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Belém, domingo, 8 DE dezembro de 2013

oliberal

magazine n 11

sim

vicente cecim

vicentefranzcecim@gmail.com

As Fontes da Alegria

O homem é o único animal que ri e chora golpeado pela diferença entre o que as coisas são e o que elas deveriam ser. WILLIAM HAZLITT

D

iante da inegável verdade da frase de Hazlitt citada aí no alto, que confirmamos a cada dia em nossa própria pele, qual é a saída? E há uma saída? Eu vi uma – que tento praticar e chamo de Viver sem viver: Viver. Muito enigmático? Parece, embora no fundo possa ser simples de entender. Já tentei que fosse entendida em outra página Sim com o título Faz de Conta. Lá, afirmei uma convicção pessoal, extraída do meu Manifesto Curau, esta: Nossa irRealidade só se tornará Real quando o nosso Imaginário a recriar, a nosso favor. E vieram em meu apoio dois pensadores atuais, que não custa citar novamente aqui. “Proponho a vocês nada menos que uma geral e maciça divisão dos existentes em dois grandes grupos ou classes: de um lado, os seres viventes (ou, as substâncias), e, do outro, os dispositivos em que esses seres são constantemente capturados. Isto é, de um lado, para retomar a terminologia dos teólogos, a ontologia das criaturas, e, do outro, a eikonomia dos dispositivos que procuram governá-las e guiá-las para o bem.” GIORGIO AGAMBEN: O que é um dispositivo? “Proponho que, assim como o peregrino foi a alegoria mais adequada da estratégia da vida moderna, preocupada com a difícil tarefa da construção da identidade, o andarilho, o vagabundo, o turista e o jogador oferecem conjuntamente a metáfora para a estratégia pós-moderna, movido pelo horror de se estar preso e fixo.” ZUGMUNT BAUMAN/Vida em fragmentos. No Ocidente, poderia ter ido buscar mais longe. Por exemplo, em Platão, que afirmava ser o mundo sensível uma cópia do mundo das ideias, que nossa percepção do visível dependia das leituras de cada indivíduo e que, a priori, sua realidade é ilusória. No Oriente, poderia ter ido ainda mais longe e citar, como reforço ao meu Viver sem viver: Viver o próprio Gautama Buda e sua compreensão do visível como uma delusão – isto é: uma ilusão da qual todo o Universo, tacitamente, participa – homens e estrelas – e que por isso se apresenta como o Real. Mas para que ir tão longe? A irrealidade do chamado Real parece cada vez mais estar se impregnando em nós com tanta facilidade, que, tudo indica, ao ser mostrada até mesmo no filme Matrix possivelmente garantiu sua imensa aceitação em todo o mundo – como um sentimento de alívio e uma sensação de libertação. Matrix misturou física quântica com metafísica – e sua compreensão por todos foi evidentemente facilitada por estarmos já familiarizados com a existência de um mundo virtual. Mas isto é só uma página de jornal, sem muita profundidade. Você já

tentou medir quantos milímetros tem uma página de jornal? Então, se ao longo dos tempos a Humanidade vem se fazendo profundas perguntas para escapar ao golpe de Hazlitt, não serei eu em uma página de jornal que mergulharei mais além. Ao contrário, proponho que nos desviemos dos dualismos real/irreal e tomemos uma Via menos mental, mais natural, e usemos um recurso que já temos em nós, animais humanos. Qual? O Riso. Chamemos isso de desviar pelo Saber. Sendo o homem o animal que ri e chora atingido pela diferença entre o que as coisas são e o que elas deveriam ser – não parece que, como disse Simone Weil – já temos em nós tudo o que precisamos? Ou melhor, que se trata não de buscar respostas, mas de fazer opções?

