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Eu não devia ter me lembrado dele. Ele era apenas um cara que andava por um restaurante. Eu não sabia o nome dele. Nunca fizemos contato visual. Não havia conexão entre nós. Mas eu podia senti-lo. O arrepio abaixo da minha espinha. O comando em sua presença. O estalo da tensão no ar ao seu redor. Essa foi a primeira vez que o vi, e fiquei cativada. A segunda vez foi diferente. Ele estava no misterioso elevador dos fundos do meu prédio. Nossos olhos se encontraram por um segundo fugaz antes que as portas se fechassem, e eu comecei a cambalear. Minha respiração foi roubada. Meus sentidos ficaram em alerta máximo. Meu corpo zumbiu. Esse foi apenas o começo. Ele era o líder da máfia. Eu estava prestes a me apaixonar por ele, e seu nome...

COLE MAURICIO.

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CAPÍTULO UM Eu estava cercada por champanhe, luzes de cristal e pessoas bonitas. E eu queria morrer. Não realmente, mas eu estava amontoada em um canto com minhas costas voltadas para a festa. Este era o trabalho de Sia. Ela era coordenadora de eventos nesta galeria de arte, a The Gala. Eu nem sabia o que ela estava fazendo, mas eu estava aqui porque ela me pediu para estar. Esta era sua rotina, uma sexta à noite típica para a minha melhor amiga. Pessoas ricas e lindas se reuniam para beber, socializar, jogar dinheiro para alguma caridade, e principalmente, fofocar. Isso não era uma coisa minha, e entre todas essas pinturas e socialites, eu queria desaparecer. Eu me mudei para Chicago há dois anos, mas isso parecia que foi há uma vida inteira agora. Viemos pelo trabalho de Liam. Ele era o mais novo conselheiro no Haven Center, mas há um ano ele foi morto, atingido por um motorista bêbado no caminho para casa. Um arrepio me percorreu quando me lembrei. Liam tinha deixado uma mensagem de que ele estava parando para comprar flores – ele estava a um quarteirão de distância. O florista local tinha um estande em nossa mercearia. Eu tive a ideia genial de ir com Frankie e encontrá-lo na loja. Nosso filhinho peludo poderia esperar no

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carro enquanto nós comprávamos comida juntos. Era tolice, mas compras de supermercado eram meu ‘encontro’ favorito. Liam achava ridículo. Ele sempre ria, mas se divertia. E Frankie adorava. Ele saia correndo de casa e agitava o rabo por causa das coisas no carro. Vivemos em um bairro agradável, e não estava muito quente, então eu confiei que o nosso filho ainda estaria lá quando voltássemos. Quando Frankie e eu viramos a esquina, o carro de Liam estava esperando para atravessar o cruzamento e virar para o estacionamento. Ele sorriu quando viu Frankie e eu, e ele parecia tão feliz. Ele levantou a mão para acenar. Assim como eu. Quando a luz mudou, Liam começou a atravessar – eu vi seu sorriso desaparecer. Eu vi sua mão segurar o volante. Eu vi o sangue escorrer de seu rosto. Ele tinha começado a mexer a boca: — Eu am... Meu coração torceu. Estava sendo arrancado, lentamente, centímetro por centímetro enquanto eu via o carro do meu marido ser destruído por um caminhão. Eu inclinei minha cabeça e agarrei minha taça de champanhe. Eu ainda podia ouvir o som do metal sendo esmagado, triturado e moído. Então o carro começou a girar. Uma vez. Duas vezes. Tinha rodado três vezes antes de parar. Ele tinha rolado três vezes antes de morrer. O terror – eu nunca vou tirar aquela imagem da minha mente. Seus olhos azuis cristalinos, maçãs do rosto altas, um rosto que eu sempre provocava que manteria as mulheres dando em cima dele por muito tempo depois que ele passasse dos cinquenta anos, nunca tinha parecido tão assustado. Tudo aconteceu em câmera lenta. Seus olhos foram para o caminhão, e então eles me encontraram. Frankie estava latindo. Eu não conseguia me mexer. Meu coração desacelerou. Foi-me dito mais tarde que eu tinha impedido Frankie de correr para o trânsito, mas eu não tenho memória disso. Tudo o que me lembro é de Liam e o olhar em seus olhos quando ele soube que iria morrer.

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Meu futuro morreu naquele dia. — Addison! Tive um segundo para me preparar, e enxuguei a lágrima que tinha escapado do meu olho. Sia correu para o meu lado, sibilando meu nome em um sussurro animado enquanto segurava meu braço. Ela se aproximou, girando para que ela pudesse falar calmamente comigo, mas ainda ver seus amigos atrás de nós. Seu vestido roçou meu braço nu. — Eu tenho a melhor notícia para você! Sério, estou chorando como uma criança de doze anos porque é tão boa. — Ela fez uma pausa, seus olhos procurando meu rosto, sua cabeça se movendo para trás uma polegada. — Espere. O que você está fazendo aqui? — Ela olhou por cima do ombro. — A rua é linda e tudo mais, mas a festa está atrás de você. Tive que sufocar um sorriso. Ela não entenderia. Eu estava realmente voltada para o centro de Chicago. O tráfego era mínimo devido à nevasca iminente. A neve estava caindo, empilhando-se sobre os carros, calçadas, pessoas e sinais. Era de tirar o fôlego. Essa era a arte que eu apreciava. Sia amava as pessoas, ou mais especificamente, amava as conexões. Ela não via apenas rostos quando os conhecia. Ela via a riqueza, seus amigos e potenciais conexões. Eu era o oposto. Eu parecia notar tudo, exceto essas coisas – ou eu costumava notar. Eu costumava durante meu tempo com Liam, quando meu coração estava cheio, aberto e acolhedor. Mas isso foi até então. Agora, eu estava no pós-Liam. Tudo era maçante. Cinzento. Preto. Branco. Suspirei. Até me deprimi. Eu sintonizei de volta para o que Sia estava dizendo. Ela não tinha parado para esperar por minha resposta. — ...número, e eu tenho que te dizer, você vai adorar. É um dos lugares mais exclusivos que já ouvi falar. Ninguém sabe sobre a abertura, mas eu tenho o número para você. Você acredita nisso? Quão incrível eu sou como uma amiga? — Seus olhos brilhavam. — Sou incrível, Addison. Ah...

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— Ok, entendi. — Eu gentilmente puxei sua mão do meu braço, segurando-a na minha. Ela apertou de volta, seu corpo dançando com excitação. — Diga de novo, — eu disse a ela. — O que você conseguiu para mim? Ela enfiou um pedaço de papel na minha palma. Sua voz era tão silenciosa. — Eu tenho o número de um dos edifícios mais exclusivos que existem. Fica a três quarteirões daqui. Nunca houve uma vaga, mas há uma agora. O terceiro andar está aberto. — O que quer dizer, o terceiro andar está aberto? — Desdobrei o papel para encontrar um número de telefone rabiscado nele, nada mais. — É o edifício The Silver. — The Silver... — Eu olhei para ela quando algo clicou sobre qual edifício ela estava falando. Era um edifício a uma curta distância, coberto inteiramente por algo de prata. Sia pensou primeiro que era uma companhia, mas quando descobriu que abrigava moradores, ele teve um apelo completamente diferente para ela. Seu interesse foi despertado, e quando isso acontece, Sia é como uma detetive, indo atrás de cada dica que ela recebe. Só que ela não conseguiu encontrar nenhuma informação sobre ele. Havia um ar de sigilo sobre quem era dono dele e quem morava lá, o que só aumentava seu apelo. Eu ouvi sobre esse prédio durante os dois anos em que conhecia Sia. Nós nos conhecemos no início, logo quando Liam e eu nos mudamos para Chicago, e ela foi a única amiga que ficou comigo enquanto minha vida desmoronava. Fiquei sem palavras por um momento. Ela finalmente resolveu seu mistério? — Quem é o dono? Uma

careta

brilhou

sobre

seu

rosto,

estragando

momentaneamente a imagem de perfeição que eu sabia que ela queria para esta noite. Ela tinha prendido seu cabelo louro claro em um coque e passado rímel em seus olhos escuros. Eles pareciam esfumaçados, mas sedutores e sexys. Exatamente como Sia era. Ela se aproximou de mim, ajustando as alças em seus ombros enquanto ela olhava atrás dela.

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Ninguém estava olhando, então ela se abaixou para puxar a frente de seu vestido de baile para cima. Ele tinha baixado bastante, mostrando uma quantidade saudável de seus seios, mas essa era Sia. Eu tinha imaginado que era como ela gostava de parecer. — Essa é a questão, — disse ela. — Eu ainda não sei, e está me deixando louca. Você pode descobrir, entretanto. — Ela apertou meu braço novamente. — Isso foi passado para mim através de um amigo de um amigo de um amigo, mas se você ligar para esse número, você pode pedir para ver o terceiro andar. — Parece caro. — É perfeito para você. — Sua mão se moveu para seu peito. — Eu não posso pagar, mas você totalmente pode. Você tem o dinheiro que Liam te deixou, e tem tido vontade de sair daquela casa. Quero dizer, todas aquelas memórias. Eu entendo totalmente. Eu sei que você tem procurado se mudar. Eu estava, embora fosse um segredo vergonhoso. Liam amava nossa casa. Iríamos construir nossa família lá. O pensamento de sair me fez sentir como se eu estivesse me afastando dele. Eu adiei isso por um ano, mas estava ficando demais. Eu podia senti-lo em cada quarto. Eu podia ouvi-lo rir. Quando eu estava no andar de cima, eu jurava que ele ia chamar meu nome como se ele estivesse apenas voltando do trabalho. Tudo era ele – o mobiliário, a estúpida e cara máquina de café expresso que ele havia jurado que precisávamos para viver e então não conseguia descobrir como usá-la. Até mesmo seu espremedor – eu ainda não podia acreditar que ele tinha comprado um espremedor para nós. Minha garganta fechou. As lágrimas vinham, e eu tinha que parálas. — Sim, mas no centro? — Eu murmurei, minha garganta crua. — Essa é uma grande mudança. — Seria incrível. Você viveria a três quarteirões daqui. Estou aqui o tempo todo, a minha casa não fica muito longe. Você pode ir de táxi facilmente. — Seus olhos estavam arregalados e suplicantes. — Por favor, me diga que você vai ligar. Faça! Façaaaaa.

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Olhei de volta para o número. — E se esse for um esquema elaborado para aprisionar as pessoas e matá-las? Você mesmo disse: você não sabe quem é o dono do prédio. Poderia ser a máfia russa, — eu brinquei. — Ainda melhor! — Ela revirou os olhos e descartou isso com um aceno. — Vamos, se fosse a máfia russa, eu teria ouvido falar. Além disso, eu ouvi que um dos residentes é o CEO da Grove Banking. — O CEO? — É o lugar que ele fica aqui na cidade. — Oh. — Vir ao centro era um incômodo. Eu adorava ver Sia, mas eu odiava vir aqui. Mas, na verdade, viver aqui... Eu me esquivaria de todo o estacionamento e tráfego. Havia algo pacífico sobre a vida entre os melhores restaurantes, museus, lojas e muito mais. E embora as coisas estivessem ocupadas durante o dia de trabalho, eu sabia que também havia momentos em que era silencioso. Depois de algumas horas, era um santuário dentro de uma das áreas metropolitanas mais ativas no país. — Vai ser tão caro. — Sua herança de Liam é ridícula. Você ficará confortável para o resto de sua vida. Sim, minha herança era ridícula – mas não porque era de vinte milhões de dólares, era porque eu nunca soube disso. Liam nunca me dissera. Na verdade, ele mantivera vários segredos. Eu não tive conhecimento sobre sua riqueza até que sua família me contou em seu funeral, de má vontade. Eu sabia que sua mãe odiou contar. Sua avó tivera um nome conhecido, quando ela tinha inventado um utensílio de cozinha popular. Eu ainda não acreditei, mesmo quando o dinheiro foi transferido para minha conta bancária. Na maioria dos dias, Sia era quem me lembrava sobre isso. Eu tinha ido bem como uma escritora freelance antes que ele morresse, o suficiente para ter um pequeno ninho de ovos, mas tive que mergulhar em sua herança durante o ano passado. Apenas um pouco, mas eu teria que mergulhar em mais dela por esse lugar.

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— Vou ligar. — Sia pegou o pedaço de papel de mim. — Vou salvar o número. Vamos juntas para ver. Você não estará sozinha, e dessa forma eu posso ver dentro desse glorioso pedaço do céu. Você pode decidir depois. Eu dei-lhe um olhar pesaroso. Se eu o visse, e fosse lindo, eu provavelmente o quereria. Eu gostava de viver na simplicidade, mas também aprecio a beleza. E, evidentemente, eu poderia pagar. Suspirei. — OK. Ligue e agende. Ela agarrou meu braço com as duas mãos. — Oh, Meu Deus! Estou tão animada! — Ela me puxou para ela, mas o movimento fez com que seu cabelo se desarrumasse também, para fora da cabeça dela. Ela parou e rapidamente acariciou tudo de volta no lugar – cabelos, seios, vestido, tudo. Seu sorriso nunca vacilou. — Temos que comemorar! A melhor merda de champanhe que eu possa encontrar. — E ela saiu, no mesmo redemoinho em que ela veio. Ela fez sinal para um dos garçons. Ela se moveu graciosamente através da multidão entre todos os vestidos espalhafatosos e smokings pretos. O mundo de Sia era lindo. Ele era muito mais animado do que o meu, e era bom de se visitar. Eu não acho que eu poderia lidar com a vida assim, no entanto. Seria isso o que aconteceria se eu me mudasse para o centro da cidade? Ou mesmo se este lugar fosse algo que eu amasse, se fosse tão exclusivo como ela disse, eles me locariam? Certamente eles queriam alguém, alguém que fosse alguém. Eu não era ninguém. Diabos, metade do tempo eu nem era eu. Mas eu seria. Gostaria de ver o lugar e acalmar Sia depois. Eu podia vê-la se aproximando agora com não uma, mas duas garrafas de champanhe em suas mãos. Olhei para o que ela me ofereceu. Ela prendeu seu cotovelo através do meu como eu fiz e me guiou de volta ao evento que ela organizou. — Vamos subir até o meu escritório e vamos nos acabar. — E seus clientes? — Eu já comi e jantei com todos eles. Eles vão ficar bem. A equipe cuida deles. Agora é a hora da melhor amiga. — Ela me puxou pelas

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escadas e piscou sobre seu ombro, sua voz abaixando. — E, além disso, eu já fiz meus planos para a noite, se você sabe o que quero dizer. Quando você for para casa e eu me sentir solitária – também conhecida como excitada – eu devo dar a Bernardo um telefonema. Não perguntei quem era Bernardo; ela tinha vários namorados. Eu apenas sorri e a segui. Eu faria o que ela queria. E quando meus lados estivessem doendo de rir muito mais tarde, eu chamaria um táxi. Eu iria para casa, e me curvaria sob o meu cobertor sabendo que por uma noite, a bebida me ajudaria a dormir.

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CAPÍTULO DOIS Levou um mês para agendar nossa visita. Sia tinha que ir comigo. Ela programou; e então eu mudei de ideia. Ela programou uma segunda vez, e uma outra. O que eu estava fazendo? Como eu poderia deixar a casa de Liam? Era nossa. Era dele. Eu não podia ir embora. Mas depois da terceira vez que Sia agendou uma reunião, ela fez um acordo que eu tinha que conferir. Conferir. Não fechar negócio. Nem se mudar de imediato. Eu ainda estava assustada, mas concordei. Sua pequena viagem de culpa também ajudou. Ela era minha melhor amiga, e eu era a desculpa para ela ver o interior do prédio. Então aqui estava eu, finalmente. Chegamos ao edifício de prata e vi que não era de prata. Era de vidro. Todo o edifício era feito de janelas de vidro. Quando saí do táxi e estiquei a cabeça para trás, olhando para cima, eu não podia negar que já estava impressionada. Sia agarrou minha mão e me puxou para o edifício. — Vamos. O gerente está nos esperando. Não havia uma grande entrada ou porta giratória na entrada como na maioria dos lugares. Ele tinha uma única porta preta, que abriu para nós quando nos aproximamos. Eu passei e vi que não havia maçaneta na porta. Eu não podia imaginar usar isso para entrar e sair, mas quando

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entrei, percebi que havia um porteiro. Seu escritório estava bem ao lado da porta, e agora ele estava ao lado de Sia. Eu olhei para ele, e ele se curvou. Curvou. De verdade – apenas o suficiente para que eu visse o topo de sua cabeça grisalha. Ele se endireitou de volta. — Boa tarde, Srta. Bowman. Ele usou meu nome de solteira. Eu não tinha sido chamada de Bowman por dois anos – mesmo antes de Liam e eu nos casarmos, nossos amigos me chamavam de Sra. Sailor. Eu peguei a reação de Sia pelo canto do meu olho. Ela me chamou a atenção, seus olhos se concentraram em mim, mas eu não disse nada. Parecia estranho ouvir meu antigo nome, mas talvez fosse hora de começar a usá-lo. Eu acenei com a cabeça. — Para você também, senhor... — Kenneth. Você pode me chamar de Kenneth. — Certo. Obrigada, e boa tarde para você também, Sr. Kenneth. Ele começou a indicar atrás de nós, mas com o som de seu nome, ele parou. O canto do seu lábio se curvou, como se ele estivesse segurando um sorriso. Ele era apenas um pouco mais baixo do que eu, talvez cerca de cinco centímetros, e ele usava um suéter preto grosso sobre calças pretas. Vi um casaco pendurado no lado de dentro da porta e imaginei que ele o pegava quando saia. Ele era um homem fofo, rechonchudo com bochechas coradas, olhos castanhos quentes, e um pouco gordinho na área do estômago. Ele era baixo, como um urso de pelúcia. Se eu de alguma forma acabasse vivendo aqui, eu logo estaria chamando-o de Ken dentro de uma semana, quer ele quisesse ou não. Eu me encontrei sorrindo de volta, embora ele ainda estivesse tentando segurar o dele. Sia olhou entre nós. — Ceeertoooo... Uma porta se abriu e fechou, e ouvi uma voz baixa chamar: — Srta. Bowman e Srta. Clarke, bem-vindas ao Mauricio. Um grito muito calmo veio de Sia. Eu a ignorei e acenei para o homem que se aproximava. Ele era alto, com uma estrutura delgada. Ao contrário de Kenneth, esse cara deu uma vibração de não mexa comigo. Ele estendeu a mão e apertou a minha com firmeza. Eu não o teria

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chamado de bonito. Seus olhos eram escuros, e ele tinha um grande nariz com uma mandíbula forte. Mas, embora não fosse bonito, era autoritário. A boca de Sia abriu uma polegada, e eu sabia que ela estava instantaneamente encantada por ele. — Você pode me chamar de Dorian. Eu balancei a cabeça. — Olá Sr... Ele me interrompeu, mostrando um sorriso grande e branco. — Apenas Dorian. Sem senhor. — Dorian, então — falei ao mesmo tempo em que Sia expirava, com a mão no peito. — Aí sim. Dorian — murmurou ela. — Senhorita Clarke, é bom conhecê-la pessoalmente, colocar um rosto na voz. — Ele se virou para ela. — Uh-huh. Se eu olhasse, eu não ficaria surpresa ao ver seus joelhos tremendo. Ela estava extasiada, e eu sabia que estaria ouvindo sobre Dorian nos próximos dois meses, até ela dormir com ele. Sr. Kenneth e eu olhamos para ela, e quando ela não percebeu, ainda hipnotizada por Dorian, eu limpei minha garganta. — Obrigada por nos deixar ver o apartamento, — eu disse, esperando quebrar o feitiço. — E por conversar com Sia para agendar isso. Os olhos de Dorian haviam permanecidos em Sia, mas enquanto eu falava, ele se virou para mim. Um piscar de algo passou por seu rosto. Eu franzi o cenho, não identificando o que era. Não me pareceu bom, mas depois

desapareceu.

Ele

olhou

para

mim

com

o

máximo

de

profissionalismo. Limpando a garganta e com um rápido aceno de cabeça, ele estendeu a mão em direção a um elevador localizado em frente ao lobby. — Ah, sim. Mas é mais que um apartamento. — Ele olhou para Sia, mas continuou sem dizer o nome dela. — Tenho certeza de que você foi informada de que temos um pequeno número de moradores. A maioria tem um andar inteiro. O proprietário é privado, então os cheques de

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aluguel serão feitos para o Mauricio, se você decidir que este é um lugar onde gostaria de viver. As portas do elevador se abriram quando nos aproximamos, embora Dorian não tivesse apertado um botão. Ele fez uma pausa antes de entrar e gesticulou atrás de nós. — Como você pode ver, o escritório de Kenneth está bem ao lado da porta da frente. Você nunca terá que se preocupar com esperar na entrada. Quando você se aproximar, se você morar aqui, a porta será aberta automaticamente, assim como este elevador. Se Kenneth ou eu não estivermos aqui, o sistema reconhece nossos residentes. Você nunca ficará do lado de fora, e se você estiver, tudo que precisa fazer é pressionar um botão. Mas garantimos que isso nunca acontecerá. Além do elevador, do escritório do porteiro e da porta da frente, só havia outra entrada no saguão, situada à esquerda do elevador. Dorian apontou para ela. — O lobby não é extravagante, mas isso não significa que todas as comodidades não são. Além dessa porta você encontrará a piscina, o pátio, e os lugares onde você pode descansar e socializar. Temos um ginásio, juntamente com uma pista de corrida que rodeia o edifício e porão. É coberto, então parece como um túnel quando você está dentro. Os transeuntes não vão te ver. Há um jardim e uma fonte no caminho para a piscina. O proprietário não poupou nenhuma despesa, e acho que você vai apreciar seus esforços, mas primeiro... — Ele apontou com uma mão em direção ao elevador, que permaneceu aberto para nós o tempo todo. — Vou lhe mostrar o terceiro andar, que é o único andar vago agora. Dentro do elevador, um B, L, e botões numerados de 2 a 7 estavam iluminados em prata no lado direito. Três botões pretos estavam acima deles. Dorian empurrou o número três e recuou quando as portas se fecharam. — Há uma sala de estar e uma sala de teatro no primeiro andar. Piscina, correio, ginásio e pista de corrida também estão no primeiro andar. Você encontrará os outros residentes nessas áreas, provavelmente. — O elevador parou no terceiro andar, mas as portas não

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se abriram. Em vez disso, um painel apareceu no lado esquerdo, e Dorian empurrou quatro letras. As portas se abriram então, direto para o espaço vazio. Não havia corredor, mas não havia necessidade. Fiquei fascinada pela beleza diante de mim. Quando entrei, ouvi Dorian dizer, como se de longe: — Temos câmeras em todo o prédio – nos elevadores, no átrio, nos estacionamentos e assim por diante – exceto dentro de sua casa. Você receberá seu próprio código exclusivo para o seu andar. Você pode colocá-lo assim que entrar no elevador, ou quando chegar ao seu andar. Você decide. E se outros pedirem para entrar em seu andar, você pode aprová-los, pressionando um botão. Isso permitirá que as portas se abram no seu andar, porque você está enviando o sinal de dentro de seu próprio apartamento, isso faz sentido? Atravessei o chão de madeira e fui direto para o lado da rua. As vistas eram deslumbrantes. Dorian falou de dentro da porta. — Você pode olhar lá para fora, mas ninguém pode ver. É muito particular. Sua segurança é importante para nós, e acredite em mim, se você morar aqui, você estará absolutamente

segura.

Todo

o

edifício

possui

alarmes.

Um

estacionamento subterrâneo está disponível se você tiver carro, e você receberá um código para as saídas do primeiro andar e sua própria porta, se você usar as escadas. Você também terá seu próprio código para tudo no

andar

principal.

Temos

seguranças

no

local,

embora

você

provavelmente nunca os veja. Eles permanecem invisíveis para os moradores, mas se algo acontecer, você estará protegida em segundos. — E como eu poderia alertá-los? Ele se mudou para a ilha na cozinha e colocou a mão debaixo do balcão. — Há um botão do pânico aqui. Há um em cada quarto. Olhei para Sia, que estava franzindo o cenho, apagando seu olhar sonhador. A segurança pesada parecia mais do que eu precisava, mas essas pessoas eram ricas. E eu supus que segurança pesada era sempre uma coisa boa.

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Voltei para a vista da rua. Todos estavam tão ocupados, correndo pela calçada ou chamando um táxi. Os carros avançavam, já que estava perto do fim do horário comercial. Eles queriam ir para casa, e eu sabia que em um par de horas, a rua estaria vazia. Um arrepio percorreu minha espinha, passando por meus braços até minhas pernas. Era o tipo de arrepio excitado, do tipo bom, e eu queria fazê-lo durar. Percebi então: eu queria viver aqui – não apenas como uma fantasia, mas de verdade. Eu queria estar escondida no cofre deste edifício, mas ainda assim muito no centro de tudo. Mesmo com o pouco que eu tinha visto do espaço, eu já sabia que tudo era top de linha. Eu olhei um pouco mais. Piso de madeira em todos os lugares. Quatro quartos. Um banheiro principal com uma banheira de hidromassagem profunda. Duas salas de estar, uma como algo parecido com o lobby do hotel. Uma chaminé branca de tijolo aninhada entre dois sofás. Dorian disse que a lareira era apenas para aparência, mas ainda assim era linda. Uma cozinha de última geração com bancadas de granito e aparelhos de qualidade profissional. Três lustres acentuavam os espaços. O lugar estava sem mobília, mas Dorian disse que os candelabros poderiam permanecer. Dorian entrou no elevador para nos dar algum tempo para conversar, e ele me disse o código que eu precisaria para ligar o elevador quando estivéssemos prontas para ir. Quando as portas se fecharam atrás dele, Sia virou-se para mim. — Ok, antes de dizer qualquer coisa, ele disse que é apenas US $ 25.000 por mês. Eu sei que você pode pagar este lugar e acho que você deveria se candidatar. Eu estava pronta para dizer sim, mas de repente não pude. — Liam amava nossa casa. — Eu o sentia agora. Ele estava comigo, olhando para o lugar, e eu podia sentir sua dor. Eu ia deixar sua casa dos sonhos por isso? Sia revirou os olhos. — Eu não estou tentando ser má, mas ele quer que você siga em frente. Faz apenas um ano... ecoou na minha cabeça.

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— Eu não sei, Si. — Eu sei. — Ela se aproximou, sua voz suavizando. Ela tocou meu braço. — Este é um lugar único na vida. Vai ser disputado, e quem quer que se mude para cá não vai sair. Eu percebi que você adorou, e você não terá essa chance novamente. Eu garanto. Eu sei. Eu tenho observado este lugar há dois anos, e nunca ouvi falar de uma abertura aqui. Entre quando puder. Além disso, você estará muito mais perto de mim! Eu sei que você odeia os longos passeios de táxi, e sei que você não gosta de andar de trem sozinha. Faça. Pegue este lugar. Eu soltei um suspiro esfarrapado. — Isso se eles me aceitarem. Tenho certeza que eles têm uma tonelada de pessoas que querem entrar aqui. — Eles teriam sorte em tê-la como residente. — Ela apertou meu braço. — Pegue. Por favor? Ou, pelo menos tente. Por mim. Estou te implorando. — Eu... — Eu queria. Eu realmente gostei, mas Liam. Eu o deixaria. — Eu preciso pensar sobre isso. Eu podia ver o desapontamento em seus olhos, mas ela não disse nada. Ela me deu um sorriso e me puxou para perto, sua bochecha ao lado da minha. — OK. — Ela me abraçou, e naquele momento – com meu coração querendo uma coisa, mas amando outra – eu precisava daquele conforto.

Eu fui para casa sentindo como se eu estivesse louca. Como eu poderia deixar a casa de Liam, minha casa com ele? Entrei na casa, pendurei meu casaco ao lado da porta e fui para a cozinha. Estava escuro e vazio. Havia vida aqui antes. Gorros de beisebol de Liam. A pilha onde ele tinha despejado suas roupas de ginástica. Ele amaldiçoava por todo o primeiro andar. Ele sempre jurava guardá-las, e nunca fez. Eu catava, e

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sempre ficava irritada. Ele sempre ficava sem a menor noção de como tudo voltava para suas gavetas. Tantas lembranças, mas metade delas foram embaladas para longe. Eu não consegui me livrar de tudo. As imagens tinham ficado à mostra, mas não as do casamento. Aquelas eu enviei para meus pais, junto com Frankie. Depois do acidente, deixei de comer, tomar banho, viver por um tempo. Eu não podia cuidar de mim, muito menos do nosso cão, então eu o enviei para correr feliz na fazenda. Ou foi o que eu disse a mim mesma. Eu esperava que ele estivesse feliz. Liam não era um caçador, mas meu pai era. Frankie era um cão de pássaros, então talvez tudo daria certo... para Frankie. Olhei para a mesa vazia, para os balcões vazios. Então abri a geladeira e a encontrei vazia, exceto por um pé de alface, molho, e duas fatias de queijo. E vinho. Peguei uma garrafa aberta da porta. Estava pela metade, mas eu não me lembro de abri-la. Sia esteve aqui todos os dias durante o primeiro mês inteiro depois que eu perdi Liam. E então todos os outros dias no segundo mês, cada dia do terceiro. Era o sexto mês quando ela não aguentava mais. Acho que isso a deixava muito deprimida. Ela nunca disse isso, e eu nunca soube se era a casa ou apenas eu, mas eu percebi que ela não queria estar aqui. Tive compaixão dela e nunca pedi que voltasse aqui. Eu sempre ia até ela agora. Os vizinhos vieram quando ouviram falar do acidente. Eles trouxeram caçarolas, flores e cobertores. Não sei por que eu fiquei com os cobertores, mas eram excelentes. Eles entraram na pilha do quarto de hóspedes, e finalmente foram para os meus pais também. Tenho certeza de que minha mãe os lavou, e eu poderia escolher usar ou não na próxima vez em que eu os visitasse. Eu soltei um suspiro. Parecia ecoar pela casa. Liam e eu não tínhamos chegado a conhecer os vizinhos antes. Nós ainda estávamos na fase da lua de mel, e era tudo centrado em nós... Eu

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desejava ter feito amizade com alguns deles agora, assim eu poderia conseguir uma garrafa de vinho, ou inferno, se eu comprasse o bastante para cozinhar, eu poderia fingir pedir uma xícara de açúcar. Eu não fiquei inclinada a fazer amigos depois que ele morreu. — Eu deveria ir embora? — Perguntei a ninguém, embora ainda esperasse uma resposta. Liam estava aqui? Fechei os olhos. Ele estava em toda parte. Ele estava voltando do trabalho. Frankie estava latindo, correndo para a porta. Ele estava vindo para beijar minha testa, me contando sobre seu dia. As patas de Frankie estavam batendo no chão. Ele latiu, dando voltas em torno de Liam, esperando por comida. Liam teria agarrado um lanche e se sentado na mesa em frente a mim. Ele gemia, reclamando sobre o que Marsha disse, ou o que Amie fez. Suas colegas de trabalho o deixavam louco. Frankie reclamava quando era hora de comer. Então Liam o levaria para uma caminhada, e eu teria comida pronta para todos quando eles voltassem. Uma lágrima caiu, deslizando pelo meu rosto. Eu a deixei lá. Eu sabia que mais iriam se juntar a ela. Eu perguntei novamente: — Eu deveria ir embora? Ninguém respondeu. Eu estava sozinha... com memórias do meu marido morto. Saltei a salada e terminei a garrafa. O vinho era uma coisa que Liam amava. Bebia-o com moderação, mas gostava de colecionar suas garrafas favoritas e acumulou o suficiente para tentar a mão numa adega improvisada no porão. Desci as escadas, peguei mais algumas garrafas, coloquei duas na geladeira e levei uma comigo lá para cima. Aquela garrafa me fez companhia pelo resto da noite.

Havia um zumbido no meu ouvido. Ele foi aumentando, afogando tudo o mais. O ar estava quente, e as pessoas estavam correndo ao redor,

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mas uma névoa descia sobre mim. Eu podia ouvir um cão latindo ao longe. Alguém estava gritando. Havia sirenes. Eu não conseguia entender o que eu estava vendo, mas sabia que não estava certo. Nada disso estava certo. O carro de Liam estava de cabeça para baixo, vidro em todos os lugares. O outro carro – um caminhão – eu procurei por ele. Estava desaparecido. Isso... isso não fazia sentido. O motorista fugiu? Sumiu? Eu vi uma mão do lado de fora do carro de Liam. Um braço estendeu-se e descansou no topo do batente da porta. Comecei a avançar. Eu tinha que chegar até ele. Era Liam? Meu coração estava em minha garganta. Eu não queria que fosse ele. Não podia ser, mas ainda assim me aproximei – correndo, mesmo que os latidos do cão e os gritos se intensificassem. Eu balancei a cabeça. Eu não queria ouvi-los, mas não conseguia silenciá-los. A batida em meu coração ficou mais alta, competindo com os gritos e as sirenes pela minha atenção. Eu não poderia me concentrar em nada disso. Eu tinha que me aproximar. Então eu estava lá. Eu me ajoelhei. Deus, era Liam. Eu vi sua aliança de casamento. Lágrimas escorreram pelo meu rosto. A umidade foi registrada, mas eu também sentia dor e queimação. Tanta queimação. Era tão incrivelmente quente, mas eu tinha que chegar a Liam. Meus joelhos tocaram o chão e ouvi sons estridentes. Nada disso importava. Liam... Abaixei-me para poder vê-lo. Ele olhou para mim. Seus olhos tão alertas e claros, quase como se não sentisse dor, não estivesse em um acidente de carro. Eu sabia que ele estava, e isso não fazia sentido, mas então ele sufocou: — Addison. — Eu estou aqui. — Estendi a mão, encaixando-a na dele. Eu queria puxá-lo, claro. — Não, Addison. — Por que não?

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Havia vidro sob minha mão. Eu ouvi os cacos quebrando sob mim, mas não pensei nisso. Eu só precisava chegar até ele. — Liam, por favor. — Eu não tinha certeza pelo que eu estava implorando a ele. Para vir até mim? Para deixar eu me aproximar? — Não, Addison. Você tem que ficar. — Por quê? Ele ergueu a cabeça. Uma tubulação estava alojada na parte traseira de seu crânio, e eu cheguei para trás, sufocando quando eu vi. Eu tentei dizer-lhe para parar, para não se mover, mas ele puxou a cabeça. A tubulação havia sido empurrada por trás do assento. Estava saindo do encosto de sua cabeça, e sangue escorria pela sua cabeça. — Liam, por favor. — Eu solucei. Senti as lágrimas. Eu mal podia vêlo. Meus soluços soavam como se estivessem me sufocando. — Por que você está aqui? — O que você quer dizer? — Eu não quero você aqui. — Seus olhos brilharam, escurecendo com raiva. — Eu não quero você aqui! Saia. — Liam... — SAIA! — Ele rugiu. Eu caí para trás, assustada com a mudança repentina, e desembarquei na rua. A dor me cortou. Esfaqueando-me, uma dor abrasadora. Minhas mãos estavam cobertas de sangue. Pedaços de vidro presos a elas. A dor explodiu em todo o meu corpo. Todos os músculos doíam. As minhas entranhas ardiam, e eu corri de volta, corri pela rua. Mais dor. Mais vidro. Mais queimação. Eu estava a meio caminho do meio-fio quando ouvi o riso dele. Parei, meu peito arfando. Liam estava rindo. Meu coração apertou quando ele começou a se mover. Ele estava rastejando para fora do carro, vindo para mim. Seus olhos me prenderam, e então ele estava de pé. Eu não conseguia me mexer. Fiquei imóvel. Eu sabia que deveria correr. Eu deveria gritar para ele parar, mas eu não podia fazer nada.

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Ele veio em minha direção, dizendo: — Você falhou. Por que você falhou? Tentei balançar a cabeça. Eu não sabia do que ele estava falando. Mas ele continuou vindo. Seus olhos eram tão acusadores. O sangue o encharcava completamente. Gotejava de seu rosto, suas mãos, seus dedos, até mesmo seus pés. Ele deixou pegadas sangrentas sobre o vidro, e ainda assim ele veio. — Você falhou comigo, Addison. Você me traiu. Por quê? — Eu não... — Eu estava chorando demais; nenhuma palavra poderia sair. Minha garganta fechou, e então ele estava sobre mim. Ele parecia aumentar de tamanho, pressentimento e intimidação. Ele segurou meus ombros. Seus dedos cavaram dentro, perfurando minha pele. — Por que, Addison?! — Ele me sacudiu. — Por que você me traiu? POR QUE... Eu acordei gritando e me empurrei na cama, meu corpo todo embebido em suor. Meu coração batia forte, e tudo que eu podia fazer era sentar enquanto meu peito subia e descia, respirando fundo. Eu tinha que me acalmar. Foi um pesadelo... um pesadelo. Fechei os olhos, dizendo a mim mesma isso uma e outra vez. Minhas mãos se enrolaram ao redor do cobertor, formando punhos. Foi quando ouvi sua risada. Levantei a cabeça. Meus olhos se abriram, e eu o ouvi novamente. Era o riso do pesadelo. Foi estranho no sonho, e isso me fez tremer pela espinha agora. Eu engoli em seco. A risada de Liam era tão clara, tão vívida; não podia ser minha imaginação, embora esse riso carecesse de todo o calor de Liam. Sentei-me lá, com medo de me mexer, e ele continuou a rir. Deiteime de novo, mas meus olhos nunca se fecharam. Minhas mãos nunca se desenrolaram. E Liam nunca parou de rir. Minha decisão foi tomada. Era hora de mudar.

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CAPÍTULO TRÊS — Estou muito feliz por você ter decidido isso. Sia estava desembalando uma caixa na minha nova cozinha, tirando panelas e pratos. Sentei-me na sala de estar, empilhando os livros que eu não tinha sido capaz de deixar para trás. — O que a fez mudar de ideia? — Ela perguntou. Fiz uma pausa, segurando a caixa entre as minhas pernas. Fazia poucas semanas desde aquele pesadelo. Desde então, eu estava hospedada na casa da Sia. Quando eu cheguei, ela não tinha me questionado, e eu estava grata que não tive que explicar a minha mudança temporária. Tive mais alguns pesadelos, mas não ouvi mais risos assustadores na casa de Sia. Graças a Deus. Os caras da mudança trouxeram a última caixa perto das nove da noite, e era quase duas horas mais tarde quando meu estômago começou a grunhir. Eu não tinha comido o dia todo. Sia franziu o cenho para uma das panelas. Ela a segurou quando eu me aproximei. — Para que você usa isso? Acabei de perceber que tenho algumas dessas, mas nunca usei.

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Eu a peguei, colocando-a ao lado da caixa vazia no balcão. — Afaste-se da panela e me prometa que você nunca usará uma a menos que eu esteja lá com você. — Então elas podem ser perigosas, hein? — Normalmente não, mas você queimaria seu apartamento. Seus olhos se arregalaram. — Eu não sou tão ruim assim. — Sim, você é. — Eu acariciei sua mão enquanto meu estômago resmungava novamente. — E falando de comida, há um restaurante aqui por perto? Sia olhou para o telefone. — Gianni's fica no fim da rua. Eu vou lá para almoçar quando estou trabalhando. Eu nunca estive lá nesta hora da noite, mas eu sei que está aberto. — Eu sou fácil. Isso funciona para mim. Você tem que me mostrar todo o bairro de qualquer maneira. Eu sei onde você trabalha e onde é o seu apartamento. É isso aí. Ken mencionou um supermercado não muito longe daqui também. — Ken? — Sia agarrou sua bolsa e casaco. Eu dei de ombros, batendo no botão do elevador. — Meu apelido para ele. — Ele sabe que tem um apelido? — Ele vai saber. Quando passamos pelo lobby, ele veio de seu escritório e abriu a porta para nós. — Senhoras, tenham uma noite segura agora. — Obrigada, Ken. Ele fez uma pausa, e então um sorriso se espalhou por seu rosto também. Ele assentiu novamente. — Srta. Addison. Srta. Clarke. Sia deu um passo para fora e empurrou as mãos em seu casaco. — Por que ele usa meu sobrenome, mas o seu primeiro nome? Saí atrás dela e a porta se fechou. Encolhendo os ombros, eu cutuquei seu ombro com o meu. — Eu tenho o apelido especial. Sabe, porque eu sou especial. — Eu pisquei, e ela revirou os olhos. — Não fique com uma cabeça grande porque o porteiro gosta de você. É você quem mora aqui.

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— Como não posso? Ele é adorável. E, além disso, — eu continuei quando começamos a andar lado a lado, — Ken e eu temos uma conexão. Foi instantâneo e glorioso. Você tem concorrência. Sia me nivelou com um olhar duro. — Eu tenho, hein? Eu balancei a cabeça. — Ele vai ser meu melhor amigo. Na velocidade em que nosso relacionamento está indo, eu estou certa que levará dois dias. Vou precisar da pulseira de melhor amigo. Vou ter que aumentá-la para Ken. Acho que ele tem pulsos maiores do que os seus. — Pare. — Ela inclinou a cabeça para trás e riu. — Você acha que é muito engraçada. — Às vezes. Ela continuou a rir, mas jogou um braço em volta do meu ombro e me abraçou apertado ao seu lado. — Senti falta disso. — Agir como se você fosse minha namorada? — Eu dei ao seu braço um olhar agudo. Ela me apertou. — Não, isso. Você. Você está brincando, e você está sorrindo, e você é... a velha você. — Ela ficou sombria. — Talvez se mudar fosse exatamente o que você precisava. — Sim. Talvez. Eu podia sentir Sia me observando pelo canto do olho, certificandose de que eu estava bem com o que ela disse, e eu estava. Surpreendentemente. Meu peito parecia mais leve. Meus ombros não sentiam um peso invisível sobre eles. E ela estava certa. Eu sempre consegui rir ou brincar por um momento – muitas de nossas noites juntas haviam sido gastas dessa maneira – mas isso era diferente. Eu não estava depressiva, ou me escondendo do fantasma de Liam. Eu me sentia livre. Meu estômago roncou novamente, desta vez mais alto. Sia ouviu. — Despertamos a besta. — Uma saliência se estendeu para fora da porta da frente do restaurante, e ela diminuiu a velocidade. — E estamos aqui. Estou com fome agora também. Tecido vermelho escuro cobria o toldo, e quando nos aproximamos, além das janelas pretas que enfrentavam as ruas, eu podia ver que preto e vermelho era o tema do lado de dentro também. Grandes cabines de

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couro preto alinhavam-se nas paredes castanhas, cuidadosamente espaçadas para permitir privacidade. Era aconchegante e acolhedor, mas eu senti uma tensão subjacente na sala. Uma anfitriã nos levou a uma cabine na parte de trás, e eu me lembrei de vir a este lugar uma vez antes com Sia. Foi em um dia da semana durante o meio-dia, e a sensação foi diferente. Todo o ambiente estava iluminado na ocasião e cada mesa ocupada. A tensão não estava lá então, não como agora. Sia deslizou em nossa cabine. — Vamos beber. Só estou avisando. A anfitriã esperou, segurando o menu enquanto eu deslizava em frente a Sia. Em seguida, ela colocou o menu na minha frente e perguntou: — Você gostaria de pedir uma bebida imediatamente? — Inferno, sim, ela vai. — Sia gemeu, abrindo o menu de bebidas. — Um copo de chardonnay para mim, e uma água também. Addison, por favor, peça um pouco de álcool comigo. Eu não quero ser a única bebendo, e nós merecemos isso depois de hoje. — Ela me deu o menu de bebida e virou-se para a anfitriã. — Ela acabou de se mudar para esta rua. Estou pensando que precisamos comprar uma garrafa para levar para casa também. — Tenho certeza de que isso pode ser arranjado. No momento em que eu tinha escolhido o meu copo de Merlot, Sia já era amiga da anfitriã, e duas garrafas estavam vindo conosco para casa. Esperei até ela sair, antes de arquear uma sobrancelha. — Eu não levei tanto tempo para pedir. Sia encolheu os ombros. — Ela é uma modelo. Eu a vi na Gala em alguns eventos. Confie em mim. — Ela se inclinou para frente e baixou a voz. — O vinho de graça é por causa das conexões que eu posso dar a ela, não por quanto tempo você levou para pedir. — Você é uma trabalhadora ágil. — Não, não — apoiando o cotovelo na mesa, uma ação que Sia normalmente fazia, ela girou o pulso no ar e apontou para a anfitriã que voltava do bar. — Ela é uma trabalhadora ágil. Ela também me reconheceu. É assim que funciona neste mundo. Conexões. Rede.

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Conheça as pessoas, e elas podem fazer-lhe um favor mais tarde. Este é o seu favor para mim, e ela é inteligente, porque se um fotógrafo ou pintor precisar de uma modelo, vou tê-la em mente. Tudo o que vai, volta. Quando a anfitriã voltou com um garçom logo atrás dela, eu me sentei e assisti minha amiga trabalhar. Sia era efusiva, sofisticada e fascinante. A anfitriã não piscou um olho enquanto encantava Sia de volta. Quando as duas garrafas foram colocadas sobre a mesa, esfriando em baldes de gelo, e nossos copos colocados diante de nós, as senhoras trocaram cartões. Enquanto a anfitriã e o garçom saíam, Sia sentou-se e tomou seu Chardonnay. Ela balançou as sobrancelhas para mim. — Devemos vir aqui mais vezes. Esqueça o almoço do meio-dia. O jantar de fim de noite é o caminho a percorrer. Eu balancei a cabeça. — Você me surpreende, e sempre me esgota. Eu não poderia fazer isso, assim como você acabou de fazer. — Você se acostuma. Deixa a vida divertida e interessante. — Ela pôs seu copo para baixo, descansando seus dedos na base. Ela brincou com ele, mordendo o lábio antes de perguntar: — Eu sei que meu trabalho não é o seu estilo, mas o que você vai fazer agora? Eu me sentei para trás, tensa. — Você se mudou para Chicago por causa de seu trabalho, e sei que você tinha uma coluna em uma revista on-line, mas agora? Você não escreveu nada por um tempo. Eu não tinha percebido que ela estava acompanhando. — Me inscrevi na sua coluna. Eu não tenho recebido nenhum alerta. — Ela inclinou-se para frente. — Eu não estou tentando ser uma melhor amiga agressiva, mas estou tentando ser encorajadora no ritmo que você precisa. Sinto que você precisa disso agora. Mudar foi uma coisa boa. Escrever é uma coisa boa, também. Você vai começar a fazer isso de novo? Eu ia começar a escrever? Mesmo pensar nisso, trazia um pouco do peso de volta ao meu peito. Eu balancei a cabeça, soltando um suspiro. Eu li, fiz caminhadas, e assisti filmes. Eu fiz qualquer coisa para

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limpar minha mente, e isso não significava escrever nada. — Eu não sei. Talvez. Uma coisa de cada vez agora. Mudar é um grande negócio. Já sinto que traí Liam uma vez. — Oh. — Ela se endireitou em seu assento. — Eu sinto muito. Às vezes eu não penso nisso da sua perspectiva. Sei que se mudar é um grande negócio. E você não tem que escrever. Quero dizer, você tem dinheiro, então isso é bom. Você não precisa se preocupar. Mas acho que vai te ajudar, mesmo se você apenas fizer para si mesma. Você está certa. Uma coisa de cada vez. — Ela parou, e então olhou profundamente nos meus olhos. — Se ajudar, Liam era um cara realmente ótimo. Ele amava você mais do que tudo. Sei que ele ficaria orgulhoso por você estar seguindo em frente. Minha garganta fechou. Eu podia sentir as lágrimas chegando, então olhei para baixo. Eu não queria chorar, não de novo. Alcançando o meu vinho, murmurei, com voz rouca: — Obrigada. — A simples menção dele, o pensamento de que eu poderia estar traindo-o – queimava o meu interior. O buraco que estivera no meu peito desde que Liam morreu abriu-se novamente. Eu gemi e tomei alguns goles do meu vinho mais rapidamente do que o normal. Foda-se. Eu joguei o copo inteiro de volta, e quando terminei, Sia tinha um sorriso estúpido em seu rosto. Ela sorriu para mim. — Lá está ela. Eu adoro esta Addison. Vamos nos embriagar esta noite! Eu consegui dar um sorriso. — Parece bom para mim. Ela estava acenando para o garçom por um segundo copo antes de as palavras deixarem a minha boca. A dose seguinte caiu mais rápido do que a primeira, assim como a terceira. Fiz uma pausa na quarta e deixei que a comida absorvesse as três primeiras. A refeição estava deliciosa, mas poderia ter sido o vinho falando. Tudo sobre o restaurante foi divertido. Jantar tarde da noite pode ser a minha nova maneira favorita de comer, também. Hoje tinha sido um dia difícil – difícil, mas gratificante. Era hora de relaxar e deixar alguma tensão ir, e assim nós fizemos. Algumas horas depois estávamos no processo de ter a nossa comida embalada, bem

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como as duas garrafas de vinho, quando alguns homens entraram no restaurante. Eles entraram de repente e caminharam direto para os fundos. A atmosfera em torno de nós mudou. Sua presença trouxe a corrente de tensão que eu senti na frente. Todo mundo podia senti-la agora, até mesmo Sia. Fiquei intrigada com o grupo de visitantes, e ouvi sua rápida ingestão de fôlego. Os homens eram todos altos, com quase dois metros, com ombros largos. Eles pareciam musculosos, como se pudessem ter sido lutadores de MMA, e a maioria tinha mandíbulas duras. Não era necessariamente suas aparências que chamavam atenção, era como andavam, a presença forte e confiante. Pareciam ter uma missão, e não hesitavam. Nenhum deles sorria. Nenhum deles olhou ao redor do restaurante, mas estavam claramente familiarizados com ele. A anfitriã e o garçom estavam silenciosos, mas não os abordaram. Eles pareciam acostumados com a presença também. Os homens não passaram por nossa cabine – estávamos muito longe no canto – mas eles vieram em nossa direção, depois viraram à esquerda. Enquanto eles fizeram isso, eu os observei. O cara no meio era diferente. Ele era surpreendentemente bonito. Seu cabelo era escuro, quase preto, e cortado curto. Tinha as maçãs do rosto esculpidas e olhos escuros que não eram como os dos outros. Os outros homens tinham olhos mortos. Eles estavam lá para receber ordens, e este era o cara que lhes dava. Ele era o líder. Autoridade e confiança emanavam dele, junto com uma aura de perigo. Eu não conseguia encontrar nenhuma indicação para provar meu sentimento, mas eu tinha certeza disso. Os outros estavam acima de um metro e noventa, enquanto esse sujeito estava uma polegada acima. Ele se movia com uma graça que os outros não tinham. Ele era esguio, com ombros largos e cintura delgada, mas não magricelo. Os outros andavam, mas ele perseguia de uma maneira sensual. Ele se movia como um predador.

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Lambi meus lábios, então percebi o que eu tinha feito e afastei meu olhar. Quando o grupo chegou à retaguarda do restaurante, em vez de empurrar a porta para a cozinha, eles se viraram. Eu não tinha notado antes, mas vi um conjunto de escadas. Eu contei quando oito deles subiram, deixando dois para trás. Eles tomaram posição com as costas para as escadas e as mãos dobradas na frente. Eram os cães de guarda. Eu percebi que não era a única pega em algum tipo de feitiço. A anfitriã e o garçom tinham calmamente voltado ao trabalho, mas a boca de Sia estava pendurada. Ela ainda olhava para onde eles tinham desaparecido. Eu esperei por ela sair do estupor, grata pelo tempo para me recompor. Esse homem, quem quer que fosse, tinha me afetado de uma maneira que nenhum outro tinha... desde Liam. E ao pensar nele, um balde de gelo caiu sobre mim. — Addison. — Sia finalmente conseguiu dizer, seus olhos ainda trancados sobre os dois caras parados na escada. — Oh meu... você viu isso? Eu tossi, limpando minha garganta. — O que você quer dizer? — Aquele cara. — Ela se inclinou para frente. — Ele era lindo! A imagem dele brilhou em minha cabeça. Uma queimadura diferente ardeu em mim. — Ele era. Sim. — Eu podia admitir isso. — Ele também era assustador. — Negativo, — Sia declarou com um rápido balanço de cabeça. — Ele era absolutamente deslumbrante. Esqueça o gerente do prédio. Eu quero saber quem é esse cara e como posso ser esposa dele. Um riso genuíno veio de mim. Esta era Sia Vintage. Ela tinha um novo projeto, e não era eu. Amém. Eu não tinha dúvida de que ela iria caçar o cara, descobrir quem ele era, e fazer como tinha prometido, ou pelo menos ter um caso quente. — Sério. — Ela se abanou. — Eu nunca vi aquele homem antes, e eu conheço quase todos por aqui. Quem poderia ser? — Não tenho ideia.

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— Suponho que não. — Ela olhou para o meu rosto. — Oh, querida. Você parece um pouco corada. O vinho deve estar batendo em você, hein? Assenti com a cabeça, mas não era o vinho. — Sim, vamos, por favor. Sia riu, deslizando para fora da cabine. Eu segui o exemplo, e andamos de volta para minha nova casa, com a nossa comida e duas garrafas de vinho. Ninguém teria uma farra melhor do que essa. Nossos joelhos trêmulos seriam a morte deles. Eu estava grata quando Sia jogou seu braço em volta dos meus ombros novamente. Isso me fez sentir firme. Ela transferiu sua comida para mim, então ela só tinha que segurar o vinho e descansar sua cabeça contra a minha. Fomos para casa assim, e quando entramos em meu apartamento, eu me lembrei: eu não tinha ideia de onde ficava nada.

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CAPÍTULO QUATRO O próximo mês foi glorioso. Eu acordei todas as manhãs com o som do tráfego movimentado e pedestres indo e vindo nas ruas abaixo. A vista tirou meu fôlego. E tudo é tão tranquilo. Essa tinha sido a minha única preocupação, ter um residente abaixo e acima de mim, mas eu não deveria ter me preocupado com isso. Eu não ouvi nada para indicar que eu tinha vizinhos. No entanto, eu tinha visto uma algumas vezes quando eu fui para o ginásio. Ela parecia estar em seus trinta e poucos anos, e assim que eu entrava para correr na esteira, ela agarrava sua toalha e garrafa de água e saia. Eu pensei que era eu, mas na quarta vez que eu cheguei, ela estava apenas começando, e ficou uma hora inteira. Eu a vi algumas outras vezes depois disso, mas ela manteve a cabeça baixa e focada em seu treino até sair. De certa forma, foi uma pausa agradável de toda a atenção que eu tinha recebido após a morte de Liam. Tantas pessoas se aproximaram de mim para expressar suas condolências. Eu sabia muito poucos sobre eles. Eram vizinhos estranhos ou colegas de trabalho de Liam. Eu não tinha percebido o quão exaustivo tinha sido – os sorrisos, os desejos calorosos de volta para cada um deles, todas as pessoas que eu não

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conhecia. Esta mulher era franca. Ela não me conhecia. Ela não se importava em me conhecer. Eu gostei bastante. Logo que eu percebi que segunda, quarta e sexta-feira ela ia para o ginásio às onze da manhã, e seu horário de terça, quinta e sábado era às cinco da tarde, eu ajustei minha rotina e fui em um horário diferente. Desde então, tínhamos nos encontrado uma vez no lobby. Eu estava saindo do elevador, e ela estava entrando. Ela me deu seu primeiro sorriso, e eu sorri de volta. Eu senti como se ela estivesse me agradecendo por deixá-la sozinha. Eu não encontrei outro residente até minha quinta semana vivendo aqui. Eu tinha começado uma rotina onde eu pegava o correio assim que chegava, que era por volta de onze da manhã. Eu ia para a área da piscina para abri-lo enquanto bebia uma xícara de café. Depois disso, eu subia para ler um livro, ou trabalhava. Dependia se o vizinho não tão amigável estava usando o ginásio ou não. Além da televisão normal e filmes que eu assistia, eu me tornei uma viciada em CNN. Havia uma inquietação em mim, como se a vida estivesse passando, e eu não quisesse perder nada. No entanto, quando eu pensava em encontrar um emprego ou escrever, as emoções surgiam em mim. Eu não queria sentir essas emoções; nem queria nomeá-las. Eu só não queria, então voltava a fazer algo que me entorpecia. Qualquer coisa. Mas tudo era diferente de manhã. Era um novo começo. Esses sentimentos foram empurrados até o fim, e esta manhã foi o mesmo. Senti-me um pouco alegre quando abri uma carta do meu corretor de imóveis. Minha casa ainda estava sendo mostrada. Qualquer proposta garantiria um telefonema ou um e-mail. Então um homem entrou na área da piscina atrás de mim. Olhei para cima, assustada com sua presença, e meu cotovelo bateu no meu café. — Oh, não. — Eu me inclinei rapidamente para agarrá-lo.

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— Aqui. — O cara veio, pegando um punhado de toalhas no caminho. Ajoelhou-se, jogando-as sobre o café para absorvê-lo. — Desculpe por isso, — ele disse enquanto olhava para cima. Jovem. Alto. E quando ele olhou para mim, próximo a minha bolha pessoal. Ele era bonito, ou era assim que Sia o teria descrito. Alto, escuro e bonito. O clichê o encaixava perfeitamente. Seu corpo era magro e, a julgar pelos calções de banho e camisa branca, nadar era a maneira como ele se mantinha em forma. Ele não era lindo como o cara do restaurante. Sim, ainda estou pensando nele. Ele não tinha os mesmos olhos intensos ou profundos. Esse cara tinha um rosto mais redondo. Ele era mais cheio, mas ainda bonito, e ele estava esperando por minha resposta. Eu balancei a cabeça. — Foi culpa minha. — Eu fiz uma careta para as toalhas sujas. — Tudo bem? Preciso que Dorian saiba que foi culpa minha. Estão manchadas. Ele olhou para baixo como se não soubesse do que eu estava falando. Vendo as toalhas, seus ombros tremeram de riso. — Não. O dinheiro deste lugar permite que eles paguem algumas toalhas manchadas. Elas serão lavadas de qualquer maneira. — Ele as deixou cair sobre uma mesa próxima e estendeu a mão para mim. — Eu sou Jake Parker. Estou no sétimo andar. Você é a nova residente, certo? Eu apertei sua mão. — Sim. Terceiro andar. Eu sou Addison... — Eu estava prestes a dizer o meu nome de casada, mas me ouvi dizendo em vez disso, — Bowman. — Eu lhe disse meu nome de solteira. Por que eu fiz isso? Não sei. Eu não ia analisar isso. Estava feito. — Addison Bowman? — Ele puxou a cadeira em frente a mim. — Você se importa? — Não. Por favor, sente-se. Ele se sentou e eu me endireitei. Era estranho ficar sentada com outro homem, mesmo sendo um vizinho. — Você está bem? — Sua voz era suave e preocupada. Ele se inclinou para frente, então não parecia tão alto. Seus olhos olharam para os meus, e eles eram quentes, como chocolate aquecido. — Eu posso ir, se eu estiver fazendo você se sentir desconfortável.

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— Não. — Eu balancei a cabeça, acenando com uma mão. — Por favor, fique. Sério. — Tem certeza? — Tenho. — Bom. — Ele relaxou em seu assento, estendendo uma de suas pernas. Ele não me tocou, mas quinze centímetros para a direita e sua perna teria se pressionado contra a minha direita. — Sou um advogado. Minha empresa fica a poucos quarteirões. — Um sorriso apareceu em seus lábios. — A maioria dos sócios tem seus próprios lugares fora da cidade, mas eu sou um workaholic. Achei que era melhor estar mais perto do trabalho. — Você é um novo sócio? Ele assentiu. — Dois meses. Pago para estar lá o tempo todo. — Orgulho encheu sua voz. — E quanto a você? O que você faz? — Uh...— Eu olhei para a mesa, por um momento. — Sou uma escritora freelance. Eu costumava ter uma coluna. — Costumava? — Eu tirei um tempo fora. — Pausas são boas. — Ele iluminou seu tom, olhando ao redor e franzindo a testa para a piscina. — Eu estive em Nova York a trabalho nas últimas semanas, e negligenciei o treino. — Seu olhar voltou para o meu. Seus olhos se estreitaram. — Estou surpreso que eu não tenha esbarrado em você antes. Quando você se mudou? — Cinco semanas atrás. Sua cabeça balançou para cima e para baixo. — Ah, sim, tenho certeza de que você provavelmente estava ocupada com a parte de desencaixotar e tudo mais. Assenti com a cabeça, gesticulando pela porta do ginásio do outro lado do corredor. — Eu vi outra mulher lá dentro algumas vezes. Seu sorriso se alargou. — Deixe-me adivinhar, ela saiu assim que você entrou? E continuou fazendo isso, até você pensar que tem uma doença ou algo assim? — Ela fez isso com você também?

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— Oh, sim. — Ele revirou os olhos e começou a bater com os dedos na mesa. — Essa é Dawn, mas é assim mesmo. Ela tem que se aquecer para as pessoas. Tenho que dizer, este lugar é perfeito para ela. Não há muitos residentes aqui. É exclusivo, seguro, e ela está protegida. Nos primeiros dois meses em que estive aqui, era assim que ela era. Então ela mudou. Ela começou a sorrir, a falar, e agora nós saímos um par de vezes. Há alguns de nós que fazem jantares juntos. Dawn vai oferecer o próximo. Eu posso perguntar a ela se você pode vir, mas eu ficaria surpreso se ela aprovasse. Eu farei o próximo depois desse. Você deve vir a esse com certeza. É no próximo mês. Eu tenho um fogão lento, apenas para que você saiba. — Ele soprou em seus nós dos dedos. — Sou conhecido em torno dessas praças como Chef Slow Pot.1 Um riso explodiu de mim. — Obrigada por isso, Chef Slow Pot. — Mmm-hmmm. Habilidades ninja na cozinha. Eu estou lhe dizendo. — Ele piscou. — Mas sério, não se preocupe com Dawn. Ela vai se aquecer para você, e você vai encontrá-la zumbindo em sua porta com café todas as manhãs. Levantei uma sobrancelha. — Ela faz isso por você, hein? — Não, mas fará por você. — Ele gesticulou para meu copo vazio na mesa entre nós. — Ela tende a aparecer com vinho em minha casa, quando estou lá. Por causa da coisa dela com as pessoas, ela se pega como cola às que ela conhece. Sou o amigo do vinho e do cinema. Metade do tempo ela enfia o pé na jaca e dorme no sofá. — Vocês dois são bons amigos? — Eu acho. Ela é divertida. Perversamente obcecada com The Walking Dead. — Ele se inclinou para apoiar os cotovelos sobre a mesa. — Eu sei que Dawn e eu somos solteiros. E quanto a você? Há um casal no quinto andar, e o único outro residente que conheci é Derek. Ele é um cara de TI, então se você tem problemas de computador, está abaixo de mim no sexto andar. — Qual andar é o de Dawn?

1

Em tradução livre: Panela lenta

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— Segundo. Eu não sei quem está no quarto andar. — Ele apontou para o teto. — E o grande chefe, também. Eu não o conheci. Minha mente estava girando, fazendo a matemática. — Então você está no sete, o cara de TI no seis, um casal no cinco, quatro é um ponto de interrogação, eu sou três, e Dawn é o dois. Quem é o chefe? Ele não está no quatro? — De jeito nenhum. Desculpe. Eu quis dizer o proprietário. Ele tem os três últimos andares aqui. Havia aqueles três botões pretos no elevador. — Quem é o proprietário? — Quem sabe. — Seus ombros se levantaram e caíram de volta. Ele empurrou sua cadeira para descansar as costas sob as duas pernas. Ele segurou a mesa. — Esse é o grande mistério. Ninguém sabe quem é o dono do lugar. Todos passamos por Dorian para tudo. — Por que o segredo? Ele balançou a cabeça novamente. — Você me pegou. Eu sei que Dawn está obcecada para descobrir isso. Ela é um eremita em termos do mundo exterior, mas ela tenta estacar o elevador. Dorian ou Kenneth sempre a expulsam. Tecnicamente, podemos fazer o que quisermos por aqui. Esse é o seu lema – que este edifício é a nossa casa – mas você notou que não há nada no lobby, certo? — Eu notei, sim. — É por causa de Dawn. Costumava haver um par de sofás lá embaixo, mas ela os pegou como seu ponto de tricô favorito. Ficava ali sentada por um dia inteiro e a noite toda algumas vezes, tricotando seus cobertores e ouvindo livros em fita. Eu achava hilariante. Ela me mandava um convite para trazer comida e rendê-la para que ela pudesse ir ao banheiro. — E durante isso, ainda nenhum sinal dele? — Não. Nenhum vislumbre. Eu não acho que ele está aqui muitas vezes, se é um ele. Quem sabe. Talvez seja uma mulher. Acho que ele ou ela... — Ele piscou para mim. — Esteve aqui no mês passado em algum momento. Os elevadores de embarque foram fechados.

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— Quando você não estava aqui? — Dawn me contou. Ela faz muitas encomendas. Ela tinha uma mesa chegando no dia e foi super estressante porque Dorian a fez trocar a data de chegada. Eu fiquei no telefone com ela por três horas. — Parece divertido. Ele olhou para trás por cima do ombro, olhando a piscina novamente. — Suponho que sim. — Um suspiro profundo. — Tenho que encontrar alguns clientes esta noite. Eu deveria ir ao meu treino. — Ele se levantou, empurrando sua cadeira de volta no lugar. — Foi um prazer conhecê-la, Addison. — Você também. — Meu estômago mergulhou quando ele disse meu nome, seus olhos demorando em meus lábios. — Jake. — Sim. Jake. Esse é o meu nome. — Ele apontou para mim, piscando novamente. — Continue usando, e se você não estiver aqui quando eu terminar, falei sério sobre o jantar no próximo mês. Vou colocar um convite na sua caixa de correio. — Parece perfeito. — Sia. — Espere. Ele virou. — Posso levar uma amiga? Os cantos de sua boca giraram para baixo, mas alisaram para fora imediatamente. Ele sorriu. — Claro. — Você pode se arrepender de dizer isso. Vou levar a minha melhor amiga. Ela... é uma mão cheia, tenho que dizer. Seu sorriso se alargou. — Perfeito. Dawn ficará arrepiante se houver uma estranha, então vamos ter um bom show. Ela voltará quando vocês forem embora. Ela já reivindicou uma maratona de TWD naquela noite. Enfim, parece bom. Estou ansioso para encontrar uma amiga sua. Ele se demorou, me olhando por outro momento antes de afastar o olhar e ir para a piscina. Eu ainda tinha mais correspondências para abrir, mas peguei meu telefone. O relógio concordava comigo. Agarrando minhas correspondências, fui para o lobby. Havia um elevador de trás, e eu não tinha certeza sobre os códigos especiais. Eu tinha parado em

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frente um dia e fiquei batendo no botão. Nada aconteceu. Desde então, eu sempre fui para o elevador da frente. Empurrando a porta que ligava o resto do primeiro andar com o lobby da frente, parei abruptamente quando vi Dorian conversando com Ken. Ambos tinham expressões sombrias semelhantes, mas quando ouviram a porta abrir, os sorrisos acolhedores imediatamente tomaram seu lugar. — Senhorita. — Dorian se aproximou, estendendo a mão em direção ao elevador. — Posso ir com você? Eu acenei com a cabeça quando as portas se abriram, e ele entrou, segurando-as para mim. Olhei para Ken e vi uma parte da seriedade de volta em seu rosto. Ele não pegou meu olhar, mas Dorian pegou. Ele aclarou a garganta, dizendo claramente: — Eu já volto, Kenneth. Ken olhou para cima e viu meu escrutínio. Seu sorriso caloroso e acolhedor voltou, quando ele acenou com a cabeça. — Claro, Sr. Dorian. Srta. Bowm... — Addison. — Hmm? — Ele estava meio voltado para seu escritório. — Use meu primeiro nome, Ken. — Eu adicionei calmamente, — Por favor. — Oh. Sim. — Ele riu suavemente. — Eu certamente usarei de agora em diante. Entrando no elevador, dirigi um olhar severo para Dorian. — Isso vale para você, também. Sua cabeça baixou ligeiramente. — Eu vou, Addison. — Ele apertou o terceiro botão. Depois disso, nós seguimos em silêncio, e quando eu pisei no meu andar, eu olhei por cima do meu ombro. Dorian apertou um dos botões pretos.

