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ano XIII número 151 outubro 2009 R$ 9,90

PERIFERIA DE SÃO PAULO RECRIA A CULTURA POPULAR

ENTREVISTA EXCLUSIVA

Ferréz ÓDIO DA FAVELA VAI EXPLODIR

CHILE A LUTA CENTENÁRIA DOS ÍNDIOS MAPUCHE HONDURAS CRISE ABALA A DOUTRINA MONROE URUGUAI A GRANDE PROVA DE FOGO DA ESQUERDA RIO DE JANEIRO

AUTO DE RESISTÊNCIA

É LICENÇA PARA MATAR

O que muda na

APOSENTADORIA

ANA MIRANDA CAROLINA CORAL CESAR CARDOSO CLAUDIUS EDUARDO SUPLICY EMIR SADER FERRÉZ FIDEL CASTRO FREI BETTO GERSHON KNISPEL GILBERTO FELISBERTO VASCONCELLOS GUILHERME SCALZILLI GUTO LACAZ JOÃO ZINCLAR JOEL RUFINO DOS SANTOS JOSÉ ARBEX JR. MARCELO SALLES MARCOS BAGNO MC LEONARDO RENATO POMPEU TATIANA MERLINO

FANIA RODRIGUES GLAUCO MATTOSO LÚCIA RODRIGUES WAGNER NABUCO

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sumário

CAROS AMIGOS ANO XIII 151 outubro 2009 Foto de capa Jesus carlos

02 Guto Lacaz. 07 José Arbex Jr. aponta a crise de Honduras como a primavera da América Latina. 08 Joel Rufino dos Santos chama a atenção para as mensagens das telenovelas. Guilherme Scalzilli conclama a mobilização dos petistas para a eleição de 2010.

EDITORA CASA AMARELA ­ evistas • Livros • Serviços Editoriais R fundador: Sérgio de Souza (1934-2008) Diretor Geral: Wagner Nabuco de Araújo

A rebelião das periferias

É preciso prestar atenção ao que está acontecendo nas periferias. A mudança é real, concreta, e só não vê quem não quer ou quem, por opção ideológica e algum interesse particular, se recusa a encarar a realidade. Falamos das periferias em geral, tanto aquelas que se encontram nas beiradas das cidades brasileiras, apinhadas das classes subalternas, quanto àquelas que por obra do processo histórico se tornaram satélites do poderoso império estadunidense. A entrevista com Ferréz, escritor do Capão Redondo, joga luz sobre a ebulição da periferia paulistana, onde milhões de moradores das favelas são criminalizados e vítimas da violência do Estado. O alerta está dado: o ódio acumulado está na iminência de uma explosão incontrolável. Reportagem de Marcelo Salles denuncia que, no Rio de Janeiro, a política de extermínio executada pela polícia, eliminou quase dez mil pessoas na última década, a maior parte favelados. Os protestos dos moradores da periferia carioca são cada vez mais freqüentes e massivos. No outro lado da mesma moeda, reportagem de Tatiana Merlino mostra que a população periférica de São Paulo resiste bravamente ao lixo da indústria cultural dominante e recria, com vitalidade, suas próprias manifestações culturais. A juventude se organiza em torno de saraus de música, poesia e literatura, das bibliotecas comunitárias, mostras de cinema e oficinas de hip hop. A reação praticamente unânime dos países latino-americanos contra o golpe de Estado em Honduras revela que a periferia do império toma iniciativa inédita e se move sem a tutela dos Estados Unidos. José Arbex Jr. analisa a crise de Honduras. Mais duas reportagens reforçam esse quadro de rebeldia nas periferias: Carolina Coral fala sobre a luta centenária – e atual – dos índios mapuche no Chile; e Fania Rodrigues relata o processo eleitoral no Uruguai, onde o ex-Tupamaro José “Pepe” Mujica lidera a disputa pela Presidência da República. Vale a pena conferir. Boa leitura!

09 Caros Amigos apóia o manifesto em defesa da democracia e do MST. 10 Marcos Bagno Falar Brasileiro.

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Mc Leonardo comemora a lei que descriminaliza o funk no Rio de Janeiro. Gershon Knispel lembra que as raízes das famílias árabes estão sendo arrancadas.

Entrevista com Ferréz O ódio da favela pode explodir a qualquer momento. Wagner Nabuco associa o discurso do governo com o projeto nacional. Cesar Cardoso fala sobre a última manifestação de Deus para a humanidade.

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Ensaio Fotográfico João Zinclar O contraste das águas no Nordeste.

Ana Miranda presta homenagem aos músicos Alexandre e Egberto Gismonti.

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Lúcia Rodrigues Governo mantém perdas para 38% dos aposentados.

Renato Pompeu e suas memórias de um jornalista não investigativo.

Marcelo Salles Polícia do Rio de Janeiro mata mais hoje do que na ditadura. Emir Sader analisa o desespero que tomou conta dos tucanos fracassomaníacos. Glauco Mattoso Porca Miséria. Eduardo Matarazzo Suplicy defende a transparência nas doações eleitorais. Fania Rodrigues conta que a esquerda uruguaia tem prova de fogo nas eleições. Frei Betto fala da tragédia colombiana no panorama da América do Sul. Fidel Castro alerta sobre o perigo de extinção do homem da face da Terra. Carolina Coral relata a luta centenária do povo mapuche no Chile. Tatiana Merlino mostra como a periferia de São Paulo recria a cultura popular. Gilberto Felisberto Vasconcellos O governo deveria ouvir Bautista Vidal. Claudius Renato Pompeu Idéias de Botequim.

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EDITOR: hamilton octavio de souza EDITORa adjunta: Tatiana Merlino EDITORes ESPECIAis: José Arbex Jr e Renato Pompeu editora DE ARTE: Lucia Tavares assistente DE ARTE: Henrique Koblitz Essinger editor de FOTOGRAFIA: Walter Firmo REPÓRTER especial: Marcos Zibordi REPÓRTERes: Felipe Larsen e Lúcia Rodrigues CORRESPONDENTES: Marcelo Salles (Rio de Janeiro) e Anelise Sanchez (Roma) SECRETÁRIA Da REDAÇÃO: Simone Alves revisor: Ruy Luduvice DIRETOR DE MARKETING: André Herrmann PUBLICIDADE: Melissa Rigo CIRCULAÇÃO: Pedro Nabuco de Araújo Relações Institucionais: Cecília Figueira de Mello ADMINISTRATIVO E FINANCEIRO: Ingrid Hentschel, Elisângela Santana CONTROLE E PROCESSOS: Wanderley Alves LIVROS CASA AMARELA: Clarice Alvon Sítio: Lúcia Rodrigues APOIO: Maura Carvalho, Douglas Jerônimo e Neidivaldo dos Anjos ATENDIMENTO AO LEITOR: Lília Martins Alves, Zélia Coelho ASSESSORIA JURÍDICA: Marco Túlio Bottino, Aton Fon Filho, Juvelino Strozake, Luis F. X. Soares de Mello, Eduardo Gutierrez e Susana Paim Figueiredo REPRESENTANTE DE PUBLICIDADE: BRASÍLIA: Joaquim Barroncas (61) 9972-0741.

JORNALISTA RESPONSÁVEL: hamilton octavio de souza (MTB 11.242) diretor geral: wagner nabuco de araújo

setembro 2009 CAROS AMIGOS, ano XIIi, nº 151, é uma publicação mensal da Editora Casa Amarela Ltda. Registro nº 7372, no 8º Cartório de Registro de Títulos e Documentos da Comarca de São Paulo, de acordo com a Lei de Imprensa. Distribuída com exclusividade no Brasil pela DINAP S/A - Distribuidora Nacional de Publicações, São Paulo. Impressão: Bangraf

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Redação e administração: rua Paris, 856, CEP 01257-040, São Paulo, SP

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José Arbex Jr.

Honduras abala a Doutrina Monroe A “crise de Honduras” sintetiza e ilumina um momento histórico ímpar na história mundial. Pela primeira vez desde 1823, quando James Monroe formulou a doutrina que leva o seu nome (“a América para os americanos” - quanto, de fato, tinha em mente “a América para os estadunidenses”), Washington, nitidamente, perdeu o controle e a iniciativa sobre os desenvolvimentos políticos e sociais na América Latina e no Caribe. O papel assumido pelo Brasil, nesse quadro, tem dimensão explosiva: em nome dos princípios democráticos que devem nortear a relação entre os Estados, o governo brasileiro não se limitou a “condenar” o regime golpista, nem se contentou com sanções limitadas. Isso pode inaugurar uma nova etapa na relação do Brasil com a comunidade mundial das nações, e abrir o caminho para novos desdobramentos democráticos na América Latina. Exagero? Excesso de otimismo? Precipitação na análise política? Dificilmente. Vamos aos fatos: 1. A América Latina e o Caribe tornaram-se mais importantes do que nunca para os Estados Unidos, após o fiasco no Iraque e no Afeganistão. Não “apenas” porque as reservas estratégicas de petróleo estadunidenses estão esgotadas, mas também por tudo o que representa a Amazônia em termos de reservas de petróleo, biodiversidade, minerais e água. 2. Apesar disso, Washington fracassou em todas as suas tentativas recentes de “eliminar os obstáculos” ao seu controle da região. Não conseguiu tirar Hugo Chávez do poder, no golpe desferido em abril de 2002; fracassou ao tentar fabricar uma guerra civil para eliminar o governo de Evo Morales, em 2008; e, talvez mais humilhante ainda: ao tentar prolongar o acordo que permitia o funcionamento da base militar de Manta, no Equador, teve que aceitar o tapa na cara desferido por Rafael Correa (o presidente equatoriano respondeu que, sim, toparia renovar o contrato, se os Estados Unidos admitissem a instalação de uma base militar equatoriana na Flórida!). 3. O golpe em Honduras se inscreve nesse quadro geral. Os golpistas hondurenhos conseguiram, momentaneamente, aquilo que os demais tentaram sem suces-

so. Acreditar que as oligarquias hondurenhas arquitetaram o golpe sem o conhecimento da embaixada dos Estados Unidos é prova suprema de ingenuidade ou má fé (ou uma mistura dos dois). O embaixador estadunidense em Tegucigalpa foi colocado no cargo pela turma de George Bush filho. É partidário incondicional da Doutrina Monroe. É até possível que Barack Obama tenha sido pego de surpresa, mas jamais os serviços secretos dos Estados Unidos. Em qualquer hipótese, é bastante óbvio que Washington, por mais que tenha condenado o golpe, não ficou nada feliz com a adesão do presidente deposto Manuel Zelaya à Alba e ao Petrocaribe. 4. Barack Obama emite sinais contraditórios e incoerentes, o que é uma prova de falta de um plano estratégico para enfrentar a situação. Ou falta de força para aplicar de forma coerente e decidida uma estratégia qualquer. De um lado, Obama proclama “o fim da era em que os Estados Unidos davam as cartas” na América Latina. De outro lado, prolonga o boicote econômico a Cuba, mantém o Plano Mérida para o México e para a América Central, e o de instalações de bases militares na Colômbia. 5. Mas Obama enfrenta uma inédita demonstração de resistência e reprovação por parte da imensa maioria dos governos latino-americanos. É nesse ponto que ganha grande relevância o papel assumido pelo Brasil. Nos últimos meses, o presidente Luís Inácio Lula da Silva emitiu claros sinais de uma “virada à esquerda” na política externa. Ao anunciar a descoberta do pré-sal, por exemplo, denunciou imediatamente os movimentos da Quarta Frota dos Estados Unidos (encarregada de “vigiar” os mares da América Latina e do Caribe), estabelecendo um nexo entre as coisas. Depois, Lula demonstrou preferência pelos aviões de guerra da França, sob alegação de que a estadunidense Boeing não transfere tecnologia. Em seguida, Lula condenou o prolongamento do bloqueio a Cuba e declarou a intenção de interpelar Barack Obama sobre o assunto. Finalmente, o Brasil acolheu Manuel Zelaya como presidente legítimo de Honduras. Não interessam as razões que levam Lula a assumir tais atitudes. Não se trata, aqui, de alimentar ilusões num suposto “neoLula”, nem de acreditar

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que os demais governos latino-americanos que desafiam Obama tenham aderido ao Partido Bolchevique. Lula, provavelmente, faz isso por estar de olho nas urnas em 2010, e por saber que apenas uma mensagem de esquerda, que se descole completamente do PSDB, pode incendiar as multidões e carrear votos para Dilma Rousseff (tecnicamente empatada com Ciro Gomes e bem atrás de José Nosferatu Serra). Lula também sabe que a campanha “o petróleo é nosso” tem um imenso potencial explosivo, e por isso trata o debate sobre o pré-sal como uma reedição dos tempos de Getúlio Vargas. No plano internacional, Lula é forçado a alimentar uma relação de amor e ódio com Hugo Chávez, que acabou se impondo como uma referência para a esquerda no hemisfério. Não importam as intenções de Lula ou de quem quer que seja. Importa que esse processo tem tudo para dar um novo ímpeto ao movimento de massas, num momento em que eclodem e se articulam greves no ABC, em São José dos Campos e de importantes categorias nacionais (carteiros, bancários etc.). Importa o fato de que, no plano internacional, a Casa Branca não tem a última palavra em Honduras, e o governo brasileiro assumiu a posição que deveria mesmo ter assumido (e por isso desperta a ira dos “especialistas” e comentaristas de sempre). Desde 1823, o jogo entre as nações do planeta tinha na Doutrina Monroe um de seus parâmetros. Nenhuma outra potência mundial sequer tentou, seriamente, disputar a hegemonia dos Estados Unidos na região (exceto no famoso episódio dos mísseis de 1962, quando a União Soviética tentou transformar Cuba em plataforma de lançamento de mísseis nucleares). Hoje, a Doutrina Monroe, pela primeira vez, começa a fazer água, mas não num quadro qualquer, e sim no da maior crise enfrentada pelo capitalismo desde 1929. Somos tentados a concluir esse artigo com a sentença “a primavera da América Latina começou em Honduras”, nem que seja por um mero exercício provocador de imaginação histórica. Mas é melhor não. Pode dar azar. José Arbex Jr. é jornalista. outubro 2009

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amigos de papel Joel Rufino dos Santos

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Carta aos petistas:

pela família, não por escolha livre do coração. Numa palavra: vitória do amor construído sobre o amor romântico. A mensagem de Glória Perez é dialética. Outra mensagem, menos sutil, é a dos direitos dos loucos. Nos anos 1960, se acirrou o debate psiquiatria/antipsiquiatria. Nenhum dos lados venceu. Como tantas vezes se viu, o desdobramento da vida aproveitou o que há de certo num e noutro lado. Em “Caminho das Índias”, a loucura de Tarso é deflagrada (não causada) pelas relações familiares estressantes. A mãe, a perua Melissa, não suporta sequer a palavra esquizofrênico. No final, aceita que Tarso tome remédios e faça socioterapia, com acompanhamento de um clínico. Tarso quer casar, ama uma garota – que é o contrário de sua mãe. A garota aceita, happy end. Joel Rufino é historiador e escritor.

Se quiser manter alguma esperança de eleger Dilma Rousseff em 2010, o PT precisa mobilizar-se imediatamente. A supervalorização da popularidade do presidente Lula mergulhou o partido numa apatia condescendente, agravada por conflitos internos vazios e desagregadores. A visibilidade midiática de críticos e desertores, sob o silêncio dos governistas, fortalece o mito da desilusão do petismo histórico. Urge conclamar intelectuais, artistas e demais celebridades a posicionamentos públicos sobre a campanha presidencial, demonstrando comprometimentos pessoais inequívocos. À militância cabe posicionar-se imediatamente acerca de uma eventual coligação com o PMDB. Ela será decisiva para as chances eleitorais de qualquer candidato, e não apenas graças aos importantes minutos nos horários eleitorais. Alianças de envergadura nacional costumam ser indigestas e exigem condescendências; seus limites merecem discussões pragmáticas, livres de purismos ideológicos. Um pedido aos senadores e deputados do PT: abandonem a pantomima da indignação tardia. Se o fardo é insuportável, tenham a honradez de entregar os cargos de seus correligionários em todos os escalões do governo e iniciem um novo projeto político. Mas, em nome da transparência, ou por simples espírito republicano, parem de agir como se não soubessem o que está em jogo. Apropriando-se das conquistas da administração atual, com a vitrine da Copa do Mundo, José Serra seria facilmente eleito presidente. Depois, as fortunas advindas do pré-sal financiariam também seus sucessores, perpetuados num período inimaginável de continuísmo. Mesmo que então surgisse uma nova liderança progressista viável, os danos da hegemonia tucana já estariam irremediavelmente consolidados. Essa é uma forma indigna de desperdiçar todos os esforços gastos em quase trinta anos de lutas e sacrifícios. Guilherme Scalzilli, historiador e escritor. Autor do romance Crisálida (editora Casa Amarela). www.guilhermescalzilli.blogspot.com

Ilustração: HKE>>>/subis.blogspot.com

momento de reagir

Mensagens Quando o obsessivo Colombo chegou à América, chamou a gente que encontrou de índios. O conhecido eram as Índias. Ele definiu o novo pelo antigo, a experiência nova pela tradição. Aquela gente não podia ser senão índios. É mais ou menos como pensam os que se encontram com ETs, em estradas desertas e serras remotas, os escritores de ficção científica e os roteiristas de “Guerras nas estrelas”. Menos do que ignorantes, são criaturas medievais, no sentido em que foi Colombo, apesar de fundador dos tempos modernos: só podem conceber mais do mesmo, reprodução sem fim da quantidade. Talvez o leitor não veja a telenovela das oito (que hoje é às nove). Há nesse folhetim eletrônico, “padrão Globo de qualidade”, uma alienação explícita: a concepção da vida humana como satélite do dinheiro. Pobre nunca é feliz, as relações amorosas não passam de variantes do golpe do baú. Há cinquenta anos (como voa o tempo!), o maldito Débord chamava esse lixo de vida inautêntica. “Caminho das Índias” já não me irritou. Teria eu, finalmente, me deixado embriagar pela carpintaria fantasiosa do gênero? Fiquei viciado em novela? É possível, mas quero resistir. Não verei a próxima, nem por descuido. Milhares de livros me esperam para releitura – André Malraux, Ciro Alegría... “Caminho das Índias” é de Glória Perez, que há três décadas, pelo menos, tenta infundir conteúdo crítico ao gênero. É dificílimo, pois a forma da telenovela é, em si mesma, bestificante. Herdeira de Janete Clair (192583), que viera da radionovela para a tela, Glória tem o sentimento do social e do político. Sei também que é consciente do papel alienante da telenovela e busca sempre compensá-la com mensagens antissistêmicas (digamos assim). Em “Caminhos da Índia” anotei diversas dessas mensagens sutis: Para começar, o preconceito de casta. O cenário é a Índia exótica, dançante e luxuosa. No final, acossada pelo amor, a casta se estrepa. Está dentro do figurino romântico, é verdade. Só que a casta aparece como forma de garantir um amor não individualista, que se constrói a partir de um casamento arranjado

Guilherme Scalzilli

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“...Legitimam-se não pela propriedade, mas pelo trabalho, nesse mundo em que o trabalho está em extinção. Legitimam-se porque fazem História, num mundo que já proclamou o fim da História. Esses homens e mulheres são um contra senso porque restituem à vida um sentido que se perdeu...” (“Notícias dos sobreviventes”, Eldorado dos Carajás, 1996).

