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IMPRESSO

20 anos de comunicação da rua

c u o s o , L

Ano XX Maio de 2012 - Nº 207

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Fotos: Alderon Costa/Rede Rua

Rede Rua de Comunicação - Rua Sampaio Moreira, 110 – Casa 9 – Brás – 03008–010 São Paulo SP – Fone - 3227-8683 - 3311-6642 - rederua@uol.com.br

Manifestação no MASP, organizada pela Frente Nacional da Luta Antimanicomial em defesa do Sistema Único de Saúde, da reforma psiquiátrica antimanicomial e de uma sociedade sem manicômios! Alderon Costa

maio, de manifestações pelo Dia Nacional da Luta Antimanicomial em diversas cidades brasileiras. Na cidade de São Paulo, 1.200 pessoas, aproximadamente, se reuniram no vão do MASP na Avenida Paulista e saíram em caminhada em direção à Secretaria de Estado da Saúde, próxima ao Hospital das Clínicas. Segundo depoimento de Fabio Belloni, psicólogo e militante da Frente Estadual, “faz 22 anos que estamos lutando por condições melhores para aqueles usuários ou pessoas com sofrimento psíquico”. Em 2001, segundo ele, foi constituída a lei 10.216/01 que defende que os manicômios devem ser fechados e que os usuários devem ser tratados em centros de atenção psicossocial, em locais abertos e que eles possam se socializar, constituindo rede de amigos

e de familiares. Para Belloni, a grande dificuldade é que no Brasil não se tem uma política de Estado, mas sim política de governo. Cada governante que entra, segundo ele, tem seu interesse particular e aquilo que deu certo é desmontado se não for de seu interesse. Nessa manifestação foi denunciado que funcionários do CAPS Itapeva expulsam os usuários por motivo de falta nas consultas, fato reafirmado por Maria Solange Machado que não pode mais usar esse serviço. “Estamos protestando contra as políticas segregativas do estado e do município de São Paulo, contra a truculência dos diretores da Associação Paulista para o Desenvolvimento da

38 mil reais, por meio de um site de financiamento coletivo, mas concluiu a campanha com 63 mil reais em doações para apoiar os catadores de materiais recicláveis no Brasil. O “Pimp my Carroça” é uma espécie de imitação de programas na televisão americana que transformam “carros velhos em máquinas potentes”. Em inglês pimp é uma gíria que quer dizer envenenar. A

exemplo disso, esta proposta visa dar visibilidade ao trabalho precarizado dos catadores de materiais recicláveis que não têm o apoio necessário dos poderes públicos. Com a verba arrecadada o projeto irá reformar carroças de catadores da cidade de São Paulo, pintando-as por renomados grafiteiros da cidade, além de equipá-las com retrovisores, faixas reflexivas, cordas, luvas e outros equipamentos. Os catadores participantes passarão com exames com médicos e especialistas em álcool e drogas. “O Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) entende essa ação como um protesto contra a repressão que os catadores vêm sofrendo na cidade de São Paulo. Sabemos que a carroça não é a melhor forma de traba-

Foto: Divulgaç

ão/Mundano

Jorge Luis Custódio já foi do sistema penitenciário, passou pelo bairro da Luz, onde fez uso de todo tipo de droga, ficou em uma casa de recuperação durante três anos e, hoje, frequenta o Centro Psicossocial de Álcool e Droga de São Bernardo do Campo. “Sou um dependente químico e com este protesto queremos fechar os manicômios. Meu tratamento está sendo pelo CAPS e com muita atenção dos psicólogos e dos oficineiros, a gente não precisa ficar preso. Estou na frente de trabalho do governo de São Bernardo do Campo, sou costureiro e produzo bolsas com material reciclado para supermercados”. Como Jorge, vários grupos que compõem a Frente Estadual de Luta Antimanicomial participaram, no dia 18 de

Davi Amorim

O grafiteiro paulista Mundano, que há alguns anos desenvolve o trabalho com grafite, denominado Cidades Recicláveis, pintando as carroças de catadores em cidades da América Latina, concluiu uma campanha vitoriosa. O projeto “Pimp my Carroça” visava, inicialmente arrecadar

