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exposição individual abertura: 22 de março visitação: 25 de março a 27 de abril de 2013.

Casa Contemporânea Rua Capitão Macedo, 370 Vila Mariana – SP www.casacontemporanea370.com 11 2337-3015 casacontemporanea370@gmail.com


Vivemos uma época de mutações e com ela um desconforto já diagnostcado. Talvez tenha sido sempre assim; ciclicamente, tempos de mutações ou crises colocam em jogo nossas concepções sobre o que conhecemos ou imaginamos conhecer nos dando a sensação da perda de algo. Porém este “agora” que vivenciamos é marcado por uma cultura do excesso. Imagens, sons, palavras nos bombardeiam céleres e incessantemente como talvez nunca tenha ocorrido. ... Esta primeira individual de Renato Pera dá a oportunidade de nos confrontarmos com questões como essas. A profusão de referências que fazem parte de seus trabalhos, e de sua própria poétca, exemplifcados na diversidade e mesmo na aparente disparidade entre os trabalhos, nos faria supor um artsta que trabalha a questão do excesso em sua produção como assimilação rasa e sem questonamentos. Todavia não é desta forma que ele trabalha, mas para isso convém identfcarmos alguns eixos que antes de organizar, possibilitam as relações entre suas inúmeras referências. A arquitetura é um destes eixos. Seja alterando um espaço existente, como em The Endless, e consequentemente criando um novo lugar, seja em O Cair da Tarde I e O Cair da Tarde II nas quais os locais onde estão inseridas têm suas ambiências alteradas de forma a não serem apenas objetos mas a terem uma presença enfatzada por este mesmo local. Neste sentdo, são instalações concebidas para os espaços da Casa Contemporânea, mas que podem ser montadas em outros locais com resultados outros e não menos instgantes. Lidar com o banal ou com elementos do cotdiano faz parte do léxico contemporâneo; para isso, porém, é necessário que o artsta consiga como que enxergar em meio a um facho de luz que recebe em seu rosto. Renato lida com isto através da concisão. Sua postura perante os excessos seria uma busca pelo menos , por trabalhos que provocam pequenos deslocamentos que a princípio causam estranheza para em seguida nos surpreenderem. Isto acontece tanto em Janela Basculante, nos adesivos Volteador de Salão ou no flme The Dawn of Man / A Aurora do Homem que utliza imagens do flme de Stanley Kubrick (2001: Uma Odisséia no Espaço). Por últmo, mas não menos importante, está o modo como a artsta lida com as camadas de signifcado dos trabalhos – não só através do que vemos, mas também pelos nomes ou por aspectos estétcos que ele sabiamente incorpora. Tirésias, O Jardim das Hespérides (Infragrant) e O Jardim das Hespérides (Melancolia) mesclam mitologias, erotsmo, imagens ressignifcadas, simulacros, falências. O modo como esses eixos se cruzam acabam por gerar possibilidades de legibilidade ou uma obra aberta. Como Renato mesmo diz: esta exposição “é uma progressão, não uma visão concluída sobre minha produção”. ... Um pequeno livro do século XVIII escrito por um obscuro cientsta chamado D.T. Bienville e com o delicioso ttulo “A Ninfomania ou Tratado sobre o Furor Uterino” se assemelha a um sério tratado de medicina que visa tratar das “enfermidades femininas” sob um aspecto moralista. Porém, o que a princípio parece um livro sério com suas descrições tanto fsiológicas quanto medicinais, vai nos confundindo cada vez mais, tornando-se erótco, divertdo, literário e, essencialmente, estranho a ponto de surpreender. Para isso, porém, é necessário que lidemos com sua profusão de informações trazendoa para a contemporaneidade. Aviso: esta não é uma analogia gratuita. Marcelo Salles

Marcelo Salles é formado em Arquitetura e Urbanismo; é curador independente e desenvolve pesquisa em Crítca de Arte e Teoria Crítca; junto à Marcia Gadioli, dirige a Casa Contemporânea.


