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Artes :: Sexta-feira e fim de semana, 1º, 2 e 3 de fevereiro de 2013

PÁGINA

da

PARTE INTEGRANTE DO PROJETO CAZA ITINERANTE. CAZAARTECONTEMPORANEA.BLOGSPOT.COM

MARIANA MANHÃES

O dia em que o bule falou s tecnologias trouxeram novas ferramentas para a exploração do lúdico. Não é à toa que se há a ideia da exploração de um outro mundo, de uma realidade paralela que, em vez de física, é criada virtualmente. São interfaces de interação que culminam em efeitos e ações que exploram o ludismo do imaginário. Em seu mais recente livro “The Interface Effect”, Alexander Galloway discute como a interface, quando se pensa nas tecnologias, deve ser considerada como um efeito no campo da metafísica. Para ele, a interface é sempre um processo ou uma tradução. E para traduzir melhor este conceito, ele cria quatro regimes de significação baseados na coerência estética e política. Se esteticamente coerente, a obra se foca em seu próprio processo, em seu centro; se incoerente, a importância está na estrutura, na borda, fora do conteúdo. Para a política, o importante é a linguagem: se coerente, a linguagem e a ideologia podem ser interpretadas facilmente; se incoerente, é a construção de uma nova estrutura. O trabalho de Mariana Manhães pode ser considerado esteticamente coerente, uma vez que traz o espectador para o centro de seu objeto, e politicamente incoerente, em que busca uma nova linguagem embora mimética a outras áreas. É o que Galloway

A

Thus (Pearl Shaped Vase), 2012. Vista da instalação na ShanghART Gallery. Xangai, China, 2012. MARIANA MANHÃES

classifica como Poética. Mariana usa as estruturas e possibilidades das tecnologias (e, neste caso, o hardware mesmo) para dar vida a objetos cotidianos, como um bule ou uma lâmpada. Sua exploração não busca antropomorfizar os objetos, simulando gestos ou reações humanas. Mas criar um novo ser, uma nova possibilidade de interação com o mundo real, físico. O objeto estático deixa de ser passivo à ação humana e cria vida própria, com sua própria linguagem e movimentos únicos. A interação, nesta caso, como me contou a própria artista em uma entrevista, é autista. As obras não conversam com o mundo que conhecemos,

OSVALDO CARVALHO

Em 1970 Cildo Meireles inaugurou as Inserções em Circuitos Ideológicos com o seu Projeto Coca-Cola que consistia no aproveitamento da embalagem retornável da bebida para lançar dizeres que subvertiam sua ideologia implícita

THIAGO CARRAPATOSO é pesquisador e mestrando em estudos curatoriais em NY

FOTOS CORDEL CULTURA/DIVULGAÇÃO

CRÍTICA

Inserções em Circuitos Mitológicos Gian Shimada

com a nossa realidade cotidiana. Elas interagem entre si criando outros signos e linguagens a ser interpretados. Mariana usa as tecnologias e as possibilidades que elas trazem para criar seres lúdicos que vivem em uma realidade paralela a nossa. A grande diferença é que este mundo não é virtual, mas sim físico. Embora estejam dividindo o mesmo espaço que nós, estão conversando e se relacionando entre si, em uma linguagem ainda a ser desconstruída para ser compreendida.

Instalação/Site especific. Dimensão variável. Gian Shimada. 2012. e que novamente circulavam sem qualquer controle de censura prévia em voga naquele período de nossa história. Uma ideia simples que modificou também o modo de ver uma obra de arte. Porém, tal foi sua magnitude que elevou esse projeto a outro patamar dentro da própria História da Arte - o

da transcendência. Esse caráter mítico é explorado por Gian Shimada em sua série Cordel Cultural que incide sobre a própria base do desejo (do artista). Vivemos momentos diferentes daqueles de 40 anos atrás. A democracia da qual podemos usufruir responde hoje por anseios de realiza-