Medicina (SPDM) que dirigem o CAPS Itapeva. Ricardo Alberto Honorato, também foi expulso. “A pessoa precisa estar “docilizada” para que o atendimento dentro desses centros aconteça porque eles não são mais públicos, são privados e estão nas mãos das organizações sociais”, lembra Belloni. Para Rafael Marmo, psicólogo sanitarista, a lei preconiza que a internação para desintoxicação seja exclusiva em enfermarias de hospitais públicos, próximos da comunidade. “As comunidades terapêuticas fazem o trabalho contrário ao da reforma psiquiátrica, pois eles querem internação por tempo indefinido”. Para Elaine Dias Vasconcelos, da cooperativa Raul Seixas no CAPS Itaquera, é preciso criar mais serviços substitutivos, mais participação dos familiares e acabar com os hospitais psiquiátricos que ainda existem. Ao final da manifestação foi entregue um documento das principais reivindicações à secretaria.

lhar, mas essa é uma forma de chamar atenção para as condições em que vivem os catadores de materiais recicláveis na cidade de São Paulo”, declarou Roberto Laureano, da Coordenação Nacional do MNCR. Para Mundano, o projeto foi uma forma bem humorada que abordar a questão dos carroceiros e exigir melhores condições de trabalho. As carroças com pintura e frases como “um catador faz mais que um ministro de meio ambiente” ou “devagar, agente ambiental trabalhando” circulam a cidade e transmitem a mensagem em favor do respeito ao trabalho dos catadores. No próximo dia 3 de junho durante a Virada Sustentável, que

será promovida pela Prefeitura de São Paulo, cerca de 50 catadores participantes do “Pimp my Carroça”, catadores organizados no Comitê do MNCR na cidade de São Paulo, além de parceiros a doadores do projeto farão parte da Carroceata dos catadores que terá inicio no Vale do Anhangabaú e promete percorrer as ruas do centro de São Paulo em um protesto com faixas e panelaço em favor da coleta seletiva com a inclusão dos catadores da cidade de São Paulo. A intenção do artista grafiteiro é realizar essa ação em todas as cidades-sede da Copa do Mundo 2014 e Olimpíadas 2016 e o MNCR está apoiando esta iniciativa por meio de uma rede de parceiros.


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Estamos próximos de mais uma eleição municipal e o pleito que vai acontecer no dia 7 de outubro ainda está indefinido. Mesmo assim, é importante os pré-candidatos começarem a ouvir o que o povo espera da próxima gestão.

Vejam o caso da Frente Nacional da Luta Antimanicomial que organizou manifestação na Avenida Paulista, no dia 18 de maio, em que era visível a diferença na qualidade de participação e de organização dos municípios de São Bernardo e Embu das Artes. Segundo vários entrevistados, esses dois municípios estão sendo referência para a rede de atendimento, em particular, porque a rede substitutiva está sendo ampliada e o poder público é responsável pela gestão dos serviços. As críticas às organizações sociais que administram os serviços de saúde mental foram contundentes na qualidade e gestão, e reivindicam a volta do princípio básico de gestão do SUS. O desmonte do serviço público, o atendimento com qualidade e universal, a valorização do profissional e a equidade na prestação de serviço foram preocupações levantadas pelos manifestantes e organizadores da Frente Antimanicomial. Lembrou-se de que as cidades de Santos e Santo André e, até mesmo, o CAPS Itapeva em São Paulo já foram, no passado próximo, referências importantes de avanços no atendimento. Todavia, com a mudança de gestão, a qualidade do serviço também caiu. O caso mais preocupante é a substituição da função do Estado por particulares, organizações não governamentais que realizam gestão, portanto há terceirização da Saúde. Um dos problemas graves registrados por nossa reportagem foi a interdição da entrada de alguns pacientes, principalmente, daqueles que ainda, apesar de “investidas contrárias”, mantêm autonomia e liberdade no pensar e no agir. A dificuldade de lidar com elas demonstra a fragilidade desse modelo, sem falar da falta de transparência e discrepância de salários. Infelizmente, esses “interditados” ou proibidos de entrar nos serviços precisam de atenção e acompanhamento. Casos de expulsão dos usuários dos serviços mostram a incapacidade dos gestores gerenciarem as crises. O mesmo não acontece com a privatização dos serviços para a população de rua? Historicamente, na cidade de São Paulo, os serviços para a população em situação de rua são realizados por organizações sociais, uma espécie de privatização disfarçada, mas é privatização. Pior, fala-se numa precarizada terceirização, em que as organizações recebem um valor baseado numa tabela da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads) que está sempre defasada de valor e de componentes necessários para se cumprir uma política de acordo com as novas normas do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) e com as demandas da Política Nacional da População de Rua. Seria possível começar a pensar na transferência da prestação direta de serviços para o Município de São Paulo. Ele tem condições de assumir? Se não tem porque precariza e dificulta o trabalho das organizações sociais? A depender da política da gestão atual da Smads, o município vai ser obrigado a assumir emergencialmente os serviços a partir de agosto (por motivos de coerência das organizações conveniadas) e isto significa fazer concurso, capacitar os novos profissionais, equipar os serviços e efetuar uma operação de fiscalização e controle para que não haja abusos, corrupção e violência contra as pessoas que já vivem à beira da vida. Senhores/as pré-candidatos/as, repensar a gestão dos serviços públicos da Saúde e da Assistência Social é urgente e repensar a relação com as organizações sociais não pode ser deixada para um momento de crise financeira. Deve ser algo pensado, refletido, conversado e pactuado com todos os atores da sociedade civil organizada.

