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Ribeirão Preto, setembro de 2011 - nº 21 Ano 11

PROJETO EDUCACIONAL CTC FACULDADE DE MEDICINA DE RIBEIRÃO PRETO CENTRO REGIONAL DE HEMOTERAPIA

DNA de sucata

O voo das abelhas na reprodução da vida

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Extraindo risadas do público, Ádamo Siena e Daniele Viola mostraram como o médico sanitarista Carlos Chagas foi o primeiro cientista a descrever completamente uma doença infecciosa. Na peça, escrita e encenada por eles, é mostrado como o barbeiro – assim é conhecido o inseto Triatoma infestans - transmite o cruzi, Trypanossoma cruzi protozoário flagelado responsável pela Doença de Chagas. A apresentação da peça “O Barbeiro de Chagas” aconteceu em fevereiro de 2010, quando a Casa da Ciência recebeu

alunos do extinto programa “Eu na USP Jr” da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão da universidade, que tinha como objetivo proporcionar aos alunos dos ensinos fundamental e médio a vivência com a atmosfera científica e cultural da USP. Para criar a peça, Ádamo e Daniele, ex-alunos da Casa da Ciência e graduandos em Ciências Biológicas (Unesp) e Educação Física (USP) - respectivamente, utilizaram como material de apoio a edição comemorativa aos 100 anos da descoberta da Doença de Chagas da Revista Radis, produzida pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). A descoberta da doença aconteceu no ano de 1909, quando Carlos Chagas foi a Minas Gerais ajudar na campanha contra a malária. A produção teatral ilustra como o inseto infecta o ser humano: é geralmente

A história de Carlos Chagas

Em 1897 Carlos Chagas (1878-1934) deixou a fazenda de café onde nasceu em Minas Gerais, perto da cidade de Oliveira, e matriculou-se na Faculdade de Medicina no Rio de Janeiro, que na época era capital federal.

Na tese de conclusão de seu curso dedicou-se a estudar a malária. Depois de formado, Chagas foi designado por Oswaldo Cruz para combater epidemias de malária que prejudicavam obras de modernização do país. Em 1907 Chagas partiu em empreitada contra a malária no norte de Minas Gerais.

A vida na raiz de um aguapé

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à noite e na região do rosto que barbeiros (por isso o nome), às vezes infectados com o T. cruzi, ao picar o homem para sugar seu sangue, ficam com o tubo digestivo cheio e defecam próximo a área picada. Ao coçar essa região, o homem facilita a entrada, no organismo, do parasita que está presente nas fezes do barbeiro. A Casa da Ciência - com o apoio do Hemocentro de Ribeirão Preto - produziu o vídeo da peça que está disponível no site: www.hemocentro.fmrp.usp.br/casadaciencia

Trabalhadores que realizavam a ampliação da Estrada de Ferro Central do Brasil estavam adoecendo, paralisando as obras. Foi justamente nessa campanha que Carlos Chagas, com menos de 30 anos, realizou a descoberta que o fez famoso.


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Ribeirão Preto, setembro de 2011- nº 21 Ano 11

O uso do Trypanossoma cruzi na pesquisa científica Casa da Ciência

Entrevista

As pesquisas atuais com o Trypanossoma cruzi vão além da Doença de Chagas e utilizam o parasita como modelo para a observação da resposta do sistema imunológico. É isso que revela o Professor Dr. João Santana da Silva, do Departamento de Bioquímica e Imunologia da FMRP – USP.

