqui a relva atinge até sete metros de altura. Nada atravessa. Mesmo as serpentes fazem um desvio. É a vegetação mais fechada que há. O centro de um campo desses não vale nada, vegeta. Somente as bordas vivem, absorvem tudo. No centro a escuridão se faz, como no interior de um corpo. Frequentemente chegam-lhe parasitas. Entram no oco do caule. O caule é verde e tenro. O parasita é pardo, o vemos subir e descer em transparência, como uma seiva negra, como café. Assim que deixarem o campo, pode-se estar seguro de que não resta mais nenhuma vida. Então o primeiro vento que vem abate as varetas, triturando-as. Todo o campo, alto como uma casa, desaba; o horizonte é refrescado, mas o cultivador se lamenta.

Se sua nudez ganharia em ser alterada, eu a altero imediatamente. Isto será meu presente. Se, entretanto, vejo passar outra mulher mais agradável, me desculpo junto à primeira e faço-a desaparecer imediatamente.

A simplicidade O que faltou à minha vida até agora foi, sobretudo, a simplicidade. Começo a mudar pouco a pouco. Por exemplo, agora, saio sempre com a minha cama, e quando uma mulher me agrada, pego e deito com ela imediatamente.

As pessoas que me conhecem supõem que eu não sou capaz de fazer o que digo aqui. Que não tenho temperamento. Eu acreditava nisso também, mas isso vinha de eu não fazer tudo como me agradava.

Se suas orelhas são feias e grandes, ou então seu nariz, eu os removo junto com as roupas e os coloco embaixo da cama, e ela, ao partir, pega de volta; só guardo o que me agrada.

Agora tenho sempre boas tardes. (De manhã eu trabalho.)

Pintura de Michaux Traduções: Henrique Rocha de Souza Lima

Bem, como não se deve abusar da paciência do próximo, já é hora de contar como o nosso macaco teve um papel decisivo nessa vida insaciável e fecunda, em um momento decisivo das buscas de Henri Michaux, quando o poeta ainda tinha apenas 30 dos longos 85 anos que viveu. Foi assim. Em um navio mercante francês, trabalhando como foguista, Michaux chegou à América Latina. Mergulhou na floresta amazônica de corpo e alma, em íntima convivência com a Natureza e os povos nativos, longe da Velha Europa e seus vícios de viver, sentir, pensar. Experimentou tudo, fez descobertas. Desceu dos Andes para o Rio Amazonas e veio vindo em direção do Atlântico. Chegou a Belém – anônimo, desconhecido, ignorado. Fez várias visitas ao Museu Emílio Goeldi. Ele encerra o livro Equador contando o que então testemunhou. Conto com as minhas palavras: Havia no museu um macaco que aguardava a chegada do homem que trazia as bananas com verdadeira Devoção. E quando o homem chegava o recebia como o seu melhor Amigo: fazia mil festas para ele, dava cambalhotas, ria, tentava lhe fazer carinhos através das grades da jaula. Mas o homem se mantinha frio e indiferente. Um dia, Michaux disse ao homem: - Ele ama você, não percebe? E recebeu dele a resposta: - É uma pobre besta, não sabe nada! Michaux – que, como foi dito lá no começo, desde jovem queria se devotar ao humano – primeiro como um religioso, depois como médico e agora viajava pelo vasto mundo como uma Pergunta viva – diz que a Indiferença do homem das bananas, em Belém do Pará, lhe revelou, não o que era o macaco - mas o que é isso que somos: o Homem. Um acontecimento pacificamente brutal que o marcou, assim, para toda a sua vida.

Sim 28 michaux o poeta e o macaco  

Como um macaco revelou a Henri Michaux na Amazônia em 1929 o que é o Homem

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