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SUMÁRIO 05 - Cartas a Eparrei e Agenda 06 - Tirando a Máscara - Léa Garcia 10 - Ações Afirmativas 12 - Caldeirão Cultural 15 - Seção Mulher - Conferência Nacional de Políticas Públicas 17 - Atleta de Ouro - Daiane Santos 19 - Inaicyra Falcão 22 - No Peito e na Raça - Olívia Santana 26 - Profissões Com a palavra: Iléa Ferraz 32 - Força Suavidade no Magistério Profª Rosa Margarida de Carvalho Rocha 34 - Dançando a Vida Luiz Carlos Nogueira Arad 36 - Regina Adami 38 - Dezembro - É tempo das Yabás 39 - Nilma Bentes 40 - Josina Cunha 42 - Concepção na Comunidade - Lupper 43 - Brasil Palmares - Artigo de Alzira Rufino 44 - Pesquisa Fundação Perseu Abramo 46 - Festa de São Benedito em Tietê 48 - Coronelismos e Violência contra a Mulher Negra - Artigo de Rebeca Duarte 50 - Trançadeiras do Pelourinho 53 - Se Ligue 54 - Cultura no Maranhão - Tambor de Crioula 55 - Dez passos elementares contra o Racismo Artigo de Drª Tatiana Ferreira Evangelista Santos 58 - Alaide do Feijão 59 - Prof. Henrique Cunha 62 - Sandra Bello 64 - Fala Poeta 65 - Culinária 66 - Nomes Africanos / Banho de Ervas

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Cartas a Eparrei Gostaria de parabenizar a toda a equipe da Revista Eparrei, pela qualidade com que vem proporcionando a todas as leitoras.Na qualidade de mulher negra carioca, fiquei feliz de ver numa só revista as três Secretárias Negras de Estado, embora só mencionaram duas. Estou me referindo a Professora Vanda Ferreira, hoje Ouvidora da Petros, que foi a segunda mulher negra a ser Secretária de Estado, substituindo o Prof.Abdias do Nascimento na Secretaria de Defesa e Promoção das Populações Negras. Marcilene A.B. da Silva - RJ Olá! Alzira...Adorei Eparrei! Parabéns, principalmente pelo material gráfico. A nossa comunidade merece ser prestigiada com material de qualidade que a sua revista possui. Se eu puder sugerir alguém para as próximas entrevistas, por favor faça com a atleta Daiane “ Medalha de Ouro “, orgulho da raça negra, um incentivo no esporte, da garra e da força que a nossa comunidade é capaz e precisa continuar lutando por esse espaço. Vilma Warner - SP - Biashara Escola de Idiomas e Preparatório para Concurso Público.

Sou leitora e simpatizante desta tão conceituada e importante revista para a comunidade afro descendente, em especial à mulher negra, com tanta importância, respeito e beleza, referencia a nossa raça e cultura. Sônia Maria Menezes Pinto- VicePresidente e Relações Públicas da Associação de Mesquita – MESQUIART-RJ. Comprei a EPARREI, referente ao 1º semestre de 2004, gostei muito.Os artigos são diversificados e contém informações de grande importância. Há muito estava procurando uma revista, onde se discutisse os temas da comunidade negra, com profundidade. Parabéns! Vou ficar à espera do próximo número... Modjumbá Axé !!! Sara Fidélis da Silva - Arujá - SP A cada novo número, a revista se supera. Conteúdo, qualidade gráfica, tudo absolutamente primoroso! Dá orgulho, faz bem à auto-estima assinar uma publicação como a EPARREI. Parabéns! Maria Consuelo Cunha Campos –consuelo@alternex.com.br Sra. Alzira Rufino Redatora chefe da Revista Eparrei. Pouco sei do Movimento de

Agenda

Mulheres Negras, mas quero parabenizá-las pela beleza da revista. Acompanho o trabalho da professora Vanda Ferreira, já algum tempo. Penso que teria sido importante ressaltar que ela foi a segunda mulher negra a ocupar o cargo de Secretária de Estado, por ocasião que foi titular da Secretaria do Estado, Defesa e Promoção da População Negra. Atenciosamente, Ethel Engiel- RJ Queridas amigas!! Eu sou uma negra psicóloga cubana que fica interessada por todo trabalho que podem fazer. Eu estou aposentada, mas trabalho na direção da Sociedade Cubana de Psicologia.Tenho uma seção que trabalha tema deI DENTIDAES, DIVERSIDAD Y COMUNICACIÓN SOCIAL. Eu sou comunicadora, sempre trabalhei temas da Imagem da mulher na mídia. MEUS PARABÉNS POR TODO SEU TRABALHO. Um abrazo. Norma Rita Guillard- Cuba

Bom dia, Adorei as informações que recebi, muito grata. Parabéns pelo trabalho de vocês. Breve entrarei em contato para fazer a assinatura da revista. Adriana M Gregório Silva Coordenadora Fórum de Mulheres Negras - Brasília-DF

De: “Vereador Ricardo Maranhão” Assunto: LEI Nº 3629, de 28.08.2003 Data: 23/06/04 07:06 Aos Companheiros da REVISTA EPARREI

brinquedos, comidas típicas e shows. Informações: pretamultimidia@po p.com.br - (11) 9990.3796 (Bárbara) (11) 8112.3925 (Adriana)

X Simpósio Baiano de Pesquisadoras (es) sobre Mulher e Relações de Gênero

pesquisa e pesquisadoras (es) que lidam com a temática da mulher e relações de gênero no que se refere às configurações geracionais.

Data: 01 a 03/12/04 Local: Universidade Federal da Bahia

Informações e inscrições: http: //br.groups.yahoo.com/group/3setor

Data: 28 a 30 de Abril de 2005 Local: Luanda

Dentre os objetivos do evento estão os seguintes:

3a edição da Feira Preta abre espaço para novos expositores

Informações: E-mail: Lusophonafric a@codesria.sn

Articular um espaço de reflexão teórica e analítica que incentive o debate, intercâmbio e crescimento entre pesquisadoras (es) que desenvolvem estudos e pesquisas sobre mulher e relações de gênero na Bahia.

A 3a edição da Feira Preta vai acontecer no dia 28 de novembro, em São Paulo, e está aberta aos comerciantes de produtos voltados para a cultura negra. A Feira Preta agrega diversos elementos contemporâneos da cultura negra. Traz para o espaço público, informação, entretenimento, arte e apresenta novas tendências sócio-culturais. Moda, decoração,

Site: www.codesria.org

Promover uma articulação de âmbito regional entre os núcleos universitários, instituições de

Encaminho para conhecimento e solicitando dar ampla divulgação, a lei municipal nº 3629, de 28.08.2003, de minha iniciativa, que proíbe todas as formas de discriminação nos elevadores da Cidade do Rio de Janeiro Abraço fraterno, Ricardo Maranhão Líder PSB na Câmara RJ

Conferência sobre Lusofonia em África : História, democracia e integração africana

Seminário internacional: Saídas da Escravidão e Políticas Públicas Em dezembro, a UNESCO no Brasil, juntamente com diversos parceiros do poder executivo e legislativo, organizará o Seminário que visa

discutir como os países das Américas realizaram a abolição e as perspectivas atuais de implementação de políticas de igualdade no continente. Mais informações: Assessoria de Comunicação - UNESCO no Brasil ana.guimaraes@unesco. rg.br REUNIÃO DE BEIJING+10 - BEIJING +10: CSW: 49ª SESSÃO 28 DE FEVEREIRO A 11 DE MARÇO DE 2005 Revisão e avaliação da Declaração de Beijing e da Plataforma de Ação (1995) e do Documento do Resultado da 23ª Sessão Especial da Assembléia Geral (2000). Maiores informações: site www.fem inistasbeijing10.org.uy

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Tirando a Máscara

Léa Garcia

Janaína Barros Fotos: Oriwani

Coragem e perseverança são algumas das características da personalidade de Léa Garcia, atriz de teatro, cinema e televisão. Ao comemorar 53 anos de carreira, recebe o prêmio Kikito de melhor atriz, no Festival de Cinema de Gramado, no Rio Grande do Sul. Eparrei convida você a conhecer a trajetória da dama negra, sem maquilagem.

P

Aos 24 anos, concorreu ao “Leão de Ouro”, prêmio do Festival de Cannes, conquistando o segundo lugar.

das Três, a fim de conceder uma entrevista para Eparrei. Prefere fotos sem retoques. É Léa Garcia sem maquilagem.

Considerado como um dos prêmios mais importantes da crítica do cinema, uma retrospectiva na carreira da atriz, comprova que o sucesso no cinema nacional faz parte de sua trajetória: Recebeu em Paris homenagens pelos filmes Orfeu da Conceição e Bandeirantes, do cineasta francês Marcel Comus, ambos produzidos no Brasil, na década de sessenta.

A participação em Ladrões de Cinema, A Deusa Negra, Cruz e Souza e Ganga Zumba, recebeu elogios dos críticos. No filme Ganga Zumba, a personagem Cipriana, ao perceber que perderia o trono para Dandara, preferiu abandonar o grupo que fugia para Palmares, a ter que optar por viver na condição de segunda esposa do rei negro. Ficção e realidade às vezes se assemelham. A garra e a determinação da personagem Cipriana, também são características da personalidade de Léa Garcia na vida real. Glamour, charme e elegância são adjetivos perfeitos para descrever a atriz, que chega altiva para o Chá

Com emoção, retoma o tempo da infância. Relembra as dificuldades do pai, José dos Santos Garcia, bombeiro hidráulico, e da mãe Stella. O semblante se ilumina ao relembrar o talento e a estratégia de marketing da mãe, para mostrar suas criações. Dona Stella era uma auto – didata em moda, com seleta clientela na zona sul do Rio de Janeiro, e com suas mãos de fada, transformava o mais simples tecido em obra de arte. “A figura de minha mãe era muito bonita, muito elegante, tinha um charme incrível, eu gostaria muito de ter herdado isso dela. Minha mãe era uma mulher à frente de seu

roduzido pelo pesquisador e cineasta Joel Zito Araújo, o filme Filhas do Vento recebeu o prêmio Kikito em cinco categorias no Festival de Cinema de Gramado, dentre eles, o de melhor atriz para Léa Garcia. O roteiro de Di Moretti retrata a estória de duas irmãs, que se distanciam por conflitos na família. Léa interpreta o papel da irmã caçula, que optou por ficar cuidando da família.

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tempo. Criativa e com invejável bom gosto, ela me arrumava e saíamos para passear trajando seus modelos. Todos paravam para perguntar em qual boutique tínhamos comprado as roupas, e de imediato ela oferecia seus serviços. Era muito determinada” enfatiza Léa, com orgulho. Filha única, a perda da mãe aos onze anos de idade, veio modificar sua forma de encarar a vida. Ficou aos cuidados da avó Constança, “governanta” dos Godoy, uma tradicional família do Rio de Janeiro da década de quarenta. Criada como se fosse da família, teve uma infância de conforto, vivendo então em um mundo diferente do qual estava acostumada. Ao conhecer o jovem militante Abdias do Nascimento, a


garota mimada, que estudava no Colégio Amaro Cavalcante, tomou um novo rumo. Ela, que sonhava ser escritora, começou a faltar às aulas para acompanhar Abdias no Teatro Experimental do Negro, assistindo aos ensaios, e acompanhando as discussões. Para desespero do pai, da avó e dos Godoy, aos dezesseis anos de idade, abandonou o colégio e rendeu-se aos encantos do mundo artístico. O jovem Abdias apresenta-lhe um mundo diferente, com o qual não estava acostumada. Segundo ela, um mundo menos cor de rosa, porém, mais próximo da sua realidade. Ao responder sobre qual área prefere atuar, Léa se identifica mais com o teatro, pelo fato do primeiro contato com o mundo artístico, ter se concretizado no TEN-Teatro Experimental do Negro: “Ali, eu dei meus primeiros passos. O que sou hoje na vida profissional, agradeço ao TEM; não que as outras linguagens artísticas que participei não tenham sido importantes, mas realmente foi nesse grupo, que adquiri consciência com relação à situação dos afro - descendentes dentro da sociedade”, conclui.

Conceição, Casa Grande e Senzala, Cenas Carioca, Piaf e Romanceiro da Inconfidência, dentre outros. No elenco da peça Disse me Disse de José de Carvalho, a exemplo do TEN, coincidentemente o elenco também era formado por atores negros.

Em 1952, estreou no Teatro Recreio com o espetáculo Rapsódia Negra, escrito por Abdias, no qual recitava o poema Navio Negreiro de Castro Alves. Na seqüência, vieram sucessos como Orfeu da

“Se eu morresse e tivesse que nascer novamente, queria ser negra de novo. Eu acho que a mulher negra tem uma força muito grande dentro de si. Convivemos com as dificuldades, enfrentando

“Foi muito bom fazer aquela comédia. Estreamos na cidade de Santos, onde tivemos uma boa acolhida. O importante é que a proposta de um elenco formado só por atores negros, nos dava a oportunidade de trabalhar sem estarmos presos a uma rubrica que exige que o personagem seja negro. Nós provamos mais uma vez, que podemos fazer qualquer peça, de qualquer época e de qualquer autor”. Relata que por intermédio do TEN, teve a sua consciência despertada para agir na luta em defesa das questões raciais. Sua trajetória de militância política fez com que alunos do Guilford College, nos Estados Unidos, lhe rendessem a homenagem como uma das dez mulheres, que durante o século XX contribuíram para a luta pelos direitos humanos e civis no mundo.

Léa Mulher Negra

barreiras para cuidar da família, com uma fibra que geralmente poucas mulheres de outras raças possuem”, orgulha-se. Para ela, o Movimento de Mulheres Negras é fundamental para dar respaldo aos artistas. “O movimento é importante. Toda essa luta tem causado o despertar, a reconquista, a retomada. Precisamos conquistar o nosso espaço. Nós temos que ter esse sentimento de conquista, porque nada se consegue sem luta, nada nos é dado de graça”. Telespectadores do Brasil e do Exterior passaram a ser seus admiradores, em razão de grandes atuações, interpretando

personagens fortes em novelas que marcaram época, tais como: Os Ossos do Barão, Selva de Pedra, Escrava Isaura e Anjo Mau, recordes de audiência. “Representei a Rosa de Escrava Isaura, que era o segundo papel feminino de uma novela, e até hoje, se configura como a novela de maior sucesso internacional”, revela. Entretanto, é da novela Marina, que guarda boas recordações. Em 1981, viveu uma personagem criativa, que educava sozinha sua única filha. Culta e batalhadora, a personagem Leila, que lecionava história em uma escola de estudantes brancos da elite, tinha EPARREI 07


Léa Garcia

uma filha que era massacrada pelo preconceito racial: Quem não se recorda do sofrimento da professora, com a filha que negava a própria origem? “Foi durante esta novela, que vivi um dos momentos mais emocionantes de minha carreira. Durante uma das aulas, Leila dissertou sobre Zumbi dos Palmares, e a cena tinha por objetivo sensibilizar e fazer com que os alunos refletissem sobre o preconceito racial. Dei tudo de mim para passar essa mensagem com o máximo de dignidade e verdade. Na realidade, eu interferi na cena, e pedi para o autor fazer o recorte”. Além de participações em especiais e minisséries, foram cerca de vinte e cinco novelas, onde em apenas cinco, interpretava personagens escravas.

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Com tristeza, lamenta que ainda não existam grandes autores escrevendo bons papéis para negros.Bons roteiristas e diretores comprometidos não encontram oportunidades de trabalho. Indagada sobre a nova geração de atrizes negras, que hoje encontram oportunidade de trabalho, Léa faz uma comparação: “Algumas possuem um padrão de vida melhor, e seus pais talvez já batalharam um espaço na sociedade. Elas são filhas de enfermeiras, professoras... Nós, no entanto, as primeiras atrizes, éramos filhas de quem? De lavadeiras, empregadas domésticas... Nossas mães eram pessoas que ocupavam outra colocação na pirâmide sócio econômica. Entretanto, isto não impede que as mesmas sejam vítimas de preconceito e ainda enfrentem dificuldade para inserção no mercado das telenovelas”, esclarece. Com respeito à cota de 20% para atores negros nas novelas, a atriz não tem muita esperança: “Infelizmente, não são 20% para atores negros representarem bons personagens. É uma porcentagem na qual produtores e diretores colocam os artistas negros, interpretando o papel que querem e bem entendem”, desabafa. A entrevistada acredita que as leis do governo, de incentivo à cultura, ainda são paternalistas. Esclarece que a cara do Brasil não precisa ser mudada para que as coisas mudem. Acredita que se houvesse um comprometimento maior com a educação, com a saúde e com outros setores públicos que


Uma Dama Negra em Cena Rapsódia Negra ·1.952, autoria de Abdias do Nascimento, no Teatro Recreio, no Rio de Janeiro.O Filho Pródigo ·1.953, direção de Abdias do Nascimento, no Teatro São Paulo e Carlos Gomes.Festival Eugene O’Neill, em 1.954, no Teatro Dulcina, sob direção de Abdias do Nascimento, com os espetáculos: Onde está marcada a cruz O Imperador Jones Todos os Filhos de Deus têm asas Sortilégio (mistério negro) 1.956, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro sob direção de Abdias do Nascimento.Orfeu da Conceição 1.956, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, de autoria de Vinícius de Morais e direção de Léo Jusi.

Crime Roubado 1.974, no Teatro Galeria, de autoria e direção de João Bittencourt Para Mulheres que Pensaram em Suicídio 1.978, com direção de Hélida de Castro Brito. Cenas Cariocas 1983, direção de Aderbal Júnior. Piaf 1.983/1.984/1.985, sob direção de Flávio Rangel. Anjo Negro 1.994, de Nélson Rodrigues e direção de Ulysses Cruz Romeu e Julieta 1.995, musical com direção de Sérgio Britto e coreografia de Renato Vieira. Noites Negras (mixmemória) 1.996, com a Companhia Étnica de Dança e Teatro no Centro Cultural José Bonifácio, com direção de Carmem luz. Romanceiro da Inconfidência 2.000, na Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, de autoria de Cecília Meireles e direção de Wilma Dulcetti.Léa Garcia

Léa Garcia

encontram-se defasados, o país teria um futuro melhor. “O que precisa ser mudado, é o sentimento que se desenvolveu no país. Nós temos a nossa cara, só que essa cara não é mostrada, ela é maquiada, e é essa maquiagem que tem que ser removida”. Tirando a máscara, seja ela na vida real ou na arte, a charmosa dama negra segue em frente, resgatando sua auto - estima, sem mágoas. Engana-se quem acredita que Léa Garcia é uma pessoa triste. A tristeza do olhar esconde uma força interior, que procura relembrar apenas alegrias, utilizando a maquilagem apenas, para realçar o brilho de seu olhar.

Perdoa-me por me traíres 1.959, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, de autoria de Nélson Rodrigues e direção de Léo Jusi. A Invasão 1.964, no Teatro do Rio, sob direção de Léo Jusi Soraia Posto 2 1.964, autoria de Pedro Bloch e direção de Léo Jusi Os Construtores de Império (Les Betisseurs d’Empire) 1.970, no Teatro Maison de France, sob direção de Jacques Thirriot Casa Grande e Senzala 1.971, no Teatro de Arena, de autoria de Gilberto Freyre e direção de Luís Mendonça O Tesouro de Chica da Silva 1.972, de Antonio Callado

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Ações Afirmativas

Rio de Janeiro São Paulo O Sindicato dos Empregados no Comércio de São Paulo, o Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial (INSPIR) e a AFLCIO realizaram nos dias 17 e 18 de maio, o Seminário de Capacitação Sindical para Defesa e Implementação de Cláusulas para Promoção de Igualdade de Oportunidades à População Negra. O objetivo foi capacitar dirigentes sindicais, para introduzir cláusulas nos acordos e convenções coletivas de trabalho e promover a inclusão dos negros no comércio. Estiveram no evento 40 dirigentes sindicais de todo país, além de parlamentares, sociólogos e organizações que contribuem para a afirmação dessa causa. Após o Seminário, os participantes caminharam, num ‘Ato Afirmativo’, da Praça Ramos de Azevedo até a Praça do Patriarca e se concentraram em frente a uma das lojas da Camisaria Colombo. Essa empresa foi a primeira a firmar acordo com o Sindicato, estabelecendo uma cota de inclusão de 20% de funcionários negros em seus quadros. O presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio de São Paulo, Ricardo Patah, na ocasião, destacou a importância e urgência de inserir, de maneira justa e legal, o negro na relação capital-trabalho. “O fato de São Paulo ser a primeira cidade a adotar esse tipo de medida, tem de servir de exemplo para todo o País. Não queremos que isso fique restrito à cidade de São Paulo, daí a importância de cada sindicato saber e conhecer como incluir nas convenções coletivas esse tipo de cláusula,”afirmou. Paulo Lucania, presidente da Federação dos Empregados no Comércio do Estado de São Paulo, acredita que mais de 60 sindicatos que integram o órgão, poderão aderir ao projeto:”Vamos tentar adotar cotas de emprego para negros em todo o Estado de São Paulo”, garantiu.

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A Procuradoria Geral do Estado do RJ instituiu cotas para estagiários afro - descendentes e deficientes físicos. Por este sistema, a Procuradoria do Estado passa a reservar 20% das vagas para afro - descendentes e 5% para pessoas com deficiência física.A medida visa promover futuramente o ingresso de juristas negros e deficientes à carreira de Procurador.

Aprovada emenda que protege cultos afros No dia 29 de junho, os afro-religiosos do Rio Grande do Sul lotaram as galerias da Assembléia Legislativa do Estado para presenciar a votação do Projeto de Lei nº 282/2003, de autoria do deputado Edson Portilho (PT), que adiciona à Lei 11.915/2002 (Código Estadual de Proteção aos Animais), do deputado Manoel Maria (PTB), um parágrafo único ressalvando os ritos das religiões de Matriz Africana das sanções da lei. O Código, entre outras medidas, proíbe ações que configurem maus-tratos e agressões aos animais domésticos ou selvagens. Para a Iyalòrisà Norinha de Osalà, presidente do Cdrab (Congregação de Defesa das Religiões Afrobrasileiras), o verdadeiro objetivo desta Lei é coibir a realização dos cultos de origem africana. “Isso sempre ficou claro, pois a primeira proposição do deputado, que proibia sacrifícios de animais, falava claramente em cultos religiosos”, afirma ela. As religiões de Matriz Africana não admitem agressões aos animais ou à natureza, mas os religiosos temem que alguns juristas interpretem o sacrifício de animais nos cultos como tal. Eles também denunciam que outras leis também foram usadas como forma de pressão aos Terreiros, como a Lei do Silêncio, que regulamenta a emissão de som na zona


urbana. “Diversas Casas de Religião Africana já foram fechadas devido ao uso do tambor”, denuncia o Babalorisà Dyba de Yemanjá, vice-presidente do Cdrab.

