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AMBIENTES DE APRENDIZAGEM COOPERATIVA EM EA: uma possibilidade de convivência em uma ecologia cognitiva digital LAURINO, Débora Pereira Fundação Universidade Federal do Rio Grande Mestrado em Educação Ambiental debora@ceamecim.furg.br

Resumo Pensar Educação é pensar o ambiente enquanto mente, corpo ou instituição, é conhecer e se reconhecer no outro, é agir para o bem social. É pensar nas comunidades, no coletivo e no trabalho cooperativo, o que pressupõe a interação,colaboração, relações de respeito mútuo e não hierárquicas, postura de tolerância e convivência com as diferenças. Neste trabalho, além de discutir sobre o processo cooperativo em EA e as possibilidades de virtualização em uma ecologia cognitiva digital, relatamos a experiência pedagógica do seminário Educação Ambiental: Uma Ecologia Virtual Criativa realizada no Mestrado em Educação Ambiental - MEA – na Fundação Universidade Federal do Rio Grande - FURG. A proposta do seminário pautou-se na possibilidade de vivenciar, em grupo, situações afetivas, cognitivas, criativas, virtuais, cooperativas e autogestivas. Palavras-chave: ambiente virtual de aprendizagem, ecologia cognitiva digital, cooperação

Introdução

Existe a necessidade de uma nova inclusão, para além da escolar tradicional:

a

inclusão

em

redes

sócio-culturais

de

convivência

que

gradativamente incorporam tecnologias, ampliando e transformando a ecologia social e cognitiva. Ampliar as redes sociais de convivência eliminando a distância pode levar professores, alunos e instituições a uma necessária ressignificação dos modos de ensinar-aprender e atuar no ambiente. Em uma ecologia cognitiva, na era da informação, a qual estamos vivenciando e construindo o pensamento coletivo no meio digital, a função do professor transcende a de difusor de informações. O professor é aquele que incita o intercâmbio de saberes, acompanha e desafia a articulação de diferentes formas de trabalho, ou seja, torna-se animador da inteligência coletiva dos grupos.


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Habitar

espaços

de

convivência

virtuais

possibilita

o

contínuo

aperfeiçoamento do profissional da educação. Neste sentido, Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA) vêm favorecendo a criação de novas formas de interação, de conexão com outras pessoas, e a constituição de redes e subredes para trocas de informações e experiências, potencializando tanto a produção individual quanto a coletiva. As práticas educação, ensino e aprendizagem

são

relacionais:

pressupõem

encontros,

interações

e

atualizações. Isso é contrário à idéia e ao conceito de distância. O que propomos, é a possibilidade da tecnologia proporcionar vivências de telepresença sem distâncias, isto é, o foco está na possibilidade de convivência. No seminário “Educação Ambiental: Uma Ecologia Virtual Criativa”, realizado no Mestrado em Educação Ambiental – MEA – na FURG, propomos vivenciar processos criativos e cooperativos buscando associação entre a vida cotidiana, situações vivenciadas e o objeto de pesquisa dos mestrandos. Trabalhamos com a máquina e oficinas de sensibilização, com o virtual e o atual. Tínhamos um AVA – Ecovirt – (www.ceamecim.furg.br/mea) em potencial, sua constituição e encantamento ocorreram na convivência, no habitar da comunidade em seus espaços.

Cooperação como surgimento espontâneo

O surgimento espontâneo da ordem nos pontos críticos de instabilidade é um dos conceitos mais importantes da nova compreensão da vida, denominado “auto-organização” ou “surgimento espontâneo”. Esse fenômeno do surgimento espontâneo foi reconhecido como a origem dinâmica do desenvolvimento, da aprendizagem e da evolução, em outras palavras, a criatividade, a geração de formas novas é uma propriedade fundamental de todos os sistemas vivos, sendo também um aspecto essencial da dinâmica dos sistemas abertos. A vida dilata-se constantemente na direção da novidade (CAPRA, 2002). Podemos pensar as tecnologias digitais e os AVAs como sendo relativamente recentes, principalmente quando os relacionamos com as


