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Ribeirão Preto, agosto de 2010 - nº 20 Ano 10

PROJETO EDUCACIONAL CTC FACULDADE DE MEDICINA DE RIBEIRÃO PRETO CENTRO REGIONAL DE HEMOTERAPIA

Alunos dão aula de conhecimento no Mural

Jovens mostraram domínio sobre os temas estudados e apresentaram seus trabalhos para colegas, professores e pesquisadores. No Mural realizado em dezembro de 2009 eles explicaram sobre vários assuntos, exemplificando com desenhos, cartazes, recortes e massa de modelar. Pág. 3 e 4

A regeneração da planária e as células-tronco Alunos do Pré-IC estudaram nas planárias em qual tipo de lesão a regeneração, por meio das células-tronco, é mais eficiente. Pág.5

O caminho da Ciência Lucas Botelho, pós-graduando da FMRP e Hemocentro, fala do prazer em aprender e ensinar e conta como passou de aluno curioso - frequentador da Casa da Ciência - a cientista e pesquisador. Pág. 6

Peso e comprimento ao nascer influenciam a altura do adulto

Os bebês quando nascem apre- criança com maior comprimento sentam diferenças de tamanho e peso ao nascer, ser mais alta entre si, que são influenciadas ao atingir a maturidade”, explica. O crescimento físico é um protambém pelo sexo do recém-nascido. Mas será que essas carac- cesso contínuo. Conforme as terísticas interferem na altura e células se multiplicam, a criança no peso dessas crianças quan- aumenta seu peso e altura. Este do se tornam adultas? Engajada desenvolvimento reflete também em responder essa questão, Laís as condições de saúde e nutrição Cássia Degani Ressol, aluna da da criança. Por meio da idade, primeira turma do Pré-Iniciação Científica (Pré-IC), trabalhou du- Casa da Ciência rante um ano junto ao Núcleo de Estudos da Saúde da Criança e do Adolescente (NESCA) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP/USP) com os pesquisadores Denise Nascimento Mesquita, Dra. Heloisa Bettiol e Dr. Marco Antonio Barbieri. Laís era aluna da Escola Estadual Prof. Rafael Leme Franco de Ribeirão Preto e iniciou no Pré-IC em outubro de 2008 para pesquisar o crescimento fícontinua trabalhando junto ao NESCA e sico humano. “Eu queria saber Laís cursa fisioterapia na Unip. se existe alguma relação entre a

O programa Pré-Iniciação Científica (Pré-IC) é uma iniciativa da Pró-Reitoria de Pesquisa da USP, que prevê a participação de alunos da rede pública em trabalhos experimentais nos laboratórios da universidade durante um ano. O programa tem como objetivo aproximar a educação superior da educação básica por meio da convivência acadêmica. Este ano serão abertas vagas para uma nova turma, mais informações no site: www.usp.br/prp/preic.


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sexo, peso e altura é possível identificar se o indivíduo encontra-se dentro do padrão de normalidade para a população. Este é considerado um dos melhores indicadores de saúde da criança. Para a pesquisa realizada por Laís foram utilizadas informações de 2.046 indivíduos, 1.057 mulheres e 989 homens, de 23 a 25 anos nascidos em Ribeirão Preto entre os anos de 1978 e 1979. “Com eles eu usei algumas variáveis como peso, comprimento ao nascer e estatura final”. Usando esse banco de dados, a aluna realizou algumas análises e, projetando em gráficos essas informações, avaliou o crescimento desses indivíduos, entretanto não considerou os fatores orgânicos e ambientais, por conta da complexidade das análises e extensão do projeto. A análise mostrou que a maioria dos recém-nascidos

tinha comprimento entre 49 e 51 centímetros, já o peso ficou entre três quilos e três quilos e meio. Além disso, foi observado que nas categorias mais altas de comprimento – com bebês maiores ou medindo 53 centímetros – estavam os meninos, enquanto que na categoria abaixo de 47 centímetros, havia mais meninas, porém, ambos apresentaram relação semelhante da estatura final com as categorias de comprimento e de peso ao nascer. “Eu consegui perceber que as crianças que nasceram mais compridas e também aquelas mais pesadas atingiram altura maior”, conclui a aluna. Atualmente Laís continua sua pesquisa no mesmo laboratório e cursa fisioterapia na Unip de Ribeirão Preto.