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CAPÍTULO CINCO Sia fechou os olhos, zumbindo “We Are The Champions...” enquanto esperávamos o elevador. Sua cabeça balançou no ritmo quando ela chegou na parte do “on and on”. O tom aumentando de volume. Seus quadris balançavam para frente e para trás, e seus ombros começaram a se mover quando o elevador chegou. — Oh. — Ela se acalmou, se endireitando quando as portas se abriram. Passando uma mão pelos seus cabelos, ela me deu um sorriso enquanto entrávamos no elevador vazio. — Eu estou ficando toda animada para a festa. Vou conquistar a eremita. Marque minhas palavras. — Ela fez uma pausa. — Ela malha, certo? Eu bati no botão do sétimo andar, segurando uma garrafa de vinho. — Sim. Jake tinha sido fiel à sua palavra. Eu tinha encontrado um convite no meu correio, e nós conversamos mais durante o último mês. Ou seu tempo de natação combinava quando eu passava pelo meu correio, ou ele tinha reorganizado sua agenda. De qualquer forma, se tornou quase uma coisa regular nos encontrarmos na área da piscina três vezes por semana. Dawn tinha sentado conosco duas vezes nesses tempos – em silêncio da primeira vez e grunhindo algumas palavras na segunda. Jake me assegurou que ela estava relaxando em minha presença e o jantar não seria um problema, mas ambos sabíamos que Sia seria. Na última vez

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que conversamos, o plano tinha sido esperar e ver, então era isso que eu ia fazer. — Eu preciso de alguma questão sobre tricô. — Você já tricotou? — Não. — Ela puxou o telefone. — Mas ela não vai saber disso. — O quê? Sia estava ocupada olhando para o telefone e acenou com a mão para mim. — Não se preocupe. Isto é o que eu faço. Você disse que Dawn é um prédio fechado, certo? Eu balancei a cabeça. — Eu sou nova. Ela só começou a dizer “Olá” para você, então ela vai se livrar da visão de um estranho. Isso exerce pressão sobre você. Eu sou sua amiga, você é a nova residente, e as outras pessoas vão culpar você. Eu não quero que isso aconteça, então, portanto, o encerramento precisa ficar. Ela malha. Ela deve ter um amor por isso, e pouco sabe ela... — Sia acariciou seu pulso, mostrando seu rosto em um aceno de Vanna White. — Ela está prestes a conhecer sua alma gêmea de tricô. Quando a porta do elevador abrir, eu terei o suficiente em minha cabeça de besteiras para fazer meu caminho através de um problema que só ela pode me ajudar. — Ela inclinou-se para a frente e baixou a voz. — Porque, você sabe, nós tricotadoras precisamos ficar juntas. Ninguém fica só com a frustração de um... — Ela verificou o telefone. — nó caído. Eu só podia olhar para ela. — Seus poderes não podem ser desafiados por meros mortais. — Com certeza. Eu sou a Athena do networking. Uma eremita é um lanche antes do almoço para mim. Dê-me um quarto de eremitas, e eu tenho o meu jantar no prato. — Eu não tenho ideia de como você faz isso, mas obrigada. — Minha voz suavizou. — Eu sei que você está fazendo isso por mim. Seu sorriso suavizou também. — Eu sei. — Ela me cutucou com seu braço. — Amo você, garota. — Te amo de volta.

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— Agora cale a boca. Eu tenho que obter mais informações na minha cabeça antes de as portas se abrirem. Mas já estávamos lá, e a porta se abriu com Jake de pé do outro lado, dois copos nas mãos. — Champanhe para minhas novas convidadas. — Bem... — Sia parou, ainda no elevador, e olhou para ele de cima a baixo. Ela não foi sutil. Afastando o telefone, ela saiu, mantendo os olhos nele o tempo todo. — Você é uma surpresa agradável. Sou Sia, a melhor amiga de Addison. — Jake. — Ele nos entregou um copo e estendeu a mão. — Olá. — Sia sacudiu e se aproximou, dando-lhe uma boa visão de seu vestido baixo. Seus olhos se arregalaram um pouco, e o canto de sua boca se ergueu. Ele olhou para mim, com uma pergunta em seu rosto. Eu levantei um ombro. Devia ter pensado nisso. Sia estava procurando o Sr. Gostoso no restaurante, mas não conseguiu nada. Suas frustrações haviam sido expressas repetidas vezes... e mais uma vez. Quem quer que fosse o cara, ele escapara de um certo desgosto. Sia teria corrido por ele como um limpador de neve e o cuspido no final. Esse era o seu jeito. Sempre à procura de O Único, ela tem um monte de sexo quente em vez disso, e os caras nunca duram muito tempo. Ela tinha aquele olhar agora, ainda agarrando a mão de Jake. Seus olhos se estreitaram como um predador que encontrou a sua presa para bater todas as outras presas. Fiquei surpresa que ela não lambesse os lábios e andasse em torno dele, dando-lhe uma boa checada. — Olá de volta para você. — Jake disse para Sia, mas ele me deu um olhar, surpreso em suas profundezas. Eu fingi ser ignorante. Sia era minha melhor amiga, afinal. Suas mãos finalmente se separaram, e eu lhe entreguei a garrafa de vinho. — Eu trouxe isso. Espero que funcione para o jantar. Sia continuou olhando-o de cima a baixo. Eu era uma barreira entre eles, e Jake abaixou a cabeça, falando para somente eu ouvir. — Eu deveria estar com medo?

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— Oh, sim. — Eu sorri. — Tenha muito medo. Ele riu e apertou meu ombro antes de gesticular para a sala de jantar. — Entrem. Sintam-se em casa. Eu... — Os olhos dele encontraram os de Sia de novo, e ele hesitou, correndo por seu balcão. — Uh, eu tenho que verificar alguns dos alimentos rapidamente. Ele se afastou, e Sia se aproximou. — Você não me disse que ele era lindo. Jake abriu o forno e se inclinou para puxar uma panela. Eu olhei para ele pensativamente. Seu traseiro era firme e apertado. Suas calças mostravam perfeitamente, então por que eu não... Eu dei de ombros. — Sim. Ele é bonito, mas eu pensei que você estava obcecada com o outro cara. O cara do restaurante. Seus olhos ainda estavam treinados no traseiro de Jake. — Eu estava, mas quem quer que ele seja, não está no meu círculo. Isso significa que ele ou é rico além dos ricos, ou é um criminoso. — Ela suspirou. — Droga. Por que você não me avisou sobre Jake? Espere. — Ela ficou rígida. — Você gosta dele? Vou recuar se você quiser. Você não mostrou interesse em um cara desde... — Ela parou, seus olhos escurecendo. — Desculpa. Liam. Eu podia sentir uma desculpa derramar de seus lábios, mas levantei uma mão. — Não. Quero dizer, sim, achei que Jake era atraente quando o conheci. Mas tem diminuído desde então. Ele é apenas outro residente para mim agora. — Você tem certeza? — Tenho certeza. — Eu olhei ao redor. Um casal mais velho estava do outro lado da casa de Jake. Ambos seguravam copos de champanhe, e eles estavam conversando com outro homem. Eu supus que eles eram o casal do quinto andar, e o outro homem era do sexto, o cara do computador. Eu contornei para pegar o resto do espaço. Dawn estava no canto, com olhos hostis presos em Sia. Ela segurava uma garrafa inteira de champanhe na frente dela como se fosse um escudo para afastar espíritos malignos. Sia olhou para ela também, e os olhos de Dawn se

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arregalaram. Ela se afastou até que suas costas bateram na parede. — Hum. — Minha mão fechou sobre o braço de Sia. — Você pode ser atropelada por uma garrafa se você for visitar a Dawn. — Essa é a eremita? Eu balancei a cabeça. — Deixe-me fazer as apresentações. Foi inútil. Sia encaminhou-se para ela. Dawn olhou ao redor dela – até o chão, de volta para o elevador, e depois para as janelas. Então Sia estava na frente dela, sua mão estendida. Eu assisti minha amiga em ação. Dawn era um animal selvagem encurralado, mas enquanto Sia continuava falando, seus ombros relaxaram. A arma baixou. Ela afundou de volta na parede em vez de saltar fora dela, e começou a assentir. De repente, seus olhos se iluminaram, e um sorriso apareceu. Sia a tinha encantado. Bem desse jeito. Qualquer mentira que ela estava tecendo, funcionou. Sia pegou a garrafa e a colocou em uma mesa próxima. Seu telefone em mãos, as duas se curvaram sobre ele enquanto continuavam a falar. — Puta merda. — Jake soprou em minha orelha, dando um passo ao meu lado. — Eu não acreditaria se eu não tivesse visto por mim mesmo. — Isso é o que ela faz. — Você está orgulhosa dela. Fiz uma pausa e decidi que ele estava certo. — Eu gostaria de ter habilidades como essa. Ela tem a capacidade de fazer com que todos nesta sala se sintam como seu melhor amigo. Eu definitivamente não sou assim. — Então somos dois. Sou amigável, mas não posso me comparar. Levou meses para Dawn relaxar comigo. Ela já está comendo na mão da sua amiga e nem faz dez minutos. Sua voz baixou, e eu me preparei. Eu sabia onde isso estava indo. — Eu tenho que perguntar... — Ele se inclinou ainda mais. — Ela é solteira? — E pronta para se misturar. — Você se importa se eu...? — Ele gesticulou com a cabeça.

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Eu podia ver agora. Sia estaria na piscina. Ela estaria na sala de exercícios. Ela apareceria de vez em quando. Isso seria ótimo, até que o outro sapato caísse. Então ela iria entrar para respirar, não para conversar. Ela gostaria de saber se eu tivesse visto Jake naquele dia, se eu tivesse ouvido risos em seu andar, se eu pensasse que outra garota estava com ele. Os amores de Sia eram quentes até ficarem frios. E se ela estivesse aqui, se ela fosse minha amiga, e eles rompessem — isso seria estranho. Ela não gostaria de vir. Ela ficaria tensa, me perguntando se ela ia se deparar com ele ou não. Uma sensação de destino iminente lentamente deslizou todo o caminho até meus pés, mas eu acenei para ele. — Não. — Obrigado, Addison. Jake estava apaixonado. Ele não conseguia parar de olhar para ela, e então as apresentações aconteceram. O casal era Doris e William, de sessenta anos de idade, tendo o tempo de sua vida. Eles adoravam viver tão perto dos museus, restaurantes mais bonitos e salas de concerto. Eles recitaram tudo isso com um leve som nasal em sua voz, e então Jake veio com mais champanhe. Os seus hippies interiores saíram pouco depois disso. Seu filho desaprovava seu estilo de vida, informou Doris. Eles deviam ser voluntários para o lar que ele dirigia. Sua filha mais do que compartilhava seu amor por teatro. Ela era uma terceira residente em seu andar, muitas vezes ficando mais tempo do que eles queriam quando ela estava entre seus namorados, e seu pequeno Shih Tzu também. Eu não sabia que havia uma política de cachorro, mas com base em como eles de repente se acalmaram, eu não perguntei. Então Doris sussurrou em voz alta: — Isso é tudo por baixo dos panos, no entanto. Seja uma querida, coração. Palavra da mamãe. Hmmm? Senti como se eu tivesse concordado em ser seu traficante de drogas. A próxima introdução foi Derek, que não era apenas um cara de TI, ele era um gênio do computador. Ele criou programas, e os “chefes”, explicou com gestos de aspas, gostavam de se encontrar em seus

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escritórios no centro da cidade. Ele era um geek em todas as melhores maneiras: camiseta enrugada, jeans cortados curto nos tornozelos e champanhe em sua caneca de café favorita, que dizia: Não se preocupe, eu não vou morder. Enquanto isso, Sia mantinha Dawn ocupada no canto. Jake virou em um ponto, e um olhar sombrio, cheio de promessas, passou entre ele e Sia. Ele acabou voltando para abrir o meu vinho. De alguma forma, uma terceira garrafa trouxe tudo aos eixos. A conversa fluía mais facilmente. O riso crescia mais alto e mais frequente. Dawn estava quase saltando para cima e para baixo com emoção ao lado de Derek, segurando seu braço, e Jake e Sia desapareceram por alguns momentos. Quando reapareceram, ambos estavam com os rostos corados, os cabelos emaranhados e os lábios inchados. Sia virou para Doris e William. Jake se juntou a Derek e Dawn, e eu assisti os três únicos residentes em ação. Jake parecia quase como um grande irmão mentor para Derek, ou talvez o irmão legal que Derek queria ter. Dawn estava quase radiante. Como Sia previu, ela tinha encontrado sua alma gêmea do tricô, finalmente. “The Age of Aquarius” explodiu dos alto-falantes, e em vez de uma refeição completa, Jake arrumou a comida como um buffet de lanches. — Doris assumiu a música. — Sia desabou no sofá ao meu lado. — Vai ser uma noite dos Beatles e John Lennon esta noite. Aposto vinte pratas que o velho casal vai cair na dança dentro de uma hora. Senti algo ao redor de William. Ele acabou de fumar. — Aqui? Ela acenou para o corredor. — No banheiro. Ele estava saindo ao mesmo tempo... — E ela percebeu o que estava prestes a dizer. Eu dei a ela um sorriso conhecedor. — Eu vi sua entrada. Nem tente mentir para mim. Ela gemeu, mas não conseguiu esconder seu sorriso. — Devo parecer boba. — Ela revirou os olhos. — Addison, você não faz ideia. Eu finalmente encontrei minha alma gêmea. — Uma rapidinha? — Sim. — Ela acalmou. Um lado de sua boca achatou. — O quê?

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Ela estava apaixonada. Finalmente, seu futuro marido. Ela ia morar com ele. Essas eram as suas respostas normais, o que eu estava acostumada a ouvir dela, à medida que cada assunto fumegante começava. Eu balancei a cabeça. Chamar o novo sujeito para uma rapidinha não era sua abordagem habitual. — Nada. — Não. O quê? Você tinha um olhar, — ela pressionou. — É só... — Eu olhei para Jake. Ele estava nos observando – correção, estava observando Sia. Eu apontei para ele. — Eu conheço esse olhar. Todos os seus novos namorados têm. Vai ser quente, intenso, e eu não vou te ver por um mês ou dois até você quebrar. — Eu fui sincera. — É aí então que ficará desconfortável. Eu sei como você funciona. — Do que você está falando? — Quando vocês dois acabarem, você não virá mais aqui. Ele é meu vizinho. Ela acenou para isso. — Oh, boooba. Isso é bobagem. Eu estive no seu apartamento uma tonelada de vezes e não o encontrei. Não vai ser um problema. Mas seria. Eu podia ler a escrita na parede a meia milha de distância. — Addison. — Ela tocou meu braço. — Eu não vou deixar isso afetar você e eu. Minha mão foi sobre a dela. — Promete? Ela apertou meu braço. — Prometo. Eu preciso de você também. Não é só você que precisa de mim. Você é minha sanidade nesta vida louca que eu vivo. Eu não acreditava nela, mas significava muito ela dizer isso. — Obrigada. — A qualquer hora, melhor amiga. Meu braço esfregou-se contra o dela. Olhando para o grupo, eu não podia acreditar que eram meus vizinhos. Parecia inusitado, mas eu me sentia bem ao mesmo tempo. Um ano atrás, eu não conseguia me lembrar

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de dar água a Frankie, e agora eu estava sentada na casa de outra pessoa em uma reunião. Eu soltei um suspiro. — O que está errado? Balancei a cabeça e gesticulei para o grupo. — Pensei que ia morrer um ano atrás. — Ah. — Ela entendeu. — Você percorreu um longo caminho. Por um momento, eu não podia falar. Minha garganta fechou-se. Então, Simon e Garfunkel encheram a sala, e Doris começou balançando seus quadris. Seus braços levantaram, e suas mãos começaram a circular no ritmo da música. William balançava ao lado dela, e Jake puxou Sia para a pista de dança. Derek agarrou minha mão, fazendo uma imitação de uma galinha ao meu redor, e até mesmo Dawn moveu seus ombros no seu canto. Para o meu primeiro jantar de residentes, eu diria que foi um sucesso.

Doris e William dançaram felizes até seu andar. Dawn e Derek estavam rindo, agarrando-se mutuamente para se equilibrar quando pegaram o elevador logo atrás deles. Então sobraram Jake, Sia e eu. Eu me virei. Não. Os dois já estavam no quarto. — Então, — eu gritei. — Acho que vou te ver amanhã? Eu esperei. Nada. — Sia? — Eu limpei minha garganta. — Minha melhor amiga, que veio comigo como meu encontro hoje à noite? Um riso suave e um gemido foi minha resposta. — Ok, então. — Eu apertei o botão para o elevador. Tive que esperar um pouco, pois ele teve que largar Derek e Dawn antes de voltar para mim. — Eu apenas, uh, vou indo.

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Um sapato bateu no chão. Uma explosão de risadas soou, e então ouvi passos se apressando pelo corredor até mim. A suavidade do vestido de Sia garantiu que estava vestida – eu não precisava me preparar para uma visão de sua calcinha ou seios. Quando ela apareceu, seu cabelo estava uma bagunça e seu batom desbotado. — Addison. — Ela correu o resto do caminho, suas bochechas coradas e brilhantes. Um bom sopro de Merlot fez meu nariz se contorcer quando ela me abraçou. — Eu te amo, baby. — Ela puxou para trás, então beijou minha bochecha. — Eu vou ficar com Jake esta noite. — Almoço amanhã? — Oh sim. Eu vou te buscar. Podemos caminhar até Gianni juntas. — Ok. — Eu a abracei quando o elevador fez ping com sua chegada. — Tenha uma boa noite. Use proteção. — Eu vou. — Ela se inclinou para perto, me dando outro abraço quando as portas se abriram atrás de mim. — Muito obrigada por ser a melhor amiga de todas. Te amo, cachos de mel. — Sua respiração fez cócegas em meu pescoço, e então ela estava fora, voltando para o quarto. Entrei no elevador, e depois de colocar meu código, meu dedo pausou no botão três. Lembrei de que não tinha recebido meu correio naquele dia. Eu poderia pedir a Ken para trazer para mim, então eu bati o botão do lobby. Eu tinha meu correio na mão, e estava prestes a voltar para o lobby quando ouvi os ruídos. Uma porta foi aberta, não a do lobby onde eu agora estava, mas atrás de mim em algum lugar. Meus pés se moveram primeiro. Eu não acho que voltei para a área de correio. Aquele elevador traseiro estava perto, e quando rodeei a sala de ginástica, vi os homens. Cinco deles. Todos altos. Eles não estavam falando. Eles me lembraram os homens do restaurante, suas mandíbulas duras como pedra. Eles eram claramente bem sérios, e quando um se afastou, seu casaco se abriu, e eu vi uma arma em um coldre sob o braço. O elevador traseiro se abriu, e dois dos homens correram em direção a ele. Eu segurei a respiração.

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Meus pés aceleraram. Apertei minha correspondência com força, quase esmagando-a em uma bola. — Limpo, — um dos homens anunciou. Alguém falou do outro lado do homem que eu podia ver. Eles entraram um por um no elevador, deixando apenas um com as costas para mim. Ele olhou atrás dele antes de se juntar a eles, dizendo a palavra, “Limpo”, mas quando ele me viu, a palavra morreu em sua garganta. Eu queria ver. O elevador estava fechando. Eu me apressei. Quem eram eles? O homem entrou. Ele se moveu, tentando me bloquear, mas eu vi seus rostos. Eram os homens do restaurante. Meus pés estavam plantados, e meu corpo balançou para frente antes de encontrar o equilíbrio novamente. Eu só podia olhar. Havia o líder. Ele ficou de pé contra a parede de trás, segurando outro homem pelo braço. Eu estava presa, olhando para o homem misterioso de Sia. Eu não pude deixar de notar a ironia. Ela havia desistido dele – e agora provavelmente estava se contorcendo debaixo do meu vizinho – exatamente quando ele apareceu. Mais uma vez, ele estava vestido como os outros – jaquetas, camisas e calças pretas – mas ele era diferente. Eu nunca o ouvi falar, mas eu sabia que ele era o alfa. Ele era forte, autoritário, e de alguma forma eu sabia que ele era inteligente. Uma escuridão começou a girar em mim, me enchendo. Eu não sabia de onde vinha, e não conseguia entender, mas era viciante. Meu sangue começou a zumbir, e meu coração acelerou. Eu não conseguia desviar o olhar. Seus olhos se estreitaram, e ele me encarou de volta quando as portas começaram a fechar.

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Eu segui em frente novamente. Eu queria ver mais. Logo antes que as portas se fechassem, eu olhei para baixo e vi a piscina de sangue a seus pĂŠs. As portas se fecharam. Continuei a observar. O elevador parou no andar acima do de Jake.

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CAPÍTULO SEIS Senhora Sailer, Eu gostei do seu e-mail, e sim, adoraríamos tê-la de volta na equipe. Sua posição na coluna foi preenchida no ano passado, por isso, infelizmente, teremos que levá-la para um espaço baseado em atribuições até que ocorram mais aberturas. Por favor, envie-me todas as ideias que você tem, e podemos prosseguir a partir daí. Estou animada para entrar em contato e conversar mais. Atenciosamente, Tina Gais Editora Chefe Onlooker Online Magazine. Eu li esse e-mail uma vez, então outra vez, e uma terceira vez. Eu tinha recebido esta manhã, e eu estava tentando criar uma lista de ideias, mas me encontrei voltando e lendo tudo de novo. Não havia menção da morte de Liam, do que eu tinha passado, ou por que eles tiveram que preencher minha posição. Sim. Nenhuma palavra sobre como eles prometeram que eu poderia levar todo o tempo que eu precisava para

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chorar. Ninguém poderia me substituir, e eles estavam pensando em mim sempre. Nenhuma menção de qualquer uma das mensagens de apoio que eles tinham me enviado quando eu falei que precisava de mais tempo. Ser uma colunista de conselhos de relacionamento quando o amor de minha vida tinha morrido não tinha sido uma daquelas coisas que eu poderia voltar a fazer rapidamente. Meu olhar mudou do e-mail para a minha lista de ideias. Até agora eu tinha um número um... e nada mais. Esse número em branco eu tive uma hora inteira para descobrir. Eu senti que era promissor. Eu revirei os olhos. Com quem eu estava brincando? Eu ainda não estava lá. Minha coluna foi tirada de mim. Eu tinha que enviar de volta ideias novas, não minhas velhas ideias. Não há mais histórias sobre por que Sr. DecididoPor-Você nunca se compararia ao Sr. Perfeito-Para-Você. Eu estava exaurida. Eu me encostei sobre o computador e digitei: Dez coisas a fazer se o seu marido morrer: # 1. Sair da casa que compartilhavam. Economiza tempo em ser assombrado. # 2. Esconder a bebida dos outros. Você vai querer nas noites em que todo mundo te deixar sozinho, e isso acontece mais rápido do que você pensa. # 3. Sorrir. Eles podem ser perfeitos estranhos, mas não gostam de ser lembrados disso. # 4. Ficar bêbado todas as noites para que você não pense na morte do seu marido uma e outra vez na sua cabeça. Isto te amarra de volta ao # 1. # 5. --------------Eu me afastei do computador. Eu não poderia enviar isso. Entrando no banheiro, eu olhei no espelho. Aquela pessoa olhando de volta, era definitivamente deprimida. Olhos tristes. Olheiras sob os mesmos olhos escuros. Cabelos que costumavam brilhar a luz do sol –

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era o que Liam tinha dito. Era um loiro de cor arenosa que passava por meus ombros. Parecia um esfregão agora. Eu balancei a cabeça, limpei meus pensamentos. Sim, quem estava olhando para mim não era eu. Ela estava sofrendo, mas eu, eu estava tentando viver de novo. Sia tinha dito para tentar voltar ao trabalho. Isso ajudaria. Esta manhã foi a minha primeira tentativa real. Foi um grande fracasso. Eu deveria encontrar Sia para almoçar no Gianni's, e em vez de nós caminharmos juntas, eu tinha recebido uma mensagem dela antes para encontrá-la lá. Isso significava que eu tinha três horas para matar antes de descer o quarteirão, e escrever deveria preencher esse tempo. Olhei meus tênis e fones de ouvido. Eu estava evitando Dawn no ginásio, mas ela estava mais amigável ultimamente. Mastigando o interior da minha bochecha, eu pensei... eu poderia fazer um treino rápido e ainda um alongamento e até mesmo esfriar antes de ela entrar no elevador. Não era que eu quisesse evitar Dawn. Eu só não queria empurrar a minha sorte com ela. Sia era sua nova melhor amiga, ou pelo menos ela pensava, e eu não queria ser puxada para o meio disso também - assim como Sia e Jake e tudo o que iria acontecer com eles. Eu resmunguei. Até mesmo Sia era melhor em viver minha nova vida do que eu, e pensando nisso, minha decisão foi tomada. Trocando de roupa, eu peguei minhas sapatilhas e as amarrei. Meus fones de ouvido em uma mão e meu telefone na outra, eu desci as escadas. As portas se abriram no saguão, e eu saí, virando na direção da porta para a área de trás. — Você está indo para um treino, Senhorita Addison? — Addison, Ken. — Ele ainda se recusava. — Só Addison. Ken saiu de seu escritório e riu, seu rosto enrugando e arredondando imediatamente. Suas bochechas estavam coradas, e ele tirou o chapéu, enfiando-o contra o peito. — Você pode querer dar uma corrida hoje, Addison? Meu nome saiu tão relutante. Eu podia imaginar os dentes dele triturando juntos. Espera. O que ele disse? Uma corrida? — O ginásio

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está fechado? — Eu costumo usar o elíptico, e depois a esteira para diminuir o ritmo. — Não, senhorita. — Ken — eu avisei. — Não, Addison. — Seu olhar deslocou para minha esquerda, sobre meu ombro. — Nossa pista de corrida está bem aquecida, no entanto, se você estivesse se sentindo bem para uma corrida de verdade hoje. — Eu… Ele voltou para seu escritório, e eu parei. Isso era diferente. Eu me virei, e com um último olhar por cima do meu ombro para ele, eu empurrei a porta. Fiz uma pausa no outro lado. Minhas mãos encontraram meus quadris e descansaram lá, mas então eu dei de ombros. Ele queria que eu corresse na pista. Bem, eu gostava do Ken. Achei que ele disse isso por um motivo. Jake disse que usou a pista de corrida algumas vezes, e era longa e sinuosa. Ela mergulhava ao lado do estacionamento do porão e de volta ao longo da lateral do edifício antes de circundar de volta. Eu abri a porta para a pista e tive que fazer uma pausa novamente. Jake nunca mencionou que a faixa era literalmente um tubo transparente. Ele tinha duas pistas, e além do metrô eu podia ver os jardins que decoravam a área da piscina. Ken estava certo. Eu estava começando a me sentir cada vez mais disposta para uma corrida. Eu estava colocando meus fones de ouvido depois de um trecho rápido quando ouvi passos suaves na pista – o som de alguém correndo. Eles estavam chegando rápido e forte, e então rodearam o último turno, vindo direto para mim. A cabeça do corredor estava baixa, seu capuz puxado para baixo. Eu estava mais para o lado, então quando ele passou por mim, eu não conseguia ver quem era. Não era Jake, ou eu não pensei que fosse. Ele provavelmente estava no trabalho, e o cara era mais alto do que Derek. Eu duvidava que fosse William. Talvez o misterioso residente do quarto andar? Então a imagem da noite passada brilhou em minha cabeça: O Sr. Deslumbrante segurando seu camarada, a piscina de sangue no chão.

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Poderia ser? O corredor tinha o mesmo físico, mas duas vezes em dois dias, quando ninguém mais o tinha visto? Nunca? Eu balancei a cabeça. Ele provavelmente era o cara do quarto andar, e com isso decidido, eu comecei uma leve corrida. Ok. Bem. A primeira volta demorou mais do que eu pensava. E eu estava ofegante. Eu não estava tão em forma quanto eu pensava. Ainda assim, eu poderia fazer outra volta. Meus pulmões não estavam estourando, então eu rodei uma segunda vez. No final, eu prometi trazer o meu pedômetro na próxima vez. Eu queria saber até que ponto cada volta me levava. Essa era mais do que uma pista normal, levava muito mais tempo. Eu estava ofegante como uma baleia encalhada quando voltei a dar voltas na direção da porta, e foi quando eu o vi. Ele tinha ficado. Seus braços estavam cruzados sobre seu peito, e ele estava me observando. Uma emoção me percorreu. Ele nem estava se alongando. Ele estava esperando por mim. Eu diminuí a velocidade, forçando minha respiração a acalmar quando entrei. Precisava de tempo para me ajustar porque era ele. Sr. Deslumbrante misterioso do elevador traseiro. Como na noite passada, quando nossos olhos se encontraram e se seguraram, meu sangue começou a zumbir. Toda uma série de emoções circulou como um tornado em mim. Eu não gostei, mas quando a adrenalina e emoção se eriçaram através de mim, eu tinha que admitir que eu gostava também. Ele tinha um sorriso caloroso, e sua camisa se agarrava a ele, mostrando seus ombros largos e musculosos. Deus. Seu corpo era tonificado. Mesmo com suéteres pretos e uma camisa, eu podia dizer como ele era musculoso. Seu capuz estava empurrado para trás agora, e quando eu cheguei mais perto, notei que seu cabelo tinha sido cortado desde ontem e estava curto. Combinava. Seu cabelo não parecia tão escuro quanto antes, mas de alguma forma, isso o fazia parecer ainda mais primitivo e perigoso. Poderia fazer danos. Eu não queria saber que tipo de dano, mas eu sabia sem dúvida que ele não era alguém que eu

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queria como inimigo. Eu não o temia; realmente me senti atraída por ele, meu corpo chiou. No entanto, desconfiei dele e de mim ao mesmo tempo. Seus olhos escuros nunca saíram dos meus. Ele me estudou, e eu tive a sensação de que ele sabia exatamente que tipo de sensações e pensamentos estavam passando pela minha cabeça. Um brilho de sorriso apareceu em seu rosto antes de ele estender a mão. — Eu sou Cole. Eu olhei para sua mão. Eu nunca fui do tipo de apertos de mãos, mas seu vigor me forçou. Colocando minha palma na dele, eu percebi que suas mãos não eram ásperas. Ele me deu um firme aperto de mão, e uma onda de calor passou por mim. Meus joelhos quase dobraram. Fechei os olhos. O que estava acontecendo? Eu nunca tinha reagido assim. Nem com Liam. Ou com qualquer outro cara. Recomponha-se, Addison. — Addison — consegui responder. Ele assentiu como se já soubesse. Seus olhos brilharam, e eu tive a nítida impressão de que ele estava rindo de mim. Ele olhou para a pista de corrida. — Você fez bem. Quase uma milha. — Isso é quão longe duas voltas vão? — Eu perguntei, minha voz muito alta. — Eu estava tentando descobrir isso. Nunca estive aqui antes. Eu não era uma estudante, mas ele me fez sentir como uma. Eu era velha demais para reagir assim. Movendo-me sobre meus pés, eu estendi a mão e mantive um braço em meu peito como uma barreira. Agarrei meu outro braço, que estava pressionado em meu lado. Aí. Eu sentia alguma aparência de controle agora, o que era ridículo. Meu braço sobre meu peito não era uma barreira de forma alguma. — Você mora aqui? — Eu perguntei. Um lado da boca dele se ergueu, e se eu pensava que ele era lindo antes, o meio sorriso dele me fez perder o fôlego. Eu não estava preparada para a visão, e me balancei em meus calcanhares. Bom Deus. Isso foi o suficiente. Eu podia ouvir a voz de Sia na minha cabeça dizendo: Você precisa transar. Ela estava certa. Era por isso que eu estava reagindo assim, então até um maldito meio sorriso me

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deixou molhada. Estava na hora de ter uma ação e sofrer por uma noite. Aparentemente meus hormônios estavam fazendo este anúncio da maneira mais embaraçosa possível. — Sou amigo de Dorian. Dorian sortudo. Ele não respondeu à minha pergunta, mas eu não o pressionei. — OK. — Você deve ser a nova residente? Ele disse que alguém novo se mudou para o terceiro andar. — Sim. Essa sou eu. — Eu tive que evitar erguer meus olhos. Era como se ele pudesse olhar para minha alma. Eu não gostei disso. Sua cabeça se moveu com a minha para que ele pudesse ver meus olhos. — Eu estou te deixando nervosa? — Sua voz suavizou. — Um pouco. — Eu admitiria isso. Seguindo-se de uma risada irônica. — Eu sou, uh, para ser justo, você é... — Eu acenei minha mão para ele. — muito. E eu não tenho andado com caras como você há algum tempo. Meu... marido... Para, para, para! Eu gritei silenciosamente para mim mesma. “Caras como ele?” O que diabos eu estava dizendo? E eu ia contar a ele sobre Liam? Não é assunto para uma primeira conversa. Eu balancei a cabeça, fazendo caretas, e consegui parar. — Eu sinto muito. Eu, eu te vi ontem à noite no elevador. — Eu olhei para cima. Ele tinha retrocedido um passo, colocando um pouco mais de distância entre nós, e meu peito soltou. — Seu amigo está bem? Ele estava sangrando. Ele continuou me estudando, e ele parecia mais fechado. Uma parede que não esteve lá há um momento foi erguida entre nós. — Ele está bem. Dorian o acalmou. — Seu meio sorriso desapareceu, mas logo voltou, apenas com mais um brilho. — Ele bebeu demais na noite passada, e teve um encontro ruim na rua. — É bom que ele esteja melhor. Eu estava confusa. Dorian vivia nos andares superiores? Jake disse que o proprietário vivia lá, embora Cole tenha feito soar como se

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não fosse o caso. Cole estava obviamente conectado ao prédio de alguma forma, mas eu não ia descobrir isso aqui. Eu apontei para a porta. — Eu vou encontrar uma amiga para o almoço, e ainda tenho que me trocar. Eu deveria ir andando. Ele assentiu. — Você corre todos os dias? Comecei a dar um passo em volta dele, mas parei. — O quê? Ele me observou com aqueles olhos intensos. A sensação de estar exposta a ele retornou. Ele estava olhando para dentro de mim, através de mim. — Uh. Não. Ken sugeriu isso hoje, mas eu gostei. Vou fazer de novo. — Eu estarei aqui todos os dias neste horário, se você quiser correr junto comigo. Meus olhos se arregalaram. Por sugestão, meu coração bateu contra meu peito. — Hum. — Meu rosto estava esquentando. Eu desviei meus olhos, concentrando-os na porta atrás dele, e levantei um ombro. — Talvez. Vou ver se posso. Eu não tenho certeza, sabe, sobre minha agenda. Posso ter algo marcado. — Meus olhos se voltaram para os dele, e eles se arregalaram novamente. Ele não se moveu, mas parecia mais perto de mim. Sua presença era esmagadora. — Ok — ele murmurou. — Bem, você saberá onde eu estou, se quiser um amigo de corrida. Então, simplesmente assim, senti-o se afastar. Ele não se moveu, mas eu podia respirar mais fácil novamente. Agora que ele havia dito o que queria, ele me soltou. Minhas pernas estavam inseguras quando me obriguei a caminhar para frente. Eu falei sobre o meu ombro, meu coração correndo: — Talvez eu te veja amanhã. Meu coração trovejou quando me aproximei da saída. Quando toquei na maçaneta metálica da porta, o ouvi falar: — Sim. Talvez. Eu suguei minha respiração. Aquela voz, aquelas palavras faladas tão suavemente – elas alcançaram dentro de mim e enrolaram em torno do meu coração. Eu o senti. Ele tinha poder sobre mim, e nada disso fazia sentido. Ele me marcou, me reivindicando. Olhei para trás por cima do

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meu ombro, o ar suspenso em minha garganta, mas ele não estava observando agora. Seu capuz estava de volta, e ele estava começando outra volta. Meus ombros caíram. Eu virei para que minhas costas estivessem contra a porta e o observei. Esse homem, quem quer que fosse, poderia me afetar como nenhum outro tinha feito em minha vida. Algo tinha acontecido aqui, e eu tinha a sensação de que tudo ia mudar. Eu só não sabia se seria para melhor ou para pior. Endireitando-me na porta, eu balancei a cabeça. Eu estava sendo ridícula.

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CAPÍTULO SETE O Gianni's já estava ocupado quando cheguei lá. Quase cada mesa estava cheia, e diferente da última vez em que viemos aqui, o restaurante estava iluminado. As sombras sobre as janelas da frente tinham sido levantadas, e os homens em ternos de negócios, e as mulheres em ternos e vestidos tinham tomado o espaço. Dei à anfitriã o meu nome e fui para a cabine reservada para nós, sem saber o que eu diria para Sia. Eu estava uma espécie de bagunça. Todo o tempo que eu estava tomando banho, me trocando, e me preparando para encontrá-la, minha mente ainda estava de volta na pista de corrida com Cole. Eu tinha certeza que eu tinha lavado meu cabelo com meu creme de limpeza facial. Não tinha seu volume regular depois que eu o sequei, mas então era tarde demais. Eu tinha desperdiçado muito tempo com Cole La La Terra, então eu fiz uma trança e o amarrei. Parecia desarrumado, do jeito que Sia adorava. Ela ficava louca quando meu cabelo estava assim, chamando-o de “uma bagunça sexy”. Eu esperava a mesma reação desta vez, mas em vez disso, Sia correu, com um cachecol enrolado em seu pescoço, e deslizou na minha frente. Seus óculos escuros ficaram enquanto ela alcançava a água. — Oh, meu Deus. — Ela se inclinou para trás e soltou um suspiro alto. — Você não tem ideia de como estou com sede hoje. — Ressaca?

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Ela assentiu com a cabeça, engolindo metade da água e examinando a mesa. — Por que ainda não há café? Eu levantei uma sobrancelha. — Esse é o meu trabalho? Ela gemeu. Sua cabeça caiu sobre a mesa, amortecida por seu braço. — Desculpe. Eu sou a pior melhor amiga. Você está certa. — Ela se sentou e tirou os óculos de sol, se esquivando da claridade. — Eu estou com uma ressaca como nenhuma outra. — Você não parecia tão ruim quando eu parti. — Ah, não. Porque eu não estava. — Ela balançou a cabeça. — Mas nós continuamos bebendo. Após a primeira rodada muito quente na cama, decidimos que era uma ótima ideia tomar algumas doses. Então as doses começaram, e continuaram. Então fizemos na mesa. Isso significava mais doses. Depois fizemos no sofá. — Informação demais. — No balcão da cozinha. Contra as portas do elevador. E então, com todo o sexo e toda a bebida, você pensaria que nós estaríamos cansados esta manhã. Não. Nós fizemos no banho também. — Isso é possível? Pensei que os caras levavam uma eternidade para se recuperar. — Ele não. Ele tem o pênis de um cavalo de corrida. E eu estou tão fodidamente exausta. — Seus olhos se moveram sobre meu ombro, e ela se endireitou. Uma transformação veio sobre ela. Era como se as bolsas sob seus olhos diminuíssem. Ela puxou um lábio e alisou seu cabelo para trás. Eu estreitei meus olhos. — Seu lenço está de lado. Com um puxão rápido, ela o puxou de volta no lugar, e Sia sorriu enquanto observava alguém chegar à nossa mesa. Eu tive a sensação de que eu sabia quem era. Isto foi confirmado quando ela jorrou: — Jake! Como você está se sentindo? Ele se sentou ao lado dela e mergulhou a cabeça em vez de responder. Eles se beijaram. Não, eles não estavam se beijando. Eles estavam devorando um ao outro. Eles estavam tentando dizer ‘Olá’ com

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suas línguas no sentido literal. Jake tentou afastar-se, mas então suas bocas se abriram uma sobre a outra. Desviei meus olhos. Um gemido começou. E eu me encolhi. Ele gemeu. Eu mordi o interior do meu lábio. Isso foi um pouco estranho, apenas um pouco. Eu me movi no meu assento, sentindo um aperto no meu peito. Estava crescendo. Não. Não diga nada. Deixe-os. Vai ser muito real em breve... talvez agora... não, ainda não. Okay agora. Não. — Ok. — Eu coloquei ambas as mãos na mesa, os dedos estendidos. Inclinei-me para frente com um sorriso forçado no rosto. — Isso é adorável, sabe. — Eles se separaram, me lançando sorrisos culpados. Descansei contra o fundo da cabine e acenei com um dedo para eles. — Vocês dois. Meu vizinho. — Meu dedo se moveu para Sia. — Minha melhor amiga. Se beijando e me dando muitos detalhes sobre sua noite de sexo. Jake franziu a testa e olhou de lado para Sia. Ela apertou seus lábios juntos, lançando-me um olhar. Ignorei ambas as reações. — Basta com os beijos na minha frente. — Eu levantei minha mão. Eu coloquei meu anel de casamento de volta depois que tomei banho. Foi uma decisão de última hora, e parecia certo. Eu me sentia confortada. — Lembre-se. — Eu balancei meu dedo. — Eu perdi o amor da minha vida a um ano atrás. Estou feliz por vocês dois, mas, por favor, pare. Simplesmente pare. O tempo pareceu ficar quieto por um momento enquanto me olhavam, e eu percebi o que tinha feito: oficialmente lançado uma birra, bem aqui no Restaurante Gianni’s. Minha mão cobriu meu rosto. De onde veio isso? — Sinto muito, Sia. — Eu atirei a Jake um olhar de súplica. — Desculpe, Jake. Normalmente não sou assim. Ele se animou. — Você quer dizer que Sia fica aos beijos na sua frente o tempo todo? Ela bateu em seu braço. — Não. — Ela me deu um olhar significativo. — Eu não faço isso. Diga a ele.

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— Não. — Eu balancei a cabeça. — Isso não, não normalmente, mas eu não tenho desculpa por dar um chilique. Jake franziu o cenho antes de um leve sorriso aparecer. — Certamente estávamos fazendo uma cena, não você, Addison. Você não tem motivos para se desculpar. — Talvez não, mas eu ainda estou envergonhada. — Não mesmo. Sinto muito. — Sia pôs a mão no meu braço. — E eu sei que nós íamos ter nosso próprio almoço. Eu pretendia explicar mais cedo que Jake estava vindo também, mas eu estava além de ocupada esta manhã, e bem, você sabe o quão rude eu estava quando cheguei aqui. Jake lançou-lhe um olhar. Ela o acenou com a mão livre. — Eu estava irritada que não tivemos café, como se fosse trabalho de Addison ler minha mente e tê-lo pronto. Eu fui uma cadela. Eu estou me desculpando agora. — Ela apertou meu braço uma vez antes de afastar, e enfiar a mão em seu colo. — Estar além de exausta, de ressaca e dolorida em lugares que eu nunca soube que eu tinha, não está me colocando no meu momento mais gracioso. Eu bufei. Seus olhos foram para os meus. — Dito isto, eu quero pedir desculpas novamente e também dizer que você não precisa se desculpar. Eu deveria ter sido mais sensível. Muito, muito, muito mais sensível. Eu sou uma idiota enorme. A maior! E egoísta. Eu sou além de egoísta. Ok. Ela ia começar a se chicotear. Ela se desculpou. Jake se desculpou. Eu me desculpei. Eu considerei toda a festa do pesar. Pegando minha água, eu abri um sorriso. — Podemos brindar por isso? Sia pegou sua água, mas Jake a imitou. Eles se deram outro sorriso adorador e levantaram o copo juntos. Era quase doentio; e era bonito. Eu estava tendo dificuldade em não sorrir. Gostava desse estágio nos relacionamentos de Sia. Apesar da irritação inicial hoje, ela estava mais gentil e suave. Eu já sabia o que eu estaria ouvindo quando Jake saísse: ela estava apaixonada. Ela teve a melhor noite, de sempre. Ele era o tal.

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Ela o tinha menosprezado na noite anterior, chamando-o de sua alma gêmea perfeita, mas as coisas já estavam claramente além disso, e enquanto os observava olhar nos olhos, eu tinha que admitir que isso parecia mais. Quando Sia proclamou seu amor, eu poderia acreditar desta vez. Era bom para ela. Sério. Verdadeiramente. Sia e Jake riram e conversaram um com o outro, e eu tinha a sensação de que não haveria espaço para eu falar sobre o encontro com Cole. E isso era bom. Eu não estava pronta para dizer nada sobre isso, ainda não. Um garçom trouxe água para Jake e recargas para o resto de nós. Sia pegou seu café, aleluia! A comida veio logo após nós pedirmos. Foi um almoço leve, mas a salada me encheu. Sia e Jake pediram sanduíches e os devoraram, provavelmente morrendo de fome devido às suas atividades cardiovasculares na noite anterior. Não muito tempo depois que terminamos, Jake saiu da cabine para voltar ao trabalho. Sia foi com ele para dizer adeus. Eles saíram de mãos dadas. Amor jovem. Eu me lembrava daqueles dias... Então Cole brilhou em minha cabeça – a imagem dele de pé ali, me observando, esperando enquanto eu caminhava para ele. Minha boca estava molhada, e meu estômago se revirou. Cole, qualquer que fosse seu sobrenome, me afetou e de uma maneira grande e intensa. E pensando em seu convite, eu sabia que não podia fazer isso. Meu corpo estava cansado depois de apenas um breve encontro com ele. Se eu corresse com ele, ao lado dele o tempo todo – minha mão pressionou meu estômago, tentando forçosamente acalmar os nervos. Um garçom me distraiu, procurando meu copo para enchê-lo de novo. — Posso ter a conta? — Esta é por conta da casa. — Ele colocou minha água de volta na mesa. — O quê? Mas ele se virou e foi para a mesa ao lado.

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Sia voltou a sentar-se naquele momento. Dobrando as mãos uma sobre a outra, ela se inclinou para perto. — Sinto muito, novamente. Eu sei que me desculpei antes, mas esse realmente deveria ser o nosso almoço, e você não tinha ideia de que ele viria. E então você teve que se sentar e suportar todas as nossas coisas fofas. — Suas mãos pressionaram contra seu peito. — Eu não sou essa amiga egoísta. Eu não quero ser. Eu te devo muito. O que posso fazer para compensar você? — Ela se sentou de repente. — Noite de sexta-feira! Eu tenho uma noite de folga na sexta-feira! Nenhum evento. Nenhuma angariação de fundos. Nenhuma exposição. Nada. Devemos fazer uma festa do pijama. Você. Eu. Muito vinho. — Ela estremeceu, então acenou isso. — Eu estarei de volta no vagão do vinho até então. Ooh. Podemos fazer isso? Você está pronta para isso? — Nenhum Jake aparecendo no meio de nossa festa do pijama? — Só se começarmos a beber tequila. Você sabe como eu fico fogosa quando eu bebo esse treco. — Sem tequila. — Só vinho. — Sia sorriu para mim. Eu balancei a cabeça. — Apenas vinho. — E pijamas. Legais, grandes e confortáveis pijamas. Nada apertado ou restritivo. Eu balancei a cabeça. — Definitivamente não. — Então é uma festa de melhor amiga, sexta-feira à noite, festa do pijama. — Ela pegou a bolsa e ergueu a mão no ar. — E pode deixar o almoço comigo. — Eu tentei. — O quê? Eu girei. — Abaixe a mão. Não vai importar. — Você pediu a conta? — Ela examinou a mesa. — Cadê? Você não pagou, não é? — Pedi, mas o garçom disse que era por conta da casa. — Você está falando sério? — Ela sentou-se para trás, batendo no encosto de seu assento com um salto suave. — Este lugar não é barato,

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e eu nunca tive a minha conta... — Uma lâmpada continuou. Seus olhos se iluminaram, e ela se sentou. — A anfitriã da outra noite! Ela deve ter reconhecido a nossa reserva e disse algo antes da hora dela. Aposto que era ela. Cara, se for, eu realmente preciso pagá-la de volta. Vou falar com um designer que está procurando modelos, e dar seu nome. Isso foi muito legal da parte dela. — Ela estava admirada. — Eu nunca tive uma anfitriã tão agradável antes. Normalmente, eles tentam pela rede, oferecendo trabalhar de graça em um evento ou algo assim. Sim, vou ter certeza de arranjar um emprego para ela por causa disso. Eu peguei minha própria bolsa. — Mistério resolvido. Assim que saímos para a rua, Sia uniu seu cotovelo com o meu e me puxou para perto do seu lado. Caminhamos dessa maneira, como na outra noite, de volta ao meu prédio. Ela só tinha outro quarteirão para ir para o seu trabalho, e paramos na entrada da frente. — O próximo almoço será só de nós duas. Eu prometo. Espera. Havia algo que você queria falar hoje? Uma imagem de Cole apareceu em minha mente – minha lembrança fervilhante dele no elevador, me observando enquanto as portas se fechavam. O sangue de seu amigo no chão. Ele correndo. Ele esperando por mim quando terminei minha última volta. — Sou Cole. Meus dedos se fecharam sobre sua mão, e eu limpei minha garganta. — Não. Nada. — Tem certeza? — Eu queria ouvir sobre você e Jake, mas eu consegui melhor. Eu vi de primeira mão, como um show particular da Broadway. Ela gemeu. — Novamente. Eu sinto muitíssimo. — Eu sei. Estou torturando você agora. — Ok. — Ela se virou, olhando para o meu andar. — Então, se eu não falar com você toda a semana, planeje tudo para sexta-feira. É definitivo para mim. Eu estreitei meus olhos. — Hoje é sexta-feira. — O que... — Sua boca se abriu e ficou lá. As rodas estavam girando em sua cabeça. Então ela bateu na testa. — Eu quis dizer na

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próxima sexta-feira, e merda! Estou insinuando que não estarei por perto em todo o fim de semana também. Eu sou tão... Nossos braços ainda estavam ligados. Eu os soltei, mas apertei ambas as mãos sobre seus braços. — Pare. Eu sei como você é com seus caras. Seus olhos se fecharam, mas ela abriu um. — Mesmo? Eu balancei a cabeça. — Eu sou uma adulta, tenho trinta anos. Posso me dar bem. Inferno... — Eu tentei por uma piada. — Talvez Dawn e eu nos encontremos para tomar uma bebida esta noite. Sia riu, relaxando. — Você pode fazer tricô. — Eu serei sua alma gêmea de tricô verdadeira, não uma fingida como você. — Não conte minha mentira a ela, — Sia sussurrou. — Não vou contar. — Eu a empurrei para a frente, gentilmente. — Agora vá. Divirta-se. Faça muito sexo, e se não falarmos antes da próxima sexta-feira, vou encontrar você na minha porta. E já vou estar usando o pijama. — Ok. — Ela se moveu para frente, relutantemente, então se virou. E apontou para mim. — Festa do pijama. Eu gritei quando ela foi engolida pela multidão: — Sexta à noite! Seus olhos se arregalaram. — Na próxima sexta-feira à noite — esclareci. Ela ainda estava apontando para mim, mas mudou para me dar um ‘Polegar para cima!’ em vez disso.

Meu fim de semana veio e foi. Foi excelente. Encontrei uma livraria e passei o domingo lá, enrolada com um livro em uma das cadeiras. A semana seguinte passou sem incidentes. Todas as manhãs, eu olhava para o relógio. Cole estava em minha mente. Eu poderia ter ido correr

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com ele, mas eu nunca fui. Eu era uma merda de uma franguinha, mas então um dia eu não era mais. Na verdade, eu estava de pé. Minha decisão tomada. Meu peito estava apertado, e borboletas chicoteavam em torno de mim enquanto eu agarrava minhas sapatilhas e me vestia. Eu estava com meus fones de ouvido na mão e cheguei no elevador, só para não apertar o botão. Eu não poderia fazê-lo. Eu estava muito nervosa. Eu não tinha ouvido nada de Sia desde ontem, e hoje era o dia da festa do pijama, mas eu não esperava que ela viesse. Ela teve um evento na Gala na noite passada. Eu abasteci o vinho, e a tequila para ela. Prometer uma festa do pijama era uma coisa, mas na verdade fazê-la era outra. Se a situação fosse invertida, eu teria dificuldade em ficar quatro andares sob o novo homem em minha vida. Achei que ela iria passar a noite comigo, talvez até mesmo ficar até tarde, mas uma vez que a tequila estivesse em pleno efeito, ela escaparia até seu andar. Eu planejei tudo para que ela soubesse que não precisava se esgueirar. Às sete horas chegou, e ela não enviou nenhuma mensagem. Eu teclei, perguntando se ela estava atrasada. Oito horas. Nove horas. Ela já deveria ter me ligado. Esperei até às nove e meia, e depois chequei meu telefone. Nenhuma mensagem. Nenhuma chamada. Nenhum e-mail. Entrei no Instagram e fui para sua página. Lá estava: um selfie dela e Jake usando camisetas dos Hawks. Eles estavam no jogo de hóquei. Eu levei um bolo.

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CAPÍTULO OITO Talvez meu subconsciente tenha me levado lá. Talvez eu precisasse descomprimir um pouco de vapor. Talvez eu precisasse sair do meu apartamento... Eu não conseguia pensar em nenhuma outra razão, então talvez, apenas talvez eu fosse à pista correndo à procura de Cole. Pronto. Eu admiti. Minha amiga me trocou por um encontro com o namorado, e eu fui em busca do homem que eu tinha sido muito covarde para procurar durante toda a semana. Eu empurrei a porta e dei alguns passos antes de parar. Então eu fiquei lá. Eu não estava vestida para correr. Eu mal estava vestida para qualquer coisa. Pijamas. Uma camiseta branca sobre shorts curtos. Graças a Deus, eu tinha pegado um robe. Eu estava vestida e pronta para o que deveria ter sido a minha noite. Eu sabia que ele não estava aqui. Era tolo pensar que estaria. Ele corria de manhã. Ele mesmo me disse. E era sexta-feira, quase dez da noite. Uma risada amarga escapou de mim, enviando um sopro de fôlego branco para o ar. Estava mais frio do que o habitual aqui. Fechei os olhos, sentindo o frio agora, e me virei para voltar. — É sexta à noite. — Sua voz me parou. Ele estava parado bem no vão da porta, e seus olhos me examinaram. — E você está usando pijama de panda. — Ele balançou a cabeça, seus olhos escuros brilhando. —

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Sabe, às vezes eu me pergunto como sou inteligente, mas estou deduzindo que você não veio aqui para treinar. Eu não respondi. Eu não podia. Eu apenas olhei para ele, digerindo. Ele usava jeans bonitos, feitos sob medida e uma camisa preta sob uma jaqueta de couro preto. Ele era bonito em sua maneira rica, de menino mal. — Você está indo embora. — Minha mão levantou para ele, então caiu para o meu lado. Eu me amaldiçoei. Mesmo agora, mesmo sabendo no que eu estava me metendo quando vim aqui, eu ainda estava reduzida a uma adolescente. Senti um rubor nas bochechas, como sempre tinha quando falava com uma paixonite. Engoli em seco e forcei um suspiro silencioso. Eu realmente precisava controlar meus hormônios. Eles eram velhos demais para algo tão ridículo. Ele riu e enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta de couro, puxandoa contra seus ombros. Minha boca estava molhada. — Ao contrário de você, que deve ter planos divertidos para esta noite, eu prometi a um amigo que verificaria seu restaurante. Ele está fora da cidade e o comprou recentemente. — Seus olhos se estreitaram, e sua cabeça inclinou para o lado. — Você vai para a cama assim, ou vai para uma festa de pijama em algum lugar? Meu rubor estava com força total. Eu o senti rastejando pelo meu pescoço. — Não. Nem sei o que estou fazendo. — Não sabe? — Pensei que um amigo estivesse aqui. — Amigo? — Ele apontou para si mesmo, avançando. — Eu? — Não. Eu... — Isso foi estúpido. — Sim. Você. Um sorriso afetado apareceu em seu rosto, e deu um passo para mais perto. — Bem, não é uma coincidência, então? — Você está se divertindo. Ele riu. — Claro que estou. Você me evitou por uma semana inteira. — Eu não.

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— Sério? — Ele parou, tão perto agora, e eu olhei para ele. Seus olhos focaram nos meus, e eu poderia tê-lo tocado. Tudo o que eu tinha que fazer era estender a mão. Inferno, eu poderia ter fingido tropeçar, e ele teria me pegado. Eu não conhecia esse homem, mas sabia que ele faria isso. Eu poderia cair, e ele me manteria firme. Eu queria seu toque, ansiava por isso. — Então, o que vai ser? — Ele perguntou, seu olhar caindo para os meus lábios. Eu tossi, incapaz de falar a princípio. — O que você quer dizer? — Eu mordi meu lábio inferior. Meus joelhos estavam ficando fracos. — Eu gostaria que alguém fosse a este restaurante comigo. Você deve ter sentido a minha terrível necessidade. Quero dizer... — Gesticulou pelas ruas. — Você veio aqui procurando por mim. Eu acho que é o destino. Você deveria me fazer companhia para não morrer de tédio hoje à noite. — Ha! — Eu estava sorrindo agora. Minhas bochechas doíam do quanto eu estava sorrindo. — Você acha que eu senti que você precisava de uma ajudante esta noite, e os deuses me enviaram para você? — Não. — Ele estendeu a mão e tocou um dos pandas em meu pijama, exatamente onde a minha camiseta descansava sobre meus shorts. O material levantou, e eu senti o calor de sua mão ali, bem no meu estômago. — Apenas os deuses pandas. Eles devem ter ouvido a minha oração. Minha cabeça inclinou para trás. — Você é engraçado. — Deus, sua mão parecia bem lá. Seus olhos escureceram, e o sorriso se deteve. — Eu tenho muitos talentos, mas sério. Eu adoraria ter um encontro nesse restaurante hoje à noite. Eu parei de rir. Entendi sua mensagem. Ele não estava interessado em uma amiga, uma ajudante ou uma companheira. Ele queria um encontro. Meu corpo reagiu à sua simplicidade, e por um momento, eu não confiava em mim mesma para falar. Limpando minha garganta, afastei meus olhos. — Uh.

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— É sexta à noite. — Ele ainda estava tocando um dos pandas no meu pijama. Sua mão estava contra meu estômago, e ele me puxou para mais perto dele. O pano não parecia nada agora. Não havia nenhuma barreira entre nós, e eu olhei para baixo, incapaz de afastar meus olhos de sua mão. — Eu gostaria que você jantasse comigo. — Ele colocou um fio de meu cabelo atrás da orelha com a outra mão. Quando eu olhei para cima, sua mão caiu, mas ele ainda se agarrava a mim. Ele era ousado, e eu não queria que sua mão se movesse. Eu me ouvi dizendo: — Eu preciso me trocar. Ele assentiu. — Encontre-me no saguão. Uma hora? Minha cabeça se moveu para cima e para baixo, e então eu me afastei e o rodeei. Cada parte do meu corpo estava consciente dele. Como se não fosse mais meu, mas uma parte dele. Com cada passo que eu dava, eu sentia quem eu estava deixando para trás. Isso não era normal. Isso não acontecia na vida real. Levou meses antes de eu sentir essa queimadura por Liam. Com Cole, foi na segunda vez que conversamos e na quarta vez que o vi. Tudo derretia dentro de mim, e eu não tinha ideia do que eu tinha escolhido para usar até que eu estava entrando no elevador e batendo no botão do lobby. Olhei para baixo, e minha mão foi para o meu cabelo. Coloquei uma roupa que Sia escolheu para mim. Ela colocou na minha cômoda, dizendo que eu precisava me vestir mais sexy, e ele tinha ficado lá por duas semanas. Olhei na parede espelhada para ver meu cabelo. Ele estava puxado para cima em uma trança bagunçada, semelhante ao almoço de sexta-feira passada. Sia teria aprovado. O elevador parou, balançando em sincronia com o meu estômago. Um encontro – eu não estava pronta. Eu alcancei dentro de minha bolsa e encontrei meu anel de casamento. Eu não coloquei, mas segurei. Alguns dos nervos se acalmaram. Então as portas se abriram, e eu olhei para cima. Não era o quão bom Cole parecia que me deu uma pausa. Era o olhar em seus olhos quando ele me viu. Havia tanto tempo desde que um homem me olhava assim, como se eu estivesse de tirar o fôlego para ele,

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como se ele quisesse me proteger, me levar para a cama e rir a noite toda, tudo ao mesmo tempo. Eu me senti linda quando Cole me olhou. A sensação se apoderou de mim. Pisquei de volta uma lágrima, segurando minha respiração. Liam... senti falta dele com um peso impossível. Então eu pude ouvi-lo sussurrar: — O que quer que este indivíduo vá dizer, eu concordo. Você está deslumbrante, Addison. — Ele teria se inclinado para me beijar. — Eu te amo. Viva a sua felicidade, Addy. Era tão real – senti-lo, ouvi-lo. Viva a sua felicidade. O peso levantou-se, e eu saí do elevador, com a cabeça erguida, enquanto caminhava em direção a Cole. Ele me olhou da cabeça aos pés. — Você está linda. Era um vestido simples, um suéter simples, mas com as botas pretas que Sia escolheu, e eu sabia que meu penteado me fazia parecer sexy também. Obrigada, Sia, pensei enquanto Cole estendia a mão para mim e eu a pegava, sentindo seus dedos perto dos meus. Ken estava esperando perto da porta. Ele segurou-a aberta para nós, ao passarmos para a rua. Ele balançou a cabeça enquanto passávamos. — Tenham uma noite divertida, Sr... Cole lançou lhe um olhar. — Cole e Senhorita Addison — ele terminou. Eu me virei para lhe dar uma censura pela parte da “Senhorita”, mas Cole me conduziu rapidamente em torno de uma SUV preta e abriu a porta do passageiro. Entrei e esperei até que ele tivesse rodeado a traseira para entrar no banco do motorista. — Você mesmo dirige? Ele ligou o motor. — Sim, dirijo. Você achou que não? — Ele entrou no tráfego, e seu sorriso me mostrou um outro lado deste homem misterioso. Ele adorava dirigir. Não, era mais do que isso, mas eu não conseguia identificar exatamente o quê. — Por alguma razão, eu pensei que você teria um motorista. — Ah. — Sua mão se moveu sobre o volante. Ele se inclinou para trás, mantendo uma mão ali e apoiando a outra no câmbio. — Você está

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certa. Eu normalmente teria um motorista, mas esta semana tem sido minhas férias da vida cotidiana. Isso significa sem motorista. Eu tenho que fazer isso sozinho. E dirigir mudando a marcha... — Ele mudou de marcha. — É uma boa mudança. Ele era perigoso. Ele era forte. E agora, ele amava a adrenalina. Cole era tudo o que Liam não tinha sido. — Você gosta da corrida — pensei. Ele se moveu entre os carros e olhou para mim. — Isso está em todos os aspectos da vida? — Perguntei. Seus olhos se estreitaram, mas ele não respondeu. Eu vi o canto da sua boca erguer-se. Então trocamos de faixa novamente e chegamos a um cruzamento. O sorriso fraco já tinha desaparecido, e ele se virou para outra estrada antes de parar na frente de um edifício de tijolos. Ele abriu o cinto de segurança. E não saiu, nem mesmo quando o manobrista abriu a porta. Ele me observou. — Isso a incomoda? A corrida? Minha boca seca. — Talvez em alguns aspectos da vida. Sua sobrancelha levantou. — Como no quarto? Meus olhos se arregalaram. — Você foi ousado quando disse que era um encontro, e agora está falando do quarto? Talvez você tenha pressa de deixar as mulheres desconfortáveis? Ele estava muito perto, muito cedo. Eu tinha atacado, e eu lamentei, mas eu não estava acostumada com isso. Cole era honesto, mas talvez honesto demais? Isso não parecia bem para mim. Ele não respondeu, não a princípio. Ele continuou a me observar, me estudando, então ele disse, suavemente: — Eu não gosto de deixar as mulheres desconfortáveis, mas também sei que você não

está

desconfortável. Gosto de ser honesto, então aqui está a minha honestidade agora. — Ele fez uma pausa, certificando-se de que eu olhava para ele. — Não estou interessado em ser seu amigo. — Oh-oh! Meu pulso acelerou, mais rápido do que já estava, e seu olhar se demorou um pouco mais antes de sair do carro. Um segundo servidor com o manobrista abriu minha porta. Eu não podia me mover, não no

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início. Eu não acho que minhas pernas poderiam me segurar. Quando eu consegui, Cole estava esperando por mim, e eu apoiei minha mão em seu braço. Ele me firmou, e meu Deus, eu odiava isso e gostava tanto. Eu estava uma bagunça por dentro, mas era uma bagunça boa. O interior do restaurante era escuro com iluminação mínima. Velas descansavam nas janelas e recepção. Uma anfitriã estava atrás dela, e quando entramos, ela saiu de trás. Ela era minúscula e bonita: olhos escuros. Cabelo escuro. Uma tempestade que a maioria dos caras adoraria, e ela cruzou as mãos na frente da saia. — Sr... — Cole. Ela piscou uma vez. — Cole. É maravilhoso vê-lo esta noite. O assento normal? Ele assentiu. — Seria ótimo. A cabine traseira do canto era grande o bastante para acomodar seis pessoas confortavelmente. Cole esperou até eu entrar e sentou ao meu lado. A anfitriã nos entregou dois menus antes de voltar para frente. Um garçom veio de imediato, com um jarro de água na mão, para encher nossos copos. Ele desapareceu, só para voltar com uma garrafa de vinho. Dois outros copos foram preenchidos com o vinho, e a garrafa descansou ao lado da mesa em um balde de gelo. Cole me entregou um dos menus. — Você queria vinho? Ou gostaria de outra coisa? Eu dei um sorriso. — Uh, o vinho vai direto para a minha cabeça. Talvez café? É uma opção? O canto de seu lábio se contraiu. Ele parou um garçom passando. — Podemos ter uma garrafa de café também? — Ele me perguntou: — Creme e açúcar? Eu não tinha pensado que minhas bochechas poderiam ficar mais vermelhas. Eu estava errada. — Sinto muito. Eu estava brincando. — Eu olhei do garçom para Cole. — Desculpa. Piada ruim. O garçom saiu, e Cole mudou para me encarar. — Você está nervosa?

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Eu ri. — Você já esteve em torno de si mesmo? Você é um pouco demais. — Eu sou? — Sua sobrancelha levantou. — Toda a sua presença. Você é apenas... Eu não estou acostumada a pessoas como você. — Dorian disse que você tem uma amiga? Sia? Claro que ele saberia sobre Sia. — Sia Clarke. — Esse nome parece familiar. — Ela é a coordenadora de eventos na Gala que fica nesta rua. Você a conhece? — Não. Dorian mencionou que ela tinha uma “presença forte”. — Os olhos de Cole brilharam em diversão. — Imagino que ela o tenha impressionado ou algo assim? — Eu não ficaria surpresa. Ela pode ser direta. Sua mão tocou a minha. Foi um toque suave. — Não posso ser o único. — Mas você é o único que eu quero... — Eu me peguei e fechei os olhos, horrorizada. Eu ia dizer que queria dormir com ele. Meus hormônios estavam dormindo há um ano, mas Cole os acordou. Eles gritaram por atenção. — Nada. Deixa para lá. — Nada? — O meio sorriso que ele estava me dando estendeu para o outro lado. Ele sabia muito bem o que eu estava prestes a dizer. Eu gemi. — Eu já estou envergonhada. — Eu acenei entre nós. Não estávamos nos tocando, mas estávamos lado a lado. — Isso é muito para mim. — Água. Eu precisava saciar minha garganta. Eu escorreguei em torno do canto da mesa para que não estivéssemos mais lado a lado. Cole se moveu no espaço que eu deixei e sentou-se para trás. Deus, aqueles olhos. Eles nunca saíram do meu rosto, e quanto mais me observavam, mais eu sentia que estava perdendo algum tipo de batalha. Sobre minha força de vontade. Ou suas intenções para depois do jantar. Qualquer que fosse a batalha, eu sabia que havia pouca chance de que eu pudesse resistir.

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Nós não conversamos. Minutos passaram, e ainda olhamos um para o outro. A atração entre nós era uma loucura, e quanto mais eu segurava seu olhar, mais rápido meu coração batia. Eu peguei meu guardanapo cegamente e o puxei em meu colo. Minha mão apertou-o em uma bola, e eu segurei para que não fizesse nada mais. Eu não tinha ideia do quê, mas era inútil. Eu ia dormir com ele. A compreensão se espalhou por mim. — Você gostaria de sair? — Seus olhos se escureceram com fome e ele se inclinou para frente. Ele viu minha reação. Ok. Lá estava. Nós íamos falar sobre isso. — E fazer isso no carro? — Eu estava esperando ir para a sua casa. Uma risada seca rasgou de mim. — Eu não faço isso. Sua sobrancelha subiu de novo. — Parece que você vai. — Não, você não entende. — Eu gesticulei entre nós. — Você e eu. Não estou acostumada a esse tipo de coisa. — Uma noite ou sexo casual? Uma segunda risada borbulhou. — Já está rotulando assim? — Bem... — Ele olhou em volta, mas ninguém estava perto. Sua mão levantou. Eu não olhei. Eu não sabia o que ele estava gesticulando, e eu não me importava. Ele estava certo. Nós tivemos dois minutos de caminhada direto para fora, e eu não iria lamentar. Eu não podia. Esse poder, o que ele tinha sobre mim, estava me fazendo fazer coisas que eu nunca pensei que faria. Mas depois do ano passado, eu não me importava mais. A dor. A tristeza. A solidão. Eu queria que fosse varrida, mesmo que por apenas uma noite. Uma maldita noite. — Acabamos de nos conhecer — continuou ele, baixando a voz. — Há muito que não sabemos um do outro. — Você sabe onde eu moro. Você também mora lá? Seus olhos ficaram encapuzados. — Há coisas sobre minha vida que eu não posso compartilhar. Eu gostaria, mas estou em uma posição onde eu não posso. Não até que eu confie em você.

