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Belém, domingo, 11 DE agosto de 2013

magazine n 11

sim

vicente cecim

vicentefranzcecim@gmail.com

No Fio da Navalha: Kafka Como era o teu rosto antes de teres nascido? KOAN ZEN

N

esta página Sim, segue a nossa viagem do domingo passado pelo fio da navalha do romance de Somerset Maugham, tendo como guia seu personagem Larry Darnell, que preferia buscar nos Vedas o luminoso caminho da Salvação do que se misturar ao obscuro tumulto dos homens. Opção ascética – mas não necessariamente entristecedora: Larry buscava a leveza, para ele, viver era depurar sua existência como um alquimista. Antes, nossos olhos – através do labirinto dos Símbolos que ofuscam e desvelam os dias humanas – foram guiados, e aqui continuam sendo, pelas fulgurantes pinturas de Pieter Breughel, o vidente flamengo, que em 1563 pintou duas vezes a Torre da Babel - a primeira já vista e a segunda aqui mostrada agora. Breughel foi um sondador das inquietações do homem – interrogou a Perplexidade do mundo medieval, tateou a Dor daqueles tempos, não muito diferente das atuais, apenas mais toscas talvez, e teve um espantoso talento para uma fina arte: o Humor. Como o Rabelais da série de romances alucinados sobre Gargantua & Pantagruel. Sobre a perplexidade humana, Breughel pintou A Queda de Ícaro, e, com imensa ironia, também pintou O País da Cocanha – lendária terra que habitava o imaginário da Idade Média, onde os homens viviam imersos na fartura e na ociosidade, recebendo da Natureza e dos Céus tudo o que precisavam para viver num paraíso terrestre. Oh, deleite onírico infantil. Mas assim como Maugham não foi o nosso assunto principal, antes, nesta página em que o fio da navalha vai passas por Kafka, agora, também Kafka não é o nosso assunto principal. Que continua sendo a Arte de andar no Fio na navalha ao longo da vida, sem cair, ou saltar fora, nem para um lado nem para o outro. Kafka será o clima do que aqui irá sendo dito, com uma de suas fábulas mais vertiginosas: Uma Mensagem Imperial.

Breughel: “A Torre de Babel” (1563)

Ramana

Breughel: “A Queda de Ícaro” (1554-55)

Breughel: “O País da Cocanha” (1567)

Pascal & O Samba Agradeçamos a Ariadne, ou a Marcel Proust, por eu ter conseguido emergir daquele Labirinto de Texto de Creta em que havia me metido, na Sim passada. Pois escrever também é andar sobre uma corda suspensa sobre um abismo, perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar, como dizia Nietzsche. Eis-me aqui, então. E como foi prometido, trazendo pela mão Silas de Oliveira que vai nos dizer o que é o Infinito. Como, um simples sambista de morro? Pois é, vejam vocês: exatamente como Somerset Maugham era um simples contador de histórias. E já que voltamos às histórias que se contam, tantas histórias ainda para contar, ah, deixem que eu conte mais essa para vocês. Um dia, Silas de Oliveira amanhecia mais uma vez com o seu amigo inseparável Mirinho ao lado de uma também inseparável garrafa de cachaça. Talvez permanecessem como aqueles homens de quem Max Ernst disse que nunca saberão. Mas Silas perguntou: - Mirinho, você sabe o que é o Infinito? Talvez nesse momento um outro bêbado fosse anonimamente subindo lá adiante uma ladeira de favela, não precisamente indo para o céu, embora parecesse, na luz irreal daquela manhã: irreal como são todas irreais as luzes das manhãs que nascem para os olhos daqueles que atravessam insones noites ébrias. O que é certo é que Silas disse: - Você vai andando por ali e o Infinito vai te acompanhando. Mirinho comentou envaidecido: - Um poeta nos mínimos detalhes, o meu amigo Silas de Oliveira. A manhã já podia nascer plenamente, radiosa. Por mim, não conheço definição mais lúcida e translúcida de Infinito, isso que cada homem traz dentro de si, seja como realidade, seja como desejo

de que se realize. Pois vocês podem até não acreditar, mas o Zen do Povo existe. Senão, como explicar que a frase de Pascal, o místico cristão, um dos seres que foi mais íntimo da sensação de infinito: Le coeur a des raisons que la raison ne connait, apareça subitamente, saindo das páginas vertiginosas dos Pensamentos, na letra do samba que diz: O coração tem razões que a própria razão desconhece. São indícios de que existe uma sabedoria comum à condição humana, que não se aprende na escola. E é menos absurdo aceitar essa versão generosa do que a hipótese de que o sambista traduziu a frase do original francês,

depois de ler os Pensées. Entre um gole de cachaça & outro, certamente. O Zen do Povo realmente existe. Há muitos outros indícios: por exemplo, quando alguém, mesmo pobre & faminto & esfarrapada vítima social deste país de III Mundo diz, ao nosso lado: Vou me fingir de morto. O que você acha que ele está dizendo? Do fundo da sua Ignorância Culta, entenda que ele está citando a filosofia Zen que deu origem ao Judô. Embora não saiba necessariamente disso. E eis mais uma história. Vamos sentar um pouco na beira da estrada do fio da navalha e, enquanto descansamos desta obscura viagem, ouvi-la.