Passeata O apoio dos africanistas à votação do projeto foi fundamental. Graças à pressão do povo “de religião” e da luta de parlamentares como o autor da emenda Edson Portilho e a deputada Jussara Cony, o projeto foi apreciado. Foram 33 votos favoráveis e apenas 2 contrários. A bancada do PL foi a única que se declarou contrária a votação. Como a maioria dos deputados do PL são evangélicos e, portanto, contrários à imolação de animais, posicionaram-se contra a emenda. O deputado autor do Código, Manoel Maria, estava no PL quando fez a proposição da Lei 11.915/2002. Após a vitória, os africanistas comemoraram com muita alegria e fraternidade, abraçando-se e cantando para seus Orixás. Como já se tornou tradição nas manifestações da comunidade afro-religiosa gaúcha, todos saíram em passeata pelas ruas da capital até a praça em frente ao Mercado Público de Porto Alegre, local de encontro dos africanistas. Lá fizeram suas homenagens aos Orixás, com toques de tambor, adjás e agês, trajando suas roupas e insígnias sagradas, os axós. E como não podia deixar de ser, o Povo de Santo foi ao centro do Mercado reverenciar e agradecer ao Orixá mais tradicional da capital: Bará Esù, cuja entronização centenária no local faz parte da história da comunidade africana do Estado. *Vanessa Efunpàdé Martins - jornalista (MTB 11584) e coordenadora-geral do Egbé Òrun-Àiyé/RS egbers@bol.com.br http://geocities.yahoo.com.br/matrizafro

Reforma universitária ganha cooperação de movimentos sociais Em São Paulo, dezoito representantes de entidades sociais e sindicais assinaram em 17 de outubro, um protocolo de cooperação para a redação final do anteprojeto de Lei da Reforma da Educação Superior. Eles foram recebidos pelo ministro da Educação, Tarso Genro. “A reforma da Universidade Pública não pode ser feita sem a academia,

mas não pode ser feita só com a academia. Se a sociedade não participa, a reforma pode revelar distorções corporativas e ser em vão”, disse o ministro. Tarso Genro estimou que o documento produzido será remetido ao Presidente Lula, para que ele decida se deve ser enviado ao Congresso ou se as discussões devem se prolongar até janeiro de 2005, explicou. Na última semana de outubro, o ministro foi ao Senado, para falar sobre a política do Governo Federal de cotas para afrodescendentes e indígenas nas Universidades Públicas. De acordo com o ministro, cerca de 60 a 70 mil alunos que fizeram o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) deste ano, devem estudar gratuitamente em universidades particulares já em 2005, como desdobramento do Programa Universidade para Todos (PROUNI). O programa foi instituído em setembro deste ano, por medida provisória. Participaram do encontro, representantes da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Força Sindical, Confederação da Central Geral dos Trabalhadores (CGT), Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB), Central Autônoma de Trabalhadores (CAT), Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN), Social Democracia Sindical (SDS) e PréVestibular de Negros e Carentes (PVNC), do Rio de Janeiro. Fonte: Agência Brasil

Universidades debatem Políticas Afirmativas A Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (SESU/MEC) reuniu nos dias 28 e 29 de outubro de 2004, coordenadores de núcleos de estudos afro-brasileiros, para fornecer subsídios à formulação de políticas de ações afirmativas para as universidades públicas brasileiras. Ao todo, 30 universidades brasileiras possuem centros ou núcleos de estudos afro-brasileiros. Delas, 11 são Universidades Estaduais, 16 Federais, e 3 privadas. Treze universidades já implantaram políticas de ação afirmativa: Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ); Universidade Estadual da Bahia UNEB); Universidade Estadual de Londrina (UEL); Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul (UEMS); Universidade Federal da Bahia FBA);Universidade Federal do Paraná (UFPR); Universidade Federal de Alagoas(UFAL); Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP); Universidade de Brasília (UNB);Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG); Universidade do Norte Fluminense (UENF); Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF); e Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Fonte: repórter TV Pajuçara - Brasília Jornalista - UFAL

Ações Afirmativas EPARREI 11


Daniela Gomes

Caldeirão Cultural Jovens da Guiné Bissau e de outros países africanos de língua portuguesa vêm ao Brasil para estudar nas instituições de ensino superior, tendo de se adaptar a uma nova cultura

O impacto da chegada! Arroz, salada e frango, tudo organizado em uma única travessa, mãos diferentes seguram colheres representando as pessoas que fazem parte do cenário. Após acomodar-se no chão, o único requisito para apreciar o prato da casa é ter espírito esportivo e juntar-se aos outros para comer. O que para muitos pode aparentar falta de higiene ou até mesmo ser o símbolo de uma cultura com hábitos primitivos, para os jovens estudantes da comunidade guineense em São Paulo é, apenas, mais uma maneira de matar as saudades de casa e relembrar o companheirismo típico de sua gente. Na história da humanidade é mais do que comum a saída de casa para vivenciar outras culturas. Até mesmo na bíblia, livro que guia um grande número de fiéis no mundo, há relatos como o de Abraão que para obedecer a Deus, teve que sair da casa dos pais e ir viver em um país estrangeiro, muitas vezes essa distância é o único modo de se concretizar um sonho. Localizada na parte ocidental do continente africano, a GuinéBissau possui cerca de um milhão e meio de habitantes e foi colônia 12 EPARREI

portuguesa até 1973. Aprendendo aos poucos a construir sua democracia, nos últimos 30 anos o país sofreu três golpes de Estado. Uma das conseqüências dessa independência tardia e instabilidade política é claramente visto no ensino superior do país. Há ainda hoje uma ausência de cursos de graduação, por isso uma das saídas para os jovens é o intercâmbio cultural. Desde 1976 o Brasil recebe estudantes da Guiné–Bissau que procuram fazer um curso superior. Bolsas de estudos são concedidas pelo governo brasileiro por meio de programas próprios para esses jovens. A parceria tem dado certo, já que nos últimos três anos, segundo o cônsul honorário em Campinas Therno Ndjai, uma média de 300 jovens guineenses têm vindo cursar uma universidade no país. Espalhados por toda a extensão territorial brasileira, esses jovens atravessam o oceano muitas vezes assim que acabam de completar 18 anos, sem saber exatamente se vão encontrar alguém conhecido e como vão se adaptar. A mudança para o Brasil, mais do que uma

viagem para o exterior, é um passaporte para a vida adulta. Por mais receptivo que o PEC-G, convênio de graduação mantido pelo governo brasileiro, possa parecer, a adaptação na maioria das vezes é difícil, a saudade de casa aperta e as culturas entram em choque. Dos cerca de 2700 estudantes conveniados pelo governo brasileiro, mais de 300 são da Guiné, sendo que 40 estão espalhados nas 12 Instituições de Ensino Superior, participantes do projeto no Estado de São Paulo. As vantagens de ser um estudante conveniado, como a liberação do vestibular e a facilidade da bolsa de estudos é contrabalançada com os inúmeros deveres que esses jovens têm. Além de não poder exercer atividade remunerada, eles não conseguem transferência para outra faculdade de modo fácil e são raros os que fazem o curso que querem, já que não são eles que escolhem. Jeito de menina, sorriso meigo e olhar melancólico quando fala dos pais, Eugênia Djumpé, 20 anos, chegou há oito meses e está estudando pedagogia na PUC-SP. Passou pela experiência dolorosa de sair de casa pela primeira vez, para vir ao Brasil e só voltar depois de formada. “Sou a única pessoa da minha família, até hoje, que saiu do país para fazer uma faculdade e, mesmo sabendo desde a adolescência que eu ia estudar no exterior, a

primeira coisa que pensei quando desembarquei no Brasil, foi em conseguir uma passagem e voltar correndo para casa.” Com a intenção de amenizar essa perda que a viagem proporciona e auxiliar na adaptação dos calouros, os estudantes guineenses em São Paulo criaram em 2001 a AEGESPB (Associação dos estudantes guineenses do estado de São Paulo – Brasil), que visa receber os novatos e oferecer-lhes a recepção calorosa que muitas vezes não tiveram.

A recepção Mais de sete horas dentro de um avião, desembarcar em um país desconhecido e pegar sem saber um táxi para rodar aproximadamente quatrocentos quilômetros, gastando tudo o que se trouxe na carteira. Imaginar essa cena talvez seja a única maneira possível de visualizar essa chegada decepcionante ao Brasil. A história é real e aconteceu quando um estudante guineense que deveria ir para São Carlos, achou que ficava próximo à Capital. Pegou um táxi no aeroporto de Cumbica em Guarulhos e foi até a cidade, gastando todas as suas economias no transporte. Contada pela ex-presidente da Associação, Milene Gomes, a história desse guineense, segundo Milene, foi um marco para que a comunidade percebesse a necessidade da


Caldeirão Cultural recepção dos calouros. “Ele ficou tão traumatizado com a situação, que não conseguiu aproveitar o intercâmbio e nem conhecer o Brasil. Só saiu da cidade, no momento em que deveria retornar à África”, afirma Milene. A entidade é responsável pela organização de eventos, que visam integrar os guineenses, outras comunidades africanas e os universitários brasileiros, com os quais convivem diariamente. Como meio de integração e comunicação, a associação criou um boletim informativo anual, que é distribuído na semana da independência da Guiné em setembro. O boletim traz informações sobre o país, tem um espaço cultural destinado a poesias e conta também, um pouco do trabalho da associação no intervalo entre as reuniões.

mãe não tem condições de criar suas crianças, elas ficam com outras pessoas. Ninguém está na rua porque não tem para onde ir!” Rui Banca, 24 anos, é um dos primeiros guineenses dessa nova geração a vir para o Brasil. Chegou em 98 e diz estar sem planos de voltar. Terminou a faculdade e já iniciou a pós-graduação, mas apesar de adorar o Brasil, Rui ainda se incomoda com a individualidade do dia-a-dia em São Paulo. “O paulistano é tão ligado nas coisas materiais, que ele perdeu a essência do ser humano, chega a ser falso. As pessoas não se valorizam pelo que são e se importam com a cor da pele. Eu converso com alguém hoje e acho que ele é meu amigo, mas amanhã ele já faz alguma coisa contra mim, é muito difícil!”

A decepção!

Conhecida entre seus conterrâneos mais jovens como tia Aldina, a Dra. Aldina Rendal veio para o Brasil para estudar e está no país há 26 anos, trabalhando como médica no ambulatório da PUC-SP. “Na maioria das vezes, eles me vêem como a mãe que está ausente. Pedem conselhos e acabam sendo tratados por mim, já que a grande maioria não têm plano de saúde e depende dos hospitais públicos.” Questionada sobre os principais problemas enfrentados pelos estudantes, a doutora coloca como pontos principais: a exploração que

Alegria, amizade e companheirismo, sentimentos positivos como esses entram em choque, tornando os estudantes sensíveis a alguns fatores da cultura brasileira, como a miséria e a falta de solidariedade. Eles explicam que “na Guiné a comida é sagrada, ninguém precisa passar fome, todo mundo é pobre, mas essa pobreza não é visível, é fruto das condições do país, que está se ajustando. Se alguém não tem condições de comer, os vizinhos ajudam. Se a

sofrem em relação ao valor dos aluguéis, a impossibilidade de trabalhar, já que o programa não permite atividade remunerada, a falta de ajuda por parte do Governo Guineense, a discriminação racial, e o desrespeito do brasileiro em relação aos mais velhos. Mesmo com toda a distância de casa e com a decepção causada pelo choque cultural, a doutora afirma não serem muitos os casos de uso de drogas e álcool e que a maioria dos jovens cumpre com o objetivo que os trouxe aqui e leva os estudos a sério. “Estudar no exterior é uma experiência extremamente importante para formar a identidade do jovem, auxilia o crescimento e a maturidade”, garante a médica que, após 26 anos de “intercâmbio”, vive hoje a situação inversa, pois suas filhas estão estudando fora do país.

Ser guineense no Brasil Passado o primeiro impacto, a vida no Brasil é a mais intensa possível, aproveitando cada momento para gravar na memória e no coração todas as novidades que chegam até eles. A aparência de rapaz jovem e tímido esconde perfeitamente o temperamento alegre de Abulai Sisse. Aos 26 anos, Abulai é estudante de direito

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Caldeirão Cultural 14 EPARREI

na Universidade de São Paulo e, mesmo já fazendo faculdade na Guiné, não hesitou em largar tudo para vir para o Brasil, quando teve a oportunidade. A paixão do jovem pelo país começou muito antes de planejar a viagem, pois admirava o português brasileiro, que conheceu através das telenovelas transmitidas em seu país. Mesmo assim, afirma que só agora está mais livre da saudade de casa. A melhor lembrança de sua chegada ao Brasil é a imagem da cidade de São Paulo vista do alto: “São Paulo é uma extensão de luzes!”, exclama o estudante. Já a Dra. Aldina diz que não pretende mais voltar, considera-se vinte por cento portuguesa e oitenta por cento guineense e brasileira: “Hoje eu sou também muito brasileira, construí minha vida aqui, já não penso mais em voltar!”. Bonita, risonha e tratando todo mundo como irmão, Milene Gomes, que descende de políticos influentes em Bissau, quando voltar, gostaria de levar na mala como símbolo de sua permanência no Brasil, o anonimato: “Aqui eu posso ser eu mesma, sem me preocupar em ser exemplo para ninguém”. Mesmo gostando do Brasil, todas as maneiras de manter a tradição são válidas e assim diversas atividades são desenvolvidas pela comunidade, como as conversas permanentes em dialeto crioulo,

que são uma maneira própria e interessante de comunicação. Formado a partir de uma mistura do português, com línguas africanas nativas, mesmo que a língua oficial seja o português, grande parte da população da Guiné–Bissau, só conversa em crioulo, dialeto mais falado no país. Com obrigações escolares, diferenças culturais, sem poder manifestar nenhum envolvimento com a questão política no Brasil e sem poder trabalhar, a comunidade guineense aproveita o pouco tempo livre, para se reunir, discutir os problemas locais e as notícias de seu país, mas mesmo durante o debate de temas sérios, o principal atrativo dessas reuniões são a música e a dança.

“E vai rolar a festa...” Um convite solene convocando a todos para o jantar e baile de gala, a observação é clara quanto ao traje: “social”. É hora de tirar do guardaroupa aquele vestido ou terno, usados para datas comemorativas. O sabor apimentado caracteriza a boa comida guineense, bebidas à vontade e muita dança são os principais atrativos da festa, que reúne grande parte dos “filhos da língua portuguesa”. Brasileiros, cabo-verdianos, angolanos, moçambicanos e, claro, guineenses

fazem parte do cenário daqueles que sorriem e conversam ao mesmo tempo. A festa é promovida pela associação, como forma de manter e valorizar a cultura. Ao som de cantores cabo - verdianos e guineenses, todos dançam o embalante zouk, ritmo caribenho com letras que quase sempre falam de amor. Dançando de rosto colado, como na época das antigas “lentas” dos anos oitenta, casais se formam na pista, sem que se tenha obrigatoriamente algum envolvimento amoroso. A letra da música conta a história de um homem condenado a prisão perpétua do amor, escravo do olhar e das maneiras da amada. Prisão Perpétua é o nome de uma das letras do cantor cabo-verdiano Philipe Monteiro, um grande astro da música popular de Cabo Verde. Outro ritmo que embala a festa é o kuduros. Parecendo muito o funk carioca, as letras falam de festas e da beleza da mulher africana, sendo dançado com uma sensualidade inocente, por toda a família. As letras, todas cantadas em crioulo, transportam não só os guineenses, mas também todos que as ouvem, para um outro mundo, onde quem dita as regras são a amizade, alegria e o amor. Artigo semelhante publicado em Jornalismo em Ação Ano V nº48 da Universidade Metodista da mesma autora.


Seção Mulher

I Conferência Nacional sobre Políticas Públicas para Mulheres

Era lilás e rosa a cor de Brasília em julho de 2004. Era feminina a voz que bradava por igualdade, educação, segurança, saúde, dentre outros temas. Foram mais de duas mil e quinhentas mulheres de todo o Brasil a se reunirem para, em conferência histórica, discutir os novos rumos da política para mulheres. A representatividade das mulheres negras foi algo impressionante. Éramos 47% das mulheres presentes. Levamos nossa cara e nossas reivindicações para o mais alto patamar de discussão e muitas vitórias foram conquistadas.

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I Conferência Nacional de Políticas Públicas para Mulheres, realizada em Brasília de 15 a 17 de julho, teve como tema central “Políticas para as Mulheres: Um Desafio para a Igualdade numa Perspectiva de Gênero”. O evento foi realizado pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres e pelo Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, através de parcerias, e teve como objetivo principal, desenvolver subsídios e propor diretrizes para a elaboração do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, a ser trabalhado por um Grupo Interministerial. A Conferência Nacional foi sendo articulada, a partir de reuniões preparatórias municipais e regionais, que aglutinaram em todo o território nacional, mais de cem mil mulheres de dois mil e quinhentos municípios. Foram apresentadas mais de quatro mil propostas e reivindicações. Participaram da conferência, organizações governamentais de âmbito federal, estadual e municipal, organizações não-governamentais, bem como duas mil e quinhentas mulheres integrantes do movimento feminista, de sindicatos, afro-descendentes, indígenas, jovens, idosas, lésbicas, enfim, mulheres de todas as raças e crenças, todas unidas pelo bem comum. Dentre os eixos de discussão presentes nos grupos de trabalho, destacouse o enfrentamento da pobreza, a superação da violência contra a mulher, a promoção da qualidade de vida e a efetivação dos direitos humanos em defesa da mulher. Na discussão sobre educação para igualdade, foram contemplados o desenvolvimento de políticas de educação, cultura, comunicação e produção do conhecimento, livres de discriminação de gênero. As temáticas que reuniram o maior número de propostas e participantes foram as que criavam condições e situações para a legalização do aborto no país, além de que propor a revisão e o aprimoramento da legislação que pune os crimes de violência doméstica contra a mulher.

Aliança Afro-Indígena Um ponto importante da Conferência foi o pacto firmado entre mulheres negras e indígenas. Foi redigido um documento que formalizou a criação do vínculo de parentesco. Essa aliança tem por objetivo lutar articuladamente nas questões de gênero, raça e etnia. Além da grande delegação de mulheres indígenas, que já haviam realizado uma conferência nacional, cerca de 47% das delegadas presentes na conferência, eram mulheres negras, que participaram dos painéis e atuaram como coordenadoras, relatoras ou como delegadas atuando em todos os grupos. Leia a carta de parentesco na íntegra. Aliança de Parentesco por determinação das mulheres negras e indígenas Nós mulheres, índias e negras, reunidas na primeira Conferência Nacional de Políticas Públicas para as Mulheres, realizada de 15 a 17 de julho de 2004, em Brasília - DF, selamos uma aliança de parentesco: - considerando a semelhança da opressão sofrida pelos povos indígenas e afrodescendentes, em especial as mulheres;- considerando o estupro colonial perpetrado contra índias e negras;- considerando a espoliação e expropriação das terras, das culturas, dos saberes dos povos;considerando a perpetuação da exclusão histórica desses povos desde o término colonial até os nossos dias, que vitima especialmente as mulheres, distorcendo e desvalorizando suas imagens;- considerando a necessidade da reparação que o Estado Brasileiro tem para com esses povos em geral e as mulheres em particular; Decidimos: Firmar o nosso parentesco através de uma aliança política, na busca conjunta da superação das desigualdades econômicas, políticas, culturais e de poder; EPARREI 15


sustentar a estrutura para uma campanha eleitoral”, afirma Deise Benedito, coordenadora do Fórum Nacional de Mulheres Negras. Para não ter conotação discriminatória, optou-se pela alteração do texto, com a supressão dos termos ‘negra e indígena’ da proposta, substituindose pela expressão “mulheres de baixa renda”.

Participação Internacional

Firmar uma aliança estratégica, para a conquista da igualdade de oportunidade para as mulheres índias e negras na sociedade brasileira; Firmar uma aliança estratégica que dê visibilidade a índias e negras como sujeitos de direito; Doravante índias e negras consideram-se parentes.

Saúde e Educação Os movimentos sociais articularam-se repudiando a intenção do Governo, de desvincular do orçamento, as despesas com saúde e educação. É de suma importância, que o movimento social possa garantir essa reivindicação, para tanto, assine o manifesto, entrando em contato com o Fórum Brasil Orçamento:fbo@cfemea.org.br

Aborto

A participação de países como Angola, Portugal, Cuba, México e Equador mostrou as semelhanças dos desafios a serem enfrentados por governo e sociedade de todo o mundo. Problemas como igualdade de oportunidades de emprego, paternidade compartilhada e violência são alguns pontos em comum das mulheres. Em Cuba, os principais problemas estão voltados para a inclusão no mercado de trabalho e no ingresso nas universidades. Mas as cubanas já conseguiram reverter este quadro. Segundo a Deputada da Assembléia Nacional de Cuba, Nerida Quintero Martinez, a partir de 1956, as mulheres passaram a reger sua própria vida. A presidente da Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres de Portugal, Maria Amélia Paiva, disse que um dos graves problemas em seu país é a discriminação vinculada à violência, como o tráfico para fins de exploração sexual e a violência doméstica. Relata que a maneira encontrada para enfrentar os problemas relacionados à violência só obteve sucesso a partir da mudança na legislação. O analfabetismo é o principal problema em Angola. Cândida Celeste da Silva, a ministra da Família e Promoção da Mulher de Angola, afirma que os 30 anos de guerra prejudicaram muito o desenvolvimento intelectual da população, em especial do homem. “Em Angola a mulher é muito participante porque, durante a guerra, os homens foram impedidos de aumentar o nível de escolaridade por se encontrarem nas frentes de combate”. Porém, apesar da diferença, no pós-guerra o Governo pôde identificar que 80% das mulheres eram analfabetas

A recomendação para a que a legislação seja revista, no que diz respeito à descriminalização e legalização do aborto, com garantia de atendimento humanizado pelos serviços públicos de saúde, foi aprovada por maioria em todos os grupos dos eixos ligados à efetivação dos direitos das mulheres e à saúde, e na plenária final. Para isso, foi intensa a articulação e a mobilização do movimento de mulheres. A recomendação foi encaminhada (juntamente com as demais diretrizes) para o Grupo de Trabalho Interministerial responsável pela elaboração do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres.

Lesbianidade O movimento de mulheres lésbicas articulou-se com as negras e indígenas, tornando-se um dos mais mobilizados nesta Conferência de Políticas para Mulheres. As reuniões organizadas por iniciativa da Liga Brasileira de Lésbicas/Sul serviram na articulação de todos as demais Regionais, dando enfoque às propostas do movimento para a Conferência. Em relação ao aborto, as lésbicas somaram-se às muitas delegadas, que ressaltaram a autonomia das mulheres, como princípio para diretrizes de políticas de gênero.

Fundo Monetário para Campanhas de Mulheres Negras e Indígenas Umas das principais reivindicações das mulheres negras e indígenas, durante a Conferência, foi a criação de um Fundo Nacional Eleitoral para sustentar a campanha eleitoral de mulheres de baixa renda. O fundo seria composto por 1,5% dos recursos arrecadados com prêmios das loterias da Caixa Econômica Federal. O gerenciamento ficaria sob a responsabilidade da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres e do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. “Se a cada semana tivermos um prêmio de 23 milhões de reais, serão 230 mil reais para as campanhas das negras e indígenas, que na maioria das vezes recebem apoio para lançar a candidatura, mas não possuem condições financeiras de 16 EPARREI

Ministra Nilceia Freire

Agora é Lei Lei 10.886, de 17 de junho de 2004Art. 129 do Código Penal: Violência Doméstica. § 9º - Se a lesão for praticada contra ascendente, descendente, irmão, cônjuge ou companheiro, ou com quem conviva ou tenha convivido, ou, ainda, prevalecendo-se o agente das relações domésticas, de coabitação ou de hospitalidade: Pena: detenção, de 6 (seis) meses a 1 (um) ano. § 10 - Nos casos previstos nos §§ 1º a 3º deste artigo, se as circunstâncias são as indicadas no § 9º deste artigo, aumenta-se a pena em 1/3 (um terço). Cobertura da Conferência em Brasília: Equipe Eparrei On Line. Dayane dos Santos , Eliane Almeida e Urivani de Carvalho.


Textos e Fotos de Isabel Clavelin

Atleta de Ouro

Daiane dos Santos Brilho e superação na história mundial do esporte

G

ritos e aplausos animados anunciam a tão esperada apresentação da ginasta Daiane dos Santos. Pais e filhos se aglomeram em cima de cadeiras, escadas e arquibancas para não perderem um segundo, dos saltos hipnotizantes da gigante Daiane. Trata-se da Copa Escolar Daiane dos Santos, que reuniu cerca de 1.600 aspirantes a ginasta, na data de 9 de outubro, no Ginásio de Esportes da PUC, em Porto Alegre. Com a mesma maestria que seduziu o mundo, a atleta encanta com a sua performance. Cada salto arranca da platéia elogios e sorrisos. Afinal, todos ficam

embevecidos ao assistir, ao vivo, a exibição da campeã Daiane, que conquistou o quinto lugar na ginástica durante as Olimpíadas de Atenas, na Grécia, apenas dois meses após estar recuperada de uma cirurgia no joelho. Entre as medalhas, Daiane dos Santos ostenta as de ouro: na etapa alemã da Copa do Mundo de Ginástica, em Cottbus; no Mundial de Anaheim (Califórnia/ Estados Unidos); na etapa da Copa do Mundo de Stuttgart, também na Alemanha; e no exercício de solo, na etapa brasileira da Copa do Mundo de Ginástica Olímpica, realizada no Rio de Janeiro. Em

2003, a ginasta gaúcha foi eleita pelo COB (Comitê Olímpico Brasileiro), a melhor atleta. Além das premiações, o nome Daiane dos Santos está eternizado no elemento “duplo twist carpado”, apresentado oficialmente no Mundial de Ginástica Artística realizado em Anaheim, na Califórnia. O movimento, que foi batizado como “Dos Santos”, foi incorporado ao código de pontuação da modalidade da FIG (Federação Internacional de Ginástica). Ao final da apresentação na terra natal, Daiane dos Santos é escoltada por seguranças para trocar o colant. É neste momento,

que Eparrei conseguiu burlar o acesso restrito e conversar com a mãe da esportista, Magda dos Santos. Orgulhosa do reconhecimento mundial conquistado pela filha, Magda lembra o início no esporte aos onze anos, idade considerada avançada para a ginástica olímpica. “Ela iniciou numa copa como essa. Mas desde os três anos de idade já fazia acrobacias. Tinha os joelhos marcados e as mãos calejadas de tanto fazer estrelinha. Em vez de Daiane caminhar, andava com os pés na cabeça”, recorda. Sempre contando com o apoio da família, Daiane dos Santos pôde EPARREI 17


Daiane dos Santos dedicar-se ao esporte. A mãe é funcionária pública municipal e o pai, estadual. “Para nós da família, é uma honra ter uma filha que possa ser símbolo de garra, perseverança e luta. Aliás, ela teve muita luta, da discriminação racial à financeira. Mas tudo isso conseguiu vencer. Ela tem o talento e pode deslanchar. Conseguiu desmistificar a ginástica. O mundo conhece a ginástica brasileira graças a uma ginasta negra”, afirma. Fã número um, a família se desdobrou para dar condições à jovem. “Fizemos muita vaquinha e vendemos muita rifa, para que Daiane fosse às competições e para que alguém da família pudesse acompanhar. Nós sabíamos que existia o talento, mas ele precisava ser lapidado. Hoje estamos colhendo os louros disso. O nome dela está na história”, conta. Atenta à carreira da filha, Magda

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considera que a família deva estar por perto, garantindo os interesses e negócios da atleta. “Mesmo Daiane sendo maior de idade, o atleta é mais inocente. Por que o Garrincha fez tanto contratos errados? É preciso ter alguém que releia os contratos e veja se é certo”, aponta. Com consciência e atitude, Magda e Moacir dos Santos dão a base da negritude para a atleta. “Nós sempre dissemos para ela: Daiane quando cair, sorria. Temos que estar na ginástica, na música erudita, no ballet. Temos que conquistar todos os lugares. Somos inteligentíssimos. Temos que acabar com o preconceito. Somos o todo desse Brasil”, reflete. A mãe da ginasta avalia que o sucesso de Daiane se expandiu para outros atletas: “ela é a primeira ginasta negra. E isso abriu, graças a Deus, as portas para muitos atletas negros. Vemos o negro ousar. Nós podemos tudo”.

Depois de muita conversa com a mãe, Eparrei consegue falar rapidamente com a estrela. Jovem, negra e símbolo nacional, a atleta diz: “me sinto bem em ser um bom exemplo. É bom quando tu fazes uma coisa boa para o teu país. Sempre é bom”. Dividida entre fotos e pedidos de autógrafos das fãs mirins, Daiane lê um contrato, que o advogado lhe encaminhou. A mãe faz algumas perguntas ao assessor e a jovem assina o documento. De olho no futuro, Daiane dos Santos cursa o quarto período da Faculdade de Educação Física, em Curitiba, cidade onde a seleção brasileira de ginástica olímpica vive. A formatura está prevista para daqui a dois anos, mas Daiane já faz planos: “quero trabalhar com crianças especiais”. Fotos: Clavelin e Brasil Telecom


A transformação do desejo de toda uma vida em realidade. Essa é a explicação para o trabalho desenvolvido por Inaicyra Falcão, ao longo dos anos. Vivenciando a cultura afro, desde que nasceu, a professora do Departamento de Artes Corporais da Unicamp se considera uma pessoa privilegiada.