Desenho: André Perticarrari

Revista Radis

A infecção pelo T. cruzi resulta uma série de doenças, por exemplo, cardiopatia, megaesôfago e megacólon. Uma questão que intriga os pesquisadores é como esse flagelado modula a resposta imunológica. “Se respondermos essa questão, responderemos também como funciona o sistema imune. Estamos usando o T. cruzi como arma para responder essa pergunta e, por linhas indiretas, acabamos respondendo como acontecem essas patias resultantes da infecção”, revela. Esse flagelado tem a capacidade de infectar todas as células nucleadas e possui uma série de moléculas de superfície que interagem com as moléculas da célula. “Essa interação ocorre devido a uma série de receptores do parasita com a célula hospedeira que ligam um no outro e ai o parasita entra ativamente”, explica o professor. Confira a entrevista: que teoricamente não infecta. O Trypanossoma cruzi (T. cruzi) é JC - Em qual momento o T. cruzi é um protozoário flagelado causador identificado nos exames? da Doença de Chagas. O nome Eu não procuro o parasita, eu procuro foi dado por Carlos Chagas em a consequência dele. Eu procuro no soro homenagem a Oswaldo Cruz. Os do indivíduo se ele tem o anticorpo contra flagelados são microorganismos o T. cruzi, é um ensaio indireto. Eu posso unicelulares que se movimentam fazer o ensaio direto: pego o sangue do Prof. Dr. João Santana coordena um laboratório através dos flagelos, apêndices indivíduo e faço o PCR para ver se tem T. na FMRP que realiza pesquisas com o T.Cruzi há em forma de filamentos. Desde a cruzi. Antigamente era feito um ensaio que mais de 50 anos. descoberta feita por Chagas, que se chamava xenodiagnóstico: Jornal das Ciências: Para seu ci- colocava 40 barbeiros no foi indicado ao Prêmio Nobel, os clo o Trypanossoma cruzi precisa do braço do sujeito e engurgiestudos não pararam. O sistema imune é homem? tava, esperava 40 dias e capaz de combater, mas Quando o homem é infectado João Santana: Ele precisa de uma célula analisava as fezes do não é capaz de eliminar, ele está na forma tripomastigota, nucleada qualquer. No hospedeiro (homem) barbeiro para ver se essa é a diferença. então ele vai para a forma amasele vai numa célula e invade, lá passa para estava infectado. Era Porque o parasita entigota. O T. cruzi fica por mais a forma tripomastigota metacíclico, se ele um ensaio para identicista, vai para detertempo nessa forma “encistada”, veio do barbeiro, por exemplo. Ainda dentro ficar o parasita. minados locais e fi ca que é a forma da amastigota, da célula, passa para a forma amastigota JC - Porque o sisdentro da célula, onde porque ele está “escondido” da e, por meio de divisões binárias, se multi- tema imunológico não sistema imune não é resposta imunológica. plica. Quando a célula fica grande, com consegue combater o T. ocapaz de encontrá-lo. JC - Quais são as perspectigrande quantidade de parasita, ele passa cruzi? vas para a cura da doença ou mespara a forma tripomastigota, rompe a célula Na verdade o sistema mo para entender melhor o T. cruzi? e libera ali grande quantidade de parasitas, imunológico consegue combater Tem muitos grupos no Brasil e no exque podem infectar algumas células da vizi- o