Issuu on Google+

Winnacker e Wirtz explicam: como Heym dividiu o atómo Rafael Alexandrino Malafaia1 Resumo: Antes dos EUA e logo após Otto Hahn, com colaboração dos cientistas Fritz Straßmann e Lise Meitner, ter descoberto a divisão do átomo de urânio através do processo conhecido como fissão nuclear, o Deutsches Reich, na década de 1940, já começava a desenvolver o primeiro Programa Nuclear. A partir de tais considerações, a tecnologia de produção energética e as artes nunca mais foram as mesmas. Partindo da análise de trechos do conto Meu Irmão Louco, escrito em 1960 por Stefan Heym, utilizando a obra O milagre incompreendido – energia nuclear na Alemanha, de 1975, dos físicos Karl Winnacker e Karl Wirtz, esta comunicação analisará algumas das conseqüências deste projeto tecnológico, afetando não somente o panorama e o paradigma científicos do período mas inclusive sua influência na literatura, no cinema e na música. Palavras-chave: História. Energia Nuclear. Literatura.

A Fissão nuclear Histórico Em 1905, foi publicado um artigo de Albert Einstein (1879-1955) na revista científica Annale der Physik, anteriormente a sua teoria da relatividade, um breve texto intitulado “É a inércia de um corpo dependente de seu teor energético”, onde o cientista chega a sua célebre teoria E = m . c² Onde o teor energético (E) de um corpo é igual a sua massa (m) vezes o quadrado da velocidade da luz (c= 300 000 km /s). Sobre tal conclusão, Einstein escreveu: “a massa de um corpo é um padrão para seu teor energético. Alterando-se a energia, altera-se a massa no mesmo sentido. […] Não é de se excluir que uma demonstração seja bem-sucedida em corpos cujo teor energético é amplamente variável […]. Se a teoria corresponde aos fatos, a radiação transmite inércia entre o corpo eminente e o corpo absorvente”. (EINSTEIN, A. (1905). Ist die Trägheit eines Körpers Von seinem Energieinhalt abhängig? IN: Annalen der Physik 18: 639–643.)

Sendo assim, o experimento bem-sucedido de Otto Hahn (1879-1968) e Fritz Straßmann (1902-1980) revelou-se uma das mais brilhantes confirmações de tal teoria einsteniana. De tal maneira e pelos inúmeros estudos sobre a estrutura dos núcleos atômicos e seu teor energético, a classe pesquisadora teve imediata ciência que a fissão do urânio tinha o poder de liberar imensa quantidade de energia, a chave para a obtenção da energia atômica enfim fora encontrada. Apesar de sua caracterização ímpar para o progresso da ciência, modificando muito da concepção de ciência que temos hoje, o que torna a descoberta da fissão nuclear, em dezembro de 1938, realizada pelo físico e químico Otto Hahn e pelo químico Fritz Straßmann comum frente a outras foi que suas vinculações científicas, teóricas e econômicas por muito foram enigmáticas e inquietantes para o público de fora do meio científico. O que conhecemos hoje como Fissão Nuclear foi descoberta como resultado contrário do que os cientistas da época suspeitavam – a formação de transurânios2 maiores e mais pesados. Tal acontecimento não passou desapercebido pela comunidade científica da época, gerando ideias e debates que tomaram uma notável importância política – nada semelhante havia acontecido até então em tal meio. A compreensão do núcleo atômico teve diversos passos, sendo que o mais importante foi a descoberta das cargas positivas e negativas a partir dos bombardeios dos átomos com partículas alfa, experimento realizado em 1937, pelo físico e químico neozelandês Ernest Rutherford, também interessado pelas radiações emitidas pelas substâncias radiativas, as classificou em radiações alfa e beta (as radiações gama foram descobertas pelo francês – também físico e químico – Paul Villard), possibilitando a identificação dos prótons no núcleo atômico e, enfim, a famosa concepção do átomo em cuja camada externa giram elétrons carregados negativamente. Já o último passo de tal compreensão do núcleo atômico ocorreu em 1932 pelo inglês James Chadwick, colaborador de Rutherford, que provou haver outra partícula no núcleo atômico além dos prótons, o nêutron, que não possui carga elétrica, mas possui o mesmo peso de um próton. Após tal descoberta, já em 1934, o físico italiano Enrico Fermi utilizou estes nêutrons para bombardear elementos como o urânio, pretendendo produzir um já citado transurânio, até acreditando a priori que conseguira. No mesmo ano, Hahn trabalhara no Kaiser-Wilhelm Institut für Chemie, em Berlim, tendo como colaboradora a física austríaca de ascendência judia Ilse Meitner (1878-1968) e, já neste período, tais transurânios já eram sensações no meio científico, com diversas publicações tratando sobre o assunto. Logo Hahn e Meitner, e logo depois junto a Straßmann, debruçaram-se com afinco sobre os trabalhos de Fermi, primeiro cheios de dúvidas e logo convencidos que o italiano estava certo, por quatro anos, realizando diversos testes de irradiação, sendo que, durante estes, acreditaram ter produzido não somente o elemento 93, mas inclusive os três seguintes. A certeza viria em 1938 – os falsos transurânios haviam feito troça tanto do então Nobel de Física do ano, Enrico Fermi, quanto de Hahn e seus escudeiros. Entretanto, na análise posterior da verificação dos resultados do italiano, chegou-se à descoberta da fissão nuclear do urânio com auxílio de elétrons, abrindo um novo capítulo da história da 1 Rafael Alexandrino Malafaia é graduando do curso Licenciatura em Letras: Habilitação em Língua Alemã, da Universidade Federal do Pará – UFPA ; rafael_garou@yahoo.com.br.