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— Você não pode me dizer onde mora? — Não. — Você é inacreditável. Você quer fazer sexo comigo, mas não vai me dizer onde mora? — Estou perto de Dorian. — Sua mão descansou sobre a mesa entre nós. Enrolou em um punho, e sua mandíbula apertou. — Isso é tudo que eu posso te dizer agora. Mas quero te contar mais. — Ele se inclinou para frente. Sua mão permaneceu lá, ainda em punho. — Eu realmente quero. — Você tem um trabalho do qual não pode me contar. Você mora em algum lugar que você não pode me contar, mas pode me dizer que você é amigo do gerente do meu prédio? O que eu deveria fazer com isso? — Esperava que você me desse tempo. Eu posso te contar; mas não posso fazer isso agora. Um mês atrás eu teria rido na sua cara. Inferno, duas semanas atrás eu teria rido em seu rosto, mas isso não foi há duas semanas. Eu tinha suportado uma semana inteira de querer vê-lo, estar perto dele, mas eu tinha ficado muito assustada. Esta noite era diferente. Sia me deu um bolo. Eu não podia culpá-la. Ela tinha uma vida. Ela estava lá fora. Ela estava viva, e eu não. Eu estava escondida em minha casa, e agora eu estava escondida no meu andar. Eu estava curando – ou estava escondida? Treze meses, e um encontro com esse homem incendiou meu mundo. Eu era inteligente. Eu era educada. Um caso de uma noite não era meu estilo, mas olhando para ele, eu estava rapidamente perdendo minha capacidade de pensar racionalmente. Meu corpo tinha tomado a decisão. Thump. Eu não podia acreditar nisso. Thump Meu pulso batia no meu tímpano. Thump Ele estava esperando minha resposta.

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Eu suspirei, então assenti. — OK.

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CAPÍTULO NOVE Cole levantou-se para verificar o restaurante de seu amigo, e quando ele voltou, nós saímos. Nós não nos tocamos na saída. Não precisávamos. Eu já o estava imaginando sobre mim, deslizando para dentro, empurrando e puxando de volta, só para ir fundo mais uma vez, me esticando. A dor entre as minhas pernas não desaparecia. Durante o caminho foi o mesmo. Eu não vi a paisagem. Eu só podia me concentrar em sua mão. Ele a colocou em sua perna, meio virada para cima. Talvez estivesse lá para me segurar se eu escolhesse. Uma parte de mim estava feliz por ele não ter colocado a mão na minha perna. A outra parte de mim não queria nada mais. E quando minha mente continuou seu jogo-por-jogo do que aconteceria quando chegássemos no meu apartamento, começou a ser demais. Então eu tentei mudar meus pensamentos. Sia. Aquela foto dela e Jake no jogo de hóquei brilhou na minha cabeça. Meu corpo esfriou, apenas um pouquinho. Mas então Cole pegou a alavanca para mudar de marcha, e eu voltei a fixar naquela mão – o que sentiria, onde me tocaria, como seus dedos estariam dentro de mim.

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Eu estava molhada, além do ponto do embaraço. — Você está bem? — A voz de Cole era suave. Olhei para cima e acenei, vendo seu desejo. — Eu estou. Ele segurou meu olhar por um segundo antes de voltar para a estrada. Eu estava tranquila. Qualquer dúvida minúscula que pudesse ter tentado abrir caminho para dentro de mim foi interrompida. Eu estava pronta. Em vez de estacionar na frente do meu prédio, Cole virou-se para a rua lateral e parou no estacionamento. Mesmo? Eu sorri. Sim, ele poderia dizer novamente que ele sabia o código e o estacionamento por causa de Dorian, mas eu suspeitava que era mais do que isso. Ele sabia demais. Então ele entrou na entrada do gerente do prédio. Estava identificado no pavimento. Eu não sabia o que Cole fazia, mas ele era alguém. Ele saiu do carro, e eu não esperei que ele abrisse a porta. Saí e caminhamos lado a lado para o elevador. Quanto mais perto chegávamos, mais meu sangue acelerava. Uma vez dentro do elevador, fiquei de lado, observando-o. Ele retornou meu olhar. Nós ainda não nos tocamos. Meu peito apertou, esperando que ninguém chamasse o elevador naquele momento. Navegamos pelo lobby, o segundo andar, e paramos no meu. Coloquei o código e as portas se abriram para minha casa. Eu respirei, enchendo meus pulmões novamente. Deus, estava na hora. Saindo com os joelhos trêmulos, eu ignorei o interruptor da luz. A lua cheia iluminava o meu andar inteiro. Fui até a cozinha e parei na ilha. — Você quer algo para beber? — Eu avistei a tequila e o vinho no balcão. Havia mais do que suficiente. Cole caminhou atrás de mim e seguiu meu olhar. — Você ia fazer uma festa? — Ele perguntou, sua respiração cobrindo a parte de trás do meu pescoço.

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Eu tremi, fechando meus olhos por um delicioso momento. — Eu abasteci. Pensei que uma pessoa viria esta noite. Sua mão descansou em minhas costas, empurrando meu suéter de lado para tocar minha pele. — Ele? — Ela. Sia. — Eu olhei por cima do meu ombro. Ele estava tão perto. — Ela me trocou por um encontro. Um leve sorriso apareceu. — Preciso enviar um cartão de agradecimento a ela. — Por favor, não assine. — Por que não? Eu me virei, apoiando minhas costas contra a ilha. Cole colocou suas mãos em ambos os meus lados, prendendo-me no lugar. — Porque ela está um pouco obcecada por você, embora ela esteja apaixonada por outra pessoa agora. Ela poderia fazer um círculo e retornar, — eu brinquei. — Eu? — Nós o vimos uma noite. — Quando? — Ele se inclinou, mas suas mãos permaneceram no balcão. Era como se ele estivesse me dando espaço para respirar de propósito. — No Gianni’s. Fomos lá na noite em que me mudei. Ele não se moveu, mas eu podia senti-lo se afastando. Um protesto começou na minha cabeça, mas eu mordi as palavras. Ele não respondeu. Ele estava esperando por mim. Eu continuei: — Você entrou com um grupo de homens e subiu as escadas. Foi isso. Seus olhos se estreitaram. — Você falou com alguém? — O que você quer dizer? — O pessoal? — Sobre você? — Sobre qualquer coisa. Minha testa enrugou. — Sia conversou com a anfitriã. Trocaram telefones. Sia disse que a menina era uma modelo. Ela a reconheceu da

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Gala. Era isso. Oh, bem, o outro garçom se sentou conosco para um drinque mais tarde. Mas eles falaram principalmente com Sia sobre a Gala e sobre fotógrafos – coisas assim. Ele relaxou, suas mãos afrouxando seu controle sobre o balcão. Eu estava com medo de perguntar com o que ele estava tão preocupado que eles nos disseram. — Eu não sei quem você é. — Eu levantei uma mão, colocando-a em seu peito. Seu coração estava correndo, como o meu. Minha boca se abriu de surpresa. — Se é com isso que você está preocupado. Ele olhou para minha mão e ficou imóvel. Ele estava pensando em algo. Eu segurei minha língua, preocupada que era eu, que ele estava repensando sobre esta noite. Eu queria dizer a ele que não havia nada com que se preocupar, mas soava ridículo. Eu realmente não tinha ideia. Então eu esperei, meu coração apertando contra minha caixa torácica. Quando voltou a me olhar, a fome estava novamente em seus olhos – escura, primitiva e mais evidente do que nunca. Ele pegou minha mão e se inclinou, fechando a distância entre nós. Com a outra mão, ele segurou o lado do meu rosto. — Eu não estava repensando sobre isso. Quero que você saiba disso. — Seu toque era terno. — Em que você estava pensando? — Outra coisa, mas não que foi você. — Este é um daqueles momentos em que você gostaria de me dizer, mas você não pode? Não ainda? O canto de sua boca se ergueu. Seus olhos se moveram dos meus para os meus lábios. — Algo assim, sim. — Mmmm-hmmm, — eu comecei a provocar, mas então sua cabeça abaixou, e seus lábios estavam sobre os meus. Eu suspirei. O prazer foi imediato. Sua boca era suave, mas quando ele sentiu a reação do meu corpo, ele aplicou pressão. Seu toque tornouse mais exigente, então eu estava beijando-o de volta. Eu queria mais. Alguém gemeu. Era eu. Sua mão deslizou para a parte de trás do meu pescoço. Ele me segurou em seu aperto enquanto sua boca explorava a minha, abrindo

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sobre mim e escorregando para dentro. Minhas mãos agarraram seus ombros, apenas segurando. Tudo no que eu podia focar era em sua língua. Encontrei a dele com a minha e me deleitei com a sensação. Mas não foi suficiente. A necessidade irrompeu através do meu ser inteiro. Minhas mãos deslizaram sob sua camisa e se moveram sobre suas costas e ombros. Seu corpo era tão poderoso quanto sua presença. Senti a mudança de seus músculos. Eles tremiam sob minhas mãos. A sensação era intoxicante. Eu tinha poder sobre ele, e eu queria mais. Eu queria ver quanto poder eu realmente tinha. Puxando para trás, eu o estudei. Ele estava arquejando levemente. Eu também. Eu podia vê-lo se perguntando o que eu ia fazer, então eu cheguei atrás no balcão e comecei a me levantar. Suas mãos pegaram a parte de trás de minhas coxas, e me levantaram o resto do caminho. Agora sentada na beira da ilha, minhas pernas se separaram, e ele estava de volta entre elas. Sua boca foi direto para a minha. Eu não conseguia pensar no que eu estava fazendo. Eu não me importava. Eu não acho que eu iria me preocupar no dia seguinte, no seguinte dele, ou por mais tempo que isso durasse. Eu não tinha ideia. Eu só sabia que tinha uma noite. Uma longa noite. Outro gemido me deixou. Cole começou a arrastar beijos pela minha garganta e entre meus seios. Ele afastou o suéter. Que caiu no balcão, e suas mãos foram para minhas pernas, descansando acima de meus joelhos. Seus lábios ainda se demoraram entre meus seios. O vestido era uma barreira. Eu queria ele fora. Eu queria sua boca em mim. Eu queria beijá-lo de volta, e eu comecei a puxar sua camisa, tirando-a de sua calça jeans. Ele levantou a cabeça, me ajudando por um momento e depois se curvou para o meu peito. Minhas mãos voltaram para suas costas. Em vez de sentir, eu olhei para baixo. Eu não pude evitar. Eu estava cativada. Eu sentia aqueles

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músculos ondulando sob meu toque, mas vendo-os agora, minha respiração tinha desaparecido. Ele era perfeito. Não havia outra palavra. Ele poderia ser uma arma, apenas por seu corpo. — Cole — eu murmurei. Ele olhou para cima e acenou com a cabeça, deslizando suas mãos mais para cima em minhas pernas. Ele esperou, apoiando-as na minha cintura debaixo do meu vestido. Enquanto ele continuava a segurar meu olhar, uma de suas mãos se moveu para baixo e seu dedo deslizou dentro de minha tanga. Meu corpo se sacudiu, explodindo em seu toque. Eu não tive um clímax, mas querido Deus, foi quase. Eu apertei ao redor dele enquanto ele enterrava seu dedo dentro de mim. Ele saiu, e então se inclinou. Seus lábios encontraram os meus, e minhas pernas se enrolaram ao redor de sua cintura. Meus braços apertaram suas costas. Seu dedo se moveu para fora, e então para dentro novamente. E outra vez. E outra vez. Ele continuou. Eu estava impotente contra sua investida, e não queria detê-lo. Comecei a tremer, mas não queria gozar, ainda não. Eu queria esperar, esperar, mas ele nunca parou. Dentro e fora. Inserindo, puxando e voltando novamente. — Cole. — Meus lábios roçaram os dele. Ele continuou. — Cole, por favor. — Por favor, o quê? — Sua voz era tão rouca quanto a minha. Eu agarrei seu pulso, tentando fazer uma pausa em suas carícias. Em resposta, ele foi ainda mais fundo. Um segundo dedo deslizou para dentro, e eu só conseguia ofegar, minha boca se abrindo quando o prazer me

atravessou.

Onda

após

onda

me

percorreu,

me

cobrindo

completamente. Eu não podia – eu não sabia o que eu não podia. Ele continuou indo e indo. — Cole, meu Deus.

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Ele levantou os lábios para o meu ouvido e murmurou gentilmente, como se fosse uma carícia: — Deixe, por favor, Addison. — Ele me beijou. — Deixe. — Mas você... — Você não terminou. Deixe-me fazer isso por você. Um terceiro dedo entrou, me esticando mais do que eu fui esticada em muito tempo. Seus dedos se moveram juntos, indo fundo, deslizando para trás, entrando novamente. Ele começou a acelerar. Eu estava respirando pesadamente, ofegando alto. Tudo que eu podia fazer era me agarrar a ele, minhas pernas e braços se esticando ao redor dele. E então, um último impulso, e eu voei sobre a borda. Tremores atingiram meu corpo, e Cole me segurou enquanto eu montava cada onda. Elas continuaram vindo até que finalmente tive um último espasmo, e eu estava completa. Meu corpo estava saciado. Mas mesmo quando eu pensei nisso, eu sabia que não era verdade. Uma dor se formou, apenas uma minúscula, entre minhas pernas. Os dedos de Cole ainda estavam dentro de mim. Eu me virei para que nossos olhos estivessem a centímetros de distância. Eu não disse nada. Sua necessidade brilhou em seus olhos, e era profunda, mais voraz que a minha. Sua mandíbula se apertou enquanto engolia. Sua mão livre flexionou e depois apertou minha coxa. Pela primeira vez, eu vi nele como ele me via. Ele esperou, me deixando recuperar meu próprio controle. Quando consegui, eu dei-lhe um pequeno aceno de cabeça, e ele me pegou, me levando do balcão. Ele não reagiu ao me segurar. Era como se eu fosse uma boneca. Ele me levou pelo corredor até o meu quarto, e depois me colocou na cama. Sentei-me e tirei o vestido, depois estiquei a mão para soltar o sutiã. Finalmente eu estava usando apenas minha tanga. Meus olhos percorreram seus ombros, seu peito até seu abdômen. Ele era magro, mas era musculoso em todos os lugares.

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Eu tinha pensado nele como uma arma antes, e sei que era verdade. Lembrei da primeira vez em que o vi. Pensei que ele andava de um jeito sensual, como um predador, e minha boca umedeceu mais uma vez pensando em como ele seria dentro de mim. Como ele seria sobre mim. Sentei. Seu olhar foi para meus seios, permanecendo lá. Eles reagiram sob sua atenção. Seus olhos ardiam, e ele se moveu para mim. Ele se inclinou e eu fechei os olhos, sabendo que ele iria me tocar novamente. A cama mergulhou sob seu peso, e então seus lábios estavam em meu peito. Eu engasguei novamente, arqueando minhas costas. Sua boca se abriu, levando meu mamilo para dentro. Enquanto ele me beijava e me acariciava, ele me ajudou a me mover mais para cima na cama enquanto se juntou a mim. Eu abri meus olhos e vi como ele continuou seus beijos, mudando para o meu outro peito. Eu me contorci debaixo dele, querendo sentir seu corpo sobre o meu. Eu queria aquele peso, depois senti-lo entrando em mim – não seus dedos, ele. Mas por enquanto, continuava a me provar, a me tocar, e eu continuava observando. O que a manhã traria, eu não sabia, mas eu não queria dormir para enfrentá-la. Eu queria estar acordada. Eu queria a sensação de Cole uma e outra vez. Incapaz de segurar mais, deslizei minhas mãos para cima de seu corpo, desfrutando do mergulho e o vale entre cada um de seus músculos até que passei minhas mãos ao redor de seu pescoço e agarrei sua mandíbula. Ele respondeu ao meu toque, levantando a cabeça para olhar para mim com olhos selvagens. Ele amava tanto quanto eu. Ele piscou e focou em mim. Quando ele viu o que eu queria, o canto de sua boca levantou. Ele se moveu sobre mim, curvando-se agora para não me esmagar, e sua testa descansou na minha. Ele puxou sua carteira. Agarrou um preservativo, rasgou o invólucro e logo fez o trabalho rápido de suas calças e cuecas. Ele as chutou, colocando a proteção, e alcançou entre

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as minhas pernas. Eu ofeguei com suas mãos em minhas coxas abertas e ele pausou, olhando em meus olhos. Eu senti sua pergunta não dita, e acenei com a cabeça. Eu estava pronta. Ele pegou minha calcinha e a rasgou. Um segundo depois, ele deslizou para dentro, e meu corpo inteiro se levantou em resposta. Ele fez uma pausa, me deixando ajustar a ele, antes que ele começasse a se mover. E então tudo mudou. Em algum momento durante a noite, eu o reclamei também.

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CAPÍTULO DEZ Meu alarme estava tocando. Não. Meu telefone? Espera. Não. Lentamente eu saí do meu sono. Era o elevador. Por que estava tocando – eu me virei sob os braços de Cole para ver o relógio – seis da manhã? Sia. Eu me afastei, mas antes que eu pudesse dizer alguma coisa, Cole estava fora da cama. Ele puxou as calças e pegou a camisa. Eu me arrumei para me juntar a ele. — Você está esperando alguém? Eu balancei a cabeça. Ontem à noite – oh, cara. Examinei a cama. Tínhamos puxado o lençol de baixo. Eu não podia pensar sobre isso, não agora. Alcançando o roupão pendurado sobre minha cômoda, eu o puxei enquanto o toque continuava. — Addison. — Cole foi até a porta e fez uma pausa. Ele tinha deixado seu jeans aberto. Ele perguntou novamente: — Você está esperando alguém? — Pode ser Sia. A expressão que ele usara ontem à noite quando eu lhe falei sobre o Gianni’s voltou.

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— Eu tenho uma caixa de... — Eu parei de falar quando me lembrei. Eu tinha juntado algumas das coisas de Liam e as guardado no meu armário. Era uma coisa sentimental. Coisas que eu poderia tirar se eu estivesse sentindo falta dele demais. Entrei no armário e peguei o robe favorito de Liam, oferecendo-o a Cole. Ele estava vestido, então eu não sei por que eu estava oferecendo um roupão. Eu não sabia o que estava fazendo. Seu cenho ficou mais profundo. — De quem é isso? Eu não pensei. Eu respondi: — Do meu falecido marido. — O sinal sonoro soou novamente, e eu me apressei, pressionando a câmera. Cole se moveu atrás de mim e olhou por cima do meu ombro. Era Dorian. Eu bati o botão de aceitar e comecei a perguntar: — Por que o meu gerente de apartamentos... A mão de Cole tocou minhas costas. Eu parei de falar mais uma vez. — Ele está aqui por mim. — Oh. — Bem, é claro. Isso fazia sentido. Registrei que Cole não tinha vestido o roupão. Ele estava de camisa e jeans, descalço. As portas do elevador começaram a se abrir. Cole olhou para baixo. — Você pode nos dar um minuto? — Oh. Eu parecia ridícula. Fui para o meu quarto, me amaldiçoando. Eu já sabia o que eu ia fazer. Fui à ponta dos pés até a borda do corredor, mantendo-me ao lado, para que nenhum dos dois pudesse me ver. Suas cabeças estavam curvadas, e eu podia ouvi-los murmurando. Eu me afastei para trás, apenas no caso de eles olharem para cima. — ...certo? — A voz de Cole levantou-se um pouco. — Eu sinto muito. Dorian não parecia sentir, no entanto. Cole resmungou. — Eu tenho certeza que você sente. — Não te disse para dormir aqui. — Diminua seu tom de voz.

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Eles voltaram a murmurar. Eu esperei, mas depois de mais trinta segundos de conversa sussurrada, eu sabia que não ouviria mais nada. Comecei a me inclinar para trás, andando na ponta dos pés silenciosamente até a minha cama. Eu sentei. Eu cruzei minhas mãos em meu colo, e foi então que os eventos da noite anterior começaram a me bater. Sexo. Sexo quente. A noite toda. Nós só tínhamos parado quarenta minutos atrás... Eu olhei para o relógio novamente – ou algo assim. Eu estremeci. Era algo mais como trinta minutos. Passando uma mão pelo meu cabelo, eu peguei um sopro de minha respiração e recuei. Não era de admirar que Cole quisesse espaço. Fui ao banheiro, fechei a porta e comecei a rotina que eu fazia todas as manhãs. Tomei banho. Escovei meus dentes. Eu estava me preparando para o dia. Seria um dia lento, mas eu não seria mais capaz de dormir. Eu estava envolvida em uma toalha e agarrando minhas roupas quando ouvi as portas do elevador fecharem. Esperei pelos sons suaves dos pés descalços, mas nenhum som veio. De repente, Cole estava na entrada do armário. Eu gritei. — Porra, merda! Sério? Meu coração se alojou no fundo da minha garganta. — Eu acabei de ter um ataque cardíaco aqui. — Faça um som na próxima vez, por favor. Cole apoiou um ombro contra o batente da porta e cruzou os braços sobre o peito. Ele sorriu, seus olhos mostrando sua diversão. — Você é linda quando está cansada. Eu gemi, ignorando a pequena virada que meu estômago fazia quando ele me provocava. — Tanto faz. Vou devolver o favor e ver se você gosta. A diversão desapareceu. — Você não pode. — O quê?

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— Você não pode me assustar assim. Nunca. — Por que não? — Eu segurei minha camiseta e jeans. — Porque... — Ele passou uma mão sobre sua cabeça. — Eu sou um lutador treinado. Eu poderia te machucar. Eu não quero te machucar nunca. Oh... Oh! — É isso que você faz para ganhar a vida? — O quê? — Ele pareceu confuso por um momento. — Não. — Ele cruzou os braços sobre o peito. — Só não me assuste assim. Não posso prometer que não vou reagir. Estou falando sério, Addison. Eu não quero te machucar, nunca. Eu podia sentir um “mas” vindo. Não sobre mim, mas sobre ele de pé ali, parecendo apetitoso, e não ficando. Suspirei. — E você tem que ir? Ele assentiu. — Tenho. Eu gostaria de te ver novamente. Esta noite? Desta vez vamos ficar para o jantar. Eu quase sorri. Quase. — Sem corrida hoje? — Hoje não. Parece que minhas pequenas férias acabaram. Vou embora durante o dia todo. — Ok. — Eu esfreguei minha testa. — É sábado. Não tenho nada para fazer hoje. O sorriso se transformou em uma risada suave. Ele se aproximou e eu fechei os olhos quando seus lábios tocaram os meus. Era tão bom, melhor do que deveria ser. Ele descansou seus lábios lá, então se afastou. Eu podia sentir sua relutância. — Até à noite. — Ele não se moveu por todo o caminho de volta. Ele olhou para mim. — Você sabe a que horas? — Ainda não, mas quando eu souber, vou ligar. — Ele franziu a testa novamente. — E se você quiser fazer planos, pode fazer. Posso esperar para te ver outra noite. Eu compreendo. — Sim. Claro. — Isso não ia acontecer. — Eu, criatura social aqui. O canto de sua boca se ergueu novamente. — Eu vou te ver. — Esta noite. Ele começou a sair. — Esta noite.

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Depois virou a esquina. Ouvi o elevador levรก-lo embora, e eu estava sozinha novamente.

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CAPÍTULO ONZE Bem. Dizer que eu tinha coisas em minha mente seria um eufemismo. Havia um furacão completo em minha mente, mas não. Eu tinha prometido a mim mesma na noite passada que não iria me arrepender de nada, e eu estava me agarrando a isso. Eu também tinha escolhido esse tempo para finalmente terminar de desembalar a última parte das coisas. Qualquer coisa que não foi posta de lado já tinha um lugar, e foi categorizado. Em seguida, arrumado por cores. Eu não me arrependia da minha noite com Cole. Foi o oposto. Continuei a olhar para o meu telefone. Eu disse a mim mesma que não era por causa dele. Isso não era o ensino médio. Isso não era uma paixonite, mas a vibração no meu estômago não me tranquilizava. A outra pessoa de quem eu esperava ouvir notícias, o que era mais lógico considerando que eu tinha lhe enviado uma mensagem na noite anterior, era Sia. Ela tinha me dado um bolo, e estava silenciosa desde então. Isso não era normal, mesmo quando ela estava encantada com um novo namorado. Ela só se esquecia de mim uma ou outra vez, e as desculpas começavam imediatamente, com flores. Eu ia pedir chocolates desta vez, mas evidentemente eu não ia ter a chance. Meu telefone estava em silêncio.

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Foi um pouco depois do meio-dia quando me arrisquei no andar de baixo. Meu corpo estava exaltado, mas exausto ao mesmo tempo, então sem exercícios para mim. Planejei sair para explorar um pouco. Eu não tinha vagueado pelas ruas desde que me mudei, e já passou da hora de isso acontecer. Eu estava voltando da sala de correio quando vi Dawn espreitar pela porta. Ela estava observando alguém no saguão, então eu limpei minha garganta. Ela não se assustou, mas virou a cabeça. Seus olhos se apertaram. — Oh. É você. Eu dei-lhe um olhar. — Eu pensei que nós estávamos amigáveis...? Ela olhou de volta, erguendo-se na ponta dos pés. — Eu estou brava com você. Hã? — Comigo? — Sim. — Ela me deu outro olhar escuro. — Você. — Por quê? — Você os apresentou. — Quem... — Sia e Jake. A lâmpada acendeu quando ouvi risos vindo do saguão. Riso masculino. Riso feminino. Risos que eu reconheci. — Sia e Jake estão lá fora? — As coisas estavam indo de acordo com o plano até que você a trouxe para o jantar. — Seu nariz enrugando. — Muito obrigada por isso. Eu pisquei. — Eu não tinha ideia, Dawn. Pensei que gostasse de Sia. Ela levantou um ombro, espiando pela porta novamente. — Fui seduzida por ela. Não são muitos que compreendem a frustração quando você não usa um ponto quadrado. Os resultados podem ser catastróficos. Sia entendeu. — Seus olhos se estreitaram quando se virou para mim. — Mas eu estou de olho nela. Você a trouxe intencionalmente para levá-lo embora? Eu não tive palavras por um momento. — Uh. — Balancei minha cabeça. — Dawn, você está um pouco assustadora agora.

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— Sou a eremita do prédio. Tenho muito tempo em minhas mãos. — Ela olhou para trás por um momento e depois anunciou: — Temos que nos esconder. — O qu... Ela agarrou meus ombros e me empurrou para trás, me guiando ao longo do caminho. Estávamos nos movendo rápido, depois paramos. — Onde... — Sssh! — ...Eu não sei onde está. Eu não verifiquei depois do jogo, mas trouxe para baixo quando estávamos nadando. Eu sei que sim, mas não me lembro de pegá-lo depois disso. — A voz de Sia ficou clara quando ela passou por nós. — Eu deveria parar e ver Addison. Tenho a sensação de que devíamos fazer algo juntas neste fim de semana. — Sério? — A voz de Jake não era tão clara. Eles estavam se movendo para além da porta. — Nós poderíamos perguntar a ela... — Eles estavam fora de alcance. Esperei, mas Dawn nunca abriu a porta. Estendi a mão para o botão. Ela agarrou minha mão e sibilou: — Eles estão voltando. Ele está pegando o correio, assim como você. — Eles ficaram fora à noite toda? Ela avançou para frente. Eu não podia ver seu rosto. — Eles estavam no café da manhã agora, mas acho que eles ficaram na casa dela. — Como você sabe disso? — Instagram. Hello!? Você nunca postou nada no seu, a propósito. Você deveria postar mais. — Devidamente anotado. A voz de Sia se aproximou. — ... isso está me incomodando. Lembro de estar com ele antes de nadarmos. — Eu não sei, — Jake disse. — Talvez. Estávamos ambos acabados, mas ainda estaria aqui. Ou Kenneth nos daria se alguém o encontrasse primeiro. Era tarde quando estávamos aqui.

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— Eu sei. — Eu podia ouvir a confusão em sua voz enquanto eles passavam novamente. — Vamos ao andar de Addison. Talvez ela o tenha encontrado e esteja guardando-o para mim? — Talvez. Então Sia ainda não se lembrava dos nossos planos ontem à noite. E eles estavam indo para o meu apartamento enquanto eu estava presa em um armário escuro com Dawn. Comecei a avançar novamente, alcançando a porta, mas ela me bloqueou. — Não. Eles poderiam voltar. — Dawn. — Eu agarrei seu braço. Dois poderiam jogar com isso. — Ou você se move, ou eu movo você. — Apenas espere. Ok? Eles vão voltar e procurar por você. — Mesmo? — Sim, — ela respondeu para mim. — E por que você acha isso? — Porque você não vai a lugar nenhum, como eu. Se você não estiver em seu andar, eles saberão que você está aqui embaixo. — Oh, que preocupação. — Eu precisava ter uma vida. Agora. — Afaste-se da porta. Quero falar com eles. — Apenas esp... — Um ping soou no armário, seguido por uma miríade de sinos tocando. Eu conhecia aquele som. — Você está com o telefone da Sia! — Não, eu não. Mas ela estava. Os sons continuaram chegando, o toque que Sia tinha colocado de propósito. Ela nunca quis perder algo. Dawn o puxou para fora de onde quer que ela o tinha escondido. Iluminou o armário, e eu vi o suficiente para agarrá-lo, empurrá-la e passar ao seu lado ao mesmo tempo. — Não! — Ela veio atrás de mim. Eu bati o botão de aceitar a mensagem de texto e ler a mensagem de Jake: Onde você está, telefone? Se alguém encontrar isso, ligue para o meu número.

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Eu já tive o suficiente. Bati o botão de chamada e levantei-o para o meu ouvido. — Não! — Dawn tentou agarrar o telefone de mim. Eu a segurei, dando-lhe um olhar com um aviso. — É inacreditável. No começo pensei que você achava que era boa demais para mim. Então eu me senti mal por você. Você era tímida. Foi o que Jake disse, e agora descobri que roubou o telefone da minha melhor amiga? Você estava aqui enquanto eles estavam nadando? Se olhares pudessem matar, eu estaria em cinzas. Então Jake respondeu ao telefone. — Alô? Você está com o telefone da Sia? — Oi, Jake. Sim. É Addison. — Addison? — Eu podia ouvi-lo afastar-se do telefone. — Addison está com o seu telefone — disse ele a Sia. Eu podia ouvi-la no fundo. — Oh, graças a Deus. Olá, Addy! Ele voltou. — Você está em casa? Nós acabamos de tentar tocar no seu andar. — Estou no saguão. — Oh, bom. — Ele se afastou novamente. — Ela encontrou seu telefone lá embaixo. — Ela encontrou? — Sia questionou, sua voz distante. — Isso é tão esquisito. Eu me pergunto onde o deixei. Onde ela estava? Estávamos lá embaixo. Retornei o olhar de Dawn. Ao ouvir a conversa, horror floresceu em seus olhos, e ela começou a balançar a cabeça. — Não diga a ele. Por favor. Não conte a nenhum deles. — Ok, — Jake disse. — Você quer vir até aqui ou nós devemos descer? Eu não respondi imediatamente, meditando sobre o meu melhor curso de ação. Dawn murmurou: — Por favor. Por favor!

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Eu gemi. — Eu vou até aí. — Então eu forcei uma leveza em minha voz. — Vocês estão vestidos? Eu preciso cobrir meus olhos quando entrar? Ele riu. — Estamos vestidos. Nós já fomos à rua hoje, também. — Addison, nós precisamos ter algumas bebidas hoje à noite! — Sim. Alguns drinques parecem bom. — Eu desliguei e coloquei minhas mãos em meus quadris. — Que diabos você estava pensando? Você quebrou o código? — Não. — Parte da luta parecia ter deixado Dawn. Ela retrocedeu um passo e sua cabeça se pendurou ligeiramente. — Eu podia apenas ler as mensagens como você fez agora. Você sabe o código dela? — Eu sou sua melhor amiga. Claro que eu sei. — Isso é bom. — Seus ombros caíram. — Isso é muito particular. Ela deve confiar em você. — Sim, e você sabe o quê? Vou contar que você roubou o telefone. Sua cabeça se elevou. — Você não pode. Por favor. Por favor, não. — Por que não? — Eu senti como se estivesse discutindo com uma criança. — Dê uma boa razão para que eu quebre a confiança dela em mim? —

Porque...

As

mãos

de

Dawn

surgiram

num

gesto

desamparado. — Eu não sei. Eu amei Jake por um ano, e é difícil. Você não tem ideia de como é difícil. Ele finalmente olhou para mim. Você não tem ideia do que é sempre estar por perto, mas nunca ter alguém olhando para você, realmente olhando para você. Ele olhou. Um mês atrás. Houve um momento, e depois você se mudou, e a trouxe junto. Agora está de volta a como era antes. Ele nem me vê. Ele passa por mim. Ok. Meu coração pulsou um pouco, mas só um pouco. Eu segurei o telefone. — Então você roubou o telefone da Sia? — Sim. Porque... Não sei. Eu estava esperando por informações. — Que tipo de informação? — Como... — Ela deu de ombros, desviando o olhar. — O que ele gosta? Ele flerta no telefone? Como ela conseguiu? Ela não é mais bonita

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do que eu. Eu posso ser estranha às vezes, mas eu posso ficar bem. Eu sei que posso. Derek acha que sim. — Então saia com Derek. — De jeito nenhum. Ele é estranho. — E você também. — Eu me encolhi logo que as palavras saíram. — Eu sinto muito. Eu não quis dizer isso assim, mas vocês dois são semelhantes. Jake e Sia, eles são semelhantes. — Não. — Ela balançou a cabeça. — Não diga isso. Os opostos se atraem. Eu... não tinha palavras. Esta não era a Dawn hostil e fechada; esta era o seu verdadeiro eu. Ela estava apaixonada, ou pensava que estava, e queria que aquele cara a amasse de volta. Uma parte de mim sentia por ela. Todos nós queríamos ser amados, ou ser correspondidos. Enfiei o telefone de Sia no bolso e fui para a porta. — O que você vai fazer? Eu me virei, batendo na porta com minhas costas e abrindo-a. — Eu não sei. Vi a dor nos olhos de Dawn, mas meu coração endureceu. Eu senti por Dawn. Realmente. Mas ela fez as coisas de um modo ruim, e Sia era minha família. Mesmo depois de se esquecer de mim na noite anterior.

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CAPÍTULO DOZE — Você furou comigo! Fui até lá para contar a Sia sobre Dawn, mas então vi como ela estava feliz. Eles estavam comendo queijo de um prato. Jake estava com seu braço ao redor de sua cintura, e ela estava aconchegada ao seu lado. Se eles não fossem tão adoráveis, teria sido nauseante. Dawn podia esperar. Ela estava colocando um pedaço de queijo na boca e congelou. — O quê? — Tínhamos planos ontem à noite. — Oh... — Eu vi as rodas girando e então ela gemeu, sua cabeça caindo para o balcão. Ela descansou sua testa lá, gentilmente batendo mais uma vez. — Eu sou uma amiga de merda. Puta merda. Eu ferrei tudo. Não há outra maneira de contornar isso. — Ela se moveu ao redor do balcão, levantando os braços. — Primeiro, toda a demonstração de afeto na sua frente e agora isso. — Ela me puxou para dentro, me abraçando apertado. Sua voz caiu em um murmúrio: — Estou tão além de desculpas. Vou compensar você. Festa do pijama esta noite. Eu não me importo se estiver acontecendo qualquer outra coisa. Está cancelado,

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e se prepare para um mês inteiro de mim rastejando. Você vai ganhar chocolates, vinho, o que quiser. Todo dia. Eu ri, abraçando-a de volta. — Eu estou bem, e não quero nada disso. Apenas não me dê outro bolo de novo. OK? Sia continuou a se desculpar, mas eu estava mais interessada em ouvir o quão divertido foi o jogo de hóquei. Então ouvi sobre sua decisão espontânea de ir nadar no meio da noite, e uma pequena culpa começou a me roer. Eu não queria deixar Sia brava com Dawn. Ela estava ridiculamente feliz com Jake. Se fosse o caso, eu diria a Jake mais tarde, mas por agora eu queria fazer controle de danos, então pedi licença e fui ao banheiro. Eu conhecia seu código de acesso, e excluí as chamadas do telefone dela, depois as duas mensagens também. Nenhuma delas tinha sido visualizado ainda, e quando eu acabasse, ela nem faria ideia da existência delas. Verifiquei por quaisquer mensagens assustadoras de Dawn também. Não havia nenhuma, e depois que terminei, deixei seu telefone em uma mesa perto da porta do elevador. Sia ainda não tinha pedido, embora a Sia normal teria perguntado assim que eu saísse do elevador. Feliz e apaixonada, Sia parecia já ter esquecido da coisa toda. Provavelmente como ela o perdeu em primeiro lugar. Quando voltei, me convidaram para jantar com eles no Gianni’s às sete. Dei-lhes um talvez, dizendo que eu não tinha certeza de como eu estaria me sentindo. Eu ia esperar para ver se Cole realmente me ligaria antes de decidir sobre meus planos, mas é claro que eu não disse isso a eles. Quando cheguei ao meu apartamento, a espera começou. Com o passar do tempo, comecei a me perguntar se ele ligaria. Talvez ele só quisesse fugir sem qualquer estranheza. Mas eu não podia negar que eu queria que ele ligasse. Eu queria vê-lo novamente, e esperava não estar sendo estúpida ao mesmo tempo. No meio da tarde, percebi que ele poderia não ter o meu número. Tentei empurrar isso de lado, mas percebi que ele sabia onde eu morava,

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mas provavelmente não o meu número. Eu deveria ir com Sia e Jake. Eu não ia esperar aqui no caso dele vir ao meu andar. Isso funcionou. Minha decisão foi tomada... por trinta minutos. Então minha mente começou a zumbir novamente. Ele tinha o meu número? Algo me dizia que eu poderia encontrálo. Cole conhecia Dorian. Ken o chamara de Cole na noite anterior. Eu tinha que saber. Eu estava me movendo para o elevador antes de perceber o que eu estava fazendo. Bati no botão do lobby, e meu coração disparou. Quando as portas se abriram, eu não saí. Eu olhei para cima, e Ken estava lá. Ele também olhou. — Ele tem meu número de telefone? — Eu perguntei, direto ao ponto. Ele acenou com a cabeça uma vez. — Ele tem. Nenhuma outra pergunta foi feita; nenhuma outra resposta era necessária. Eu acenei com a cabeça em agradecimento e bati para o meu andar novamente. Eu me inclinei para trás e fechei os olhos. Eu me sentia como uma garota nervosa da escola. Era assim que era namorar? Como se sentia? Tive uma nova simpatia por Sia. O elevador parou, e eu comecei a descer, sem olhar para o número do andar. Dawn estava na minha frente, seus braços cruzados sobre seu peito. Eu retrocedi, meus olhos piscando para as luzes. Ela chamou o elevador. — Você contou? — Ela perguntou. Aborrecimento brilhou em mim. Eu girei para frente, batendo no botão para fechar as portas, enquanto eu dizia: — Não. Considere-se sortuda, ok? Você me deve. Ela soltou um suspiro de alívio, e acenou com a cabeça.

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— Mas se você não deixá-los sozinhos, eu vou contar.

Quatro horas vieram e se foram sem nenhuma palavra de Cole. Cinco horas. Cinco e meia, e eu precisava de algo para fazer, então verifiquei meu e-mail. Não tinha muito. Eu percorri a maioria até que vi um do meu corretor de imóveis. Addison,

estive

em

contato

com

um

advogado

que

representava a família de Liam. Você pode ligar para o meu escritório? Devemos planejar uma reunião. – Heather, Coldwater Realty Services Fiz uma careta. Isso não soava bem, mas talvez sua família quisesse comprar a casa? Talvez eles estivessem chateados que eu estava vendendo-a. Não éramos próximos. A mãe dele nunca nos quis juntos. Por todo o primeiro ano em que namoramos, ela trouxe outra mulher em cada vez que ela encontrava Liam para uma refeição. Eram sempre as mesmas: vinte e poucos anos ou trinta e poucos, solteiras, lindas. Algumas eram colegas de trabalho. Algumas eram filhas de seus amigos. Uma mulher estava no seu clube de caminhada. O pai de Liam não tinha sido muito melhor. No primeiro ano ele mesmo me paquerou. Nos últimos dois anos, ele me ignorou e só falou com Liam em algum encontro. A irmã mais velha de Liam era casada, vivia nos subúrbios e continuava a perguntar quando íamos ter filhos, mas seu interesse nunca pareceu genuíno. Havia um irmão mais novo, também, mas eu nunca o conheci. Ele morava em São Francisco e nunca voltou para casa para visitar, nem uma vez em todo o tempo em que estive com Liam.

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Coloquei o e-mail do meu corretor de imóveis na lista, eu realmente não queria fazer negócios. Seria bom ver Heather, mas qualquer coisa sobre a família de Liam traria de volta minhas defesas e forçaria minhas garras para fora. E eu estava oficialmente distraída por dez minutos. Eu observei o relógio. Seis horas vieram e se foram, e eu tive oficialmente o suficiente. Fui jantar e tomar drinques com Sia e Jake. Apesar do desejo de verificar meu telefone e esforço constante para manter meus pensamentos na conversa, e não em uma determinada pessoa que não tinha ligado ainda, a noite foi semelhante à nossa última vez lá. Bem, exceto que havia muito menos beijos. Acho que Jake e Sia estavam de mãos dadas debaixo da mesa. Eles paravam de falar de repente e compartilhavam um olhar, um daqueles tipos sonhadores, mas, além disso, foi um jantar agradável. No final quando pedimos nossa conta, nenhuma veio. Cada um de nós se revezou perguntando, mas todos nós recebemos a mesma resposta. É por conta da casa. Sia estava bem com isso. Jake não estava. Suas sobrancelhas franziram, e eu podia ver suas rodas girando. Ele queria saber o que estava acontecendo. Uma voz irritante continuava dizendo o nome de Cole no fundo da minha mente, mas isso também não fazia sentido. Cole disse que conhecia o dono do outro restaurante, mas eu me lembrei de como ele havia entrado no Gianni’s com seus amigos. Eles conheciam o lugar pelo jeito que entraram, como se fosse uma segunda casa para eles. Isso também não fazia sentido. Eu tinha acabado de falar do restaurante com ele ontem à noite, e no meu almoço com Sia tinha acontecido a mesma coisa na semana anterior. — Talvez devêssemos parar de ir lá? — Estávamos chegando em casa, mas eu parei. Sia e Jake pararam e olharam para mim. Sia me deu uma expressão vazia. Eu acrescentei: — Quero dizer, até que saibamos por quê. A menos que isso não te incomode.

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Isso me incomodou. Queria saber por que não estávamos recebendo a conta lá. Parecia que devíamos algo a alguém. Eu queria saber o quê, e queria ser aquela a decidir isso, não ser obrigada. Jake não disse nada no início, seus olhos contornaram Sia. — Estou contigo. É estranho. — É comida de graça. Quem rejeita isso? — Sia nos deu um olhar confuso. — Eu digo para irmos lá todos os dias. — E se for um cara assustador que quer seduzir você? — Jake perguntou. Ela encolheu os ombros. — Deixe-o tentar. Nós nunca pedimos comida grátis. Isso é com ele. Eu não gostei, mas eu não tenho um bom argumento contra a comida de graça. Se Sia descobrisse que havia cordas invisíveis, ela seria a primeira a dar o dedo do meio a quem as estivesse segurando. Então ela cortaria essas cordas. Era assim que ela era, mas eu era mais cautelosa. Não com Cole, uma voz me disse. Eu respirei. Essa voz estava certa. Eu era reservada, mas não na última noite. Olhei para o prédio, me perguntando se ele estava lá em algum lugar. Se ele não estava, onde ele estava? Eu não pude evitar. Eu puxei meu telefone para fora, e ele ainda estava em branco. Minha esperança afundou. Talvez eu não devesse ter sido espontânea ontem à noite. Talvez eu devesse voltar a ser a Addison cautelosa e chata? Nada como ir para casa em um apartamento vazio para fazer a transição de volta, e eu virei quando as portas se abriram. Caminhando para dentro, eu esperava encontrar Ken esperando por nós na entrada. Ele não estava. Dorian estava lá em vez disso, e ele nos deu um aceno de cortesia. Fiz uma pausa no meio do caminho. A mesma desaprovação estava lá desde esta manhã – eu vi isso em seus olhos. Seu rosto estava em branco, quase sem emoção. Eu franzi o cenho, sentindo uma preocupação persistente em meu peito. Por que isso me incomoda?

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— Addison? Jake e Sia tinham ido em frente. Eles esperavam por mim no elevador. Algo não parecia certo. Ken sempre estava aqui. Onde estava Ken? Eu entrei no elevador, minha mente girando. — Você quer que eu entre por um tempo? Eu estava mastigando o interior da minha bochecha quando Sia perguntou. Eu olhei para cima, percebendo que eles estavam me esperando sair no meu andar. — Não. Vou para a cama em breve. Vejo você mais tarde. Sia sugeriu almoço na segunda-feira, e eu poderia ter aceitado. Eu não tinha certeza. Eu estava distraída, com um certo alguém aparecendo no fundo da minha mente. Tentei me distrair mais daquele alguém com um livro e um copo de vinho, mas depois de ler a mesma página por uma hora, eu parei. Eu estava me levantando, pronta para ir para a cama, quando meu elevador zumbiu. Cole? Eu revirei os olhos para mim mesma. A esperança que estourou era irritante. Não era como se estivéssemos nos estágios iniciais de um relacionamento, onde era divertido e emocionante e tudo me deixasse sem fôlego. Não era isso, de jeito nenhum. Mas eu não podia ignorar a vibração interior quando eu atravessei a sala e apertei o botão de voz. — Quem é? Eu não verifiquei a câmera porque eu sabia. Tentei dizer a mim mesma que provavelmente era Sia. Ela esqueceu algo. Ela queria me verificar. Ela queria pedir desculpas novamente por ter me esquecido, mas meu corpo sabia. Não havia nada segurando as borboletas no meu estômago. Elas estavam voando ao redor, trabalhando sobre uma tempestade iminente. — Sou eu. Era Cole, e tudo se encaixava dentro de mim. Era como se minha intuição estivesse rindo de mim, eu disse a você. Meu corpo sabia que

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era ele antes mesmo de me levantar do sofá, e agora que eu ouvi a confirmação, meus nervos se acalmaram. Havia um cansaço em sua voz quando ele perguntou: — Posso subir? Apertei o botão permitindo-lhe acesso, já franzindo a testa, já querendo saber o que estava errado. Então fui para o espelho do corredor. Eu parecia ridícula. Eu estava tentando alisar meu cabelo para trás quando os sons do elevador soaram. Ele estava vindo de cima, não subindo. Então as portas se abriram e as perguntas se evaporaram ao vê-lo. Olheiras estavam sob seus olhos. Manchas escuras cobriam seu rosto como se ele tivesse passado a mão sobre elas e deixado trilhas de sujeira. Seu suéter preto me lembrou da primeira vez em que o vi na pista de corrida, e ele usava calças atléticas pretas. Ambos moldaram sua estrutura nos lugares certos, esboçando sua musculatura, mas eu não conseguia desviar o olhar da expressão dolorida em seus olhos. — O que aconteceu? Ele balançou a cabeça, entrando. Ele não respondeu, apenas me puxou para ele e descansou sua testa entre meu pescoço e ombro. Fiquei de pé por um segundo, apenas segurando-o. Ficamos muito tempo depois que as portas do elevador se fecharam novamente. Eu esperei, sem saber o que dizer, mas eu sabia que esse abraço era para conforto, nada mais. Ele precisava de mim da maneira mais verdadeira; ele precisava de uma amiga. Senti cheiro de fumaça e de um leve suor, como se estivesse correndo antes de chegar aqui. Não eram cheiros esmagadores, apenas agarrados a ele de uma maneira agradável. Depois de mais alguns segundos, eu me afastei. Seu olhar estava encapuzado. Descansei uma mão ao lado de seu rosto. — O que aconteceu com você? Ele balançou a cabeça, afastando-se completamente. — Eu não posso te dizer. Lá estava novamente.

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— Claro. Ele me lançou um olhar, mas não disse nada. Virei para a cozinha. — Quer uma bebida? — Meu Deus, sim. Eu podia ouvir como ele estava cansado, e uma parte de mim doía por ele. — Tequila? Rum? Algo mais forte? Ele foi para o sofá, deitando a cabeça no encosto. Ele rolou para me olhar. — Uísque? Meu coração pulou por um breve momento, e eu tive que fazer uma pausa. Senti-me bem em tê-lo lá, sentado no meu sofá, esperando por mim. Peguei a garrafa mais próxima, e minhas mãos agarraram-na com força, como se eu precisasse de algo para me segurar. Isso não deveria estar acontecendo, a sensação de estar em casa, como se um pedaço do quebra-cabeça tivesse sido posto no lugar para completar o quadro. Senti formar uma protuberância no fundo da minha garganta, mas perguntei em torno dela, minha voz rouca: — Você quer algo que irá queimar esta noite, certo? — É melhor do que o que estou sentindo agora. Em vez de um copo, puxei dois, e empurrei meu vinho de lado. O que quer que tivesse acontecido, era pesado. Aproximei-me e sentei no sofá ao lado dele, a garrafa e dois copos na mão. — Obrigado. — Sua voz era suave. Sentei-me, ele tirou a garrafa e os copos de mim, colocando-os na mesa de centro. Ele serviu para nós dois. O líquido cobria o terço inferior do vidro, e depois de um bom cheiro, ele queimou direto em meu nariz. — Você está certo. Isso vai ser doloroso. Ele me deu um sorriso de lado. — Eu sei por que estou bebendo. Por que você está? — Você não é o único com fantasmas. Eu não esperei por sua reação. Fechei os olhos e atirei a dose para trás, sibilando quando senti a queimação na garganta. Droga. Eu queria outra. Estendi o copo. Cole pegou, sua risada suave me cobriu enquanto derramava outra dose.

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Ele derrubou a dele, então se inclinou para beber o copo seguinte. Ele não teve reação quando bebeu. Nada. Eu o observei, mas o enjoo em seus olhos nunca apareceu. Ele não estremeceu. Poderia ter sido água. — Desculpe por não ter ligado antes, mas as coisas escaparam de mim, e... — Ele hesitou antes de dizer: — Eu perdi um amigo hoje. É onde eu estava, cuidando de... — Outra hesitação. — Coisas para ele. Ele queria dizer mais. Eu podia sentir, mas ele não podia. Sentei ao lado dele, meus joelhos pararam, e eu apertei meu copo na minha frente. — Um amigo próximo? — Foi por isso que Ken foi embora do escritório? Ele também conhecia essa pessoa? Foi por isso que Dorian estava infeliz nas duas vezes em que eu o vi? Ele assentiu. — Eu sinto muito. — Não, eu sinto muito. — Ele terminou o resto de sua segunda bebida, estremecendo ligeiramente. — É difícil não dizer nada para você. O que eu faço… Eu esperei. Eu estava esperando desde que o vi pela primeira vez. — O que eu faço é perigoso. É por isso que eu não posso te dizer, pelo menos não ainda. Eu sei que não é justo. — Ele acenou ao redor da minha sala de estar. — Eu apareço aqui, e você deveria me confortar sem saber de nada? É injusto da minha parte, mas eu não queria ir a lugar algum. Isso parecia certo. — Ele olhou para cima, seus olhos planos em mim. — Vir até você parecia certo. Eu não podia olhar para longe dele, nem queria. Eu segurava o copo em minha mão, e disse a única coisa que eu estava pensando naquele momento. — Estou feliz que você veio. — Obrigado. — Sua mão descansou na minha perna. Sua mão serpenteou através de minhas finas calças de seda. Eu tinha trocado para algo macio e confortável quando eu voltei. Eu estava ciente de quão fino o pano era, e que eu estava usando apenas uma regata, solta, mas mostrando muito. Eu não estava autoconsciente, mas meu corpo já estava ansiando por ele. Não era uma chama viva, como

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ontem à noite, mas uma grelha lenta. Estava lá. Estava esquentando, mas era confinável. Olhei para o meu copo. — Você está aqui. Você está machucado, e normalmente eu perguntaria o que aconteceu, e você me diria. Poderíamos seguir a partir daí, mas esse não é o caso. E eu estou... estou sem saber o que dizer. Ele limpou a garganta. — Você mencionou um marido? Eu olhei de volta. Seus olhos brilhavam com o luar atrás de mim. O resto do rosto estava sombreado. — Liam. Sim. Ele morreu. — Eu sinto muito. — Sinto muito pelo seu amigo. Outro momento de silêncio. Cole começou a correr um dedo para cima e para baixo da minha perna, movendo-se sobre a minha coxa. — Ele era leal. Eu tive pessoas, pessoas que deveriam ser leais a mim, e tramaram contra mim. Ele era um dos bons. — Você o conhecia há muito tempo? Seu olhar estava em mim, pesando antes que ele respondesse. — Acho que sim. Eu o conheci quando era mais novo. Então eu fui embora e não encontrei ninguém da minha vida antiga. Isso mudou há um ano. Ele está ao meu lado desde então. — Dorian era próximo a ele? Cole assentiu. — Ken também o conhecia. Eu sorri. — Eu pensei que eu era a única a chamá-lo de Ken. Cole sorriu. — Algumas pessoas o chamam de Kenny. — Ele não estava lá embaixo esta noite. — Ele estava comigo. Eu estava contando a ele sobre... — Cole hesitou. — Sobre nosso amigo. Então ele conhecia Dorian e Ken, embora isso não fosse novidade para mim. Foi apenas uma confirmação. Se Cole ou Dorian moravam lá em cima, eles estavam ligados ao proprietário deste edifício. Havia tantos segredos em torno dele. Eu não queria me tornar um deles, mas quando

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ele olhou para longe e eu estudei seu perfil, eu tinha a sensação de que eu já era. Estendi a mão e peguei a sua, unindo nossos dedos. — Eu costumava sentar e segurar a mão de Liam assim. Cole olhou para nossas mãos, mas ele não disse nada. O ar era tão denso. Eu estava prestes a deixá-lo ainda mais pesado. — Eu sei que você não pode dizer nada, mas talvez eu possa? Eu posso te contar sobre mim, e algum dia você vai me contar sobre você? Senti seu olhar em mim, mas não olhei. Não ousei, ou perderia a coragem. Falar sobre Liam era bastante difícil, mas dizer para Cole, me fez sentir gelo se mover através de minhas veias. Eu me forcei a falar, sabendo que era bom colocar um pouco de tudo isso para fora, mesmo que só para mim. — Minha família mora longe, então quando Liam e eu nos mudamos para cá, ele se tornou minha família. Ele não se dava bem com o resto da sua família. Sua mãe não gostava de mim, e seu pai era apenas... ausente. Acho que é a melhor maneira de descrevê-lo. Sua irmã o odiava, e ele tinha outro irmão que eu nunca conheci. Ele nunca voltou para casa, nem mesmo para o funeral de Liam. Eu não sei o que estou realmente dizendo aqui, mas quando Liam morreu, eu também morri. Ou me sentia assim. Sia tem sido maravilhosa para mim, mas agora, ela está quatro andares acima com seu novo namorado, e eu realmente sinto que ele pode ser o único para ela. — O que eu estava dizendo? Eu estava divagando. Cole apertou meus dedos levemente. Senti-me encorajada por aquela pequena pressão. — Eu acho que estou apenas dizendo que você pode confiar em mim, mesmo que isso... — gesticulei entre nós. — Seja algo que eu não tenho como entender agora. E eu não estou tentando pressioná-lo. Eu só quero dizer... — Eu parei de falar, sentindo meus olhos bem focados enquanto eu olhava para nossas mãos ligadas. — Eu sou uma bagunça. Eu não quis deixar as coisas estranhas entre nós. Isso é estúpido. Eu estava apenas tentando dizer que eu gostaria que pudéssemos segurar as mãos. Foi isso...

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— Addison — murmurou ele. — O quê? — Eu olhei para cima. — Cala a boca. — Então sua boca estava na minha, e ele me levantou para o seu colo. Eu queria morrer de novo, mas por outra razão.

Acordei com a sensação de beijos no meu pescoço. Não havia pensamento. Abri meus olhos, vi Cole, e rolei para minhas costas. Nós não falamos enquanto ele se movia, então ele estava acima de mim. Descansei meus braços sobre seus ombros, rolando minhas mãos, e fechei meus olhos, apenas apreciando a sensação dele. Não demorou muito para que ele pegasse um preservativo e deslizasse dentro de mim. Era assim que todas as manhãs deviam ser: acordar com Cole dentro de mim. Quando ele se mexeu e deslizou para fora, mais e mais, arqueei minhas costas. Ondas de prazer rolavam através de mim. Sua mão deslizou para baixo da minha caixa torácica para cobrir meu quadril, e ele o usou como uma âncora para ir mais fundo. Esse homem, que eu conhecia pouco a pouco, conhecia meu corpo de uma maneira que só Liam tinha feito. Isso deveria ter me alarmado – acordar com ele na minha cama deveria ter me alarmado – mas fez o contrário. Eu me senti segura e protegida. E quando senti que ele estava gozando, eu não queria que isso terminasse. Depois, quando nós dois trememos, ele soprou em meu ouvido. — Você é ruim para minha ética de trabalho. — Uma risada baixa soou. — O que você quer dizer? Ele se pôs deitado de lado, de frente para mim. Ele traçou um dedo no meu lado, deixando formigamento em seu rastro. — Tenho que sair da cidade por causa da morte de Robbie. O funeral será em outro lugar, e eu tenho... — Mais uma vez com a hesitação. — ... Há assuntos a tratar.

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Tenho que ir embora por um tempo. — Seus olhos se ergueram sobre mim, e ele gemeu e enterrou seu rosto no meu pescoço. — Eu não quero ir. Deslizei uma mão por suas costas nuas, apreciando a sensação de seus músculos. — Mas você tem que ir. Ele assentiu. — Eu tenho que ir. Ele falou aquelas palavras contra a minha pele. Senti outra corrida passar por mim. — Sinto muito por você, — eu disse a ele. Ele se afastou, olhando para mim. Seus olhos se nublaram. Puxei minha mão contra meu peito. — Eu quero dizer o funeral. Você vai ter que passar por tudo isso. — Lembrei de Liam. — Confie em mim, vai ser uma merda. A nuvem desapareceu. Uma nova emoção espreitava lá – uma que eu não podia nomear. — Funerais sempre são uma merda, — ele disse, quase rudemente. Ele rolou em um movimento suave para sentar na borda da cama. Sentei com ele, puxando o lençol para cobrir meus seios. Ele olhou por cima do ombro. — Tenho andado por muitos deles. E você? — O de Liam. Os cantos de sua boca se voltaram para baixo. — Ei, eu não disse isso ontem à noite, mas obrigado por me contar um pouco sobre ele. Seu marido. Minha garganta inchou. — Sim. — Perdi minha família quando era pequeno. Eu levantei minha cabeça. — Eu sei como é perder sua família. — Sua mão cobriu a minha na cama entre nós. — Eu sou um idiota, entrando, dormindo com você, e não dizendo muito sobre mim. Eu ri. — Confie em mim, eu me perguntei mais do que algumas vezes o que diabos estamos fazendo. Mas você voltou. — Eu apertei o lençol e encolhi os ombros. — E aqui estamos nós. Novamente. — Você está bem com isso?

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— Eu... É o que é. — O que isso significa? — Vá para o seu funeral. — Eu me movi para frente e pressionei um beijo suave na parte de trás de seu ombro. — Enterre seu amigo e volte para mim. Talvez possamos descobrir mais então. — Gosto dessa ideia. — Seus olhos escureceram quando eu me afastei. Outra vez, outro dia, e estaríamos deitados de novo naquela cama – quando ele não precisasse enterrar um ente querido. Cole vestiu-se e eu fiquei na cama, satisfeita por apenas ouvi-lo se movimentar. Fechei os olhos em um ponto. Foi bom ouvir outra pessoa em minha casa, que eu sabia que estava viva. Eu não tinha percebido como o vazio tinha me incomodado, mas não era por isso que eu tinha permitido Cole na minha cama. Por que eu estava fazendo isso, eu não estava pensando. Ele veio, e eu queria isso. Toda vez. Eu sabia que eu estaria esperando pela próxima vez que ele tocasse meu elevador. Eu o deixava em paz, e não importava se ele me dava respostas ou não. Talvez eu fosse uma tola, ou talvez estivesse em um lugar da minha vida onde eu não precisava me importar. Eu estava pronta para apenas ser. Eu pensaria mais tarde. Eu me preocuparia mais tarde. Agora mesmo, eu apenas sentiria. Ele voltou para deixar um beijo persistente em meus lábios e outro na minha testa antes de partir. — Eu tenho o seu número, — disse ele enquanto se afastava. — Envio uma mensagem para você no avião. Um momento depois, ouvi o elevador subir.

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CAPÍTULO TREZE Passaram-se duas semanas. Foi divertido no início. Nós enviamos mensagens um ao outro. Ele enviou uma foto de um assento de avião – outro bocado que ele deixou escapar. Eu não era uma viajante do mundo, mas estive dentro de aviões vezes o suficiente para reconhecer um avião particular quando via um. As mensagens de flerte começaram: O que eu estava vestindo? Quão apertado estava seu terno? Quão solitárias eram minhas noites? Eu correspondi, perguntando se ele tinha encontrado uma nova “amiga” para me substituir. Eu achei que a mensagem era para provocar, mas assim que eu bati em enviar, percebi que falei sério. Cole era lindo. Ele poderia ter filas de mulheres para escolher. Por que ele me escolheu? A questão me atormentava, e imediatamente ouvi o grito de Sia em minha mente. Se ela tivesse ouvido minha pergunta, ela teria me corrigido. Ele não me escolheu. Ele teve sorte comigo. Os homens não eram os caçadores em sua vida. Eles eram a presa. Eu também senti uma punhalada de culpa que eu ainda estava mantendo meu envolvimento com Cole em segredo dela. Eu não estava pronta para dizer nada, no entanto. Além disso, tinha sido duas noites. Isso não constituía algo para falar ainda. Ela teria tido perguntas. Quem era ele? O que ele faz? Quão sério nós estamos? O que eu estava sentindo sobre o relacionamento?

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Todas perguntas sólidas, mas sem respostas sólidas. Eu não poderia responder a nenhuma delas, especialmente aquela sobre como eu estava me sentindo sobre o que quer que fosse entre Cole e eu. Eu não fazia ideia. Eu gostava dele. Fiquei animada com ele. Ele me fez sentir viva. Ele colocou o meu sangue em um ferver constante, onde poderia flamejar e ferver a qualquer momento. Como nossas duas noites foram. Eu me sentia viva, mas estava começando a querer me afastar. Ele era como uma droga. Uma vez e eu estava viciada, ou perto disso. Talvez algumas vezes? Quem eu estava tentando enganar? Eu estava completamente viciada e passando por desintoxicação, mas era uma desintoxicação que eu não tinha assinado para participar. Quando ele voltaria? Esse pensamento passou pela minha cabeça algumas vezes por dia, e toda vez que isso acontecia, eu me sentia tola. Eu era uma mulher madura. Eu não era uma jovem de vinte e poucos anos. Ou uma adolescente. Duas noites juntos não deviam fazer com que eu sentisse esse desejo por ele, ou me fazer repetir como me sentia quando ele saiu do meu elevador e se segurou em mim, ou como era segurar as mãos dele no sofá. Mas fez. E cada vez que eu pensava nessas coisas, o meu nível de falta dele subia um pouco. Sia estava feliz com Jake, e eu estava agradecida. Isso manteve sua distração o suficiente para não se preocupar muito comigo ou até mesmo se concentrar em mim quando saímos juntas para o almoço ou bebidas algumas vezes por semana. Cole parecia sentir que eu não estava brincando inteiramente com aquela mensagem, e suas mensagens ficaram mais sérias depois disso: Nunca. Quero voltar assim que puder. O negócio está ficando no caminho. O resto de suas mensagens era semelhante. Ele realmente parecia querer saber como eu estava, se eu dormi bem à noite. Ele enviou uma vez a mensagem, Dorian disse que você estava andando na pista na noite passada. Você está bem?

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Ele estava perguntando sobre mim. Um calor se espalhou por mim, formigando todo o caminho atĂŠ meus dedos do pĂŠ. Eu imediatamente queria sacudir isso e rolar meus olhos, mas eu nĂŁo podia. Em vez disso, eu respondi: Minha cama parece vazia agora. Culpa sua. Mais alguns dias. Eu vou compensar vocĂŞ. đ&#x;˜‰. Os poucos dias se transformaram em mais duas semanas. As mensagens ficaram aleatĂłrias e mais demoradas. Era o que era. A

desintoxicação

estava

em

pleno

efeito.

Depois

de

nenhuma

comunicação na quinta semana em que ele tinha ido embora, era hora de eu lidar com alguns dos meus sentimentos. Eu não ia sair com ninguÊm. Eu não estava indo ao encontro de Cole, mas eu não ia mais esperar por suas mensagens. Fui ver meu corretor de imóveis um dia. Eståvamos em seu escritório, e eu não estava pensando em Cole. Não. — Addison. Estava pensando em Cole. Amaldiçoando-me, me voltei para a voz de Heather. Ela não tinha vindo sozinha para a sala de conferências. Três homens a seguiram. Fiquei de pÊ e consegui dar um meio sorriso. — Olå. O primeiro homem me olhou, um sorriso enrugado em seu rosto bronzeado. Seu cabelo era escuro, estranhamente escuro. Ele parecia estar em seus cinquenta anos, e ele era alto, provavelmente perto de um e oitenta. O estômago estendia-se sob a jaqueta. Os outros dois, ambos de cenhos franzidos, entraram atrås dele. Eles ignoraram minha mão estendida e reivindicaram seus assentos, deixando o assento diante de mim aberto. Colocaram suas pastas sobre a mesa. — Senhora Sailer. — O primeiro finalmente apertou minha mão, dando-lhe um aperto firme. — Eu sou Alfred Mahler. Sou da Mahler e Associados. Estou representando seus sogros, Sr. e Sra. Sailer. É um prazer conhecê-la. — Ele olhou ao redor da sala. — Heather, eu pensei que a Sra. Sailer teria representação legal com ela?

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Heather era uma mulher pequena, mas ela tinha sido uma força quando vendeu a casa para Liam e eu. Ela sentou-se na cabeceira da mesa. — Nós não estávamos cientes de que advogados seriam necessários. — Ela adotou a mesma carranca que os outros dois. — Você disse que Carol e Hank queriam essa reunião. — Sim. — Seu sorriso ainda estava lá, mas seus olhos eram desdenhosos. — Eles queriam esta reunião, e estamos representando-os. — Eu não entendo por que estamos aqui. Você foi vago no telefone. — Heather cruzou as mãos, descansando sobre a mesa. — O que é que você veio aqui dizer? Alfred Mahler não respondeu, não imediatamente. Ele tomou seu tempo antes de sinalizar para seus colegas. O mais distante abriu a pasta e tirou alguns papéis. Entregou-os ao segundo advogado, que entregouos ao Sr. Alfred Mahler. Mas não, isso não estava certo. O Sr. Mahler pigarreou e bateu na mesa. Os papéis foram colocados lá e depois deslizou até que eles estavam bem na frente dele. Eu olhei para longe para evitar rolar os olhos. Heather disse em voz baixa: — Isto é ridículo. — O que foi isso? — Perguntou Mahler. — Nada. — Sua voz ficou mais clara. — Estou supondo que esses papéis são para Addison? — Sim. — Ele se inclinou para frente, o dedo ainda descansando nos papéis. — Eles são para a Sra. Sailer. Heather olhou para mim. — Você se importa? — Ela indicou os papéis. Dei de ombros. Ela puxou-os para fora do dedo do advogado e começou a ler. Quanto mais ela lia, mais fundo ficava seu cenho. Na terceira página, eu estava preocupada. Ela olhou para o outro lado. — O que é isso?

