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De dentro para fora terapia comunitรกria do engenho do meio

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De dentro para fora terapia comunitรกria do engenho do meio


De dentro para fora foi um projeto

desenvolvido pelas turmas de primeiro ano do curso de Jornalismo da Faculdade Boa Viagem (DeVry Brasil) ao longo do ano de 2013, registrando sessões e histórias de participantes da roda de Terapia Comunitária da comunidade de Engenho do Meio, no Recife/PE, com a orientação da professora Cecília Almeida.


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Foto: Ramone Soraya de Souza


Terapia comunitária, de dentro para fora Na primeira vez em que visitamos a Roda de Terapia Comunitária do Engenho do Meio, a instrução era de apenas observar. Mas, tão logo as apresentações dos participantes se iniciaram, percebemos que tal tarefa seria árdua – para não dizer impossível. Fomos rapidamente tomados pela sinceridade das histórias ali compartilhadas, que nos falavam um pouco da “dor e delícia de ser o que é”. Cada participante encontrava à sua maneira o espaço para tratar seus próprios temores, perdas e frustrações. E por mais sofridos que alguns relatos pudessem soar, não faltava lugar para as pequenas alegrias. Elas vinham em forma de música, para todo mundo cantar junto. Vinham em forma de sonhos, de abraços e de sorrisos. Para apenas observar, era tarde. Estávamos plenamente cativados. Motivados pelo desejo de contar aquelas histórias com respeito, integridade. Mas, também, com sensibilidade. Sensibilidade necessária para mostrar o quanto são humanos estes personagens. O quanto são gente boa, gente simples, gente humilde. Gente que se amargura, mas encontra conforto em pequenos prazeres. Gente que sofre, mas encontra suporte na fala e na escuta da experiência do outro. Enfim: gente. Esperamos que sinta tanto prazer em ler quanto tivemos em escrever e produzir este que é o primeiro volume da série do projeto “De Dentro Para Fora”. Boa leitura! Os autores

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À Sombra das Palavras

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Olhar profissional

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Diário Roda de Terapia

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Um mundo singelo

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Vidas entrelaçadas

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Por trás de um sorriso

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Faíscas de felicidade


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À Sombra das Palavras Maria Nívea Siqueira de Melo Reuel Almeida

“Deixa, deixa, deixa, dizer o que eu penso desta vida, preciso demais desabafar”. A estrofe, da canção Desabafo, de Marcelo D2, toca aleatoriamente em algum lugar ao redor da Praça de Engenho do Meio, no Recife, numa tarde quente de abril. E não poderia ser mais apropriada. Sob a sombra acolhedora de uma mangueira, com os dizeres: “Árvore da Amizade. Terapia Comunitária do Engenho do Meio, vivendo histórias, criando laços e refazendo vidas”, é iniciada mais uma sessão de terapia comunitária, cujo mote principal é quase a própria conjugação do verbo desabafar. O verso exprime o sentimento de uma parcela da sociedade, refém da solidão. Mesmo num mundo em que a tecnologia pode aproximar cada vez mais as pessoas, são muitos os solitários que andam em meio às multidões. São mulheres, homens, jovens ou idosos, com sentimentos à flor da pele, emoções e medos que parecem já não caber mais em si. Pessoas não muito diferentes de qualquer outra, que travam diariamente pequenas batalhas e tentam persistir em meio aos seus próprios conflitos existenciais.

Reescrevendo histórias A roda de terapia comunitária do Engenho do Meio, zona oeste do Recife, é uma entre tantas realizadas no Brasil. É realizada todas as quintas-feiras, a partir das 15h30, e atualmente conta com uma média de 12 participantes por sessão. Há aproximados cinco anos, coleciona histórias de tristezas, abandono e exílio social, mas também de muitas conquistas e alegrias. As sessões são livres – ou seja, não há uma obrigatoriedade de participação. A roda é coordenada por uma equipe de terapeutas de diversas formações – médicos, psicólogos, sociólogos, entre outros. Trata-se de um modelo que busca o acolhimento, através do compartilhamento de experiências, fortalecendo os vínculos entre membros do grupo. O alvo a ser tratado é o sofrimento, as feridas da alma.

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É um processo circular, daí a conotação de roda. A problemática é colocada e circula por todos os participantes.

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“A terapia convencional não é acessível a todos”, como lembra a socióloga e terapeuta Amália Almeida, que integra a equipe de profissionais responsáveis pela coordenação da Roda de Terapia do Engenho do Meio. “A Terapia Comunitária é um encontro onde se procura, através da fala e da escuta, promover o alívio de situações mais imediatas dos participantes”. A metodologia da roda parte do pressuposto de que, ao perceber problema do vizinho e se identificar com ele, o indivíduo passa a enxergar seu próprio fardo com olhos de maior sabedoria e tolerância. Tem também como objetivo resolver, ou ao menos minimizar, os diversos conflitos típicos do convívio em sociedade. O método das Terapias Comunitárias Integrativas (TCI) tem suas bases nos ensinamentos do educador Paulo Freire, como afirma a terapeuta. “É reconhecer que todos têm conhecimentos a transmitir, independente da educação formal”. Ela acrescenta ainda que “os métodos articulam-se com outras formas de tratamento das mais diversas maneiras, facilitam a expressão dos sentimentos e diminuem o estresse”. Além disso, funcionam como uma extensão dos tratamentos formais aplicados nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) – “alguns participantes já foram encaminhados para a roda quando receberam alta do CAPS para que continuassem o processo terapêutico”, complementa. O desenvolvimento da roda se dá da seguinte forma: no acolhimento, são dadas as boas-vindas ao grupo. Depois, são aplicadas técnicas de dinâmicas de grupo – em geral, dinâmicas reflexivas, que preparam para a parte central, em que são colocadas as vivências das pessoas em relação a seus problemas. Após esse momento, aquele que desejar pode propor um tema que será submetido à votação pelo grupo. O tema mais votado é escolhido para ser trabalhado. Nesse momento, os participantes podem fazer perguntas. Na fase do compartilhamento, as pessoas que já passaram por experiência semelhante relatam como superaram ou o que estão fazendo pra viver melhor com o problema. É um processo circular, daí a conotação de roda. A problemática é colocada e circula por todos os participantes. Dessa forma, as experiências vão sendo dispostas, trazendo, a cada um, o benefício da troca, da vivência coletiva de cada relato, de uma forma simples, compartilhada. Os participantes se sentem de certa forma convocados a trazerem as suas experiências e o fazem da forma mais natural possível. Assim, a equipe de profissionais e membros das reuniões têm suas histórias de vida irremediavelmente impactadas e entrelaçadas pelo poder da palavra. “Às vezes não podemos aju-


