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oliberal

Belém, domingo, 20 DE outubro de 2013

magazine n 11

sim

vicente cecim

vicentefranzcecim@gmail.com

Pais & Filhos Teus filhos não são teus filhos São setas atrás de setas lançadas para o Infinito GIBRAN KHALYL GIBRAN

A

final, o que é um filho? Para que fique bem claro, refaço a pergunta: - O que é um Filho? Já que costumamos tratar às vezes os outros estranhos ao nosso sangue, em nossos momentos de ternura, por meu filho, minha filha, e também quando em estado selvagem com a agressiva autoridade dos me respeite, tenho idade de ser seu pai. Aqui, não é dessa filiação voluntária ou arbitrária que se trata, mas dos vínculos consanguíneos que unem, cosmicamente, pelos laços naturais os pais e os filhos. Se acrescentando a esses laços tanto os antigos e quase em desuso filhos adotados quanto os potencialmente futuros filhos clonados – e observando, ora incluindo ora excluindo, até que ponto a esses se aplicam estas reflexões - neste domingo de pais e filhos nas praças. Só posso falar, prudentemente distante das teorias sobre o assunto, a partir das minhas descobertas pessoais, vividas, como o filho que fui, o pai que me tornei e o avô que agora sou. E, certamente, cada um me lerá, preferentemente, espero, também com suas vivências. E haverá, entre nós, concordâncias e discordâncias. Nada demais, faz parte do que a sabedoria popular chama de cada cabeça, uma sentença. Mas, atenção, não se trata de julgar e condenar ou inocentar e sim de apenas investigar: o que, afinal, são Pais & Filhos? Por mim, diante dessa pergunta, se formos sinceros, deveríamos responder que não sabemos bem. E se formos mais sinceros ainda, em nós mesmos, responderíamos que mal sabemos o que foi ou é o filho que nós próprios fomos ou somos. E não nos ajuda muito o fato de nascermos de seres semelhantes a nós – pois seres humanos, antes dos clones chegarem, ainda nascem de seres humanos e não de um camelo ou de uma pedra nem dão em árvores, assim como nunca se viu uma maçã nascer de uma das mangueiras maltratadas das ruas de Belém. Embora um dia, quem sabe? Do jeito que estamos tratando a Natureza e a levando à loucura? Talvez ainda não devamos abordar o assunto pais & filhos diretamente, e começar pelas Palavras, que tanto ocultam quanto revelam, aplicadas a eles. Por que nossos Dicionários, em todas as línguas, tiveram que assumir na letra F a palavra Filicídio e na letra P a palavra Parricídio? Pois se como filhos soubéssemos realmente o que é um Pai e como pais soubéssemos realmente o que um Filho, estas palavras simplesmente não existiriam. Oh, chocante constatação. Não é? Porque até podemos negar a realidade das palavras, mas palavras nascem de fatos e a realidade dos fatos não pode ser negada. A palavra filicídio me lembra um filme, na verdade uma fábula, de Edgard Reitz: A garota da lata de lixo. Resumo a história para vocês: Alguém ouve um choro de criança vindo de uma lata de lixo e recolhe a criança ali abandonada. Cria. Ela escapou de sua primeira morte. Jovem, para escapar de um mau patrão ela se lança do alto do edifício da empresa – cai, e sai andando. Escapa da segunda morte. Mulher madura, sendo devorada por um amante que literalmente come partes do seu corpo, consegue também escapar e se restaura. O interessante, no filme, não são suas muitas mortes, mas seus renascimen-

