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Eparrei

Revista Online

Produção de- PUBLICAÇÃO Cultura da Mulher Negra - Distribuição Gratuita 1º SEMESTRE / 2009Casa - ANO VIII - Nº15 DA CASA DE CULTURA DA MULHER NEGRA - SANTOS SP

A Feminegra Alice Walker Resignificar a educação escolar Redescobrindo a África Cabeça também foi feita para carregar tranças Procissão de Iemanjá

Junho 2015


Revista Eparrei Online é uma publicação do Programa de Comunicação da Casa de Cultura da Mulher Negra

ccmnegra@casadeculturadamulhernegra. org.br www.casadeculturadamulher negra.org.br Editora Alzira Rufino Jornalista Responsável Heleodora Franceline Souza Mtb. 41.793 Direção de Arte Ori Wani Fotos (Créditos nas reportagens) Colaboraram nesta edição com artigos Neide Fonseca, Vera Vieira, Makota Kisandembu Kiamaza, Urivani Carvalho Contos e Poemas Maria Helena Vargas da Silveira-Alzira Rufino Reportagens Neide Diniz,Fabiana Oliveira Heliodora Souza e Joana Londirá Núcleo de Educação Redação Alzira Rufino, Heliodora Souza e estagiárias do Núcleo de Educação e Comunicação Social Revisão final Semíramis Peixoto Projeto Gráfico e Edição Group Design Depto. de Divulgação e Assinaturas Estudantes do Núcleo de Educação

Apoio Misereor KZE e CMC Família Carvalho, Família Rufino Proibida a reprodução parcial ou integral, de todo o conteúdo sem a devida autorização e créditos. Foto da Capa Gallen Rowell / Mountain Light

Editorial Desembarcando da máquina do tempo para produzir a Revista Eparrei.São nove anos acreditando e teimando em apresentar as raízes do continente africano aqui fincada por nossos antepassados. É um pensar e repensar cada página na tentativa de diminuir a irracionalidade dos que teimam em pensar de outra forma a nossa cidadania. São anos de lutas, e, hoje já podemos ler as conquistas assinadas que ainda continuam nos papéis oficiais. Acreditando no poder da comunicação com informação nós imprimimos a história de mulheres negras que não concordaram e não aceitam os papéis designados para a população negra. Em 2009 o mundo assiste o país mais rico do mundo eleger como presidente Barack Obama que ao lado da guerreira Michele Obama como primeira dama continuam fazendo a diferença.É constatar a conjugação do verbo: Nós podemos! É com esse pensamento que continuamos embarcando na máquina do tempo, e, com o número 15 da Eparrei estamos dando a nossa contribuição para que nossos avanços não continuem só no papel. Enfim: Nós podemos! Alzira Rufino EPARREI 03


Sumário

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Cartas à Eparrei /Agenda Ações Afirmativas / Procissão de Yemanjá em Santos Programa Axé Saúde A Feminegra Alice Walker - Joana Londirá Resignificar a educação escolar-Neide Fonseca I-Redescobrindo a África - Tecidos Africanos Você Sabia? O Kimbundo A discriminação à mulher está presa à tirania das palavras e imagens- Vera Vieira Adriana Lessa - Uma atriz completa - Heliodora Franceline Souza Joana Angélica - Fabiana Oliveira História da Trança Afro - Artigo da Profª.Urivani Carvalho Conto: Cambitus - Homenagem à Maria Helena Vargas da Silveira Neia Daniel e seu Jeito de Ser - Neide Diniz A Moda e as Amarrações Africanas, Ontem e Hoje Makota Kisandembu Kiamaza Se Ligue Turismo Afro na Casa de Cultura da Mulher Negra Pele Preta, Apenas... Alzira Rufino Fala Poetiza! Culinária


Cartas à

Eparrei Prezada Alzira e toda equipe da Revista Eparrei, Primeiro gostaria de parabenizar vocês pela revista. É linda.Tive a oportunidade de conhecer a revista, há 3 a 4 anos quando estive no Fórum Social Mundial em Porto Alegre. Axé Teresinha Ferreira Coordenadora do Movimento Negro de Viçosa - MG Kiambote (bom dia) Alzira Rufino e Demais Meninas da Casa Estou lendo a revista Eparrei nº 14, a qualidade foi mantida os assuntos como sempre são nossos assuntos. As mulheres como sempre bem definidas em seus papeis e militâncias. Estou fazendo um curso de gestão cultural e no curso viram a revista ficaram maravilhados com ela, a maioria apesar de serem da área cultural desconheciam a revista. A fala geral foi de que esta é uma conquista histórica, precisamos colocá-la nas bancas, precisamos atingir melhor o meio cultural até como forma de dar subsídios a este meio. Felizmente também está neste curso outra candomblecista uma Ekedje, ela gostou muito da revista, a única coisa que discordou foi da capa, acha que momentos como aquele não devem ser fotografados e expostos. Mas, neste assunto penso que cada religioso terá sua opinião.Tanto que a capa esta aí linda e que dá curiosidade em todos leigos ou não. Agradeço a oportunidade de ter um artigo meu na E-parrei. Que minha Mãe Kisanga mantenha a NGunzu da Casa. Tânia Kisambu Bom dia, queridas amigas da Casa de Cultura! Vocês, como sempre, super generosas! E o exemplar Eparrei está ótimo! E é sobre a Eparrei que gostaria de conversar com vocês... No meu trabalho sobre os depoimentos de mulheres negras, estou traba-

lhando também algumas poesias, como já cheguei a contar. Na análise que faço, posteriormente, levantei a questão de que a revista Eparrei, no conjunto de seu conteúdo, não apenas é um canal de expressão da mulher e da cultura negra, mas, de forma mais corajosa que outros grupos dos movimentos feministas, defende também os direitos do povo negro de modo geral e das diferentes definições de gênero. A Eparrei tem feito sucesso aonde quer que eu a leve! Beijo carinhoso pra vocês. Profa. Psicóloga Mara Fernanda Chiari Pires Prezadas Senhoras, Gostaria de adquirir a revista EPARREI! A partir do n.7 ao número mais recente. No momento eu me encontro em Brasília e na semana que começa dia 10 posso buscar pessoalmente. Já estive duas ou três vezes. Se puder, gostaria de conversar com as membros desta Casa. Um abraço, Shigeru Suzuki Tokyo University of Foreign Studies Querida Alzira e Companheiras! Boa noite! Quero de coração, agradecer a acolhida que nos proporcionaram e o prazer imenso de tomar conhecimento do insano trabalho dedicado a nossa causa (negritude) perpetuado por vocês, e que com as graças de Deus e de Olorum, é uma das páginas boas da contribuição de afro-descendentes para remissão dessa gente sofrida. É uma pena que o exercício de formiguinha que executam, ainda não é de conhecimento de toda coletividade negra, mas desde já peço licença para ser porta-voz da Casa de Cultura da Mulher Negra do Município de Santos, por todos os cantos que eu circular. Só posso dizer muito obrigado por existirem, e serem como são. Deus e Olorum vos abençoe com muito, mas muito AXÉ! Paz e bem. Guilherme Botelho Junior

Para Alzira Rufino Caros/as pesquisadores/as e amigos/as, Sou doutoranda em educação pela UNICAMP e assinante da Revista Eparrei, venho coletando material para minha pesquisa. Estou com a proposta inicial de análise de materiais que foram produzidos como resultado de atividades de implementação da Lei 10.639/03 e suas diretrizes, tanto em formação continuada, quanto em formação inicial. Para tanto, tenho buscado informações sobre esses materiais em todo país. Conto com a colaboração de vocês para qualquer informação. Desde já agradeço. Abraços. Luciane Ribeiro Dias Gonçalves Ituiutaba - MG luribeiro_mg@yahoo.com.br Saudações! A Casa de Cultura da Mulher Negra merece todas as honrarias de nós, mulheres negras, jovens e homens negros do Brasil. Afinal, realizar um sonho já não é simples. Fazêlo durar é ainda mais difícil. Estive na casa e conferi que, de fato, uma organização de tal porte é um sonho tornado realidade. Auxiliada por uma equipe muito bem treinada, Alzira Rufino vem refazendo a agenda cultural de Santos e, por que não dizer, do Brasil (com a contribuição da revista Eparrei, claro!). Tudo isso conjugado com uma ação política estratégica e eficiente. A Casa de Cultura da Mulher Negra é prova viva de que nós, mulheres e negras, jamais deixamos de ser protagonistas de nossa própria história. E, sobretudo juntas, podemos transformar um sonho numa realidade nossa de cada dia. Angélica Basthi é jornalista, mestranda em Comunicação pela ECO/UFRJ e uma das coordenadoras da Cojira - Rio (Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial-RJ) Olá companheira Alzira Rufino, meu nome é Carlos Rocha, no ano passado conheci a CCMN e a Revista Eparrei... E de EPARREI 05


lá pra cá acompanho o trabalho de vocês e sempre recebo e-mails com textos maravilhosos. Sou assessor de um vereador que fez a lei que criou o feriado do 20 de novembro. Hortolândia foi a primeira cidade no estado de São Paulo a aprovar o feriado do 20 de novembro e todo ano nesta semana promovemos varias atividades para promover e valorizar a cultura africana, e a igualdade racial. Neste sentido estou pedindo tua ajuda... se você tiver e puder me enviar uma foto de Dandara, ficaremos muito gratos. Um grande abraço e desde já, agradeço por sua atenção. Carlos Rocha Querida Alzira, que lindo trabalho! Parabéns ! Já conhecíamos e sabíamos de sua competência, mas hoje tivemos a certeza de sua integridade e amor pelo o que você faz, conte sempre conosco, você é uma guerreira beijos. Família Azauani Obrigada, Alzira, velha amiga de luta e internet. Estou louca para abraçar e ver de perto pessoas que aprendi a amar de longe. Choro de emoção a cada revista, a cada artigo, a cada poesia, a cada referência, a cada resposta aos desafios. Sou uma mulher negra de 56 anos que aceitou o desafio de ser uma apresentadora e que quer ir em frente. Até lá. Sonia Santos MARAVILHOSA, simplesmente MARAVILHOSA Eparrei ! O texto está ótimo, as colocações acerca das atividades culturais estão perfeitas, e a distribuição das fotos também maravilhosas.

Afros Abraços! Jacque Cipriany Grupo Teatral Resistência - Assessora da Vereadora Elzinha Sobre a Eparrei Alzira amiga: Mais uma vez parabéns pela Eparrei n.o 13. Li tudo com muita atenção, parabéns também para Urivani, nossa Diretora de Arte. Gostaria de destacar o seu artigo: Mulher Negra da Educação Popular. Com esta publicação, qualquer mulher negra poderá colocar a Revista debaixo do braço e sair por aí discutindo com bons argumentos, defendendo a necessidade das cotas universitárias e/ou a participação da mulher negra na política ou em qualquer outro campo. Tudo isto, apontando para a contemporaneidade, mas com um lúcido embasamento histórico. Este artigo é sem dúvida, o carro chefe da publicação. A Revista está densa, mas acho muito interessante esta estratégia de variar a temática, umas mais leves, outras apertando mais no conteúdo pesado. Para o assinante colecionador, a revista serve às duas partes. Então não é necessário dizer que atingimos 95% da revisão. Mas, com o tempo, e ele certamente trará muitas outras lindas Eparreis, chegaremos também aos 100% nessa área. Parabéns mais uma vez Alzira. Pela sua coragem, sua respeitável luta Esta caravana passa sempre muito linda, colorida, competente, alegre e cumpridora de seus deveres. Um grande abraço. Maria Alice Peres - Jornalista

Prezadas, Amei a beleza da revista Eparrei, seu conteúdo, sua estética. Desejo ser assinante. Estou particularmente interessada em materiais sobre violência doméstica contra a mulher. Este é um tema que venho desenvolvendo pesquisa na Faculdade onde trabalho e também será meu objetivo de estudo no doutorado que pretendo conseguir entrar em breve. Abraços fraternos cheios de encantamento com a beleza que vocês produziram. Axé! Maria de Fátima Scaffo - Niterói - RJ Olá, Parabéns pelo belíssimo trabalho que desenvolvem, estou abrindo minha associação em Araxá: Ominike - Associação de Mulheres Negras em Araxá, se puderem me dar algumas referências e dicas será bem-vindo, mas o intuito de meu contato é assinar a revista supramencionada. Lizane Franco

Agenda Conferência Nacional de Comunicação De 01 a 03 de dezembro de 2009 Brasília-DF - www.proconferencia.com.br Campanha da Fraternidade discute segurança pública e justiça “Suscitar o debate sobre a segurança pública e contribuir para a promoção da cultura

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da paz nas pessoas, na família, na comunidade e na sociedade, a fim de que todos se empenhem efetivamente na construção da justiça social que seja garantia de segurança para todos”. Este é o principal objetivo da Campanha da Fraternidade - Fraternidade e Segurança Pública promovida pela Igreja Católica para o ano de 2009. Mais informa-

ções podem ser obtidas no site www.cnbb. org.br. 3ª. Edição do Fórum Social da Juventude De 13 a 16 de Julho de 2009 Bento Gonçalves - RS - Informações: www.forumsocialdajuventude.com.br


Ações Afirmativas

Edição: Alzira Rufino Fotos: Ori Wani

Procissão de YEMANJÁ em Santos Nem o calor de quase 38% graus conseguiu afastar as dezenas de fiéis que reverenciavam as duas versões da imagem de Yemoejá e Iemanjá no dia 07 de fevereiro na areia da praia no Bairro da Ponta da Praia em Santos. Com a coordenação da Casa de Utilidade Publica e de Culto Afro Brasileiro Ilê Asé Sobo Oba Àryrá, a tradicional Procissão de Yemoejá. via terrestre e marítima contou com a participação de 2.300 religiosas (os). O evento faz parte do calendário turístico e

religioso da Secretaria de Cultura e Turismo da cidade de Santos. Cerca de cinco mil e setecentas pessoas assistiram ao evento. Na abertura, grupos culturais ligados a Secult e Seduc, se apresentaram na praia. Um dos momentos mais esperado era a chegada das imagens trazidas pelo Babalorixá Marcelo de Logunedé; muitos presentes foram ofertados pelos adeptos do candomblé e umbanda para a Rainha do Mar. Por volta de 15:30 horas, teve início a parte

religiosa com apresentação do Afoxé Oba Abassy seguido de toques e cantigas (sirê) para as pessoas do Asé. A Prefeitura Municipal da cidade acionou diversas Secretarias e Comissão Organizadora composta de religiosas (os), também não mediu esforços para que tudo saísse a contento. Neste sentido, a procissão de 2009 teve uma participação maior de religiosos (as) da região e pela primeira vez na história da procissão, religiosos (as) figuras ilustres da capital vieram participar do evento.

