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Cognição e Colaboração em Ambiente Online Cecília Tomás Cecilia1976@gmail.com

Comunicação Educacional

Universidade Aberta Stembro-2011

Para uma aprendizagem efectiva em ambiente online na qual a predominância da carga cognitiva intrínseca e pertinente seja efectiva, aspectos como design instrucional, metodologias de aprendizagem e apresentação de conteúdos são fundamentais. Neste sentido a análise da metodologia colaborativa proporciona, por um lado, um ambiente social conducente a um ambiente cognitivo favorável e, por outro, a aprendizagens significativas com um decréscimo da carga cognitiva extrínseca. Uma aprendizagem colaborativa em ambiente formal proporciona uma intensificação da carga cognitiva intrínseca que pela utilização de uma aprendizagem multimédia conduz a aprendizagens significativas. Palavras chave: Aprendizagem Colaborativa, Carga Cognitiva, Aprendizagem Multimédia


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A aprendizagem é um processo que se inicia no começo da vida e que termina quando esta finda. Enquanto processo contínuo ela implica a interacção entre a aquisição, a retenção, a activação e a perda de informação. Por isso é tão importante adquirir e processar informação como é esquecer informação desnecessária para a possibilidade da retenção de nova. Compreendendo-se como processo, segundo Mayer (1982) a aprendizagem é uma mudança relativamente estável e duradoura do comportamento e do conhecimento, sendo que a mudança do comportamento relaciona-se com o exercício e com a experiência, podendo ocorrer de forma consciente ou inconsciente, num processo individual ou interpessoal. Nascido no seio do behaviorismo, o estudo sobre a aprendizagem alargou-se manifestando-se como uma síntese dinâmica entre as capacidades inatas e a sua possibilidade de realização proporcionada pelo meio e por isso o estudo sobre a aprendizagem recai sobre factores tão importantes como inteligência, motivação, experiência anterior ou factores sociais que se manifestam como determinantes para o desenrolar (pessoal e interpessoal) da aprendizagem, sendo através da memória (limitada na sua capacidade de armazenamento) e do seu trabalho que o processamento de informação se efectua. Como elemento fundamental da aprendizagem, a memória e o seu trabalho são necessários à compreensão processual de laboração sobre a informação. O processo mnésico compreende-se nos estádios da aquisição (antes de recordarmos algo temos de o aprender; sem aprendizagem não há memória), retenção (a informação é conservada, retida por períodos mais ou menos longos, para poder ser utilizada quando necessário) e recordação ou activação (quando precisamos, procuramos recuperar, Fig. 1 In http://historiatic.yolasite.com actualizar a informação armazenada) e é nele que surgem três tipos de memória fundamentais - Memória Sensorial (onde se efectua a entrada de informação retida por fracções de segundo), Memória de Curto Prazo ou de Trabalho (onde se processa a informação que entrou pela memória sensorial no sentido da criação de esquemas – construções mentais -) e Memória de Longo Prazo (repositório de toda a informação aprendida) – que, laborando no domínio do processamento da informação, conduzem à aprendizagem (fig. 1). Ligada à compreensão do processo mnésico e preocupando-se com o esclarecimento sobre a estrutura cognitiva do Homem, surge a Teoria da Carga Cognitiva (Cognitive Load Theory – CLT -) como reflexão acerca de modelos educativos centrados na aprendizagem através de recursos educativos disponíveis. Pelo facto de ter em conta a estrutura cognitiva do ser humano esta teoria destaca as limitações da memória a curto prazo (memória de trabalho ou operacional) do ser humano e as implicações daí decorrentes para a aprendizagem. Neste sentido a CLT mostra que a memória operacional trabalha, por um lado, com esquemas automatizados (e daí a importância de um design instrutivo que encoraje a construção e automatização de esquemas) e, por outro lado, que a carga operacional da memória pode ser afectada pela natureza intrínseca das tarefas de aprendizagem (carga cognitiva intrínseca – o que é importante para que a aprendizagem se efectue) ou pela forma como tais actividades são apresentadas (carga cognitiva extrínseca – não necessária à aprendizagem -).