“Eu aprendi a procurar artigos científicos confiáveis. Antigamente eu achava que era só digitar no Google e tudo que aparecesse estava correto porque estava no Google”. “Aprendi também a mexer em bancos de dados, montar gráfico e tabela. Era algo que eu sempre tive muita dificuldade”. “Às vezes a gente pensa que se está muito magrinho é porque está desnutrido, se está gordinho é porque está obeso. Eu aprendi que não é bem assim, é preciso um acompanhamento por um tempo e um diagnóstico médico para avaliar”.

Laís D. Ressol

Figura 1 - Média de altura final segundo a categoria de peso ao nascer para o sexo masculino. Figura 2 - Média de altura final segundo a categoria de peso ao nascer para o sexo feminino. Figura 3 - Média de altura final segundo a categoria de peso ao nascer para o sexo masculino. Figura 4 - Média de altura final segundo a categoria de peso ao nascer para o sexo feminino. Categorias de comprimento ao nascer: 1 - <47cm 2 - 47-49cm 3 - 49-51cm 4 - 51-53cm 5 - ≥ 53cm

Editorial

Este número do Jornal das Ciências é uma edição especial que traz dois trabalhos realizados por alguns alunos da primeira turma da Pré-Iniciação Científica da USP (Pré-IC/2008-2009) recebidos pela Casa da Ciência e Hemocentro de Ribeirão Preto. Durante o programa os alunos desenvolveram projetos

Categorias de peso ao nascer: 1 - <2500g 2 - 2500 - 3000g 3 - 3000 - 3500g 4 - 3500 - 4000g 5 - ≥ 4000g

junto aos laboratórios do Hemocentro e da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP - USP). A “Trilha da Ciência” traz a participação dos alunos no “Mural”, desenvolvido pela Casa da Ciência no final das atividades de 2009. Entre os temas tratados estão Crescimento; Forma e função das células;

Protozoários e Sangue. A página 6 apresenta a entrevista com o pós-graduando Lucas E. S. Botelho, que frequentou, desde o ensino fundamental, um dos programas da Casa da Ciência e hoje participa das atividades com os alunos do “Adote um Cientista” como orientador.

O Jornal das Ciências é uma publicação da Casa da Ciência do Hemocentro de Ribeirão Preto/USP distribuída gratuitamente nas escolas. É parte do Projeto Educacional CTC/CEPID/FAPESP. Coordenadores: Dimas Tadeu Covas, Marco Antonio Zago e Marisa Ramos Barbieri. Coordenadora da Casa da Ciência e MuLEC: Marisa Ramos Barbieri. Jornalista responsável: Gisele S. Oliveira. Diagramação: Ana Elisa Chimeca e Gisele S. Oliveira. Revisão: Maria Bernadete Giaconi. Equipe da Casa da Ciência: Ana Elisa Chimeca, Ádamo Siena, André Perticarrari, Daiane F. Francisco, Daniele Viola, Flávia F. do Prado, Fernando Trigo, Gisele S. Oliveira, Gustavo Leopoldo Daré, Heloisa Spagnoli, Marçal V. de Almeida, Maria José de Souza G. Vechia, Renata A.P. Oliveira, Vinícius M. Godoi. Apoio: Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto, Fundação Vitae, Fapesp e BT – Coseas/USP. Endereço: Rua Tenente Catão Roxo, 2501. CEP: 14051-140. Ribeirão Preto. Telefone: (16) 2101-9308. Site: www.ead.hemocentro.fmrp.usp.br/joomla. E-mail: casadaciencia@hemocentro.fmrp.usp. br Tiragem: 3.500 exemplares. Distribuição Gratuita. É permitida a reprodução, desde que citada a fonte.