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Conheça o PROGRAMA AXÉ SAÚDE da Secretaria Municipal de Saúde Após estudos do perfil epidemiológico da população concluímos singularidades genéticas e condições de vida, que geram diferenças no processo de adoecimento, cura e morte. Baseados nesses estudos e com o suporte técnico da Secretaria de Saúde do Município de Santos e SUS - Sistema Único de Saúde temos condições de desenvolver e promover o acesso à saúde, educação e direitos humanos, objetivando a prevenção, que auxilia a todos no processo no processo de reflexão acerca dos juízos de valores,

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credos e a intolerância, que conduzem à violência, ao preconceito e à discriminação. Temos a proposta de utilizar os Terreiros e/ou Casas de Culto onde se praticam religiões de matriz africana como espaços para a promoção da saúde integrando ritos, credos respeitando essencialmente a fé. Os terreiros são espaços abençoados e privilegiados para que se efetive a promoção da saúde, pois como pólo que tem o poder de atrair para si, em

seu rol de adeptos e freqüentadores, os mais diversos segmentos da sociedade e tem na pessoa do (a) Ministro (a) Religioso (a) forte poder de liderança comunitária, entendemos que em conjunto teremos amplas condições de transformar as Casas de Culto em parceiros, logo Centros de Informação de Saúde. Os terreiros são CENTROS DE EXCELÊNCIA para divulgação e promoção de Saúde. Com toda a gama de informações e


Programa Axé Saúde atividades contidas neste projeto, se faz necessário esclarecer, que nada surtirá efeitos sem a total interação dos nossos parceiros (as), pois são os conhecedores dos rituais terapêuticos para saúde, desde ebós, banhos (amacis) comidas (ajeuns), etc.

certeza que iremos atingir um número significativo de pessoas possibilitando, assim, diagnóstico precoce das DST/ AIDS/HEPATITES, de suma importância para garantir a qualidade de vida com todo o respeito as diversidades e pleno exercício da religiosidade.

I SUS - Sistema Único de saúde, através da Secretaria Municipal da saúde de Santos-SP e os órgãos relacionados com DST/AIDS/HEPATITES, irão interagir com todos nossos irmãos de fé, para a efetivação de ações capazes de intervir, acolher e aconselhar.

Ações Participativas

Objetivos Através da utilização de metodologias participativas, ou seja, a parceria da Secretaria de Saúde de Santos e dos (as) Zeladores (as) de Axé temos a

Mapeamento de todos os Templos de Umbanda e Casas de Candomblé, ou seja, terreiros, no município de Santos. Promover em parceria com os responsáveis da Casa de Culto, a reunião de seus adeptos (omorixás) e simpatizantes para a realização de oficinas de esclarecimentos, capacitação e encaminhamentos visando à eficácia deste projeto, em horários adequados ao funcionamento dos terreiros: Realizar vacinação para Hepatite B;

Oferecimento de testagem sorológica (exame de sangue) DST/AIDS/HEPATITES; Diagnóstico precoce; Aconselhamento pré e pós testagem sorológica (exame de sangue); Orientações quanto ao uso de materiais perfuro/cortantes: Trabalhar na prevenção de DST/AIDS/ HEPATITES, respeitando as orientações sexuais: Distribuição de insumos-preservativos (camisinhas), gel lubrificante: Rua Silva Jardim. 94 - Vila Mathias Tel.(13) 3229-8791 - Santos - SP MOJUBÁ. MOTUMBÁ, KOLOFÉ, MUCUI, AURE, AXÉ IRE Ô SARAVÁ AOS IRMÂOS DE FÉ

Serviço Casa Utilidade Publica e de Culto Afro-Brasileiro Rua Otavio Correa, 64 - Estuário - CEP: 11045-230 - Santos - SP Tel.: (013) 3271-7051 / 3028-3807 / 8116-5107

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Fotos: Noah Berger e Jean Weisinger

A Feminegra

Alice Walker A

lice Walker escritora afro americana feminista nasceu em Eatonton, Geórgia, 9 de fevereiro de 1944. Filha de agricultores passou sua infância no campo, com a perda da visão de um dos olhos aos oito anos de idade, num acidente, ela utilizou a visão que possuía para aprofundarse sempre que possível na leitura. A menina e jovem obstinada sempre se destacou dos demais pela perseverança, o que lhe rendeu várias bolsas de estudos, entre elas, a da Universidade de Atlanta ,onde assumiu o compromisso na luta pelos direitos

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civis,até graduar-se - em artes pelo Sarah Lawrence College, em 1965. O retorno da África em 1968, segundo ela significou o reencontro da sua pátria espiritual, mas, do seu convívio com a realidade de algumas mulheres africanas fez com que passasse a liderar uma campanha contra a mutilação genital feminina em países africanos. Escreveu a maior parte de seu primeiro livro de poemas “Once” em uma semana após o regresso da África. Contemporânea de Martim Luther King, Malcom X, em Jackson (Mississipi), vamos encontrar Alice Wal-

ker envolvida em intensa atividade política pelos direitos civis da população negra, em especial das mulheres, tendo se destacado na luta contra o apartheid nos EUA. Ela que fundou sua própria editora em 1984, já lançou 08 livros de poesias, 11 livros sobre temas da realidade das mulheres, os direitos humanos da população negra e 16 romances e contos, recebeu o Prêmio Pulitzer em 1982 com o romance A Cor Púrpura, que deu origem a um dos mais brilhantes filmes de Steven Spielberg, com a atriz Whoopi Goldberg no papel principal. Na obra, a personagem escreve cartas a


A Feminegra Deus e à irmã desaparecida. Com sensibilidade e talento, Walker mostra representações de uma mulher negra sulista quase analfabeta, que vive em uma realidade dura de pobreza, opressão e desamor. O dialogo com a subjetividade é marca das obras da autora, que em um estilo único leva o leitor a interagir com o drama de suas protagonistas. Aclamada pela crítica o estilo que ela define como “black folk english” ou linguagem popular negra encantou a todos pela sonoridade e riqueza da linguagem coloquial, e não de qualquer fala, mas da utilizada na região mais agrária dos EUA adaptação do livro para o cinema contou com roteiro da própria autora, o que elevou o padrão do longa-metragem, apesar do sucesso do filme, a leitura da obra é única. No Brasil, a Cor Púrpura foi editada pela Editora Rocco.

A autora escreveu também o livro “De amor de desespero”, uma obra composta pelas vozes de várias mulheres negras do sul dos EUA. O livro é uma coletânea de vários contos, nos quais conhecemos mulheres diferentes com seus temores, desafios e sonhos. Em Possessing the Secret of Joy (1992), a autora explora a mutilação ritual genital ainda presente em alguns países africanos. No romance By The Light of My Father’s Smile de 1998 , Walker aborda a mestiçagem cultural .Entre os ensaios não ficção In Search of Our Mothers’ Gardens: Womanist Prose de (1983) é uma obra prima. Essa é Alice Walker que deixou para nós seus escritos sobre o amor, amizade o ma-

chismo, racismo e patriarcado. Em 2009 vamos encontrar os escritos de Alice na sua Carta Aberta ao Presidente Barack Obama Em entrevista ao Jornal Democrata News Alice Walker disse que estava muito feliz e, que toda a luta e sofrimento dos antepassados eram recompensados, e que eles também deram forças e estiveram ao lado de Obama. “Por quatro séculos os afros americanos produziram homens e mulheres de muito valor que não puderam sobreviver para chegar a presidência do nosso país. Nossos líderes sempre tiveram o desejo de paz e progresso À pessoa de Obama, cresceu acompanhada desses espíritos de liderança, que lhe ajudaram a crescer e avançar para alcançar os ideais de todos, do passado e presente.

Alice Walker

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sam viajar para Cuba e permitir que povos cubanos possam entrar e sair do país, como também enviar remessas para os seus. Não vejo como é possível ele considerar que Cuba seja seu inimigo. Amo muito Cuba e o povo cubano. Sempre vai ser minha prioridade divulgar para as pessoas de todas as partes do mundo que conheçam Cuba e que ajudem a proteger o povo cubano. Para melhorar a imagem dos EUA ela falou que Obama necessita enfrentar o mundo de uma maneira diferenciada com muita ternura. Estivemos no domínio de um presidente que insultou de maneira muito vulgar povos de todo o mundo.

Todas e todos afro americanos sempre nutriram a esperança de ter um dia ter um líder que pudesse refletir os nossos sonhos e aspirações. Como exemplo de Barack Obama para os negros americanos ela considera uma influência muito positiva não só para os negros americanos, mas, para os homens de todo o mundo. “Especialmente nos EUA onde existe tanta violência no, lar, onde pais abandonam seus filhos. É um bom exemplo ver o amor que ele tem por suas filhas a esposa e o respeito que tem pela família... Os homens negros, indígenas, latinos, brancos e asiáticos necessitam se inspirar no modelo de uma pessoa que demonstra que podemos amar e respeitar as pessoas com as quais se convive.” Em outra parte de sua carta ela faz uma recomendação de não adotar os inimigos dos outros. “Todo o mundo assistiu os abusos contra os diretos dos muçulmanos nos EUA. Quando se chega ao lugar que ele chegou, não é

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mais possível hoje ele repetir os erros do passado. Árabes e muçulmanos eram considerados inimigos do governo anterior e não devem ser considerados também nossos inimigos.” Sobre os conflitos do Oriente Médio como Irã, Israel e Palestina, ela afirmou: “Espero que ele tenha uma postura muito realista com o papel de Israel e do sofrimento que Israel impõe aos povos da região. Sei que vai ser muito difícil para ele, porque nossa política de apoio a Israel vem de muito tempo e o que Israel faz me assusta. Gostaria de pensar que ele pode dialogar com o povo Palestino com a mesma atenção que dispensar aos israelitas Creio que isso será um problema muito importante é nada fácil para ele.” Com respeito a Cuba ela foi enfática: Recomendo a necessidade de parar com o embargo contra Cuba .Não estou muito certa de como seriam as leis, mas principalmente ser possível permitir que as pessoas pos-

Pesquisa: Heliodora Franceline Souza Entrevista de Tatiana Bensa do Jornal Democrata News Intérprete: Andrés Thomas Conteris


Resignificar a

Neide Aparecida Fonseca Foto Ori Wani

Educação Escolar “A infância constrói com aquilo que encontra. Se o material é pobre, a construção também é pobre”. Maria Montessori, The Absorbent Mind.

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princípio de “Prioridade” para as crianças, conforme Declaração da Cúpula Mundial da Infância de 1990 enfatiza que falhas existentes no sistema escolar devem ser consideradas no contexto de vida da criança, tendo em vista que tudo o que diz respeito à vida de uma criança afeta a sua capacidade e desejo de aprender. Esse alerta da Cúpula Mundial, nos remete à reflexão sobre o sistema racial desenvolvido no Brasil, que em todos os setores da vida, incluindo a vida escolar, tem tido efeitos e impactos diferenciados nas crianças brancas e nas crianças negras, sempre em detrimento destas. Deste modo, compreender e buscar reverter os problemas causados por um sistema escolar cuja pedagogia de exclusão de parte da população tem sido a tônica, aliada a um processo de reforço para desestimular a auto-estima das crianças negras é de fundamental importância. A pedagogia libertadora que o mestre Paulo Freire nos legou, não pode ser olvidada pelos educadores (as). É preciso retomar a consciência critica do conhecimento e da práxis de classe, porque um sistema educacional que reforça e prepara seres humanos para pensarem que seu grupo é melhor e superior aos demais é no mínimo separatista. É preciso transformar esse modelo. Contudo para transformar é preciso que cada pessoa compreenda profundamente como funciona e as conseqüências do modelo vigente. Isaac Asimov dizia que “Se o conhecimento pode criar problemas, não é através da ignorância que podemos solucioná-los”. Assim, educadores e educadoras precisam ao menos responder a duas perguntas: 1. Qual é o significado de educar? 2. O que é educar em uma sociedade multicultural e multiracial? O que se vê é um processo educativo que não leva à reflexão e que se atem a reproduzir o que está escrito nos livros didáticos, a exemplo do ensino da história ou da geografia, onde a visão tem sido a do dominador, sendo os demais povos considerados bárbaros, selvagens, tribais. Raramente se vê um outro modelo pedagógico que ofereça perspectivas e provoque reflexões. A verdadeira ciência da educação deve objetivar principalmente a emancipação do ser humano, tendo em vista que o processo pedagógico não deve aspirar à conformação do educando ou educanda a um tipo de mentalidade ideológica ou religiosa. Ou seja, não se deve transmitir somente os valores e conhecimentos acumulados de um determinado grupo. Contrariando as teorias da supremacia de um grupo sobre outro, o educador e a educadora têm o papel de despertar a consciência crítica, o respeito à vida, ao próximo, e à diversidade de culturas. Concordamos com o economista Frank Knight, que afirmava “educar é desensinar com o intuito de eliminar preconceitos e falácias”. Permeada pelos valores e cultura do seu primeiro grupo de convivência, que geralmente é a família, segundo Herculano Pires, “cada criança é uma inteligência despertando para a vida, e mais do que isso é uma consciência que desabrocha”. Na escola essa inteligência e consciência precisa de aceitação de compreensão e de estímulos. Se não for assim a criança sofrerá abalos muitas vezes irreversíveis em sua auto-estima. EPARREI 15


