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CORPOS TECENDO O CREPÚSCULO

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Milton Pereira Lima

CORPOS TECENDO O CREPÚSCULO

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PROJETO GRÁFICO CA?Ú- Sociedade Cultural CAPA Tratart ILUSTRAÇÃO Milton Pereira Lima PAPEL 75g

Copyright © 2007 - Milton Pereira Lima Direitos exclusivos desta edição reservados à Milton Pereira Lima Contato- Rua Francisco Borges da Costa, 2691 68550-002 Entroncamento - Redenção/Pará E-mail: miltoncau@yahoo.com.br 6


Milton Pereira Lima

CORPOS TECENDO O CREPÚSCULO

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Ca?ú- Sociedade Cultural Lima, Milton Pereira Corpos tecendo o crepúsculo: poesia de Milton Pereira Lima/ Apresentação, José Rodrigues de Carvalho – Redenção, 2007 8


AGRADECIMENTOS

Ao poeta, amigo, irmão (o impecável senhor das letras) Alufá-Licutã Oxorongá, a minha gratidão. Ao mestre, amigo, poeta e professor, José Rodrigues de Carvalho, toda a minha admiração.

Aos parceiros desta produção: -Sintepp Sub-Sede Redenção -Art-Exata Informática -S.E.E.D de Redenção -Tratart -Saneágua Cia de Saneamento de Redenção É com todo o meu sentimento que agradeço a todos.

À Valdenise da Paz Pereira (MECA), Marcus Mariano, Cassius da Paz Pereira, Esmeralda Francisca Alves, Lêda Pereira Lima, Angelita Pereira Lima, Josenir Pereira Lima e Eliane Pereira Lima. Com toda a minha humildade dedico-lhes esses corpos crepusculares.

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Sumário Apresentação.......................................................................13 Corpus que tecem o crepúsculo...........................................15 Antiqui Rerum.....................................................................20 Aqua Irrigat Terram............................................................21 Erectus-Bestas.....................................................................22 Renegados...........................................................................23 O sepulcro do meu ego........................................................24 O tombo...............................................................................25 Domador de Bestas..............................................................26 Magna Amica......................................................................28 Adventus..............................................................................29 Humus.................................................................................30 Benignus Poeta....................................................................31 Faces do mesmo..................................................................34 Decadência..........................................................................35 Sophia..................................................................................36 Procella de Soevitia.............................................................37 Sangue Gótico.....................................................................45 É cedo demais.....................................................................46 Do ópio ao vinho.................................................................47 Bajo.....................................................................................49 Dominação de Hominídios.................................................50 A visão do cego..................................................................52 Quero-te, mesmo sendo eu um idiota.................................53 Sapiens...............................................................................54 As duas faces da lua...........................................................57 Casulo Humano..................................................................58 As Classes..........................................................................59 Soneto às flores..................................................................60 Dè Rosè..............................................................................61 Farsa...................................................................................62

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Renascimento......................................................................63 A Terra................................................................................64 Esmeraldas..........................................................................65 Cidades................................................................................66 Amizade..............................................................................67 Parto....................................................................................68 O encontro...........................................................................69 Ladr천es de Cr창nios.............................................................72 Carne Humana....................................................................78 Espelho da Alma................................................................79 A luz dos olhos...................................................................80 Pirus....................................................................................81 Elo.......................................................................................82 Bellum.................................................................................83 Alimento..............................................................................84

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APRESENTAÇÃO

“Lentamente o tempo amadurece o homem”. Como será um ser maduro? Carrega consigo as rugosidades do tempo ou as deixará para o público sentir e viver? A obra aqui apresentada talvez seja o expelir, o que tangenciou a existência do poeta até hoje. A rebeldia e a crítica envoltas em harmonia rítmicas marcam o texto amadurecido do poeta que não se deixou domesticar totalmente pelos mitos e idéias preestabelecidas. Pelo contrário, ele os cria e recria-os por meio de palavras doces e ácidas. Milton desnuda seu idealismo quando esboça em rimas e versos sua possessão do real pelas idéias que lhe parecem fluir das várias fontes literárias que bebeu. Com sua peculiaridade eclética, nos provoca a traduzir o real pelas lentes de sua poesia. Os mitos dos quais Milton é criatura e criador, o arrastam à razão e ao necessário delírio. E por algum momento percebe-se que ao esculpir sua escultura poética, o poeta suspende sua existência, ainda que momentaneamente, para criar outras existências, virtuais, ficcionais e até reais que passam a partir da leitura, a transitar em nossas memórias. Os corpus que tecem o crepúsculo, nessa ousadia poética são clips, recortes da agonia e da transcendência humana na perseguição à felicidade, pois viver simplesmente não basta, é necessário desvelar as ilusões e narrá-las, já que nenhum espelho reflete o interior de um homem. Numa ginástica subjetiva, Milton nos conduz e nos resgata de nossa própria noosfera. Seus poemas são pontes entre vários mundos que desejamos e rejeitamos enquanto existimos. 13


