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MEANDROS DE NÓS

Redenção-PA Inverno de 2009 3


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MEANDROS DE NÓS

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Cícero Ferreira

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Cícero Ferreira

MEANDROS DE NÓS

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MEANDROS DE NÓS Capa: Alufá-Licutã Oxorongá Digitação: Cícero Ferreira Editoração: Cícero Ferreira Revisão: Alufá-Licutã/Cícero Ferreira

Ficha catalográfica: Ferreira, Cícero MEANDROS DE NÓS Cícero Ferreira-Redenção-Pará Literatura Brasileira - poesia

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MEANDROS DE NÓS

Ferreira, Cícero Meandros de nós: poesia Apresentação, Cícero Ferreira 70p.; il.

Miracema - Tocantins

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Dentro de mim hรก uma vida paralela, sem mรกscara, discreta, uma vida perdida de poeta. Lilian Chaves

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Sumário Apresentação:..............................................................13 Vino............................................................................17 Belassabeindígena.......................................................18 Timidez da exclusão...................................................19 Infortúnio do poeta......................................................20 Soneto quebrado.........................................................21 Castigo da velhice.......................................................22 O último poema..........................................................23 Tríade solitária............................................................24 Ato masturbatório.......................................................25 Sexo oral.....................................................................26 Teogonia.....................................................................27 O bicho que vi.............................................................28 Obediência ao Id.........................................................29 Carta suicida...............................................................30 Desconstrução.............................................................31 Ciranda........................................................................32 Rubião.........................................................................33 O encanto da lua.........................................................34 Quimera......................................................................36 Desenho......................................................................37 Na solidão...................................................................38 Fremere.......................................................................40 Contradições...............................................................42 Cheiro e sabor.............................................................43 O ápice........................................................................44 Palavra inbecil.............................................................45 Biografia.....................................................................46 Barco...........................................................................47 De matinta a lobisomem.............................................48 Beijo............................................................................49 Na casa do poeta.........................................................50 13


Teu peito.....................................................................51 Sentimento de pedra...................................................52 Sem orgia....................................................................53 Melanie.......................................................................54 Viver e morrer.............................................................55 Incoerência..................................................................56 No mundo torpe...........................................................57 Fazer literário..............................................................58 Relevo...................................................................…...60 Gritar em versos...........................................................62 Contestável...................................................................63 Incontestável................................................................64 Canção de viver...........................................................65 Sentimento emputecido................................................66 Thanatos.......................................................................68 Antítese.........................................................................69

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Apresentação Nos meandros de uma vida há sempre flores e abrolhos, fontes e desertos, rir e chorar. Ter uma alma já é o suficiente para se sentir atingido por estes intempéries e desejar gritar sem medida, manifestando suas alegrias, suas tristezas, suas revoltas; seus momentos de dores e de orgasmos. O grito que vem de dentro manifesta-se de qualquer forma, como no pintar de uma tela ou no traçar de palavras no papel branco. E como é bom labutar com minhas tintas e minhas telas! Mas o papel e as palavras são os que mais instigam os gritos dos socavões de mim. Meandros de nós, nasce justamente do apreço pela literatura casado com o desejo de, ora vomitar o que está no estômago a me enjoar, ora cantar o amor e a vida. E em pouca coisa há tanta vida quanto no ato de ser feliz satisfazendo o Id; ou ainda no se deixar estar na companhia do poeta ouvindo-o ler seus poemas infindáveis. Aqui, momentos como estes são descritos nos poemas Obediência ao Id e Na casa do poeta. Meandros de nós sai do particular e projeta-se para o universal; o pronome “nós” não figura em seu título por acaso. O universo, o coletivo, é retratado em poemas como Timidez da exclusão e O bicho que vi, dentre outros. Canção de viver, não é apenas uma brincadeira que consiste em desenhar um violão com palavras, mas sim a manifestação de uma outra paixão: a música. Também estão longe de gozação os sonetos que fazem apologia a Satã. Há quem diga ser incredulidade, há quem afirma ser irreverência, desejo de causar choque. Que decida o leitor. O mais correto é acreditar em você mesmo e não ”tocar fogo em Roma”. O autor. 15