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instituições educacionais. Recentes no sentido de ainda não possuírem distinções identitárias para produzirem um consenso social, nem mesmo dentro da comunidade científica e escolar. E, refletindo um pouco, será que teremos ou queremos esta identidade única? Ou será que uma de suas características é mutabilidade constante? Será que seus diferenciais não seriam a própria característica de não ter formas definidas e rígidas, de “serem no momento”? E ainda, este fato, poderia constituir um estímulo à diversidade? A diferenciação e a abertura de novas possibilidades no delineamento de ambientes virtuais de aprendizagens (AVA) estão fortemente ligadas às invenções, às criações e às construções de pesquisadores, professores e alunos em interação com a sociedade e com o desenvolvimento tecnológico. A interação, na teoria de Piaget, é analisada detalhadamente para explicar o desenvolvimento. Em termos de desenvolvimento cognitivo e moral, esta interação encaminha-se para relações de natureza cooperativa, em que são requisitos o respeito mútuo e a busca da autonomia. Para Piaget (1973), há dois tipos de respeito: o respeito unilateral, que decorre de uma primeira forma de relação social onde os sujeitos são heterônomos - uma relação de coação; e o respeito mútuo, que decorre de uma relação de cooperação. Quando os sujeitos praticam este último tipo de respeito entre si, tornam-se autônomos. A cooperação é o conjunto das interações entre indivíduos iguais, igualdade enquanto legitimidade de experiências, e diferenciados, no sentido de que somos únicos e possuímos experiências/vivências que nos são próprias. Sociologicamente, a cooperação organizou-se em correlação com a divisão do trabalho social e com a diferenciação psicológica dos indivíduos que dela resultou. A cooperação supõe a autonomia dos indivíduos, ou seja, a liberdade de pensamento, a liberdade moral e a liberdade política. (PIAGET, 1998b) Porém, a liberdade oriunda da cooperação não significa anarquia, mas sim autonomia, ou seja, a inclusão do indivíduo a uma norma que ele mesmo escolhe e para a constituição da qual ele colabora.


4 Não é livre o indivíduo que está submetido à coerção da tradição ou da opinião dominante, que se submete de antemão a qualquer decreto da autoridade social e permanece incapaz de pensar por si mesmo. Tampouco é livre o indivíduo cuja anarquia interior impede-o de pensar e que, dominado por sua imaginação ou por sua fantasia subjetiva, por seus instintos e por sua afetividade, é jogado de um lado para o outro entre todas as tendências contraditórias de seu eu e de seu inconsciente. É livre, em contrapartida, o indivíduo que sabe julgar, e cujo espírito crítico, o sentido da experiência e a necessidade de coerência lógica colocam-se a serviço de uma razão autônoma, comum a todos os indivíduos e independente de toda autoridade exterior. (PIAGET, 1998b, p. 154)

Segundo Piaget (1973), “co-operação” é cooperar na ação, é operar em comum; é quando há coordenação de pontos de vistas diferentes, pelas operações de correspondência, reciprocidade ou complementaridade e pela existência de regras autônomas de condutas fundamentadas no respeito mútuo. Para que haja uma cooperação real, são necessárias as seguintes condições: existência de uma escala comum de valores; conservação da escala de valores e existência de reciprocidade na interação (PIAGET, 1973). Esse processo de cooperação só é possível através de um relacionamento heterárquico baseado na compreensão dos interesses individuais e coletivos do grupo, respeitando a individualidade, o tempo e o processo cognitivo de cada indivíduo. Descrita por Reigota (2001), a educação ambiental é o próprio processo de cooperação, ou seja, é a forma de Educação que prepara cidadãos para exigir justiça social, cidadania nacional e planetária, autogestão e ética nas relações sociais e com a natureza. Ou ainda, para Sato (2002), a EA “[...] é um processo de aprendizagem permanente, baseado no respeito a todas as formas de vida.” (p. 17). Para isso é necessário, conhecer o que é ambiente na concepção de cada um garantindo a contextualização, respeitando a individualidade e buscando a cooperação (REIGOTA, 1998). No Seminário possuíamos uma proposta, como dito anteriormente, porém as atividades, as vivências, as produções, os estudos, as leituras baseavam-se no devir do grupo, que era composto por uma diversidade de profissionais: jurista, professores de educação física, de química e de filosofia,


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pedagogos, jornalistas, arte-educadores, biólogos, oceanólogo, fisioterapeuta, geógrafo, economista (os mestrandos) matemático e psicólogo (os docentes). A diversidade nos constituía e o interesse e as pesquisas dos mestrandos conduziam o seminário e possibilitaram encontros que potencializaram e conectaram pesquisas. A construção de páginas possibilitou o intercâmbio e a reflexão das potencialidades do ciberespaço. Aos poucos o sentimento de comunicar e compartilhar foram transformados no de interagir e conversar, então os espaços coletivos do AVA, mural, fórum, biblioteca e lista de discussão, foram sendo habitados, colocados em movimento.

