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Belém, domingo, 10 DE novembro de 2013

magazine n 11

sim

vicente cecim

vicentefranzcecim@gmail.com

Rumi e a Dança Cósmica Vêm Te direi em segredo aonde leva esta dança RUMI

C

onsta, mas só Alá tudo sabe, que um dia, no século XIII, na cidade de Konya, na antiga Pérsia, o jovem sábio, poeta e místico Jalal ud-Din Rumi conheceu um errante esfarrapado chamado Shams de Tabriz que por lá apareceu. Rumi já era um mestre e líder religioso Sufi com vários discípulos. Que de repente desapareceram diante dos olhos do mestre, que só viam o recémchegado. Sendo os místicos árabes, mas não só eles, capazes de captar as Cintilações do Sagrado onde quer que elas se manifestem, e sobretudo onde talvez são mais raras: no Humano, Rumi percebeu em Shams instantaneamente essa centelha que obscureceu todos ao seu redor. Por cerca de dois anos, Rumi e Shams, isolados de todos e do mundo, mantiveram a mais fraterna, iniciática e deslumbrante relação de que se tem notícia entre dois amigos. Enciumados, os discípulos forçaram a partida de Shams. Rumi mandou seu filho, Sultan Walad, em busca de Shams. E Shams voltou. Para desaparecer misteriosamente pouco depois. Diz-se que foi assassinado pelo discípulos, que deram fim em seu corpo. Tendo sido Shams aquilo através de que Rumi chegou mais próximo da Divindade que buscava – que perda terrível. Rumi mergulhou na Tristeza. Que coisas essenciais terá visto, e compreendido, na companhia de Shams, jamais saberemos. Mas sabemos que a travessia da sentida Ausência do Amigo despertou em Rumi todo o Rumi que ele deveria ser. E, assim, se tornou. É dele, Rumi, que nesta página Sim vamos falar. Mas o fundamental será dito pelo próprio Jalal ud-Din Rumi através

Jalal ud-Din Rumi

Túmulo de Rumi de citações suas ao longo deste texto. Rumi é Imensidão Humana, não cabe em uma mera página de jornal. Nada demais: também não coube em milhares de páginas de livros escritas sobre ele nem caberá nas muitas outras que ainda serão escritas através dos séculos, no Oriente e no Ocidente, ao qual a BBC o apresentou como o poeta mais popular da América e as traduções populares de Coleman Barks o situam como um sábio new age. E no entanto em um único poema seu ele está por inteiro, porque ardeu como Chama Permanente em tudo o que escreveu, falou e fez. Vamos, então, por relances de Rumi. Nos bastarão. E aqui e ali, nos banharemos neles. Eis alguns: Quando Rumi criou o Sama, a Dan-

ça Cósmica Sufi dos Dervixes Girantes, após a desaparição de Shams de Tabriz, ele reuniu os seus discípulos e disse a eles que seriam nove girando ao redor de um. Os discípulos quiseram saber o que representava esse Um central, e Rumi disse que era o Sol. Eles quiseram saber o que eram os outros nove, e Rumi disse que eram os planetas. Os discípulos argumentaram que os planetas eram apenas sete. E Rumi disse: - Não, são nove. E assim, nove desvixes giraram por cerca de quatro séculos como nove planetas ao redor de um sol, em uma Humanidade que só via sete planetas no céu. Até os astrônomos descobrirem os outros dois. Mas jamais terem descoberto com que Olho Rumi os havia visto antes dos outros homens. E o que é a Dança Cósmica criada por Rumi? Uma Iniciação ao Sagrado, para dizer tudo de uma vez, através do Corpo. Do corpo? Que corpo? De quem? Esses pobres corpos ao nosso redor? Mortos de fome na Somália? Queimados nas fogueiras da Inquisição?Incinerados em fornos crematório no II Reich de Hitler? Man-

dados para as guerras para morrerem jovens pela Pátria dissimulada, com seus interesses geopolíticos e econômicos? Baleados a dez por dia nas ruas de Belém? Como? Segundo Rumi: pelo Êxtase da fusão da pessoa com o Cosmos, o Eterno, o Uno, o Todo. Rumi conversava intimimamente com o Mistério. Além do Olho que viu os planetas que ninguém mais via, ele tinha a Boca necessária para isso. Dizia: Ó Céu que rodas em círculo ao redor das nossas cabeças. No teu amor pelo Sol tens o mesmo ofício que eu. Dizia: Ó Dia, te ergue. Os átomos dançam, dançam as almas, perdidas de êxtase, te digo em segredo aonde leva a dança. Os átomos todos no ar e no deserto, aprende isso, são como loucos de perdida razão. E cada átomo, seja feliz ou miserável, possui este Sol de que nada pode ser dito.

Poemas de Rumi Sem Shams de Tabriz, conta seu filho, Sultan Walad, Rumi passou a dançar e a compor poemas com música sem cessar: - Noite e dia, em êxtase, ele dançava, na terra girava como giram os céus. Rumo às estrelas lançava seus gritos e não havia quem não os escutasse. Nem por um

instante ficava sem música e sem transe, nem por um momento descansava. Os poemas de Rumi em homenagem a Shams foram concebidos em êxtase nas danças dervixes e transcritos instantaneamente por seus discípulos ou ditados por ele mesmo a alguém. Rumi criava a forma de poema

que em persa é chamada Gazal e em qualquer outra língua são perdidos o ritmo do verso, a musicalidade, as várias espécies de rima, aliterações e jogos de palavras. Seus poemas traduzidos são, assim, pálido reflexo do luminoso gazal original de Rumi.