T. cruzi. Nós temos no laboratório pelo nhança ou então, se estes parasitas caírem menos 60 camundongos de linhagens di- terior que trabalham visando controlar a na circulação sanguínea, outras células dis- ferentes, cada uma delas tem uma defici- doença. Alguns, como meu grupo no pastantes. Dessa forma ele fecha o ciclo. Se há ência no sistema imune em determinados sado, queriam saber como acontece a doo barbeiro, ele suga o sangue com a forma pontos. Se eu pego um animal que não tem ença, por que o indivíduo fica doente. Hoje tripomastigota metacíclico, que, dentro do uma das citocinas - que é capaz de ajudar temos uma boa certeza de como acontece barbeiro, passa para uma forma chamada no controle da infecção - e infecto, ele morre a doença, outra parte é como eu vou curar epimastigota. Ela então se multiplica como em 10 ou 12 dias. Tem uma série de mo- isso. Existe uma droga, o benzonidazol, que epimastigota e quando vai para o tubo di- léculas que são secretadas pelo sistema mata o parasita, mas tem uma quantidade gestivo se transforma em tripomastigota imune que estão envolvidas no controle de enorme de efeitos colaterais. Nós descrevemetacíclico. Então nas fezes do barbeiro sai infecção, se o animal não tem isso ele mor- mos agora, há dois ou três anos, que outras o tripomastigota metacíclico, que é a forma re. O sistema imune é capaz de combater, drogas são mais efetivas e capazes de coninfectante agora. Se pegarmos um T. cruzi mas não é capaz de eliminar, essa é a dife- trolar o parasita no modelo experimental. e colocá-lo em líquido, ele vira epimastigota. rença. Porque o parasita encista, vai para Precisamos de um esforço para passar isso Nós temos vários meios de cultivar o parasi- determinados locais e fica dentro da célu- da bancada do laboratório para a farmácia. ta como epimastigota, a forma que é pouco la, onde o sistema imune não é capaz de É um caminho razoavelmente longo, envolinfectante. Às vezes ela é até usada como encontrá-lo. O T. cruzi é capaz de se evadir ve muita gente, muito dinheiro, muito esfor“vacina” em alguns animais, pois é a forma da resposta imune, ele tem uma série de ço, porque tem que fazer todos os ensaios clínicos e isso demora. No momento, aqui mecanismos para burlar o sistema imune no Brasil, não temos incentivo para fazer por certo tempo. Formas do T. Cruzi isso com o T. cruzi. 1µm JC - Existe somente um tipo de T. Tem mais dúdivas? Confira outros trecruzi? chos da entrevista com o Prof. João Santana Há mais de seis tipos de cepas diferen- no site da Casa da Ciência. Acesse: tes e mesmo dentro de um tipo tem várias www.hemocentro.fmrp.usp.br/casadaciencia linhagens. Tem alguns que são extremamente patogênicos, são capazes de matar um cachorro. Às vezes se eu infecto o ca- PCR (Reação em Cadeia da Polimerase): é o mundongo com dois T.cruzi ele morre, mas ensaio molecular que amplifica sequências tem aqueles que são infectados com um de DNA específicas do patógeno-alvo baseado na variação de temperatura e emprego milhão e não morrem. Amastigota JC - Em qual forma o T. cruzi perma- de oligonucleotídeos sintéticos - polímero Epimastigota de ácido nucléico curto, normalmente com Tripomastigota nece por mais tempo no homem?