ciência. Os dois cientistas alemães repetiram seus experimentos inúmeras vezes, sempre deixando Meitner – agora na Suécia, uma vez que abandonara seu país após ocupação alemã em idos do mesmo ano – a par de todos resultados de forma detalhada. Meitner e seu sobrinho com quem discutira bastante sobre tais relatos, o também físico Otto Robert Frisch, reconheceram que Hahn e Straßmann realmente haviam conseguido estourar o núcleo atômico do urânio, como Hahn havia formulado. Como resultado, surgiram dois núcleos menores, o bário e o criptônio, de números atômicos 56 e 36, respectivamente. Meitner informou imediatamente o físico dinamarquês e Niels Bohr, que levou a notícia em primeira mão aos Estados Unidos, onde iria trabalhar no então famigerado projeto Manhattan. A descoberta de Hahn e Straßmann foi publicada em 6 de janeiro de 1939, no periódico Die Naturwissenchat, com o título “Sobre a identificação e o comportamento dos metais alcalino-terrosos na irradiação do urânio com nêutrons” 1. Dez dias depois, Metiner e Frisch enviaram artigos de cunho físico-químico sobre tal descoberta a revista inglesa Nature, sendo que nelas, Frisch utilizou pela primeira vez o termo fissão. Processo cientifico A fissão nuclear ocorre quando um núcleo de número de massa grande é dividido em dois fragmentos de números de massa comparáveis. Os núcleos com número de massa grande estão sujeitos à fissão espontânea com uma probabilidade muito pequena e sujeitos à fissão induzida artificialmente com uma probabilidade bem maior. A fissão de um núcleo pode acontecer quando este é energizado com uma energia de pelo menos 4 a 6 MeV2 ou bombardeado com nêutrons, desde que um desses seja capturado pelo núcleo e que a soma da energia cinética com a energia de ligação ao núcleo seja maior do que o limiar de energia para a fissão.

O processo de fissão vem acompanhado de liberação de energia, pois a energia de ligação por núcleon 5 é menor no núcleo que se fissiona do que nos núcleos que se formam dos fragmentos. Na realidade, a energia total liberada na reação é maior porque os núcleos resultantes são instáveis e decaem, posteriormente, por emissão de elétrons, neutrinos e raios. Assim, a energia liberada na fissão de um núcleo de urânio chega a ser de aproximadamente γ 200 MeV e aparece como energia cinética nos fragmentos principais e nos nêutrons, elétrons e neutrinos liberados e também como a energia do campo eletromagnético que constitui os raios . γ

A fissão de um núcleo de urânio 235 produz diferentes pares de núcleos e, entre os produtos, existem nêutrons que poderiam originar novas fissões e ocasionar uma reação em cadeia. Entretanto, esses nêutrons têm energias cinéticas de aproximadamente 1 MeV e um nêutron, para poder iniciar uma reação de fissão, deve ser um nêutron térmico, isto é, deve ter uma energia cinética muito pequena, de aproximadamente


0,03 MeV. Desse modo, a probabilidade de que os nêutrons que fazem parte dos produtos de uma reação de fissão iniciem novas reações de fissão é muito pequena e, por isso, eles não podem manter uma reação em cadeia de forma efetiva. Nos reatores nucleares, existem substâncias conhecidas como moderadoras, cuja função é reduzir a energia cinética dos nêutrons resultantes das reações de fissão até o ponto de torná-los térmicos, sem absorvê-los. Desse modo, os nêutrons podem sustentar uma reação em cadeia.