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Alunos dão aula de conhecimento no Os alunos que participam do “Adote um Cientista” provaram que seus conhecimentos sobre ciências são apurados. No Mural realizado em dezembro de 2009 eles explicaram sobre vários assuntos, exemplificando com desenhos, cartazes, recortes e massa de modelar. “Foi a primeira vez que eu participei de um Mural, nós escolhemos o assunto e nos aprofundamos mais nele, foi muito divertido e eu aprendi muita coisa tanto de matemática como de ciência.” explica Paola, aluna da 8º série do colégio Albert Sabin. Os grupos que se apresentaram foram divididos pelos temas que estudaram: Crescimento e Reprodução; Forma e Função das células; Protozoários e Sangue. O objetivo do Mural é promover a interação entre alunos e pesquisadores e a troca entre os estudantes de informações e conceitos aprendidos durante o semestre. “O Mural é interessante porque os alunos trocam dúvidas entre si e isso esclarece bastante coisa.” diz Caueh, aluno do 3º ano do ensino médio da Escola Estadual Prof. Rafael Leme Franco.

Crescimento e Reprodução

Marina Gatti, Karen Godoy, Giulia di Giácomo, Paola di Giácomo e Aline de Carvalho.

As alunas tiveram a liberdade de pesquisar diferentes tipos de crescimento, tanto no indivíduo quanto na população, e as adaptações deles ao meio. Dentro de cada grupo, selecionaram duas espécies e compararam entre si. No grupo das bactérias compararam o tempo de multiplicação da Escherichia coli e da Mycobacterium tuberculosis. Nos mamíferos compararam o tempo de gestação entre a baleia e o coelho e também o tempo que levam para viverem sozinhos, sem auxílio dos pais. Finalizando com as plantas, focaram nas angiospermas falando sobre dicotiledôneas e monocotiledôneas, comparando quanto à reprodução.

Bactérias

As bactérias são unicelulares e ao sofrerem divisão celular ocorre o crescimento do número de indivíduos. Nestes seres a divisão está associada à reprodução. A M. tuberculosis, bactéria causadora da tuberculose, é diferente das outras Gráficos de reprodução da bactéria M. tuberculosis porque não se divide em minutos, ela se multiplica a cada 16 ou 20 horas. (bactérias x horas) e E. coli (bactérias x minutos). A E. coli, que se divide em cerca de 20 minutos, é um microrganismo tido como habitante natural da flora microbiana do intestino de humanos e da maioria dos animais de sangue quente. “O gráfico de crescimento das bactérias se dá através de uma PA (progressão aritmética) e uma PG (progressão geométrica), o número das bactérias sempre aumenta multiplicado por dois”, explicou a aluna Aline.

Mamíferos Foram comparados dois mamíferos diferentes, a baleia e o coelho. O ciclo de gestação de uma baleia dura um ano e gera, no máximo, dois filhotes – que ao nascerem preferem águas quentes. “A baleia azul só retorna para o norte quando o filhote atinge os cinco meses, demora todo esse tempo devido ao tamanho do animal” contou a aluna Paola. Os coelhos têm uma gestação de 30 dias, com uma média de quatro ou cinco filhotes. Depois de dois meses sua prole, diferentemente da baleia, já está apta a sobreviver sozinha. Será pela diferença de tamanho? Há diferentes estratégias de sobrevivência entre bactérias e mamíferos. O cuidado parental – que é todo tratamento materno ou paterno com a prole até que ela alcance autonomia – está presente nos mamíferos e não existe nas bactérias, que por sua vez usam a estratégia de se reproduzir muito rapidamente, com grande quantidade de descendentes. Gráficos de reprodução de baleias e coelhos.