As várias faces de

Inaicyra Falcão A Herança

Tradição Oral e os Orikis

Representante do renomado Ilê Axé Opô Afonjá, Inaicyra pertence à sexta geração da família Axipá, uma das tradições mais conceituadas do candomblé baiano. A idéia de integrar o canto religioso e a dança com elementos de outras culturas, surgiu ao longo dos anos. “Desde criança costumava ficar observando, os gestos do corpo, as danças, as histórias que contavam. E é esse imaginário que foi permeando toda a minha memória”.

A tradição oral Yorubá foi mantida através dos Orikis, narrativas e cantos que proclamam a mística dos orixás e dos ancestrais e que são passados de geração a geração. Essa tradição possibilitou a identificação da família da pesquisadora, pela família real, através da religião “Meu pai, ao chegar em Keto recitou o Oriki. Puderam verificar que lá também tinham pessoas daquela mesma linhagem”

Marcelina da Silva sua antepassada paterna, tinha por origem a Cidade Cociku na Nigéria. Trazida para o Brasil como escrava , pôde retornar para a África ao conseguir sua alforria. Deixou um testamento, citando uma filha que havia ficado no Brasil. Dessa forma foi possível chegar até as gerações mais próximas de Inaicyra; como Mãe Senhora e Mestre Didi, artista plástico e pai da pesquisadora. Através da história oral, foi possível identificar a linhagem nobre de Marcelina, uma das famílias fundadoras do Keto. Segundo Inaicyra,o Keto surgiu a partir da divisão do reinado de Cociku, onde uma parte ficou na Nigéria e a outra metade na República do Benin, local onde hoje vivem os consangüíneos de Inaicyra.

Inaicyra narra que desde criança costumava observar as festas, a preparação dos pratos e as danças e que quando chegava em casa imitava tudo. Em casa contava com outro exemplo forte, o pai Mestre Didi que sempre a deixava ajudar na criação de suas esculturas. Ele era um estudioso da tradição yorubá e guardava discos e livros sobre essa cultura. “Eu ficava ali escutando o que ele falava, os contos, enquanto escrevia os livros de história, ouvia os discos e também dançava muito”. À medida que crescia desenvolveu habilidades para o canto e a dança.

História e Tradição EPARREI 19


Inaicyra Falcão Mesmo tendo certeza de sua paixão pela arte e de sua devoção aos ancestrais, algumas dúvidas pairavam na mente de Inaicyra. Como somar sua herança familiar, sua espiritualidade e seu dom para a arte? Ao mesmo tempo a lembrança de uma frase dita pela mãe se tornou um mandamento e também teve forte peso sobre as escolhas de Inaicyra. “Minha mãe botava na nossa cabeça que tínhamos que estudar, pois essa seria nossa arma mais eficaz na sociedade”. Com essa premissa na mente, o primeiro passo de Inaicyra foi a escolha do curso universitário. Optou por dança na Universidade Federal da Bahia e fez especialização em interpretação. Ao terminar o curso, Inaicyra descobriu o que desejava para si e pode constatar que muito mais do que uma tradição, a cultura, a mítica e a poesia das religiões afro eram sim uma forma de arte digna de admiração e que estavam esquecidas nos porões dos navios,

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juntos com todas as memórias de seus antepassados. Ao estudar a dança a pesquisadora percebeu que o excesso de teoria fazia com que a poesia presente na dança fosse deixada de lado. Tudo era visto como folclore e só danças aculturadas eram valorizadas no meio acadêmico. Em uma viagem aos Estados Unidos a professora diz perceber que os rótulos que identificam o tipo de dança, nada mais são do que uma questão de ponto de vista. Segundo afirma “É a maneira como cada um vê a sua própria história”. E nesse exato momento um estalo faz como que ela encontre um rumo. “Eu pensava que também queria dançar os mitos, eu queria conhecer e dançar a mitologia yorubá”. Esse novo pensamento veio acompanhado da decisão de que o conhecimento que tinha , não era suficiente. Havia uma sede de conhecimento, mas Inaicyra já tinha consciência de que no Brasil, o racismo havia soterrado

qualquer forma de valorização da cultura afro e com isso foi limitado o espaço para pesquisa. “Eu precisava conhecer um pouco mais dessa história que eu vivia desde criança, encontrar aqueles gestos”. Com esse desejo no coração Inaicyra pleiteou uma bolsa do CNPq e foi para a Nigéria, local de onde ,haviam saído seus ancestrais. Em um primeiro momento a frustração foi dura, pois achava que iria encontrar o ambiente das danças e os símbolos da religião em vários lugares, mas segundo Inaicyra afirma, “Isso não aconteceu, o país já estava todo colonizado.” Ao ir para Universidade de Inaban as portas de um universo mágico se abriram para a pesquisadora.

Naquela cidade toda a mítica da ancestralidade yorubá podia ser presenciada a qualquer momento. “Eu pude constatar que tudo que via no terreiro, via também naquelas cidades, uma maneira de ser, de agir, de falar.” Nesse momento Inaicyra percebe que entender a cultura daquele povo era entender a cultura e a história brasileira e obviamente sua própria cultura . “Hoje percebo que esses negros que para aqui vieram tiveram de encontrar uma forma de se juntar. Eles fizeram um país, dentro do espaço do Axé, onde a religião é um dos aspectos da cultura A história da população afro-brasileira toma uma dimensão para a professora. É nesse momento, que passa a entender


os terreiros como “pólo de resistência, de irradiação de uma cultura, que muito mais profunda do que uma religião é um modo de ser e de ver.

O sonho concretizado “Eu sou um produto do cotidiano, dos gestos. Eu tinha uma ligação muito grande com minha avó e a religião se deu de uma forma amorosa e total”. Segundo Inaicyra, tudo começou quando sua orientadora Profa. Dra. Roseli Fichman sugeriu que gravasse alguma coisa que tivesse relação com a sua tradição ancestral. Inaicyra selecionou cânticos alicerçados nos terreiros antigos de Salvador que já lhe eram conhecidos e começou a cantá-los ‘a capela. No ano 2000 paralelamente a comemoração dos 500 anos do Brasil, um sobrinho teve a idéia de prestar uma homenagem à Mãe Senhora, a primeira mãe preta do Brasil. No projeto enviado a Secretaria de Cultura e Turismo de Salvador, constava entre outras atividades, a elaboração do CD. A possibilidade de produzir o CD traz para Inaicyra a primeira preocupação, que era encontrar um músico que tivesse ao mesmo tempo o olhar da tradição e da modernidade, que era o estilo que seguia em suas apresentações a capela. “O CD não seria uma reprodução do terreiro, de um rito religioso em si, mas sim uma inspiração.” declara a pesquisadora. Surgem nesse momento as parcerias com Erberto Pelegrino e Paulo Adage que abraçaram o ideal

de Inaicyra e produziram a seleção de cantos relacionados a ancestralidade Axipá, principalmente no que diz respeito ao orixá que guiava Mãe Senhora, somados a arranjos de orquestra sinfônica e instrumentos de percussão. A escolha do repertório foi feita através dos testemunhos de senhoras que conviveram com Mãe Senhora e que também fazem parte da alta hierarquia das comunidades afro na Bahia. A professora pode ver seus sonhos se concretizarem com o lançamento de duas obras, em homenagem a seus ancestrais, especialmente Maria Bibiana do Espírito Santo, ou como ficou reverenciada, Mãe Senhora uma das avós de Inaicyra e a primeira Ialorixá da história brasileira. O Cd Okan Awa Cânticos da Tradição Yorubá e o livro que surgiu a partir de sua tese de doutorado com o título Corpo e Ancestralidade: uma proposta pluriculturalde dança-arteeducação. De acordo com resenha feita por Marco Aurélio Luz, a obra “recria esteticamente os poemas e músicas sagradas dando-lhe uma nova formatação estabelecendo a dinâmica entre a tradição e as instituições envolventes.” A criação do livro seguiu a mesma linha artística. A idéia principal era reverenciar a tradição Yorubá e transformar toda a experiência vivida tanto nos terreiros, quanto em temporada passada entre os povos Yorubás da Nigéria, em conceitos de arte. “São nesses universos, que eu vou buscar inspiração, pois o meu olhar é de artista, inspirada por essa história.”, afirma Inaicyra. Inaicyra constata que tudo o que aprendeu em casa desde criança, hoje, foi tornado obrigatório, pela lei que determina o ensino da história da África e história afro-brasileira nas escolas. “Eu tenho um privilégio que faz uma grande diferença”.

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Olívia Santana No peito e na raça

C

om um largo sorriso no rosto, Olívia Santana, vereadora eleita em Salvador, com 9. 660 votos, relata sua trajetória para conseguir a tão almejada vitória. “Eu fui candidata em 2000. Foi a primeira experiência importante. Nosso slogan era “No peito e na raça”. Várias candidaturas de mulheres negras, e vários homens candidatos do movimento negro se engajaram. Minha candidatura é, portanto, uma candidatura muito singular e cheguei muito perto de me eleger. Consegui a suplência”. O maior entrave para o sucesso de sua candidatura foi a falta de recursos financeiros para a estruturação da campanha. Ela e 22 EPARREI

sua equipe sabiam do potencial da candidatura. Pela primeira vez candidata e com grande prestígio popular, conseguiu, apesar dos parcos recursos, 5.200 votos. “No dia da eleição, ao meio-dia, nós não tínhamos um santinho para distribuir. Nós ficávamos catando do chão, para reciclar e muita gente chorou. Foi uma experiência muito dura, muito difícil”. Ocupou o cargo de suplente de vereadora em março de 2003. Relata a emoção do dia da posse. “A negrada invadiu a Câmara com tambores. Foi super representativa. Emocionante a posse, ao lado de outros companheiros que não se elegeram. Fui a única mulher negra

a assumir a cadeira de vereadores, onde dos 35 eleitos, apenas 3 eram mulheres”. Seu mandato era o único de esquerda. “Um mandato forjado na luta contra o racismo e na luta em defesa dos direitos da mulher. Cheguei lá alimentando o mandato com construções do movimento negro e do movimento de mulheres, e isso me deu uma condição singular, porque agora estou realmente eleita”. Militante compromissada, em seu mandato como suplente, foi porta voz do povo. Sua atuação lhe rendeu a indicação à candidatura para vice - prefeita de Salvador, pela chapa composta pelo PT, PC do B e PV. Confessa que ficou tentada a

aceitar a proposta, no entanto, sabia que faria falta no Legislativo, por ser a única vereadora da militância. “Resolvi optar por manter o mandato de vereadora, porque entendo que precisava ganhar a eleição em primeira mão. Desejo chegar ao Executivo, mas quero criar um limo. A minha candidatura é um projeto, é um projeto coletivo. Estava em construção. Percebi que manter meu espaço no Legislativo, naquele momento, era importante para garantir a vitória.” Ao falar sobre sua infância, relembra que muito cedo precisou que trabalhar. Carregava água para abastecer as casas de seu bairro, que não possuía água encanada.


“Minha trajetória é semelhante a da maioria das mulheres negras. Eu sou filha de empregada doméstica e pai marceneiro. Fui criada pela minha mãe, que teve oito filhos. Vivemos em favela durante muito tempo, portanto, toda a nossa vida foi de muita dificuldade, mas, eu sempre fui muito determinada.” Sua mãe, mulher de fibra, sempre lhe dizia que o único caminho para os negros era o estudo. Na medida do possível, colaborava para que ela e seus irmãos estudassem.

a Juventude Negra, dentro da Universidade Federal da Bahia”. Sem perceber, começava ali sua carreira política. Resolveu, enquanto mulher negra, tomar para si a luta contra o racismo, junto com seus colegas acadêmicos, formando um núcleo anti-racismo. “O núcleo era formado por um grupo pequeno. Nós discutíamos o racismo dentro da Universidade. Logo depois, muitas dessas pessoas migraram para organizar o

parafrasear Alzira Rufino e dizer que Olívia Santana mostrou sua “cara preta” no PC do B, levando consigo a discussão de um assunto que, na época, estava submerso em uma espessa nuvem de fumaça. A vereadora diz que a militância no Movimento Negro é absolutamente necessária para sua existência. Sua participação em Durban, na Conferência Mundial Contra o Racismo, foi um ponto marcante em sua vida. “Antes da Conferência, nós organizamos

foi o responsável por colocar em cheque toda a versão oficial sobre a descoberta do Brasil. Todas as celebrações que o Governo Fernando Henrique, naquela época, tinha preparado para comemorar o encontro das raças no Brasil, foram contestadas. “A partir da luta do Movimento Negro, ocupamos Porto Seguro em aliança com o movimento indígena. Foi um acontecimento belíssimo, duramente reprimido. Nós vivenciamos situações absurdas:

um grande movimento na Bahia, que repercutiu em todo o país, e incorporou militantes do Brasil inteiro, principalmente, a CONEN (Coordenação Nacional das Entidades Negras), que foi exatamente o Movimento Brasil 500 anos”.

bombas, prisões de militantes. E nós estávamos lá, na frente dessa luta, o que me causa muito orgulho. Foi uma luta construída por diversas Entidades do Movimento Negro, que teve uma grande repercussão internacional. Noticiada nos principais jornais do mundo, portanto, o que predominou naquele momento não foi a versão oficial.”

Olívia conta que quando era criança fazia pequenos “bicos” e trabalhos para ajudar nas despesas de casa. “Eu trabalhava como aguadeira, levava água nas casas e ganhava uns trocados. Com 14 anos, fui trabalhar como servente de uma escolinha particular .” Enquanto seu corpo crescia, sua mente sonhava. Queria ser alguém. Cursar a Universidade era o caminho. “Depois do segundo grau, prestei vestibular sem ter feito cursinho. Estudava nos módulos que restavam da filha da dona da escola. Passei no vestibular para Pedagogia, da Universidade Federal da Bahia. Foi a maior alegria da minha vida”. Foi difícil aquela situação. Uma conquista importantíssima, mas sua mãe ficou muito preocupada, porque Olívia teria que escolher entre o emprego e o estudo numa Universidade Pública diurna. Ela optou pela Universidade. Sua mãe não aceitava, e dizia: “Eu já te dei o estudo necessário. Você já tem o segundo grau completo. Esse negócio de universidade é coisa de rico. Você não pode fazer faculdade, senão a gente vai comer, o quê?” Mesmo sob protestos da mãe, resolveu assumir o risco, e foi na Universidade, que Olívia Santana passou a buscar diversas oportunidades. Benditos sejam aqueles que lhe abriram as portas!

Do assumir a negritude “O momento de ruptura se deu aos quinze anos, quando resolvi que não iria mais alisar meu cabelo. Passei a usá-lo no estilo black power. Entrei para a Juventude Espírita, abandonei o espiritismo e me envolvi com o Movimento Negro. Participei do Movimento Estudantil de 1987, assim que entrei na Universidade. Nós organizamos

‘Steve Biko’, primeiro cursinho pré -vestibular voltado para negros”. Em 1988, Salvador comemorou a fundação da União do Negro pela Igualdade (UNEGRO), e lá estava a militante ajudando a impulsionar o trabalho. “De lá para cá, foi um crescer da consciência política, que só contribuiu para a nossa formação pessoal”. Para ela, o Movimento Negro foi uma grande escola de consciência política. “Tomo aqui a liberdade de

No quinto centenário do Brasil, um grande grupo de pessoas, incluindo Olívia, foi a Porto Seguro. A Bahia era o comitê principal, articulador desse movimento, que

EPARREI 23


Durban, África do Sul “Eu tive a felicidade de ser a mulher que fez uma denúncia formal no seio da Conferência Oficial. Foi um dos momentos emocionantes da minha vida. Subir naquela tribuna e falar do que é racismo no Brasil. Falar para chefes de governo dos principais países do mundo, foi uma tarefa de grande envergadura, de grande responsabilidade e que muito nos honrou”. Com respeito ao avanço das mulheres negras, faz questão de frisar a importância da intervençãodo Boletim Eparrei Online na mobilização do Povo Negro para se chegar lá. A Revista Eparrei, em Durban, dava seus primeiros passos, informando o nosso olhar sobre a Conferência Mundial, lembra Olívia. “Acredito que todas nós conseguimos cumprir um papel fundamental na história. Isso foi um ganho enorme. É importante ver que as mulheres negras brasileiras estiveram lá fazendo história. Deixamos uma contribuição fundamental naquela conferência, nossa trajetória no movimento negro é essa”.

Metas e Desafios A meta de Olívia Santana quando nos concedeu entrevista em julho, na I Conferência Política para Mulheres em Brasília, era se eleger. Fazia questão de conscientizar outras pré – candidatas, não negras, a incluir em suas plataformas de campanha, as questões do povo negro. Nascida, criada e politizada na maior cidade negra do Brasil, onde 81% da população é negra, a representatividade do povo negro na mais antiga Câmara do país, é quase nula. “Salvador é um caldeirão das religiões de matriz africana, uma cidade que tem as feiras - livres, como por exemplo a tradicional Feira de São Joaquiml. Mas, embora Salvador tenha essa tradição africana, com uma população negra tão efervescente e tão majoritária, nós ainda estamos tentando construir uma presença mais significativa nos espaços políticos, econômicos, de decisão sobre os rumos da cidade”. Para se ter uma idéia, na Bahia, o Conselho Estadual da Cultura só tem um negro em sua composição. Quem dita os padrões culturais na cidade é a população negra, com seus blocos afro, grupos de samba, quadrilhas de São João,

que conseguem marcar a alma da cidade, contudo, os negros estão fora das esferas de poder.

A “cara negra” no Movimento Feminista “O movimento feminista é um movimento de múltiplas faces. Eu não tenho dúvida, de que a face negra tem sido o elemento inovado, porque contribui com a educação das mulheres não negras, que fazem o movimento feminista”.

Implementação da lei 10.639/03 Olívia Santana se preocupa com a forma com que os professores serão qualificados: Para a vereadora, a Lei é fruto da luta do Movimento Negro que há décadas solicita a inclusão da História da África no currículo escolar. “Levei essa discussão no espaço Legislativo; fizemos uma sessão especial; levamos a Fundação Cultural Palmares, nós estamos criando um movimento em torno desse debate. Diversas entidades vêm discutindo a implementação dessa lei.”

Olívia Santana 24 EPARREI


Para Olívia, a capacitação de docentes é primordial nesse momento de transformação no currículo escolar, para que tenham a condição de fazer com que a matéria seja implementada na prática. “Nós não temos professores formados em relação à História da África. Essa lei mexe com a própria Universidade, uma vez que a formação toma uma instância de reorganização do conhecimento. Ela precisa qualificar profissionais que tenham a capacidade de lidar com a história do Continente Africano, e de cruzar essa história, com a história brasileira. Precisamos desconstruir a história da subalternidade e enfatizar processos construtivos, que tenham como finalidade à realimentação da auto-estima da criança negra.”

Intolerância Religiosa A maior cidade negra do mundo, fora da África, tem sérios problemas na área religiosa. Com a expansão das igreja evangélicas em Salvador, os terreiros de Candomblé passaram a ser alvo de violências insanas. Olívia Santana conseguiu, depois de muito esforço, aprovar o projeto de lei que institui o Dia Municipal Contra a Intolerância Religiosa. Ela nos conta, que a casa da ialorixá Mãe Gilda de Ogum, foi atacada por evangélicos, tendo publicada no jornal da igreja, a foto de Mãe Gilda, com uma tarja preta nos olhos, comparando-a ao demônio. O trauma foi tão grande que a ialorixá enfartou e morreu. O dia da morte de Mãe Gilda não podia ficar no esquecimento e foi escolhido como marco para esta luta. Dentro de suas proposições, a vereadora apresentou um projeto que cria a medalha Zumbi dos Palmares, que tem a função de homenagear personalidades com contribuições afirmativas na desconstrução do racismo. Além disso, Salvador já possui outras duas homenagens, mas a medalha Zumbi dos Palmares representa para Olívia, a mão do Império num momento histórico, que deixou o negro à margem da sociedade até

os dias atuais. Está em curso, o projeto de capacitação de docentes, que impõe à Secretaria de Educação, a qualificação de todos os professores no combate à discriminação racial. “Esse projeto contra a intolerância e outras formas de discriminação tem como base, as deliberações de Durban”.

violência doméstica com cerca de dez mil casos notificados por ano na Delegacia Especial da Mulher, sem falar nos casos que não são notificados”.

Mulheres Negras sem medo do Poder, como fazer?

de apoio às mulheres candidatas, instrumentalizando essas mulheres com informações e com propostas que possam ser veiculadas através de suas campanhas e, ao mesmo tempo, que as mulheres possam dialogar com essa rede colocando lá, qual a sua conta para doações e essa central difundir nacionalmente. Acredito que existem algumas iniciativas importantes, que o movimento de mulheres precisa

Olívia Santana

Os professores estão imersos nessa cultura de discriminação, que estabelece um olhar subalternizado do negro e da negra, que acabam reproduzindo nos seus processos de trabalho”.

Violência contra a Mulher “Aprovei na Câmara, a criação do Centro de Referência e Apoio a Mulheres em Situação de Violência. Fiz uma indicação, para que o Prefeito implementasse o Centro de Referência. Salvador é uma das capitais que registra situações de

O problema da falta de recursos para campanha eleitoral é sentido por Olívia Santana. Ela acredita que muitas candidatas com potencial ficam no caminho por conta de problemas financeiros. Pensando nisso, propõe a criação do Fundo de Financiamento Público de Campanha e criação de redes.

abraçar, porque o processo eleitoral é voraz, é predador. É altamente masculinizado, e as mulheres não podem estar nisso de maneira isolada, de maneira individual”.

“A própria criação de uma rede EPARREI 25


Profissões

Dayane dos Santos Fotos: Antonio Viana

Em Cartaz: Iléa Ferraz

“Uma criativa concepção cênica de Iléa Ferraz foi o que pudemos observar aqui no Teatro do Sesc na Semana da Criança, com a apresentação do “Monólogo Botija de Ouro, de Joel Rufino dos Santos e Cheiro da Feijoada da própria Ileá”. A ação se passa durante o período colonial,onde a artista interpreta uma Griot(personagem responsável pela manutenção da nossa história através da tradição oral). É por intermédio da anciã, que somos transportadas para o período colonial, para reviver a realidade da escravidão e a covardia dos algozes .Sofremos com a menina negra que é obrigada a revelar o segredo da sua Botija de Ouro. Iléa, apresentou-se para um público composto em sua maioria por crianças não negras. Quem acreditava que criança aprecia só texto de narrativa comum,enganou-se, o fato ficou comprovado na apresentação do segundo texto “O Cheiro da Feijoada”,onde as crianças acompanharam a narrativa com atenção,repetindo com euforia o refrão de algumas falas,no desenrolar da ação. A preparação vocal,física e gestual da atriz, sincronizada com a sonoplastia é um espetáculo à parte. A iluminação revelou as expressões faciais que evidenciam que o texto marcou não apenas o corpo, mas também a alma de quem interpretou. O espetáculo é um tipo de experiência que não pretende alterar a História, revela através do teatro , atrocidades de uma época que necessita de Reparação Já.” (Ori Wani)

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(Festival OFF de Teatro – Casa do Tá na Rua) 1998 - "A Botija de Ouro" Autor: Joel Rufino dos Santos Direção: Iléa Ferraz Prêmio 03 Melhores Espetáculo Festival de Inverno Santa Tereza -1998

Principais Trabalhos da Artista Iléa Ferraz Teatro

Televisão

1985 - “Woyzeck” Autor: George Büchner Direção: Waldez Ludwig

1985 - “Tenda dos Milagres”-Direção: Paulo Afonso Grisolli Rede Globo de Televisão

1986 - "O Peru" Autor: George Feydeau Direção: José Renato

1987 - "Helena" - (Novela) Direção: Denise Saraceni Rede Manchete de Televisão

1987 - "A Mágica Aventura Africana" Autor: Paulo Cesar Coutinho Direção: João Gomes

1988 - "Pacto de Sangue – (Novela) Direção: Herval Rossano Rede Globo de Televisão

1989 - "O País dos Elefantes" Autor: Sir Jacques Direção: Allan Millanti (Festival de Teatro de Avignon e Marselle)

1990 - "Escrava Anástacia" Direção: Henrique Martins Rede Manchete de Televisão

1989 - "Os Negros" Autor: Jean Genet Direção: Mauricio Abud 1992 - "Sonho de uma Noite de Verão" Autor: William Shakespeare Direção: Werner Herzog 1994 - "Dorotéia" Autor: Nelson Rodrigues Direção: Luis Antonio Pilar 1995 - "Um Sábado em Trinta" Direção: Luiz Mendonça 1996 - "Concerto Para Virgulino Sem Orquestra" Autor: Vital Lima Direção: Vital Lima 1998 - "A Botija de Ouro" Autor: Joel Rufino dos Santos Direção: Iléa Ferraz 2000 - "Ai, Ai, Brasil" Autor: Clovis Levy Direção: Sérgio Brito 2002 - "Hamlet é Negro" Autor: William Shakespeare Direção: Antonio Abujamra 2003 - "Nunca pensei que ia ver esse dia"

1999 - "O Cheiro da Feijoada e outras estórias" Autor: Joel Rufino dos Santos e Thomas Bakk Direção: Iléa Ferraz

2000 - "O Caso do Vestido" Autor: Carlos Drummond de Andrade Direção: Iléa Ferraz 2002 - "O Cheiro da Feijoada" (Curta-metragem) Da obra de Thomaz Bakk Roteiro Adaptado e Direção: Iléa Ferraz 1986 /1987 – Animadora Cultural – CIEP Patrick Lumumba

1991 - "Mãe de Santo" Direção: Henrique Martins Rede Manchete de Televisão 1994 - "O Convento" Direção: Marcos Schatman Rede Manchete de Televisão 1997 - "Xica da Silva" - (Novela) Direção: Walter Avancini Rede Manchete de Televisão 1999 - "A Turma do Perere" Direção: Sonia Garcia TVE 2000 - "O Casamento Enganoso" Direção: Walter Avancini Rede Globo de Televisão 2001 - "A Padroeira" Direção:Walter Avancini / Roberto Talma Rede Globo de Televisão

Direção 1990 - “Dura” (vídeo) Roteiro e Direção: Iléa FerrazSelecionado no concurso de roteiro do Programa Cinemania Patrocínio: Atlantic 1997 - "As Criadas" Autor: Jean Genet Direção: Iléa Ferraz EPARREI 27


Artes Plásticas 1985 /1990 - Trabalha na equipe de escultura de diversas escolas de samba 1991- Exposição individual de pinturas no hotel Meridien. 1993 - Assinou os figurinos e a cenografia do espetáculo ‘Dorotéia’ de Nélson Rodrigues. 1994 - Assistente de figurino de Ricardo Venâncio no espetáculo "O Anel mágico de Shakuntalá”. 1995 - Assistente de figurino de Ricardo Venâncio no espetáculo " A Era do Rádio". 1996 - Assistente de figurino de Ricardo Venâncio no espetáculo "Alô Madame". 1997 - Assinou os figurinos e a cenografia do espetáculo "A Botija de Ouro". 1997 - Criou o design do troféu "Griot". 1997 à 1999 - Coordena as oficinas de cenografia e figurino do “A Arte de Representar Dignidade” - Promovido pela comunidade solidária e CIDAN 1999 - Assinou o projeto gráfico do CIDAN. (centro de informação e documentação do artista negro) 1999 - Criou o design do troféu "Ilê da Nastácia". 2000 - Ilustrou o livro “Chica da Silva, a Mulher que Inventou o Mar” de Lia Vieira. 2000 - Assina o figurino e a cenografia do espetáculo: “O Boi e o Burro” Autor: Maria Clara Machado Direção: Ivan Alves 2001 - Assina o figurino e a cenografia do espetáculo “O Rapto da Cebolinha” Autor: Maria Clara Machado Direção: Ivan Alves 2002 - Assistente de figurino no espetáculo "Hamelt é Negro". 2003 - Assinou o projeto gráfico do espetáculo "Nunca pensei que ia ver esse dia..." 2004 - Assinou o projeto gráfico do CD "Som na Contramão’.