tos. Pena que esses milagres não acontecem com as crianças reais jogadas nas latas de lixo reais da vida. A palavra parricídio também me traz uma lembrança. Conto a vocês? Contarei: - Um dia desses, falando com alguém que defendia a Eutanásia e condenava a legislação que a proíbe, aceitei - em parte apenas, porque o Sagrado Misterioso da existência das coisas e dos seres em mim é mais forte – que em situações de extremo Sofrimento sem Cura possa ser um direito não negável ao sofredor optar por não quero sofrer mais. Mas defendi a Legislação – para surpresa de Kafka, sem dúvida - dizendo que, talvez, seja o único ponto em que Lei dos homens parece estar realmente zelando pelos homens. Pois são tantas as histórias, obscuras, nas caladas noturnas dos segredos de família, em que – por ambição ou cansaço de cuidar – os próprios parentes dão fim ao fardo para se apropriar da leveza da herança. Quando se tornam fardos para a família, pobres e ricos estão expostos ao mesmo risco, talvez menos os ricos porque a riqueza paga asilos e o luxo dos cuidadores profissionais que os poderes públicos, impotentes, não garantem grátis. Já da ambição dos familiares parecem estar mais protegidos os pobres, e aos ricos só se pode dar estes sensatos conselhos: Contratem guarda costas de absoluta confiança e incorruptíveis – que, aliás, não existem – ou então, empobreçam: doem seus bens aos pobres, quando for se aproximando o último suspiro. Tais são os riscos da chamada velhice, na espécie humana, como se não bastasse tantos inerentes a ela. No Japão, e de um modo geral no Oriente asiático, existe uma prática que dispensa a eutanásia proibida por lei, mas conspirada por herdeiros oportunistas, e muito diferente do que chamamos deste lado ocidental do mundo suicídio – que surge como fuga da existência e a única saída em casos de desgostos profundos. É chamada de morte voluntária, reconhecida como um direito natural da pessoa justificado pelo simples argumento, sem fuga e sem desgostos, do não quero mais continuar aqui. Foi o que fez o escritor japonês Kawabata, famoso no Brasil pelo seu livro de título traduzido inicial e belamente mas erradamente como Nuvens de pássaros brancos, lido em quase todas as línguas e pouco depois de receber o prêmio Nobel. Não por fuga de doença ou desgosto, pulou fora, usou seu direito à morte voluntária, disse o seu Não quero mais continuar aqui. Mas isso já é outra história.

– Ó dedos no teclado que os ventos das ideias levam para onde querem, se atenham ao cerne do assunto da página de hoje. Estamos apenas tentando entender o que são Pais & Filhos. Parem de dar voltas. Embora eu não me iluda. Pois, ao chegarmos ao fim dela, não teremos avançado muito nesse caminho. Sigamos tateando. E, ah, deixem-me esclarecer, antes que seja tarde, que todo o tempo, aqui neste texto, estive e estarei falando dos pais, os masculinos, e não das mães – pois delas só terei uma coisa a dizer, já lá pelo fim. É o ponto de vista do homem que eu sou, e o único do qual me sinto capaz de ver as relações entre pais e filhos. No meu caso, nem sempre compreendi o que eram, em si - e nesse caso como pai e mãe - os meus pais. E acho

Poemas de Arsenií Tarkovski A página Sim de hoje é dedicada ao poeta místico do Cinema que se inclina para o Sagrado, Andrei Tarkovski, um Filho que soube amar seu Pai, e ao poeta Arsenií Tarkovski, um Pai que soube se fazer amar pelo Filho. Aliança que Tarkovski manteve viva em seus filmes: os poemas de Arsenií são citados em quase todos os filmes de Andrei. Extraí estes do filme O Espelho.

Poema I Ontem, na longa manhã, eu esperei por você. Mas eles pressentiram que você não viria. Lembra-se como estava o tempo? Como num dia festivo, eu saí sem casaco. Hoje você veio, mas eles nos legaram um dia cinzento, chuvoso e a hora tardia e os pingos escorrem pelos vidros gelados... Palavras não conseguem estancá-los e nem há lenço que possa enxugá-los...

Poema II O corpo do homem é tão solitário. A alma está cansada de relacionar-se com ouvidos e olhos do tamanho de botões e a pele repleta de cicatrizes vestida sobre os ossos. Enquanto a córnea voa para sua fonte original para a montanha gelada para as carruagens de pássaros E ouve pelas grades de sua prisão viva: o clamor das florestas, a trombeta dos sete mares. É pecado para a alma não possuir um corpo. Como ao corpo não possuir morada. Não há proezas, nem linhas nem conceitos, esta charada jamais terá resposta. Quem voltará de novo daquela mesma dança? Onde não há ninguém com quem se possa dançar? E eu sonho com outra alma vestida com outra veste. Quem se queima ao cruzar do desespero à esperança. Quem feito álcool sem sombras, se queima e se perde pela terra. Deixando de lembrança seu fluído lilás na mesma mesa Criança, corra... Não se aborreça com a pobre Eurídice. Com uma farpa de luz movimente

o brilhante aro da vida. Enquanto seus passos e seus sentidos recebem em resposta a alegria, o calor... do som da terra nos ouvidos...