Caros Amigos apóia o Manifesto em defesa da

democracia e do MST A reconstrução da democracia no Brasil tem exigido, há trinta anos, enormes sacrifícios dos trabalhadores. Desde a reconstrução de suas organizações, destruídas por duas décadas de repressão da ditadura militar, até a invenção de novas formas de movimentos e de lutas capazes de responder ao desafio de enfrentar uma das sociedades mais desiguais do mundo. Isto tem implicado, também, apresentar aos herdeiros da cultura escravocrata de cinco séculos, os trabalhadores da cidade e do campo como cidadãos e como participantes legítimos não apenas da produção da riqueza do País (como ocorreu desde sempre), mas igualmente como beneficiários da partilha da riqueza produzida. O ódio das oligarquias rurais e urbanas não perde de vista, um único dia, um desses novos instrumentos de organização e luta criados pelos trabalhadores brasileiros a partir de 1984: o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra – MST. E esse Movimento paga diariamente com suor e sangue – como ocorreu há pouco no Rio Grande do Sul – por sua ousadia de questionar um dos pilares da desigualdade social no Brasil: o monopólio da terra. O gesto de levantar sua bandeira numa ocupação se traduz numa frase simples de entender e, por isso, intolerável aos ouvidos dos senhores da terra e do agronegócio. Um País, onde 1% da população tem a propriedade de 46% do território, defendida por cercas, agentes do Estado e matadores de aluguel, não podemos considerar uma República. Menos ainda, uma democracia. A Constituição de 1988 determina que os latifúndios improdutivos e terras usadas para a plantação de matérias primas para a produção de drogas, devem ser destinados à Reforma Agrária. Mas, desde a assinatura da nova Carta, os sucessivos Governos têm negligenciado o seu cumprimento. À ousadia do MST de garantir esses direitos conquistados na Constituição, pressionando as autoridades através de ocupações pacíficas, soma-se outra ousadia, igualmente intolerável para os senhores do grande capital do campo e das cidades: a disputa legítima e legal do Orçamento Público. Em quarenta anos, desde a criação do INCRA (1970), cerca de um 1 de famílias rurais foram assentadas. Mais da metade, entre 2003 e 2008. Para viabilizar a atividade econômica dessas famílias, para integrá-las ao processo produtivo de alimentos e divisas no novo ciclo de desenvolvimento, é necessário travar a disputa diária pelos recursos públicos. Daí resulta o ódio dos ruralistas e outros setores do grande capital, habituados desde sempre ao acesso exclusivo aos créditos, subsídios e ao perdão periódico de suas dívidas. O compromisso do Governo de rever os critérios de produtividade para a agricultura brasileira, responde a uma bandeira de quatro décadas de lutas dos movimentos dos trabalhadores do campo. Ao exigir a atualização desses índices, os trabalhadores do campo estão apenas exigindo o cumprimento da Constituição Federal, e que os avanços científicos e tecnológicos ocorridos nas últimas quatro décadas, sejam incorporados aos métodos de medir a produtividade agrícola do nosso País. É contra essa bandeira que a bancada ruralista do Congresso Nacional reage, e

ataca o MST. Como represália, buscam, mais uma vez, articular a formação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) contra o MST. Seria a terceira em cinco anos. Se a agricultura brasileira é tão moderna e produtiva – como alardeia o agronegócio, por que temem tanto a atualização desses índices? E, por que não é criada uma única CPI para analisar os recursos públicos destinados às organizações da classe patronal rural? Uma CPI que desse conta, por exemplo, de responder a algumas perguntas, tão simples como: O que ocorreu ao longo desses quarenta anos no campo brasileiro em termos de ganho de produtividade? Quanto a sociedade brasileira investiu para que uma verdadeira revolução – do ponto de vista de incorporação de novas tecnologias – tornasse a agricultura brasileira capaz de alimentar nosso povo e se afirmar como uma das maiores exportadoras de alimentos? Quantos perdões da dívida agrícola foram oferecidos pelos cofres públicos aos grandes proprietários de terra, nesse período? O ataque ao MST extrapola a luta pela Reforma Agrária. É um ataque contra os avanços democráticos conquistados na Constituição de 1988 – como o que estabelece a função social da propriedade agrícola – e contra os direitos imprescindíveis para a reconstrução democrática do nosso País. É, portanto, contra essa reconstrução democrática que se levantam as lideranças do agronegócio e seus aliados no campo e nas cidades. E isso é grave. E isso é uma ameaça não apenas contra os movimentos dos trabalhadores rurais e urbanos, como para toda a sociedade. É a própria reconstrução democrática do Brasil, que custou os esforços e mesmo a vida de muitos brasileiros, que está sendo posta em xeque. É a própria reconstrução democrática do Brasil, que está sendo violentada. É por essa razão que se arma, hoje, uma nova ofensiva dos setores mais conservadores da sociedade contra o Movimento dos Sem Terra – seja no Congresso Nacional, seja nos monopólios de comunicação, seja nos lobbies de pressão em todas as esferas de Poder. Trata-se, assim, ainda uma vez, de criminalizar um movimento que se mantém como uma bandeira acesa, inquietando a consciência democrática do país: a nossa democracia só será digna desse nome, quando incorporar todos os brasileiros e lhes conferir, como cidadãos e cidadãs, o direito a participar da partilha da riqueza que produzem ao longo de suas vidas, com suas mãos, o seu talento, o seu amor pela pátria de todos nós. • CONTRA A CRIMINALIZACÃO DO MOVIMENTO DOS SEM TERRA. • PELO CUMPRIMENTO DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS QUE DEFINEM AS TERRAS DESTINADAS À REFORMA AGRÁRIA. • PELA ADOCÃO IMEDIATA DOS NOVOS CRITÉRIOS DE PRODUTIVIDADE PARA FINS DE REFORMA AGRÁRIA. Brasília, 21 de setembro de 2009. Pedro Tierra, Antonio Candido, Plínio Arruda Sampaio, Eduardo Galeano, Heloisa Fernandes, Alípio Freire. Seguem-se outras centenas de adesões de dirigentes partidários, intelectuais, artistas e ativistas do movimento sindical.

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falar brasileiro Marcos Bagno

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Caros amigos,

muito obrigado!

Brasileiro fala banto?

Fundei a APAFUNK

a dia e referentes aos mais diversos campos da vida humana. As palavras do iorubá que empregamos, por outro lado, se referem quase exclusivamente ao universo religioso e têm uma difusão muito mais restrita geograficamente. Com isso, se quisermos de fato nos aproximar das nossas raízes africanas mais profundas, é nas línguas do grupo banto que devemos procurá-las. É delas que vêm, entre tantas outras, as já brasileiríssimas caçula, carimbo, cachaça, dengo, samba, sacana, biboca, maconha, bagunça, jiló, cachimbo, cafungar, fungar, cabular, catinga, catimba, ginga, lambada, cangaço, mocambo, moleque, miçanga, moqueca, muamba, olelê-olalá, tutu, titica, xingar, quiabo, quitanda, quitute, muxoxo, cochilo, banguela, beleléu, zanzar, ziquizira, songamonga, moringa, camundongo, babaca, senzala, mucama, macaco, babau, caxumba, capanga, canga, tanga, lengalenga, mandinga, coroca, cotó, fubá, cafuné, jagunço, meganha... sem falar, é claro, da grande unanimidade nacional — a bunda! Marcos Bagno é linguista e escritor. www.marcosbagno.com.br

(Associação dos Profissionais e Amigos do Funk), para exigir do Estado do Rio um olhar cultural e não policial do movimento que tanto conheço há dezessete anos. Participamos de fóruns, debates, palestras, encontros com movimentos sociais e não nos negamos a entrar nos gabinetes dos deputados na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro pra exigir uma política cultural para nosso movimento. A 1º de setembro de 2009, foram votados dois Projetos de Lei que vão ajudar - e muito - nesse processo de descriminalização. Um revoga uma Lei que dificultava os bailes em nosso Estado e o outro faz o Estado reconhecer o Funk como cultura popular. Agradecemos a todos os deputados, mesmo sabendo que eles cumpriram com suas obrigações, sabemos que isso é muito difícil de acontecer nas assembleias legislativas do nosso Brasil. Sei que não teríamos conseguido ser compreendidos nessa luta de convencimento a um ritmo tão massacrado pela mídia nos últimos anos, se não fosse a mídia “magra”. Mídia alternativa, nunca duvide do seu poder: quero dizer que alguns sites, jornais e revistas fizeram nosso grito ecoar Brasil afora. Primeiramente agradeço aos sites www.funkderaiz.com.br, que foi o primeiro a publicar nossa batalha, ao www.fazendomedia, ao Observatório da Indústria Cultural (oicult.blogspot.com.br), à Agencia de Notícias da Favela (www.anf.org.br), ao www.foque.com.br, e a todos os outros sites que eu não me lembro agora. Ao Jornal Cidadão, ao Jornal Brasil de Fato, aos jornais sindicais, universitários e dos movimentos sociais. À revista Vírus Planetário, ao Núcleo Piratininga de Comunicação, a Radio Muda de Campinas e, claro que eu não podia esquecer, da revista Caros Amigos, que me convidou para ocupar o espaço desta coluna. Obrigado a todos vocês que não só nos ajudaram a divulgar nossa batalha, como nos ensinaram que a mídia somos nós que fazemos. Mas uma vez, MUITO OBRIGADO A TODOS! MC Leonardo é compositor, autor, com seu irmão MC Junior, de funks de protesto, como o Rap das Armas. mcleonardo@carosamigos.com.br http://mcjunioreleonardo.wordpress.com

Ilustração: Debora Borba/deboraborba@gmail.com

Dia desses, uma gaúcha veio me contar, entusiasmada, que tinha aberto uma escola de línguas em Porto Alegre, que não queria se limitar ao ensino das línguas europeias (inglês, francês, espanhol, italiano, alemão) mas pensava em oferecer também o iorubá, para ser uma escola “politicamente correta”, que contemple as línguas que “influenciaram” o português brasileiro. Pensei com meus botões: “Mais uma iludida”. O desconhecimento, por parte da maioria dos brasileiros, inclusive linguistas profissionais, da história linguística do nosso país é impressionante. Quando, com base nos excelentes estudos de Yeda Pessoa de Castro, digo às pessoas que, das línguas africanas trazidas para cá com o tráfico de escravos, a que menos impacto exerceu sobre o português brasileiro foi o iorubá, as reações costumam ir da surpresa à indignação. O iorubá é uma língua oeste-africana. Seus falantes só começaram a ser trazidos para o Brasil no final do século XVIII, com a destruição do reino de Queto, e também depois de 1830, quando foi arrasado o império de Oió. Ficaram concentrados nas zonas litorâneas, com especial destaque para a região do Recôncavo baiano. Com os falantes de iorubá e de outras línguas oesteafricanas vieram os cultos religiosos que se tornaram conhecidos como candomblé. Por causa do prestígio cultural que essas manifestações religiosas alcançaram é que se fixou, entre nós, o mito de que o iorubá é a principal (quando não a única!) língua africana que exerceu “influência” sobre o português brasileiro. Desse mito decorrem inúmeras distorções como, por exemplo, a do filme “Quilombo”, de Cacá Diegues (1984), em que Zumbi dos Palmares e demais quilombolas falam iorubá, em pleno século XVII, quando ainda não tinham chegado ao Brasil os falantes dessa língua. O mesmo se pode dizer dos inúmeros cursos de iorubá oferecidos Brasil afora e que muitas pessoas vão frequentar na crença de que, assim, se aproximariam mais das raízes africanas da nossa população e da nossa cultura. Ora, as línguas que de fato mais confluíram para a formação do português brasileiro são de uma outra família, chamada Banto. São de línguas bantas (quicongo, quimbundo, umbundo) a maioria dos escravos trazidos a partir do século XVII e que serão distribuídos por todo o território brasileiro. A antiguidade da presença dos bantos é que explica a grande quantidade de vocábulos plenamente integrados ao falar brasileiro do dia

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Gershon Knispel A fundição da família Omarija, em Ibtin, na Galileia

foto Gershon Knispel

A casa, uma crônica

que se repete Meu velho amigo Abdallah Omarija, da

aldeia beduína de Ibtin, que se acomoda aos pés das montanhas da Galileia, na periferia ao norte de Haifa, eu o conheci imediatamente depois de meu retorno para Israel, perseguido pelo Dops, no dia seguinte ao golpe militar de 1964 no Brasil. O único fundidor da região que estava de acordo em adotar o sistema que inventei, de fundir os moldes de isopor, que economizava tempo de trabalho e custos. Mais de quarenta anos se passaram e nossas relações de amizade sempre se aprofundaram mais e mais. Nos acostumamos a trocar visitas; não faltaram ocasiões. No início, em épocas de festividades religiosas, cuja quantidade vinha em dobro, porque Abdallah, como os outros árabes, não podia ignorar as festas judaicas, em que não era permitido trabalhar. De repente, as ocasiões se multiplicaram. Nasceram treze filhos de Abdallah, dos quais só uma menina. Cada nascimento era mais uma oportunidade de sacrificar um cabrito no grande espeto, bem temperado com páprica, cebola etc., com o fantástico café com folhagens aromáticas da erva hell, cujo cheiro ainda me acompanha. Sabemos que, entre os sentidos, a memória do olfato é a mais forte. A casa de pedra de Abdallah sempre ficava crescendo, ignorando as leis que não permitiam construção sem autorização nas terras agrícolas em volta. Quando não havia mais para onde estender a casa, ele começou a construir um andar superior. Segundo os costumes, quando a mãe está com a barriga crescendo, todos os vizinhos vinham ajudar a construir o novo cômodo. Isso era decorrência da lei otomana, do tempo da ocupação turca de centenas de anos, com muito maior generosidade do que as proibições impostas sobre os árabes pelos britânicos e, ainda mais rudemente, pelos israelenses. A lei turca dizia: uma construção sem autorização, se a construção começou antes do nascer do sol e o teto vai se completar antes do por-do-sol do dia seguinte, não pode mais ser demolida. Foi essa lei que virou hábito quando todos os cidadãos da aldeia ou vizinhos da cidade chegavam para o mutirão de construção, para terminá-la dentro do prazo quase impossível. Essa lei contribuiu para o reforço da cultura tribal tão

semelhante à cultura dos tempos bíblicos. Durante essas décadas que se passaram, ampliou-se a empresa de fundição de Abdallah, enquanto o primogênito, Jamil, e o segundo filho, Lutfi, foram os primeiros a acompanhar o pai na firma depois de terminarem os oito anos de ensino fundamental. O terceiro filho, Latif, entrou para a faculdade de contabilidade; Chasan, o quarto filho, estudou engenharia, e assim por diante. Todos ficaram dentro da empresa e assim Abdallah não precisava depender de estranhos e seus negócios navegavam em águas calmas. Quando as autoridades israelenses descobriram essas infrações à lei de construções, começaram a chegar as ordens de destruição da casa. A família extensa Omarija, composta de dez famílias nucleares na mesma casa, ia ter o mesmo destino das populações árabes expulsas de suas cidades e aldeias, como em Nazaré, a capital da Galileia. Ali, desde os anos 1950, as autoridades israelenses vinham assentando judeus nas elevações em torno da cidade, no que se chamou de Nazaré de Cima. Com o desenvolvimento dessa cidade judaica, as autoridades israelenses julgaram necessário desapropriar terrenos da antiga Nazaré árabe e das aldeias árabes da região. Os jovens árabes tinham de encontrar alternativas de moradia. Os imigrantes judeus de Nazaré de Cima receberam os apartamentos quase de graça, mas mesmo assim sua situação econômica foi ficando cada vez mais apertada, de modo que tenderam a aceitar as propostas dos jovens árabes de pagarem aluguel pelas moradias, o que irritou os moradores judeus que podiam manter suas casas. Isso porque o valor dos apartamentos foi reduzido a um terço do valor de mercado, por causa da vizinhança árabe. Para os judeus que alugaram suas residências a árabes foram enviadas cartas com ameaças de morte, e o veneno da frustração atingiu os judeus e os árabes conjuntamente. Os desacordos étnicos se tornaram assunto do dia, e o pior é que a estrutura familiar tão firme e tão tradicional dos árabes, reunida em torno do chefe, pai e avô, começou a ficar irremediavelmente abalada. O aluguel foi subindo, para obrigar os árabes a

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irem embora, que sofreram ameaças constantes para não tentarem comprar os apartamentos. As grandes distâncias entre as casas e as escolas, e as distâncias ainda maiores até o local de trabalho, os engarrafamentos nos picos da manhã e do fim de tarde – tudo isso virou para os árabes um inferno. Meu caro amigo Abdallah Omarija não aguentou mais essa situação e morreu há alguns meses. Se essa é a via dolorosa por que passam esses árabes cidadãos de Israel, imagine-se o que acontece com os palestinos das regiões ocupadas. Tudo isso veio à minha mente, quando vi, na “Folha de S. Paulo” do domingo, 13 de setembro, a notícia do jornal britânico “Financial Times”, “Construção de assentamentos também provoca expulsão; árabes recorrem à Justiça”, que dizia: “Desde o início de agosto, quando duas famílias do bairro Sheikh Jarrah, em Jerusalém Oriental, foram despejadas à força de suas casas, Muhammad Sabagh não tem conseguido dormir muito. O encanador aposentado de 61 anos teme que ele, seus cinco irmãos e mulheres e filhos deles possam ir para a rua em pouco tempo. A família Sabagh pode se tornar a próxima vítima da batalha que já dura quase quatro décadas, travadas por dois grupos judaicos, para reaver imóveis em Sheikh Jarrah, distrito árabe ao norte da Cidade Velha de Jerusalém, que dizem que lhes pertenciam antes de 1948. Despejos de casas de palestinos erguidas sem alvarás e a construção de casas novas para colonos em Jerusalém Oriental vêm causando a maior divisão sobre os assentamentos entre Israel e os EUA em pelo menos uma década. O aliado mais incansável de Israel tem exortado o país a congelar a construção de casas para judeus, para ajudar na retomada das conversas de paz com palestino”. Para o leitor brasileiro não fica claro que não se trata de “duas famílias” que foram despejadas. Segundo os costumes palestinos de reunir a parentela numa propriedade só, apenas na casa da família Sabagh moram seis famílias no sentido brasileiro do termo. As raízes das famílias árabes estão sendo arrancadas. Gershon Knispel é artista plástico. outubro 2009

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entrevista ferréz

“A periferia de São Paulo pode explodir a qualquer momento”

Participaram: André Herrmann, Bárbara Mengardo, Felipe Larsen, Hamilton Octavio de Souza, Júlio Delmanto, Lúcia Rodrigues, Luka Amorim, Marcelo Salles, Marcos Zibordi, Otávio Nagoya, Renato Pompeu, Tatiana Merlino. Fotos Jesus Carlos

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erréz tem 33 anos, é escritor, comerciante e autêntico representante dos sentimentos e das lutas da imensa população que vive na periferia de São Paulo. Ficou conhecido porque expressa com realismo a dureza das relações entre povo e Estado, entre pobres e ricos, entre as precárias condições de vida nas favelas e a repressão policial. Nesta entrevista exclusiva para Caros Amigos ele conta como o processo de criminalização da população pobre da periferia tem contribuído para acumular ódio e faz um alerta: “Vai chegar um dia que uma agressão a um menino ou a uma menina vai virar uma revolução em São Paulo inteira”. Fala também de sua vida e de seu amor pela literatura. Fiquem com Ferréz.