dar de outra maneira, mas ajudamos com exemplos, nos sentimos mais fortes. Aprendo mais e coloco em prática o que aprendi. Conseguimos fazer amigos”, diz Neide, uma das moradoras da comunidade que participam do grupo. Há algumas regras básicas e invioláveis: o direito à palavra é dado a um de cada vez e fala-se essencial e singularmente do “eu”. Não é permitida a discussão de situações impertinentes à sessão, a exemplo de conflitos alheios à roda. “Por ser um espaço de escuta solidária, não são permitidos críticas ou julgamentos, bem como conselhos”, explica Amália. Como se trata de um espaço aberto, os participantes não são motivados a compartilhar segredos ou assuntos que possam deixá-los em situação de constrangimento. As dinâmicas em grupo não vêm com um manual de instrução, um modo de fazer especificamente pré-estabelecido. Por isso, a equipe da Roda de Terapia do Engenho do Meio busca trazer experiências variadas para cada sessão. “Temos procurado levar outros tipos de atividades terapêuticas. Ano passado, levamos oficinas de musicoterapia, de argila, de papel machê. Foram momentos muito ricos, todos se divertiram e se envolveram”, comenta a terapeuta. Amália ainda diz o que, entre as experiências vividas, mais a emociona: “Toca-me muito a falta de aceitação, a intolerância às diferenças, o não reconhecimento de alguns problemas sérios de saúde mental e, consequentemente, a falta de respeito no âmbito familiar. Ouvir o relato choroso de situações de humilhações domésticas ou públicas também é uma situação difícil”. A TCI “procura promover a socialização, a cidadania, o aumento à autoestima, formar grupos de amigos que possam apoiar-se, resgatar os conhecimentos individuais através das histórias de vidas, valorizando-as e reconhecendo o potencial de cada um”, conta Amália. Isso é evidenciado na própria forma estrutural de cada sessão, em formato circular. “A roda nos iguala e faz com que sejamos personagens ativos e importantes no processo”, diz. Além de funcionar como uma escuta de apoio, a modalidade também “promove o fortalecimento dos vínculos do indivíduo com a própria comunidade”, segundo o professor e doutor em Ciências Sociais Breno Fontes, que desenvolve uma pesquisa sobre práticas de sociabilidades que incorporam o cotidiano dos portadores de transtorno mental. Para ele, a terapia comunitária pode dar ao participante o sentimento de pertencimento a uma comunidade, de inclusão, estreitando os laços entre os membros em outras esferas de convívio. Dessa forma, a roda de terapia comunitária pode funcionar como um ponto de partida para descobrir outras atividades na comunidade, evitando a chamada “morte social”. 11


Pode-se dizer que a vida de cada pessoa ali presente divide-se entre antes e depois da primeira participação: nunca mais será a mesma. “Hoje, me sinto muito melhor. Aprendi a me amar e estou conseguindo melhorar a cada dia. Antes, não gostava de ajudar ninguém e hoje aprendi a ajudar outras pessoas. Aqui, encontrei uma família que não tinha”, comemora Gilda, outra participante frequente das reuniões na praça do Engenho do Meio. Ao final de cada encontro, todos, enfim, despedem-se, formando um círculo de braços dados, cujo balanço sutil remete à ideia de que, juntos, são mais fortes. Nada mais apropriado para ilustrar que podemos até envergar a nossa estrutura, mas quebrar, jamais.

Quem precisa de terapia? Às vezes, situações aparentemente indolores podem marcar a vida de pessoas de maneira profunda. As histórias compartilhadas na roda de terapia do Engenho do Meio são singulares, mas não são muito diferentes de tantas outras histórias vividas no dia a dia de muita gente. São histórias que vão desde angústias pessoais, problemas de autoestima e medo de envelhecer a relatos de dependência química, violência doméstica e transtornos psíquicos mais severos – há lugar para todos na roda de terapia, basta ter a vontade e a disposição de falar. “Mal estar psíquico, atitudes inadequadas, dificuldades relacionais, uso indevido de substâncias psicoativas – drogas – e encaminhamento por familiares.” Esses são alguns motivos, dentre tantos outros, que podem levar um indivíduo a buscar atendimento psicológico, de acordo com o psicólogo Roberto Kozikowski Pacheco. Segundo ele, a sociedade percebe o transtorno mental como “variações, provavelmente qualquer distúrbio, problema ou dificuldade relacionado ao funcionamento ou desempenho psicológico”. Outro ponto crucial evidenciado no cotidiano dos profissionais de saúde mental ocorre pela procrastinação do paciente em reconhecer que precisa de ajuda psicológica. O preconceito em relação ao tratamento mental ainda é grande e por vezes “demanda dos profissionais da área muita habilidade para desconstruir o estigma e esclarecer que se trata de um tipo de ajuda profissional necessária a qualquer pessoa”, afirma Pacheco. Tal dificuldade estende-se ao ponto de, mediante o diagnóstico de uma condição clínica específica, esses mesmos pacientes resistirem à necessidade do uso de tratamentos medicamentosos. A proposta inovadora das TCI como alternativa aos tratamentos convencionais teve o seu início em 1987, na favela do Pirambú, na Comunidade de Quatro Varas, Fortaleza, Ceará. Através do mapeamento de acolhimento em saúde mental, pelas pesquisas do psiquiatra e antropólogo Adalberto de Paula Barreto, surgiu o projeto da Terapia Comunitária. A princípio, os usuários eram atendidos pela equipe de alunos do professor Barreto, no Hospital das Clínicas da Universidade Federal do Ceará. Diante da extensa demanda, o grupo decidiu migrar para os centros comunitários, a fim de aperfeiçoar o processo e estreitar laços com as comunidades literalmente carentes de humanização na saúde pública. E não parou por aí. A ideia inicial seria a de mesclar o curandeirismo às práticas médicas convencionais. As ações visam dar suporte 12


psicológico e terapêutico às minorias, promovendo a inclusão social dos marginalizados pela insuficiente cobertura da atenção básica de saúde no país. Sob o viés do resgate à autonomia e a restauração dos laços familiares e sociais dos participantes, Adalberto Barreto acena com a prática de medidas alternativas dentro da esfera comunitária, que vão desde o desabafo até a utilização de tratamentos populares. Com a expansão das rodas de terapia pelo país, abriu-se a necessidade da formação de terapeutas comunitários. Foi nesse contexto que surgiu a Associação Brasileira de Terapia Comunitária - ABRATECOM. Fundada em maio de 2004, tem por objetivo comum “congregar terapeutas comunitários, outros profissionais e pessoas interessadas na área de Terapia Comunitária”, segundo o Estatuto da entidade, que opera sem fins lucrativos. A expansão do projeto é positiva, com a realização do primeiro curso de formação de terapeutas nas cidades de Misiones, na Argentina e Lausanne, na Suíça. Os cursos têm carga horária de 360 horas aula e abrangem a integração dos participantes, composto por um público diversificado: são agentes comunitários de saúde, agentes pastorais, sacerdotes, lideranças comunitárias, psicólogos, curandeiros, assistentes sociais e educadores, engajados em caráter voluntário. Durante o processo, os alunos são assistidos por uma equipe de psicólogos, psiquiatras e educadores especializados. Atualmente, a entidade conta com uma média de 11.500 terapeutas formados, 36 polos de formação e mais de 575 mil rodas no país. Em 2008, as terapias comunitárias tiveram o seu reconhecimento estabelecido pelo Ministério da Saúde, passando a incorporar a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares do Departamento de Atenção Básica. Com isso, a PNPIC reconhece a importância das terapias como parte integrante e extensiva das políticas de acolhimento e humanização em saúde, tão propagadas pelo SUS.

