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O DESENCANTAMENTO DO MUNDO Professor: Antônio Flávio Pierucci Monitor: Gastón Guillaux Sala: Amarela

Aula 1 – O Conceito de Desencantamento do Mundo – 27/05/2009 Aquilo a que chamamos de desencantamento do mundo corresponde a um conceito, criado pelo sociólogo alemão Max Weber, em seus trabalhos sobre sociologia da religião. A expressão em alemão é entzauberung der Welt, da qual desencantamento do mundo é uma tradução aproximada. A palavra alemã zaubern designa a prática de magia, feitiços e encantamentos (ou até mesmo excelência no desempenho de alguma função). Desta forma, entzauberung também poderia ser entendido como um processo de “desmagificação”. Já através da etimologia obtemos a aproximação deste conceito weberiano com a magia, que será entendida como uma primeira instância no desenvolvimento das religiões em geral e, posteriormente, como etapa inicial da desenvoltura da cultura ocidental, cujos produtos mais singulares lhes são o surgimento das ciências e a secularização do mundo. Pode-se dizer, assim, que a própria magia traz em si os elementos para sua superação e transformação em seu oposto contrário. Em sua busca por entender o seu tempo e a razão pela qual só foi possível à civilização europeia atingir tal grau de desenvolvimento que propiciou o surgimento das ciências, Max Weber mergulhou no estudo das religiões e acreditou ter encontrado no Judaísmo (e, posteriormente, no Calvinismo) os elementos que explicam como foi possível à Europa superar a etapa mágico-religiosa da cultura para adentrar num âmbito técnico e racionalista. É possível já encontrar os elementos incipientes desse processo através da contraposição entre magia e religião. A magia possui um caráter imanente, de afirmação deste mundo e da possibilidade de obter alguma forma de domínio sobre ele. A religião, no entanto, possui um caráter oposto: essencialmente, ele afirma o “Outro”, um mundo ou uma entidade transcendentes, que se encontram além dos domínios deste mundo. Deus ou os Deuses são aqueles que dominam este plano, ao qual nosso mundo, produto da criação e da atividade divinas, se subordina. O mundo mágico possui um único plano; ao invés dos deuses, nele encontramos espíritos e outras entidades sobrenaturais que por ele navegam, atuando tanto para bem ou para mal. Na religião encontramos a negação deste mundo, o que o obriga a obedecer e se submeter à vontade superior e transcendente, caracterizada como algo essencialmente bom e provedora de sentido à vida. Finalmente, na magia o ritual é um elemento importantíssimo, que serve de instrumento para alcançar determinado resultado; caso alguma parte do RUA DR. MARIO FERRAZ, 414 JD PAULISTANO 01453 011 SÃO PAULO SP T 3707 8900 WWW.CASADOSABER.COM.BR


rito seja negligenciada, o efeito mágico ou feitiço fracassa e torna-se inoperável. As regras que determinam a execução do encantamento são, por isso, completamente inflexíveis. Já na religião o ritual é um elemento de culto e de louvor à divindade e ao seu plano superior; é um elemento mais ou menos fixo, porém reformável se necessário. Trata-se da prestação de um serviço à entidade divina, que incita à participação social no rito para o alcance de um benefício mútuo para toda a comunidade. Este tipo de contraposição entre magia e religião possui caráter meramente didático e ilustrativo, pois cotidianamente nos deparamos com situações religiosas ou supersticiosas que promovem a mistura dos elementos que ora atribuímos à magia, ora à religião. Porém, fica evidente que há na religião um elemento muito peculiar que propicia a introspecção e a abstração (e que, posteriormente, dá ensejo para uma maior e mais constante racionalização). Um passo decisivo nesta direção foi dado com o aparecimento do Judaísmo. Mesmo que procuremos alguma justificativa sócio-geográfica para o porquê de terem sido os judeus os inauguradores desta nova forma de religiosidade, dificilmente encontraremos uma resposta plenamente satisfatória. Podemos apenas reafirmar aquilo que atesta o Antigo Testamento, de que a maior peculiaridade do Judaísmo é que se trata de uma religião em que um Deus escolheu um povo, de acordo com sua deliberação divina e insondável.

Observação: Este relatório foi preparado pelo monitor do curso, um estudante universitário, com base em suas anotações da aula. É apenas uma versão do conteúdo apresentado, destinada a apoiar o aluno em seus estudos. Não substitui a presença no curso, nem outras pesquisas sobre o tema, podendo conter eventuais incorreções - caso identifique alguma, por favor, aponte-a.

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O Desencantamento do Mundo - Aula 1