Hamilton Octávio de Souza - Fale um pouco da sua vida, onde nasceu, estudou, o que faz hoje. Ferréz - Meu nome é Ferréz, eu não uso meu nome de batismo por que eu não acredito no batismo, não acredito na Igreja Católica. Prefiro um pseudônimo, por que é uma coisa que eu inventei também, como a minha carreira. Eu sou vendedor ambulante, eu só vivo com coisa debaixo do braço para cima e para baixo para vender às editoras, sou datilógrafo também, por que escrevo e trabalho com muita coisa para poder ter o básico, então vivo de muita coisa, trabalho de muita coisa. A minha infância foi normal como a de todo moleque de favela, tá ligado? Só não soltava tanto pipa porque meu pai não deixava. Tatiana Merlino - Nasceu onde? Nasci no Valo Velho, na verdade eu nasci num lugar chamado Cantinho do Céu, que é antes um pouco, ali no Jardim Capelinha, na zona sul de São Paulo. Nasci ali, fui para o Valo Velho, mas eu sempre falo do Valo Velho porque pra mim o começo da minha infância foi no Valo Velho, na casa de aluguel do meu pai. Depois eu mudei para o Capão Redondo, na verdade Valo Velho é área do Capão tam-

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bém, para o Jardim Comercial e estou lá até hoje.

Tatiana Merlino - E os teus pais faziam o que? Meu pai é motorista de ônibus aposentado, depois foi motorista da Sabesp, se aposentou e agora cuida de um bar. Minha mãe é doméstica, trabalha em casa de família e até hoje é a mesma coisa, ela faz uns bicos e tal, tem um bazarzinho, mas vive de bico também.

Tatiana Merlino - E você é filho único? Sou o irmão mais velho de uma família de três, tenho uma irmã que é enfermeira e um irmão de 18 anos.

Renato Pompeu - Que idade você tem? Tenho 33. Estou pronto para ser crucificado.

Marco Zibordi - Então começa a falar da escola, que é a primeira crucificação, para você

que não acredita em igreja, a primeira é a escola... É. Na escola eu tive bastante dificuldade, porque eu não prestava atenção na aula, mas ao mesmo tempo eu sabia a lição. Então eu tirava boas notas, prestava atenção no professor, e até hoje os professores perguntam como é que pode esse cara nunca prestou atenção, e esse cara sabia as matérias. Eu achava que 20 minutos do que o professor falava eu já entendia, o resto era discurso meio no vazio. Eu repeti a primeira série do primeiro ano no Euclides da Cunha, eu não gostava do ensino, não gostava da escola, não odiava ir para a escola, eu só ia para conversar mesmo e eu achava que não tinha nada a ver o que eu estava aprendendo. Eu não aprendi porcentagem na escola, entendeu? Não me ensinaram porcentagem e no comércio que eu abri eu precisava saber porcentagem. A escola me ensinou pouco, mas eu tive muitas pessoas boas na escola, muitos professores bons, que eram professo-

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res que não davam lição nem de matemática e nem de português, mas davam lição de vida. Essas pessoas fizeram a diferença.

Marco Zibordi - A literatura não te ligava em nada na escola? Não, eu lembro bem da passagem que eu descobri da quarta para a quinta série, que tinha os druidas. Eu gostava muito de história e aí eu perguntava para o professor, eu lembro muito de ter chegado e perguntado para o professor o que eram os druidas e o professor não sabia e aí ele falava: eu não estou dando aula sobre isso. Eu fazia fanzine, já criava uns logos com o fanzine e aí eu fui estudar a cultura dos druidas para poder puxar para o fanzine os logos e tal, aí eu tinha uns interesses que na escola não tinha; eu gostava de quadrinhos e na escola não tinha. Eu lembro bem na oitava série de ter um livro de português e ter lá um texto do Arnaldo Antunes e aí eu falei: puta finalmente na oitava série eu vou ver um cara que eu gosto dentro de um livro de português. Por que no resto não tinha nada. Júlio Delmanto - E agora você está nos livros

de português... É parece que agora sou eu, pelo menos o moleque olha e diz tem alguém aqui.

Lúcia Rodrigues - Você acha que a escola está

distante da realidade? Eu acho que a escola perdeu o foco total de qualquer senso de realidade. Eu acho que a escola e a realidade não têm mais nada a ver e eu acho que uma geração inteira está errando de ir para a escola e os professores serem educados do jeito que são também. Por que os professores também estão ferrados.

Tatiana Merlino - Quando e como você

começou a gostar de literatura? Meu, não tem uma data assim. Tipo, eu não sei assim um dia eu acordei e falei agora eu gosto de literatura, sabe? Mas eu lia sempre quadrinhos e gostava de Robert E. Howard que é o autor do Conan e aí eu buscava saber sobre o cara, e a biografia dos autores sempre me interessou mais e então eu comecei a buscar saber mais sobre os caras. Eu sempre tive um ensino paralelo ao da escola, então se eu gostava de Conan eu lia Conan no serviço e ia para escola, tinha que ler Aluísio de Azevedo ou tinha que ler Carlos Drummond de Andrade lá, mas o Carlos Drummond de Andrade lá não me interessava...

Lúcia Rodrigues – O que acha dos rappers

tipo Gog, Racionais, Facção Central? O Gog, o Racionais, o Facção Central, o Consciência Humana, são a minha escola também, eu não existiria e toda uma legião de caras que existe hoje que gosta de literatura e rap, não existiria se não fosse eles. O rap, pra mim, junto com os caras é uma injeção, tá ligado? Que na verdade é pra quem tá com dor, quando eu vou em faculdade fazer palestra tem um monte de gente que reclama, mas eu acho violento Facção Central, Racionais... Por que não é para eles, eles não precisam ouvir aquilo, eles não tão na cadeia, eles não tão usando droga, então

não precisa. É bem claro pra mim, as letras de rap no Brasil são as melhores letras do mundo, não existe um tipo de letra de rap no mundo igual as que existem no Brasil. Um rap que o cara fala: No rio em que Jesus andou, o homem navegou e matou pela cor. Não existe em nenhum lugar no mundo um verso como o homem nasceu com defeito de fabricação, invés do coração uma granada de mão dentro do peito. É o tipo de letra que os caras fazem.

Lúcia Rodrigues - O que você acha dos

partidos políticos, hoje? Eu não tenho mais pensamento político nenhum. Eu acho que absteve, sabe quando você está cansado de sexo que vira abstinente? Ainda bem que você não sabe. Você não é nem um sexo de o outro, você é um ser morfológico que não tem sexo? É a mesma coisa eu na política, eu já trabalhei para deputado, já trabalhei para vereador e eu me senti muito mal depois, quando os caras são eleitos, porque eu vejo que eu não consegui alcançar os objetivos dos caras da quebrada que tava com nós.

Lúcia Rodrigues - Para que partido

especificamente? Era para o PT. Eu sempre trabalhei de graça para o PT, muitos anos. Sempre vendi broche, sempre andei com bandeira na rua, sempre foi de graça, eu nunca ganhei um real, mas teve algumas pessoas do PT com quem eu trabalhei mesmo recebendo e que depois me decepcionou, decepcionou meus amigos e hoje eu tenho algumas pessoas dentro da política que eu valorizaria assim, mas que eu acho que tem diálogo, pelo menos comigo assim como amigo. O Eduardo Suplicy, que é meu amigo assim pessoal, também independente de política, é o único que é eleito para 8 anos e tá lá ainda, volta eu ligo para ele, ele vai, os moleques da quebrada ligam, ele vai. É o único presente, na verdade o Suplicy não é político, ele é um ser humano.

Tatiana Merlino - Mas e o PT em si? O que

você se decepcionou com o PT? Ah! Eu não sei, eu votei num partido que prometeu outras coisas, entendeu? Não prometeu escândalo, não prometeu virar as costas na hora em um julgamento, não prometeu... O PT virou outra coisa, não é o que eu acreditava não. Não estou falando que tinha que ser revolucionário, que tinha que mudar tudo, que todo mundo sair de vermelho, mas era uma coisa que eu acreditava como moleque de favela que a favela ia mudar, entendeu? Mas eu tive que esperar o PCC chegar para mudar a favela, não foi o PT... A sigla foi outra, não foi o PT que mudou a favela, então nessas partes não é um governo autoritário ruim, mas também não é o governo dos sonhos que eu lutei, que eu vendi show, que o Góis morreu na estrada tentando lutar pelo partido, que eu vi muito amigo meu morrendo lutando pelo PT e ficando velho pelo PT, não era isso que a gente queria no poder e eu não tô falando só do Lula, tô falando de todo o partido.

Lúcia Rodrigues - O PCC mudou a favela em que maneira? De toda a maneira possível que você pensa.

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Lúcia Rodrigues - Positivamente? Depende da visão. Tem gente que pensa que é positivo, tem gente que pensa que é negativo. Mas mudou.

Tatiana Merlino - Você pode falar um pouco

dos dois lados, do lado positivo e do lado negativo? O lado positivo é que a elite não sabe mais o que é a favela, não tem nem noção. O governo não tem noção do que é a favela mais, porque é outra favela, é outra coisa... E o lado negativo é que a população sempre vai ser oprimida.

Tatiana Merlino - O lado positivo é outra coisa

como? Não tem como explicar, assim... Mas mudou, eu, por exemplo, quando eu escrevi o Manual Prático do Ódio a favela era aqui, agora se eu for escrever sobre a favela agora é outra coisa. Por isso eu não escrevo mais sobre a favela, o meu próximo romance não é mais sobre a favela, por que eu não faço mais questão da elite saber o que é a favela não, não me interessa mais...

Lúcia Rodrigues - Mas mudou exatamente o

quê? Explica um pouco melhor. Mudou tudo. Mudou a vida criminal, tem regra, mudou tudo o que você imagina na vida cotidiana da periferia mudou.

Lúcia Rodrigues - É um estado paralelo dentro

da favela? Poder paralelo? Não, é o poder. Esse negócio de dizer que é o poder paralelo, não existe o poder paralelo, o Estado não manda na favela, quem disse que o Estado manda na favela? A PM vai lá manda o cara por a mão da cabeça e tudo, repudia o cara, mas depois o cara volta a ser da favela, entendeu? Por mais que os caras cerquem um motoboy, cerquem o cara que está dentro do ônibus, bata geral em todo mundo eles vão embora e a favela continua. Então mudou tudo e vai mudar mais ainda, tá em processo de mudança.

Lúcia Rodrigues - Mas houve regras fixadas

claras? O que aconteceu? Há regras fixadas claras e toda uma norma de conduta e de respeito que o Estado nunca conseguiu impor.

Renato Pompeu - Quem impõe? O crime.

Otávio Nagoya – Para os moleques de dentro

você acha que é melhor ou pior? Por um lado é melhor, por outro lado não. Você imagina que a gente deixou de viver num estado em que você pisava no meu pé e você podia levar uma comigo e eu podia te matar; você podia pisar no meu pé e levar uma comigo e eu ter que me segurar e a gente ter que se segurar, mas ao mesmo tempo nós dois estamos regidos por uma força maior que pode não se segurar, entendeu? Então você pensa o que é melhor: você estourar o seu ódio ali na hora ou você viver sob constante ameaça de um ódio maior. outubro 2009

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Tatiana Merlino - Mas morre menos gente? Morre menos gente, porque tem mais tensão.

Júlio Delmanto - Existe um papel do crime

como mediação nos conflitos cotidianos? Existe. O crime está em tudo em que o Estado nunca teve, o Estado deixou uma lacuna muito grande que o crime cobriu, você vai na delegacia prestar queixa de um carro roubado você fica 4 horas sentado, sendo humilhado pelo policial, parece que você não foi roubado, parece que você roubou, entendeu? E o crime não. Você procura o crime ou ele resolve, ou não. Você no mínimo não fica 4 horas sentado, você não fica na palavra de ninguém, entendeu? Então, onde não chegou o poder público o crime chegou, quando o poder público está cuidando da elite, o crime está cuidando de outra parte da cidade que é dele.

Hamilton Octávio de Souza - Esse

distanciamento já vem de muitos anos, né? Para mim a posição é bem clara, a mídia tem uma parte de criminalizar toda a periferia, então a periferia fez um protesto porque morreu uma jovem é o tráfico que mandou, sendo que não foi o tráfico que mandou. A elite tem mais medo do povo do que do crime, então por isso que ela atemoriza todo mundo falando que é o crime, por que para ela é um jogo.

Hamilton Octávio de Souza – Como você

vê essa separação que existe na sociedade brasileira? Eu acho que a gente tem toda uma classe querendo se inserir e que não vai poder se inserir, não tem espaço, não tem organização. Então o cara tem acesso agora a comprar um carro importado parcelado, ele tem acesso. Só que ele não tem onde por, não tem garagem, não tem estrutura para por o carro. O Governo Lula deu estabilidade para todo mundo poder comprar um carro parcelado, uma casa parcelada, uma roupa parcelada, mas você não tem aonde por tudo isso, você não tem estrutura na quebrada para por tanto carro, os carros ficam no meio da rua, os açougues estão lotados, entendeu? Não tem comida boa, todo mundo come na mesma pizzaria. Não tem estrutura para se viver melhor. Não tem estrutura física para abranger gente que tem dinheiro e o que se está dando é ilusão de que se tem dinheiro, é ilusão.

Hamilton Octávio de Souza - E qual é a saída

para este tipo de coisa? A saída é clara. A saída é... Já começou a saída há algum tempo. A saída tá na cara das pessoas, só não vê quem não quer. A saída é que o povo já tá se mexendo, isso não é utopia minha, é realidade, quando você vê uma favela reagindo, quando você vê um ônibus queimando, não é o crime, por mais que a mídia queira, quando você vê as pessoas que estão legitimadas como embaixadores da periferia tendo acesso a dar entrevista, tendo acesso a falar, entendeu? Aí que a coisa tá difícil... Quando a gente tem que ser ouvido, que nem eu sou ouvido, que nem os outros caras do Hip Hop são ouvidos, os caras da literatura marginal são ouvidos,

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quando a gente é ouvido, aí você começa a perceber que a gente tem uma importância e alguma coisa tá acontecendo, entendeu?

Lúcia Rodrigues - Mas o que é ser suspeito?

Lúcia Rodrigues - Mas tem alguma

Tatiana Merlino – Então todo mundo é suspeito, né? Não, vocês aqui não, vocês passam batido lá. Se pôs uma touca é mais suspeito... Ou seja, todo morador é suspeito, você tá andando ali, o cara te para: você tá indo aonde? Mas é quê, que o quê? Você é do tráfico. Tipo um amigo meu tava andando com um caderno que a gente tava escrevendo um conto junto e ele foi parado esses dias e o cara perguntou: Esse caderno é o do tráfico? Entendeu? Ele falou: Pô! Me respeita mano, eu tô escrevendo, eu sou escritor, mas o caderno é o do tráfico. Entendeu?

articulação? Vocês tem uma integração entre vocês? Como é que se dá isso? É aí que a gente tem que ter medo, porque não tem articulação pensada. E quando não tem nada pensado é muito mais fácil fazer funcionar. Porque se num organismo por célula eu converso com tal e tal quebrada e organizo um manifesto é uma coisa que eu criei, certo? Ou a pessoa de outra quebrada lá da Leste criou. Agora quando é automático, quando eu ponho uma notícia de abordagem policial comigo e todas as favelas mandam email dizendo: é isso mesmo, se precisar nós tamos juntos. Você pega e fala: Opa! Peraí, peraí! Eu não organizei nada disso mano! E tem gente de todos os lugares também, por quê? Porque o cara também tomou tapa na cara, o outro também foi baleado, então eu vejo medo na não organização, entendeu? Por que quando não tem organização, aí a elite tem que ter medo.

Lúcia Rodrigues - Vocês não se sentem

representados pela política institucional? Eu falo tranqüilamente em nome da população, que a população não tem um ou outro que pode até falar: não, eu voto em tal cara aí que é presidente da câmara, eu voto no tal deputado, eu voto. Por que? Porque ele ganhou. Você pode chegar nele, trocar idéia e ele falar: não, porque este telhado aí quem deu foi o cara. Então tem um apadrinhamento. Mas a grande população é revoltadíssima com a política.

Tatiana Merlino – O que tem de luta? Como é que é a luta e a resistência na periferia hoje? A luta pelos meios intelectuais e pelos meios de produtos, né? Que lança independente, de fazer toda aquela corrente, sabe? De tentar galgar, de aprender a trampar, de aprender a pegar um padrão capitalista e mudar ele um pouco para não ser tão perverso, tem todo esse lado empresarial que a periferia tá pegando e vai pegar porque quando se tem um líder que é empresarial a gente vai seguindo também e tem também toda uma outra luta que eu te falei, que é da população mesmo, a população está se conscientizando. O cara sofre, leva tapa, a chuva derruba o barraco dele, a mulher dele abandonou ele, mas ele não acredita em Deus, entendeu? Ele tinha tudo para se apoiar, então, de todo tipo ideológico na periferia se tem: O movimento Punk, o movimento Rock, todo mundo está se organizando da sua forma, mano. Entendeu? Lúcia Rodrigues – Como é a truculência da polícia dentro da favela? Atingem indiscriminadamente mães, pais de família, crianças, adolescentes? Na verdade atinge... Tem vários tipos de operação, depende da operação que tiver. Por exemplo, em Paraisópolis é o choque, então é mais violento, é mais forte, na verdade atinge quem é suspeito, se eu tiver cara de suspeito eu tô aqui de touca, pá, agasalho...

Suspeito é ter cara de suspeito. É ter cara de favela...

Júlio Delmanto - É uma violência cotidiana que

você, que os seus amigos sentem. O que isso gera na vida de uma pessoa? Isso vai gerando. O dia que os caras enquadraram a gente, eu e todos os líderes do hip hop ao mesmo tempo, vai gerando que a população toda se juntou e falou: Ei que é isso aí? Vai tumultuar os moleques? Os moleques tão só conversando. E aí gerou que os próprios polícias ficaram batendo rádio um pro outro dizendo: Meu, estão tudo junto aqui e alguma coisa eles vão fazer. E aí gera que fica todo mundo com medo, cara. Eles também têm medo.

Otávio Nagoya - Você acha que o que

aconteceu em Heliópolis é processo de que o povo não vai aguentar mais ser agredido assim? Ó, eu tenho certeza absoluta do que eu vou te falar, vai chegar um dia que uma agressão a um menino ou a uma menina vai virar uma revolução em São Paulo inteira e São Paulo não vai se controlar vai pegar fogo São Paulo inteira. Uma agressão. Vai chegar num momento que um cara vai tomar um tapa na cara que vai despertar o ódio de todo mundo de todas as quebradas e aí haja mentira para a mídia mentir. Porque eu quero ver o que ela vai falar. Isso não é criminal, estou falando de população, a população não aguenta mais, quando se chega a um nível que a mãe fala pro filho: vai filho, corre senão a polícia vai te pegar, corre lá para dentro, aí você vê que a criança já está crescendo já em estado de, entendeu?

Barbara Mengardo - E você acha que está chegando essa hora? Eu acho que a gente não vai saber o timing dela não. Quem tá na favela vai sentir, eu senti os atentados 3, 4 meses antes, fiz até um artigo para a Caros, porque você sente o clima. Tá muito tranqüilo mano, tá muito na moral, tá muito... Muito... Entendeu? Meu, pensa você morar em um lugar e do nada chega uma força tarefa, todo mundo de preto, com fuzil na mão, xingando criança, xingando dona de casa, revirando tudo as casas, revirando tudo e não explica nada e vai embora. Treinamento, cara, sabe, o cara pega o batalhão dele e vai treinar na sua favela, mano. Lúcia Rodrigues - Você disse que de repente

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um tapa na cara vai gerar uma insatisfação tão grande que as pessoas vão se levantar, o que é isso? Uma inressurreição, uma revolução, o que vem depois? Não, é incalculável, não dá para responder. Aí eu ia ser profeta se eu falasse para você. Isso não tem como responder porque é impensável, a população, a massa ela é pensante de uma forma totalmente diferente da minha, eu sou intelectualóide demais para a massa. Eu tô dentro da quebrada, eu respiro a quebrada, mas ao mesmo tempo eu leio Dostoievski na minha casa, então é outro pensamento, entendeu? Eu faria queimar as lanchonetes americanas, o povo vai onde primeiro achar, vai nos postos de saúde, no bar mais pobre e quebra tudo, entendeu? É outro ponto de vista, não tenho legitimidade para ter o pensamento certo sobre esta resposta, tendeu?