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Olhar profissional Isabela Carvalho Reuel Almeida

A Terapia Comunitária do Engenho do Meio não poderia existir sem a participação de indivíduos cuja contribuição é fundamental para que seja possível obter resultados: os terapeutas. Movidos pela vontade de ajudar ao próximo e também como requisito para conclusão do curso de formação em Terapia Comunitária, o psicólogo Washington Bezerra, a socióloga Amália Almeida, o médico Gustavo Magalhães e a psicóloga Marluce Cavalcanti formaram de maneira voluntária a Roda de Terapia do Engenho do Meio, em abril de 2008. No momento em que fazemos este relato, cinco anos depois, a roda conta com o apoio de Luciana Castro, também psicóloga. “Tivemos a ideia de criar a roda através de uma atividade obrigatória para a conclusão do curso. Precisávamos ter comandado 45 horas de sessões de roda de terapia. Foi dessa forma que surgiu a Roda de Terapia do Engenho do Meio”, declara Washington. Numa sociedade em que o tempo é curto, cumprir carga horária e alcançar metas são palavras-chaves, não há espaço para conversar e escutar o próximo, o que acarreta num maior número de pessoas solitárias e muitas vezes apresentando quadro de depressão. São esses aspectos que são percebidos nas pessoas que frequentam a roda, como observa Amália: “Hoje, não é fácil encontrar ‘escuta’. A solidão e sensação de abandono é muito grande por parte, principalmente, dos que não podem bancar um psicólogo. A falta de apoio, inclusive da própria família, onde na maior parte dos casos encontram-se os conflitos e com os quais não se pode falar, é visível”, conta. Ela justifica seu interesse na área de terapia comunitária: “Acho que todos deveriam ter acesso a psicólogo, não só para um maior autoconhecimento, como também para aliviar as tensões do dia a dia”. As rodas de Terapia Comunitária se desenvolvem seguindo uma metodologia que tem como foco principal o acolhimento. Uma sessão segue basicamente os seguintes passos: acolhimento, escolha do tema, contextualização e problematização do tema escolhido. “Por fim, há o

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Por trabalhar com sentimentos e emoções, é difícil não se envolver com as histórias ali contadas.

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ritual de agregação e conotação positiva, onde, abraçados, cada um verbaliza o que está levando daquela roda. É importante que cada um expresse como está se sentindo, o que foi apreendido”, explica Luciana. Apesar de ser uma metodologia intimista, os terapeutas ainda encontram certas dificuldades para facilitar o relacionamento entre os participantes das rodas: alguns são mais reservados, outros não frequentam regulamente. Buscando melhorias nos resultados, os terapeutas costumam conversar após as sessões com alguns presentes, além de sempre tentar manter contato com aqueles que não frequentam semanalmente ou até mesmo com ex-participantes da roda. “Sempre têm aqueles que não vêm às sessões regulamente. Ligamos para ele para saber o motivo. Em geral, é porque não acreditam que a terapia possa ajudar. Sempre sugiro trazer ex-participantes para que os próprios comentem sua experiência com a Terapia Comunitária”, explica Washington. “Estamos disponíveis a conversar mais com quem quiser, após a roda. Alguns pacientes me telefonam”, completa Amália. Essa proximidade é de extrema importância para entender melhor os resultados da Terapia Comunitária, principalmente para Luciana e Gustavo, que indicam a roda para pacientes nos postos de saúde em que trabalham. “Tenho um acompanhamento mais próximo da terapia, pois eu encaminho pessoas para lá. É importante que eu tenha esse retorno, para que assim possa ajudar tanto o participante quanto os demais da roda”, diz Luciana. Por trabalhar com sentimentos e emoções, é difícil não se envolver com as histórias ali contadas. São relatos sofridos, fortes, e, em alguns casos, é comum se relacionar ou conhecer alguém que tenha tido experiência semelhante. Para Washington e Amália, as sessões não são apenas um local de escutar as dores. “No início, era mais difícil não me envolver, não trazer para casa a bagagem do que era colocado em terapia. Com a experiência, já é possível desligar. Mas não nego que algumas situações ainda me levam a refletir, em casa”, conta Amália. Ambos declararam que a terapia é também uma forma de se ajudar e de conhecer a si mesmo. Toda semana, o grupo recebe os participantes da roda e aqueles que desejem se juntar a ela, numa experiência enriquecedora para todos os envolvidos. “Considero a Terapia Comunitária de grande importância, no que diz respeito à saúde mental, por ser um ambiente amigo e acolhedor”, continua Amália. “As pessoas, em geral, se colocam com facilidade, ao mesmo tempo em que aumentam a autoestima ao verem que são valorizadas, que já venceram obstáculos na vida, que outros vivem problemas semelhantes, estabelecem novos laços de amizade, se sentem incluídas, aprendem o respeito e a tolerância”, finaliza. 17


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Diário Roda de Terapia Isabella Barbosa e Ricardo Dimas Reuel Almeida

Durante pouco mais de um mês, entre março e abril, nossa equipe esteve presente nas rodas de terapia comunitária do Engenho do Meio. A cada sessão, um tema elegido para discussão; a cada tema, uma multiplicidade de histórias a serem contadas pelos participantes ali presentes. Esse diário busca resgatar o que foi contado em quatro das sessões observadas. Ricardo Dimas Chegamos às três horas no nosso destino, meia hora antes do início da sessão. A primeira surpresa foi descobrir que a roda é realizada ao ar livre, na própria Praça do Engenho do Meio. Como havíamos chegado cedo, tivemos que esperar um pouco, até que chegaram os participantes da roda e alguns dos terapeutas. Fomos, então, ao local onde a sessão aconteceria. Podíamos notar que a grama na praça crescia desgovernada e havia várias folhas de árvores no chão. Apesar disso, a praça transmitia certa paz. Fazia silêncio e era uma tarde bastante ventilada. Próximo ao local da roda, uma mangueira se destacava. Nela, uma placa, que dizia que aquela era a “árvore da amizade”. E a frase: “ouvindo histórias, criando laços e refazendo vidas, desde abril de 2008”. À sombra dessa mangueira, uma roda formada por cadeiras e bancos de plástico. Os presentes começaram a tomar seus lugares. Foi então que uma das terapeutas voluntárias, a socióloga Amália Almeida, pediu para que todos se sentassem, pois a roda já iria começar. Quando todos estavam sentados, um homem começou a falar, em tom de voz alto, com todos que estavam ali. Foi necessário fazer esforço para compreender o que ele dizia, já que sua fala era bastante desconexa, como se ele falasse antes de formar as ideias em sua cabeça. Amália pediu silêncio para que pudesse começar a sessão, mas ele estava muito animado e tinha dificuldades para se manter quieto por muito tempo.