Resignificar a Educação Escolar

Nesse sentido, a indiferença, a frieza, ou ainda a violência simbólica ou efetiva, com que a criança negra é tratada em sala de aula e nos livros didáticos, tem se demonstrado o pior método pedagógico, pois não educa para a diversidade e sim para o pensamento único, através do conhecimento estereotipado. Por isso, a importância da lei 10639/03, que torna obrigatório o ensino da História da África e dos afrodescendentes. E para reconstruir o conhecimento de nossas crianças negras e brancas sobre África, se faz necessário um período de atividades intensas de modo a ocorrer o processo de assimilação e em conseqüência uma transformação interior com a construção de novas estruturas interiores, em consonância com a teoria de Piaget. Na busca de soluções de como desconstruir o pensamento único socialmente construído sobre o processo escravagista, a história da África e da diáspora africana, o método pedagógico mais coerente será através do debate e do diálogo, onde todos se expressem de modo a construir individual e coletivamente um novo saber. A construção desse saber deve se dar através de atividades vivenciais aliadas a aulas teóricas, pois segundo Pestalozzi, a criança vivencia pelos sentidos, pelo intelecto e pelo sentimento. Maria Montessori com muita propriedade afirma que “a infância constrói com aquilo que encontra. Se o material é pobre, a construção também é pobre”. Porém, podemos nos alegrar, pois é certo que existem muitos educadores (as) que iluminados pela esperança de que um outro mundo é possível, estão introduzindo planos de estudos e métodos de ensino que visam despertar a consciência de uma vivencia solidária, pacifica, harmônica entre outros povos; outras raças e outras culturas. O que levará gradualmente a escola a se tornar um ambiente onde a criança e o jovem se sentirão acolhidos, independentemente de qual grupo racial ou étnico pertencer. Sem intenções de pieguismo, quero terminar esse artigo reforçando o pensamento do pedagogo francês René Hubert: “Educar é um ato de amor”. Neide Aparecida Fonseca Assistente Social e Especialista em Direito Constitucional e Político

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Redescobrindo a África Tecidos Africanos

Estamparia Africana

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m dos maiores acervos de técnicas de estamparia artesanal se encontra na África, aonde durante milhares de anos processos de estampar nasceram ou foram assimilados de outros povos. Sendo um grande continente, a África nos oferece uma diversidade de manejo e criação muito grande na estamparia têxtil. No norte da África, árabe desde o século VII, a tradição de estampas está ligada à tapeçaria. Já a África sub-saariana nos oferece um universo de técnicas de estamparia por impressão e tinturaria. O batik é feito em vários países africanos, desde a costa oriental (Quênia e Moçambique) até a costa ocidental (Nigéria, Gana e Benin, entre outros). Na Nigéria e Gana era comum o batik ser feito com moldes vazados dos desenhos, geralmente em couro, para aplicação da cera. Acredita-se que esses moldes tenham se originado como uma versão em positivo dos carimbos de madeira utilizados no Quênia para estamparia dos antigos kikoi (hoje os kikoi não são mais estampados), mas muitos motivos dos moldes remetem às matrizes em cabaças para estamparia dos “adinkras”, tecidos com estampas por carimbos do povo ashanti de Gana. As cabaças esculpidas pelos ashantis são magníficas, com delicados motivos geométricos que produzem belíssimas padronagens. Os tecidos “adinkra” são feitos para ocasiões especiais e rituais.

O domínio da tinturaria pelos africanos é antigo e há séculos é responsável pelas belas cores de seus têxteis. Tingidos com índigos e outros pigmentos naturais como os terrosos e a cochonilha, a importância da tinturaria africana reside na competente utilização dos mordentes. Exemplo disso é a engenhosa técnica de estamparia por mordentes vegetais e lama dos tecidos bogolan do Mali. Esses tecidos produzidos pela etnia Bambara são preciosos em suas cores contrastantes, geralmente em tons de cáquis, café e preto, com detalhes em branco produzidos à cal sódica, e suas padronagens se compõem de grafismos fonéticos e decorativos, com representações labirínticas. Esses labirintos geométricos também estão presentes na estamparia dos povos de etnia kuba do Congo, seja nos seus “veludos” de ráfia ou nos pequenos tecidos em retângulos, costurados, aplicados e bordados com belos grafismos, tingidos também com terras e taninos. O hábito dos kuba de tecerem suas peças em pequenos teares portáteis, produzindo pequenas peças que depois são emendadas e costuradas também é característico dos tecidos “kenté”, dos ashantis do Gana. São faixas estreitas multicoloridas, em listras e xadrezes, que são costuradas pelas laterais. Originalmente produzidos com fios de algodão e seda, hoje os “kentés” recebem fios sintéticos na trama, comprometendo muito sua qualidade e beleza.

Tecido etnia kuba/ Congo A tecelagem e estamparia africana são superlativas. O luxuoso e antiqüíssimo adirealabere é uma técnica de estamparia por fio tinto em dobras e costuras é com certeza um dos mais ricos processos de estampar conhecidos. Os adires é produzido por amarras com alinhavos, que podem ser feitos à mão ou em máquinas de costura com pontos largos. Os motivos são riscados previamente a carvão sobre os tecidos em dobras. Há centenas de maneiras de dobras e plissagens nos adires, e cada uma produz um resultado singular, aliado ao desenho alinhavado. Suas padronagens simétricas e multitexturadas são deslumbrantes. Em países como Burkina-Faso, Camarões e Gâmbia os adires são geralmente monocromáticos, em índigo ou mogno. Já a Nigéria, Senegal e Serra Leoa produzem adires multicoloridos, de cores vívidas. Hoje o adire-alabere corre um sério risco de desaparecer, pois as populações que os produzem estão seriamente ameaçadas por guerras, doenças e a fome. Além disso, todo o acervo de tecelagem e estamparia africano passa por uma adaptação para o processo de produção fabril, aonde os cânones originais são desrespeitados e

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abandonados, descaracterizando e empobrecendo esse rico tesouro da humanidade: os têxteis africanos. Celso Lima p/Revista “Bons Fluidos” abril 2008 -Fonte www. portais da moda .com.br

Tecendo na África A arte de tecer em tear manual é uma das mais antigas do mundo. Na África existem três tipos principais de tecidos: o Bogolan, o Khorogo e o Kubá. Em geral os tecidos são confeccionados para marcar ciclos importantes da vida das pessoas ou das aldeias, para vestuário, tapetes e também já serviram de moeda de troca. Em algumas etnias os homens tecem e as mulheres tingem os tecidos. Os tecidos Kubás estão entre os mais importantes de todo o território africano. Durante muito tempo a compra e venda destes tecidos só aconteciam com a aprovação do rei e, por várias vezes, eram usados como moeda de troca. O padrão dos desenhos nos tecidos Kubás é tão importante que uma das tarefas de um

novo rei é inventar um desenho novo para representar o seu governo. Os homens tecem a partir da ráfia retirada das palmeiras em pequenos e rudimentares teares. São as mulheres, no entanto, as responsáveis pela decoração dos tecidos. Os desenhos demonstram a importância e a influência de cada família. Funcionam como presente para a família da noiva, como símbolo de poder nos funerais e nas apresentações de bebês novos ao resto da vila. Utiliza-se nesse tecido a técnica especial do aplique. Em anos recentes, os desenhos terrosos ou preto-e-branco dos tecidos Bogolan tornaram-se conhecidos no mundo todo. Bogolan, que significa tecido de lama, é uma tradição estabelecida há tempos entre os Bambara, etnia majoritária do Mali. A produção dos Bogolan envolve um processo único e longo em que a matéria-prima é o tecido de algodão branco confeccionado em tiras estreitas por homens locais em tear duplo. As tiras são cerzidas juntas na forma do pano desejado pelo usuário. O tingimento tradicional é feito apenas por mulheres e a técnica passada de mãe para filha. A peça é lavada em água e colocada ao sol para secar para que encolha ao seu tamanho final. Depois, o tecido é embebido

de uma solução marrom e uma solução amarela extraída da maceração de folhas de várias árvores e posto para secar ao sol. O tecido está pronto para a aplicação dos corantes naturais extraídos da lama. O barro coletado em lagos e poças é deixado para fermentar por alguns meses em um pote coberto, adquirindo ao final de um ano a cor negra. Os tecidos Khorogo, originalmente da cidade de Khorogo, no norte da Costa do Marfim, hoje são encontrados em vários lugares da Costa do Marfim. Representam cenas da vida cotidiana das aldeias africanas ou cenas da mitologia Akan. São tecidos de algodão tingido com argila e pigmentos naturais (extraídos de folhas, frutos e cascas de árvore). Assim como nos tecidos Bogolan, os homens tecem tiras estreitas em tear pequeno e depois as costuram juntas para alcançar a largura desejada. Depois dividem com as mulheres a tarefa de tingi-los. Há basicamente quatro cores reconhecidas pelas tecelãs: preto, cinza, vermelho e branco. Porém outras tonalidades podem ser obtidas através da mistura dessas quatro cores.

MENEZES, M., O ideário africano através do vestuário e sua influência na diáspora negra, In: 1º Congresso Brasileiro de Pesquisadores Negros, Recife Pernambuco, 2000. QUINTINO, C., Filosologia Celta: Vivenciando os Deuses e Deusas Ancestrais, HI Editora, São Paulo, 2002.

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Você sabia? Que há cerca de 20.000 A.C. Que o objeto matemático mais antigo é o bastão de Ishango, osso com registros de dois sistemas de numeração. Foi encontrado no Congo em 1950 e é de 18 mil anos mais antigo que a matemática grega? Que há 2.000 A.C. o povo Haia (da região atual Tanzânia) produzia aço a 400 graus Celsius-temperatura superior a dos fornos europeus do século 19. Uma faca datada de 900 A.C, feira no Egito é o objeto de ferro mais antigo? Que em 1.650 A.C o papiro de Rhind indica que os egípcios sabiam o valor da constante geométrica PI muito antes de Arquimedes (250. A.C) e as propriedades do triângulo retângulo antes de Pitágoras (sec.6. A.C.)? Que no século 12 muros de pedra de 10 metros de altura foram erguidos na região do Zimbábue. As ruínas revelam saberes avançados também dos povos subsaarianos em construção civil ? Que o reino de ioruba desenvolveu-se a partir do século 11 e que os povos dominavam técnicas de olaria, tecelagem, serralheria, metalurgia do bronze, utilizando a técnica da cera perdida (molde de argila que serve de receptáculo para o metal incandescente. Que a capital Oyó Benin era dividida em quarteirões especializados (curtume, fundição, etc.)? Que os povos pertencentes ao Império de Monomotapa eram hábeis criadores de animais e comerciantes, as pessoas que per-

tenciam a esse império importavam tecidos e cobre de outras regiões africanas, pérolas e porcelana da China e que exportavam marfim e ouro? Que o candomblé é uma religião africana que existe desde os tempos mais remotos e que o continente africano, que é o berço da terra, e que se funde sua origem com os primeiros contatos de pessoas que lá chegaram, que existem citações na teologia africana que Odudúwa era Nimrod, o conquistador caldeu primo de Abraão e neto de Caim, que foi designado por Olodumarè para levar a remissão e a palavra de Olurún (Deus) aos filhos de Caim que viviam na África? Este fato data de 1850 A.C., sendo que Caim pode ter vivido entre 2100 a 2300 A.C. - Oranian, neto de Odudúwa, viveu em 1500 e seu filho Xangô por volta de 1400. As coincidências existentes nos rituais africanos, como a Kaballah hebraica, são imensas, e vem provar a tese da estreita ligação entre Abraão, pai dos semitas, e Odudúwa, (Nimrod) pai dos africanos. Isso pode ser cons-tatado no relacionamento existente entre o símbolo de um elemental africano chamado Dan a serpente, e uma das 12 tribos de Israel, cujo nome é Dan, e seu símbolo, a serpente telúrica.