O Programa Nuclear Alemão

Antes do início propriamente dito da II Guerra Mundial, o Ministério da Educação do Reich, ao qual estavam subordinadas universidades e centros de pesquisa, já havia sido alertado pelo físico Gerog Joos para a fissão do urânio e suas possíveis consequências. Em abril de 1939, o Departamento de Armamentos do Exército fora informado pelo físico Paul Harteck acerca dos novos desenvolvimentos na física nuclear que possibilitariam a confecção de um explosivo muito mais potente do que os da época. Já no explodir do conflito, o Departamento de Armamentos do Exército tomou sob seu comando o Kaiser-Wilhelm Institut für Physik, também em Berlim, o que desagradou em muito o seu diretor, Petrus Debye, Nobel de Química de 1936, que, entendendo que seu instituto não seria liberado de trabalhos bélicos, emigrou para os Estados Unidos, levando consigo informações sobre os planos técnico-nucleares alemães. Porém, outros cientistas já haviam feito o mesmo anteriormente, sendo que alguns deles junto a Enrico Fermi haviam convencido Albert Einstein, já exilado da Alemanha e vivendo nos Estados Unidos, a escrever, em 1939, uma carta ao então presidente Franklin Roosevelt, chamando a atenção a possibilidade da construção de uma bomba atômica pelos alemães e aconselhando que o governante tomasse a diante quanto a preparativos adequados a construção de armamento nuclear em território estadunidense, o que realmente ocorreu em poucos anos, mesmo com a sociedade científica tendo criado todos os pressupostos para tal desenvolvimento, o que foi apenas confirmado pelo experimento de Hahn e Straßmann. Com a invasão da Polônia em setembro de 1939, os Aliados tinham dúvidas de até onde Hitler teria incluído as possibilidades de aplicações do urânio em seus planos. No verão do mesmo ano, Werner Heisenberg havia dado o primeiro passo do Projeto Nuclear alemão com o seguinte texto “A possibilidade da obtenção técnica de energia a partir a fissão do urânio”4, que começa da seguinte maneira: “Consoante os dados até agora disponíveis, os processos de fissão do urânio descobertos por Hahn e Straßman podem ser utilizados também para a produção de energia em larga escola. O método mais seguro para a construção de uma máquina apropriada consiste no enriquecimento do isótopo urânio 235. Quanto mais longe for levado o enriquecimento, tanto menores poderão ser as dimensões da máquina. O enriquecimento do urânio 325 é o único método por meio do qual é possível manter pequeno o volume da máquina – aproximadamente um metro cúbico. É, também, o único método para produzir materiais explosivos cujo poder de explosão ultrapassa em várias potências de dez o dos mais fortes materiais explosivos conhecidos até então. Para a produção de energia, porém, pode-se utilizar também o urânio natural, sem enriquecimento de urânio 235, quando se combina o urânio com uma outra substância que desacelera os nêutrons do urânio sem absorvê-los. A água não se presta a essa finalidade, mas, em compensação, segundo os dados até agora disponíveis, água pesada e carvão absolutamente puro são apropriados” (WINNACER e WIRTZ, 1978, p. 13-14)