Plantas

As angiospermas – plantas que com flor, fruto e semente – possuem uma estrutura chamada cotilédone, que é uma folha modificada, associada à nutrição de células embrionárias que podem gerar outra planta. Essas plantas podem ser divididas em duas, as dicotiledôneas – que possuem dois cotilédones, apresentam também raiz axial, folhas com nervuras geralmente reticuladas, flores múltiplas de quatro ou cinco, ciclo de vida longo, caule lenhoso e crescimento secundário – e as monocotiledôneas – com sementes com um cotilédone, raízes fasciculadas, folhas com nervuras paralelas, flores múltiplas de três, ciclo de vida curto e crescimento primário. “Nas plantas, o gráfico de crescimento não é como nas bactérias e nos mamíferos que segue uma PA e uma PG, é um gráfico irregular” explicou a aluna Aline.

Será que existe relação entre divisão celular, crescimento de indivíduos e população?

Gráfico de crescimento de dois dicotilédones (altura - cm x dias).


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Formas e funções das Células

O grupo explicou a relação da forma com a função que a célula exerce no organismo, para isso utilizou como exemplo as células musculares, sanguíneas e epiteliais. Tecido Muscular Estriado

Células musculares

“O tecido muscular é dividido em três tipos de acordo com suas características: tecido muscular liso, estriado e cardíaco”, explicou a aluna Stéfani. O tecido muscular estriado ou esquelético apresenta várias miTecido Muscular tocôndrias nas células porque precisa de grande quantidade de Cardíaco energia para realizar os movimentos de contração. O tecido muscular cardíaco, que forma o músculo do coração, também possui uma grande quantidade de mitocôndrias para ob- Stéfani Desinde, Ana Gabriela Molina e ter energia e bombear o sangue para todo o corpo. Letícia da Silva. Tecido Muscular O tecido muscular liso é involuntário e mais leve, ele se localiza Liso em órgãos como os ovários, parede de vasos sanguíneos e diafragma. Hemácia

Células sanguíneas e epiteliais

Os glóbulos brancos, ou leucócitos, têm a função de combater microorganismos causadores de doença por meio da captura ou produção de anticorpos. As células epiteliais revestem o corpo internamente e externamente formando camadas celulares ou epitélio. “As células epiteliais que revestem o nariz, a pele, derivam do ectoderma, o aparelho digestivo e respiratório derivam do endoderma e as outras células, como o linfático e do aparelho cardiovascular derivam do mesoderma”, explicou Ana Gabriela.

Neutrófilo

Linfócito Monócito

Forma e função dos protozoários Protozoários são microorganismos cuja classificação é feita com base nas estruturas de locomoção que eles apresentam. Existem quatro grupos de protozoários: rizópodes ou sarcodíneos, que se deslocam por pseudópodes; os flagelados, que se deslocam por flagelos; ciliados, que se locomovem com o uso dos cílios; e os esporozoários, que não apresentam estrutura de locomoção. Os alunos explicaram sobre área e volume dos protozoários usando moldes de um cubo e um paralelepípedo, pois o cubo tem menor superfície de contato com o ambiente externo. “Se um protozoário tiver essa forma ele vai ter dificuldade de respiração, portanto, a forma é essencial para exercer certa função no corpo. Se ele modificar a sua forma ela já não exercerá aquela função”, Caueh de Cristo e esclareceu Caueh. David Ferreira.

Sangue

Esporozoário (Plasmódio)

Ciliado (Paramécio)

Sarconídeo (Ameba)

Flagelado (Tripanossoma)

A aluna Amanda falou sobre a importância da hemácia e as causas dos diversos tipos de anemia. “A hemoglobina, que está presente nas hemácias, tem como principal função transCasa da Ciência portar oxigênio e gás carbônico”. A hemácia é muito importante e uma falha ou alteração na produção em algumas de suas proteínas pode levar a várias consequências, uma delas é a anemia falciforme. Essa é uma doença hereditária que causa má formação das hemácias, que assumem forma semelhante a foice, com maior ou menor severidade, dependendo do caso. A doença causa deficiência no transporte de gases nos indivíduos. A pós-graduanda Priscilla Carnavale G. Ferreira explicou aos alunos sobre a incidência de anemia falciforme na África e sua relação com a malária: “A população africana tem uma incidência bem maior de anemia falciforme, isso está relacionado à malária. O plasmódio ao infectar a hemácia falciforme não consegue finalizar o seu ciclo de vida, por isso não manifesta a malária. Os indivíduos que tinham as hemácias normais acabavam sendo prejudicados e é por isso que a população com anemia falciforme acabou prevalecendo”. Conheça a animação deste Mural com as dúvidas e respostas dos alunos no site da Casa da Ciência: www.ead.hemocentro.fmrp.usp.br/joomla

Amanda Godoy.