Introdução ao Kimbundu 1 - O Kimbundu e os grupos lingüísticos africanos; o grupo Bantu, inserido na família

Congo-Cordofaniana. A grande maioria dos lingüistas está de acordo em como, no Continente Africano, as línguas se dividem por quatro grandes famílias: a Afroasiática (inclui as línguas Berberes do Norte de África, as Cushitas da Etiópia e da Somália e ainda as semitas, abrangendo o hebreu, o árabe e o aramaico), a Nilo-Sahariana (constituída pelo Sudanês, o Sahariano e o Songhai), a Niger-Congo ou Congo-Cordofaniana (inclui numerosos grupos predominantes para sul do Sahara, de que destacamos os Bantu, para sul do Equador) e Khoisan (línguas dos Pigmeus da floresta tropical do Congo Democrático e línguas faladas “com estalinhos” pelos povos Kung, vulgarmente conhecidos como Hotentotes, Bosquímanos ou, em Angola, Mucancalas). O Kimbundu é uma língua do grupo Bantu, pertencendo à família lingüística NigerCongo ou Congo-Cordofaniana. é plural de muntu, radical comum a quase todas as línguas do grupo. Muntu quer dizer indivíduo, pessoa, ser humano, significando, portanto, bantu, indivíduos, pessoas ou seres humanos. Em Kimbundu, a palavra mutu significa pessoa, sendo o seu plural, atu, pessoas, gente. Pelos exemplos acima indicados, podemos desde já concluir que a principal característica das línguas Bantu é o fato da flexão – isto é, a formação do gênero, feminino ou masculino, e do número, singular ou plural – se fazer por meio de prefixos. 2 – Nações Bantu de Angola; diferenças dialectais nos subgrupos mbundu; o kimbundu de Ambaka

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Você sabia? O território de Angola situa-se quase exclusivamente dentro da área de difusão das línguas bantu. São nove as nações bantu de Angola, correspondendo a cada uma delas uma língua diferente: Nação Idioma Bakongo Kikongo Mbundu (ou Ambundu) Kimbundu Lunda-Tchokwe Tutchokwe Ovimbundu Umbundu Ganguela Tchiganguela Nhaneka-Humbe Lunhaneka Herero Tchiherero Ovambo Ambo Donga Xindonga De todas estas nações, só os territórios dos Mbundu, dos Ovimbundu e dos NhanekaHumbe se circunscrevem ao espaço ango-

lano. Os das outras são todos atravessados pelas fronteiras políticas delineadas após a Conferência de Berlim de 1885. Os Bakongo, por exemplo, repartem-se pelos estados de Angola, Congo Democrático e Congo Popular, os Lunda-Tchokwe, cujo território é atravessado pelo rio Kassai, dividemse entre Angola e o Congo Democrático, na província do Katanga (ex-Shaba), os Ganguela entre Angola e a Zâmbia e, finalmente, os Herero, os Ambo e os Donga, entre Angola e a Namíbia. Cada uma destas nações é dividida por diversos subgrupos, a cada um dos quais corresponde uma variante dialectal. A nação Mbundu reparte-se por 11 subgrupos (ou etnias), disseminados pelas províncias de Luanda, Bengo, Malanje, Kuanza Norte e ainda pequenas bolsas no Uíge e no Kuanza

Sul. São, portanto, 11 as variantes do Kimbundu, consoante a difusão geográfica dos 11 povos que constituem esta nação: Ngolas, Dembos, Jingas, Bondos, Bângalas, Songos, Ibacos, Luandas, Quibalas, Libolos e Quissamas. O Kimbundu, a semelhança das outras línguas bantu, não tem tradição escrita. Os primeiros a escrevê-la e a estudar-lhe as regras gramaticais foram os missionários capuchinhos e jesuítas de Ambaka. Fizeramno com o fim de ensinar a língua portuguesa e o catecismo aos africanos. Foram eles que introduziram os princípios ortográficos ainda hoje vigentes. Nos séculos XIX e XX surgem estudiosos do Kimbundu, de onde destacamos Héli Chatelain, Cordeiro da Matta, António de Assis Júnior e Oscar Ribas.

Bibliografia J.H. Greenberg, The Languages of Africa, 1963, The Hague; David W. Phillipson, African Archaelogy, Cambridge University Press, 1998, pp. 5-8; Mário António F. Oliveira, Reler África, Coimbra, Instituto de Antropologia da Universidade de Coimbra, 1990, pp. 69-122. P. Domingos Vieira Baião, O Kimbundu sem Mestre, Porto, Imprensa Moderna, 1946, p. 22 eIdem, p. 26 e http://www.multiculturas. com/angolanos/alberto_pinto_kimbundu_intro.htm

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A discriminação à mulher está presa à tirania das palavras e imagens Por Vera Vieira (*)

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uando se diz “A salvação do planeta está nas mãos dos homens”, ao invés de “ A salvação do planeta está nas mãos da humanidade”, reflete-se a posição que o homem vem ocupando na história, reforçando-se seu papel hierárquico e as relações de poder e dominação masculina na sociedade. Ao longo dos tempos, tem ficado bastante evidenciado o papel da linguagem sexista no reforço dos estereótipos machistas que contribuem sobremaneira para o desequilíbrio das relações sociais entre homens e mulheres, caracterizadas pelo binômio dominação/subordinação. Ao nascermos, nosso sexo é definido pela natureza. Já o comportamento diferenciado tem a influência direta da formação e educação que recebemos no meio social, historicamente marcadas pela subordinação da mulher ao homem. Trata-se de um fenômeno cultural que se arrasta ao longo de milênios e que deve ser mudado. As pessoas são educadas e formadas tanto pelas escolas, como pela família, Igreja, meios de comunicação de massa, leis do Estado, etc., que são responsáveis pela clara definição dos papéis desiguais da mulher e do homem, com conseqüências dramáticas na sociedade. Bastam somente alguns dados para essa comprovação: alto índice de violência doméstica sofrida pela mulher (com um número assustador de mortes), indepen-

dente de raça, cor, etnia, classe social ou escolaridade; a média salarial baixa, mesmo com maior formação; pouca ocupação de cargos de liderança e número elevado de mulheres chefes de família, entre outros. É fundamental estarmos conscientes da relação da linguagem com o conhecimento e a cultura. É somente depois da fase da aquisição da linguagem que a pessoa atinge o campo da abstração. O pensamento conceitual é inconcebível sem a linguagem, em conseqüência do processo complexo da educação social. O ser humano não só aprende a falar, mas a pensar. Enquanto ponto de partida social do pensamento individual, a linguagem é a mediadora entre o que é social, dado – portanto, ditatorial -, e o que é individual, criador, no pensamento de cada pessoa. A linguagem não só constitui o ponto de partida social e a base do pensamento individual, mas influencia também o nível de abstração e de generalização desse pensamento. Ela influencia o nosso modo de percepção da realidade. A experiência individual implica em esquemas e estereótipos de origem social. O estereótipo vem à tona na relação emocional do ser humano com o mundo. Por ser um processo não consciente, exerce sua ação com força tanto maior quanto mais se identifica em um todo unitário como conceito dentro da consciência humana. Este é o

segredo da famosa ‘tirania das palavras’. A linguagem enquanto discurso não constitui um universo de signos que serve apenas como instrumento de comunicação ou suporte de pensamento. É interação e um modo de produção social. Não é neutra, nem inocente, na medida em que está engajada numa intencionalidade, e nem natural, por isso o lugar privilegiado de manifestação da ideologia.

Mitos da identidade masculina e feminina O consenso social e histórico na construção da imagem e mitos da identidade masculina e feminina, desde os primórdios, é fator preponderante na continuidade do ‘poder do macho’. Não obstante as pressões para se alterar suas estruturas, seu enraizamento é extremamente profundo, exigindo uma incidência maior de ações educativas.

Mas, qual seria exatamente a diferenciação entre os termos mito, símbolo, arquétipo, esquema? Gilbert Durand, ao explicar a palavra mito, consegue incorporar e diferenciar as demais. De forma sintética, mito pode ser definido como um sistema formado por esquemas, arquétipos e símbolos, compondo-se em narrativa:

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“(...) No prolongamento dos esquemas, arquétipos e simples símbolos podemos considerar o mito. Não tomaremos este termo na concepção restrita que lhe dão os etnólogos, que fazem dele apenas o reverso representativo de um ato ritual. Entenderemos por mito um sistema dinâmico de símbolos, arquétipos e esquemas, sistema dinâmico que, sob o impulso de um esquema tende a compor-se em narrativa. O mito é já um esboço de racionalização, dado que utiliza o fio do discurso, no qual os símbolos se resolvem em palavras e os arquétipos em idéias. O mito explica um esquema ou um grupo de esquemas. Do mesmo modo que o arquétipo promovia a idéia e que o símbolo engendrava o nome, podemos dizer que o mito promove a doutrina religiosa, o sistema filosófico ou, como bem viu Bréhier, a narrativa histórica e lendária. É o que ensina de maneira brilhante a obra de Platão, na qual o pensamento racional parece constantemente emergir de um sonho mítico e algumas vezes ter saudades dele. Verificaremos, de resto, que a organização dinâmica do mito correspondente muitas vezes à organização estática

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a que chamamos de ‘constelação de imagens’. O método de convergência evidencia o mesmo isomorfismo na constelação e no mito.” [1]

Paulo Freire reconhece a própria linguagem machista Ao publicar, em 1992, A pedagogia da esperança - um reencontro com a Pedagogia do oprimido, Paulo Freire faz, com muita humildade, uma análise do volume imenso de cartas que recebeu, em Genebra, com críticas de mulheres norte-americanas, depois do lançamento do livro, em sua primeira edição no início de 1971. Eram tempos de exílio, em função do longo regime militar brasileiro, e a primeira edição foi publicada em inglês. “(...) É que, diziam elas, com suas palavras, discutindo a opressão, a libertação, criticando, com justa indignação, as estruturas opressoras, eu usava, porém, uma linguagem machista, portanto discriminatória, em que não havia lugar para as mulheres. (...)

Em certo momento de minhas tentativas, puramente ideológicas, de justificar a mim mesmo, a linguagem machista que usava, percebi a mentira ou a ocultação da verdade que havia na afirmação: ‘Quando falo homem, a mulher está incluída’. E por que os homens não se acham incluídos quando dizemos: ‘As mulheres estão decididas a mudar o mundo’? (...) A discriminação da mulher, expressada e feita pelo discurso machista e encarnada em práticas concretas é uma forma colonial de tratá-la, incompatível, portanto, com qualquer posição progressista, de mulher ou de homem, pouco importa. (...) A recusa à ideologia machista, que implica necessariamente a recriação da linguagem, faz parte do sonho possível em favor da mudança do mundo. (...) Não é puro idealismo, acrescente-se, não esperar que o mundo mude radicalmente para que se vá mudando a linguagem. Mudar a linguagem faz parte do processo de mudar o mundo. A relação entre linguagem-pensamentomundo é uma relação dialética, processual, contraditória.” [2] As conclusões a que chegou Paulo Freire


remetem a Bakhtin, que se aprofundou na relação da linguagem e da cultura, considerada enquanto relação de causa e efeito, isto é bilateral: trata-se da influência da cultura sobre a linguagem, como da ação da linguagem sobre o desenvolvimento da cultura: “(...) A consciência adquire forma e existência nos signos criados por um grupo organizado no curso de suas relações sociais. (...) As palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios. (...) A fórmula estereotipada adapta-se, em qualquer lugar, ao canal de interação social que lhe é reservado, refletindo ideologicamente o tipo, a estrutura, os objetivos e a composição social do grupo.” [3] Durante o desenvolvimento de um projeto da Rede Mulher de Educação, intitulado Gênero e Educação para os Meios, a etapa denominada ‘diagnóstico dos meios’ apresentou exercícios críticos por parte das participantes, apontando, com bastante regularidade, a presença de linguagem sexista, como os exemplos abaixo destacados: As chamadas são feitas sempre no mascu-

lino, mesmo quando os programas suscitam ou têm a participação de ouvintes, e essas, em sua grande maioria, são mulheres. Isto é feito tanto por locutores masculinos, como pelas poucas locutoras femininas. (Programa ‘Pop de Chapa Cruz’ - FM-101,1 - Cuiabá/MT, monitorado por Madalena R. Santos). As fotos de mulheres predominam na coluna social. As de mulheres negras, só aparecem no caderno policial. (Jornal ‘Vale dos Sinos’, de São Leopoldo/RS, monitorado por Clair Ribeiro Ziebell) São comuns as imagens de mulheres donasde-casa ou infratoras. (Jornal Nacional, da TV Globo, monitorado por Denise Gomide) É um escândalo! Tem muita gente que se espelha nas novelas... Nunca aparece a família das empregadas domésticas. As mulheres casadas estão sempre cozinhando e lavando; os homens, solicitando comida e cerveja. (Telenovela ‘Laços de Família”, da Rede Globo, monitorada por Sandra Monteiro, de São Miguel do Tocantins) O filho é sempre da mulher; o homem não

precisa ter responsabilidade - ou ele é condenado pelo auditório, ou é aplaudido por causa da ‘lei de Gérson’, no sentido de levar vantagem em tudo. (Programa do Ratinho, da SBT, monitorado por Thereza Ferraz, de Santos/SP) A linguagem - escrita e imagética -, carregada de estereótipos, há tempos vem merecendo ênfase nas ações do movimento feminista, como bandeira fundamental para o avanço da luta, tanto que, a partir de 1991, a REPEM (Rede de Educação Popular entre Mulheres da América Latina e Caribe) passou a designar o dia 21 de junho, com uma série de atividades, como a data “Por uma educação sem discriminação”. Vamos romper com a linguagem sexista, em busca de um mundo com igualdade entre mulheres e homens! Quando se quebra com a linguagem, quebra-se também com padrões comportamentais.