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1. Aprendizagem e Memória


2. Aprendizagem Colaborativa em Ambiente Online Focando-se na necessidade do trabalho efectivo e eficiente da memória, as teorias cognitivistas destacam a aprendizagem colaborativa como uma forma proficiente de evolução da cognição. Aprendizagem colaborativa e aprendizagem cooperativa são tipologias de trabalho diferentes porque enquanto aquela consiste num esforço contínuo do grupo (apesar de existir esforço individual na realização de tarefas) para aprender resolvendo problemas em conjunto1, nesta o esforço é individual porque passa pela simples divisão de tarefas relativamente a um determinado trabalho. Em ambiente online as duas tipologias são utilizadas e em ambas existe esforço de trabalho em grupo e responsabilidade pelo envolvimento no mesmo; apesar disso a aprendizagem colaborativa desenvolve, para além de importantes competências cognitivas, significativas competências sociais (fig. 2). Partindo do argumento de que a cognição evolui através da comunicação entre os indivíduos que armazenam um crescente volume de informação que se revela tanto maior quanto maior for a troca e partilha de informação2 compreende-se também que, implicando acção (cognitiva e social) sobre informação, este trabalho leva à construção de um conhecimento comungado por todos que através da comunicação e coordenação entre os diferentes membros do grupo permitindo que a informação contida numa tarefa possa ser dividida por todos e posteriormente perfilhada por cada um. O trabalho colaborativo poderá decorrer em ambiente formal ou informal na medida em que a aprendizagem tanto pode acontecer em ambiente sistemático ou em ambiente espontâneo, compreendendo-se que as cargas cognitivas ligadas aos diferentes ambientes serão também diferenciadas. Deste modo numa abordagem formal da aprendizagem compreende-se a existência de um trabalho mais sistematizado (informalmente a fig.3 mostra isso mesmo) em termos temporal, apesar de a separação Fig. 3 In espacial ser a mesma que a de uma abordagem http://blogdaformacao.wordpress.com informal. Tal sistematização poderá mostrar-se útil numa utilização vantajosa da carga cognitiva intrínseca na medida em que não existe uma dispersão pela diversidade da informação existente na rede (que se constituiria como carga cognitiva extrínseca). Por outro lado uma abordagem informal da

In GOMES Maria, PESTANA Filomena, BROGUEIRA João, Cognição, Colaboração e Comunicação, três valências em Aprendizagem Colaborativa Online, Universidade Aberta, 2011 2 GOMES Maria, PESTANA Filomena, BROGUEIRA João, Cit.1

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Fig. 2 In http://labspace.open.ac.uk


aprendizagem permite, por um lado, o multitasking3 (de forma espirituosa a fig.4 dá-nos essa noção) o que poderá ser interessante em termos de potencialidade relativamente à aprendizagem humana, mas dizem os diversos estudos que é pouco vantajoso em termos de trabalho da memória (porque a memória a curto prazo tem uma capacidade limitada e o trabalho em diferentes tarefas que necessitam da mesma parte do cérebro poderão ficar – pelo menos uma - comprometidos) seja com a geração ‘net’ ou com gerações anteriores. Em termos de ambiente informal de aprendizagem o multitasking exigido leva a uma menor produtividade – e também ao aparecimento de uma carga cognitiva extrínseca - e, apesar de todas as ideias conectivistas se Fig. 4 In mostrarem favoráveis à exclusividade da aprendizagem http://blogdaformacao.wordpress.com informal, certamente que a orientação e direccionamento da atenção (tarefa de um orientador, mediador ou professor) serão mais frutuosas em termos de produtividade e de aprendizagem (significativa). Apesar do envolvimento do aprendiz neste multitasking a aprendizagem, que é, neste caso, quase sempre colaborativa e permite elevados níveis de envolvimento que transformam a aprendizagem de cada um numa aprendizagem de todos ou em rede (através das conexões estabelecidas por diversos indivíduos – sendo por isso uma verdadeira aprendizagem social -) e permite, ainda, um feedback mais alargado sobre a aprendizagem de cada indivíduo (porque a mesma ao estar exposta na rede torna-se, por um lado mais transparente e, por outro mais visível). Compreende-se, deste modo, que uma aprendizagem colaborativa em ambiente online formal exige menos carga cognitiva extrínseca porque está sistematizado, é mediado e leva a uma menor dispersão, permitindo também um esforço comum na elaboração de um determinado trabalho (onde por vezes a divisão de tarefas se torna um momento - individual - desse esforço conjunto) e, ainda, a liberdade de um trabalho assíncrono que poderá concorrer para uma aprendizagem assente numa carga cognitiva pertinente (precisamente pela não dispersão, por um lado, pela rede – porque é uma aprendizagem mediada por um docente que desde logo efectua escolhas e indica caminhos -, e por outro porque deixa espaço para a decisão individual e pessoal de trabalhar no momento mais indicado).