Editorial

Esta 21º edição tem sabor especial: a Casa da Ciência comemora 10 anos de trajetória. Com tanto tempo de estrada o JC já tem uma linha editorial clara, voltada à difusão científica, com textos que buscam a objetividade, privilegiando a construção dos conceitos, pois temas

vinte ou menos bases (fonte: Fiocruz).

relacionados à ciência são difíceis e é isso que torna o desafio melhor. Todas as edições do JC são planejadas e previamente estruturadas. Entretanto, esta edição revelou o quanto são fundamentais os registros realizados pela equipe. Eles são imprescindíveis para escrever a história da Casa da Ciência, pois a produção dos materiais de difusão (site, jornal e

Folhetins) sempre é pautada pelas avaliações dos programas que coordena. O JC 21 nasceu do esforço da equipe da Casa da Ciência para mostrar a todos um pequeno pedaço do montante que temos e produzimos aqui. Portanto, o cardápio está variado e vai desde T. cruzi, DNA, guildas tróficas, até raiz do aguapé. Boa leitura!

O Jornal das Ciências é uma publicação da Casa da Ciência do Hemocentro de Ribeirão Preto/USP distribuída gratuitamente nas escolas. É parte do Projeto Educacional CTC/CEPID e INCTC - Fapesp e CNPq. Coordenadores: Dimas Tadeu Covas, Marco Antonio Zago e Marisa Ramos Barbieri. Coordenadora da Casa da Ciência e MuLEC: Marisa Ramos Barbieri. Jornalista responsável: Gisele S. Oliveira - MTB 61.339. Diagramação: Gisele S. Oliveira. Redação - Equipe da Casa da Ciência: Ádamo D. D. Siena, André Perticarrari, Fernando Trigo, Gisele S. Oliveira, Gustavo Leopoldo R. Daré, Maria José de Souza G. Vechia, Marisa Ramos Barbieri, Ricardo M. Couto e Rosemeire R. Tritola . Apoio: Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto, Fapesp, CNPq e USP. Endereço: Rua Tenente Catão Roxo, 2501. CEP: 14051-140. Ribeirão Preto. Telefone: (16) 2101-9308. Site: www.hemocentro.fmrp.usp.br/casadaciencia. E-mail: casadaciencia@hemocentro.fmrp.usp.br Tiragem: 3.500 exemplares. Distribuição Gratuita. É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.


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Quem diria que a construção de um modelo de DNA poderia contribuir tanto para a discussão e construção de conceitos! Utilizando materiais que iriam para o lixo, três alunos da rede básica, orientados por pesquisadoras do Hemocentro (Kátia Kaori Otaguiri, Mariana Tomazini Pinto e Tathiane Maistro Malta Pereira) construíram uma molécula “gigante” de DNA. Com seus 2 metros de altura, este modelo permitiu aos alunos aprenderem e também

DNA de sucata

explicarem a estrutura molecular do DNA a outros colegas que também estudavam o mesmo tema. Durante a apresentação surgiram perguntas como “Por que as fitas se entrelaçam no formato de hélice, tipo espiral?” e os alunos compartilharam o que aprenderam: “A dupla hélice, na verdade, ela não é a escada! É uma hélice por causa da estrutura, o jeito que eles ficam com o carbono na direção do fostato, ele vai

O DNA é uma molécula encontrada no núcleo das células. Ela é formada por uma sequência de nucleotídeos.

Gene, nada mais é que fragmento do DNA (...), é a unidade fundamental da hereditariedade, ou seja, ela passa de geração a geração. Eles são formados por sequências específicas de ácidos nucléicos.

Para que haja a ligação de carbono é feito da seguinte maneira: o carbono 1 está ligado com a base nitrogenada, o carbono 5 está ligado com o fosfato do próprio nucleotídeo e o carbono 3 se liga com o fosfato do próximo nucleotídeo. E se a gente reparar nessa molécula ela está no sentido 5’ de um lado e de outro 3’, podendo assim formar a ligação das bases nitrogenadas.

Assuntos mais complexos, como os misteriosos Fragmentos de Okazaki, que são sintetizados em “bloquinhos” e depois unidos para formar uma das fitas do DNA; a técnica de “choques térmicos” da PCR para a amplificação de uma amostra de DNA; as enzimas envolvidas na duplicação do material genético (DNA polimerase e DNA ligase) e a circularidade do DNA bacteriano foram exploradas e discutidas pelos 42 alunos presentes no Mural, em um verdadeiro teste de aprendizagem. O Mural é uma tarde de apresentação, muito importante, em que os resultados alcançados pelos

ficando inclinado por isso a fita se enrola, a outra fita vem em sentido contrário”. Com o registro da equipe da Casa da Ciência (André Perticarrari, Fernando R. Trigo, Flávia F. do Prado, Maria José de Souza G. Vechia e Renata Aparecida P. Oliveira), o Mural foi documentado, analisado e transcrito, para que outros leitores, como você, pudessem aprender um pouquinho mais sobre essa fascinante molécula da vida. Confira algumas das manifestações realizadas pelos alunos:

Ele (nucleotídeo) é formado por uma pentose, um fosfato e quatro bases nitrogenadas que são a adenina, citosina, guanina e timina.

