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Chocolate, filme de Lasse Hallstron FICHA

FICHA TÉCNICA

TÉCNICA

TITULO ORIGINAL: Chocolat. ANO: 2000. PAÍS DE ORIGEM: Estados Unidos. IDIOMA: Inglês. DURAÇÃO: 105 minutos. REALIZAÇÃO: Lasse Hallström. ELENCO: Juliette Binoche (Vianne Rocher); Lena Olin (Josephine Muscat); Johnny Depp (Roux); Judi Dench (Amande Voizin); Alfred Molina (Conde de Reynaud); Peter Stormare (Serge Muscat); Carrie-Anne Moss (Caroline Claimont); Leslie Caron (Madame Audel); John Wood (Guillaume Bierot); Hugh O'Conor (Pere Henri) e Victorie Thivisol (Anouk Rocher). RESUMO DO FILME. Vianne Rocher (Juliette Binoche) chega com a filha, a narradora do filme, Anouk (Victoire Thivisol), a uma vila francesa em 1959, onde abre uma chocolateria. Faz amizade com Armande Voizen (Judi Dench), uma velha senhora que lhe aluga a loja e que sofre de uma doença crónica, faz amizade também com uma mulher maltratada pelo marido, Josephine Muscat (Lena Olin), que foge de casa e se refugia junto de Vianne, e com mais uns poucos habitantes da vila, que apreciam os doces feitos por Vianne e a sua personalidade jovial. Será combatida pelo presidente da Câmara local, um aristocrata católico conservador, o conde de Reynaud (Alfred Molina), cuja mulher fugiu para Itália (o que ele oculta), pela filha de Armande, Caroline Claimont (Carrie-Anne Moss), uma viúva que trabalha como secretária para o conde e que está apaixonada por ele, e ainda pelo dono do café local, Serge Muscat (Peter Stormare), o marido de Josephine. A intriga desenvolve-se de uma forma previsível no género (comédia romântica), pois a bonita doceira conseguirá conquistar a pequena vila com a sua mensagem de tolerância, alegria, positividade… e chocolate, anunciando assim a revolução nos costumes e na organização da família que os anos sessenta vão trazer por todo o mundo ocidental; como não poderia deixar de ser numa comédia romântica, Vianne terá um romance com um belo músico cigano, Roux (Johnny Depp), que acampou na vila e, após algumas peripécias, acaba por se juntar a Vianne e à sua filha, construindo uma família e um lar em moldes modernos (juntos por amor, trabalhando no que se gosta…). ANÁLISE DO FILME. O filme não é exactamente um modelo de originalidade: traduz um género e um argumento muito comuns no cinema actual; uma busca pela internet com a chave «forasteiro(a) chega a uma comunidade e muda o quotidiano das pessoas depois de sofrer forte resistência do líder da comunidade» resulta, segundo um crítico de cinema, em pelo menos 49 filmes, cerca de dez novelas da TV Globo e incontáveis romances, incluindo Chocolate, livro e filme. Contudo, e talvez porque a situação seja típica justamente porque toca em algo importante da vida humana, o filme é mais do que uma forma agradável de passar o tempo; se visto com


