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Editorial. Cursos profissionais, des /emprego. Fernando Namora e o modelo biopsicossocial da saúde. As estórias da Nina. Objectivos do Milénio. De fora da escola…sobre o trabalho psicossocial. Actividades TAP. Formação em Educação Especial. EDITORIAL

No ano de 2009, um artigo do Jornal de Notícias informava que «a taxa de empregabilidade dos cursos profissionais vai desde os 75% nos seis meses subsequentes ao final do curso até aos 90% no primeiro ano»; além disso referia-se que «convinha que se formassem ainda mais alunos para dinamizar o tecido económico e social das empresas que, sem jovens qualificados, não terão grandes possibilidades de afirmação internacional». Na mesma notícia, Luís Capucha, presidente da Agência Nacional para a Qualificação (ANQ), considerava que, além da empregabilidade, os cursos profissionais também contribuem para a redução da taxa de abandono escolar. «Nos últimos três anos, graças à via vocacional, o sistema conseguiu reter mais de 20 mil alunos em idade escolar.» (22/1/09, Jornal de Notícias) Os cursos profissionais surgem, nesta perspectiva, como uma nova via para a qualificação (de nível médio) dos jovens, que o mercado de trabalho parece acolher positivamente, e também como uma forma de criação de vias de diferenciação pedagógica capazes de manter na escola, dando-lhes percursos de aprendizagem bem-sucedidos, os jovens que de outro modo estariam condenados a serem excluídos para fora da escola. Pode contudo argumentar-se que este tipo de diferenciação leva os alunos a ficarem excluídos dentro da escola (os «excluídos do interior», nas palavras de Bourdieu), em relação aqueles alunos que seguem percursos escolares mais académicos e com maior prestígio (esta questão, que é fundamental quando nos preocupamos com a igualdade, não apenas de acesso, mas também de sucesso, é sem dúvida a cruz do ensino profissional e também de qualquer outro tipo de diferenciação escolar, nomeadamente o da educação especial).

Inscrições abertas para o ano lectivo 2011-2012 A oferta educativa da Escola Secundário Fernando Namora, no âmbito do ensino profissional, vai oferecer três cursos, um dos quais é o curso profissional de técnico de apoio psicossocial; as informações sobre o curso (e também sobre os outros cursos) podem ser obtidas junto da psicóloga da escola, dos directores de turma do ensino básico ou dos directores de curso de cada um dos cursos (ver contactos acima). Curso Profissional de Técnico de Apoio Psicossocial

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Um estudo da socióloga C. Pereira (2008) sobre a inserção profissional de jovens do ensino profissional mostra que é possível traçar três percursos de emprego nesta área do ensino: um percurso de precariedade, que atinge sobretudo as raparigas dos cursos da área das ciências empresariais (comércio), com ordenados inferiores a 400 euros; um percurso de estabilidade, próprio de alunos de algumas áreas técnicas ligadas às engenharias e aos serviços pessoais e sociais (por exemplo, apoio psicossocial, electrotecnia), com ordenados entra os 400 e os 800 euros; um percurso ascendente, próprio de alguns cursos da área da informática, com ordenados superiores a 800 euros. Neste estudo, conclui-se ainda que, nos cursos profissionais, os formandos arranjam o seu primeiro emprego nos primeiros três meses após terminarem o seu curso. Dado que muitos formandos do ensino profissional são alunos que, sem esta via de ensino, não estariam na escola ou teriam percursos de insucesso repetido, parece concluir-se que, pelo menos em algumas áreas, a formação qualificante permite percursos de integração profissional e social que contribuem para uma vida melhor. Reforçando a importância da qualificação, um estudo da OCDE (2004) refere que Portugal é um dos países em que ter educação é mais compensador – um trabalhador sem o ensino secundário ganha, em média, menos 40% do que um trabalhador que tenha obtido essa escolaridade; refere ainda que «mais 1 ano de escolaridade está associado a um aumento entre 1,1 e 1,7 pontos percentuais nas taxas de actividade e emprego.» Neste sentido, os cursos profissionais de nível secundário permitem o acesso a empregos mais bem remunerados Um outro factor fundamental para a empregabilidade é, como refere Manuel Prisco, de uma outra natureza; é um factor de ordem pedagógica e organizacional: a saída da escola, que «implica a audição e a comunicação estreita com as empresas, a adequação permanente dos programas e o acompanhamento personalizado ao aluno, da formação em contexto de trabalho. Não basta dar conhecimentos técnicos. O conhecimento técnico rapidamente se adquire e rapidamente perde actualidade. É preciso leccionar com o objectivo de dar as competências culturais e relacionais ao aluno, para que este se integre com facilidade.» O jornal psicossocial procura mostrar neste número como é que, no âmbito do curso de técnico de apoio psicossocial, estamos a tentar desenvolver este programa, que nos parece correcto, porque «a nossa preocupação sãos os alunos, pois em primeiro lugar a escola trabalha