3. Influências do Design instrucional e Aprendizagem Multimédia na Carga Cognitiva

Para mais informações ver o conceito de multitasking nas diferentes perpectivas: Human Multitasking disponível em WWW:< URL: http://en.wikipedia.org/wiki/Human_multitasking [consult. 3 SETEMBRO 2011]; Computer Multitasking disponível em WWW:< URL: http://en.wikipedia.org/wiki/Computer_multitasking [consult. 3 SETEMBRO 2011]; Media Multitasking disponível em WWW:< URL: http://en.wikipedia.org/wiki/Media_multitasking [consult. 3 SETEMBRO 2011]

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É tanto ao nível do design instrucional como dos conteúdos e da apresentação destes, como ainda no que concerne às tarefas e prazos propostos que se joga o aumento ou a diminuição das cargas cognitivas (extrínseca, intrínseca e pertinente). Assim a preocupação com um design instrucional (em ambiente formal virtual) que centre as metodologias pedagógicas em actividades colaborativas permitirá, por um lado, que o esforço cognitivo individual seja menor pela divisão de tarefas e, por outro, que exista um ambiente social mais exigente ao nível da cognição. Certamente que o facto de tais


esforços cognitivos serem considerados cargas intrínseca ou extrínseca depende, ora, da dinâmica do grupo (em que aspectos como a familiaridade entre os membros é determinante para uma coordenação de esforços que exiga menos carga cognitiva extrínseca ou a comunicação e os canais utilizados – e compreensão da mesma – é fundamental), ora, das características de cada indivíduo que integra esse mesmo grupo (sendo as capacidades de cada elemento do grupo um dos factores integrantes nesse processo). Porém o ambiente em que a aprendizagem decorre é tão importante quanto os esforços individual e de grupo na aprendizagem; neste sentido um ambiente que seja propício à interacção (partilha e troca de informação) e colaboração entre as aprendizagens é fundamental. Por isso um design instrucional online que seja concebido de forma a ter o menor nível de carga cognitiva extrínseca (com um interface friendly e operacional que não conjugue muitas fontes de informação que possam dispersar a atenção dos alunos4), será mais propício à aprendizagem e, neste caso, à aprendizagem colaborativa. Tal como o design intrucional deverá ser cuidadosamente criado para permitir a menor entrada de carga cognitiva extrínseca na aprendizagem, o mesmo se deverá dizer dos conteúdos, tarefas e prazos propostos, pois que sabendo-se, a priori, da diversa dificuldade que enfrenta o trabalho colaborativo em ambiente online (devido à distância) os conteúdos deverão ser claros, objectivos e com um grau de complexidade compatível com o nível das competências (skills) dos alunos e o mesmo deverá ser tido em conta relativamente às tarefas e prazos propostos. No que respeita à apresentação dos conteúdos, pela sobrecarga da memória de trabalho que os recursos digitais implicam, a teoria da Aprendizagem Multimédia de Richard Mayer parece ser um bom ponto de partida a ter em conta. Este autor procura esclarecer a eficácia da aprendizagem recorrendo a três pressupostos fundamentais: 1) existem dois canais separados (auditivo e visual) para o processamento de informações; 2) cada canal tem uma capacidade limitada; 3) a aprendizagem é um processo activo de filtragem, selecção, organização e integração da informação. Segundo este autor o ‘princípio multimédia’5 mostra-nos que as pessoas aprendem mais depressa através de palavras e imagens do que apenas através de palavras (Mayer, 2002). Assim sendo é mais simples efectuar aprendizagens (simples e complexas) através da interacção de palavras e imagens do que as efectuar apenas através de palavras (sabendo-se que esta interacção terá de ser real, isto é, não pode surgir casuisticamente). De acordo com a CLT a capacidade da memória de trabalho para aprender pode ser efectivamente alargada se a informação gráfica a ser aprendida for apresentada visualmente, e ser subsequentemente processada na cache visual, e a informação textual associada ser apresentada num formato auditivo e ser subsequentemente processada no circuito fonético6 (fig.5); contudo a apresentação de toda a informação em formato visual ou auditivo poderá sobrecarregar o processamento da memória de trabalho, dificultando o seu trabalho e, consequentemente, aumentando a carga cognitiva extrínseca. Neste sentido, e segundo a teoria de Mayer, para a existência de aprendizagens significativas será importante tentar transmitir o conteúdo por um duplo canal porque no processo de aprendizagem os alunos procuram e fazem sempre associações (de palavras a imagens ou a sons). Assim o processo de aprendizagem será facilitado, diminuindo a carga