VIDA NO TRECHO Mãe catadora “Meu avô catava ferro, alumínio, aço, inox... Metais preciosos que viraram ouro no fim do dia Que traziam o pão à nossa mesa Em nossas vidas tanta, tanta alegria Meu avô catador....” Joelma Couto

Assim escreve Tula Pilar em seu livro Palavras Inacadêmicas, poema que poderia ser de Mara Lúcia Sobral Santos. Mara quando criança sonhava ir para a escola, mas a vida dura dentro de casa a obrigava a sair em companhia da mãe Maria Conceição para a catação que garantia a sobrevivência da família. Aos nove anos de idade perdeu a mãe e seu destino foi o trabalho nas ruas. Mara teve três filhos, é mãe de mais de uma dezena de adotivos e luta para que todos frequentem a escola. “Ser analfabeto é como ter uma doença contagiosa, todos te olham de forma diferente. Os jovens de hoje não valorizam o conhecimento e sim o diploma”, afirma Mara Lúcia. Mara Lúcia, hoje presidente da Cooperativa de Catadores Granja Julieta Nossos Valores preocupa, particularmente, com os dependentes químicos e os orienta para que não fiquem nas ruas. Muitos jovens são estimulados por ela a estudar e arrumar um emprego de carteira assinada, para que possam ter os mesmos direitos que outros trabalhadores. A cooperativa é apenas uma porta de passagem para uma vida melhor. Mas, se diz triste, embora os jovens tenham hoje um diploma de segundo grau “eles sabem muito pouco, apenas assinam o nome, não compreendem a leitura. Lutei tanto para que meus filhos estudassem, mas, eles sabem menos que eu. Precisamos mudar o ensino público neste país”, finaliza Mara Lúcia. A filha mais velha Laíssa, cursa gestão ambiental na USP. Quando foi trabalhar com a mãe na cooperativa durante o dia e

estudar à noite, Laíssa tinha um sonho: ser juíza. Aos poucos ao entender o poder da comunicação, voltou-se para o jornalismo. Mas trabalhar com pessoas em situação de rua, jovens sem muita ou nenhuma expectativa, quase sem sonhos descobriu que sua vocação era como a da mãe, cuidar da natureza e de pessoas. Descobriu que não queria colaborar com um sistema punitivo e discriminador, mas sim, “criar oportunidades de trabalho e vida para aqueles que como ela tinham uma avó catadora, uma mãe catadora e que só conseguiria isso batalhando muito

para entrar em uma universidade pública”. O sonho se tornou realidade. Mara Lúcia está feliz, todos os seus filhos estão na batalha por um mundo e uma escola melhor, engajados, produzindo o jornal da escola, fazendo parte de forma produtiva da sociedade em que vivem. A mãe catadora, ex-menina de rua, hoje, por meio de sua filha tem os pés na universidade e ouve orgulhosa as palavras de Laíssa, que diz: “Quero empregar tudo que aprendo lá para mudar a vida das pessoas aqui”.