atenção, há nele aspectos que nos podem ajudar a ver melhor nas nossas vidas e nas dos outros. A acção do filme Chocolate, que se baseia no romance homónimo de Joanne Harris, decorre numa (imaginária) pequena vila de França, em 1959, e tem como personagem principal Vianne, uma mãe solteira que chega à vila acompanhada da sua filha de seis anos com a intenção de abrir uma loja especializada em chocolate. O chocolate é feito por ela própria, segundo receitas aprendidas com a sua mãe, uma índia sul-americana que casou com um cientista francês e o abandonou, levando a filha consigo; este aspecto, que surge no filme como uma estória contada por Vianne à filha, é importante para o perfil psicológico de Vianne, pois mostra que o seu modo de vida errante está ligado à personalidade da sua mãe e à ausência do seu pai; nada mais se fica a saber sobre estes acontecimentos, mas a cena na qual Vianne lança ao vento as cinzas da sua mãe, e opta por se fixar na vila encerrando assim a sua vida errante, mostra a sua relevância para a estruturação da sua personalidade. Vianne aluga uma loja a uma velha senhora local e, após uma remodelação radical, abre a sua loja de chocolates em plena Quaresma; este facto não é bem visto pelo presidente da Câmara local, um aristocrata católico conservador (conde de Reynaud), que considera a abertura de uma loja de doces numa época de jejum um convite explícito ao «pecado», ao desrespeito pela moral e pelos «bons costumes»; para Reynaud, a vida deve ser orientada por três ideias fundamentais: disciplina, modéstia e trabalho, e Vianne não parece ser particularmente forte em qualquer delas… De modo a tentar convencê-la a não abrir a loja na Quaresma (e seguir as suas regras de vida), visita a loja; entretanto, na conversa entre os dois, fica-se a saber que Vianne é uma mulher independente, não é católica, é mãe solteira, trabalha, leva uma vida errante em termos profissionais e sentimentais, é extrovertida, liberal e positiva (o que entra em choque com o ambiente fechado, hierarquizado e negativo da ordem social e moral dominante na aldeia), e, por fim, rejeita a tutela moral e social que o presidente da Câmara pensa ter o direito de exercer sobre os habitantes da vila – estas sete características (ser mulher, não ser católica, ser uma mãe solteira, trabalhar, levar uma vida errante, ser liberal e positiva, ser assertiva quanto aos seus valores) tornam-na uma pessoa “desajustada” em termos sociais, morais e religiosos. Contudo, estas mesmas características antecipam as alterações radicais que surgirão após os anos sessenta do século vinte no modo de entender todos estes aspectos. Anunciando a mulher moderna, Vianne recusa a tradição moral sexista e o lugar que esta tradição atribui à mulher (dona de casa, mãe, esposa); além disso, pela sua acção, pela sua profissão e modo de ser, transporta consigo uma perspectiva positiva acerca do desejo e da sensualidade feminina; pelo contrário, o conde de Reynaud representa a perspectiva moral tradicional, sexista, repressiva e moralmente conservadora, seja em termos pessoais (oculta e reprime os aspectos negativos da sua vida conjugal e pessoal, deixando transparecer uma personalidade dominada por um «super-eu» castrador), seja em termos sociais (censura os sermões do sacerdote local de modo a garantir a sua ortodoxia). A intriga romanesca do filme mostra também como a discriminação (ideológica, social e cultural) inerente a esta atitude causa sofrimento e injustiça; em relação às mulheres, obrigadas a seguir as regras impostas e a sofrerem em silêncio a violência física e psicológica; em relação às crianças, castigadas na escola, catequizadas acriticamente na igreja e postas de lado,


