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1 Uma família vienense

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e você era um jovem, ambicioso e judeu na virada do século XX, havia apenas um lugar onde poderia estar:Viena. Meus olhos de criança reconheceram toda a sofisticação e majestade da cidade; lá era minha casa, e eu era uma verdadeira vienense. Quando nasci, vivíamos em uma vila espaçosa no subúrbio frondoso de Hietzing, embora minha família tenha vivenciado uma história longa e turbulenta na cidade. Até o final da Primeira Guerra Mundial,Viena era considerada a joia da coroa dos Hapsburg, a sede do grandioso e imponente Império Austro-Húngaro, que se estendia da Ucrânia e da Polônia até a Áustria, Hungria e Sarajevo, na região dos Bálcãs. No período pré-guerra, Viena era uma potência comercial e cultural; os negócios eram impulsionados pelo comércio no rio Danúbio, enquanto compositores como Gustav Mahler, escritores como Arthur Schnitzler e médicos como Sigmund Freud iluminavam as ruas, as casas de shows e os cafés com novas ideias. Era praticamente impossível não se sentir atraído pelo entusiasmo das atividades artísticas. No Café Central podia-se assistir a Leon Trotsky jogando xadrez e tramando a revolução; no Café Sperl havia a possibilidade de encontrar Egon Schiele e uma de suas modelos fazendo uma pausa nos trabalhos de pintura de retratos com nu provocativo. Foi uma época emocionante. Em 1910, a população da cidade já passava dos 2 milhões. As avenidas largas e arborizadas da Rin-


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gstrasse foram cercadas por ruas com novos edifícios residenciais e tomadas pelo crescimento da classe média composta por lojistas e comerciantes. Eram essas pessoas que formavam o público da cultura vienense; subitamente, elas começaram a comprar ingressos para o teatro, a sair para comer nos restaurantes e a fazer passeios turísticos pelos bosques e colinas de Viena. Uma boa parte dessa classe média era formada por uma comunidade de judeus muito instruídos e bem-sucedidos. Claro que o povo hebreu já morava em Viena há quase setecentos anos, entre idas e vindas, mas uma série de governantes intransigentes fazia com que os judeus fossem expulsos da cidade e, com isso, essa comunidade permaneceu pequena e instável. Somente a partir de 1867, após a política de tolerância religiosa e de igualdade cívica plena instituída pelo imperador Franz Josef, a comunidade judaica realmente começou a crescer. Nos trinta anos seguintes, a população judaica de Viena – que antes era composta por menos de 8 mil pessoas – subiu para mais de 118 mil habitantes e logo começou a desempenhar um papel proeminente na vida vienense. Algumas das famílias judias eram muito ricas e conhecidas. Elas habitavam casas palacianas ao longo da Ringstrasse e as decoravam com mármore e ouro. Um pouco mais abaixo na escala social, estavam os profissionais de classe média. Aproximadamente no início do século XX, quase três quartos de todos os banqueiros e mais da metade de todos os médicos, advogados e jornalistas eram judeus. Havia até mesmo um time de futebol judaico muito popular que fazia parte do clube desportivo Hakoah. Então, uma crise econômica e o colapso da indústria do combustível (que havia oferecido oportunidade de trabalho para muitos judeus poloneses), seguidos por uma agitação nos Bálcãs e pela Primeira Guerra Mundial, trouxeram novos imigrantes para Viena. Essas pessoas eram mais pobres, famílias de judeus menos instruídos que vieram de regiões situadas ao leste, como a Galícia. Elas se instalaram ao redor da estação ferroviária ao norte de Viena, em uma parte da cidade chamada Leopaldstadt. Aparentemente, essas famílias

