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A Caipirinha

do LUIZINHO Nos drinks deste carioca de Santa Teresa, além de cachaça mineira ou vodca, há uma boa dose de samba e choro.

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Em pé atrás da barraca, Luizinho ensina ao freguês que “o cravo é um instrumento interessante, pouco conhecido na nossa cultura. É lindo, uma verdadeira pintura!”. Tanta empolgação desperta a curiosidade do sujeito, que pede uma caipirinha de vodca, limão e açúcar, em seguida emenda, estendendo a mão para pagar: “Então cobra aqui o drink e um CD do cara que toca cravo”. O dono do “botequim” da Praça São Salvador, em Laranjeiras, se anima: “Excelente! Você vai adorar o som, eu garanto! Meu amigo, é melhor gastar dinheiro com música do que com terapia”. É, de fato, Luizinho não precisa de um terapeuta. É feliz assim, trabalhando entre CDs raros, clientela interessada em boa música, amigos sambistas e garrafas de cachaça mineira. A vida como vendedor de rua começou há quinze anos, quando Luiz Antonio Mandarino ainda tinha um pouco mais de cabelos e andava indeciso so-


é Quase Amor, Bloco de Segunda e Barbas, a caipirinha de Luizinho reinava absoluta até dois anos atrás. Hoje, ele marca presença nas duas feirinhas de artesanato de Laranjeiras: há quatro anos na Praça São Salvador, aos domingos, e há dez na Rua General Glicério, aos sábados. Em ambas, Luizinho é quem esquenta o clima antes da roda de choro. Não só porque serve os drinks, mas também porque é responsável pelo “som ambiente”. “Meu negócio é samba e choro. Tenho prazer em dizer que sou amigo de Aldir Blanc, Carlos Malta, Zé da Velha, Silvério Pontes...”, conta orgulhoso. O pai da pequena Júlia, de quatro anos, também se aventura na seara infantil, porque a São Salvador vive cheia de crianças. Mas nada de Xuxa na prateleira, afinal, diz ele, “não coloco Xuxa para a Júlia ouvir, então não vendo”. Enquanto a meninada se diverte, os adultos bebem caipirinhas sem invencionices: “Não vou redescobrir a roda.

Aposto no trivial e capricho no atendimento, higiene e qualidade. Uso gelo filtrado e boas pingas e vodcas”, explica. O drink pode ser de limão, lima da pérsia, abacaxi, maracujá ou tangerina, com cachaças da região de Tiradentes e Salinas, vodca nacional ou importada. O bate-papo com Luizinho sai de graça. “Sou um felizardo: trabalho ouvindo música, conversando com os amigos e vendendo caipirinha. Quer coisa melhor?”

Vodca para recém-nascidos ONDE? Sábados, Feira livre da Rua General Glicério – Laranjeiras. Domingos, Feira livre da Praça São Salvador – Laranjeiras. Sempre das 9h às 16h. Tel.: (21) 9805-7525 luizinhomusica@gmail.com

o povo A PRAÇ A São S alvador é d

antes – e onde Luizinho também A exemplo da feira da General Glicério, criada sete anos or passou a abrigar sua própria Salvad São Praça monta sua barraca de drinks e CDs –, a Alunos da Escola Portátil de feirinha de artesanato e roda de choro a partir de 2007. ali informalmente, apenas para Música, moradores de Laranjeiras, começaram a se reunir e música e rua no Rio de Janeiro, praticar seus instrumentos. Mas, como tudo o que envolv natos ao redor do coreto – a roda ganhou espectadores fiéis e bancas de artesa com vinte músicos. Aos domingos, até o chorinho ainda é atração principal e pode contar e festa de sons e cores. grand numa o lugar residencial e bucólico se transforma

A vodca é uma bebida tão russa que, na língua de Lênin, voda significa “vida”. Teria sido inventada por monges no século XVI, a partir da destilação de sobras de cereais. No início, era um produto rústico, usado como remédio para esterilizar feridas. Mas rapidamente se descobriu que, como bebida, teria outras funções mais úteis: espantar o frio, acalmar os ânimos e até mesmo encorajar soldados. No livro O rei da vodca: a saga da família Smirnov e a construção de um império, a autora Linda Himelstein diz que na Rússia a bebida era oferecida até para recém-nascidos em crise de choro. Aromatizantes e novas técnicas de produção melhoraram e popularizaram a vodca ao redor do mundo ao longo do século XX. Hoje ela é a principal substituta da cachaça no preparo da caipirinha – sobretudo no exterior, onde a bebida brasileira não é tão popular quanto a vodca.

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bre o que fazer da vida. “Fiz curso de chef de cozinha, de barman, fiz escola de belas artes, trabalhei em banco, virei cozinheiro da Marinha...”, enumera. Nos anos 90, levado pelo então sogro Eliomar Coelho, atual vereador do Rio pelo PSOL, tornou-se responsável pelas caipirinhas nas festas de campanha do PT. “Fiquei conhecido e a turma começou a me chamar para fazer outros eventos”, lembra. Entre eles, a roda de samba do Clube Lagoinha, em Santa Teresa, bairro onde nasceu, cresceu e vive até hoje. Da presença de ilustres convidados na roda, como Dona Ivone Lara, Moacyr Luz, Nei Lopes, Luiz Carlos da Vila e Monarco, nasceu a ideia de vender também os discos: “Eles deixavam seus CDs em consignação na minha barraca. Mas tenho um defeito comercial, porque só vendo o que gosto”. Mais tarde, passou a trabalhar no Carnaval, em blocos da Zona Sul. No Suvaco do Cristo, Simpatia

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