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Vino Não quero viver não quero morrer, quero mergulhar num sonho real; escrever um romance que seja um poema. Não comer arroz não comer feijão, comer poesia, laudas cheias de um nome que não esqueci. Ser a essência do vento que não tem direção; da luz que se perde e que é “sulfragida” no escuro abismal; A energia desprendida do cadáver lívido. Escrever um poema que seja um romance; comer versos tortos no corpo do anjo. E na sua saliva beber o veneno de que necessito e anseio.

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Belassabeindígena Iracema Maria graúna talhe de palmeira... e os olhos reluzentes. Bonita índia estudiosa da linguagem. E eu, nem Martim, nem José de Alencar; apenas um admirador de tua grandeza.

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Timidez da exclusão Ruazinha tímida onde cresce erva daninha. Barracos tímidos; às portas, mulheres tímidas, crianças tímidas. Nas roupas tímidas remendos; remendo na fome remendo nos sonhos. Timidamente os olhos buscam o horizonte sem horizontes. E sem timidez dói a exclusão.

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Infortúnio do poeta Pêssegos desejados, baratas repugnantes; deusas admiráveis, demônios insuportáveis; de suas bocas mel ou fétida podridão. Natureza contemplativa! Perfeição? Não: infortúnio do poeta.

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Soneto quebrado Finco em ti meus olhos com toda as forças que tenho neles; contemplo cada milímetro do que tuas vestes deixam à mostra. Quimeras povoam a minha mente. Tamanho desapontamento em ter de concordar com Donne em seu Community! Nem boas, nem más: Por que tanto esmero?

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Castigo da velhice Moribundo no leito o idoso esqu叩lido. Um filho? Uma filha? N達o: uma enfermeira, favores deste ou daquele. Os dias... As noites... Nenhuma visita. Por que t達o grande ingratid達o?

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O último poema Maca, sangue, vulnerabilidade; lindas palavras para o poeta, que mesmo quase morto, é acompanhado pela vida das letras. Letras missionárias do escritor ignorado. E os olhos da Rosa guardaria o cadáver.

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Tríade solitária A vigem queria namoro, casamento. Tinha nos olhos um brilho, alegria Tinha nos lábios brilho, beleza. Nas mãos uma Bíblia, fé. Vestido longo, negro, sedução. Caminhava, passos rápidos, firmeza. Lá o homem já estaria, segurança. Aconteceria um encontro, início. O confidente ficou ali, “inveja”. Pôs-se a olhar a noite, trevas. A virgem voltou sozinha, cansaço. O homem não era príncipe, desilusão. O homem ficou sem beijos, desapontamento. A virgem continuou a procura, exigência. O confidente ainda olha a noite, Solidão.

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Ato masturbatório Páginas de intensa natureza surgindo do que é morto; a vida salta aos olhos daquele que busca o viver. Peito que arfa fremente, mão que procura trêmula a impressão do desconhecido; mão que busca trêmula o prazeroso ápice do viver. Gemidos sucumbidos na garganta seca. Fios de partículas relutantes morrem escorrendo pelo ralo. De que vale suas vidas?

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Sexo oral Janelas que se abrem janelas que contemplam esboço que se mostra fantasias, desejos despertados. E se a casa é habitada o fogo é alimentado que cozinha a farinha, que pede o sentar-se à mesa. Então a gula se compraz os olhos saboreiam o prato, a boca saboreia o prato: T t t t t t. Não há perigos a espada está guardada.

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Teogonia No deserto das horas tristes na alegria de uma orgia no sussurrar do vento frio, uma única teogonia: Amar Maria. Maria, a bela Maria, a pura. E o amor de Maria minha religião minha lei. Em instantes de febre o corpo reluta; o amor é mar rio lago poça pingo brisa vento vendaval tempestade furacão. E se eu desfalecesse, se eu cansasse de amar um dia...