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Quando, por fim, ele fez silêncio, ela pediu que todos se apresentassem. Foi quando ficamos sabendo que ele se chamava Antônio, mas que todos o chamavam de “Toinho”. Após as apresentações, eles cantaram uma canção de boas-vindas para quem frequentava a sessão pela primeira vez, inclusive para nossa equipe. Agora, era hora de conhecermos as quatro regras da terapia: “Fazer silêncio enquanto os outros falam” disse Amália, olhando para Antônio. “Guardar segredo, não julgar e não dar conselho”. Então, cada um recebeu uma folha de papel, como parte da dinâmica que seria realizada. Ao mesmo tempo, uma equipe de filmagem se aproximou da roda. Ficamos sabendo que eles iriam gravar um trecho da sessão para um documentário. Olhei para o papel que havia recebido. Eram frases sobre nossos sentimentos em determinadas situações. Cada um deveria completar as sentenças da lista, até que se fechasse a roda. Eram frases como: “Sinto-me feliz quando...”; “Fico triste quando...”. Quando todos terminaram, a psicóloga Luciana Castro pediu para que alguém falasse sobre algo que aconteceu durante a semana que tivesse sido marcante, fosse algo bom ou ruim. O primeiro a falar foi o mesmo Toinho, que nos contou dos problemas que tinha em casa. Disse que se sentia bem durante as sessões, mas quando estava em casa não conseguia descansar. Em seguida falou Neide, em uma cadeira de rodas, sobre os medos que sentia e a tristeza de não poder mais fazer o que fazia antes devido à idade avançada. Então, uma mulher que havia acabado de chegar também deu seu depoimento; contou-nos que trabalhava numa escola, e que enfrentava problemas lá, pois algumas das professoras não respeitavam algumas crianças com deficiência. Contou também que se aborrecia com essas professoras e que já havia até as reportado, tendo inclusive chamado a imprensa, sem sucesso. Apesar do outro grupo que gravava a sessão, e de um pouco de timidez e receio por parte dos falantes, a sessão progredia. Feitos os depoimentos, a terapeuta pediu para que todos votassem em um dos temas colocados pelos próprios participantes. O tema medo, sugerido por Neide, foi o escolhido. Com isso, a terapeuta pediu que ela falasse um pouco mais sobre o medo que sentia. Ela começou: “Tenho medo até de ficar só em casa”, disse. “Se eu cair, como vou me levantar?”, continuou. Neide nos contava de sua tristeza, de seus medos, que eram vários. “Gostaria que, em minha vida, eu fosse mais alegre”, concluiu. Após a fala de Neide, uma senhora que havia se sentado ao meu lado disse que havia se lembrado de uma canção e pediu para cantá-la: “Hoje eu tive um sonho que foi o mais bonito que eu sonhei em toda a minha vida, sonhei que todo mundo vivia preocupado tentando encontrar uma saída”, entoou. “Quando em minha porta alguém tocou... E era algo tão divino, luz em forma de menino. Tinha na inocência a sabedoria da simplicidade e me dizia que tudo é mais forte quando todos cantam a mesma canção”. Quem mais quisesse contribuir para o tema, ajudando Neide a falar e expor seus medos, teve o espaço aberto. A filmagem para o documentário encerrou quase ao mesmo tempo em que a sessão se concluía. As terapeutas pediram para que fizéssemos um círculo, de pé. “Tô balançando, mas não vou cair”, cantamos, numa dança conjunta. Por fim, todos nós nos abraçamos e nos despedimos até a quinta-feira seguinte. 20


Uma senhora que havia se sentado ao meu lado disse que havia se lembrado de uma canção e pediu para cantá-la.

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Isabella Barbosa Algumas pessoas novas compareceram à sessão, inclusive eu. Por conta disso, novamente, as regras foram ditadas e as intenções da roda foram explicadas: conversar sobre as agonias do dia a dia; um espaço para compartilhar os problemas, as dificuldades, um lugar para desabafar, deixar as dores saírem pelas palavras para, enfim, acalmar a alma. Após as devidas apresentações, a sessão começou. O primeiro a desabafar foi João, um rapaz de 40 anos e que não estava presente na sessão anterior. Suas primeiras palavras foram: “Eu tenho medo de ler. Eu não leio”. Isso chamou minha atenção, pois gosto muito de leitura. Fiquei mais atenta a cada palavra que ele dizia. A terapeuta Amália perguntou o motivo desse medo. Ele disse que tinha medo de ler porque um parente seu ouvia vozes quando lia e ele tinha medo de ouvi-las também. Logo depois, disse que seu médico o aconselhou a não ler até que esse medo cessasse. João continuou, contando que começou a ouvir vozes aos dezoito anos de idade e que, desde então, sente-se perturbado. Em determinada fase da sua vida, ele confessou que pediu para ser internado, mas achava que seria deixado em um “hospital comum”. Seus familiares, entretanto, o internaram em um hospital psiquiátrico, onde teve que tomar muitos remédios. Segundo ele, no período que esteve internado, “espíritos” o ameaçavam, pois não queriam que ele morasse no hospital e se medicasse. As vozes já

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o levaram a ter um acesso de raiva, certa vez. Como o pronunciamento de João chamou a atenção de todos, no momento de escolher o tema que seria discutido naquela sessão, pediram para que ele contasse mais de sua história. Durante todo o depoimento, João olhava fixamente para Amália, que era a pessoa que mais interagia com ele, fazia perguntas de acordo com o seu discurso, sempre dando espaço para que ele conseguisse falar um pouco mais sobre tudo o que aconteceu e acontecia com ele. Hoje, ele não está mais internado em nenhum hospital, mas é acompanhado por um psiquiatra e frequenta a roda de terapia de Engenho do Meio, compartilhando os acontecimentos da sua vida. Após ouvirmos o desabafo do João, quem tomou a vez foi Gilda, uma senhora de cinquenta e nove anos que sofre de depressão. Ela disse que não tem coragem para fazer nada, não sente fome e que está triste constantemente; sente-se também desanimada para fazer as pequenas coisas do dia a dia. Recentemente, começou a ouvir vozes, mas diz não ter medo das mesmas. Confessou que já tentou suicídio e, quando foi tomar o veneno, ouviu a voz de sua mãe a chamando, mas não havia ninguém. Aquilo a interrompeu, ela acredita que foi uma mensagem mandada de algum lugar para que ela não se matasse. Em meio ao relato, contou que foi casada durante muitos anos, porém foi violentada pelo seu companheiro. Disse que só teve sossego quando seu marido faleceu; ele bebia bastante e a bebida foi a causa de sua morte. Gilda disse que todas as noites, antes de dormir, em suas orações e pensamentos, dizia: “Senhor, se eu acordar, tu estás comigo. Se eu não acordar, estou contigo”. Toinho também estava presente e falou em seguida. Sua história tinha muito em comum com às dos outros participantes. Disse que toma remédio controlado desde os catorze anos e que, desde então, é desprezado pela família. Contou, ressentido, que só senta à mesa para comer quando todos já terminaram a refeição, pois não deixam que ele sente-se com todos. Em seguida, lembrou de uma conversa que teve com sua mãe antes de ela falecer. Ela o disse que só fizesse o bem e não maltratasse ninguém. Ele diz que faz isso até hoje; não maltrata ninguém, pois segundo as palavras dele mesmo, “quem maltrata os outros vai preso e eu não quero ir”. Após os desabafos, todos levantaram. De pé, fizemos uma roda e demos um abraço coletivo, onde falamos do que tínhamos aprendido com aquela conversa e, por fim, nos despedimos.

Senhor, se eu acordar, tu estás comigo. Se eu não acordar, estou contigo”.

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Ricardo Dimas Chegamos mais cedo dessa vez e não demorou muito para que todos se sentassem e que a Roda iniciasse. Quando todos já estávamos sentados, passaram-nos uma ata para que assinássemos nosso nome. Enquanto assinava, percebi uma garota jovem que chegava pela primeira vez, e notei cicatrizes ainda abertas de cortes em sua perna. Imaginei como ela havia se ferido. Como era rotina, cantamos uma canção de boas-vindas para aqueles que chegavam pela primeira vez. Mesmo depois de nos apresentarmos uns aos outros, mais pessoas chegavam. Como era a última sessão antes da Páscoa, uma das terapeutas nos passou chocolates e pediu para que lêssemos o que havia escrito embaixo da embalagem. A minha dizia “Felicidade”. Então, ela pediu que um de cada vez falasse o que cada uma das palavras que estavam escritas na embalagem significava em nossas vidas. Um por vez falava de saúde, das realizações, felicidade, prosperidade, alegria, carinho, amizade, sucesso, paz, fé e amor. Depois que cada um havia falado um pouco, a terapeuta Amália pediu para que alguém falasse sobre algo que lhe estava afligindo. Houve um momento de silêncio e notei uma senhora que eu ainda não conhecia que parecia querer falar, mas foi Neide a primeira a dizer alguma coisa: “Muitas vezes a gente está em uma situação em que não tem nem com quem falar”, afirmou. Amália lembrou-a de que durante as sessões ela poderia falar sobre qualquer coisa, que ninguém iria julgá-la. Amália pediu que mais alguém falasse e, dessa vez, a senhora que eu não conhecia falou. Seu nome era Maria José. Ela tinha um sorriso bonito que aparecia a cada pausa em sua fala. Com a voz baixa, ela falava de suas tristezas. Quando Luciana, a psicóloga, pediu para que mais alguém falasse, foi a vez da garota recém-chegada, que tinha cortes na perna, se apresentou. Seu nome é Cristina e ela é natural de Minas Gerais. Contou-nos que se sentia desesperada, ansiosa, e que sofria de depressão. “Tenho até me cortado”, disse, apontando para suas pernas. Fez-se então a votação para que fosse decidido qual tema abordar durante o resto da sessão. Todos votaram 24