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— Eles estão processando você pela casa. — Ela olhou para ele, seu pescoço já vermelho e a cor espalhando por seu rosto. — Você não tem base. Ela era esposa dele. — O quê? — Eu... o quê?! — Sim, presumimos que diria isso, mas o nome dela não está no título e meus clientes sentem que seu dinheiro foi usado para comprar a casa. — O Sr. Mahler levantou-se. Os outros dois se puseram de pé com ele. — Esta reunião foi mais uma formalidade. Queríamos ter certeza de que você estaria ciente desses papéis, e na próxima vez que nos encontrarmos, traga representação legal. — Ele se virou em direção à porta. Eles saíram, um após o outro. — Por que eu estou com vontade de jogar um apagador nele? — Eu perguntei, olhando furiosamente para a forma de Mahler se afastando. — Porque ele é um idiota pomposo. — Heather suspirou. — Addison, oh meu Deus. De quem era o dinheiro que você usou para comprar sua casa? Liam, mas... Peguei os papéis dela e comecei a ler. Quanto mais eu lia, mais meu estômago afundava. O dinheiro tinha vindo de Liam, mas era a minha casa. Tinha sido a nossa casa. Nosso Lar. Era minha a escolha do que acontecia com ela agora. Não podiam tirar a casa de mim. — Eu sou a esposa dele, no entanto. Pensei que importava. — Sim. Isso é uma besteira completa. — Heather ergueu as mãos no ar. — Com os advogados e os tribunais... — Suas mãos caíram para a mesa. — Quem sabe o que eles podem fazer. Liam não te colocou no título. Ele disse que ia adicionar você mais tarde, mas ele nunca fez. Você sabe por que ele fez isso? — Porra. — Eu não tinha ideia. Uma dor de cabeça estava se formando. Pressionei minhas têmporas, mas sabia que não ia desaparecer. — Ele tinha um novo emprego. Estava ocupado. E eu não pensei nisso. Quero dizer, quem poderia pensar nisso? Liam tinha o dinheiro. Ele disse que tinha economizado o suficiente. Nós a pagamos completamente. Sem hipoteca nem nada. Eu nem sabia de seu dinheiro

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até o funeral, mas quero dizer: — O que devo fazer? — O que eu posso fazer? Heather se aproximou, com um olhar duro nos olhos. — Você tem um advogado. Você conhece algum? — Eu... — Eu conhecia — Meu vizinho é advogado. Esqueci disso por um momento. — Ele se especializou em direito de propriedade? Aquele bom sentimento de alívio que eu tive, tinha acabado de desaparecer. Eu caí de volta na minha cadeira. — Eu não faço ideia.

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CAPÍTULO QUATORZE Jake me recebeu no elevador naquela noite com um olhar de surpresa. — Ei, Addison. — Ele ainda usava um terno de trabalho. Uma xícara de café começara a encher atrás dele. — Sia não está aqui, se é quem você está procurando? — Não. — Eu balancei a cabeça. — Eu estou procurando por você. Talvez precise de ajuda legal com algumas coisas. Seus olhos se iluminaram. — Bem, nesse caso, você veio ao lugar certo. Entre. — Ele gesticulou para a sala de estar. — Você bebe café – não. Você não bebe, mas Sia bebe. Está certo. Ela me disse que você não é uma grande bebedora de café. As portas do elevador se fecharam, e eu esperei no sofá enquanto ele se organizava. Ele pendurou o paletó em uma cadeira próxima e se sentou diante de mim. — Ok. O que você tem para mim? Tirei os papéis. — Foi-me dado algumas horas atrás. — Sim? — Ele pegou e folheou. Eu odiava isso. Eu odiava que a família de Liam tivesse me colocado nesta posição. Eu olhei ao redor. Este era o meu vizinho. Eu não deveria ser uma cliente, não desse jeito. Apertei minhas mãos. Esta era a pior parte. A espera.

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— Ok. — Ele terminou de ler e colocou-os sobre a mesa. — Hum, bem, primeiro, como você está? — O quê? — Como você está? — Eu estou... — Eu inclinei minha cabeça para o lado. — O que você quer dizer? Seus olhos foram para o chão, então subiram quando ele limpou sua garganta. — Sia me falou sobre você e Liam, o quanto você realmente o amava, e são seus sogros fazendo isso. Então, eu pensei, como você está? Não estou perguntando como seu advogado, mas como seu vizinho e o cara apaixonado por sua melhor amiga. — Apaixonado, hein? — Eu me sentei de volta. — Sim. Eu a amo. Eu não disse a ela, mas isso não tem a ver com isso. — Ele bateu nos papéis. — Como você está se sentindo sobre os pais de Liam fazendo isso? — Estou furiosa. — Minha voz era monótona. — Ok. Sim. — Ele tossiu em sua mão. — Percebi. Minha empresa trabalha no direito de propriedade. Você pagou por sua casa integralmente? Eu balancei a cabeça. — Em dinheiro. — E quem pagou por isso? Foi você e Liam? Foi principalmente apenas Liam? — Foi Liam. — Eu deslizei minhas mãos sob minhas pernas. Começaram a tremer. — Eu paguei pelo seguro, e ajudei com os móveis, mas foi dinheiro dele na maior parte. — Eu tive que engolir um nó na garganta. — Era todo o dinheiro dele. — Ok. — Seus olhos se afastaram de mim para os papéis, depois para o chão. — Seu nome não está no título, mas você é a esposa. Eles não têm um caso. No entanto, se você quisesse fazer isso ir mais rápido, você poderia mostrar-lhes uma cópia de suas contas – onde mostra que era o dinheiro de Liam, e não o dinheiro colocado em sua conta por seus sogros. Isso seria suficiente para fazer isso desaparecer completamente,

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mas você não tem que fazer isso. Como seu advogado, eu não aconselho você a mostrar seus extratos bancários por qualquer motivo. — E como amigo? — Se você quiser terminar logo isso para que seus sogros não fodam com você, eu apenas mostraria a eles a prova. Eles terão que desistir então. Eu queria que eles desistissem. Eu queria desistir. Eu balancei a cabeça. — Eu posso fazer isso. Liam conseguiu sua herança quando ele completou trinta anos. Então esse dinheiro estava lá antes. — E foi assim que ele pagou pela casa? Eu balancei a cabeça. — Eu não sabia disso na época, mas sim. Ele conseguiu vinte milhões de dólares da propriedade de sua avó. Eu descobri sobre isso no funeral. Carol, a mãe dele, me disse. Os advogados vieram mais tarde com toda a papelada. — Ok. Eram advogados deles ou de Liam? Tentei me lembrar. — Eles eram advogados. Não sei se eram de Liam ou de seus pais. — Eles deveriam ser de Liam, mas às vezes os membros da família usam a mesma empresa. Liam se dava bem com sua família? — Não. — Esta conversa estava me abrindo. — Ele e seu irmão mais novo não se davam bem com seus pais. Há uma irmã, e ela se dava, mas Liam também não se dava bem com ela. Quero dizer, Liam almoçava com ela às vezes até que ela começou a tentar apresentá-lo a outras mulheres. Ela não gostava de mim. — Minha voz soou tão estranha agora, como se fosse outra pessoa falando. — Lembra-se de quem veio com os documentos de herança? — Não. — Eu balancei a cabeça. — Então tudo bem. Acho que se você puder se lembrar do nome da empresa em que Liam trabalhava, vou colocar minha empresa para procurá-los. Ajudaria porque nós não os queremos processando-a novamente pela validez da herança. Vamos nos certificar de que tudo está em ordem. Isso não deve ser um problema. Eu nem sei como poderia ser, para ser honesto. As pessoas podem processar por qualquer coisa nos

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dias de hoje. A maioria das reivindicações são besteiras, mas se você não quiser prolongar isso... — Não. Eu sei. Farei isso. — Eu concordei, e foi isso. Fizemos planos para a nossa próxima reunião, que seria realizada em seu próprio local de negócios. Eu estava prestes a ir para o elevador quando ele perguntou: — E Sia? — O que você quer dizer? — Tecnicamente essa é uma informação confidencial com privilégio advogado-cliente, então você me diz. Eu não tenho que dizer uma palavra a ela, se você não quiser que eu faça. — Oh. — Eu pisquei. Sia detestava Carol. — Talvez não, por enquanto. Eu não quero ser processada pela morte da minha ex-sogra. Sia tende a procurar forcados sempre que fala sobre Carol. Jake riu. — Isso soa como Sia. Ok. Eu acho que nós estamos combinados então. Te vejo daqui a alguns dias. Meu escritório vai ligar para você amanhã. — Obrigada, Jake. — Sem problema. Vamos cuidar de você. Aquelas palavras “cuidar de você.” Apertei o botão do meu piso e me inclinei para trás. Fazia muito tempo que não ouvia palavras assim. Quando o elevador parou, eu estava esperando para abrir no meu andar, mas eu olhei para cima e percebi que estava no lobby em vez disso, e Ken estava à minha frente. Suas mãos estavam dobradas na frente dele, e sua cabeça estava ligeiramente curvada. Ele limpou a garganta. — Houve um pedido de nosso conhecido mútuo. Ele gostaria que você arrumasse uma mala de viagem e sua documentação. Há um carro esperando por você lá fora. — O quê? — Você será levada para o aeroporto. Sr. Cole é incapaz de vir aqui, então ele gostaria de levar você até ele em vez disso.

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CAPÍTULO QUINZE O carro me levou para o aeroporto, me deixou na seção de aviões particulares, e saiu do hangar. Um cara parecido com Ken esperava por mim – cabelos grisalhos parecidos, as mãos cruzadas em frente ao seu terno azul escuro, bons olhos aquecidos enquanto ele assentia com um pequeno sorriso para mim. Ele estendeu a mão, apontando para um conjunto de escadas que levavam a um avião particular. — Senhorita Bowman, imagino? Assenti, ainda aturdida com o que Ken tinha dito. — Uh, sim. — O avião está preparado e pronto. Você vai aterrissar no JFK em breve, e outro carro estará esperando por você lá. — Ele se curvou, apenas brevemente. — Tenha uma viagem maravilhosa. — Uh. — Eu ainda estava atordoada. — Obrigada. Ele não me disse seu nome, mas pegou minha bolsa pequena e levou-a para uma comissária de bordo esperando no final da escada. Eu segui atrás dele, e quando a atendente pegou a bolsa, ele me deu outro aceno profissional. — Tenha um voo seguro, Srta. Bowman. Então ele desapareceu dentro do hangar. A atendente esperou, com um sorriso semelhante em seu rosto. Ela indicou para eu ir em frente, e quando eu fiz, ela colocou minha bolsa em um compartimento.

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— Você gostaria de algo em particular para beber ou comer antes de decolar? — Ela perguntou. Eu balancei a cabeça. Isso era tudo... Eu olhei ao redor. Avião particular. Quer dizer, eu sabia que Cole estava em um avião particular, mas eu não sabia que era dele, e este deve ser. Talvez ele tenha fretado? Por alguma razão, isso ajudou a acalmar meus nervos. Isso fazia sentido. Ainda assim, quando chegamos ao JFK e eu entrei no carro esperando, eu não perguntei ao atendente ou ao motorista. Uma parte de mim não queria saber. O que esses detalhes indicariam sobre Cole? Ele parecia muito jovem para ter tudo isso, mas, novamente, talvez fosse isso que ele pensava sobre mim? Eu não estava trabalhando, e eu poderia me dar ao luxo de viver no Mauricio. Era óbvio que eu tinha dinheiro, mas ele nunca me questionou. E por que eu estava me perguntando sobre isso? Eu estava nervosa. Meus pensamentos ricochetearam, e quando o carro entrou na cidade, cruzei meus braços sobre o peito. Respirando profundamente. Talvez por um segundo. Eu queria acalmar os nós lá dentro, soltá-los. Quando o carro parou e o motorista abriu minha porta, eu saí e estiquei meu pescoço. Nós estávamos do lado de fora de um edifício semelhante ao Mauricio todo prateado e feito de vidro puro. Este era muito maior do que aquele que eu vivia, e parecia mais amistoso. Ao contrário da porta do Mauricio, que era pequena e quase monótona de propósito para ajudar no fator exclusividade, esta era uma porta circundante de vidro. Um porteiro aproximou-se com o mesmo aceno de cortesia e sorriso dos outros. — Senhorita Bowman. — Ele pegou a bolsa que o motorista lhe ofereceu e gesticulou em direção às portas. — Vou lhe mostrar o seu quarto. Eu não sabia o que esperar, mas quando entramos, eu ainda estava surpresa. Era um hotel. Uma mesa, um trabalhador atrás dela e uma pequena fonte no meio. Era isso. As paredes eram escuras com guarnição

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vermelha, e o assoalho era de mármore escuro. Dava uma sensação ostentosa que se misturava com o anonimato. O porteiro passou da recepção e me levou para virar a esquina até o elevador. Ele andou comigo, pressionando o botão superior no painel, e eu tive um déjà vu. Cole costumava vir de um andar superior no Mauricio; parecia conveniente que ele tivesse o último andar aqui. — Senhorita. As portas se abriram e o porteiro segurou com um braço, esperando que eu fosse primeiro. Eu saí, e ele caminhou atrás de mim, desaparecendo em um quarto. Um segundo depois, ele voltou e apertou o botão para o elevador novamente. Este se abriu, ele acenou com a cabeça para mim uma última vez, e foi embora. Virando, eu encontrei a suíte imensa e impressionante. A sala de estar era um passo à frente no meio do quarto. A cozinha era algo que eu tinha visto em uma revista, e havia uma varanda. Ela ia do comprimento da cozinha, passando pela sala de estar e envolvendo todo o caminho. Eu sequer tinha olhado os quartos. Eu tinha acabado de chegar, e me dirigia para o corredor pequeno, quando o telefone tocou. Eu o peguei. — Olá? — Senhorita Bowman? — É ela. — Aqui é Thomas da recepção. Estou ligando para saber se o quarto está bom? — Ah, sim. — Há algo que você gostaria de ter levado a você? — Não. Obrigada mesmo assim. Eu estava prestes a desligar quando ouvi: — Mais uma coisa, Srta. Bowman. Eu fiz uma careta. — Sim? — Tenho uma mensagem para passar do Sr. Cole. Eu me endireitei. — Ele pede desculpas por não estar no momento. Ele está atualmente em uma reunião e está incapaz de fugir. Se quiser, há um

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vestido no quarto principal. Sr. Cole chegará em breve e se pergunta se poderia encontrá-lo em um camarote privado no The Octavia. Temos funcionários que a acompanharão até que ele chegue, se você quiser alguma direção e orientação adicional. — Oh. — Isso era muito Uma Linda Mulher, mas eu dei de ombros. — Certo. Quando eu tenho que estar pronta? — Trinta minutos. — Isso saiu em uma voz chata, e ele desligou logo depois. Então, nada de Uma Linda Mulher. O cara soou irritado comigo. Revirei os olhos, mas fui para o quarto principal. O vestido me impediu de seguir em frente. Era branco, com uma cobertura translúcida. Eu o ergui, e parecia algo que uma deusa grega usaria. Eu só poderia imaginar ter o meu cabelo em tranças e uma leve camada de glitter na maquiagem. Suprimi um arrepio – não um ruim, apenas um que não me parecia bem. Isso acontecia com Sia. Esta era uma história que ela teria me dito depois de conhecer um novo namorado. Essas coisas não aconteciam comigo. Eu deitei o vestido e sentei. Eu... eu nem sabia o que pensar sobre tudo isso. Quem é Cole? Suspirei e recuei quando ouvi outro telefone tocando. Desta vez era meu, e eu procurei na minha bolsa, que tinha sido colocada na cama ao lado do vestido. O nome de Cole estava aparecendo na tela quando olhei. — Ei. — Ei, você está no hotel? — Ele parou por um segundo. — Ken lhe contou sobre vir para Nova York, certo? Ainda está em Chicago? — Não. Estou aqui. Em Nova York. — Eu ri. Era bom ouvir o pequeno medo em sua voz. Estendi a mão, dedilhando o vestido. O tecido era tão macio. Eu sabia que nunca tinha usado algo tão extravagante. — Cole. — Hmm? — O que é isso? Tudo isso? — Eu olhei ao redor do quarto do hotel. — Você está tentando me deslumbrar ou algo assim? — Ele não

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precisava. Eu o vi nu. O que era deslumbramento suficiente. — Isso é demais. — Espera. Do que você está falando? — O avião particular. O vestido. Que clube é o Octavia? Ele gemeu. — Ok, sinto muito. O avião particular era porque se você concordasse, eu só queria que você viesse o mais rápido possível. Isso era eu sendo egoísta. Eu estive em reuniões de negócios durante o dia todo, e eu só tenho esta noite livre. Eu só queria ver você. — Você não escolheu o vestido? — Não. Eu pedi a um dos meus funcionários para lidar com os detalhes. Eu não tinha ideia de que ele escolheria um vestido para você. — Um cara pegou isso então? — Eu não sabia o que era pior, pensar que Cole tinha escolhido ou saber que outro homem escolheu. Outro homem, definitivamente, o outro homem. Se Cole tivesse escolhido isso... de novo, aquele bom tipo de arrepio aconteceu. — Você não viu o vestido? Sua voz baixou. — Eu quero? E a nota disse para me encontrar no Octavia? — Não foi uma nota. O cara da recepção, Thomas, me ligou. Ele deu um riso alto. — Não foi da recepção. Thomas é um dos meus guardas. Temos cerca de doze Thomas trabalhando para nós. Não tenho dúvidas de que era uma piada interior. Eu sinto muito. Escute, eu tenho que ir para o Octavia um pouco, mas você não tem que vir. É uma boate que meu amigo tem aqui. — Uma boate? — Outro lugar e aventura que Sia teria tido, e teria me contado. Sentei, esquecendo o vestido. — Eu irei. — Espera... — Não. Eu quero ir. — Você tem certeza? — Sim. — Eu não conseguia me lembrar da última vez em que fui a uma boate. Um restaurante, um dos eventos da Sia na Gala – aqueles eram os eventos a que eu iria, mas não a um clube de dança. Algo mexeu em mim. Eu estava acordando, e eu disse novamente: — Eu quero ir.

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— Uh. — Ele hesitou. — Ok. O clube é ao lado do hotel em que você está. É por isso que eu queria um quarto lá para você. Dê-me um momento, e eu irei. Nós desligamos, e eu não tive tempo para os nervos explodirem. Eu sabia que eles iriam, mas isso era ridículo. Eu conhecia Cole, de certa forma. Eu tinha dormido com ele. Definitivamente. Então os nervos não faziam sentido, mas quando peguei o vestido e fui para o banheiro, o fundo da minha mente disse que era besteira. Isso era novo. Isto era fora da minha zona de conforto. Isso foi... minhas mãos estavam tremendo, e trinta minutos depois, eu estava de volta e alisava a frente do meu vestido. Isso era surreal. O vestido não era longo, então parecia apropriado para um clube, terminando entre minha coxa e joelho. Uma boa quantidade de coxa aparecia, e o tecido caia solto, a transparência que cobria o resto do vestido brilhando na luz. Era realmente bonito, algo que eu nunca teria escolhido usar, e significava mais agora. Eu queria surpreender Cole, assim como ele me surpreendeu com esta viagem. Eu olhei no espelho. Meus velhos cabelos loiros estavam de volta. Tinha sido uma cor parda por tanto tempo, mas tinha mudado. Estava brilhando agora. Toquei alguns dos fios mais frouxos que haviam caído para emoldurar meu rosto. O resto foi puxado para trás em uma grande trança bagunçada. Minha maquiagem era mínima, embora eu tivesse passado um bálsamo de lábios cintilante. Sim. Observei meu reflexo. Eu estava satisfeita. Eu vi uma faísca em meus olhos que eu não tinha visto por algum tempo. Ouvi a porta abrir, e Cole gritou: — Addison? Passei pelo quarto, parando na entrada. Ele estava bocejando, uma mão coçando atrás de sua orelha quando ele se virou, perguntando: — Você está aqui... — Sua voz se apagou quando ele me viu. Sua mão caiu ao seu lado. — Uau. — Um sorriso de lobo curvou-se sobre seu rosto, e ele veio em minha direção,

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sua mão vindo para descansar em meu lado. — Talvez eu precise que Thomas escolha mais roupas. Uau. O calor se espalhou por mim. Se era uma reação a vê-lo, ou a estar perto dele novamente, eu não tinha certeza. — Thomas está procurando um emprego? — Murmurei. — Comprador pessoal? Cole riu suavemente, o som terminou quando ele olhou nos meus olhos. Ele tocou o lado do meu rosto. — Você sabe como é linda? Meu coração pulou uma batida. Eu não podia falar. Seus olhos escureceram. Ele segurou o lado do meu rosto, e seu olhar caiu em meus lábios. — Estou muito, muito feliz por ter convidado você para vir aqui. Mesmo que seja só por uma noite. — Ele se inclinou. Eu segurei a respiração. Seus olhos voltaram para os meus. — Você está bem com isso? — Com o quê? — Eu reclinei minha mão contra seu peito. Eu podia sentir seu coração, uma forte batida contra mim. — Vindo aqui, indo embora. Tenho que voltar às minhas reuniões amanhã, mas todas essas semanas estavam se tornando muito longas. — Ele parecia dividido, uma hesitação enchendo seu olhar. Ele se inclinou para trás uma polegada. — Nós não temos que ir para o Octavia. Podemos ter uma boa refeição em algum lugar e depois voltar. — O quê? Não. Eu quero ir para o Octavia. Parece legal. — Você tem certeza? É alto e escuro, e... — O quê? — Sexy. Eu levantei uma sobrancelha. — Como é que isso é um problema? — Você é mais do que sexo. Oh. Fiquei quieta, tão consciente de sua mão segurando o lado do meu rosto. — Eu sei que foi assim que começamos, mas já é mais, — ele acrescentou, sua voz suavizando. — Você não é alguém que eu voaria para ver, só por sexo. Você vale a pena um jantar caro, tempo tranquilo juntos, qualquer coisa que você quiser. É a sua companhia que eu queria

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esta noite, porque sentia sua falta. Eu só quero que você saiba disso. Eu não… Eu cobri sua mão e engoli em cima de um nódulo. — Eu sei. É o mesmo para mim. Ele olhou para mim, procurando algo, e por um momento, eu senti como se tivesse um vislumbre do Cole real. Ele era perigoso, misterioso e hipnotizante, mas era mais. Gentil. Atencioso. Eu vi um vislumbre de alguém que se importava. Uma sensação de agitação cresceu em meu estômago, e eu lambi meus lábios. Confusão, euforia, exaustão. Todas essas emoções bateram em mim, e eu não queria pensar sobre elas. Apertei minha mão com mais força contra ele e me inclinei para frente. A sensação dele – sua outra mão tinha se movido para minha cintura – me ancorando. Eu estava subindo nas nuvens, mas eu precisava dos meus pés no chão. Eu me ouvi dizer, minha voz rouca: — Vamos para o Octavia. — A repentina necessidade de experimentar este clube foi poderosa. Ele assentiu, sua mão caindo na minha. Ele me disse que eu era bonita. Ele me disse que eu era mais do que sexo para ele agora. Mas ele não tinha me beijado, e eu estava de repente me afogando pelo toque de seus lábios nos meus. Ele me levou para fora da porta, e dois homens começaram a nos seguir. Um caminhava diante de nós, parando a poucos metros de distância, e o outro caminhava atrás. Eles estavam longe o suficiente para nos dar a sensação de caminhar sem eles, mas eles estavam lá, e eu agarrei a mão de Cole. Quem é Cole? Essa pergunta tornou-se cada vez mais urgente, me irritando, mas quando ele olhou para mim e eu vi a luxúria em seus olhos, a pergunta se dissipou. Eu estava começando a não me importar com quem ele era, contanto que ele estivesse comigo.

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Nós atravessamos uma porta traseira para o Octavia, e mesmo que estivesse escuro, eu soube o instante em que trocamos de edifícios. Nós tínhamos atravessado um corredor traseiro que ligava os dois. Assim que a porta se abriu, música techno atingiu nossos ouvidos. Uma parede improvisada subiu na nossa frente, e uma luz de néon brilhou atrás dela. O cheiro de gelo seco encheu o ar, junto com suor e, como Cole disse, cheiro de sexo também. Descemos por um corredor, parecendo dar a volta pela principal pista de dança, e sexo era tudo o que eu sentia. Eu ouvi gemerem atrás das portas fechadas, então ouvi gemerem na própria música. Passamos por uma clareira e olhei. Era como se estivéssemos contornando um estádio, exceto que não havia lugares. O piso do estádio era para dançar, e havia seções cortadas que circundavam o prédio e levavam até onde estávamos, no topo da coisa toda. Todas aquelas seções separadas tinham seus próprios bares, com o chão iluminado na mesma cor neon que brilhava ao ritmo da música. Algumas seções tinham sofás. Outras estavam cheias de pessoas dançando, e muitas pessoas estavam na escada conversando. As escadas conectavam tudo, exceto o andar superior onde estávamos. Dois polos finos percorriam o comprimento de cada parede improvisada para que fôssemos impedidos de ir para baixo, ou eles fossem impedidos de vir até nós acima. Eu tinha a sensação de que era o último. Algumas pessoas bebendo olharam para cima quando nos viram, e pareciam surpresos. Era como se eles não tivessem percebido que as pessoas poderiam andar acima deles. Eu apertei a mão de Cole com mais força. Eu sabia que eu tinha dito que queria vir aqui, mas eu não sabia. Este lugar era enorme, não tão grande como um verdadeiro estádio, mas maior do que qualquer outra boate que eu conhecia. Quem era seu amigo? E se seu amigo era dono, o que Cole tinha? Ou talvez ele ajudasse a gerenciar esses lugares? Talvez ele estivesse ligado a alguém rico. Mas quando o cara que estava

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nos conduzindo se virou e falou com Cole, eu não sentia que esse fosse o caso. Eu podia ver sua boca se movendo, mas não conseguia ouvir as palavras. A música estava muito alta, e um segundo depois, Cole assentiu. Ele mudou nossas posições, então eu estava segurando a mão esquerda. Senti como se ele quisesse sua mão direita livre. Ele estava caminhando mais perto da muralha improvisada agora, e enquanto continuávamos, outro homem se materializou do nada. Esse cara não estava andando bem ao meu lado, mas perto o suficiente. Eu estava amassada no meio. Os outros dois tinham fechado a sua distância, então agora eu estava cercado por quatro homens, em forma de diamante. Eu não podia nem processar isso, então segurei a mão de Cole. Era isso. Eu me concentrei nele, e um momento depois, ele entrou em outro cômodo. Era um camarote particular, diretamente acima do estande do DJ, que estava três andares abaixo de nós. Cole falou com os três homens antes de fechar a porta atrás de nós. Fiquei aliviada. Ele me notou olhando a porta quando se aproximou, sua mão tocando levemente minhas costas. — O quê? Eu não perguntei quem eles eram. Meu instinto me disse que ele não iria responder. — Pensei que viessem conosco. — Não. — Sua mão apertou com pressão em minhas costas, seus dedos pressionando mais. — Mas dois deles ficarão lá fora. São apenas medidas típicas de segurança. Eu segurei seu olhar. — Mesmo? Ele olhou de volta, sem piscar, sem reação, até que sua mão caiu. — Eles são uma parte das coisas que eu não posso te contar. Foi o que pensei. — Não me diga besteiras, ok? Um canto de sua boca se curvou para cima, e sua mão voltou para minha cintura. — Eu não vou. — Seu dedo dobrou em uma parte do meu vestido onde havia uma abertura, e ele me puxou de volta até que eu entrei em contato com ele. Ele apertou contra mim, e seus braços se aproximaram, segurando a parede do camarote enquanto ele baixava a

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cabeça para descansar em meu ombro. Ele falou bem ao meu ouvido. — Eu sinto muito. Fechei meus olhos, não me importando com as centenas de pessoas abaixo de nós. Todo o clube estava escuro. As luzes estavam piscando sobre a pista de dança, mas eu sabia que ninguém poderia nos ver de baixo. Eu me inclinei para trás, enrolando meus braços ao redor de seu pescoço. Minhas costas arquearam, empurrando meus seios para frente. Meu vestido tinha um decote V baixo, então eu sabia que ele podia ver. Eu queria que ele visse. Eu queria que ele tocasse, acariciasse. Eu queria tudo isso. — Addison, — ele murmurou em meu ouvido. Eu podia ouvir seu desejo, e um sorriso quase drogado cruzou meu rosto. Os guardas de segurança desapareceram da minha mente. A sensação de sexo que penetrava na atmosfera do clube tinha passado por minhas paredes, e eu queria o que eu queria lá no quarto. Queria que Cole me beijasse. Eu queria mais também, mas até então... Eu me virei, meus braços em volta do pescoço dele. Eu me inclinei para trás para que eu pudesse vê-lo. O clube era agora o nosso pano de fundo. O mesmo desejo primal olhou para mim. Eu toquei o lado de seu rosto. — Vou voltar à minha vida amanhã. Seus olhos ficaram encapuzados. — Mas esta noite, vir aqui, isso não é normal para mim. Eu não faço esse tipo de coisa. Obrigada. Ele franziu a testa. — Por quê? — Por me tirar daquela vida, pelo menos por um pequeno tempo. — Por me acordar. Sua mão segurou meu quadril, e ele se moveu, pressionando contra mim. Eu o senti dentro de mim, e um sentimento bêbado correu através de mim, embora eu não tivesse bebido nada. Ele abaixou a cabeça, roçando um beijo em meu ombro nu. Ele murmurou de novo contra meu ouvido: — Eu devo agradecer você. Você não tem ideia.

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Eu acalmei. Seu tom não era normal. Ele não estava protegido, e não estava brincando. Então ele disse, com seriedade: — Sobre a minha vida, eu não posso falar, mas isso – você vir até mim – é como um sopro de oxigênio. Consigo respirar de novo. — Ele deixou cair a boca, permanecendo no meu ombro. — Algo puro entre tantas coisas. Fechei os olhos. Eu não ia perguntar o que ele queria dizer. Ele não me contou, mas eu alcancei atrás, segurei a parede e a usei para me empurrar para frente, ainda mais perto dele. Eu deixei uma abertura pequena atrás de nós, e Cole colocou seu braço ao meu redor, me levantando no ar. Eu olhei para ele, meio rindo, meus braços ao redor de seu pescoço. — O que você está fazendo? Ele sorriu de volta, seus olhos escuros e desejosos quando ele me virou para sentar em cima do bar em nosso camarote. Agradeci a Deus que não tivéssemos bartender, e então Cole pisou entre minhas pernas. Ele tocou meu rosto novamente, inclinando-o quando ele entrou. Seus lábios pressionaram os meus, e ali mesmo, outro formigamento desceu pela minha espinha. Ele estava onde deveria estar – comigo, me tocando, estando comigo. Eu o puxei para mais perto, e não liguei para quem poderia nos ver. Ao aprofundar nosso beijo, eu soltei tudo. Só havia esse momento. Eu estava só com ele. Amanhã eu pensaria sobre o futuro. Amanhã eu pensaria sobre Sia, sobre minha vida em Chicago, mas agora, neste momento, era apenas Cole. Só Cole e as sensações que ele havia descoberto dentro de mim.

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CAPÍTULO DEZESSEIS Nós ficamos naquele camarote pela metade da noite, apenas curtindo. E quando não pudemos mais nos segurar, voltamos para o meu quarto de hotel. Cole me acordou cedo de manhã com mais beijos e toques, mas ele teve que sair por volta das seis. Ele tinha mais negócios para comparecer, e o avião estava esperando por mim quando acordei mais tarde. No voo para casa, eu pensei sobre a noite. A coisa toda foi como um devaneio. Eu tinha sido transportada para um mundo diferente – o mundo de Cole. Eu tinha visitado sua vida. Mesmo por apenas um momento, e mesmo se eu não soubesse o que a vida dele era, tinha valido a pena. Portanto, vale a pena. Eu me recusei a pensar em qualquer preço que eu poderia pagar, e quando cheguei em casa, voltei à vida normal. Ou tentei. Cole permaneceu no fundo da minha mente, mas primeiro era: o meu encontro no escritório de advocacia de Jake. Foi bem. Eu lhes dei a papelada que precisavam, e isso foi suficiente. Eles disseram que ficariam surpresos se os pais de Liam prosseguissem, especialmente porque era um “falso processo”. Essas foram as palavras de Jake e de seu colega.

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Eu nunca disse a Sia que eu tinha deixado a cidade por uma noite, mas ela deve ter notado que eu estava agindo de forma diferente. Ela perguntou se tudo estava bem, e em vez de acreditar em mim quando eu disse que estava, ela me convidou para participar de um evento com ela. — A Gala está patrocinando o evento, então eu deveria ir, mas eu não organizei, então não tenho muito trabalho a fazer — explicou. — Só preciso falar com algumas pessoas – você sabe, conexões. Mas o evento vai ser enorme. É no Haldorf, não na Gala. Nós somos apenas um dos patrocinadores. Tenho certeza que algumas celebridades estarão lá, e qualquer pessoa influente na cidade estará lá. Você quer vir? Você não precisa. Mas eu estou fazendo Jake vir também. Talvez fosse porque eu não queria ficar sozinha. Talvez fosse porque Cole me acordara, e agora eu estava inquieta. As coisas haviam sido cinzentas antes, mas o mundo estava em cores agora. Eu queria que as coisas fossem em luzes brilhantes, em néon como no clube. Eu não queria que tudo estivesse mais escuro. E talvez fosse por essa razão que eu me encontrei concordando em ir. Vinte e quatro horas depois, eu estava de volta entre pessoas bonitas, luzes de cristal e champanhe. Muito champanhe. Sia tinha dito que seria maior. Ela não tinha mentido. Era como um de seus eventos, mas com esteroides, e multiplicado por dez. Eu queria morrer. Bem, quase. Não exatamente. Viu? Progresso. Eu

estava

experimentando

uma

forma

leve

de

irritação

e

arrependimento. Eu apertei meu copo de champanhe firmemente na minha frente como se fosse um escudo contra qualquer um que tentasse falar comigo. O Haldorf era um dos hotéis mais prestigiosos em Chicago, e a clientela para a noite eram as mais diversas estrelas e celebridades, como a maioria das socialites que o Gala sempre convidava. A minha vista de canto através da janela me dava um vislumbre para a entrada da frente e a impressionante fila de pessoas que entravam. Era meu próprio tapete vermelho.

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— Ei. — Jake se aproximou de mim, bebida na mão. Ele virou as costas para a janela e examinou a multidão atrás de mim. — Isso é impressionante. Sia teve muito a ver com isso? — Não tenho certeza. — Ela está por aí. — Ele olhou para mim. — É assim que é chegar a uma festa como par dela? Acariciando seu braço, virei para observar a multidão. — Sim, sim, meu caro amigo. Você se juntou ao lado negro. Eu o chamo de Comitiva Negligenciada da Sia. Durante algum tempo, foi um clube triste com apenas um membro, mas eu lhe dou as boas-vindas, um novo membro agora. — Posso pegar um broche? — Vou comprar uma dessas coisas que os vencedores usam. — Eu me acalmei. — Só para você saber, ela nunca trouxe um namorado para um desses eventos. — Mesmo? — Ele me estudou. Eu balancei a cabeça. — Você é o primeiro. Ela nunca se importou o suficiente com os outros. — Eu o cutuquei gentilmente com meu braço. — Acho que isso diz alguma coisa. Seu peito inchou. — Malditamente certa. Eu sou incrível na cama. Eu explodi em risos. — De jeito nenhum! Eu olhei para cima, distraída pela súbita proclamação de Jake. Ele olhou para uma multidão à nossa esquerda, com a boca aberta. — É o Mahler. — Quem? Olhei, mas vi apenas um monte de smokings preto e vestidos brilhantes. Ninguém se destacou para mim até que um casal se afastou e eu o vi. O advogado principal dos meus sogros. Olhei para o casal ao seu lado, e meu sangue ficou frio. — Ah, não. — Esse é o pedaço de merda processando-a para seus sogros, ou tentando. Maior pedaço de porcaria que eu ouvi falar há muito tempo.

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Jake não tinha ideia de quem estava ao lado do pedaço de merda. — Ele não está sozinho. — Hein? — Ele seguiu meu olhar. — De jeito nenhum. São eles...? — Os pais de Liam. Em carne e osso. — Eles devem ter vindo em sua passagem por aqui. O que você quer fazer? — Um pouco do calor de Jake desapareceu. — Eu estava pronto para ir comprar uma briga, mas vou seguir sua liderança. Evitar? Ignorar? Rir como se fossemos melhores do que eles? Passar por eles e acidentalmente bater o meu cotovelo em seu sogro? Ele não parece estar segurando a bebida direito. Poderíamos ir para o vencedor, ver se ele derrama sua bebida em si mesmo? Eu estou dentro. Você escolhe. — Comprar uma briga? Jake encolheu os ombros. — Ok, mais meu estilo. O jeito dos advogados. Nós lutamos de forma diferente de todos os outros. Eu estava prestes a mudar a minha resposta para evitar, mas Mahler olhou em nossa direção, e então era tarde demais. Ele nos viu. Seus olhos ficaram grandes, e um olhar presunçoso e adulador tomou conta dele. Seu rosto estava vermelho e suado, e quando ele acenou, eu notei que seus olhos estavam vidrados. — Olha o que temos aqui! — Ele disse. — Jake Parker. Seu escritório me enviou os papéis hoje. Quão pensativos e cooperativos todos vocês estão sendo. Jake gemeu baixinho. — Vamos. Temos que ir agora. Eu não me movi, mas Carol e Hank me viram, e Carol ficou visivelmente enrijecida. Eu estava distantemente consciente da mão de Jake me empurrando para frente. — Mahler. — Jake soou tão rígido quanto Carol parecia. — Eu poderia ter economizado dinheiro e entregado os papéis hoje à noite. Mahler soltou uma risada profunda, apertando uma mão no ombro de Jake. — Nada disso. Esta noite é para lazer. Nós estamos levantando dinheiro para algumas causas de... rabo de cavalo, talvez? — Ele deu um gole e jogou para trás uma boa parte de seu champanhe. — Onde está sua bebida? Você também, Sra. Sailer. Onde está sua bebida? Você

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precisa se divertir conosco... — Então ele se cortou e pareceu se lembrar com quem estava. A única satisfação que tive foi que meus sogros pareciam tão desconfortáveis quanto eu. Carol olhou para baixo, levantando uma pequena mão para acariciar seus cabelos grisalhos, que estava puxado para cima em um coque incrustado de diamantes. Ela sempre fora linda, e seu envelhecimento só a deixara mais deslumbrante. Liam tinha o olhar dela. Eles tinham os mesmos olhos azuis, maçãs do rosto macias e rosto em forma de coração. Liam costumava zombar de si mesmo, dizendo que ele seria uma garota bonita, mas eu adorava como ele se parecia. E muitas outras senhoras concordavam comigo. Eu estava olhando para a razão pela qual tantos tinham tentado pegá-lo. — Você está linda, Carol. Senti a surpresa de Jake, mas ela trouxe Liam para este mundo. Eu devia isso a ela. Ela parecia tão surpresa quanto Jake. — Obrigada, Addison. — Ela me olhou de cima a baixo. — Você também. Preto combina com você. Eu reprimi uma retórica pressionando meus lábios juntos. — Realmente, Addison, — ela disse depois do funeral. — Você deve parar de usar preto. É deprimente. Eu sei que a maioria das meninas usam porque emagrece, mas você é toda ossos. Você devia estar vestindo branco. Isso fará você parecer mais saudável. Confie em mim, a maioria das meninas terão inveja. Sei que Liam amava branco. Use-o para ele, ou desgaste outra coisa. Alguma cor. Até mesmo azul. Deus nos livre de usar algo mais vivo do que o preto. A culpa em seu olhar me disse que ela se lembrava disso também. Forcei o meu sorriso, embora minhas bochechas protestassem. Eu poderia ter tomado uma dose barata. Suas lantejoulas de prata combinavam com seus cabelos grisalhos, mas esse era outro comentário que eu suprimi. — Hank. — Eu balancei a cabeça. Isso foi tudo que eu disse para ele.

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O pai de Liam tinha a mesma idade que Mahler, mas não tinha o mesmo regime de beleza. Enquanto os cabelos de Mahler eram tingidos de preto, Hank era quase todo cinzento, como o de sua esposa. Isso era algo que me lembrava deles. Eles acreditavam em manter produtos químicos e toxinas fora de seus corpos tanto quanto possível. Hank assentiu de volta para mim. — Addison. — Sua mão curvouse atrás do braço de sua esposa, da mesma forma que Jake me segurou. — Você está namorando um advogado agora? — O quê? — Oh. — Jake retirou a mão, rindo. — Não. Somos... — Amigos, — eu terminei, acrescentando: — Jake é um bom amigo. Ele me ajudou com o caso. — Sublinhei a palavra ajudou porque, no que me dizia respeito, o caso havia terminado. Levantei o queixo, desafiando qualquer um deles a discordar. Hank colocou as mãos nos bolsos. Carol suspirou e se virou, erguendo a cabeça para examinar o resto do ambiente. Ela manteve os dedos juntos em torno de seu copo, como se fosse muito pesado para ela e ela precisasse de ambas as mãos para segurá-lo. Eu olhei para ela, observando uma inclinação nos ombros que eu não tinha notado antes. Sua maquiagem não podia esconder as bolsas sob seus olhos também. Eles pareciam maiores do que eu já tinha notado antes. Jake ficou em silêncio. Mahler soltou outra gargalhada. — Eu ainda estou pensando que precisamos de bebidas para vocês dois. Onde está uma maldita garçonete quando você precisa de uma? — Ele examinou o salão por um momento. — Merda! — Todos se voltaram para ele com a mudança em seu tom. — Fale sobre um fantasma do passado. Ele deu um passo para trás e estendeu a mão quando dois homens entraram na multidão. Ele tentou agarrar o braço do primeiro homem, mas ele torceu no último segundo e pegou o pulso de Mahler. Mahler piscou algumas vezes antes de explodir com outra risada. — Carter Reed. Eu não podia acreditar, e eu mal consigo acreditar agora. — Ele tirou o braço do aperto do homem. — Tão rápido quanto

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você já foi. — Ele ergueu a mão como se para prendê-la no ombro, mas o homem estreitou os olhos em alerta. A mão de Mahler caiu de lado. Ele limpou a garganta. — Como você está, Reed? Eu não sabia que você voltaria para esses lados. — Porra. Eu era a única que parecia ter ouvido o xingamento tranquilo de Jake, e eu olhei para ele. Seus olhos estavam arregalados e treinados sobre essa pessoa, Carter Reed. Reed tinha olhos azuis como lobo, cabelo loiro escuro e um ar perigoso. Se Sia estivesse aqui, e não estivesse com Jake, ela estaria chorando sobre ele como quando viu Cole pela primeira vez no Gianni’s. Esse homem era poderoso. Isso era óbvio. Carol e Hank pareciam congelados também, suas reações similares a de Jake. — Quem é esse cara? — Tenho que dizer, não é uma boa surpresa te ver, Reed. — Mahler falou de novo, já que o outro homem se recusou a responder. — Onde você vai, os corpos tendem a se amontoar. — Quando todos os outros permaneceram em silêncio, ele riu de sua própria piada. Ele foi o único. Reed só o observava, um brilho gelado em seus olhos. Ele não parecia irritado ou assustado, assim como ele estava esperando o idiota para calar a boca. Carol pôs-se em movimento. Ela pegou o copo de Mahler. — Acho que você já teve muitos desse, Alfred. — Oh, vamos lá. — Ele ainda estava rindo. — É engraçado. Além disso, por que você está nervosa? Reed está fora do jogo. — Ele pegou o ombro do homem de novo, e foi evitado novamente. — Se você tentar me tocar mais uma vez, eu vou quebrar sua mão. A ameaça suave o calou. Era como se Mahler percebesse de repente quem estava cutucando, como uma criança apontando uma vara para uma cobra. Seu rosto ficou ainda mais vermelho. — Uh. — Ele deu um passo para trás, colocando suas mãos em seus bolsos enquanto tentava se recuperar. — Com quem você está aqui? — Ele esticou o pescoço para ver quem estava de pé atrás do homem mais

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alto. Enquanto o fazia, o companheiro de Reed avançou, e Hank e Carol se afastaram. Eles mantinham seus olhos focalizados em outro lugar. Eu deveria ter, também. O parceiro de Reed entrou em cena, e eu senti um soco no diafragma. Era Cole. Eu só podia ficar lá e olhar. Eu não pensei que ele estaria aqui. Nem pensei que ele estivesse no estado. Estive com ele algumas noites antes, e ele não disse nada. Ele tinha enviado mensagens de texto algumas vezes desde então, perguntando como eu estava, mas ele não tinha dado nenhuma indicação de que ele estava voltando para a cidade. Esses pensamentos estavam correndo em minha mente, mas tudo que eu podia fazer era engolir, sentindo um nó subindo pela minha garganta. Tentei evitar que minha boca ficasse boquiaberta para ele, mas era aí que deveria estar minha mandíbula, no maldito chão. Eu não pude deixar de notar como ele parecia e como meu corpo já estava se inclinando em direção a ele, como se quisesse entrar em seus braços, como se aquela fosse a coisa mais natural do mundo. Como se fosse onde eu deveria estar, e por que diabos eu ainda estava só aqui de pé, não indo para ele? Eu sabia que não era racional, e tentei desligar esse lado do meu cérebro. Raiva, aborrecimento e algumas outras sensações que eu não queria identificar se agitaram em mim. Se eu me deixasse sentir, seria uma receita para o desastre. Eu não faria uma cena aqui. Eu não exigiria respostas. Isso seria mais tarde, mas não na frente de meus sogros, ou na frente de qualquer um. Em vez disso, percebi o quão impressionante Cole parecia. Seu amigo também era impressionante, mas eu preferia Cole. Estava escuro à luz do amigo. Cada um equilibrava o outro, chamando a atenção de todos ao nosso redor e de outros grupos além deles. Eles tinham um magnetismo animal. Eles estavam afetando a multidão. As pessoas ficaram inquietas, sentindo uma mudança no ar.

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Ambos eram mortais. Ambos sabiam disso, e ambos olharam para Mahler como se ele fosse a próxima refeição. Mahler ficou finalmente sem palavras. Ele só podia encarar Cole, como eu. Cole estreitou os olhos para Mahler, depois para Jake, e então me olhou. Ele demorou um momento antes de voltar para Mahler. O silêncio completo assentou sobre o grupo. O que estava acontecendo? Eles não poderiam saber sobre nós. Reed estava olhando para mim agora, e eu congelei por um momento. A curiosidade se misturou fracamente com um olhar divertido em seus olhos antes de ele se mover para trás para ficar ombro a ombro com Cole. — Você estava cheio de estupidez bêbada quando me viu, Mahler — Reed falou. — Agora você não pode dizer uma palavra? — Ele olhou para Cole. — Ou talvez você não soubesse que Cole estava na cidade? Mahler esboçou algumas palavras, mas nenhuma fazia sentido. Meus ex-sogros não pareciam surpresos ao vê-lo, ou talvez tivessem superado isso mais rápido. Ambos tinham os olhos treinados no chão, os ombros levemente curvados para frente. Eles eram a visão de recatados e tímidos. Eu inclinei minha cabeça para o lado. Isso não fazia sentido. Nada fazia sentido. Eu me virei para Jake, mas ele não podia desviar o olhar de Cole. Sua mandíbula se apertou, e seu pomo de adão rapidamente se moveu para cima e para baixo. O que…? — Bem, quero dizer... — Mahler descobriu sua capacidade de falar. Infelizmente. Ele tossiu uma vez, uma explosão profunda de ar que limpou seus tubos. — Eu não acho que alguém estava ciente de que Cole Mauricio estava de volta à cidade. Mauricio – senti outro chute no estômago. The Mauricio. Cole Mauricio. Ele era o dono do prédio. Ele tinha que ser, e ele tinha ficado calado sobre isso o tempo todo. Olhei para ele, acusando. Seus olhos se moveram para os meus, e eu peguei um breve flash de diversão misturado com um pedido de desculpas antes de desaparecer e seu rosto voltar a ser uma máscara ilegível.

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Estreitei meus olhos. Eu não compartilhava o sentimento. Eu sentia o oposto, e ainda tinha que reprimir as emoções girando em torno de mim, como um furacão irritado. Reed estudou Hank e Carol. — Acho que seus companheiros estavam. Mahler olhou para eles, depois para Jake e para mim. — Oh. Bem... — Ele encolheu os ombros. — Talvez tenham visto Cole mais cedo. — Acabamos de chegar. Todos os olhos se voltaram para Cole. Seus olhos dispararam para o meu uma vez antes de retornar a Mahler. Eles estreitaram, então varreram Carol e Hank também. — Talvez estivessem cientes por outra razão. Eu fiz uma careta. Do que ele estava falando? Carol e Hank ficaram vermelhos e minha ex-sogra alcançou o braço do marido. — Foi um evento maravilhoso, mas estou cansada de repente. Mahler bufou. Ela fez uma pausa, lançando-lhe um olhar sombrio. — Foi lindo, Alfred. E foi um prazer conhecê-lo, Sr. Reed. Sr. Mauricio. — Ela parou, percebendo o que mais ela precisava falar. Ela olhou para cima, mal encontrando meus olhos. — E prazer em te ver também, Addison. A mãe de Liam foi tão falsa como sempre fora. Eu não poderia reunir nada educado para dizer em troca. Então eu não disse nada. Eu só queria que eles fossem embora. Eles se viraram para ir exatamente quando Cole disse: — Bea Bertal. Eles pararam. Mas não olharam para trás, não de início. Dois segundos se passaram antes que Carol voltasse para Cole. Ela engoliu em seco. Sua mão apertou o braço de Hank. — Você conhecia minha mãe? — Cole. — Mahler começou a avançar, mas Reed o bloqueou. Eu olhei para Jake e o encontrei cativado. Ignorando meu olhar, ele avançou, como se quisesse ouvir melhor.

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— Eu tenho ouvido rumores sobre seu pai, — Cole disse igualmente. — Diga-me, Carol. Ele se inclinou para ela. — São apenas rumores? Seu lábio inferior começou a tremer. — Eu não sei. Bea está morta, sabe. Meu marido e eu, junto com nossos filhos, não falamos mais com meu pai. — Foi uma mudança recente? —- Não. — Ela parecia se encolher sob seu olhar. — Não falamos com meu pai há anos, desde que meu filho mais velho nasceu, na verdade. — Quando ela mencionou Liam, ela olhou para mim antes de voltar para Cole. — Como eu mencionei antes, estou bastante cansada. Desejamos a todos uma boa noite. Hank se apressou, com Carol bem atrás dele. Sua saída parecia estranhamente semelhante a uma fuga. Olhei para Cole. Quem era ele para os pais de Liam? Quem era ele? A necessidade de descobrir queimava em mim. Se eu não descobrir... eu não poderia terminar. Eu não sabia o que faria. Eu não queria pensar nisso porque então todo pensamento racional poderia realmente fechar. Eu não poderia ir lá. A mão de Jake voltou ao meu cotovelo. — Acho que os Sailers tiveram a ideia certa. Acho que vamos também... Jake ia dizer mais, mas Mahler estourou: — Você não pode vir aqui e ameaçar meus clientes. Eu não permitirei! Reed e Cole se moveram como um para fechar fileiras ao redor de Mahler. Foi assustador assistir; eles eram tão rápidos. Reed alcançou Mahler, mas Cole o derrotou. Ele virou as costas para nós, e Reed ajustou suas costas para o resto da sala. Eles o fecharam para todos. Eu me elevei para frente, passando por Jake. Eu queria ver o que estava acontecendo. Consegui um vislumbre de Cole avançando. Eu não podia ver o resto, mas Mahler parou de falar de repente. Seus olhos ficaram inchados, e suas bochechas arredondadas. Ou ele não conseguia oxigênio, ou ele estava se privando de gritar. E Cole falou algo suavemente para ele.

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Mahler franziu o rosto e empurrou a cabeça para cima e para baixo repetidamente. — Ok. Ok! Reed tocou o braço de Cole. — É o bastante. Cole recuou. Nada mais foi dito. Mahler agarrou o braço, girou e percorreu um grupo de pessoas. Cole olhou para mim um momento antes que ele e Carter Reed seguissem adiante. A multidão se separou, e um momento depois, eles estavam além da vista. Um arrepio percorreu minha espinha. Eles eram conhecidos e, enquanto eu via a luxúria nos olhares das mulheres, não conseguia desviar o olhar dos olhos dos homens. Medo. — Jake? — Hmm? — Quem era aquele? — Tenho certeza de que ele é nosso senhorio. Esse é Cole Mauricio. — Eu sei, mas quem é Cole Mauricio? — Ele é o chefe da família Mauricio. Minha boca secou. — O que isso significa? Então eu ouvi a resposta de Jake, e meu mundo foi puxado para fora de debaixo dos meus pés. — Máfia. Ele não está na máfia, Addison. Ele é a máfia.

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CAPÍTULO DEZESSETE Jake saiu para encontrar Sia. Seu plano era fazer com que ela soubesse que ele estava indo para casa comigo, e depois voltaria para ela. Era ridículo que ele insistisse em me levar para casa, mas ele queria. Logo que Jake se empurrou através da multidão, eu fui pedir um táxi. Então enviei uma mensagem para ele. Já estou em um táxi. Fique com Sia. Divirta-se. Podemos conversar mais tarde. Levantei meu braço para um táxi, e um estacionou. Um manobrista do hotel abriu a porta de trás, mas alguém chamou o meu nome atrás de mim. — Sra. Sailer? Uma SUV preta estava estacionada em frente ao prédio com um homem parado ao lado da porta aberta. — Eu deveria te levar para casa, senhora, — acrescentou. — Uma carona para casa? — Por que ele estava usando o meu nome de casada? Como ele sabia esse nome? Quem era esse cara? Este era um serviço particular. O homem era grande e musculoso – e eu o reconheci. — Eu o vi no Gianni’s uma noite. — Não me lembro, mas você também me viu no Mauricio. Cole. O elevador traseiro. Ele estava segurando seu amigo. — Você estava machucado. — Este era o cara que estava sangrando. Ele assentiu. — Sim, senhora. O Sr. Dorian me remendou.

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— Você é um dos homens de Cole. — Porque ele tinha homens. Eles não eram seus amigos. Eles não eram seus colegas de trabalho, embora talvez fossem. Meu estômago começou a torcer e agitar. — Cole disse para você esperar por mim? — Sim, senhora. Vou dar-lhe uma carona para onde quer que você queira... — Ele parou. Suas mãos se aproximaram e se juntaram na frente dele. — Posso te levar para casa? Dei um passo mais perto, cruzando os braços sobre o peito. O vento da noite tinha aumentado. Eu não tinha escolhido o casaco certo. Eu fui com o elegante e leve – o que parecia bom sobre um vestido formal. Eu tremi agora, desejando ter ido com algo mais pesado. — O que mais? — Eu perguntei. — Por que você usou o meu nome de casada? — Madame? — Seus olhos se arregalaram, e sua boca formou um pequeno O, como se tivesse sido pego em alguma coisa. Estava lá, depois desapareceu no instante seguinte. — O que você quer dizer, senhora? — Eu sou Addison Bowman. Não Sailer. Quem disse que meu sobrenome era Sailer? — Isso foi um erro. Minhas desculpas, Srta. Bowman. — Então sua boca fechou, e eu sabia que ele não diria mais nada. — Eu não vou entrar lá até você me dizer. Ele franziu a testa. — Eu deveria te manter segura. Era tudo o que eu ia dizer. Este era o homem de Cole, aqui sob as ordens de Cole, e onde estava Cole? De volta àquela festa, de pé ao lado de outro homem tão mortal quanto. A voz de Jake soou em minha cabeça novamente: — Addison, ele é a máfia. A máfia. Cole. Eu não conseguia digerir isso, ainda não de qualquer maneira, mas fazia muito sentido. Eu pensei que sim? Isso faz sentido? Eu balancei a cabeça. Uma coisa de cada vez, e agora, soltei a fúria que estava esperando no fundo do meu estômago. Esse cara não estava sendo honesto, e eu estava oficialmente cansada disso.

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Eu olhei para ele, deixando toda a raiva que eu tinha reservado para Cole explodir. Eu balancei a cabeça. — De jeito nenhum. Ele pareceu inseguro. — Senhora? Addison? Eu dei-lhe um sorriso falso, adoçando meu tom. — Sinto muito. Eu disse errado. Eu quis dizer, de nenhum maldito jeito. Vou encontrar minha própria carona para casa. Obrigada. Corri para o táxi aberto e entreguei meu endereço ao motorista. Saímos, mas um segundo depois o motorista me disse: — Estamos sendo seguidos, senhorita. Um carro está bem atrás de nós. Minha cabeça caiu de encontro ao assento. Claro que sim. — Devo ligar para a polícia? O que aconteceria se ele o fizesse? Se a polícia viesse e questionasse o homem de Cole, o que então? Ele estava seguindo porque seu chefe lhe disse para me dar uma carona. Eles ririam de mim. Não havia perigo – ou talvez eles o reconhecessem? Talvez eles pesquisassem seu nome e descobrissem que ele tinha um registro. Os policiais descobririam que ele era uma multidão, e o que então? Ele seria preso, só por fazer seu trabalho? Cole iria socorrê-lo? Ou ele mandaria alguém? Eu não estava ciente de que estava rindo até que o motorista perguntou: — Senhorita? Você está bem? Eu me encolhi. Havia uma leve nota de histeria lá. Parei e dei-lhe um sorriso reconfortante. — Estou bem. Desculpa. Apenas cansada. Ele não desviou o olhar do espelho retrovisor. Mas ele tinha que observar para onde estava dirigindo. Eu acalmei e tentei relaxar o resto do caminho. O Haldorf não era muito longe do Mauricio, mas esta noite, parecia uma hora de carro. Quando ele parou na frente, a SUV parou atrás de nós. Eu fiquei na calçada enquanto o táxi saía. O homem de Cole saiu, mas ele não andou para mim. Ele ergueu a mão. — Desculpe, senhora. Tenho ordens. Eu não poderia ficar para trás. Eu estarei aqui se você precisar de uma carona para outro lugar. — Pelo resto da noite?

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— Não. — Ele abaixou a mão para descansar na porta da SUV. — Estarei aqui indefinidamente. Eu ou outro motorista. Indefinidamente? — O quê? — Eu devo ter ouvido isso errado. A porta do Mauricio abriu-se atrás de mim e ouvi a voz de Ken. — Ele estará no estacionamento do porão, Senhorita Addison. Ken estava com o uniforme completo de porteiro esta noite, seu casaco abotoado até o pescoço com um lenço escuro enfiado dentro. Ele até mesmo tinha o chapéu, puxado para proteger sua testa. Suas mãos estavam dobradas na frente dele dentro de luvas brancas. — Tenho que ir lá? Ken acenou com a cabeça para o motorista. — Não há estacionamento nas ruas hoje à noite, Carl. Eu ri com amargura. Carl. Ken o conhecia pelo nome. E Carl obviamente conhecia bem o Ken. Sua voz mudou quando Ken saiu, relaxando até um tom familiar. Ele não estava tenso ou protegido como se estivesse comigo. Até mesmo seus ombros pareciam relaxados quando ele voltou para a SUV. — Ele está apenas contornando o quarteirão. Ele vai entrar no porão. — Ken hesitou. — Se você precisar dele para um passeio em outro lugar esta noite. Esse era outro mundo. — Ele sempre estará lá embaixo? — Ele ou outro cara, Jim. Os dois vão trocar, mas sim. São seus motoristas pessoais. — Porque Cole deu essa ordem? — Eu o observei atentamente. Eu queria ver sua reação. Não havia nenhuma. Ele nem piscou, apenas ofereceu um sorriso simpático e amigável. — Sim, Senhorita Addison, ele deu. Ele faz isso para as pessoas com quem se importa. Eu não podia acreditar em nada disso. — Cole é dono deste edifício? — Não era realmente uma pergunta. Eu queria a confirmação. Não, eu precisava de confirmação. Eu precisava ser informada de algo concreto. Haviam muitas perguntas levantadas esta noite. Dorian e Cole eram

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apenas amigos? Quem era Carter Reed? E como, na Terra, a família de Liam influenciava aqui? Quem era Cole, cujo trabalho era um segredo, cujo trabalho era perigoso, cuja vida o levou para um mês inteiro de cada vez, e que pegou um jato particular para enterrar um amigo? Eu estava bem com o mistério antes, mas não agora. Não mais. Ken me deu um aceno rápido, silencioso. Cerrei os dentes. — Ele vem esta noite? Ele assentiu. Eu passei por ele. — Bom. — Eu conseguiria todas as malditas respostas que eu queria esta noite. Se eu não o fizesse, eu as encontraria pessoalmente, independentemente das consequências. Quando cheguei ao meu apartamento, Sia ligou para se certificar de que eu estava bem. Julgando por seu discurso arrastado, Jake não a enchera com a excitação da noite, então eu também não. Eu queria ouvir de Cole primeiro. Eu tranquilizei Sia e tentei esperar por Cole. Li. Assisti TV. Até mesmo bebi vinho – foi inútil. Nada poderia distrair minha raiva. Ok. Uma garrafa de vinho pode ajudar. Mas o que Jake tinha dito? Cole não estava apenas na máfia. Ele era a máfia. Suponho que essas pessoas eram importantes. Eles tinham que ter reuniões, fazer o que quer que fosse que Cole e aquele outro cara estavam fazendo esta noite. Talvez conversar para que eles pudessem decidir quem matar e em quem bater? Eu bufei, alcançando o copo na minha frente. Quero dizer, porra. Quem estava mesmo na máfia? Uma série de filmes antigos veio à mente. E aquele outro cara, Carter Reed – quem era ele para Cole? Quem era ele? E ele e Cole conheciam os pais de Liam. Bea Bertal, disse Cole. Era a avó de Liam. Ela e Liam se encontravam para almoços de vez em quando. Lembrei de quando ela morreu. Eu pensei que Liam ficaria chateado, mas ele não estava, pelo menos não da maneira que eu esperava.

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Liam entrou do estúdio, parando antes de entrar na cozinha. Eu esperei. Ouvindo. Ele não disse nada. Eu estava mexendo a sopa e ainda não ouvi nada, então olhei por cima do meu ombro. Algo estava errado. Seu telefone estava em sua mão, e ele só olhava para ele. — Liam? O que foi? Ele ergueu os olhos. Desolado, tão sombrio. — Liam? — Minha avó morreu. Esperei, ficando na cozinha, mas, novamente, só houve silêncio. Ele franziu a testa, e seus olhos pareciam tão perdidos. Meu coração doía. — Eu sinto muito. Ele balançou a cabeça e examinou o cômodo. Sua mão levantou-se para passar pelo cabelo. O telefone caiu no chão com um baque surdo. — Eu... — Ele piscou. Uma vez. Duas vezes. — Eu… — Liam? — Eu não tenho ideia do que dizer. — Você está... — eu fiz uma careta. — Chateado? Vocês eram próximos. — Ela nunca te conheceu. — Ele disse isso quietamente, como se lamentasse. — Ela queria te conhecer, mas eu estava com medo. Então você saberia. — Ele balançou sua cabeça. — Eu não sei o que isso significa para a família. Ele estava triste, mas com mais medo do que tristeza. Isso nunca fez sentido para mim. E fez agora. Eu teria sabido... sobre o quê? O nome Bertal? Eu ainda não sabia nada sobre isso, exceto que os pais de Liam tinham medo de Cole. Eu sabia disso. E foda-se isso. Se Cole não viesse me dar respostas, eu teria as minhas. Eu inicializei meu computador. Uma hora depois… Eu não estava preparada. Não havia como ter estado.

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CAPÍTULO DEZOITO O elevador zumbiu. Eu não me movi. Zumbiu uma segunda vez. Eu não podia sequer olhar para longe da tela do computador. A foto de Carter Reed estava bem no meio, e o nome de Cole estava em toda parte. Enquanto eu continuava lendo, o elevador começava a se mover, mas eu não conseguia me concentrar nisso. A necessidade de saber tinha desabrochado em mim, mas agora eu estava presa, incapaz de parar de colher detalhes. Eu quase desejei não saber. As portas se abriram, e lá estava Cole, vestido como se estivesse na pista de corrida: camiseta de capuz preta e calças atléticas pretas. E, daquela primeira vez que o vi, ele parecia muito bom nelas. Ele era um dos homens mais bonitos que eu já tinha visto, mas esta noite, sua aparência me enfiou um punhal dentro do peito. Eu me senti como um brinquedo sendo manipulado. — Claro que você tem os códigos para o meu andar, — eu disse calmamente. — Você é o dono. Certo?

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Ele parou, as portas se fechando atrás dele. Eu não conseguia ler seu rosto, o que ele estava pensando e sentindo, mas eu estava começando a reconhecer esse olhar. Ele usara esse visual tantas vezes, e era a mesma máscara ilegível que usara no evento mais cedo. Seus ombros se ergueram em um suspiro silencioso. — Você está brava. — Você não estaria? — Meu sangue estava fervendo. Esse sujeito, esse cara. — Eu só fiz sexo com você, e agora eu descobri que você é da máfia?! Quero dizer, não tenho motivo para ficar chateada. Você está certo, totalmente certo. — Uma risada amarga escapou de mim. — Você disse que não podia me dizer, mas eu nunca pensei na máfia. Todo o mistério sobre você? Eu não tinha ideia, e eu deveria ter. Quer dizer, sim, você foi honesto. Você disse que não podia me contar, mas dê uma pista para a garota na próxima vez, ok? A máfia. A máfia, Cole! Isso é perigoso. — E assustador. Eu segurei esse pensamento. Havia outras perguntas na ponta da minha língua, mas também as segurei. Ele matou pessoas? Eu bufei. Claro que matou. Ele mandou matar pessoas? Um segundo bufo enquanto eu passei uma mão pelo meu cabelo. O que mais? Prostituição? Jogos de azar? Que crimes cometeu? Ele espancou as pessoas, exigiu pagamento delas? Ele exigiu um corte dos recebimentos de donos de lojas? Minha mente percorreu todos os filmes da máfia e histórias que eu tinha ouvido. Todos esses personagens haviam sido envoltos em um atraente desenho romantizado, mas nenhum deles eram santos. Nenhum deles. Olhei para alguém que eu não conhecia. Fui para a cama com ele. Passei um tempo com ele. Corri com ele. Eu ri com ele. Senti-me bem com ele. Eu fiquei viva com ele. E Deus, olhando para ele agora, tudo que eu queria fazer era me jogar em seus braços novamente. Foder tudo ainda mais. A verdade me atingiu então. — Eu não queria saber a verdade. Um som oco escapou de mim. Eu não sabia se era uma risada ou um grunhido, mas o que quer que fosse, não estava certa. Eu fui

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eviscerada. Eu precisava me acalmar. Duas noites. Era isso. Era tudo o que tínhamos. Eu tinha que continuar me lembrando disso. Precisava de outra bebida. A garrafa estava vazia. Levantei para pegar outra, mas a sala balançou. Cole começou a vir para mim. Eu acenei para longe dele, agarrando o sofá para me estabilizar e me sentar de volta. — Não. Eu estou bêbada. Eu não comi hoje. Ele se aproximou, fechando um pouco a distância até que ele ficou do outro lado da mesa de café. — Você tem todo o direito de estar chateada comigo. O que eu faço, de onde eu venho, isso não é algo que você deveria ter que saber em alguma festa da alta sociedade. Lamento que tenha acontecido com você. Deus. Eu engoli, encontrando seus olhos. Eu não queria ver a simpatia lá, mas eu vi, e de alguma forma, quebrou uma parede em mim. Uma lágrima escorregou do meu olho. Grande parte da minha dor sobre isso não tinha nada a ver com Cole. — Sinto que o perdi de novo. Cole não disse nada. Abaixei a cabeça. — Eu não tinha ideia. — Eu apontei para o meu computador. — Nada disso. Liam também me manteve em segredo. E agora faz sentido – por que sua família nunca me aceitou, por que ele tinha refeições a sós com eles, por que seu irmão mais novo nunca voltou para casa. — Desculpe, Addison... — Você sabia? — Eu perguntei. — Você sabia quem eu era? Quem era Liam? Ele balançou sua cabeça. — Você se candidatou a este lugar enquanto eu estava fora. Eu não estou aqui muitas vezes, então eu não sou mantido a corrente de tudo o que acontece. Dorian dirige o edifício. Eu confio nele. Ele me disse que havia uma nova residente, mas nunca o questionei sobre você. Não foi até... — Até? — Até que eu te vi esta noite. Eu reconheci seus sogros, e tudo se encaixou. — Ele hesitou. Havia algo mais que ele ia dizer, mas ele

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segurou. Ele apenas disse: — Eu também não sabia. Eu nunca pensei... — Ele soltou um profundo suspiro, sentando-se ao meu lado no sofá. — Addison, você não fez nada de errado. Nada. Eu apontei para o artigo na tela. — Diz que a família Mauricio e a família Bertal são inimigas. — Eram inimigas. Eu bufei. — Você não parecia muito amigável esta noite. O canto de sua boca se ergueu. — Sim. Bem, há uma longa história de derramamento de sangue, mas a partir de agora, a paz ainda está entre nós. — Isso é bom? — É. Mas seus olhos estavam cautelosos, sua mandíbula apertada. Sua boca pressionada em uma linha solene, e eu senti um peso nele. — Você está mentindo. — Eu vi atrás de sua máscara. Seus olhos se arregalaram, confirmando. Sentei, inclinando-me para mais perto dele. — Você não me deixa entrar, mas eu estou começando a ser capaz de lê-lo. Só um pouco. Algo está acontecendo, não é? Entre a família Bertal e a sua? — Addison. — Diga a verdade. — Então uma outra ideia me atingiu. — A menos que você pense que eu sou parte deles. É isso que você acha? Ele balançou sua cabeça. Dor brilhou em seus olhos antes dele mascará-la, como ele sempre fazia. Ele empurrou-se para trás – um centímetro, talvez dois, mas parecia uma rejeição. — Isso é... esse é o outro problema que temos. — O quê? — Eu quero te dizer. Quero falar sobre mim, sobre minha família, sobre meus amigos. Mas não posso. — Por causa de Liam? — Por causa de sua família. Um nó formou-se na minha garganta. — Eles disseram que não fazem parte disso.