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O bicho que vi Vi ontem, entre a simplicidade do Ver-o-Peso e a pompa da Estação das Docas, um bicho comendo lixo. A comida suja no chão as mãos sujas na comida não examinava, não olhava, engolia com ignorância. Não é necessário dizer que o bicho não era um cão, que o bicho não era um rato, que o bicho, mano, era um homem.

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Obediência ao Id Nas noites com ou sem lua fazemos nossas festas – ela nua. Seu corpo é um poema aos meus olhos. O tema: Beijos, unhas, dentes seu sexo quente. O orgasmo que explode uma pequena morte. Um suspiro de contentamento almas em um bailar lento Em um céu somente nosso onde tudo eu posso; Inclusive recomeçar com minha fome louca, falar de amor com minha voz rouca e num riso com sarcástico desfalecer num segundo orgasmo. Porque a vida sempre pede bis e só seguindo o Id se é feliz.

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Carta suicida A perda do filho. A perda do esposo. A traição sentada à porta. A perda da amante: Pessoa amada, rasgando o plano da vida destruindo o objetivo do viver. Mergulhada na dor a alma ébria cambaleia: Desejo de morte. O peito ferido a alma machucada o espinho na cama fria o desespero gritante... A ferida. A dor. A loucura. O suicídio.

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Descontrução A voz. O olhar. O cheiro... A sedução suspensa no ar e o grito do Id no corpo. O desejo. O toque . O beijo... A vida ganha cor e graça a felicidade plena ganha endereço. As noites. O amor. O sexo: droga que alucina e que vicia benéfica ao corpo e à alma. O mundo. Os erros. A traição tão antiga e tão atual desconstruindo felicidades.

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Ciranda Ciranda da vida o poeta acordado. Ciranda da morte o poeta ameaรงado. Ciranda da vida um poema esperado. Ciranda da morte o poeta instigado. Ciranda da vida palavra esperando. Ciranda da morte o poeta lutando. Ciranda da vida um poema nascendo. Ciranda da morte o poeta vivendo.

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Rubião Rios de fogo banhando o dia E um ébrio ignorado pelas calçadas vazias. O ébrio soluça. Sem portulano navega sobre o mar que ferve, levando na mente um nome de mulher. O suor na testa o sangue no olhar um poema na mente a loucura rosnando o ébrio gemendo o dia em chamas um nome de mulher o cérebro girando. O ébrio e a calçada a vida fugindo o corpo se contorce Um cão sardento a sarjeta imunda um cadáver lívido.

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O encanto da Lua A noite é escura mas tem uma lua; aliás, uma lua de prata, encantada que encanta o poeta amante da lua. Perfeito encanto: Ora risquinho de lua, ora caco de lua. Dia tem lua, dia não tem lua e a noite é escura. Lua mulher lua refulgente nos olhos da gente quentes de amor pela lua remota. Não sei qual é a mais bonita: Lua cheia, de Jorge, lua nova, no amor do homem perdido na cintilação da lua. E se não fosse a lua quem poderia iluminar a noite da mãe-da-lua, da mãe-da’água da mãe-da-mata da mãe do poeta 34


do poeta acordado? Se n達o fosse a lua, a lua encantada encantadora de mim?

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Quimera O vento vem cochichar segredos trazidos envoltos em lenços brancos de lugares remotos e inóspitos. São notícias gravadas em esmeraldas e diamantes dos sonhos sonhados com o impalpável. E este impalpável exerce mais que gravidade sobre as almas nossas: Folhas secas que caem. É meia noite e não tem lua, tem sol fazendo seu retrato nas nuvens da minha mente extravagante. Com as nuvens vou enchendo as horas que são vagões de um imenso trem nos trilhos infindáveis da vida.