Ecologia Cognitiva Digital, que organização é essa?

Entendemos AVA como possibilidades de organização em uma ecologia cognitiva digital, cujo foco central de operação se dá no acoplamento entre sistemas que estruturam o espaço educacional: indivíduos, recursos digitais, formas de interação, proposta educacional e pressupostos teóricos. Segundo Varela (1989) as faculdades cognitivas estão ligadas ao historial da vivência, da mesma maneira que “uma vereda anteriormente inexistente vai aparecendo conforme se caminha”. A idéia de cognição não é a resolução de problemas por meio de representações, mas sim o fazer-emergir criador de um mundo, com a única condição de ser operacional no meio no qual produz sua existência. Para Varela, Thompson & Rosch (1997) a cognição é a ação corporificada que está ligada a histórias vividas, sendo estas histórias vividas resultados da evolução como deriva 1 natural. Nossa corporização humana e o mundo que se enactua mediante nossa história de acoplamento refletem somente uma de muitas vias evolutivas possíveis. “Sempre estamos restringidos pelo caminho que trilhamos, mas não há um fundamento último 1 Deriva é o caminho seguido por trocas estruturais de um sistema, a qual surge a cada momento gerada pelas interações do sistema com outro sistema independente, enquanto que sua relação de correspondência (adaptação) com este outro sistema (meio) e sua organização (classificação) permaneçam sem variação (MATURANA 1988).


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que dite os passos que damos”. Conforme Mazzochi (2000), as contribuições de Chardin (apud COSTA 1995) e Bateson (1991) forneceram condições teóricas para Lévy (1997a) propor o conceito de ecologia cognitiva como um espaço de agenciamentos, de interações concretizadas nas coletividades pensantes homens-tecnologiasinstituições. Chardin com base em seu amplo conhecimento em física, biologia e astronomia afirmou que a evolução da espécie tendia a constituição de um organismo humano planetário sugerindo assim a formação de uma consciência planetária. Bateson (1991) discute acerca de uma ecologia das idéias que amplia o sentido individualizante de mente, ou seja, a mente não ligada somente ao corpo, mas também às vias e mensagens que se dão fora do corpo, que provem do sistema social total interconectado, assim fazendo parte da ecologia planetária. Podemos então dizer que ecologia cognitiva aponta para a idéia de uma construção do conhecimento coletivo, na interação com os outros e com o ambiente social, institucional e tecnológico. "É o estudo das dimensões técnicas e coletivas da cognição" (LÉVY, 1993). No Ecovirt, como ilustra o recorte 1, pode-se perceber o processo de construção coletiva, da complexificação da noção do que é indivíduo e meio, do que é subjetivo e objetivo.

Recorte 1 Fórum: Nossas Dissertações (www.ceamecim.furg.br/mea) Traumas e provocações. Enviado por Lu, dia 19/4/2003 hora 9:26 [...] gostaria de levantar uma reflexão. Lembro-me que ao terminar a defesa do meu projeto, a Ma. ponderou que havia gostado da proposta, mas não tinha percebido como a minha pesquisa contribuiria com o grupo no qual estava pesquisando. Aí pensei: "será que sou apenas uma sugadora de dados?" Acredito que a pesquisa e a produção de conhecimentos pode trazer vários tipos de contribuições. [...]. No meu caso especificamente, com certeza, minha pesquisa não se trata de uma pesquisa-ação, mas estou envolvida com o grupo pesquisado (até o último fio de cabelo) e acredito que em uma análise de implicações do meu envolvimento de sujeito com o objeto, os resultados poderão dar fortíssimos suportes para que eu possa continuar trabalhando com eles em uma nova perspectiva, quem sabe mais participativa da parte deles. Mas também espero contribuir com os outros aspectos acima citados. E vocês, já pensaram sobre isto? Retorno da pesquisa. Enviado por Ma, dia 23/4/2003 hora 9:1:19 Eu não só questionei a Lu, como me questiono a respeito do retorno da pesquisa para a sociedade e o grupo pesquisado. [...].


