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Previsão do tempo não é informação O serviço de previsão do tempo tem espaço regular na pauta da imprensa brasileira desde 1920, e atualmente, dada a tendência cada vez maior à convergência midiática, é disponibilizado nas mais variadas plataformas de comunicação. Porém, longe do protagonismo que verificamos hoje, a previsão do tempo até aproximadamente duas décadas atrás era veiculada na mídia estritamente na condição de serviço, com tempo e espaço de veiculação condizentes a essa natureza. Vejamos, então, qual o conceito de serviço, lançando mão do dicionário Aurélio: Serviço: 19. Produto da atividade humana que, sem assumir a forma de um bem material, satisfaz uma necessidade.

Ainda apoiado pelo conhecido glossário, consultemos, também, a definição de mais um termo de fundamental importância na relação meteorologia, jornalismo e veiculação midiática: Informação: 10. Segundo a teoria da informação, medida da redução da incerteza sobre um determinado estado de coisas, por intermédio de uma mensagem; neste sentido, informação não deve ser confundida com significado e apresenta-se com função direta do grau de originalidade, imprevisibilidade ou valor-surpresa da mensagem, sendo quantificada em bits de informação.

Atentemos, sobretudo, para o final do enunciado, no qual a “informação apresenta-se com função direta do grau de originalidade, imprevisibilidade ou valor-surpresa da mensagem”. Pois bem, a partir daí proponho um exercício de imaginação: lembre-se da “tempestade” de boletins do tempo (com o perdão do trocadilho) com os quais você se deparou nas últimas semanas, seja em rádio, televisão ou mídia escrita. Agora, finalmente, peço que identifique o grau de originalidade, imprevisibilidade ou valor-surpresa inseridos nestas mensagens... Não se trata aqui, fique claro, de desmerecer o trabalho sério e criterioso desenvolvido pelos meteorologistas, tampouco o seu valor enquanto serviço que deve ser, logicamente, divulgado através dos meios de comunicação, sobretudo nestes tempos de mudanças climáticas cada vez mais drásticas e recorrentes. O que devemos questionar, a meu ver, é o espaço desproporcional dado ao tema na mídia, assim como uma tendência a supervalorização e “espetacularização” do assunto, esse último, a bem da verdade, um mal que na imprensa brasileira não é restrito à previsão do tempo. A respeito deste tema vale também citar a reflexão do jornalista Franklin Berwig, manifestada em recente artigo publicado no site do Observatório da Imprensa, intitulado “Rádio, um serviço mal feito”. No referido artigo, que no caso específico do assunto aqui abordado acaba servindo também para outras mídias, Berwig comenta com propriedade: “...o rádio tem, sim, que prestar serviço. É concessão pública e precisa ocupar sua função. Mas quando o rádio se esquece que serviço é complemento, não prioridade, não fornece as informações que são importantes para posicionamento e reflexão”. Portanto, seja qual for a mídia utilizada, a informação deve ser prioridade na programação jornalística dos veículos de comunicação, a fim de que estes cumpram seu papel de contextualizar a atualidade ao seu público, munindo este de subsídios para que formulem seu próprio entendimento dos fatos, nexos e possíveis desdobramentos. Até porque, utilidade pública a parte, convêm não esquecer nossas mães e levar sempre o famoso casaquinho...

Texto opinativo  

Prêmio Unicos Caubi Scarpato