A fluidez dos seus versos denuncia, de forma imprevisível, uma atemporalidade ao mesmo tempo preocupada em não se datar. E assim, da crise e dos sonhos, dos profundos sentimentos de inconformismo e esperança, tanto as tristezas criadoras quanto as alegrias passageiras, renascem nessa performance literária, que é um convite ao apreço do que instiga e conforta em cada nível de maturidade. E só conferir. José Rodrigues de Carvalho Poeta e membro da CA?Ú Invern o de 2007

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Corpus que tecem o crepúsculo (I) Ser triste, ferido abatido, temeroso em si encontra com a morte; de vida por um fio, hoje mesmo poder morrer. -Vejo no deserto e nos gemidos, uma luz irradiando vida, enchendo o instinto de adoração: É a força sagrada que flutua sobre a areia! Tu, andante errante, que titubia, vacilante, não tombe antes do sol nascer. -Vejo sangue derramado, pegadas pelo chão, rastros de luta, ande, siga confiante, jaz aqui corpos agonizantes.

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( II ) Quem nas estacas queimou ao sol antes de ti, já isentou os sub-sequentes, pois a GRAÇA não termina com o sacrificado pelo tempo. Olhe, nada de andar, ainda há aqui amor! Sim, desarma-te pra dentro de ti! Sim, pra dentro de ti! Estás às voltas com o espírito curador. Lá na fonte também há vida e todos podem beber. Mas na corda o bom está morrendo, esse paga uma dívida que não é sua. Os erros dos outros, mortais agora, podem ser corrigidos por ti, banais se o fizer.

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( III ) As almas que rebelaram-se, mas que por uma justa causa, venceram, procuram o templo sagrado, todos em comunhão. Nesta trajetória o vento é sábio guia. Pregado nas pedras, ficaram os gritos, da terra brota o pão, da planta brota o vinho, teu rosto agora ri. Enche-a-ti mesmo de santo gozo. -Limpe agora toda a tua mente e com as mãos e pensamento em direção ao infinito deflagre toda a tua gratidão. Não precisas tu de consolação? Ressurgiu do pesadelo da solidão. Pedistes ao ego calma e, recebestes dos céus perdão!

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( IV ) Sejas unido com o povo do deserto, líderes são raros, e dos que se pode confiar mais raro ainda. Tens diante de ti, ao norte, o sol que o dirige, esse é um trunfo valioso. A fala que ecoa como trovão por trás dos montes, dita quais as leis que devem ser seguidas por todos. O que brilha também é ser vivo. Bendito todos os sonhos dos homens retos! Que esses posam manter a chama da vida acesa. Que tua língua seja a mesma que as dos animais, que tua língua seja a mesma que as das plantas. Que tua língua seja a mesma que as das crianças.

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(V) Tu não podes ser inconseqüente, não podes ser como o metal que soa em vão ao vento. O bom sentimento que tens para consigo, também é bom para seus irmãos. Novo e velho contemplam em si, o que há de melhor: “O amor é paciente e tudo crê... É compassivo, não tem rancor. Não se alegra com a injustiça e com o mal, tudo suporta, é dom total” *

__________________ * I Cor. 13 19


Antqui Berum O fogo da nova estação chegou junto com o final da tarde de novembro. Depois do calor de ontem, o vento calmo de agora. Que boa nova; veio também o corpo quente, Rosaram com lenço apenas sobre o corpo

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Aqua Irrigat Terram

Prencide lo termino en alvorecer: uma gota d’ågua revive o rio benignus.

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Erectus-Bestas Meu irmão “coalha” poda o topo eu não navalha corto osso. Ante ao sol nascer andarilho tolo iluminado. Ante ao mas morrer transcende o tolo, todo enforcado. Pálido e satírico topo morde agora oco. Agora morde pouco. Vedes tuas vísceras, rastejas, rastejas devagar. Perdes quando vibra. Enquanto evenenas o teu céu pouco a pouco perdes o teu mel.

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Renegados In-terna frieiras marcus-feição des-ferro bicheiras matus-veneração. Dotes somos atributos teus filho meu não. Vestígio de Adão. Ana-Lúcia è hipocrisia Regenera-se vestígios, forjaram teus Sonhos. Ressonância cubo e teu corpo e tua alma. Renegados reverso teu verso sofredores que te rodeiam, tens anti-corpus. Marcus, tens anti-parasitas. O olho atinge a terra e a terra atinge teus pés.