Franz Kafka: Uma Mensagem Imperial O imperador – assim dizem – enviou a ti, súdito solitário e lastimável, sombra ínfima ante o sol imperial, refugiada na mais remota distância, justamente a ti o imperador enviou, do leito de morte, uma mensagem. Fez ajoelhar-se o mensageiro ao pé da cama e sussurrou-lhe a mensagem no ouvido; tão importante lhe parecia, que mandou repeti-la em seu próprio ouvido. Assentindo com a cabeça, confirmou a exatidão das palavras. E, diante da turba reunida para assistir à sua morte – haviam derrubado todas as paredes impeditivas, e na escadaria em curva ampla e elevada, dispostos em círculo, estavam os grandes do império –, diante de todos, despachou o mensageiro. De pronto, este se pôs em marcha, homem vigoroso, incansável. Estendendo ora um braço, ora outro, abre passagem em meio à multidão; quando encontra obstáculo, aponta no peito a insígnia do sol; avança facilmente, como ninguém. Mas a multidão é enorme; suas moradas não têm fim. Fosse livre o terreno, como voaria, breve ouvirias na porta o golpe magnífico de seu punho. Mas, ao contrário, esforça-se inutilmente; comprime-se nos aposentos do palácio central; jamais conseguirá atravessá-los; e se conseguisse, de nada valeria; precisaria empenhar-se em descer as escadas; e se as vencesse, de nada valeria; teria que percorrer os pátios; e depois dos pátios, o segundo palácio circundante; e novamente escadas e pátios; e mais outro palácio; e assim por milênios; e quando finalmente escapasse pelo último portão – mas isto nunca, nunca poderia acontecer – chegaria apenas à capital, o centro do mundo, onde se acumula a prodigiosa escória. Ninguém consegue passar por aí, muito menos com a mensagem de um morto. Mas, sentado à janela, tu a imaginas, enquanto a noite cai.

De “Um Médico Rural”/Tradução de Lúcia Nagib

As Estações Vindo o Inverno, um mestre Zen viu que as árvores reagiam à neve de maneiras diferentes. Umas, resistiam, e sob o peso da neve seus galhos acabavam se partindo. Outras, cediam ao peso da neve, e, flexíveis, em vez de se partirem se curvavam até o chão. Quando o Inverno acabou: as que haviam resistido estavam irremediavelmente mortas, as que haviam cedido, lentamente se distendiam outra vez e voltavam a se erguer, ainda vivas. As segundas haviam se fingido de mortas até o Inverno passar. Pois não é exatamente isso o que o Zen do Povo diz: Não há bem que sempre dure nem mal que nunca se acabe? A Vida, como as Estações, também tem seus Invernos & Primaveras & Verões & Outonos. Ou, como diz um outro sábio popular, Paulinho da Viola: As coisas estão no mundo, só o que é preciso é aprender. Aprenda a viver o Verão como Verão & o Inverno como Inverno. Não é tão difícil assim, quando se trata das Estações lineares. Quero ver é você aprender a viver as Estações e os Momentos mais sutis: a Primavera como Primavera & o Outono como Outono. Isto é: as Ambiguidades. Para isso, ajuda ler Kafka, Considerações sobre o pecado, a dor, a esperança e o caminho verdadeiro, onde ele diz: Existem dois pecados capitais no homem, nos quais se originam todos os demais: impaciência e indolência. A impaciência fez com que fosse expulso do Paraíso, ao qual não retorna por causa da indolência. Mas talvez não existe mais que um só pecado capital: a impaciência. Por causa da impaciência foi expulso, por causa da impaciência não retorna.

Caminhando sobre o fio da navalha, é sempre bom ir bem acompanhado. Por exemplo, de Ramana Maharshi, de quem Jung disse que na Índia é considerado o ponto mais imaculado na brancura dos céus. E que tinha um único ensinamento a dar: a pergunta: - Quem sou eu? Que ele recomendava que nos fizéssemos permanentemente, para fazer aflorar, pela dissolução do tolo & arrogante Eu Inferior, vulgarmente identificado como Ego, o luminoso Eu Superior, aquele que, nunca-nascido, também nunca morre. E que, afinal, é a única realidade na irrealidade em que somos. Já que somos feitos do mesmo estofo de que são feitos os sonhos, como dizia Shakespeare. Em boas companhias, se aprende coisas. Como eu aprendi uma vez. Vivendo uma situação brutal, tendo caído numa armadilha da vida, quanto mais tentava vir à tona, mais me afundava. Então perguntei ao Velho Sábio, o I-Ching: - O que devo fazer? - A montanha não se move, ele me respondeu. Parei de lutar, me fingi de morto, e uma semana depois estava livre. Terá sido em companhias assim que andou Larry Darnell, o personagem de Somerset Maugham a quem este texto inicialmente foi dedicado? E com isso voltamos ao começo: o anel se fecha. Mas mesmo não sendo Larry Darnell, ou Bartleby, o personagem mágico & imponderável de Hermann Melville que a tudo que lhe propunham dizia: - Prefiro não fazer, ou nem mesmo sendo alguém que não é um personagem de romance mas um ser real, como o meu filho Arthur Cecim, alguém que nunca lhe dirá Não nem nunca lhe dirá Sim, pois vive aprendendo a ser só um habitante do Talvez das eternas disponibilidades efêmeras: creia: A mente é tudo. Faz do Céu um Inferno e do Inferno um Céu. O que o Zen me ensinou e eu ensinei aos meus filhos e espero que eles ensinem aos seus. Quem sabe assim, de gerações em gerações, mais leves de corpo & mais pesados de espírito, conseguiremos, pacientemente, fazer a travessia sem já nos ferir tanto, e uns aos outros, no fio da navalha? É possível, sim. Se mais fino for o fio das ternuras.


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