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Cena I

A artista por ela mesma Eu sou uma pessoa que acredita nas próprias escolhas. Correr atrás dos meus sonhos foi o que fiz durante toda a vida. É um trabalho de muita resistência, de muita determinação e me orgulho disso. Sou determinada e corajosa, mas também tenho meus medos, meus receios, meus bloqueios, meus dias tristes, meus dias de não. Sou uma pessoa assim... Convivo com muitos jovens, com muitos artistas e sempre os oriento: Acreditem, vão em frente, pesquisem, estudem, busquem, libertem-se vejam todas as possibilidades, livrem-se das amarras , dos preconceitos, encontrem um caminho para brilhar . Acredito na audácia, em ser desbravadora, encontrar outros lugares, outros continentes. Eu sou uma pessoa assim.

Cena II

A arte como missão Quando se é negra nesse país e se escolhe trabalhar com arte, é preciso determinação para sobreviver.O vento sempre vai soprar contra você. Terá que enfrentar chuvas, trovões, raios, e no final, você diz: Estou aqui, sobrevivi, estou forte! Considero-me uma artista no sentido amplo da palavra. A minha relação com a arte dá-se através do teatro. Por meio dele, tenho a oportunidade de exercer outras funções. Comecei a trabalhar com escultura, pintura e por isso o teatro só me trouxe prazeres. Quando você nasce e recebe alguns dons, é uma missão. Às vezes você pensa: “Nossa, está difícil! Por que não escolhi outra profissão?”. Comigo não! Eu não fiz outra coisa, porque eu quis ser artista. Esse é o meu papel no mundo. Existe a médica, a professora, a engenheira e existe também o artista, aquele que vai zelar pela alegria do mundo, pelo lado crítico, pelo lúdico. A minha função é essa, e eu tento exercê-la com o maior orgulho.

Cena III

Da relação com o teatro Mais madura, senti a necessidade de juntar todos os meus talentos através do teatro, que ao meu ver é a expressão maior. Criar o cenário, o figurino, interferir na música são coisas que realmente gosto de fazer. Gosto de sentir como tudo acontece, de estar dirigindo. O meu caminho, hoje, é utilizar os meus dons no teatro.

Ser Atriz Negra Tenho 20 anos de profissão. Fui indicada como melhor atriz para o prêmio Shell, que é o mais importante do teatro brasileiro, e por isso não posso concordar com determinadas posturas. Se me convidarem para fazer um teste, para definir perfil e adequação de personagem, eu aceito fazer. Agora, se é um daqueles testes em que o produtor vem me perguntar: “Você possui registro como atriz?”. Eu acho muito desagradável passar por isso. Fazem isso conosco, entendeu? Ser atriz negra no Brasil é como ser cidadã negra. É muito difícil, e falar a respeito é mais complicado ainda. É uma profissão na qual você recebe os salários mais baixos e tem um espaço muito restrito. Seu papel é sempre o menor e você está sempre ao fundo. A arte é um reflexo social do papel político do negro nesse país.

Cena IV

Invisibilidade e Racismo O artista negro não tem acesso à mídia, então as pessoas não te conhecem, não te vêem, porque artista é quem está em evidência. EPARREI 29


Não estamos nas festas tais, não estamos nas revistas tais, não estamos nas peças tais, não somos convidados para determinados eventos. Com raríssimas exceções, os artistas negros não participam com fluência desses acontecimentos. E justamente o que garante a estabilidade financeira, é a manutenção da imagem dele na mídia.

Cena V

Estratégias para burlar o racismo Os artistas afro - descendentes precisam pensar na auto produção. Desse modo, iremos mudar esse perfil do que é ser artista negro no Brasil, e também do que é ser cidadão, porque ser artista negro é reflexo do que é ser cidadão. Esse é um país realmente racista, que discrimina. É nítido. Não precisa ler-se em livro. É só localizar isso dentro da sociedade. Não há negros no teatro: não se vê negros no palco e nem na platéia. Então, é só nos localizarmos, pois se somos maioria da população, algo está errado. Se existimos e não somos vistos, há algo errado.

Cena VI

Cultura Negra e Cotas Somente através da educação, nós conseguiremos alguma mudança. Aos quatro anos de idade, me deparei, pela primeira vez, com o 30 EPARREI

racismo.Cheguei em casa e fui tomar banho. Comecei a esfregar a minha pele com sabão, fazendo muita força. Minha mãe ficou indignada ao ver aquela cena. “Esfregar sua pele dessa forma, só porque uma menina branca não quis pegar na sua mão porque você é negra?” Isso aconteceu na escola. Não aconteceu em nenhum outro lugar. Até os quatro anos, eu não sabia o que era ser negra. A questão não é olhar e saber que você é negra, mas o sentimento que isso implica na sua vida. Você fica numa situação inferiorizada e o outro que não é negro, inconscientemente, sente-se superior. Você é o dominado e ele é o dominador. É difícil inverter esse sentimento. É muito difícil quando isso acontece na infância, por isso, a auto - estima do negro e tão balançada. Na escola, percebemos uma micro-sociedade. É ali que você começa a se ver, a conviver com o outro, com o diferente e a ver que você não é aceita. Uma lei que rompa de forma definitiva com essa historiografia comprometida, é fundamental. A nossa história deve ser contada de uma maneira honrosa, com as nossas lutas, com as nossas glórias e batalhas. Se a escola cumprir esse papel, haverá um grande avanço para sociedade brasileira, porque o que a escola fez até agora, foi prestar um “desserviço” a auto-estima da criança negra.


Sistema de Cotas As cotas são importantes, não só na televisão, ou no teatro, mas em todos os segmentos da sociedade brasileira. Precisamos ser ressarcidos, e no momento, a cota é a solução mais adequada. A sociedade brasileira é realmente miscigenada, só que alguns apresentam uma miscigenação maior, que vai te definir dentro da sociedade brasileira como brancos e como não brancos e outros como negros ou como mestiços. Não é justo que, quem sempre tenha se comportado e se apresentado na sociedade brasileira como branco, num determinado momento quando surgem as cotas, começar a dizer-se negro. Descender de branco, isso nunca me serviu de nada, absolutamente nada, já que sou negra. No entanto, o branco que diz ter ascendência negra, mais uma vez será favorecido. Outra coisa, com a qual eu não concordo, são expressões do tipo: cabelos étnicos, cultura étnica, roupas étnicas.Todas as raças são étnicas, então o termo étnico acaba servindo, na verdade, para quem está fora do padrão. E o que é o padrão? É o branco. Então o étnico acaba servindo ao negro, ao índio, ao amarelo. Discordo também do termo exótico. Eu nunca ouvi alguém dizer que um branco é exótico. Exótico é sempre o negro, é sempre o índio, é sempre o japonês, ou seja, é sempre quem está fora dos padrões.

equilibrado, de um país que assuma suas diferenças, seja menos racista, menos preconceituoso, de um Brasil melhor. Eu quero acreditar que isso é possível.

Fecham-se as cortinas... Atriz, produtora, diretora, cineasta e artista plástica. Iléa Ferraz é uma artista de muitos talentos. Consciente de seu papel nas Artes sabe que terá que continuar a remover as barreiras impostas pelo preconceito racial, mas sua convicção e consciência têm assegurado um lugar de destaque entre os artistas

Cena VIII

Alicerce familiar Minha mãe não queria que eu fosse atriz. Ainda assim é minha grande amiga, minha companheira, minha grande parceira mesmo. Eu falo isso, sem demagogia. Ela esteve sempre presente nos momentos mais difíceis e felizes da minha vida. Se eu digo, mãe, vou dar uma “cambalhota” ali no meio da praça, ela larga tudo o que estiver fazendo para me assistir, ela me dá todo o apoio. Minha mãe compra os meus sonhos, minhas brigas, minhas lutas, ela me respeita, mais do que mãe, hoje é minha irmã e grande amiga.

Tia Bebê é a minha tia querida, no mês passado ela fez 80 anos. É uma das pessoas que eu mais amo nesse mundo, ela é uma tia que todo mundo sonha ter, aquela tia que não bate, que não briga. Com ela, vivi grandes momentos da minha vida. Meu pai, meu marido, enfim, minha família é o alicerce.

Último Ato O grande acontecimento da minha vida foi ser mãe de Taís. Ela quer trabalhar com design em moda. Eu espero que Taís consiga realizar seus sonhos de forma plena e que, sobretudo, tenha muita consciência do que é ser mulher negra. Que ela nunca perca esse sentido, que tenha os pés nessa realidade e que saiba lidar com esse país, da maneira que ele é. Que possa usufruir um Brasil mais justo, mais EPARREI 31


Eliane Almeida Fotos: Maria Helena

Suavidade e firmeza:

A força do magistério C

om voz suave, a professora mineira possui o talento de encantar sua platéia. Não é à toa que seu trabalho tem tanto sucesso. A firmeza com que a educadora trabalha e a credibilidade na ação, a fazem vitoriosa. Rosa Margarida de Carvalho Rocha, professora há 30 anos, atua hoje como coordenadora pedagógica na Prefeitura de Belo Horizonte, onde trabalha com 500 adolescentes. Sua militância no Movimento Negro, deu-se a partir do momento em que abraçou a causa contra o racismo e a discriminação, em suas aulas. Sem se dar conta, ou quase sem querer, militava e praticava cidadania desmistificando os ensinamentos racistas. “Sabemos do papel importante que a escola deve representar na luta contra o racismo e pela superação de todas as formas de discriminação e exclusão social. O conhecimento e a valorização da cultura negra devem ser instrumentos para a construção de uma prática pedagógica comprometida com o resgate da cidadania plena para todos.” Sua luta na educação pública sempre foi muito solitária. Implantou em cada escola em que trabalhou, métodos que contemplam a visão da questão racial, com construções positivas da identidade racial das crianças negras. “Senti necessidade de reproduzir e compartilhar esse trabalho dentro das escolas. Coloqueime à disposição do N’Zinga, e produzimos o Almanaque Pedagógico Afro-brasileiro.” De acordo com a professora, esse almanaque é uma intervenção pedagógica contra o racismo no cotidiano escolar. Nele constam sugestões de atividades interessantes, que os professores podem desenvolver dentro da sala de aula. “Através das brincadeiras e atividades professor/a ensina e

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aprende. Nós, precisamos nos fundamentar pedagogicamente para lidar com a questão racial no ambiente escolar, porque academicamente nós não fomos embasados para tanto”.

Ações Afirmativas Rosa Margarida acredita, que o sistema de cotas é uma estratégia e que não se pode olhar essa questão como a maioria das pessoas faz. “As ações afirmativas devem ser implementadas para poder incorporar a grande massa negra nesse processo produtivo do Brasil, em que ela foi, e nós sabemos, historicamente excluída.” A professora afirma, que a formação de lideranças negras é o grande passo para a transformação social no Brasil. “Precisamos de lideranças para dar um impulso a essa comunidade que foi institucionalmente discriminada. É uma dívida que o Estado tem com a população negra, para que ela possa se posicionar dentro do sistema como um todo, com dignidade, como ser humano e desfrutar de todos os direitos de igualdade a que faz jus.” Por conta da falta de conhecimento histórico, de forma equivocada, as pessoas acham que as cotas são um benefício criado pelo paternalismo brasileiro, sem saberem que a não democratização do conhecimento para o povo afrodescendente é institucional.”As pessoas não conhecem as teorias científicas que embasaram a teoria do embranquecimento, construída no Brasil.”

Filosofia Rosa acredita que é uma função do Movimento Negro, informar as pessoas para que revejam seus conceitos. “O Movimento Negro tem condições de desvelar a história


que foi escondida debaixo do tapete, e mostrar como foram construídas as relações raciais no Brasil.”

Capacitação de Docentes A metodologia de seus cursos de capacitação é voltada para o ensino inclusivo. Utilizando como suporte teórico, o pensamento de Bernardo Toro, a professora desenvolve sua palestra deixando evidente a importância de um sistema educacional que inclua o negro. “Minha fala se preocupa com a visualização das transformações que devem acontecer no ambiente escolar. Uma visão mais macro. Quando coloco um olhar negro sobre essas transformações que Bernardo Toro indica, é justamente um olhar de inclusão do povo negro nessas políticas públicas”. Cursos de capacitação de docentes, de acordo com Rosa Margarida são extremamente importantes: “Nós precisamos mostrar que estamos reunidos (as) e que colocamos as nossas reivindicações num nível de exigência muito maior do que aquele que eles pretendem nos dar.”

Publicações “Candomblé, capoeira, congado, consciência, cultura. Dança, democracia, descendência, dignidade, discriminação.” Estas são palavras que constam no livro “Alfabeto Negro”, elaborado por Rosa Margarida e Cristina Agostinho. A publicação tem o objetivo,subsidiar docentes para desconstrução de instrumentos racistas na escola.

Almanaque Pedagógico “Uma proposta na superação do racismo no cotidiano escolar”. A publicação traz informações que formam e reconstroem a auto-estima dos alunos negros. Apresentando diversas personalidades negras como: Chica da Silva, Lélia Gonzalez, Abdias do Nascimento, André Rebouças, Luiz Gama, Mário de Andrade, Zumbi.

A integração desses nomes ao universo escolar, faz com que a criança se sinta estimulada e tenha esses ícones como exemplo a ser seguido, sentindo orgulho de sua negritude. A mineira Rosa faz de sua vida uma luta contra tudo o que oprime o negro. Sua colaboração, enquanto profissional de educação, se faz importante também pelo pioneirismo. E é muito bom saber que, apesar do peso da responsabilidade de

formar com respeito à diversidade, ela é tão suave quanto o próprio nome. “Meu nome me representa muito. Gostaria de ter a simplicidade da rosa e da margarida. De ter a possibilidade de abrigar muitos à minha sombra, como faz o carvalho e de ter a força da rocha.”

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Janaína Barros

pessoas anti–sociais e não gostava de festas. Minha mãe era seu oposto. Adorava bailes e sempre adorou carnaval. Herdei dela o gosto pelas Artes”. Para surpresa de todos, foi o pai quem o incentivou matriculando-o no curso de Décio Stuart,bailarino renomado nacionalmente,que acontecia em Santos. Afinal, rendiase ao talento de Luiz. Após anos de dedicação à dança, mudou-se para São Paulo e foi complementar seus estudos com Carla Perotti, por quem nutria grande admiração. Através da famosa bailarina, teve contato com a escola internacional Royal Academy of Dance of London.

Rompendo as barreiras do preconceito através dança. Assim pode-se definir a trajetória de Luiz Carlos Nogueira ARAD, 49 anos, o primeiro negro brasileiro a receber o título ARAD - Advanced Royal Academy of Dance of London

a vida Dançando F

ilho de pai branco e mãe negra, Luiz teve uma infância repleta de desafios. Foi durante a adolescência, que percebeu que o estudo e a pesquisa eram as principais armas para concretizar seus objetivos. Aos 14 anos, queria fazer aulas de teatro e expressão corporal, e nos planos profissionais, o ballet não era opção. Após assistir à apresentação da bailarina italiana Carla Perotti, no teatro Coliseu, em Santos, Luiz Carlos descobriu a vocação pela dança. “Eu nunca tinha visto nada igual. Ela voava. Ela interpretava. Tinha um domínio em cena, uma coisa fantástica. Vislumbrei a arte completa”. Ao concluir que sua vocação era mesmo dançar, vieram as cobranças. Para se formar como bailarino clássico precisaria de muitas horas de estudo. Não dava para trabalhar oito horas por dia numa empresa, e depois ir estudar. “Meu pai é fruto de uma educação moralista de

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Complementar os estudos com Dalal Achcar no Rio de Janeiro, que detinha os direitos da Royal Academy para o Brasil, foi o primeiro passo para o tão sonhado nível avançado. Foram onze anos de determinação, seleções profissionais, e mais oito anos, até formar-se professor. “Fui muito bem recebido em Londres. A Royal me abriu todas as portas. Eu pude participar da faculdade sem pagar um tostão. Participei de todas as aulas de formação de professores, acompanhei grupos estrangeiros e tive acesso a todos os cursos, culminando numa especialização em coordenação artística”, conta. Foi bailarino no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, sendo contemplado com uma bolsa de estudos para especialização na Alemanha. No entanto, ao passar do tempo, o jovem Luiz Carlos sentiu que precisava fazer algo por seu país. Ele precisava criar. E perseguia a possibilidade de viver profissionalmente da dança no


as roupas para o meu filho e suas alunas. Eu sempre quis ser artista, e através dele realizei meu sonho.” O Luiz Carlos Nogueira ARAD de hoje, é pai de Íris Li e avô de Isadora Li. Sofreu muito com a incompreensão e o preconceito da filha, que não entendia muito bem o que é ter um pai bailarino.

Brasil. Através do trabalho com Ney Matogrosso, com quem havia atuado em sua primeira peça teatral em 1972, Luiz Carlos pôde viajar por quase todo o país em turnê do show, no início dos anos 80. “Fui trabalhar com Ney porque eu queria conhecer o Brasil. Não tinha dinheiro para fazer isso, então, nada melhor do que viajar fazendo meu trabalho. E foi aí que iniciei minha pesquisa na área social.” “A temporada com Ney Matogrosso foi fundamental para refletir sobre meu papel enquanto sujeito. Apresentar-se para platéias de sessenta a setenta mil pessoas mexe muito com o artista. Traz muita energia e abastece”. Nessas viagens, Luiz conheceu cidades e capitais distantes dos grandes centros de dança do Brasil. A partir daí, sentiu a necessidade de apresentar um projeto específico para a formação educacional de bailarinos clássicos. Começou com o projeto em 1983, na capital do Estado do Mato Grosso, em uma escola municipal. E após quatro anos, criou a primeira escola pública de dança com metodologia internacional da Royal Academy, na cidade de Ribeirão Pires, a qual recebeu o nome de Casa Dame Margot Fonteyn. De lá para cá , não parou mais. Tem desenvolvido vários projetos voltados para o social. Nem o fato de ganhar o papel principal para interpretar Carlinhos Satã, no Grupo Vacilou Dançou, no Rio de Janeiro, o afastou de seus ideais: “Interpretar, através da dança, um personagem fictício, mas, que estava embasado na pesquisa da vida de uma pessoa que existiu na Lapa, me fez conhecer e encantar-me com o mundo de Madame Satã.”

O retorno para o Rio de Janeiro é comemorado pelos amigos que consideram polêmica a visão atual de ARAD. Luiz não tem recebido grandes incentivos para trabalhar com as comunidades negras. “Muitas famílias negras ouviram dizer, e pensam que o balett clássico não é para elas. É uma pena. O balett não foi criado só para o físico de brancos, mas sim para as pessoas que têm alma. Minha aluna, a bailarina Gabriella Vaz, está aí, dançando A Morte do Cisne. Um aluno com talento, não é você quem faz, e isso independe de cor, de raça, de religião”, conclui. O bailarino considera um absurdo, não negros terem acesso aos vários tipos de danças existentes, e no momento em que o negro pode ampliar seus conhecimentos, convenciona-se que ele tem que aprender e dançar única e exclusivamente o que advém de suas raízes. “Considero fundamental você saber dançar através da aquisição de sua própria cultura. Mas temos o direito de adquirir outras habilidades. Afinal, estamos no século XXI, com a comunidade global, a Internet.” Nessa jornada, Luiz Carlos tem consciência que há muito a fazer. Com o projeto de Balett Clássico nas comunidades carentes, tem revivido a mesma situação do passado: o preconceito ainda é muito forte, e os pais ainda acreditam, que a dança clássica irá definir a opção sexual e financeira de seus filhos e retiram os meninos do projeto. O acúmulo de todas essas experiências e o resultado de seus trabalhos fazem com que ARAD acumule energias para continuar conscientizando pessoas sobre o preconceito e a discriminação. O entrevistado, que também é conhecido como concretizador de sonhos, promove, a cada dia, um bailar da coragem. Tem sido um exemplo de profissional que não contou com milagres e chegou onde está através da perseverança e muito trabalho. Faz questão de dividir com outras pessoas o seu conhecimento e a sua visão de mundo, na perspectiva de um futuro melhor.

Em Santos, o bailarino desenvolveu um trabalho com profissionais do sexo em boates do centro da cidade. O objetivo era levantar a auto- estima dessas mulheres através da dança. “É um dos projetos dos quais tenho muito orgulho. Conheci pessoas maravilhosas que são minhas amigas até hoje.” Dona Florisa, hoje com 85 anos de idade, esteve ao lado do filho em todos os momentos. “Até hoje, me lembro da época em que confeccionava EPARREI 35


Regina Fazendo Adami a Diferença

Eliane Almeida Fotos: Oriwani

“Aids e o Congresso Nacional,.no Cfêmea - Centro Feminista de Estudo e Assessoria. “Trabalhei muitos anos no Congresso Nacional, dentro da Câmara, assessorando parlamentares no gabinete.

Assessora Parlamentar. Que profissão será essa? Quando se fala em assessoria, logo se imagina alguém que ajuda, que auxilia. Regina Célia Santana Adami é advogada, nascida em Brasília, e atua na Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, onde exerce o cargo de Assessora Parlamentar.

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I

niciou sua carreira profissional como secretária de gabinete ,na Constituinte. Trabalhou com Olívio Dutra, e após,fez outras assessorias para Tarso Genro, Adão Preto, do Movimento dos Sem Terra, Ciro Garcia e Antônio Carlos Biscaia. Da Câmara, foi desenvolver o Projeto Arco Íris e o Projeto

Atualmente, acompanho os projetos de interesse do Executivo no Parlamento”. Segundo a assessora, o Movimento Negro necessita de uma assessoria específica para trabalhar seus projetos, legislação orçamentária e outras demandas. “Esse é um trabalho importante que os movimentos sociais realizam e o Movimento Negro, ainda não tem uma efetiva participação de acompanhamento da legislação”. Para desempenhar a função, é necessário estar atenta para alterações ou acontecimentos que mudem a rota e o interesse do projeto,informa Regina. “Acompanhamos o andamento dos projetos, conversamos com parlamentares, tentando trabalhar as emendas. Através das lideranças do Governo, negociamos projetos com parlamentares, e as


modificações que venham a ocorrer nesses projetos. de maneira que possam atender aos interesses do público a que se destina.” A entrevistada nos conta, que os movimentos sociais têm marcado presença na Câmara, e a violência doméstica é tema de um Grupo de Trabalho Interministerial: “Esse grupo atende à reivindicação do movimento social,como também uma das indicações do CEDAO, Comitê contra Todas as formas de Discriminação a Mulher, que é da ONU. O comitê pede ao Brasil, que tenha uma legislação para coibir a violência doméstica”.