7 Repensando a prática Enviado por Ca, dia 29/7/2003 hora 14:54:1 Assim como você, sempre quis fazer com que o meu projeto de pesquisa contribuisse para as pessoas de maneira significativa,auxiliando e refletindo o diadia.Conquistar um espaço de pesquisa é muito difícil para simplesmente não corresponder as expectativas de pessoas que acreditam em nós.Como professora minhas idéias sempre foram achar saídas e respostas para situações problemáticas do cotidiano escolar. [...] Compromisso. Enviado por Mo , dia 7/8/2003 hora 11:51:32 [...]Acho que pesquisas em instituições públicas, de modo geral, tem o compromisso de retornar resultados,etc. para as comunidades em que estão inseridas. No que diz respeito às investigações que utilizam informações retiradas do contexto escolar, por exemplo, isso nem sempre acontece e, infelizmente, contribuem negativamente para futuras ações envolvendo escolas e universidade. Por outro lado, em nosso caso específico, de professores que buscam por meio de cursos de aperfeiçoamento, o envolvimento em projetos de investigação que possuem, do ponto de vista pessoal (ênfase no "pessoal"),alguma significância, penso que tudo mais é conseqüência. Me explico melhor. Mesmo que as contribuições do trabalho sejam "apenas pessoais", nos transformando enquanto indivíduos, isso já é suficiente para dizermos que valeu! Se contribuir para repensarmos nossas práticas, reavaliarmos nossas atitudes, (re)significarmos nossas ações, já valeu em termos de contribuição, pois lidamos com pessoas, nosso trabalho é permanentemente permeado de interações com pessoas. [...].

O conhecimento é construído e compreendido a partir das relações constituídas nessa comunidade, da qual fazem parte os indivíduos, suas ações, as relações entre eles, as técnicas de comunicação, os recursos tecnológicos utilizados, os artefatos criados e as formas como tudo isso se “encaixa”. Com base nos estudos de Ong (1987); Bateson (1991); Lévy (1993); Guattari (1993); Maraschin & Axt, (2000) poderíamos falar de pelo menos três ecologias cognitivas: oral, escrita e digital. Nessas duas primeiras ecologias o significado da palavra é diferenciado. Poderíamos dizer que a escrita reconfigura a ecologia oral. E da mesma forma, será que novas tecnologias da informação e comunicação, também não reconfiguram as ecologias cognitivas oral e escrita? Certamente que sim, as formas de escrever e de expressar se alteram e se potencializam, as formas de relacionarmos a oralidade e a escrita se modificam. O texto pode ter som, imagem, movimento. Lévy (1997b) referese a essa reconfiguração dizendo: (...) o saber [na ecologia cognitiva digital] poderia novamente ser carregado pelas coletividades humanas vivas, do que por suportes separados, servidos por intérpretes ou cientistas. Só que desta vez, ao contrário da oralidade arcaica, o carregador direto do saber não seria mais a comunidade física e sua memória carnal, mas sim o ciberespaço, a região dos mundos virtuais pelo intermédio dos quais as comunidades descobrem e constróem seus objetos e se conhecem como coletivos inteligentes.

Não

é

trivial

interagirmos

com

diferentes

modos

sociais

e


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institucionais de organização dos saberes, como também não é trivial que esses acoplamentos se dêem através da linguagem oral, escrita ou por processos digitais. A idéia é que cada ecologia cognitiva - uma rede atualizada das relações entre os sujeitos, as tecnologias e as instituições – produz regimes cognitivos diferenciados.

O Ambiente Virtual de Aprendizagem

Quando falamos em um ambiente virtual de aprendizagem estamos considerando a atividade cognitiva dos sujeitos sempre na interação de uns com os outros e com as tecnologias disponíveis, que produzem um ordenamento, uma forma diferenciada de rede cognitiva. Cada sujeito que participa de um AVA recria-o na convivência, através de suas interações, de seus questionamentos, contribuições, críticas, enfim, de suas ações/operações, sempre perpassado pela tecnologia. Nem somente individual, nem somente coletivo, mas essencialmente construído (MAÇADA, SATO & MARASCHIN, 2001). Diferentemente da noção vinda do senso comum, na qual virtual está relacionado com o “não-real”, como algo da fantasia, da imaginação, consideramos a relação atual e virtual mais interessante para nossas reflexões (LÉVY, 1996). A contraposição virtual x real traz a idéia de uma dicotomia: existe uma realidade dada que podemos representar e outra que é o que imaginamos e é falsa. Na relação virtual/atual não há contraposição. A atualização é a criação, a invenção de soluções a partir da virtualidade que uma problemática oferece. Virtualização é um devir sempre em movimento, é a constante abertura de possíveis. Assim, pensamos que um AVA pode se atualizar em diferentes direções, pois o sistema, por sua constituição, pressupõe fontes constitutivas de problematização. O AVA operaria transformando virtualidades em atualizações e vice-versa. Quando buscamos uma informação, por exemplo, acreditamos que