Tatiana Merlino – O povo vai esperar morrer uma menina? Quando? Como? Pelo que eu acho, as pessoas vão ativar quando tiverem que ser ativadas, só vai acontecer quando tiver que ativar, se tiver que morrer 100 pessoas não vai ser ativado, mas se tiver que morrer um vai. É mais problema do que uma simples resposta, entendeu? É mais problemático resolver isso, que uma simples resposta. Lúcia Rodrigues - O PCC funciona de que

maneira? É por aí que vai vir a articulação ou não? Tem nada a ver com criminal, chega uma época na nossa vida que o povo é povo e crime é crime,entendeu? Por mais que o crime seja do povo, povo é povo e crime é crime, trabalhador é trabalhador e criminoso é criminoso. Então a articulação vem do povo, é muito mais perigoso do que o crime.

Lúcia Rodrigues – A população respeita mais o PCC ou a polícia? A população tem medo da polícia, entendeu? Respeita mais o PCC ou admite mais o PCC, tem mais medo da polícia. De uma certa forma a polícia causa mais medo. Hamilton Octávio de Souza – O que se faz para vencer o medo? Medo não se vence. Medo vira ódio, as pessoas estão odiando tudo por causa de medo, medo vira ódio. Todo mundo tá com ódio, já apanhou demais, já sofreu demais, é muita coisa contra, entendeu? Não tem muita semente de esperança não para o cara, vira só ódio, e ódio se faz de várias formas, quando você vê um cara estourando com a mulher dele em casa, aprisionando ela, ela é refém dele, não é ciúme não, é ódio. Quando você vê um assalto a uma lotação virar uma chacina, é ódio. Quando você vê os policiais chegando na quebrada matando um monte de gente porque não sabe quem é comando e quem não é, é ódio... Tudo é explosão de ódio, a esperança não sobrevive a nada disso não, entendeu? Júlio Delmanto - Você falou do papel da

polícia – e o papel do sistema prisional aí nessa história? Se acha que ser preso dá medo? Dava medo, mano, dava medo. Se eu for preso hoje vou ser benquisto aonde eu for. O cara aí que tá lá na quebrada, já foi motivo de medo, por mais que a cadeia seja cruel, ou não tenha comida decente, tendeu? É outra coisa a cadeia, mudou. A única arma do Estado de pânico ela foi neutralizada já, há muito tempo.

Marcelo Sales - Você escreveu em um dos seus textos que você é buscador de autoestima e incentivador de ódio. Por que incentivar o ódio? Porque as pessoas têm que odiar da forma odiosamente correta. Tem que odiar o certo, para gente parar de pisar no pé do outro a gente precisa pisar no pé do cara certo. Eu falo que sou incentivador do ódio do caos moderno. Tatiana Merlino - Para transformar? Para transformar também, para destruir, para crescer, para regenerar, para nascer de novo. Para mim levantar uma bandeira de paz de um lado eu tenho que levantar uma bandeira de ódio do outro, a Bíblia ensinou isso para gente. O senhor das batalhas que foi Jesus Cristo ensinou isso para gente você levanta uma espada na mão para poder coordenar a massa para um certo tipo de guerra.

Lúcia Rodrigues - Que tipo de ódio? Ódio que volta, que não só vem. Tem que ter ódio que volta, o cara tem que pegar um ônibus e na hora que trombar com um boy desses aí e o boy falar: Tó, toma, estaciona meu carro. Pô! Cara eu

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não sou manobrista não, pega a sua chave e enfia naquele lugar. E não abaixar a cabeça e falar: Não senhor, eu não sou manobrista. Ódio que volta, eu tô cansado de ódio que vem, entendeu? Tô cansado de entrar em um lugar e o cara falar: O quê o senhor deseja? Mas você não parou ninguém, numa livraria você vem parar logo eu, ninguém você parou. Não, mas eu tô perguntando o quê o senhor deseja. Aí o cara começa a te seguir pela loja, mas não segue ninguém, isso enche o saco... Uma hora isso enche o saco, entendeu?

Renato Pompeu - Quando você escreve ficção tem em mente o público da periferia ou o público de fora da periferia? Eu escrevo para periferia mano, quem lê de fora é bastardo. Eu só escrevo para a periferia, toda vez que eu escrevo um conto eu penso: O moleque vai entender? Vai. Então... Tatiana Merlino - E como é popularizar a

literatura na periferia? Quanto custa um livro seu? Então, meus livros custavam o preço de editora normal até esse ano. Eu sempre busquei acordo com as editoras para sair mais barato, nunca teve resposta, não tem jeito. O mercado não aceita, então eu montei um selo chamado selo povo que a partir desse mês já sai um dvd e vai sair um livro agora a cinco reais. Por enquanto tá cinco reais esse novo livro meu, e aí todo mundo pergunta: Como é que você vai fazer a cinco reais? Meu, o autor já não ganha nada, então pra mim não ganhar nada é a mesma coisa. Então eu faço por convicção e não outubro 2009

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faço por dinheiro, então eu tô pagando do meu bolso essa edição e a editora vai lançar vários autores também a cinco reais.

Renato Pompeu - Você sente que a sua ficção repercute de forma diferente na periferia do que repercute fora da periferia? Totalmente diferente, totalmente. O cara de fora é como se fosse uma coisa exótica, então cara fala assim: Porra, mas naquele conto dos crentes, muito loco, dei risada demais, mano. Aquela parte lá que o cara troca idéia na igreja, tal. Para você vê como é que é interessante como que o crente pode falar gíria? Então você tem uma introspecção fora, dentro não, os moleques falam: Nossa, Férrez, aquela parte que o crente fala gíria com o outro é muito louco, por que eu tava na igreja e é a mesma coisa o demônio não saiu, ele tá lá dentro o demônio e a gente fala que o demônio nessa igreja não sai, essa igreja é mó pilantra. Então você vê que é outro tipo de entrar, entendeu? Renato Pompeu - Quando você cria ficção que peso você dá para a forma e conteúdo? Eu sempre tento achar que aquele conto ele tem um sentido no mundo, por que se ele não tiver um corpo não basta escrever ele. Então eu já escrevi história que ela era vazia de alma, a história tinha um puta diálogo e tal, mas vai chegar aonde? Entendeu? Eu tenho muita vontade de escrever sobre ser humano, entendeu? Favela, clausura, regime semiaberto, fechado. Eu gosto muito de focar o ser-humano também, os sonhos e a vida de ser-humano. Marco Zibordi - Queria que você dissesse o que é a literatura marginal. Literatura marginal, meu é muita coisa, mas é o rap da literatura, literatura marginal é os moleques escrevendo direto. Literatura marginal os moleques fizeram dia desses, bateram o rádio pra mim: Aí mano, tem um amigo meu que tá escrevendo uns bagulho e quer saber como ele te manda, uns bagulho escrito para ti, que ele tá fazendo umas paradas escritas, uns textos, uns bagulhos velho lá e ele quer te mandar. Aí quando você vai ler você fala: Caralho meu! Bom para caralho! Literatura marginal é um cara chegar pra ti e falar: O tio, eu tô escrevendo uns contos aí, pá, uns textos e eu queria ver como é que faz para lançar. Literatura marginal é a gente trocar idéia com moleque, literatura marginal é a minha paixão de onde eu tiver eu convencer alguém pela literatura, eu nunca deixei de ser apaixonado pelo que eu faço. Lúcia Rodrigues - Você já pensou em ser

político? Por que este trabalho que você faz é de um vereador, de um deputado que vai acompanhar a área que ele tem atuação. Você já pensou alguma vez em se candidatar? Meu, pra mim o político ele é que nem um cara andando armado, ele está mal intencionado. Não tem jeito, se eu virar político vão me dar um carro com placa preta, vai me dar o conforto de umas passagens de avião, vai me dar uns bagulhos que é para anestesiar. Prefiro ficar na literatura, na verdade esse bagulho político quando eu começo a fa-

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lar muita gente fala, eu acredito que eu sou político desde que eu nasci, eu faço política também, mas de certa forma a minha hombridade não é patenteada pelo Estado, o Estado não me dá nada.

Felipe Larsen - Mas já te convidaram alguma vez? Já me convidaram, já teve reuniões que já me chamaram, que falaram que meu nome foi cotado. Também, mas outros partidos também de esquerda e um partido de direita também chegou a me convidar. Chegaram a me convidar e na reunião eu falei não também, e falei que não tinha interesse. Lúcia Rodrigues - Você não acha que partido de direita é inimigo dessa população que mora na periferia? Acho que todo político é inimigo, mano, já virou uma coisa. À medida que um cara vê uma desapropriação dessa, o cara não cola, o cara não ajuda, ele vê uma polícia dessa ostensiva que ele não ajuda, não tem PT, é inimigo, entendeu? Quando surgiu uma emergência no Rio eu não esqueci o que o Lula falou, o Lula falou que tem que ter uma repressão maior a esse pessoal aí, ele falou isso, morreram quantas pessoas no morro? As pessoas que tinham votado nele morreram no morro, quando um dirigente fala em público que tem que ter uma repressão maior nisso, ele sendo de esquerda ou de direita, esse cara é responsável pelas mortes das pessoas que vão morrer ali. André Hermann - A igreja evangélica é

também um tipo de droga na periferia? A igreja evangélica é uma coisa maravilhosa, os pastores têm um trabalho comunitário que é uma

piada, o cara está vendo o caos ali, mas o cara é uma criatura, mas ele está sofrendo pastor, acabou de levar um tiro, não deixa ele, que ele é criatura, ele está no mundo das drogas, não vamos nos intrometer com esse povo, com essa raça, porque nós somos de Deus. Eu vejo essa distância, eu vejo que a igreja evangélica podia fazer um trabalho muito maior e não faz, e quando faz, faz show.

André Hermann - E as igrejas católicas? As igrejas católicas têm um trabalho comunitário mais forte, ela faz um mapa do cara que tá sem uma comida e manda, o padre organiza uma quermesse. Eu vejo muito o trabalho da igreja católica em lugares que não chega nada, eu não estou defendendo a igreja católica, por que ela deve pra nós a vida toda também, mas tem um trabalho ali que é mais conciso com a comunidade, como o padre está sempre dentro da comunidade, não está viajando de jatinho que nem os pastores, o padre está ali fazendo um trampinho ou outro. A diocese funciona, entendeu?

Tatiana Merlino - Você é ateu? Eu não sou ateu por que eu não li a bíblia dos ateus, eu estou procurando essa bíblia faz um tempo, entendeu? Mas eu não sou ateu, não sou agnóstico, não sou nada disso, eu sou só um ser-humano que escreve.

Tatiana Merlino - Você acredita em Deus? Eu queria que ele acreditasse em mim, é verdade. Como eu ainda não sei se ele acredita em mim, eu ainda não posso dizer que acredito nele. Mas se ele acreditar em mim eu começo a acreditar nele, porque aí a gente vai se entender.

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Wagner Nabuco

Cesar Cardoso

Nacionalista, eu

Ei, você viu DEUS por aí?

Era dezembro de 2001 e entrevistávamos, aqui na Caros Amigos, Luiz Marinho, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, ex ministro da Previdência do governo Lula e atual prefeito de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. A entrevista foi boa (Caros Amigos, edição 57) e confirmou o bom preparo político e intelectual que têm os sindicalistas formados nos embates sindicais dessa região altamente industrializada. Como é bem conhecido, Marinho é um pupilo dileto do presidente Lula e um discípulo de trajetória parecida. Começou no sindicalismo e passou para a política. Certa altura, perguntei ao entrevistado o que achava da frase do senador Fernando Henrique Cardoso em seu discurso de despedida do Senado, afirmando que sua principal tarefa como futuro presidente seria “desmontar o estado Varguista”. Marinho respondeu: “eu também sou contra o estado Varguista”. Assim de chofre fiquei um tanto surpreso, mas logo me dei conta que essa resposta era coerente com a formação dessa geração de sindicalistas, bem como com a formação teórica e política no PT. Ressalvo que Marinho deveria estar se referindo principalmente à estrutura sindical montada por Vargas, em particular a contribuição sindical obrigatória e a unicidade na base territorial. Feita a ressalva, retorno ao meu tema. O primeiro programa do PT foi muito influenciado pela escola “uspiana” de sociologia, com seu representante mais vistoso, o sociólogo Francisco Weffort, que por anos presidiu o PT e se bandeou para o PSDB, assumindo o Ministério da Cultura no primeiro governo de FHC. Quando fiz história na USP, final dos anos 70, os alunos das ciências humanas aprendiam que Vargas foi um ditador populista que aparelhou os sindicatos, criou a pelegagem, outorgou uma constituição fascista baseada na Carta del Lavoro, do fascista Benito Mussolini e por aí vai. Também aprendíamos que qualquer referência à defesa dos interesses nacionais, de um projeto de país independente e de luta anti-imperialista era um discurso atrasado, já que a luta de classes era entre patrão e empregado e defender os interesses nacionais era, no fundo, escamotear a luta de classes. Bem, é fato que de 1937 a 1945, no Estado Novo, Vargas governou como ditador, aparelhou os sindicatos, vicejaram os grandes pelegos, e, com a polícia de Filinto Müller, prendeu e torturou militantes políticos. Tudo isso foi execrável. Mas esquecer que o Brasil e o Estado tal qual hoje o conhecemos foram uma criação do Vargas, e que, para milhões de trabalhado-

res e pobres, houve avanços reais, isso sim é uma mistificação histórica. As realizações foram muitas, cito as mais importantes: a criação da Petrobras e a lei do monopólio do petróleo, a Eletrobrás, a consolidação das leis trabalhistas (a sonhada carteira de trabalho), a siderurgia nacional, a Vale do Rio Doce, a taxação dos lucros das multinacionais, o salário mínimo nacional com aumentos reais e muito mais. Mas em São Paulo , núcleo duro do conservadorismo nacional, nada disso vale. Os paulistas, influenciados por sua elite retrógrada, até hoje não se refizeram da derrota de 1932. Aliás a família Mesquita, representante dessa elite, dona do Estadão e fundadora da USP foi uma das mais importantes articuladoras do levante derrotado de 1932. Relembro tudo isso à guisa do discurso do presidente Lula, quando do lançamento do novo modelo de exploração do petróleo na camada do présal. Não esperava tanto. É certo que nos últimos dois anos, cá e acolá, apareceram falas do presidente que se aproximam do discurso do trabalhismo histórico, teorizado por gente do naipe de Darcy Ribeiro e Alberto Pasqualini. Parece que os embates do dia a dia do governo que Lula presenciou e, como brasileiro que veio lá dos fundões, apaixonado pela nossa gente, mas acima de tudo um homem pragmático, o levaram a repensar suas originais influências teóricas (surgimento do PT) e a aproximá-lo de um discurso e ações que ressaltam a necessidade de um projeto nacional independente. A palavra soberania não causa tanta estranheza nas falas do presidente e de petistas históricos. Alvíssaras. Aos demotucanos e penduricalhos, herdeiros do moralismo cabotino udenista, as viúvas chorosas de Carlos Lacerda, Bilac Pinto, Eduardo Gomes, Roberto Campos, Sandra Cavalcanti, defensores do nosso alinhamento aos Estados Unidos e para sempre produtores de “commodities”, resta apresentar e disputar no voto um projeto alternativo de governo, Estado e nação. Se continuarem na velha cantilena moralista, antiga desde 1945, serão atropelados no processo de desenvolvimento do nosso país. Ou, para repetir um clichezão: “seu destino político será a lata de lixo da história”. PS: Depois de escrito esse artigo, o acordo estratégico entre Brasil e França para defesa nacional, com transferência ilimitada de tecnologia e a recente entrevista que Lula deu ao jornal Valor Econômico reforçaram minha impressão aqui descrita. Wagner Nabuco é historiador.

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Está provado: Deus existe. E não foi preciso discussão mística nem prova científica, nada. Um belo dia o céu se cobriu de nuvens escuras e quando todos pensavam que mais um temporal ia parar São Paulo, um monte de anjos com espadas de fogo e outros apetrechos bíblicos desceu do céu, interrompeu o William Bonner e anunciou: – Ó, Deus vem aí falar com vocês. E Ele veio. E falou pras tevês do mundo todo, pra não dizerem que estava privilegiando essa ou aquela emissora. E recordou os seis dias em que criou o universo. Ô semaninha agitada! E se lembrou das conversas com Adão e Eva (evitem coisas com M: maçã, maconha...). E rememorou sua fase minimalista, quando escreveu os mandamentos. E ainda os conselhos que deu a Jesus (se beber na ceia, não dirija!), a Santa Inquisição... Não, esse pedaço Ele pulou. E foi logo pro motivo de sua vinda. E Deus disse com todas as letras que está de saco cheio da humanidade. Já enviara dicas, indiretas, sinais, mas nem com o tsunami que mandou há cinco anos a gente se tocou. Agora, ou tomamos jeito ou Ele vai levar todas as formas de vida pra Marte e recomeçar por lá, sem a gente por perto pra atrapalhar. Nem a morte de Jesus repercutiu tão fundo na humanidade. Todos querem se converter. Deus gostou, mas surgiu um problema: para qual religião? E os líderes religiosos correram pra falar pessoalmente com Ele. Mas na porta do Hilton onde Deus e sua comitiva se hospedaram, já estavam políticos de todo o planeta fazendo fila pra tirar foto com o Todo Poderoso. E corria o boato que na suíte divina representantes da Disney, da Microsoft, da Coca-Cola e da Nokia apresentavam suas ofertas para patrocinar Deus. Mas um anjo que saía pelos fundos do hotel teria dito ao William Bonner que Deus não está mais entre nós e foi visto se reunindo com castores, golfinhos e outros animais e mandando eles construírem uma arca.

Cesar Cardoso é escritor e tem o blog PATAVINA’S (www.cesarcar.blogspot.com)

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Lúcia Rodrigues

PREVIDÊNCIA

Governo mantém perdas para 38% dos aposentados Acordo firmado entre centrais sindicais e governo Lula atenua prejuízos, mas mantém distorções. Proposta deve ser votada ainda este ano na Câmara dos Deputados. Novas regras devem entrar em vigor em 2010. Ilustração Aldo Gama

o

acordo firmado entre a CUT, Força Sindical, CGTB, UGT e o governo federal, e que deve ser aprovado em breve na Câmara dos Deputados, ficou aquém das expectativas dos aposentados brasileiros. A decisão é contestada pela Cobap (Confederação Brasileira de Aposentados e Pensionistas), que não reconhece nas centrais sindicais legitimidade para fechar acordos em nome dos trabalhadores aposentados com o Executivo. “Queremos que os projetos do senador Paulo Paim (PTRS) é que vão à votação”, destaca o presidente da Cobap, Varley Gonçalves. O senador petista tem sido o principal aliado dos aposentados no Congresso Nacional. São de autoria

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dele os projetos de lei que preveem o mesmo percentual de reajuste para os beneficiários que recebem acima do salário mínimo e os que ganham o piso. Paim também quer extinguir o fator previdenciário, mecanismo que achata o salário do trabalhador em até 40% no momento em ele que sai da ativa. O parlamentar também está empenhado em aprovar uma emenda à Constituição que veta o bloqueio ou contingenciamento das dotações orçamentárias destinadas à seguridade social pelo Executivo. Os três mecanismos que penalizam milhares de aposentados foram introduzidos no cenário nacional pelo governo do ex presidente Fernando Henrique Cardoso, na década de 90. A proposta acor-

dada entre as quatro centrais sindicais e o governo Lula atenua as perdas causadas ao longo dos anos pela administração tucana, mas mantém distorções ao não garantir a isonomia no percentual de reajuste dos vencimentos entre os aposentados que recebem acima do salário mínimo e os que ganham o piso salarial. O teto das aposentadorias pagas pelo Ministério da Previdência Social aos segurados do INSS é de R$ 3.218, 90. Em julho, o Ministério pagou benefícios previdenciários a 23.213.354 segurados, dos quais 14.401.629 (62%) receberam o salário mínimo. Pelo acordo, a partir de 2010 os aposentados que recebem até um salário mínimo terão o benefício corrigido pela variação de 100% do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) de 2009, além da reposição da inflação. Já para os aposentados que ganham acima do piso, o índice de reajuste em relação ao PIB cai pela metade. O dirigente da Confederação é um dos inúmeros brasileiros que teve os benefícios previdenciários reduzidos ao se aposentar em função do fator previdenciário. “Era para eu ganhar o teto, mas só recebo R$ 1.400”, lamenta. Varley se aposentou há seis anos após ter trabalhado por três décadas na mesma empresa. As condições de insalubridade permitiram que ele se aposentasse pela legislação especial.