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O Sepulcro do meu ego O gosto gozo, a queda dis-faz, faz cair o tombo. Amizade acorrenta decai pescoços sobre o cais. Tomba o poeta e o verídico maldito sorri! Esfera furiosa refugo de “gente” ociosos latentes. És o lado escuro, o lado falso e frágil, tal se foi o nosso amor. Era assim tal rancor que com o tempo que anda pra traz estranho labor [...] fadiga a fantasia. Maldito espectador. Oco és tu.

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O Tombo Fala-se amem-perdão em vão. Quando a árvore cai e a sombra se desfaz? Quem diz amem quando a lágrima cai e a penumbra se refaz? Quem é alguém? Imaculado sermão com olhos de dragão conduz o bote e a boa sorte acabado ferrão peça a morte, o corte, a luz do poste e a cabeça da criança sem sorte (...) Quem fala amem enquanto o ódio transcende um furacão?

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Domador de Bestas “Domador de bestas” veneremos o ser em seu ápice de relutância de querer ter. Em seus diálogos flagelados retumbantes em tumba-rude. Estupidez negra lucidez. Hermano levanta-te pois sobre o barro soprou o vento. Em folhas secas de árvores verdes no chão é um broto com câncer. Furo bruto no centro do ego. Cego, toma a noite, o meio dia, cerra os dentes, animais que tem plumagem de aço e sangue negro de óleo, lama e enxofre. Mas, sois sábios!? sádicos nomes, hombres. Queda luz no chão de ferrugem, devias ao menos chorar, não cuspir. Estuprar o ar, sufocar as nuvens. Devias teu ventre, tua boca perder Mãe, tua pureza; não envenená-la;

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pobre Meca-natureza. És Hades ou frades? Os dois, um pouco de cada. Ema-frodita, auto-libido. Vertigem de melodias e trovþes em desarmonia.

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Magna Amica Tendes passos en Asunción. O verão queima o rosto das blancas. O pensamento está ao norte. Durmo quando? Apenas choro agora. Mi pulchra rubra e alba. Menina – est’vita.

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Adventus Todos os olhares estão atentos. O corpu-pêra atrai a teia. De desejos e despertares. De abismos abertos. Entre próximos cobertos de flores. Tremulas e Frias tendes orgamos dentes rangendos e a face vermelha pele, tapa roxo, olho membros inquetos, mãos cabeças glandes na rua o silêncio gemidos e apegos o dia todo.

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Humus A cada fim seu recomeรงo: donde o sarcรณfago hรก poeiras na esfinge. Renasce o pequeno menino. Da labirintude da floresta o singelo arbusto. Revive no galho oco um jovem broto*

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Inspirado em REVIDE, de Marx Martins Benignus Poeta Quem criou-me se esqueceu de domesticar-me. Quem diz o que faltou? Pitadas de amor? Diga-me por favor! Há dois estripados como pétalas. Quem deixou de plantar o amor? Quem? Quem criou-me? Esqueceram de desatinar a dor faltou pudor. Quando a pouco tínhamos (...)

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Imergimos em lama. Pesadelo conduz a sensatez. A contĂ­nua nasce estupidez penso que faltou (...)!

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Solte a mão e pule o rio, ante o muro corra do frio. Ervas, cuidado com as “falas”. Elas penumbra aqui na tua sala, no teu quintal. Quando não zombam ou furam teu coração. A folha de papiros anuncia o blefe do rapaz, que não fecha a boca, cospe em tudo e em todos. Que tens cópia e nenhuma criação. Invadem a tua sala e a tua mente. A terra se contorce e a tua casa vira destroços. Não temos mais poesia, nem caixão. Quando teremos liberdade então?

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Faces do Mesmo Não digo que não sou, que não vou “enfrentar teu ódio ou teu amor”. Desafiou-me, e eu aceitei diante de ti e do teu ódio e teu amor. Veja o que restou, em que te transformou? Em uma mão, flores; em outra, punhal. Violência e pureza. Sangue e vinho no teu copo. Diga que não vou. Sim, enfrento novamente teu ódio? Ou teu amor?

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Decadência Aves novas pousaram em meu telhado, abutres (não albatroz) quem perdeu o instinto? Deixaram os olhos fecharem? Tens agora teu tempo conseqüente Abrigo ao teu vento e sossego à beira do abismo. Caíram as vestes, o couro, os pêlos e escamas. Do vôo das nuvens e do vento restou apenas lembranças. E da força, corpo inerte.