COLUNA DO PH Thunderbirds: resgate da memória

T

hunderbirds foi uma série britânica de TV, desenvolvida por Gerry e Sylvia Anderson, cuja primeira transmissão se deu em 1965. Sua trama se passava no futuro, mostrando a rotina da família Tracy, uma organização secreta de salvamento. Thunderbirds foi concebido sem o auxílio de computadores, utilizando fantoches, miniaturas e cenários reduzidos. No Brasil, se tornou popular nos anos 1970, nos tempos do Capitão AZA, na extinta TV Tupi. Anderson também criou outros programas do gênero, entre eles: Stingray, Joe 90 e Capitão Escarlate. Falecido em 26 de dezembro de

2012, o produtor deixou um enorme legado televisivo. Atualmente, existe um mercado específico que cultua objetos associados às lendárias realizações de Gerry Anderson. Marcelinho Thunderbirds (Marcelo Barros/foto) é um entre pou-

cos escolhidos, no Brasil, que reúne este tipo de material. Marcelinho começou a se interessar por Thunderbirds, a partir de 1967. Aos 22 anos, resolveu juntar itens ligados ao programa e não parou mais. Por sinal, com o surgimento da internet, seu acer-

ção pessoal. Gian nos oferece então, como limite do olhar, o alcance do sucesso que, em seu material de trabalho, recai nos livretos, catálogos, informativos, etc. de peças de divulgação institucionais no circuito das artes visuais. Ele resgata o descarte para neles gravar sua ação restituindo-os agora como objetos artísticos àqueles espaços que servem de palco para mostras de arte. Seu processo corresponde ao de uma engenharia reversa cuja finalidade é reavivar legados que, por uma razão qualquer, ficaram adormecidos na memória. Formalmente oferece uma estética popular em contraponto ao rigor conceitual na origem de sua confecção e assim, relaxado das questões exigidas na fatura, deixa ao observador um múltiplo universo poético visual. OSVALDO CARVALHO é artista visual, mestre em poéticas visuais pela ECA-USP, curador independente e sócio do Espaço Eu Vira

F A L E

vo só tem aumentado. Através dela, ele faz compras e troca peças com colecionadores de todo o mundo. Além de raridades relacionadas a Thunderbirds, ele também acumula artigos de outras atrações que tem a marca de Gerry Anderson. Para ilustrar o texto, pedi para que Marcelinho mostrasse algumas de suas pérolas importadas. O local escolhido para o encontro foi a redação do JC. Assim, nosso fotógrafo registrou um boneco do personagem Scott Tracy fabricado, em 2006,

C O M

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P H

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pela empresa japonesa Osaka Tin Toy Institute. A tiragem deste artefato, movido à corda, foi limitada a 200 unidades. Outra imagem mostrada aqui é a do carro FAB 1, de Lady Penélope, manufaturado pela fábrica AMIE, do Japão. Dele, só foram produzidos 500. Marcelinho é o feliz dono da unidade de número 1. O que mais me chamou atenção, entretanto, foi um marionete de Virgil Tracy. Trata-se de uma cópia fiel, realizada através dos moldes originais dos bonecos usados no seriado. Este é um produto muito desejado, pois é confeccionado de maneira artesanal. Quanto à famosa Ilha Secreta Thunderbirds, da Trol, a base do Resgate Internacional, é óbvio que Marcelinho também possui este lendário brinquedinho que já esteve presente na infância de muitos. Infelizmente, a preciosidade não estava entre os tesouros levados por Marcelinho para o Jornal do Commercio. Quem sabe, ela não vira tema de outra reportagem no Caderno Artes?

P H É N E R D , LO C U TO R D A N AT I VA F M , C O L E C I O N A D O R , E D I TO R D E V Í D E O , G E R A O C O N T E Ú D O D O B LO G T U J AV I U E A M A S E R I A D O S , C I N E M A , A N I M A Ç Õ E S E Q U A D R I N H O S


O dia em que o bule falou - Jornal do Commercio 01/02/2013