Deve-se observar aqui que os pesquisadores alemães não tinham conhecimento do andamento das pesquisas pelos estadunidenses e britânicos – o que não era recíproco, devido à intensa espionagem industrial executada pelos Aliados, que, além sabotarem Vemork, ainda a destruíram tal centro de produção através de um intenso ataque aéreo. Em contrapartida, no biênio 1941-1942, um reator atômico estava sendo construído na Alemanha, cuja tecnologia nada devia a estadunidense. Muitos testes em grande escala foram realizados, mas não de forma centralizada, por vários grupos de cientistas, sendo que o teste preparatório, ainda que não houvesse um resultado positivo devido o material necessário ao mesmo não ter sido empregado em quantidade suficiente, foi feito em agosto de 1940, em Hamburgo, conduzido pelo próprio Harteck. Os experimentos conduzidos por Weisenberg, em Leipzig, foram bem mais sucedidos, por não se utilizar mais parafina, que não permitia uma multiplicação de nêutrons, e sim a própria água pesada procedente da Noruega. Já na primavera de 1942, registrou-se um coeficiente positivo de produção de nêutrons devido a utilização pioneira de urânio metálico e água pesada em duas camadas. Quando os cientistas alemães ainda estavam na dianteira quanto a produção de nêutrons, mesmo sob condições externas difíceis e com uma estrutura bastante modesta se comparadas a outros institutos universitários, um incêndio acidental destruiu o centro de pesquisa de Leipzig. O ponto final no projeto nuclear alemão foi o desinteresse por parte do Reich em assuntos científicos, além da falta de uma liderança forte o suficiente para reunir e guiar as capacidades físico-nucleares germânicas e dado à obra um novo gás e espírito forte de organização, tarefa que o encarregado da Repartição de Armamentos do Exército, Kurt Diebner, mesmo com todas suas outras qualificações, mostrou-se ineficaz. “A dispersão dos interesses e a concorrência dos diversos grupos entre si não foram os únicos fatores que impediram uma reunião de quantidades maiores de urânio e água pesada. Por causa do estado avançado da Guerra, no final era muito difícil conseguir os equipamentos necessários para testes maiores [...] A concorrência dos grupos e uma direção deficiente, entretanto, fizeram com que, desde o início, os testes em grande escala fossem realizados em lugares diferentes e não num único lugar.” (WINNACER e WIRTZ, 1978, p. 20-21)

Consequências tecnológicas e produção energética


Apesar de todas as negociações e conseqüente burocracia do que fazer quanto ao futuro do desenvolvimento tecnológico calcado na energia nuclear, o país que obviamente mais avançou, e de forma mais liberal em tal situação, ainda foi os Estados Unidos, devido à indústria ter assumido a responsabilidade técnica e cientifica e o Estado ter encomendado as tecnologias e pago por elas, ainda que se reservando o direito de verificar meticulosamente tais empresas e confiando que as vantagens adquiridas pelas industriais tornar-se-ão benefício à comunidade como um todo, na forma de impostos. Antes da energia nuclear ser utilizada em centenas de centrais nucleares em países como França, Japão, Estados Unidos, Alemanha, Paquistão e Índia, muitas outras fontes de energia foram pesquisadas e desenvolvidas, como a utilização massiva de combustíveis fósseis, sendo o petróleo o principal deles, que é não importante fonte de energia até hoje, mas também grande agente poluidor do meio ambiente através da fumaça oriunda de automóveis e fábricas. Já no século XIX, os cientistas começaram a tornar útil um novo tipo de energia: a energia elétrica, que veio para mudar definitivamente a vida das pessoas. A Energia Nuclear pode ser aplicada a nível de produção energética com reatores de fissão de diferentes estruturas, com os de água leve (ingl. Light Water Reactorou LWR), os de água pesada (ingl. Heavy Water Reactorou HWR), os de rápido enriquecimento ou “reatores incubadores” (ingl. Breeder reactor) e outros, dependendo da substância moderador usada. Atualmente Japão e União Européia estão testando reatores de fusão nuclear, onde dois ou mais núcleos atômicos se juntam e formam um outro de maior número atômico. A fusão nuclear requer muita energia para acontecer, e geralmente liberta muito mais energia que consome.

Helmut “Stefan Heym” Flieg: apresentação e análise de Meu Irmão Louco “– Então êle é físico nuclear, hein? Em seguida, rabiscou algumas linhas num papelzinho e dentro de uma semana o meu irmão estava de volta na Universidade de Halle, em casa com mulher e filhos, um menino e uma menina, e, se bem me lembro, nem sequer me disse muito obrigado. Talvez também estivesse inibido. Não gostava de mostrar seus sentimentos. Nem mesmo aquele dia em Dresde disse muita coisa, embora fôsse o dia depois do bombardeiro da cidade pelos americanos. Bombardearam a cidade quando a guerra praticamente já havia terminado. Faziam mira na margem descoberta do Elba, entre êles, minha mulher e os meus filhos. Meu irmão só disse: – Poderia ter sido pior. Usaram apenas matéria explosiva comum...” (HEYM, S. Meu Irmão Louco. In: Antologia do Conto Moderno Alemão. Porto Alegre: Coleção Sagitário, 1968. Trad. Íris Strohschoen.)