A evolução da forma

O mundo além das palavras

Toda forma que vês tem seu arquétipo no mundo sem-lugar. Se a forma esvanece, não importa, permanece o original. As belas figuras que viste, as sábias palavras que escutaste, não te entristeças se pereceram. Enquanto a fonte é abundante, o rio dá água sem cessar. Por que te lamentas se nenhum dos dois se detém? A alma é a fonte, e as coisas criadas, os rios. Enquanto a fonte jorra, correm os rios. Tira da cabeça todo o pesar e sorve aos borbotões a água deste rio. Que a água não seca, ela não tem fim. Desde que chegaste ao mundo do ser, uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses. Primeiro, foste mineral, depois, te tornaste planta, e mais tarde, animal. Como pode ser isto segredo para ti? Finalmente foste feito homem, com conhecimento, razão e fé. Contempla teu corpo – um punhado de pó – vê quão perfeito se tornou! Quando tiveres cumprido tua jornada, certamente hás de regressar como anjo, depois disso, terás terminado de vez com a terra, e tua estação há de ser o céu. Passa de novo pela vida angelical, entra naquele oceano, e que tua gota se torne mar, cem vezes maior que o Mar de Omã. Abandona este filho que chamas corpo e diz sempre Um com toda a alma. Se teu corpo envelhece, que importa? Ainda é fresca tua alma.

Dentro deste mundo há outro mundo impermeável às palavras. Nele, nem a vida teme a morte, nem a primavera dá lugar ao outono. Histórias e lendas surgem dos tetos e paredes, até mesmo as rochas e árvores exalam poesia. Aqui, a coruja se transforma em pavão, o lobo, em belo pastor. Para mudar a paisagem, basta mudar o que sentes. E se queres passear por esses lugares, basta expressar o desejo. Fixa o olhar no deserto de espinhos. – Já é agora um jardim florido! Vês aquele bloco de pedra no chão? – Já se move e dele surge a mina de rubis! Lava tuas mãos e teu rosto nas águas deste lugar, que aqui te preparam um fausto banquete. Aqui, todo o ser gera um anjo, e quando me veem subindo aos céus os cadáveres retornam à vida. Certamente vistes as árvores crescendo da terra, mas quem há de ter visto o nascimento do Paraíso? Viste também as águas dos mares e dos rios, mas quem há de ter visto nascer de uma única gota de água uma centúria de guerreiros? Quem haveria de imaginar essa morada, esse céu, esse jardim do paraíso? Tu, que lês este poema, traduz. Diz a todos o que aprendeste sobre este lugar.

Original de Rumi

Eis uma insuficiente descrição da Dança Cósmica de Rumi: Os desvixes entram em um grande salão, todos de branco, símbolo o Sudário, e cobertos por um longo manto negro, símbolo do Túmulo. Sudário e túmulo de quem? Do Cristo, pois Rumi foi sufi e os Sufis são ligados ao Corão, de Maomé, que criou o Islamismo inspirado em Jesus. E mais: os desvixes usam um alto chapéu de feltro, referência à pedra tumular que cobriu, conforme os Evangelhos Cristão, o túmulo de Cristo. Então, ao som de flauta e tímbalo, eles giram lentamente, braços cruzados, as mãos postas sobre os ombros, e cada vez mais velozmente, estendendo os braços como se fossem asas, com a mão direita voltada para o Céu para recolherem a Graça Divina e a mão esquerda voltada para a Terra para nela derramarem essa dádiva recebida do alto através de seus corações. E assim o corpo, humilhado e ofendido, se torna um meio de unir Terra e Céu. Onde foi parar a suspeita e a aversão pelo corpo que os Escolásticos cravaram no coração do Cristianismo, na Idade Média européia? Por Rumi, elas jamais teriam existido. Mas Rumi não era um árabe, um infiel? Sim. O que vale como severa advertência contra a má-fé da propaganda atual dos Estados Unidos da América. Pois mais do que apenas um árabe persa, Rumi hoje seria um iraniano, aliás desde que a Pérsia passou a se chamou Irã. Rumi, como todos os outros grandes poetas e místicos do Oriente Médio - Atthar, Ferduci, Saadi, Hafez, Omar Khayan, Suhawardi, Ibn Sina – jamais sentiram desprezo por este nosso chamado Vale de Lágrimas. É dele, Rumi, esta história, que transcrevo sem qualquer comentário: Um dia um homem bateu na porta da sua amada. Uma voz lá de dentro perguntou: - Quem é? O homem respondeu: - Sou eu. A porta não se abriu. O homem saiu pelo mundo, viveu, sofreu, aprendeu. Voltou e novamente bateu na porta da amada. A voz perguntou: - Quem é? O homem respondeu: - És tu. A porta se abriu. Eis um último relance da Luz de Rumi, antes que o próprio Rumi volte a nós falar através de dois longos poemas seus, transcritos nesta página: Ninguém fala para si mesmo em voz alta. Já que todos somos um, falemos desse outro modo. Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma Fechemos pois a boca e conversemos através da alma Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo. Vem, se te interessas, posso te mostrar.

Sim 23 Rumi e a Dança Cósmica Vicente Franz Cecim  

Sobre Jalal ud-Din Rumi e o Sufi

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