Movimentos Populares Adami reconhece que o Movimento Negro tem feito muitas coisas pelo provo afro-descendente, mas deixa a desejar, no que diz respeito ao acompanhamento de suas demandas dentro da Câmara. O Movimento de Mulheres tem mais de mil projetos tramitando na Câmara, e a mulherada está lá para fiscalizar. O Movimento Negro precisa ter profissionais

em Brasília ,dentro do Congresso, para acompanhar o andamento dos projetos, sair de uma comissão e ir para outra,saber com quem se negocia.Para isso, é preciso ter uma estrutura e profissionais que possam dar conta desse trabalho,”enfatiza. Só na questão questão racial, de acordo com Regina, há pelo menos 300 projetos de interesse da Comunidade Negra. “Um exemplo: O Fundo da Igualdade Racial. É possível aprovar esse fundo, separadamente das leis de diretrizes orçamentárias?” Quem estuda isso? Essas informações são de interesse da população negra e não há ninguém que possa levantar essas informações ,com o

devido interesse. Os projetos melhoram quando têm a interferência do movimento social.” Implantação da lei 10.639/ 2003. “A legislação é a segunda aprovada pelo atual Governo. A primeira é a criação dos magistérios. Eu concordo com Alzira Rufino,quando ela diz que há muito por fazer. A lei já existe.Quando não colocada em prática, ‘impeachment’ no prefeito, processo nele ou no Governador. Ninguém precisa do MEC para estabelecer os critérios para implantar. Existe uma lei e ela tem que ser cumprida. Não é o movimento social que deve fazer o serviço do Governo. Nosso trabalho é fiscalizar,conclui a assessora. EPARREI 37


Dezembro

ร‰ tempo das Yabรกs

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Eliane Almeida Fotos: Oriwani

Nilma Bentes

“Sou eclética por formação e pela minha inquietação”

N

ascida em Belém do Pará, filha de quebradeira de castanhas, Nilma Bentes, engenheira agrônoma, é militante do Movimento Negro. Numa época em que se faziam ouvidos moucos para a questão racial, ela já discutia o racismo em sua região. Como não pôde freqüentar uma escola, sua mãe incentivou os oito filhos para o estudo. Queria ser pianista. “Eu ainda me pergunto por que ela queria tanto aprender a tocar piano. Foi a figura materna que marcou minha vida e a de meus irmãos. Meu pai era um homem omisso, acreditava que sua única obrigação era colocar comida em casa e nada mais. Tinha outras mulheres e isso prejudicou muito nossa vida”. O exemplo de esforço e luta de sua mãe deu a Nilma o impulso e a garra necessária para a luta que abraçava: combater o racismo e a discriminação. Um dos ensinamentos de sua mãe foi a não aceitação da humilhação pelo fato de ser negra. “Minha mãe era negra e meu pai era branco. Minha avó paterna, branca, não gostava de negros e mamãe não permitia que nos aproximássemos dela para não sermos maltratados”. A opção pela Engenharia

Agrônoma deu-se pelo fato de viver em um local onde a agronomia era profissão promissora. “Minha formação, de alguma maneira, contribuiu para minha militância política porque é uma atividade eclética, como eu. Sou eclética por formação e pela minha inquietação”. Sua atuação política começou em 1979, no CENDEPA (Centro de Estudos da Identidade do Negro do Pará) Ela conta que antes disso já sofria com o racismo e sentia dentro de si a necessidade de lutar contra ele. “O Movimento Negro, em Belém, se articula a partir da criação da nossa entidade, que é o Centro de Estudos da Identidade do Negro do Pará. É uma entidade mista, mas com completa hegemonia feminina. Temos levado essa luta contra tudo e contra todos”. A entidade começou seu processo de legalização em 1979, sendo concluído em 1981. “Temos conseguido manter a entidade porque não fazemos estardalhaço. Procuramos ser meio invisíveis em algumas questões para não perdermos”. Seu senso de justiça faz com que seja considerada boa de briga.

Um episódio que circula entre os participantes das entidades que formam o Movimento Negro, foi a sua prisão por ter defendido um negro da ação policial. “Na verdade defenderia qualquer pessoa que fosse colocada na mala de um carro. Por coincidência era um negro. O policial foi chamado para ver um acidente no qual um carro entrou numa casa. Já estava no local a ambulância e quando cheguei a polícia ainda não estava. A polícia chegou com dois detentos dentro do carro. O motorista tinha que ser detido. Para prender o motorista, tiraram o detento negro de dentro do carro e o colocariam no porta-malas foi quando resolvi interferir. A polícia tentou fazer com que as pessoas ficassem contra mim, mas não conseguiram. Botei a boca no mundo”. Ela conta que brigou com um dos policiais, o branco. Quando chegou na delegacia a armadilha já estava pronta. O policial negro ia testemunhar a favor do policial branco. “Esse episódio é exemplar porque mostra as contradições do Movimento de Mulheres e do Movimento Negro. O negro me acusa em função da delegada branca. Uma mulher contra outra mulher, o negro contra outro negro”. Nilma foi presa e no dia seguinte seus parceiros de militância fizeram um ato público impedindo o processo de transferência para a prisão feminina. “Essa confusão toda se deu porque, ao chegar na delegacia, somente o negro estava algemado. Eu perguntei a ela o por quê daquilo e ela não gostou. Eu era uma militante negra e ela uma delegada branca, advogada. Então...”

Políticas para Mulheres Durante a I Conferência Nacional de Políticas Públicas para Mulheres, realizada em Brasília, Nilma participou de um grupo que discutia assuntos ligados à educação e pedofilia. Diretrizes foram votadas, mas correm o risco de não serem implantadas, uma vez que o plano plurianual, que estabelece quais são as prioridades orçamentárias do governo, já tinha sido aprovado. Ou seja, acredita-se que nada do que foi discutido e acordado será implantado até uma nova discussão sobre verbas. Acreditando na Assessoria da Ministra Nilcéa, Nilma enfatiza: “Quando se faz uma conferência como essa, que reúne mais de 2.500 mulheres de todo o Brasil, há de se ter respeito e compromisso”. Discutir e repensar conceitos que estão dentro da cultura brasileira também fizeram parte da agenda de discussão dos grupos, presentes na Conferência. Um dos assuntos de grande interesse, foi a discussão sobre a reprodução do machismo e do racismo, por nós mulheres, em nossas casas. “Como mães, ficamos mais tempo com as crianças e introjetamos as ideologias machistas e racistas. Na minha casa era assim: vai tomar banho, porque além de preto é sujo! Vai estudar, porque além de preto é burro!”

Lei 10.639/2003 “Essa lei é absolutamente importante porque agora temos um instrumento que faz com que se ela não for cumprida, possamos entrar com processo no Ministério Público. Além do que, ela estimula a criação de material pedagógico ligado à questão da África e do Negro.” EPARREI 39


Reconstruindo a

Eliane Almeida Fotos: Maria Helena e Dayane Santos

Auto Estima Mulheres Negras... Som de atabaques. Toque para Oxum. Movimentos suaves, graça e beleza que encantam a todos. Mulheres tornam-se belas e vaidosas sob os cuidados de Josina Maria da Cunha Natural do Rio de Janeiro, pedagoga, estilista e professora de artes cênicas, Josina põe a serviço de Oxum sua criatividade e sucesso. Seu trabalho é todo voltado para o resgate da identidade negra e elevação da auto-estima através da estética, preocupação nascida a partir da sua experiência de vida. Criada numa reserva florestal da cidade do Rio de Janeiro, que na época era habitada somente por militares brancos, sua família, vinda de Minas Gerais, instalou-se no local. Senhor Martiniano, seu pai, um homem nascido na Lei do Ventre Livre, tinha 70 anos quando ela nasceu. Não usava sapato, nem guarda-chuva. Ensinou para filha que a natureza é para ser vivida e não evitada. “Um fato que gosto de contar, é que meu pai não usava remédio indicado por médico. Ele só usava folhas. Quando ele estava com dor de cabeça, ia para o mato e trazia o chapéu cheio de folhas . Dizia que aquelas folhas iriam curá-lo.” Seu pai foi referencial em tudo na vida de Josina. O lado espiritual, algo muito forte dentro dela, foi despertado por ele. Filho de escrava, era de se esperar que não possuísse instrução. Mas, Sr. Martiniano sabia ler e escrever muito bem. Aos 100 anos de idade, não usava óculos e escrevia como ninguém. Trabalhava junto com a sua mãe na fazenda. A sinhazinha era

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professora e dava aulas numa escolinha pelas redondezas. Como era muito inteligente e curioso, passou a incomodar. “Um dia sua professora o mandou embora da escola, dizendo que ele não precisava estudar mais. Ele sabia demais e perguntava muito. Estava pronto”. A força e a resistência de seu pai, foram os legados deixados para ela . Sua mãe morreu muito jovem, enquanto Josina ainda era uma menina. As pessoas ricas do lugar queriam criá-la, mas Sr. Martiniano não permitiu. Ele não dava seus filhos. Foi uma de suas irmãs quem a educou, e a qual chama de mãe até hoje. Nessa época, a preocupação com a estética começou a dar sinais dentro de Josina. Ela sabia que todas aquelas pessoas queriam, na verdade, que ela fosse apenas uma criada e isso significava uma semi-escravidão. Suas roupas eram todas doadas e aquilo incomodava. “Fui crescendo com a preocupação de ter as minhas coisas, criadas e feitas por mim, com a minha cara.” Estudou no Colégio Duque de Caxias e todo mês de agosto havia festa em homenagem ao patrono da escola. “Nestas festas, eram praticadas as danças de salão. O que me marcou muito, era que as

crianças brancas apresentavam a dança das sinhazinhas com belos vestidos e cabeças adornadas com perucas de cachinhos. Já nós, crianças negras, apresentávamos a dança da senzala, o samba de lenço. Nossa roupa era uma sainha estampada com uma blusa de babado”. Seus olhos de criança viam a beleza de todo o evento. Só não conseguia entender o porquê da diferença. Um dia, perguntou à professora por que não podia usar as roupas de sinhazinha. A professora lhe disse que não podia, porque seu cabelo não dava para aquilo e que era apenas um retrato de uma outra época, que ela não se preocupasse. Foi se tornando mulher e com o tempo desenvolveu trabalhos voltados ao resgate da autoestima do negro através de roupas étnicas. Criou a grife AfroJô, que está há vinte anos no mercado. “Meu trabalho é repensar a estética como forma de fortalecimento da identidade e da auto-estima da população negra e, especialmente, da criança negra. Minha grife já desfilou em todos os blocos afro do Rio de Janeiro.” Militante do Movimento de Mulheres, fundadora da Ong Criola, militante do Movimento Negro e do Movimento Comunitário, direciona

seu trabalho às comunidades carentes, formando agentes multiplicadores. “Para mim, multiplicar é muito importante. Não faz sentido ser detentor do conhecimento e não dividí-lo.”

Auto-Estima “A reconstrução da auto-estima do povo negro é um trabalho árduo, mas prazeroso. Os resultados são impressionantes. Geralmente quando vou trabalhar a questão da auto-estima, vou a lugares onde as pessoas já estão motivadas. Vou chegando de mansinho, cativando, sabendo ouvir e o que falar. Quando elas se dão conta, já estão cantando e dançando e o trabalho está feito”. Professora de artes cênicas, ensinar “arte” para ela é fácil. O problema é quando o ensino “arte” tira do prumo, ou mostra algo novo e instigante. “Cheguei a uma escola, com uma proposta pedagógica nova. Para trabalhar o corpo é preciso espaço, logo, tive que afastar todas as carteiras da sala de aula. A diretora ficou doida e disse que minhas aulas eram sempre um caos. Mas os alunos adoravam”. Outro problema enfrentado por Josina Cunha, aconteceu em uma

escola de ensino médio. Ministrava aulas de espanhol. “Eu tinha 6 turmas com 60 alunos, portanto, 360 alunos. Dividi-os em dois grandes grupos e pedi que um grupo pesquisasse sobre a cultura hispânica e o outro pesquisasse sobre a cultura afro-brasileira. A diretora questionou o porquê de introduzir o Continente Africano nesse trabalho. Respondi que somos um país de maioria negra e que não adiantava ensiná-los cultura espanhola, sem que eles tivessem conhecimento da origem de sua própria cultura.” Josina enfrentou a resistência da diretora da escola e no ano seguinte a exposição foi multidisciplinar. Seu propósito foi compreendido. “Minha militância começou aos gritos. Hoje, eu já relaxei. A luta tem que ser cotidiana, diária, constante.”

Implantação da Lei 10639/03 “A lei é o instrumento que temos para atuar. É provável que daqui há dez anos, possamos pintar esse quadro com outras cores.”

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Concepção Músico, compositor, produtor e diretor cultural. Conheça Sérgio Liuz Pereira (Lupper) e sua Concepção Black

da Comunidade

Janaína Barros

“Concepção Black é a minha forma de materializar o que se dinamizou no Movimento Black Rio, nos anos 70, cujo pensamento permanece vivo na memória da música carioca. O soul, o samba, o jazz, nasceram como uma oração, como um brado do espírito, como quem toca uma reza, como bate um atabaque. É assim que venho conservando o Concepção Black”.

Todo esse currículo e seriedade no trabalho fizeram com que Miguel Falabella o convidasse para dirigir o Teatro Mario Lago na Vila Kennedy, a qual possui uma população composta por 70% de negros. Da época de sua fundação até os dias atuais, é a primeira vez que se observa um trabalho voltado para a cultura negra. A participação de Lupper tem contribuído para mostrar o potencial artístico da comunidade. O bairro que possuía apenas um teatro, hoje tem um espaço de efervescência cultural.

O músico

Formado em música pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), especialista em música contemporânea, Lupper denomina Concepção Black a reunião dos estilos da música negra nacional e internacional, onde o compositor, cantor e violonista carioca, traz suas maiores influências musicais: Pixinguinha, George Benson, Stevie Wonder, Banda Black Rio, Candeia, Wes Montgomery, Cassiano, Marvin Gaye, Don Salvador e Jorge Benjor.

O cantor/ compositor

É de sua autoria a música-tema para a Conferência Nacional Contra o Racismo e Intolerância, realizada na UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, em 2001. Seu currículo de apresentações é extenso, tendo se apresentando em vários espaços e projetos culturais do Rio de Janeiro. Tem enriquecido várias coletâneas com composições como Velejar, Quero e Cidade, em parceria com Marko Andrade, dentre outras individuais lançadas em CD. Fez aberturas de shows de Jorge Aragão, Danilo Caymmi, João Nogueira, Luiz Melodia e 14 BIS. Com Pedro Luiz e a Parede, Martinália, Fernanda Abreu, Elba Ramalho, Cidade Negra, Sandra de Sá, Clave de Soul, Batacotô e MV Bill, abrilhantou o show do primeiro ano do programa Fome Zero. 42 EPARREI

O produtor

Foi produtor musical do projeto Caldo de Cultura que reuniu músicos cariocas para divulgação de novos trabalhos.Produziu o CD Coletânea Som na Contramão, com músicos e bandas da zona Oeste do Rio de Janeiro.

Ao assumir o cargo, em 2003, Lupper trazia um projeto para a conscientização da comunidade na utilização do teatro. Num trabalho de formiguinha, estrategicamente, organizou reuniões e seminários com diretores das escolas do bairro, sensibilizando-os sobre a importância da cultura como agente transformador. Lupper,

com orgulho, fala do projeto: “O que passo para os diversos grupos que ocupam o espaço é justamente o sentido do compartilhar, de ser parceiro o tempo inteiro e de se produzir e apresentar cultura negra. Discutir questões que nos afligem como o racismo”. O projeto “Escola vai ao teatro” tem um link com a Secretaria de Educação. Os professores assistem às peças com os alunos e em seguida discutem o conteúdo da peça em sala de aula. É interessante ressaltar que o projeto não é somente o espetáculo pelo espetáculo e sim a relação da escola com o teatro. O produtor e diretor tem tentado um trabalho integrado com as Secretarias do Município, no entanto, depois de idas e vindas, percebeu o quanto é complicado integrar secretarias. “Parece tão prático reunir Secretaria de Ação Social, Cultura e Educação para atuar conjuntamente. Mas, na realidade, são tão próximas e ao mesmo tempo distantes. É muito confuso lidar com isso”. Sérgio só conseguiu iniciar o projeto, trilhando o caminho inverso. Primeiramente mobilizou a comunidade escolar e só então estabeleceu contato com a Secretaria de Educação. Aos poucos vem concretizando seus objetivos. “Na realidade você não pode contar com a estrutura da Prefeitura. Gerenciar e administrar a falta de recursos para se produzir cultura é complicado, mas a gente está aos poucos superando as dificuldades. Já produzimos onze espetáculos e atualmente o projeto abrange treze escolas e não pretendo parar. Estamos formando um público para teatro e acredito que, nesse sentido, a escola seja o caminho”. Contato para shows Concepção Black. Fone: (21) 2556-9008 ou 9837-5877 com Lupper E-mail: slplupper@ig.com.br ou concepcaoblack@hotmail.com


Brasil Palmares Alzira Rufino

No dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, lembramos Zumbi que não combateu por territórios ou por glórias combateu por legítima defesa, pelo direito de ser, pelo direito de recuperar nossa dignidade. Palmares e todos outros quilombos desmentem essa sociedade hipócrita e cínica que ainda hoje nos passa a imagem da raça negra, como sendo passiva e sem brio, tentando por esse meio, tirar do negro o orgulho de sua negritude. Honramos a resistência de Zumbi de Palmares e de anônimas/os antepassadas/os, sobreviventes de uma guerra de terror e ganância. Datas como essa me fazem refletir e escrever sobre os papéis que nós, afrodescendentes, estamos representando dentro do grande drama. Afinal, somos donas (os) da nossa carta de alforria e estamos saindo dos bastidores, não para limpar o palco, mas para sermos protagonistas do novo milênio. O poder tem cor? Onde estão as cores do Brasil nas mesas de decisão? Mais uma vez o processo eleitoral nos mostra isso. A ONU considera que existe democracia num país quando todos os povos estiverem representados no poder na mesma porcentagem em que estão representados na população. Ou seja, o Brasil só será uma democracia quando pelo menos 44% das autoridades forem mulheres e homens negros. As Câmaras, Assembléias e o Congresso são um espelho onde não vemos a nossa cara. Continuamos sendo pouquíssimas (os) negras(os). A isso nós temos chamado de democracia racial. A única coisa necessária para a perpetuação da discriminação racial é que as pessoas (brancas e negras) se omitam. A nossa omissão é uma forma de aprovação, porque nada fazer é cooperar com o racismo. O que dizer da omissão das escolas e universidades? Que expectativas os/as educadores/as têm em relação à criança e adolescente negra/o?, Baixas expectativas em relação às/aos estudantes negras/os fazem com que correspondam a isso. Mensagem quase sempre nas entrelinhas: se as coisas ficarem difíceis, desistam. O que dizer da omissão dos meios de comunicação? A mídia, pelo seu impacto na opinião pública, deve ser usada de maneira responsável para promover o respeito às diversas raças. Aos que argumentam, um século depois da abolição (em liberdade vigiada), que ainda estamos despreparadas (os) para as funções qualificadas, responderemos que as pessoas negras recebem entre 30% e

40% menos do que os brancos com a mesma escolaridade e experiência no desempenho de funções iguais. Pesquisa feita pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos) indica a quantas anda a nossa democracia racial no mercado de trabalho brasileiro. A maior desigualdade foi verificada em Salvador. Lá a taxa de desemprego entre os negras (os) é mais de 50% superior à dos brancos. Nessa quotidiana experiência de “enfrentar um leão por dia”, teremos que usar estratégias de descansar, recuar, avançar, para podermos chegar inteiros. No tempo do Brasil Palmares fugir era voltar à liberdade. Hoje não. O Quilombo hoje é ficar exatamente onde você está: Resistindo, organizando, exigindo. O quilombo hoje é saber que é chegado o momento de virar a mesa, onde sempre apanhamos as migalhas. Escravas (os) urbana (os) de um círculo vicioso que começa com o menor abandonado, a miséria absoluta,e termina com a manchete de mais um marginal morto. Voltamos nossos olhos e coração para a África, berço da civilização, tambor que nos mantém unidos. Nossas /os deusas /es dançam e estão muito próximos das nossas alegrias e vitórias. Se usamos nossas roupas coloridas, nossos cabelos trançados, não é por sermos exóticas/os. Somos a continuidade de uma história, uma cultura, uma raiz. No romper do ano que se inicia, continuaremos à beira do oceano, homenageando nossas/os antepassadas/os que no mar ficaram. Temos consciência que suas dores precisamos amenizar.Com um olhar para as crianças, mulheres, para o nosso povo. Negra/o além de linda/o é capaz, é competente. Sabemos fazer políticas. Experiência de quilombo, escola de Palmares. Passaremos nosso anel de bamba para a nova geração. Apesar dos ventos e chuvas fortes da discriminação, apesar da fria desigualdade de oportunidades vividas nesses anos, nossa força não pode ser apenas um discurso, temos pouco a comemorar e muito que fazer. Hoje, temos mais necessidade de denunciar essa discriminação velada, essa agressão psicológica do que respirar. Os alpinistas estão chegando.

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Resultado da Pesquisa: Cotas e Ações Afirmativas CONHECIMENTO SOBRE A LEI CONTRA A DISCRIMINAÇÃO RACIAL (Espontânea e única, em %)

Base: Total das Amostra B Fonte: NOP – FPA - 2003

Base: Total das Amostra B - Fonte: NOP – FPA - 2003

Pergunta: Existem no Brasil algumas leis que tratam do racismo, considerando crime vários atos de discriminação racial ou preconceito de cor ou raça. Em relação a essas leis o(a) sr(a) diria que está...

Pergunta: Os negros deixaram de ser escravos no Brasil há mais de 100 anos, mas em geral a população negra vive em condições piores que a população branca. Na sua quem é mais responsável pelo fato de que a população negra ainda viva em piores condições que a população branca?

PRINCIPAL RESPONSÁVEL PELAS DESIGUALDADES ENTRE NEGROS E BRANCOS (Espontânea e única, em %)

POSIÇÃO SOBRE COTAS PARA NEGROS NAS UNIVERSIDADES E EMPRESAS (Espontânea e única, em %)

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Base: Total das Amostra A - Fonte: NOP – FPA - 2003 Base: Total das Amostra C - Fonte: NOP – FPA - 2003 Pergunta: Diante da discriminação passada e presente contra os negros, tem pessoas que defendem a idéia de que a única maneira de garantir a igualdade racial é reservar uma parte das vagas nas universidades e dos empregos nas empresas para a população negra. O(a) sr(a) concorda ou discorda com esta reserva de vagas de estudo e trabalho para os negros? Totalmente ou em parte?

OPINIÃO SOBRE A POLÍTICA DE RESERVA DE VAGAS NAS FACULDADES (Espontânea e única, em %)

Pergunta: Qual das seguintes frases se aproxima mais do que o(a) sr(a) pensa sobre as universidades públicas? E em relação às faculdades particulares, com qual frase o(a) sr(a) concorda mais?

POSIÇÃO SOBRE RESERVA DE VAGAS PARA NEGROS NAS EMPRESAS E SERVIÇOS PÚBLICOS (Espontânea e única, em %)

Base: Total das Amostra A - Fonte: NOP – FPA - 2003 Pergunta: O(a) sr(a) é a favor ou contra a reserva de vagas para negros nas empresas e serviços públicos? Totalmente ou em parte?

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Daniela Gomes

Festa de São Benedito Celebrando a liberdade A comitiva Já passam das 7h da manhã e o ônibus estaciona. A ansiedade de conhecer um evento tão comentado, contagia a todos que participam da excursão, principalmente aqueles que nunca vivenciaram a experiência. Ao longe, já se pode avistar a cidade. Pequena, como qualquer outra cidade do interior, o reflexo não mostra a grandiosidade do que está para acontecer ali. A primeira surpresa é a passagem pelo rio. Muitas pessoas passam ao mesmo tempo por uma ponte de madeira. A maioria é negra e reuniu-se com o ideal de participar da festa. Seja com a intenção de homenagear São Benedito ou simplesmente de festejar e se alegrar com os amigos, o semblante é o mesmo na maior parte dos rostos. Claramente notase a alegria presente. A chegada à Praça da Matriz, mesmo que ainda seja muito cedo, já é dificultada pela multidão. Todo cuidado é pouco para não se perder do grupo com quem se veio, pois dificilmente haverá um reencontro. Com a mesma alegria apresentada durante a viagem, as rodas de samba se aglomeram em volta da praça central. E enquanto isso, a igreja de São Benedito, memorando histórico da luta de um povo cativo, que elegeu um irmão de sofrimento como padroeiro, recebe alguns fiéis em busca de conforto os quais agradecem as bênçãos recebidas.

Vamos celebrar A festa pode ser vista por todo o lugar e a multidão negra se aglomera em cada beco da cidade. Para cada passo dado, o tempo

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que se fica parado em um mesmo lugar é três vezes maior. Não se consegue andar e no correr das horas, o sol quente vai bronzeando cada vez mais as peles escuras que presenciam o momento. Por volta das 10:30 horas, todos já começam a encontrar amigos, conhecidos, parentes, que de uma maneira ou de outra, souberam da festa e chegaram à cidade de Tietê. O tempo é de celebração. É hora de festejar a liberdade, a alegria, a união e tantas outras conquistas adquiridas a duras penas após mais de cem anos da abolição. Nelson Fortunato Jr., 23 anos, sabe bem como funciona a celebração em Tietê.”É o terceiro ano que eu venho e sempre resolvo participar para encontrar a galera e me divertir”. Já passa do meio-dia e São Benedito está na capela, recebendo a visita de seus devotos que lhe prestam homenagens.

O comércio O início da tarde traz outra preocupação para os participantes da festa. Onde comer? A cidade não é muito estruturada para alimentar a multidão que circula por suas ruas. Os poucos restaurantes presentes estão superlotados. Donas de casa passam a abrir suas residências e oferecer refeições a preços acessíveis. A comunidade católica local prepara um bingo em homenagem ao santo. Em meio ao jogo realizado para angariar fundos, é possível comer um frango assado, pães e uma salada, o que sacia a fome de alguns. Mesmo assim, a maioria dos personagens desse capítulo da festa é da própria cidade. Os visitantes se espalham em volta dos vendedores ambulantes que em sua maioria vêm de outras regiões para ganhar algum dinheiro. O comércio local e até mesmo os vendedores alternativos chegam a faturar, em um único dia de festa, o que normalmente não conseguem faturar em três meses. Um vendedor de churrascos, em


frente à praça. Em meio à música, as conversas e as paqueras, algumas pessoas se aglomeram em redor do vendedor sem se dar conta da maneira como o alimento está sendo preparado. O uso dos banheiros públicos é praticamente impossível, devido às filas quilométricas nas portas. Assim, surge entre os moradores mais uma oportunidade de ganhar um troco. Por R$1,00 é possível usar o banheiro de algumas casas, sem enfrentar filas e com a vantagem de ser um lugar asseado. Paralelamente, São Benedito espera na capela ansiando para saciar a fome espiritual dos fiéis que o visitam.