O conto Meu Irmão Louco foi publicado originalmente com o título Mein verrückter Bruder, na antologia Schatten und Licht, de 1960, do escritor alemão Stefan Heym, pseudônimo do escritor alemão de ascendência judaica Helmut Flieg, e se passa logo depois do fim da rendição alemã aos aliados, quando as tropas estadunidenses começaram a desmontar os poucos e parcos centros de pesquisa nuclear na então Alemanha, já dividida pelo Tratado de Potsdam, em 1945. A narrativa é contada por um comerciante (cujo nome nunca é citado) que conseguiu se manter durante a guerra e fala sobre as desventuras de seu irmão (cujo nome também nunca é dito), um físico nuclear de poucas ambições, que, mesmo sem levar o menor jeito, se alista na Wehrmacht (“Força de Defesa”), o exército alemão do período hitlerista. Tal alistamento acaba virando a vida dos dois de cabeça para baixo, sendo que alguns dos principais fatos são relatados no texto, como a visita do mesmo a residência do casal Jouliout-Curie, na França ocupada. Alguns pontos a serem notados são: como o autor trata de acontecimentos durante o conflito que afetaram diretamente a moral do povo alemão, como o bombardeiro a Dresden, em fevereiro de 1945; como a guerra era um empecilho a seus afazeres e ao seu ganha-pão e, por fim, o notável desdém com que trata a classe cientifica de seu país, uma vez que, para ele, tais “avanços” não trouxeram benefício algum aos alemães. É aqui que deve-se perceber o quanto muito da classe artística da Alemanha era contra o conflito e o quanto foi prejudicada e influenciada pelo mesmo – sendo diretamente influenciada até os tempos atuais. “– Eu sou o Dr. Fulano de Tal, mon cher Professeur... – e naturalmente Joliet-Courie conhecia a sua reputação científica e sabia que diante dêle estrava apenas um físico nuclear, embora de momento disfarçado em soldado. Tiveram uma longa palestra, inteiramente apolítica, como me assegurou o meu irmão. falaram sobre os seus trabalhos mais recentes e sôbre as partículas de que se compõe a matéria e como a guerra infelizmente interrompia tantos dos seus mais caros projetos de pesquisa. (...) ” (HEYM, S. Meu Irmão Louco. In: Antologia do Conto Moderno Alemão. Porto Alegre: Coleção Sagitário, 1968. Trad. Íris Strohschoen.)

Neste período, todas as grandes mentes científicas tinham conhecimento umas das outras, participando inclusive de diversas palestras e dividiam resultados de pesquisas, chegando até a trabalhar juntas em diversos centros de pesquisa espalhados tantos pela Europa quanto pelos Estados Unidos. “– Então êle é físico nuclear, hein? Em seguida, rabiscou algumas linhas num papelzinho e dentro de uma semana o meu irmão estava de volta na Universidade de Halle, em casa com mulher e filhos, um menino e uma menina, e, se bem me lembro, nem sequer me disse muito obrigado. Talvez também estivesse inibido. Não gostava de mostrar seus sentimentos. Nem mesmo aquele dia em Dresde disse muita coisa, embora fôsse o dia depois do bombardeiro da cidade pelos americanos. Bombardearam a cidade quando a guerra praticamente já havia terminado. Faziam mira na margem descoberta do Elba, entre êles, minha mulher e os meus filhos. Meu irmão só disse: – Poderia ter sido pior. Usaram apenas matéria explosiva comum...” (HEYM, S. Meu Irmão Louco. In: Antologia do Conto Moderno Alemão. Porto Alegre: Coleção Sagitário, 1968. Trad. Íris Strohschoen.)


O trecho acima faz referência tanto aos projetos de pesquisa que o Reich mantinha durante a guerra quanto o bombardeio a cidade alemã de Dresden, realizado em 13 e 14 de fevereiro de 1945 – como já dito pelo narrador, quando a guerra em front europeu já estava em seus momentos derradeiros –, executado por tropas estadunidenses e inglesas, que matou cerca de trezentas mil pessoas, praticamente o dobro dos civis afetados pelos ataques atômicos as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, em 6 e 9 de agosto do mesmo ano. “(...) Esperei até o que o último caminhão de carga americano tivesse zarpado com professôres e técnicos e aparelhos e livros. Depois da partida em massa, em Halle ficaram apenas os trabalhadores e êsses eram pouco interessantes. (...)” (HEYM, S. Meu Irmão Louco. In: Antologia do Conto Moderno Alemão. Porto Alegre: Coleção Sagitário, 1968. Trad. Íris Strohschoen.)