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Ele balançou sua cabeça. — Eles estão mentindo. A avó de Liam era descendente direta da família Bertal fundadora. — O que isso significa? — O bisavô de Liam começou seu negócio em família. Havia outros irmãos, mas Bea Bertal era ativa. Ela comandava. Mesmo que os pais de Liam afirmem que não fazem parte do negócio, o dinheiro escorria até eles, até Liam, também. A herança. — O que isso importa? Você disse que há uma trégua. O que isso tem a ver com você e comigo? — Pode não haver paz. Suas palavras tiraram o meu fôlego. Eu poderia ser um inimigo? Era isso que ele queria dizer? — Isso significa que as coisas são complicadas, — acrescentou depois de um momento. — Você e eu. Estamos complicados agora. Minha boca ficou seca. — Você e eu? — Havia um nós para ser complicado? — Você foi embora por um mês. — Eu não pude voltar até hoje. As coisas... ficaram complicadas para mim. — E você não pode me contar sobre isso. Você parou de ligar e enviar mensagens de texto. Você não pode me dizer por quê? Assim como você não pode me dizer nada sobre si mesmo ou sobre sua família, ou mesmo sobre seus amigos. Nada disso, certo? Porque eu estou conectada com a família Bertal, embora eu não seja parte deles. — Eu podia sentir um rubor subindo, cobrindo meu pescoço. Não era o tipo de rubor feliz também. — Você está me mantendo por causa de pessoas que poderiam ser meus aliados? Estou entendendo isso certo? Aliados que nunca me mostraram apoio, que estão me processando. Eu me empurrei para fora do sofá e comecei a andar. Indo e vindo. Eu me abracei, envolvendo meus braços apertados. — Isto é ridículo. Tudo isso. Eu o amava. Eu amava Liam tanto, e eles querem – eu nem sei o que eles querem. Eles querem a casa? É por isso que eles estão me processando? Eles não se importam com a casa. Eles não se importam comigo, só ultimamente.

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— Do que você está falando? — E você. — Eu estendi uma mão, apontando para ele. — Você – todo quente e extremamente bom de cama. Quero dizer, merda. Tipo, porra. Sem intenção de trocadilho. Eu não senti nada por ninguém até você. Você entrou no Gianni’s, e minha melhor amiga ficou gaga por você, e eu também. Quero dizer, você é lindo e malhado. E eu sempre soube que você era perigoso. Eu percebi desde o começo. Escute seu instinto, era o que Liam sempre me dizia. Ele disse que se eu não sei o que estou fazendo, eu deveria ouvir o meu instinto. Bem, meu instinto me levou para o seu pênis, e agora olhe onde estamos. Sua família quer matar minha família e minha família – eu nem gosto da minha família. Eu sou uma Bowman, droga. Eu era uma Sailer, e seu motorista me chamou de Sailer. Por que ele me chamou de Sailer? — Meu o que? — O motorista lá embaixo. Ele me chamou de Sailer. Cole franziu o cenho. — Eu não sei. Essa ordem veio de Dorian. — Eu pensei que ele disse que você disse para ele me levar para casa. — A ordem veio de mim, mas Dorian quem o chamou. — Oh. — Eu limpei minha cabeça. Eu ainda podia sentir aquele rubor; cobrindo meus ouvidos. — Eu era uma Sailer, mas eu não sou mais. Sou uma Bowman. Não importa com quem estive, sempre fui uma Bowman. Eu não sou uma Bertal. Eu não estou com eles. Fui assombrada todos os dias e todas as noites depois que Liam morreu, e só parou quando eu vim para cá. — Eu olhei para Cole, mas era mais do que encarar. Eu tinha tantas paredes malditas. Eu estava cansada das paredes, dos segredos, do não saber. Minha voz ficou rouca. — Eu parei de ouvir a voz dele depois que eu vim para cá. Eu ainda posso senti-lo, mas de um jeito bom – como quando estamos rindo juntos novamente, ou ele quer que eu seja feliz. E as noites com você... Eu não me senti assim em tanto tempo. Você me deu isso. Eu não era a esposa de Liam ou viúva dele naquelas noites. Eu era eu. Eu era Addison. Isso é tudo que eu era, e eu adorei.

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Lágrimas caíram pelas minhas bochechas Eu sussurrei: — Eu vim até você, e os fantasmas me deixaram. Seus olhos escureceram, e ele se levantou. Ele se aproximou, parando logo fora do alcance. Eu podia sentir seu calor. Minhas paredes estavam baixas agora, assim como as dele. A máscara tinha desaparecido, e eu vi a luxúria dentro dele. Eu vi mais, muito mais, mas eu me agarrei à luxúria porque meu corpo estava começando a reagir. Minha boca estava molhada, e aquela dor – a dor que não tinha sido sentida por um mês – começou a vibrar mais uma vez. Eu o queria. Ele sorriu, fracamente, antes de dar o último passo. Seu corpo tocou o meu, e eu fechei meus olhos, saboreando o sentimento. Duro. Forte. E mais, muito mais. — Eu vou pegá-la, — ele murmurou. Ele falou comigo como se eu fosse um animal ferido. Como se ele quisesse me consolar, mas não queria me assustar. Ele estava me acalmando e me seduzindo ao mesmo tempo. E isso era exatamente o que eu queria. Curvando-se, suas mãos tocaram minha cintura, e ele se levantou novamente. Eu me envolvi ao redor dele e segurei apertado. Eu não poderia ter me feito soltar, mesmo se eu quisesse. Eu era dele. Ele era meu. Eu não me importava com o que aconteceria. Eu não podia negar esse sentimento. Eu precisava dele. Ele olhou nos meus olhos. — Agora eu vou te levar de volta para o quarto. — Eu tenho uma ideia de onde isso está indo. Ele respirou fundo, seus olhos ficaram suaves. — Eu vou fazer tudo o que você quer que eu faça. Eu não vou fazer nada que você não quer que eu faça. Se você quer que eu te abrace, eu nunca vou te soltar. Se você quer que eu te beije a noite toda, você vai ter que me comprar hidratante labial de manhã. Qualquer coisa que você queira, eu vou fazer. — Ele me levou para a cama e me deitou. Seus braços nunca me deixaram. Ele se inclinou sobre mim, meus braços e pernas ainda

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envolvidos ao redor dele. Sua testa descansou contra a minha, tão suavemente, combinando com sua voz: — Exceto sair. Isso é a única coisa que eu não farei. — Os olhos dele examinaram meu rosto, estudando cada detalhe. — Vou ajudar você a se tornar Addison mais uma vez. Só você. Apenas eu. Ninguém mais. — E então, quando sua boca tocou a minha, gentilmente, ternamente, ele fez como prometido.

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CAPÍTULO DEZENOVE Cole estava na máfia. A porra da máfia. O sol já começava a entrar. Era provavelmente por volta das sete da manhã, e eu estava ali, completamente acordada, enquanto ele dormia ao meu lado. O lençol deslizou para baixo, descansando um pouco mais alto que sua cintura, me dando uma boa vista. Eu sabia que seu peito e suas costas eram torneados com músculos, mas eu não sabia sobre as cicatrizes. Eu as vi claramente agora, espalhadas por cima dele. Havia dois buracos no peito dele: um em seu ombro e outro mais baixo em seu lado. Inclinei-me e toquei o último. Era maior do que o outro e tinha sido costurado, deixando uma pequena crista onde os pontos sararam. Esse homem – eu estudei seu rosto novamente. Seus olhos estavam fechados, seu corpo relaxado, e ele parecia pacífico. Percebi o pouco que sabia sobre esse homem. Ele era o chefe da máfia, mas o que isso significava? Os artigos que eu tinha encontrado na web diziam que Carter Reed tinha administrado a máfia até o ano passado. Um blog entrou em mais detalhes do que os outros e disse que ele tinha nomeado Cole como o novo líder. Minha mente acelerou. Se havia paz entre a família Mauricio e os Bertals, por que os pais de Liam pareciam culpados de alguma coisa? Eles estavam assustados e

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tensos, e tudo mais, mas havia mais sob a superfície. Carol tinha tido esse mesmo olhar em seu rosto na única vez em que eu a confrontei sobre as mulheres que ela ficava empurrando para Liam. Fui a sua casa, dizer para parar de trazê-las. Ela pareceu envergonhada naquele dia, mas só naquele dia. Eu vi aquele mesmo olhar na noite passada. Talvez não fosse apenas por que a paz não duraria para sempre, como Cole disse, mas por que já estava terminando? Deslizei uma mão no lado de Cole. Ele rolou sobre seu estômago e enterrou a cabeça debaixo do meu travesseiro. Um de seus braços veio descansar em minha cintura, me trazendo para mais perto dele. Eu esperei, mas um segundo depois sua respiração se estabilizou, como se tivesse adormecido. — Seu pensamento está me acordando. — Um de seus olhos se abriu. — Pare de pensar. É irritantemente barulhento. Eu não dormi em três dias, e tudo que eu quero fazer é ficar na cama com você. Vá dormir, Addison. — O que isso significa? — O que significa o que? — Seu braço apertou ao meu redor. Era agradável. — Podemos estar assim? Quero dizer, com minha conexão com os Bertals e com você, bem, você sabe. Cole poderia ter problemas? Eu poderia ter? E o que esse problema significa em seu mundo? Morte? Estremeci com aquele pensamento. — Significa... — Ele pegou minha mão em seu quadril, amarrando nossos dedos juntos. — Que eu não posso compartilhar nada com você. — E se compartilhar? Ele rolou de costas e me observou. Seus olhos escureceram. — Se eu fizer isso, então você estará dentro. Meu estômago virou. — O que isso significa? — Que você será oficialmente uma traidora para seus sogros e todos os outros ligados à vida de Liam.

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Sua mão subiu, cobrindo meu lado, sobre o meu braço, deixando arrepios em seu rastro. Ou talvez fossem suas palavras. Eu estava começando a não discernir a diferença. — Algo acontecerá comigo? Se me colocarem como traidora? Ele balançou sua cabeça. — Você quer dizer, se eles matam você ou algo assim? Deus. Eu não poderia responder. Eu só podia mover minha cabeça para cima e para baixo. — Não. A bola de tensão que se formou no meu estômago afrouxou um entalhe. — Você tem certeza? — Tenho certeza. Eles só vão dar um golpe em você se você tiver algo para me dar, algo que eles não querem que eu tenha. — Seus olhos se estreitaram. Ele parecia estar esperando alguma coisa. — O quê? — Nada. — Ele pegou minha outra mão e me puxou para cima dele. Meus seios esfregaram seu peito e ele envolveu seus braços em torno de minha cintura, me ancorando no lugar. — Nós não podemos publicar, não a menos que você esteja pronta. Tem que ser sua decisão. — O que você quer dizer? — Eles vão cortar você. Não haverá uma ordem sob você, mas eu falei sério. Todos os laços que você teve com a família de Liam serão cortados. Há alguém de quem você gosta? Eu ri. — Não. Nem preciso pensar nessa pergunta. Sempre falei o mínimo possível com sua família. Seu pai nunca se importou com nosso casamento, e sua mãe odiava. Liam não se dava bem com sua irmã, e eu nunca conheci seu irmão mais novo. Sentimos que éramos nós contra o mundo às vezes. O olhar de Cole subiu até meus lábios e permaneceu lá. Ele riscou meu lábio inferior com seu polegar. — Eles não gostavam de você porque você não foi aprovada pela Bertal. Posso dizer-lhe isso. Eu levantei minha cabeça, e ele soltou meu lábio. — Eu nem sei o que é isso.

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— Eles gostam de se casar dentro de sua estrutura de associados. Tenho certeza de que Carol preferia que Liam se casasse com outras mulheres. Você é uma estranha. As de fora são... — Ele hesitou, olhando para mim. — Elas podem ser um risco. — Li alguns artigos que falaram sobre uma pessoa, Emma? Ela está com o seu amigo Carter, o da noite passada. É o mesmo para ela e para mim? Ele balançou sua cabeça. — Não. Emma era uma estranha desde o início. Ela não estava ligada a outra família, e Carter a conhecia há muito tempo. Eles cresceram juntos. É mais difícil com você, porque você está conectada ao inimigo. Se nós fôssemos a público e isto, o que quer que seja, não der certo, você ainda seria olhada como uma traidora. Você escolheu o inimigo. Parecia lógico de algum jeito estúpido, tipo colegial. — Eu não sou conectada a eles de qualquer maneira, então eu não posso imaginar qualquer sentimento pior. Acho que não me importa porque o Liam... Afastei-me dele para sentar na cama. Cole se virou para observar enquanto eu descansava o lado do meu rosto no topo dos meus joelhos. Eu não conseguia esconder minha tristeza. — O sofrimento é uma pílula amarga, não é? Ele grunhiu. Sua mão foi para a minha perna e começou a acariciála – para dar conforto, nada mais. — Eu não estava mentindo quando falei sobre minha família. Eu perdi cada membro da família, um após o outro, até que era só eu. Sofrimento e eu andamos juntos. — Ele sorriu. — Somos velhos amigos. — Eu sinto muito. — Eu não podia imaginar isso. Eu não queria. — Eu queria ir com ele. — Addison — murmurou Cole, sentando-se ao meu lado. Enfiei a testa em meus joelhos. A menina em mim queria fechar os olhos e desaparecer. — Dói começar a viver sem ele. Eu entendo. Eu estava cansada do peso invisível sobre meus ombros. Cole o levantava, sempre, mas desta vez eu decidi que estava pronta para

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escolher deixá-lo ir. Eu tentei dar um sorriso. — Então eu acho que há um nós se estamos falando sobre como não podemos ir a público? — Podemos ser um nós, — ele brincou, — se você não se importar com o que seus sogros fazem. — Mesmo em dias bons, eu não dou a mínima para eles. — Você disse que eles estão processando você? Eu balancei a cabeça. — Eles estão brigando contra o meu direito de vender a nossa casa. Eles estão dizendo que Liam comprou com dinheiro deles, mas ele não comprou. Ele recebeu alguma herança de sua avó, e ele usou esse dinheiro para pagar a casa. — Há um comprador certo? Dei de ombros. — Não que eu saiba. Ele olhou para longe, e eu senti ele se afastando também. — Ei. — Eu toquei em sua mão. — O que você está pensando? — Nada. Isso é estranho. — Ele se sentou e apertou um beijo na minha testa. — Tenho certeza de que não é nada. Eu peguei seu braço. — Por que eu tenho a sensação de que você está prestes a sair desta cama? Seu rosto se aclarou. Tudo o que o tinha perturbado desapareceu, e a suavidade da noite passada voltou. Ele sorriu, e seus olhos escureceram quando ele se inclinou para baixo. Seus lábios tocaram os meus, segurando-os suavemente, como a promessa de uma carícia, e ele murmurou: — Nós não temos que ficar na cama o dia todo. Há outros lugares onde podemos ir. — Como onde... — Eu soltei um grito de surpresa quando ele me balançou no ar e me levou para o banheiro, onde abriu o chuveiro. Eu estava pronta para ele, mesmo enquanto esperava que a água se aquecesse, mesmo quando ele me abaixou até o chão, mesmo quando ele me pressionou contra a parede. Sua cabeça caiu, seus lábios encontraram os meus de novo, e eu o beijei. Mas isso era mais. Já não era sexo. Não era o que tínhamos antes. Havia gargalhadas, provocações, mas havia sentimentos. Havia mais. Éramos mais.

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Eu acho que nós já tínhamos sido, mesmo antes de ele ir embora da última vez.

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CAPÍTULO VINTE Cole saiu duas horas depois, e eu também. Sia me enviou uma mensagem de texto, pedindo que eu subisse ao andar de Jake, mas foi Jake quem me encontrou no elevador com as mãos no ar. Ele usava calças de pijama, meias e uma camiseta enrugada. Metade de seu cabelo estava espetado, e ele segurou um dedo na frente de sua boca. — Sia não sabe, — ele sussurrou. — Sabe o quê? Ele acenou com a mão no ar, como se empurrando para baixo. — Diminua seu tom de voz. Eu realmente não quero entrar nisso com ela. — O que você quer dizer? — Eu estava quase sussurrando, mas olhei em direção a seu quarto. O chuveiro estava ligado. — Eu não acho que ela pode nos ouvir de qualquer maneira. — Eu sei, mas só para ter certeza. — Ele fez um gesto para o canto mais distante, e eu o segui pela sala de estar. Jake se virou de costas para a janela para poder olhar por cima do meu ombro. Depois cruzou as mãos sobre o peito. — Ok. Aqui está o problema: ela está chateada. — O que você fez?

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Suas sobrancelhas se arquearam. — Eu? Nada. Isso é com você. — Eu? — Minhas sobrancelhas subiram também. — O que eu fiz? — É o que você não fez. — Ele inclinou sua cabeça mais perto da minha. — Ela descobriu com alguém ontem à noite sobre seus sogros. Um de seus amigos socialites espionou a conversa na festa. — Mas não falamos sobre a casa. — Não, mas evidentemente esta pessoa lhe disse que você e eu 'parecíamos amigáveis’. — Ele usou seus dedos para as citações no ar. — E ela recebeu o nome de Mahler, e os pais de Liam. Eu acho que eles não estavam na lista de convidados, então ela ficou no telefone por uma hora nesta manhã tentando descobrir como eles entraram. — Mahler provavelmente os levou. — Isso é o que ela descobriu, mas ela está chateada. Muito chateada. Ela queria saber o que eles disseram para você. — Ele deu de ombros. — Eu não sabia o que dizer, então... Minha boca caiu. — Você não disse nada? Por favor, diga que você disse alguma coisa. — Eu não sabia o que fazer. — Seus ombros levantaram quase até seus ouvidos. — Eu disse que havia privilégio advogado/cliente, e ela precisava falar com você. Eu gemi. O impulso de bater na minha testa fez com que minha mão se contorcesse – não, era o desejo de golpear Jake na testa. — Por que você disse isso? Ela provavelmente pensa que é pior do que é. — Por que você não contou a ela sobre o processo? — Porque... — Eu procurei por uma razão. — Eu não sei. Eu realmente não a vi muito ultimamente. Ela está feliz, e se eu dissesse a ela o que Carol e Hank estão tentando, ela ficaria chateada. Não há nada que ela possa fazer, então eu não queria incomodá-la com isso. — Oh. — Ele se endireitou. — Isso é realmente muita consideração sua. Dei de ombros. Eu já estava mentindo sobre Cole. Mentir por omissão a Sia não era nada comparado a isso. — Não me dê muito crédito...

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— Eu consigo ouvir vocês. — A voz de Sia nos interrompeu. Ela estava na entrada da sala, vestida com jeans e um suéter, o cabelo em um rabo de cavalo – parecendo pronta para ir para um almoço casual. Ela parecia refrescada, exceto pelo olhar em seu rosto e os braços cruzados sobre o peito. Ela estava chateada. — Eu quero saber o que diabos aconteceu na noite passada. — Ela se virou para focar especificamente em mim. — Me chamaram e me disseram que algo estava acontecendo na noite passada entre você, meu namorado, e um advogado. Então eu descobri que os pais de Liam estavam lá também. — Ela suavizou sua voz. — Você está bem? Eles disseram algo para você? Eles não deveriam estar lá. Alfred Mahler os levou como seus convidados, e ele é um advogado de alta potência. Beth me disse que teve medo de lhe dizer que seus convidados não podiam participar. — Está tudo bem. Seu nariz enrugou em descrença. — Falo sério, Sia. Eles nem disseram muito. Eu não guardei isso de propósito. Você acabou ficando... — Eu girei meu olhar para Jake. — Preocupada. — Addison. — Sua voz suavizou. — Você pode me contar qualquer coisa a qualquer momento. — Eu sei... — Apenas diga a ela! — Jake jogou suas mãos no ar. — Desculpa. Quero que ela saiba para que possamos conversar. — Ele me deu uma olhada. — Então podemos conversar sobre a outra coisa. — A outra coisa?— Sia ecoou, confusa. A outra coisa era Cole. Meu interior torceu em um nó. Imaginei que Jake tivesse adivinhado que Cole era nosso senhorio, mas eu não apreciava a ideia de ter conversas sobre ele. — Sim. — Eu respirei. — A outra coisa. Sia olhou para trás e para frente entre nós antes de balançar a cabeça novamente. — Certo, alguém começa. Estou morrendo de vontade de saber o que estou perdendo. Missy mencionou que havia dois caras de

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aparência deliciosa na festa, mas ela não pegou seus nomes. — Sua testa enrugou. — Espera. Ela me contou um, mas ela não sabia o outro... — Suas rodas estavam girando, e então ela bateu. Seus olhos ficaram grandes e largos. — Oh, puta merda. De jeito nenhum. Vocês conversaram com Carter Reed? — Ela se virou para Jake. — O Carter Reed, o cara da máfia? Ele assentiu. — E?! Vocês têm que me contar tudo agora. — Ok. Ok. — Levantei uma mão. — Você precisa se sentar, porque eu sei que você vai se preocupar com a primeira parte. — Ela pode se preocupar com a outra parte também. — Jake murmurou, examinando o ambiente. — Você não pode contar nada, Si. Prometa isso. — Hã? Eu ignorei e esperei que Sia se sentasse. Quando ela fez isso, eu tomei outra respiração. — Primeiro, você tem que me prometer que não vai fazer nada. — Por que eu faria isso? — Ela olhou para Jake também. — Por que eu contaria alguma coisa? — Sia, prometa. — Ok. Eu prometo. — Ela desenhou um X invisível sobre seu coração. — Você tem minha promessa. Uma respiração. Então eu comecei. — Meus sogros estavam lá com Mahler, porque ele os representa contra mim. Ela se virou para olhar para Jake, mas manteve-se em silêncio. — E Jake está me representando contra eles. — Qual é o caso? Eu continuei, sem pular uma batida. — Eles estão me processando sobre a casa, mas é um caso de merda. Eles não têm nada de legal para se defender. — O quê? — Sua boca caiu. Eu balancei a cabeça. — Eles estão dizendo que eu não tenho o direito de vender a casa, que Liam comprou com o dinheiro deles.

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— Filhos da mãe! — Sia disse. — Que completos idiotas. Quem eles acham que são? — Ela pulou e começou a andar de um lado para o outro. Suas mãos estavam voando no ar. — E me deixe adivinhar, depois eles vão dizer que você não tem direito a herança de Liam? Aposto que eles tentarão. Aposto que é por isso que eles começaram com este processo. Não me diga – eles tiveram que ver seus extratos bancários? — Ela não esperou por uma resposta. Sua cabeça balançou para cima e para baixo. — Estou indignada com eles. Eu quero expulsá-los de todos os eventos sociais na cidade. Espere. — Ela parou em seco. — Posso fazer isso? Quem está conectado a eles? — E isso nos leva à outra coisa — anunciou Jake. — Que coisa? Sia virou-se para o namorado. Jake olhou para mim e seus ombros se ergueram lentamente antes de dizer: — Nosso senhorio. — O quê? Lutei contra o meu assento. Sia lia postura corporal como nenhuma outra. Se eu começasse a me mexer, ela saberia imediatamente que algo mais estava acontecendo. Eu tentei manter um rosto de pedra. — Cole Mauricio — disse Jake. — Quem? — As extremidades de sua boca mergulharam. — Esse é o nome desse prédio. — Nós o conhecemos ontem à noite também — acrescentou. — Estou confusa. — O olhar de Sia contornou-se entre nós dois. Jake estava esperando por mim, mas eu balancei a cabeça. Eu estava no meio da “outra coisa”, mas eu não queria falar sobre essa. Olhei para o elevador com saudade. Eu poderia escapar. Eu só precisava de um motivo válido para ir. Jake poderia explicar tudo isso sem mim aqui, incluindo as conexões de Liam com a família rival de Cole. Mas quando ele começou a falar, eu não tive uma desculpa boa o suficiente. Eu tinha que sentar e ouvir, e Jake adorou contar tudo a ela. No final, sua boca estava no chão. — De jeito nenhum. Os olhos de Jake brilharam de excitação. — Ele é nosso senhorio, Sia. O chefe da família Mauricio é dono deste edifício.

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— Mas você tem certeza? — Tenho quase certeza, mas podemos desenterrá-lo. Há registros públicos. — Uau. — Ela se inclinou para trás em seu assento, se abanando. — Addison, você tinha ideia? — Sobre Cole? — Minhas palavras estavam fora antes que eu pudesse detê-las. Merda. Eu não tinha a intenção de dizer seu primeiro nome, como se eu o conhecesse. — Eu quero dizer o quê? — Sobre Liam e sua avó. — Oh. — O nó que tinha torcido no meu peito enquanto Jake falava afrouxou ligeiramente. — Não. Eu não tinha ideia, mas faz sentido. — Sim. Ele não gostava de sua família, e você está certa. Ele a manteve longe deles por tanto tempo. Isso faz sentido. Muito sentido agora. Eu assenti, silenciosamente esperando que ela não começasse a falar sobre Cole, mas eu sabia que não tinha sentido. Ele era poderoso, indescritível, misterioso, perigoso e rico. Ele seria o novo projeto de Sia por meses, e Jake parecia animado demais. Ele deveria ter ficado com medo. Cole estava na máfia. E se alguém fizesse algo em nosso prédio para voltar contra ele? — Você está bem morando aqui? Sia expressou minha pergunta, mas ela a dirigiu para Jake. Surpresa brilhou sobre seu rosto. — O que você quer dizer? — A máfia é um grande negócio. Tipo, um grande negócio. Você não tem medo de que algo possa acontecer? Ele encolheu os ombros. — Eu estava puto no início, mas eu não estou na máfia. O cara nunca está aqui, ou eu não acho que ele esteja aqui. Este edifício tem sido bom desde que abriu. O que eles vão fazer? Machucar o dono do prédio? Acho que estamos longe de estar em perigo. Toda a segurança também faz sentido agora. A resposta de Jake foi estranha. Sia estreitou os olhos, então eu me perguntei se ela pensava o mesmo.

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— Além disso. — Jake fez um gesto para mim. — Ela é uma Bertal, e está morando aqui. — Eu não sou uma Bertal. — Basicamente. Minha boca se abriu. — Eu não sou. Os pais de Liam também não. Jake resmungou. — Eu odeio te desiludir, mas eles são. O próprio Mauricio fez alusão a isso ontem à noite. Eles ainda estão lá, Addison. Eles simplesmente não te incluíram. — Jake — disse Sia suavemente. — O quê? — Ele perguntou. Ele não entendeu. Isso não era real para ele. Mas Sia estava preocupada. Eu também, mais do que eles sabiam. Qualquer caminho que eu virasse, eu estava indo para alguém na máfia. Meu próprio dinheiro tinha vindo da máfia – algo em que eu não me deixara pensar. Eu não sabia como me sentia sobre isso, ou o quão certo era manter o dinheiro. Eu teria tantos problemas se o devolvesse. Eu teria que sair, e eu realmente precisaria do dinheiro da venda da casa. Senti uma dor de cabeça se aproximando. Não. Eu pararia de me preocupar até saber mais. Até que as coisas passassem pelo ponto de não retorno. Elas já estão, disse uma voz na minha cabeça. — Eu tenho que ir. — Eu fiquei de pé abruptamente. A preocupação surgiu no rosto de Sia. — Você está bem? — Sim. Uh, eu só tenho que ir. — Minha mão bateu entre eles. — Vocês parecem que precisam conversar de qualquer maneira. Isso é coisa de casal. Sia se levantou comigo. — Você mora aqui também. Você se sente segura? Nos braços de Cole, sim. Fora deles? Ainda sim. Mas quando fomos para o elevador, eu levantei um ombro. — Eu não sei. Este lugar parece separado daquela vida. Nós teríamos notado algo agora se não fosse, e há também Dawn. Se houvesse alguma coisa errada, ela saberia.

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Sim, Dawn. A realização teve mérito. A Dawn que se escondia nos armários, que organizou um plano para descobrir quem era dono do edifício e teve seu banco removido por causa disso. A Dawn que andava por aí, roubava telefones, que provavelmente sabia tudo ou quase tudo o que se passava nesse prédio. Não pensei que ela soubesse sobre Cole. Eu esperava que não, de qualquer maneira. — Sim, eu acho. O tom de Sia não concordava com suas palavras. Apertei o botão para chamar o elevador. — Você está bem? Ela estava mordendo o lábio. Eu apontei para ela. — Você faz isso quando algo está em sua mente. — Bem, quero dizer... — Ela olhou por cima do ombro para Jake, que estava sentado em sua mesa agora, e abaixou seu tom. — Cole Mauricio. Até o nome é assustador. Eu vi a cobertura de notícias sobre Carter Reed. Houve uma guerra da máfia, e algumas aconteceram aqui. Aquele cara era o homem de sucesso, e agora? Ele está fora? Nós realmente não sabemos nada. Sim, estou preocupada. Estou realmente preocupada. Eu não quero perder meu namorado e nem minha melhor amiga. Ele era o assassino deles. Eu tinha lido on-line na noite anterior, mas ouvir essas palavras em voz alta enviou arrepios nas minhas costas. — Jake é um fã da máfia. O geek dentro dele está fazendo cambalhotas. Ele não pode ver isso como a realidade. Alguém realmente perigoso vive aqui. Carter Reed era perigoso. Cole era perigoso. Minha garganta fechou. Cole podia matar alguém, provavelmente já tinha matado... e ele esteve dentro de mim há apenas algumas horas. E eu sabia que ele estaria lá novamente esta noite. E a noite depois, e qualquer outra noite, enquanto eu o deixasse. Eu não acho que eu poderia parar. Eu não acho que eu queria parar.

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— Por que você não está com medo? — Ela agarrou meu braço, segurando-o levemente enquanto se aproximava. — Por que eu sou a única que está nervosa? Porque... Eu tive uma visão de Cole me segurando no chuveiro enquanto ele empurrava dentro de mim. Seus quadris se movendo, segurando os meus enquanto me movia bem junto com ele. Meu corpo aqueceu, e essa dor voltou. Sempre estava lá. Só levava um pensamento, que era ele. Ele era minha droga. — Addison? Eu balancei a cabeça. — Eu não sei. — Você é insana. Vocês dois — disse ela. — Vocês perderam a cabeça. Eu não podia falar por Jake, mas talvez eu tivesse perdido mesmo. Eu disse adeus, prometendo encontrar Sia para o almoço na segunda-feira, e quando o elevador fechou, meus olhos fizeram o mesmo. Recostei-me na parede e senti que o carro me carregava. Talvez eu estivesse louca. Talvez eu tivesse perdido a cabeça. Talvez eu tivesse me apaixonado mais do que eu percebi. Apenas talvez.

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CAPÍTULO VINTE E UM Como Jake previu, os pais de Liam derrubaram o processo duas semanas depois que os vi. Mahler disse que era porque eles perceberam que tinham me causado bastante tristeza. Jake e seu parceiro riram quando as portas se fecharam atrás de Mahler e sua equipe. Um juiz nunca teria permitido que a ação prosseguisse, e todos sabiam disso. Eu continuei a esperar que a previsão de Sia não fosse verdadeira, que eles não o tinham usado para olhar meus extratos bancários como preparação para voltar com uma ação judicial pela herança de Liam. Jake e seu parceiro prometeram que isso não aconteceria. A herança estaria protegida. Eu estava chateada com Carol e Hank, mas isso tinha desbotado para irritação, e quanto mais tempo passava sem ouvir nada sobre eles, até mesmo isso estava começando a se dissipar. Preferi não pensar neles. Durante as duas primeiras semanas depois que Sia soube sobre Cole, ela e Jake dormiram em seu apartamento. Então, mesmo que os fatos não tivessem mudado – Cole Mauricio ainda estava na máfia, e ele ainda era proprietário do apartamento de Jake – de alguma forma a preocupação de Sia desapareceu. Eles estavam voltando a dormir na casa do Jake. Sia e eu nos reunimos para almoçar todos os dias, e eu jantei com eles no Jake um par de vezes, também. Mas nunca os convidei para o meu andar – por causa de Cole.

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Ele veio todas as noites, ou quase todas as noites. Cada vez era diferente. Algumas noites nós jantamos, assistimos filmes. Outras noites fomos direto para a cama. E ainda outras vezes, fomos ainda mais tarde. Cole deslizava na cama ao meu lado. Houve momentos em que eu não podia deixá-lo ir, e noites em que ele agia como se estivesse faminto por mim. Fazíamos o que os casais normais fazem, mas não éramos um casal normal. Eu tentei não pensar no quanto eu sentia falta dele quando ele não estava lá ou como meu corpo doía para tocá-lo, sentir a pressão de resposta de seu corpo contra o meu. Hoje foi um daqueles dias. Eu estava tentando não contar as horas faltando até ele voltar. Eu precisava de uma distração, e verificar o meu e-mail, era perfeito. Addison, Temos uma abertura para a nossa coluna esta semana. Você poderia juntar alguma coisa? Avise-me o mais cedo possível se você puder. Se não, vamos acionar outra pessoa, mas se você puder, vamos guardar esse espaço para você. Atenciosamente, Tina Gais Editora Chefe Onlooker Online Magazine E porcaria. Eu precisava fazer alguma coisa. Eu não podia mais me sentar à toa. Eu estava mais e mais inquieta, e talvez fosse hora de tentar escrever novamente, então eu me encontrei digitando no computador:

Cinco maneiras de mantê-lo fora de seu coração (até que você esteja pronta para deixá-lo entrar)

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Certo, senhoras. Vocês todas conhecem esse cara. Ele é o cara depois do cara. Se você perdeu um marido, um namorado, um amante, ou teve um rompimento que esmagou você completamente, a vida continua. Você tem que seguir em frente também, e se levar dias, semanas, meses ou mesmo anos, eventualmente você chega lá. É quando esse cara aparece. Você começa devagar. Talvez vocês só se vejam no corredor. Então vocês encontram-se vendo cada vez mais um ao outro. Vocês trocam sorrisos. Vocês param e falam um com o outro. Depois disso, pode ser algo mais. Você faz planos. Você segue completamente. Vocês começam a ver um ao outro, e bam! Depois de algumas vezes, você fez oficialmente o que você achava que não era possível. Você. Seguiu. Em frente. Mas aqui está a parte complicada. Como você continua se movendo sem recaída? Como você protege seu coração, evita que você seja esmagada de novo e experimente a mesma agonia que acabou de superar, tudo de novo? Use essas dicas para garantir que você não seja esmagada por esse cara. Conheça seus limites. Não beijar nos lábios ou olhar em seus olhos quando você tem relações sexuais. Isso causa sentimentos. Você vai se sentir íntima dele, e a parede em torno de seu coração vai começar a derreter. Reiterando. Fuja. Não vá lá! Não conte seus medos mais profundos e mais escuros. Quando você compartilha algo próximo e pessoal, você está se abrindo. Isso te deixa vulnerável. Mantenha os lábios fechados. Mude o tópico na hora, para esportes, para uma oferta que sua loja favorita está tendo este fim de semana. Pense em coisas superficiais, como roupas, viagens, hóquei. Não vá para o pessoal a qualquer custo, não até que você esteja pronta. Quando o fizer, ele vai ver o seu caminho ainda mais longe, e a parede em breve estará meio derretida. Não o apresente aos seus amigos. Isso é fundamental! Mesmo que você esteja tentando não ficar muito pessoal com esse cara, eles vão. Eles vão querer saber detalhes sobre ele. O que ele faz? Como é a família dele?

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Você vai se casar? Se você fizer isso, você vai morar em sua casa ou na dele? Ele tem filhos? Ele quer mais filhos? Eles pretendem ajudar, mas é um amigo raro aquele que pode ler os sinais e manter as coisas na superfície para você. E realmente, o que quer que aconteça é culpa sua, porque você os apresentou. Assim como 1 e 2 não faça! Seja egoísta. Mantenha-o para si mesma. Sem encontros familiares. Se você não pode apresentá-lo a amigos, por que apresentá-lo à família? Eles são a definição de íntimo e pessoal. A família é a amiga com esteroides, e eles farão perguntas ainda mais cruciais: sobre religião, como vocês criarão seus filhos juntos, se você vai convidar Tia Timbuktu para o casamento e se seu primo da família da tia Timbuktu vai fazer O solo na cerimônia. Estou gritando com você e agitando as mãos no ar: não faça isso! Não deixe seus pertences na casa um do outro. Seus pertences são representações de seus sentimentos. Se você deixá-los, você deixará parte de si mesma para trás. Mantenha tudo junto. Quando você sair no dia seguinte para o trabalho, leve a sua bolsa da noite com você. E não deixe que ele esqueça suas coisas para trás também. O único item aprovado para a gaveta ao seu lado da cama é um preservativo. Esse pedaço de borracha pode ser usado por qualquer um, então não há nenhum apego sentimental. Soa muito arriscado, mas há uma certeza, uma maneira 100% garantida de manter o seu coração intacto: abstinência de namoro. Só não namore! Compre um vibrador para as noites solitárias e encha suas noites com amigos. Use álcool conforme necessário. Eu era a maior hipócrita do mundo, mas olhando para a tela, eu estava orgulhosa do que eu havia escrito. Eu li novamente, fiz alguns ajustes, e enviei para Tina. Esta foi a primeira coisa real que eu tinha escrito desde o acidente de Liam. Uma súbita necessidade de celebrar me fez pegar meu telefone. Eu não pensei. Eu teclei para Cole: Eu quero fazer algo divertido hoje à noite.

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Bom. Vou planejar. Entre no carro às nove. Carl vai te levar. Meu telefone zumbiu um momento depois. Use jeans, uma camisa e botas de cowboy. Botas de cowboy? Você tem um par? Posso mandar alguns. Eu tenho. Mas botas de cowboy? Confie

em

mim.

Eu

acho

que

você

vai

adorar.

Nos

encontraremos no lugar. Demora uma hora para chegar lá.

E às nove horas daquela noite, Carl estava me esperando no estacionamento subterrâneo. Eu tentei várias vezes fazer com que Cole o deixasse fazer outra coisa; eu não precisava de um motorista, mas ele insistiu. Ele disse que era uma pequena preocupação que ele não teria que sentir mais. Quando eu encontrava Sia para o almoço, eu andava com ela, mas se nós fossemos em algum lugar exceto o Gianni’s, eu mentia e me certificava de deixá-la saber que eu “pedi” um carro para nós. De maneira que: eu avisava Carl quando nós precisávamos dele. Uma pequena voz me atormentava sempre que Carl nos levava. Sia estava com medo de Cole, e um de seus motoristas estava nos levando. Eu não estava pronta para contar a ela sobre ele, e eu sabia que Carl tinha que seguir ordens. Se eu fosse a qualquer lugar sem ele, ele me seguia de qualquer maneira. Então, minha maneira de apaziguar a todos era mentir. Eu esperava que quando Sia descobrisse, ela não me odiasse, e, enquanto Carl dirigia à noite, me levando para fora dos limites da cidade, eu esperava mais uma vez que Sia me perdoasse. Ela ligou mais cedo, querendo que eu fosse jantar com ela e Jake. Se eu dissesse que estava doente, ela iria me verificar, e se eu desse

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qualquer outra desculpa, eles teriam chamado incansavelmente para me juntar a eles na casa de Jake depois do jantar. Eu precisava de uma razão que me tirasse de seu alcance, então eu mentiria mais uma vez. Eu lhe disse que estava checando uma última vez a minha casa. Eu sabia que ela me daria espaço para lidar com isso. Ela sempre me deu. Assim que eu disse isso a ela, eu percebi que realmente precisava verificar a casa. Eu planejei pedir a Carl para me levar lá amanhã. Agora, sentei e vi as luzes da cidade desaparecerem enquanto Carl dirigia. Fiquei sonolenta até que o carro virou para uma estrada de cascalho. Estávamos no campo. Em ambos os lados do carro havia prados verdes, cercados por uma cerca de madeira. As cercas foram pintadas de branco e a relva cortada baixa. Estávamos em um rancho. O carro parou, e Carl veio para abrir minha porta. Nós tínhamos estacionado em frente a um grande celeiro de madeira – vermelho brilhante de dois andares. Sua grande porta estava aberta, e eu podia ver baias de ambos os lados do celeiro com um caminho de cimento grande no meio. Outro celeiro à direita e um grande caminho à esquerda. — O que é este lugar? Carl não respondeu. Voltou para o carro e começou a retroceder. — Addison. Eu virei para encontrar Cole vindo em minha direção em jeans e um suéter preto de capuz que o moldava perfeitamente. Ele não parecia um mafioso agora; ele estava mais parecido com um dono de fazenda. Olhei para baixo e fiz uma careta. Eu apontei. — Você não está com botas de cowboy. — Eu bati meus pés com botas. — Você me disse para usar botas de cowboy. Ele riu. — Eu sei. — Ele pegou minha mão, entrelaçando nossos dedos. Lá estava. Senti o formigamento, como sempre. — Eu queria ver você nelas. Eu pensei que seria bonito.

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Eu apertei nossa mão, não tendo uma resposta pronta para soltar. Tudo estava derretendo dentro de mim. O celeiro estava aquecido quando Cole me levou para dentro, e as primeiras baias seguravam cavalos. Alguns olharam de volta para mim com as cabeças sobre as portas da tenda. Outros se viraram, com suas cabeças penduradas. Alguns comiam o feno que estava pendurado nos cantos das barracas. — O que é este lugar? — Eu perguntei, me aproximando mais de Cole. Ele fez um gesto para um cavalo usando uma manta comprida e drapeada. — Eu tenho uma pista de corrida, mas também monto cavalos. Este é um dos nossos estábulos de embarque. — Você é dono desses cavalos? — Alguns, mas a maioria pertence a outras pessoas. — Avançamos pelo celeiro, chegando a uma porta lateral. Estava aberta, e Cole apontou para a pista de corrida. — Alguns são treinados aqui. Alguns são apenas montados aqui por seus proprietários. — Ele gesticulou para o bosque. — Há trilhas de equitação lá fora. — Quem são os outros proprietários? Ele encolheu os ombros. — Depende. A maioria deles são pessoas da cidade. O outro celeiro guarda os cavalos de corrida, mas alguns proprietários têm seus próprios estábulos. Os estábulos eram intimistas e aconchegantes. Um conjunto de escadas levava ao segundo andar no meio das baias. Cole continuou se movendo em direção à extremidade oposta do celeiro. Um cavalo – todo branco com manchas pretas – pendia a cabeça sobre a sua baia e nos observava chegar. Era maior do que os outros, e quando chegamos mais perto, eu podia dizer que era um cavalo especial. Ele segurava a cabeça com um pescoço grosso e musculoso. Poder ondulava do corpo do cavalo. Lembrou-me de Cole. Cole se aproximou, estendendo a mão para tocar o pescoço do cavalo. — Este é um dos nossos garanhões. Nós mantemos as éguas no outro edifício e os castrados na parte dianteira, de onde nós viemos.

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Aqueles são os carinhas que têm os bocados cortados, se você me entende. Este sujeito aqui nós o separamos, assim nenhuma briga começa. — Ele é perigoso? — Eu não sabia nada sobre cavalos, mas eu podia ver que Cole o amava. E o garanhão permitiu que Cole o tocasse. — Ele pode ser; isso é certo. Mas se ele for bem guiado, ele fica um cara feliz. — Cole gesticulou ao redor do estábulo. — Ele só está aqui à noite. Ele corre com as éguas reprodutoras durante o dia. Temos outros garanhões, mas os mantemos em outro lugar. — Ele é bonito, Cole. Ele sorriu para mim, descansando contra a porta da tenda. — Você queria fazer algo divertido, mas como estamos confinados à privacidade, eu pensei em trazer você aqui. Eu não posso dizer nada sobre minha vida como um Mauricio, mas por um tempo, eu não fui um Mauricio. Este lugar – bem, não este lugar específico, mas outro estábulo – eu passei muito tempo lá. Eu vivi com uma família por alguns anos e ajudei a cuidar de seus cavalos. Comprei este lugar quando voltei. Lembra-me da minha casa, ou de uma de minhas casas de qualquer maneira. Minha boca secou. Havia tanto que eu queria saber, e eu não podia perguntar. Eu não tinha dito sim ainda, para deixar meus sogros saberem que eu escolhi lados oficialmente. Eu não tinha pensado nisso, para ser honesta; mas eu estava me segurando. Eu não tinha certeza do por que, talvez eu estivesse apenas tentando ser cautelosa? Talvez eu só quisesse saber antes que eu estivesse completamente dentro, mas eu queria dizer isso agora. Abri a boca e quase disse, mas não o fiz. Cole apertou sua mão na minha. Seu polegar roçou minha mão, para frente e para trás. Arrepios dispararam em meu braço. — Eu tenho o jantar planejado lá em cima. E o quarto de dormir. Eu queria saber por que Cole tinha me trazido aqui. Eu sabia que havia uma razão, e não era apenas privacidade. Eu o tinha ouvido no telefone o suficiente, interagido com ele o suficiente para saber que ele era decisivo. Ele nunca desperdiçava palavras, e tudo o que ele fazia tinha um propósito.

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Ele me levou lá em cima, e eu tive outra surpresa. O segundo andar incluía uma área de estar, uma cozinha e uma mesa de um lado com um corredor passando pelas escadas. Cole apontou naquela direção e disse: — Há três quartos de dormir lá. Se uma égua estiver parindo, os proprietários vão dormir aqui ou ter um trabalhador dormindo aqui. Tenho um gerente-geral que dirige todo este lugar, e ele também dorme aqui, quando sua esposa o chuta para fora da casa. —- E esta noite? Cole fez uma pausa, seus olhos se lançando aos meus lábios antes de escurecer. — Esta noite é a minha vez. Eu disse a ele que vigiaria os cavalos. Não havia dúvida de que ele pretendia que ambos permanecessem, e esse pensamento me fez doer. Eu já podia antecipar a sensação dele sobre mim quando ele se aproximou. Meus olhos se ergueram. Ele focou em meus lábios, e eu segurei minha respiração, sabendo o que estava próximo. Fechei os olhos enquanto ele abaixava a cabeça, e um segundo depois, seus lábios tocaram os meus. Meu pulso saltou antes de acelerar enquanto sua boca se abria sobre a minha, assumindo o controle. Eu ofeguei, subindo em meus dedos dos pés para pressionar mais plenamente contra ele. — Addison, — ele murmurou, seus lábios movendo-se sobre os meus. Isso me enviou em outra corrida. — Sim? — Eu não abri meus olhos. Eu queria ficar lá, bem onde estávamos. — Você quer ir para a cama ou quer comer? Eu não precisava pensar. Eu envolvi meus braços ao redor dele. — Cama, por favor. Agora.

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CAPÍTULO VINTE E DOIS Deitada, eu só podia ficar lá quando Cole dava beijos na minha garganta até o meu estômago antes de parar e descansar ao meu lado. Até minhas pálpebras estavam exaustas. Eu o observei com olhos pesados enquanto ele sorria para mim. Eu ri baixinho, mas não tinha palavras. Eu não senti a necessidade de dizer nada. Cole passou um braço em volta da minha cintura e enfiou a cabeça no meu ombro. Seus cílios roçaram minha pele enquanto seus olhos se fechavam. Parecia certo estar aqui em silêncio – apenas nós e algum lugar bonito e privado. Mais tarde, muito mais tarde, quando percebi que devia ter adormecido. Cole tinha deixado a luz no banheiro acesa, mas agora estava apagada. — Cole, — eu sussurrei. Seu braço tinha se movido mais para baixo até meu quadril. Ele estava esticado ao meu lado. — Sim? Ouvi o sono em sua voz, mas perguntei de qualquer maneira: — Você apagou a luz do banheiro? Eu não precisei dizer mais nada. Ele saiu da cama em um movimento suave e rápido. Eu não podia ouvi-lo, mas eu podia ver sua sombra no escuro. Ele contornou a cama até chegar à janela,

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pressionando-se contra a parede ao lado. Ele ficou lá, espiando lá fora, e meu peito ficou mais apertado a cada segundo que passava. Algo estava acontecendo. Algo que não era bom. — Cole? — Eu mantive minha voz baixa. — Shhh. — Sua voz foi ainda mais baixa. Então sua mão se moveu, e o luar iluminou algo duro. Ele se aproximou mais, e eu vi o fim de uma arma. Ele tinha uma arma. Cole era da máfia. Isso me golpeou no peito como um atirador. Eu tinha esquecido, ou eu tinha esquecido sobre os perigos que vinham com ele, até agora. O golpe foi feroz, e me acertou. Eu só podia olhar para sua arma. — Vista-se, Addison. Ele não se moveu da janela. Saí da cama e me vesti no chão, fazendo o menor som possível. Quando peguei minhas botas, ele disse: — Há sapatos no armário. Rasteje até lá e pegue um par. Eu o ouvi se movendo enquanto eu saia, e achei que ele estava fazendo o mesmo. Uma vez dentro do armário, eu senti ao redor no chão e encontrei alguns tênis. Puxando-os, eu me arrastei de volta. Meu coração estava tentando achar seu caminho para fora do meu peito. Minha mão roçou a dele quando eu cheguei ao seu lado, e a sua própria veio ao meu ombro. Ele me puxou para trás, só um pouquinho. — Senhor. — Uma voz falou da escada, através da porta fechada. Cole virou-se rapidamente, me bloqueando com sua arma estendida. — Não se mexa. — Sou eu. Carl. Cole baixou a arma, mas manteve os braços retos. Ele descansou a arma a seu lado, apontando para o chão, e deu alguns passos em direção à porta do quarto. — Você está bem? — Estou. — Carl não entrou na sala e nem mesmo abriu a porta. — Não há movimento lá fora. Ambos os celeiros perderam a eletricidade, e a casa do outro lado também está apagada.

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A mão de Cole veio até meu ombro e apertou levemente. — Devemos voltar para a cidade. Vou avisar Ruby que não passarei a noite. — Ok. Estarei no carro, senhor. Carl saiu, e desta vez pude ouvi-lo descer as escadas. Depois de um momento, a porta da frente do celeiro abriu-se quando saiu, atravessando o pátio para o carro. Cole esperou, observando-o ir. Uma vez que Carl estava dentro do veículo e seguro, a mão de Cole caiu do meu ombro. — Ok, vamos l... Mais tarde, eu lembraria que foram dados avisos: as luzes se apagaram. Mais tarde, eu pensaria como deveria haver mais avisos. Como um sentimento, ou uma premonição. Mais tarde, eu perceberia que não tinha havido nada disso, apenas as luzes. Tinha sido isso. Foi chocante quando aconteceu. E eu sabia que o som nunca deixaria minha mente. Eu ouviria isso uma e outra vez pelo resto da minha vida. Antes que Cole terminasse de falar, ouvi o som de vidro se quebrando misturado com estalos rápidos. Quanto mais os pops soavam, mais vidros se estilhaçavam. Eu congelei. Tudo em mim pausou. Eu não conseguia pensar. Eu não podia respirar. Eu não conseguia me mexer. Cole me empurrou para o chão, voltando-se para a janela. Assim que meu rosto atingiu o chão, eu sabia o que aqueles pops eram. Tiroteio – meu cérebro tomou outra batida para alcançá-lo. Alguém estava atirando em nós, mas não, isso não era inteiramente certo. Um zumbido soou em meu ouvido, começando a afogar os tiros e o vidro, mas eventualmente o vidro parou de quebrar. Eles tinham quebrado tudo. Cole saiu. Eu não podia gritar. Minha garganta não estava funcionando, mas eu não queria que ele fosse embora. Em um momento ele estava de volta pressionando algo na minha mão. — Você sabe atirar? — Ele perguntou, apressado.

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— Não. — Minha mão se fechou sobre metal. Ele amaldiçoou, mas levantou minha mão. — Sente-se aqui. Mantenha suas costas para a parede. Se alguém subir essas escadas, você puxa o gatilho. — Ele falou em silêncio, mas ferozmente. — Não aponte esta arma para qualquer lugar, exceto na escada. Se o fizer, tire o dedo do gatilho. Ok? Eu balancei a cabeça. Eu não tinha ideia do que ele estava dizendo. — Mantenha-se viva. — Ele pressionou um beijo duro contra minha testa. — E não atire em si mesma. Pare! Meu cérebro retrocedeu na movimentação, e eu agarrei seu braço quando ele começou a sair. — Onde você vai? — Aqueles homens não acabaram. Carl saiu deste celeiro. Eles vão nos procurar. Eles estão vindo. Eles estão vindo. Suas palavras ecoaram em minha mente. Eu ainda estava processando isso quando ele foi embora. Ele tinha descido pelas escadas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. Agora que era só eu, eu olhei para o que estava na minha mão: uma arma. Meus olhos se arregalaram, mas era isso. Essa foi a minha única reação até que tudo voltou ao lugar. Quando meu cérebro alcançou, eu sabia o que estava acontecendo. Havia homens aqui. Homens que atiraram em algo, e estavam vindo para atirar em mim. Eu recuei contra a parede e dobrei meus joelhos. Descansando meus braços em minhas pernas, segurei a arma com ambas as mãos, e fiz o que Cole disse. Eu a mantive apontada para a escada. Eu não poderia salvar Cole. Ele sabia como salvar a si mesmo, mas eu seria condenada se eu fosse morrer calmamente. Eu fraquejaria mais tarde. Por enquanto, eu ia ficar viva.

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COLE Eu podia ver seis deles, mas isso não queria dizer que fossem apenas esses. Vi enquanto seis homens rodeavam o carro de Carl e disparavam em todas as janelas. Eles tinham feito isso antes, mas com apenas quatro atiradores. Eu sobrevivi a aquele ataque, mas eu sabia que Carl não tinha sobrevivido a esse. E quando os seis homens se voltaram para o celeiro, eu sabia que eles seriam cuidadosos. Eles estavam vindo por mim, mas eu sabia que eles encontrariam Addison, também. Isso não poderia acontecer. Addison tinha me dado sapatos, mas eu não os coloquei de propósito. Eu desci descalço pelas escadas e pelas baias. Eu precisava atingi-los com o elemento surpresa. Eu esperava que eles se separassem para procurar por nós, e depois que eu entrei em uma das baias dos castrados, mantendo uma mão calmante no cavalo, eu os ouvi chamar suavemente um ao outro e soube que eles tinham feito exatamente isso. A porta se abriu lentamente com um rangido, e eu vi as silhuetas de dois homens entrando. Abaixei e apertei a porta da baia. Os cavalos começaram a relinchar quando os homens se aproximaram, e alguns começaram a bater em suas portas. Podia-se sentir a tensão no ar. Meu cavalo pisou de um lado para o outro, mas ele nunca pisou na porta. Ele não iria me machucar, mas seus olhos estavam ficando selvagens ao luar, e ele começou a balançar a cabeça. — Cada porra de baia tem um cavalo. O que devemos fazer com isso? Procurar em cada uma? — Resmungou o cara mais próximo de mim. — Não sei — respondeu o companheiro. — Eu acho que sim. Markay e Gus vão verificar lá em cima. Eles estão esperando por nosso sinal de que aqui está limpo. Eles poderiam vir da porta lateral, depois subir as escadas. Eu não podia esperar.

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Os homens ligaram as lanternas e iluminaram as baias. Estavam fazendo um trabalho rápido, sem se importar em entrar. Eu observei enquanto eles continuavam vindo, verificando as baias ao meu lado, e apontando suas luzes para o meu cavalo. Eles o iluminaram, e ele recuou ao ser cegado. Eu segurei a respiração. Naquele segundo, o cavalo era mais perigoso para mim do que os homens. Passaram suas lanternas pelos cantos traseiros da cabine. O castrado moveu-se para eles, e para mim, mas eles giraram suas lanternas para o feno atrás deles. Já era tempo. Eu escorreguei pela porta da baia e caí no chão. Eu vim por trás deles e puxei uma faca do meu bolso, mantendo-a dobrada contra a palma da minha mão. Os dois homens estavam quase no meio da fileira de baias. Eu escorreguei atrás de um, então estiquei a mão e cortei sua garganta. Seu sangue pulverizou sobre mim, e antes que seu companheiro pudesse reagir, eu agarrei seu ombro e fiz o mesmo com ele. Ambos caíram no chão. Eles não podiam falar, e estariam mortos em minutos. — Ei! Bannon? Carl? Vocês estão bem? — Uma voz chamou do outro extremo do celeiro. Um desses babacas se chamava Carl. Irônico. Agarrei suas lanternas e as segurei. — Estamos bem, — eu gritei de volta, fazendo minha voz mais profunda para corresponder ao que eu tinha ouvido antes. — Um dos cavalos nos assustou. Houve silêncio por um segundo. Então o sujeito gritou novamente: — Sim, ok. Verifiquem cada baia. Continue. As outras duas lanternas estavam vindo em minha direção. Eu tinha que ficar atrás deles, tirá-los da mesma maneira. Eu sabia que os dois últimos entrariam pelas portas laterais a qualquer momento, mas até agora as portas ainda estavam fechadas. Elas não estavam trancadas. Eu tinha fechado antes de levar Addison ao andar de cima, mas eu ia voltar aqui em baixo e trancar tudo para a noite.

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Desligando as lanternas, bloqueei ambas as portas, saindo de um lado para o outro. — Ei! — Os outros dois homens vieram correndo. Eu me estiquei contra uma das baias e esperei. Eles correram e se separaram, indo para as portas. O mais próximo empurrou a porta. — Porra! Ele foi por este caminho? Eu me movi rapidamente, cortando sua garganta no escuro, também. O outro cara girou e sua lanterna e me cegou. — Fique aí, seu filho da puta! Eu me movi, assim as escadas estavam entre nós. — Eu disse PARE! — Ele berrou. Eu esperei agora. Ele precisaria de apoio, quer isso significasse chamar seus amigos ou destrancar as portas. Eu olhei para seus pés, memorizando onde ele estava até que eu o ouvi gritar ao redor. Então me lancei para ele. Ele tinha uma arma apontada em mim, mas sua mente não estava focada em puxar o gatilho. Eu usei isso contra ele, voando pelas escadas. Ele me viu ir para a esquerda e sua arma se moveu para lá, mas eu me abaixei para o chão. A lanterna não podia me acompanhar, e eu o chutei. Ele puxou o gatilho e a bala atingiu o chão ao meu lado, mas ele estava no chão. Eu lutei com ele pela arma, chutando o seu rosto. As

portas

estavam

tremulando

agora.

Os

outros

homens

empurravam contra elas, tentando entrar. — Trinta segundos... — Eu podia ouvir a voz de Carter na minha cabeça. Eu tinha trinta segundos antes de eles se lembrarem de que as outras duas entradas estavam destrancadas e abertas. Então agiriam e estariam em mim. O cara lutando contra mim era mais forte do que eu pensava, então eu virei, colocando meus joelhos de cada lado da cabeça dele. Sua arma estava para cima, mas eu tinha a vantagem agora. Eu bati a mão no chão, e ele se virou com o impacto. Pegando a arma, eu atirei no rosto dele. Ele estava morto instantaneamente. Eu rolei para longe dele e escorreguei para trás contra as baias para que eu estivesse parcialmente

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bloqueado. As portas estavam quietas agora. Eles tinham se acalmado assim que ouviram seu amigo morrer. Meu coração acelerou, mas eu acalmei minha respiração. Eles teriam que vir todo o caminho até a escada do meio para me ver, mas essa era a minha única abertura. Eles tinham a vantagem. Eu tinha que pensar em algo. Enquanto esperava, tirei minha segunda arma. Eu tinha uma arma em cada mão agora. Teriam que me encontrar. Uma lanterna caída apontou para o corredor. Eles viriam por ali, mas ficariam no escuro. Eu me posicionei com minha arma e meus olhos focalizaram aquele ponto porque não havia nenhuma outra maneira de que eles poderiam vir. Não, a menos que eles contornassem por trás e viessem pelos fundos. Eu teria que arriscar. Eu os ouvi antes de vê-los. Sapatos raspando contra o chão de cimento, e eu atirei na escuridão à minha frente. Um grito rouco veio daquela direção, e eu disparei duas balas mais, apontando a arma ligeiramente acima do meu ombro. Uma terceira arma disparou, e depois houve silêncio. Um corpo caiu ao chão com um baque. Todos os seis estavam mortos, mas poderia haver mais. Eu esperei. — Eles estão mortos? Eu girei para encarar o topo das escadas e me virei para encontrar uma lanterna. Eu a acendi na escuridão para encontrar Addison empoleirada na escada de cima, sua arma na mão. Ela ainda a apontava para o homem que estava morto logo além dos meus ombros. Eu amaldiçoei, tomando nota de sua palidez. Seu rosto parecia pálido, e lágrimas escorriam por suas bochechas. Ela perguntou de novo, nem mesmo hesitando contra a lanterna: — Eles estão mortos? A adrenalina da luta ainda me percorria, mas ela diminuiu ao som de sua voz. Eu não queria responder – não por causa do que eu tinha acabado de fazer, mas porque eu não tinha agido sozinho. Ela me ajudou. Ela matou o último.

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— Sim. Eles estão mortos, — eu disse a ela. Eu não poderia poupála de qualquer conforto. — Mas pode ter mais estar lá fora, — eu disse duramente. — Fique aqui. Ela assentiu com a cabeça, e continuou balançando a cabeça. Uma e outra vez. — Você pode parar, Addison. — Ok. — E ela parou, seus olhos ainda sobre o cara atrás de mim. — Eu já volto. Eu me levantei, minhas pernas um pouco trêmulas. Este não foi o meu primeiro ou até mesmo o meu segundo ataque. Eu estive em tantos, e tinha sobrevivido a todos. Eu vivi. Era o que eu fazia. Mas esta foi a primeira vez, ou a primeira que eu me lembro, que eu estive com medo. Addison poderia ter morrido. Eu me virei, indo para a porta. Eu tinha que ver se alguém estava lá fora, e por causa dela, eu sabia que eu seria mais brutal. A necessidade de matar estava mais forte do que nunca.

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CAPÍTULO VINTE E TRÊS ADDISON Eu fiquei. Eu não me movi. Não ousei me mexer. Meus braços estavam retos, e eu segurava a arma com firmeza. Eu tentei manter minha respiração uniforme, mas e se houvesse mais lá fora? Cole estava sozinho – não. Eu apertei meus olhos fechados. Eu não poderia me concentrar nisso. Cole sabia o que estava fazendo. Confie em Cole. Faça o que ele diz. E foi isso que eu fiz. Depois de alguns minutos ele voltou. Eu vi uma faísca de orgulho em seus olhos quando ele olhou para mim, e uma onda de satisfação me percorreu. — Ok. — Cole parou na porta do celeiro. Sua mão foi para seu ombro. — Eu preciso que você faça algumas coisas para mim.

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Fiquei de pé e desci as escadas correndo, ainda segurando a arma. Ele estava respirando um pouco pesado, mas isso parecia normal. Nós acabamos de ser atacados. Certo? — Você foi baleado? — Ouvi-me perguntar. Sua mão nunca se moveu de seu ombro. Não era uma dor que ele estava esfregando. — Fui. — O quê? — Mas atravessou. Eu vou ficar bem. Eu prometo. Meu alarme diminuiu, mas apenas um pouco. — Preciso que você faça algumas coisas. Eu acenei com a cabeça e entreguei a arma para ele, com cuidado. — Estou pronta. — Ok. Primeiro. — Ele fez um gesto para todas as portas. — Eu preciso que você tranque todas as portas. — Ok. — Eu estendi a mão para a próxima a ele. Ele me bloqueou. — Essa não. Nós temos que sair por esta. — Sim. Entendi. — Eu tranquei a primeira, não muito certa de onde o trinco estava, mas uma vez que eu o encontrei, fiz o trabalho mais rápido. Voltei depressa e esperei pela próxima ordem. Ele gesticulou para cima. — Pegue uma lanterna e vá pegar minhas chaves, carteira e telefone. Eu fiz uma careta. — Por que não estavam na calça? — Ele sempre as guardava nos bolsos, mesmo quando dormia. Um sorriso ríspido foi a minha resposta. — Porque eu estava mais focado em tirar as suas. Eu ri, e isso parecia melhor. Eu não estava tão tensa quando peguei uma das lanternas. Cole também tinha uma em sua mão agora. Ele deve ter agarrado enquanto eu estava trancando as portas. — Então, onde estão suas coisas lá em cima? — Perguntei. — No balcão da cozinha. — Certo. — Eu não queria perder tempo, mas eu circulei o andar de cima, certificando-me de que não estávamos deixando nada para trás. Eu não tinha ideia do que Cole estava planejando. Com seus itens na

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mão, eu voltei para encontrá-lo esperando por mim, de pé na porta aberta. Ele fez um gesto para minha mão. — Eu preciso do meu telefone. — Então acenou para que eu guardasse as chaves. — Meu carro está atrás do outro celeiro. — Oh. — Ele queria que eu dirigisse. Eu poderia fazer isso. Eu comecei a sair, mas ele me bloqueou mais uma vez. Sua mão tocou a porta na minha frente. — O que? Ele não respondeu, e eu não pude ver seus olhos. A lua atrás dele lançou seu rosto na sombra. Sua voz era suave quando ele finalmente falou. — Eu preciso que você mantenha sua cabeça para baixo quando você for lá fora. — Por quê? — Você se lembra de quando eles começaram a atirar? Eu assenti, mas minha mente estava em branco. Eu tinha mudado de pânico para o medo de 'vamos começar esta merda, qualquer que seja essa merda’, e eu ainda estava nesse modo. Eu poderia seguir ordens, mas... eu me lembrei agora – eles não tinham atirado no celeiro. Os cavalos teriam fugido. No que eles tinham atirado...? Carl. Meus joelhos se curvaram. Cole pegou minha mão. Ele me puxou para ele, ajustando-me para que minhas costas ficassem diante do carro de Carl. — Não olhe. Por favor. Eu não quero que você pense nisso dessa maneira. Eu abaixei a cabeça, mas eu não estava vendo Carl em minha mente. Eu estava vendo Liam. Estava no cruzamento, esperando. Ele viu o caminhão vindo, me viu, e ele balbuciou: — Eu a... — Addison. — O quê? — Eu olhei para cima. — Você está bem? — Esta não é a primeira vez que eu vejo um derramamento de sangue.

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Cole estremeceu. Eu peguei o mais leve vislumbre dele antes que ele se virasse e me conduzisse através da clareira para o segundo celeiro. Eu queria olhar, mas não olhei. Quando Cole me puxou o resto do caminho ao redor da esquina, eu caí de alívio. Cole começara a coxear. Ele me guiou para o lado do motorista de seu carro. — Você pode dirigir? Eu balancei a cabeça. — Sim. — Minha voz estava malditamente uniforme. Eu queria me dobrar, mas eu não fiz. Eu não podia. Cole me estudou, mas minha resposta deve ter-lhe apaziguado. Ele me deu um aceno de cabeça e foi para o lado do passageiro. Nós dois entramos, e eu liguei o motor enquanto Cole me deu as direções. Quando estávamos em uma estrada, voltando para a cidade, ele pegou o telefone. — Eu preciso que você verifique os cavalos. Nós tivemos que sair — disse ele. Houve uma pausa. — Houve um incidente. Você pode querer esperar um par de horas para que ele seja limpo... Ok. Obrigado. Sua segunda chamada foi: — Fomos atacados. Preciso que você pegue uma equipe; limpe os estábulos... Sim, é o fora da cidade. A terceira: — Estamos voltando. Tenha o kit médico lá em cima pronto... Sim. Eu fui baleado. Passou pelo meu ombro, mas pode haver fragmentos. Minha respiração está mais difícil do que deveria estar. Ele estava tão calmo. Quando eu pensei sobre por que ele não deveria estar, algum do meu controle escorregou. Minhas mãos começaram a tremer, e eu o olhei. Ele notou o meu olhar. — Você está bem? Eu respirei. Seu tom era tão suave, tão carinhoso. Quebrou mais um pouco da minha parede. Eu sacudi minha cabeça em um aceno, focando na estrada novamente. — Eu estou bem. — Você está tremendo. Eu estava? Oh, sim. Minhas mãos. Eu as apertei firmemente no volante e forcei um sorriso. — Viu? Tudo melhor. Estou pronta para ir. — Não. — Ele apontou para o lado da estrada. — Estacione. Eu vou dirigir. — Você está baleado!