A devoção A tradição da festa, no entanto, é baseada em muito mais do que diversão, alegria e oportunidades. A história da festa de São Benedito, no município de Tietê, está baseada em batalhas e ilustra a luta da comunidade negra no país. A celebração teve início a partir de um protesto contra o clero e a sociedade local que não admitiam o culto a um santo negro. Assim, lutando para garantir o direito ao culto, os escravos fundaram a irmandade de São Benedito. Dados afirmam que em 1871, os escravos trabalhavam durante a noite na construção da igreja, mesmo após um dia de trabalho pesado. Apesar de toda a importância histórica para o povo negro, poucas pessoas sabem o que deu início a essa comemoração. A festa deste ano contou, com cerca de 70 mil pessoas. Anônimos e famosos, jovens e velhos, negros, mestiços e brancos andam pelas ruas de Tietê na festa da comunidade. Mas a dúvida que permanece na mente de alguns é: qual o ideal que une essa multidão? Aqueles que crêem no santo não perdem a oportunidade de mostrar sua fé. Ao lado da igreja, todo tipo de artigo devocional é vendido. Imagens, orações, fitas, tudo em barracas para quem quer guardar uma lembrança ou deseja, simplesmente, uma benção imediata. Nota-se, no entanto, que esse

tipo de evento acaba perdendo o sentido religioso para tomar o formato apenas de grande festa. Enquanto uns sambam e outros conversam, é possível encontrar um político negro influente, andando pelas ruas de Tietê, entregando santinhos relativos à candidatura em São Paulo. Coincidentemente, a história de vida do santo mostra que enquanto viveu ele também sofreu com um certo abandono. Segundo pesquisa realizada na Revista Afirmativa, o santo nasceu na Itália, em 1526. Filho de escravos etíopes foi trabalhar ainda criança na cozinha de um mosteiro da ordem de São Francisco de Assis. Com esforço e dedicação, alcançou o grau superior do convento, e mesmo assim, foi mantido pelo clero na cozinha por mais de 42 anos. Fez voto de pobreza e dedicou a vida à ajuda aos pobres. Morreu aos 63 anos e só foi canonizado em 1807. A postura da maioria das pessoas que compareceram ao evento choca os devotos que participam da festividade com o intuito de prestar reverência. A decepção é clara no rosto de algumas pessoas. “Tanta gente reunida na cidade, mas a grande maioria nem se lembra que o princípio da festa é uma comemoração religiosa”. comenta um transeunte. A falta de sensibilidade de alguns dos participantes da festa, no que diz respeito ao santo, causa um certo desconforto nos mais fiéis. Católica praticante, Maria de Lourdes Faustino se sentiu extremamente ressentida com a falta de compromisso presente no local. “Eu nunca mais volto. É a primeira vez que venho porque queria conhecer. Sempre ouvi falar, mas depois do que vi aqui, não volto mais”. afirma Maria.

Em meio às comemorações, a política e ao comércio, São Benedito continua na capela histórica, sem ter sido convidado para a Festa que ocorre do lado de fora.

Até o próximo ano O fim da tarde encontra os visitantes de Tietê em sua maioria cansados e ansiando pelo retorno ao lar. Um dia sob o sol do último Domingo de setembro é suficiente para exaurir a maioria das pessoas. Nos últimos instantes o cansaço faz com que todos almejem voltar para suas casas em paz. Começa a caminhada para o estacionamento, onde a multidão espera pelos veículos que a conduzirá de volta. As histórias sobre o dia já começam a ser contadas e os detalhes começam a aumentar e ganhar maiores proporções. É hora de pegar a alegria, a celebração, à bebida, os namoros de momento e toda a empolgação da festa, colocar na bagagem e levar para casa. São Benedito por sua vez, despede-se de seus visitantes com a certeza de que a maioria volta no próximo ano.

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Coronelismos

e Violência Contra a Mulher Negra

concentração das terras, da força bélica e econômica, seria ainda o manipulador das eleições locais, definindo quem, na estrutura política, era ou não era “sua gente”.

Rebeca Oliveira Duarte*

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efletir sobre os significados da violência contra a mulher para a sua superação, inevitavelmente, leva a refletir sobre as configurações de uma hegemonia branca e masculino-dominante (levando em conta que entre as diversas masculinidades há subalternidades) nos espaços de poder. Para pensar sobre essa hegemonia, vou propor a sua nomeação de “coronelismos” ao agrupar as velhas e as novas constituições de poder patriarcal e racista. E daí convidarei as leitoras e os leitores a rememorar, antes de tudo, a origem do que veio a constituir o “poder do coronel”.

O velho coronelismo O título de “coronel”, dado aos homens de grande poder local em regiões agrárias e de pouca presença estatal, veio da Guarda Nacional, milícia civil criada para substituir as forças oficiais suplantadas com a deposição de D. Pedro I. O governo da regência havia posto à venda os títulos militares; assim, grandes proprietários urbanos, com renda anual superior a 200 mil réis, e grandes proprietários rurais, com renda anual superior a 100 mil réis, poderiam se tornar major, tenente, tenente-coronel e coronel, realizando por sua conta o “patrulhamento” das ruas, estradas e propriedades nas primeiras décadas do séc. XIX. Os grandes senhores de engenho ou de gado, descendentes de um processo histórico de expropriação das terras indígenas, exploração do trabalho escravizado e apropriação exclusiva dos recursos naturais, concentravam em suas mãos, assim, o poder local; com o tempo, esses grandes fazendeiros eram conhecidos, de forma geral, como coronéis, com grande poder de mando em suas regiões. Após a proclamação da República, o papel de coronel tomou outras dimensões; além da 48 EPARREI

A imagem do senhor coronel foi romantizada na literatura brasileira e nas expressões de cultura nacional. Como exemplo, atualmente assiste-se a uma novela global em que os coronéis são envoltos numa picaresca nuvem de folclorização, cuja violência real de suas manifestações de poder são ocultadas ou suavizadas em detrimento da verdadeira representação do coronelismo. Nas cenas, as mulheres negras, confinadas ao trabalho doméstico, são as “crias” da casa grande, convivendo em verdadeira devoção aos seus patrões e patroas. Essa cena caricatural acaba por minimizar ou escantear o processo de violência que de fato estrutura o coronelismo com uma dimensão relacional de poder para além do modo de produção; oculta que o processo da centralização do poder no “coronel” se deu pela exploração histórica da pessoa negra e indígena e pela dominação sobre a mulher, definindo um local de poder exercido pelo patriarca branco em relações público-privadas de dominação humana, seja com o apoio ou com a omissão das instituições estatais.

Os neocoronéis O coronelismo manteve-se, ora menos, ora mais, presente nas velhas oligarquias do país, em especial nas oligarquias agrárias que perpetuaram o mando local em nome das famílias de grandes proprietários de terras – em verdade, grileiros de terras e exploradores de trabalho análogo à escravização, como nas grandes usinas da zona da mata pernambucana. Retomou sua força, contudo, após o golpe militar de 1964, pela articulação dos militares com essas oligarquias, especialmente no Nordeste brasileiro. “Coronel” passou a ser sinônimo de homem de força política nos grotões nordestinos, com o grande poder de mando concentrado em seus espaços.


Pelo fortalecimento da mulher negra: a radicalização da democracia

A violência institucionalizada durante esse período, muito além da perseguição política aos opositores do poder local e nacional, refletia a mesma violência de origem patriarcal e racista no âmbito do poder “privado” instituída desde a formação nacional. O doméstico, como reflexo “privado” do público, mantinha-se (e ainda é alimentado) como espaço livre para as expressões impunes da violência contra mulheres e meninas. Esposa e filhas, como objetos de posse do homem e submetidas ao mando político e sexual do “coronel”, qual produtos desse mando poderiam ser eliminadas “legitimamente” se “traíssem” a sua confiança; o assassinato – na maioria das vezes com requintes de crueldade – de mulher “adúltera” ou filha “perdida”, por ser questão de honra, nem precisava ir ao júri popular. E, se por acaso chegasse ao judiciário, a absolvição era certa, já que a mulher era “sua” e a honra precisaria ser lavada com sangue. Daí o clássico popular como legitimação: “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”. A mulher negra, constituindo maioria dentre as trabalhadoras domésticas em decorrência da sua situação socioeconômica e cultural, representava, ainda mais, a sobreposição dos sujeitos subalternizados pela hegemonia branca, masculina e agrária: além de mulher, era negra e trabalhadora. Sobrepunham-se, da mesma forma, os instrumentos de dominação. Pelo poder do homem/coronel, a violência física e sexual permanecia na representação de poder dos engenhos. O “quarto da empregada” foi estabelecido como uma “neosenzala” nesse “neocoronelismo”, o mesmo espaço para a violação da dignidade da mulher negra, das condições subumanas e da invasão do patrão para a sistemática do abuso e violência sexual.

O “microcoronelismo” Essas configurações de poder patriarcal e racista, no entanto, não são restritas aos grandes coronéis da aristocracia agrária brasileira; elas migram às instituições familiares que erguem um muro imaginário entre as dimensões pública e privada para a perpetuação da violência doméstica decorrente desse poder. Tal muro, que define uma falsa dicotomia público/ privado, é apenas a garantia para o confinamento da mulher e da menina e, em especial, a mulher e menina negras, num suposto espaço privado em que são invisibilizadas a violência, a exploração da força de trabalho feminina e negra e a exploração sexual. Essa migração conforma os coronelismos presentes não mais apenas entre os grandes proprietários de terras e de bens de produção, mas entre todos os que possuem os instrumentos de dominação sobre a mulher, seja a força ou o predomínio nos campos político, social, cultural e econômico. São o que chamo aqui de “microcoronelismos”. O microcoronel, seja burguês ou trabalhador, capitalista ou socialista, proprietário ou camponês, quer chegar em casa e encontrar almoço pronto, café quente e filhos tomados banho. O microcoronelismo urbano constrói e mora em apartamentos com o “quarto de empregada” agregando o eixo da exploração da trabalhadora doméstica – área de serviço, cozinha e porta de serviço – de forma que a mulher possa entrar e sair, dormir e acordar sem ser percebida na área social, ainda devendo descer pelo elevador de serviço. Os microcoronéis, independentemente de classe ou raça, querem perpetuar seu poder de “patriarca” no espancamento das companheiras e, muito comumente, no abuso sexual às suas filhas. O microcoronelismo significa a manifestação por excelência da “privatização” do poder patriarcal e racista espelhado em todas as estruturas de poderes públicos em nosso país. Como a “identificação do privado com o doméstico desempenhou papel importante na subordinação das mulheres” (CAMURÇA, 2001: 168), o ambiente doméstico apresentou o espaço perfeito para a constituição dos microcoronéis que reproduzem a violência contra as mulheres e as meninas como instrumento de dominação, articulando variadas formas de opressão.

A violência doméstica contra a mulher negra, portanto, é o produto das relações de poder do patriarcalismo, do racismo e das oligarquias. E, como produto das mesmas, apresenta diversas manifestações. A Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher (CONVENÇÃO DE BELÉM DO PARÁ, 1994) dispõe que o direito de toda mulher a uma vida livre de violência inclui, entre outros, o “direito da mulher de ser livre de toda forma de discriminação e o direito da mulher ser valorizada e educada livre de padrões estereotipados de comportamento e práticas sociais e culturais baseados em conceitos de inferioridade e de subordinação” (art. 6º). Nossa luta, diante dos coronelismos, é não só contra a violência física, mas contra a violência simbólica que invade nossa auto-estima, casa, escola, cidadania e participação política, fortalecendo-nos como sujeitos sociais para a radicalização da democracia. Propor a radicalização da democracia é combater todas as formas de discriminação contra a mulher e todas as formas de discriminação racial. Pôr fim aos coronelismos é lutar por uma completa reorganização dos espaços públicos e privados, possibilitando o enfrentamento concreto da violência contra a mulher negra que reproduz a sua opressão. Em outras palavras, a mudança nas articulações do poder para a efetivação da democracia exige processos de redefinições da cidadania, com a ativa participação política das mulheres e a completa intolerância às violências cometidas contra nossa integridade física, emocional, psicológica e política. Por fim, derrubar os coronelismos que perpetuam o poder patriarcal e racista, sob todas as dimensões da vida, é a condição fundamental para a inclusão da mulher e menina negras e para a emancipação da sociedade brasileira a uma ordem de justiça social e de profundo respeito à Dignidade Humana.

Indicações de Leitura ÁVILA, Maria Betânia. (2001), Textos e imagens do feminismo: mulheres construindo a igualdade. SOS CORPO: Recife. CAMURÇA, Sílvia. (2001), A Política como questão: revisando Joan Scott e articulando alguns conceitos. In Textos e imagens do feminismo: mulheres construindo a igualdade. SOS CORPO: Recife BRUSCHINI, Cristina e UNBEHAUM, Sandra G. (orgs). (2002), Gênero, Democracia e Sociedade Brasileira. CFF/Ed. 34: São Paulo.

*Articuladora do Observatório Negro, em Pernambuco; advogada popular no combate ao racismo; especialista em Direitos Humanos pela UFPB; educadora; mestranda em Ciência Política pela UFPE/Bolsista do CNPq

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As trançadeiras Texto e fotos: Oriwani

O

resgate da cultura negra através da trança afro, mudou o visual da juventude afro-descendente da periferia de Salvador. As responsáveis por essa transformação são as trançadeiras da Praça Terreiro de Jesus do Bairro Pelourinho em Salvador (BA). Considerada arte dos guetos na década de 70, hoje, não só moças e rapazes da periferia, mas também turistas que visitam o Pelô têm procurado com freqüência,as trançadeiras para fazer penteados estilo afro. Mas nem tudo são flores, para as batalhadoras do Pelô. Presença constante na praça Terreiro de Jesus, as quarenta e duas trançadeiras, que ali ganham a vida, ainda vivem constantemente ameaçadas pelo “RAPA”. Os fiscais as expulsam das festas e eventos culturais que ocorrem na praça. 50 EPARREI

do Pelô criaram associação para fugir da repressão do “Rapa“ em Salvador

Para nos esclarecer a respeito desta triste realidade, encontramos Sandra, trançadeira responsável pela conscientização das outras quarenta e duas que trabalham no Pelô. Ela explica as dificuldades para se trabalhar no local: “Nós só podíamos trabalhar escondidas, nos becos e sempre fugindo do Rapa da Prefeitura. Eles quebravam nossas cadeiras e jogavam o material no lixo. Era um sofrimento. Até hoje, nos chamam de prostitutas e dizem que ficamos na praça para atrair turistas. Não é nada disso! Somos, na maioria, mães solteiras sim, mas que trabalhamos para criar os filhos. Sabemos fazer a nossa arte e temos o direito de trabalhar com dignidade. Só tivemos um pouco de paz depois que procuramos o apoio da Unegro (União Nacional de Negros),

e agora entendemos, que sem união não se chega a lugar nenhum. Algumas resistem em fazer parte da associação e contribuir com uma pequena taxa para se cadastrar na Prefeitura, bem como não querem participar dos cursos oferecidos pelo Sebrae e o IMPAC, que é o órgão que trata do patrimônio histórico do Pelourinho. Entretanto, nossa profissão é tão digna quanto outra qualquer”. Bárbara Hippie foi a primeira trançadeira a chegar no “Terreiro de Jesus”, no Pelourinho.Ela fala para Eparrei, das mudanças ocorridas na estética negra, até os dias atuais.“Cheguei aqui na década de setenta, depois de “perambular” por muitas estradas do Brasil, sempre fazendo a cabeça da moçada. De lá para cá, muita coisa mudou. O pessoal tinha

medo de trançar o cabelo e preferia andar com ele alisado a pente de ferro quente e com pasta alisante, muitas vezes danificando o couro cabeludo. Os jovens de hoje já estão mais conscientes sobre a nossa cultura e têm orgulho de mostrar a estética afro. “São mais cabeça”. Comecei com o “rabicó”, muito usado em Marrocos, com linha e contas coloridas. Depois passei ao estilo “rastafari”, que era considerado arte marginal. Em seguida,trabalhei com a trançada com lã, o “kanekalon” cacheado, até chegar aos penteados de hoje, onde utilizo de suporte a fibra sintética, importada da África e dos Estados Unidos. O que sabemos é resultado de intercâmbios culturais. Aprendemos nossa arte desde criança, observando as outras


trabalharem. Isso contribuiu para manter a tradição. Desconfiadas,as demais vão se aproximando de nossa equipe.Ao saber que não somos funcionárias da Prefeitura local, respiram aliviadas.Logo, todas querem dar seu depoimento. Optamos por gravar o depoimento por ordem de chegada. Vanderléa é a mais agitada do grupo. Botina me prende, sapato me solta. “Eu paguei a taxa que o Instituto de Patrimônio Artistico e Cultural cobrou.Não aceito concorrência desleal.Tem que ter uma tabela, todas devem assinar.Ontem uma novata quebrou nosso acordo.Na confusão chamou a polícia. Não deu em nada, estava com tudo certo. Botina me prende, sapato me solta. ”Mona Lisa é a alegria da Praça.Nas horas vagas, liga o som e ensaia os passos que irá executar no carnaval à frente do Bloco”Male de Balê” “Os motoristas de taxi me discriminam

porque sou gay.Não vivo pedindo nada para ninguém. Meu trabalho é honesto.Somos artistas.Cada temporada nós inovamos e quem determina o estilo é o povo, que escolhe o modelo do penteado que pretende usar”. Eronildes Francisca sai de casa às 6:00 só retornando para casa por volta de 23:00 horas. “Prefiro trazer meu filho do que deixar ele longe dos meus olhos e se acabarem como nossa presença aqui, deixaremos de ganhar de R$200,00 a R$400,00 por mês. E o que faremos da vida? Como sustentar nossos filhos com esse desemprego? Jerusa Alves, trabalha no local há quinze anos.Sua filha caçula está se preparando para ingressar na Universidade.Ela vende acarajé com sua avó próximo ao Elevador Lacerda. “Ajudo minha filha no que posso.Ela também tem que

batalhar..Nós que trabalhamos na praça temos condições de manter um salão, pelo custo, que é muito alto. Não queremos, de maneira alguma, concorrer com salões estabelecidos. Não podemos de jeito nenhum deixar de atender o povo pobre da nossa cidade.São pessoas que não podem nos salões pagar R$ 300,00 ou mesmo R$ 200,00, para fazer uma trança. Nosso preço é menor, porque o povo da periferia não tem muito dinheiro e quer ficar bonito, daí fazemos preços diferenciados: quem pode, paga mais”, explica.

Mantendo uma estética negra Os penteados mais procurados pelas jovens são as “tranças nagô” e suas variantes como a “tiara”, também apreciada pelos turistas. Em seguida, as mais requisitadas são a trança “rastafari” e os implantes que utilizam fibra sintética. A “trança nagô” também chamada de trança de raiz. A “trança rasta” e o dread Locke, este último muito utilizado pelo cantor Bob Marley, são construídos a partir de aplicações de cera de abelha. Por sua vez, a “trancinha solta” também é elaborada com implante de fios de fibras sintéticas e demanda cerca de quatro horas para ser trançada. Na opinião de Sandra, líder das trançadeiras: “A trança nagô é o penteado de maior identidade cultural da negrada de Salvador, é a mais pedida. Os implantes e alongamentos são os preferidos das mulheres e as tranças rastafari e os dread locks são os preferidos dos rapazes, que se identificam com o raggae do Bob Marley”, explica ela. Jerusa Alves, Eronildes Francisca, Sandra e Bárbara, em nome das colegas, continuam lutando e estão muito perto de regularizar a situação das profissionais.

Fazem um trabalho de verdadeira conscientização sobre a necessidade do cadastro junto ao INSS, no intuito de resguardar o direito das trançadeiras a uma futura aposentadoria.As trançadeiras têm visão de mercado e conhecem muito bem as noções básicas do atendimento ao público. A idéia de permanecer em locais que não causem conflito com as baianas do acarajé, já é consenso. São conscientes da impossibilidade de se trançar cabelos perto de locais onde se trabalha com comida. Projetam a criação de uma tabela, com preço único, além da participação em cursos, especialmente para obterem noções básica de inglês, com vistas ao melhor atendimento, considerado o fluxo intenso do turismo internacional em Salvador. O que impressiona é o fato de que as adversidades não impedem o resgate cultural, a pluralidade e a valorização da auto-estima negra, contidos no belo trabalho que é desenvolvido pelas profissionais de Salvador. Trata-se de mais uma luta negra de sucesso.

Resgatando a Cultura e formando profissionais conscientes “Nega de cabelo duro, que não gosta de pentear... O teu cabelo não nega ...” “O preconceito contido nas músicas e no imaginário popular, com relação ao cabelo do povo negro, tem causado um dano enorme em nosso psiquê. Isso tem nos acompanhado desde a infância. Fizeram-nos acreditar, que nosso cabelo é ruim e duro. Por conta disto, é que o trabalho que desenvolvemos implica na valorização e conscientização

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O tempo de duração das tranças varia de acordo com os hábitos de cada mulher. Pode variar entre 15 dias e 3 meses, mas isso depende dos cuidados com a secagem das tranças e do estado dos cabelos antes do penteado. Preservar a saúde dos fios trançados não demanda muitos cuidados especiais, é preciso somente uma maior freqüência de massagens e hidratações. O ideal é que eles nunca fiquem úmidos por muito tempo e que na hora de retirar as tranças, elas sejam desfeitas com cuidado. Após a retirada, deve-se utilizar óleos e cremes hidratantes e aguardar o período de uma semana, antes de fazer um novo trançado. Para pentear cabelos não trançados, nada melhor que o pente black, que tem formato de garfo e por isso não danifica, não quebra os fios. O do que é ser mulher negra.Ser, literalmente, uma bela profissional, consciente de sua negritude, além de aprender uma atividade com que se possa trabalhar imediatamente são fatores importantes para uma mulher negra pobre”, reconhece Elcy, trançadeira há vinte noves anos uma das professoras da Casa de Cultura da Mulher Negra em Santos. Elcy Branco e Margareth Martins são responsáveis pela formação de mais de 2.000 trançadeiras na Baixada Santista. Atuam há quinze anos, no curso de capacitação mantido pela CCMNegra.A proposta dessa atividade, coordenada pela instituição, é o resgate cultural associado ao oferecimento de alternativas para geração de renda às mulheres. A vantagem que torna diferenciado o trabalho para o qual estão sendo capacitadas repousa

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justamente na possibilidade de trabalhar na companhia dos filhos, mantendo o cuidado com as crianças, já que podem exercer a profissão no âmbito do lar. Especialistas da área, nossas profissionais orientam as leitoras de Eparrei, sobre como tratar dos cabelos étnicos: “Ao contrário do que muitos acreditam, a trança não quebra os fios e nem os estraga. Trançado, o cabelo fica mais próximo do couro cabeludo e recebe melhor a oleosidade natural. Recomendamos, que antes de se fazer a trança, seja realizada uma boa hidratação nos fios. O trançado ajuda a tratá-los, protegendo-os contra os efeitos nocivos do sol e do vento, sem contar que aceleram o crescimento, mantendo-os hidratados.

cabelo do povo negro é diferente dos demais, e por isso mesmo, é preciso manter cuidados especiais, porque ele é mais delicado do que o cabelo escorrido. Óleos vegetais também são aliados dos fios e podem ser colocados dentro dos cremes de massagem. Os de coco e de rícino dão brilho e protegem os cabelos. Outro item, que ajuda a manter a saúde dos cabelos, são os cremes para desembaraçar e os umidificadores que facilitam o penteado”, ensinam. As organizações que tiverem interesse no Curso de Capacitação Afro da CCMN entrar em contato através do e-mail: ccmnegra@uol.com.br / ccmnsantos@globo.com ou por telefone: (13) 3221-2650 ou (13) 3223-2493 ou por carta para a Rua Professor Primo Ferreira, 22Boqueirão - Santos - CEP 11045150.


Se Ligue os Visitadores Eclesiásticos e as Irmandades Negras no Século XVIII Mineiro. Rev. bras. Hist., 2002, vol.22, no.43, p.33-46.Palavraschave: irmandades negras; visitadores eclesiásticos; festas religiosas. http://www.scielo.br/ KRAAY, Hendrik. Em outra coisa não falavam os pardos, cabras, e crioulos: o “recrutamento” de escravos na guerra da Independência na Bahia. Rev. bras. Hist., 2002, vol.22, no.43, p.109-126..Palavras-chave: independência; escravidão; recrutamento militar. http://www.scielo.br/

PUBLICAÇÕES

MÚSICA

Almanaque Pedagógico - O Almanaque apresenta aos educadores material alternativo com sugestões e informações para construção de metodologias positivas de tratamento pedagógico da diversidade racial. Contato: Livraria da CCMN: E-mail ccmnegra@uol.com.br Mazza Edições E-mail edmazza@ma zzaedicoes.com.br Sob o Signo das Bios: Vozes críticas da Sociedade Civil- Volume I Ana Regina Gomes dos Reis, Miriam Nobre, Alejandra Rotania , David Hathaway e Jurema Werneck Fundação Heinrich Böell, CRIOLA e Ser Mulher Fundação Böell: (21) 3852 1104 – e-mail: boell@boell.org.br Violência contra a Mulher - Um olhar da Mulher Negra Publicação da Casa de Cultura da Mulher Negra Pedidos por E-mail: ccmnegra@uol.com.br

Espelho Infiel: O negro no Jornalismo Brasileiro - Coletânea organizada por Rosane da Silva Borges e Flavio Carranca Imprensa Oficial do Estado de São Paulo - Contato: e-mail: rosaneborges@yahoo.com.br

Arícia Mess - Uma mescla de Clementina de Jesus, MPB, Soul, Jazz e candomblé. Esse é o estilo da cantora carioca Arícia Mess. A cantora que já foi backing- vocal de Fernanda Abreu e Kid Abelha, lançou seu CD de estréia “ Cabeça Coração” no ano passado pelo selo independente. Suas músicas estão sendo tocadas nas pistas hypes da Alemanha, Itália e Japão. Além de divulgar seu CD, a cantora ainda participou do primeiro álbum do cantor Seu Jorge ex- Farofa Carioca. Seu Jorge - O swing das canções do ex- Farofa Carioca agrada em seu novo DVD. Destaque para a música “Carolina” em ritmo de gafieira e para o sucesso “Tive Razão”.