para eles, com uma perspectiva de oportunidades no futuro.» FERNANDO NAMORA E O MODELO BIOPSICOSSOCIAL DA SAÚDE. Fernando Namora trata, em algumas das sua principais obras (por exemplo: O homem disfarçado, Domingo à tarde e Retalhos da vida de um médico), os problemas da saúde a partir de uma perspectiva biopsicossocial, cujo interesse para um técnico de apoio psicossocial gostaríamos de destacar aqui; a leitura das obras de Namora (nomeadamente as que acima referimos), para além do seu valor estético e lúdico, tem também um valor pedagógico e profissional. Durante o século XX, os médicos começaram por encarar a doença de acordo com o modelo biomédico da medicina, para o qual as doenças advêm do exterior do corpo, invadindo-o e causando mudanças físicas dentro do mesmo, ou têm origem em mudanças físicas internas involuntárias. Tais doenças são causadas por um variado número de factores, incluindo desequilíbrios químicos, bactérias, vírus e predisposição genética. Neste sentido, os indivíduos não são considerados responsáveis pelas suas doenças: são vistos como vítimas de uma força externa que provoca mudanças internas. O tratamento da doença, que apenas cabe ao médico, é feito em termos de vacinação, cirurgia, quimioterapia e radioterapia, todas com o objectivo de mudar o estado físico do corpo. De acordo com esta perspectiva, ainda frequente entre alguns médicos, a doença pode ter consequências psicológicas, mas não causas psicológicas, pelo que não se consideram os factores psicológicos como tendo relevância causal na evolução da doença. Fernando Namora rejeita claramente este modelo de conceber a saúde e a doença. Com efeito, Namora, no seu contacto com os doentes, em situações sociais, económicas e psicológicas frequentemente extremas (pobreza, exclusão, sofrimento), apercebe-se de que os factores psicossociais são determinantes da saúde com um peso igual (e em certas condições específicas, com um peso maior) aos determinantes biológicos e físicos; tal como Samuel Butler antevia na sua utopia satírica Erewhon, a doença não é (sempre e só) um desarranjo do corpo que nos acontece, e para o qual o nosso comportamento nada contribui, mas é (também) uma consequência das nossas acções, é algo de que somos (em parte) responsáveis, seja pela nossa acção pessoal, seja pela acção social que nos condiciona. A doença é «tragédia e também cobiça, fraude, comércio» (Domingo à tarde, 187); a doença é também consequência da desigual-

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dade e da exclusão sociais e económicas, da falta de acesso ou de capacidade para gerir o acesso oferecido, mas é também consequência dos nossos estilos de vida inadequados, seja porque os escolhemos, seja porque a sociedade em que vivemos nos empurra para eles.

saiba cada um de nós olhar-se nesse espelho sem repulsa ou autocomiseração, mas com esperança e solicitude.