Existem bases nitrogenadas pirimídicas e púricas e cada uma delas se complementa. Uma pirimídica completa uma púrica (...), uma adenina complementa uma timina e a citosina complementa a guanina. Quando ocorre a fecundação você “pega” uma parte do DNA do pai e um da mãe e cada um aqui é diferente por causa disso. Você junta coisas diferentes formando uma nova sequência. Não vai ser igual do pai ou da mãe, vai ser uma combinação das duas. Então é por isso que tem características diferentes uma da outra.

alunos participantes do Adote um Cientista são compartilhados com os demais. Um momento de crescer em grupo. Ao todo, nove grupos temáticos apresentaram seus projetos, com assuntos como Sinapse e Neurônios, Esquizofrenia, Afasia, Saúde mental, Estrutura do DNA, Expressão gênica, Ciências biomoleculares computacionais,

Drosófila, Biodiversidade, Modelos biológicos, Seleção natural, Célula-tronco, Diferenciação celular, Sangue e Doação (na peça tetral “Por uma gota”) que foram avaliados por pesquisadores e professores. Segundo a coordenadora da Casa da Ciência, Marisa Ramos Barbieri “O Mural não termina, é sempre uma preparação para o próximo. Não tem um fim, assim como a pesquisa”. Assistir os resultados dos outros grupos acelera o processo. A troca é fundamental para o ritmo do programa. “É a oportunidade de se apresentar e ouvir os outros”


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Paul Hebert

Da natureza para o livro ou do livro para natureza?

coexistindo em uma planta de pouco mais de 30 cm. Isso despertou a curiosidade e a vontade de tentar reconhecer e identifi car naquele microambiente, os diferentes seres separadamente. Casa da Ciência

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Daphnia sp.

No “Férias com Ciência”, após explorarem o aguapé, os alunos foram convidados a conhecerem um conjunto de organismos comum no lago da USP, mas não nos livros, os microcrustáceos. Perguntados sobre o que eram as estruturas no dorso da pulga d’água (ver foto ao lado), não tiveram a “ousadia” de falar, perguntar e reconhecê-los como ovos. Mas antes, puderam participar da análise da diversidade de seres que vivem na raiz do aguapé; ver uma planária, uma larva de mosquito, um molusco em interação com a natureza. A surpresa foi enorme ao verificarem a quantidade de organismos e seus tamanhos, desde os microscópicos até os maiores (vistos a olho nu), que podem ser encontrados

Aluno observa a raiz do aguapé durante o “Férias com Ciência”.

Será que os animais do aguapé, assim como a pulga d’água ao lado, são os mesmo dos livros? A dúvida foi lançada.

Células-tronco e a divisão assimétrica iguais. Porém com os avanços adultas, que é muito pesquisado da biologia celular, foi sendo de- e que pode curar doenças sanfinido um “novo tipo de mitose”: a guíneas, como a leucemia. assimétrica (a qual a célula-tronco As células-tronco são exclusirealiza), em que a célula se repli- vas dos seres humanos? ca e se diferencia. Fazendo a miAs células-tronco não são entose assimétrica, a célula origina contradas apenas nos seres huuma cópia de si que mantém as manos, mas também nas plantas características originais, primá- e em todos os organismos plurias ou tronco (daí surgiu o nome ricelulares, inclusive a potência células-tronco) e origina também das células-tronco adultas varia uma célula diferenciada. dependendo do organismo. Apesar de diferentes entre si, as células mantêm o mesmo maTexto escrito pela aluna terial genético da primeira célula Luciana Souza da Silva, da que as originou. A diferença está Escola Estadual Professor na ativação e inibição de grupos Nestor Gomes de Araújo de específicos de genes que deterDumont - SP minarão a função e a estrutura de cada célula. Qual a importância e o objetivo dos estudos com células-tronco? O estudo dessas células é de extrema importância, pois os cientistas suspeitam que estejam nelas a chave para a cura de doenças cardiovasculares, neurodegenerativas, diabetes tipo-1, acidentes vasculares cerebrais, doenças do sangue, traumatismos na medula espinhal e doenças dos rins. O principal objetivo das pesquisas com células-tronco é usá-las para recuperar tecidos danificados por essas doenças e traumas. Um bom exemplo é o transplante de medula óssea, uma Luciana durante apresentação no Mural do Adote um terapia com células-tronco Cientista em dezembro de 2010. Casa da Ciência

