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Vida* Filmes, shows, peças, exposição e a Parada no domingo celebram a diversidade sexual Salvatore Carrozzo salvatore.carrozzo@redebahia.com.br

As cores do arco-íris dão o tom do mês de setembro na cidade. O ápice da alegria – e do protesto também – será domingo, com a 11ª Parada Gay da Bahia. A concentração bafônica está marcada para as 10h – com apresentações de artistas e transformistas –, mas a abertura oficial será às 15h, com a presença luxuosa da madrinha deste ano, a senadora Marta Suplicy (PT–SP), que em 1995, quando era deputada federal, propôs o primeiro projeto de lei visando a parceria civil entre pessoas do mesmo sexo. É festa e protesto, tudo ao mesmo tempo. São dez trios elétricos, com música eletrônica, pop e ritmos caribenhos. Depois da Parada, a sambista Juliana Ribeiro faz show em palco montado em frente ao Teatro Castro Alves, no Campo Grande. No Pelourinho rolam três festas gratuitas, nas praças Tereza Batista, Quincas Berro d’Água e Pedro Archanjo com artistas como Aloísio Menezes, Viva Varjão e Viola de Doze. Mas, amanhã, véspera do desfile, já tem esquenta no Campo Grande. Diversos shows acontecem das 9h às 20h – veja programação completa em www.ggb.org.br. Em paralelo, rola no local a Feira da Diversidade e Negócios, com comercialização de vários produtos. O Grupo Gay da Bahia (GGB), que organiza a Parada, promove seminários e exposições de artes visuais em pontos como o Largo Dois de Julho e o Beco dos Artistas, no Garcia. Com 20 atrações, entre peças, filmes e espetáculos de dança, a programação do Gayboa ocupa a pauta do Teatro Gamboa Nova, nos Aflitos, até o fim do mês, aproveitando o bochicho na cidade. “Quanto mais falarmos, melhor. Assim, quem sabe, esse tema entre na cabeça das pessoas”, afirma Fernanda Paquelet, 37 anos, produtora do Gayboa.

Fernanda destaca a exposição de fotografias Boneca Sai da Caixa. O trabalho mostra anônimos fotografados em diversas edições da parada gay baiana pelo Labfoto, grupo da Faculdade de Comunicação da Ufba. Para quem ainda tem fôlego, é possível acompanhar os filmes do Festival Mix Brasil, o maior do país com produções ligadas à temática LGBTT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros). A programação, gratuita, segue até amanhã, na Sala Walter da Silveira, nos Barris. DUALIDADE Eventos culturais ajudam a diminuir barreiras, sobretudo entre heterossexuais, acredita Leandro Colling, 40, coordenador do grupo de pesquisa em Cultura e Sexualidade da Ufba. “A produção artística tem a capacidade de sensibilizar as pessoas de um modo que não passa pelo racional”. Há três meses, o grupo de pesquisa mantém no portal iBahia um blog para discutir tais questões. Colling defende que, apesar do lado festivo, a parada conserva o caráter político. “Temos de parar de ver a política do ponto de vista tradicional. As paradas são o maior movimento nesse sentido do mundo”, observa. Apesar de aplaudir as iniciativas, Colling faz algumas críticas ao modelo. Segundo o pesquisador, a ligação quase automática entre sexualidade e discussões sobre saúde acaba associando a comunidade LGBTT a doenças. Para ele, é preciso ir além. As críticas de Colling também são voltadas para a própria comunidade. “Muitos gays acham que héteros simpatizantes são homossexuais não assumidos. Isso é um equívoco brutal. E há o preconceito interno também, quando alguns gays resolvem criticar as ‘bichinhas fechativas’”, diz. Quem defende com todas as forças a parada, claro, é o seu organizador. “Existe uma tentativa de desqualificar a parada gay. É Carnaval, sim. É uma forma de protesto-corpo, e isso tem impacto político na sociedade. É ignorância não entender que um milhão de pessoas nas ruas é um protesto”, afirma Marcelo Cerqueira, presidente do GGB. Então, mãos para cima! Uma com o punho cerrado, outra com uma latinha de cerveja.

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CORREIO Salvador, sexta-feira, 7 de setembro 2012

ALEGRIA E PROTESTO Salvador recebe diversos eventos culturais com foco na diversidade sexual em setembro. Além de mostras de filmes, peças e exposições, destaque para a 11ª Parada Gay, domingo, no Campo Grande, numa mistura de festa e reivindicações

Cidade CULTURA MÊS DA DIVERSIDADE

Participantes da 8ª Parada Gay da Bahia passam pelo Forte de São Pedro, em 2009 AGNES CAJAIBA/DIVULGAÇÃO

DESTAQUES Parada Gay da Bahia Domingo, com saída às 15h do Campo Grande. Shows e aprentações no Campo Grande a partir das 10h g

A Parada Gay da Bahia é um Carnaval, sim. É uma forma de protesto-corpo, e isso tem impacto político na sociedade Marcelo Cerqueira, organizador da Parada Gay da Bahia

Feira da Diversidade e Negócios, amanhã, a partir das 9h, no Campo Grande g

Gayboa Exposições e peças no Teatro Gamboa Nova. Até dia 27. Ingressos: gratuitos ou R$ 20/R$ 10. Hoje e amanhã, às 18h e 20h, peça Bicha Oca, com Rodolfo Lima (SP) g

Festival Mix Brasil Filmes com témática LGBTT. Sala Walter da Silveira, nos Barris. Entrada franca. Até amanhã. Hoje, Vamos Fazer um Brinde, às 16h; Mostra Competitiva Brasil 2, com vários curtas – inclusive o baiano Joelma –, às 18h; Olhe Para Mim de Novo, às 20h g