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Ele teme que a manutenção de um índice diferenciado de reajuste entre os segurados provoque, em alguns anos, uma forte concentração de aposentados na faixa de um salário mínimo. “A tendência é que daqui a algum tempo todos passem a ganhar o salário mínimo”, endossa o temor, o senador Paim. A decisão acordada entre as quatro centrais sindicais e os representantes do Executivo, além de perpetuar a distorção no reajuste dos vencimentos desses aposentados em função da manutenção de percentuais diferenciados, também estabelece cláusulas de barreira que condicionam o acesso dos trabalhadores à aposentadoria. Ao extinguir o fator previdenciário, fixa novas regras que criam o fator 95/85. Se aprovada a proposta pela Câmara, os trabalhadores que quiserem se aposentar vão ter de cumprir uma clausula de barreira especificada por uma fórmula que associa idade a tempo de contribuição previdenciária. A nova regra fixa que para se aposentar com o valor integral do salário, o homem deverá ter completado 60 anos de idade e contribuído por 35 anos com a previdência social. Para as mulheres, o tempo de contribuição fixado fica em 30 anos conjugado à idade mínima de 55 anos. A atual regra vigente do fator previdenciário baliza o cálculo para se chegar ao valor do benefício a que o segurado terá direito, em uma fórmula matemática que leva em consideração a idade, alíquota e o tempo de contribuição no momento da aposentadoria, associada à expectativa de vida, prevista na tabela do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). As mulheres são as maiores penalizadas pela regra atual, em função da expectativa de vida delas ser superior a dos homens. Quintino Severo, secretário geral da CUT, uma das quatro centrais signatárias do acordo, justifica a decisão argumentando que o governo federal vetaria a proposta de reajuste isonômico para todos os aposentados. “Defendemos que o reajuste dos aposentados não pode imobilizar a reposição do salário mínimo. O governo disse que era impossível dar o mesmo índice de reajuste para todos os aposentados”, argumenta. A tese defendida pela Central é contestada pelo senador Paim. “A CUT nesse caso foi mais conservadora que o Senado, que é considerado uma Casa conservadora”, alfineta. O petista considera que as centrais deveriam centrar fogo na pressão em cima dos parlamentares, com mobilizações populares, pela aprovação dos projetos de sua autoria que já foram chancelados no Senado. Outra crítica que o senador tece é em relação à manutenção da DRU (Desvinculação de Receita da União) pelo Executivo para a dotação orçamentária da seguridade social, onde estão abrigados, além dos recursos destinados à previdência social, também os das áreas de assistência social e da saúde. O mecanismo admite o desvio de até 20% das receitas da dotação destinadas ao pagamento dos benefícios previdenciários, para qualquer tipo de gasto que o governo venha a ter. O pagamento de juros é um dos itens para os quais os recursos da previdência têm sido direcionados. O ministro da Previdência Social, José Pimentel,

foi procurado pela reportagem da Caros Amigos, por intermédio de sua assessoria de imprensa, para comentar as questões, mas não se pronunciou. O desvio de recursos previsto pela DRU foi possível devido à legislação aprovada na gestão do tucano e mantida intacta na do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O governo Lula chegou a cogitar dobrar o seu percentual. “Em 2005, quando se discutia a tese do déficit nominal zero defendida por Antonio Palocci e Delfim Netto, o governo pensou em elevar o percentual para 40%”, relembra o professor da Economia da Unicamp, Eduardo Fagnani. O docente é especialista em políticas públicas e em particular em previdência social. Defensor da Constituição de 1988, ele explica que as conquistas asseguradas pela Carta Magna na área da seguridade social representaram avanços importantes e que, por isso, sempre estiveram na mira do pensamento conservador. O texto constitucional brasileiro seguiu o modelo previdenciário dos países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) que reúne as nações mais industrializadas do mundo. O modelo desenhado pelos constituintes baseou-se no princípio da solidariedade. Por isso, foi possível garantir, por exemplo, que os trabalhadores rurais tivessem assegurado o direito ao recebimento de aposentadoria, apesar de não terem contribuído com o fundo.

Mitos neoliberais Ao contrário do que tentam fazer crer os neoliberais, ao propagar a falsa ideia de que a Constituição de 1988 criou direitos sem prever fontes de arrecadação para o seu sustento, o artigo 195 da Constituição Federal derruba essa falácia, ao dispor sobre o estabelecimento de uma cesta de recursos para financiamento da seguridade e consequentemente para o pagamento dos benefícios a aposentados e pensionistas. “A afirmação dos neoliberais de que a Constituição de 88 só criou despesas, sem fontes de receita, é outra mentira”, afirma Fagnani. Antes da promulgação de 1988, os recursos que bancavam a previdência social vinham basicamente da contribuição sobre a folha de pagamento em que patrões e empregados participavam com percentuais distintos, além da presença do governo. Com a promulgação da Carta Magna foram criadas contribuições específicas para subsidiar o orçamento da seguridade social como, por exemplo, Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social), CSLL (Contribuição Social sobre Lucro Líquido). Fagnani conta que a elite não digeriu até hoje os avanços previstos na redação constitucional. “A questão de fundo é que nunca admitiram um modelo que pega 8% do PIB e vincula à seguridade social. A classe dominante e seus interlocutores, como a imprensa, queriam que esse percentual estivesse disponível para o governo pagar juros da dívida.” O senador José Sarney (PMDB-AP), à época presidente da República, afirmou em cadeia de rádio e televisão, pouco antes dos constituintes promulgarem a Carta Magna, que se o texto proposto fosse aprovado pelos parlamentares tornaria o país ingo-

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vernável. A tese advogada por Sarney era a de que os avanços sociais previstos na redação constitucional levariam o Brasil à insolvência. O objetivo da elite, verbalizado e expresso na fala de Sarney, era justamente o de conter os avanços sociais previstos na redação do texto constitucional, mais especificamente no que tange ao capítulo que dispõe sobre a seguridade social. A partir de então a voz conservadora não cessou os ataques às conquistas asseguradas, ao mesmo tempo em que defende a necessidade de se reformar à previdência social brasileira. O principal argumento utilizado para justificar a reforma é o de que a previdência é deficitária. O docente da Unicamp contesta essa versão. “Quando se fala que a previdência tem déficit, se mente à luz da Constituição. É uma atitude no mínimo leviana”, frisa. O senador Paim reforça os argumentos de Fagnani. “Nos últimos 10 anos a seguridade teve superávit de R$ 400 bilhões. Só no ultimo ano o superávit foi superior a R$ 50 bilhões”, destaca o petista. Os neoliberais, no entanto, insistem em afirmar que ocorreu o crescimento da despesa. A tese é rechaçada por Fagnani. Para o economista da Unicamp, o X da questão reside no fato de que o mercado de trabalho ter sido comprimido ao longo de duas décadas e meia e na ausência de crescimento econômico. “Tivemos 25 anos de estagnação econômica. O problema da previdência não é de despesa, mas de receita, de arrecadação. E arrecadação depende do quê? Depende do crescimento da economia, do mercado de trabalho, de carteira assinada. Durante 25 anos nossa taxa de crescimento foi em média de 1,8%”, conta. Ele considera que a segunda gestão do presidente Lula melhorou significativamente o crescimento econômico do país. “Todo o pensamento neoliberal se apoia em mitos, falsas verdades e no senso comum. Essa ideia que se criou, não tem nenhuma sustentação. É uma mentira”. Para o professor, há uma jogada por trás desse discurso crítico em relação à previdência social nos anos 90. “Queriam abrir o mercado ao capital privado”, alerta. Os bancos e as seguradoras são os principais beneficiários dessa estratégia. A criação de um teto para as aposentadorias previstas no regime geral de previdência social também serviu a esses interesses. “Quando se cria um teto, se abre um enorme espaço para os grandes bancos internacionais e nacionais avançarem. Por isso, detonam. Agem ideologicamente, porque estão de olho nesse filão”, adverte. A reforma realizada no final dos anos 90, pelo governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, além de mexer na previdência dos trabalhadores cobertos pelo INSS, pavimentou o caminho para os banqueiros, ao regulamentar os planos de previdência privada. O estabelecimento de um teto para os benefícios pagos pelo INSS induziu milhares de trabalhadores a buscarem uma previdência privada, para complementar a renda. O governo Lula também prosseguiu com a regulamentação dos planos de previdência complementar fechados, nos quais os sindicatos podem gerir e incentivar seus sócios a aderir a esses planos de previdência privada, que também contribuem com a movimentação da ciranda financeira. outubro 2009

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“Me aposentei com nove salários mínimos e hoje recebo dois...”

Idosos mantém família A previdência pública ainda funciona para muitos beneficiários como um colchão protetor. Muitas vezes é a única fonte de renda de que dispõem para sobreviver. Dados do IBGE revelam que, em 53% dos domicílios brasileiros em que residem idosos, são eles os responsáveis por mais da metade de renda familiar. Esse percentual se eleva para 63,5% dos domicílios nordestinos. Os vencimentos da aposentadoria também ajudam a movimentar a economia de muitas cidades brasileiras. Segundo o professor Fagnani, em aproximadamente 70% dos municípios do Estado de São Paulo o valor das aposentadorias recebidas pelos idosos é superior ao montante repassado pelo Fundo de Participação dos Municípios. No Nordeste esse percentual atinge 90% das cidades. “Esse programa de proteção social é extraordinário. Dizem que o Brasil saiu rápido da crise por causa do consumo interno. E o que é o consumo interno? São essas famílias que continuam direcionando sua renda para o consumo.” Ele teme, no entanto, que, no futuro próximo, os novos idosos não possam desfrutar dessa realidade. A desregulamentação do mercado de trabalho, em que menos gente possui carteira assinada, inviabilizaria a concessão de aposentadorias no futuro.

O metalúrgico Antonio Valeri trabalhou 35 anos antes de se aposentar. Poderia ter saído da ativa antes, em função da aposentadoria especial por insalubridade que o cargo de pintor de automóveis, que desempenhou por 28 anos na Ford, garantia. Preferiu continuar trabalhando, para robustecer o futuro benefício previdenciário, a antecipar o descanso previsto na legislação trabalhista. A certeza de uma vida digna ao lado da mulher, logo após se aposentar em 1988, foi se frustrando ao longo das duas décadas. Valeri viu sua aposentadoria sofrer um achatamento drástico. O sonho acabou se transformando em pesadelo. “Me aposentei com nove salários mínimos e hoje recebo dois e um pouquinho. Eu não entendo isso”, lamenta. As adversidades da vida nunca foram motivo para desanimar o italiano de Strangolagalli, cidade localizada na região metropolitana de Roma, que chegou ao Brasil em 1953, com 19 anos de idade, em busca de uma vida melhor. Não tinha parentes, nem amigos, nem dinheiro. Dormiu uma semana na rua até conseguir uma vaga em um quarto, que o proprietário aceitou fiar até ele encontrar trabalho. “Naquela época não tinha perigo.” O primeiro emprego veio por indicação do dono do bar onde ele guardava a mala enquanto saía para procurar trabalho. Começou a abrir buracos no solo para a instalação da rede de esgoto. O trabalho era pesado e o salário minguado. A condição de imigrante sem documentação legalizada manteve Valeri no emprego até encontrar outro que o remunerasse melhor. Agora já não dormia mais ao relento, mas os bens materiais limitavam-se a uma cama com colchão e uma coberta fina. “Demorei seis meses para

comprar o travesseiro”, relembra. Valeri não esconde a indignação de ver a aposentadoria corroída pelas perdas acumuladas ao longo de anos. “Trabalhei 35 anos e agora passaria fome se os meus filhos não me ajudassem. A gente tem de ir à feira, farmácia, ao mercado, sacolão, não dá, não dá mesmo. Os aposentados no Brasil são maltratados, pisados, esmagados.” Ele critica a decisão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso de desvincular o índice de reajuste dos aposentados do percentual aplicado ao piso. “O Fernando Henrique chamou a gente de vagabundo. Mas vagabundo é ele, que se aposentou com 39 anos de idade”, devolve. O descaso em relação aos aposentados é apontado por ele como um desrespeito a quem ajudou a construir o país. “Não é só comigo que fazem isso, tem muito velhinho aposentado que deu a vida neste país. Quem construiu este país foram os aposentados, mas vê se eles entendem isso”, critica, referindo-se às autoridades. O ex metalúrgico não debita na conta do ex colega de profissão e atual presidente da República uma fatura alta. “O Lula entrou lá e disse que ia melhorar para nós, mas continua a mesma coisa do Fernando Henrique. Mas eu não vou xingar ele, porque foi o único que ajudou o Brasil. Estacionou a inflação e sustentou até hoje, senão não dava nem para comer”, ressalta. Ele tem esperança em conseguir recompor o poder de compra que adquiriu quando estava na ativa. “Não quero nem os atrasados, só quero voltar a ganhar os nove salários que eu ganhava quando me aposentei.” A situação de Valeri se complicou nos últimos meses. Ele precisou ser hospitalizado devido a um problema ocasionado por um remédio errado entregue na farmácia do posto de saúde perto de sua residência. Na sequência o aposentado foi vítima de erro médico. A solicitação da ressonância magnética especificava que o exame deveria ser feito sem contraste, devido a uma insuficiência renal, mas o médico realizou o procedimento com a substância. Atualmente ele realiza sessões de hemodiálise três vezes por semana e duas de fisioterapia. Não dirige mais e depende da mulher e dos filhos para tudo. O convênio e os remédios são pagos pela filha, que é professora da rede municipal de ensino na capital paulista. “Se eu fosse pagar do meu bolso eu ia comer o quê? O sol, a lua...”, afirma indignado. Ele também reclama da propaganda feita pelo prefeito Gilberto Kassab na eleição passada. “O posto de saúde está uma droga, falavam que tinha remédios em casa, mas não tem nem lá. É tudo mentira, só fazem isso para ganhar votos.”

Valeri indigna-se com aposentadoria corroída

Lúcia Rodrigues é jornalista.

A lista com os nomes dos empresários sonegadores da previdência social não pode mais ser consultada pela internet. Ela foi removida do sítio do Ministério da Previdência Social com a criação da Super Receita, que passou a administrar os recursos previdenciários. A mudança de órgão fiscalizador favoreceu os devedores da Previdência Social ao assegurar o anonimato. A Receita Federal se baliza no Código Tributário Nacional, que garante sigilo fiscal aos devedores. A nova lista que está disponível no sítio da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, responsável pelas cobranças judiciais, não aponta nem a natureza do débito nem o valor da dívida do sonegador. O novo formato inviabiliza a consulta quando o interesse é descobrir quem são os devedores da previdência e o montante que devem ao fisco. Aproximadamente 1 milhão de devedores constam dessa lista, mas não se sabe o porquê de terem sido inscritos no Cadin (Cadastro Informativo de Créditos não Quitados do Setor Público Federal). A atual listagem praticamente só favorece aos bancos, que podem levantar informações sobre os tomadores de empréstimo. O senador Paim conta que a dívida das três esferas do Estado Brasileiro (municípios, Estados e União) com a Previdência ultrapassa R$ 3,5 trilhões. “Mas os principais devedores da Previdência são da área privada, depois vêm os municípios.” Ele critica o fato do Legislativo conceder anistia aos devedores. “O Congresso dá anistia para devedores, vai anistiando, vai anistiando e eles nunca pagam. As prefeituras não depositam a previdência e veem toda hora aqui chorar para continuar não pagando.”

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foto jesus carlos

Legislação protege sonegadores

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ensaio João Zinclar No inverno de 2009 choveu forte no sertão nordestino. Os açudes sangraram. Numa região onde a seca e a “falta de água” são motivos de discursos e projetos salvadores, quando a água chega em abundância não existe estrutura para aproveitá-la. O semi árido nordestino tem 70 mil açudes, com capacidade de armazenar 37 bilhões de m³ de água, o que desfaz o mito da falta. Seria suficiente se o povo pobre tivesse acesso a ela. Mas prevalecem ações que só beneficiam o capital. A transposição do São Francisco é apontada como solução. A sabedoria popular de convivência com a seca é secundarizada. Enquanto isso, as barragens e grandes projetos agroindustriais sugam quase toda água do rio. Bancos de areia em seu leito são parte de sua paisagem. Transpor as águas do Velho Chico não é solução. O que estão fazendo, mais uma vez, é transposição de dinheiro público para o bolso da velha e a nova indústria da seca. • As fotos fazem parte de um trabalho documental em andamento no rio São Francisco e nas águas do semi-árido nordestino desde 2005. Texto: Reginaldo Cruz

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Memórias De um jornalista não-investigativo Renato Pompeu

Ana Miranda

Nota sobre o novo disco dos Gismonti “Eu sou do tempo que os brasileiros viajavam para Buenos Aires para poderem andar de metrô”

Ele é um minucioso guardador, podemos

Consta que um alto quadro da revista Veja, nos anos 1970, fez a seguinte pergunta ao carnavalesco Joãosinho Trinta: “Você não acha que o povo gosta de luxo, e intelectual é que gosta de miséria?” Ao que o carnavalesco respondeu algo como “É”. Ficou famosa a declaração bombástica de Joãosinho Trinta: “Povo gosta de luxo, intelectual é que gosta de miséria”. Também na Veja, mas nos anos 1980: chamado a fazer uma matéria sobre o médium Chico Xavier, que psicografava livros (isto é, escrevia livros quando nele “baixava” o espírito de algum autor morto), um repórter escreveu que, na opinião de Jorge Amado, Chico Xavier era o melhor autor brasileiro. O editor estranhou, chamou o repórter e perguntou: “o Jorge Amado disse isso mesmo?” Ao que o repórter respondeu: “Não, ele ainda não disse, mas estamos negociando”. O repórter fizera uma série de telefonemas a Jorge Amado para lhe perguntar o que achava de Chico Xavier, mas ainda não conseguira a desejada frase. A “declaração” de Jorge Amado acabou nunca sendo publicada. Ainda na Veja, na passagem dos anos 1970 para os anos 1980. Lula tinha acabado de surgir como liderança nacional e um alto quadro da revista ordenou que um repórter o entrevistasse. O repórter voltou com uma entrevista bastante informativa, mas o alto quadro da revista se queixou, dizendo algo assim como o Lula tinha de declarar alguma coisa na linha de que, se não for na lei, vai ser na marra, do contrário não havia razão para publicar a entrevista. O repórter voltou sucessivas vezes a falar com Lula, mas não dizia nada de parecido. A entrevista jamais foi publicada. Estranhei quando vi na primeira página da Folha de S. Paulo, nos anos 1980, uma foto de