Apoio Carroceata dos catadores e panelaço em favor de sua inclusão na coleta seletiva

O Trecheiro Notícias do Povo da Rua

CONSELHO EDITORIAL: Arlindo Dias EDITOR Alderon Costa MTB: 049861/0157

EQUIPE DE REDAÇÃO: Alderon Costa Arlindo Dias Cleisa Rosa Davi Amorim Lea Tosold Maria Carolina Ferro Renata Bessi Rose Barboza

REVISÃO Cleisa Rosa FOTOGRAFIA: Alderon Costa DIAGRAMAÇÃO: Fabiano Viana

Apoio Argemiro Almeida Felipe Moraes João M. de Oliveira IMPRESSÃO: Forma Certa 5 mil exemplares

REDE RUA DE COMUNICAÇÃO Rua Sampaio Moreira,110 - Casa 9 - Brás - 03008-010 - São Paulo - SP - Fone: (11) 3227-8683 3311-6642 - Fax: 3313-5735 - www.rederua.org.br - E-mail: rederua@uol.com.br

Foto: Joelma Couto

Editorial

Privatização da Saúde e da Assistência Social

Maio de 2012

Dia: 3 de junho de 2012 Horário: 9 horas Local: Vale do Anhangabaú seguido de percurso pelas ruas do Centro. 50 catadores participarão com suas carroças grafitadas. Informações na p. 4.

Celebração na rua

Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Paulo realizará todo 4º domingo do mês um encontro do Povo da Rua Próxima celebração: Dia: 27 de junho de 2012 Local: Praça da Sé - 15 horas

Foto: Alderon Costa/Rede Rua

O Trecheiro


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Acesso ao ensino superior

Maio 2012 Cleisa Rosa com a colaboração de Davi Amorim e de Alderon Costa

Catadores na Índia

Uma delegação brasileira participou no final de abril de encontro na Índia, que reuniu catadores da América Latina, África e Ásia para debater diferentes modelos de inclusão produtiva dos catadores na gestão municipal de resíduos. Nos diferentes continentes do mundo, é comum o relato sobre a incineração de lixo que vem ameaçando o trabalho dos catadores.

Trecheirinhas

O Trecheiro

Catadores na Cúpula dos Povos/Rio+20

O MNCR terá um espaço exclusivo de 500 catadores de diferentes estados brasileiros e nacionalidades para debater e trocar experiência durante a Cúpula dos Povos, evento paralelo da Rio+20, que acontecerá entre os dias 15 e 23 de junho no Rio de Janeiro.

Catadora de material reciclável entra na USP

Léa Tosold e Rose Barboza

Lutar pelo acesso a uma educação formal e de qualidade é uma das formas mais efetivas de enfrentar a condição de pobreza e de vulnerabilidade social extrema em que vivem mais de 16 milhões de brasileiros e brasileiras. Ao entrevistar Sérgio Reis Pereira – bolsista do programa de Ações Afirmativas do curso de Pedagogia da Universidade de Brasília (UnB) e com trajetória de rua para a Vida no Trecho (nº 206) –, o jornal deparou-se com uma discussão fundamental para informar o desenho das políticas públicas de acesso ao ensino superior. Quem tem acesso à Universidade? De pronto, a resposta seria: são certamente os jovens que tiveram oportunidade de estudar em boas escolas, de comprar livros e tempo suficiente de se prepararem para os exames seletivos. A universidade estabelece no seu acesso, competição que privilegia os ricos e não os pobres. Fazer uma faculdade não é apenas uma forma de melhorar o currículo ou de conseguir um

É fundamental que as pessoas com trajetória de rua possam questionar elas mesmas o conhecimento produzido pela universidade e criar suas próprias formas de expressão. emprego melhor, mas de receber e ser influenciado por valores, códigos e visões de mundo que podem alteram nossa linguagem, nossa aparência, nossas relações e, consequentemente, nossa própria identidade. Fazer uma faculdade é enfrentar diariamente as limitações de um ambiente criado para manter intactas as relações que persistem desde a época colonial: a concentração de capital financeiro e cultural nas mãos de uma elite branca e “estudada”, que propaga o aprendizado da exploração financeira, política e social. É necessário desconstruir a ideia, amplamente difundida, do “quem quer, consegue”. Além de mentirosa, é uma ilusão simplista que não considera a complexidade de fatores que