no tema de Cristina. Amália pediu para que ela falasse um pouco mais sobre sua depressão. Ela falou que, ultimamente, tem chorado por qualquer coisa. Já se consultou com psicólogos e psiquiatras. Contou-nos também de sua dependência química, mas disse que desde janeiro não usa mais drogas. Lamentou que seu relacionamento estivesse desmoronando e afirmou que, como é nova na cidade, ainda sente-se muito só aqui. Nesse momento, a terapeuta Luciana disse ter se lembrado de uma música. Cantou alguns versos de “Eu só quero um xodó”, de Luiz Gonzaga: “Que falta eu sinto de um bem, que falta me faz um xodó. Mas como eu não tenho ninguém, eu levo a vida assim, tão só”. Em seguida, pediu para que mais pessoas falassem sobre como eles se relacionavam com o problema de Cristina. Um dos participantes falou sobre parentes dependentes químicos de drogas, outro sobre alguém na família que sofre de alcoolismo e Neide falou sobre seu próprio vicio em cigarros. A sessão chegou até o final, e como de costume, todos fizeram uma roda, de pé. Abraçados e em círculo, o grupo se balançava sutilmente de um lado para o outro e cada um contou como sessão havia contribuído para sua vida. 25


Isabella Barbosa Mais uma quinta feira na mesma roda. Porém, com novas histórias, desabafos e rostos diferentes. Na roda de hoje, além das terapeutas Amália e Luciana, também estava presente o médico Gustavo Magalhães, um dos facilitadores. Todos se acomodaram para dar início à sessão. Gustavo disse algumas palavras e propôs que trabalhássemos o corpo antes de começarmos a trabalhar com a nossa mente. Então, uma frequentadora da roda deu a ideia de brincarmos de carteiro. A brincadeira funcionava da seguinte forma: uma pessoa ficaria de pé e todas as outras acomodadas nas cadeiras, sem que nenhuma cadeira sobrasse. O médico foi o primeiro carteiro e começou a dizer: “toc toc toc” .Todos os outros presentes responderam “quem é?” e o ‘carteiro’ falou novamente “É o carteiro”. Novamente, os outros participantes responderam “Trouxe carta para quem?” e o médico disse “Trouxe carta para quem está de calça”. E, com isso, todas as pessoas que estavam de calça, tinham que trocar de lugar. A pessoa que ficasse de pé seria o novo carteiro. Fizemos a brincadeira umas quatro ou cinco vezes, todos riram e pareceram se divertir bastante. Após a brincadeira, todos voltaram a se acomodar nas cadeiras. O médico começou perguntando quem estava fazendo aniversário naquele mês, ou se conheciam alguém que estava aniversariando. Após algumas pessoas comentarem de conhecidos que faziam aniversário naquela data, ou de que comemoravam algo de especial em algum dia do mês, todos cantaram parabéns. Em seguida, foram percebidos alguns rostos novos; as pessoas que vinham pela primeira vez se apresentaram e os mais antigos na roda cantaram a tradicional canção de boas vindas do grupo. Como em todo início de roda, as regrinhas de seu funcionamento foram ditas. Em seguida, a primeira a desabafar foi uma mulher que se chamava Clemecilda. Seu relato foi sobre perda, pois recentemente havia perdido uma sobrinha. A segunda foi Cristina, que mais uma vez falou sobre a ansiedade que vem sentindo e que essa demasiada ansiedade está trazendo consequências negativas para o seu dia a dia. Para tentar superar tudo isso, ela voltou a fazer cursos e começou a ocupar a mente. A terceira foi uma senhora chamada Severina, que compartilhou conosco um sonho que teve recentemente e que a trouxe esperança. Após os temas expostos foi feita a votação e o tema eleito foi o de perdas, sugerido por Clemecilda. Após os desabafos e perguntas feitas pelas terapeutas e pelo médico, alguns membros presentes começaram também a contar suas experiências com todos os tipos de perdas. Ao final, todos se abraçaram e uma senhora chamada Maria pediu para que cantássemos uma música de Roberto Carlos. A música cantada foi Calhambeque e todos se animaram bastante cantando a canção, para finalizar mais uma roda. Alguns nomes podem ter sido alterados mediante solicitação, para preservar a privacidade dos participantes da Roda de Terapia do Engenho do Meio.

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Um mundo singelo Isabela Carvalho Reuel Almeida

Muitos são os problemas que cercam a terceira idade. Além dos estereótipos determinados pela sociedade, como a imagem de pessoas fragilizadas e doentes, existe também o preconceito e a dificuldade de muitos em interagir com pessoas idosas. Tal situação pode levar muitos a uma situação de isolamento, sem companhia para uma simples conversa. As eventuais limitações físicas também podem gerar uma realidade de dependência. Par ticipante da roda de terapia do Engenho do Meio, Neide, 64, sempre deixou transparecer sua preocupação a respeito da sua idade. “Eu fico pensando em mim, nessa idade. Fico pensando: e se eu cair? Quem vai me levantar? Não posso mais com o peso do meu corpo”, diz, revelando um medo em relação à sua própria finitude. Observar Neide durante as sessões da roda significa entrar num mundo no qual um dia todos irão fazer par te, além de também compreender dificuldades que muitas vezes estão próximas, mas que nem sempre são notadas. Sempre muito simpática, Neide afirma que faz cerca de três anos e meio que par ticipa das sessões de roda de terapia do Engenho do Meio. Ela conta como tomou conhecimento da roda: “Foi por indicação de dr. Gustavo [médico do PSF de Engenho do Meio], que indicou essa terapia a minha irmã quando ela foi buscar meu remédio. Ele disse para ela me levar, já que preciso de distração” . Como qualquer pessoa, Neide precisa de momentos de distração e lazer. Entre seus hobbies, estão as reuniões da roda. Como gosta muito de conversar, ela relata que gostaria de que as sessões da roda fossem diárias, pois tem muito prazer em ouvir as pessoas. “Muitas ve-

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Sou muito sozinha, não tenho com quem conversar, o que é algo que eu gosto muito.