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A regeneração da planária e as células-tronco

mais eficiente os animais foram distribuídos em quatro grupos experimentais. O primeiro grupo sofreu um corte mediano transversal, o segundo passou por irradiação com raios gama, o terceiro sofreu irradiação com raio gama e também o corte mediano transversal e o quarto, que era o grupo controle Casa da Ciência do experimento, não sofreu nenhum tipo de lesão. Cinco dias depois que as planárias foram lesionadas os alunos realizaram alguns procedimentos para analisar a divisão/multiplicação das células de cada grupo. “As células das planárias passaram pela citometria de fluxo para vermos sua proliferação”, explica Tassiana. Os alunos Tassiane e Vitor durante prática de Este procedilaboratório. Casa da Ciência mento permite calcular o núA planária é um mero de células platelminto, ou que estão se seja, um verme, multiplicando que tem em média no organismo. 1 cm de compri“Nós fizemos a mento. É um ormaceração das ganismo simples e planárias, retifacilmente enconramos todas as trado em rios e lacélulas de cada gos sem poluição, grupo e pasalém disso, tem samos no citôalto poder de regeneração devido Os participantes do Pré-IC em visita a labora- metro de fluxo, além de obsersuas células-tron- tórios do Hemocentro. co, conhecidas como neoblastos. varmos a olho nú qual estrutura Células-tronco são células indife- da planária estava regenerando renciadas do embrião, do feto ou mais rápido”, conta Vitor. Os resultados do experimento do adulto, que possuem a capacidade de se autorrenovar e de ori- mostraram que as planárias que ginar células maduras através da foram apenas cortadas apresentaram maior proliferação celular diferenciação. Com o objetivo de estudar e do que aquelas que foram cortacompreender o poder de regene- das e irradiadas. Tassiana e Vitor ração da planária, Vitor e Tassiana imaginavam outro resultado para Lopes dos Santos, alunos da o experimento: “Nossa hipótese Escola Estadual Professor Nestor era de que quanto mais estímuGomes de Araújo em Dumont, lo ela recebesse mais ela iria se desenvolveram um projeto Casa da Ciência intitulado “Efeito da irradiação e/ou lesão mecânica na regeneração de planárias”. Para a realização do experimento foram coletadas diversas planárias no lago da USP de Ribeirão Preto. Como esses animais são carnívoros, uma vez por semana os alunos os alimentavam com fígado de camundongos, utilizados no laboratório, e trocavam a água em que eles ficavam submersos. Para testar em qual tipo Vitor e Tassiana durante entrevista para o vídeo exibido no de lesão a regeneração é encerramento do Pré-IC em São Paulo.

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Você sabe o que é uma planária e qual a importância de estudá-la? Dois alunos da rede pública de ensino, coordenados por pesquisadores do Hemocentro de Ribeirão Preto, estudaram a planária e analisaram como suas células-tronco atuam no processo de regeneração. “Eu não tinha noção de como seria uma planária, pensava que era um animal enorme” relata Vitor Máximo, aluno que concluiu o programa Pré-Iniciação Científica (Pré-IC) em outubro de 2009.

