Page 1

oliberal

Belém, domingo, 6 DE outubro de 2013

magazine n 11

sim

vicente cecim

vicentefranzcecim@gmail.com

O Zen do Povo À noite, todos os gatos são pardos.

zendo o oposto do outro? Outros, impacientes, ambiciosos, acham uma alternativa intermediária, que ainda não virou um provérbio popular, ainda bem, e decidem logo a coisa toda assim: É melhor pegar a andorinha logo, com ou sem Verão, do que ficar de mão vazia. Eu prefiro a Via Sakyamita budista do Caminho do Meio de Nagarjuna, que em um poema Zen diz: Cavalgo este touro enquanto ando a pé Levo a pá na minha mão vazia Mas como o mais sábio provérbio popular talvez seja aquele que diz: Cada cabeça, uma sentença, deixemos as dúvidas para lá. E nos limitemos a observar o que os provérbios que os povos conceberam através da jornada humana, por entre suas alegrias e tristezas, guerras e festas, tempos de pestes e de tempos de abundância – ora como Consolações, ora como Advertências – nos falam, por si.

VOZ DO POVO

D

izem que a voz do povo é a voz de Deus. Será? Pelo menos nos primórdios da tradição judaica: cristã, ainda não era. O povo ficou lá embaixo enquanto Moisés subia o Monte Sinai para falar sozinho com Jeová. E o que é mais grave: quando Moisés desceu com as Tábuas da Lei o povo já estava com outra conversa, dançando ao redor do Bezerro de Ouro e fazendo coisas que a Voz de Deus prescrevera, com fogo, na Sarça Ardente, que ele não fizesse. E algumas, senão todas elas, o povo estava fazendo - e muito orgiasticamente. Se Moisés, ao descer, houvesse perguntado: - Vocês estão amando Deus sobre todas as coisas? A resposta da multidão certamente seria: - Não. E se perguntasse: - Estão honrando pai e mãe? Ouviria outro sonoro: - Nãaaooo. - E guardando a castidade nas palavras e nas obras, estão? – Claro que não. - E o que é que, afinal, estão fazendo aí com esse Bezerro de Ouro? Não estão matando ninguém, estão? – Sim, muitos – gritaria a multidão. – Roubando? – Sim. – Cobiçando as coisas alheias? – O que é que tu achas? Então o título desta página Sim está errado? A Voz do Povo não apenas não é a Voz de Deus, mas até mesmo diz o contrário do que ela diz? Além do mais, porque Jeová não recebeu pessoalmente no alto do Sinai o povo humilde, faminto e fugitivo da escravidão através dos desertos e teve uma conversa diretamente com a massa? Isso nem os teólogos, que também pretendem falar a voz celeste, explicam. Mas essa página do Êxodos ficou para trás e, mais tarde, nem sempre Deus falou só com gente importante como Moisés. Ele passou a ter boas conversas também com gente humilde. Como os Profetas - geralmente simples homem do povo, embora nem sempre – como Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel, Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias. Não foram poucos. E esses são só os que o Antigo Testamento menciona. Segundo o Novo Testamento, as conversas continuaram depois. Com Barnabé, Simeão, João Batista, Ágabo. Sem falar nos gran-

Breughel: O Mundo do Avesso Breughel, o Velho (1590): “Provérbios Flamengos” des diálogos, secretos – e muitas vezes terríveis – com Jesus, seu próprio Filho, como o acontecido na grande Noite vazia no Horto das Oliveiras, ecoando as palavras da Agonia do Calvário se anunciando na manhã nascente: – Pai, afasta de mim esse Cálice. Bem, ninguém ousará duvidar que Jesus – um Menino que nasceu no

meio de animais numa manjedoura, vestido de trapos – era um autêntico homem do povo. Então, sem maiores polêmicas, aceitemos que a Voz do Povo e a de Deus sejam uma só. E que há realmente uma sabedoria popular inspirada talvez por Algo mais sei lá pelo que, além das meras duras ou alegres lições dos dias do homem

Dois cachorros não dividem um osso

Não nade contra a maré

na Terra. E que o Zen do Povo existe. Embora muitas vezes eu fique um tanto confuso. Querem saber por quê? Vejam isso: - Uma andorinha só não faz verão. Dizem uns. - Mais vale um pássaro na mão que dois voando. Dizem outros. Não parece que cada um está di-