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Desenho Perfeito desenho (de um mestre) ornado de caninos, incisivos... Dilacerando meus olhos meu cérebro: Tela abstrata pintada com as cores da confusão da indecisão. Perfeito desenho e minhas tintas são incolores, inodoras... pingam do céu (da boca) brotam das nascentes (do desejo). Desejo de pintura do desenho em minha tela. Perfeito desenho e minhas tintas ganham cores, ganham cheiro; em lugar de Abstracionismo, surge o Expressionismo. E minhas tintas pintando a vida, a felicidade eterna. Eterna enquanto dure o sabor do desenho em minha tela. 37


Na solidão A solidão berrante invoca a saudade que na carne dói. E a mão não esconde o rosto fustigado de João perdido em meio a lembranças. A distância abismal é eco da indiferença, da diferença entre João e Elis. Não importam a distância, a diferença, a inexistência de um olhar cálido; o desejo grita a lembrança berra João geme e Elis tão longe. A solidão rosna de nada servem cartas serão dissipadas pela distância rasgadas pela indiferença. Mas os desejos surdos as lembranças cegas fervilham no corpo atormentam a alma. Não importam a indiferença a oriuneidade 38


de Elis, seu tudo. O tĂ­lburi prossegue com JoĂŁo gemendo

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Fremere Não. Não me arraste por caminhos nebulosos. Quero passear pelos campos floridos de tua existência; cair em ti como a chuva nos sulcos do arado e de igual maneira ser tragado por teu corpo insaciável de amor; combinar nossos átomos e nos tornarmos uma única e pura substância. Tresloucada deusa que me atira em profundo poço de desejo! Sou ávido da exuberância que carregas na carne. Deglute-me em inteiros pedaços de amor! Não me custou perceber que tua beleza envolvente é o que tu usas para, num bote de serpente, tragar o coração do inocente. Pega na minha mão e conduze-me à tua fonte de água fresca; lá matarei a minha sede. E se for água fervente, nela me queimarei por inteiro. Serpente do amor, doce é o teu veneno! Desnorteia mas não mata; 40


sai pelos poros, pþe fogo no olhar. Deita na minha taça mais um gole do teu veneno!

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Contradições Se tu não existisses eu não seria feliz; mas tu existes e eu sou infeliz. Porque a vida tem de ser uma antítese? Optaria por não ter conhecido tua pessoa; mas foi bom demais ter-te possuído no meu abraço, na minha cama; ter-me afogado no teu prazer, saboreado os teus gemidos em delírios orgasmáticos.

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Cheiro e sabor A chuva que cai sem pressa vedeu o céu sem deixar uma brechinha para um raiozinho de sol. Tem cheiro de taperebá no ar. Tem cheiro de Amazônia no ar. Tem planta pequena e planta grande, arbustos e árvores gozando na chuva miúda. Tem no açaizeiro gambazinho procurando o fruto pretinho. Tem ribeirinho colhendo açaí e capturando gambazinho. Tem farinha de mandioca com carne de gambazinho com açaí fresquinho. Comida boa!!!

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O ápice Bocas quentes que se buscam corpos que se roçam e que se untam no mel de ambos. E dentes. E unhas. E gemidos. Em cada órgão a mesma febre o mesmo delírio em cada ser dois corpos convulsivos uma adaga na carne. O plasma. O delírio. O prazer.

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Palavra imbecil Quando a visão não encontra o horizonte e o caminho termina em um precipício; quando não há mais porta na parede; quando cai na alma uma noite negra, sem estrelas, sem luar, sem lanternas; quando a dor habita o corpo e a alma, estrangula o riso e arranca o pranto; quando o fracasso atira ao chão a taça dos sonhos chega um amigo, um irmão e diz ao infeliz: -Tens que ser forte! Nesse momento nenhuma palavra seria mais imbecil.

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Biografia Ângela, a infeliz que ama sozinha; que só tem de seu os dias vazios, as noites frias. Ângela, o projeto que não deu certo, o zero da esquerda que surgiu do ocasional encontro do elemento do conjunto vazio com a massa negativa de um átomo de hidrogênio. Do universo é a energia que não realiza trabalho, a matéria que não forma corpo. Da planta, é a flor murcha e sem cheiro que não foi polinizada, a folha seca que vai com o vento para lugar nenhum. Das criaturas de Deus é o anjo nem bom, nem mal expulso do céu sem tridente. Ângela, que só tem de seu dores: lençol molhado sobre o corpo na noite fria.