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encontraremos o que precisamos. Mas, ao encontrarmos a informação, somos jogados em novos planos de virtualidade, ao nos depararmos com inúmeras outras informações além das que buscamos. As atualizações são possíveis dada a estrutura do sistema; cada leitor faz diferentes observações e leituras de acordo com seus interesses, sua experiência. As fontes de informação têm uma virtualidade que possibilita ao sujeito atualizar uma ou várias soluções para sua questão, sem contudo esgotar todas as possibilidades. Mesmo porque, a cada atualização, novos possíveis se abrem; o processo de virtualização é dinâmico, remontado a cada solução atualizada. O Recorte 2, evidencia esses novos possíveis que se atualizam e que são potencializados pela virtualização.

Recorte 2 Fórum: Nossas Dissertações O prazer de ler. Enviado por Ti , dia 10/6/2003 hora 15:43:3 [...] fui instigada a responder a uma sugestão da Lu para a Na sobre o processo de escrita e fiquei pensando quanto pode ser similar o processo de leitura de um texto. Para começar podemos fazer uma leitura despretensiosa e fugaz e em seguida deixarmos nos envolver pelo corpo, cheiro, cor , densidade, fluxos e tudo mais que um textos pode nos suscita. E falando em texto eu nunca li tanto em minha vida. [...] e cada vez mais descobertas Enviado por Lu, dia 12/6/2003 hora 17:54:29 E o interessante, Tininha, é que quanto mais a gente lê, surgem novas idéias, coisas que a gente nem tinha pensado. Às vezes, numa leitura despretensiosa, como vc disse, a gente consegue alinhavar um monte de idéias da pesquisa, que antes estavam soltas. Estou passando por esse processo agora. Não sei se por estar no meio da coleta de dados, os conteúdos das entrevistas parecem puxar as informações dos textos que a gente vai lendo.[...]. estar solto. Enviado por Ti , dia 17/6/2003 hora 16:1:28 Estar solto as vezes pode ser uma vantagem. Os conteudos estão fresquinhos, não estão ainda contaminados por referenciais teoricos e a espera de serem conectados, capturados, desdobrados entre conjunções,ou talvez transfigurados entre outras possibilidades. Estou divagando entre as solturas de seus conteudos e a insipiência dos meus. infinitos sentidos...Enviado por Ne , dia 1/7/2003 hora 18:51: Tininha é muito importante que alguem trabalhe com a percepção do mundo que nos cerca através dos sentidos, todos sentidos, infelizmente nos tormamos escravos, na minha opinião, da visão, abstraindo os outros sentidos, resgatar nossa sensibilidade é o primeiro passo para nos tornarmos integrantes e integrados do todo. Umas visões a mais Enviado por Ti , dia 10/7/2003 hora 9:33 [...] o nosso olhar esta o tempo todo capturado por infinitas imagens, interferencias Esteticas, sentimos o tempo todo mas não nos apropriamos do sentido da visão. É ir além do significado quase ditador do sentido visão, para aos poucos nos rendermos a infinitos olhares, infinitas miradas. Sobre o olhar, Enviado por Ma, dia 12/7/2003 hora 10:50:2 Deixo uma pérola da MC. na última reunião da orientação coletiva: "A luz das teorias implícitas cegam nossos olhos". É preciso aprender a ver novamente. Dizem que Jorge Liuz Borges disse que aprendeu a ver depois que ficou cego.