Tear Africano Henrique Cunha Júnior Onze contos que falam da vida cotidiana do povo negro e seus problemas. Contato:Ed.Selo Negro

12345 Blues - Para quem gosta de Blues, não pode perder esta coletânea que tem em seu repertório versões originais de clássicos como “ The Sky Is Crying” de Elmore James entre outros. Nas faixas ao vivo vale conferir “Stormy Monday” com T- Boné Walker. Sum Records - 2004 Na humilde-Nega Gizza-Irmã do

rapper MV Bill, a cantora mistura ritmos como rhythm`n`blues e hip hop em suas letras muitas delas autobiográficas mostrando a realidade da cantora nascida na Cidade de Deus. Zâmbia / Dum Dum Records 2002 Cesaria Evora Voz D´Amor-Com o Voz D`Amor seu 11º CD a cantora ganhou em 2003 o Grammy de melhor álbum de Word Music. The Best of B.B King O CD é uma apresentação ao vivo de um dos maiores mestres da história do Blues. Neste CD estão os sucessos que resistiram ao tempo. Sum – Records 2004

SITES DE INTERESSE www.africanlooms.net http://holocaustonegro.jeeran.com/ www.familianegrabrasil.com Historianet - História, artes, livros, notícias culturais, etc... http://www.historianet.com.br Mundo Negro - Revista Virtual www.mundonegro.com.br Centro de Cultura Negra do Maranhão. www.ccnma.org.br/ CFEMEA- Centro Feminista de estudo e assessoria. www.cfemea.org.br/ Grupo Cultural Afroreggae http://www.afroreggae.org.br/ Olodum - Grupo Cultural Olodum http://www.uol.com.br/olodum SECNEB - Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil http://www.mestredidi.org/ http:www.casadeculturadamulhern egra.org.br http://www.fpa.org.br www;// mulheres negras de umbigo para o mundo

Leituras On Line Revista Brasileira de História EUGENIO, Alisson. Tensões entre EPARREI 53


Negritude do Maranhão

Continuação

O Estado do Maranhão e o da Bahia foram os que mais receberam escravos da África. Para o Maranhão vieram os angolas, congos, fanti-ashanti, nagôs, gêges, entre outros. Vieram principalmente dos países do Golfo de Guiné, de Senegal até Angola. Eles ficaram mais conhecidos como negros minas, porque eram embarcados, em sua maioria, na Costa da Mina (Costa do Marfim, Costa do Ouro, Costa dos Escravos e as ilhas portuguesas de São Tomé e Príncipe). Eparrei em São Luiz traz aos leitores uma parcela da nossa negritude no Maranhão.

O

Centro de Cultura do Maranhão é uma entidade do Movimento Negro fundada em 1979. No início das atividades, militantes do Instituto visitaram várias comunidades negras da zona rural maranhense, especialmente aquelas nas quais se acentuavam os conflitos pela posse da terra. Através de denúncias na imprensa, traziam ao conhecimento da sociedade uma realidade até então pouco conhecida: a existência e a luta das chamadas “Terras de Preto” ou “Comunidades Negras Rurais”. Em 1986, o Centro promoveu o I Encontro de Comunidades Negras Rurais do Maranhão, cujas propostas foram encaminhadas ao Congresso e levaram à criação de um projeto de lei de autoria da então Deputada Constituinte, Benedita da Silva. A proposta foi aprovada dando origem ao Artigo 68 ADCT( Ato das Disposições Constituicionais Transitórias) da Constituição Federal em outubro de 1988 ,a qual garante terras às comunidades remanescentes de quilombos. Atualmente, o CCN desenvolve ações em seis comunidades negras rurais, localizadas nos municípios de Itapecuru (Santa Rosa e Filipa) e de Alcântara (Cajueiro, Iririzal, Sóassim e Samucangaua). Durante os 16 anos de existência do Projeto Vida de Negro, realizado em conjunto com a Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, no período de 1988 a 2004, foram mapeadas 443 Comunidades Negras Rurais Quilombolas no Maranhão e das quais s 146 são comunidades tituladas . Saiba mais sobre o assunto acessando o site da organização no endereço www.ccnma.org.br

Tambor de Crioula Manifestação cultural considerada folclórica por não ser fruto do ensino institucional e da cultura de massa. O Tambor de Crioula é resultado da transmissão de conhecimentos herdados de antepassados africanos, marcando sua presença através dos tempos . Os grupos que participam desta manifestação se apresentam em praças 54 EPARREI

públicas, clubes e hotéis, não necessitando de um calendário específico para sua apresentação. Mulheres trajando saias floridas executam o” samba quebrado” num círculo que se fecha em torno de 03 tambores . Cada tambor obedece a função diferenciada no desenrolar da dança . O maior é chamado de roncador ou rufador, o médio é denominado de meio, socador ou chamador e o pequeno recebe o nome de tambor pequeno ou crivador. Antes do início das apresentações, é necessário que se execute o ritual de preparo dos tambores que são aquecidos, para se produzir um som melhor. Somente homens podem dar os toques nos tambores e somente mulheres podem dançar as toadas tiradas pelo cantador-mor. Contagiadas pelo ritmo genuinamente africano, produzido nos tambores, diversas pessoas fazem côro ao solista nas toadas que podem ser ensaiadas ou improvisadas. É na cumplicidade de olhares, que tocadores e dançarinas esperam o momento de “pungar”: circulam para esquerda e direita,acompanhando, em coro, ao cantador mor. Fazem isso, enquanto aguardam a solista, que está no centro da roda, escolher a próxima para substituí-la e aplicar a “punga”, ou seja, ambas se chocam frente a frente. De conteúdo totalmente religioso é o tambor de Crioula realizado na Festa de São Benedito no Município de Alcântara,festejado no último final semana de agosto, de sexta a segunda feira.. Em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário, o largo é enfeitado com bandeirinhas e no” arraia”, as barracas vendem comidas típicas. O povo aguarda ansioso o momento em que os tocadores vão entrar na Igreja, construída pelos escravos, para dar os toques nos tambores em homenagem a São Benedito. Retirado do altar, o santo se integra à procissão, que percorre as ruas da cidade, até parar na casa dos devotos que fizeram promessa. Os tocadores, sentados em cima dos enormes tambores, produzem o som para que as mulheres integrantes do Tambor de Crioula possam dançar em agradecimento ao santo. Ninguém resiste ao encanto.E de outras janelas, aguardam-se com ansiedade a hora do Tambor de Crioula chegar. Suporte bibliográfico CD vol.2-Midiatronics - wwwmidiatronics.com.br / Apostilas do Centro de Documentação Carolina de Jesus. Núcleo de Educação


Sofri Racismo,

o que fazer?

Dez passos elementares

Dra. Tatiana Ferreira Evangelista Santos

S

ofri racismo, o que fazer? Essa é a pergunta que muitos brasileiros e brasileiras fazem ao serem surpreendidos com uma atitude racista e criminosa de alguém. E essas vítimas acabam deparando-se, na quase totalidade dos casos, com uma série de dúvidas e receios, que acabam desmotivando uma tomada de atitude. O racismo que vitima negros e negras é o tipo mais comum, que ocorre com maior freqüência. Essa parcela da população, que por motivos históricos, ocupa as camadas mais baixas da estratificação social, além de ser a mais atingida, acaba sendo a menos informada. Dessa forma, a vítima que foi ofendida, que ficou a mercê da situação nefasta de sofrer algum tipo de discriminação racial, tem que tomar alguns cuidados e medidas. Passemos a analisá-las pormenorizadamente. Para esclarecer, chamaremos de agressor, (a) aquele ou aquela que cometeu qualquer crime racial, e vítima ou ofendido (a), a pessoa que sofreu a ação deste crime. Convém também diferenciar, de uma forma simplificada, o que é o crime de racismo, do que é o crime de injúria racial ou injúria qualificada pelo preconceito. Configura-se o crime de racismo, quando o (a) ofendido (a) foi impedido (a) de exercer um direito seu, por conta de sua raça/etnia. Exemplo 01: se qualquer pessoa for impedida ou se for dificultada a sua entrada em local público, por ser negra (o), Exemplo 02: se qualquer pessoa deixar de receber promoção no emprego, em razão da sua raça/etnia ou se lhe for impedido o acesso uma vaga de emprego, pelo mesmo motivo. Já o delito de injúria racial, ou injúria qualificada pelo preconceito, acontece quando a pessoa é xingada ou ofendida na sua honra e na sua moral por meio de palavras, escrito ou gestos, que contenham elementos de origem étinco-racial. Configura-se quando o indivíduo é depreciado em razão de sua raça, que passa a ser considerada como algo negativo. Exemplo:se qualquer pessoa for xingada de “negro (a) safado (a)”, “seu macaco (a)” etc. Dito isso, passemos as estratégias:

1º passo: A vítima não deve revidar. No momento em que a vítima se submete ao crime de racismo ou de injúria qualificada pelo preconceito, é de suma importância que a mesma não revide o comportamento criminoso. Se a vítima for ofendida na sua dignidade, com alusões à sua raça, em hipótese alguma deve proferir qualquer tipo de ofensa contra o (a) agressor (a). “Devolver” o xingamento, poderá implicar em impunidade do (a) agressor (a), pois a legislação prevê a possibilidade do (a) Juiz (a) deixar de aplicar a pena, a seu critério, caso a vítima tenha retorsido a ofensa. Assim, ainda que a situação leve a (o) ofendida (o) a “sair do sério”, ofensas raciais são causa de muita indignação, o auto - controle será imprescindível nesta ocasião. Quando o caso é de racismo, é importante também agir de forma calma, sem se exaltar ou perder o controle. Atitudes violentas contra o (a) agressor (a), tais como ameaça, poderão ser interpretadas pelo (a) Juiz (a) em desfavor da vítima, influenciando negativamente no seu convencimento. EPARREI 55


Além disso, a vítima também poderá responder penal e civilmente por seu comportamento criminoso, mesmo que em defesa contra o racismo sofrido, banalizando ainda mais os crimes raciais.

2º passo: Necessidade de Testemunhas Para que seja promovido um processo criminal, é imprescindível haver testemunhas presenciais contra o (a) agressor (a). Devem existir pessoas que viram o sujeito cometendo racismo ou injuriando a vítima. Poe essa razão, o (a) ofendido (a) tem que ter o cuidado de obter no local dos fatos, o nome, telefone e endereço das pessoas que assistiram à discriminação sofrida. Caso haja possibilidade, as testemunhas devem ser levadas à Delegacia para acompanharem a elaboração do Boletim de Ocorrência. O depoimento imediato evitará esquecimento e arrependimento posterior. O ideal é que sejam apresentadas no mínimo três testemunhas, que tenham presenciado os fatos, mas ainda que em número menor, devem ser apresentadas. Caso haja negativa das testemunhas em depor, a vítima deverá informar ao escrivão (ã) da Delegacia, no ato da elaboração do Boletim de Ocorrência, seus nomes e o local aonde podem ser encontradas. Os (As) parentes da vítima, em geral, não podem ser ouvidos (as) como testemunhas, em razão do evidente interesse em beneficiar seus consangüíneos e afins. Por isso, caso somente pessoas da família da vítima tenham presenciado os fatos, provavelmente o (a) ofensor (a) será absolvido (a), exceção, se houver outras provas que possam reforçar o depoimento dos (as) familiares. Havendo, ao menos, uma testemunha que não seja parente, os familiares poderão ser ouvidos pelo (a) Juiz (a), a seu critério, na condição de meros informantes e não como testemunhas. Vale frisar que, sem testemunhas, dificilmente vai haver processo, e se houver, não haverá condenação do (a) agressor (a).

3º passo: O Boletim de Ocorrência, na Delegacia. Comparecer à Delegacia para elaborar o Boletim de Ocorrência é imprescindível para que haja um processo criminal. O (A) ofendido (a) deverá procurar a Delegacia de Polícia mais próxima do local aonde os fatos ocorreram, e caso a mesma não se encontre em funcionamento, deverá procurar outra na mesma cidade. Se possível, a vítima deverá comparecer acompanhada de uma (um) advogada (o), que a orientará em como proceder na Delegacia. Ainda que desacompanhada de um advogado (a) a vítima deve narrar os fatos, fornecendo os seguintes elementos para a autoridade policial: a) O nome do (a) ofensor (a) (primeiro nome ou apelido), ainda que incompleto. b) O local aonde o (a) mesmo (a) reside, ou onde pode ser encontrado. c) A data do fato, especificando o dia e o horário em que aconteceu. d) O endereço do local dos fatos, ou a indicação de onde o crime ocorreu. e) O nome e o endereço das testemunhas que presenciaram o crime. A vítima tem o direito solicitar da autoridade policial uma cópia do Boletim de Ocorrência feito na Delegacia, para que possa levá-lo consigo. Caso haja alguma espécie de recusa, de qualquer funcionário, para elaboração do Boletim de Ocorrência, a vítima deverá procurar uma (um) advogada (a), que elaborará pedido de instauração de inquérito policial, o qual suprirá a falta do Boletim. Deverá também procurar a Corregedoria da Polícia Civil, para denunciar o 56 EPARREI

(a) funcionário (a) pela omissão. É importante levantar a seguinte questão: Acionar a viatura da Polícia Militar, através do telefone 190, é suficiente para que haja um processo? A resposta é negativa. A atuação da PM é repressiva, visa apenas evitar que o (a) agressor (a), por exemplo, continue xingando a vítima ou impedindo-a de adentrar em algum local por conta de sua raça. Contudo, mesmo com a presença da P.M. no local, e mesmo que os (as) policiais militares elaborem um Boletim de Ocorrência Policial Militar (BOPM), a vítima deverá comparecer á Delegacia, que é a sede da Policial Civil. O BOPM, por seu turno, servirá como prova no processo criminal, e por isso, deverá ser levado à Delegacia quando a vítima for fazer o Boletim de Ocorrência.

4º passo: O auxílio jurídico através de uma advogada ou advogado. A orientação através de uma (um) advogada (o), logo após a ocorrência do crime ou mesmo após a elaboração do Boletim de Ocorrência, é extremamente recomendável para o sucesso do processo criminal. Já quando se trata do crime é de injúria racial, fazer-se representar por um (uma) advogado (a) é obrigatório para que se dê início ao processo, com a propositura de uma ação penal privada, no Fórum. É a denominada queixa-crime.


9º passo: A necessidade de formar jurisprudência - processar é necessário para estimular o Judiciário e inibir o ofensor a novas práticas racistas. 5º passo: O prazo decadencial para propor a queixa-crime. Para a vítima que sofreu injúria racial, o prazo para elaborar o Boletim de Ocorrência, ou mesmo para quem já elaborou, o prazo para procurar um (uma) advogado (a) é de 6 (seis) meses, contados do dia em que o fato aconteceu. Caso esse prazo seja ultrapassado, ocorrerá fenômeno jurídico chamado decadência do direito de ação.

6º passo: O crime de racismo é imprescritível. Já para a vítima que sofreu racismo, não há prazo para processar o (a) agressor (a), porque o crime imprescritível. Além de imprescritível o crime de racismo é também inafiançável. Isto significa que o (a) agressor (a) que for preso em flagrante, cometendo discriminação, não poderá pagar fiança para ser solto.

7º passo: O processo, as penas e a remota possibilidade de prisão do (a) ofensor (a). É importante que as pessoas saibam, que dificilmente os (as) agressores (as) serão presos (as) pelo cometimento de crimes raciais. Não há registro de sequer um caso de prisão. Isso acontece, não só porque as penas geralmente são mais brandas, como por exemplo a prestação de serviços á comunidade, pelo período da condenação, mas também pela natureza do crime, de difícil flagrância. Mas, ainda assim, prosseguir com o processo criminal é importante. Uma condenação criminal por crime racial, ainda que seja a uma pena alternativa, dá a possibilidade da vítima obter indenização por danos morais na Justiça Cível. É importante ressaltar, que a condenação na Justiça Criminal, possibilita (ao) ofendido (a) ingressar com ação indenizatória na Justiça Cível. Não caberá mais discutir-se, se a conduta do agressor configurou crime. O objetivo será buscar o valor suficiente a reparar o mal sofrido. É óbvio que todo crime racial traz para a vítima prejuízo psicológico. Em alguns casos, o dano psíquico é mais grave e em outros, de menor intensidade, mas o prejuízo sempre existe. Da mesma forma, é evidente que não há dinheiro que recupere a dignidade humana, mas a indenização é necessária, tanto pela sua função compensatória (trazer alguma espécie de conforto á vítima) como pela sua função punitiva (nesse País a pena mais grave é aquela que “dói no bolso”) e inibitória (desestimular aquele (a) agressor (a) e outras pessoas a repetir comportamentos racistas).

Mais processos infundirão verdadeiro temor nas pessoas, que acham bastante comum a prática racista. Xingar, discriminar e impedir o acesso a direitos por motivos raciais é uma prática secular e que figura no imaginário coletivo, como sendo algo que pertence ao cotidiano. Muitos afirmam que é uma tradição cultural. Não obstante, a idéia da impunidade é que fortalece a perpetuação do racismo. Provocar decisões judiciais a respeito do assunto, para servirem de modelo para novos processos, para influenciarem outros (as) Juízes (as) e principalmente para serem usadas como argumento, para outros advogados (as) é o caminho para efetiva repressão.

10º passo: A conclusão. O certo é que, a importância de se conscientizar a população sobre a natureza criminosa das condutas racistas não pertence somente ao Estado. Nós cidadãos e cidadãs, que somos constantemente vitimizados pelo racismo, temos que dar a nossa contribuição. Não é só esperar uma atitude do Estado sem provocação, num conceito paternalista. Denunciar é valorizar os direitos do homem e do cidadão. Não contribuir para que prevaleça a impunidade, é uma questão de respeito á dignidade humana. Se por motivos históricos, sócio-culturais e econômicos, os negros e negras sofreram séculos de massacre, não se pode pretender estender esse massacre aos dias atuais. Vivemos num Estado, que se diz democrático e de Direito, no qual o racismo foi previsto na Lei Maior do país, que é a Constituição Federal, como crime imprescritível e inafiançável. Eis o reconhecimento da sua importância. Quando uma ofensa racial é proferida, há sempre um dano psicológico irreversível. É como se fôssemos marcados, feridos na alma. Na oportunidade da ofensa, lembramos que sempre somos vistos como cidadãos e cidadãs de segunda classe, ou pior: como coisa, tal qual acontecia na época escravagista. Quem não gosta de negros e negras, não tolera outras etnias não-brancas, não está compelido a mudar de opinião. O que não se admite, é que externe sentimentos como este, traduzidos em ofensa e discriminação, enfim, em condutas que a lei prevê como criminosas. Nós não temos vergonha de sermos negros e negras, ao contrário, temos orgulho. O que queremos é apenas o direito de vivermos livres, e não há como se falar em liberdade aonde não há respeito á diversidade.

8º passo: A perseverança, a paciência, os transtornos necessários de um processo. O processo criminal é demorado e a vítima deverá ser paciente e perseverante, comparecendo à Delegacia quando for solicitada, a todas às audiências e principalmente não desanimando, caso a decisão final seja desfavorável, com a absolvição do agressor, pois há sempre possibilidade de recurso. Todo processo judicial causa aos (às) envolvidos (às) uma série de incômodos, além da demora. Importunar as pessoas, solicitando-as para que sejam testemunhas, o confronto com o (a) agressor (a) no dia da audiência, a necessidade de comparecer diversas vezes ao escritório do (a) advogado (a), o dispêndio financeiro são transtornos necessários. Entretanto, dar às pessoas a visibilidade, a ciência de que comportamentos discriminatórios como estes são realmente criminosos, e que de fato submetem a processo criminal, é uma poderosa arma de desestímulo ao racismo.

A Dra. Tatiana F. Evangelista Santos é advogada titular do programa de combate à Violência Doméstica e Racial da Casa de Cultura da Mulher Negra de Santos. Caso você, que reside na Baixada Santista, tenha sofrido qualquer tipo de discriminação racial, procure a orientação jurídica e o auxílio psicológico da instituição, através do telefone (13) 3221-2650/3223-2493 ou no endereço Rua Professor Primo Ferreira, n.° 22, Bairro Boqueirão, Santos, São Paulo.

EPARREI 57


Texto e fotos: Ori Wani

Q

uem não se lembra do tabuleiro de feijão da baiana? Ficava no centro de Salvador em frente ao Elevador Lacerda. Das 20:00 horas até o dia amanhecer lá estava Dona Maria das Neves, servindo um saboroso feijão .Instalada no ponto desde 1945, cozinhando e temperando nosso tradicional feijão ficou conhecida como um símbolo da cultura baiana. Elegante, gostava de trajar seda e linho e fazia questão de usar perfume importado e jóias autênticas. Uma mulher negra, que não mediu esforços para educar os filhos. Alaíde da Conceição seguiu a tradição da mãe. Quem não conhece Alaíde do Feijão? É a terceira de doze irmãos, filhos de Dona Maria das Neves. Aprendeu ofício de cabeleireira, costureira, bordadeira e concluiu o Curso Científico. Os pais queriam que fosse professora ,mas o destino reservou para Alaíde da Conceição preservar a tradição herdada da mãe. Durante vinte e dois anos continuou trabalhando no mesmo local, temperando o feijão da forma que a mãe lhe ensinou. A fama de Alaíde do Feijão se propagou e com a reformulação do Centro Histórico de Salvador, recebeu convite da Prefeitura Municipal para vir trabalhar no Pelourinho. A principio possuía uma portinha onde mal cabiam quatro mesas. O pessoal não se importava e ficava esperando o momento para saborear o feijão de Alaíde.Situado na Rua l2 de Outubro, nº 02 no

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Pelourinho, o espaço hoje atende cerca de sessenta pessoas por dia, num local que comporta oito mesas de quatro lugares na parte interna e na falta de lugar é ampliada pelos consumidores através de mesas na rua. Reconhecido nacional e internacionalmente, o restaurante passou a figurar no guia turístico como uma das boas opções. Alaíde da Conceição cozinha o prato trivial do cardápio brasileiro.Incomum é a originalidade do preparo.Todos querem saborear o tempero do Feijão de Alaíde. Jornalistas e personalidades do meio artístico e político deixam sua marca no restaurante quando visitam Salvador. A adolescente que possuía apenas um tabuleiro e um fogareiro para aquecer o seu feijão, hoje com cinqüenta e seis anos de idade, é mãe de três filhos e sete netos, fala para Eparrei com orgulho de sua profissão e da conquista do espaço: “Com o fruto de meu trabalho consegui criar sozinha três filhos e sete netos. Sou o alicerce financeiro de vinte e duas pessoas em minha família.Minha casa abraça toda negritude de Salvador. Aqui acontecem também encontros culturais, políticos e religiosos e tenho orgulho de ser uma das poucas empresárias negras aqui no Pelourinho.” São muitas barreiras que encontra em cada passo que dá. Foi assim com os cursos profissionalizantes para meninas oriundas de terreiros de candomblé. Conseguiu apoio por duas vezes, da Fundação

Cultural Palmares e espera continuar com o projeto. No entanto, a verba que recebeu não conseguiu atender a demanda . “Pretendo formar multiplicadoras dessa cultura baiana levando a culinária para todos cantos do mundo. Se o Governo ou financiadores apoiarem cursos de capacitação para jovens negras da periferia, estaríamos diminuindo o desemprego. O aluguel, a água e a luz aqui são altos, sem contar as despesas com salários e encargos sociais. Precisamos de empregos e as garotas teriam também carinho, respeito e amor pela profissão “ Herdeira também, da nação Angola é filha de Obaluê e Yemanjá , relata que para se ter sucesso no ramo é necessário que uma boa administração venha acompanhada de dinheiro para investimento e capacitação de pessoal. “Somos vitoriosos. 90% do nosso povo sabe cozinhar os pratos que nossos

antepassados deixaram. Estou fazendo para quem sabe.” Numa demonstração de resistência, Alaíde está mudando o jogo ao empresariar nossa cultura. Muda o filme ,no qual a negra cozinha deliciosos quitutes e o branco é quem ficava com o lucro. “Assim como eu, outros estão reescrevendo a história de Salvador. O empresariado negro aqui no Pelourinho está representado por: Temos Goya Lopes no Didara Confecções, as Boutiques do Yle Aye e Olodum, os restaurantes Cantina da Lua e Sorriso de Dada, a Marta na Tecelagem, o Salão de Beleza Negra Jho e a Rosangela e John da Jamaica no ramo de hotelaria com o Suíte Quilombo do Pelô. Representamos uma parte da comunidade que também está na luta pela sobrevivência. Somos quilombos urbanos, focos de resistência“.


Professor

Henrique Cunha Junior Paixão pela história africana e por uma educação inclusiva

O

gosto pela militância foi herdado pelos pais. Ciente de que sua missão era somar-se ao Movimento Negro e da escassez de conhecimento sobre a história africana, o Prof. Dr. Henrique Cunha Junior percebeu que sua tarefa era produzir sobre a história do negro no Brasil e no continente-mãe. Estava dado o passo para continuar o caminho traçado pelos pais, também professores. Com formação em Engenharia e Sociologia, Cunha Junior ingressou na carreira acadêmica, aos 23 anos, na Universidade de São Paulo (USP). Por conta da vida universitária, residiu por cinco anos na França, período em que devorou materiais sobre história africana. De volta ao Brasil, Cunha Junior realizou o primeiro curso de formação em História Africana para docentes da rede Municipal da cidade de São Paulo. “Chegamos a ter no governo Erundina, que foi o governo que nos deu maior abertura, turmas com 500 professores e dar esse curso durante seis meses. Podemos realizar um curso com bastante substância”, afirma. Eparrei – Que facilidades a vida lhe proporcionou? Henrique Cunha Junior – Fui Externo Advice da Universidade da Guiana numa época em que havia professores nigerianos na instituição. A professora Adelina Pena me deu aulas de História da África. Ela detinha vasto conhecimento e era bastante interessada no meu aprendizado. Mandava correspondências com dicas de estudo. Mesmo quando mudou para os Estados Unidos, continuou com a tarefa de me formar em história africana. Também fui convidado para estagiar na Universidade de Cornel, onde há o Centro de African Studys. Foram oportunidades criadas pelo acaso, mas não foram oportunidades criadas por entidades brasileiras. Eparrei – Como você avalia os centros de estudo da História da África no Brasil? Cunha Junior - Certamente alguém aqui do Brasil, para ter o que eu tive em história africana, não teria condições de tê-la dentro do país. Os grupos

Entrevista a Eliane de Almeida Texto: Izabel Clavelin Fotos: Maria Helena Santos

que temos são muito fracos, muito pequenos e desprovidos de recursos. São fracos não por conta dos intelectuais, mas da falta de investimento das universidades para que esses grupos evoluam. Então, vai ter grupos tanto na Universidade de Brasília quanto na Universidade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro, na USP. São pessoas isoladas, batalhando arduamente para que a História da África não morra. Mas sem ter um programa e suporte que lhes retire do isolamento. Não há um interesse das universidades efetivo, expresso e prático. Não adianta dizer que você está interessado e dizer: vire-se. Eparrei – De que forma o governo brasileiro pode incentivar o ensino da História da África? Cunha Junior - Hoje eu culpo o atual governo de a História da África estar parada. Assim que o governo assumiu, eu tinha um projeto de formação de pesquisadores negros. Uma parte deste projeto trata exclusivamente da história africana. Digo que nesse projeto temos que costurar a formação de pesquisadores na área da História com os países africanos. Precisa ser um projeto do governo vinculado ao CNPQ, a CAPES e o Ministério da Educação. Temos que formar nos próximos oito anos pelo menos 4 mil pesquisadores negros para dar conta de iniciar essa tarefa nas universidades brasileiras. Eparrei – Por que 4 mil pesquisadores? Cunha Junior - Se você pensar 4 mil pesquisadores formados, o número de áreas que serão beneficiadas e as 52 universidades federais, sem contar depois as escolas técnicas e tudo mais, você vai ver que 4 mil não é um número importante. É apenas inicial. O orçamento é pequeno. São R$ 20 milhões por ano. Essa quantia é menos da metade que o governo investia para a formação de professores universitários há 20 anos. Escrevi esse projeto com dados da década de 1980. Atualmente, o Brasil forma seis mil doutores por ano. Desses, não chega a cem formados em temas de EPARREI 59


interesse da população negra.

de que o português pensa e o negro trabalha.