Ao fim do conflito, pouco de tal tecnologia ficou nos centros de pesquisa que não foram destruídos tanto por ataques abertos ou resultados de sabotagens pelos Aliados quanto por experimentos mal-sucedidos. Após a divisão do país, durante a Conferência de Potsdam, estadunidenses e soviéticos – sendo seguidos por ingleses e franceses, todavia em menor escala – simplesmente encaixotaram o que puderam e enviaram a seus países de origem não somente tecnologia de produção que os deixasse a frente de seus “adversários políticos”, mas também cientistas e pesquisadores das duas Alemanhas recém-criadas. “– Diga-me, senhor professor – disse ele – tem desenvolvido alguma novidade ultimamente nos seus trabalhos sôbre a aceleração de partículas pesadas?” (HEYM, S. Meu Irmão Louco. In: Antologia do Conto Moderno Alemão. Porto Alegre: Coleção Sagitário, 1968. Trad. Íris Strohschoen.)

Segundo Winnacker e Wirtz (1978), caso Hitler e os outros escalões do Reich realmente percebessem o valor do projeto cientifico que possuíam e investissem nele de fato, ao contrário dos poucos que tentavam convencê-los de tal proposta, os alemães teriam facilmente vencido a guerra e os rumos da história como atualmente a conhecemos. Kuhn (1998) afirma que, a época de seus surgimentos, novas ciências nunca tem o devido reconhecimento até possibilitarem o devido progresso científico que o período exige – o que aconteceu com a energia atômica e suas consequências.

Recepção da Era Atômica pelas artes Cinema Os filmes Hiroshima, meu amor, filme franco-japonês de 1959, dirigido por Alain Resnais, e O Dia Seguinte, de 1983, de Nicholas Meyer, são diferentes abordagens, entre outras tantas, de como a sétima arte viu o quanto o homem comum pode ser afetado pela energia atômica. A primeira obra é um drama que tem como ambientação a cidade ainda arrasada pela bomba atômica jogada pelos estadunidenses em 6 de agosto de 1945, o enredo é de um romance entre uma atriz francesa e um arquiteto japonês, sendo que a idéia a ser tratada é a persistência da memória e a possibilidade do esquecimento sustentados por paradoxos como vida e morte, silêncio e palavra. Já o segundo, um famoso filmecatástrofe, subgênero famoso das décadas de 1960 e 1970, com a sinopse de um ataque nuclear soviético aos Estados Unidos durante a Guerra Fria após uma crise diplomática entre EUA e URSS após esta ter invadido a parte ocidental de Berlim, com consequências desastrosas para ambos os lados. A grande curiosidade é como o cinema japonês do pós-guerra viu tal período: através de séries, sendo as mais famosas Godzilla (que se tornou inclusive personagem de HQ, desenhos animados e jogos eletrônicos), surgida em 1954, e National Kid, série tokusatsu (abreviatura da expressão japonesa “tokushu satsuei”, ou simplesmente “filme de efeitos especiais”, i.e., filmes ou séries live-action de super-heróis produzidos no Japão, com bastante ênfase nos efeitos especiais, mesclando varias técnicas) do biênio 1960-1961, além das inúmeras séries Super-Sentai, franquia de séries de televisão voltadas para o público adulto e infanto-juvenil, surgidas em 1975, tendo como premissa básica um grupo de geralmente cinco heróis que ganham poderes especiais, usam roupas cada um de uma determinada cor, e possuem um arsenal incluindo robôs gigantes para combater ameaças alienígenas ou vindas da própria Terra. Godzilla é retratado como um dinossauro gigante com origens diversas, segundo o filme, mas quase sempre descrito como uma criatura pré-histórica criada por uma explosão nuclear, se tornando a personificação do medo das armas nucleares, com imenso tamanho, força, terror e destruição fazendo uma clara alegoria a fúria das bombas atômicas liberadas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki. Literatura Inegavelmente, o gênero mais influenciado pela Era Atômica foi a Ficção Cientifica, durante a transição da Era de Ouro a New Wave 6, que datam entre 1930 e 1980, uma vez que tal gênero literário é diretamente ligado a problemáticas científico-tecnológicas através de um espelhamento textual condizente ao momento histórico do texto, o que produz uma realidade literária que releva e metaforiza os problemas, fatos e fatores componentes da realidade histórica. Autores como Isaac Asimov, Arthur C. Clarke e Philip K. Dick trataram sobre as consequências de tal período em contos, até hoje atuais, de realidades fossem utópicas, com características como fé no progresso científico e apresentando muitos