Cobra se segura pelo rabo

Peixe grande come o pequeno

Os dados estão lançados

Breughel, o Velho, o delirante pintor flamengo, fez um inventário abrangente deles na Idade Média e pintou uma das suas mais perturbadoras obras sobre a Humanidade, ora decepcionante, ora comovente, conforme o ponto do quadro que se olha. Outro nome pelo qual sua obra é conhecida é O Mundo do Avesso. Representa uma terra habitada por representações literais de proverbios do seu tempo. A pintura é cheia de referências e algumas deles ainda hoje podem ser identificadas. Muitos desses provérbios ainda são usados. Vários acabaram esquecidos, e outros não se mudaram para outros idiomas. Na Idade Média, bem mais que hoje, os proverbios eram muito valorizados. Apareceram no famoso libro de Erasmo, O Elogio da Loucura, cerca de quarenta deles foram reunidos em uma grande gravura de Frans Hogenberg e Brueghel já havia pintado antes uma coleção de Doze Provérbios, e na literatura do tempo eles tiveram uma grande presença no romance Pantagruel, que Rabelais escreveu em 1564. Em seu quadro, Breughel mostra, através dos proverbios, o absurdo, as fraquezas humanas. Os detalhes extraídos da pintura e salpicados nesta página, que alegorizam alguns desses Provérbios, guiarão seus olhos para que identifiquem os outros. Faça o seu jogo. Ache o seu provérbio.

Provérbios brasileiros Os provérbios do povo brasileiro – variantes dos provérbios espalhados pelo mundo, adaptados às culturas locais - nós conhecemos, mas por que não lembrar, com estes, às vezes que cada um de nós já os usou em momentos das nossas próprias vidas?

Acender uma vela ao diabo

É mais fácil navegar a favor do vento

Macaco não olha pro seu rabo. É melhor prevenir do que remediar. Um é pouco, dois é bom, três é demais. Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Em boca calada não entra mosca. A cavalo dado não se olha os dentes. Quem com ferro fere, com ferro será ferido. Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Cada um sabe onde lhe aperta o calo. Em terra de cego, quem tem olho é rei. Cão que ladra não morde. Águas passadas não movem moinhos. Quem cala, consente. Filhinho de peixe, peixinho é. Não se deixa o certo pelo duvidoso. Formiga que quer se perder cria asa. Pior a emenda do que o soneto. Cobra que não anda não engole sapo. Quem tem telhado de vidro não joga pedra no do vizinho. Quem semeia vento, colhe tempestade. Quem não pode com o pote não pega na rodilha. A desculpa do amarelo é comer barro. Panela velha é que faz comida boa. Não adianta chorar o leite derramado. O que é do homem o bicho não come. Panela que muitos se mexem sempre sai mal temperada. De grão em grão a galinha enche o papo. Quem vê cara não vê coração. Quem ama o feio, bonito lhe parece. O que os olhos não veem o coração não sente. Rir é o melhor remédio.

Quem ri por último ri melhor. Seguro morreu de velho. Boa romaria faz quem em sua casa fica em paz. Uma ovelha má põe um rebanho a perder. Cada macaco no seu galho. Casa de ferreiro, espeto de pau. Quem não tem cão caça com gato. Devagar se vai ao longe. Quem tem apressa come cru. A pressa é inimiga da perfeição. Quem canta seus males espanta. Quando a esmola é grande o cego desconfia. Quem não chora não mama. Um homem prevenido vale por dois. Uma mão lava a outra. Quem tudo quer, tudo perde. Antes tarde do que nunca. Santo de casa não faz milagre. Cesteiro que faz um cesto faz um cento. Pelo dedo se conhece o gigante. Quem não arrisca não petisca.

Prato vazio não enche barriga

E estes, dedicadas aos corruptos nacionais:

Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Mentira tem perna curta. Mais depressa se pega um mentiroso do que um coxo. E mais este, para lembrar na próxima eleição:

Errar é humano, persistir no erro é burrice.

Quem semeia ventos colhe tempestade Mesclado a alucinações e saberes, o Zen do Povo existe?


Sim 18 o zen do povo vicente franz cecim  

Sobre Breughel e os provérbios populares

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you