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O diário dos “Diários Secretos” Catia Salles e Simone Fernandes foto: Henri Milleo/Gazeta do Povo)

James Alberti, Katia Brembatti, Gabriel Tabatcheik e Karlos Kohlbach

O que parecia ser apenas mais um escândalo de uma denúncia sobre corrupção no serviço público tornou-se um gigante que tomou uma proporção inimaginável. Em 2010, ano em que foi publicada a primeira matéria sobre os Diários Secretos da Assembleia Legislativa do Paraná (ALP) não se falava em outra coisa, tanto na capital Curitiba, como nas cidadezinhas do interior. Era comum as pessoas irem à padaria comprar seu pãozinho e ouvir comentários sobre o assunto. Mesmo porque isso tinha muito a ver com a vida de muitos dos moradores dessas pequenas cidades. Como a história de Radaméris Saides, um boia fria que ao tentar se inscrever em um programa de moradias populares descobriu que não poderia, porque a sua renda era altíssima! Seu nome estava sendo usado como funcionário fantasma pela Assembleia Legislativa do Paraná. Maior ainda foi sua surpresa quando a jornalista Katia Brembatti da Sucursal de Ponta Grossa da Gazeta do Povo, mostrou para o boia-fria a sua nomeação e que junto com ele estavam mais alguns conhecidos que sequer ganhavam por ano a quantia indicada por mês nos documentos. Foi aí que a jornalista percebeu que o trabalho que era para ser feito em apenas duas semanas levaria muito mais tempo. Foram dois anos de investigação em parceria com a RPCTV. Era uma equipe de quatro jornalistas – James Alberti, Gabriel Tabatcheik, Karlos Kohlbach e Katia Brembatti – e que contavam com a ajuda de cinco trainnes. A equipe levou oito meses só para digitar as planilhas e revisaram o material, no mínimo, seis vezes. Eram 8 mil nomes para investigar e 19 horas de trabalho árduo por dia. Em entrevista à revista Entreverbos, Katia Brembatti revelou que muitas vezes eles pensaram em desistir de tudo. Quando um deles desaminava, sempre havia alguém para motivá-los a continuar.


“Apesar de nós termos um temperamento forte, um era complementação do outro”, lembra Katia. “Era um caminho longo a ser percorrido e essa união entre a equipe foi fundamental para o sucesso da investigação.” O momento mais tenso foi quando a RPCTV foi alvo de uma bomba caseira jogada por um homem encapuzado. Na ocasião, ninguém ficou ferido, mas a empresa reforçou a segurança. No mesmo dia, um saco de lixo foi deixado em frente à sede da Gazeta do Povo na Praça Carlos Gomes e levantou suspeitas. O COE (Centro de Operações Especiais) foi acionado por precaução.

O caminho das pedras Os detalhes da série que abalou a Assembleia Legislativa do Paraná Foto: Henry Milleo Gazeta do Povo

Entreverbos: Como surgiu a ideia de fazer uma série sobre os “Diários Secretos da Assembleia Legislativa”? Kátia Brembatti: Surgiu de duas formas: pela RPCTV e pelo jornal Gazeta do Povo. Em 2008 eu estava cobrindo uma matéria sobre o escândalo dos “Gafanhotos”, que era um esquema de lavagem de dinheiro em que nomes de laranjas eram usados para receber salários. Entre eles estava o nome de um boia fria, o seu Radaméris. Então eu viajei para Palmeira com uma cópia do processo e mostrei para ele, e ele acabou reconhecendo outros nomes na lista de nomeações. Então eu cheguei para a minha chefe na época, e sugeri fazer um levantamento sobre os Diários oficiais da Assembleia. Imagina o tanto de irregularidades que a gente poderia encontrar? Na mesma época o James Alberti também estava fazendo uma matéria sobre funcionários fantasmas de


deputados para RPCTV, então tivemos a ideia de unirmos as informações e formamos uma equipe. Como vocês conseguiram chegar até os diários? Como James já estava trabalhando nisso ele tinha a informação de que esses Diários ficavam escondidos e não no acervo de consulta pública onde deveriam estar. Então ele foi até a Assembleia com três estagiários e conseguiram fotocopiar alguns documentos. Foram três dias até serem barrados por um dos diretores. Eu fui até a Biblioteca Pública do Paraná, mas não obtive resultado porque não tinha nenhum diário da Assembleia Legislativa do Paraná. Não satisfeita fui até a biblioteca da ALP e tinha algo estranho, porque todos os diários tinham sido recolhidos. Procurei o diretor geral para saber o que estava acontecendo e ele me disse num tom ríspido que todos tinham ido para encadernação. Alias foi nesse dia que eu conheci o Bibinho (Abibi Miguel). Os outros diários conseguimos muitas vezes indo de gabinete em gabinete e praticamente de um em um até chegarmos aos 750 diários oficiais. O mais incrível é que quando eu fui atrás desse material eu fiquei indignada com o estado em que eles se encontravam. Alguns desses documentos estavam mofados, amarelados e outros até serviam de suporte para monitores dentro dos gabinetes. E eu estou falando de documentos públicos! E que até então não podia ter acesso. Em algum momento você chegou a pensar em jogar a toalha? Kátia Brembatti: Ah sim, foram vários (risos). Primeiro que quando começamos com a investigação, era período eleitoral e a chance de alguma coisa ser publicada era praticamente zero. Era muito cansativo, porque chegou um momento que nós tínhamos muita coisa e ao mesmo tempo não tínhamos nada. Era preciso se organizar, então o Gabriel, que era muito bom em planilha, começou a montar as planilhas. Eram 19 horas de trabalho por dia, oito mil nomes para investigar, viagens e mais viagens por todo Paraná e até para Santa Catarina, onde descobrimos o nome de um senhor que era aposentado da marinha, morava em Camboriú e estava nomeado como funcionário da Assembleia. Olha só não me separei, porque o meu marido era muito compreensivo comigo (mão no queixo debruçada sobre a mesa com cara de desânimo). Eu chegava até a sonhar com os números da planilha (risos) e claro que a ajuda da equipe foi fundamental. Apesar de nós termos um temperamento forte um era complementação do outro e quando um queria desaminar sempre tinha alguém na turma para levantar. E a questão do sigilo das informações, vocês tinham o controle disso? Isso era muito importante porque a gente não podia deixar vazar nada, mas ao mesmo tempo era muita informação para ser apurada então precisávamos de ajuda, mas não era qualquer trabalho que podia ser passado para os estagiários e nos estávamos tão fechados e tão íntimos da situação, que chegamos a quase perder a noção da gravidade do assunto que estava em nossas mãos. Lembro que quando tínhamos reunião com o jurídico da Gazeta, conforme a gente ia falando o que tínhamos, notávamos a expressão de espanto no semblante dos advogados, nos olhávamos e eu pensava “Ixe, deve ser sério!”. Foi aí que caiu a ficha do que tínhamos em mãos e tudo era nossa responsabilidade, tanto que sofremos um atentado e uma ameaça de bomba na RPCTVC e na Gazeta do Povo. Chegamos até mesmo a entrevistar alguns pistoleiros de pessoas