DIRETO DA RUA

afastam da universidade muita gente que gostaria de estar lá. Acabar com os privilégios Muitas pessoas não querem abrir mão de seus privilégios. Para a população em situação de rua, estar na universidade é um caminho para alterar a composição desigual dessa instituição, bem como questionar e desafiar essas desigualdades a partir de suas próprias experiências. É fundamental que as pessoas com trajetória de rua possam questionar elas mesmas o conhecimento produzido pela universidade e criar suas próprias formas de expressão. Ao falar sobre si mesmas e produzir conhecimentos que partem de suas próprias experiências, as pessoas com trajetória de rua podem então desmistificar lugares comuns e trazer vivências que enriquecem discussões muitas vezes abstratas e sem sentido. Dessa forma, podem auxiliar a recriar o conhecimento científico e colaborar na construção de uma universidade mais justa e democrática.

Leonildo Monteiro, coordenador do MNPR do Paraná

A luta do Paraná

O último censo realizado, em 2008, contou 2.776 pessoas em situação de rua na cidade de Curitiba, mas o município possui apenas um albergue para 350 pessoas e mais cem vagas em convênio com entidades religiosas para acolhimento nesse frio. Representantes do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR) já vêm trabalhando há algum tempo para que o município concretize uma política pública para a população de rua. Atualmente o MNPR do Paraná está em diálogo com o município de Curitiba para a criação do Comitê Intersetorial para que avancemos com um atendimento mais efetivo. Assim, realizamos neste mês de maio a primeira audiência no Paraná, com a participação da

população de rua; de apoiadores do movimento; do grupo de trabalho da população de rua; de representantes: das três esferas públicas; do Ministério Público do Paraná; da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Paraná e da Secretaria de Justiça. Por ser a primeira audiência, tivemos bons resultados sobre a discussão das violações e violências sofridas pela população de rua do Paraná. De concreto, tivemos a fala da Secretaria de Justiça do estado do Paraná, Maria Tereza, que nos informou sobre o espaço que será cedido para a construção do Centro Estadual de Defesa de Direitos Humanos para População de Rua e Catadores e que vai colabo-

rar no fortalecimento da luta do MNPR e do Grupo de Trabalho da População de Rua do Paraná. Com o Governo Federal representado pela Secretaria de Direitos Humanos foram relatadas as atividades desenvolvidas pelo Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da Política Nacional da População de Rua e suas ações. Em breve, chegará o relatório final dessas atividades. Além disso, o Ministério Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) falou sobre as proposições da Política Nacional para população de rua e o município de Curitiba informou que a população de rua terá acesso gratuito à alimentação no restaurante popular. Além disso, houve exposições das nossas companheiras do Grupo de Trabalho: Giovanna sobre a moradia e a Rhaine sobre a saúde. Ao final, após a fala das pessoas em situação de rua sobre o sofrimento de estar nas ruas do Paraná, Tomás Melo, representante do Paraná no Centro Nacional de Defesa de Direitos Humanos da População de Rua e Catadores entregou um dossiê sobre as violações de direitos e as violências que a população de rua está sofrendo em várias cidades do estado.

Laíssa, 19 anos, trabalhava como catadora de material reciclável na cooperativa Granja Julieta, zona sul de São Paulo, da qual sua mãe é presidente. Apesar de pouco incentivo, estudou e entrou no curso de gestão ambiental da FMU em 2011. Com dificuldade financeira de pagar este curso resolveu transferir-se para a USP. Sem dinheiro para comprar os livros, recebeu ajuda de uma amiga, que fez campanha num blog. Livros começaram a chegar até mesmo via sedex. O resultado: ela foi aprovada no curso de gestão ambiental da USP Leste. Foto ao lado.

Onde está a pesquisa?

Cad

ê?

Mesa - Anúncio do início da pesquisa. Rodrigo Estramanho (Sociologia e Política), dr. Eduardo Valério (MP-SP), Alda Marco Antônio (Vice-prefeita), padre Júlio Lancellotti (Pastoral do Povo da Rua) e Ângela Eliana de Marchi (Smads)

A cidade aguarda os resultados da pesquisa realizada no ano passado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, contratada pela Secretaria de Assistência Social do Município de São Paulo conforme anúncio feito no dia 17 de outubro de 2011 na sede da Prefeitura, na presença de representantes do Ministério Público, dr. Eduardo Valério e da Arquidiocese de São Paulo, padre Júlio Lancellotti e de organizações sociais convidadas.