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um muro de um casarão numa ladeira em Campinas-SP, pichado com a frase, em letra de homem, “Ana, te fiz mulher”, e com a resposta, em letra de mulher, “Como é mesmo o seu nome?”. O texto dizia que as frases tinham inspirado uma famosa pesquisadora a escrever um livro sobre sexo nos dias atuais. Eu conhecia bem o Centro Velho de Campinas e não me lembrava de ter visto um casarão numa ladeira tão acentuada. Perguntei à fotógrafa em que região de Campinas ficava aquele casarão. A fotógrafa respondeu que o casarão ficava na rua da casa da pesquisadora, em São Paulo. O repórter e a fotógrafa estavam na casa da pesquisadora, a entrevistando e fotografando, quando a pesquisadora disse que seu livro tinha sido inspirado no choque que ela levou ao ver aquelas frases escritas num muro em Campinas. Terminada a entrevista, já na rua, o repórter pediu que a fotógrafa comprasse pincéis de grafite. Ele escreveu a frase de cima e, ela, a de baixo. Renato Pompeu é jornalista e escritor. rrpompeu@uol.com.br

Ana Miranda é escritora, autora de Boca do Inferno, Desmundo, Dias & Dias, e outros romances, editados pela Companhia das Letras. Suas crônicas estão reunidas no volume Deus-dará, da Editora Casa Amarela. amliteratura@hotmail.com

Ilustração: Koblitz

A criatividade mesquinha

ver em sua casa, já ao entrarmos, violinos e violas e bandolins, pequenos objetos colhidos em viagens, o piano azul onde ele aprendeu a tocar... tudo tem o seu canto, tudo brilhando. Às paredes, pinturas, fotos, desenhos... Egberto guarda meus desenhos. Guardou durante vinte anos uma caixa de lápis de cor que eu usava, e quando me devolveu a caixa e vi aquelas cores, os lápis ainda apontados, foi como se os tempos brincassem de voltar... tudo ele conserta, arruma, recupera. Coleciona amigos desde as mesas da infância. De tudo ele cuida, como um virtuose. Sua música é natural, como se saísse de fontes de água pura, ramos de lírios, das mãos de crianças, de matas virgens, capelas e sertões, de seus cabelos emaranhados... como se fosse o canto de uma ave do Paraíso ou o murmúrio da floresta. Sopros lituanos, hindus, os cantos do velho Sapaim... Egberto Gismonti me ensinou a gostar de Stravinski, agora me ensina a ouvir Gesualdo, o príncipe de Venosa. Alguns de meus livros escrevi ao som de Sobrevivência, Zigzag, Infância... O país das águas luminosas... Nó caipira... ele ouve música bem baixinho, quase ninguém percebe, mas ele escuta perfeitamente, tem um ouvido apuradíssimo e absoluto. Virtuose em muitos instrumentos! Compõe feito os lobos, em todos os tons. Aprendeu piano aos cinco anos de idade, aprendeu clarineta, flauta... é mestre também em violão, e violão de oito cordas... tudo vira instrumento em suas mãos. Um dia nos reencontramos com uma serenata de oboé que ele fez em meu jardim. E eu fiz dezenas de desenhos dele, Egberto é ótimo para ser desenhado, com aqueles cabelos... Ele é muito cultivado, está sempre lendo e sempre grandes textos, gosta de padre Vieira, de Mário de Andrade, de Guimarães Rosa, de Manoel de Barros... e os cabelos dele... já os penteei, sei como são. Quem conseguir passar por aquele labirinto... agora não consigo parar de ouvir seu último disco, em dose dupla, “saudações”. Lindíssimo, com ecos nordestinos, sertanejos, cubanos... e um dueto de violões com o filho, aquele menininho de olhos verdes límpidos, Alexandre Gismonti, que cresceu e agora é músico feito o pai. Saudações!

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naldinho lourenço

Marcelo Salles

Máquina

Mortífera Uma política de extermínio levada a cabo pela polícia carioca, com apoio de setores da mídia e a omissão do Ministério Público e do Judiciário, vem provocando um verdadeiro genocídio no Rio de Janeiro. Nesta década já foram eliminadas quase 10 mil pessoas, a maioria delas nas favelas da capital.

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anry Silva voltava da casa de uma colega, numa favela chamada Boca do Mato, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O nome tem sua razão de ser. O lugar dá para uma montanha, no bairro Lins de Vasconcelos, onde a vegetação nativa ainda é preservada. Em vez de retornar pela rua, ele decidiu fazer o trajeto mais curto: pelo alto do morro. Assim, caminhando próximo aos postes de energia do topo da montanha, Hanry cruzou pouco mais que 1 Km. A vista abrevia ainda mais a viagem: com tempo bom é possível ter uma visão panorâmica da cidade, emoldurada pela Ponte Rio-Niterói e pela Baía de Guanabara. Eram cinco da tarde quando se aproximava de sua casa, no Morro do Gambá – também conhecido como Nossa Senhora da Guia. O estudante já estava bem perto, nem 100m

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faltavam. Ao chegar, tomar banho, trocar de roupa e seguir para o colégio. Estava de bermuda preta e sem camisa. Vinha balançando a chave de casa, despreocupado, fazendo um caminho ao qual já se habituara. No entanto, aquele 21 de novembro de 2002 seria diferente. Hanry foi surpreendido por policiais do 3º Batalhão de Polícia Militar e arrastado uns 20m abaixo. Foi posicionado entre uma pedra de 2m x 1,5m e um arbusto com folhagem densa e suficientemente grande para encobrir o resto de visão que alguém poderia ter do lugar. A casa mais próxima dali fica a uns dez minutos de caminhada, em mata semifechada. Por volta de 17h40, um estampido ecoou no Morro do Gambá. Aos dezesseis anos de idade, Hanry foi assassinado com um tiro certeiro no co-

ração. Tinha 1,65m, era mulato, corpo seco. Cursava o primeiro ano do ensino médio – nunca repetiu – e sonhava ser jogador de futebol, como tantos outros garotos. No dia seguinte sua mãe acordou preocupada. O filho não havia dormido em casa. Márcia Jacintho percorreu a favela toda atrás de notícias, quando teve a ideia de ir ao hospital mais próximo. No Salgado Filho ficou momentaneamente aliviada: apenas dois jovens haviam sido encaminhados pela polícia na noite anterior, ambos descritos como traficantes que já chegaram mortos. Márcia continuava a busca quando alguém ligou do IML: “Vem pra cá porque acho que mataram seu filho”. Chegando lá, Márcia começou a morrer em vida. A dor é tanta que hoje, quase sete anos depois, ela ainda chora quando recorda a cena: “Meu filho não teve velório. Tava inchado, um cheiro muito forte, muito escuro, ninguém o reconheceu”. Márcia começou a morrer por um lado, mas de outro nasceu uma guerreira que iria lutar com unhas e dentes para fazer justiça. Suas razões de viver passaram a ser basicamente essas: provar que seu filho não era traficante, como acusara a polícia, e responsabilizar os assassinos. Inicialmente, Márcia fez o trabalho de investigação sozinha, pois a autoridade competente alegava não dispor dos recursos necessários. Então ela voltou ao local do crime, fez a primeira reconstituição com as próprias sandálias, fotografou, encontrou testemunhas. Até o boletim ambulatorial do hospital ela foi pegar, já que a Delegacia de Polícia não se mexia. Essa história ela me conta enquanto vasculhamos os arredores de onde Hanry foi assassi-

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nado. Do pé ao topo, demoramos quase uma hora de subida bastante puxada. O Morro do Gambá tem centenas, talvez milhares de casas, de todos os tipos: alvenaria, madeira, compensado ou tudo misturado. Aqui, a maior parte da população é negra. E pobre. Serviços públicos como coleta de lixo demoram a chegar, deixando o chão imundo, sobretudo nas partes mais altas. Ao lado da pequena quadra de futebol, de terra batida, há um barranco imenso, uns cem metros quadrados de sacos plásticos, restos de comida e sujeira de todo tipo. Conforme subimos, percebo que o adensamento populacional vai se reduzindo, até que cruzamos a última casa – um compensado de madeira de uns 20m quadrados, no máximo, de onde saem seis pessoas. Uma mulher idosa, uma criança bem pequena e os demais, adolescentes. Márcia arrisca o caminho da esquerda, mas o mato está muito fechado. “Tem certeza que é aí?”, pergunto. “É sim, é que não venho aqui faz tempo”. Continuo seguindo, meu receio em franco contraste com o seu destemor. Até que um dos adolescentes da última casa, um negro bem preto, se aproxima e fala: “Tia, não é por aí, não. É pelo outro lado”. E nos mostra o caminho. Passaram-se dois anos e nove meses até que a perícia oficial agisse. A partir daí, apareceram várias contradições na versão dos policiais, que alegaram, por exemplo, troca de tiro com bandidos que estariam em cima de uma pedra, levando a crer que o disparo teria vindo de baixo para cima (e não o contrário, como foi comprovado pelo laudo cadavérico). O horário alegado pelos policiais também não batia. Como poderia haver uma troca de tiros às 19h40 no alto do morro se a entrada do garoto no hospital teria sido às 20h08? Seria como enfrentar seis ou sete bandidos fortemente armados, como argumentaram os policiais, recolher o corpo baleado, descer o morro inteiro carregando o fardo, colocá-lo na viatura e deixá-lo no hospital, que fica a vinte minutos dali. Nem o The Flash. Seis anos depois, Márcia conseguiu levar a julgamento dois dos onze policiais militares que havia acusado. Marcos Alves da Silva foi condenado a nove anos de prisão por homicídio doloso e fraude processual (simulou apreensão de arma e droga com Hanry) e Paulo Roberto Paschuini a três anos pelo último crime. Os dois vão recorrer, sendo que o segundo em liberdade. O caso de Hanry foi um dos 9.179 óbitos registrados como “autos de resistência” – quando a polícia mata um opositor em legítima defesa – entre 2000 e 2009 (até maio), de acordo com o Instituto de Segurança Pública, órgão vinculado ao Executivo Estadual. Uma média de 2,67 mortes por dia. É como se em dez anos toda a população do bairro da Glória sumisse do mapa. Por outro lado, foram registrados 59.949 homicídios dolosos, no mesmo período; crimes que o Estado não foi capaz de evitar. O número de “autos de resistência” dá à polícia do Rio o título de campeã de letalidade. Entre todas as outras corporações similares no mundo, é a que mais mata – e também a que mais morre (dado

que, por si só, evidencia uma política de segurança equivocada). Até o relator da ONU para execuções sumárias e extrajudiciais, Philip Alston, declarou, após recente visita ao Rio de Janeiro: “no Brasil os policiais matam tanto em serviço como fora de serviço e nenhuma investigação é feita já que todos os índices se justificam a partir de ‘autos de resistência’ ou ‘mortes em confronto’”. A origem da ferramenta jurídica “auto de resistência” está na Ordem de Serviço “N”, nº 803, de 2/10/1969, da Superintendência da Polícia Judiciária, do antigo estado da Guanabara. O dispositivo afirma que “em caso de resistência, [os policiais] poderão usar dos meios necessários para defender-se e/ou vencê-la” e dispensa a lavratura do auto de prisão em flagrante ou a instauração de inquérito policial nesses casos. Registre-se: não são raras as situações em que os policiais necessitam usar a força como resposta a ações hostis de traficantes varejistas. É como explica o delegado Marcus Nunes, coordenador da CORE, unidade de elite da Polícia Civil: “Somos muitas vezes recebidos a tiros. Geralmente o policial entra numa comunidade em tese hostil porque é controlada por um grupo fortemente armado, querendo fazer de tudo pra não ser preso, usando todos os esforços necessários, às vezes com equipamentos de primeira geração, munição em fartura, granadas”. No entanto, como reconhece o delegado, essa situação de extrema pressão sobre o policial, aliada a outros fatores, pode levar a execuções registradas como autos de resistência. “Me chamava a atenção a diferença no preenchimento dos ROs [Registros de Ocorrência]”, comenta a antropóloga Ana Paula Miranda, que foi diretora-presidente do Instituto de Segurança Pública. Por um lado, havia falta de cuidado nos registros em geral, mas aqueles referentes aos autos de resistência “vinham bem montados, com informações padronizadas e a falta de testemunhas que não fossem policiais”, diz a pesquisadora da Universidade Federal Fluminense. Ana Paula chama a atenção para a escalada da violência da polícia, que cada vez mata mais e prende menos (ver quadro na página 31). A polícia do Rio de Janeiro atua com muito pouco controle, interno ou externo. A Corregedoria nem sempre atua com a isenção desejada, as armas utilizadas em operações dificilmente são identificadas e os policiais que se envolvem em troca de tiros não recebem atenção especial do governo – em outros Estados, como São Paulo, já existe uma política assistencial voltada para esses profissionais da segurança, como auxílio psicológico. No entanto, engana-se quem acredita que a polícia é a única responsável pelo atual estado de coisas. Quando se registra uma ocorrência como “auto de resistência”, o delegado tem trinta dias para investigar e, então, deve enviar suas conclusões para o Ministério Público Estadual. O MP é o titular da Ação Penal e, diante do relatório, o promotor deve decidir se retorna o material para a delegacia solicitando novas apurações, se oferece denúncia contra o policial ou se encaminha o processo com pedido de arquivamento para o juiz. Neste caso, se o magistrado concordar,

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o processo é arquivado. Se discordar, a decisão final passa à Procuradoria Geral de Justiça, cujo titular é indicado pelo governador do Estado. Para esclarecer os dados, procurei o Ministério Público. Fiz o primeiro contato no dia 17 de agosto. Na assessoria de imprensa, fui atendido por Paolla Serra, depois por Lívia Monteiro. Não me deram retorno. No dia 14 de setembro, voltei a insistir. Dessa vez falei com Leonardo, que também não me respondeu. Alguns dias antes eu havia ido ao Tribunal de Justiça, onde conversei com três defensores públicos. Eles disseram que recebem pouquíssimos inquéritos em casos de autos de resistência, às vezes nem um por mês, o que indica poucas denúncias do MP contra policiais. O pioneiro a analisar os pareceres do Ministério Público sobre os autos de resistência foi o desembargador Sérgio Verani, no livro “Assassinatos em nome da lei” (entrevista à página 31). Na apresentação da obra, o jurista Evandro Lins e Silva anota: “Examinando dezenas de inquéritos, alguns deles em que funcionou como juiz, Sérgio Verani pôde identificar uma uniformidade ideológica que conduziu ao arquivamento ou à absolvição, em todos eles, dos policiais acusados do assassinato de 42 pessoas”. Nesta cesta ideológica encontra-se o pedido de arquivamento, assinado por um promotor, que classifica a vítima da ação policial como “micróbio social”. O caso é de 1982, mas permanece atual. Vinte e dois anos depois, a 21a Promotoria de Investigação Penal de Bangu acusou os bandidos que teriam enfrentado a polícia de “verdadeiros soldados do mal”. “No ano passado aquele comandante [coronel Marcos Jardim] de certa forma repetiu isso: ‘[a PM é o melhor] inseticida social’. Inseticida social!”, recorda Sérgio Verani: “Como também uma expressão usada quando foi preso o Elias [Maluco, acusado de matar o jornalista Tim Lopes]. E aí foram expedidos mandados de busca e apreensão e o juiz escreveu na decisão dele que o Grupo do Elias era um ‘lixo genético’. O juiz escreveu isso: ‘lixo genético’! Que é a mesma coisa de ‘micróbio social’, ‘inseticida’. O desprezo com a vida. Uns podem viver, mas esses desclassificados não”.

“Quem mata é a Polícia, mas quem enterra é o Judiciário” Outro indicativo de descaso do Poder Judiciário é que em muitas sentenças o magistrado abre mão do despacho fundamentado e passa a usar uma mera etiqueta adesiva, tipo essas da marca Pimaco, para determinar o encerramento do processo investigatório. Como consta da decisão assinada em 10 de janeiro de 2005, a respeito de três mortes causadas por policiais na favela do Rebu, em Senador Camará: “Na forma de promoção do MP de folhas retro, determino o arquivamento do presente feito. Dê-se baixa e arquive-se”. Por essas razões, o delegado de Polícia Civil Orlando Zaccone, mestre em Ciências Penais, não tem dúvidas em afirmar: “Quem mata é a polícia, mas quem enterra é o Judiciário”. Profundo conhecedor da Criminologia Crítica, Zaccone alia a teoria à prática. Foi ele quem conduziu as investigações que solucionaram a Chacina do Borel, em outubro 2009

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nhã, entre outros, simplesmente desapareceram. Na década de 1950 eram 52 títulos contra apenas sete na década de 1990. “A mídia é um dispositivo privilegiado na sociedade capitalista para a produção de modos de adesão a esse sistema que está aí”, complementa a professora. No caso dos “autos de resistência”, a mídia opera para desumanizar determinados segmentos da população. Desse modo, “você passa a acreditar que os pobres são perigosos, que precisam ser isolados e, se necessário, até mortos”, diz Cecília. Maria Dalva da Costa Correia da Silva sabe bem como funciona o aparato midiático. Em 16 de abril de 2003, a operária de 54 anos perdeu um filho assassinado por policiais. No dia seguinte, Thiago da Costa Correia e Silva foi chamado de bandido pelo jornal Extra, das Organizações Globo. Título: “Tiroteio mata quatro em morro da Tijuca”; subtítulo: “Policiais são surpreendidos e trocam tiros com bandidos do Borel”. O texto da matéria relacionava o estudante como traficante, numa tentativa de le-

Entrevista com Marcus Castro Nunes Maia, delegado e Coordenador da CORE, unidade de elite da Polícia Civil. Caros Amigos - Que cenário o policial encontra numa operação? Marcus Castro Nunes Maia - Somos muitas vezes recebidos a tiros, alguns pra facilitar a fuga dos traficantes e outros pra confronto efetivo contra os policiais, tentando efetivamente alvejá-los. Geralmente o policial entra numa comunidade, em

Márcia Jacintho aponta o caminho por onde os policiais levaram o corpo do seu filho Hanry

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gitimar o seu assassinato. “Sei que não houve troca de tiro. Foi execução e todos levaram tiro nas costas e na cabeça”, desabafa Maria Dalva. Thiago tinha 19 anos, cursava a oitava série do ensino fundamental e trabalhava, com carteira assinada, fazendo manutenção de bombas de gasolina. A operária se aposentou para ter mais tempo de lutar por justiça. Conseguiu provar a inexistência de troca de tiros, organizou passeatas, escreveu ao presidente Lula. Depois de tanto barulho, a Polícia Federal entrou na investigação. Cinco PMs foram indiciados, dois absolvidos e um condenado a 52 anos de prisão. Os outros dois ainda não foram julgados. Hoje, quase sete anos depois, todos os policiais envolvidos estão em liberdade. “Quando seu filho é acusado de bandido, as pessoas acham que tem que morrer mesmo”, desabafa Maria Dalva: “Meu filho não era bandido e a gente não tá querendo dizer que tem que matar bandido. A polícia tem que cumprir o dever dela, que é prender, não matar”.