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zes é apenas disso que elas precisam: serem ouvidas”, diz. Outra distração de Neide é fazer visitas a lares e abrigos para conversar com pessoas que, em geral, são abandonadas pela família. “Gosto muito de visitar o abrigo de idosos da Várzea, conversar com as pessoas. É quando eu percebo que não sou a única a passar por dificuldades. Outro motivo que me faz gostar de ir ali é saber que um dia posso ir para aquele abrigo e adoraria receber visitas das pessoas apenas para conversar”, afirma. Ela comenta que conta com a ajuda dos irmãos, sempre atarefados, para levá-la ao médico e auxiliar no exercício de outras atividades. Em relação a isso, ela diz que não se sente bem, pois acredita que pode estar os atrapalhando. Ela também afirma gostar de ter sua própria independência e ter muito cuidado com a saúde. “Quando estou disposta, me levanto às 5 da manhã, faço meu café, marco minhas consultas médicas. Gosto de ser independente, mas preciso de alguém para me auxiliar. Meus irmãos trabalham e tem família para cuidar. Não posso depender exclusivamente deles”. A solidão, a falta de alguém para conversar é uma realidade comum aos idosos. A fala prolongada e de ritmo lento pode desafiar a paciência de alguns e, por isso, não são todos os que disponibilizam parte do seu tempo para conversar com pessoas de idade. “Sou muito sozinha, não tenho com quem conversar, o que é algo que eu gosto muito”, conta Neide. Além disso, o convívio com o idoso pode ser uma realidade difícil. Com Neide não é diferente. Ela reclama que suas auxiliares são impacientes e grosseiras, e por isso, não consegue ficar com elas por muito tempo. “É um relacionamento difícil. Sempre estou com uma moça nova. Elas são desaforadas e faltam com respeito”. Neide também destaca um ponto muito importante e que não afeta apenas as pessoas de terceira idade – a situação atual das calçadas, parques e acessibilidade para cadeirantes na cidade do Recife. Como utiliza a cadeira de rodas para auxiliar no seu deslocamento, Neide possui dificuldades para completar trajetos curtos. “Tenho grandes problemas para executar tarefas simples como ir ao mercado. O acesso para cadeirantes é restrito e isso


me desmotiva a sair de casa e acabo me sentindo presa.” Por isso, ela conta que evita ao máximo sair de casa. Em conversa com a terapeuta comunitária e socióloga Amália Almeida, parte da equipe que conduz as rodas de terapia de Engenho do Meio, ela discute mais sobre o caso de Neide e sobre como é trabalhar com ela a questão da socialização. “O processo do envelhecimento é pra ela muito dolorido, pois acarretou dependência e solidão por sua própria história de vida familiar, de doenças. Tem conflitos com a auto aceitação física e vê o futuro com grandes receios e medos de uma maior perda de autonomia”, diz. A terapeuta ainda lembra da importância de experimentar novas atividades e ocupações: “Ela tem uma grande necessidade de falar, mas também é muito resistente no que se refere a fazer mudanças, a tentar algo novo, a frequentar grupos que deem a ela um ciclo maior de conhecimento ou favorecesse novas atividades.” O relato de Neide é uma expressão viva das dificuldades que muitos idosos enfrentem diariamente. Trabalhar aspectos pessoais e sociais é ainda mais complicado quando o idoso possui cer tas resistências em relação ao ambiente em que vive. Também há o agravante de que poucas são as pessoas que conseguem trabalhar a realidade do idoso e adaptá-la de uma forma que o relacionamento seja beneficente a ambos. Saber como conviver e entender a situação é apenas um primeiro passo para fazer a diferença e mudar o quadro atual que tem Neide como exemplo.

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Vidas entrelaçadas Maria Nívea Siqueira de Melo Ramone Soraya de Souza

Dois lados de uma mesma moeda revelam que cada dor é singular – e as reações ao sofrimento podem ser distintas. Numa sessão da Roda de Terapia do Engenho do Meio, percebo duas histórias de vida tão similares – que mudam apenas de protagonistas – e, ao mesmo tempo, tão paradoxais. Eugênia e Lourdes: mães e viúvas que compartilham o dissabor de uma infância marcada pela indiferença materna e humilhações impostas por anos em casamentos fracassados. Eugênia, 65, aposentada. É a primeira vez que frequenta a roda de terapia, a convite de uma amiga. Filha mais velha dos oito filhos de um casal de agricultores de Bezerros, no agreste pernambucano, sabe o que é carregar o fardo de uma infância cujas feridas não cicatrizam, além da pobreza extrema. A aridez das lavouras de milho e feijão estendia-se ao convívio materno, traduzidas em constantes espancamentos. Em seu relato – com voz embargada – diz que “de tantas surras levadas, em algumas situações já não conseguia chorar, apenas sorria da própria desgraça”. Aos onze anos, foi adotada por uma promotora de justiça, vindo morar no Recife, onde travam uma convivência insípida, própria dos que não criaram laços afetivos. Numa tentativa de fuga, encontra no casamento precoce a tábua de salvação para as suas angústias. Ledo engano: o relacionamento nada mais é do que uma extensão do desprezo familiar, traduzido pela indiferença do companheiro; a separação foi inevitável. E, mais uma vez, a história se repete, como que numa cícli-

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ca herança: sozinha e com cinco filhos, Eugênia os dispersa entre os familiares e vê o seu sonho de uma família unida mais uma vez desmoronar. Pergunto-a se conseguiu perdoar a sua mãe. Eugênia não titubeia: “Sim, já a perdoei, mesmo que ela não tenha reconhecido o seu erro. Oro por minha mãe todas as noites”. Há dez anos, Eugênia luta contra uma depressão e agarrou-se ao conformismo, em aceitar tudo, como se viver privada de felicidades fosse uma obrigação. Lourdes, dona-de-casa, 56 anos, dos quais 36 foram dedicados a um casamento envolto pela indiferença do marido, homem ríspido e de atitudes rudes. Sua voz dócil oscila entre o riso e o choro. Frequenta a roda há quase um ano, desde que ficou viúva. Ela não abriu mão de sua fé na religião e conta que “nos momentos de aflição, pedia sabedoria para lidar com as humilhações no casamento”. Diz ainda que, antes de morrer, seu marido reconheceu que “tudo poderia ter sido diferente” e a frase usual “eu te engano” deu espaço ao primeiro “eu te amo”. O perdão restaurou os laços de uma união antes em desalinho. Há uma citação atribuída a Freud que diz: “somos feitos de carne, mas temos que viver como se fôssemos de ferro e qualquer coisa que encoraje o crescimento de laços emocionais tem que servir contra as guerras”. Travamos diariamente a batalha contra o ostracismo social a fim de não figuramos como náufragos dos conflitos existenciais nossos de cada dia. E nem sempre saímos vitoriosos: nossas garrafas teimam em cair no mar do esquecimento e do conformismo quando não partilhamos nossas expectativas e angústias. É quando o nosso corpo cala que a alma desanda e inevitavelmente pagamos a alta fatura do desequilíbrio emocional. Na roda de terapia, um momento o desabafo, para que o corpo não mais cale, para que uma batalha, mesmo que pequena, possa ser vencida. 34


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Por trás de um sorriso Isabella Carvalho e Ricardo Dimas Ramone Soraya de Souza