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Sophia

“Sexo compra dinheiro e companhia. Mas nunca amor, amizade...” E eu, já sabia, em tua face SOPHIA

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Procella del Soevitia Em sonora desarmonia, em frio desalento esto-amos. Calmos, aflitos, em cidades de barro, cimento e ferro. Dormem agora os que esperam o amanhã. Não sabem o porque da “fúria do mundo”. A razão da “ira” da terra, do sol e do mar. Nem sabem mais que o céu é azul, e que a água brota sob nossos pés. Tornou-se insignificante o ar, o vento e o grão de areia. Dormem agora. Quando acordarão? Em lençóis corpos tortos estão sonhando um sonho lindo. 37


O que terão quando acordarem? Os que habitam a rua não conseguem dormir. Mutuas são as acusações, porém, todos sabem dançar -dizem uns aos outros, Desculpas, mentiras e permutas. Tendes em seus dedos anéis de prata e ouro. Lamentavelmente a cabeça está “vazia”. Tendes atributos insólitos. E quando as ondas vem e o sol se põe, encontram-se em cultos, em danças, beijos e emoções. Pois durante o dia estão dormindo de olhos abertos suas sensibilidades ausentes e sentimentos dispersos. Fazem o que querem fazer e obrigam outros a fazerem o que não querem fazer. Quando menos esperam, o sol se aquece, o gelo se derrete, 38


o mar transborda em águas-vivas, vidas/perdidas: Mortandade fora mortalha, maldade queima folhas, mansidade tens belos corpos e cabeça em corte-má-sorte. Salto alto e desequilíbrio sobre o fio da navalha. Há pouco sonhávamos, há pouco amávamos. Vivíamos uns com os outros e com o mundo. Estamos agora uns contra os outros e contra o mundo? A nota desafia: a canção e a bênção... Tínhamos heróis nossos e importados... Contos, aplausos em teatro de comensalistas. Sobrenomes em uma lista, pedras estanques, no entanto não era o bastante. O carinho se desfaz por entre nossos dedos e não percebemos. 39


Retumba o trovão, derrete o metal e o fogo se apaga. Não mais reconhecemos o belo, a virtude que tínhamos em nossos círculos de relação. Nunca foi o bastante, tínhamos muito e não era o suficiente. Quando será? O que deveríamos defender não existe mais. O que destrói os sonhos é o mesmo que alimenta o ódio. Estamos perdidos, enfrentamos o desconhecido e o medo que tínhamos, quando acreditávamos nas verdades dos outros e não em nossa própria verdade. Sofremos por não acreditar no que nós éramos e que agora não somos mais. O hoje está à sombra, amanhã teremos corpus 40


dementes em cidades de cinzas. Nem por tolices, nem por honra devemos nos esconder do que realmente somos. Condena-nos o que motivava (amor) e que está ao seu reverso. Entregamos o fluir do suspiro, gestos de atenção, compaixão, sem tentar suportar os temores que primam (vida) à sós e regressos de uma longa jornada de fascinação. O bote naufrágio de corações que batem em peitos vazios de canções deturpadas. Não vamos está em valas comuns, de pé e fortes sobre o altar. Temos olhos inquietos e uma boca amarga ainda condutora de sublimes palavras. 41


Em tempos atuais desertos de misérias em séculos de egoísmo. Somos o que a terra nos fez ser. Resquício que o sol moldou como ferro forjado pelo calor. Em suma perfeição imatura pureza tipicamente humanos de cantos e lamentos. Tal qual as folhas nos deu (pulmão). E hábito contínuo tirou (

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Em outros astros está o que não somos. E Gaia, parte de nos mesmos, jorra o sangue que corre em nossas veias, e a lama que cura nossas feridas. Nos mantém o sustento, beija nossas pés. Nos infla de plasmas e glóbulos vermelhos, carne e ossos ocos. Tudo o que ela é somos da mesma forma. Há pouco sonhávamos, há pouco amávamos.

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Ouvimos de dentro uma balada. Ela penetra-nos pelos poros. Chegam ao cérebro como música em tons freqüentes. “as dores das flores” Em função das mutilações desferidas pelos jornais, palavras afiadas de seres sem mundo próprio. “Foi assim antes do nascer” Cadáveres e árvores disputam as luzes artificiais, a vida e a auto-satisfação. Querem um punhado de beijos-paixão. Em minha mente floresce ante ao desejo ante-talvez (...) NÃO.