“Policial age sob pressão”

Foto Fernanda Chaves

2003, em que os crimes foram inicialmente registrados como autos de resistência. É com essa autoridade que ele analisa: “O que vai definir o arquivamento dos autos ou o processo dos policiais pela morte da vítima é se a vítima está ou não definida como ‘inimigo’, traficante, gerando uma ‘legitimidade’ na ação da polícia”. No caso do Borel, estava claro que as vítimas não eram traficantes varejistas, o que, segundo Zaccone, ajudou a responsabilizar os policiais. Se fossem, isto seria mais difícil porque existe uma autorização implícita para matar uma determinada classe, “subjetivada em várias agências”, conforme explica o delegado: “O Estado de Exceção que estamos vivendo hoje é onde o Direito não é aplicado em determinados espaços e a determinadas pessoas. E o direito à vida não está garantido a todos. No caso daqueles que são reconhecidos como inimigos, esse direito à vida está suspenso”. O detalhe – onde mora o diabo – é saber de onde vem a definição do inimigo. Quem tem o poder para definir isso? Quais são as agências políticas, além do Executivo e sua polícia, do Ministério Público e do Judiciário? Se você pensou na mídia, acertou em cheio. “Os meios de comunicação de massa são as instituições mais importantes no sentido de produzir modos de viver e de existir nesse mundo”, explica Cecília Coimbra, doutora em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). A brutal concentração da mídia no país contribuiu, e muito, para potencializar essas mensagens: seis emissoras comerciais de televisão, ideologicamente afinadas, controlam praticamente tudo o que 191.000.000 de brasileiros assistem. No Rio de Janeiro, as opções de jornais são cada vez menores. Títulos como Última Hora, O Jornal, A Noite, O Pasquim, A Ma-

tese hostil, porque é controlada por um grupo fortemente armado, querendo fazer de tudo pra não ser preso, usando todos os esforços necessários, às vezes equipamentos de primeira geração, munição em fartura, granadas, armamentos explosivos militares, bazucas, como são popularmente chamadas. Os nossos blindados hoje não são garantia de nada, até pela qualidade e quantidade de armamento que são encontrados nas mãos de traficantes. Em algumas das realidades, os disparos dos traficantes não são efetuados contra os policiais, mas contra os moradores, populares, como acontece às vezes no Morro dos Macacos, começam a atirar contra veículos que passam na rua pra acabar a operação.

Pode falar mais um pouco? Outro ponto de vista da hostilidade, extremamente compreensível é o quê? Qual órgão do Estado que vai dentro de uma comunidade carente? Salvo a polícia, conheço poucos. Imagina você ter todo dia na sua casa um policial. Ninguém gosta. Mas todo dia está lá pra combater o tráfico. Aí acaba entrando em confronto armado. O policial atira, o traficante atira contra ele. Possibilidade de bala perdida? Existe, claro, porque estamos num confronto armado. O policial às vezes está lutando pela sobrevivência dele, ele é ser humano como qualquer um. Que outros fatores podem atrapalhar o trabalho do policial? Um policial com um moral abatido porque às vezes não pode fazer seu trabalho como acha que deve fazer, um policial mal remunerado, às vezes não tem treinamento, não tem condições de dormir, porque [além do trabalho no Estado] tem que buscar outro sustendo pra família, problemas familiares que alguns tem, o estresse da profissão, a todo momento estar entre ter algum desvio de conduta – não estou dizendo que ele é criado pra isso,

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às vezes ele erra e é severamente punido – o policial também sucumbe ao medo, é um ser humano como qualquer outro. E ele retrata um pouco a sociedade, ele também é membro da sociedade. Então a sociedade exige que ele tenha uma determinada conduta, ou mate, execute alguém, às vezes ele executa por medo, por ter vivido a iminência da morte, e por ter um ódio profundo daquele algoz, que há poucos segundos teve quase a capacidade de matá-lo, só não fez isso por incompetência.

O policial age sob pressão. Exigir dele a capacidade, a frieza de raciocinar, pensar e falar: ‘o senhor está preso. O senhor tentou

me matar por todos os meios, agora o senhor não consegue mais, se entrega’? Sim, é o que diz a lei e o que a gente espera de um policial. Mas só que o policial despreparado, às vezes, mal remunerado, cheio de problemas como qualquer um, potencializado com a iminência da morte, porque muitas vezes ele vê a morte de perto, a dele e a dos amigos, falar isso pro algoz dele... Ou seja, é difícil. Não que ele não tenha que fazer isso, ele tem, é obrigação dele. Não justifica a ação dele, mas a gente começa a compreender um pouco a ação que faz, às vezes uma execução. Muitas das vezes pode ser isso que leva a esses autos de resistência ditos forjados. Pode ser que em alguns casos tenha sido assim.

“Matar as pessoas faz parte da lógica do capital” O desembargador Sérgio Verani, da 5a Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio, é autor do livro “Assassinatos em nome da lei”, um estudo sobre dezenas de autos de resistência entre as décadas de 70 e 80. A obra faz duras críticas ao Ministério Público e ao Poder Judiciário: “O discurso sobre a neutralidade jurídica e a imparcialidade técnica apenas dissimula o seu caráter de classe”, escreve Verani, para quem tal ideologia se materializa numa política de extermínio levada a cabo por sucessivos governos, conforme explica nesta entrevista à Caros Amigos (o delegado Orlando Zaccone participou como entrevistador).

Caros Amigos - Como o senhor analisa dos autos de resistência?

Sérgio Verani - Há muitos anos que são mais de

cem autos de resistência, naquela estatística [divulgada pelo Instituto de Segurança Pública, órgão estadual]. Lembro que quando chegou a cem foi com o Garotinho, e aí ele disse assim: “Ah, então isso significa que a polícia está trabalhando”. Acho que é um escândalo.

Pode resumir como fica essa negação da Lei? É uma morte, na verdade seria um homicídio qualificado, que exige um processo pra apurar a autoria, mas nada. Não há o processo. A lei aqui não se aplica, não funciona.

Relação do número de presos em flagrante por cada morto pela polícia. O estudo comparativo realizado pela antropóloga Ana Paula Miranda mostra que a exceção vem se tornando regra. 2000: 75,4 x 1

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O que mudou da ditadura de 1964 para hoje? Agora há mais autos de resistência do que na ditadura. Acho que agora é mais escancarado. Na ditadura havia um clamor “ah, a polícia apontou a arma!”. Agora aponta até para os professores. Pra outras pessoas aponta mais, mata muito mais. Não é que o auto seja forjado. É uma prática de extermínio. Forjadas talvez sejam as justificativas. Para dissimular execuções? É, porque a execução é evidente. Com dez tiros nas costas, como é que pode essa vítima estar se defendendo? Eu enxergo uma política de extermínio. Mais recrudescida nesse século 21, como consequência do próprio sistema político baseado no capital. Quando é que aparece o Estado? Só aparece na repressão. Eu acho que não tem saída no capital, só vai exacerbando essa repressão. E o extermínio faz parte, tem que matar as pessoas, é a lógica do capital, da sociedade fundada assim. O que o senhor quer dizer com “capital”? A constituição social, a estrutura econômica fundada no capital, a propriedade privada. Essa ideia da saída do Estado das políticas públicas. Não tem mais médico no Estado, é tudo contratado. Aliás, não tem mais funcionário público. Tem toda a questão da mídia também, quando diz: “Dez traficantes foram mortos”. Já com estudante é diferente. Pra quem lê o jornal também. As pessoas não ficam muito horrorizadas se dez traficantes são mortos. O discurso do governador interfere... Quando ele fala “vamos continuar enfrentando os traficantes”, alimenta o confronto, “aqueles são os inimigos, podem morrer”. Como funciona a cabeça dos seus colegas? Suponho que funcione como uma legitimação de que a pessoa pode morrer. Acho que é um desprezo pela vida do outro, porque é o cara que mora lá no morro, não faz parte da vida da pessoa, não tem relação, é um desprezo. Marcelo Salles é jornalista e coordenador de Caros Amigos no Rio de Janeiro. salles@carosamigos.com.br

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Emir Sader

FRACASSOMANíACOS A invenção se deve às ironias de FHC. Mas os tucanos se tornaram os arautos da fracassomania, porque o governo Lula não poderia dar certo. Senão, seria a prova da incompetência dos que se julgavam os mais competentes. Lula fracassaria porque não contaria com a expertise de Pedro Malan, Celso Lafer, Paulo Renato, José Serra, os irmãos Mendonça de Barros, entre tantos. Lula não poderia dar certo, senão a pessoa mais qualificada para dirigir o Brasil na ótica tucana, FHC, se mostraria muito menos capaz que um operário nordestino. Por isso o governo Lula teria que fracassar economicamente, com a inflação descontrolada, a fuga de capitais estrangeiros, o “risco Brasil” despencando, a estagnação herdada de FHC prolongada e aprofundada, o descontentamento social se alastrando, as divergências internas do PT dividindo profundamente o partido, o governo se isolando social e politicamente no plano interno, assim como no plano internacional. A imprensa se encarregou de propagar o fracasso do governo Lula. Ricardo Noblat, apresentando o livro

de uma jornalista global, afirmava expressamente, de forma coerente com o livreco de ocasião, que “o governo Lula acabou” (sic). A crise de 2005 do governo era seu funeral, os urubus da mídia privada salivavam na expectativa de voltarem a eleger um dos seus para se reapropriarem do Estado brasileiro. FHC gritava, no último comício do candidato do seu partido, que havia renegado seu governo; com a camisa para fora da calça, o ex-presidente suado, desesperado, gritava: “Lula, você morreu”, refletindo seus desejos, em contraposição com a realidade, que viu Lula se reeleger, sobre o cadáver político e moral de FHC. Um jornalista da empresa da Avenida Barão de Limeira relatava o desespero do seu patrão, golpeando a mesa, enquanto dava voltas em torno dela, dizendo: “Onde foi que nós erramos, onde foi que nós erramos?”, depois de acreditar que a gigantesca operação de mídia montada a partir da entrevista dada por um escroque que o jornal tinha publicado, havia derrubado o governo Lula. Ter que conviver com o sucesso popular, econômico, social e internacional do governo Lula é

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insuportável para os fracassomaníacos. Usam todo o tempo de rádio, televisão e internet, todo o espaço de jornal para atacar o governo, e só conseguem 5% de rejeição ao governo, com 80% de apoio. Um resultado penoso. Qualquer gerente eficiente mandaria todos os empregados das empresas midiáticas embora. Como disse, desesperadamente, FHC ao Aécio, tentando culpá-lo por uma nova derrota no ano que vem: “Se perdermos, são dezesseis anos fora do governo...” sugestões de leitura ESTRUTURA SOCIAL E FORMAS DE CONSCIÊNCIA

István Meszáros Boitempo Editorial

UMA EPOPÉIA BRASILEIRA – A COLUNA PRESTES

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POR QUE NÃO SOU CRISTÃO

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Emir Sader é cientista político.

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Eduardo Matarazzo Suplicy

porca miséria! Glauco Mattoso

Negada a

Soneto para a tradição inglesa [1824]

Transparência

das doações antes das eleições

Em volta duma chicara de cha existe tanta coisa, que a toalha se torna até pequena, pois não ha espaço para toda aquella tralha... São pratos e travessas, onde está a immensa variedade do que calha às damas degustar: por mais que eu va citar, sempre commetto alguma falha... Puddins e mais puddins, bolos e bolos... Si eu fosse o amphitryão, nem onde pol-os iria mais saber, tantos que são! Mas como bem de longe eu os cobiço, em vez de preoccupar-me só com isso, preoccupo-me com meu arroz-feijão...

Depois que fiquei cego só vou ao restaurante acompanhado de quem me faça a bandeja, emquanto aguardo à mesa. Outro dia estavamos em quatro e, ao me trazer a sobremesa, um dos amigos descreveu-me o manjar: “É metade bolo, metade puddim...” Outro amigo deflagrou a discussão: “Daria p’ra chamar de bolo?” Não me fiz de rogado: “Bem... poderiamos chamar de ‘boluddim’... ou de ‘puddolo’...” Risos, após os quaes alguem suggere que “boluddim” soaria menos indecente que “puddolo”, ao que retruquei: “Ah, mas não depende de gosto e sim de logica. Onde fica o puddim? Na parte de cima?” Confirmaram. “Então seria ‘boluddim’ si eu começasse a comer por baixo...” E peguei a fatia na mão, ameaçando mordel-a a partir do bolo, no que escutei o clicar das cameras digitaes, ja que todos querem me photographar de bocca aberta, no meio duma dentada. “Mas si eu começasse a comer do lado do puddim, teria que ser ‘puddolo’, é claro!”

Mais risos, quando então todos passaram a fallar ao mesmo tempo, mixturando os neologismos “boluddim” e “puddolo” até que parecessem “bololô”, “pupuddim”, “dimdimlô”, “pupulô” e outras bobagens pré-primarias, como no “Esporte em discussão” da Jovem Pan, programma que, por signal, adoro e que me faz rachar o bico. A esta altura do campeonato, o leitor deve estar se perguntando qual o interesse de occupar espaço numa columna com tamanha inutilidade. Entretanto, si repararmos bem, é exactamente o mesmo typo de inutilidade que têm as sessões plenarias no Senado ou na Camara, para não fallar das outras assembléas. Com a differença de que os parlamentares ganham demais para ficarem discutindo si seria “boluddim”, “puddolo” ou byzantinismos quejandos, e quem paga a conta do restaurante somos nós. Glauco Mattoso é poeta, letrista e ensaísta.

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nado votou a nova legislação que definirá as normas das eleições de 2010, com destaque para a realização de eleições diretas, a qualquer tempo, para os governadores e prefeitos no caso de perda dos mandatos. Com respeito ao uso da internet houve um entendimento. Ficou assegurada a total liberdade de comunicação e uso da internet entre os candidatos e seus eleitores, vedado o anonimato. O consenso surgiu de um intenso debate entre os relatores, Senadores Marco Maciel e Eduardo Azeredo, favoráveis a algumas restrições, e os Senadores Aloizio Mercadante e Álvaro Dias, que – com a participação de senadores de todos os partidos – defendiam uma maior liberdade de comunicação e uso da internet. A divisão no plenário surgiu com relação a duas emendas que apresentei visando garantir maior transparência dos doadores nas campanhas: 1. Propus que os partidos políticos, as coligações e os candidatos fossem obrigados, durante a campanha eleitoral, a divulgar, pela internet, nos dias 6 e 30 de setembro, relatório discriminando os recursos em dinheiro ou estimáveis em dinheiro que tivessem recebido para financiamento da campanha eleitoral. Deveriam ser listados os nomes dos doadores, fossem os de origem do fundo partidário, fossem de pessoas físicas ou jurídicas, os respectivos valores doados e os gastos que realizam. Isso significaria que, antes do domingo, 3 de outubro, dia em que se realizarão as eleições de 2010, a informação sobre os doadores estaria inteiramente disponível. Diferentemente da prática atual – que só divulga estas informações seis meses após o pleito. 2. Também apresentei proposta que vedava a doação oculta, que permite aos partidos receberem doações sem informar para quais candidatos elas se destinam. Infelizmente foram rejeitadas. A primeira por 39 votos não e 23 sim, e a segunda por 41 votos contra dezesseis. O argumento dos que votaram contrariamente é que a transparência poderia constranger os doadores. Entretanto, tenho a convicção de que o interesse maior que deveria prevalecer é o dos eleitores que gostariam de conhecer a natureza das contribuições para cada candidato. Eduardo Matarazzo Suplicy é senador.

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Ilustração: Debora Borba/deboraborba@gmail.com

Em 15 de setembro, o plenário do Se-

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Fania Rodrigues

Prova de fogo da

Ilustração: java lee

esquerda uruguaia

Depois de viver a experiência do primeiro governo de esquerda da sua história, o povo uruguaio vai às urnas, no dia 25 de outubro, para escolher o novo presidente. Fotos Fania Rodrigues

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u

m ex-guerrilheiro lidera as intenções de voto para as eleições presidenciais do Uruguai. O que seria impossível na América do Sul dos anos 1970, quando muitos países viviam em plena ditadura militar, ainda soa estranho, mesmo se tratando de um dos mais democráticos países da América Latina. José “Pepe” Mujica, hoje com 74 anos, é o candidato a sucessor do primeiro governo de esquerda da história do Uruguai, que chegou ao poder em 2005, quando foi eleito Tabaré Váquez, da Frente Amplio, um partido de coalizão que reúne diferentes forças políticas de linha marxista. “El Pepe”, como é conhecido, começou sua militância política ainda na década de 1960, quando ingressou no Movimiento de Liberación Nacional Tupamaros (MLN-T), uma organização política uruguaia composta por distintos movimentos da es-

querda radical, que atuou como guerrilha urbana, entre 1960 e início da década de 1970. Preso quatro vezes, no total Mujica passou quase 15 anos de sua vida encarcerado. O último período de detenção durou 13 anos, entre 1972 e 1985, vivendo em condições precárias, sofrendo tortura e isolamento. Marcado pelos seis balaços da época do enfrentamento armado e pelos anos de cadeia, quando ganhou a liberdade, beneficiado pela lei de anistia, Mujica levou sua luta para as vias eleitorais. Criou o Movimento de Participação Popular (MPP), dentro da Frente Amplio, e no ano de 1994 foi eleito deputado federal por Montevidéu e depois em 1999 senador, cargo que ocupa desde então. Agora, no próximo dia 25 de outubro vai enfrentar a mais dura das batalhas da sua vida: o veredicto do povo através das urnas.

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Ministro da Pecuária, Agricultura de Pesca, entre 2005 e 2008, Pepe Mujica não era o favorito do atual presidente, Tabaré Vásquez, para a sua sucessão. Vásquez nunca escondeu sua preferência por Daniel Astori, ex-ministro de Economia e Finanças de seu governo. Derrotado nas internas da Frente Amplio, realizadas em 28 de junho desse ano, Astori aceitou o convite de Mujica para ser seu vice. Polêmico, contraditório, herói para uns e perigoso para outros, Pepe é inteligente e culto, não usa gravata, não gosta de assessores, fala o que pensa e muitas vezes comete gafes. Faltando 40 dias para as eleições ele deu uma extensa entrevista para o jornal argentino La Nación, em que fez algumas declarações no mínimo desastrosas para um candidato a presidência e quase causou um incidente diplomático. Disse que “o problema de Hugo Chávez é que ele fala demais. Tem que falar menos”. Sobre a Argentina afirmou: “Não sei qual é a ideologia dos Kirchner. Parece que são progressistas, mas também são peronistas. No Uruguai é difícil para nós entendêlos”. E não parou por aí. Falou que “a justiça tem odor de vingança” e que nela não crê. Depois admitiu que também fala demasiadamente. Nessa mesma semana, o jornalista uruguaio Alfredo García lançou, no dia 13 de setembro, o livro Pepe Coloquios, com 14 entrevistas de Mujica, em 28 horas de conversas gravadas. O livro virou polêmica, teve repercussão internacional e esgotou em poucos dias. Nele o presidenciável faz mais declarações sobre os Kirchner, a quem define como “patota” (gangue, em português) e chama o governo e os ruralistas argentinos de “burros”. No entanto, isso em nada mudou o cenário político. Mujica e Astori continuam liderando as pesquisas, com 45% das intenções de votos. Mas as eleições não estão ganhas. Mais quatro partidos estão na disputa, entre eles o Partido Nacional (Blanco), Colorado, Assembleia Popular e Partido Independente. Mas apenas os candidatos de dois deles possuem chances reais de vencer as eleições: José “Pepe” Mujica, da Frente Amplio, e Luis Alberto Lacalle, do Partido Nacional, que possui 32% das intenções de votos. O Uruguai possui uma direita organizada e com tradição política. “O Partido Nacional é muito antigo, criado em 1836, assim como o Colorado, criado em 1825, um dos primeiros do mundo. São partidos de direita que historicamente tiveram em seu cerne o liberalismo e a democracia”, observa o cientista político Adolfo Garcé, professor e pesquisador do Instituto de Ciência Política da Universidade da República de Montevidéu. Luis Alberto Lacalle, de 68 anos é um político experiente. Ex-presidente uruguaio, governou o país entre 1990 e 1995 e foi um dos grandes responsáveis pelo processo de consolidação da democracia. Assumiu o governo com 49 anos, sendo considerado um dos mais jovens presidentes que o Uruguai já teve. Isso porque ingressou na política em 1958, quando tinha apenas 17 anos. Advogado, cientista social e jornalista, Lacalle é um intelectual respeitado. Também foi deputado nacional e senador. Opositor à ditadura militar, em agosto de 1978 recebeu uma garrafa de vinho enviada por um desconhecido, com um bilhete que

dizia “brindar pela Pátria em sua nova etapa” e assinado com a sigla “MDN”. Garrafas iguais foram enviadas também aos legisladores do Partido Nacional, Carlos Julio Pereyra e Mario Heber. Muitos acreditaram que era pelos rumores de que o país estava prestes a sofrer um golpe dentro do próprio regime. No entanto, a motivação era outra. Os vinhos estavam misturados com um potente veneno. Lacalle não provou a bebida, alertado por sua esposa que achou tudo muito suspeito. Mas a companheira de Mario Heber, Cecilia Fontana, experimentou e morreu logo em seguida. O caso nunca foi esclarecido e há suspeitas inclusive de haver ligação com a morte, em 1976, do ex-presidente brasileiro João Goulart, que também pode ter sido envenenado.