Lar, estranho lar

Encontro-me nesta fascinante e estressante experiência de mudar de casa. Se empacotar objetos e colocar dentro de um caminhão de mudanças é algo que fca entre a despedida e o cansaço fsico, já adentrar um espaço até então vazio é a oportunidade de se atribuir novo sentdo a um cubo branco domiciliar. Depois de tudo colocado em seu devido lugar, um elemento ainda saltava aos olhos: em torno dos bocais para lâmpadas e das sancas, uma série de relevos com padrões geométricos. Meus estudos como historiador da arte rapidamente sugerem uma interpretação estlístca, tal qual dizer que se trata de uma “decoração com pitada de rococó”, por exemplo. De todo modo, as palavras não dão conta da estranheza desse dado. Por que o proprietário deste apartamento tomou essa opção estétca? Mais do que isso, a partr de qual momento de uma história das imagens esse objeto passa a ser carregado por este rótulo rápido e parece fazer sentdo dentro de uma vontade de decoração espacial? Lar, estranho lar. Estranhar o corriqueiro me parece ser também um elemento chave dentro da pesquisa artstca de Renato Pera. Podemos partr da apropriação da estranha espacialidade da imagem “infragant”. Se uma mulher chora e é retrada de dentro de um armário-esconderijo, enquanto seu possível amante é imobilizado por policiais, uma cadeira repousa sobre o chão. Este elemento visual parece ter um caráter mais alegórico do que utlitário; o punctum desta narratva diz respeito à queda e fracasso de uma relação humana. A cadeira, este objeto dissecado pelos mais diversos autores, de Platão e sua teoria do simulacro a Kosuth e sua obra-chave da chamada “arte conceitual”, é reutlizada por R. Pera em uma série de imagens e vertda em fantasma. Ela pode ser tanto um trono para um Tirésias vertdo em Deneuve quanto uma metáfora para a recusa ao sentdo ilustratvo de muita da produção contemporânea de arte. Aqui o espectador é colocado em uma posição de xeque em que, partndo da retna, volteará sobre os cômodos silenciosos deste espaço expositvo que tem uma casa no seu nome. Não há sucesso ou fracasso nesse contato entre homem e objeto, mas apenas seu próprio convite. Neste sentdo, parece ser possível aproximar os trabalhos desta exposição com as imagens criadas por Max Ernst, artsta que sempre aparece nas minhas conversas sobre arte com Renato. Citando as palavras de Argan quanto ao artsta alemão, “... não é o sonho que cria a imagem, e sim o inverso: a imagem se desenvolve no quadro por meio de um jogo complexo de associações alógicas”. Creio que nas imagens aqui apresentadas, esta frase também possa ser atribuída. Parte-se da experiência concreta, daquilo que o próprio Argan chama de “detritos da cultura burguesa” para se criar imagens que poderiam ser lidas, ao menos inicialmente, a partr de uma chave onírica. Percorrendo o espaço e esbarrando na repetção de certos elementos visuais, podemos apreender uma estrutura narratva não-linear. Outro objeto aqui apresentado me parece endossar essa leitura em diálogo com o surrealismo. Reinando sobre uma sala está uma janela com basculantes. Se toda a tradição da pintura no ocidente, ao menos desde o século XIV, é pautada na aceitação ou recusa da tela como contnuação do espaço interno, tal qual uma janela com sua perspectva, esta aqui apresentada não é dada a nenhuma contemplação para além dela mesma. Entreaberta, estátca, quase um ídolo pedindo a adoração do público e lembrando ao espectador sobre o próprio sagrado ato da observação, ela nos obriga ao confronto de sua literalidade. Ao mesmo tempo me pergunto: se esta janela não estvesse alavancada ao estatuto de arte, mas fosse um dado arquitetônico da própria galeria, manteríamos nosso olhar concentrado por muito tempo? Suponho que não e baseado nesta crença aproximo estes objetos artstcos aqui reunidos ao estranhamento diário de habitar um espaço novo. Sentado perante um computador e vendo camadas de objetos organizados atrás dele, começo a pensar sobre a lógica que imprimi a isto que agora chamo de lar. Ordem e sentdo inexistem nas coisas por si próprias, sendo atribuídas por aquele que habita ou, como no caso de qualquer texto, pelo autor.


Por essa trilha creio que a produção artstca de Renato Pera incite justamente um deslocamento do mundo pragmátco a fm de que o público, a partr da potência destas imagens, crie suspeitas. Estas podem se converter em narratvas ou não – o importante, me parece, é sairmos de nossos locais seguros. Ao fm, na ausência de certezas dentro da galeria, apenas nos restará a vaga confança no cair de toda a tarde acima de nossas miúdas existências. Raphael Fonseca Raphael Fonseca trabalha com história da arte, crítca e curadoria. Reside no Rio de Janeiro e cursa atualmente seu doutorado (UERJ). Contribui periodicamente para a revista ArtNexus.

Volteador-de-salão (para TS), 2013 Imagem digital, papel de parede

dimensões variáveis


The Endless, 2013 Instalação, madeira

27,5 m


O Cair da Tarde, 2013 Fotografa, impressão digital montada em caixa desenhada pelo artsta Realização: Renato Pêra (concepção e produção), Pedro Falcão (foto)

150x110x18 cm


O Cair da Tarde II, 2013 Fotografa, impressão digital montada em caixa desenhada pelo artsta Realização: Renato Pêra (concepção e produção), Pedro Falcão (foto)

150 x110x18 cm


Tirésias, 2013 Fotografa, impressão digital montada em caixa desenhada pelo artsta Renato Pêra (concepção e produção), Pedro Falcão (foto), Rodolfo Lima (modelo)

60x46x10 cm


Janela Basculante, 2013 Objeto, madeira, ferro e pintura

113x80x29 cm


O Jardim das Hispérides (Infragant), 2011 Imagem digital, impressão em papel fotográfco.

30x60 cm


O Jardim das Hespérides (Melancolia), 2013 Imagem digital, impressão em papel fotográfco

38x50,5 cm


este catálogo contem o registro fotográfco da exposição O Cair da Tarde, individual de Renato Pêra exibida na Casa Contemporânea no Período de 22 de Marco à 27 de abril de 2013.

Marcelo Salles curadoria

Raphael Fonseca texto critco

Márcia Gadioli Mari Winter Photograph registros fotográfcos

realização:

apoio:


O Cair da Tarde