como a filha de Vianne, se pertencem a uma família «diferente»; os ciganos, discriminados socialmente devido ao seu estilo de vida “sem eira nem beira”. A acção do filme decorre no enquadramento proporcionado pelas características da personalidade de Vianne, mas centra-se sobretudo no conflito entre Vianne, a representante de uma nova perspectiva acerca da família, do amor e da vida, e o conde Reynaud, o representante da perspectiva católica tradicional; Roux, um músico cigano, que acampa com o seu povo na vila, acrescenta um terceiro pólo à acção do filme, quer enquanto Roux se torna no par amoroso de Vianne, quer enquanto enfrenta o conde Reynaud e as pessoas da vila, que não aceitam a diferença cultural do modo de vida cigano. Deste modo, a pequena vila francesa é o palco para uma fábula, e todas as fábulas têm uma moral (a do filme está no sermão final do padre da vila), que discute valores humanos universais como tradição e modernidade, identidade e diferença, tolerância e intolerância, violência e diálogo, amor e sexo, vida e morte, disciplina e liberdade, trabalho e divertimento. Vianne surge no filme como a mensageira de uma perspectiva optimista sobre a vida na qual o pólo positivo das oposições anteriores é visto como uma possibilidade e uma obrigação para todos nós; são crenças hoje comuns, mas ainda longe de uma efectiva realidade -- algumas delas são as seguintes: uma tradição só é um valor a preservar se acrescenta algo valioso à nossa vida comum e não causa dano a outrem; uma pessoa diferente deve ter liberdade de ser como é a não ser que tal diferença cause dano a outrem; a violência como forma de resolver conflitos acerca de valores, conflitos na família ou conflitos culturais não é aceitável; a afectividade e a sexualidade são parte da vida humana e não são aspectos negativos e prejudiciais que devam ser escondidos e reprimidos; a vida não é uma obrigação incondicional apesar do sofrimento e do desespero, mas uma escolha; a disciplina é um instrumento ao serviço da nossa liberdade e não uma obrigação cega; o trabalho é um instrumento para sermos felizes e não uma condenação ao sofrimento. Vianne, uma mulher livre e atenta ao perigo dos preconceitos, é sobretudo uma pessoa que acredita na possibilidade de mudar; ela encara os problemas da vida com optimismo, coragem e autodeterminação porque acredita que há outro caminho possível e empenha-se em torná-lo real. Neste sentido, o filme coloca-nos perante o problema da (resistência à) mudança, na vida pessoal e na vida social. Presos aos nossos hábitos, temos receio de mudar, mesmo quando o que temos nos faz sofrer, seja por comodismo, seja por medo ou descrença no futuro; o optimismo e a positividade de Vianne são uma aposta na possibilidade do futuro. O filme opta por realçar este lado positivo, por vezes quase delicodoce, da modernidade, deixando de fora as dificuldades e os conflitos que lhe estão associadas, nomeadamente os da própria Vianne consigo própria, com a sua filha e com os outros; esta opção não será alheia a aspectos comerciais (o espectador gosta de sonhar e de ter esperança), mas também pode ser vista como a afirmação de que é possível construir uma sociedade humana melhor, e esta é certamente uma crença sem a qual não haveria humanidade.


Algumas questões de reflexão psicossocial (que se colocam a qualquer técnico psicossocial quando trabalha com doentes, deficientes, crianças e idosos em sofrimento) sobre o filme: 1) O problema do sofrimento e do sentido da vida perante uma doença crónica e o fim da vida em Armande; a sua recusa em ir para um lar da terceira idade e em seguir a dieta que um diabético deveria seguir traduz uma opção consciente por manter a sua autonomia e em manter a sua qualidade de vida, sabendo embora que isso a matará; esta atitude é aceitável? 2) O problema da violência conjugal ilustrado no casal Josephine e Serge; depois de ser abandonado, Serge jura que vai modificar-se e corrigir-se, mas Josephine não acredita nele, pois argumenta que ele sempre agiu deste modo; será esta uma característica dos maridos (ou namorados) abusadores? 3) O problema da educação de uma criança numa família monoparental; a filha de Vianne não tem amigos fixos (criou amigos imaginários como o Canguru que não é capaz de saltar, ou seja, a quem falta aquilo que o define como o animal que é), e a mãe tem de trabalhar e cuidar dela; que vantagens e que desvantagens existem numa educação assim? 4) O problema do culto do prazer alimentar e da sua compatibilidade com a saúde e com a ideia de que «só a magreza é bela e saudável» (a elegância, que é uma característica de todas as mulheres do filme…); dado que as desordenas do comportamento alimentar são extremamente comuns na nossa sociedade, o culto do prazer alimentar parece implicar uma estrita disciplina e autocontrolo; não se parece esta exigência com o lema de vida do conde de Reynaud – «disciplina, modéstia e trabalho»? 5) O problema do diálogo entre culturas cujos valores são de tal modo diferentes que se torna difícil construir pontes de diálogo entre elas – a convivência multicultural não se pode fazer se não houver valores básicos comuns, algo que permita às diferenças coexistirem sem causar a destruição mútua; no caso dos ciganos (ou de migrantes de culturas e civilizações distintas da nossa) como pode a nossa sociedade incluir o seu modo de vida sem o destruir ou sem destruir aspectos da nossa cultura que consideramos fundamentais? 6) O problema da inclusão e do respeito pela diferença. As palavras finais do jovem sacerdote são: não podemos medir a nossa bondade por aquilo que não fazemos, pelo que negamos a nós próprios, pelo que resistimos, por aqueles que excluímos; devíamos, antes, medir a bondade por aquilo que abarcamos, pelo que criamos, por aqueles que incluímos; está de acordo com estes princípios? Justifique.


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