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GUIÃO TÉCNICO A NOITE DO AMIR EXT.- ACAMPAMENTO DOS ÁRABES – ENTARDECER Vê-se o clarão da cidade de Segisamon a arder, incendiada no dia anterior durante mais um ataque dos árabes. As chamas refletem-se nas tendas brancas do acampamento. Ouvem-se murmúrios do arraial dos guerreiros, que tinham tido o dia para repousar e se divertir em jogos e banquetes. À medida que a noite fica mais cerrada, o ruído diminui. A escuridão invade enfim o local. Numa tenda mais vasta ainda se ouve o tinir das taças e o rir alegre. Alguns soldados da guarda do amir ABDULAZIZ dormitam com os alfanges junto de si, no exterior da tenda.

Plano-sequência

(O.S.)

Plano de Conjunto Ângulo normal

CORTA PARA: INT.- TENDA DO AMIR – NOITE O amir está reclinado no almatrá escutando poemas recitados por um jovem xeque. Junto dele está o CONDE DE CEUTA, Juliano, e o BISPO DE OPAS, godos traidores. Muitos tiufados e quingentários despejam as taças de prata. A mesa tem ainda restos de comida. Por fim, o amir decide descansar.

Plano de Conjunto Ângulo normal


ABDULAZIZ Nobres cavaleiros, valentes xeques, a noite vai alta e ao romper da manhã é necessário partir.

Plano Inteiro (zoom in)

Godos e árabes levantam-se e saem em silêncio. ABDULAZIZ fica só, mas a agitação de alma não o deixa sossegar. Caminha de um lado para o outro no aposento e quando volta a sentar-se cobre o rosto com as mãos.

Plano de Conjunto (travelling da esquerda para a direita e vice-versa) Plano Próximo

ABDULAZIZ (ergue-se de novo) Al-Fehri!!

Plano Americano (travelling circular)

(Um vulto negro alto e robusto entra na tenda e dirige-se ao amir) Eunuco, traz até aqui a última cativa que te confiei.

Plano Americano (travelling circular)

AL-FEHRI sai, reaparecendo pouco depois com uma mulher vestida com um cendal que lhe cobria o corpo até aos pés. O amir fica a sós com ela.

Plano Médio (ângulo normal)

ABDULAZIZ Já chorastes os dois dias que me pedistes. Resolvestes ser a mais amada entre as mulheres de Abdulaziz e a mais invejada das donzelas do Oriente.

Plano Inteiro (a mostrar as duas personagens)


HERMENGARDA (com a serenidade estampada no olhar) A minha resolução é morrer quando quiserdes. Enganei-vos. Esperava que um guerreiro viesse arrancar-me do cativeiro, mas ele não pôde salvar-me. (a voz aqui apaga-se um pouco) Deixai-me dizer-vos: infiel, vós sois maldito de Deus e servo dos Demónios. Pedis-me amor, mas sabei que vos detesto…

Enquadramento de Primeiro Plano Plano Próximo

(travelling da direita para a esquerda)

ABDULAZIZ (interrompendo-a e apertando-lhe o braço; no seu rosto há cólera violenta) Dizei tudo; sede até blasfema, mas não digais que detestais Abdulaziz; não digais que amais um godo e que ele seria capaz de vos vir roubar da minha tenda. Como poderia ele escapar deste meu braço, o qual reduz a pó os templos do vosso Deus e os muros da vossas cidades? HERMENGARDA Aquele que eu esperava não se esconde de vós, apenas espera reunir os seus irmãos para se vingar e então vê-lo-eis face a face.

Plano Próximo (travelling da esquerda para a direita)

Plano Próximo (travelling da direita para a esquerda)


ABDULAZIZ Falais de Pelágio, que só ataca de noite as tribos de Al-Moghreb? As vossas palavras abreviaram os dias desse foragido. Arrancá-lo-ei dos seus esconderijos nas montanhas. HERMENGARDA (a voz é ainda mais fraca agora, assim como a força do olhar)

Grande Plano (travelling da esquerda para a direita)

Grande Plano (travelling da direita para a esquerda)

Deus defenderá meu irmão. ABDULAZIZ (expressão de esperança e de alegria) Vosso irmão? São as prisões de sangue e não do amor que vos une ao meu inimigo? Jurai-me que és sua irmã e poderei salvá-lo. Pelágio, filho e sucessor do Duque de Cantábria, Fávila. Se amais vosso irmão, dizei-me: “Eu serei tua”. Estas palavras fá-lo-ão senhor da mais rica província de Andaluz. Dos meus tesouros metade será dele. Vós sereis rainha do meu coração…

Plano Próximo (travelling da esquerda para a direita)

(nota-se-lhe agora no rosto um amor imenso) HERMENGARDA (mais altiva e com ar de desprezo) Pelágio não aceitará nunca um lugar entre os traidores godos. Grande era o preço que

Grande Plano (travelling da direita para a esquerda)


dáveis por uma filha da serva raça dos godos. Guardai-o para comprardes as livres e nobres donzelas do vosso país. Só uma oferta eu aceito de vós: a morte… a morte, e que seja breve. Desprezo-te. ABDULAZIZ (a sua fronte enrugou-se) A morte? Tu serás minha; quando o fogo que me devora se extinguir; quando o tédio de estar nos teus braços me enlaçar, irás satisfazer a soldadesca selvagem. Pode ser que vosso irmão venha então salvar-vos, mas agora, escrava, só te resta obedecer.

Grande Plano (travelling da esquerda para a direita)

Aperta-lhe o braço com violência e ela solta um grito, caindo de joelhos aos pés do árabe. O amir ergue-a, puxando-lhe o véu que lhe cobria o rosto. Atira-a para cima do almatrá. A súplica de Hermengarda morre-lhe nos lábios.

