Revista Bufo

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O saudoso crítico e professor João Alexandre Barbosa, em seu ensaio “João Cabral ou a educação pela poesia” (no livro A biblioteca imaginária), descreveu a poesia de João Cabral como “um aprendizado de mão dupla: é o poeta que aprende com a linguagem da poesia e é o poema que aprende com a linguagem dos objetos da realidade”. Entretanto, a realidade é complexa, múltipla e interdependente e o poeta vive um drama, ao mesmo tempo, íntimo e social neste desacordo entre linguagem e mundo. Talvez Cabral tivesse isto em mente quando escreveu “Trouxe o sol à poesia / mas como trazê-lo ao dia?”. A poesia sempre ambicionou dizer à mente e ao coração, de forma renovada, a incerteza das “coisas todas vãs, todas mudaves” (Sá de Miranda). Algumas das mais ousadas experiências das vanguardas poéticas do século XX buscaram essa apreensão da complexidade da realidade através de poéticas que amplificassem a palavra para além do suporte da página escrita. O Centro de Referência Haroldo de Campos, da Casa das Rosas, criou há dois anos o curso Poesia Expandida com o objetivo de apresentar aos interessados as questões que marcaram o percurso dessas vanguardas poéticas do século XX e algumas das bases para a experimentação com palavra, voz e imagem. A proposta do curso é oferecer base teórica e elementos práticos para estimular os poetas a explorar novas possibilidades de criação em diferentes meios e suportes. A revista BUFO é uma criação coletiva de vários dos poetas que frequentaram o curso Poesia Expandida em 2019 e 2020, com a participação dos professores-poetas Juliana Di Fiori Pondian, Anderson Gomes e Daniel Minchoni. Os trabalhos aqui publicados mostram que esses poetas estão percorrendo com coragem a aventura da criação.


O ímpeto que move os poetas é a angústia do paralelismo. Explico: toda poesia é movida pelo paralelismo. O primeiro paralelismo, motivador dos demais, é a própria percepção da distância entre linguagem e mundo. Vem daí aquela pergunta de João Cabral sobre como trazer o sol ao dia. Porque o sol que os poetas querem trazer ao dia não é aquele que a mecânica cosmológica repõe em nossos céus cotidianos. É um outro sol: o sol da descoberta, da irrupção, da utopia. No plano da linguagem, o paralelismo se dá pela estrutura do verso (ou, na poesia não circunscrita ao verso, expandida, pelas relações analógicas de seus elementos [que podem ser palavras impressas, faladas, outros sons, imagens]), na aliteração, na assonância, na rima. Vejamos o que Gerard Manley Hopkins escreveu sobre isto: “[...] o paralelismo na expressão tende a gerar, ou tornar-se, um paralelismo no pensamento. Alcançado este ponto, estaremos aptos a ver e nos darmos conta das peculiaridades da dicção poética. Ao tipo acentuado ou abrupto de paralelismo pertence a metáfora, o símile, a parábola, e assim por diante, onde se busca o efeito na semelhança; e a antítese, o contraste, e assim por diante, onde se procura o efeito na dissemelhança.” Para a prática de qualquer arte é imprescindível o aprendizado técnico e com a poesia não é diferente. Com ele, os poetas podem afinar os instrumentos (os instrumentos e as afinações variam) com o propósito de buscar seus próprios caminhos para a descoberta, para a irrupção, para as utopias (ainda que digam que elas faliram). Os poetas da revista BUFO já estão na estrada e, pelos poemas que vemos aqui, a jornada trará muito sol à poesia e, quem sabe, um pouco daquele contrasol para nossas cabeçascorações. Julio Mendonça Coordenador do Centro de Referência Haroldo de Campos Casa das Rosas