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Sangue Gótico O primeiro rugido do ser no cair da túnica durante a noite. O velho blefe e o ranger dos dentes, suspiros e atrações. O bar, a taça, o punhal. E a diferença suplantada pelo desejo. O calor do corpo e a cor do batom e do sangue negro. Vestidos vermelhos baladas e laços em mãos. A língua, a boca e gotas de salivas. Melodias entre curvas de ninfetas suaves. A mão, o não, a crença, o perdão. A chama da paixão frenética como um furacão queima. 45


É cedo demais Volta pro esgoto bicho sem gosto. “Foi extirpada do coração a falsa opinião...” Meu organismo é escudo anti-hipocrisia. Uma barreira natural contra o veneno viral. “Aí verás alguém que só por entre ervas e águas de tua memória e de dor se nutre”*

(*)_______________ Trecho usurpado de Camões 46


Do Ópio ao Vinho Sentado sobre seu próprio ser... Degustas fumosa. Vejamos que ser? Diálogos flagelados relutantes em tumba-prévia. Quanto que levanta-te caído ainda sobre o barro. E em folhas secas em árvores verdes no chão urge um broto com câncer.

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Furou o ego que flutuava sobre o espírito, como uma sombra que torna noite o meio dia. Seres propensos que possuem plumagens de aço, sangue negro de óleo, fuligem e enxofre. Queda-te em escuridão e no chão ferrugens. Devias santo sufoca teu pranto tal o ar que nos aborda. Tendes nobre a bela nuvem, tendes pureza aquela que vem, tuas veias envenenadas, oh! Querida época....... oh! Não sois quem peca. Ema das aflitas, és tu, menina, auto-libido Emafrodita. Restos e resíduo de clara fumaça que sai de longos cachimbos, não da paz!

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Bajo Foram t茫o estupidez; de coloridos nomes; longe da fome; e voraz rapidez. Que sobre a maldade entendes bem do poder, e de se enfurecer sem ter piedade. Foram de Saturno, e n贸s de Netuno, tiveram a lua. E n贸s os becos, tristes novenas e suic铆dio na rua.

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Dominação de Hominídios Ela constrói seus próprios sonhos, elabora seus passos, modela seu corpo e seu destino. -Ah, lá vem aquelas palavras de novo! Domina-me a terra infértil de sombras diurnas. Berço moldado de fúria e melancolia. Um turvo sol, um querer-hominis demo-nios. De filo, de canis insaciáveis de dor, que consome a si mesmo. Apaixonadas estão por civis-lizações perdidas envoltas em ataduras e farrapos que estancam....... 50


-Quero falar de belas personagens. Deixe-me palavras insanas!!!! -Campos verdes, as flores. Novamente o que está sob a água: É mais forte que a ponta do iciberg. Foi podada a asa do anjo. Outros trouxeram incenso, e quase em transe os parceiros do fogo beijam a indefesa vítima. E alimenta-se da memória daquele que mesmo sem querer vive doa-se . Quando convém sorrir mesmo propenso a partir. O sol do meio dia é uma chama que queima indolor.

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A Visão do Cego A visão do cego é o corpo na cruz. A irmandade, a luz de magros ossos e ego. Canta-te, oh tormenta, espanta a neblina, o germe da jovem surdina, em plácida desatenta. Hoje não dar, hoje não, não quero falar. Não quero falar, hoje não, hoje não dar.

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Quero-te, Mesmo sendo eu um idiota Rosa dolorosa, austera, suprema, Zomba-te de mim, querida carnívora. Nos labirintos e veias que sufoca o gosto, o gozo e o todo da gema. Tendes dente atroz, boca volumosa, um fogo algoz que beira o inferno, oh! deus displicente, salva-me eterno; meu coração turvo em trama curiosa. Meu canto lírico no asfalto, meu pranto e suspiro explode do palco. Quero tuas volúpias em minha porta. Dolorosa ou não Rosa, sois ervas: implantes em mim findas trevas; quero-te, mesmo sendo eu um idiota.

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Sapiens Beijei tua boca que sangrava por engano, não, quando cai mutilado não era sono, era abandono. Quando rasguei vestes sujas tecidos e farrapos Em passos “tropensos” sobre lixos cristais e vinhos chagas e carinhos Pesticidas e faróis. Pestes incuráveis em fétidos leitos complacência sub-mundo de heróis. Infectou-me radioatividade em ecos dos reis-barbaros. Somos como tu tens. Hominis-oco. 54


Somos todos santos, somos desnudos, flechas, flamas em chamas. Somos imundos. Retos, tortos, ratos(...) almas-caidas. Somos falidos, tocos-poucos. Em vozes, em guetos sub escudos de lรกgrimas sobre o fio-da-foice. Esquivando de germes, de ferro, do aรงo. No velho e no novo mundo. Tratados em tratados contemplados em abraรงos e sub-aviso.