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Barco À deriva, o barco, a vela rota ao vento; o cais à vista. Vela. Vento. Vaga. Talvez uma borrasca, talvez o naufrágio. Não há plano de rota. Vela. Vento. Vaga. O barco sem destino no balanço das águas. Um naufrágio certo. Vela. Vento. Vaga. O barco: minha vida.

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De matita a lobisomem Aterroriza-me uma Matinta Perera batendo à minha porta. À minha volta há rastros de lobisomem. A cobra-Norato à noite vem até meu quintal. E um boto cor-de-rosa engravidou a mulher que amo. Égua mano, a vida pode ser bela, mas não para todos.

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O beijo O beijo que deixa uma marca de batom impressa nos sentidos. O beijo que deixa na boca um gosto jamais provado, assaz gostoso para ser esquecido. O beijo dado por lábios untados com o néctar servido aos deuses no Olimpo. O beijo que atiça os desejos, que leva a um viver oscilante e ébrio. O beijo... O beijo que tu me deste.

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Na casa do poeta Fui por várias vezes à casa do poeta; casa simples, casa pobre, com móveis rústicos e cheiro de abandono no ar. Fui por várias vezes à casa do poeta. Lá as horas corriam mudas, no entanto, com muita pressa, enquanto o poeta lia. Lia para mim seus poemas, só de lembranças e angústias feitos. Lembranças e angústias era o que eu tinha também em cada gota de meu plasma. Lia, o poeta incansável. E eu, o ouvia sem nunca me cansar. Não digo que ouvia cada verso, mas confesso o cair de lágrimas quando eu não as conseguia engolir. Fui por várias vezes à casa do poeta. Lá éramos o poeta e eu, as lembranças e as angústias, os poemas, as tristezas, o poeta e eu.

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Teu peito Leva-me para tua casa, aperta-me de encontro a teu peito, chama-me de teu menino, de teu menino e faze-me carinhos de modo a massagear minha alma. Vivo o inferno de ser criança chorando com insuportáveis dores, que vão além do corpo, e que me destroem lento e a cada dia. Aperta-me de encontro a teu peito, chama-me de teu menino. Aperta-me de encontro a teu peito... Que pálio é teu peito!

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Sentimento de pedra O Cravo murcha ao sol, mas a Pedra está impassível: De pedra é seu interior e exteriror. Como poderia sensibilizar-se com o murchar de um Cravo? Se caso Zéfiros levar à Pedra o perfume do Cravo, esta não o perceberá; seu olfato é de pedra, de pedra são seus sentidos. Se o Cravo se derramar em poesia, tampouco a Pedra se comoverá (poesia e amor são para comover o coração que a Pedra não tem). O Cravo é todo morte no deserto das horas, mas a Pedra continua ignorante; seu estado de pedra identifica-se somente com sua empedradura.

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Sem orgia Passa tudo neste mundo, mas não o desejo de te ver. Meu coração está vazio e quer encher-se de você. Como a noite que desce sobre o deserto vazio, desce a minha alma a mercê de um instinto de procura, sequiosa de você. És “morrena esfogueteada” -como disse Drummondé assim que lembrarei de ti (acredite, vou lembrar muito) quando não mais te encontrar aqui. Quando partires deveras, vou sentar-me sob o luar, sentir o orvalho frio nas noites sem orgia, conversar com as estrelas e esperar um novo dia.

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Melanie Melanie, ninfa das águas e medonha medusa. ígnea. Estrela que ilumina o mundo com falsa luz. Covil de todas as malditas cascavéis; deusa da mentira, falsidade e traição. Meu único regozijo é vingar-me de teu veneno, no memento em que o orgasmo arrebenta como um raio na escuridão quase mortal. Odeio-te, anjo do mal.