(*) Vera Vieira, coordenador-Executiva da Rede Mulher, é jornalista, com especialização em Gestão de Processos Comunicacionais e mestra em Comunicação / Educação pela USP/ECA. Fonte: www.redemulher.org.br EPARREI 23


Adriana Lessa

Por Joana Londirá Fotos: Ori Wani

Uma atriz completa

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epresentar a trajetória da maioria das mulheres negras brasileiras, interpretando Nana na novela Terra Nostra revelou para o Brasil uma atriz completa. Adriana Lessa que treinava atletismo no Corinthians, não podia imaginar que através de um convite para um teste com o diretor Antunes Filho, pudesse aflorar seus dotes artísticos. Da estréia no teatro em Macunaíma em 1986 para apresentadora de TV Fama, se passaram 23 anos. Em setembro de 2008, conhecemos de perto Adriana Lessa durante sua participação no debate “A imagem do negro no áudio visual” ocorrido na sede da CCMN. Além da simpatia, o debate revelou uma Adriana consciente do que é ser atriz negra no Brasil. 24 EPARREI

Ao lado de Lea Garcia, Lucimara Martins, Madi Soqui e Jeffeson D, era uma das convidadas para atuar como júri no V Festival de Curta Santos. Dentro da temática do debate, ela relembrou para os ativistas e lideranças negras presentes, os limites impostos à sua trajetória artística: “Quando o papel não é de época, na maioria das vezes, a “cor pega”. Quando percebi que não conseguia determinados papéis, parti para o aprimoramento, e, mesmo sendo radialista, cantora, atriz e dançarina e agora apresentadora, ainda é muito difícil romper com os estereótipos impostos pela mídia. Muitas vezes aceitamos determinados papéis porque precisamos trabalhar. Qualquer artista por principio deve interpretar qualquer

personagem, inclusive doméstica, favelada; o que não é correto é ser condicionado pela tonalidade da sua pele, a representar apenas esses personagens”. O sorriso franco e o brilho no olhar é um referencial para auto-estima da juventude que pode constatar em seu currículo que ela veio e merece brilhar. Mesmo contrariando os pais que almejavam para a filha uma carreira acadêmica foram os primeiros a dar apoio para que ela pudesse se tornar uma artista completa. Após “Macunaíma” de Mário de Andrade ainda em 1986 encontramos a paulista nos palcos de Sampa encenando “A Hora e Vez de Augusto Matraga” de Guimarães Rosa no


Record participou da minissérie “O Desafio de Elias” e de “Alma de Pedra”. Apresentou programas na MTV e na TV Bandeirantes. No cinema, atuou em filmes de longa, de média e de curta metragem “Com que Roupa” de Ricardo Van Steen, “O Samba Mandou me Chamar”, de Sergio Zeigler e Vitor Ângelo, “Capitalismo Selvagem” de André Klotzel, “Amassa que Elas Gostam” de Fernando Coster, “Papel e Água” de Michel Tikhomiroff e “A Hora Mágica” de Guilherme de Almeida Prado.

Nada nos impede de torcer para que concretize seu maior sonho, o de ser dirigida por Spike Lee. Seu fã clube torce para vê-la também como protagonista no horário nobre global, talento ela tem de sobra. Enquanto esperamos podemos nos aproximar dela de forma virtual através do seu site ou ligar no TV FAMA. onde atua como apresentadora de segunda a sexta ás 19:20hs e aos sábados às 20hs na Rede TV! ou visitar o seu site http://www2.uol.com.br/adrianalessa/fr_set.htm

Em 2009 ela continua esbanjando charme na Avenida desfilando como madrinha de bateria. teatro SESC atual SESC Consolação. e em tournée em festivais na França, Áustria, Espanha, Alemanha, Grécia e Canadá. Como cantora e bailarina, apresentou-se a bordo do navio “Vasco da Gama/Sea Wind Cruise Line” no espetáculo “Brasil, Canta e Dança”, sob direção de Abelardo Figueiredo, pela costa brasileira e em Aruba, Trinidad, Tobago, Curaçao, Grécia e Costa do Marfim, participando ainda do staff artístico de hotéis em Porto Rico e Japão. Retornando ao Brasil, foi apresentada ao diretor José Possi Neto que a dirigiu em eventos musicais e em diversos filmes publicitários nos quais se familiarizou com a linguagem de “teatro-dança”. Ainda no teatro, foi dirigida por Cininha de Paula, ao lado de José Maurício Machline, no musical “um Gordo em Conquista”, por Wolf Maya no musical “Cabaret Brazil”, por Tânia Nardini no premiado musical internacional “Rent” e por Roberto Lage na leitura dramática do texto de Plínio Marcos “A Mancha Roxa”. Na TV, fez sua estréia em “Araponga”, na TV Globo, dando início a diversos outros trabalhos entre os quais se destacaram “Chiquinha Gonzaga”, “Terra Nostra”, “Aquarela do Brasil” – finalista do prêmio “EMMY 2001”, “O Clone” e “Rita de Cássia” na novela “Senhora do Destino” na TV Globo. Na TV EPARREI 25


Joana Angélica

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ontemporânea de personalidades como Lélia Gonzáles, Beatriz Nascimento e Marlene Cunha, a carioca Joana Angélica, 54 anos, preferiu a atuação em base, aos holofotes. Em quase 30 anos de existência não teve um encontro do movimento de mulheres negras que o Centro de Mulheres de Favelas e Periferia (Cemufp) - uma das organizações que ajudou a fundar e que dirige atualmente e Joana, não estivessem presentes, quer seja, construindo, apoiando ou simplesmente participando. Nascida na Cruzada São Sebastião, Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro, Joana conta que desde os nove anos já demonstrava a líder que seria escrevendo peças de teatro para encenar na escola. Aos 17, já era conhecida no movimento negro. Técnica em enfermagem, ao longo de sua vida ela cursou três faculdades - Comunicação Social, História e Psicologia - até o sexto período, mas sempre uma viagem para algum congresso falava mais alto. E viagem é o que não falta no currículo dessa carioca. Aprovada para marinha mercante, ela pôde conhecer diversos países. Também teve oportunidade, como ela mesma diz, de 26 EPARREI

conhecer todas as capitais brasileiras. De 1978 a 1981, morou na Guiana Francesa e, retornando ao Rio, em 1982, já com uma filha pequena, Joana opta por morar na comunidade da Rocinha, também na Zona Sul, onde viveu por 20 anos. E foi na Rocinha que ela começou a intensificar sua militância em prol das mulheres negras de baixa renda. Joana Angélica lembra, que numa época de intensa movimentação feminina, a luta era para que dentro dos movimentos feministas fossem consideradas as particularidades das mulheres negras e de favelas e periferias: “Nós participávamos dos movimentos mistos e feministas só que não tínhamos muita visibilidade. Na hora de tirarem as propostas éramos deixadas de lado; falavam que problema de mulher era tudo igual. A gente botava pé que não era. Tem alguns pontos iguais e outros que são diferentes. Foi aí que pensamos em formar o Cemufp para discutirmos questões especificas das mulheres negras e das mulheres de favela e periferia”.

Por Fabiana Oliveira - Foto: Kátia

Questões como o baixo nível escolar, discriminação social, além da racial, falta de saneamento básico nos locais onde vivem e a violência foram alguns dos motivos que levaram diversas lideranças comunitárias a criarem, em 1985, no Morro do Parque de Vila Isabel, na Zona Norte do Rio, o Cemufp - um trabalho que iniciou a partir da experiência de várias moradoras de comunidades que faziam suas casas de creches para as mães terem onde deixar os filhos ao irem trabalhar. Essas mulheres também tinham envolvimento com associações de moradores locais e com departamentos femininos das escolas de samba.

Cemufp e movimento de mulheres A criação do Cemufp foi também um desdobramento do Seminário de Mulheres de Favelas e Periferia, que ocorreu 1984. Organizado por 14 comunidades, o encontro reuniu cerca de 200 mulheres no Centro do Rio. Joana destaca a importância do Cemufp para criação de outros seminários, encontros e movimentos de mulheres negras e mulheres moradoras de favelas e periferia:


“O Cemufp sempre trabalhou para fazer base. Tudo que aconteceu no movimento feminista no Rio nós participamos, sem contar os encontros nacionais e internacionais também”. Como não podia deixar de ser, o Cemufp esteve presente também no I Encontro Nacional de Mulheres Negras, que ocorreu em Valença, município do Rio de janeiro, em 1988. Foi a partir desse encontro, que segundo Joana, toda articulação de mulheres negras que vinha sendo feita a nível nacional ganhou legitimidade: “Foi uma oportunidade de trocarmos informações sobre o que estava acontecendo nos outros estados. Daí conseguimos fazer o segundo e terceiro encontros nacionais. A partir desse encontro foram surgindo também o Fórum Nacional de Mulheres Negras e a Articulação Nacional de Mulheres Negras Brasileiras. Em 1986, o Coletivo de Mulheres de Santos, CCMN, Geledes, Criola, MNU e nós do Cemufp, montamos uma delegação com 15 mulheres para o II Encontro de Mulheres Afro-Latino Americanas e Caribe-nhas, em São José, na Costa Rica. Tudo resultado dessas articulações nacionais”.

Articulando pelo telefone Para quem é da geração militância banda larga, acostumada a grupos de discussão, conferências e seminários online fica difícil imaginar grandes encontros, decisivos para

história do movimento de mulheres negras no Brasil tendo como únicos veículos de comunicação o telefone e o Correio. Mas parece que tirando o valor da conta no final do mês, distância geográfica não foi problema para elas. “Nossa criatividade fazia com que nossa comunicação se completasse. Se precisasse de uma coisa mais urgente telefonava. Aí era muita articulação de telefone. Já na década de 80 cheguei a gastar por mês o equivalente hoje a R$500”, diz Joana. E completa: “Também nos encontrávamos bem mais e isso era bem melhor porque era tudo olho no olho. A gente tinha mais contato umas com as outras. Gosto muito da internet é tudo muito rápido, mas ainda seleciona”, diz Joana, lembrando a grande parcela da população considerada analfabeta digital. Entre um toque e outro de telefone muitos encontros foram realizados. Joana destaca, nesses quase 30 anos de Cemufp, alguns mais marcantes como “a participação na comissão organizadora dos três encontros nacionais de mulheres negras, o seminário que legitimou o Fórum Nacional de Mulheres Negras, o I Encontro de Mulheres Lideranças de Favela, em 1998, e em 2001, o I Seminário de Alfabetizandos do Cemufp com todas as turmas, de dez comunidades cariocas, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense”.

ganização está construindo sua sede na Zona Oeste, na comunidade Piraquê, em Pedra de Guaratiba. E como não podia ser diferente, Joana mudou-se também para um bairro vizinho, Barra de Guaratiba. “Como sempre servimos de base, politizando e assessorando a formação de novos grupos, agora precisamos nos estruturar mais. Sempre tivemos sedes itinerantes, decidimos que temos que ter um lugar para organizar nossa memória e qualificar mais nossas ações. Já estamos conhecendo as mulheres daqui e começando a movimentar”, diz animada. Avaliando esses anos de atuação do movimento de mulheres negras no Brasil, Joana aponta muitas conquistas, mas segundo ela, o movimento poderia alçar vôos mais altos se... “A gente consegue estar em vários movimentos e muito mais. Só não conseguimos superar algumas diferenças que nos afastaram e acho que isso enfraqueceu muito nossa luta. Poderíamos ter muito mais poder político se nós tivéssemos conseguido trabalhar nossas diferenças, mas o próprio racismo brasileiro trabalha para que isso aconteça e a gente não vê. Isso enfraquece a gente para o coletivo. No nosso meio ainda tem muitas mágoas. Hoje a realidade é outra. Não dá para chorar leite derramado; temos que seguir em frente!”

Atualmente, o Cemufp encontra-se em processo de estruturação. Para isso, a or-

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Profª Urivani de Carvalho

Cabeça também foi feita para carregar tranças

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e no passado o cabelo afro era símbolo de inferioridade, hoje é referência de beleza negra. Trazer o cabelo trançado é possuir na cabeça o fio condutor da história negra. Herança histórica dos nossos antepassados, a trança afro no Brasil através da recriação de formas e estilos está proporcionado um encontro da ancestralidade e resgatando a identidade dos afro brasileiros. Nada melhor para a nossa auto-estima o sentir-se bela a partir de uma cabeça com trança. As tranças podem ser utilizadas com assessórios coloridos com modelos varia-

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dos; há quem prefira a do tipo torção, as tiarinhas, a trança com duas cordas, a modelo preguinho, a coqueirinho ou a tipo espetado. Até quem perdeu seus cabelos pode também carregar trança, já que é possível utilizar o kanecalon liso, encaracolado, ou o popular miojinho para tecer o estilo de trança jamaicana ou solta. Na Baixada Santista a trança afro resiste ao modismo dos alisamentos, às chamadas escovas definitivas, sendo na atualidade a coqueluche da juventude e mulheres negras de todas as idades. A chamada moda Black já não tão exclusiva da comunidade negra, gradativamente está conquistando pessoas de todos os matizes de cores e classes sociais.

A técnica repassada de geração em geração chega ao Brasil através das trabalhadoras seqüestradas que foram introduzidas no Brasil no período colonial, porém desde a pré história que já se havia descoberto as inúmeras possibilidades que os tipos de cabelo afro podiam oferecer. Na antiguidade, nos pergaminhos, narrativas na Bíblia, entre outros documentos ficaram os registros. No livro dos Mortos a narrativa de como a deusa Isis utilizou-se da habilidade de artesã capilar para penetrar no palácio e resgatar a alma do esposo Osíris assassinado pelo irmão Seth. Ela viajou quilômetros até saber que seu corpo encontrava encantado na Babilônia e sua estratégia para entrar no palácio surtiu efeito.


“Ao chegar à Babilônia, sentou-se perto de um poço, e chorou copiosamente Os reis da Babilônia, propuseram-se a conhecer o motivo de tanto desespero. Quando Ísis os viu à sua frente, saudou-lhes e solicitou que permitissem que ela entrançasse os seus cabelos. Estupefatos com a beleza de Ísis, os regentes, deixaram que ela fizesse as tranças. Ao terminar as tranças, a rainha da Babilônia foi contemplar o resultado final, mas acabou sendo enfeitiçada pelo irresistível aroma que seus cabelos emanavam. Literalmente inebriada por tão doce perfume dos céus, a rainha ordenou então a Ísis que a acompanhasse até ao palácio da Babilônia Durante horas, Ísis e Néftis, com os corpos purificados, inteiramente depilados, com perucas perfumadas e bocas purificadas por natrão (carbonato de soda), pronunciaram encantamentos numa câmara funerária desconhecida, onde o incenso queimado impregnava de espiritualidade. A deusa invocou então todos os templos e todas as cidades do país, para que estes se juntassem à sua dor e fizessem a alma de Osíris retornar do Além. (Livro dos Mortos) No Egito, o costume africano de trançar os cabelos é vistos também na arte pictória no interior das pirâmides, corpos mumificados retirados dos sarcófagos nos revelam a beleza e a mais variada formas de trançados e nas esculturas de vários períodos da história da Arte Africana observamos diversos modelos.