Numa tarde de quinta-feira, na roda de terapia do Engenho do Meio, uma jovem de pele morena e cabelos curtos, sentada em si-lêncio entre tantos na roda, chamava a atenção de quem estava presente. Os olhos de Cristina analisavam ao seu redor as pessoas estranhas a ela, mas com experiências de vida que, com sorte, a trariam conforto. Vestida em uma camiseta, seus braços à mostra revelavam uma tatuagem singular: uma nota musical. Mas essa não era a única marca que assinava seu corpo. Visível em suas pernas, arranhões, que pareciam tão recentes, maculavam sua pele. Notava-se nela uma necessidade de externar sua dor, seus me-dos, sua angústia. Estava na roda pela primeira vez. Quando teve a oportunidade de se apresentar, falou abertamente de sua depen-dência química e das consequências que elas tinham causado em sua vida, mesmo depois de ter parado de usar crack. Por não conseguir lidar com seu sofrimento, largou o emprego como professora de Educação Física. “Sentia que, mais cedo ou mais tarde, eu iria explodir. Não queria que isso acontecesse na frente de ninguém”, justificou. Enquanto falava, todos nós a olhávamos. Seus olhos, tristes. Suas mãos, nervosas, tomando vida, como se quisessem falar, gritar, e, à sua própria maneira, contar aquela história. Aos poucos, conhecíamos mais sobre ela. Tinha 26 anos e nasceu em Minas Gerais, tendo se mudado para Recife há dois anos com sua namorada, com quem mantem um relacionamento que já dura mais de três anos. Podia-se notar em sua fala que ela se tratava no masculino, o que inclusive depois ficou esclarecido, já que usava um anagrama do seu próprio nome: Cristian. Durante seu relato, uma das terapeutas a questionou sobre os arranhões em suas pernas. “Tá sobrando dor. Tá faltando amor”, ela respondeu, apontando para cada uma de suas pernas. Foi então que pudemos ler as frases escritas na pele da jovem,

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cravadas como cicatrizes em seu corpo. A partir daí, começou a contar sua história. Cristina se descreveu como ansiosa e afirmou que fora previamente diagnosticada com Transtorno de Déficit de Atenção e Hipe-ratividade (TDAH). Durante a sessão, ela comentou brevemente sobre outros tratamentos que havia experimentado, porém, sem sucesso: tinha dificuldades de se manter no mesmo tratamento por muito tempo, desistindo quando não percebia resultados rápidos. Queria deixar para trás sua dependência química, sobretudo. Desde os vinte anos era usuária de crack. Era difícil, porém, estabelecer o motivo que a fez recorrer às drogas. Um subterfúgio para sua tristeza e solidão, talvez. Não sabia responder, mas sabia que a droga havia agravado sua situação. Sabia que precisava parar, mas, sempre que tentava, sucumbia, mais uma vez – não resistia à abstinência. Ela conta que havia se graduado em licenciatura em Educação Física há alguns meses, mas pensava em mudar-se para Pernambuco e fazer seu bacharelado. Era uma nova vida começando, uma mudança com esperança de melhoras, que ela estava determinada a conseguir. Chegou ao Recife com sua namorada no fim de outubro de 2011. Sua parceira era mais uma razão para a mudança. Com o relacionamento desgastado, acreditavam que estar num ambiente novo ajudaria a recuperar o que elas haviam vivido juntas. O tempo passava. Ela já havia conseguido trabalho em uma escola, como professora de Educação Física. Afirmou gostar bas-tante do seu trabalho. Segundo ela, os alunos a faziam esquecer, pelo menos momentaneamente, dos maus tempos. Era feliz enquanto ensinava e todos seus alunos demonstravam gostar dela. Sua relação com eles não podia ser melhor. Ela e sua namorada ainda conseguiram um segundo trabalho, em um pub, onde conseguiam um dinheiro extra. Cristina como garçonete e sua namorada como recepcionista. Os clientes nem sempre eram agradáveis, mas isso fazia parte do trabalho. O ritmo era acelerado.Trabalhava durante a madrugada no bar, e lhe sobrava pouco tempo para dormir. Por outro lado, pelo menos por ora, este ritmo acelerado parecia mantê-la menos dispersa. Por um tempo, essa rotina deu certo, mas, depois, tudo pa-receu se tornar uma bagunça, um caos. Seu relacionamento com sua parceira não melhorou e tudo estava voltando ao que era antes. Era hora de buscar tratamento. Cristina buscou ajuda, consultou-se com psiquiatras, mas, segundo ela, nenhum parecia a compreender. Ela se sentia apenas julgada. Sentia-se só, precisando de alguém para desabafar. Por isso, usou a internet como refúgio, buscando amigos virtuais. Uma de suas amigas gerava ciúmes na sua parceira, que a acusava de estar deixando-a de lado. Essa amiga virtual tornou-se um dos pontos discutidos em uma briga que tiveram. “Defendi essa minha amiga de uma forma que qualquer um pensaria que eu estivesse tendo um caso com ela, mas não”, elucida. No fim do ano de 2012, Cristina e sua companheira viajaram para Minas Gerais, onde romperam o ano. Foi aí que tudo pareceu explodir de vez. Sua parceira estava em uma cidade com a familia dela, enquanto Cristina resolveu ficar com seu pai. Foi então que teve uma recaída com o crack. Apesar de estarem em cidades diferentes, sua namorada ficou sabendo de sua recaída. A briga foi inevitável. Sua parceira culpava a amiga virtual de Cristina e seu afastamento dela. Cristina defendeu sua amiga fervorosamente, fazendo com que sua parceira ficasse com ainda mais ciúmes. Voltaram para Recife com o relacionamento abalado. 38


Procurou mais psiquiatras e mais psicólogos. Receitavam re-médios, como ritalina, mas esses não pareciam surtir efeito. Cristina tinha pressa e queria sentir as mudanças o mais rápido possível. Impaciente e incrédula, acabava abandonando todos os tratamentos pela metade. Ao menos, conseguia sustentar sua so-briedade: sua recaída com o crack, em janeiro de 2013, havia sido seu último contato com a droga. Tal feito não vinha sem sofrimento. As crises de abstinência eram severas. Quando não suportava mais, o único refúgio de Cristina era cortar-se. Riscava a perna com o estilete, transfe-rindo a dor que sentia por dentro para algo que provasse ser real. “Me corto para aliviar meu sofrimento, para externar minha dor”, verbaliza. Na busca por tratamento para seu TDAH, conheceu um médico residente no posto de saúde do Engenho do Meio, que a indicou para a Roda de Terapia. “Eu fui até a roda de terapia com um pouco de receio, pois eu já havia participado de outras que não foram nada legais. Mas, logo no início, vi que ali era diferente. Gostei da maneira que a conversa foi conduzida e de não ter sido julgada em momento nenhum”, contou. Desabafar da forma como pôde na roda fez com que se sentisse melhor. Não foi julgada e ninguém a criticou em nada, nem a respondeu com ironia, como já havia acontecido em outros encontros que ela frequentou anteriormente. Após as várias discussões com a namorada, elas decidiram acabar o relacionamento. Apesar de tentarem ao máximo fazê-lo de uma forma amigável, a experiência não deixou de ser traumática. Mesmo após terem terminado, tiveram uma grande discussão. Sua namorada foi embora e Cristina teve o que descreveu como uma crise de raiva: “Foi um acesso de fúria, sei lá. Eu dava chutes e socos no guarda roupas, gritava. Por fim, peguei meu estilete e cortei meu corpo todo. Me cortei com tanta raiva e violência que quase desmaiei”. Depois disso, as coisas foram se ajeitando. Ela tem intenção de continuar seu tratamento e voltar à roda de terapia. É difícil e o caminho longo, mas ela não pretende desistir. “Tenho esperança de conseguir melhorar, arrumar um trabalho na minha área e terminar meus estudos”, disse, por fim. Não tem vontade de voltar pra Minas Gerais, mas, seja onde for, sua busca por paz e conforto continua.

Tá sobrando dor. Tá faltando amor”, ela respondeu, apontando para cada uma de suas pernas. Foi então que pudemos ler as frases escritas na pele da jovem, cravadas como cicatrizes em seu corpo.