A prática médica de Fernando Namora leva-o a perceber que a doença é causada da por uma multiplicidade de factores e não por um único factor causal; tenta afastar-se de um simples modelo linear de saúde e sustenta que a doença pode ter origem numa combinação de factores biológicos (por exemplo, um vírus), psicológicos (por exemplo, comportamentos, crenças) e sociais (por exemplo, o emprego). Esta abordagem reflecte o modelo biopsicossocial de saúde e doença; trata-se de uma tentativa para integrar o psicológico («psico») e o meio ambiente «social») no modelo de saúde biomédico tradicional («bio»). Deste modo, a pessoa, no seu todo, deve ser tratada como tal e não apenas ao nível das mudanças físicas que se deram, podendo isso tomar a forma de uma mudança de comportamento, encorajando mudanças nas crenças, nas estratégias de lidar com a doença e na adesão às recomendações médicas, pois «as drogas de nada valem se o doente não se dispõe a acreditar nelas» ou se nele «não existe uma vontade em vencer a doença» (Retalhos da vida de um médico II, 236). Em consequência, os factores psicológicos são vistos não só como possíveis consequências da doença, mas também como um contributo para a sua etiologia.

«O que me deixa perplexo é ficar a dever os meus conhecimentos sobre o mundo e os outros a pessoas com quem nunca pude comunicar. A não ser que sejam conhecimentos inatos, mas parece-me pouco provável. Um conhecimento inato da minha mãe, por exemplo, será concebível? Para mim, não.»

Neste sentido, Fernando Namora, o médico, revela-se um observador atento à importância da relação de ajuda, ao papel que a qualidade da relação do cuidador com o doente pode ter quer para o tratamento da doença, quer para tratamento da dor e do sofrimento. Os doentes (terminais, devido a doenças cancerígenas) esperam do médico «cúmplice da doença, da morte ou das ilusões, não as drogas, em que já nem acreditavam, mas uma espécie de ambígua solidariedade que os fizesse sentir apoiados» (Domingo à tarde, 12), pois «quando alguém sofre sozinho, nem sempre pode com o peso do seu sofrimento» (idem, 156). Em conclusão, Fernando Namora compreende, e escreve-o de uma forma dificilmente superável, o princípio fundamental à relação de ajuda que, no curso de técnico psicossocial, procuramos ensinar a desenvolver - as pessoas que sofrem, que estão doentes, que necessitam de apoio por esta ou aquela razão são «Ilhas. Ilhas isoladas e um braço estendido, a fazer de ponte, por onde se esperava que passasse alguém (ibidem, 141); ajudar é ser capaz de atravessar essa ponte, apesar dos medos, da repulsa, do estigma, do preconceito e, muitas vezes, da falta de gratidão; mas na ponte não somos só nós quem atravessa, é também o outro cuja face nos olha como num espelho;

AS ESTÓRIAS DA NINA

Samuel Beckett, O inominável. As estórias das mil e uma noites, narradas por Xerazade (na voz habilidosa de um narrador), apresentam aos seus leitores um modelo extremo da arte de contar: Xerazade morrerá se não contar uma estória que agrade ao Rei, dia a dia, até que mil e uma noites passem; uma estória que agrade é uma estória de que o Rei goste, seja pelo seu conteúdo, seja pelo modo como é contada. Xerazade, a leitora que arrisca a sua vida todos os dias por uma estória (e algo mais, mas isso só será revelado a quem escuta a leitora), ganha o desafio do Rei, e também o desafio da eternidade, de cada vez que cada um de nós abre o livro e escuta o narrador anunciando que, «naquela primeira noite, Xerazade contou a seguinte estória…» Mas Xerazade ganhou algo mais: ganhou o reconhecimento do Rei, que lhe diz «tu instruíste-me, com discrição e sabedoria, e fizeste-me ver os acontecimentos que sucederam a outros, e considerar atentamente as palavras dos reis, e dos povos passados, e as coisas maravilhosas e dignas de reflexão que lhes aconteceram. E eis que, verdadeiramente, depois de te ter escutado durante estas mil e uma noites, me encontro com uma alma completamente diferente, e alegre, e plena de gozo de viver.» A experiência do Rei é a experiência de todas as