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— Posso ir um pouco mais adiante. Um dos meus homens pode nos encontrar no meio. — Ele apontou de novo. — Encoste, Addison. Vamos. — Não. — Falei sério. — Eu estou bem. — Eu revirei meus ombros para trás, me endireitei, e empurrei toda essa merda para fora de minha cabeça. — Eu cuido disso. — Addiso... Eu atirei-lhe um olhar feroz. — Eu disse que cuido disso. Nossos olhos se encontraram, e eu juro que vi uma nova emoção se desvendar nos olhos dele. Eu pisquei, sentindo que a emoção teve resposta em mim, mas eu não podia me concentrar nisso também. Eu limpei minha garganta. — Apenas... me ajude. — O que você precisa? — Eu... — O que eu preciso? Meu corpo estava entrando em choque. Eu tinha que pensar em outra coisa. — Deixe-me falar sobre outra coisa. Não consigo pensar no que aconteceu ou meu corpo vai começar a reagir. Eu... — Isso é bom. — Outra vez veio aquele tom suave. Minha garganta inchou, e eu pisquei, empurrando as lágrimas ameaçadoras. Isso realmente não ajudaria. — Vá em frente. — Acrescentou. — O que você queira falar. Eu não queria falar sobre nada real, então eu comecei a derramar cada pequeno detalhe sobre Sia. Seus homens. O trabalho dela. Como eu odiava ir aos seus eventos. Jake. Que ele era um bom advogado. Que ele estava apaixonado pela minha melhor amiga. Nada estava fora dos limites. Nem mesmo Dawn. Como ela me acusou de trazer Sia de propósito, como elas se uniram sobre algo chamado ponto cruz, como eu realmente não me lembrava de como elas tinham se juntado. Como ela roubara o telefone da Sia. Como ela era a eremita do prédio, e ele mesmo não sabia disso? Mas eu não esperei por uma resposta. Eu continuei falando. Doris e a filha de William. O cachorro dela.

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Ele tinha uma política de cachorro no prédio? Se não, deveria. Cães eram bons. As pessoas adoravam seus cães. Eu poderia trazer Frankie de volta. Então passei a falar tudo sobre Frankie. As luzes da cidade passaram por cima, iluminando nosso caminho enquanto o carro navegava pela rodovia. — Ele apenas ficava ao meu lado, — eu expliquei, continuando sobre Frankie. — Eu estava na cama, ou se eu não suportava o cheiro dos travesseiros de Liam, eu me sentava em um dos outros aposentos. Eu simplesmente me sentava no chão, e Frankie se enrolava ao meu lado. Ele latia às vezes. Ele queria comida, mas eu não podia me levantar para alimentá-lo. Eu sabia que era o que ele queria, mas eu simplesmente não conseguia me fazer ir pegar para ele. Tudo era trabalhoso. Mover. Sentar. Ir ao banheiro. Era apenas trabalhoso. — Aqui está nossa saída — murmurou Cole. Eu liguei a seta e segui a pista, fazendo a transição para a próxima estrada. Sua direção me trouxe de volta à realidade. Ele deve ter percebido isso. — Você está bem? — Ele perguntou. Movi minha cabeça para cima e para baixo. O choque tinha desaparecido, porque agora eu me sentia exausta e entorpecida ao mesmo tempo. Percorremos o resto do caminho em silêncio. Quando nos aproximamos do Mauricio, virei a esquina. Cole apertou o botão e a porta inferior do estacionamento abriu. Dirigindo o carro para dentro, eu estacionei na vaga de Cole e desliguei o motor. Nós entramos, e eu esperava que fôssemos para minha casa. Nós não fomos. Quando eu comecei a ir para o elevador, Cole pegou minha mão e me puxou para outro caminho. Sua mão caiu para o meu quadril, e ele abriu uma porta de saída no canto, revelando outro elevador. Eu sabia que nenhum outro código funcionaria para este. Cole disse: — Abra. As portas obedeceram, e entramos. Havia apenas três botões para escolher. Ele tocou o meio, e nós estávamos nos movendo. Quando as

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portas se abriram de novo, Dorian estava esperando por Cole. Sua cabeça empurrou para trás quando ele me viu, mas apertou seus lábios em uma linha apertada. Cole sentou-se numa cadeira, e Dorian foi direto para o trabalho. Eu não olhei ao redor. Eu sabia que era o lugar de Cole, mas ele era meu foco naquele momento. Minha determinação durou trinta minutos. A exaustão estava me atingindo com força, e em um ponto eu quase caí no chão antes de me controlar. Cole sorriu para mim. — Vá dormir, Addison. — Não sei como chegar lá. Ele apontou para trás. — Siga o corredor. Pegue as escadas até o último andar, e você verá a cama. Ele queria que eu dormisse em sua cama. Eu só pude piscar para ele. Isso significava algo. — Estarei lá daqui a pouco. Eu percebi que Dorian não aprovava. Seu rosto me contou quando entrei, e agora ele se enrijeceu e respirou fundo quando Cole me mandou para seu quarto. Olhei para ele, depois para Cole. Cole sacudiu a cabeça. Ok. Essa foi a minha sugestão de fazer o que ele disse. Eu andei ao redor dele, minha mão tocando seu ombro bom brevemente quando passei. Eu olhei para baixo. Parecia errado explorar a casa de Cole sem ele. Quando cheguei às escadas, segui até o fim. Havia uma porta bem à minha frente. Era o único lugar para ir, e quando eu o abri, vi a maior cama que eu tinha visto em minha vida. Quase gritei com alegria. Quase. Eu me abstive, imaginando que Dorian tentaria me expulsar se soubesse. Em vez disso eu cambaleei para o banheiro e tentei não babar sobre tudo lá dentro. Havia uma banheira de hidromassagem em um canto e um chuveiro de vidro ao longo da parede oposta. Uma cesta de toalhas entre as duas pias. Elas pareciam grandes e quentes o suficiente para me aquecer como um cobertor. Me despi, tomei banho e peguei uma daquelas toalhas. Eu tinha razão. Elas eram aquecidas também. Eu não perdi tempo procurando

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uma camisa para vestir. Rastejei sob os lençóis de Cole ainda embrulhada na toalha. Eu tentei ficar acordada. Queria esperar que ele se juntasse a mim. Havia coisas que eu queria dizer e deitada aqui, eu pensei sobre o que estava acontecendo. Agora, os homens estavam indo para os estábulos. Eles limpariam os corpos, e o vidro. Eles cuidariam de tudo, e o meu trabalho – olhei para a porta. Cole estava lá, com as mãos apoiadas no batente da porta enquanto olhava para mim. Cole era meu trabalho agora. Nós tínhamos mudado. Nós tínhamos estado mudando, mas chegamos a um novo nível esta noite. Cole cuidou de mim. Eu cuidei dele. Éramos uma equipe. Estávamos juntos agora. Senti o sono se aproximando e sabia que não seria capaz de lutar contra isso, mas quando minhas pálpebras começaram a cair, eu sussurrei para ele: — Eu escolhi. Eu escolhi você.

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CAPÍTULO VINTE E QUATRO Eu acordei e só podia ficar lá. Eu tinha disparado uma arma ontem à noite. Eu poderia ter matado um homem. Cole matou cinco deles, e talvez aquele último, também. Eles vieram, atiraram em Carl, e tentaram nos caçar. No final de tudo, eu escolhi Cole. Agora tudo era diferente. Na primeira vez em que eu e Cole ficamos juntos, eu me senti possuída por ele. E eu o reivindiquei de volta. Essa noite tinha sido intensa, mas era apenas o começo. Tínhamos ficado mais próximos e mais conectados cada vez que estávamos juntos. Depois da noite passada, não havia volta. Eu era dele. Ele era meu. Devia ter havido um alarme vermelho gritando em minha cabeça. Cole era perigoso, tão perigoso, e eu deveria estar histérica ou enrolada em uma posição fetal soluçando. A noite passada não foi uma noite normal, para ninguém, mas aqui estava eu – perturbada principalmente por como eu não estava perturbada. A única coisa alarmante para mim foi o quão indiferente Cole tinha sido ontem à noite.

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Olhei e encontrei-o bem ao meu lado. Seus olhos estavam fechados, aqueles longos cílios descansando contra sua bochecha e sua cabeça virando-se ligeiramente em minha direção. Ele era bonito, como um anjo caído, mas tão letal ao mesmo tempo. O curativo sobre seu ombro era um amplo lembrete desse fato. Um arrepio percorreu minha espinha. Ele não hesitou na noite passada, nem por um segundo. Ele ficou calmo o tempo todo, mostrando apenas algum impacto depois de ser baleado. — O que você está pensando? — Ele falou quando abriu os olhos, olhando para mim. Ele estava olhando para mim. Eu não hesitei. — Você me assusta. Havia um brilho de diversão em seus olhos escuros. Ele fugiu agora, e ele levantou a cabeça ligeiramente. — Assusto? Eu assenti, movendo minha cabeça contra meu travesseiro. — Fomos atacados por seis homens na noite passada e sinto que foi apenas mais um dia para você. Sim. Isso me assusta. Ele ficou pensativo, abaixando a cabeça para o travesseiro. Sua voz baixou. — Porque foi. Eu mordi o interior da minha bochecha. Ele tinha mais a dizer. Eu queria ouvir tudo. — Eu falei sobre minha família, mas não entrei em detalhes. — Ele fechou os olhos, apenas por um segundo. Quando os abriu, vi seus fantasmas. Eles estavam bem ali, e ele se lembrava de cada um deles. Sua voz ficou rouca. — Eles mataram meu pai primeiro. Ele ia ao recital de piano de minha irmã. Eles o mataram na rua. Essa foi uma mensagem deles. Eles iriam atrás de nós. — Cole. — Eu coloquei uma mão contra sua bochecha. — Minha mãe foi na semana seguinte. Essa foi a piada sobre nós. Nós pensamos que tinha acabado. Os Bertals declararam guerra quando mataram meu pai, mas nunca percebemos o que estava por vir. Como poderíamos?

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Uma lágrima escorregou do meu olho. Ele deslizou todo o caminho para a minha mandíbula e demorou lá. Eu não ousei falar. Ainda não. Ele continuou, suas palavras raivosas agora. — Ela estava na maldita mercearia. Meu irmão Ben estava com ela, mas ele tinha ido para a seção de revistas. Ele gostava de ver os bebês. — Ele levantou sua boca em um meio sorriso, um que não alcançou seus olhos. Ele não estava me vendo. Ele estava olhando através de mim, lembrando. — Eles não sabiam que Ben estava lá, ou teriam ido atrás dele. Talvez. Ela estava perguntando a um vendedor da mercearia sobre pão quando atiraram. Doze vezes, a queima roupa. Ben correu para os fundos, e nunca o ouviram. Eles não podiam ouvir nada exceto seus próprios tiros. Doze buracos de bala nela. — Cole — eu sussurrei. Minha garganta parecia fechada. — Você não tem que me contar. Sua mão cobriu a minha na sua bochecha. Ele me viu de novo. — Eu preciso. Eu preciso que você saiba quem eu sou. Então ele me contou. Seus irmãos foram abatidos, um após o outro, um por semana. E então sua irmã mais velha, a que tinha o recital de piano onde seu pai foi morto. Eles se esconderam depois que o primeiro irmão foi morto, mas isso nunca importou. Ouvi a dor na voz de Cole, e eu não podia fazer nada para apaziguála. Ele tinha sido despojado de sua família. Eu tinha que escutar, e não podia fazer nada. Nenhuma coisa para afastar essa dor. Então ele chegou aos últimos. Duas irmãs pequenas, gêmeas. Elas estavam em um esconderijo, mas não importa onde se escondiam, os Bertals os encontravam. Uma irmã escondeu-se num armário, apegando-se a um peixe-boi. Ela adorava aquele peixe-boi. Cole riu, mas mesmo aquele som partiu meu coração. Foi mais um breve adiamento, como o riso de um moribundo quando lê um biscoito da sorte dizendo que viverá uma vida longa e próspera. Era um som oco, mas ele continuou. A outra irmã tinha ido para o telhado. Eles a acharam

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agarrada ao lado da casa. Quem olharia sobre a borda do telhado? Eles tinham, e ela não foi baleada. Eles tinham pisado em seus dedos até que ela soltou. — Eu era o próximo até que Carter se desviou. — O que você quer dizer? — Dói respirar. — Ele deveria me proteger, mas ele viu o que estava acontecendo. Havia um traidor na família, então ele me levou embora. Ele não contou a ninguém. Eu vivi porque ele desafiou as ordens, ele se desviou de seus deveres. — Foi quando você trabalhou com cavalos. Ele assentiu, respirando profundamente. — Carter salvou minha vida. Eu fiquei afastado por cinco anos até que eles me encontraram. Eles me foderam. Enviaram quatro homens e circularam o carro, como fizeram com Carl. Eu estava com uns amigos naquele dia, amigos normais que não tinham ideia de quem eu era. Eles morreram. Eu vivi. Eu saí, e matei os fodidos. Então eu voltei e matei mais deles. — Um brilho duro apareceu em seus olhos. — Recolhi meu lugar nesta família. Meu pai era a cabeça. Agora eu sou. Ele olhou firme para mim. — Não vai funcionar — eu murmurei, minha mão ainda descansando contra sua bochecha. Eu esfreguei meu polegar de um lado para outro, com ternura. — Eu deveria estar com medo. Eu sei. Eu deveria ter ficado com medo quando te vi pela primeira vez entrando no Gianni’s. Você e aqueles homens – eu soube imediatamente que você era perigoso. E eu deveria ter ficado com medo quando vi você no elevador, quando você estava segurando Carl. E ele estava sangrando. O próprio sangue é suficientemente assustador, mas nunca aconteceu. O medo nunca veio. A única coisa que me assustou foi quando eu conversei com você, quando senti o quanto você poderia me afetar. — Eu sorri, fracamente. — Ainda assim, para ser honesta, não. Não tenho medo de quem você é. Eu não tenho medo do que você pode fazer. Eu não estou com medo do que significa estar ao seu lado. Eu só estou com medo de

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quanto eu não posso ficar sem você. Isso me aterroriza, até o osso. Mas eu ainda estou aqui. Não posso me afastar de você. Uma luz entrou em seus olhos. Queimando mais brilhante com cada palavra que eu falei. — As pessoas morrem ao meu redor. — Que assim seja. — Você poderia morrer. — Não faz muito tempo, eu estava a meio caminho. Ele fechou os olhos e exalou uma respiração longa e trêmula. Ele olhou para mim, e aquela luz não tinha diminuído. — Eu mato pessoas. — Eu poderia ter matado uma ontem à noite. — Não. — Ele balançou a cabeça contra o travesseiro. — Seu tiro não o matou. Foi o meu. Eu atirei duas vezes na cabeça dele. Não você. Não leve isso para você. Não é seu para carregar. Minha mão se moveu, e meu polegar foi para seus lábios. — Obrigada por salvar minha vida na noite passada. Seus olhos escureceram. — Você estava nessa situação por minha causa. Não me agradeça por isso. — Eu não me importo. — Você deveria. Mas eu não. Nenhum pensamento tinha peso dentro de mim quando eu estava ao redor de Cole. Meu corpo era atraído para o dele, tinha sido desde o início, e quando ele se moveu sobre mim, seus lábios encontraram os meus, e eu sabia que o que eu disse era verdade: eu não podia me afastar dele. Seus lábios desceram pela minha garganta. Nada poderia me arrastar para longe.

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CAPÍTULO VINTE E CINCO Poucas horas depois, acordamos novamente. O elevador de Cole estava zumbindo repetidamente, como se alguém estivesse encostado no botão. Cole saiu da cama, xingando em voz baixa. Ele puxou uma calça e saiu descalço da sala. Verificando o relógio, eu vi que tinha passado do meio-dia. Bom Deus. Era hora de levantar. Eu tinha tomado banho na noite anterior, mas tomei banho novamente. Encontrei shorts no armário de Cole e peguei uma camiseta. Eu não acho que ele se importaria. Então tentei me lembrar para onde todas as minhas coisas foram ontem à noite. Eu tinha agarrado tudo quando peguei suas chaves, carteira e telefone. Tinha levado minha bolsa para os estábulos, e eu a tinha colocado sobre mim – no seu carro. Eu coloquei no banco de trás dele. Tudo estaria lá, incluindo meu telefone. Eu estava hesitante em deixar o quarto. De alguma forma, ele se tornara nosso santuário privado, mas eu tinha que enfrentar o mundo real. Eu estava vindo ao virar da esquina quando Cole quase me encontrou, vindo em minha direção. Suas mãos me pegaram, me segurando na cintura, e ele me impediu de bater em seu peito. Ele estremeceu, mas era isso. Ele tinha

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sido capaz de estar comigo antes, como se sua ferida não o incomodasse. Eu vi agora que sim. — Desculpe. — Minha mão descansou em seu peito. — Eu deveria ir. Acho que minha bolsa está em seu carro. — Eu estava vindo para te pegar. — Estava? Ele gesticulou por cima do ombro dele. — Dorian está aqui para você. — Para mim? Dorian? Ele assentiu. O tempo desacelerou. Não havia nada dramático sobre isso, mas eu sabia que não era bom. Dorian não teria vindo para um — Ei, como você está? — Havia uma tempestade chegando. Eu senti isso no meu interior. Quando virei a esquina e me aproximei dele, meu estômago estava certo. Ele estava fechado. Eu achei que Dorian gostasse de mim no começo, mas desde aquela manhã que ele acordara Cole na minha casa, as coisas tinham desmoronado. — Sua amiga tem tentado se comunicar com você. — Minha amiga? — Senhorita Clarke. Meu alarme disparou. — Sia? Qual o problema? — Você sabe onde está seu telefone, Sra. Sailer? — Ele olhou para Cole quando disse meu nome de casada. Cole grunhiu, recostando-se contra um balcão da cozinha. — Pare de ser maldoso, Dorian. Ele não respondeu. Seus ombros se ergueram em um movimento lento antes de relaxar de volta. Ele nem piscou quando me disse: — Ela me ligou há dez minutos com o pedido de abrir suas portas. Ela está preocupada de que algo esteja errado. Você não está atendendo seu telefone desde ontem à noite.

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— Oh, não. — Eu me afastei. Isso não era bom. — Sia está me ligando desde ontem à noite? — Eu amaldiçoei e me virei para Cole. — Preciso do meu telefone. Tenho que ligar para ela. Ele assentiu com a cabeça, endireitando-se do balcão. — Eu vou pegar para você. — Ele pegou suas chaves e apertou meu ombro quando passou entre mim e Dorian. Assim que as portas se fecharam atrás de Cole, Dorian falou novamente. — Ela disse que a polícia a ligou. Houve uma invasão em sua casa – em sua outra casa. Fiquei desconfiada. — Por que você está me contando isso? — Eu não acho que uma pequena desculpa que você se sentiu mal na noite passada, ou que esqueceu seu telefone na pista de corrida, vá satisfazer sua amiga. Ela tem insistido muito em encontrá-la se estiver no prédio. — Ela está no Jake? — Não. Ela está na delegacia. — Merda. — Era pior do que eu imaginava. — Uma invasão? Mesmo? Sua cabeça mal se moveu em um aceno de cabeça, e depois de um minuto de silêncio, o elevador quebrou a tensão. Cole havia retornado. Ele tinha meu telefone na mão, junto com minha bolsa. — Aqui está. — Quando eu peguei e usei meu código para ligar para Sia, ele disse a Dorian: — O que foi? — A Sra. Sailer pode contar o resto. — Dorian saiu com todo seu glúteo tenso, e pescoço rígido. Ele me deu outro olhar de desaprovação antes que o elevador o levasse embora. — O que ele disse? — Perguntou Cole. Mas nesse momento Sia respondeu, e eu me virei. — Olá?! Addison! — Ela parecia histérica. — Sim. — Eu bati no alto-falante, segurando o telefone para que Cole pudesse ouvir. — Estou aqui. Eu sinto muito. Perdi meu telefone ontem à noite. O que aconteceu? — Sua casa foi arrombada!

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Isso ainda não fazia sentido. — O que? — Um dos seus vizinhos chamou a polícia, e quando a polícia não pôde encontrar você, eles me ligaram. Eles tinham minhas informações do acidente de Liam. Addison, onde você esteve? Eu tenho telefonado sem parar desde ontem à noite. — Dorian disse que você está na delegacia? — Eu ignorei tudo que ela perguntou. — Não. Eu estava antes. Ah, não. — Onde você está agora? — Estou no Jake. Tentamos entrar no seu andar, mas é impossível. O elevador não se moveu. Eu finalmente liguei e assediei o seu gerente do prédio. Addison... — Sua voz se acalmou, mas tornou-se cautelosa. — Os policiais estavam me fazendo todos os tipos de perguntas. Eu fiz uma careta. — Como o que? — Quando eu disse a eles onde você estava vivendo agora, eles ficaram estranhos. Uma forma diferente de alarme surgiu. Eu compartilhei um olhar com Cole e agarrei meu telefone mais forte. — O que você quer dizer? — Quero dizer, como, no começo eles estavam agindo como se fosse algum tipo de invasão normal, quase como se não fosse grande coisa. Então no segundo que eu mencionei que você estava morando no Mauricio, suas cabeças literalmente se levantaram. Um dos policiais saiu da sala e voltou com um detetive. Isso é normal? — Ela sussurrou para o telefone, — Eles perguntaram se você conhecia Cole Mauricio. Minha garganta ficou seca. — O que você disse? — Eu disse sim. Quero dizer, você o conheceu naquele evento. — Mas foi isso? Foi só isso que você disse? — O que mais eu diria? Não é como se vocês fossem amigos. Eu era uma amiga de merda. — Oh, sim. E Jake. — Sua voz aumentou novamente em volume. — Eles conversaram com ele, também. Eles o puxaram para uma sala de interrogatório. Claro, eles disseram que não era um interrogatório, mas com certeza parecia ser um. Eu podia ver a coisa toda de onde eu estava

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sentada. Jake me disse que estavam perguntando há quanto tempo ele se mudou para o prédio, se ele conhecia Cole Mauricio antes disso, todos os tipos de perguntas. — Você contou a eles sobre os pais de Liam? — Não. Por que deveria? Espera. Eu deveria ter contado? — Não, não. — Minha mão afrouxou seu aperto no telefone. — Ok. Hum, eles lhe deram um número para qual eu deveria ligar? — Sim. Aguenta aí. Eu peguei. — Houve silêncio, então ela falou novamente. — Espera. Vou descer. Eles querem que você ligue e eles querem encontrar você em sua casa. Você precisa passar lá e avisar se alguma coisa está faltando. Você ainda tinha algumas coisas lá. — Um... — Uma dor de cabeça começou a se formar. Eu estava descendo por um caminho descontrolado, e isso levou a uma interseção desagradável com o mundo de Cole. Cole murmurou para mim: — Diga a ela para esperar. Você vai ligar para ela de volta. — Ele fez uma moção de segurar um telefone em sua orelha e pendurá-lo, então apontou para o meu telefone. Eu balancei a cabeça. — Peraí... eu acabei de acordar. Deixa eu me vestir e tomar banho. Estou meio chocada. Te ligo daqui a pouco. Ok? — Tem certeza de que não quer que eu desça? — Tenho certeza. Eu te ligo. — Ok. Cole pegou o telefone e apertou o botão de encerramento. — Eles vão perguntar sobre mim. — Estou ciente. Meu estômago estava em nós. Estava torcido, apertando mais com o que Sia me disse, mas isso era inevitável. — Eu te escolhi na noite passada, — eu o lembrei. — As coisas estavam aquecidas. Eu salvei sua vida. Você me ajudou. Você pode ter dito algo de que lamenta agora. Sua amiga chamou você, e você poderia estar se lembrando de como a vida era sem mim. — Sua voz suavizou. — Eu não iria culpá-la se você quisesse ir embora. Você pode. Ainda há tempo.

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— E o que? Mentir sobre te conhecer? Ele balançou a cabeça, seus olhos segurando os meus. — Diga a verdade. Você me conheceu. Tivemos um lance, e foi isso. Termina agora. Tudo termina agora. Você ainda pode sair. Mas eu não queria sair. — Eu sei que é a coisa certa a fazer. E sei o que significou na noite passada quando eu escolhi você. Eu ainda sei. E eu sei que devo ir embora, mas não posso. — O nó soltou com cada palavra que eu disse. — E mesmo se eu fizer isso, e nós terminarmos isto – vai levar uma noite de solidão, e eu sei que você estará na minha cama. Uma noite. Uma chamada. Isso é tudo que eu tenho que fazer. Vamos começar tudo de novo. Seus olhos se endureceram. — Não se eu me afastar de você. Aquelas palavras doeram. Não deveriam, mas doeram. Eu respirei. — Eu não sei se eu poderia lidar com isso. Seus olhos se suavizaram novamente. — Eu não sei se eu poderia ir embora também. — Bem. — Minha cabeça pendurou. — Aí está. — Eu comecei a ir em direção ao elevador. — Espera. — Cole agarrou meu braço. — Eu tenho policiais em minha folha de pagamento. Sua amiga vai descobrir, mas posso atrasála. — Do que você está falando? — Eles vão fazer perguntas, mas eu posso levar meus caras lá. Eles podem separá-la de sua amiga quando você estiver sendo interrogada. — Eu... você tem certeza? Ele assentiu. — Deixe-me fazer isso para você, pelo menos. Você pode dizer a sua amiga em seus próprios termos então. Você pode controlar isso, pelo menos. — Obrigada. — Sua mão deslizou abaixo em meu braço até a minha mão. E eu apertei. Eu estava muito consciente de que, se isso acontecesse daqui a alguns meses, Cole estaria ao meu lado. Ele andaria pela minha casa

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comigo. Eu não teria que fazer isso sozinha, mas agora era muito cedo. Muito cedo. Eu tinha que fazer isso sem ele. Um pouco mais tarde, encontrei Sia no saguão, e andamos juntas em um carro que Ken “chamou” para nós. Eu não olhei para o motorista. Eu sabia que não era Carl.

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CAPÍTULO VINTE E SEIS Não faltava nada. Atravessei a casa com dois detetives. Um era alto e o outro era de altura média, talvez um centímetro mais alto do que eu. Cada um estava em seus quarenta e poucos anos, ou então eu adivinhei com base em como eles estavam abatidos. Eles tinham olhos redondos e foco como de um falcão, centrado direito em mim. Era desconfortável, mas fiquei aliviada ao descobrir que nada havia desaparecido. Eu tinha levado tudo o que tinha valor sentimental comigo quando me mudei, eu expliquei. Nada que sobrara era particularmente importante para mim, mas ainda era um alívio saber que eu não tinha sido roubada. E fiel à palavra de Cole, quando os detetives começaram a me questionar, um policial veio e levou Sia para longe. Eu não pude ouvir o motivo que ele deu a ela, mas ela me lançou um olhar confuso e o seguiu pela sala. Eu estava pronta. As perguntas difíceis estavam chegando agora. — Tem certeza, senhora Sailer, de que nada está faltando? — Você pode me chamar de Addison.

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— Você não atende mais pelo seu nome de casada? — O mais alto inclinou a cabeça para o lado. Ele se apresentara como Reyes. Eu tentei lembrar o outro... talvez Smythe? — Atendo por Addison. Smythe, ou o que quer que seu nome fosse, perguntou: — Há uma razão para isso? Normalmente, quando as pessoas mudam de nome, há uma razão. Eles estão vendo alguém novo, ou não querem ser associados com o nome antigo. Algo assim? Eu sabia o que ele estava perguntando, mas eu não reagi, apesar da irritação começando a ferver dentro de mim. — Meu marido morreu há mais de um ano. Eu acho que estou me acostumando lentamente a ser apenas Addison agora. O que isso tem a ver com alguém entrar em minha casa? — Estamos apenas tentando entender suas circunstâncias, encontrar uma conexão ou motivo que possa explicar isso, — Reyes disse suavemente. — Então, você acha que isso é minha culpa? — Eu respondi. Inacreditável. Eles me ignoraram. Reyes gesticulou por cima do ombro, onde Sia tinha ido. — Sua amiga disse que você se mudou para o edifício Mauricio. É um lugar muito caro. Seu parceiro grunhiu. — E exclusivo. Eu não teria ideia de como entrar lá mesmo se eu quisesse. Eles sorriram um para o outro, talvez pensando que eu não sabia para onde estavam indo com essas perguntas. Levantei meu queixo e revirei meus ombros. — Basta perguntar o que você quer perguntar. A simulação de diversão tinha desaparecido. Seus olhos de falcão voltaram. O mais alto estreitou o dele. — Conhece Cole Mauricio, senhora? Senhora. Eles até derrubaram o primeiro nome. Uma sensação de frio se esgueirou. — Sim, eu conheço.

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— Sua amiga disse que você se encontrou com ele em algum evento. Uma dessas angariações de fundo social. Isso é verdade? — Ele estava lá, sim. Eles me estudaram e os senti me reavaliarem. Smythe perguntou calmamente: — Foi aí que você conheceu Cole Mauricio? — Ele não foi apresentado ao grupo. Alfred Mahler conversou com ele e seu companheiro. Então Cole disse algumas palavras para as outras pessoas que estavam conosco. — Outras pessoas? Quem eram eles? Respire fundo, e aqui vamos nós. — Os pais do meu falecido marido. Ambos olharam para mim, firmes e com atenção. Eles não esperavam isso. Eu

balancei

a

cabeça.

Eu

prefiro

ex-sogros.

Não

relacionamento. Reyes escreveu algo em um bloco de papel. — É assim que você conhece Cole Mauricio? — Eu o conheço porque moro no prédio dele. — Sua amiga está saindo com um dos outros moradores, e ela não o conhecia. Eu levantei um ombro. — Há uma pista de corrida lá dentro. Estávamos ambos correndo um dia. Foi onde eu o conheci. — Eu estava disposta a dizer a verdade, mas eu seria condenada se eu apenas a entregasse livremente. O homem de porte médio mudou de posição, me olhando. — Sua amiga disse que você e seu marido estavam separados da família dele. — Isso é verdade. Sim. — Você já conheceu a avó de seu marido? Eles estavam indo para a rota Bertal. Eles não iriam perguntar se eu conhecia Cole em um nível pessoal. O alívio quase me dominou. Meus joelhos ficaram fracos, e movi minha cabeça de um lado para o outro. —

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Não. Eu nunca a conheci. Liam era... ele não queria que eu a conhecesse. Isso era óbvio. — E você nunca o questionou? — Eu o amava. Se ele não queria que eu a conhecesse, havia uma razão para isso. Eu confiei nele. Reyes pôs a caderneta no bolso interior do casaco. — Você sabia que a avó de Liam era uma Bertal? — Sim, mas não até a noite do evento. — Eu poderia dizer isso. Eu sabia que não tinha nada a ver comigo. — Cole Mauricio disse o nome, e eu não entendi a implicação. Procurei por Bea Bertal na internet naquela noite. — A internet? — A boca de Reyes se contraiu. — Você descobriu sobre a família do seu marido falecido pela internet? — Sim. — Eu fiz uma careta. — Por que você está surpreso com isso? — Você nunca pensou em procurar sua família antes? — Por que eu deveria? Nós fomos felizes. Liam era um conselheiro. Eu escrevia como freelance. Não havia motivo para suspeitar. Ele encolheu os ombros. — Acho que sim. Eles compartilharam outro olhar antes de balançar seus olhares para mim. — Existe alguma coisa que devamos saber, Addison? — Reyes perguntou. — Sobre o assalto? — Eu balancei a cabeça. — Não. Posso te fazer uma pergunta? — Vá em frente. — Por que há dois detetives nesse caso? Não seria um protocolo normal que um policial tomasse minha declaração? Ambos reagiram, as máscaras ilegíveis batendo em seus rostos. Reyes tossiu. — Estamos apenas sendo minuciosos. Se você achar que alguma coisa foi levada, nos avise. Caso contrário, parece que nenhum mal foi feito. Não temos muito a fazer. — Sim. Poderia ter sido apenas adolescentes procurando uma casa vazia para se divertir. — Smythe apontou para um canto desprovido de

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móveis. — Às vezes eles vão procurar em sites imobiliários para ver quanto tempo uma casa está listada. E se ela está vazia, eles fazem uma grande festa. Embora, — ele pensou, — não pareça isso. Eles partiram logo depois disso, e Sia juntou-se a mim na cozinha, observando-os atravessar a porta. — Aquilo foi estranho. Eu resmunguei meu acordo. — Então, nada está faltando? Os detetives entraram no carro e se afastaram. O carro da polícia que tinha vindo com eles seguiu atrás. Virei-me para Sia. — Eu realmente não acho que esteja. Nada se destacou para mim. — Oh. — Ela mastigou seu lábio inferior, olhando ao redor da casa vazia. — Este lugar me dá os arrepios às vezes. — Seus olhos ficaram grandes. — Oh, desculpe, Addison. Eu não quis dizer isso. Eu balancei a cabeça, suspirando. — Também me dá calafrios. Venha. — Eu uni nossos braços enquanto caminhávamos para a porta. — Foi um dia estranho. Vamos fazer algo divertido. Ela agarrou minha mão, entrelaçando nossos dedos. — Eu pensei que você nunca perguntaria. No Gianni’s? — Vamos tentar um lugar novo. — Eu tenho o lugar perfeito. — Um sorriso esticou sobre seu rosto enquanto ela desceu para o carro. Fiquei atrás para trancar a porta. Eu sabia que eventualmente ela me questionaria sobre onde eu estava ontem à noite, mas até agora ela só parecia aliviada que nada estava faltando e eu estava bem. Talvez ela tivesse esquecido onde eu tinha dito a ela que eu estava indo. Eu me aproximei dela e olhei para a casa enquanto o motorista se afastava. Eu queria voltar mais tarde, mas com Cole em vez disso. Olhei para Sia, sorrindo até me lembrar do álibi da noite anterior. Eu disse a ela que estava em minha casa ontem à noite.

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Quando estávamos de volta à cidade, Sia deveria ter ido trabalhar, mas ela não foi. Ela tirou o dia de folga, declarando-o Dia da Melhor Amiga. Para mim. Para a melhor amiga idiota. Para amiga que estava mentindo para ela. Fomos para um novo restaurante. Nós rimos. Nós bebemos. Porra, ficamos bêbadas. O dia, por toda a loucura que tinha acontecido, foi divertido. Sia tirou minha mente de tudo: Cole, o ataque, minha casa. A única coisa que não foi divertido sobre o dia foi eu. Sia tinha a intenção de me celebrar, enquanto eu estava mentindo na cara dela. Como eu poderia fazer isso na minha cabeça? Como eu poderia tentar? Eu não podia. Não havia palavras, nem maneiras. No final do dia, quando estávamos rindo e tropeçando sobre nós mesmas, ao entrarmos no elevador, eu sabia quem era a vilã: eu. Sia estava sendo minha amiga, como sempre. Eu não estava fazendo o mesmo. Não. Babaca. Era eu. Ela me ajudou a ir para casa, e eu caí no chão. — Oomph! — Eu não senti nada. Eu levei apenas um susto, e risos saíram de mim. Sia caiu ao meu lado, rindo também. — Somos horríveis. — Não. — Eu apontei para ela, meu dedo pressionando em sua pele. — Fizemos o que cada pessoa assaltada deve fazer. Ela bufou, lutando contra um sorriso. — Perder tempo? — Sim. — Eu ofereci um aceno enfático. Queria dizer negócio. — E quando você for assaltada, eu farei o mesmo. — Gastar um salário em uísque barato? Sentei e respirei. — Você gastou um salário? Um inteiro? Ela rolou ao redor, arqueando as costas enquanto mais risadas vieram dela. — Deus, não. Eu te amo, Addison. Provavelmente gastei duzentos dólares esta noite. Eu toquei sua mão. — Eu pagarei você de volta. Prometo. — Não. — Ela balançou a cabeça, quase batendo-se enquanto ela lutava para sentar. — Eu te devo, e estou fazendo o que uma amiga deveria fazer. Estou tirando sua mente das coisas.

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Eu soltei um suspiro. — Você realmente está. — Eu puxei sua mão para o meu peito. — Obrigada, amiga. — Sem problema. — Sua risada secou. Sua voz ficou sombria. — Você faria o mesmo por mim. — Faria? — Addison. — Ela inclinou a cabeça. — Você sabe que sim. — Eu não sei mais, — eu disse, falando principalmente comigo mesma. — Ah, Addy, — ela murmurou, correndo para frente. Ela envolveu seus braços em torno de minha cintura e colocou sua cabeça em meu ombro. — Você perdeu seu verdadeiro melhor amigo. — Ela moveu sua mão para descansar sobre meu coração. — Ele está aqui agora. Eu só posso esperar deixá-lo orgulhoso, mas você está se desacreditando. Addison, você é uma amiga incrível. Você está autorizada a lamentar a perda de sua alma gêmea, não importa quanto tempo demore. E confie em mim, eu estou tentando atualizá-la aqui. Estou aflita, sabe, desde que certo vizinho entrou em minha vida. Eu ri baixinho, inclinando-me contra ela. — Obrigada, Sia. Ela descansou o queixo no meu ombro, me segurando mais uma vez. — Obrigada por me fazer sentir melhor. — Sem problema. — Ela pressionou sua bochecha na minha. — É o que os verdadeiros amigos fazem uns pelos outros, não importa que merda tenha batido no ventilador.

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CAPÍTULO VINTE E SETE — Sou uma má amiga. Cole estava na minha cozinha, fazendo ovos mexidos no meu fogão. Ele fez uma pausa para franzir o cenho para mim. — O que você quer dizer? — Sia esteve lá para mim tantas vezes, e eu estou mentindo para ela sobre... — Eu acenei para ele. — Você sabe. — Se dê uma pausa. — Desligando o fogão, ele colocou os ovos mexidos em um prato e veio em direção à mesa. Ele agarrou dois garfos no caminho e se sentou. Ele gesticulou para o prato e me passou um garfo. Este é o nosso café da manhã. — Chef extraordinário Cole, hein? — Sabe. — Ele sorriu, com o garfo na mão e pronto para mergulhar. Ele parou para me olhar por um momento e pareceu ficar pensativo, abaixando a mão para a mesa. — Foi como eu vivi quando estava sozinho por um tempo. — A família com quem você ficou não cozinhava para você?

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— Cozinhavam, mas eu fiquei nos estábulos. Se eles viessem atrás de mim, eu também não queria que essa família morresse. — Ele balançou a cabeça. — Isso é ridículo, pensando agora. Os Bertals teriam limpado a casa. Eles teriam matado a família primeiro e depois teriam me procurado quando não pudessem me encontrar na casa. — Eu sinto muito. — Eles não eram sua família. — Ele deu de ombros, levantando o garfo novamente. — Mas voltando aos ovos, isso é o que eu comi a maior parte do tempo. Eu jantei uma ou duas vezes por semana com a família. Outras vezes, havia uma pequena área de cozinha no celeiro, e eu comi muito e muitos ovos. De alguma forma eu tenho na minha cabeça que é isso que você come para ficar grande. Ele riu antes de espetar alguns ovos e estalá-los em sua boca. Ele comeu metade do prato em poucos minutos antes de se recostar em sua cadeira, esfregando seu estômago. — Eu odiei ovos quando voltei pela primeira vez. Eu não comia. Carter nunca disse nada, mas eu sabia que ele se perguntava. Jantávamos às vezes quando eu voltava, e se houvesse ovos na refeição, eu sempre os tirava. — Jake e Sia disseram que Carter era o assassino da família? Ele assentiu. — Sim, por um tempo. Ele levantava os arquivos, matava tudo à vista. Ele era um maldito fodão. Eu o adorava; E adorei ainda mais depois que ele salvou minha vida. Eu soube mais tarde que ele tomou conta da família até que eu voltei. Ele é um bom rapaz. Devolhe tudo. Coloquei meu garfo de lado e me inclinei para trás na minha cadeira, espelhando Cole. Suas pernas estavam esticadas sob meu assento, e eu levantei as minhas, enfiando-as ao lado dele. Isso me acalmou. — Há muito na internet sobre o seu amigo. — A mídia o ama. — Ele piscou para mim. — Ele é lindo, sabe. Eu ri baixinho. — E você também.

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Os olhos de Cole se escureceram e ele se inclinou para frente. Ele pegou minha mão e atou nossos dedos juntos antes de olhar para mim. — Ele quer conhecer você. — Huh? — Eu tentei tirar a mão, mas Cole só apertou mais. Ele piscou aquele sorriso assassino novamente, esfregando seu polegar sobre o meu. Ele agarrou minha mão de propósito. — Sim. Ele quer te conhecer oficialmente. — Só ele? — Um quarto escuro brilhou em minha cabeça. Homens em ternos de negócios escuros se alinharam contra a parede distante enquanto eu era levada para a minha morte. — Ou os outros estarão lá? Os olhos de Cole se estreitaram, e ele inclinou a cabeça antes de sacudi-la. — Não. Eu amo o cara. Ele é da família, mas sei que ele é assustador. Pensei em um jantar, seria menos intenso. E Emma também virá. — Quem é Emma? — Quando eu perguntei, eu me lembrei. — Emma Nathans. Cole assentiu. — Ela é legal. Acho que vai gostar dela. Ela é quem domesticou a besta Carter. — Ele sorriu, e eu ouvi o carinho em sua voz. Ele gostava de Emma. Ele se importava com ela... ou talvez fosse outra coisa. Ele a respeitava, assim como respeitava Carter Reed. Eu sabia, mas ainda assim perguntei: — Você realmente se importa com eles, não é? Ele assentiu. — Eu me importo. Devo minha vida a ambos, na verdade. No ano passado... — Sua voz caiu. — Eu sei que há muita coisa assustadora na internet sobre Carter, e eu não sei o que eles dizem sobre Emma, mas não é tudo verdade. Carter é perigoso, e ele já matou, mas ele não é um cara mau. Ele é como eu. Cole soltou minha mão e se recostou em sua cadeira novamente. Seus braços se abriram, e o Cole despreocupado voltou. — Só que eu sou mais jovem, mais engraçado e muito melhor. Lembrei de como eles tinham parecido, Cole e Carter, no banquete. Como eles se moveram como um. Cole poderia ser mais jovem, mas ele era tão mortal quanto. Ele me mostrou quão perigoso ele poderia ser, e

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pensando naquela noite novamente, um arrepio me percorreu, esfriando meu sangue. — Você está dentro? — Hã? Cole me observou. — Oh, sim. Jantar com Carter e Emma. — Eu balancei a cabeça. — Estou dentro. — Nada grande. Apenas um encontro entre amigos. Isso não apaziguou meus nervos.

Cole segurou minha mão na noite seguinte, me guiando para o restaurante em que ele e eu fomos uma vez antes. Eu sabia que isso não seria nada como “nada grande”. A anfitriã nos levou para além das mesas lotadas, e as conversas pararam. Eu me lembrei da sensação de estar sendo observada da última vez, mas eu tinha sido oprimida por apenas estar em um jantar com um cara que não era Liam. Eu não podia imaginar como era pior desta vez do que então, mas era. Meus nervos foram disparados. Eu mantive meus olhos para frente, e no meio do restaurante, Cole apertou minha mão. Isso ajudou. Ele estava calmo, e eu tentei assumir um pouco disso. No momento em que chegamos à parte de trás e começamos a subir para o segundo andar, eu conseguia respirar um pouco mais fácil, embora eu ainda estivesse dando um aperto de morte na mão de Cole. Quando chegamos ao segundo andar, ele nos manobrou, então eu estava na frente. Ele agora andava atrás de mim, e um segundo depois, eu percebi o porquê. Sua mão veio até a as minhas costas, e ele começou a esfregar círculos pequenos, me confortando. O andar estava vazio, exceto por uma mesa montada ao lado de uma lareira de pedra. Duas pessoas sentadas. Eu reconheci o homem

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como Carter. Ele se levantou para apertar a mão de Cole, seus olhos azuis de gelo descansando em mim o tempo todo. Cole falou com ele, brincando sobre alguma coisa, e então ele se afastou do meu lado para conversar com a mulher, que também estava parada. Ela não contornou a mesa. Ela esperou em seu assento, sorrindo e rindo de tudo o que Cole disse para ela. Enquanto isso, eu estava me sentindo como uma idiota. — Eu sou Carter. É bom conhecê-la. — Ele estendeu a mão. A garota rebelde que eu costumava ser queria sair. Eu não sabia de onde ela viera, mas eu a empurrei e apertei sua mão. Era forte e autoritária. Ok. Entendi. Ele era protetor de sua família. Eu estava tendo dificuldade em fazer contato visual. Os olhos de Cole estavam escuros. Dor misturada com brincadeira neles, mas eles estavam sempre quentes quando olhavam para mim. Carter era diferente. Vi a morte quando olhei para ele. Ele era reservado, cauteloso, sério, e quando me virei para Emma, me perguntei brevemente se isso era uma piada. Estariam esses dois juntos? Ela não tinha nenhuma dessas qualidades. Ela era bonita, com cabelos escuros que caíam sobre seus ombros, e seu sorriso iluminava seu rosto. Ela era mais delgada do que eu, mas quando apertou minha mão, ela não foi fraca. De modo nenhum. Ela era forte como o inferno. Ela acenou com uma mão para a cadeira ao lado de Cole. — Por favor, sente-se, Addison. É tão bom conhecê-la. — Ela se sentou de volta, seus olhos piscando para a minha direita por um momento. — Cole falou muito bem de você. Ele bufou, sentando ao meu lado. Sua mão descansou em minha perna debaixo da mesa. — Como se eu tivesse algo negativo a dizer. Estou saindo com ela, Ems. O que você espera? — Eu sei. — Ela puxou seu guardanapo de pano e dobrou-o em seu colo, inclinando sua cabeça para o cara à sua direita. — Você nunca nos apresentou a uma mulher antes. Tenho certeza de que Carter a assustou. Estou tentando fazê-la sentir-se mais bem-vinda.

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Carter ficou rígido. — Eu não fiz nada. — Você não precisa. — Emma colocou a mão sobre a dele. Ela falou com tanto amor que fiquei surpresa por um segundo. — Você tem o rosto de uma vadia raivosa, querido. Cole riu — Vadia raivosa? Nah. É mais como o rosto de um assassino frio. Pedra fria, Carter. Pedra fria. As extremidades da boca de Carter se voltaram para baixo. — Vocês estão zombando de mim. — Sim. — Cole assentiu. — Isso é o que a família faz. Nós provocamos um ao outro. — Ele colocou seu braço na parte de trás da minha cadeira, sua mão caindo para descansar em meu ombro. — Addison é a única que tem direito a uma pausa esta noite. Ela acabou de conhecê-los, e somos muito recentes. Bem... — Ele me observou pelo canto do olho, segurando um sorriso. — Não. Eu tenho que provocá-la, mas não vocês. Vocês têm que ser legais. Um garçom veio e derramou para Cole um copo de vinho antes de se mover para servir o resto da mesa. — Não lute contra isso, Carter — disse Cole, erguendo o copo. — Provocar você é um privilégio, um que eu gosto muito. É uma honra poder se divertir com o Assassino frio. — Cole. — Os olhos de Carter emitiram um aviso, correndo para o garçom, então aterrissando em mim. Cole tomou um gole antes de colocar seu copo para baixo. Ele esperou até que o garçom tivesse saído, então se inclinou sobre a mesa. — Mesmo? Você não acha que seus próprios funcionários sabem como eles costumavam chamar você? Emma estava quieta, mas ela começou a rir agora. — O olhar em seu rosto. Parece que você quer atirar em Cole e abraçá-lo ao mesmo tempo. Os ombros de Carter se ergueram em uma respiração lenta, e então um pequeno sorriso apareceu. — Você sempre teve esse efeito em mim. — Porque eu sou como seu irmãozinho. — Cole piscou para Carter, sua mão desenhando círculos atrás de meu ombro. — E metade do tempo

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você

quer

chutar

minha

bunda;

na

outra

metade

você

está

condenadamente grato que você pode me chamar de família. Esse é o meu efeito sobre você. Pense no meu presente de agradecimento por todas aquelas vezes em que você salvou minha bunda. Eu sabia o que Cole estava fazendo. Ele sabia que Carter me deixou nervosa, e ele estava tentando aliviar o clima, tirando a atenção de mim e colocando no próprio Carter. Estava funcionando. Carter virou a mão de cabeça para baixo e uniu seus dedos com os de Emma. Eles compartilharam um olhar quente. Eles claramente se adoravam. Logo que ele ficou segurando a mão dela, Carter relaxou. Ele descansou mais completamente contra o encosto de sua cadeira. Seus ombros se soltaram, e seu sorriso parecia mais natural. Cole também estava me protegendo. Ele inseriu-se na conversa para que quaisquer perguntas para mim tivessem que passar por ele de uma alguma maneira. Eu não sabia como ele tinha feito isso, mas ele tinha. E os outros perceberam. Os olhos de Carter se moveram para mim e se demoraram. Cole notou. — Não se preocupe com Addison. Ela estava no estábulo comigo. Na menção, eu sabia que a ligeira quebra na tensão havia terminado. Os olhos de Carter voltaram a chamar a atenção e seu sorriso desapareceu. Um franzir de cenho tomou seu lugar. — Você está brincando comigo? — Não. O tom alegre de Cole também desapareceu. Ele se inclinou ligeiramente para frente. Comecei a me inclinar também, mas a mão de Cole estendeu-se no meu ombro. Ele me segurou de volta. — Ela estava lá, e viu a coisa toda, — disse Cole. Emma fechou os olhos antes que seu olhar caísse em seu colo. Talvez eu não devesse saber alguma coisa? Talvez eu não devesse estar naqueles estábulos? Eu não sabia, mas sabia que não podia dizer nada. O que quer que estivesse acontecendo, era entre Carter e Cole. — Está feito, Carter.

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— Você poderia tê-la mantido no escuro. Cole resfolegou. — Certo. Da próxima vez que eu tiver que... — Ele hesitou — fazer o que fazemos às vezes, eu a trancarei em um banheiro ou algo assim. Carter não respondeu. Ele olhou para mim antes de voltar para Cole. — Eles entraram. Nós estávamos lá. Está feito, — disse Cole. Eles estavam falando meio em código. Eu poderia seguir por causa do que eu tinha visto nos estábulos. Eu me perguntava se os garçons poderiam adivinhar. Eu olhei por cima do meu ombro, vi o garçom voltar com um jarro de água, e tossi, limpando minha garganta. — Água, alguém? A conversa foi interrompida, mas eu tinha a sensação de que estava terminada de qualquer maneira. Já que a água estava ali, Carter pediu para ele e Emma. Cole se certificou de que eu estava bem com o que ele pediu para nós, e uma vez que o garçom saiu novamente, Emma assumiu o comando. Ela inclinou-se para frente, procurando seu copo de vinho. — Então, Addison, Cole disse que vocês dois se conheceram porque vocês moram no prédio dele? Esse era o sinal dela. Seja o que for que Carter e Cole estivessem discutindo, não era para ser trazido de volta. Ela deu a ambos olhares agudos, e eles concordaram em resposta. Depois disso, a conversa foi mais suave. Eu disse-lhes tudo sobre os outros residentes. Os olhos de Emma ficaram cada vez maiores, especialmente quando eu mencionei Dawn e seu afeto por Jake. — E esse é o cara que sua melhor amiga está namorando agora? Eu assenti, terminando meu segundo copo de vinho. Eu estava cheia de comer. Meu prato ainda estava um terço completo. O frango, vieiras e aspargo teriam feito meu paladar dançar em uma noite normal, mas esta não era normal. Os nervos diminuíram quando Emma assumiu o comando, mas eles ainda estavam lá, e isso manteve meu apetite longe. Carter não me aprovava, ou não aprovava algo sobre mim, e Cole não se

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importava. As correntes subterrâneas haviam sido dobradas para baixo, bem abaixo, mas eu sabia que eu estava lendo isso corretamente. Logo que Cole terminou de comer, seu braço descansou atrás de mim novamente, e sua mão nunca deixou meu ombro. Eu estava agradecida. Aquele minúsculo toque ajudou a amenizar algumas das tensões. Eu me inclinei para trás em sua mão agora. Seus dedos esticados, e sua palma descansando em minha pele. Um pequeno formigamento me percorreu, ajudando a aliviar um pouco mais do nó no meu estômago. — Sim, — eu disse para Emma. — É o Jake. Ainda não contei para Sia sobre Dawn. Eu deveria. — Não. — Emma parecia certa. — Não? — Diga-lhe o que aconteceu. — O que você quer dizer? — Diga a ele que Dawn pegou o telefone. A amizade é entre ele e Dawn. Será mais fácil para Sia se ele parar com isso; então ela não estará no meio. Ele deve proteger os dois. É a amiga dele e a namorada dele, então é trabalho dele. Não o seu, nem de sua amiga. Eu nunca pensei em contar a Jake. Eu estava no chão. — Obrigada. Acho que vou fazer isso. — Merda, Emma. Quando você ficou toda sábia? — Cole brincou. Ela riu, afundando no lado de Carter, deslizando sua mão através da dele. — É tudo por causa desse cara. Uma vez que você vá a Carter, você sempre fica mais esperto. — Ela segurou sua risada, levantando os olhos para esperar pela reação de Carter. Quando ouviu a rima, ele gemeu, balançando a cabeça. — Você não disse isso. — Eu disse, e é verdade, mas... — Ela ergueu seu copo de vinho. — Provavelmente é mais por causa disso. Acho que este é o meu terceiro copo. Eu estou oficialmente exuberante. — Ela descansou sua cabeça em seu ombro. — Talvez precisemos trazer Theresa e Amanda aqui. Estou me sentindo no humor de Octave. Certamente há algo assim por aqui?

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— Octave? — O clube que Carter possui lá. Falando nisso — ele disse a Carter, — quando você vai abrir um aqui? Levei Addison para Octavia em Nova York, mas acho que fazer outro aqui seria inteligente. Esse é um de seus melhores empreendimentos. Carter ergueu o braço para que não houvesse nenhuma barreira entre ele e Emma. Ela afundou-se mais ao seu lado, e ele a segurou apertado, sua mão descansando em seu outro braço. — Quando você abrir comigo. — Eu vou colocar o dinheiro. — Eu não preciso de dinheiro. Esta foi outra conversa para apenas os dois. Emma parecia satisfeita em ouvir, então eu fiz o mesmo. Eu não estava aninhada no lado de Cole, mas sua mão ainda estava na parte de trás do meu ombro, como se ele estivesse me segurando silenciosamente. Enquanto conversava com Carter, sua mão voltou a desenhar círculos. No final, Cole comentou: — Eu não sei. Talvez. Veremos. — Bom o suficiente para mim. — O sorriso de Carter foi muito menos tenso do que no começo. Ele olhou para baixo, e seu sorriso se tornou ainda mais suave. — Emma está prestes a adormecer, se não sairmos. — Eu estou de pé. — Ela bocejou. — Estou totalmente acordada. — Seus olhos fecharam... e não se abriram. — Veja. Estou pronta para dançar. Discoteca, alguém? Carter mudou de posição e ergueu Emma em seus braços. Ela gritou. — O que você está fazendo? — Você estava dormindo. — Me coloque no chão. Eu posso andar. Eu juro. — Tem certeza? Os dois estavam conversando, mas eles estavam rindo ao mesmo tempo. Carter a levou pelas escadas. Enquanto fazia isso, Cole virou-se para mim. Ele me puxou para seu lado agora que eles tinham ido para baixo. — Você está bem?

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Eu balancei a cabeça. — Seu amigo é intenso. Sinto como se tivesse corrido uma maratona, de costas. — Minhas pernas pareciam chumbo. Até meus braços estavam pesados. — Não se preocupe. Carter é apenas protetor. Eu sou um pouco menos cauteloso do que ele, mas ele vai relaxar. Ele sabe o que é bom quando vê. — Sério? — Eu zombei. Cole assentiu com a cabeça, seus olhos se aquecendo enquanto segurava meu olhar. — Sério. — Ele pressionou um leve beijo em meus lábios. — Você está pronta para voltar? — Deus, sim. — Eu gemi. — Mas não me pegue. — Eu me levantei, vendo um brilho malicioso em seus olhos. Este era um lado novo para Cole – um Cole que cutucava seu amigo, tentando obter uma reação. Eu conhecia o Cole escuro e silencioso. Eu conhecia o lado perigoso dele, e quando estávamos em minha casa juntos, eu comecei a ver seu lado brincalhão, mas este era totalmente novo e imprevisível. Eu estava cautelosa, aprendendo sobre o terreno novo, até que ele se inclinou mais perto e baixou a voz. — Quando eu pegar você, não vai ser porque você está com sono de excesso de vinho. — Cole estava atrás de mim, seu corpo escovando contra o meu. — Vai ser porque suas pernas não funcionam por outra razão. — Enquanto falava, ele passou um dedo pela minha coluna. Eu engatei minha respiração. Um toque foi tudo o que levou para despertar meu corpo. Eu murmurei, com voz rouca: — Sim. Vamos para casa. Seus olhos se escureceram diante de minha resposta, e sua mão caiu nas minhas costas, me encorajando a avançar. — Sim, vamos.

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CAPÍTULO VINTE E OITO Fiquei surpresa ao saber que Carter e Emma estavam hospedados no Mauricio, então todos nós voltamos juntos. Emma e eu saímos primeiro, enquanto Carter esperou por Cole. Ken segurou a porta aberta para Emma e para mim quando entramos no saguão. — Nós ficamos aqui algumas vezes, — ela me disse. — A primeira vez foi há um ano. Usamos o quarto andar, e Carter disse que Cole tinha moradores aqui também. Foi-me dito para não falar com eles, porque ele mantém sua presença aqui em segredo, por isso é bom saber que você está aqui. — Sim. O mesmo aqui. Sabe, se você estiver aqui por muito tempo, poderíamos almoçar juntas ou algo assim? Interesse despertou em seu olhar. — Seus dias estão livres? Eu balancei a cabeça. Nós estávamos no lobby. Eu me virei para olhar atrás de nós, mas Ken tinha fechado a porta. — Carter está nervoso com você — disse Emma. — Você está próxima de Cole. É óbvio o quanto ele se importa com você. — Ela olhou de lado para mim, um olhar persistente. — Cole não está tão fechado

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quanto ele costuma ser. Acho que ele queria repassar algumas coisas antes de subir para uma bebida. Eu balancei a cabeça. Isso fazia sentido. Meu olhar permaneceu na porta fechada, no entanto. Emma tocou minha mão levemente, chamando minha atenção. — Estamos aqui por alguns dias. Depois do que aconteceu nos estábulos, Carter quer ter certeza de que tudo está bem. Portanto, se sua oferta for genuína, eu adoraria me encontrar para almoçar um dia. — É, e meus dias estão abertos. Eu não estou trabalhando. — É? Eu tinha certeza que ela e Carter sabiam sobre Liam, e sobre sua morte, mas eu estava prestes a explicar minha falta de trabalho diário de qualquer maneira quando ouvi o elevador anunciar sua chegada. Eu tinha começado a explicar a Emma quando ouvi meu nome – e me virei para ver Sia parada ali. O mundo inclinou-se lateralmente por um momento. Jake veio atrás de Sia, e eles olharam entre Emma e eu. Sia disse novamente: — Addison? Eu estava congelada. Meus dois mundos estavam colidindo, e eu não conseguia dizer uma maldita coisa. — Eu... — eu exclamei. Era isso. Emma olhou entre nós e compreendeu pelo meu rosto. Ela se virou, estendendo a mão para Sia. — Olá. Sou a Emma. Você vai ter que me desculpar. Eu estava chegando e vi... — Ela fingiu me perguntar, — Addison? Eu assenti, agradecida. — Eu vi os sapatos de Addison e parei para perguntar onde ela os comprou. Sinto muito se segurei sua amiga. Nós começamos a falar sobre restaurantes por aqui. Pedi-lhe uma recomendação. — Oh. — Sia se aproximou, um pouco da sua curiosidade já satisfeita. — Ela mencionou o Gianni’s? — O Gianni’s. — Os olhos de Emma se iluminaram novamente. Podíamos ouvir Carter e Cole vindo de fora, e ela disse apressadamente,

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— Sim. Na verdade eu já sabia sobre o Gianni’s. Meu amigo é dono do restaurante. — Seu amigo? — A porta se abriu e seu olhar passou por cima de nós

até

os

dois

entrando.

Os

olhos

de

Sia

se

arregalaram

dramaticamente. Assim como os de Jake. Emma saltou, levantando a voz. — Sim, meu amigo Cole. — Ela se virou para eles. — Vocês estão aqui. Estou me divertindo. Eu esbarrei em Addison, e ela recomendou seu restaurante, Cole, para nós comermos amanhã. — Ela pausou. — Você conhece Addison ou seus amigos? Cole não pulou uma batida. Ele estendeu a mão. — Olá, Addison. — Depois que nós nos cumprimentamos, meu aperto um pouco instável, ele estendeu a mão para Sia e Jake. — Vocês dois parecem familiares. — Ele fingiu refletir antes de fazer um gesto para Jake. — Você estava na arrecadação de fundos um tempo atrás. Foi a quase um mês e meio atrás, eu acho? Carter, você estava comigo. Carter se juntou ao seu lado, agitando as mãos de Sia e de Jake, enquanto eles ficaram lá com a boca franzida. — Eu não acho que fomos apresentados, mas eu me lembro, — disse Carter. — Você estava com Mahler. — Sim. — Jake piscou algumas vezes, fechando a boca. — Eu, uh, é um prazer te conhecer. — Carter — apontou para Cole. — E este é Cole. — Emma se moveu ao lado dele. — E você já conheceu Emma. — Sim. — Ela segurou seu braço, puxando-o para o elevador. — Foi um prazer conhecer todos vocês. Cole demorou-se enquanto os outros dois entraram no elevador. Ele estava esperando pelo meu sinal. Com a atenção de Jake e Sia ainda focada neles e não em mim, eu balancei a cabeça brevemente. Cole acenou com a cabeça e seguiu seus amigos. Em silêncio, todos nós observamos enquanto o elevador subia, parando no quarto andar.

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— Uau. Carter Reed fica lá — exclamou Jake. — Isso foi, uau. Quero dizer, talvez Carter Reed seja o dono deste edifício? Você acha? Ele também estava na família Mauricio. Sia não respondeu. Ela se voltou para mim. — Você está pálida. Você está bem? Jake franziu o cenho. Ela o ignorou. — Addison? — Oh. — Jake sacudiu a cabeça, passando uma mão pelo cabelo. Ele recuou para nos dar espaço. Sia perguntou novamente. — Eu liguei para você mais cedo. Vamos para uma reunião. Um dos colegas de Jake está comemorando aniversário. Você quer vir com a gente? Ela me chamou para ir. Porque eu estava sozinha. Porque eles esbarraram em mim no saguão. Toda a culpa de ontem correu de volta para mim, dobrada porque, mais uma vez, eu menti em sua cara. Eu não poderia fazê-lo, não mais. Sia merecia mais do que isso, e eu soltei um profundo suspiro. — Sia, — eu comecei. — Sim? Por favor, não me odeie. — Eu fui uma idiota como amiga. Um meio riso veio dela. Ela balançou a cabeça. — Do que você está falando? — Eu venho mentindo para você. — As palavras eram difíceis de dizer. Senti como se eu tivesse engolido a casca, e estivesse voltando, raspando as entranhas de minha garganta. — Ok. — Ela inclinou a cabeça para o lado. — Do que você está falando? Olhei para Jake. — Posso falar com ela? Pode levar algum tempo. Eu tenho muito a rastejar. Ele olhou entre nós e perguntou: — Você quer que eu espere? — Não. — Ela acenou em direção à porta, ajustando a mão dela em sua bolsa. — Vá em frente. Isso vai demorar um pouco. Tudo bem?

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— Você vai me ligar? — Vou. Vá e divirta-se. Aviso se eu conseguir um carro para ir por conta própria. Ele se abaixou, dando-lhe um beijo rápido. — Ok. — Ele me deu um olhar confuso. — Isso vai demorar um pouco, hein? — Temo que sim. E ele foi. Quando chegamos ao meu andar, nos sentamos, e eu contei para ela quase tudo: a primeira vez que encontrei Cole. A noite em que ela me deu um bolo, quando eu fui para a pista de corrida para encontrá-lo novamente. Como eu tinha ficado com medo, mas como eu queria vê-lo por uma semana inteira, e naquela noite, eu finalmente tive a coragem de tentar. Eu disse a ela sobre vê-lo no elevador traseiro, e que eu tinha dormido com ele na primeira vez em que jantamos. — Eu não me importei, Sia. — Minhas mãos se retorceram, empurrando para baixo em meu colo. Quanto mais eu empurrava, mais as palavras saíam de mim. — Eu estava tão longe de me importar. Eu queria sentir algo diferente do sofrimento. Ele me fez sentir melhor. Naquela noite, eu estava viva. Essa foi a primeira noite que eu não tive um pesadelo. Eu continuei indo. Eu contei como ele tinha chegado tarde na noite seguinte, como seu amigo tinha morrido e ele tinha voado na manhã seguinte para os preparativos funerários e dos negócios. Que eu não o vi por mais um mês, e eu tinha pensado que era sobre nós até que eu o vi novamente no evento com Jake. Assim que terminei, ela se sentou, quieta. Eu esperei. Uma nuvem pesada pendia entre nós. Eu não poderia dizer nada. Eu só poderia esperar que ela entendesse de alguma forma. Eu orei por isso. — Entendo. Eu estremeci. Sua voz estava calma. — A noite em que sua casa foi invadida? — Eu estava com ele. — Ok. Essa é a única parte sobre a qual eu não tinha certeza.

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Eu a ouvi errado. Eu devo ter. — Hã? E ela me derrubou quando deu de ombros. — Odeio quebrar a sua ilusão de que eu sou completamente inconsciente e uma idiota, mas eu sabia que algo estava acontecendo há muito tempo. Uma melhor amiga teria que ser louca para não saber algo. Eu sabia que você mentia para mim. Aloooo. Você me disse que estaria em sua casa, então eu sou aquela a te dizer que foi arrombada? Fiquei mais aliviada ao saber que você não estava ferida do que irritada que você mentiu para mim naquele momento. Eu só pude piscar para ela. — E todas as outras coisas? — Ela bufou. — Como eu não iria notar que cada vez que vamos para o Gianni’s, não recebemos uma conta se você está conosco. Até Jake parou de falar sobre isso. Ele sabia que era você, mas nós não tínhamos perguntado sobre a conexão. Ou que de repente você passou a sempre pedir um carro quando vamos sair, e é sempre o mesmo carro, sempre o mesmo motorista. Eu tenho que ser observadora para o meu trabalho — disse ela com um encolher de ombros. — Pensei que estivesse vendo o motorista, não o próprio Cole Mauricio. Essa é a única parte que eu não peguei imediatamente. Sentei no meu assento. — Você pensou que eu estava vendo Carl? — Havia dois caras, certo? Eu sabia que era um deles. Eu não peguei seus nomes. — Jim é o outro. — Carl é mais bonito. — Ela sorriu. — Minha escolha pessoal para você. Carl... Minha garganta começou a inchar. Engoli em seco, limpando-a e mudando de assunto. — Quando soube que era Cole? — Eu não soube até a outra manhã. — Sua voz acalmou novamente. Ela mordeu o lábio. — Eu estava preocupada com você. Vi um carro virar a esquina e encostar no prédio. Eu estava observando do andar de Jake, e eu pensei que talvez fosse você. Acontece que eu estava certa. Foi quando eu vi os dois juntos. Vocês pareciam tão abatidos, mas

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havia algo a respeito de como vocês se moviam um com o outro. Vocês se moveram como um, e então ele tocou seu quadril, e eu sabia que ele era o cara que você estava vendo. Vocês pareciam saídos de um velório. Ela sabia. Ela soubera algo quase o tempo inteiro, e ela sabia que Cole era... — Foi por isso que você não bateu um olho quando a casa foi invadida. Eu lhe disse que ia verificar na noite anterior. Ela assentiu com a cabeça. — Não parecia certo. Mas eu imaginei que você me diria quando quisesse. — Ela se inclinou para frente, pegando minha mão. — Eu entendo, Addison. Eu realmente entendo. Ele é o primeiro homem desde Liam, e considerando quem ele é – eu realmente entendo. Eu também não teria dito nada. Comecei a chorar. Eu não sabia o porquê. Talvez fosse alívio, ou talvez porque eu não ia perder minha melhor amiga, afinal. — Sinto muito. — Eu acenei minhas mãos na minha frente, me abanando. — Odeio chorar. — Eu sei. — Ela segurou minha mão novamente. — Estou com medo por você. Estou preocupada. Estou preocupada, mas ele é o cara, não é? Ela não estava perguntando se ele era o cara com quem eu estava namorando. — Sim. — Então eu estou feliz por você. — Ela apertou minha mão, sacudindo meu braço no ar enquanto ela fingia gritar. — O chefe da família Mauricio. Que porra de merda, Addison! Eu dei a ela uma risada sufocada. — Eu conheci o assassino da família hoje – se ele ainda é realmente o assassino, eu não sei. — Sim. — Ela sorriu, seus olhos arregalados. — Porra, porra. Eu ri novamente, e uma vez que comecei, eu não conseguia parar. Eu não sabia do que eu estava rindo, eu estava apenas rindo. E Sia juntou-se a mim. Uma leve risada, depois mais, e finalmente ela estava rindo quase tão forte quanto eu. Sentamo-nos na mesa da cozinha, de mãos dadas e chorando juntas. Devíamos parecer loucas. Mas eu não me importei. Nem um pouco.

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Eu tinha minha amiga de volta, e só agora eu percebi o quanto eu senti falta dela.