No Egito um dos locais considerados abençoados com a magia de Ísis está ¨Dendera, no alto Egito, onde Ísis surgiu para a humanidade. Pode-se ver um santuário de Háthor (deusa do amor), parcialmente conservado, com um templo coberto e com o mammisi, ou seja, “(templo do nascimento de Hórus), assim como com um pequeno santuário, onde Ísis nasceu, já Hórus, o filho de Ísis, é o deus da cidade de Edfu, no Delta, ele é representado nu, adornado com a trança dos príncipes pendente sobre a orelha. Durante o reinado de Ramsés II, observamos registros do período (1298-1232 a.C.) sendo norma os filhos dos faraós rasparem a cabeça, ficando apenas com uma mecha de cabelo, no lado da cabeça, enrolada em tranças revelando assim a sua descendência divina. As famosas perucas trançadas, as franjas o uso de colorir os lábios, o contorno dos olhos com lápis lazuli e o uso do sombreado eram utilizadas por pessoas que residiam nos palácios. Os arqueiros núbios, os etíopes e os do Mali traziam na cabeça a chamada trança nagô ou rasteiras bastante reproduzidas na atualidade, porém, são as mulheres núbias, as responsáveis pela manutenção dos mais ricos formatos de trança. Nos dias atuais, elas resgatam tradição e preservam a história confeccionando tranças nos cabelos, umas nas outras. Em algumas regiões, as tranças são enfeitadas com tiaras de contas de vidro multicoloridas. As Núbias eram também artífices religiosas que

podiam praticar o artesanato em tranças na cabeça dos reis e rainhas da antiguidade.

Os BACONKOS e a Tradição do Trançado A população de Cabinda pertence ao grupo sócio-cultural Bakongo que é constituído por Bawoyo, Bacongo, Baling, Bassundi, e Bacotche. O principal idioma da província é o Ibinda com as seguintes subdivisões: Kissudi, Kiombe, Lindiji, Kotchi, Kwacongo e Woyo. As mulheres trajam-se geralmente com amarrações em panos e os seus penteados são verdadeiras obras de arte de acordo com o grupo linguístico a que per-

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Esculturas de vários períodos da Arte Africana

tencem. Um relato de um conto Griot revela: “Oxiwanangue era um povo de muitos povos, cada qual com sua forma de viver. No tempo dos tempos inventados era a banza Elavoko, a capital de Oxiwanangue. Era um promontório verdejante voltado para o mar Kalunga, Deus para uns, para todos, fonte da vida. Aí se erguia o palácio do fumu Haishe, sábio Khoisan que mandara gravar no seu frontispício um sabu quimbundo que adotara como lema do seu reinado, a mulemba era sua árvore ancestral, a rainha. A sombra verdadeira, sombra que é sombra, só da mulembeira! Sentava-se ali debaixo dela para deixar-se trançar os seus cabelos. Várias formas trançar o cabelo, dos povos 30 EPARREI

Wolof, Mende, Mandingo e Iorubas são preservados ainda hoje nas comunidades africanas. Em várias partes da África Negra, o trançado nos cabelos significa mais que beleza, traduz hierarquia religiosidade e a identidade, a maneira de pentear o cabelo é possível distinguir pessoas e povos. Através do trançado podemos perceber a condição social, idade e até o estado civil. Por exemplo, pode-se ler se uma mulher é solteira, se é a primeira ou segunda esposa, se nunca esteve divorciada, se foi mãe há menos de 40 dias ou se esteve muito tempo sem ter um filho. Também há trançados para casamentos, como o «koju soko», ou seja, várias tranças que iniciam umas no alto da testa e outras na nuca. Outros penteados são especiais para ocasiões fúnebres. Um deles é o «kolese», que consiste em duas tranças feitas nas laterais

da cabeça. Em Angola, as moças solteiras usam tranças ornamentadas com linhas e miçangas. A este penteado chama-se «soyo». Os adereços nas tranças significavam outrora sinal de riqueza, já que o Nzimbu-pequeno búzio pescado pelas mulheres da Ilha de Luanda, servia de moeda de troca ao Rei do Kongo. Cabelo como Filosofia de Vida, Protesto e Auto Afirmação. “Nem todos os rastas usam dreadlocks, nem todos que usam são rastas”. As dreadlocks surgiram por volta de 1935, inspiradas em fotos de guerreiros massais e somalis da África Oriental. Uma espécie de touca de lã, a TAM, guarnece a dreadlocks do sol e do vento e é, quase sempre, tecida nas cores etíopes: vermelha, amarela e verde. Para os rastas usar dreadlocks significa seguir uma filosofia religiosa.


O PROFETA GARVEY e a Filosofia Rastafári Os rastas consideravam o imperador Haile Selassie, da Etiópia, como a principal representação de deus. Por isso, os cabelos caracterizados por mechas na forma de canudos que não são escovados representam o principal símbolo de união com Jah, divindade maior dos rastafáris Na tradição popular jamaicana, Garvey é considerado como um profeta inspirado por Deus, o precursor anunciador de Haile Selassie. Entre profecias e milagres, atribui-se a Garvey a predição de que um “poderoso rei” surgiria na África trazendo justiça aos oprimidos. Quando o príncipe (Ras) Tafari da Etiópia foi corado imperador com ampla cobertura da imprensa mundial, muitos jamaicanos entenderam que ali estava o cumprimento da profecia de Garvey e, assim, nasceu o Movimento Rastafári. No livro da Glória dos Reis, o Kebra Negast, uma escritura apócrifa (não reconhecida pelo Vaticano), supostamente traduzido diretamente do aramaico (antiga língua dos judeus). Neste texto, aparecem profecias que indicariam a destruição da “Babilônia

Branca” ou “Babilônia dos Brancos” e o retorno dos Israelitas para a África, para o verdadeiro Zion (o Monte Sião). O Kebra Negast foi adotado pelos Rastafaris como parte de seus textos litúrgicos. A Bíblia diz, em Números 6,5: “Enquanto durar o voto de nazireado a navalha não passará sobre a cabeça; estará consagrado enquanto não se completarem os dias que consagrou ao Senhor, e deixará crescer livremente o cabelo”. Por isso, a grande maioria dos rastas jamais corta o cabelo e a barba, que se tornam, ainda, “antenas” de vibrações divinas.

Movimento Black Power Em meados dos anos 60, o sentimento libertário e a luta por direitos iguais eram latentes na população negra da América do Norte Figuras como Ângela Davis e o grupo político Panteras Negras mudaram não apenas o rumo da população como influenciaram milhares de negros pelo mundo para que assumissem sua negritude, e, no cabelo estava à visibilidade do protesto contra a educação eurocêntrica imposta aos afro americanos, Outros como Malcolm X e Martin Luther lutavam pelos direitos civis

dos negros na América e sensibilizaram com seus discursos, milhares de negras e negros para assumir a sua negritude. A partir da década de 60, a visibilidade dos movimentos afros faz com que desperte a consciência negra. Cortes, trançados e penteados afros, são inspirados pelo movimento americano do “Black-Power” e jamaicano dos “Dread Looks”. Stokely Carmichael, por exemplo, militante do movimento negro nos Estados Unidos, foi o responsável pela criação da expressão “black power”, em português “poder negro”. A expressão passou a caracterizar não apenas uma luta em prol da comunidade negra, mas também um novo tipo de penteado. O “black power”, representado na figura de cabelos bem crespos e volumosos, era um sinônimo de afirmação racial. Na década de 70, os ideais de auto-afirmação Black chega ao Brasil e logo encontra eco nos ativistas do Movimento Negro de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Usar cabelos do tipo Black Power significava ser alvo do preconceito e estar associado à marginalidade. Nos bailes da periferia de São Paulo e Rio de Janeiro, quem usava cabelo no estilo black power apanhava da policia, era revistado e não raro ia até a delegacia com a acusação de esconder maconha no cabelo. Se para o africano a estética capilar sempre esteve ligada a determinados signos e símbolos, no Brasil, a partir da visibilidade das organizações negras na luta contra o EPARREI 31


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racismo, o trançado dos cabelos passa a adquirir a partir da década de 70 uma postura de ideal de beleza negra contribuindo com o fortalecimento da auto-estima. Do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, o movimento se alastra fincando raízes na Bahia. Com o advento do turismo étnico em Salvador, os blocos de Ylê Aye e Olodum retransmitem para o restante do país os ideais de beleza negra nos moldes africanos. Proliferam-se os salões afros em todo o Brasil e oriundas das camadas pobres surge à figura da tranceira. É a trabalhadora negra autônoma que passa a trançar cabelos à domicílio ou em praças públicas.

CCMN e o Resgate Na Baixada Santista o artesanato em tranças é um mercado que cresce vertiginosamente. A profissão denominada Tranceira ou Artesã Capilar possui registro junto aos órgãos públicos; a maioria que exerce a profissão na região, concluiu o curso na Casa de Cultura da Mulher Negra. Após 02 meses a profissional pode abandonar a antiga profissão de doméstica para atuar num mercado em ascensão, a maioria, tem no artesanato com tranças a principal fonte de renda e sustento da família. Além da parte prática, as tranceiras passam a conhecer as raízes históricas de integração e interação de mitos e ritos presentes na história do trançado. Obter a consciência de que a cabeça também é feita para carregar tranças é saber que são reprodutoras e portadoras do significado para atuar na construção da identidade e preservação de uma arte milenar. O curso é oferecido há 19 anos.

Dicas para manutenção do Trançado Afro Os cabelos devem estar limpos e sem nenhum tipo de creme. Realize o trançado com os fios totalmente secos. Se for trançar cabelos com química trance com cautela para não ficarem quebradiços. Ao lavar os cabelos já trançados, seque muito bem o cabelo para não danificar a raiz e acrescente sempre um creme perfumado à base de ervas.

Após o Trançado em estilo Dreads Seque os fios com o secador logo após a lavagem, porque os dreads ficam envoltos por lã e tendem a ficar encharcados, o que pode danificar os cabelos. Use uma touca ao dormir para não despentear os fios. Faça a manutenção do penteado, no caso de cabelos crespos, após 45 dias. Para fios lisos, o prazo é de 20 dias. Trazer o cabelo trançado é possuir na cabeça o fio condutor da história da Cultura Negra.

Fonte de Pesquisa e Ilustrações: Urivani Rodrigues de Carvalho é arte educadora com especialização e Arte e Cultura Negra - Vice presidente da CCMN Enciclopédia das Aves, dir. de Joseph Forshaw, Círculo de Leitores, Lisboa, 1995-História de Angola, Edições Afrontamento, Porto, 1975-ETIM-adap. diacr. do kik. Bakongo, s. pl. de Mukongo, ms.) www.tione.h-br.com/Egipcia.htm | www.cih.org.br | penteado cabinda-de Brigitte G. Flade-in Martins -“Mulher do Namibe”-desenho de Mário Alves Pereira-” Mulher Muhuila “-óleo s/ tela de Carlos Ferreira | Mulher Muhanha. www.postcardman.net-Comunidade Europeus Regulamentos (CE) nº 338/97 do Conselho e nº 2724/2000 da Comissão, in Jornal das Comunidades Européias 18.12.2000, in http://europa.eu.int/eur-lex/pt - Embaixada da R. P. de Angola em Lisboa, www.embaixadadeangola.org/cultura - (1) Línguas Nacionais, ac. 27.12.2003 - (2) Motivos do Ecoturismo em Angola, ac. 01.01.2004 - Nilma Lino Gomes (2003 - Apostila Curso de Trança da Casa de Cultura da Mulher Negra-Profa.Urivani R. de Carvalho EPARREI 33


Conto

Cambitus** P

ois é... Aqui em Brasília me deparei com uma loja chamada Cambitus. E para mim, não foi surpresa que exibisse um painel luminoso com varas finas de madeira em formato de forquilha. Cresci, ouvindo minha família chamar de cambitus, as canelas dos meninos e das meninas. E era comum dizerem que as crianças tinham uns cambitinhos, tão bonitinhos. Como nossas canelas eram finas, logicamente, fui concluindo que cambitus tinha a ver com qualquer coisa muito sem volume, do tipo vara de pau. Mais tarde, passei a observar que um certo grupo de negras de minha cidade possuía cambitus, as canelas finas como eu. Não sabia de qual nação africana procedíamos. E até hoje o que sei é que as canelas finas são resistentes e que sustentam, não raramente, uma bela e enorme bunda. Mas voltando à loja Cambitus... A loja. Suas vitrines com cristais e louças, utensílios de couro e adornos femininos, sempre despertavam o meu olhar de passageira de rotina pela frente do estabelecimento. Houve um dia em que

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adentrei pela loja, quando o olho espiou mais ao fundo e enxergou bonecas negras e uma variada coleção de porta-retratos de todos os tamanhos, expondo rostos negros, masculinos e femininos. Claro que falei comigo mesma: será efeito negreiro da Lei 10.639/2003 ou a dona é negra assumida, de bem com ela própria? Ou é a história dos cambitus que tem a ver com as canelas dos negros? Entrei na loja para bisbilhotar as tralhas. Foi quando me tornei uma freguesa assídua da vizinha Cambitus, politicamente correta na exposição das bonecas negras, nas maravilhosas estampas de negros e negras nos porta-retratos, em igualdade com as bonecas e com gente branca. Comprei uma linda boneca negra para minha netinha. Enquanto comprava, ia lembrando da professora Vera Triumpho que incentivava o brinquedo com bonecas negras; lembrando do Projeto Bonecas Negras das professoras Franquilina, da Maria Marques, do projeto de auto-estima, itinerante pelo Brasil, para valorizar a beleza das crianças negras, estimular a identificação delas com as