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crianças que escutam, primeiro, a voz que cuida e provê pelas suas necessidades, uma voz ainda sem rosto que, pouco a pouco, se torna a voz da mãe e uma fala dual, o maternalês; mais tarde, essa fala torna-se na língua do outro significativo, que são os pais, os avós, as amas, e, hoje em dia, as educadoras; é nessa língua materna que a criança abre o seu ouvido (ou as suas mãos ouvintes, no caso de ser surda) para aprender sobre o mundo e os outros, como nos diz Beckett. De algum modo, dado que a criança vive grande parte da sua vida na escola, as educadoras são a voz ou as mãos que desocultam o mundo e os outros, na sua complexidade por vezes tão opaca; saber utilizar o poder dessa voz, no cuidado, na solicitude, na escuta (sim, podemos escutar o outro quando utilizamos a nossa voz para o ajudar a dizer ou a mimar o que ele ainda não é capaz de fazer por si só, como ensinou Vigotski), é uma prova de excelência no trabalho pedagógico com as crianças. Mas a voz, quando trabalhamos com crianças, pode tornar-se mais eficaz e atraente quando se visualiza, ou seja, quando somos capazes de ligar a voz a imagens ou a gestos falantes e expressivos, evidenciando no espaço tridimensional o que a palavra envolve apenas no som; as ilustrações dos livros infantis são uma concretização deste princípio; as estórias narradas através do recurso a fantoches ou a outros bonecos articulados, também; as estórias narradas através de construções dramáticas, com actores vários, ou através da arte solista do contador de estórias, são ainda uma outra forma de concretizar o mesmo princípio. No Jardim de Infância do Centro Educativo de Condeixa, a educadora Fernanda Raposo (a educadora Nina, como prefere ser chamada), tem desenvolvido um projecto inspirado numa ideia de Clotilde Hammam, os tapetes contadores de estórias, que é também uma aplicação do princípio acima referido; a ideia recupera uma tradição popular, comum a diversos povos, que utiliza tapetes ou painéis de tecido como cenário para apoiar a narração da estória; uma ilustração clássi-

ca deste método é o mito grego de Filomela que, raptada pelo cunhado, violada e impedida de falar (porque o violador lhe arrancou a língua), teceu e ilustrou num grande tapete toda a sua história, de modo a contar à irmã a violência que sofrera e obter justiça. Clotilde Hamman desenvolveu a sua ideia como um projecto de incentivo lúdico à leitura, em parceria com o seu filho, o director de teatro Tarak Hammam. Há mais de vinte anos, eles criam tapetes, contam histórias e ministram estágios de formação em França. No Centro Educativo de Condeixa, a educadora Nina adaptou às condições locais este projecto e, construindo os tapetes e os bonecos de tecido que lhe permitem apoiar a narrativa, figura no tecido a magia de Xerazade; cada tapete recreia, no espaço tridimensional, a acção narrativa de uma estória (as imagens que ilustram este artigo referem-se a algumas dessas estórias). Trata-se de um projecto que, pela sua relevância para o trabalho com crianças e pela qualidade da adaptação que a educadora Nina realizou desta tradição narrativa, o psicossocial não podia ignorar e tinha de divulgar; os formandos do curso TAP realizaram uma visita guiada à biblioteca do Centro Educativo, local onde estão guardadas os tapetes contadores, e assistiram a uma sessão com crianças, actividades que foram orientadas pela educadora Nina. Para além deste projecto, a educadora Nina mostrou-nos alguns livros especiais por si criados: são livros feitos de tecido e cartão duro, que contam uma estória (já existente ou criada pela autora) através de texto, desenho e imagens tridimensionais em tecido; o psicossocial gostou particularmente, devido ao seu alcance pedagógico, do livro «Os tentilhões de Darwin», que procura ensinar às crianças, de uma forma elementar, a teoria da evolução. Saber contar uma estória é uma actividade que, sendo lúdica e pedagógica, é também algo cujas consequências para o desenvolvimento cognitivo, afectivo e relacional da criança podem ser cruciais; existir alguém que, numa escola, o faz bem, é um motivo de contentamento para alunos e pais.