Pré - Cúpula dos Povos Seminário: A Política Nacional dos Resíduos e Feira de Troca

Contra a Mercantilização da Vida Dia: 5 de junho - Dia Mundial do Meio Ambiente e da Ecologia Local: Largo São Francisco - Centro de São Paulo Horário: das 10 às 16 horas Proposta: Intervenções, atividades lúdicas, oficinas, panfletagem e divulgação sobre o processo de mercantilização da vida na Rio+20.


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O Trecheiro

Maio de 2012

A população de rua carrega no corpo a opressão e o sofrimento

Simone Frangella*

O estudo que desenvolvi com pessoas em situação de rua levou em conta que o corpo expressa essencialmente as experiências de rua, o sofrimento, a superexposição, as reações frente às formas de opressão e à relação estabelecida entre quem está na rua e as pessoas que estão ao seu redor. Uma questão essencial é que pela ausência de abrigo, de casa, é por meio do corpo (e só dele) que as pessoas em situação de rua tentam sobreviver e criar outras estratégias para viver, para resistir aos mecanismos que tendem sempre a comprimí-los. Assim, para se compreender melhor o universo da rua, é preciso olhar para: •O constante deslocamento dos habitantes das ruas pela cidade – muito importante para sua sobrevivência – seja para procurar recursos ou porque são obrigados a se deslocar. Os pés são a base dessa sobrevivência, e descrevo bastante o uso deles para as caminhadas longas e o efeito do cansaço e do peso que se carrega neles. •As violências físicas sofridas, muitas vezes, por pessoas desconhecidas, quando estão dormindo nas ruas. É preciso olhar, também, para a violência que surge entre as pessoas em situação de rua, gerada pelo cansaço, pela frustração, pela falta de entendimento. O corpo de quem está na rua é muito vulnerável e está sempre obrigado a ficar num espaço cada vez mais limitado.

•As soluções para resolver necessidades corporais, tais como a comida, o remédio, a cachaça, a segurança para dormir, o espaço de privacidade na rua devem ser aprofundadas. É preciso usar, com muita criatividade, os recursos limitados que conseguem e negociar com várias pessoas: donos de restaurantes, de lojas, assistentes sociais, agentes públicos da limpeza e policiais, criando diferentes formas de diálogo e de interação social. Como resultados, destaco: •As marcas corporais, de envelhecimento precoce, de sujeira, dos machucados, são muito evidentes neste corpo, resultados do ambiente de escassez da rua. Essas marcas criam uma imagem muito estigmatizada frente a outros setores da sociedade ou mesmo entre os habitantes das ruas. •As relações com os materiais recicláveis são de extrema importância para quem está na rua, como forma de subsistência, como forma de proteção, ou como uma habitação improvisada, criando uma imagem de confusão entre roupas, plástico e papelão. •A relação com a comida, seja na busca por alimentos em refeitórios e can-

...o constante movimento desta população mostra que estas pessoas estão à procura de um direito humano básico: a de ocupar um lugar no espaço urbano e no mundo.

Embates constantes - a limpeza urbana e os direitos de estar

Fotos: Alderon Costa/Rede Rua

Fazendo a casa na rua (kombi) - desafio à privacidade

tinas, seja cozinhando na própria rua, envolve sempre um deslocamento constante e uma organização dinâmica. •As questões de gênero e de sexualidade estão presentes de formas diversas. O mundo da rua é muito masculinizado, e mulheres e homossexuais que estão nele ficam ainda mais vulneráveis e discriminados. Para se adaptar, ou se submetem a regras de dependência, ou marcam sua vida de solidão. Há constantes conflitos de gênero. E a sua relação com o patrimônio urbano é quase sempre conflituosa. As pessoas em situação de rua têm enfrentado projetos urbanísticos que os proíbem de ficar nos espaços, os ameaçam e muito frequentemente os retiram com violência. Estas situações reforçam a ideia de que elas são uma ameaça à sociedade. O mais importante é o constante movimento desta população mostra que estas pessoas estão à procura de um direito humano básico - o de ocupar um lugar no espaço urbano e no mundo. Discutir a corporalidade que se constrói a partir da rua é essencial para criarmos políticas mais sensíveis e adequadas, que levem em conta que as experiências desse corpo não se apagam, e os hábitos e as aparências marcadas pela rua levam tempo para mudar. Assim, como sugestão: •As políticas ligadas ao direito devem tentar assegurar o direito de uma pessoa usar o espaço das ruas para sua vivência