Homenagem à autora Maria Helena Vargas da Silveira (Helena do Sul)*, falecida em 06/01/2009

bonecas lindas, feitas com o cuidado de quem sabe o que faz e porque o faz. Lembrando... Lembrando... A gente lembra de tudo, embora longe do que se pensa ser tudo. Passei a comprar na Cambitus e com o tempo, além de freguesa e vizinha, fiquei mais próxima de Ivete, a dona da loja. Comecei a manter conversas interessantes com Ivete que é mulher branca, nordestina, plena de uma filosofia de vida muito especial, centrada em ditas e benditas palavras de seus pais. São ditados que lhe movem a mente e os atos no dia-a-dia. Eu já estava acostumada com suas bonecas negras na vitrine, com a luminosidade dos cambitus no painel, com os rostos de cor, lábios e cabelos que me davam a sensação de pertencer à família deles, nos porta-retratos. Mas teve um dia em que entre os sessenta portaretratos, havia cinqüenta por cento de caras negras expostas. Ah! Contei um por um. O fato chamou, positivamente, a minha atenção. Elogiei Ivete, meio no galope, correndo, ainda que fosse um sábado de folga no


trabalho. Mas driblando a estupidez da corrida, resolvi ficar conversando, indagando, conferindo detalhes dos detalhes que faziam o diferencial da loja, no Plano Piloto branco de Brasília. Ainda lembro de nosso diálogo. – Ivete, sei que você é nordestina, mas de onde mesmo? – Sou lá do fim do mundo do Ceará, de uma cidade chamada Iracema que cresce todo dia, prá baixo, que nem rabo de cavalo. Eu posso dizer isto porque sou de lá e amo minha cidade. Mas sei por informações, que não sai do mesmo lugar, não tem progresso. – E este nome da loja, tem a ver com o quê? – Os cambitus são muito utilizados no nordeste. São aproveitados para armação de banquinhos com assento de couro de bode. E ainda, podem ser usados na lateral dos jegues, como suporte para carregar madeiras. Com os cambitus no painel, mostramos de onde somos. Não negamos nossas origens. Fincamos nossa bandeira e quem quiser que venham muitos idiotas não gostam de nordestino, mas meu pai me ensinou que gente é gente. – E os porta-retratos, cheios de caras negras?

– Precisei colocar, coisa minha. Se mais tivesse retratos de negros, mais botaria. Entra muita gente aqui, mas algumas pessoas têm atitudes que me marcam e me levam a pensar e a fazer alguma coisa pela valorização delas, para educar. Elas precisam se respeitar. – O que elas têm a ver com os portaretratos? – Veio aqui uma família de negros com uma menina de oito anos e o pai mostrou para a menina uma boneca negra, elogiando a boneca. Tomei o maior susto, quando a criança falou para o pai: já te disse que negro não entra no meu carro. Olha que problema. Uma criança de oito anos. Não levaram a boneca. – E o pai, falou alguma coisa? – Falou nada. Ela deve ter repetido as palavras do pai. – Mais um caso destes? – Com certeza. Entraram na loja quatro senhoras negras com uma menina negra de seis anos, bonita, muito bonita. Era tão bonita que chamei a criança de princesinha linda. Então a criança, de seis anos, me olhou e disse: Eu, não. Eu não sou bonita porque sou negra. – E a mãe, falou alguma coisa? – Falou nada. As quatro mulheres riram

muito e eu precisei interferir. Pedi que não rissem que não era motivo para rir e que tinham que cuidar daquela criança, pois se as pessoas não se aceitam, não poderão ser felizes. A partir daí, tive o cuidado de “caçar” mais fotos de negros e expor na loja. – Tem mais história? – Esta é de cravar. Entrou aqui um senhor negro meia idade, cabelos grisalhos... Enquanto eu atendia o senhor, passaram uns jovens negros em frente da loja, rindo alto, coisa de garotada. Pois não é que este senhor me disse: isto é uma gentalha, esta raça é uma gentalha. – E o que você falou? – Não falei nada. Tenho feito. Eu faço. Encho a loja cada vez mais de portaretratos com negros e negras. Faço o mesmo com as bonecas negras. – Então é proposital a grande quantidade de negros nos porta-retratos da Cambitus? – Sou lá do fim do mundo do Ceará, mas papai sempre me dizia que gente é gente, não importa a cor, nem de onde vem. Quem pensa que é melhor que os outros, tem dois trabalhos e dois enganos: um é de se achar e o outro é de não ser.

* Maria Helena Vargas da Silveira (Helena do Sul), escritora negra, gaúcha, de Pelotas.*falecida em 06/01/2009. Possui nove livros publicados: É Fogo; O Sol de Fevereiro; Odara, Fantasia e Realidade; Tipuana; Meu Nome Pessoa, Três Momentos de Poesia; Negrada; O Encontro; As Filhas das Lavadeiras; Os Corpos; e Obá Contemporânea. No prelo: Rota Existencial, que será editado pela Fundação Cultural Palmares, em 2007. Sua produção literária envolve contos, crônicas, sátiras e poesias, resultado da inspiração de olho no universo da população negra, na gama da diversidade cultural brasileira, na História, na tradição oral de seu povo e na vivência de mulheres negras, com as tensões e emoções que a caracterizam, sem que perca a alegria e a esperança de melhores dias na Nação Brasil. Especialista em Educação acredita na Literatura como exercício da palavra que poderá servir de instrumento para a auto-estima e valorização dos afro-brasileiros. Especial Literário 25 de Julho Dia da Mulher Negra Promoção: Casa da Cultura da Mulher Negra e Site Lima Coelho EPARREI 35


Por Neide Diniz

O jeito Neia Daniel de SER m sua trajetória cultural nos espaços de poder, sua sensibilidade e sabedoria, aliada à experiência adquirida no seio do Movimento Social Negro deixa a marca do seu jeito de ser em todos os espaços que atua.

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Centro Cultural Municipal José Bonifácio-Gamboa, um espaço que foi totalmente remodelado e abriga o Centro de Documentação e Memória da Cultura Afro-Brasileira que poderá ter a professora na direção.

Em seu último cargo público como Assessora Especial da Assessoria de Assuntos Afro-Brasileiros da Secretaria de Estado de Cultura, desenvolveu encontros, seminários, exposições e durante quatro anos realizou o desfile cívico no dia 20 de novembro, Dia da Consciência Negra que na sua gestão, chegou a ter a participação de mais de 30 escolas. No entanto, com a sua saída do governo no início de 2008, o cargo foi extinto e hoje, o Rio de Janeiro conta com a Superintendência de Promoção da Igualdade Racial, conduzida pela atriz Zezé Mota.

Sua trajetória como militante do movimento negro deverá influenciar na sua nomeação:

Neia Daniel aos seus 54 anos tem como meta, concretizar o sonho e realizar a diferença no de poder atuar no

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“Gosto de dizer que o meu envolvimento com a negritude vem deste o útero da minha mãe”, relata com satisfação. Neia conta que os pais não falavam explicitamente na questão racial, porém pontuavam as desigualdades sofridas. Também diz que eles quase não estudaram, mas acreditavam no estudo e investiram em conhecimento. E relembra: “Cresci entre muitos livros e logo percebi uma situação que precisava ser mudada, muito cedo entendi que apesar de sermos iguais, havia algumas diferenças, as quais passavam pela cor da pele”.

Neia Daniel contextualiza seu envolvimento racial de acordo com os acontecimentos do mundo na época de sua adolescência e cita a luta dos Diretos Civis para os negros nos Estados Unidos (1955 -1968), como exemplo. Também revela que suas idéias foram influências e marcadas por Martin Luther King (1929 - 1968) que atuava com grandes mulheres como Rosa Parks, Alice Walker a Pantera Negra A ngela Davis do Movimento Black Power, entre outra (os) e enfatiza: “dava muito orgulho saber que alguém lutava pelos negros”. Do pacifista negro carregava escrito na prancheta da escola e hoje no coração, a seguinte frase, “nós não somos o que deveríamos ser, porém, não somos o que éramos”. E essa busca pela constante transformação em prol da evolução é visível em suas posturas políticas desde infância. Ao visitar o passado, lembra divertidamente de um episódio no colégio religioso. Estava na época da Páscoa e tinham que expres-


sar em desenho o que aquele momento representava. Então, Neia desenhou Jesus Cristo negro com um black power enorme, pregado na cruz e no peito a palavra liberdade. Quanto mais o tempo passava, maior era o seu interesse, mas no meado da década de 50 e início de 60, a informação era restrita, mesmo assim Neia conseguia acesso às poucas notícias que chegavam, ela ressalta a revista Realidade por ter produzido uma reportagem sobre a diferença do preconceito nos Estados Unidos e no Brasil. Matéria que na época, a marcou muito. E analisa que de lá para cá foram surgindo instituições com o propósito de salvaguardar o legado africano e lutar pela democracia racial e acrescenta “democracia de fato por que de direito já temos”. Sendo assim, acredita que o assunto discutido antes apenas em família ou em pequenos grupos de amigos,

passou a ser dialogado na sociedade e na mídia. Muito antes da Lei 10.639/03 ser uma realidade, Neia Daniel, na década 80, quando estava em sala de aula, já trabalhava com os alunos a História da África, analisava como os livros didáticos apresentavam os negros nas suas gravuras e, sobretudo, falava sobre as heroínas e heróis negros. E aí vai uma crítica: “o Brasil precisa de espelhos positivos”. E continua: “Alguma coisa a gente já vê de mudança, mas é um processo que precisa ser acelerado, precisamos de profissionais de educação mais atualizados”. Neia Daniel entende que a resistência do professor na aplicação da lei de obrigatoriedade do ensino da História da África e Cultura Afro-Descente nas escolas, vai além da discriminação, “não acredito que seja apenas por preconceito, mas por ignorância, no sentido de desconhecer o valor da contribuição negra na construção desta nação”.

E para os preconceituosos e racistas de plantão, Neia Daniel tem um recado. Com olhar fixo nos meus olhos e a voz emocionada diz, “as pessoas não fazem idéia como é doloroso ser rejeitado pela cor da pele, quando éramos novos, abaixávamos a cabeça e chorávamos; hoje, gritamos!”. E completa, “o racista é que tem a cabeça doente, precisa se cuidar”. Os tempos mudaram, mas a luta continua. Para a Neia Daniel a nova geração do movimento negro não sai por aí defendendo bandeiras como antes, contudo é crítica, muito bem informada e pronta para denunciar, cobrar e responder aos ataques, que infelizmente ainda acontecem. O tom severo e o semblante fechado mudam quando pergunto sobre as mulheres e uma gostosa risada acompanhada de uma resposta curta e inusitada preenche a sala, “nós somos demais!”. E no clima de euforia encerra a entrevista com um pedido aos céus, “Oxalá, abençoe que um novo tempo chegue logo”.

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Makota Kisandembu Kiamaza (Tânia Cristina) Mestra em Indumentária Africana

A moda e as Amarrações Africanas Ontem e Hoje

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a costa, foram trazidos para o Brasil uma quantidade enorme de produtos durante os mais de três séculos de escravização. A influencia africana no Brasil e diáspora é inegável, esta influencia vai desde a tecelagem, mineração a indústria. Ainda hoje e cada vez mais cresce a visibilidade da influencia africana na cultura mundial e a moda sofre uma influencia constante desta cultura. As matrizes africanas se evidenciam, sobretudo, quando se refere ao “âmbito sagrado”,neste âmbito que se destaca as amarrações o pano-da-costa, emblema feminino de indumentárias e rituais religiosos. Nestes rituais religiosos de matriz africana no Brasil o pano da costa ou pano de cintura, turbantes, torços, xales. ojás,atakans, ou o nome que queiramos dar deixaram de ser de exclusividade feminina como foram em áfrica ances38 EPARREI

tral. Por processos sociais e caminhos estéticos, e mudanças culturais o panoda-costa foi definitivamente integrado roupa de baiana. Peça indispensável deste traje, o pano-da-costa ou pano de cintura.passou a significar status social nas comunidades religiosas dos terreiros de candomblé,usado de formas diversas que possibilita identificar hierarquicamente quem é aquele ser dentro das comunidades tradicionais de terreiro de candomblé.

tas, mais tarde passa a ser chamado também de pano de cintura pela forma como é usado também nos terreiros de candomblé. Branco não era a cor predominante no pano da costa que, geralmente era listrado ou bordado em alto-relevo e colorido, depois passa a assumir características próprias aqui no Brasil dependendo do Nkise de cada nação de candomblé.

Não podemos esquecer que em África, o pano da costa era apenas um complemento da vestimenta das mulheres negras, que indicavam status social de acordo com formato e tecelagem, não tinha função religiosa era uma questão cultural e feminina. Já no Brasil, ele aparece com ligação com as celebrações do Candomblé por volta do século XVIII.

Recentemente, a moda vem sendo recolocada e ressignificada dentro da sociedade como parte importante da cultura e da construção de identidades e representações. e as mulheres negras têm consciência de que são parte significativa nesta moda atual. Esta mulher negra vem sendo convocada para um novo ciclo de integração cultural na moda.