regenerar, mas aconteceu o contrário”, revela Vitor. “Chegamos ao resultado de que a lesão mecânica tem maior proliferação celular porque a irradiação mata as células, então elas não se proliferam porque estão mortas”, conclui Tassiana. Provavelmente a irradiação matou as células que estavam em divisão, reduzindo o número de neoblastos vivos, por isso a taxa de divisão celular foi menor após o corte. Os alunos Tassiana e Vitor receberam orientação dos professores Dra. Aparecida Maria Fontes, Prof. Dr. Dimas Tadeu Covas e dos pós-graduandos Danilo Candido de Almeida, Lucas Eduardo Botelho de Souza e Danielle de Magalhães, todos pesquisadores da Fundação Hemocentro e Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP). A Casa da Ciência disponibilizou em seu site um texto sobre células-tronco escrito pelo pós-graduando Danilo de Almeida, acesse: http://ead.hemocentro.fmrp.usp.br/joomla


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Entrevista Casa da Ciência

O Caminho da Ciência

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O Jornal das Ciências vai contar a história de um pós-graduando da USP que, com muita curiosidade e persistência, traçou seu caminho em busca do conhecimento. Lucas Eduardo Botelho de Souza cursou Ciências Biológicas na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) e hoje é mestrando da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) e do Hemocentro. No ano de 2002, Lucas começou a frequentar a Casa da Ciência. Nesta época cursava a 7ª série do ensino fundamental na escola estadual Dom Romeu Alberti, foi quando tomou conhecimento do programa “Caça-Talentos” por meio da professora de ciências Leonízia Nakamura, participante do curso de formação para professores “As Células, o Genoma e Você, Professor”. No “Caça-Talentos”, Lucas conversa com alunos durante encontro do os alunos tinham a oportunidade de participar de atividades e desenvolver um projeto dentro da área de trabalho de pesquisadores da USP, que atuavam como “Adote um Cientista”. tutores. Como já estudava formigas, praticamente sozinho desde 2001, continuou desenvolvendo estudos sobre elas, porém com um enfoque em sistemática e evolução das formigas, devido ao trabalho de seu orientador, Adolfo Ricardo Calor – pós-graduando da FFCLRP na época. Depois de tantos anos, Lucas ainda continua envolvido com os programas da Casa da Ciência. É sobre esse prazer em ensinar e aprender que ele fala ao JC nesta entrevista. Jornal das Ciências – Como foi o primeiro contato com a pesquisa científica na Casa da Ciência? Lucas Botelho de Souza - Meu primeiro contato com a pesquisa científica me trouxe uma sensação prazerosa. Naquele momento entendi a pesquisa como uma busca pela resposta de uma questão por meio de observações, hipóteses e testes, passo a passo, até as respostas começarem a ser construídas. Sempre fui muito curioso e obter respostas a partir da minha intervenção me dava a sensação de descobrir algo que há pouco era obscuro para mim. Há uma satisfação inerente às descobertas, é prazeroso. Descobrir a biologia na prática me fez admirar o modo como os seres vivos funcionam, se relacionam e evoluem. Este impacto positivo é maior quando você está com a mão na massa do que quando tem contato com a biologia apenas pela apostila. JC - O que achava da proximidade com os pesquisadores? Você se imaginava como um pesquisador no futuro? L.B.S. - O contato com os pesquisadores foi o grande diferencial, pois eles dominavam profundamente seus respectivos temas de estudo e também o método de investigação científica. Eles preparavam atividades muito bem estruturadas em conteúdo e muito criativas, a investigação científica requer criatividade. O resultado disso era simples: conteúdo sólido, novo e uma forma divertida de aprender, onde os alunos eram os agentes. Não era uma forma passiva de aprendizado. Todo o contato que tive na Casa da Ciência me fez estar convicto em dizer a seguinte frase quando alguém me perguntava o que eu queria ser quando crescesse: “Quero ser cientista”. Eu queria trabalhar tentando descobrir o que eu tivesse vontade de saber dentro da biologia, usando aquele método que trabalhávamos todo sábado de manhã na Casa da Ciência. JC - Como funciona a pesquisa, o questionamento sobre um tema, como isso é determinado? L.B.S. - A pesquisa parte de um problema, a primeira parte é identificar as perguntas a serem respondidas em sua área de interesse. O conhecimento científico é edificado a cada dia, assim, é preciso estudar bastante para estar atualizado, desta maneira será possível formular questões cuja resolução contribua de maneira relevante para o avanço