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eram mais religiosas e menos “alemãs” em sua cultura judaica, se comparadas à comunidade que já havia assimilado o estilo de vida austríaco. Famílias como a minha jamais conheceriam ou se misturariam com esses novos imigrantes, que no futuro seriam vítimas de um preconceito antissemita ainda maior. A origem do meu pai era típica de uma família de classe média com boa estabilidade. Meu avô, David Geiringer, nasceu na Hungria em 1869. Depois de se mudar para Viena, ele fundou uma fábrica de sapatos chamada Geiringer & Brown. Na época em que meu pai, Erich, nasceu – em novembro de 1901 –, os negócios caminhavam muito bem. Tenho apenas uma foto dos meus avós paternos juntos. Meu avô aparenta ser uma pessoa metódica, tem bigode e está usando um chapéu-coco, enquanto meu pai e minha tia, então crianças pequenas, estão vestindo trajes de marinheiro e olhando para a câmera com a expressão séria. Minha avó, Hermine, é esguia e elegante, e na foto parece ter pelo menos um palmo a mais de altura devido a um chapéu enorme envolto por camadas de renda preta e chiffon, o auge da moda. Ela tinha chegado a Viena partindo da região de Boêmia, que hoje faz parte da República Tcheca. Mesmo com a necessária imobilidade fria exigida nas fotografias da época, aparentemente eles formavam uma família feliz – e essa é a lembrança que o meu pai tinha. Infelizmente, pouco tempo depois, minha avó foi diagnosticada com câncer e morreu em 1912, com 34 anos. Meu avô casou-se novamente com uma mulher que acabou se tornando uma madrasta intransigente, então meu pai saiu de casa quando ainda era adolescente e começou a construir sua própria trajetória. Sua primeira experiência de vida em família havia chegado a um final súbito e infeliz – mas ele estava prestes a conhecer a mulher com quem passaria o resto de sua vida: minha mãe. Devo dizer que minha mãe era linda. Enquanto meu pai era moreno e vistoso, minha mãe era loira, tinha olhos azuis, cabelos ondulados e um sorriso deslumbrante. Chamava-se Elfriede Markovits, mas todos a chamavam de Fritzi, e era uma mulher cheia de vida.

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Em uma das minhas fotos favoritas, tirada quando ainda era jovem, ela está sorrindo e dando de comer a um cavalo. As circunstâncias estavam longe de serem agradáveis – ela havia se mudado para o país onde o meu avô estava alocado com o exército para escapar da fome; mas ainda assim, ela estava sorrindo. A foto pode transmitir a impressão de que ela era uma mulher pragmática, prática e de certo modo rústica, mas a verdade é que ela não era nada disso. Pelo menos não naquele momento. Helen, a mãe de Fritzi, veio de uma família muito rica. Eles possuíam vinhas em uma região que hoje é parte da República Tcheca, e também uma estação de águas sulfurosas perto de Viena, em Baden bei Wien – um lugar que odiei conhecer porque cheirava a ovo podre. As condições financeiras de minha avó mudaram consideravelmente quando ela se casou com meu avô, Rudolf Markovits, que era vendedor da Osram, uma empresa que fabricava lâmpadas e outros tipos de produtos. Embora meu avô fosse um bom vendedor e a família estivesse longe de ser pobre, o final da Primeira Guerra Mundial trouxe muitas dificuldades para a maioria dos austríacos. A comida havia sido severamente racionada durante a guerra, e a queda do regime de Hapsburg em 1918 deixou a Áustria em apuros. O país recebeu indenizações financeiras em 1919 com o acordo de paz estabelecido pelo Tratado de Versalhes, mas a nação foi à falência antes mesmo que a quantia fosse definida. O que antes havia sido o local mais importante de um vasto império tornara-se um país pequeno, desprovido dos seus recursos mais rentáveis. A indústria e a agricultura, que eram a espinha dorsal do Império Austro-Húngaro, estavam agora sobrevivendo às custas da economia de outros países, como a Polônia e as recém-independentes Tchecoslováquia, Hungria e Iugoslávia. Essas novas nações ajudaram a Áustria a se recompor até que disputas de fronteira começaram, e logo em toda a Europa se espalhou o boato de que os cidadãos de Viena estavam morrendo de fome.