Cole entrou na minha cama. Eu acordei assim que senti os lençóis se levantarem. O frio bateu em minhas costas nuas, mas seu calor logo o substituiu. A sensação de seu corpo contra o meu, e eu rolei, com um hmmm em meus lábios. Eu não abri meus olhos. — Ei, — ele murmurou, soltando um beijo ao lado da minha boca. Ele envolveu um braço ao redor de minha cintura, sua mão deslizando sobre meu quadril. — Hmmm de volta. Eu gosto disso. — Eu estava nua para ele. Sua mão moveu para baixo em minha perna e de volta até meu peito. — Muito. Eu me movi, deslizando uma perna sobre a dele e outra entre suas pernas. Puxei-o para que ele estivesse pressionado contra mim. Deitei com a cabeça apoiada no travesseiro, e olhei para ele. — Foi o que eu pensei. É meu presente para você. Ele beliscou meu mamilo, então esfregou seu polegar sobre a ponta. — Feliz aniversário para mim. Eu deveria sempre deixá-la sozinha com sua amiga. — Ele se inclinou, cheirando. — Vocês tomaram algumas bebidas, hein? Descansei meus braços em seus ombros, mantendo-o sobre mim. — Tomamos, e foi glorioso. — Um bocejo saiu. — Eu contei tudo a ela, Cole. Ele enrijeceu antes de mergulhar sua boca em meu ombro. Senti seus lábios se moverem sobre minha pele quando ele perguntou: — Tudo? — Sua mão caiu para o meu quadril e apertou lá um momento. — Não sobre os estábulos. Não o que aconteceu. Sua mão relaxou, varrendo o lado de fora da minha perna antes de voltar para dentro. Meu pulso acelerou. Meu sangue se aqueceu, e logo a

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luxúria pulsou através de meu corpo. Eu sempre o desejaria assim? Eu me ergui, trancando minhas pernas ao redor de sua cintura e puxandoo para baixo ao mesmo tempo. Os olhos de Cole se arregalaram, mas ele empurrou de volta, com um sorriso satisfeito em seu rosto. Ele esfregou contra mim, me deixando sentir o quanto ele me queria também. Sim. Respondi silenciosamente à minha pergunta. Quando seus lábios desceram para os meus, e eu troquei nossas posições para encontrá-lo, eu sabia que minha necessidade por ele não iria embora, pelo menos não em breve. E com isso em mente, eu descansei uma mão contra seu peito e assumi o controle. Desta vez, era sobre o que eu queria. Cole poderia me

dominar na próxima vez. Eu estremeci

antecipadamente.

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CAPÍTULO VINTE E NOVE Addison, Os editores adoraram seu artigo. Estamos trabalhando no assunto do próximo mês. Vou enviar o link quando ele for lançado. Você terá que preencher os formulários anexados de pagamento. Temos outra abertura daqui a dois meses – você estaria interessada em fazer outro artigo? Você escolhe o tópico, mas mantenha-o semelhante ao que você enviou e se isso for algo do tipo que você gostaria de fazer, me avise. E novamente, ótimo trabalho! Tina Gais Editora chefe Onlooker Online Magazine Olhei para a tela, lendo o e-mail. Era bom. Parecia muito bom. A vida estava se tornando normal – ou tão normal quanto poderia ser – e esta noite seria outro grande momento.

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Eu conheci os amigos de Cole, então era sua vez de conhecer a minha. Emma e Carter tinham ficado por três semanas, mas eu não vi Carter novamente. Grata por isso. Cole estava contente em vir para o meu andar, e eu supus que ele se encontrou com Carter durante o dia. Tentei não pensar sobre o ataque, ou o que significava para Cole. Ele retaliaria? Era por isso que Carter estava aqui? Eles não me disseram. Emma e eu nos reunimos para almoçar algumas vezes durante aquelas semanas, e se ela sabia, nunca disse uma palavra. Foi o tema que não foi discutido, e agora, onde estávamos, eu estava bem com isso. Eu preferia assim. Pelo último par de almoços, Sia se juntou a nós, e mesmo sendo hesitante, Emma foi quente e acolhedora. Era uma visão a se ver. Os papéis invertidos. Sia, que era geralmente a borboleta social, foi retirada e tímida no início. Emma, que eu percebi que era mais reservada do que eu pensava, foi a que garantiu que Sia relaxasse. Eu tinha expressado o mesmo pensamento para Cole uma noite, e ele explicou: — Ela não fez isso por sua amiga. Emma fez isso por você. — O que você quer dizer? — Eu rolei para as minhas costas, olhando para ele. — Eu me importo com você, então, portanto, Emma também. É o que fazemos. Você se importa com Sia, então Emma se certificou de que ela estivesse feliz. Por você. — Você disse que ela fez isso por você. Ele deu de ombros, sorrindo. — Ela foi gentil com você no começo por minha causa, mas ela gosta de você. Ela não continuaria a sair com você se não gostasse. Emma não é do tipo falsa. Fiquei quieta por um momento. Então apliquei minha mão contra seu peito e murmurei: — Isso vai nos dois sentidos. Seus olhos se aqueceram. — Bom. Não foi muito tempo depois que a conversa cessou, e logo ambos gemíamos.

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— Aí está você! — Sia exclamou, abrindo a porta. Estávamos em outro de seus eventos, e era à noite. Cole encontraria Sia e Jake de uma forma mais real. Ele viria me pegar, e nós quatro iríamos para o Gianni’s para um jantar tarde da noite. Cole tinha o segundo andar reservado apenas para nós. Os sons de música, risos e conversas rodaram para dentro da pequena sala junto com ela antes que a porta se fechasse novamente, apagando o barulho. Seus calcanhares bateram no chão enquanto ela fazia um trabalho rápido olhando para as três barracas. Estavam todas vazias. Eu a observei no espelho, observando como seu vestido preto de lantejoulas acentuava seu corpo. Eu estava com um vestido azul macio. Era leve e confortável, tudo o que me importava. Eu parecia bem, mas eu não estava sexy, não como Sia. Havia uma fenda na lateral, e quando ela andava, mostrava uma boa dose de perna. Quando Jake a vira antes, ele gemeu. — Como vou lidar com isso a noite toda? Sia riu, passando o dedo sobre o peito, com um brilho nos olhos. — Você vai ter que se conter até chegar em casa. Casa. Os olhos de Jake haviam mudado para os meus, e eu sabia o que ele estava pensando. Ela tinha dito a palavra com C. Ele tinha me confiado dois dias antes que ele estava pensando em fazer a Sia uma grande pergunta: se ela iria morar com ele. Ele veio até mim para pedir conselhos – eu achava que era uma boa ideia, quando Sia tinha estado com caras que haviam feito a pergunta comovente antes, se ela tinha morado com outros namorados, como estava a situação dela com seu senhorio. Nesse ponto, a conversa teve um ligeiro acerto. Jake nunca falou comigo sobre meu relacionamento com Cole. Sia me assegurou que

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estava bem para ele, não esquisito, mas isso pendurou no ambiente entre nós. — Jake, uh... — eu tinha começado, mas ele me cortou. — Você acha que ela estaria aberta a isso? A ir morar comigo? Uma pequena pedra pousou no fundo do meu estômago. Havia estranheza. Eu o tinha visto então. Sia mentiu para mim. Mas era óbvio que Jake não queria falar sobre isso. Então eu me vi acenando com a cabeça e me sentindo um pouco triste ao mesmo tempo. Essa era uma conversa que eu queria tentar novamente com Jake. Eu nunca lhe contei sobre o engano de Dawn com o telefone de Sia, mas essa conversa – eu estava determinada a ter com ele. Sia se aproximou de mim, olhando no outro espelho. — Estou pronta para vomitar, mijar e ter um orgasmo tudo ao mesmo tempo — ela anunciou. — Merda. Como você faz isso? — O que? — A conversa de Jake desvaneceu-se ao fundo da minha mente. — Ficar perto dele. — Quem? — Cole Mauricio. Como você faz isso? Ele veio e eu juro que a sala inteira ficou molhada ou queria mijar nas calças. Eu estou toda ligada. Esse homem é como sexo com pernas. Bom Deus, você acha que Jake pode se juntar à máfia com ele por um tempo? — Jake? Sia revirou os olhos, dobrando alguns cabelos atrás da orelha. — Eu amo Jake, mas ele não é Cole Mauricio. — Seus olhos se estreitaram, ficando pensativa, e ela inclinou sua cabeça para o lado. — Mas pensando nisso, não. Gosto de Jake como ele é. Se não houvesse você ou Jake, eu foderia Cole Mauricio. Eu sinto muito. Estou sendo uma má amiga, mas tenho que ser honesta. No entanto, ao dizer isso, eu também posso dizer que seria isso. Ele me assusta muito, demais para qualquer outra coisa. Tenho certeza de que aqueles dois caras maciços que vieram com ele estão carregando armas.

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Minha cabeça girou. Peguei o braço de Sia e me concentrei na informação mais importante: — Você disse a palavra com A. Ela ficou quieta. Seus olhos se fixaram nos meus. — Você pegou isso, hein? — Sia! — Eu fingi balançar seu braço, sorrindo como uma idiota. — Você ama Jake! — Isto era enorme, mais enorme do que enorme. — Eu estou tão feliz por você. Suas mãos descansaram no balcão. — Eu sei. Eu amo. Eu estou realmente feliz. Quero dizer... — Ela acenou para mim. — Estou preocupada com você porque olá, a máfia, mas sim, estou feliz. Eu realmente amo Jake. — Você nunca disse isso sobre um namorado. — Eu fiz uma careta. Ela tinha. — Não no sentido real, quero dizer, onde você realmente o ama. Ela riu, cavando em sua bolsa. — Eu sei o que você quer dizer, e você está certa. Eu não disse isso de verdade. É real. — Ela puxou seu batom. — É tão real e tão incrível, e eu sei que vou acabar com isso de alguma forma. — Não. — Eu balancei a cabeça. — De jeito nenhum. Eu sei que você não vai. — Espero que não, mas vamos ser honestas. Eu sou o amor deles e então eles largam a garota. Eu normalmente estaria no namorado número dois depois de Jake a essa altura. — Ela fechou os olhos, respirando fundo. — Eu não posso estragar isso. Isso é tudo o que eu sei. Toquei sua mão e apertei. — Você não vai. Eu sei que você não vai. — Esperemos que não. — Ela sorriu ironicamente para mim. — Mas já falamos o suficiente sobre mim; você está pronta para hoje? Eu ri, soltando sua mão. — Acho que eu deveria estar fazendo essa pergunta. Você está pronta para conhecer oficialmente Cole? Ela gemeu, balançando a cabeça. — Não. Nenhuma chance. Sim. Oh, Deus. Isso realmente está acontecendo. Eu o vi e tive que ir cumprimentá-lo. Eu... estou nervosa, Addy. — Sua voz caiu num sussurro.

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— Não fique. — Eu levantei meu queixo e esquadrinhei meus ombros. — Você consegue fazer isso, e quer saber por que? Seus olhos encontraram os meus no espelho. — Por que? Eu sabia que Jake estava nervoso; bem, eu não sabia o que Jake estava sentindo. Mas enquanto ele tinha toda aquela quantidade de fala antes, o plano para conhecer Cole de uma maneira real o deixou quieto de repente. Eu estava otimista, esperando que seus lábios fechados tivessem mais a ver com ele calculando quando ele pediria a Sia para morar com ele, mas eu sabia que era algo sobre Cole. Sia trocou novamente de papel, de volta a ser a mais aberta e a conhecer Cole como meu... fiquei em branco. Namorado? Amante? Outra coisa? Nenhuma dessas palavras parecia certa. Cole era meu. Eu acenei com a cabeça para mim mesma. Isso parecia certo. Ele era meu. — Addison? Sia estava esperando por mim. Eu saí de meus pensamentos. — Ah, sim, porque eu te amo. — Eu vou lidar com a reunião do seu namorado super quente e assustador porque você me ama? — Ela zombou. Eu balancei a cabeça. — Sim. Bem não. É porque você me ama. Cole vai ver isso, e ele vai gostar de você. — Porque eu amo você? Revirei os olhos, combinando com seu meio sorriso. — Eu sei. Eu sei. Meus pensamentos estão um pouco confusos, mas essa é a essência. Além disso, se ele já não gostasse de você, duvido que eu teria alugado o apartamento. — O que você quer dizer? Ela estava prestes a aplicar o batom quando parou. — Você sabe. — Eu dei de ombros. — Você foi quem conseguiu o número do apartamento, lembra? Ela voltou a olhar para si mesma no espelho. Era como se ela não tivesse pensado nisso dessa maneira, ou algo assim...

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Eu

fiz

uma

pausa

agora

também,

meu

olhar

franzido

correspondendo ao dela. — Sia? — Huh? — Ela estava profundamente pensativa. — O que eu disse? — Eu tinha dito algo errado. — Não. Nada. — Ela balançou a cabeça, afastando o batom. — Não importa. — Um sorriso brilhante se formou em seu rosto, e ela rolou seus ombros para trás, fixando uma de suas alças. — Está pronta? Ainda tenho trinta minutos para deslumbrar o melhor deles, e depois vamos para o Gianni’s. — Sim... — O que tinha acontecido? — Ótimo. — Seu sorriso se abriu mais uma polegada. — Nós devemos ir. Eu tranquei a porta para que pudéssemos ter nosso tempo de meninas aqui, mas tenho a sensação de que algumas das donas de casa socialites não vão ficar felizes comigo. — Apenas diga que você tinha que consertar alguma coisa. Sia cruzou até a porta, destrancando-a e abrindo-a. Ela gemeu. — Deus. Isso é ainda pior. Elas vão reclamar que a Gala não tem “nem o código” ou “é adequado” o suficiente para elas. Vou acabar tendo que entregar champanhe nas cestas de presente. Ela estava certa. Duas senhoras, ambas enfeitadas da cabeça aos pés com diamantes, esperavam lá fora, e ambas pareciam irritadas. Uma delas tinha os braços cruzados sobre o peito e estava realmente batendo os dedos ao longo do braço. A outra gritou: — Já era tempo, — enquanto passava por nós. Sia encontrou meu olhar, com um sorriso escondido lá espreitando. — Seu sexy e muito poderoso... — Ela levantou a voz na última palavra. — Homem está na seção de trás. Mandei-o para lá enquanto eu vinha buscá-la. Recebi a mensagem e assenti, tentando não rir. Assim que a mulher mal-humorada ouviu o poderoso, sua irritação pareceu desaparecer, substituída pela curiosidade. Ela me olhou agora, e eu podia ver as rodas girando. Quem era eu? Quanto dinheiro eu tinha? Onde eu estava na escala em comparação a ela?

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Mas então Sia passou por mim, colocando uma mão no braço da senhora. Quando saí, ouvi minha melhor amiga fazer o que ela fazia de melhor: encantar aquelas senhoras, ou pelo menos ficar encantada com qualquer queixa que pudesse ter. Olhei em volta da sala lotada. Vim cedo para apoiar Sia, e as pessoas estavam chegando desde então. Estava chegando ao final do evento, e geralmente as pessoas começavam a sair por essa hora, então fiquei surpresa com o quão repleto o andar principal permaneceu. Eu não vi Jake em nenhum lugar. Pegando um champanhe de um garçom, eu comecei a ir para a sala traseira. Estava mais escuro, com muitos cantos escondidos, e eu sabia que era por isso que Sia mandara Cole lá. Ele e eu poderíamos ficar lá e ser parte do evento, mas também estar sozinhos. Eu estava passando por uma entrada lateral quando ouvi meu nome. — Addison. Eu me virei, com uma saudação educada na ponta da minha língua, mas engoli quando vi a mãe de Liam. Fiquei fria. — O que você está fazendo aqui? — Ela sabia que este era o evento de Sia. Este era o meu território. Carol parou. Sua boca se abriu como que para falar, mas em vez disso ela fechou e começou a vir para mim. Eu a olhei de cima a baixo. Ela usava calças pretas brilhantes e uma camisa preta que cruzava sua cintura. Ela parecia bonita, mas não estava vestida para um evento como este. Eu não conseguia segurar meu desdém. Não era com frequência que eu podia zombar dela. Eu queria aproveitar enquanto dava. — Você parece... legal. — Eu me afastei e me certifiquei de ver minha avaliação. Então enruguei meu nariz. Pensei que ela reagiria. Eu estava esperando por isso, e eu mesma tinha outro insulto velado pronto para sair. Ela olhou por cima do ombro, alcançando dentro de seu suéter e se aproximando de mim. — Sinto muito, Addison — disse ela. — Eu realmente sinto.

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— O qu... Sua mão esticou, e eu senti a picada de uma agulha no meu pescoço. Eu a empurrei para longe, mas era tarde demais. Ela já desfocava na minha frente. Duas grandes formas se moveram ao redor dela quando eu comecei a cair. O mundo estava caindo comigo. Algo me pegou assim que tudo ficou preto.

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CAPÍTULO TRINTA Ouvi vozes primeiro. Uma mulher e um homem – E ela estava chateada. Eu não conseguia entender suas palavras, nem mesmo dizer de onde elas vinham, mas elas estavam em algum lugar próximo. — Eu disse não! — A mulher gritou, então ela se afastou. Senti seus passos debaixo de mim, e uma porta bateu, fazendo minha dor de cabeça, a segunda coisa que eu notei, piorar. Ela batia atrás da minha testa, como se eu tivesse sido atingida por algo. Tentei abrir os olhos, mas os fechei imediatamente. A luz tornou tudo pior. O que tinha acontecido comigo? Tentei mexer minhas mãos, mas não consegui. Elas estavam amarradas atrás de mim, e eu estava sentada em uma cadeira. Uma brisa refrescou meu rosto e meus pés. Movi meus pés ao redor e senti um cobertor. As costas dos meus braços estavam mais quentes. Eu senti calor lá atrás. Eu estava no evento de Sia na Gala. Cole estava lá. ... e Carol. Eu tinha ido ver Cole quando vi a mãe de Liam – e então senti a picada fria de uma agulha. Aquela vadia me drogou. — Ela está acordando? — Uma voz masculina falou, soando longe. Havia ecoado um pouco.

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Ouvi um barulho de pés e uma segunda voz. — Nah. Às vezes eles ficam inquietos enquanto dormem. — Tem certeza disso? — Oh, sim. Ela vai ficar fora por um tempo. — O chefe disse que ela é de alta prioridade. Nós não podemos foder isso. — Não vamos. Pare de se preocupar. É a sua vez. — Juntas de dedos bateram em uma mesa. As fichas de pôquer chacoalharam. — Como você vai ligar? A primeira voz resmungou, com sua cadeira rangendo. — Foda-se se eu sei. — Sua cadeira gritou, raspando contra o chão. — Juro que ela está acordada. — Ela não se mexeu. Era uma terceira voz. Quantos estavam lá? A mulher, que tinha partido, e o cara com quem ela estava discutindo e depois esses três caras. Suas vozes soavam do outro lado da sala. E foda-se. Minha cabeça estava realmente batendo. Eu estremeci, então afrouxei a mandíbula novamente. Eu não poderia fazer nada diferente. Sem sons. Nenhum movimento. Nada além de respirar. Eu tinha que respirar normalmente, como se estivesse dormindo... De repente, minha cadeira foi derrubada, me jogando no chão. — Ow! — Eu não podia me segurar. Meus olhos se abriram e me deitei de lado, olhando para uma mesa de quatro caras jogando pôquer. Um par de botas de combate pisou na minha frente, e a voz masculina discutindo disse: — Ela está acordada. Tentei levantar os olhos, mas seu rosto estava no escuro. A luz acima dele me cegou, e eu o ouvi dizer: — De volta ao sono, princesa. Eu vi acontecer. Sua bota levantou e oh merd... o mundo ficou preto novamente.

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— Ok. — Algo foi tirado do meu rosto, e a luz estava me cegando. — Acorda, acorda. Eu gritei. A pressão latejava em minha cabeça enquanto eu fechava meus olhos o mais forte que podia. Eu choraminguei agora, mas merda santa. A dor me cortava, como pequenas facas sendo empurradas em minha cabeça. Uma palpitação começara na base do meu crânio também. — Nada disso. Alguém sacudiu minha cadeira. Eu estava de pé novamente e virei para o outro lado. A mesa de pôquer estava atrás de mim, mas estava vazia, ou assim eu pensava. Meu vislumbre tinha sido tão breve, mas agora eu olhava para três pessoas. Um deles encostou-se à parede, alto e magro, com os braços cruzados sobre o peito. Esta era uma porra de chá de domingo para ele. Ele se reajustou, inclinando a cabeça para o lado. Eu não conseguia distinguir seu rosto nas sombras. Outro cara estava na frente dele – aquele que tinha derrubado minha cadeira. Ele estava vestido de preto, da cabeça aos pés. Uma máscara de esqui cobria seu rosto, e sua voz estava disfarçada por alguma coisa automatizada. Como a que sequestradores usavam. Meu sangue gelou naquele pensamento. — O que você quer? — Havia outra pessoa, uma mulher – talvez a mulher de antes? Eu não conseguia vê-la. O quarto parecia uma pequena alcova, onde ela estava sentada. Ela usava roupas parecidas com os outros – calças pretas e camisa – mas não usava máscara de esqui. Eu não pensei. Peguei um flash do branco de seu pescoço e suas mãos dobradas juntas na frente dela. Sem luvas. Eu me demorei no anel azul que ela usava – era Carol. Eu zombei. — Sua puta, você me drogou. Os dois homens riram. Suas mãos se afastaram. Ela as colocou atrás dela, mas não disse nada.

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— Vamos parar com as gentilezas. — O rapaz se inclinou sobre mim, olhando diretamente para os meus olhos. Tentei reconhecer seus olhos, a única parte dele que eu podia ver. Talvez eu o conhecesse? Talvez eu pudesse conhecê-lo? Um lampejo de esperança surgiu em mim. Talvez isso significasse que iam me manter viva? Ele estendeu a mão atrás de mim e pousou a mão ao lado do meu ombro – o que eu estava tentando ignorar porque doía. Era o que eu tinha batido na queda. Seu polegar se moveu e escovou ligeiramente. A dor do pontapé na minha cabeça não era nada em comparação com o que eu sentia no meu braço. E triplicou com o toque. Parecia que meu braço estava pegando fogo. Um gemido escorregou antes de eu segurar. Um sorriso lento e satisfeito brilhou para mim. — Bom. — Seus olhos escureceram. — Agora que eu sei que você está machucada, vamos começar. Devemos? — Foda-se, — eu cuspi. — Ah! Talvez um dia, hein? — Ele chutou minha cadeira novamente, me movendo até que eu estivesse diretamente na frente da luz. Ele fez um gesto para trás. — Apague as outras luzes. A sala mergulhou na escuridão, exceto pela luz em mim. Ele se moveu atrás da luz e tirou sua máscara de esqui, segurando-a em suas mãos. — Vou fazer isso muito simples para você. Responda às minhas perguntas e fique viva. Não responda minhas perguntas e não fique viva. É fácil assim, viu? — Mas ele não estava esperando minha resposta. A sensação fria de uma lâmina tocou meu pescoço. — Você sente isso? — Ele aplicou pressão, o suficiente para cortar minha pele. Eu gritei, e então sufoquei o som imediatamente. Burro. Idiota. Monstro. Eu estava mijando em minhas calças, mas eles não veriam medo no meu rosto. De jeito nenhum. — Oh. — Ele riu suavemente. — Você é durona, hein? — Foda-se. — Minha garganta se moveu contra a lâmina, deixandoa mais apertada. Senti a minha pele rasgar, apenas ligeiramente, e uma onda de dor sibilante me percorreu. Outra onda de maldições passou pela

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minha mente. Eu cerrei os dentes. Esse idiota... ele ia morrer. De alguma forma. Aquela maldita risada. Arranhava os meus nervos. Alguém removeu a lâmina, e uma corrente a substituiu. Minha cabeça foi puxada para trás quando a corrente foi apertada atrás de mim. Minha cabeça estava trancada no lugar, e o homem se agachou ao meu lado. Eu ainda não podia ver seu rosto. Eu não conseguia olhar, apenas pegar um vislumbre borrado pelos cantos dos meus olhos. Sua mão voltou para meu ombro e descansou ao lado de meu braço ardente. Deus. Tanta dor, mas eu segurei a respiração. Eu sabia o que ele ia fazer. — Então. — Seu polegar descansou levemente sobre onde meu braço estava mais machucado. Apenas o suave roçar era como um ferro quente. Eu reprimi outro grito, mordendo meu lábio. — Vamos começar. — Ele chegou ainda mais perto. Eu podia sentir sua respiração quente na minha pele. Mesmo que fodidamente com dor. — No caso de você ficar brincando, eu vou soletrar tudo para você. Há mais de um ano, seu marido teve um certo paciente de nossa família, e temos certeza de que o paciente compartilhou algumas informações, informações que ele não deveria ter compartilhado. — O que? — Seu marido. — Liam? — Na boa, certamente. Aquele era o seu homem. Ele teve um paciente que lhe contou algumas coisas. Sabemos que tudo deve ser confidencial, certo? Pacientes e conselheiros, certo? Mas não acreditamos que isso tenha sido mantido em segredo, e não importa que seu marido também seja um dos nossos. Seu polegar ainda pairava sobre meu braço. A queimação estava se formando, latejando agora. Pisquei, tentando limpar minha cabeça. Eu precisava seguir o que ele estava dizendo, mas meu Deus, eu estava sofrendo. E Liam – por que ele estava falando sobre Liam? Foi por isso que Carol fez isso comigo?

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— Carol? — Eu chamei. Minha voz estava rouca. — Carol, o que está acontecendo? Liam? Isso tem a ver com seu filho? — Não. — Ela era uma confusão soluçante. O cara ao meu lado deu um latido, — Tire-a daqui! — Não! Não. Eu não vou dizer nada. — Ela lutou com alguém. — Não! Então uma porta se abriu e se fechou. Seu soluço estava abafado agora. — Não vou dizer nada. Eu prometo. — Cale-a! Agora! A porta se abriu e fechou novamente, desta vez com força extra. Senti o estrondo pelo chão. Carol gritou, e então ficou quieta. Foi estranhamente silencioso depois disso. — Não se preocupe. Sua sogrinha não está morta, apenas silenciada. Agora você vai me dizer o que seu marido lhe disse há tanto tempo. — O que? — Você me ouviu. O que ele disse para você? Senti o seu polegar abaixar para o meu braço, seu toque cada vez mais firme. Eu invadi minha mente, tentando me lembrar de qualquer coisa que Liam tivesse dito – eu não tinha nada. — Ele não... ele não falava sobre seus pacientes. — Acho isso difícil de acreditar. — Outro centímetro. Seu polegar começou a escovar para frente e para trás. Eu soltei um grito profundo e gutural. Eu não tive escolha. Minhas mãos se espalmaram, abrindo e fechando, e todo meu corpo se sacudiu na cadeira. A dor estava me esmagando. — Tudo o que você tem que fazer...— Sua voz era calma, doentiamente calma. — É me dizer o que Liam lhe disse. Teria sido bem antes de morrer. Morrer – eu mordi a língua. Algo não fazia sentido. Tudo isso não fazia sentido. Minha cabeça estava cheia e pesada. Meu pescoço estava se enfraquecendo ao ponto de eu não poder segurá-lo. Me esforcei para ver quem era esse cara, mas não consegui. Ele ficou apenas nas sombras.

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— Addison — murmurou ele. — Diga o que Liam disse a você. — Eu não... — Minha voz estava confusa. Eu podia provar o meu próprio sangue. — Eu não sei. Eu juro. Ele nunca falou sobre seus pacientes. — Vamos, Addison. A mão do homem saiu do meu ombro, mas ele apenas se aproximou. Eu podia sentir seu corpo pressionado contra meu braço. Lágrimas escorriam pelo meu rosto. Ele baixou a voz; foi quase calmante. — Eu sei que ele te disse. Você pode simplesmente nos dizer, e nós vamos deixar você ir. É tudo o que queremos. Nós realmente queremos deixá-la ir. — Sua mão se arrastou pelo meu braço, enviando ondas frescas de dor cortando através de mim. — Mas para fazer isso, precisamos saber o que seu marido lhe disse, porque veja só, nós estávamos observando você. Durante um ano inteiro, e agora há três meses, estamos acompanhando com quem você fala, com quem você troca e-mail, para quem você liga, quem você vê — tudo isso. Quando você pensou que estava sozinha? — Sua mão correu pelo meu braço. Meu corpo estremeceu. — Nós estávamos lá o tempo todo. Todos aqueles pesadelos? Temos de saber o que os causou. E eles pararam, não foi? Quando você se mudou, o que estava assombrando você parou de assombrá-la, estou certo? — Quem diabos é você? Você está me espionando? Ele riu. Sua respiração me encheu, me sufocando. — Você estava tão triste quando ele morreu. Eu tive calafrios assistindo você na cena do crime. Você não podia se mover. Você estava de pé naquela esquina da rua, seu cachorro enlouquecendo, e você não podia parar de olhar para ele. — Sua voz era quase sedutora. — Você deve realmente amá-lo. Ele te despedaçou, não foi? Você se livrou de tudo dele, até mesmo seu cachorro. Você mandou tudo que o lembrava embora, não foi? Eu puxei uma respiração irregular, sentindo lágrimas quentes no meu rosto. Elas deslizaram sobre os cortes, e eu estremeci. Eu estava impotente para detê-las. Liam...

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— Sim. — Sua mão se foi, e ele puxou uma faca sobre meu braço. De cima a baixo, como se estivesse tentando me confortar. — Mas você tem que se colocar em nosso lugar, Addison. Veja, estávamos bem, deixando você viver. Você não fez nada. Quero dizer, por que duas mortes acontecem, sabe? E Carol, ela lutou duro por você. Ela realmente lutou. Nós íamos puxá-la para dentro, fazer de você uma Bertal, mas ela foi inflexível. Ela disse que Liam não queria isso. Você deveria permanecer fora, mas imagine nossa surpresa quando você se mudou para o Mauricio. Você entrou no coração do território de nosso inimigo, e de repente você conseguiu dormir de novo. Me faz pensar que talvez você tenha se aliviado. Talvez houvesse algo em seu peito, e você teve que tirálo? Foi isso que aconteceu? Você disse a Cole Mauricio algo que não deveria dizer? — Eu fiz o que? A faca parou. Ele trouxe para minha garganta e empurrou duro – não a borda afiada, mas a borda maçante. Eu não conseguia respirar; ele estava esmagando minha traqueia. Cole... — Pare de brincar — ele sibilou. — Me responda! Você contou a Cole Mauricio o que seu marido lhe disse?! — Não... A faca me cortou. Ele gritou em meu rosto, seu cuspe aterrissando em minha bochecha. — Você contou?! Eu tossi, e continuei tossindo, Ele estava empurrando para baixo tão duro, e de repente eu não pude fazer nenhum som. Eu estava sufocando. Não consegui sugar o ar. Quando você está prestes a morrer, todos os filmes fazem parecer que o tempo desacelera, você começa a ter flashes de sua vida. Talvez essas memórias devam confortá-lo. Talvez seja o cérebro atirando suas últimas sinapses. Eu não sabia. Eu sabia que havia teorias científicas, mas não foi isso que me aconteceu. Eu não podia respirar – era isso. Eu só. Não podia. Respirar. Meus olhos incharam, e eu me atirei na cadeira. Meus braços estavam em toda

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parte. Apesar da dor, eu quebrei suas cordas. Minhas costas se arquearam para fora da cadeira, mas minha cabeça ainda estava amarrada no lugar... então eu estava caindo... Eu bati no chão com um tapa. Depois que eu bati no chão, eu não podia fazer nada. Meu corpo tremia, tudo por conta própria. Minha mente estava escorregando. Ainda não havia ar suficiente. Minha visão ficou turva, e houve vozes. Eu os ouvi através de um nevoeiro novamente. Uma luz – uma única luz queimou através de mim. Rostos a bloquearam. Sapatos se aproximaram mais depressa. Senti-os batendo no chão. Uma mulher gritou. Houveram gritos. As pessoas estavam empurrando, e alguém caiu. Então Carol estava no chão, a cabeça virada para mim. O terror iluminou seus olhos, e ela estava pálida. Eu teria rido, se pudesse. Ela estava com medo, e eu ia morrer. Eu vi um movimento na porta. Mãos estavam me tocando, me colocando de volta na cadeira. A luz estava bloqueada. A porta do corredor se abriu e a luz entrou no quarto. Por um breve segundo, eu o vi. Eu vi o homem que tinha me interrogado. Eu vi suas costas, e seu perfil quando ele virou no corredor. Eu o vi. Alguém se moveu na minha frente, e a corda em volta do meu pescoço caiu. Então eu podia respirar em gargalhadas esfarrapadas. Alguém me levantou, e meus olhos rolaram. A negritude voltou a fechar-se, mas eu o tinha visto agora. Eu vi Dorian.

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CAPÍTULO TRINTA E UM A água fria me acordou. Virei a cabeça e vi Carol ao lado da minha cama. Ela estava sentada em uma cadeira, um balde ao lado dela, e ela estava lavando meu rosto com um pano. Ela não estava olhando nos meus olhos. Ela só estava focada na minha pele. Ela trouxe o pano ao meu ombro e começou a movê-lo levemente pelo meu braço. Quando ela chegou à minha mão, ela fez uma pausa. Uma linha marcou sua testa, e ela soltou um profundo suspiro. Com mãos gentis, ela pegou a minha e a examinou, virando-a para que ela pudesse ver melhor na luz. Havia um esboço no quarto. Ela colocou a toalha nos meus nós dos dedos quando eu olhei em volta. Eu estava em uma cama, escondida no canto de um pequeno quarto. Uma única lâmpada pendurada no teto. Eu podia ver na porta aberta do armário. Apenas uma pilha de cobertores dentro. Passos pesados soavam no corredor. Eles ficaram mais altos, e eu fiquei tensa – até que eles passaram pela porta. — Você está acordada? — Carol agora olhou para mim. Eu devo ter movido minha mão. Eu tentei acenar, mas doeu muito. Eu me senti meio paralisada quando eu gritei: — O que você fez? A vergonha obscureceu seus olhos, e ela pendurou sua cabeça. O pano caiu de seus dedos, batendo no chão. Ela amaldiçoou e se inclinou

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para agarrá-lo. Quando se sentou de volta, colocou-o sobre a mesa ao lado da cama. Agarrando o balde, ela se levantou. — Aguente aí. Eu já volto. Eu queria implorar para ela não contar aos outros. Não os deixe saber que eu estou acordada! Não deixe que me machuquem de novo! Mas nenhuma palavra saiu. Eu não conseguia soltá-las, então fiquei ali e esperei, sentindo uma ferida aberta. Ela voltou momentos depois, chutando a porta com o calcanhar dela. Ela colocou o balde ao meu lado, tirou uma toalha nova e a trouxe para minha bochecha. Eu segurei a respiração, esperando o frio e sabendo que iria aumentar a minha agonia, mas não. A água quente me cumprimentou, e fiquei aliviada pela primeira vez desde que fui capturada. — Obrigada, — eu finalmente disse, me perguntando se deveria agradecer a ela por qualquer coisa. Minha voz era uma bagunça estragada. Ela não respondeu. Ela lavou o resto da minha bochecha, então se mudou para a outra. Ela banhou minha mandíbula, e até minha testa. Depois de limpar o nariz, ela se sentou e deixou cair o pano no balde. Seus ombros caíram e ela olhou para baixo. — Isso é tudo culpa minha, — ela disse suavemente. — Cada parte disso. Minha garganta inchou. Eu não acho que era pela dor física. Eu não podia falar mais. — Eu fui seus olhos e ouvidos sobre você — ela continuou. — Ninguém mais. Ela encontrou meu olhar, talvez pela primeira vez. A tristeza em seus olhos – deveria ter me emocionado. Mas não. Eu não teria compaixão por ela. — Liam me deu uma chave da casa, e depois que ele morreu, eles me pediram para checar você de vez em quando. Eu não sabia o porquê. Pensei que estivessem preocupados com você, e isso parecia tão amável. Quem são eles? Os Bertals?

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Ela moveu a toalha para cima do meu braço. Fechei os olhos, agarrada às palavras dela para bloquear as sensações ardentes. — Nós não fazíamos parte deles — disse ela. — Bea sempre quis seus filhos fora do negócio da família. Ela disse que era tolice. A única saída era uma bala quente, ela costumava dizer. Eu não sabia que ela fazia sua contabilidade, não até que ela morreu e todo mundo teve suas heranças. Liam teve a maior parte. Ela o amava mais, e há outra parte que irá para você. — Ela olhou para cima, um meio-sorriso em seu rosto. Era tão assombrado que não parecia um sorriso. — Se você sair desta situação, quero dizer. Ela descansou a mão na minha testa e moveu meu cabelo para o lado. — Vou tirar você daqui viva. Prometo, Addison. Farei isso por Liam. — Sua voz ficou embargada. — Tenho que deixar o meu filho orgulhoso, porque eu sei que ele está envergonhado de mim. Ele tem que estar. Eu estaria. Eu estou. — Seus olhos ficaram ferozes. — Juro que não tinha ideia do por que eles queriam que eu te vigiasse. Eles nunca disseram uma palavra. Eu só deveria relatar se algo estranho acontecesse, e você se mudar para o Mauricio foi estranho. Foi quando descobri. Descobriu o que? Minha boca se abriu. Eu tentei falar. Nada ainda. — Eles pensam que Liam, não, eles sabem que Liam tinha um Bertal como paciente. Foi antes de perceberem que Liam estava distante de nós. Tudo foi para o ralo depois disso. — Ela encontrou meus olhos novamente. — Havia uma guerra acontecendo naquela época, e eles não podiam determinar de que lado Liam estava. — Ela engoliu antes de acrescentar: — O problema começou quando Cole Mauricio voltou. Houve paz há algum tempo, mas ele matou quatro dos nossos homens. E a paz acabou então. Lembrei do que Cole havia dito. — Eles enviaram quatro homens... Eles morreram. Eu vivi... Eu voltei, e eu matei mais. — Fomos puxados para uma guerra que não queríamos, não a princípio. Estávamos chateados. Oh, sim. Eles estavam chateados. E mais dos nossos homens morreram. Aquele Carter Reed, ele matou quase

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todos nós. Todas as famílias pensavam que ele estava vindo atrás de nós, como... Como eles tinham ido para a família de Cole. Eles mataram meu pai primeiro... Minha mãe foi na semana seguinte. Então seus três irmãos. Sua irmã mais velha. Suas duas irmãs mais novas, as gêmeas. Um após o outro, semana após semana. Eu não estava chorando, não por ela. Sua mão foi para o meu pescoço, e ela começou a lavar lá. As lágrimas que caíram e caíram sobre a mão dela eram por Cole, pelo homem cuja família ela ajudara a assassinar. Uma semente começou a crescer em mim. Era pequena, mas poderosa. Era o meu ódio por aquela família, da qual Liam veio. — De qualquer forma. — Ela bufou, limpando a garganta. Sua mão permaneceu na minha clavícula, mas eu não acho que ela realmente me via. — Eles estão preocupados agora que você fale. É por isso que te processamos. Eu não queria. Sabíamos que Liam comprou aquela casa com sua herança. Nós não tínhamos nada a ver com esse dinheiro. Bea se certificou disso. Mas eles precisavam de acesso às suas contas bancárias. Aquela era a razão real, e têm os caras do computador. Eu não entendo. Eles tentaram explicar, mas nada disso fazia sentido para mim. Eles só queriam seus extratos bancários, ver se você foi paga pelos Mauricios, se foi por isso que você foi morar no prédio dele. Quem eram eles?! Eu queria saber seus nomes, suas posições. Queria saber tudo. — Eles não conseguiram encontrar nada, disseram que não havia transações suspeitas. O que? Não. Eu não podia falar. Eu não podia me defender. Em vez disso, minhas mãos se enrolaram em punhos, e minhas unhas cortaram minha pele. A dor diminuiu. Eu continuei a cavar. — Eu continuava dizendo que não, — Carol disse, implorando agora. — Eu sei que você tem todo o direito de me odiar também, mas eu ainda amo meu garoto. Eu não teria feito isso com você, mas eles nos

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obrigaram. Eles nos ameaçaram, ameaçaram o resto dos nossos filhos. Nós tivemos que fazer. Sinto muito, Addison. Nós tivemos que fazer. Ela se recostou, sua mão caindo em seu colo. Ela segurou a toalha, formando um ponto molhado em suas calças. Ela não parecia estar ciente disso. — Quando não conseguiram encontrar nenhuma transação incriminatória, passaram pela casa. Tentei dizer-lhes que não haveria nada. Eu sabia que você levou tudo que era pessoal com você, ou para os seus pais. Um novo horror me encheu. Abri a boca, tentando perguntar se ela tinha dito isso, mas só um grito sussurrado estourou. Ela olhou para cima. Seus olhos arregalados, e balançou a cabeça. — Ah, não. Eu não lhes disse isso. Apenas que o cão foi para eles. Eles queriam saber, mas de jeito nenhum. Eu não colocaria sua mãe em perigo assim. Disse-lhes que você colocou o teu material no armazém, mas não sabia onde. Isso é o que eles estavam procurando. Eles queriam encontrar uma chave ou onde você armazenou tudo. Eles não encontraram nada, como eu sabia que não iriam. Um olhar perdido penetrou seus olhos. — E quando não conseguiram encontrar nada, disseram que não havia outra opção. — Ela olhou para mim novamente. — É por isso que você está aqui. Eles me fizeram chegar perto de você. Ninguém mais podia, e eu sabia que só tinha uma pequena janela. Você estava voltando lá para ficar ao lado do próprio Mauricio. Ele colocou guardas em você. Eles estão observando você por um tempo, mas sempre à distância. Sabia disso? — Ela assentiu para si mesma. — Eles se misturaram, mas descobrimos quem eram. Pela primeira vez, nenhum deles foi com você. Eu tinha que me mover, ou não teria funcionado. Acho que talvez não deveria ter funcionado. Eu deveria ter pegado a agulha, feito algo, dito que você me dominou, mas eu sabia que não iria funcionar. Eles teriam acabado matando-a se eu não tivesse ajudado a trazê-la desta maneira. Ela pôs a toalha no balde e sua mão cobriu a minha. Ela se aproximou. — Eu vou tirar você dessa. Eu resolvo isso. Eu prometo. Mas, Addison, você tem que me dizer o que Liam disse para você.

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Eu balancei a cabeça. — Ele deve ter dito algo. Por que você se mudou para o Mauricio? De todos os edifícios, por que aquele? Havia uma razão. Você foi lá de propósito. Você tem que nos dizer o porquê. O que Liam lhe contou sobre os Bertals? O que eu não sei? Não tive resposta. Mesmo que minhas cordas vocais tivessem funcionado, eu ainda não teria lhe contado nada. Não havia nada para contar. Eu levantei meus ombros e tentei balançar a cabeça novamente, lado a lado. Carol sentou-se de volta. — Você tem que saber alguma coisa. Eu não. — Addison... — Ela disparou para frente novamente. — Você tem que me dizer. Diga para mim; eu digo a eles. Nós duas estaremos seguras. Eles disseram isso. Ele disse isso. Se você contar, eles vão considerar você da família novamente. Tudo vai ficar bem. Eles nos protegerão. Mauricio nunca nos encontrará. Mesmo Carter Reed, se ele se juntou a aquela família novamente, ele também não nos encontrará. Estaremos a salvo. Nós poderíamos até mesmo ir juntos – você, eu, Hank. Eles não machucariam meus outros filhos. Eles estariam seguros, e poderíamos estar seguras também. Apenas me diga. Eu não sabia! Se eu pudesse falar, eu estaria gritando. Eu não. Sei! Ela ficou quieta, lendo meus olhos, antes de cair de volta na cadeira. — Você realmente não sabe, não é? Ela foi derrotada. Ela finalmente entendeu que eu não sabia nada. Liam nunca disse nada. Sua mão descansou na base da minha garganta, mas ela estava falando sozinha agora. — Isso não é bom. Eles vão te matar. Eles não vão acreditar em você. Se você não lhes disser nada, então por que você se mudou? Não foi uma coincidência. Nada é uma coincidência. — Ela se concentrou em mim novamente. — Por que você se mudou para lá? Levantei a mão, fingindo escrever algo no ar.

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— Oh! — Ela se levantou da cadeira. — Espere. — E ela se foi. Ela voltou com um computador, que colocou no meu colo, me ajudando a sentar. O wifi estava desativado. Não podia enviar um e-mail. — Aqui vai. — Ela levantou uma tela em branco e moveu sua cadeira para que ela pudesse ver o que eu digitei. — Diga como você acabou morando lá. Minha amiga foi abordada, eu digitei. — Como? Ela recebeu um número de telefone. Nós ligamos para ver, e eu amei o prédio. Fiz uma pausa, franzindo o cenho e, em seguida, acrescentei: achei que a casa estava assombrada pelo fantasma de Liam. Eu não poderia ficar lá por mais tempo. — Quem foi abordada? Sia? Ela quem foi avisada da vaga? Puxei minhas mãos do teclado. Eu não responderia. — Addison, vamos lá. Eu balancei a cabeça. — Eles vão querer saber. Temos de dizer a eles. Eu datilografei, de nenhuma maneira fodida! Cai fora, cadela. Carol se afastou. — Você não tem que ser rude. Minhas mãos estavam doloridas, mas estendi meus dedos do meio. Ambos. Quando ela viu, eu movi-os ao redor no ar. Ela não ia tirar o nome de Sia de mim. Minhas mãos voltaram para o teclado. Eu ia escrever que eles poderiam me matar antes que eu dissesse, mas ela murmurou: — Talvez ele saiba. Aposto que ele saberá. Dorian. Medo correu pelo meu corpo. Fiquei paralisada por um momento, então me arremessei o melhor que pude e tentei digitar novamente, mas Carol puxou o laptop para longe. Ela o colocou sob seu braço e se inclinou para perto, pressionando seus lábios contra minha testa. — Eu sinto muito, Addison. Eu sei que você ama essa amiga, mas ele saberá. Se for Sia, ele saberia, e se não for, não se preocupe. Ela não será prejudicada. Eu tenho que dizer a eles.

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Eu tentei acertá-la com a cabeça, mas ela se afastou. Eu não podia fazer nada para detê-la. Eu ainda estava amarrada, apenas em uma cama em vez de uma cadeira. Ela foi até a porta e olhou para trás. — Eu vou fazê-los soltar você. Prepare-se. Você vai para casa com o Hank e eu. Vamos desaparecer juntos. Tudo vai ficar bem. Mas nós não íamos. Estávamos tão longe além do caminho e não havia volta. Ela estava se iludindo, e depois que ela fosse a ele, ele mataria Sia. Ele iria me matar, e poderia até mesmo matar Carol. Não, não ficaríamos bem.

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CAPÍTULO TRINTA E DOIS COLE A pista veio através de Ken. Ele não foi informado sobre quem levou Addison. Nós já sabíamos disso. Ele foi informado sobre onde ela estava, e nós não hesitamos. Estávamos nos movendo dentro de uma hora. Eu estava na sala de armas quando um dos meus homens me deu a notícia que eu estava esperando desde que Addison foi levada. Ele tossiu. — Senhor, Carter Reed está na porta. Parei, com a faca na mão, e olhei para o meu soldado. Ele se agitou na porta, e eu sabia que ele queria correr. Agora eu não era o chefe agradável, o chefe que brincava às vezes, o chefe jovem que todos subestimavam. Eu era o assassino que os Bertals tinham criado, a arma que o próprio Carter ajudou a aprimorar. Eu era a porra da cabeça da família Mauricio olhando para ele. — Você é novo — eu disse. Seus olhos se estreitaram antes dele assentir. — Sim, senhor. — Você já matou antes? Outro idiota da cabeça. — Já, senhor.

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Apontei minha faca para ele. — E se eles atacarem agora – se Carter for realmente um traidor e ele for tentar me matar, o que você faz? Para lhe dar crédito, ele não hesitou. Ele rolou seus ombros para trás e colocou as mãos atrás das costas, espalhando os pés uniformemente. — Eu o mataria em vez disso. A porta da sala se abriu e Carter passou pelo soldado, mas ele fez uma pausa e olhou para ele. — Mataria, hein? Os olhos do soldado se arregalaram. Seu pomo de Adão balançava para cima e para baixo. — Mataria. Desculpe, senhor. — Seus olhos se moveram para os meus. — Outro senhor, quero dizer — corrigiu ele. — Mas eu mataria. Eu sou leal ao chefe da família Mauricio e... — Ele hesitou, olhando para mim novamente antes de voltar para Carter. Seus olhos se encontraram e se seguraram. Meu respeito por ele subiu um pouco. — Você não está mais na família Mauricio, oficialmente, Sr. Reed, senhor. Carter estava segurando um sorriso, mas ele não estava aqui para incitar meus soldados. Ele estava aqui por outra razão, e quando me lembrei disso, o momento passou. Atirei minha faca no ar, peguei-a pelo cabo e a enviei para o meu soldado. Ficou presa na parede atrás dele. Ele não tinha ido ainda, seus olhos nem mesmo se movendo para a faca. Eu gesticulei para ele. — Pegue. Você vai precisar de mais do que algumas armas esta noite. Ele pisou para o lado, agarrou a faca e puxou-a para fora da parede. Ele balançou a cabeça para cada um de nós antes de sair para o corredor. Carter esperou até que a porta se fechasse, então se virou para mim. — Você raspou o ouvido dele. Você sabia disso? Eu lancei-lhe um olhar. Claro que eu sabia. Eu não estava me sentindo particularmente falante. — O que você está fazendo aqui? Seus olhos se estreitaram, olhando pelas armas que eu espalhei na mesa. — Você está pronto para fazer isso? — Para fazer o que?

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Eu sabia. Ele sabia. Eu queria que ele dissesse isso. — Iniciar uma guerra. Lá estava. — Como você fez? — Foi diferente. — Como? Ele atravessou a sala e parou no lado oposto da mesa agora. Ele baixou os olhos, me estudando. — Você a ama? A emoção piscou em meu estômago, endurecendo tudo novamente. Fiz uma careta, pegando outra faca e enfiando-a no coldre do ombro. Pendurado abaixo da 9mm. — Você começou uma guerra pela mulher que você amava. — Comecei. — Você terminou uma segunda também. Por ela. — Meus olhos esfriaram. Minha mandíbula endureceu. Carter estava esperando. — Então você voou todo esse caminho para me perguntar se eu amo Addison? —- Não vá para a guerra se não quiser — disse ele calmamente. Ele se inclinou sobre a mesa. — Ela é deles. Eles tomaram um dos seus. Você invadiu para pegar um deles – é assim que eles vão fazer isso. Você está pronto para as consequências depois? As empresas serão afetadas. Vidas vão acabar. Famílias serão despedaçadas. Você poderia morrer. Ela poderia morrer. Você está pronto para isso? — Ela já poderia estar morta. — Eu esperei, me mantendo controlado. Havia outra pergunta ainda chegando. Ele perguntou. — Ela vale a pena? Um segundo passou entre nós. Outro. E um terceiro. Esperei, assim como Carter. Ele disse o que queria. Era por isso que ele viera, para me testar. Eu me inclinei para frente, minhas armas prontas para ir, e disse o que precisava ser dito: — Sim. Ela é minha. Nada mais importava. Addison era minha.

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Carter recuou quando eu peguei mais uma arma e saí. Ele não estava na família, não como alguém que mataria ao nosso lado, então ele ficou para trás. Saí do quarto, atravessei o corredor e saí para o armazém onde meus homens esperavam. Minha chegada foi o sinal. Tudo tinha sido planejado. Todo mundo conhecia seus lugares, e quando eu passei por eles, eles seguiram. Estávamos indo pegar o que era meu.

Batemos uma vez na porta de trás de um bordel. A porta se abriu e o baixo do piso principal vibrou. Parte da fumaça e do gelo seco flutuava, e a pessoa que nos dera a pista saiu para o beco. Eu olhei para ela. Firme. — Você está fazendo isso para salvar sua vida? A ex-sogra de Addison, Carol, estremeceu, cruzando as mãos na frente dela. Ela vestia uma jaqueta leve, mas ainda usava as mesmas roupas que eu tinha visto nas filmagens de segurança da Gala. Notei sangue seco em seu suéter, e antes que ela tivesse dito uma palavra, eu disse: — É melhor não ser o sangue de Addison. Sua cabeça baixou, e eu olhei para o topo de seu cabelo. Mas agora ela olhou de volta. O medo alinhou seus olhos. — Ela está machucada. Não posso mentir sobre isso. — Ela está no porão? Ela assentiu, incapaz de segurar meu olhar. — Sim. Eu tranquei a porta indo para o piso principal. Nenhuma das garotas vai incomodá-lo. Há um quarto à direita quando você desce. Quatro guardas estão lá dentro. Eles devem estar aqui em cima, estão assistindo a um jogo agora. Continue. Eu contei talvez outros oito lá embaixo. Addison está na sala de trás, todo o caminho para baixo no lado esquerdo. Há outro quarto lá

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atrás onde os guardas levam as meninas. Eu não pude abri-lo para ver quem estava lá, então poderia haver mais homens. — Eles vão caçar você. Seus magros ombros encolheram. Ela parecia patética. — Eu gostaria de levar Addison comigo. Ela é da família. — Ela parecia patética também. — Não vai acontecer. — Eu me inclinei para frente. Eu queria que ela visse o desgosto em meus olhos. — Ela não é sua família. Você nunca a aceitou antes, e você está usando-a para se livrar de sua própria culpa. Se você fosse da minha família? — Eu segurei um dedo e toquei-o no topo de sua cabeça, fingindo atirar nela. — Eu colocaria dois aqui. — Eu me afastei. — Mas é assim que eu lido com traidores. Addison pode ser mais indulgente. Ela deu um suspiro trêmulo. — Sim. Bem. Por favor, basta tirá-la. — Carol saiu depois disso, correndo pelo beco entre meus caras. Eu esperei para checar o perímetro, e logo que sinalizamos que tudo estava limpo, nós seguimos. Matar não é grande coisa para mim. Acontece. As pessoas estão aqui, então elas desapareceram. Carter me disse um dia que meu ponto de vista era distorcido por causa do passado da minha família. Foda-se se eu me importo. Geralmente para um trabalho como este, o chefe da família não estaria na liderança. Mas eu não era como o cabeça anterior, ou mesmo Carter. Eu queria ir primeiro. Comecei a ter sede por isso. Talvez fosse o elemento surpresa. Talvez me fizesse sentir como um fodão. Ou talvez – dois caras deram a volta na esquina, e eu disparei duas balas, uma para cada uma de suas testas – talvez fosse esse momento. Quando seus corpos atingiram o chão, talvez eu tenha saboreado a sensação de pisar sobre eles e continuar, como se eles não fossem nada, como se eles sempre tivessem estado lá e eu continuasse com o meu dia. Seja lá o que fosse, eu me sentia vivo. Chutando a porta do primeiro quarto, eu pisei e coloquei mais duas balas no primeiro cara que vi. Um dos meus homens se aproximou de

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mim e pegou o segundo cara. Em seguida, ambos foram puxados para trás. Nós ouvimos o engate de armas se preparando atrás da porta, bem do outro lado de onde nós estávamos de pé. Quando caímos de volta em nossos homens, alguém explodiu dois buracos pela porta. Reconheci o clipe de um rifle de assalto e me lancei para frente. Deslizei pela porta no chão e disparei enquanto eu rolava. Eu peguei um. O outro caiu quando um de meus homens disparou através dos furos na porta. — Vamos. — Outro dos meus homens bateu uma mão na parede. Ele estava acelerado. Todos estavam acelerados, e eu assenti, saltando para meus pés. Eles não esperaram. Eles já estavam chutando a porta ao lado. Eu me virei e acenei para alguns dos outros para seguir em frente. — Continue conferindo os quartos. — Eu apontei para cinco deles. — Vocês, venham comigo. Houve um tiroteio no quarto ao lado. Esperamos até que eles limpassem a área, então seguimos todo o caminho até o final do corredor. Eu fui para os dois últimos quartos. Carol disse que o da esquerda era Addison, mas o da direita era desconhecido e ela não entrou lá. Eu odiava a porra dos desconhecidos. — Cole, — Um dos meus homens, Ford, agarrou meu braço e me segurou. — Vamos limpar esse. — Ele gesticulou para o quarto de Addison com sua arma. — Pegue a sua garota. Eu acenei com a cabeça, mas eu tive que esperar enquanto eles chutavam a porta direita. Ouvi tiros de arma quando eu fiz o mesmo na porta de Addison. E quando entrei, meu coração parou. Toda a adrenalina e agitação simplesmente me deixaram. Ela estava amarrada a uma cama, coberta de contusões. Quase caí de joelhos. Eu a amava. Eu não podia me mover, não no início. Eles a tinham espancado. Metade do seu rosto estava inchado. Um dos olhos dela não se abriu. Sua garganta estava preta, azul, e uma cor amarela grotesca. Suas mãos – eu

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dei os três passos na direção dela, eu estava caindo com cada um – suas mãos tinham marcas de sapato nelas. Eles haviam pisado nela. Minha boca secou. Agarrei minha arma com mais força, precisando sentir a minha faca na outra. Eu queria me virar, encontrar um de seus homens, e matálo. Eu queria que ele sangrasse lentamente, e eu queria seu sangue por todo o chão quando os Bertals voltarem por seus homens. Mas então o olho bom de Addison se abriu, e uma calma trêmula se apoderou de mim. Ternura como eu nunca tinha experimentado cobriu a minha raiva. Era como uma folha fina, velando a luxúria do sangue, e eu engoli em seco, forçando minha boca em um sorriso. Ela tinha que me ver sorrir. Ela tinha que saber que tudo ia ficar bem. Eu diria qualquer coisa, prometeria qualquer coisa, faria qualquer coisa para fazer esta mulher se sentir segura novamente. — Ei, — eu disse suavemente, me ajoelhando ao seu lado. As lágrimas brotaram e caíram pelo seu rosto, deslizando sobre as contusões. — Ei. — Eu levantei minha mão. Eu ia limpar algumas das lágrimas, mas hesitei, segurando minha mão no ar. Eu não queria mais machucá-la. Eu a amava. Isso correu através de mim, cobrindo meus pulmões, minha voz, meus pensamentos. — Achei você. Eu te amo. Ela continuou chorando. — Addison? — Eu limpei meu polegar sobre seu rosto, esperando por Deus que eu não a tivesse machucado com aquele leve toque. — Addison, você pode falar? Sua cabeça balançou uma polegada, mal. Ela não podia falar, e ela continuou chorando. — Eu te amo. Continue. Pegue-a, segure-a. Volte e assassine quem você tem que matar. Esses eram os meus objetivos. Eu fiz um trabalho rápido desatando as cordas. Uma vez que a última soltou, eu deslizei meus

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braços sob ela e levantei. Ela era tão leve, tão malditamente magra – como se ela tivesse perdido peso no dia em que ela foi embora. Eu quase tropecei voltando para a porta, mas respirei fundo e a segurei apertado, protegendo-a para que ela nunca se sentisse insegura novamente. Dois dos meus homens estavam esperando por mim. Eles viram Addison, o que eles tinham feito com ela, e todos ficaram em silêncio. Os homens ficaram ao lado dos quartos que eles tinham limpado e observaram silenciosamente, me deixando passar. A porta que conduzia ao andar principal estava aberta agora, e um grupo de meninas estava lá. Estavam pouco vestidas. Algumas só usavam tangas com os seios pendurados. Algumas usavam lingerie, espartilhos, e todas tinham maquiagem pesada e cabelo feito. Quando viram Addison nos meus braços, ouvi silêncio ofegante. Duas delas começaram a chorar. Outra cobriu sua boca quando se afastaram para me deixar passar. Uma mulher saiu. Um dos meus homens segurou-a de volta, e seus olhos se arregalaram. Ela apontou para Addison enquanto eu caminhava, indo para o carro que tinha na esquina do beco. — Eles fizeram isso com ela? — Sim — exclamei. O carro parou ao meu lado, e a porta dos fundos se abriu. Carter estava lá. — Dê-me ela para que você possa entrar. Eu a segurei mais apertado, incapaz de suportar deixá-la ir, mesmo por um segundo. Eu subi e sentei, embalando-a em meu colo. O motorista fechou a porta e fomos embora. Meus homens seguiriam atrás. Logo que estávamos livres do bordel, me virei para Carter. — Por que você veio? Seus olhos se voltaram para Addison antes de murmurar: — Somos família. Eu vim para apoiá-lo. Eu balancei a cabeça. Era isso que nós somos. Meus olhos nunca deixaram Addison a viagem inteira de volta para casa. E quando chegamos, em vez de ir ao seu andar, levei-a para o meu e a deitei na minha cama. Chamamos um médico e, logo que ele a

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examinou, tratou seus ferimentos e deu medicação para dor, deixei-a dormir. Quando eu saí, Carter esperava na cozinha, junto com mais dos meus homens. Todo mundo sabia que isso significava que estávamos indo para a guerra novamente, mas por esta noite, eu decidi que esperaríamos. Voltei para me encostar na parede do meu quarto, observando a respiração de Addison. Depois de um tempo, eu escorreguei para o chão e esperei que ela acordasse. Eu nunca me movi.

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CAPÍTULO TRINTA E TRÊS ADDISON Dedos gentis me acordaram. Alguém estava escovando o meu cabelo de minha testa, e quando meus olhos se abriram, eu ouvi um grunhido suave. — Ei, ei. — Eu podia ouvir o sorriso, então um riso aliviado. — Você está acordando. Sou eu. O canto do meu lábio se contraiu. Eu sabia quem era. — É Sia. Eu abri meus olhos, e lá estava ela, parecendo que tinha acabado de tomar banho. Seu cabelo estava molhado, e ela estava – eu tentei levantar a cabeça para que eu pudesse ver melhor. Ela estava usando calças de moletom e um casaco com capuz? Eu enruguei meu nariz, ou tentei. Ela não usaria uma camiseta feia. Mas então eu peguei o logotipo de Georgetown. Era de Jake. Sia totalmente vestiria a roupa do namorado – até mesmo as apreciaria. — Alguma coisa está errada comigo? — Ela olhou para si mesma. Eu balancei a cabeça. Não havia nada de errado. Absolutamente nada. — É bom ver você, — eu tentei dizer, e quando eu realmente ouvi

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um sussurro arranhado, eu agarrei sua mão e apertei. Eu podia falar novamente! Sia riu. — Uau, calma Senhorita Eu-namoro-um-fodão-Agora. — Ela soltou sua mão, mas colocou-a de volta em cima da minha. Ela apertou gentilmente, e lágrimas brotaram em seus olhos. — É realmente bom ouvir você. Ouvi dizer que não podia falar quando Cole te encontrou. Ele não está aqui. Ele teve que sair para fazer alguma coisa, então é por isso que eu estou aqui. Eu levantei minha cabeça, querendo que ela visse a pergunta em meus olhos. Ela acenou sua mão livre na frente de seu rosto, tentando secar suas lágrimas não derramadas. — Eu sou uma bagunça emocional. Gah. Mas acho que é o que acontece quando sua melhor amiga é sequestrada e torturada, e você é acordada quando um homem da máfia invade o elevador do seu namorado, certo? — Ela continuou rindo, e uma nota de histeria entrou. — Uau. Ok. Se eu estou tão abalada com o que aconteceu comigo, não tenho ideia de como você lidou com o que aconteceu com você. Como você lidou com isto? Sério? — Ela esperou, me examinando. — Você toma remédios? — Então ela bufou. — Bem, eu acho que você toma agora, mas tudo bem. Estou atrasada. Eu nem sei como processar tudo, muito menos falar sobre isso, mas aqui vai. — Ela bateu no cabelo dela. Estava em um rabo de cavalo bagunçado, mas era isso que Sia fazia quando estava tentando reagrupar. Ela fechou os olhos. Respirou fundo calmamente, depois olhou para mim novamente. Tentei sorrir. Eu não tinha ideia se funcionou ou não. Eu não estava me sentindo no momento. — Então... — Sua voz vacilou. — Eu deveria começar desde o início, certo? Quando eu fiquei louca no meu próprio evento na Gala? Honestamente, eu não acho que eu alguma vez vá ser olhada da mesma maneira. Eu estava atrás de você, conversando com a Sra. Gallig e puxando saco dela. Ela estava tão irritada porque tinha tido que esperar pelo banheiro, mas então o seu namorado bateu no meu ombro. — Ela riu. — Sra. Gallig parecia pronta para desmaiar. Toda a sala estava

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zumbindo. Todo mundo sabe quem é Cole Mauricio agora. A palavra saiu de alguma forma, e quando ele veio até nós, a Sra. Gallig gritou. Eu não poderia dizer se ela estava com medo ou excitada. Foi a coisa mais engraçada do mundo. Mas isso não durou muito. — Sua voz baixou. — Ele perguntou se você ainda estava no banheiro, e quando ele disse aquelas palavras – oh, cara. Eu sabia que algo estava errado. Eu apenas senti. Eu não acredito em médiuns, mas se alguém me dissesse que eu era uma psíquica naquele momento, eu teria acreditado. Eu só sabia, Addison. Eu sabia. Ela parou e colocou sua testa contra meu braço por um momento. Então ela estava de volta. — Ele tinha seguranças cuidando de você. Você sabia disso? Eu balancei a cabeça. Carol me disse, mas eu não sabia antes disso. — Eu não podia fazer nada. Eu congelei como um picolé. Eu só podia ficar lá, boquiaberta com seu namorado insanamente quente, e ele assumiu. E rapaz, ele realmente assumiu. Ele começou a gritar ordens, e as portas foram trancadas. Guardas saíram de todos os lugares. Acho que um terço das pessoas lá trabalhava para ele. Talvez não. Eu acho que não. Você não teria sido levada se esse fosse o caso, mas tudo bem. Sim. Seus guardas começaram a percorrer todos. Eles revistaram cada pessoa, e depois que os sujeitos de Cole os consideraram “civis” –palavras dele, não minhas – eles foram autorizados a sair. E quando eu digo autorizados, quero dizer que eles foram levados para fora. Haviam homens fora da Gala, também. Observaram todas as pessoas quando saíram. Eu não sei por que, mas eles foram minuciosos. Acho que todos estavam em estado de alerta máximo, os guardas estragaram tudo e seus sequestradores escaparam, então eles iam compensar, daí então Cole não os matariam. — Ela deu uma risada suave, ligeiramente desconcertada. — Quero dizer, provavelmente não é isso, mas você sabe o que quero dizer. Eu queria perguntar quando ela enlouqueceu, mas levava muito esforço falar.

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— Encontraram você nos vídeos de segurança. Eu acho que sua sogra cadela era uma boa ninja porque no segundo que você foi levada para fora, um dos guardas de segurança do seu namorado virava a esquina. Ele estava bem próximo. Em uma das imagens, a parte de trás do seu vestido estava desaparecendo na esquina quando ele entrou. Sia estremeceu, sacudindo a cabeça. — Mas sim, foi quando eu fiquei louca. Eu fiquei muito. Isso brotou em mim, e eu soltei. Eu estava respirando fogo. Acho que foi porque eu estava lá. Eu estava na imagem o tempo todo. Eu podia ver a mim mesma enquanto eu assistia Carol te derrubando com aquela agulha, e então um cara vindo por trás dela. Bem, ele esteve lá o tempo todo, mas assim que ela te picou com a agulha, ele se virou e te pegou. Ninguém mais notou nada acontecendo. Você estava lá; e então se foi. E depois de ver isso, eu fiquei furiosa. Eu gritei. Eu ameacei a todos – seu namorado, também. Eu estava raivosa sobre Carol. Graças a Deus, a maioria da sala tinha sido esvaziada até então. Meu representante de negócios não será o mesmo, mas quem sabe. Talvez ninguém volte a mexer comigo. Ela não acreditou no que ela disse. Eu podia ver isso em seus olhos, mas eu apenas apertei sua mão de volta. — De qualquer maneira, Jake me deu um sedativo. Ele queria chamar a polícia, mas Cole disse absolutamente não, e foi isso. Cole e sua equipe saíram, e nós não ouvimos nada sobre você até esta manhã quando Carter Reed tocou o elevador de Jake. Jake estava tentando se manter firme, mas eu poderia dizer que ele estava querendo colocar tudo para fora como ele fez depois do primeiro evento. Carter Fodido Reed estava na minha sala de estar – era o que ele dizia quando saiu. Percebendo outro divagar, eu sussurrei: — O que ele disse? — Não muito, para ser honesta. Ele disse que você estava lá em cima no apartamento de Cole, e ele não deixou seu lado, mas ele precisava. Carter perguntou se eu ficaria com você. Ele disse que era a única maneira de Cole cuidar dos negócios. — Eu não sei o que isso significa, e não perguntei, mas aqui estou. Jake pediu para subir também, mas Carter disse que não. E eu não tenho telefone. Eles não me

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deixaram trazer um aqui. Se eu precisar ligar, há uma linha fixa que eu posso usar. — Ela olhou por cima do ombro. — Há dois caras grandes lá fora, e eu tenho certeza que mais um monte está escondido em algum lugar. Seu namorado pode parecer estar por conta própria, mas ele não está. Eu vi, tipo, trinta rapazes entrarem e saírem deste edifício esta manhã. — Que horas? Parecia que uma pedra estava presa no meio da minha garganta, e eu tinha que falar em torno dela. Quando eu falava, as bordas raspavam contra mim, tirando sangue. Isso fodidamente doía. — Um pouco depois das sete horas. Estou com você desde às nove da manhã. Ouvi alguns dos caras conversando. Eles trouxeram você cedo esta manhã. Então Cole fez todo mundo esperar ou algo assim. — Ela sorriu para mim, forçando uma nota alegre em suas palavras. — Mas tenho certeza que ele voltará em breve, e você poderá se aconchegar com seu grande e mau namorado. A propósito, eu o aprovo totalmente depois de vê-lo em ação sexta à noite. Se ele não disse isso, eu estou dizendo a você: esse homem está apaixonado por você. Eu reuni um pouco de força. Eu tinha que saber. — Onde? Sia sacudiu a cabeça, sua boca curvando-se em simpatia. — Eu não sei onde ele está, mas o que quer que ele esteja fazendo, tenho certeza que é por você. Ele voltará. Ele não queria te deixar. Mesmo quando cheguei aqui, ele não queria ir. Levou quase todo mundo para convencêlo que você estaria bem. Carter Reed estava dizendo a ele para ir, todos os caras, ou a maioria dos caras – e nota lateral, eles são caras da máfia, então eu pensei que haveria todo esse 'Eu recebo ordens, mas não diga nada mais' — Ela balançou a cabeça. — Não é o caso. Seu namorado é o líder deles – eu entendi isso – mas os caras estavam falando como se fossem uma equipe ou algo assim. Foi meio legal. Todos o amam. Eu percebi. Mas mesmo assim, até mesmo Dorian veio e tranquilizou Cole que todo o prédio estava trancado. Guardas estão em toda parte. Todas as portas estão sob vigilância... — Ela parou. Foi ele.