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OBJECTIVOS DO MILÉNIO Nos últimos anos do século XX realizaram-se diversas Conferências e Cimeiras Internacionais, no âmbito da Organização das Nações Unidas e tendo por orientação os princípios básicos das Declaração Universal do Direitos do Homem. Essas Cimeiras trataram diversos temas: da população ao ambiente, passando pelo desenvolvimento social, pelos direitos humanos, pelos direitos das mulheres e dos deficientes, pelos direitos da criança, pelo problema do envelhecimento da população, do racismo e xenofobia. Em consequência destas iniciativas, a comunidade internacional, confrontada com o processo de globalização económica, social e cultural, comprometeu-se a promover o desenvolvimento e a combater as desigualdades sociais, os diferentes tipos de discriminações, a degradação ambiental, a insegurança e a pobreza extrema, de modo a promover a criação de um mundo mais equitativo e sustentável, no qual a dimensão económica, social e ambiental possam relacionar-se de forma harmoniosa e sejam postas ao serviço de todos os seres humanos de uma forma justa. No decorrer dessas conferências, as diversas nações participantes construíram alguns consensos sobre os problemas mais graves que afectam a humanidade, nomeadamente a erradicação da pobreza extrema, a qual acarreta consequências graves para todo o mundo, nomeadamente para a qualidade de vida dos afectados e também, a nível global, para a própria segurança mundial. A mais importante destas Cimeiras foi a Cimeira do Milénio, que se realizou na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2000, num momento crucial de grandes transformações mundiais, consequência, em grande parte, do crescente movimento de globalização, com todas as consequências que lhe são inerentes e que afectam de forma diferenciada os países. A decisão mais marcante desta Cimeira foi o estabelecimento, pelos estados presentes, de um compromisso: reduzir o número de pessoas a viver com menos de 1 dólar (USA) por dia, até 2015, apresentando metas específicas a atingir este importante objectivo global. Além deste objectivo geral, os estados comprometeram-se também com oito outros objectivos,

os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, que são os seguintes: a erradicação da pobreza extrema e da fome, a educação primária universal, a promoção da igualdade entre sexos e reforço do papel da mulher, a redução da mortalidade infantil, a melhoria da saúde materna, o combate ao HIV/SIDA, à malária e a outras doenças, o assegurar a sustentabilidade ambiental, o desenvolver uma parceria global para o desenvolvimento. (Fonte: http://www.ipad. mne.gov.pt/index .php?Itemid=162 &id=131&option= com_content&task=view, consultado em 5/4/2011; texto adaptado)

No âmbito das actividades que, nas escolas portuguesas, têm sido realizadas acerca destes objectivos, o corso TAP desenvolveu duas actividades, uma no âmbito da expressão plástica (instalação no átrio da escola, da responsabilidade da formadora Dina Ferreira) e outra no âmbito da expressão dramática (quadro dramático a partir de textos de Fernando Namora, que tratam alguns dos problemas visados nos objectivos do milénio, da responsabilidade da formadora Madalena Almeida); ambas as actividades contaram ainda com a participação da disciplina de Animação Sociocultural e de Psicologia (textos e organização). Um vez que não nos será possível analisar aqui todos os objectivos, escolhemos a erradicação da pobreza como objecto de reflexão. O que é exactamente um pobre? À primeira vista, pobre é alguém que não consegue satisfazer as suas necessidades básicas, nomeadamente as necessidades de alimentação e de segurança (pobreza extrema); contudo, será que a pobreza não envolve também necessidades de carácter social e psicológico? Amartya Sen, prémio Nobel da economia, considera que a pobreza resulta da não satisfação das necessidades anteriormente referidas, mas também da incapacidade e da falta de habilidade que impede as pessoas pobres de obterem o que o que necessitam; em consequência, o combate à pobreza não passa por oferecer mais dinheiro e mais comida, mas sim por fomentar a educação e o desenvolvimento das pessoas pobres, dando-lhes ferramentas que permitam o seu empoderamento; mais recentemente, Sen observou