Poema III Não creio em premonições. E não temo os exemplos nem as calúnias, o veneno. Eu não fujo. Na terra não existe morte. Imortais somos todos. Imortal é tudo. Não se deve temer a morte nem aos 17, nem aos 70 anos. Existimos apenas eu e a luz. A escuridão, a morte não existem neste mundo. Estamos todos à beira-mar. E sou um daqueles que escolhem a rede quando caminho sem medo. Vivam na casa. E a casa não vai desmoronar. Eu escolherei um tempo centenário. Penetrarei nele e construirei meu lar. Por isso estão comigo seus filhos, suas esposas, sentados à mesma mesa. E a mesa é uma para o bisavô e o neto. O futuro se decide agora. E se eu levanto a mão, os cinco raios permanecerão com vocês. Eu, a cada dia, com meu esqueleto rijo como fortaleza recolhia as chaves dos que não eram meus. Eu medi o tempo com humana corrente e por ele passei como pelos Urais. Escolhi o século de acordo com minha capacidade. Nós nos dirigimos para o sul segurando a poeira das estepes. O joio rareava. O besouro cantava e balançava os bigodes e como em premonições me ameaçava com a desgraça feito um monge. O meu destino, eu o atei à minha sela e sigo agora, nesse tempo atual feito um garoto preso ao seu futuro. Basta-me minha própria imortalidade. Que o meu sangue atravesse os séculos. E voluntariamente eu pagaria com a vida por um canto certo, pelo calor seguro. Se da bússola a agulha voadora me guiasse para a luz feito um imã!

que fui muitas vezes injusto com eles. Entendia, às vezes, quando me diziam um não que era um Não contra mim. E do ponto de vista deles, não era, e sim um Sim para o que consideravam, naquele caso, o meu Bem. Quantas vezes isso também lhe acontece, não é verdade? E, reativamente, muitas vezes lhes disse o meu próprio não, mas um Não bem grande, o Não do Ressentimento. – Você não se envergonha de confessar essas coisas publicamente? Vocês me diriam. - Eu, não. Vergonhoso seria não confessar publicamente o que quem sabe possa tornar alguns filhos mais juntos com seus pais. E vice versa. Um dia – conto a vocês, e descaradamente – no tempo em que pais e filhos só sentavam à mesa juntos, o Tempo do Alimento Sagrado antecedido por orações de agradecimento – pois todos os animais sabem que são os alimentos que os mantém vivos - tempo hoje soterrado pelos sel-service e hambúrgueres do capitalismo do Tio Sam, das refeições às pressas, nesse dia, então, menino, eu disse: Mãe, tu me passas o sei lá mais agora o que? E o meu pai brigou comigo: - Chame de senhora, respeite a sua mãe. Vejam, por este exemplo, como nasce um mal entendido que pode durar toda a vida entre um pai e um filho. Acho, hoje, que ele só estava querendo solenizar mais o momento sagrado da refeição. Mas na época aquilo me doeu tanto, me senti tão incompreendido porque meu tu espontâneo era carinho e o senhora dele era humilhante submissão, coisa que me afastava dela, que decidi nunca mais tratar minha mãe por Tu e durante os próximos mais de meio século que se seguiram a esse almoço ela foi sempre tratada por senhora. Um caso típico de incompreensão entre pai e filho. Sabem quando comecei a compreender mais ou menos os meus pais? Só quando me tornei, também, um pai. Através do meu filho, revi o Menino que fui. Revisei as injustiças e justiças do Jovem. E refiz os mal entendidos do Adulto. E foi graças aos meus pais que um dia, advertindo o meu filho com o clássico não sobe aí que tu podes cair e te machucar que eles me diziam, para, do ponto de vista deles, o meu bem, que descobri que eu estava dizendo aquilo para assegurar não só um, mas dois bens: o dele e o meu. Eu queria me garantir de não sofrer através de um sofrimento dele. O que, bem entendido, talvez nos diga mais do que tentamos até agora sobre o que são Pai & Filho. Pois se o sofrimento de um pode ser sentido pelo outro, em si mesmo, então eles estão muito mais unidos do que os desencontros da convivência cotidiana ocultam. Quanto às Mães, das quais disse que diria só uma coisa aqui no fim, eis o que é a coisa. - Mãe, diz a elas todas a Natureza, sabe o que é o Teu Filho. É a Lei. É a Voz do Universo. E as mulheres a ouvem falando dentro delas. Voz que ecoa no filho. E é assim que não há Mãe que não saiba o que é um Filho nem Filho que não saiba o que uma Mãe é.


Sim 21 vicente franz cecim pais & filhos