Programação completa www.ggb.org.br (Parada Gay, seminários, performances, Festival Mix Brasil e festas) e www.teatrogamboanova.com.br (peças e exposições do Gayboa) g

Um dos registros da exposição Boneca Sai da Caixa, em cartaz no Teatro Gamboa Nova


CORREIO Salvador, sexta-feira, 7 de setembro 2012

PEÇA COM TEMÁTICA GAY EM LAURO DE FREITAS

Os atores Gleidson Figueredo e Geverton Lima protagonizam a peça E se Meus Pais Soubessem?, que mostra o drama de um jovem que se descobre gay e se apaixona por um amigo, ainda confuso com sua sexualidade. A apresentação será na próxima sexta-feira, no Centro de Cultura de Lauro de Freitas, na praça João Thiago dos Santos. A direção é de Uarlen Becker.

VIP

TELEVISÃO

Encontro do Balé Folclórico da Bahia com os Maori, na Nova Zelândia >> pág. 28

Amor Eterno Amor chega ao fim hoje com triunfo do bem sobre o mal >> pág. 29

colorida... EVANDRO VEIGA/ARQUIVO CORREIO

Vida | 27

Entre outros pontos, a Parada Gay da Bahia reivindica a aprovação da lei que criminaliza a homofobia, ou seja, o ódio a gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros

...realidade cinza

Apesar da alegria característica das manifestações da comunidade LGBTT – Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais –, sempre há espaço para protestos. E por vários motivos, inclusive ataques homofóbicos, que muitas vezes acabam em mortes. Segundo o antropólogo Luiz Mott, 66 anos, fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB), até ontem, 22 vítimas foram assassinadas na Bahia por crimes ligados à homofobia neste ano. Em todo o país, foram 219 mortes no mesmo período. “Há cinco anos, a Bahia é o estado com o maior número desses crimes. É uma vergonha. São Paulo, até agora, contabiliza 28 mortes, mas tem uma população três vezes maior. Infelizmente, as políticas públicas (para a comunidade LGBTT) não estão sendo efetivas aqui na Bahia”, afirma o antropólogo. VIOLÊNCIA Presidente do GGB e organizador da Parada Gay da Bahia, Marcelo Cerqueira, 38, lembra sobre a importância da aprovação do projeto de lei que criminaliza a homofobia, que atualmente tramita na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado Federal e aguarda votação no Congresso Nacional. “Nossa meta é que nenhuma pessoa seja morta por conta de sua orientação sexual. A homofobia não mata apenas os gays. Mata lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros. A homofobia mata, inclusive, os héteros”, afirma Marcelo. No dia 24 de junho, os irmãos gêmeos José Leandro da Silva e José Leonardo da Silva, 22, estavam

abraçados em uma rua de Camaçari e foram agredidos. José Leonardo, heterossexual, morreu no local. Outro caso similar ocorreu em 2011, em São João da Boa Vista, no interior de São Paulo. Um homem teve uma orelha decepada depois de ser agredido por um grupo de jovens. Ele estava abraçado ao filho de 18 anos, o que motivou a ira dos agressores. O maior entrave para a aprovação do projeto de lei que criminaliza a homofobia, na opinião de Marcelo, é a forte oposição contrária das bancadas conversadoras do Congresso. “Temos de recorrer, cada vez mais, ao Judiciário, não dá para depender do Legislativo. Qualquer país civilizado classifica a homofobia como crime”.

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A homofobia no Brasil em números

22

pessoas já foram mortas na Bahia este ano por crimes homofóbicos. O estado liderou as estatísticas nos últimos cinco anos, segundo Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia

219

mortes foram registradas no país em 2012 por ódio aos GLBTT ou à troca de afeto entre pessoas do mesmo sexo. Em junho, José Leonardo da Silva morreu após ser agredido na rua por estar abraçado ao irmão em Camaçari

DIVULGAÇÃO

Maior festival gay do país exibe filmes até amanhã, inclusive curta baiano premiado

O curta paulista Assunto de Família é um dos títulos do Festival Mix Brasil, na Sala Walter

Quem está de volta a Salvador após cinco anos é o Festival Mix Brasil, o maior do país em exibição de filmes ligados à temática LGBTT. A 20ª edição acontece em novembro, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Parte da programação está sendo exibida em Salvador, de graça, até amanhã, na Sala Walter da Silveira, nos Barris. Hoje, serão exibidos dois longas: Vamos Fazer um Brinde, às 16h, sobre amigos que se reencontram no Reveillon para lembrar suas histórias; e Olhe Para Mim de Novo, às 20h, que conta a história de um transexual casado com uma mulher e que busca a realização de seu maior sonho: ter um filho. Antes disso, às 16h, rola sessão de curtas, entre eles o baiano

Joelma, de Edson Bastos, premiado pelo voto popular na edição paulista de 2011. Baseado em fatos reais, trata das dificuldades enfrentadas por uma transexual do interior. A temática dos filmes tem ficado mais diversificada, observa o diretor artístico do festival, João Federeci, 49 anos. “Antes, as produções falavam muito sobre os direitos dos gays. Depois, passaram a abordar as relações homoafetivas. Agora, as questões são outras, como a vontade de adoção de filhos. Sinto uma evolução”, afirma. “Mas ainda abordam os ataques homofóbicos, claro”, conclui. Há coisas que, infelizmente, ainda não mudaram.


Cultura: Mês da Diversidade