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Estamos sem voz, de bocas atadas tais como: mucamo des-umanos, enfim – humanos. Sopra o profano sete trovões, sete dragões. O eclipse e o fim de mim. A boca amarga o beijo molhado insuperável lamina. Forja-nos o sol, o signo, a serpente e o zodíaco. Entorpece-nos a dança: os sentidos, em crepúsculo. Temos flores, dores, rumores. Temos refúgios, fúrias, fulgos. Mas complacentes destinos. Não importa se nos toca o ar em nossa porta, queremos a vida. 56


As duas faces da lua O cinza coberto de pedras, poeira e gases mórbidos, qual um farol. cega-me o alento e ao ciclo natural, durante o lento giro da rainha. O negro deserto e frio do breu, faz tremer os corações dos fortes. E ainda com mais força o meu eis, o todo das duas partes! O lado claro da jovem nua habita bons sonhos e luz, de todos os espíritos da rua. O lado escuro da velha tua, está a solidão de todos, o espectro da dor que flutua.

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Casulo Humano Lentamente o tempo amadurece o homem num des-equilíbrio infinitamente breve que é a vida! Seu coração e mente duela eternamente sobre uma corda bamba, à bordo de uma ampulheta formada de: esperança, ignorância, ciência, medo, amizade e estupidez.

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As Classes Ratos nos grandes becos – aflição. Patos racionais caem abatidos – otários. Ratos comemoram o fato – a extinção. Patos e velas no velório – solitários. Ao fraco restou o sabor do desgosto, seu argumento frágil foi tolido, e assim esse perdeu a vida em agosto, seu anjo salvador e Estado, está falido. Os penosos não querem vê, cantam. Ferozes predadores sorrido exterminam; os patos pedem socorro, não adianta. Os bons tentam orgnizar-se oprimidos, nós apenas assistimos a tudo. Os ratos mutilam os últimos aguerridos!

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Soneto às Flores Campos planos de flores frescas, de cabelos negros e olhares desnorteantes; cheirosas, delicadas que atraem até borboletas, que belos corpos de formas insinuantes! São delicadas, tímidas, elegantes e caretas, entorpeçam-me, inunda-me de fantasia, fascinam a todos as incomparáveis etas, ninfetas. mesmo querendo afastar-nos delas não conseguiria. Sonhei tê-las do meu lado um dia, meu vazio coração sonhou mais alto ainda, tentou alcançá-las sem saber que não podia. Mesmo distante, os nossos corpos do calor um do outro. O magnetismo que há em nós, alimentará essa força que chamamos de amor!

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Dè Rosè Uma rosa é apenas uma rosa. Uma rosa é só uma rosa. Uma rosa é uma rosa. Uma rosa é rosa. Uma rosa rosa.

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Farsa É hora de nos livrar-mos do casulo ridículo que são nossas vidas. Aqueles “heróis” de bronze, de espada em punho lá da praça, não são heróis, são assassinos. Suas vidas e façanhas não são tão honrosos como nos disseram. Eles venceram e conquistaram graças ao sangue e morte de outros, indefesos. Eles massacraram povos e costumes, sobrepujaram espíritos e cidades. Jamais os reverenciarei, envergonho-me de os descender.

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Renascimento

Sob o obscuro da vida, a iluminação encontra o seu caminho que está no escuro, de forma misteriosa como o sol que nasce silenciosamente, sem barulhos ou mesmo alarmes.

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A Terra

Terra contem gente gente de terra terra, รกgua, vento e fogo. Bela terra... Te...rra. Bela Te...rra.

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Esmeraldas Três mulheres carregam lenhas sobre os ombros(...) São mais que mulheres, são guerreiras. Manobram o facão e manuseiam o machado. Corpos femininos, mas a força; um belo achado. Bela Kaiapó seu vigor é igual a força do timbó. Sois belas mulheres, sois lindas esmeraldas.

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Cidade Sociedade não, sortilégio! Solidariedade não, somiticária! Sobre comunidade não, solitude! Sobriedade não, soberba! -Estou vendo pegadas no chão, isso aqui um dia já foi habitado!!!

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Amizade Em círculos “animais” ridículos Plantados calcados calados abafados Olhos murchos bocas sedentas Do léu, falas fel do céu, nuvem anel. Da chuva saudade. Ao sol, amizade.

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Parto

Quando jovem toda esnobe. Quando bela toda fera. Quando quero-te toda g贸tica, voa. Quando sangro toda lamento, chora.