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Dorian. Foi ele... a memória explodiu em minha cabeça. A porta do corredor se abriu e a luz iluminou o quarto. Um breve segundo... e eu o vi. Eu vi o homem que tinha me interrogado. Eu vi suas costas, então seu perfil quando ele virou o corredor. Eu o vi. Meu corpo inteiro ficou frio. Ele era um traidor. E eu não tinha dito. Eu não tinha sido capaz de dizer, e então eu esqueci quando eu acordei. Como eu poderia esquecer? Eu me amaldiçoei silenciosamente, sentindo lágrimas de frustração em minhas bochechas. Eu tinha que dizer ao Cole. Ele tinha que saber. — Addison? — Sia se endireitou em sua cadeira. Ela estremeceu, tentando puxar a mão dela. — Você está matando minha mão. Eu tinha um aperto de morte. — Addison, sério. Você vai quebrar meus dedos. Eu não sabia que você era tão forte... — Ela gemeu, erguendo a mão dela. — Puta merda. — Ela sacudiu lentamente, sentindo seus dedos e franzindo a testa. — Qual o problema? — Ela começou a sair da cadeira. — Posso chamar alguém. Dorian está aqui. Ele pode dizer que está a salvo. Ninguém vai entrar aqui para te pegar. Eu balancei a cabeça, sacudindo-a de um lado para o outro. Ela não podia fazer isso. — Não! — Minha maldita voz, era apenas um sussurro alto. — Não? — Ela ficou junto à cama. — Addison, você está me assustando. Qual o problema? — Eu... — Minha garganta começou um espasmo. Eu não podia falar, ou eu não poderia apressar, pelo menos. Eu tive que ir devagar para tirar as palavras. Tomando uma grande e maldita respiração calmante, eu me forcei a falar devagar: — Telefone. Chame Cole. — Eu posso fazer isso. — Sia agarrou o telefone ao lado da cama e estendeu-o. — Qual é o número dele? Nossos olhares se apanharam – eu não tinha ideia. Ela fez uma careta, depois se ergueu. Ela começou a procurar nas gavetas. — Tenho

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certeza que ele tem seu número por aqui... talvez? Talvez não. E você sabe, eles não queriam que eu tivesse meu telefone, então eu não posso nem usar isso de alguma forma. — Ela gesticulou para o corredor. — Perguntarei a Dorian. Tenho certeza de que ele tem o número do Cole. Não não não! Eu balancei a cabeça o mais rápido que pude, mas as palavras não saíram. Ela saiu, e junto com ela, minha única esperança. Foda-se. Cada parte do meu corpo estava doendo, mas eu escorreguei da cama – e caí amarrotada no chão. Desembarquei com força, sentindo uma dor apunhalando minhas pernas, mas apertei os dentes e fui para o banheiro. Eu não queria deixar Sia sozinha, mas se ela não soubesse, talvez ele a deixasse sozinha? Era a minha única chance, assim que eu a ouvi voltar, eu peguei o telefone e fui para o banheiro. — Addison? Eu olhei para trás. Ela estava virando a esquina, outra sombra atrás dela. Uma maior, e ele se virou com ela, quase se elevando sobre ela. Fiz uma pausa, o telefone em uma mão e a minha outra para pegar a porta do banheiro. Nossos olhos se encontraram e os seus estreitaram. — Addison, o que você está fazendo? — Sia perguntou. As narinas de Dorian brilharam. Sua mão desceu sobre o ombro de Sia, e ele começou a puxá-la para trás. Ele se aproximou de mim, e eu bati a porta. Eu bati a trava uma fração de segundo antes que ele estivesse lá, puxando a maçaneta. —

Senhorita

Bowman.

Ele

parecia

tão

malditamente

profissional. Eu chutei na porta, então me arrependi. Meu tornozelo começou a latejar. Eu agarrei, apenas segurando enquanto ele batia na porta novamente. — Addison, se me disser qual é o problema, posso ajudá-la. Idiota. Eu não podia dizer uma palavra, e ele sabia disso. Ele machucaria Sia. — Addison? Vamos. — Sia estava ficando impaciente. — Isto é ridículo. Você queria que eu ligasse para o Cole. Dorian pode fazer isso

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por você. Isso é o que você queria, certo? — Sua voz ficou mais calma. — Você pode fazer isso? Você vai chamar Cole para ela? — Sr. Mauricio está lidando com negócios. Tenho certeza que ele vai ligar assim que puder. — Sim. — Sia comprou. — Você está certo. — Ela se aproximou da porta. — Você ouviu isso? Cole vai nos ligar. Tenho certeza que quando ele tiver seu telefone, ele ligará. Dorian está certo. Vamos, Addison. Volte para cá. Nós duas podemos nos aconchegar naquela cama – você viu a cama? Ela deve ter sua própria página no Instagram. É como nada que eu já vi. Enorme. E os lençóis? — Ela gemeu. — Eu os senti antes. Tenho certeza de que é algodão egípcio. Um grunhido se formou na base da minha garganta. Ela não estava ajudando, e eu não podia dizer uma maldita palavra. Eu bati na porta com o meu punho, ainda segurando meu tornozelo dolorido na outra mão. Quanto mais eu ficava em silêncio, melhor era a chance de Sia permanecer viva. Já bastava. Eu não queria envolver os policiais, mas eu não tinha outra escolha. Levantei o receptor, disquei 9-1-1 e segurei a respiração, esperando que isso salvasse o dia sem colocar Cole atrás das grades. — Addison? — Sia pressionou contra a porta. — Senhora. Bowman. — Dorian estava bem ao lado dela. Eu podia ver seus sapatos. — Emergência. Qual é a su... A linha caiu. Eu desliguei e tentei novamente. Nada. Eu continuei batendo no telefone para tentar novamente, mas nada. Comecei a chorar. Isso não poderia estar acontecendo. — Por que você fez isso? — Sia perguntou, sua voz de repente diferente. Eu congelei, com o telefone na mão. — Você arrancou o fio — disse ela. — Por que... quero dizer, por que você faria isso?

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Não, não, não! Ela não podia fazer mais perguntas. Larguei o telefone e comecei a bater na porta com a palma da mão. Ela precisava se calar. Eu continuei batendo, o quanto pude. Talvez os outros homens entrassem. Tinha que haver mais do que Dorian. Sia disse que havia dois. Eu bati a porta com meu braço inteiro, então ambos os braços. Eu não podia gritar, então eu chutei com meu pé bom, também. Bati na porta até ouvir um barulho alto do outro lado. Então parei, meu coração batendo forte. O que tinha acontecido? Olhei debaixo da porta, e seus sapatos tinham desaparecido. Ouvi o suave pisar de passos, e eu engoli em seco quando os pés de Dorian reapareceram. Sua voz veio direto ao meu nível; ele deve ter se agachado. — Se você não sair daí, eu vou matar sua amiga. — Não, — eu disse, ainda tão rouca. — Por favor. — Ela vai ficar viva, mas só se você vir comigo. Eu ainda não sabia por que Dorian estava fazendo isso. Quem era ele, realmente? Eu só sabia que ele era um assassino. Ele mataria Sia. Eu não tinha dúvidas, e eu não tinha opções. Era minha vida pela dela. Minha visão titubeou quando o pânico e a gelada calma lutaram dentro de mim. Eu precisava de uma arma. Olhando em volta, minha cabeça ficou repentinamente pesada, e eu não podia ver nada. Deus, eu precisava de algo – o telefone! Eu puxei para fora o cordão que ligava o receptor e a base, e enfiei o receptor no meu... que diabos eu estava vestindo? Eu estava com uma camisa e calças de pijama. Não havia bolsos, nada. Enfiei o receptor na cintura na parte de trás da minha calça e puxei-a apertada para mantê-lo lá. Agarrei-os na frente, esperando que Dorian pensasse que eu estava apenas com medo. O que eu estava. Com quase histeria cortando através de mim, e minhas pernas parecendo chumbo, eu deslizei para trás e destranquei a porta. Lá estava ele. Ele tinha se agachado, e seus olhos estavam muito duros. Ele sorriu, parecendo o assassino que era. — Boa garota.

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CAPÍTULO TRINTA E QUATRO Meu estômago se retorceu de desgosto. Dorian apertou uma mão no meu braço ruim e me tirou do banheiro. A dor era quase cega, e eu mordi um grito quando ele disse: — Nós não temos muito tempo. Eu não sei o que você fez lá, mas se uma chamada foi concluída, você pode ter acabado de conseguir um monte de pessoas a mais mortas. Sia estava na cama, com os olhos fechados e a cabeça sangrando. — Do que você está falando? — A dor estava quase entorpecendo agora enquanto ele me arrastava para fora do quarto. Ele fez uma pausa, olhando para baixo. — Eu vejo que eu não esmaguei sua garganta o suficiente. Você pode falar, hein? — Seus olhos mantinham o mesmo brilho assassino que eles tinham quando ele estava me interrogando. — Vou ter que consertar isso em breve. Eu podia ver seu aperto esmagando minha mão, mas eu não sentia. Sia tinha dito dois homens, mas quando Dorian me puxou todo o caminho do quarto de Cole para a cozinha, eu não vi ninguém. Eles tinham ido embora. — Ah! Você está procurando ajuda, hein? — Ele me perguntou. — Você vai ser uma dor na minha bunda, não é? Ninguém está aqui, Addison. Eles se foram, e você quer saber por que? Porque eu sou o

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gerente do prédio. Eu tenho estado com Cole desde o começo, mesmo antes dele voltar. Eu fui um dos primeiros que ele colocou no lugar, então isso significa que eles confiam em mim. Todos confiam em mim. Nós nos movemos através da cozinha para o elevador. Então ele me deixou ir. Meu quadril bateu no chão com um baque – uma nova explosão de agonia. Camadas de dor em cima de mais dor. Tudo começou a se misturar. Dorian colocou o código, chamando o elevador, e enquanto esperávamos, ele olhou para mim. Estava sorrindo. O babaca estava sorrindo. — Oh, não me dê esse olhar, — ele disse, balançando a cabeça. — Você não tem ideia do que eu passei ou o que eu tive que fazer. Você sabe como é? Fui leal à família Bertal há anos, e quando eles disseram que precisavam de um rato na família Mauricio, eu me ofereci. Eles me disseram que eu teria que ir fundo, e eles não estavam brincando. Ele se agachou, olhando para mim com os olhos entrecerrados. — Eu falei com Cole quando ele estava escondido. Eu esperei seis semanas, e então fiz a chamada. Eu sabia a que festa ele estava indo, o carro que ele estava dentro, eu lhes dei instruções. Eles deveriam matá-lo, e meu trabalho deveria ter acabado. Mas não aconteceu dessa maneira. O filho da puta os matou. Alguns daqueles caras eram bons. Eram meus amigos, Addison. O elevador chegou. Quando as portas se abriram, sua mão apertou meu tornozelo e ele me jogou para dentro. Bati na parede de trás caindo no chão enquanto ele entrava comigo, assobiando. Ele acertou o botão e, em seguida, apertou o botão para o porão. Ele se inclinou para trás, dobrando os braços, e piscou. — Não podemos ter surpresas. Cole e seus homens se foram. Eu lhes dei a localização de um dos armazéns Bertal. Disse que era outra pista. A unidade está lá fora a umas boas quatro horas. Os guardas deixados para trás estão circulando na pista de corrida. Há uma brecha por uma das portas de saída lá, e aparentemente eu vi alguém deslizar para fora. Eles

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estarão procurando por uma boa hora. — Ele sorriu, tão presunçoso. — Todas as câmeras estão abaixadas, e o único que poderia fazer qualquer coisa para me parar é Ken. Pena que alguém o nocauteou. Oops. Idiota. — Por que? Por que você está fazendo isso? Ele riu, revirando os olhos. — Essa é a parte mais engraçada. Isso é tudo por minha causa, mas todo mundo pensa que foi por sua causa. — Ele balançou a cabeça, o riso remanescente. — Tudo isso começou antes que seu marido morresse. De certa forma, é a razão pela qual ele morreu. Eu fiz uma careta. — O que? O elevador parou, mas ele apertou o botão para manter as portas fechadas e trancou o elevador no lugar. — Isso pode levar algum tempo, então tenha paciência comigo. Uma vez que eu te colocar no carro, será isso. Eu vou atirar em você, jogá-la no porta-malas, e abandoná-la assim que eu chegar ao meu lugar. Mas você pode morrer sabendo por que está morrendo. Quero dizer, eu gostaria de saber. Eu zombei. — Que generosidade sua. Ele franziu a testa. — Você não precisa ser esnobe. Se você não quer sabe... — Ele pegou o botão para abrir as portas. — Não! — Eu chorei. — Eu quero saber. Por favor. Eu quero saber. Ele segurou meu olhar, me estudando. Eu segurei a respiração. Por favor, Deus, preciso de mais tempo. Ele retirou a mão, dobrando-a sobre seu peito mais uma vez. — Ok. Eu vou te dizer, e então é isso. — Ele se sentou no chão do elevador comigo, suavizando sua voz. — Seu marido era conselheiro em Haven Center, o lugar onde meu irmão, Dusty, era um paciente. Ele é um viciado. Ele estava em tratamento, e confiou em seu marido porque ele veio da linha de Bea e porque tudo é confidencial, o privilégio do paciente/conselheiro ou o que diabos é. COPA? COBRA? Não. HIPPA2. É isso aí. De qualquer maneira, aparentemente Dusty abriu sua boca sobre a família, e sobre mim, também. Eu tinha sido promovido porque me

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Ele estava tentando lembrar como chamam o conselheiro nas clínicas de recuperação.

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ofereci para cobrir algo importante. Tudo estava bem até que um dia meu irmão estava saindo de sua sessão, e quando ele saiu, um Mauricio entrou. Outro maldito paciente, você pode imaginar isso? Então meu irmão reconheceu esse cara, e ele retrocedeu. Ele observou como o idiota entrou e foi direto para o seu marido. E você sabe o que esses dois fizeram? Claramente ele não esperava uma resposta. Ele mal parou para respirar. — Eles apertaram as mãos. Era isso. Isso era tudo o que Dusty viu, mas foi o suficiente. Em um instante, seu marido passou de vivo para morto. Ouvi dizer que ele era um cara legal. Dusty me disse mais tarde que ele provavelmente guardou os segredos como ele tinha prometido. Mas ele morreu de qualquer maneira, então não importava. Tudo foi arquivado. Meu estômago virou. Se eu tivesse alguma coisa nele, eu teria vomitado, diretamente nos pés de Dorian. — Eu estava em profundo disfarce fazendo a minha coisa, vigiando o garoto estragado. Não encontrei nada disso até que voltei, mas uma guerra começou entre minha família e os Mauricios. Claro, há paz agora... bem, não agora, mas havia. E tínhamos tido momentos de paz antes disso até os Mauricios, eles nos limparam. Um monte de caras bons foram mortos por aquele caralho do Carter e seu garoto. Nós continuamos sendo atingidos, e nós não tínhamos ideia de como eles nos encontravam, mas eles conseguiam. Havia muita coisa acontecendo naquela época. Alguns dos tios de Cole se voltaram para ele – um deles foi a razão pela qual fui colocado nesse lugar, mas a guerra acabou. Eles me disseram para ficar, caso os Mauricios voltassem atrás, tentando descobrir quem avisou os Bertals sobre o carro dele. Essa foi a primeira das duas pausas. Cole voltou, e adivinha quem ele encontrou no mesmo lugar? Eu. Eu ainda estava lá, fingindo ser seu amigo. Mas por dentro eu estava de luto por meus amigos que morreram. Eu não sabia o que fazer. Eu não tinha mais uma missão, e eu queria fazer alguém pagar. — Ele revirou os olhos. — Eu disse todas as palavras certas, e funcionou. — Um brilho frio

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ressurgiu em seu olhar. — Seu garoto me pediu para trabalhar para ele, e voila! Eu tenho estado em seu círculo de confiança desde então. — Ele fez de você o gerente do prédio. — Eu cuspi. — Que confiança é essa? — Cale-se, puta. — Ele me bateu no rosto. Eu provei sangue em minha boca, mas segurei. De jeito nenhum eu ia gritar, de jeito nenhum eu lhe daria essa satisfação. Eu falei, engolindo um pouco do sangue: — O que isso tem a ver comigo? — Oh. — Ele riu. — Oh, sim. Isso foi tudo para mim. Sinto muito. Veja, eu estou cansado de estar disfarçado. Houve paz entre as duas famílias, então até algo acontecer onde eu seria forçado a explodir meu disfarce, eu ficaria preso aqui. Eu estive ocupado. Estive procurando uma saída. Fui eu quem dei a sua amiga o número de telefone do prédio. Eu fiz a minha pesquisa. Ela era sua única amiga, e eu tive que ter certeza de que você era a única a quem ela realmente dava o número. Uma vez que eu tive certeza, eu deslizei-lhe o pedaço de papel, sentei e esperei. Eu não tinha certeza do que faria se você não mordesse a isca, mas você mordeu. Eventualmente. Ele encolheu os ombros. — Eu poderia ter dado um empurrão para ter certeza. Eu vi os sacos sob seus olhos e pensei que talvez você não estivesse dormindo. Então pode ter havido uma gravação de voz do seu marido que eu toquei algumas vezes. Foi um loop de oito horas. Isso funcionou? Foi por isso que você veio para cá? Ele parecia ansioso para saber, como um garotinho que queria aprovação, ou mesmo parabéns. Eu não ofereci nada, apenas olhei para ele. — Que seja. — Ele olhou para mim. — Mas sim. Isso foi tudo para mim. Quando eu a trouxe aqui, eu sabia que as teorias de conspiração começariam. Eu relatei que você se mudou imediatamente, e as rodas estavam em movimento. Os Bertals começaram a se perguntar se Liam falou sobre mim. Eles não pensaram assim, mas eles ainda ficaram preocupados. — Ele franziu o cenho. — No entanto, eles não estavam preocupados o suficiente. Eles estavam dispostos a esperar, então eu tive

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que fazer tudo. Eu disse que você estava dormindo com ele, e foi isso. Eu estava me segurando naquela joia. Você nunca sabe quando pode precisar de um ás na sua manga, mas eu tive que abandoná-lo, e ele fez o truque. Eles decidiram agarrá-la. E agora, aqui estamos nós. — Ele estava sorrindo de novo. — Estamos em uma posição onde eu tenho que explodir meu disfarce para levá-la para fora, e confie em mim, estou mais do que disposto. Ele estava quase alegre enquanto se levantava e apertava o botão. Agora. Eu tinha que fazer alguma coisa. Fiquei parada por um tempo, dizendo rapidamente: — Você disse que teve duas pausas. O primeiro foi Cole voltando para te pegar. Qual foi a segunda? Eu estava meio ouvindo. Eu não me importava com o que ele ia dizer. Eu estendi a mão para pegar o receptor do telefone ainda na minha cintura. — Oh. — Ele ficou quieto. Silencioso. Eu me acalmei, focalizando nele novamente. — Sim. — Sua boca se contorceu. — Era o seu marido. As portas se abriram. Ele estendeu a mão, segurando-as no lugar. — O que? — Uma desgraça iminente rolou dentro de mim, eu senti algo vindo, me cobrindo como uma sombra escura. — Houve um acidente, mas eu disse que não importava no final. Ele morreu de qualquer jeito, mas não fomos nós. Eu balancei a cabeça. Eu sabia disso. — Foi um motorista bêbado. — Não. O motorista não estava bêbado, e nenhuma declaração foi tomada pela polícia. Você nunca soube disso? — O que? — Eu não... eu não podia ... O que ele estava dizendo? — Eu tenho policiais em minha folha de pagamento. Sua amiga vai descobrir, mas posso atrasá-la. Cole disse isso. — Não. — Eu tinha errado. — De jeito nenhum. — Nós não éramos os únicos que queríamos apagar seu marido, e não fomos quem conseguiu.

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— Você está dizendo... não. Eu não acredito em você. — Acredite em mim, Addison. Foi seu namorado que mandou matar seu marido. Esse motorista “bêbado” também era seu motorista, até recentemente. Carl... Comecei a arfar, mas não... não consegui. Não tinha acabado. Dorian não se atreveu a me agarrar, segurando meu tornozelo de novo. Ele ia me arrastar até seu carro, mas quando ele começou a se virar, eu balancei. Tudo em mim queria chorar, enrolar e desistir, mas eu não ia. Eu balancei com tudo o que eu tinha. Eu estava no chão. Eu não podia fugir. Eu teria que rastejar, mas sabia que tinha que lutar. Tinha que fazê-lo sofrer, mesmo um pouquinho. Engoli sangue, lágrimas e bile enquanto seguia meu balanço com todo o meu corpo. Eu virei todo o caminho para cima, quebrando seu aperto. Conectei-me com seu rosto, mas mesmo quando senti o contato, eu soube que não era suficiente. Ele caiu para trás, mas só um pouco. Eu caí contra a parede mais uma vez, e eu só podia me sentar lá por um momento, atordoada. Quando eu levantei meu olhar, eu sabia que ele ia me matar. Ele ia atirar em mim aqui e agora. Seus olhos ardiam de raiva, e suas mãos se fechavam em punhos. Ele ficou olhando para mim, imaginando todas as maneiras que ele poderia me machucar – eu podia sentir seus pensamentos. Um calafrio percorreu minha espinha. Uma marca vermelha já começara a se formar em sua bochecha onde eu o bati. Eu tive um pouco de satisfação com isso, mas foi pequena. Tão fodidamente pequena. Eu queria gritar. — Sua pu... — Dorian começou a vir para mim, mas alguém apareceu atrás dele. Ela balançou, batendo-lhe na parte de trás da cabeça, ao contrário do meu pequeno murro. Seus olhos rolaram para trás em sua cabeça, e ele se virou, inclinando o suficiente para ver quem o havia atingido. Dawn ficou ali, segurando uma panela em suas mãos. Ela estava ofegante, mas quando ele deu um passo em direção a ela, ela o pegou de

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novo, batendo-o pelo rosto e girando todo o caminho de volta com força. Ela parou – suas bochechas inchadas em concentração, sua testa enrugada – então balançou uma terceira vez. Bem na sua virilha. Dorian caiu, batendo no cimento do estacionamento. Dawn olhou para mim. — Frigideira de ferro fundido. Imaginei que era o melhor para nocauteá-lo. — Ela a soltou, e a panela caiu ao chão com um barulho alto. Eu fiz uma careta, tentando entender tudo. As palavras de Sia voltaram para mim: Ele tem guardas de segurança para você. — Você é uma guarda? — Não. — Ela sorriu, parecendo quase pronta para balançar até o chão ela mesma. Ela passou a mão pelos cabelos, tornando-a mais confusa. — Só a eremita do prédio. Isso valeu por ser intrometida desta vez, hein? Eu queria rir, mas tudo que eu podia fazer era chorar. Liam...

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CAPÍTULO TRINTA E CINCO Eu deveria ter fugido. Mas não fugi. Eu deveria ter me escondido. Mas não me escondi. Eu deveria ter chorado. Mas eu não podia. Eu deveria ter rasgado, jogado algo. Minhas mãos nunca saíram do meu lado. Eu deveria ter feito algo, qualquer coisa. Mas eu estava sentada no meu apartamento, e eu esperei. Foi o que eu fiz. Jake e Sia apareceram pouco depois de Dawn ter derrubado Dorian. Ela os chamou, e eles desceram. Jake ligou para uma ambulância, e os policiais logo depois disso, e logo o estacionamento do Mauricio estava cheio de luzes vermelhas e brancas e uniformes brilhando ao redor. A polícia levou Dorian em custódia, mas eu não tinha nenhuma dúvida de que Cole iria pegá-lo eventualmente. Alguém encontrou Ken e o carregou na ambulância. Dawn foi com ele, chorando porque aparentemente ela sempre trouxe o jantar para ele todas as terças-feiras à noite. Eles se sentavam e comiam espaguete juntos, todas as semanas nos últimos sete meses. Os paramédicos tentaram me levar com eles também, mas eu recusei. Eles me verificaram e não conseguiram encontrar nenhum novo ferimento que os alarmasse o suficiente para uma viagem ao hospital,

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então eu fiquei. Havia uma conversa que eu queria ter. E eu não sairia dali até que eu conseguisse. Então aqui estava eu, algumas horas mais tarde, e eu finalmente ouvi o elevador. Meu painel soou, e então a porta se abriu. Sia e Jake estiveram aqui mais cedo, mas eu os fiz sair. Eu sabia que não demoraria muito para que Cole chegasse, e eu não os queria aqui. Eu deixei a porta do meu quarto aberta. Eu queria ouvi-lo chegar. E de certa forma, eu ouvi, mas não. Ouvi o elevador. Ouvi quando ele inseriu o código para abrir a porta. Ouvi a porta abrir. Eu não o ouvi. Não houve som – quando ele andou pelo corredor, passando a cozinha, virando pela sala de estar – até que ele estava parado na porta do meu quarto. De repente ele estava ali, e mesmo que eu estivesse esperando por ele, meu coração ainda pulou no meu peito. Este homem, que me encarava com uma feroz luz que aquecia os olhos, as mãos entrelaçadas em punhos contra suas pernas, não parecia nada com o amante terno que eu tinha ouvido sussurrar “Eu te amo” mais cedo. Não. Eu vi o assassino que eu sempre soube que estava lá, que eu tinha testemunhado eu mesma, mas era mais do que isso. Procurei alguma culpa em Cole. Eu segurei a respiração por um momento, e eu vi. Eu senti. Eu vi a raiva mal coberta sob seu controle. Eu vi a crueldade nele. Eu vi o sangue frio que alguém com sua vida precisaria ter quando puxava o gatilho, ou quando eles tinham alguém puxando o gatilho. Meu instinto se acendeu, e eu soube. Ele poderia ter feito isso. Perguntei, com voz rouca: — Sua família matou meu marido? — Minha garganta mal funcionou, mas eu não pensei que fosse por causa da mão de Dorian. Eu escureci. Eu não podia conter a verdade. Perguntei mais uma vez. — Você matou Liam? E eu esperei.

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Seu peito se elevou enquanto ele respirava silenciosamente. Ele nunca quebrou o contato visual, e talvez fosse por isso que doía tanto – porque eu vi assim como ouvi. Parecia que ele estava entregando minha sentença quando disse uma única palavra: — Sim. Eu só tinha uma resposta em troca. — Saia.

Cinco maneiras de se consertar depois que esse indivíduo conseguiu atravessar suas paredes. Certo, senhoras. Aconteceu. Você tentou se proteger contra ele, mas ele passou por suas paredes. Aonde você vai a partir daqui? Esperançosamente, retribui seus sentimentos. Vocês estão juntos agora, e vocês começam a desfrutar de passeios românticos no parque, de mãos dadas, as alegrias de se tocar em um teatro escuro. Esses são os bons dias. Esses são os dias que você está esperando, mas e se as coisas não terminarem com felizes para sempre? Nesse caso, você precisa seguir em frente (novamente). Isto é o que você faz: * Beba. Muita e muita bebida. Normalmente, você provavelmente deve ter cuidado com sua ingestão de álcool. Essa é a hora que você pode jogar para o alto. Anotar e rasgar essa recomendação. Queimar o papel. Nessa circunstância, quanto mais bebida, melhor você vai estar. Apenas esteja segura, é claro. Sem dirigir, sem telefonemas de bêbada, conheça seus limites! * Se o álcool não funcionar para você, siga o caminho saudável. Foco no exercício. Entre para uma academia. Torne-se uma corredora. Malhe até não aguentar mais. Se você não pode entorpecer o desgosto, use-o para alimentar algo produtivo. Fique longe daquelas endorfinas, senhoras!

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* Música! Música triste. Música feliz. Blues. Folk. Country. O que quer que funcione. Encha seu telefone, e exploda-o sempre que precisar de uma dose. Combine o número três com o número dois, e você vai estar mais saudável, melhor do que nunca. Você pode combinar o número três com o número um, também. Número três pode ir com qualquer coisa. * Comida. Agora, embora eu tenha recomendado controversamente álcool ilimitado para entorpecer seus sentimentos, eu tenho que oferecer esta opção com diretrizes mais rigorosas: Delicie-se com alimentos no primeiro fim de semana só! Sorvete. Massa. Pizza. O que quer que esteja em sua lista proibida, peça nessa primeira festa do choro. Sinta a comida. Sinta as emoções. Raiva. Tristeza. Tudo o que você precisa para preencher o buraco que ele deixou em você, use comida, junto com bebidas ou música, para ajudá-la a aliviar a dor. Mas só até quando os dutos lacrimais pararem de trabalhar, porque, eventualmente, eles vão colocar a comida de fora. Comece no número 2. * Amigos / Família / Diversão. Os três elos. Use-os. Tenha seus amigos para levá-la para sair, fazer você rir, passar pelos maus momentos. É por isso que eles são seus amigos. Apoie-se em sua família. Vá para eles se precisar de apoio, ou apenas para esquecer a realidade. Se você precisar viajar de volta a sua infância quando tudo era seguro, vá lá. Abrace-os desta vez quando você pode ser egoísta. Você é a pessoa que está sofrendo. Você vai cuidar deles mais tarde, quando precisarem. Até lá, seja egoísta. Desfrute de seu apoio e, acima de tudo, procure se divertir no final do dia. Isso vai remendar o coração partido, pouco a pouco. E se tudo mais falhar, vá para o número seis. * Sexo casual. Ir para alguém novo pode ser a melhor maneira de esquecer alguém velho. Mas apenas esteja segura sobre ele. Não deixe que uma decisão de uma noite, ou uma decisão de mais do que algumas noites, altere seu futuro. E se você seguir essa rota, esvazie uma gaveta e encha-a com preservativos. Assumam o controle, senhoras. Não confie no cara. Afinal, pode ser por isso que você está nesta confusão em primeiro lugar.

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Com isso dito, beba, coma, deixe as lágrimas fluírem, usem a raiva, e prossigam com o que ajude você a suportar a dor. Você vai ter suas paredes de volta em pouco tempo.

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CAPÍTULO TRINTA E SEIS Eu fui embora. Sia me levou para a casa dos meus pais, a algumas horas de distância. Quando a porta se abriu e meu pai apareceu, usando seu habitual pijama azul de flanela, eu não consegui segurar as lágrimas por mais tempo. Isso foi quando eu, enraivecida, joguei coisas, quando eu gritei, quando eu botei tudo para fora. Mas quando terminou na semana seguinte, eu não tinha certeza de por quem eu estava sofrendo: Liam ou Cole. Meus pais ficaram sem palavras quando me viram pela primeira vez, mas eu ignorei suas reações. Eu não tinha palavras para explicar, então Sia explicou quando meu pai me levou para dentro. Ouvi sua suave conversa na varanda enquanto esperava na cozinha, as lágrimas se acumulando na mesa. E naquela noite, quando eles voltaram e depois que Sia perguntou pela sétima vez se ela deveria ficar e eu disse a ela não novamente e a levei para seu carro, meu pai pegou uma garrafa de uísque. Meus pais não bebiam muito. O álcool era para ocasiões especiais, talvez um pouco em feriados. Mas naquela noite, meus pais estavam exuberantes. Minha mãe continuou chorando. Ela enxugava as lágrimas, observando que não deviam ter me deixado ter o meu espaço, embora eu

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tivesse pedido, e tinha um olhar desamparado em seus olhos. De novo e de novo. E cada vez que aquele olhar aparecia, ela enchia seu copo. Meu pai era o mesmo, exceto que ele não estava chorando. De tempos em tempos, uma raiva assassina entrava em seus olhos. Suas mãos enrolavam em punhos, e as veias saíam em seu pescoço. Então ele enchia o copo com uísque. Depois de um mês, Sia e Jake se ofereceram para ajudar a arrumar meu apartamento. É claro que eu gostaria de me mudar, e claro que eles entenderam por que eu não iria querer voltar, para enfrentar o lugar onde eu me apaixonei por Cole. Eles entenderam. Eles estavam mais do que dispostos a me ajudar a seguir em frente com a minha vida, mas o único problema... toda vez que eu tentava pensar nisso, eu não podia. Meu cérebro se fechava. As palavras para responder a Sia nunca saíam de minha garganta, e quando falamos no telefone, sempre era sobre meus pais, sobre eu estar de volta em casa, ou sobre sua vida. Ela me contou sobre seu trabalho, como a Gala estava indo muito bem e como seu relacionamento com Jake também estava indo. Eu não poderia me levar a pedir-lhe para me ajudar a seguir em frente. Eu tentei. Realmente. Tentei forçar as palavras para fora da minha garganta. Mas elas nunca vieram, e cada vez depois de eu desligar o telefone com ela, eu era inundada com outras memórias em seu lugar. Elas não eram as que eu precisava lembrar, mas elas eram torturantes por si próprias. Eu me lembro da primeira vez no Gianni’s, quando Cole entrou com seus amigos. Lembrei de como acordei, como se estivesse dormindo no último ano. Eu me lembro de tê-lo visto no elevador, segurando Carl. Meu corpo queimou então. Eu senti tudo de novo, o quanto eu queria Cole, mesmo assim. A visão dele na pista de corrida, como meu estômago tinha tido borboletas e minhas palmas suaram, como se eu tivesse uma paixão de estudante por ele.

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Então eu me lembrava da mesa no nosso primeiro jantar juntos, como não pedimos nada e voltamos para o meu apartamento – a sensação de seus lábios, a maneira como ele me segurava, a maneira como ele me carregava. O jeito como ele me fez gemer, enquanto eu passava os dedos pelos seus cabelos. A sensação dele dentro de mim. A sensação dele todas as outras vezes também. E sempre me fazia a pior pergunta, aquela que me atormentava: Será que ele sentia minha falta, como se eu sentia a dele?

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CAPÍTULO TRINTA E SETE TRÊS MESES DEPOIS — Addison, você pode limpar a baia da Taffy? — Quem é? — perguntou Sia por telefone. Coloquei meu telefone com mais segurança entre o ombro e o pescoço, dei a Kirk um sinal de positivo e comecei a me dirigir para a outra extremidade do celeiro. Os cavalos olhavam para cima em cada baia quando eu passava. — Esse era o cara que eu estou ajudando, — eu disse a ela. — Minha mãe se cansou de deixar eu me mexer em casa. Quando o gerente do celeiro da nossa feira do condado mencionou que estava procurando voluntários, adivinha quem ela sugeriu? — Ela não fez isso. — Ela fez. Parei na metade do caminho para a baia de Taffy. Minhas bolsas estavam próximas aos alimentos nos baldes. Peguei algumas das maçãs que eu trouxe e continuei. Quando se tratava da égua alfa, eu aprendi que os subornos percorriam um longo caminho. — Tem sido bom na maior parte do tempo, e honestamente, realmente me tira de casa.

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Sia fez um som Mmmmm, enquanto Taffy enfiava a cabeça na porta da baia. Ela tinha grandes olhos de corça e uma longa mancha branca no meio do seu rosto castanho. Suas narinas brilharam quando ela cheirou as maçãs, e ela acariciou minha mão. — Além disso, alguns desses cavalos têm atitudes melhores do que os seres humanos — eu disse a ela. — Como este. — Eu corri minha mão livre pela frente do rosto de Taffy, todo o caminho para ela farejar. — Aí sim. Você, senhorita Taffy. Você é uma égua mandona, não é? — Você está flertando com esse cavalo? — Sia perguntou. Eu ri e agarrei o telefone, trocando-o para o meu outro ouvido. Taffy pegou as maçãs e puxou a cabeça para trás, satisfeita em deixá-las cair em sua baia para que pudesse comê-las. Eu me encostei à porta da baia. — Eu estou, e não me importo. Sia riu, então ficou quieta por um momento. — Você não vai voltar, vai? — O que? — Você parece feliz. Ou, bem, você tem soado mais feliz nas últimas vezes no telefone. Você não vai voltar, não é? Eu podia ouvir sua decepção. — Uh... — O que eu disse? Minhas coisas ainda estavam lá. Esperando. Acumulando poeira. Sozinhas. — Não sei, Sia. Eu realmente não sei. — Eu ainda tinha esperança já que você continua nos atualizando, mas agora eu posso ouvir em sua voz. Você pode me dizer. Você realmente não vai voltar. Olhei para o chão, segurando meu telefone com tanta força. Minha garganta inchou. — Uh... — Deixa para lá. Eu não disse isso para fazer você se sentir mal. Eu sinto muito. Eu só... estou ficando louca por não ter minha melhor amiga aqui. — Eu sei. — Eu respirei. — Eu sinto muito. Sua voz caiu em um sussurro. — Eu acho que Jake vai me pedir em casamento. — Ela continuou antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. — Não tenho provas. Não é como se eu tivesse encontrado um anel

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ou qualquer coisa, ou até mesmo um recibo, mas cada vez que eu vou ao seu computador, anúncios de anel aparecem ao lado. E quando estou procurando roupas, de repente anúncios de vestido começaram a aparecer, de modo que significa que ele está procurando, certo? Eu já sabia que ele estava. Jake tinha ligado uma semana atrás para pedir minha “permissão”. Ele riu enquanto conversávamos, mas eu ouvi o quanto ele estava nervoso. — Eu sei que você não é a mãe ou pai dela, mas você é a razão pela qual a conheci, e você é a família dela — ele disse. — Eu pensei, bem, parece certo estar perguntando a você. Vou perguntar aos pais também, mas para ser honesto, ela é muito próxima a você. Eu sei que significaria mais para ela se eu te perguntar, então aqui estou eu... — Ele riu de novo, terminando em um tom alto. — Estou perguntando se eu posso me casar com sua melhor amiga? — Sim, — eu disse a ele. Minhas bochechas tinham doído de sorrir durante aquela conversa. — Mil vezes sim. Ela te ama tanto. — Sim? — Sim! Tinha soado tão feliz, e tinha sido uma luta ficar quieta desde então. — Bem, se ele pedir, ele é um homem muito inteligente — eu disse agora para Sia. Ela bufou. — Você está condenadamente certa de que ele é esperto. Ele foi um gênio para selar o negócio com uma rapidez na primeira noite. Amor instantâneo, Addison. Eu juro. Foi durante aquele primeiro jantar em seu apartamento, depois que encontramos o esconderijo de William – quando ele terminou e antes de citar a camiseta de Derek. — Eu quero saber sobre isso? — Você se lembra daquela camisa? Ou espera. Era a caneca de café? Eu acho que era uma caneca. Deus... — Ela riu. — Ele levou sua própria caneca para um jantar, e ele ainda faz isso! A mesma. Não se preocupe, eu não mordo, diz. Quando estávamos no banheiro, Jake disse: — Não se preocupe, vou morder. — E então ele soletrou morder quando nós gozamos. Ok. Sim, isso foi muita informação. Mas eu estava rindo

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muito. — Ela ainda estava. Depois de um momento, ela se compôs. — Foi quando aconteceu. Foi quando eu me apaixonei por ele. Só não soube disso até mais tarde. — Bem, essa é uma boa história. — Eu tive que dar isso a ela. — Não foi muita informação? — Oh não, definitivamente muita informação, mas está tudo bem. — Eu estava sorrindo como uma idiota, e eu sabia que ela estava também. Taffy cutucou a parte de trás do meu ombro, e quando eu me virei, ela cheirou minha mão. — Eu devo ir. Tenho uma égua à procura de comida. Ela está olhando meu telefone como se fosse sua próxima refeição. — Ok. Ouça, uh... antes de ir, tenho que lhe dizer uma coisa. Meu estômago caiu. — O que? — Eu o vi outro dia. Eu soube instantaneamente quem ele era. Minha garganta começou a queimar. — Ele perdeu peso. — Ela vacilou, tossindo para limpar sua garganta. — Ele não está tanto por aí. Quero dizer, eu nunca costumava vê-lo, mas isso é de acordo com Dawn. Meu coração acelerou. Eu sempre senti como se estivesse segurando a minha respiração quando se tratava de Cole. — Ela disse que ele se foi, mas agora está de volta. Nós o vimos no lobby na outra noite. Jake e eu estávamos saindo com Doris e William. Isso é ao que nós fomos reduzidos, a sair com – nossos vizinhos aposentados hippies, que são impressionantes e hilários. Eu preciso acrescentar isso. Oh, e Derek vai pedir a Dawn para sair. Tivemos outro jantar residente na outra semana, e ela pediu desculpas para mim por alguma coisa de telefone. Eu não tinha ideia do que ela estava falando, mas ela continuou fazendo perguntas sobre Derek a noite inteira, então eu acho que ele já tinha pedido a ela para sair. Acho que ela está pensando nisso. Espero, de qualquer maneira. Ela parece menos obcecada com Jake, então isso é uma vantagem. — Sia?

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— Sim? — Cole. — Desculpa. Fico nervosa quando falo sobre ele, sabe? Mas tudo bem. Sim. Nós o vimos. Doris e William estavam enlouquecendo depois. Eu acho que William tinha fumado antes de nós partimos. Ele estava mais nervoso que Cole fosse chutá-lo porque há uma política de drogas – o que é tão irônico? O senhorio é um chefe da máfia, e há uma política de não-drogas... — Sia! — OK. Sim. Eu sei. Uh... ele perguntou sobre você. Eu imaginei. — E você disse...? — Eu não sabia o que dizer, então eu apenas balbuciei. Gah. Eu nunca fico assim, exceto quando se trata de você e ele, mas cara, Addison, por que você partiu? Eu estava instantaneamente quente e fria, tudo de uma vez. — Porque ele matou Liam. — Sim, mas... — Sua voz ficou tão calma. — Isso simplesmente não parece certo. Eu não acho que ele estaria destruído, não se ele realmente fez isso, ou ordenou. Sabe? O que estava acontecendo? — É por isso que vocês pararam de falar sobre sair? Você não acredita que ele fez isso? — Taffy continuou cutucando meus ombros e braços. Eu a ignorei. — Cole disse que sim. — Eu respirei. Eu acabei de dizer seu nome, em voz alta. Faz tanto tempo... …tanto tempo. — Eu sei. — Sia soou calma agora, como se ela tivesse encolhendo as palavras. — Eu sei, mas... e se ele mentiu, Addison? Você já pensou... Eu não queria pensar sobre isso. Eu podia sentir minha garganta apertar. — Eu, uh, eu tenho que ir, Sia, — eu a cortei. Eu estava prestes a desligar. — Ele perguntou se você estava feliz. Eu parei, meu dedo pousado sobre o botão de encerrar a chamada. Eu não podia respirar. Meus pulmões estavam em chamas, e eu segurei meu telefone como se minha vida dependesse disso. — O que você disse?

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Ela apressou-se a dizer; — Eu disse que você estava. Ele parecia feliz em ouvir isso. Então sim. Aí está. Desculpe se não devia dizer isso a ele. — Não, não. — Eu balancei a cabeça. Eu não sabia o que dizer. Ele perguntou por mim. Ele sabia que eu estava “melhor”. Ele ficou feliz em ouvir isso. Eu não podia... Eu não conseguia arrumar um pensamento, então eu engasguei: — Eu tenho que ir. Desliguei antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa. Meu telefone entrou no meu bolso, e eu fiquei parada enquanto tudo girava – torcendo, tremendo e agitada por dentro. Um furacão foi pego dentro do meu corpo, e eu só podia ficar lá e olhar... Eu olhei para o que eu realmente estava focando. Um pedaço de palha no chão. Uma única, triste e solitária palha. Eu me senti como a palha então. Eu sentia falta dele. Senti as lágrimas ameaçando derramar e pisquei rapidamente, roçando minha mão sobre meus olhos. Elas não podiam derramar. Não mais. Ainda não. Eu precisava superá-lo. Ele me disse que matou Liam. Eu não deveria estar sentindo nenhuma dessas emoções. Eu nem deveria estar pensando nele. Ele deveria estar morto para mim, mas meu Deus – quando me virei para Taffy, eu sabia que isso não iria acontecer. Eu continuaria tentando, mas eu sabia que Cole sempre faria parte de mim, não importa o quão errado seria ir até ele. Uma hora mais tarde, eu estava suada e coberta de terra e palha quando Kirk parou no estábulo. Ele apoiou uma mão na porta aberta e olhou para dentro. — Eu não percebi que sua baia estava tão confusa. John não deve ter terminado na terça-feira como ele estava programado para fazer. — Nah. — Eu parei e esfreguei um braço sobre minha testa. — Eu levei meu tempo com Taffy antes de entrar. Está tudo bem.

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— Ainda assim. — Ele franziu a testa, olhando para os cantos. — Provavelmente deve ser lavada. — Ele gesticulou para fora. — Vá. Vou terminar. Taffy pode ficar na outra baia durante a noite. — Tem certeza disso? — Oh, sim. Além disso, você tem um visitante. — Tenho? Não houve nenhum aviso, nenhum carro estacionado, nenhum guarda de segurança de tamanho gigante na entrada – nada disso, mas uma cócega começou no fundo do meu estômago. Eu não precisava perguntar quem era. Quando saí de onde Taffy estava cutucando meu ombro, eu sabia. As cócegas aumentaram. Eu andei através do celeiro, e continuei aumentando o ritmo. Passando pelas baias, para as escadas de cimento em frente ao celeiro, eu o senti. Ele estava ali, esperando por mim, com as mãos nos bolsos e a cabeça virada. Eu bebi a visão dele. Um zumbido começou em meus ouvidos. Eu ignorei. Sia estava certa. Cole parecia mais magro, e as bolsas sob seus olhos me fizeram doer, mas ele parecia tão bonito. Uma parte de mim odiava isso, uma parte de mim adorava. Eu queria me lançar nele e sentir seus braços em volta de mim, mas eu não fiz. Eu não podia. Em vez disso, fiquei ali, e minha boca estava molhada. Seus cabelos escuros pareciam ter sido recentemente cortados novamente, um corte curto, e ele usava uma camisa bem ajustada sobre jeans. Ele parecia magro, perigoso, misterioso e completamente lindo demais. Então, como se ele me sentisse do jeito que eu o senti, sua cabeça virou-se para mim. Os olhos dele. Deus. Eu contive um suspiro. Eu senti falta daqueles olhos escuros e daqueles longos cílios. Uma sombra cruzou seu rosto antes dele perguntar: — Posso estar aqui? — Sua voz era baixa, parecendo crua. Meu coração mergulhou, ouvindo a dor ali. — O que você quer dizer?

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— Posso estar aqui? Tudo bem? Se não for... — Ele hesitou, baixando a cabeça enquanto estremeceu. — Eu posso ir, se você não me quiser aqui. Eu queria. Eu quero. Eu só disse: — Está tudo bem. Ele gesticulou para um beco ao lado do celeiro. — Lá? O celeiro estava escondido ao lado da parede em torno do recinto de feiras, então o beco estava vazio, exceto por dois cavalos descansando mais para baixo. Eles estavam amarrados à parede, e seus proprietários estavam penteando-os, mas eles estavam muito longe para ouvir. Eles não nos prestaram nenhuma atenção. Cole não disse nada imediatamente. Nem eu. Minha mente correu. Ele estava aqui. Ele veio. Eu deveria ter odiado vê-lo. Eu deveria estar vomitando agora, ou tirando uma faca para esfaqueá-lo. Eu não fiz nenhuma dessas coisas. Eu apertei meus braços atrás de mim porque eles queriam tocá-lo. A repugnância me encheu, mas era por mim, não por ele. — Cavalos? — Perguntou. — Minha mãe me ofereceu. — Porque eu continuei caminhando pela estrada para observar o rancho do vizinho. Porque eu levei meu cão para passeios, e eu nunca quis acabar lá, mas eu sempre fiz. Porque quando eu olhava para os cavalos, quando eu os observava, quando eu estava ao redor deles, eu sentia como se estivesse com Cole. Era tudo sobre ele. — Eu não o matei — disse Cole. Liam? Meu coração balbuciou, pressionando contra meu peito. — Dorian. Eu não sei se você se perguntou, mas eu não o matei. Entreguei-o aos Bertals, pensei que eles iriam lidar com ele por conta própria. Eles vão executá-lo, porque ele é a razão pela qual entramos no bordel deles. Eu ia matá-lo, pelo que ele fez com você, mas depois haveria outra guerra. Uma guerra já levou seu marido. Então eu o entreguei. — Ele estava quase sussurrando: — Eu fiz isso por você. Eu não podia... Eu só podia piscar para ele. — O que? — Dor... — Ele começou a dizer de novo.

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Eu interrompi: — Eu não me importo com Dorian. Liam. Eu me preocupo com ele. — Eu me importei com a razão de eu não poder estar com ele, se ele realmente o matou ou não. As palavras de Sia ecoaram em minha cabeça, me enchendo com tanta esperança, muita esperança. “Mas... e se ele mentiu?”. Eu só perguntei a ele uma vez. Ele só respondeu uma vez. Ele poderia ter... talvez culpa o fez dizer aquelas palavras? Ele se sentiu mal por eu ter sido atacada e sequestrada? Ele tinha dito aquela palavra para me afastar? Porque ele estava na máfia, e ele queria me manter segura? Uma esperança repentina e ridícula me dominou. Talvez, apenas talvez. Será que ouso fazer essas perguntas? De repente, uma maldição selvagem o deixou. — Eu devo ir. Eu vim porque queria que você soubesse disso. Eu sinto muito. Foi um erro. — Você mentiu? Ele congelou, seus olhos se agarrando aos meus. Ou talvez fosse eu quem se agarrava a ele? Eu não tinha certeza mais. Ele não disse nada, então eu perguntei de novo. — Você mentiu para mim? — Do que você está falando? — Você não veio me falar sobre Dorian. — Eu sabia disso. — Você poderia ter contado a Sia. Ela poderia ter me contado. Por que você está aqui? — Meu coração batia, ensurdecedor em meus ouvidos, e eu dei um passo em direção a ele. Eu lambi meus lábios. Eu não podia manter minhas mãos atrás de mim. Eu senti que elas estavam se aproximando dele. Eu só queria tocá-lo, apenas uma vez. Uma última vez. Mas então... Sua boca estava na minha. Finalmente. Isso foi tudo que eu pensei enquanto me afundava nele. Ele me empurrou de volta contra o celeiro. Suas mãos tomaram meu rosto, e eu o beijei de volta. Quatro meses de angústia se derramaram nesse beijo. Nós dois estávamos famintos. Nós tentamos preencher um ao outro, apagar a fome que estava lá. Eu pressionei contra

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ele, precisando de mais, apenas precisando de muito mais. Tão faminto quanto seus lábios estavam, os meus eram vorazes. Assim como exigentes, eu correspondi e coloquei meus braços ao redor de seu pescoço, erguendo-me em meus dedos do pé. Eu não poderia chegar perto o suficiente. Eu o tinha. Eu estava em seus braços novamente. Eu não me importava com mais nada. Eu só o queria de novo. Ouvi risadas sussurradas – eram os proprietários dos cavalos – e eu as ignorei. Ele não. Ele se afastou e deu um passo para trás. Fui com ele, mas ele tocou meus ombros, me segurando no lugar para que meus braços tivessem que cair. Suas mãos voltaram para seus lados. — Eu sinto muito. Eu não vim aqui para isso. — Ele passou uma mão pelo cabelo. — Então por que você veio? Você matou Liam? Você mentiu para mim? — Por favor, diga que você mentiu. Por favor. Eu queria a sensação de seus lábios nos meus novamente. Eu queria seus braços ao meu redor. Uma última noite. Ele balançou a cabeça, a dor apertando seus traços. — Eu não... Não. — O que você quer dizer? Isso significava que...? Ele não matou Liam? — Eu não menti para você. O chão caiu debaixo de mim. Novamente. Eu olhei para baixo, como se eu pudesse realmente ver o buraco negro sob meus pés. — Mas... Eu levantei minha cabeça. — Minha família fez. — Do que você está falando? — Eu lhe disse que alguns de meus tios me traíram. Lembra disso? Eu acenei com a cabeça; minha cabeça estava tão pesada. — Sim. — Por que isso importava?

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— Um dos meus tios ordenou o golpe em seu marido. O que Dorian disse era verdade. Mas eu não tinha ideia até que ele mesmo lhe disse. Há uma câmera escondida no elevador. Ele deve ter se esquecido disso. Eu ouvi tudo o que ele disse para você, mas não importa quem foi. Ele mentiu sobre o Carl. Não foi ele quem matou seu marido, mas ele estava certo. Não fui eu quem ordenou matá-lo. Mas foi minha família, e era um dos nossos outros motoristas. Seus olhos brilharam com lágrimas não derramadas. — Quanto ao que você perguntou antes, você está certa. Eu poderia ter feito com que Sia lhe dissesse. — Sua boca se abriu. Ele estava prestes a dizer algo, então o olhar em seus olhos caiu. Ele parecia esgotado agora. Seus ombros caíram. — Eu devo ir. Isso não é justo para você. — Então por que você está aqui? Ele parou, o tormento evidente em seu rosto, e ele deixou escapar outro suspiro suave. — Porque eu não conseguia ficar longe.

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CAPÍTULO TRINTA E OITO — Ei, Addy. Olhei da cozinha. — O que? Ele espreguiçou-se no sofá em seus shorts de corrida com um jornal aberto no colo. Frankie correu para ele, balançando a cauda, e a mão livre de Liam o acariciou. — O que é uma palavra de dez letras para lamúria? — Você está brincando? Como vou saber isso? — Espera. Lamentação! — Ele gesticulou para o laptop. — A boa internet. Então tudo mudou, e ele olhou para mim, sombrio de repente. — Sabe, — ele disse, — nós não falamos sobre essas coisas, mas eu não quero que você faça isso por mim. Meu estômago teve uma sensação engraçada. — Eu não gosto de onde isso está indo. Você quer pizza esta noite? — Eu peguei o telefone. — Vou pedir. — Falo sério. Se algo me acontecer, não desperdice sua vida. Quero dizer, sim, fique triste. Esteja realmente triste. Olhe para mim. — Ele gesticulou para si mesmo. — Eu sou um belo pedaço de bunda. Eu também me lamentaria, mas depois de um tempo, siga em frente, ok? Prometa. Não se sinta culpada por ser feliz, mesmo depois de eu ir embora. Minha boca ficou seca. — Você não vai a lugar nenhum. — Prometa.

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— Certo. — Eu revirei meus olhos. — Eu prometo. — Ele sabia — eu disse, lembrando. — O que? — Perguntou Cole. Mas eu falei comigo mesma. — Ele sabia que algo ia acontecer. Ele estava tentando me dizer. — Eu senti a mesma sensação engraçada no meu estômago. — Dois dias antes de morrer, ele sabia que algo iria acontecer. Cole se aproximou. Fechei os olhos, sentindo seu calor tão perto. Eu poderia virar e enterrar minha cabeça em seu ombro. Ele poderia me segurar. Ele poderia me fazer esquecer tudo, que era o que ele estava fazendo. Eu tinha esquecido a realidade desta vida, da máfia. Eu já tinha perdido um amor. Eu não poderia perder outro. Eu não poderia perder Cole. Eu nunca sobreviveria. Olhei para ele. Eu realmente olhei para ele. Ele poderia ser morto bem na frente dos meus olhos. Tudo poderia acontecer novamente. Eu deveria dizer não. Eu deveria ir embora. Eu deveria sair, nunca mais vê-lo. Eu poderia fazer isto. Eu poderia fazer tudo isso, embora deixasse metade de mim sangrando no chão agora. Eu não podia. A verdade ressoou dentro de mim. Já fazia quatro meses. Quatro meses de eu acreditar que ele tinha matado Liam. Quatro meses tentando deixá-lo ir, sabendo que eu deveria odiá-lo, que eu nunca o veria novamente. Quatro meses do inferno. Quatro meses de dor, porque eu não podia fazer nenhuma dessas coisas. Eu só sentia falta dele. Eu só o amava, e agora, enquanto eu olhava para ele, estudando-o, eu sabia no que eu estava me inscrevendo. Abri a boca, pronta para compartilhar tudo o que eu estava pensando, quando suas palavras pararam a minha. — Eu moro em um prédio com outros residentes. Carter pensa que sou estúpido. Sim, estou na máfia. Sim, você foi puxada para isso mesmo

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antes de eu entrar em sua vida. Sim, eu posso imaginar que esta é toda uma história horrível. Mas não é uma história da máfia. É uma história de amor, e é uma que você deve querer sair rapidamente, mas me ouça. — Ele se aproximou, baixando a voz. — Por favor. Ele não precisava pedir. Eu já estava ouvindo, e eu sabia que estava olhando para ele com tanto amor que devia estar brilhando. Como ele não podia ver? Ele começou de novo, dando um passo mais perto. Sua voz era tão suave. — Eu moro em um prédio com outros residentes porque eu costumava morar em um celeiro. — Ele não estava olhando para mim, como se ele não conseguisse fazer isso. Como se ele estivesse envergonhado. — Isso é ridículo, não é? Eu sou o cabeça de uma família da máfia, e eu não quero ficar sozinho. — Cole... Ele levantou a voz, mas ele ainda não olhou para mim. — É por isso que tenho pessoas vivendo lá. É por isso que eu gostava de ir ao seu apartamento, não ao meu. Nunca foi sobre não querer você em meu lugar ou ter que ser um segredo ou qualquer coisa. Eu perdi todos na minha vida. Também perdi Carter. Foi apenas eu por um longo tempo. Eu e... — Ele gesticulou para o celeiro atrás de nós. — Os cavalos. É com quem eu morava. Eu não me deixei amar a família que me ajudou. Eu não faria isso porque eu sabia que um dia alguém viria matá-los. Eu sabia que cada pessoa na minha vida acabaria morrendo. E eles morreram. Eu perdi três bons amigos. Perdi uma merda de gente, Addison. Ele estava bem na minha frente agora. Vivo. Respirando. Ele estava tão quente. Ele olhou para mim então, e instantaneamente senti a diferença, como se ele me desse oxigênio. Ele tocou minhas mãos, entrelaçando meus dedos com os dele. Senti o calor que emanava dele. Estava me envolvendo em um abrigo seguro, me puxando para dentro, me tentando. Inclinei-me para ele. — Eu sempre vou perder as pessoas. Essa é a vida que eu vivo.

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Eu mordi meu lábio. Era tudo que eu podia fazer para evitar envolver meus braços ao redor dele, puxando-o para mim, afundando meus dedos em seus ombros, segurando-o perto... ...e nunca deixando-o ir. — Então não vou. Minhas pálpebras voaram para cima. — O que? — Eu não vou pedir para você voltar. Eu não deveria ter vindo. — O que? — Eu tive que perguntar novamente. Isso não era o que eu queria. — Eu estou deixando você ir. Ele segurou minha mão e pressionou seus lábios contra minha testa. Foi um beijo de despedida. Ele estava se afastando. — Adeus, Addison. — Cole — comecei. Se alguma coisa acontecesse com ele... Ele se virou para ir, mas eu agarrei seu braço. Imagens brilharam em minha mente. Quando ele entrou no Gianni’s. O elevador. A pista de corrida. Nossa primeira noite. Nossa segunda noite, quando ele pisou fora do elevador e me segurou. A noite de arrecadação de fundos, quando todos olhavam para Cole, que estava me encarando. Quando ele veio para mim naquela noite. Quando ele saiu para me proteger na fazenda de cavalos. Quando eu o levei para casa. E a última vez, quando eu estava amarrada naquela cama. O tiroteio, e então ele abriu a porta. Ele me salvou. Lembrei de suas palavras: “Eu te amo”. — Você disse que me amava. — Eu disse. — O que? Quando você me salvou. Ouvi o que você me disse. — Eu soltei seu braço e toquei onde seus lábios estavam. Meus dedos ficaram ali. — Você

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disse que me amava. — Certifiquei-me de olhar diretamente para ele. Eu queria que ele soubesse a verdade, minha verdade. — Eu também te amo. Sua boca se torceu, parecendo dolorida. — Addison. Eu agarrei sua camisa. — Eu te amo. — Não, Addison. Estou deixando você ir. Estou tentando fazer a coisa certa. Estou na máfia. Isso nunca vai mudar. Não importava. Eu balancei a cabeça. — Eu estou aqui, e eu estou olhando para você, e estou repassando todos os mesmos pensamentos. Ele está na máfia. Ele é perigoso. Poderia morrer. Eu podia vê-lo morrer. — Eu mergulhei minha cabeça, mas fiquei olhando para ele, segurando seu olhar. Ele precisava ver que eu queria dizer cada palavra. — Eu podia ver você morrer. Tudo de novo. O mesmo pesadelo. Mas não importa. Essa é a verdade que continua me atingindo. Isto. Não. Importa. Meu coração ainda pode estar batendo. Eu ainda posso estar andando, falando, respirando quando estou longe de você, mas eu não estou vivendo. Isso é o que eu percebi nestes últimos quatro meses. Eu poderia esperar mais três, mais seis. Não importa, porque é você. Eu estou escolhendo você, assim como escolhi você na noite em que fomos atacados. — As palavras me torturavam. — Eu escolho você. Ele fez uma pausa, olhando de volta para mim, e eu vi a parede subir. Foi assombroso. O alívio. A tristeza. A esperança. Ele era como eu, lutando para fazer a coisa certa, para ir embora, mas estávamos errados. Ficar – era a coisa certa. Ele me esmagou nele. Sua boca na minha, mais uma vez, onde deveria ter ficado todo esse tempo. Senti seu desespero, ainda tão faminto quanto eu. Ele murmurou em mim, suas palavras uma carícia contra minha pele: — Graças a Deus. Então ele me beijou, e eu esperava que ele nunca parasse.

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EPÍLOGO SEIS MESES DEPOIS — Eu te amo. Eu sorri antes mesmo de abrir os olhos. Era assim que todas as garotas deveriam acordar todas as manhãs. Os lábios de Cole tocaram os meus novamente antes que ele se movesse até minha garganta. Eu passei minhas mãos pelo cabelo e perguntei, com os olhos ainda fechados: — Por que você me ama? — Eu amava quando ele me falava. Ele riu, sua respiração fazendo cócegas em minha pele. Ele beijou meu pescoço. — Eu te amo por causa da maneira como você ri. Você não riu no começo, mas agora eu só quero fazer você rir o tempo todo. Abri um olho. — É? Ele sorriu, seus olhos brilhando enquanto beijava o lado direito do meu pescoço. Ele estava estendido ao meu lado, apoiado em um de seus braços. Ele murmurou novamente: — Eu te amo porque você corre comigo todas as manhãs. Bem, na maioria das manhãs. Eu não contive uma risada agora. Eu não tinha ido na manhã anterior. A despedida de solteira de Sia tinha provocado uma ressaca em mim. Mas Cole voltou e me despertou de outra maneira. Eu estava esperando uma repetição hoje. Eu abri meu outro olho. — Vamos. Continue.

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Seus olhos escureceram, e ele deixou cair um leve beijo no lado esquerdo do meu pescoço. — Eu te amo porque você vai montando comigo, e não se importa de limpar uma ou duas baias. Eu gemi. — É tão difícil voltar para a cidade toda vez que estamos no rancho. É lindo lá fora. Ele se moveu mais para baixo, e eu senti seus lábios no vale entre meus seios. Sua mão livre se moveu para cobrir um deles, seu polegar esfregando meu mamilo. Eu murmurei: — Continue. Estou adorando ouvir todas essas razões. — Eu pisquei. Ele balançou a cabeça, ligeiramente, antes de apertar meu mamilo. — Ei! Ele me ignorou, correndo sua língua em volta do mamilo. — Eu te amo, porque você empatou a noite de Terça do spaghetti de Dawn com Ken. — Não é justo. Se ela comer com Ken, eu também quero comer com ele. — Eu coloquei meu lábio inferior para fora, lembrando dos protestos de Dawn. — Ela age como se ela fosse a única que pode ser sorrateira, ou comer com Ken. Ela não é a única que o adora. — E... — Ele se moveu para cima, olhando para baixo em meus olhos. Sua mão raspou meu cabelo. — Eu realmente amo como você abraça todos em sua vida. — Oh. — Esse motivo me tocou mais que os outros. Ele não estava falando de Sia, Jake e Dawn, ou mesmo Ken. Ele não estava se referindo ao resto dos moradores do prédio. Ele estava falando sobre Emma, que havia se tornado uma amiga íntima nos últimos seis meses. Minha garganta fechou com emoção. — Eu sou uma afortunada de ter Emma como amiga. Ela é uma boa pessoa. — Ela é minha família. Eu sei que você fez mais um esforço por mim. — Ele colocou seus lábios nos meus, sussurrando lá: — Obrigado. — Sia ainda tem um pouco de medo dela. — Eu ri levemente, meus lábios roçando os dele. — Eu amo Sia, mas acho que isso me deixa ainda

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mais próxima de Emma. — Eu fiquei sóbria. — Eu gostaria que eles não fossem embora amanhã. Emma entrara para a festa de despedida de solteira de Sia. Cole passou a noite com Carter. Eu não perguntei o que eles fizeram, mas quando eu cheguei em casa, havia tinta de paintball sobre a mesa da cozinha. Eu tive um tempo difícil imaginando Cole e Carter Reed jogando paintball, mas achei irônico de alguma forma. — Iremos vê-los em alguns meses. — Isso mesmo. — Eu o cutuquei, batendo meus quadris contra os dele. — Eu não entendo porque você mentiu para mim antes. Você poderia ter me dito que você também era dono do Octavia. Ele sorriu, envolvendo um braço sob mim. Ele me puxou para mais perto, puxando meu corpo até ele caber bem entre minhas pernas. Ele se instalou, e eu pude senti-lo ali, pressionado contra a minha abertura. Seus olhos ficaram mais sérios. Ele

escovou

alguns

dos

meus

cabelos

da

minha

testa,

sensivelmente ao toque. — Eu tenho muitos lugares, e você poderia ter pesquisado os proprietários do Octavia. Eu me preocupei que você descobrisse sobre mim mais cedo do que eu pretendia. — Sobre você estar na máfia. Ele assentiu com a cabeça, seus olhos observando os meus. — Eu não quis dizer e você descobriu daquela maneira. Queria te dizer. Eu só... — Ele hesitou, respirando fundo. Seu peito se moveu contra o meu. — Eu queria ter certeza de que funcionaria, o que tínhamos. — Você não pensou assim depois que me levou no voo para lá? — Eu torcia. — Seu sorriso se transformou em um meio sorriso pesaroso. — Eu mais do que torcia. Uma dor se agitou em mim, e eu coloquei minhas pernas ao redor dele, puxando-o para dentro de mim. A conversa de amor era boa, mas eu estava ficando impaciente. Quando seus olhos encontraram os meus, eu murmurei: — Estou feliz por tudo acontecer da maneira como aconteceu. — Sim?

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— Eu já estava me apaixonando por você então. — Eu me lembrei da sensação de nervosismo no meu estômago, a confusão, a euforia. Estava lá, mas eu não queria identificar. Eu não estava pronta. Ele escovou seu polegar ao longo do lado da minha boca. — Eu te amo. — Eu sei. — Eu ri enquanto o puxava para baixo. Eu o encontrei na metade do caminho, meus lábios procurando por ele, e então eu disse: — Agora me mostre. Novamente. E ele fez exatamente isso.

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Cole . pdf  
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