O que são células-tronco? São células especiais capazes de originar outras células do corpo e ainda se autorenovar. Elas são únicas, pois podem se manter indiferenciadas ou originar células especializadas por meio da diferenciação celular. As células-tronco podem ser embrionárias ou adultas e podem ser classificadas de acordo com o número de diferentes linhagens celulares que são capazes de originar. As embrionárias são encontradas no embrião. As células-tronco isoladas antes da fase de blastocisto são totipotentes e podem originar todas as células embrionárias e extra-embrionárias (placenta e anexos). Já as células-tronco isoladas da fase de blastocisto são pluripotentes e podem originar todos os tipos de células do embrião. As adultas são encontradas em diversos tecidos como a medula óssea e o fígado. Esse tipo de célula-tronco tem uma capacidade menor de diferenciação, elas são multipotentes e podem gerar células de várias linhagens. Porque nas células-tronco ocorre diferenciação celular? Essa característica especial das células-tronco de originar uma célula diferenciada ocorre por causa da mitose assimétrica. Por muito tempo a mitose era definida apenas como a divisão de uma célula em duas exatamente


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O voo das abelhas na reprodução da vida

Quantos organismos se beneficiam desta flor (Tecoma stans)?

Voar também permite às abelhas visitarem mais de mil flores por dia. Que vida boa essa, né? Elas apreciam a beleza das paisagens, se alimentam com fartura e agora só falta encontrar um par “perfeito” para gerar descendentes. E por incrível que pareça as flores também ajudam nessa feliz história de vida! As flores produzem o grão de pólen, que é um alimento rico em proteínas, coletado pelas abelhas e transportado, no terceiro par de pernas, até o ninho. Por que as abelhas depositam o pólen no ninho? As fêmeas, ”como nossas mães”, cuidam dos filhos. Esse cuidado maternal ocorre quando do ovo eclode a larva, que se alimentará do pólen trazido pelas fêmeas. As flores gostam de serem visde tas; você imaginaria que o ipê mirim (Tecoma stans) atrai com sua beleza, várias espécies de abelhas? Ricardo M. Couto

Voar é um desejo do ser humano. Desde os anjos até o super-homem, ver o mundo de cima desperta a curiosidade e a imaginação. Quem nunca imaginou um dia voar? Mas há um problema nisso: exige energia. Os animais resolveram esse problema de várias maneiras diferentes, deixando o esqueleto mais leve, como é o caso das aves, ou se especializando na alimentação, no caso das abelhas. As abelhas são grandes especialistas na arte de voar, mas como e onde elas conseguem energia para isso? É claro que as flores são lindas, com suas formas e cores que encantam aqueles que enxergam. Mas só enxerga bem quem está no alto, não apenas apreciando a paisagem, mas procurando alimento que está nas flores. Esse alimento é o néctar que é composto de açúcares, sendo uma importante fonte de energia.

Abelha mangava visitando inflorescência Tecoma stans

As guildas tróficas

Organismo é uma referência coSeria uma ingenuidade pensar mum nos estudos dos seres vivos que esta flor atende as necessi- e extintos, porém há uma discussão dades de uma única espécie de sobre as limitações do seu uso, que tem dificultado a compreensão da abelha. Na verdade a Tecoma biodiversidade, cuja complexidade stans, uma árvore que pode atin- é pouco explorada. Estudar o orgagir até 12 metros de altura, origi- nismo é importante, mas é suficiente nária do México e trazida ao para compreender questões comBrasil em 1871, plexas e específicas relacioatende 48 espénadas à população e comunidade? cies de abelhas, Um conceito poudentre elas co explorado, porém as nativas do fundamental para gênero Xylocopa, a compreensão do popularmente conhe0,3 mm fluxo de energia cidas por mangava ou em um ecossismamangava. tema, é o de guilNa falta desta plan- Língua ou glossa de um abelha das tróficas, que ta, ou quando não está (Apinae: Euglossini) adaptada para são formadas por em floração, as abelhas a retirada de néctar da flor espécies que exatraídas pelas flores da Tecoma, ploram, de modo semelhante, uma exploram outras espécies, como base comum de recursos (alimento). o maracujá (Passiflora sp) e a la- Podemos ter, por exemplo, a guilda dos coletores de néctar ou a guilda dos ranjeira (Citrus sp). Casa da Ciência

Chegando à escola...