que queriam nos intimidar. Quanto mais a gente investigava, mais coisas apareciam. Tanto que foram dois anos de pressão. O que série representou pra você? K.B.: Essa reportagem foi um selo. Um divisor de águas. Até então não tínhamos ideia da dimensão disso tudo. Foi muito exaustivo, não sabíamos se ia dar certo, tínhamos medo das pessoas verem só como mais um escândalo político, ou mais uma matéria de funcionários fantasmas. Mesmo porque “diários oficiais” é um assunto de interesse público, mas não sabíamos até que ponto as pessoas se interessariam pela história. Então a associação TV e jornal foi muito importante porque onde o jornal não chegou a TV chegou e vice-versa. Eu lembro que uma vez num cursinho preparatório eu perguntei para os alunos qual o assunto que eles achavam que ia cair na redação do Enem daquele ano e eles disseram os “Diários Secretos”. Nunca imaginamos que isso chegaria tão longe. Por exemplo, que o Bibinho fosse cair…e ele caiu já na primeira semana da reportagem! Ou que alguém fosse realmente condenado, e já saiu a primeira condenação no dia 08 de agosto, a do ex- funcionário fantasma Daor de Oliveira. E a cada dia sai alguma coisa a respeito da reportagem e nos surpreende ainda mais. E nas premiações também fomos pegos de surpresa, principalmente porque concorremos com grandes reportagens como a da Fraude no Enem, e ganhamos por unanimidade. Até desculpe a falta de modéstia, mas acredito que plantamos uma sementinha nos estudantes de jornalismo, porque se alguém que saiu de uma cidadezinha do interior do Paraná conseguiu fazer parte de uma história assim, todos podem.

Colhendo os frutos

Após as denúncias, três dos diretores da Assembleia Legislativa do Paraná foram afastados e estão sendo processados. Aproximadamente 30 pessoas foram presas e os bens dos envolvidos bloqueados. Algumas mudanças foram feitas nas regras para contatar funcionários e controlar a frequência de cada um. Os diários oficiais passaram a ser publicados na internet e, a partir da série, surgiu o movimento “O Paraná que queremos”, e um projeto de lei que estabelece regras de transparência para a gestão em todos os órgãos do estado. O ex-funcionário da Assembleia, Daor Afonso Marins de Oliveira, foi condenado pela Justiça a 15 anos e 6 meses de prisão. Ele era um dos envolvidos e recebeu a pena pelos crimes de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e desvio de R$ 1,4 milhão do Legislativo.


Premiações para a reportagem

Global Shining Light Award, 2011 – como a melhor reportagem investigativa feita em país em desenvolvimento em 2010. Prêmio Latino-Americano de Jornalismo Investigativo, 2011 – primeiro lugar. Grande Prêmio Esso de Jornalismo, 2010 – melhor trabalho brasileiro. Troféu Tim Lopes/Embratel, 2010 – melhor reportagem investigativa. Veja também nos links abaixo: http://www.rpctv.com.br/blog/parana-tv/2010/11/serie-de-reportagens-vence-maiorpremio-do-jornalismo-brasileiro/ (Esso-Video) http://www.rpctv.com.br/blog/parana-tv/2010/11/serie-de-reportagens-diarios-secretosganha-premio-tim-lopes-de-jornalismo/ (tim Lopes-video) http://www.gazetadopovo.com.br/vidapublica/diariossecretos/conteudo.phtml?id=12845 10


Fim trágico para o boia fria que teve o nome usado no esquema

Foto: Henry Milleo Gazeta do Povo

O bóia-fria Radaméris Saides, usado como funcionário fantasma no esquema, foi brutalmente espancado no dia 12 de agosto, perto de uma praça na Colônia Francesa, em Palmeira (PR). Ele foi socorrido pelo Corpo de Bombeiros e encaminhado ao Hospital Santa Casa. Saides permaneceu internado até o dia 07 de setembro quando não resistiu aos ferimentos e veio a falecer. Segundo informações, o autor foi um vizinho da vítima. A delegacia local investiga o caso.


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