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O Encontro Num distante tempo sombrio, olhei ao meu lado, senti ligeiramente o toque de um olhar em meu corpo. Um toque frio, o que o além quer de mim? Nada deste mundo é tão silencioso. Se desfaz ao vento, dança no ar, se alinha à sombra. Seu princípio vital: é força e energia, tudo desconhecido, é matéria metamórfica, gases, metais artificiais, assemelha-se a: neônio, xenônio, criptônio, quem sabe seja plutônio?

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Apresenta-se a mim em gestos que parecem códigos em articulações. Eis a configuração do enigma, constituído em corpo bruto e maleável que num segundo transforma-se em fumaça, diante de meus olhos vácuo. A imagem quase irreal. Imóvel fiquei rígido observando desolado. Por um instante quieto ficamos, alheios ao mundo, surdos, mudos, palavras nenhuma, nada. -D’onde vem esta criação? -Será fruto da minha imaginação? A calma, o silêncio nos envolveu, tudo que havia ao redor nada significava. Nem gestos ou movimentos, imóveis tornaram-se ornamentações, cenário morto. Pessoas, árvores, comunicação, simplesmente não existia. Memórias, sonhos, fantasia, nada. Vozes, sons, alegorias, bares, até o cotidiano tudo estava em outro plano. Diante de mim: 70


a esfinge do mistério, o mensageiro do infinito, a mão do destino, o sentinela do tempo. Tentei mover-me, usar letras, pronunciar palavras, murmúrios, cantos, gestos. Recorri ao psiquismo, telepatia, sugestionei pensamento, sem altivez, já sofrendo, amigavelmente tentei. Em português falei, nada ouvi, nenhuma resposta, talvez o latim, o tupi, o guarani, o ka, apó, até mesmo dinamarquês. Tudo em vão. Acredito ser estupidez. Um elo místico nos prendia, talvez no horizonte, gritos eu ouvia. Quem agora me chama? O vulto negro rápido avança numa ligeira dança sua foice ela lança, com o susto eu quase sem cabeça, acordo.

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Ladrões de Crânios ( I ) - CONTO DO CRÂNIO -Isso é um crânio; a cabeça de um homem. Nesta encruzilhada já sei de tudo, um pouco. Como pode um homem usurpar o crânio de um outro homem? Talvez em sonhos, ficção ou planos, mas em morte? Quando se morre não se revive. Quando se vive separa-se da morte. Em rituais, com o crânio de um outro visualiza-se a sua própria morte! -Pra que saber, ou antever momentos sobre o dia da agonia? Afim de o quanto possível retardá-la! É bem verdade que um outro vai ao encontro de sua ruína, 72


por pressa, sina, doença, ou apenas cansaço. ( II ) - CONTO DO HOMEM Em ARCO DE LOS LARÁPIOS corre uma macabra ventania de falácias e boatos! Fala-se que túmulos foram violados por ladrões de crânios humanos. Cabeças de homens mortos para servir homens vivos. Nas seitas secretas, fogo, ossos queimando, a cinza oferecida a quem deseja “prosperidade” e vida longa, tudo ofertado num banquete horrivelmente saboroso: vísceras, miolos, tumores e lágrimas. Em talheres de prata e porcelana, uma ceia sobre-posta em um altar que tem sentado ao centro o próprio demônio em forma de graça. “Para que serve o homem? Para estrumar flores, para tecer contos?” Esqueletos largados ao leu, todos, abandonados, só lembrados no dia dos mortos! Em campo santo os pecados são esquecidos, 73


no mínimo ignorados. E quando se visita um ente querido todas as mágoas são retraídas. Os que ainda habitam a superfície da terra, andando pelas ruas nuas, em noites chuvosas e frias à procura de vítimas mais frágeis para apenas destilar seu veneno de injúria e lançar sobre essa indefesa alma uma tempestade de mentiras, também serão seguidas em seus cortejos fúnebres, não interessando quão grande em vida forma seus males. “Enquanto os anjos, sendo maiores em força em poder, não pronunciam contra eles juízo blasfemo diante do Senhor. Mas estes, como animais irracionais, que seguem a natureza, feitos para serem presos e mortos, blasfemando do que não entendem, perecerão em sua corrupção”.