Buster Keaton e a Arte de fazer rir sem nunca rir

Os Doadores de Alegria Já houve tempos em que os homens riam mais e choravam menos? Talvez. Os motivos sempre variaram para uma coisa ou outra, conforme os passos tortos da História, tendo a alegria e a tristeza sempre nos acompanhado tão de perto quanto às nossas sombras. Mas uma coisa sabemos: sempre houve homens que se devotaram a inclinar a Humanidade para o lado do Riso e, assim, puxá-la das sucções da tristeza. Foram palhaços de circo e feiras, bobos de cortes – criados para ridicularizar o Rei de modo que o Poder não o enlouquecesse – e manipuladores de bonecos – dos fantoches ocidentais aos bonecos do teatro japonês Bunrako, dos quais é herdeiro o nosso In Bust – e mímicos, contadores de anedotas, imitadores, fazedores de paródias. Suas artes são mil e uma. Tudo por um riso. Como a página além de rasa e estreita, e o assunto é vasto, tentemos dizer o máximo com o mínimo de palavras. E vamos nos restringir ao que aconteceu ao Riso, apenas deste lado ocidental da Terra. E, especificamente, na Europa. Com o surgimento da Escolástica, o riso foi marginalizado pela associação da Igreja com o Estado. Segundo Bakhtin: O riso na Idade Média estava relegado para fora de todas as esferas oficiais da ideologia e de todas as formas oficiais, rigorosas, da vida e do comercio humano. O riso tinha sido expurgado do culto religioso, do cerimonial feudal e estatal, da etiqueta social e todos os gêneros da ideologia elevada. O tom sério exclusivo caracteriza a cultura medieval oficial. Mais tarde, na transição para o sé-

Laurel & Hardy: Humor inocente

Harold Lloyd e os riscos do corpo: O Homem Mosca

Charles Chaplin contra Hitler: O Grande Ditador

culo XVIII, o ato de rir foi ainda mais hostilizado quando contra ele se uniram também os emergentes escritores dos chamados livros corteses. Segundo Skinner: Talvez a principal origem dessa hostilidade possa estar ligada a uma exigência de altos padrões de decoro e alto controle. Um importante aspecto desse assim chamado processo civilizador toma a forma de um apelo por respeito mútuo e comedimento. [...] O riso começou a ser visto como um tipo de grosseria nos dois sentidos do termo: tanto um exemplo de incivilidade e indelicadeza quanto como uma reação descontrolada e, portanto, bárbara, que precisava, numa sociedade educada, ser dominada e, de preferência, eliminada. Foi longo o exílio do rir em público. Mas nós não somos o tal único animal que rir e chora? Logo, nem Lei nem Ordem podem nos salvar das lágrimas, nem nos proibir de rir. E voltamos a rir. O humor invadiu a nova arte cinematográfica nascente em fins do século XIX e o Cinema Mudo abriu todas as gargantas para muitas gargalhadas e fechou os olhos para as lágrimas. O pioneiro foi Georges Mélliès que pôs a serviço do Riso o seu aliado mais poderoso: a Imaginação. Quando aquele astronauta correu na Lua – ferozmente recriminado pela Nasa por estar pondo em risco a missão – quem sabe ele não foi tomado pela Alegria da imagem, vista quando criança, da tosca nave espacial lançada na Terra que fura o olho da Lua da Viagem à Lua, de Mélliès? Mélliès foi o primeiro a fazer o Cinema rir. E abriu o caminho para

Groucho Marx: A vida como humor Groucho Marx, pseudônimo de Julius Henry Marx, nasceu em nova Iorque em 1890 e fez do absurdo e do paradoxo a sua característica como humorista. Foi o principal dos Irmãos Marx, com Harpo e Chico. Além do cinema, fez humor no teatro, rádio,

televisão e escreveu livros. No rádio, um dos seus programas era feito de perguntas difíceis ao público. Por exemplo: - Quem está enterrado no túmulo do presidente Grant? Ou: - Qual é a cor da Casa Branca? Certa vez, na televisão, perguntou a uma mulher

porque tinha tantos filhos. – Porque amo meu marido, ela respondeu. E Groucho: - Eu amo meu charuto, mas eu o tiro de vez em quando. Groucho tinha princípio rigorosos, como este: - Eu nunca faria parte de um clube que me aceitasse como sócio. Em seus

filmes, ninguém resiste quando ele diz: - Eu nunca esqueço um rosto, mas no seu caso, vou fazer uma exceção. E quando lhe perguntaram: - Você bateria em uma mulher com uma criança? Respondeu: - Claro que não. Bateria com uma cadeira.