Eparrei – O que precisa ser feito para corrigir essa distorção gritante? Cunha Junior – Precisamos de um esforço específico e tirar um século de atraso na formação de pesquisadores de história africana, nas áreas de História do Negro no Brasil, Sociologia da População Negra, Medicina e de Impactos Sociais. Essas áreas foram apontadas pela população na Conferência Mundial em Durban, em 2001.As áreas História e Sociologia interligada à área de saúde da população negra são algumas das mais importantes. Direito e Cidadania, são áreas de extrema precariedade em termos de população de descendência africana. Depois tem outra que integra Língua, Arte e Cultura. Por fim, há área de Urbanismo voltado a temas de interesse da população negra.

Eparrei – Como a Engenharia lida com essa visão? Cunha Junior - Você começa a perceber que a engenharia brasileira nasce de fatos que têm uma ligação forte com a população de descendência africana. As construções iniciais no Brasil têm a mão-de-obra africana com tecnologias que foram trazidas do continente africano como soluções de problemas de construção do país. Quando a gente começa a fazer uma análise pelo lado das tecnologias, a gente percebe cada vez mais, o africano e depois você se assusta com a enormidade dele. Foi isso que me fez ir a fundo nessa área, de pensar o que era o universo das técnicas e tecnologias que existiam na África antes da expansão européia no continente e das invasões criminosas do colonialismo europeu.

Eparrei – O que essa área contempla? Cunha Junior - É notória a ausência de especificidade nos bairros de maioria negra. Nesses locais, não entram nos projetos do governo com o peso que deveriam. Essas regiões sempre são as regiões mais pobres e que vão receber menos assistência pública. São áreas que não tem absolutamente nada de tecnologia. No pensamento de quem está começando a estruturar as coisas, elas existem. O cara pensa em lazer, mas não pensa que vai ter escola de samba, batuque de terreiro e capoeira. Temos que ter uma biblioteca onde se tenham livros de histórias africanas, que você precisará ter um conjunto diferenciado de outras áreas onde a maioria da população é de outras origens, não têm essa marca identitária forte na cultura. Essas áreas teriam que ser pensadas com a particularidade dentro dos projetos da ciência brasileira. Elas precisavam ser incentivadas. Cada uma delas precisava de no mínimo 500 pesquisadores para dar partida.

Eparrei – Que mais é possível encontrar? Cunha Junior - Você vai encontrando coisas cada vez mais surpreendentes. Hoje, juntamente com a professora Marizilda Menezes, estou fazendo um trabalho na área da matemática. Uma matemática super avançada que anda pela teoria do caos e dos fractais. Coisas que são, atualmente, a nata do pensamento matemático. Elementos que já existiam e estão na cultura africana, que são apresentados indícios da existência de um trabalho antigo e consistente. Isso ficou abandonado. Hoje há várias pessoas fazendo isso no mundo e dando uma nova dimensão a esse pensamento africano.

Eparrei – O que o mini-curso Tecnologias Africanas – A Desconstrução de Velhos Conceitos aborda? Cunha Junior - Esse mini-curso desconstrói, fundamentalmente, a idéia que o país tem de escravo e principalmente escravo africano e daí a idéia preconceituosa. O africano que veio para cá nunca é pensado como um ser pensante. É sempre pensado como um ser braçal. Ninguém associa que todo ato de trabalho tem atrás um ato de pensamento. Dá a impressão 60 EPARREI

Eparrei – Qual a sua avaliação do Seminário Nacional da Educação sobre a Lei 10639- promovido pela Casa de Cultura da Mulher Negra? Cunha Junior - Marca o interesse da militância negra para que a lei seja implantada. Mostra, inclusive, um repertório de que a população negra e militante construiu um caminho e batalhou por ele. Vimos exemplos de pessoas que navegaram na solidão que esse país criou de suporte ao crescimento de conhecimento sobre a população negra. Construíram um grande barco e uma união entre si. Cabe ao governo aproveitar essa base. Eparrei – Quais os momentos marcantes? Cunha Junior – O depoimento da proprietária da editora Mazza pelo compromisso em publicar livros sobre assuntos do negro, fazendo uso


de uma economia caseira. O seminário, em síntese, mostra uma vontade política e uma história exemplar. Eparrei – A lei 10.639 pode beneficiar toda a população brasileira. Como você percebe esse propósito? Cunha Junior - A lei é um passo importante nas questões de conhecimento sobre o Brasil. Vai permitir que a nação conheça outra versão do Brasil. Não é só para o negro, mas para toda a população brasileira. O Brasil se desconhece, porque não sabe a história africana. Ela fica no sentido macro-político e econômico. Eparrei – O que falta para que seja posta em prática? Cunha Junior - O Estado não pode se acomodar nem fazer pequenas ações. Aí vem algo que vai causar atrito. Quando se fala a verdade as pessoas não gostam. Mas, não é com pequenas secretarias, com ‘verbinhas’, com pequenas coisas que o Brasil vai implantar uma lei com a grandiosidade que é essa lei. Então, o MEC e as secretarias têm sido extremamente tímidos nas suas ações e não têm mostrado um suporte político de interesse de que isso seja uma coisa amplamente efetiva. Não é com duas ou três pessoas que eles contrataram, com uma competência muito grande, mas elas não vão fazer. Porque isso não é coisa para fazer com duas ou três pessoas. Acompanhei outras ações do MEC em outras áreas. Quando ele quer fazer, põe um jogo forte. Um jogo é forte, quando ele cria uma estrutura ampla dentro do próprio MEC, transforma coisas em ações amplas, com número bom de pessoas, subsidia os consultores e tudo mais. Não está acontecendo isso dentro do MEC, pelo menos eu não vi movimento nenhum nessa direção. Vejo uma coisa tímida que vai se fazendo lentamente. O tempo vai passando e são quatro anos de governo, não são 10 nem 20 anos. Então, tem que ter uma ação ampla e efetiva e calçada por um suporte orçamentário que também não tem existido. Eparrei – Você tem acompanhado diretamente? Cunha Junior – Ligo para Brasília para sugerir coisas ou dar alguma coisa e mesmo em conversa com o Estado, ele não tem passagem para discussão com ele próprio. Cheguei ao absurdo de tentar fazer um negócio e a senhora do outro lado disse: “Escuta, a sua universidade não tem como pagar a sua passagem para você vir?” Eu disse: “Liguei para o lugar correto? Estou falando no MEC? Porque eu tenho a impressão que o MEC sabe da situação das universidades mais do que ninguém e sabe que não têm dinheiro. Se o assunto for de interesse, o MEC normalmente paga as passagens. É isso que estou acostumado. Estou estranhando a senhora dizer que não há dinheiro para pagar minha passagem. Ou será que o tema não é de interesse do MEC?” A ação política tem que ser ampla, tem uma responsabilidade imensa. Eparrei – Qual o papel dos educadores? Cunha Junior - Estamos numa fase de construção, em que se perceba a existência de uma população de descendência africana nesse país. E que todas aquelas idéias que estão sendo bastante difundidas na educação, cidadania, educação democrática, você vê os professores repetindo isso que a educação é igualitária e tudo mais. A única coisa é que isso ficou num plano conceitual. As pessoas até acham que estão embuídas dessas idéias básicas e morais bastante boas, que estão praticando e não estão. Eu dei um seminário na Paraíba no ano passado e repeti toda a idéia dessa base e disse que Paulo Freire fala tal coisa e todo mundo concorda. Alguém discorda de alguma coisa? Ninguém discorda. Então, já que ninguém discorda, eu tenho certeza de que vocês fazem isso semanalmente nas suas escolas. Vamos pôr aqui como as ações se dão na prática. Daí coloquei cinco listas no quadro e perguntei: “O que vocês

fazem para as meninas negras durante a semana?” Silêncio. O que vocês fazem para os meninos negros pobres no bairro tal? Outro silêncio. Eu disse: “Vocês concordaram com Paulo Freire, disseram que faziam tudo. Só estou pedindo exemplos.” Eparrei – Isso detecta a invisibilidade dada ao aluno negro em sala de aula? Cunha Junior - Quando pedimos exemplos, você vê que não existe uma prática. Até há uma vontade de que aquelas coisas fossem verdade, mas não são. Então, a principal idéia é que todas aquelas coisas que achamos boas, que elas se tornem práticas. Se isso acontecer vai ser fácil implantar a lei, vai ser fácil implantar as coisas que vão dar o suporte que a população de descendência africana precisa no plano educacional. Se quisermos concluir aquilo que nossa teoria diz e torná-la efetiva, nós temos que fazer que seja parte da prática. E sendo parte da prática, vamos estudar e trabalhar as coisas que dão esse suporte ao entendimento de uma sociedade cidadã, de uma escola que forme realmente pessoas que sejam úteis na sociedade brasileira em sua plenitude. Eparrei – Como foi o processo de constituição da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros? Cunha Junior - A gênese está ligada à idéia de que o Movimento Negro, de 1980 para cá, tem de que precisávamos de uma base acadêmica de pesquisa para poder dar curso às idéias que estávamos trabalhando. Todos os pesquisadores começam por esforço próprio a fazer suas teses, mestrados e não têm uma ligação nem troca de informações. A principal reclamação era o isolamento. Tinha gente com dificuldade em encontrar bibliografia. Era necessário unir esses esforços e criar um quórum privilegiado para poder discutir. Num encontro de História, em 1999, realizado em Santa Catarina, foram comentados os problemas. Propusemos um Encontro Nacional de Pesquisadores Negros. Lídia Cunha, ao chegar no Recife, me cobrou a seriedade do encontro. Eu lhe disse que a coisa era séria. O primeiro encontro aconteceu, em 2000, no Recife. A Associação Brasileira de Pesquisadores Negros nasceu da necessidade de um fórum onde a produção científica pudesse ser discutida. Eparrei – Que avaliação é possível fazer desses encontros? Cunha Junior - Já fizemos três congressos. Eles acontecem de dois em dois anos. No primeiro recebemos um número muito grande de trabalhos. Foi difícil escolher 60 porque a qualidade era muito boa. Temos tido uma fluência muito grande de trabalhos. Isso mostra que a Associação é necessária e precisa delegar funções. Temos que nos concentrar na sua expansão. A Associação tem o papel de estimular a troca de experiências e de fazer que o Estado inicie ações e incite as universidades. O Estado brasileiro tem chamado a Associação para discutir como vai tomar determinadas iniciativas. A Associação vai exercer um certo pioneirismo na estrutura da política científica relativa à população de descendência africana. EPARREI 61


Texto: Isabel Clavelin Foto: Ana Felippe

Sandra Bello

Brasilidade e tolerância em terras germânicas

N

ascida em Minas Gerais e criada no Morro dos Cabritos no Rio de Janeiro, Sandra Helena Torres Bello vive há nove anos na Alemanha. É com a força dos orixás e especial proteção de Xangô, que essa brasileira aguerrida compartilha seu amor com o filho Solano Torres Antunes Marins, a companheira Neusa Paixão e sua filha Clara. Com espiríto aventureiro, ousadia e coragem na bagagem, Sandra Bello desembarcou para uma nova vida em terras germânicas. As dificuldades com o idioma e o pouco dinheiro que levava, para se manter num país estrangeiro não a desanimaram. “Para nós que temos nossa cultura como mochila, para poder fazer a resistência, fazer a diferença, saber onde devemos atuar e como podemos atuar, de acordo com o nosso ser, é sempre uma luta para ser o que somos”,

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afirma. A identidade fortalecida foi decisiva para que se estabelecesse num país estrangeiro e enfrentasse todas as formas de preconceito e discriminação. Sandra lembra que no período em que chegou à Alemanha havia poucos negros e negras. Atualmente, percebe a formação de comunidades de estudantes africanos, refugiados, “afrodeutsch” (afro-alemães), turcos e indianos e uma melhor inserção na sociedade alemã. Num paralelo entre as duas épocas, sente-se vitoriosa por ter criado seu filho e ter mantido uma vida digna num país em que as mulheres, sobretudo as negras brasileiras, são vistas como objeto. Envolvida em projetos de resgate e valorização da cultura negra, Sandra Bello fundou o espaço Muvuca. “A proposta era encontrar um espaço onde nós, estrangeiros, pudéssemos nos estabelecer sem

estarmos vinculados à opressão das regras do trabalho alemão imposta aos estrangeiros (as). Foi uma ousadia o fato de querermos ser agentes multiplicadores, de ter um lugar para as pessoas trabalharem com a cultura afrobrasileira”, relembra. Era um efervescente espaço cultural onde eram exibidos filmes e degustados pratos deliciosos num restaurante under ground. “Oferecíamos curso de língua portuguesa, alemão e iorubá. Era um espaço onde aconteciam discussões políticas, um local extremamente dinâmico que mudava a toda hora”, conta entusiasmada. Numa sociedade focada no racionalismo, Sandra Bello recupera suas forças na fé. “Aqui vivemos numa sociedade extremamente racional. A cabeça e o corpo têm que funcionar. O que vem da alma, o outro mundo, a força do mistério, aquilo que


Sandra Bello os olhos não conseguem ver, aquilo que a cabeça não consegue descrever, isso é quase que incompreensível. Esse racionalismo faz com que a nossa alma adoeça”, reflete. O encontro com os pares também é outra fonte de energia e vitalidade. “Com a vinda de pessoas oriundas do Movimento Negro do Brasil e também de não-militantes com consciência crítica estamos começando a formular a questão da resistência e de nos revermos organizadamente na diáspora”, considera. Essa proximidade que fortalece é a mesma que a faz buscar outras mulheres negras e lutar conjuntamente. “Recentemente surgiu a entidade Adefra, que organiza as mulheres negras. A luta, principalmente das “afrodeutsch”, é pela visibilidade

pois são consideradas estrangeiras ou quase invisíveis. Em relação a nós , estrangeiras, sabem que somos daqui. Mas as negras que aqui nasceram, têm família, fazem parte da cultura e são socializadas; a rejeição é todo dia. Sempre fazem a pergunta: “Woher kommen sie?”. Isso significa: de onde você vem?. Imagine lidar com essa pergunta todo dia, dói na alma”, desabafa. No tempo em que morou no Brasil, Sandra Bello foi uma grande ativista. Na infância já notava as diferenças entre negros e brancos. Seu ativismo era o passo que faltava para reencontrar-se com a sua história e o início de um movimento contínuo junto com a comunidade negra. “Comecei a visitar outros espaços. Encontrei

pessoas que tiveram as mesmas indagações. Nos tornamos amigas e desenvolvemos trabalho nos nossos locais de moradia para conquistar a nossa qualidade de vida social”, aponta. Sempre questionadora, a jovem Sandra começou a identificar as diferenças de gênero no movimento social. “O tempo passa. Vamos vendo coisas, nos reconhecemos como mulher. Aí vêm os primeiros atritos com os companheiros de trabalho. Parece que a mulher já tem uma determinada função que é a de assessorar o homem. E aquilo já começa a ser questionado”, analisa. A caminhada a fez integrar o Movimento de Mulheres. Entre pretas, brancas, índias, pobres e ricas ainda persistiam as diferenças. Por ser mulher negra, proletária, ela

sentiu as nuances da intolerância. Aos 15 anos, Sandra Bello foi secretária da Associação de Moradores do Morro dos Cabritos e coordenadora do jornal O Favelão. Militou no Movimento das Favelas no processo de redemocratização da FAFERJ, presidiu o Centro de Mulheres de Favela e Periferia , foi vice-presidente da Comissão do Primeiro Encontro Nacional de Mulheres Negras e coordenadora do Primeiro Encontro Estadual de Mulheres Negras do Rio de Janeiro. Representou a Juventude do Movimento Negro no Festival Mundial da Juventude e Estudantes em Moscou, indicada pelo Instituto de Pesquisa das Culturas Negras e é uma das fundadoras do Fórum Estadual de Mulheres negras. “Fui uma das mulheres negras, através do Centro de Mulheres de Favela e Periferia, a romper abertamente com feminismo eurocêntrico e a dar visibilidade a uma vertente de mulheres negras que tinha e tem outras histórias, muitas vezes não compreendidas pelas próprias co-irmãs. Com isso, podemos perceber o quanto estamos impregnadas de valores e rancores que não nos deixam, realmente, nos encontrarmos. Não nos fazem perceber iguais, apesar das diferenças”, avalia. Como o coração no Brasil e os pés fincados na Alemanha, Sandra Bello deposita na educação a esperança para uma vida mais justa e humana. E é na magnitude de ser mulher negra que ela divide o aprendizado de uma vida: “Em qualquer lugar que exista racismo, em qualquer lugar que nós existirmos, existirá luta. A luta não tem fronteira. É como a Lélia Gonzalez dizia: ‘respeitar a diferença sem transformá-la em desigualdade’. Esse é o lema que sempre segui”.

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Fala

Poeta! EU-Mulher Geni Guimarães

Uma gota de Leite Me escorre entre os seios Uma mancha de sangue Me enfeita entre as pernas Meia palavra mordida Me foge da boca Vagos desejos insinuam esperanças Eu-mulher em rios vermelhos Inauguro a vida Em baixa voz Violento os tímpanos do mundo Antevejo Antes –vivo Antes- agora- o que há de vir Eu-fêmea motriz Eu-força motriz Abrigo de semente Moto-contínuo Do mundo

Sabedoria Esmeralda Ribeiro

Quem conhece as nações jeje, ketu, nagô Sabe como toco todos os dias As intimas notas da auto-estima contra A letal, a secular taciturna ditadura Não traduz as canções Produzidas pelas torturas silenciosas: “você não vai conseguir” “é melhor desistir” É preciso ter muito Axé Para lançar nas profundezas, Sob pedras, a baixa auto estima E deixá-la aprofundar Afundar até boiar de novo a fé É preciso ter muito Axé Para afastar o espírito da solidão Aquela solidão que nos Arrasta com ancoras e tudo Para as areias movediças do Abaeté.

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Culinária D

iz um ditado africano que se você está doente, alimente-se que ficará bom. É sabido que a alimentação é o fator essencial da garantia de qualidade de vida. “Você é o que come”, dizem os nutrólogos. Existem temperos que além de dar um toque todo especial nos pratos em que são utilizados, possuem substâncias curativas. Por conta disso, as africanas colocam em sua culinária diversas ervas medicinais. É para comer sem dor na consciência. Veja o poder de algumas ervas e experimente as receitas africanas. Alfavaca: é rica em vitamina A, B 1, 2 e 3, e vitamina C. Bom para dores reumáticas, tosses e resfriados. Ajuda na digestão. Alho: atua na morte de bactérias causadoras de infecções e furunculoses. Auxilia no tratamento de varizes. Alecrim: as folhas auxiliam no tratamento da falta de apetite, medo, digestão difícil, tosse, bronquite e asma. Como tempero fica ótimo em carnes e molhos. Boldo (ou Folha Gorda): Bom para males do fígado. Utilizado, em pequena quantidade no tempero de carnes e peixes. Gengibre: utilizado fresco, destaca o sabor de pratos não muito saborosos, corta a oleosidade e amacia carnes gordurosas. Balas de gengibre ou a mastigação de pequeno pedaço da erva ajudam na cura de inflamação da vias aéreas.

ERAN ELBA (Costela de Boi) Ingredientes (para 6 a 8 pessoas) Para o cozimento: uma costela de boi inteira, de aproximadamente 2 1⁄2 kg (pode ser em dois ou três pedaços grandes) 2 colheres (sopa) de alho batido no liquidificador 1 galho (não muito grande) de alfavaca (tipo de manjericão caipira) 1 colher (chá) alecrim em pó 2 colheres (sopa) de sal Para o molho do assado: 3 punhados grandes de couvemanteiga, já picada, sem os talos 1 maço de salsa, só as folhas, sem os talos 1⁄2 cebolinha já picada 1 flor de calêndula branca metade da casca de uma bananaprata quase madura 1 raiz pequena de gengibre vários dentes de alho pimenta de cheiro ou malagueta a gosto sal a gosto (não esqueça que a costela já foi cozida com sal) Preparo: Cozinha-se a costela de boi em uma panela bem grande, com bastante água, que possa cubri-la e gerar muito caldo, com o alho, a alfavaca, o alecrim e o sal. Quando a carne estiver cozida, acomode-a numa forma e reserve o cldo do cozimento para o Ewalê. Bata no liquidificador, com um pouco de água, a couve, a salsa, a cebolinha,

a calêndula, a casca da banana, o alho e o gengibre. Salgue com cuidado. Jogue essa mistura sobre a costela de boi e ponha para assar até que a carne fique bem macia. Serve-se com Ewalê e Arroz Africano.

EWALÊ (Feijão Forte) Ingredientes: (para 6 a 8 pessoas) 1 kg de feijão mulatinho toucinho defumado, um pedaço inteiro a gosto 1 kg de carne moída 2 inhames pequenos descascados e cortados em pedaços 6 a 8 batatas, descascadas e cortadas em pedaços 2 cenouras médias cortadas em rodelas talos de couve picados em rodelas pequenas talos de agrião picados 1 punhado de milho verde 1 cebola grande 1 maço de salsa 1 maço pequeno de coentro 1 xícara (chá) de óleo pimenta malagueta a gosto sal Preparo: Cozinhe o feijão com o pedaço de toucinho defumado, de modo que ele fique ainda meio durinho, sem estar no ponto de comer. Reserve. No caldo do cozimento da Costela de Boi, junte a batatinha, o inhame, a cenoura, os talos de couve e de agrião e o milho verde. Cozinhe e

reserve. Bata a cebola com a salsa e o coentro no liquidificador e reserve. Refogue a carne moída no óleo acrescente o batido de cebola, salsa e coentro. Refogue um pouco mais e misture tudo: carne, feijão e caldo de carne enriquecido.confira o sal e a pimenta. Cozinhe até o feijão amolecer e fromar um caldo grosso. Acompanhe com Arroz Africano.

ARROZ AFRICANO Ingredientes (para 6 a 8 pessoas) arroz já cozido, com as ervas que preferi: alecrim, salsa, cebolinha, sem carregar muito no sal. 1⁄2 kg de carne seca já dessalgada, em pedaços bem pequenos 1 xícara (chá) de óleo 3 colheres (sopa) de alho picado farinha de mandioca, quantidade suficiente para o arroz ficar soltinho. Preparo: Doure o alho no óleo e frite a carne seca mexendo sempre. Depois, acrescente o arroz aos poucos, puxando na mistura. Desligue o fogo e vá adicionando a farinha de mandioca, soltando os grãos. Coma quente. Detalhe: este prato também pode ser servido mais frio. Não se deve requentar, já que a goma da mandioca acaba prejudicando a textura.

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Banho de Ervas Último banho do ano para abrir os caminhos Comece bem o ano de 2005 seguindo a receita do ervateiro mais antigo da Feira de São Joaquim em Salvador. Raimundo Nogueira (Box 469), mais conhecido por Rifle, aprendeu o segredo no trato com as ervas com sua bisavó Antonia das Mercês de Angola.Ele garante que os banhos de ervas são purificadores porque descarregam as más energias, renovando o astral para uma boa entrada de ano.

Tipo de Ervas:

tira quizanga, macaçá, manjericão, agua de alevante, folha de acocô, alfazema, seiva de alfazema

Preparo:

Jogar água fervendo sobre as folhas e tampar.

Melhor horário:

Tomar banho frio do pescoço para baixo, com o dia ainda claro no dia 31 de dezembro.

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mudando de cor

é melhor você mudar de gráfica.

Rapidez e Qualidade da primeira a última impressão. Em se tratando de qualidade, não abrimos mão de utilizar o que há de melhor em tecnologia gráfica. Desde o atendimento até a entrega do material impresso, fazemos questão de oferecer uma boa apresentação, nos mínimos detalhes. Equipamentos de ponta, funcionários capacitados, política de produção e comprometimento com os prazos de entrega, atestam nossa qualidade. Na Vice Rei, as cores dos impressos podem até mudar*, mas isso, já é uma outra e história. *Desde que sejam alteradas propositalmente na edição da arte final, antes da geração de fotolitos.

Rua Antonio Ferreira Gandra, 176 - São Vicente - SP - Tel: (13) 3468-5534 - Fax: (13) 3468-4222 - www.vicerei.com.br

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Se o seu impresso vive


CASA DE CULTURA DA MULHER NEGRA

ARTE E TRADIÇÃO

Revista Online Eparrei - Julho/Agosto 2014  

Edição de Julho e Agosto de 2014

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