conceitos técnico-científicos reais, ou distópicas, com personagens à margem de suas sociedades, estas já frustradas com as promessas da ciência e da tecnologia. Não deve-se desconsiderar que até mesmo as Histórias em Quadrinhos – que hoje possuem o status de literatura maior – foram imensamente afetadas por tal literatura histórica, vide seu maior expoente, O Incrível Hulk, criado por Stan Lee e Jack Kirby em 1962, resultado de uma sabotagem industrial quando um físico nuclear (homenagem clara a Hahn e seus pares) é atingido pela explosão de uma bomba gama quando fora salvar um jovem que estava no campo de testes de tal artefato bélico. Muitos contos de ficção cientifica com tais referências à Era Atômica foram adaptados para a tela grande, com maior ou menor grau de aceitação e/ou sucesso. Dois casos notáveis são: O Mestre sou Eu, do estadunidense Harry Bates, escrito em 1940, e levado a telona com o título O Dia em que a Terra Parou, por Robert Wise, de 1950, quando uma nave vem a Terra e seus tripulantes trazem a mensagem de um “conselho espacial” que propõe que a raça humana cesse as hostilidades que ela mesma se promove ou ele virá e o fará por próprios meios. Música Mesmo ao se considerar o indiscutível clássico da banda brasileira Secos & Molhados em musicar o poema “Rosa de Hiroshima”, escrito pelo poeta e diplomata brasileiro Vinicius de Moraes, para o álbum homônimo da banda, de 1973, os gêneros musicais que realmente tomaram as dores e dúvidas da Era Atômica, ainda que de forma muito influenciada pelo cinema e pelas HQs da época, foram o punk rock, surgido nos Estados Unidos e Inglaterra (esta é uma discussão que ainda está longe de ser terminada) em meados da década de 1970, como uma resposta ao heavy metal e ao rock progressivo, e o thrash metal, vertente mais rápida e pesada do heavy metal, que, além da influência de bandas punks e de hardcore (vertente mais conhecida do punk rock), tem origem com a banda brasileira Stress, em seu álbum homônimo de 1982. Além das letras de crítica social e autocrítica, que fazem tais gêneros serem considerados universais entre a juventude, muitas das letras reflete e o medo e angústia frente a um conflito “quente” entre as duas superpotências da Era Atômica, não levando em consideração os “benesses” que a tecnologia nuclear trazia a sociedade da época, ou, caso existissem, não chegavam as classes menos abastadas, favorecendo somente as que estavam no topo da pirâmide. Em 1997, durante a re-edição em CD do álbum Mais Podres do que Nunca, de 1985, a banda brasileira Garotos Podres, de Mauá (SP), mesmo com letras engajadas e críticas, porém contendo certo humor ácido, chegou a ironizar o projeto nuclear brasileiro na música “Meu Bem”. MEU BEM Meu bem você se lembra De como era sossegado o nosso bairro Bem do lado daquela usina nuclear? Meu bem, você se lembra Como foi bela aquela linda explosão? Até mesmo parecia uma festa de São João Mas aos poucos foram caindo pedaços de seu corpo De você somente restou sua orelha esquerda sempre a me escutar Meu bem, quero te acariciar Com cotonetes da Johnson & Johnson’s Mas espero que você não tenha ficado surda. (Garotos Podres, “Meu Bem”, Mais Podres do que Nunca, Rocker, 1985)

Já em “Inferno Nuclear”, os paraenses do Stress fizeram um paralelo entre a realidade social belenense da época do álbum Flor Atômica, de 1985, e a possibilidade de um ataque nuclear do qual a fuga é impossível. INFERNO NUCLEAR O concreto armado Da fria cidade Esconde a verdade Das ruas desertas Soldados de alerta Intranqüilidade Comícios nas praças Agitando as massas Pregando igualdade Revolta contida Dos que passam a vida Sem ter liberdade Mísseis nucleares Cruzam os ares E sem piedade Explodem a cidade