do conhecimento. A pesquisa tem muitos elementos importantes, como a multidisciplinaridade e a coragem. A multidisciplinaridade é importante porque o conhecimento é interconectado, a possível explicação para o seu problema depende de fenômenos de outras áreas do conhecimento. Acredito que estamos em um estágio em que as conexões entre as diferentes áreas nos levará a avanços mais robustos. A coragem é essencial para resolver problemas importantes. Os problemas relevantes são os mais difíceis de responder. Se você pensa que não pode resolvê-los, dificilmente obterá êxito. No entanto, é importante que o pesquisador acredite e duvide da sua teoria ao mesmo tempo. Penso que um bom pesquisador deve tolerar a ambiguidade. Ele deve ter confiança o suficiente para seguir em frente e deve duvidar de sua teoria o suficiente para notar as falhas e fazer as reformulações ao longo da pesquisa. JC - Como surgiu o interesse em trabalhar com células-tronco? Qual a importância de estudá-las? L.B.S. - Sempre gostei de biologia e fisiologia celular e procurei o Hemocentro pela grande qualidade dos recursos físicos e humanos nestas áreas. Devido à presença de pesquisadores que já trabalhavam com as células-tronco, procurando resolver problemas na fronteira da pesquisa biomédica, acabei me interessando nas pesquisas nesta área. As células-tronco contribuíram e podem contribuir mais para a cura de doenças degenerativas e/ou crônicas, como leucemias; podem fornecer modelos que nos auxiliem a entender o desenvolvimento embrionário e a diferenciação celular e constituem uma fonte a partir da qual pode ser possível gerar células. Evidentemente há um longo caminho a percorrer para verificar se todo este potencial é real. É preciso muito rigor nas pesquisas e na divulgação dos resultados para que não sejam criadas falsas esperanças. JC - Fale um pouco sobre sua pesquisa. Hoje você está no mestrado e realiza pesquisa com células-tronco. O que compreende seu trabalho? L.B.S. - O foco do meu trabalho são as células mesenquimais estromais. Procuro avaliar o efeito que as células mesenquimais têm na progressão de tumores. Minha pergunta foi: como as células mesenquimais ajudam na formação de vasos e suprimem o sistema imunológico, será que elas podem acelerar

a progressão de tumores? Isso é uma questão importante, pois muitos pacientes têm sido submetidos ao tratamento com células mesenquimais. JC - Você continua próximo à Casa da Ciência, participando das atividades com os alunos. Qual a importância desse relacionamento com os alunos para você? L.B.S. - Eu vivenciei as atividades da Casa da Ciência, sei do que mais gostei e sei aquilo que me fez despertar o interesse pela ciência, agora tenho a oportunidade de oferecer aos alunos tudo o que foi positivo para mim, o que ajudou a alterar minha visão de mundo e abrir um novo leque de oportunidades para quem tiver empatia pela pesquisa científica. O contato com o método científico da forma como é feito na Casa da Ciência traz muitos benefícios, os alunos tornam-se questionadores, exercem a criatividade, a organização do pensamento e aprendem a trabalhar em cooperação. Mesmo que alguns alunos não escolham seguir o caminho da pesquisa acadêmica, todas estas habilidades são muito valiosas na vida cotidiana. Quem negaria o valor do questionamento, da criatividade, da organização e da cooperação para os alunos? JC - Passar o conhecimento adiante é importante? L.B.S. - As pesquisas são financiadas, em última instância, pela sociedade e devem ser feitas para ela. O conhecimento deve ser um bem comum, acessível a todos. Acabar com o abismo entre a universidade e a sociedade é um passo extremamente importante para o desenvolvimento de um país e qualquer iniciativa neste sentido é louvável. Casa da Ciência

Lucas acompanha a Casa da Ciência desde 2002.


Jornal das Ciências - número 20