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( III ) - CONTO DA PESTE Aqui jaz um lazareto coletivo, indivíduos isolados da comunidade em seus casebres separados um do outro. Constantemente o mensageiro do inferno ronda esse lugar, naquele tempo e ainda agora. Quando anda-se por aqui é possível ver os rastros destorcidos pelos corpos incapacitados. Essa antiga colônia de seres providos de dor e desconsolo, inda está presente na memória de quem mora aqui. Em tempos frios, um som mórbido: na colônia ouvia-se em desarmonia, gemidos e gritos, uma cruz pesada demais para qualquer ser humano! O peso do estigma esmaga os ossos de quem o carrega. Esse, o mais antigo dos males, provoca na vítima em sofrimento “A queda espontânea dos dedos e do nariz, e o apodrecimento em vida”. Será mesmo um castigo divino? Mr. HANSEN - descobriu mais cedo que “a patologia infecciosa é de evolução prolongada e atinge principalmente a pele e os nervos”.

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Restou informar às pessoas que corpos são passíveis de cura, mas o estigma não! Numa bandeja estão dispostas tuberculóides, Dimorfas e Virchowianas servidas por BESTA DE HADES. Quem servir-se delas irá sofrer. “Vida e morte estão diante dos olhos, devemos saber disto muito bem. O inimigo não aceita uma retirada”. Quando olha-se para trás procura-se aprender com os erros passados para no futuro tentar superá-los. “Quando não compreendemos a dor, elas nos dilacera. Quando entendemos seus fins, ela nos aperfeiçoa” [é o que disse: Ueshiba] O homem bom não sucumbe ao mau, tropeça e levanta-se, foi ferido e curou-se, e assim cordas prendiam seus pulsos e ele as arrebentou. 76


E quando um descendente dos povos da colônia se deparou com um cemitério o céu aberto, com crânios expostos ao vento e aos vermes, suas lágrimas rolaram. Ele lembrou-se do velho da túnica preta que durante toda a sua vida serviu os moradores, que naquele habitar sempre pediam ao velho alguns conselhos, bênçãos e água limpa. O sábio costumeiramente confortou aos que tinha suas mentes falidas, mais que ainda tinham o coração carente de um pouco de atenção. A terra de fr. Gil, agora é visitada por outras pragas, não mais as que traziam a morte lentamente, e sim uma que é conduzida pelo próprio homem, pela sua mão dependentes de sonhos mortais.

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Carne Humana Degusta-te, coma sem dor! Escuta-te, corra sem medo! Degusta-te, com o todo o peito! Escuta-te, corra todo o leito. A natureza torna o animal insensível, racional e humano. Propenso a rasgar com punhal sua delicada carne profana. Outros não terão o que comer, até a carcaça já está limpa, o tutano dos ossos acabaram. Às larvas restaram comer seus próprios semelhante, pois carne humana não terão.

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Espelho da Alma

Vejo atravÊs da palidez dos teus olhos a tua alma, calma, singela e esperançosa, em se encontrar com tua outra metade animal.

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A Luz dos Olhos

Os raios de luz que saem dos teus olhos é o teu mais belo cartão de apresentação! Se não para os outros, para mim eles são!

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Pirus É bi – xeira In le-chu aberta na rua. Retos em templos cabeças abertas. É in – sanidade em crueldade. Bebidas - bac – tericida Bridas pesti – cidas. Em fim ( ... ) Urbanus – Em civi – lizações. Querem tocar Mi

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Elo

Do íntimo do calço, a mente conduz o castigo. Em florestas, em lagos, em nuvens, em estradas. Corações e teorias estende e virá o que chamam de “Trancedência”

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Bellum Quimera dilata pupilas enquanto o silencio agoniza. BELLUM Quimera dilata pupilas enquanto o silencio agoniza. Quanto entulho embrulho. Incidente, espanto, susto, temas mãe messa, pe. Peca cego – ego Sapiens nada sábios. Erectus nada retos, Habílis nada hábios. Em fim, Homus – desumanos. Des – apego Filo des – equilibrio.

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Alimento “É ao arco e a seta a que devo o ferimento, aberta a chaga em fraco peito humano” ... Singela boa – vontade seja dentro à noite ou ao claro do dia a flama que não sede de dançar. ... Prelio não te tombas, Rebelião alimento tua força. ... O rude, o tosco afia tua alma.

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Os mitos dos quais Milton é criatura e criador, os arrastam à razão e ao necessário delírio. E por algum momento percebe-se que ao esculpir sua escultura poética, o poeta suspende sua existência, ainda que momentaneamente, para criar outras existências, virtuais, ficcionais e até reais que passam a partir da leitura, a transitar em nossas memórias.

O que destrói os sonhos/ é o mesmo que alimenta o ódio./ Estamos perdidos, enfrentamos/ o desconhecido e o medo que/ tínhamos, quando acreditávamos/ nas verdades dos outros/ e não em nossa própria verdade./ Sofremos por não acreditar no que nós éramos/ e que agora não 86 somos mais.


CORPOS TECENDO O CREPUSCULO