( ) · bufo é um sapo encontrado no deserto de sonora · fumar sua pele ou seu veneno tem efeito alucinógeno de quase-morte · é um sopro forte expelindo ar vapor palavras sons fumaça · bufo é diversão · poesia selvagem · poemas tigres · tigrema · nós somos tigrema · uma rosa é uma pedra é um pixel · e no meio do caminho tinha a casa das rosas virtuais · isto é · nascemos juntos sem nos tocar · isto é · uma árvore girinológica balança nossas caudas anfíbias na taxonomia verbivocovisualprocessadaistropicantropofexpandimentaloncreta tentando criar uma memória de futuro · · o bufo convoca um devir animal que orienta tudo ao penso · o penso pulou no lago que era o próprio penso e evocou a sapoideia · a qualidade da sapoideia é escorregar por entre os dedos biométricos dos predadores da brisa · não é proselitismo mas o bufo salva quem puder · evitando imaginários contaminados pelas narrativas da brisa errada · do charco raso das telas da pindorandemia politicrítica miticínica do burguês bosta · libertando o penso libertamos os girinos da tarrafa moral e dos bons costumes · mas uma boa ideia pode gerar coisas horríveis · por isso poetamenas é mais · STOP a destruição do mundo invisível · momento pequena sereia de tirar a voz · o indizível é essencial aos olhos · · a revista bufo é uma revista anfíbia · é um tragolumo coletivo de experimentos que investigam as possibilidades expressivas da linguagem poética em suas múltiplas dimensões · a revista bufo é um registro convergente que consagra o culto futuropassadista da invenção reinventada · no apocalipse curupira o grande lance é desvirar os chinelos trocando os pés · uma revista é um ato de resistência irresistível · uma revista é uma picada de mosquito · se coçar tá bom · é o início o fim e o meio ·






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sรณ os loucos ouvem

o canto das paredes






















Poema jogo - atribua um conceito a cada forma







SELF







Pensa nos sofrimentos talhados sob véus de culpa Nos reles amantes de rios revoltos Aonde passear para se afogar Nós iremos sem prazer Nós iremos remar No colo das águas Nós teremos um barco.


Poema Oferenda Nicolae Saraiva 2020

RaioRaiz Fifo Lazarini 2020

Modelação 3D

Déjà vu Paulo Williams 2020 Vídeo (5’48”)

A Volta Aline A. Assis 2020

Sem título Ana Persona 2020

Agora Rafael Baldam 2019

Solitude Ana Aly 2020


Totem Ericson Cruz 2020

Poeta procura Daniel Minchoni 2019

Lógica da cola Rita Barros 2020

Eu, Exu Nicolae Saraiva 2020

Locomotiva Gustavo Sibem 2020

Carauvana - performance em video (3’23) (traduçao de karawane, 1916, de hugo ball) Daniel Minchoni 2020

Ego Juliana Amoreira Terra 2020


Poema móvel Paulo Williams 2020

coração-cabeça Patrícia Cabianca Gazire 2020

O Canto Gustavo Sibem 2020

Eco Thaís Zimmer Martins 2019

Mosaico Nu Giovanna Romaro 2015-2020 Fotografia e colagem

Manual 01 e Manual 02 Júlia Milward 2020

Trechos da série “para passar” Aline A. Assis 2020 Colagem


Poema poema Rita Barros 2020 Vídeo (1’48”)

Monalisa está presa Monalisa Gomyde 2020 Colagem

Mergulho no ar Marlene Santana 2020 Livro de artista, 38 X 31 cm,

Angústia Thaís Zimmer Martins 2020 Naquim e costura s/papel

Sem título Ana Persona 2020

Guarany Ana Aly 2020 Foto: Mario Castello

Atravessa o espesso passado que não cessa Anderson Gomes 2016


Jogo Tobias Nunnes 2020

Eu não consigo respirar Rysco Rodriguez 2020 Foto: Lucan Piai

Mira Marcelo Aversa 2019

Live Fabrício D Costa 2020

Resiliência Cibele Gardin 2020

Self Poema Marcos Aspahan 2019

Ventos-memórias Sara de Melo 2019


Chama da vida Andréia Alcantara 2019

(Limite)-Conjunção intersemiótica (Éluard-Peixoto)-Pondian (1926-1931)-2019 As aventuras de um burguês Bosta nas ruas tupiniquins Fifo Lazarini 2020 poema//game - Programação Javascript

Tigrema Henrique Alcantara 2020

Ficha técnica Concebida coletivamente em encontros remotos às quintas-feiras do segundo semestre de 2020 Projeto gráfico e diagramação: Anderson Gomes e Andréia Alcantara Siga-nos no Instagram

Capa: Anderson Gomes Impresso pela gráfica Psi7 Tiragem: 277 exemplares Capa: couché fosco 300g Miolo: 68 páginas, couché fosco 150g Todos os direitos autorais das obras desta edição são reservados ao © Bufo Coletivo, 2020





Bufo Coletivo agradece à Casa das Rosas e ao Centro de Referência Haroldo de Campos, na pessoa de seu coordenador, Julio Mendonça, pelo apoio recebido.



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