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Viver e morrer Qual o sentido da vida? Fico a me perguntar. Em cada esquina está a morte, tida como castigo para o intransigente. Odete tinha beleza, inteligência e saúde: Morreu ainda criança, de repente; braços de miriti foi seu ataúde. Em que foi intgrasigente? José, seu irmão, era doente, raquítico; tornou-se homem, infeliz, plangente. Joana teve fim fatídico: era uma santa criatura. -Foi vontade de Deus, disse uma cavalgadura. Tereza vive gorda e feliz. Nela José investiu seu amor; mais ordinária que uma meretriz, colheu dele carinho, casa, comida, atenção... E retribuiu-lhe como sábia: Com mentira, falsidade e traição. Será que Deus se engana, queria matar Tereza, e matou a pobre Joana? Égua do cara, muleque! Tenho de sofrer aqui para ganhar uma vida eterna nas alturas, é o que me diz Raimundo. Se é assim, pergunto: De que serve, então, este mundo?

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Incoerência Nos becos lamacentos da existência, uma alma se arrasta cega e surda; a revolta rói-lhe as vísceras, muda. A vida, esta é toda incoerência. Desertos a se estender sempre à larga após a frescura da fonte clara, onde a sede (de viver) se matara, onde a alma feliz rira sem carga. Incoerência –Ah! Se fosse extirpada jamais becos de lama se poriam à frente daquela desavisada. Incoerência –Ah! Se Deus a findasse os desertos desapareceriam. Ah! Se Deus, as vidas apascentasse!

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No mundo torpe Menino no sítio, rindo, brincando e correndo, amando,feliz vivendo. Um fiapo de vento canta soprando é musica e ouvido então pascendo. Menino no mato denso correndo, os sonhos na cabeça fermentando. O calmo presente logo escorrendo, o mundo torpe por ele esperando. E a cidade, a escola, o viver sozinho, o sofrimento, um aprender no mundo, tendo à sua frente um incerto caminho. Um amigo ao lado, nunca lealdade. Um nome: Maria, Ângela, Raimundo. De menino e sítio, grande saudade.

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Fazer literário Eu não faço versos acerca de fúteis acontecimento. Que prazer teria? Não faço meus versos sobre o fazer de hipócritas homens. Por que louvaria nomes imbecis? Eu nunca dedico um verso sequer a um outro homem; bajoujar? Ninguém! A literatura, a que muito prezo, não se presta a isso. Faço sempre versos acerca de encontros e/ou desencontros; de almas e corpos, de vida e de morte, de amor e de ódio, de deuses, demônios que cada um traz debaixo da pele. É rindo e chorando que faço meus versos. Oh! Versejadores, arranquem seus versos de suas próprias carnes, 58


joguem-nos sangrando sobre o papel branco! Vergonha por quê de seus versos simples? Chorem as suas dores, cantem os amores vividos ou não. Daí apenas toques, efeitos aos versos, sal que no fazer não pode faltar.

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Relevo Estou sempre cismando Sem poder entender O eterno e

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e

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o

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e Da vida. Às vezes encontro uma a; d a c s E De degrau a degrau Saboreio A felicidade. E repentinamente O t o m b o 60


Quebrando-me ossos. Dizem-me: “Tudo igual Seria sem graça”. Eu pergunto: “Mas É necessário cair?

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Gritar em versos Há dentro de mim um amontoado de coisas apodrecidas por germes; mal que me causaram os muitos vermes. isso deve ser de mim extirpado. Uma necessidade paira louca de com as palavras poder tossir, escarrar e jogar forra, cuspir; mas nada sai pela garganta rouca. Ao que recorrer? Papel, tinta, versos; os meus caminhos sempre são inversos e só nos poemas me perco e me acho. O mundo que tenho dentro de mim não cabe em mais ninguém; mas cabe sim em poemas. E a agonia despacho.

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Contestável Ó, como contemplo sem me cansar isto que é meu: o filho de mim mesmo; se aos teus olhos é ele coisa a esmo, aos meus ele é beleza sem par. O poema que fiz, meu versejar, esse arranjo de pensamento a esmo, cujas sílabas sofreram contar ( certamente torto como eu mesmo), foi para louvar esta criatura tão bela, divina, mar de candura, esse alguém que faz parte do meu eu. A diva amada, filha de Nereu, é quem me dá a alegria de um infante. Um filho umas lágrimas uma amante.