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Nesse sentido, a abertura dos possíveis cognitivos, no entendimento de Piaget (1985), é a invenção, a criação. Nesse “diálogo” podemos observar as interações e as interpretações desses sujeitos de suas atividades acontecendo simultaneamente e determinando a abertura de novos possíveis cada vez mais numerosos, cujas interpretações são cada vez mais ricas. Pensamos que essa abertura de possíveis é potencializada com as tecnologias digitais. O digital potencializa a própria virtualidade dos objetos e, mais que isso, modifica as formas de nos relacionarmos com eles, com outros sujeitos e conosco mesmos. Além da potencialização da virtualidade e da modificação nas formas de relacionamento com os objetos, novas experiências são criadas, flexibilizando a noção de identidade, de tempo, de espaço, recriando o próprio objeto. Da mesma forma, o ambiente virtual (digital) de aprendizagem é um sistema cognitivo que se constrói na interação entre sujeitos-sujeitos e sujeitosobjetos, transforma-se na medida em que as interações vão ocorrendo, que os sujeitos entram em atividade cognitiva. É atualizado a cada solução provisória e sua virtualidade se modifica a cada problematização. Da mesma forma os sujeitos são transformados na/pela interação. Não existem fronteiras rígidas do que é meio, objeto e sujeito, pois um ambiente virtual de aprendizagem, sob a perspectiva construtivista, se constitui sobretudo pelas relações que nele ocorrem.

Inteligência Coletiva: a consequencia da cooperação

Partimos do pressuposto de que o conhecimento se transforma e se qualifica na/pela atividade do sujeito. Para conhecermos, precisamos atuar, interagir e ressignificar: “O conhecimento é aquilo que fazemos com a informação. É o sentido que lhe damos, é como a combinamos. Conhecimento é relação. É ação, exercício, atividade, movimento, redes, conexões.” (MARASCHIN & AXT, 1998). Sob essa perspectiva, pensamos o conhecimento como relações resultantes das possibilidades de experimentações, vivências e convivências,


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constituídas por conexões individuais, coletivas e institucionais, caminhado, assim, para a construção de uma Ecologia Cognitiva. A constituição e a convivência no AVA Ecovirt na perspectiva da construção de uma ecologia cognitiva digital ocorreu no seu encantamento e este

permanecerá

encantado

enquanto

nós,

professores,

alunos,

pesquisadores, continuarmos atualizando-o. Cada um é responsável pelo encantamento. Dessa forma, o AVA passou a ser NOSSO, do coletivo de integrantes da comunidade, constituindo assim a comunidade virtual digital. A tecnologia não deve ser vista como um fim em si mesma, mas sim como um suporte à rede de conhecimento. “O conhecimento advém e dura somente por causa da imensa coletividade dos homens e seus produtos, da fervilha fábrica dos povos, do meio humano em geral. Quem segrega e sustenta o saber? A própria vida da espécie e de seu mundo. Todo o saber está na humanidade” (LÉVY, 1995). A partir da interação entre o conhecimento existente e tecnologias disponíveis, é que tecnologias e conhecimentos são gerados permitindo assim um processo de inovação contínua, dia após dia. Nesse processo, o homem consegue identificar novas maneiras de desenvolver suas atividades e conseqüentemente, diferentes são as necessidades, e estas provocam alterações nos rumos das profissões e em suas atividades. Em nossa experiência, enquanto seminário em um curso de Pósgraduação, chega o momento de encerramento, de despedidas, porém no Ecovrit, surge a possibilidade de continuidade pelo interesse da comunidade e mais, de nova atualização, de inclusão de outros estudantes que farão parte de um outro seminário

- Três Ecologias - que é uma atividade de extensão

oferecida pelo MEA. A eles será apresentado o AVA e feita a proposta de, se quiserem participar de nossa comunidade. Cada momento é hora para encantamentos - virtuais, digitais, presenciais, de todos os tipos. O que importa é experienciar e compartilhar a experiência. É criar espaços de convivência para atualizações da Inteligência Coletiva, mais como um campo de problemas do que uma solução, mais como um “modo de realização da humanidade que a rede digital universal felizmente


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favorece, sem que saibamos a priori em direção a quais resultados tendem as organizações que colocam em sinergia seus recursos intelectuais”. (LÉVY, 1999) Um AVA será encantado ou re-encantado sempre que nele forem possíveis atualizações que apostem na vida, na criação, na cooperação. A cada atualização, novas diferenciações serão feitas, e a comunidade constituirse-á na convivência (SATO, MAÇADA & MARASCHIN, 2001). Porém, segundo Capra (2002) existe uma diferença crucial entre as redes ecológicas da natureza e as redes da sociedade humana. Num ecossistema nenhum ser é excluído da rede, já no mundo humano, da riqueza e do poder, grandes segmentos da população são excluídos das redes globais. Talvez, o maior desafio das instituições educativas, da virtualização e por que não dizer, da Educação, seja a construção de novos modos de ação para atuação, num mundo ecossistêmico.

Referências Bibliográficas

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