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Em um certo momento, a família Markovits estava tão faminta que matou e cozinhou o próprio pássaro de estimação. Minha mãe, que amava o bicho, lembra-se que chorava diante do prato ao mesmo tempo em que separava a carne dos pequenos ossos para comer. Dessa forma, posso afirmar que no momento em que meus pais – Erich Geiringer, com dezessete anos, e Fritzi Markovits, de catorze – se conheceram, já estavam familiarizados com dificuldades e incertezas. Porém, a consciência de que as circunstâncias da vida poderiam mudar não afetou a alegria de viver um punhado da prosperidade dos anos 1920 em Viena. Como essa carta de 1921 mostra, meu pai estava determinado e certo de que ninguém poderia atrapalhar o namoro dos dois, nem mesmo a mãe de Fritzi, que lhe dissera que sua filha era jovem demais para assumir um relacionamento tão sério. Viena, 17 de agosto de 1921 Prezada senhora, Recebi sua carta do dia 15 e a princípio fiquei chocado – mas depois me ocorreu que a senhora deve ter feito isso com boas intenções. Sinto-me muito grato pela confiança que atribui a Fritzi e a mim. A senhora tem certa razão em muitos pontos, devo admitir, embora seja algo doloroso para mim, já que acelerei nossos planos para o futuro. Amadureci a ideia por um momento e não me dei conta da resistência que ela traria. Lamento, mas não posso aceitar a sugestão feita pela senhora pedindo que eu vá me divertir. Minha aversão a esses tipos de prazeres é profunda e vem de longa data. Desde o momento em que conheci Fritzi sinto-me encantado, por isso não tenho interesse em qualquer tipo de diversão... Desde o primeiro momento tratamos o nosso relacionamento com seriedade, do contrário não manteríamos a nossa sincera amizade… Prezada senhora, espero que não se aborreça quando eu contar a Fritzi sobre a sua carta. Não posso esconder algo tão importante dela. Peço perdão ao contrariá-la e ao discordar da afirmação de que Fritzi ainda é uma meni-

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na de escola, como a senhora e seu esposo a julgam; mesmo ainda frequentando a escola, ela tem muito mais maturidade do que a idade faz parecer. Isso é um fato que a senhora tem que admitir. Agradeço à prezada senhora novamente pelas boas intenções que me mostrou… Do seu servo, Erich Geiringer Ele não permaneceu “servo” por muito tempo – Erich e Fritzi casaram-se em 1923, e praticamente formavam o casal mais jovem da cidade. Era isso que você pensaria se esbarrasse neles enquanto desfilavam pela Ringstrasse, caminhavam nas montanhas ou bebiam com os amigos em um dos famosos jardins “do novo vinho”. Meu pai era cheio de energia, alegre, acolhedor e encantador. Ele havia estudado na Universidade de Viena antes de assumir a fábrica de sapatos depois da morte de meu avô em 1924. Minha mãe não tinha o mesmo gosto por esportes e atividades ao ar livre que meu pai; ela amava ouvir música, tocar piano e passar o tempo com toda a família reunida. Ambos eram muito vaidosos. Os ternos do meu pai eram impecavelmente costurados pela Savile Row, e ele passou a usar camisas na cor rosa muito antes de se tornar moda. Minha mãe sempre conseguiu manter-se elegante, mesmo com o cabelo no novo estilo curto ou usando uma boina xadrez. Em todos os sentidos, meu pai era o chefe da família – definia atividades, liderava excursões, administrava seu próprio negócio e até decorou a ampla casa nova dos Geiringers, localizada em Lautensakgasse, com uma coleção impressionante de antiguidades, incluindo uma cama de casal que havia pertencido à imperatriz Zita. Meu pai era um conjunto incansável de entusiasmo e ideias, tanto no trabalho como no lazer, e minha mãe, que era um pouco mais nova e cautelosa do que ele, seguiu seus passos. Os dois eram jovens, amavam-se e sentiam-se agraciados por terem encontrado um ao outro.

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Livro escrito pela irmã de Anne Frank é lançado; leia o primeiro capítulo