Plano Médio (zoom out) Plano Próximo (Ângulo-Plano Picado)

O filho de Musa não se apercebe de um rugido de cólera que se segue ao grito de Hermengarda.

(O.S.)

Uma sombra cresce na tela que separa o aposento do amir daquele onde está o eunuco que levara até ali Hermengarda; a sombra cresce no chão atapetado…

Plano Fixo


Passos suaves, mas determinados, soam. O amir escuta. Volta-se. Ergue o braço, mas de imediato a sombra aparece vestida como os cavaleiros de Al-Sudan. O primeiro golpe cai-lhe no braço, e de seguida outro no crânio. Dá um grito e cai aos pés de Hermengarda, com o sangue a brotarlhe da fronte. O eunuco surge em socorro do amir. O cavaleiro pega numa tocha acesa e ateia fogo às tapeçarias que forram as paredes da tenda. Depressa o fumo negro e as labaredas trepam até bem mais alto. Al-Fehri, não sendo capaz de apavorado diante do incêndio a para pedir auxílio.

gritar por ninguém e aumentar, sai a correr

(O.S.) Grande Plano (zoom in)

(travelling da direita para a esquerda) Plano de Conjunto Plano Inteiro (zoom out)

CORTA PARA: EXT. – PERTO DA TENDA DO AMIR – NOITE A claridade crescente das chamas no meio da escuridão vai despertando os soldados que protegem o amir. Junto à tenda, vê-se um guarda estendido com um punhal na garganta. No meio da confusão, alguém se aproxima da tenda, sozinho. Em breves segundos junta-se-lhe o atacante do amir com Hermengarda nos braços.

Plano Muito Geral ↓ Panorâmica Vertical (de cima para baixo) Plano Inteiro (travelling da direita para a esquerda)

Os três alcançam os cavalos e afastam-se. Plano Fixo (zoom out)


De imediato um grupo de árabes entra na tenda. De lá retiram o corpo inanimado e ferido de ABDULAZIZ.

Panorâmica Horizontal (da esquerda para a direita)

CORTA PARA: EXT.-OUTEIROS -NOITE Os guardas das vigias mais longínquas apercebem-se do ruído e do fogo. Vão espalhando a notícia, mas os guardas de uma zona não respondem ao apelo de auxílio.

Plano Muito Geral ↓ Panorâmica de Reconhecimento

Os colegas descobrem-nos mortos. Plano Picado Aproximam-se três cavalos. Os guardas árabes veem uma mulher trajada de branco no meio dos dois cavaleiros. Um destes afasta-se um pouco e dirige-se aos árabes.

Plano de Conjunto (Ângulo Normal)

CAVALEIRO NEGRO (fazendo-se passar por árabe) Os inimigos entraram no campo. Os soldados do conde de Septum deixaram-nos passar.

Plano Americano

(O cavaleiro observa os cadáveres) Abdulaziz ordena que se guarde estreitamente as saídas do campo. A chegada de outros cavaleiros não tardará para vos ajudar. Nenhum infiel escapará. Nós vamos conduzir para lugar seguro a escrava querida do amir.

(travelling da direita para a esquerda)


GUARDA Esperemos que esses guardas não tardem mesmo. O CAVALEIRO NEGRO voltou-se para os companheiros. Passaram os três pelo meio dos dois vigias, começando a descer com rapidez a encosta.

Plano Geral

Já vão a uma certa distância, quando outro guarda reage. SEGUNDO GUARDA

(travelling para trás)

Aquele homem é godo! Nenhum árabe fala assim a língua romana, muito menos os broncos de Al-Sudan. Por minha fé, que são inimigos! Toldados por todos os acontecimentos reagem com estas palavras.

inesperados,

Plano Médio

CAPITÃO DO GRUPO Tens razão. Fazei-os parar!

Plano Próximo (zoom in)

ÁRABES Esperai! Alguns cavaleiros árabes começam a perseguição.

Plano Muito Geral


COMPANHEIRO DO CAVALEIRO NEGRO Somos perseguidos!

Plano-sequência

CAVALEIRO NEGRO (somente concentrado em salvar Hermengarda)

(travelling da esquerda para a direita)

Está salva! (duas frechas passam por cima das suas cabeças)

Plano Inteiro

«Covadonga e Pelágio!» (grita) Já junto à planície, o mesmo grito soa em resposta.

(O.S.)

COMPANHEIRO DO CAVALEIRO NEGRO Plano Inteiro São os nossos valentes irmãos. CAVALEIRO NEGRO (parando) Tu, Sanción, guiarás até eles a nobre irmã do duque de Cantábria. Entretanto, eu tentarei reter aqui os miseráveis renegados. Ide-vos.

Grande Plano (zoom in)


SANCIÓN Cumprirei o que ordenas, porque jurei obedecer-te enquanto não salvássemos a irmã de Pelágio. Assim que ela estiver a salvo junto dos nossos companheiros, voltarei com os que me quiserem acompanhar.

Plano-Sequência Grande Plano

(sem esperar resposta do CAVALEIRO NEGRO, voltou-se para a donzela) Partamos! A galope, SANCIÓN e HERMENGARDA afastam-se, embrenhando-se no meio das moitas. O CAVALEIRO NEGRO segue-os com os olhos por breves instantes, mas o tropear dos inimigos a aproximarem-se desvia-lhe o olhar para o lado oposto. É chegado o momento de maior esforço.

(Zoom-out) (travelling para trás) (O.S.) Grande Plano


Guião técnico