Eis algumas de suas frases célebres: •Eu fui casado por um juiz. Eu deveria ter pedido por um júri. •Acho a televisão muito educativa. Toda as vezes que alguém liga o aparelho, vou para outra sala e leio um livro. •O matrimônio é a principal causa do divórcio. •O casamento é uma grande instituição. Naturalmente, se você gostar de viver em uma instituição. •Só há uma forma de saber se um homem é honesto. Pergunte a ele. Se disser sim, então você sabe que ele é corrupto. •Eu corri atrás de uma garota por dois anos apenas para descobrir que os seus gostos eram exatamente como os meus: Nós dois éramos loucos por garotas. •Eu não posso dizer que não discordo de você. •Eu pretendo viver para sempre, ou morrer tentando. •Eu bebo para fazer as outras pessoas interessantes. •Eu quero ser cremado. Um décimo das minhas cinzas deve ser dado ao meu agente, assim como está escrito em nosso contrato. •Case-se comigo e eu nunca mais irei olhar para outro cavalo! •Inteligência Militar é uma contradição em termos. •Do momento em que peguei seu livro até o que larguei, eu não consegui parar de rir. Um dia, eu pretendo lê-lo. •Por que eu deveria me importar com a posteridade? Ela nunca fez nada por mim. •Por trás de cada homem de sucesso há uma mulher, atrás dela está a esposa dele. •Eu me lembro da primeira vez que fiz sexo. Guardei até o recibo. •Um brinde a nossas esposas e namoradas: que elas nunca se encontrem!

todos os doadores de alegrias que vieram depois. Max Linder, Charles Chaplin – que disse: Através do humor vemos no que parece racional o irracional e no que parece importante o sem importância, Buster Keaton, Harold Lloyd, Laurel e Hardy – que as crianças conhecem como o Gordo e o Magro – que usavam o humor visual, sem ainda os recursos do som. O que levou muita gente a lamentar que, com o surgimento do Cinema Falado, o humor cinematográfico desapareceria. Não aconteceu. E, pelo contrário, além de surgirem os humoristas que usavam a mímica e a palavras – com Jerry Lewis – um grande e ousado gênio do humor optou por fazer seus filmes todos como se o cinema falante não existisse: Jaques Tati. Mas eu deixei para o fim duas coisas. Uma delas é uma Ideia, ou Caminho de Vida. A outra é um Nome, que, por si só, foi todo um Desvio da vida vivida como um Vale de Lágrimas: Groucho Marx. A Ideia: sendo a Vida tanto o que nos contém, por fora, quanto o que contemos, por dentro – não parece que podemos agir sobre ela, e nela, com muito mais liberdade de opções do que pensamos, ou nos permitimos? Peço que lembre o que propus lá encima: Nossa irRealidade só se tornará Real quando o nosso Imaginário a recriar, a nosso favor. Também que leve em conta Platão dizendo que - o mundo sensível é uma cópia do mundo das ideias, que nossa percepção do visível depende das leituras que dele fazemos. Que considere a compreensão de Buda do visível como uma delusão: ilusão da qual todo o Universo, tacitamente, participa. E, por fim, leve a sério a fé da doce e feroz Simone Weil, dizendo: já temos, em nós, tudo o que precisamos. Talvez um pouco de filosofia pesada, de Ontologia, ainda seja necessário para lhe convencer. Então, eis, Heidegger, dizendo: A pedra é sem mundo. Plantas e animais da mesma forma não possuem mundo, esses pertencem ao bloqueio velado de um ambiente no qual estão suspensos. A camponesa, ao contrário, possui um mundo, porque habita no aberto do ente. Esse aberto do Ente é aquela passagem pela qual o Ser em nós encontra sua liberdade para agir na e sobre a Vida. Mas se tudo isso for muito complexo e não lhe ajudar na sua opção entre Lágrimas e Risos, veja como você já vive – e aceitou, sem questionar – o mundo virtual de Matrix em sua vida. Já não vimos tantas vezes esse outro filme - a Dor e suas tristezas? Tentemos um mundo moldável, aberto a escolhas, no qual nós, o único animal que ri e chora, possamos preferir rir – sim - a chorar.


Sim 27 as fontes da alegria vicente franz cecim