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PEREIRA, Francisco, PÁSCOA, Rui, LAGOA, Sérgio, PATROCÍNIO, Zélia, Cit.5

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Segundo Jones, 1994 e Tselios et all, 2001. Para mais informações ver TOMÁS, Cecília, Concepção e Avaliação em e-Learning, Universidade Aberta, 2010 disponível em WWW:< URL: http://caelct.blogspot.com/2010/11/factores-de-qualidade-em-e-learning.html [consult. 3 SETEMBRO 2011] 5 Segundo Mayer Multimédia pode ser compreendido em três acepções: ‘os meios ou aparelhos utilizados, os modos de apresentação ou formatos e os sentidos implicados na recepção da mensagem’. In PEREIRA, Francisco, PÁSCOA, Rui, LAGOA, Sérgio, PATROCÍNIO, Zélia, Teoria Cognitiva da Aprendizagem Multimédia, Universidade Aberta, 2011.

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cognitiva extrínseca (o aluno não fará associações erradas ou não terá a tentação de procurar, no caso do ensino online, informações adicionais na rede – as quais o poderão fazer cair em erro) e permitindo aprendizagens significativas (carga cognitiva pertinente).

Fig. 5 In http://mpel5cegb.wikispaces.com

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Compreende-se que para um eficiente trabalho colaborativo online em ambiente formal o trabalho efectivo da memória terá de ter sido em conta e, neste sentido, o trabalho da memória a curto prazo será tanto mais eficaz quanto mais for estimulado para produzir efeitos ao nível da memória a longo prazo; ora é através de aprendizagens significativas facilitadas por uma aprendizagem multimédia que em ambiente formal de aprendizagem aumentam a carga cognitiva intrínseca e pertinente, diminuindo a carga cognitiva extrínseca.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS PEREIRA, Francisco, PÁSCOA, Rui, LAGOA, Sérgio, PATROCÍNIO, Zélia, Teoria Cognitiva da Aprendizagem Multimédia, Universidade Aberta, Lisboa, 2011 TOMÁS, Cecília, Factores de Qualidade em e-Learning em Concepção e Avaliação em e-Learning, Universidade Aberta, 2010 disponível em WWW:< URL: http://caelct.blogspot.com/ GOMES Maria, PESTANA Filomena, BROGUEIRA João, Cognição, Colaboração e Comunicação, três valências em Aprendizagem Colaborativa Online, Universidade Aberta, 2011 GAMA, Maria João, Aprendizagem da História e TIC, Lisboa, s/data, disponível em WWW:< URL: http://historiatic.yolasite.com VÁRIOS, Aprendizagem, disponível http://pt.wikipedia.org/wiki/Aprendizagem

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NOVAK, Joseph, CAÑAS, Alberto, The Theory Underlying Concept Maps and How to Construct and Use Them, Florida Institute for Human and Machine Cognition, 2006, disponível em WWW:< URL: http://cmap.ihmc.us/Publications/ResearchPapers/TheoryCmaps/TheoryUnderlyingCon ceptMaps.htm ROBERT, Learning Theories Knowledgebase, Setembro, 2011, disponível em WWW:< URL: http://www.learning-theories.com/ TOMÁS, Cecília, CARVALHEIRO, Gonçalo, DOMINGOS, Hugo, MATOS, Manuel, Teoria da Carga Cognitiva e Aprendizagens Complexas, Universidade Aberta, 2011, disponível em WWW:< URL: http://cegrupod.wikispaces.com/ BRETT, Brian, The Psicology of Sharing: Why do People Share Online?, Customer Insight Group, The New York Times, disponível em WWW:< URL: http://nytmarketing.whsites.net/mediakit/pos/ VÁRIOS,

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http://en.wikipedia.org/wiki/Computer_multitasking


Cognição e Colaboração em Ambiente Online