A negra fumaça Da nuvem que passa Encobre a maldade Guerrilhas sangrentas Brutais, violentas Sem necessidade Crianças sofrendo Lutando e morrendo Na flor da idade Nas linhas de fogo Massacre do povo Desumanidade (Stress, “Inferno Nuclear”, Flor Atômica, 1985, Polygram)

Considerações finais Ao contrário do que se acredita, a Era Atômica não começou com a descoberta da Fissão Nuclear, em 1938, e sim a partir de 16 de julho de 1945, no dia do teste da primeira bomba atômica. O termo Era Atômica foi popularizado a partir de 1951, quando difundiu-se a idéia que todas as fontes de energia seriam de natureza atômica. Muitos teóricos debatem até que ponto as ciências afetam a classe artística e o quanto esta pode devolver não somente à ciência, mas também à própria sociedade, de diferentes maneiras. Todavia, o cinema, a literatura e a música abordaram de diferentes maneiras como se deu a resistência contra o uso da energia nuclear, fato constante desde sua descoberta, e como os nativos dos países que a utilizam apresentam uma veemência variável quanto a suas utilizações. Após as represálias de diversos grupos ambientalistas devido a tragédia ocorrida no Japão em março de 2011, o governo alemão decidiu encerrar a utilização de energia nuclear em seu território até 2022, optando por novas alternativas de abastecimento energético. Já a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e a Eletronuclear, que respondem diretamente ao Ministério de Minas e Energia, ainda estudam projetos de prever e evitar tais catástrofes em território brasileiro. Notas transurânios – elementos químicos artificiais com número atômico maior do que 92, o número atômico do urânio, vindo após este na Tabela Periódica. Alguns deles são o plutônio (94), o cúrio (96), o einstênio (99), o férmio (100), o mendelévio (101), o nobélio (102), o rutherfórdio (104), o meitnério (109) e o copernício (112). 2 o título original do artigo é Über das Zerplatzen des Urankernes durch langsame Neutronen, publicado em 6 de janeiro de 1939, no periódico Die Naturwissenchat, da editora Akademie der Wissenschaften, de Berlin. 3 sigla para a medida de energia conhecida como mega elétrons-volt, que equivale a 1 milhão de elétrons-volt, ou 10^6 elétrons-volt. O elétronvolt (sigla eV) é a quantidade de energia cinética ganha por um único elétron quando acelerado por uma diferença de potencial elétrico de um volt, no vácuo. Um elétron-volt equivale a 1,602177 33 x 10-19 joules. 4 nomenclatura genérica dada aos prótons e aos nêutrons em um núcleo. 1

Referências Bibliográficas ALVES, C. A. N. Técnica e Ficção Cientifica. In: Sociotec E-Prints. Vol. 4. Nº. 1. São Paulo: 2007. BO, F. A Ciência da Ficção – o que é Ficção Cientifica. In: New Human Articles. Primavera de 2001. Volume 116. CÂNDIDO, A. Literatura e Sociedade. Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2006. 9ª ed. ESSINGER, S. Punk: anarquia planetária e a cena brasileira. Rio de Janeiro, 34, 2002, GOLDEMBERG, J, O. O que é Energia Nuclear. São Paulo: Brasiliense, Coleção Primeiros Passos, vol. 43, 1985. HEYM, S. Meu Irmão Louco. In:Antologia do Conto Moderno Alemão. Porto Alegre: Coleção Sagitário, 1968. Trad. Íris Strohschoen. KERSLAKE, P. Science Fiction and Empire. Liverpool: Liverpool University Press, 2007. KUHN, T. A Estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo: Perspectiva : Editora da Universidade de São Paulo ; Campinas: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1998. Trad. Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira, rev. Alice Kyoto Miyashiro. LUGARZO, C. O que é Ciência. São Paulo: Brasiliense, Coleção Primeiros Passos, vol. 101, 1995. SMANIOTTO, E. I. H. G. Wells: a ficção cientifica como romance social. In: Revista Espaço Acadêmico, nº. 93, fevereiro de 2009. WINNACER, K. WIRTZ K. O milagre incompreendido: Energia nuclear na Alemanha. São Paulo : Edgar Blücher, 1978. Trad. Guenter Petersen, revisão técnica. Arno Blass.


Winnacker e Wirtz explicam: como Heym dividiu o atómo