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Faíscas de felicidade Isabella Barbosa Reuel Almeida

Durante as sessões da roda de terapia comunitária do Engenho do Meio, várias histórias são compartilhadas. Na maioria das vezes, com uma distinção enorme entre cada uma. Algumas vezes, estão relacionadas ao casamento, com a família ou problemas de saúde. Após ouvir relatos completamente diferentes, foi fácil perceber que algumas dessas histórias se unem por um pequeno detalhe: a forma de enfrentar os problemas. Apesar do eventual sofrimento de alguns participantes, eles se mantêm otimistas. Carregam sempre um brilho no olhar e um sorriso estampado no rosto. Com o passar do tempo, nossas lembranças ficam marcadas no nosso corpo. Linhas de expressão e fios brancos mostram que, apesar de dura, a vida também é mágica. Mulheres que guardam no coração os sorrisos e as lágrimas; que guardam momentos, pessoas e palavras que o tempo tornou inesquecíveis. Pessoas que encontraram, na dificuldade, um modo um tanto quanto gracioso de enfrentá-la. Senhoras que aprenderam a transbordar de alegria mesmo com um coração com motivos para chorar. Clemecilda Aguiar tem 59 anos. Após a morte de sua mãe, percebeu que a tristeza estava tomando conta da sua vida. Não conseguia fazer mais nada além de pensar na dor e na falta que sentia. Procurou ajuda médica e foi diagnosticada com início de depressão. Em entrevista, contou que algumas vezes seu quadro de depressão complica um pouco por consequência das fre-

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Quando ela costura suas peças, sua mente vai para um mundo onde tudo é melhor, onde não existe dor, nem saudade, onde o tempo passa devagar e ela aproveita cada momento fazendo o que gosta.

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quentes perdas em sua família. A mais recente havia sido a da sua sobrinha, a quem era muito apegada. “Tudo estava bem, até que ela foi diagnosticada com câncer. Foi difícil acreditar e aceitar”, disse. Clemecilda afirma que fazia o que podia para ajudar, junto aos outros familiares. “Todos os dias, depois do almoço, ela me ligava e dizia que estava bem. Um dia, ao invés da minha sobrinha ligar, eu recebi a noticia de que ela havia falecido” Na época em que foi diagnosticada com depressão, ela não trabalhava. Isso dificultou bastante, pois, quanto mais ficava em casa, mais seu quadro se agravava. Decidiu então estudar. Fez magistério e, logo depois, decidiu fazer um curso de corte e costura. Os anos passaram e ela continua a tomar seus antidepressivos. Mas foi na costura que descobriu um refúgio. Quando ela


costura suas peças, sua mente vai para um mundo onde tudo é melhor, onde não existe dor, nem saudade, onde o tempo passa devagar e ela aproveita cada momento fazendo o que gosta. Algo que também tem ajudado bastante é frequentar a roda de terapia. Apesar de já ter feito terapia individual, disse que prefere a comunitária, pois, em determinados momentos, as histórias são parecidas com as dela. Ela diz que, de alguma forma, ouvir relatos de vida parecidas com a sua ajuda muito. Após as conversas na roda, sente-se leve e aliviada. “É como um remédio, que você toma e logo vai fazendo efeito” - É assim que ela define as sessões na roda de terapia comunitária. Algo que também ajuda a ocupar a mente é sua casa. “Quando era solteira sempre tive o sonho de ter minha casa, de ser mesmo dona de casa, sabe? Depois que casei, foi como se o sonho tivesse sido realizado”, disse. Clemecilda acredita que esse pode ter sido o motivo de ter demorado a fazer o curso de magistério. “Eu gosto mesmo de limpar a casa, deixar ela arrumada, do meu jeito”. Na parede, um quadro que é chamado “O coração de Jesus”. Ela conta: “Ele ilumina minha casa. Ganhei da minha mãe, antes de casar. Acho que foi para que ele abençoasse o casamento e a casa”. Além de todas as coisas que tem e faz para passar o tempo e distrair a mente, ela também gosta bastante de animais. Certa vez, adotou uma cachorrinha que encontrou na rua. Contou que a cachorrinha era muito apegada a ela: “Ela era meu xodó”, disse com um olhar distante. Hoje, ela tem um papagaio chamado Pepeu, que é bastante tagarela. “Sempre que alguém grita no portão, ele responde ‘Já vai.’ É lindo demais”. Ter um animal de estimação em casa faz ela sentir-se bem e sempre tem boa companhia. 43


Já Maria José é uma senhora de 74 anos, que só de conversar transmite uma alegria que contagia todos que estão ao redor. Na entrevista, contou-nos em meio às poucas lágrimas que escorriam em seu rosto que estava com câncer. Disse que não perdeu a fé em nenhum momento e buscava aproveitar o tempo que a restava com alegria. “Eu ainda tô aqui na terra, meu espirito ainda não subiu, a carne ainda não foi pra terra. Então tem que tá alegre”, desabafou. Ela mora em um abrigo com mais quatro senhoras. Como a casa estava em reforma, todas dormiam no mesmo ambiente, as camas estavam uma ao lado da outra, todas um pouco bagunçadas, como se tivessem acabado de tirar uma soneca após o almoço. Pude perceber que ao lado dos travesseiros da sua cama havia um radinho de pilha. Curiosa, perguntei o que ela gostava de ouvir. Entre sorrisos, contou que gostava mesmo era de ouvir os jogos do Sport Clube do Recife. “Sou rubro negra de coração”, disse, encostando a mão em seu coração e com um sorriso enorme estampado em seu rosto. Num bate-papo muito agradável, ela contou que namorou muito e que gostava muito de paquerar quando mais jovem. “Meu namoro era pegar na mão, conversar e piscar o olho. Hoje é todo mundo se agarrando”, disse. Falou que já viajou bastante e que se ainda estivesse em condições viajaria mais. Morou durante um tempo em São Paulo, na casa do seu sobrinho, e depois passou quatro anos em Aracaju, trabalhando como doméstica. Também morou no Rio Grande do Norte. Agora, depois que tudo passou e não pode mais viajar como antes, fica apenas com as recordações de tempos que jamais voltarão. Cada linha de expressão mostrava uma aventura, uma dificuldade, uma alegria. Mostrava que foi feita para ser muito bem vivida. Rosa de Saron escreveu que “Hoje, muitos choram, mas não desistem de viver. Hoje, muitos choram sorrindo”. São mulheres que, apesar de toda a dificuldade, encontram nelas mesmas uma faísca de felicidade. Essa faísca é suficiente para provocar um incêndio de sorrisos, que vai se alastrando por onde quer que passem.

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Maria José viveu do jeito que pôde viver e não esqueceu nem por um momento de ser e de estar feliz. Dificuldades foram encontradas e superadas, sempre acreditando que o melhor iria acontecer. Ela se foi, mas com certeza um pouquinho da sua alegria ficou em cada um que pôde conhecê-la e sem dúvida admirá-la. Que ela descanse em paz.

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Coordenação geral e edição Cecília Almeida Coordenação do Curso de Jornalismo da Faculdade Boa Viagem Janaina Calazans Reportagem Isabela Carvalho Isabella Barbosa Maria Nívea Siqueira de Melo Ricardo Dimas Fotografias Ramone Soraya de Souza Reuel Almeida Pesquisa Cibelly Cristina de Oliveira Diagramação Jorge Borges


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De Dentro para Fora - Terapia Comunitária do Engenho do Meio