1 cm

Conhecer as especializações alimentares das abelhas foi importante para os alunos do 8º ano da escola Sesi 259 de Ribeirão Preto, orientados pelo professor Ricardo Couto e a jornalista Danielle Castro, em um trabalho de investigação do curso de especialização “Parceiros na divulgação científica”(2010-2011), coordenado pela Casa da Ciência.

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Abelha que emergiu de um ninho localizado no tronco de Tecoma stans da escola SESI.

coletores de pólen. Existem numerosos motivos para abelhas visitarem flores e diversas maneiras pelas quais as flores atraem abelhas, formando diferentes guildas e resultando numa diversidade de interações entre ambas. Flores oferecem alimento (pólen, néctar e óleo), produzem substâncias utilizadas pelas abelhas na construção do ninho ou necessárias para sua reprodução, escondem recursos florais, enganam os visitantes ou servem como local de acasalamento. Para observadores curiosos e pesquisadores de abelhas é possível perceber que o comportamento e a forma são especializados para a coleta de recursos de difícil acesso e para explorar recursos florais específicos. Estas guildas polinizadoras são formadas quase exclusivamente por espécies de abelhas solitárias, nas quais não há contato entre as gerações, pois geralmente a fêmea morre antes dos descendentes emergirem.

Para analisar e investigar Em uma monocultura de cana, o que acontece com as guildas? Espera-se uma diminuição da diversidade, com redução da vegetação natural, retirando uma mata nativa para inserir uma única espécie de planta com redução no número de guildas ecológicas! Estudar população e comunidade vai além de conhecer um catálogo de espécies ou descrever relações ecológicas. Será que a mídia, que cumpre o importante papel na divulgação científica e na formação de opinião, tem encontrado fontes que fundamentem a complexa rede de saberes que compõe o tema biodiversidade?


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A vida na raiz de um aguapé

Em julho de 2010, em um dos “Férias com Ciência”, programa que a Casa da Ciência realiza para alunos do ensino básico, o tema foi a diversidade no lago da USP. Como esses programas são desenvolvidos no MuLEC – Museu e Laboratório de Ensino de Ciências, localizado no campus da USP, eles procuram articular a relação entre laboratório e observação da natureza próxima, seguidas de discussões teóricas com especialistas. Durante os três dias, a participação dos alunos nas várias atividades como experimentos, palestras, observações é documentada e permite perceber o entusiasmo em

Um “ecossistema” complexo

Aguapé e sua fauna associada

Aguapé, você conhece? Casa da Ciência

O aguapé é uma planta muito comum em ambientes aquáticos, flutuando na superfície com ajuda de “bóias naturais”, ou seja, a base da folha é dilatada e rica em um tecido que acumula ar (parênquima aerífero). Pertence ao grupo das angiospermas, produz flores e frutos. Mas, qual a relação entre diversidade e essa planta? Vários seres podem ser observados vivendo em suas raízes, onde encontram abrigo de predadores, recursos alimentares, local para reprodução, formando um microambiente. Ninfas de odonata (libélula) e de outros insetos, moluscos

confirmar informações vistas nos livros e apostilas. Com foco em zooplâncton, nessa atividade, orientada por André Perticarrari (especialista em ecossistemas aquáticos), os alunos realizaram a observação e análise de uma planta presente no lago, o aguapé, que foi coletada nas margens do lago, no dia anterior. Com a idéia de trabalhar a diversidade dos seres que vivem nessa planta, entendendo um pouco mais sobre os organismos encontrados, os alunos foram convidados a explorá-la. Observaram os animais e tentaram reconhecer os diferentes grupos - sua forma e comportamento, associando com o que aprenderam na escola.