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Incontestável Ó, como contemplo sem me cansar o poema que fiz, meu versejar, isto que é meu: o filho de mim mesmo, esse arranjo de pensamento a esmo. Se aos teus olhos é ele coisa a esmo, cujas sílabas sofreram contar, aos meus olhos é beleza sem par (certamente torto como eu mesmo) Foi para louvar esta criatura: a diva amada, filha de Nereu tão bela, divina, mar de candura; e quem me dar a alegria de um infante; esse alguém que faz parte do meu eu. um filho umas lágrimas uma amante.

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Canção de viver M C i a n n h ç a ã o F a l a d e amor Fala da vida Fala da morte Fala de lida Com suor E fala De idas Sem voltas, Sem despedidas E também de desejos De por fogo com beijos No corpo e no coração E gozar sem medo E depois tocar

Violão

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Sentimento emputecido Trago em meu olhar de grou o sentimento emputecido que o mundo roto me legou. Fui criança na escola e tive meu lanche roubado; fui menino com moléstia implorando por um médico e tive meu choro ignorado. Fui adolescente amando, embevecido e tive meu amor desconhecido. Nadei rios, virei mundos, abri caminhos, dividi albergues com vagabundos. já tive sede e bebi lama; já fiz de taquara minha própria cama. Já pedi justiça e indulto; nada tive e ainda me trataram com insulto. Já li a bíblia, tive fé, religião, fiz promessa, marquei encontro com Lúcifer; Não vi a graça das promessas, a fé morreu, a bíblia mofou, se caso exista Lúcifer, não foi ao encontro, se acovardou.

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Nada tenho, nada peço; tenho os sonhos destruídos desta vida me despeço com o olhar de triste grou e o sentimento emputecido que este mundo me legou.

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Thanatos È noite. É madrugada e chove. O prédio dorme; mas eu que na noite só tenho de meu pesadelos, não durmo: desenho, escrevo e as lágrimas gotejam como a chuva lá fora. É noite.É madrugada e chove. Sobe a luz pálida se esboça um espectro de mulher; feio, atemorizante, pascenta calado em mim seus olhos de falsidade e ódio. É noite. E chove. Meus olhos anseiam a escuridão, mas luzes aborrecedoras penetram por diáfanas janelas e clareiam as paredes mudas e o desespero surdo. É noite. É madrugada. E não reconheço o espaço que envolve meu leito – único amigo. Um gemido de angústia envolve o quarto frio e Thanatos estende sua mão etérea sobre as trevas que habitam em mim.

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Antítese A vida dita bela; que conceito havemos de atribuir-lhe? Serve este: um mundo infinito. Álacre leste e resplandecentemente perfeito. É uma beleza extraordinária, incomparável, pintada com um oceano de cores. Incomum; a mais ornada campanária. É a vida assim tão bela, Deus amado? Ó! Não é beleza e felicidades: caminho curvilíneo, acidentado; exíguo espaço, delimitação, onde sempre impera incapacidades, e dor e sangue e lágrima e traição.

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Meandros de nós, nasce justamente do apreço pela literatura casado com o desejo de, ora vomitar o que está no estômago a me enjoar, ora cantar o amor e a vida. E em pouca coisa há tanta vida quanto no ato de ser feliz satisfazendo o Id; ou ainda no se deixar estar na companhia do poeta ouvindo-o ler seus poemas infindáveis. Aqui, momentos como estes são descritos nos poemas Obediência ao Id e Na casa do poeta. Meandros de nós sai do particular e projeta-se para o universal; o pronome “ nós ” não figura em seu título por acaso. O universo, o coletivo, é retratado em poemas como Timidez da exclusão e O bicho que vi, d entre outros .

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MEANDRO DE NÓS  

Nos meandros de uma vida há sempre flores e abrolhos, fontes e desertos, rir e chorar. Ter uma alma já é o suficiente para se sentir atingid...

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