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que a inexistência de condições efectivas para o exercício da liberdade das pessoas é também um factor que leva à pobreza (uma pessoa pobre não tem liberdade de escolha). A perspectiva de Sen ajuda-nos a colocar o problema da pobreza numa perspectiva psicossocial; a pobreza não resulta, por vezes, da inexistência de recursos materiais numa dada comunidade ou sequer da falta de apoios sociais – a pobreza resulta do facto das pessoas não estarem habilitados a utilizar correctamente os recursos disponíveis ou a terem capacidades para recorrer aos serviços sociais existentes (por exemplo, não saber ler ou escrever). O técnico de apoio psicossocial tem aqui um papel fundamental: ele pode ajudar as pessoas a adquirirem as capacidades e as habilidades que lhes permitam sair de situações de pobreza, pois a sua função é precisamente contribuir para o empoderamento (empowerment) das pessoas e das comunidades (esta ideia explicita algo que um velho provérbio chinês já diz: se queres ajudar um homem com fome, não lhes ofereças peixe, ensina-o a pescar). De fora da escola… sobre o trabalho psicossocial. Um testemunho de uma formanda do CNO. Actualmente, faço parte de um projecto de reabilitação psicossocial de pessoas com doenças mentais, como monitora. Este projecto dá pelo nome de «A Quinta das Romãzeiras» e tem como objectivo desinstitucionalizar as utentes, dando-lhes a hipótese de viver num meio com características familiares (nesta unidade de saúde temos apenas utentes do sexo feminino). Esta quinta é constituída por quatro casas de madeira; em cada casa irão viver cinco utentes com deficiência mental, ligeira ou moderada e pessoas doentes de psiquiatria. Em Junho de 2002, tivemos uma pequena formação sobre como conviver com as utentes de psiquiatria, com uma duração de 6 horas, tendo como formador o Dr. Paulo Santos. Nesta formação foi-nos aprendemos que cada pessoa é única e que a maneira de falar com uma utente pode não ser a mesma que devemos utilizar com outra. Temos que respeitar as pessoas na sua singularidade e tratá-las como adultas, não como crianças e também temos de saber dizer não com firmeza, quando necessário. Esta formação ajudou-me a relacionar melhor com as utentes. Recordo-me que, no final, tivemos uma sessão de relaxamento, em que tínhamos o som das ondas do mar como música de fundo.

Todas as Terças-feiras à tarde temos reuniões da equipa técnica: psicólogo, terapeuta ocupacional, assistente social e enfermeiro responsável pelo projecto, monitora responsável por cada grupo e utentes. Estas reuniões são dirigidas pelo coordenador do projecto, neste caso o terapeuta ocupacional. Nestes momentos todas as utentes têm oportunidade de falar. É nesta altura que devem tirar dúvidas, contar como foi a semana e informar se está tudo bem, entre elas e as colegas ou nas unidades onde vão executar as suas tarefas. Também é nestas reuniões que, como monitora, eu devo informar a equipa sobre como estão a ser cumpridas as tarefas domésticas, se existiu algum conflito, entre outros assuntos. Normalmente uma questão que abordo com frequência nas reuniões é sobre a alimentação das utentes, que é um pouco complicada de controlar, facto compreensível, porque as utentes vieram de unidades onde não tinham a alimentação à disposição e aqui têm tudo ao seu dispor, ou seja, tem autonomia para gerir a sua alimentação. Mas, por vezes, como ainda não estão habituadas, não têm noção das quantidades que devem utilizar. Para além destas reuniões semanais, temos todos os meses, nas primeiras quintas-feiras, uma reunião entre a equipa técnica, os mesmos elementos, o psiquiatra responsável pelo projecto e as monitoras. Numa destas reuniões foi discutida a ida das utentes à praia, no Verão, e a forma de lidar com determinado tipo de doentes, por exemplo, doentes bipolares e doentes esquizofrénicos. As doentes bipolares, para mim, são as mais complicadas para lidar, embora, não seja fácil lidar com qualquer doença psiquiátrica. As doentes bipolares são pessoas que tanto podem estar nos oito como nos oitenta, como se costuma dizer, isto é, na fase depressiva ou maníaca. São bastante impulsivas e não gostam de ser contrariadas, pois, no entender delas, têm sempre razão. Quando estão na fase depressiva, desleixam-se com a higiene, desinteressam-se facilmente de actividades que gostavam e ficam com pensamentos negativos e com sentimentos de culpa. Na fase maníaca, sentem que são as melhores, ficam mais activas, mais alegres, por vezes exageradamente, mostram mais amor-próprio, visual mais arrojado e a tendência para consumir em excesso, por vezes, coisas desnecessárias. Os técnicos ensinaram-nos que devemos moldar um pouco o nosso comportamento a estas utentes, não fazendo exigências directas, mas devemos privilegiar a negociação, por exemplo, no caso de uma utente não gostar de fazer as suas tarefas domésticas, damos-lhe outras