Ficou conhecido como pano da costa porque vinha da Costa do Marfim (África) e também por ser usado nas cos-

Diante dessa nova visão de moda discutir a história do vestuário africano e brasileiro como expressão material de


realizações culturais é imprescindível e conhecer a indumentária africana é também imprescindível para entrarmos nessa reflexão. A revolução industrial, a entrada do artista plástico no mundo da moda no inicio do século XX, promoveram verdadeiras mudanças culturais. Vários pesquisadores do assunto moda dizem que esta influência mudou a padronagem dos tecidos, influenciaram totalmente a moda. Os processos modernistas, vanguardistas, de progresso, de mutação tecnológica e industrial, fizeram mudanças, criaram barulho inclusive na moda. Com essas ditas mudanças com este dito novo caminho cultural, África que já tinha há milhares de anos moda própria, tecidos próprios, resistiu. A mudança cultural vivida na moda, a necessidade de roupas personalizadas não deixou de ser buscada e influenciada por África. Há quem diga que com essas mudanças deixou-se o tradicional para traz, mas como África é arte, são tradições sim, ligadas sempre a manifestação da arte, é uma arte em movimento, mesmo com toda a influência de vários ditos colonizadores.

dades não viam nenhuma necessida-de de mudança no seu social no seu tradicional podiam passar muito tempo usando a mesma forma de indumentária, não por primitividade mas por se considerarem completos, tradicionais,sem necessidade de mudanças. O ser humano diz estar em constante evolução, temos durante o século XX as mudanças no tocante a posição social da mulher, com isso ela assume os ditames sobre a moda. A mulher negra vai buscar em África seu referencial para resistir e superar as discriminações, vai em África buscar renovar sua força e isto é nítido na indumentária Africana. Estas mudanças no habito de vestir-se da mulher negra provoca questionamentos no homem negro que também é provocado a retornar a África através de sua vestimenta e comportamento. Tivemos na musica Miriam Makeba que levava para os palcos não só sua resistência nos cânticos africanos, mas também na sua indumentária. Ela é um exemplo de resistência através também da indumentária. Miriam mostrava indumentárias tradicionais e também incorporava o dito moderno a estas indumen-

tárias sem deixar perder a força africana emanada por um traje. Temos o efêmero: ”passageiro, transitório, mudança, individual e coletivas, transformação,” Com as amarrações, com o uso do pano de cintura é possível viver este efêmero sempre, hoje e amanhã. Podemos fazer verdadeiras mágicas, culturais e de resistência com o pano de cintura, pano da costa.Ele pode provocar o mínimo e o maximo de variações, de caprichos de beleza nos corpos na vida.Hoje ele pode chocar preconceitos e inovar hábitos.Este pano é capaz de nos provocar sensações de bem estar que a psicologia jamais conseguira explicar. Podem ser usados nas mais variadas formas, trançados pelo corpo de formas a valorizar diferentes tipos de mulheres. É uma peça fácil de ser transportada, hoje em tipos de tecidos e cores diversas. que podem transformar todo o traje dando inovação,beleza,brilho, e o principal resistência. Essa é uma peça não só indispensável nos terreiros de candomblé, é uma peça capaz de provocar uma revolução na visão de moda da mulher negra. Capaz de provocar loucuras no corpo. E no imaginário de quem as vê.

Temos em África as amarrações, torcidos pelo corpo em uma verdadeira exibição artística, que até hoje vêm influenciando o mundo e a moda. São essas amarrações em tecidos de largura e comprimento diferenciados. A visão do belo. Belo e Feio são relativas, não somente a uma cultura como também a um tipo de sociedade, mas estes artesãos em África submetem-se a imitar a natureza e sua magia criando uma arte magnífica em amarrações cobrindo o corpo de arte, impõe-se códigos, livres para se comunicarem com o sociedade local. Social esse as vezes mantido por séculos sem mudanças, não era moda o que se pretendia com as indumentárias, e como essas socieEPARREI 39


Se Ligue

Publicações Ações Afirmativas

A Flor do Deserto

As políticas de Ações Afirmativas, dentro das quais se insere o Programa Ações Afirmativas na UFMG, apresentado e discutido neste livro, exigem uma mudança de postura do Estado, da universidade e da sociedade de um modo geral em relação à situação de desigualdade social e racial vivida historicamente pelo segmento negro da população brasileira. Livro de Aracy Alves Martins e Nilma Lino Gomes - Editora Autêntica.

Livro de Waris Dire - Este livro é um relato emocionante relato de Waris Dirie, modelo de projeção internacional e atualmente embaixadora especial da ONU na luta pela erradicação da mutilação genital feminina. Editora Hedra.

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Poemas Afro brasileiros Antologia Vários autores. Editora Quilombhoje Conto: O Beijo da Palavrinha de Mia

Couto. Esse conto faz parte da coleção Mama África, que resgata contos tradicionais africanos. Maria Poeirinha é uma menina pobre que nunca viu o mar. Muito doente, recebe o carinho do irmão, que encontra uma maneira de apresentar o oceano a ela. Ed. Língua Geral


Turismo Afro Criando alternativas para superar a crise A Diretoria da CCMN aposta no turismo cultural e histórico afro brasileiro como referência para o crescimento da região da Baixada Santista proporcionando o acesso à nossa cultura e geração de emprego e renda para mulheres negras. Tendo como meta idealizar um programa de desenvolvimento da Cultura Negra aliada à geração de emprego e renda, a Casa de Cultura da Mulher Negra lançou

em janeiro de 2009 o Programa Turismo Afro: Venha conhecer um pedacinho da África em Santos! Sendo a Casa de Cultura da Mulher Negra um marco na manutenção do resgate da história e cultura afro-brasileira na cidade, Alzira Rufino acredita que dirigentes de turismo da região, empresários do setor e agências de turismo poderão viabilizar pacotes turísticos destinados a apresentar aos visitantes o trabalho da organização que tem como um dos seus principais objetivos atuar com a valori-

zação da cultura afro-brasileira. Na sede da organização os visitantes poderão descobrir ou reconhecer a trajetória e o legado cultural dos povos de matriz africana.

Restaurante Pratos da Culinária Afro poderão ser apreciados e consumidos mediante reserva de mesa antecipada. Cardápio: Acarajé, Bobó de camarão, Feijoada Light, Moqueca Baiana e Capixaba e pratos da Comida Mineira.

Livraria Carolina de Jesus Revenda de livros e periódicos-Possui em seu acervo para venda livros produzidos sobre a temática racial e cultural escrito por intelectuais negras e negros.

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Revista EPARREI Publicação semestral impressa em cores com duas edições no ano. Pode ser adquirida por exemplar avulso a R$ 11,00 A Revista, via correio pode ser adquirida por R$ 14,95

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Loja de Roupas e Adereços Afros Batas, Filás, Abadás e Alacás africanos e outros produzidos em nossa oficina de Roupas. É Importante conhecer o trabalho de Pintura Afro expresso em coletes e blusas.Temos tamanhos até o extra G.

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Pele Preta, Apenas... Mulher Negra Base forte Pedacinho de céu nublado, sempre sujeita a chuvas e trovoadas. História viva. O hoje. Páginas que o tempo não consegue amarelar. Mulher Negra, História de resistência, sobrevivência, coragem. Avesso proposital. Rumo na condução da história, Transporte da sua comunidade, Rainha absoluta, soberana Antes e depois da mesa. Ser igual, sem ser banal. Levas a vida, como os versos para uma canção Raio de sol na noite. Não importa de onde, nem para onde. Estrela da noite na madrugada. Guerreira militante, anônima. Desafias o tudo errado, no meio do fogo cruzado. Esse medo que machuca, essa indiferença que mata. Se você reside num perímetro não permitido, Seu vizinho, você nem sabe quem é

Pele preta, apenas... Mentindo sempre para o seu coração: “É assim mesmo, coisas da pele preta”. O tiro perdido ou pensado, Todos os dias. Famílias separadas. Tentam calar tua discordância e revolta. Balas, não no papel celofane, mortíferas, um não à vida, Sua briga com o mundo Falar pra quem? Pele preta apenas... Mudam o jogo de repente. Deixam-te trocando passos sem sentido Tiram pouco aos poucos, a tua esperança Cravam a lamina forte em seus sonhos E falar pra quem? Cuida de mim! Começo de um novo dia. Se foi a noite. E a vida, não faz amor com você Páginas que o tempo amarela É tudo tão lento. A chuva não molha o teu coração Refresca às vezes teus sonhos de verão. Pele preta, apenas. A vida. Um recomeço.. Quer ser como um passarinho Cortam-te as asas

Por Alzira Rufino

Não te deixam voar. Medo que machuca Coração na divisão. Ter consciência negra Pessoas saem da sua vida. O coração fica em pedaços, Longe... Esquece o egoísmo, a exclusão. No cérebro o racismo dizendo que volta depois que volta depois, que volta depois... Mulher negra, Sempre refazendo a vida. Toma juízo! Toma cuidado! Querem os seus sonhos. inteiros, No grito: “Cuida de mim anjo azul. Essa história de inclusão, sabor de vitrine. Anjo azul, dá uma porrada no outro dia Não incineres as minhas lembranças. Minha consciência ancestral”.

Alzira Rufino é Fellow da Ashoka, Coordenadora da Casa de Cultura da Mulher Negra e Consultora de Programas Sociais - África do Sul - Moçambique - Angola.

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Fala Poetisa! Mulher, negra, mulher negra. Lembro de te ouvir chorando, sozinha. Não sei se por ter tido dos braços os filhos arrancados... Por ser coisificada quando antes era rainha... Ou quem sabe por estar assim tão longe de casa. Era um choro sofrido, sentido, magoado. Lágrimas que molhavam o solo de uma terra estranha, Juntamente com o sangue e suor derramado. Sangue e suor do seu corpo negro, tão antes belo, puro, faceiro... Aos poucos surrado, invadido, marcado.

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Mas havia um quê diferente naquele pranto, Junto às lágrimas havia força, coragem, resistência. O choro se alternava ao canto, um canto marcante, bonito, retumbante. Onde se versava lembranças de outros tempos, outras terras, outras vidas. E através da melodia ia arraigando energia aos corações cansados. O tempo foi passando, e você conquistando a liberdade. Entre fugas, lutas e revoltas, foi saindo das fazendas, caminhando pras cidades. Mas o que foi estranho é que o tormento não cessou... Só mudou de endereço, de forma, de

disfarce. Ainda queriam te podar, rebaixar, excluir. Proibiram sua entrada em estabelecimentos públicos, Sua casa foi queimada, sua família agredida. Até os reles empregos que lhes eram oferecidos foram ameaçados. E qual não foi o meu espanto, você mulher negra não desistiu. Lutou pelo sonho que desde sempre seu coração alimenta. Parece ser um sonho assim grandioso, Um sonho que não cabe em pensamentos pequenos, Em medos, receios, fraquezas. Um sonho que não se sonha só, e


muito menos se realiza só, Um sonho que acalenta a alma, o sonho de liberdade. Hoje mulher, ainda vejo seus olhos avermelhados do pranto de outrora. É verdade que é um olhar que carrega dor e indignação, Mas também é um olhar radiante, firme, alegre e atento. Ciente das conquistas alcançadas e das ainda a alcançar. E que não deixa de chorar... Chora quando seu peito aperta, Sentindo na pele negra a injustiça do mundo. Quando a desigualdade escancarada lhe bate a porta E vê sendo negado aos seus filhos o

espaço no país que ajudou a construir Chora sim, mas não só chora, luta, reage, modifica. Trás consigo aquele insistente nó na garganta, Que não a impede de gritar, gritar tudo o que tem direito. De ser você na sua essência, costumes, trajes e beleza. É... mulher negra, sinto que te ouvirei cada vez mais alto, mas forte, imponente. E ah!... Como é bom te ouvir!

O sonho, a vida, as guerreiras e os quilombos** Que o sonho seja o negro da madrugada Que a vida seja os passos do amanhecer Que as guerreiras resgatem a luta queimada Que os quilombos do hoje resgatem a luta de Zumbi

Autora: Tayná Wienne Adorno Tomás Instituto de Mulheres Negras Enedina Alves Marques Maringá - PR Especial Literário 25 de Julho Site Casa de Cultura da Mulher Negra e Lima Coelho

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Culinária Filé de peixe com camarão ao leite de coco Ingredientes

Modo de preparar

1 quilo de filé de merluza 500 gramas de filé de camarão fresco graúdos 1 garrafa de leite de coco ½ xícara de (chá) de azeite de oliva 2 colheres de (sopa) de extrato de tomate Farinha de trigo para empanar 3 tomates médios bem maduros 2 tablete de caldo de camarão 1 xícara de coentro picado 2 cebolas médias 1 pimentão grande 2 folhas de louro 2 xícaras de água Óleo para fritar 2 limões Sal

Corte os filés em tamanho médio e junte com os camarões. Temperar com suco de 1 limão, sal e aguarde 20 minutos. Seque os filés com papel toalha, passar na farinha de trigo e frite. Fazer o mesmo com os camarões (fritar levemente). Coloquem alternados em uma panela larga e reserve. Picar os tomates a cebola o pimentão. Bater no liquidificador juntamente com o coentro e 2 xícaras de água. Misture em outra panela com o leite de coco, o azeite de oliva, o caldo de camarão as folhas de louro, suco de 1 limão o extrato de tomate. Leve ao fogo, deixe ferver por 10 minutos mexendo sempre. Retire do fogo incorpore o molho aos filés e camarões reservado. Salpique um pouco de coentro picado e deixe ferver por mais 5 minutos. Servir com arroz branco.

Pavê com leite de coco Rende: 10 porções Tempo de preparo: 30 min Ingredientes: 200 g de margarina 200 g de açúcar 4 gemas 1 lata de creme de leite sem soro 300 g de amendoim torrado e moído 200 g de biscoito de maisena 200 ml de leite de coco

Modo de preparar Coloque a margarina na batedeira e bata ate ficar esbranquiçada. Sem parar de bater, junte o açúcar, as gemas e bata até ficar cremoso. Misture o creme de leite e o amendoim.

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“Informação é poder: Educar para mudar!”

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Revista Eparrei Online - Junho 2015  
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