Investigando a biodiversidade: aluno observa raiz de aguapé durante SNCT/CNPq - 2010.

gastrópodes, larvas de mosquitos, ácaros aquáticos, planárias, microcrustáceos (cladóceros ou pulgas d’água e copépodos, que compõem o zooplâncton), notonectas (percevejos), rotíferos (animais microscópicos), girinos e até pequenos peixes podem ser encontrados (ver esquema). Esses seres encontrados podem ser microscópicos (cerca de 100 a 1000 vezes menores que um milímetro) e até com vários centímetros de tamanho convivendo juntos. Fatores ambientais tais como, condições da água, luz, alimento, temperatura, entre outros podem variar ao longo do tempo, influenciando na diversidade.

Cardápio de hoje: perifíton!

Como vimos, muitos organismos vivem fixos nas raízes desta planta. Estes seres representam um verdadeiro banquete para muitos animais, que formam a guilda trófica dos perifitívoros ou comedores de perifíton. Uma guilda é formada por grupos de organismos com maneiras semelhantes para sobreviver, ou dito de outra forma, que exploram os mesmos recursos de maneira similar. Em nosso caso, animais que se alimentam do perifíton. Muitos insetos, como as ninfas de efemerópteros e larvas de mosquitos, vários peixes, pequenos moluscos e girinos pertencem a esta guilda, alimentando-se das microalgas, dos rotíferos e protozoários das raízes, explorando esse rico recurso alimentar. Como podemos ver, uma simples planta que vive flutuando em ambientes aquáticos pode ser o local onde ocorrem várias relações ecológicas e vários animais encontram alimento para sua sobrevivência. Se uma planta abriga uma diversidade enorme,

imagine um lago inteiro. Essa grande diversidade de seres Os resultados desta atividade cauvivos, pertencentes a vários grupos e saram interesse e deram origem a uma encontrada na raiz do aguapé, forma exposição sobre diversidade e células-tronco no lago da USP (na Semana uma verdadeira comunidade onde Nacional de Ciência e Tecnologia várias interações ocorrem. Lá os orSNC&T - do CNPq de 2010), tendo a ganismos encontram abrigo contra planária como destaque. predadores, mas também encontram Pense e responda alimento. Ácaros, que são predadoAnimais que se alimenres vorazes, se alimentam de larvas tam de plâncton (fito e de mosquitos que estão na raiz, que zooplâncton) podem forpor sua vez, comem os pequenos mimar uma guilda? E os que se alimentam de detritos crocrustáceos. Pequenos peixes pre(restos de organismos, matéria orgânidam caracóis que se alimentam de ca em decomposição)? algas microscópicas que estão adeVocê saberia dizer qual a relação ridas nas raízes. Podemos perceber, entre guilda e diversidade? Guilda pode ser um indicador de diversidade? através destes poucos exemplos, diferentes cadeias alimentares que forSaiba mais! Quer saber mais sobre planária, zoomam uma rede alimentar complexa plâncton e ecossistemas? Visite o site da somente neste pequeno ambiente. Casa da Ciência: Outra relação ecológica que pode ser www.hemocentro.fmrp.usp.br/casadaciencia encontrada é a presença de algas miVeja o tamanho dos animais em escala croscópicas, bactérias, protozoários e rotíferos que vivem aderidos nas raízes, constituindo o que chamamos de perifíton (grupos de organismos que ficam aderidos a um substrato); essa relação é conhecida como Ordem decrescente epifitismo.

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Jornal das Ciências - número 21  

Esta 21º edição tem sabor especial: a Casa da Ciência comemora 10 anos de trajetória. Com tanto tempo de estrada o JC já tem uma linha edito...

Jornal das Ciências - número 21  

Esta 21º edição tem sabor especial: a Casa da Ciência comemora 10 anos de trajetória. Com tanto tempo de estrada o JC já tem uma linha edito...

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