quando necessário; e devem orientar as políticas de saúde pública nas questões sobre a corporalidade. •As entidades assistenciais poderiam criar eventos/oficinas terapêuticas levando em conta as dificuldades e limitações, mas também a criatividade do corpo na rua, quebrando um pouco o estigma em cima da população em situação de rua.

Expulsão cotidiana - O direito humano básico de ocupar um lugar no espaço urbano * Simone é antropóloga e publicou Corpos Urbanos Errantes – Uma etnografia da corporalidade de moradores de rua em São Paulo (Editora Annablume, 2010).

O mundo das ruas nas ruas do mundo

Uma mineira entre os “barboni” de Roma!

Arlindo Dias

Urci Ferrari, conhecida pelos “barboni” – um dos nomes dados às pessoas em situação de rua na Itália –, como Maria Della Neve, nome que recebeu quando se consagrou religiosa, percorreu longa trajetória desde sua saída da cidade mineira de Ubá até se instalar definitivamente em Roma. De pequena estatura costumava dizer com o sorriso

Foto: Caritas/Roma

brejeiro nos lábios: “As coisas pequenas são as melhores, não é verdade”? Na mocidade, migrou para o Rio de Janeiro, onde vivia com a tia. Tempos depois acabou deixando o emprego e foi se dedicar a mulheres em situação de prostituição na região da Central do Brasil. “Era um trabalho bonito, mas exigia um amor sem preconceitos. Alguns vizinhos escreviam à

delegacia de policia para reclamar que eu estava com aquelas moças. Um dia meu pai veio à cidade e me disse ‘você é doida de ficar no meio dessa gente. Vou levar você de volta pra Ubá’. Ninguém me leva mais de volta”, respondeu. Foi mesmo um caminho sem retorno! No ano de 1966, foi enviada à Itália e acabou se fazendo religiosa orionina. No inicio dos anos de 1990, encontrou Luigi di Liegro, padre diocesano que se sensibilizou pela situação dos empobrecidos de Roma. Na ocasião, pessoas de todo o mundo chegavam à cidade em busca de trabalho e acabavam por se somar aos italianos que já viviam pelas ruas. “Fazia de tudo um pouco, cortava o cabelo, fazia a barba, limpeza nos pés das pessoas e era responsável pelo dormitório que acolhia 125 homens”, explicou. Maria das Neves faleceu no dia 12 de abril deste ano aos 79 anos de idade. “Apesar de ter visto muita gente pobre no Brasil, não imaginava que as pessoas chegassem ao estado de algumas que encontrei: piolhos, corpo todo ferido e inchado, feridas infectadas por terem dormido no chão por anos seguidos. Sentia-me ferida

por dentro ao ver as pessoas perderem a dignidade. É duro ver gente sem casa, sem-trabalho, sem núcleo familiar. Eu recebi muito no albergue: a amizade, a confiança, o amor que eles têm por mim. Eles nos falam de coisas profundas da vida deles”, afirmou. Cerca de 300 pessoas participaram da celebração de despedida que aconteceu no mesmo lugar onde cerca de 400 pessoas recebem a refeição diária. “A presença e a dedicação de Maria Della Neve humanizou o ambiente do albergue”, afirmou Guerino Di Tora, bispo auxiliar de Roma e ex-diretor da Cáritas. Renato Porcu, um dos usuários assim se expressou a respeito da religiosa: “Para todo o amor que você distribuiu não existe uma medida. O tempo construiu a tua imagem, agora queremos desfrutar do teu sorriso cotidiano”. Bernadeth Oliveira, uma das companheiras da comunidade e conselheira geral brasileira afirmou que a presença de Maria Della Neve no albergue representou uma espécie de “mão quente e amiga estendida que soube acolher independentemente da raça, cor ou religião”.

O Trecheiro - Maio de 2012 #207  

Jornal o Trecheiros, associação rede rua de comunicação

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