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tarefas que substituam o que ela não quer fazer. Estas pessoas gostam de liderar o grupo, pois no entender delas, sabem mais e são mais importante que as outras. As doentes esquizofrénicas são desconfiadas, pensam que estão sempre a falar mal delas e que lhe querem mal, têm momentos de delírio. Assim, para estas pessoas é complicado executar as suas tarefas diárias, desde a higiene, às tarefas domésticas, pois gostam de estar no seu canto, sossegadas, sem conversar, isolando-se. Não reagem emocionalmente e no geral custa-lhes concentrar nas tarefas que lhe são atribuídas, achando tudo muito complicado. São pessoas que necessitam de muita atenção, e tenho que as incentivar para que o seu dia-a-dia seja mais gratificante. Carla Paulo (formanda no CNO da Escola Fernando Namora) ACTIVIDADES TAP NO 2º PERÍODO No segundo período, o curso TAP realizou diversas actividades, que culminarão com as actividades com que participamos no Dia do Patrono; todas estas actividades se inserem, de algum modo, na nossa formação em contexto de trabalho, pois, mesmo aquelas actividades que visaram desenvolver competências do âmbito cognitivo, foram feitas de modo a serem aplicáveis na nossa actividade profissional, sem descurar a possibilidade de prosseguir os nossos estudos no ensino superior. Neste momento, há pelo menos 40% de formandos que querem seguir esta via, pois a experiência do curso levou-nos a acreditar nas nossas possibilidades, a acreditar que podemos alcançar um nível de qualificação maior. A primeira actividade decorreu na Casa de Saúde Rainha Santa Isabel, realizou-se na modalidade de oficina de formação, no âmbito da disciplina de psicopatologia, com três sessões de 90 minutos e foi dinamizada pelos psicólogos clínicos Paulo Santos e Lúcia Carvalheira; os assuntos tratados foram a depressão, a doença bipolar e a esquizofrenia (suas características, prevalência, etiologia, tratamento, etc.); tivemos também uma sessão na qual participou uma doente bipolar, que nos falou da doença na perspectiva do próprio doente. A segunda actividade realizada foi a Visita de Trabalho ao Hospital Sobral Cid, também no âmbito da disci-

plina de psicopatologia; esta actividade, que visava proporcionar aos formandos o conhecimento do funcionamento de uma unidade hospitalar pública de saúde mental, sobretudo na área da reabilitação psicossocial; destacamos a sessão realizada pelo director de serviços desta área, o doutor António Bajouco, que esclareceu os formandos sobre alguns aspectos importantes da saúde mental e da reabilitação e nos fez sentir a utilidade do curso que frequentamos para a área da reabilitação, que não tem profissionais qualificados com o nível de qualificação dada pelo curso; ficámos contentes com esta perspectiva, pois ela indica que há necessidade de profissionais qualificados nesta área, ou seja, há trabalho para nós! A terceira actividade desenvolvida, no âmbito das disciplinas de psicologia e da animação sociocultural, que integrou dois momentos distintos, as actividades «Cuidar do Idoso» e «Um dia de trabalho no lar da Santa Casa»; estas actividades, que decorreram durante um dia (dia normal de trabalho de técnico de apoio psicossocial), visavam dar aos formandos formação em contexto de trabalho, objectivo que foi alcançado com êxito, sobretudo porque as técnicas superiores da instituição (Técnicas de Serviço Social e Psicólogas) organizaram o dia de trabalho de tal modo que os formandos realizaram tarefas diversificadas, algumas das quais tiveram um carácter técnico relevantes (realização de entrevistas a idosos, aplicação de testes psicológicos). A quarta actividade realizada foi uma visita de estudo à casa da música e ao museu nacional soares dos reis; incluiu também um passei de eléctrico pela zona ribeirinha do Porto e uma visita à livraria Lello. A actividade, que procurava cumprir alguns objectivos das disciplinas da área de expressões e de animação sociocultural, cumpriu todos os seus objectivos, nomeadamente a experiência de termos um guia que, em vez de nos ajudar a ver uma exposição ao nosso nível de competência, nos encarou como estudantes de artes; felizmente as obras de arte não dependem dos (maus) guias para serem apreciadas; tivemos também, felizmente, felizmente, um bom guia na casa da Música. A quinta actividade foi uma sessão de formação sobre os Tapetes Contadores de Histórias, realizada no âmbito da disciplina de animação sociocultural, pela educadora Fernanda Raposo; assistimos ainda a uma demonstração ao vivo de uma das suas estórias; esta actividade, que nos deu uma perspectiva muito positiva acerca do trabalho com crianças, fica certamente como um exemplo

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do que, se viermos a trabalhar com crianças, gostaríamos de fazer (ver artigo neste jornal sobre as estórias da educadora Nina). A sexta actividade, organizada no âmbito da disciplina de animação sociocultural, decorreu no lar de idosos da Santa Casa e, ao contrário da actividade que tínhamos feito anteriormente (ver acima), visou dinamizar um evento de ocupação dos tempos livres; preparámos, com a nossa formadora de matemática, a professora Alda Palmeirão, alguns jogos, que depois jogámos com os utentes; com a nossa formadora de expressão plástica, professora Dina Ferreira, preparámos uma oficina de pintura em tela, e levámos os idosos a colocar na tela em branco a sua imaginação; finalmente, com o nosso formador de Música, professor Ricardo Gabriel, apresentámos duas músicas populares, para cantar com todos os utentes. A sétima actividade realizada, que culminou o trabalho de diversas sessões sobre empreendedorismo na escola, foi o dia de empreendedor, que decorreu no mercado municipal e na qual procurámos aplicar algumas ideias sobre a criação de negócios próprios; esta actividade, que decorreu no âmbito da disciplina de TIC, da professora Laurentina Soares, resulta de uma parceria da nossa escola com a Câmara Municipal de Condeixa. Por fim, as actividade que vamos ainda desenvolver no Dia do Patrono; no âmbito das disciplinas de expressão dramática e de animação sociocultural, vamos apresentar um quadro dramático a partir de textos de Fernando Namora, na abertura do Dia do Patrono e na Tertúlia do CNO, que decorrerá em Cernache; no âmbito da disciplina de expressão plástica, vamos realizar uma oficina de pintura em chacota e em tela aberta à comunidade local; vamos também estar no stand de divulgação dos cursos profissionais. Por fim, vamos apresentar duas actividades no âmbito dos Objectivos do Milénio (ver artigo específico neste jornal) FORMAÇÃO CERTIFICADA EM EDUCAÇÃO ESPECIAL. O curso Profissional de Apoio Psicossocial organiza, em colaboração com o Centro de Formação Nova-Ágora, uma acção de formação, creditada, na modalidade de Oficina de Formação, com 15+15 horas (1, 2 créditos) no âmbito da educação especial, aberta aos professores do Agrupamento de Escolas de Condeixa; esta actividade visa desenvolver a formação profissional dos docentes, sobretudo os do curso TAP, na área da educação especial, uma vez que esta é uma das possíveis áreas de trabalho dos técnicos de apoio psicossocial e, em virtude da organização actual da educação especial, é uma área claramente deficitária em auxiliares especializados no acompanhamento de crianças com necessidades educativas especiais de carácter permanente; as inscrições na acção já estão abertas.

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