Semelhanças e diferenças José “Pepe” Mujica é uma figura muito polêmica, que encontra muita resistência em uma parte da sociedade e é muito querido entre os pobres e pouco aceito pelos ricos. “As pessoas sentem carinho por Mujica, muitas o admiram pelos anos que esteve na luta revolucionária. O respeitam pelo modo como vive, por sua coerência. Porque a ele não importa dinheiro, nem conforto. Vive em uma chácara a 20 km do centro da cidade, tem uma casa humilde e cultiva suas próprias flores. Não é como os políticos clássicos que têm grandes carros e um luxuoso apartamento em um bairro lindo. Mujica tem um carro muito velho e usa roupas velhas. As pessoas gostam dele e o consideram um homem honesto e sensível. Acreditam, sobretudo os pobres, que ele compreende seus problemas”, analisa Adolfo Garcé. Com Lacalle é diferente. “O respeitam e acreditam que ele entende os problemas do mundo, que é um homem culto e bem informado. Todo mundo sabe que Lacalle pode ser um presidente que resolve muitos entraves. Tem aspecto de presidente. Fala

Mujica começou a militância na década de 60

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como um presidente. Tem uma casa linda em Carrasco, um dos lugares mais caros de Montevidéu. É um homem que as pessoas sentem que as pode representar”, compara o cientista político. O que se sabe é que a competição entre Mujica e Lacalle é muito dura no terreno retórico. Mujica fala da corrupção dos anos 1990, do governo de Lacalle, que por sua vez fala da violação dos direitos humanos cometida pela guerrilha urbana que Mujica integrou. Para o pesquisador da Universidade da República de Montevidéu, Adolfo Garcé, ao mesmo tempo em que confrontam não estão se contrapondo com dois projetos de país completamente distintos. “José Mujica está fazendo uma campanha de centro-esquerda e Lacalle de centro-direita, sem grandes conflitos de interesses”. Essa, no entanto, é a crítica mais feroz tanto ao governo de Tabaré Vásquez, quanto à candidatura de Pepe Mujica. Pois a Frente Amplio, assim como o PT do presidente Lula, saiu da esfera ideológica que sempre a norteou e vem atuando mais como progressista ou centro-esquerda.

Conquistas e derrotas Para o operário Luis Alberto Forte, de 43 anos, a esquerda está sem palavras. “Há um vazio de discurso. Pois os intelectuais que sempre defenderam uma sociedade igualitária agora estão no poder e se calaram”, afirma. Além disso, o governo não promoveu, nem discutiu a reforma agrária e os custos de vida ainda continuam muito altos para o trabalhador. Segundo o pesquisador da Universidade da República de Montevidéu, a Frente Amplio continua sendo um partido de esquerda, mas hoje está moderada. Assim como a grande maioria dos partidos de esquerda da América Latina estão repensando suas ideias e suas propostas programáticas, com objetivos menos ambiciosos no que diz respeito às mudanças que querem realizar e mais ambiciosa no sentido de querer governar. De acordo com Pepe Mujica a luta armada tampouco chegou à terra prometida. “Os dois momentos têm uma coisa em comum. A diferença é que agora temos mais companheiros, mas já não se propõe mudar o mundo”, afirma. A Frente Amplio vive a glória de ter feito mudanças importantes nos campos social, trabalhista, educacional e da saúde, e o conflito ideológico de defender o socialismo e governar um Estado capitalista. Porém, para o candidato do Partido Nacional, Luis Alberto Lacalle, não existe esquerda, nem direita do Uruguai. “Eu não sou de direita e as pessoas tão pouco identificam o governo da Frente Amplio como de esquerda. Assim como acontece com o presidente Lula, no Brasil. O PT tem passado de esquerda, mas sua política econômica não é esquerdista”, declara Lacalle. O pesquisador Roberto Elissalde realizou um extenso estudo sobre a administração da Frente Amplio, entre março de 2005 e junho de 2009, que resultou no livro Gozos y sombras del gobierno progresista, lançado no dia 13 de setembro de 2009. Nesse livro, Elissalde mostra muitas mudanças estruturais que foram realizadas nesse período. “A outubro 2009

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saúde, por exemplo, sofreu uma reforma completa. Além disso, mais de mil crianças possuem cobertura médica gratuita, que antes não tinham. O sistema fiscal também foi alterado. Agora quem tem mais dinheiro também paga mais. O imposto de valor agregado, que era muito injusto, deixou de ser cobrado e, em contrapartida, foi criado um imposto sobre a riqueza.” Também houve uma reforma no sistema de financiamento da casa própria. O Banco Hipotecário do Uruguai, depois de oito anos, voltou a financiar a construção e a compra de casas. Outro feito importante foi a criação do Ministério de Desenvolvimento Social, que promoveu um grande avanço nas políticas de inclusão social. “O governo aqui fez uma coisa muito parecida com a Bolsa Família do Brasil, dando subsídio às pessoas pobres”, explica Elissalde. O governo oferece um pacote de ajuda que abrange a educação, a saúde e uma ajuda em dinheiro. Com medidas como essas o Uruguai conseguiu eliminar metade da pobreza, que atingia 30% da população em 2005. Além de ter diminuído significativamente a indigência, que caiu de 5% para 2,4%. Para o sindicalista Juan Castillo, dirigente do PIT-CNT (Plenário Intersindical de Trabalhadores Convenção Nacional de Trabalhadores) e do Partido Comunista, também foram muitos os ganhos nos direitos trabalhistas. “Conquistas, como as leis de negociação coletiva, liberdade sindical e oito horas para os trabalhadores do campo, hoje são uma realidade. Sem dúvida, há um salto em qualidade na vida dos trabalhadores, o que é justo apreciar. Agora, estamos profundamente enamorados desse governo? Não! Sem dúvida estamos muito melhores que no governo anterior, mas há muito a conquistar. Os desafios ainda são muitos. Em primeiro que

O sindicalista Juan Castillo, dirigente do Partido Comunista

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O cientista político Adolfo Garcé, da Universidade da República de Montevidéu

sempre deixamos claro que o mais importante havia acontecido, pois a esquerda tinha conquistado o governo, mas que não tinha o poder. Essa foi uma questão que gerou muito debate”, ressalta Castillo.

Construindo o desenvolvimento Que tipo de país os uruguaios querem construir? A resposta virá no dia 25 de outubro, nas urnas eleitorais. O país que chegou a ser conhecido como a Suíça da América, na década de 1950, amargou durante anos em um extenso processo de degradação industrial que assolou sua economia. Com a moeda desvalorizada, o país parece estar acordando de uma ressaca de quatro décadas. O desemprego no final do governo de Jorge Batlle (2000-2004), do Partido Colorado, era de 14%, mas chegou a 20%, em 2002, durante a crise da Argentina. Hoje, a taxa é de 6,9% e a geração de postos de trabalho continua aumentando, mesmo em meio a uma crise financeira mundial, quando a Espanha está com 20% de desemprego. Além disso, no dia 15 de setembro uma boa notícia encheu o povo uruguaio de esperança. O país não só não caiu em recessão como retomou o crescimento. Uma situação excepcional em época de crise econômica mundial. No segundo trimestre de 2009 cresceu 0,5%, em comparação ao primeiro, e 1,5% em relação ao mesmo período de 2008, quando o país obteve um vigoroso crescimento de 9%. Com isso o governo elevou para 1,2% a meta de crescimento econômico para esse ano, que era de 0,7%. Ao que tudo indica o Uruguai será um dos poucos países da América Latina que terminará o ano de 2009 crescendo. Isso porque, segundo Juan Castillo, a crise não atingiu todos os âmbitos da produção. As pequenas economias e os países dependentes, como o Uruguai, têm algumas coisas negativas, mas também

outras positivas. O crescimento econômico mundial demora a chegar, em compensação as reações negativas também. Nessa crise quem mais sofreu foi a indústria têxtil, pois os vizinhos Brasil e Argentina inundaram o mercado. Somente 5% do que se produz do Uruguai é consumido dentro do país. Por isso a indústria está ligada diretamente a exportação. Tudo o que é produzido no país é feito em escala para exportação, pois os custos para a pequena quantidade de consumidores uruguaios seriam muito altos, como no caso do arroz. 95% da produção é vendida no exterior, da qual 80% é comprada pelo Brasil. No caso da indústria têxtil, como a produção é pequena e há uma superoferta dos vizinhos gigantes, a produção nacional é inibida. Um dos pontos positivos é que o consumo interno está aumentando, por isso o país, ano a ano, está experimentando excelentes níveis de crescimento. De acordo com as estimativas do PIT-CNT, o Produto Interno Bruto (PIB) expandirá em 4% em 2009 e a economia poderá chegar a 2%. Contudo, o dirigente do PIT-CNT adverte: “Não nos contentamos em ter um governo de esquerda que melhore as condições de vida do capitalismo, mas queremos edificar a base para construirmos o socialismo no nosso país. Consciente de que isso passa por um grande processo de acumulação de forças, com muita amplitude, fortalecendo a unidade e trabalhando para que, oxalá mais cedo do que tarde, possamos construir uma sociedade diferente. Com um mundo avesso, mas possível, tanto que Cuba segue construindo, tanto que outros povos estão avançando nessa direção, como a Venezuela”, finaliza. Atualmente Juan Castillo é candidato a deputado nacional, pelo Partido Comunista do Uruguai e pediu licença das atividades sindicais no dia 15 de setembro. Fania Rodrigues é jornalista.

Luis Alberto Lacalla, ex presidente uruguaio

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Frei Betto

Fidel Castro

TRAGÉDIA

Uma espécie em

Colombiana

A UNASUL (União das Nações Sul-Americanas) enfrenta um impasse diante da teimosia do presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, de ampliar a instalação de bases usamericanas no território de seu país. Os demais presidentes estão contra. Preferem preservar a soberania e a independência da América do Sul. Na reunião de Bariloche, em agosto, o presidente Lula bem argumentou: se desde 1952 as tropas estadunidenses não conseguiram erradicar o narcotráfico na Colômbia, por que agora estariam aptas a fazê-lo? Funcionam na Colômbia três Estados paralelos: a guerrilha das FARC; o narcotráfico; e os grupos paramilitares, criados supostamente para combater os dois primeiros. Desde 1991, cerca de 2.500 sindicalistas foram assassinados naquele país, quinhentos sob o governo de Uribe. Os paramilitares puxam o gatilho, mas quem os financia são empresas nacionais e transnacionais. A Coca-Cola sofre processo judicial por ter apelado aos paramilitares para reprimir atividades sindicais, entre 1992 e 2001, que resultaram na morte de sete sindicalistas. A Chiquita Brands, exportadora de banana, admitiu ter financiado o grupo terrorista Autodefesa da Colômbia. A Dyncorp foi acusada de contaminar com substâncias tóxicas lavouras de pequenos agricultores na fronteira entre Colômbia e Equador, visando a erradicação do plantio de coca. Tais fatos têm impedido que o governo dos EUA, empenhado na investigação dessas empresas, realize o grande sonho de Uribe: assinar o tratado de livre comércio entre os dois países. A empresa Drummond, com sede no Alabama, explora minas de carvão e é acusada de ordenar o assassinato, por mãos de paramilitares, de três dirigentes sindicais. Ela extrai da Colômbia mais de 16 milhões de toneladas de carvão/ano. Seu faturamento anual está calculado em US$ 500 milhões, graças ao trabalho de 3 mil mineiros remunerados a US$ 2,5/hora. A Justiça de Atlanta acusou a empresa de acobertar os assassinos dos sindicalistas colombianos e condenou a empresa, baseada numa lei de 1789, promulgada para punir ações de pirataria e crimes cometidos fora do território dos EUA. O processo correu sob segredo de Justiça, mas a mídia de Alabama pressionou e, agora, sabe-se que Rafael García, ex-chefe do departamento de informática do DAS (Departamento Administrativo de Segurança), órgão máximo da segurança do Estado colombiano, preso por haver destruído informações sobre os narcotraficantes de seu país, revelou as conexões entre parlamentares e funcionários comprometidos com os paramilitares. García confessou que pouco antes do assassinato dos sindicalistas presenciou uma reunião entre o presidente da filial colombiana da Drummond e o chefe paramilitar que controlava a região. Viu quando o empresário entregou a ele US$ 200 mil para assassinar os sindicalistas. Contou ainda que os paramilitares usavam barcos da Drummond para transportar cocaína à Europa e Israel. Favorecer na Colômbia um terceiro mandato de Uribe é sacramentar a corrupção e a impunidade. Frei Betto é escritor, autor de “Cartas da Prisão” (Agir), entre outros livros.

perigo de extinção Na Conferência Internacional

sobre o Meio Ambiente convocada pela ONU no Rio de Janeiro, afirmei quando era o chefe do Estado cubano: “Uma espécie está em perigo de extinção: o homem”. Quando proferi e fundamentei aquelas palavras, recebidas e aplaudidas pelos chefes de Estado ali presentes – inclusive o presidente dos Estados Unidos, um Bush menos tenebroso que seu filho George W. – estes acreditavam dispor ainda de vários séculos para enfrentar o problema. Eu próprio não o via numa data tão próxima como sessenta ou oitenta anos. Hoje se trata de um perigo realmente iminente e seus efeitos são já visíveis. A temperatura média aumentou 0,8 grau centígrado desde 1980, segundo o Instituto de Estudos Espaciais da NASA. As últimas duas décadas do século 20 foram as mais quentes em centenas de anos. As temperaturas no Alasca, no oeste canadense e no leste da Rússia subiram a um ritmo que duplica a média mundial. O gelo do Ártico está desaparecendo rapidamente e a região pode experimentar seu primeiro verão completamente livre de gelo no ano 2040. Os efeitos são visíveis nas massas de gelo de mais de 2 Km de altura que se derretem na Groenlândia, nas zonas glaciais da América do Sul, do Equador ao Cabo Horn, fontes fundamentais de água, e a gigantesca camada de gelo que cobre a extensa zona antártida. As atuais concentrações de dióxido de carbono atingiram o equivalente a 380 partes por milhão, cifra que supera a geração natural dos últimos 1650.000 anos. O aquecimento está já afetando os sistemas naturais de todo o mundo. Se isso ocorrer, será devastador para todos os povos. Desde a Antiguidade, os filósofos e pensadores mais avançados procuraram a justiça social. Apesar disso, a escravidão física durou legalmente até há 129 anos, quando se decretou a abolição da escravatura na colônia espanhola de Cuba. Hoje, os Estados Unidos possuem milhares de armas nucleares que poderiam exterminar várias vezes a população do mundo. São, por sua vez, os maiores produtores e exportadores de todo tipo de armas. O ritmo acelerado das pesquisas científicas em todas as áreas da produção material e dos serviços, sob a ordem econômica imposta ao mundo depois da Segunda Guerra Mundial, conduziu a humanidade a uma situação insustentável. Nosso dever é exigir a verdade. A população de todos os países tem direito de saber os fatores que originam a mudança climática e quais são as possibilidades atuais da ciência para reverter a tendência, se ainda se dispõe realmente delas. O povo cubano, especialmente sua magnífica juventude, demonstrou que, ainda em meio a um brutal bloqueio econômico, é possível ultrapassar obstáculos inimagináveis.

Fidel Castro Ruz

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Carolina Coral

A saga do povo Mapuche pelo

foto Elías Paillan/Observatorio Ciudadano

direito à terra

Dissolução de território Funeral do jovem mapuche Jaime Facundo Mendonza Collio

Assassinatos de jovens indígenas evidenciam a repressão do Estado chileno sobre os povos originários que lutam por reconhecimento e pela recuperação de seus territórios ancestrais. 38

nas da América Latina, também há particularidades de cada grupo indígena. No caso dos mapuche – povo indígena predominante no Chile e também existente na Argentina – eles sempre estiveram predispostos a dialogar com o governo chileno. Entretanto, foi o próprio Estado chileno que rompeu com as possibilidades de diálogo, no final do século 19, quando iniciou sua expansão territorial. Além disso, não elaborou nenhuma política de proteção aos indígenas. Pelo contrário, os consideravam como um obstáculo para o desenvolvimento econômico da nação. Foi nesse período de expansão territorial que os mapuche, por meio dos títulos de Merced - instrumento criado pelo governo chileno para se apoderar e controlar terras que não lhe pertenciam - ocorreu um processo abrupto de redução territorial dos povos originários, que permaneceram apenas com 5% das atuais províncias de Arauco, Bibio, Malleco e Cautín. No entanto, mesmo com os títulos em mãos, não se assegurou a permanência dos mapuche em suas terras devido à usurpação das terras por parte dos colonizadores estrangeiros e dos próprios chilenos. Para Bengoa, a origem da pobreza indígena está diretamente ligada a tal redução territorial, pois essas poucas terras se tornaram insuficientes para suprir as necessidades dessa população, impedindo a construção de uma vida digna. Além disso, entre fins do século 19 e princípio do século 20, houve um período denominado como “assimilação forçosa”, caracterizado por políticas estatais dirigidas aos povos indígenas com o objetivo de transformá-los em cidadãos chilenos, com base em um conceito de “identidade nacional homogênea”. Na visão do historiador, esse projeto foi marcado por uma integração frustrada, porque até hoje os indígenas não estão totalmente inseridos na sociedade chilena.

Santiago do Chile –

A morte do jovem mapuche Jaime Facundo Mendonza Collio, da comunidade Requem Pillan de Ercilla, em 12 de agosto desse ano, como consequência de um disparo realizado por um policial durante uma manifestação em defesa de terras indígenas, não foi o primeiro caso de assassinato e repressão por parte do Estado chileno contra o povo mapuche. Outras vítimas, como Alex Lemun, em 2002; Juan Collihuin, em 2006, e Mathias Catrileo, em 2008, evidenciam que as mortes não são meros casos isolados, mas sim consequência de problemas que se arrastam por mais de 100 anos entre os povos originários e o governo nacional. Tais problemas continuam sendo intensificados por atos de violência e pela falta de tolerância em relação às múltiplas etnias que constituem o Chile. Segundo o historiador chileno José Bengoa, a cronologia da história indígena do Chile não é a mesma da história do país. Apesar das semelhanças históricas entre todos os povos indíge-

Ainda hoje os mapuche vivem sob a ameaça da dissolução do seu território. Os maiores inimigos das terras indígenas são os projetos de investimentos privados, entre elas plantações florestais que afetam diretamente as comunidades. Para Alfredo Segel, editor do informativo Mapuexpres - site de maior acesso com conteúdos sobre os mapuche – “a indústria florestal tem sido uma das atividades símbolos do ultraneoliberalismo do Estado chileno, pois seus proprietários são os empresários considerados mais ricos de toda a América Latina”. Atualmente, há 3 milhões de hectares de monocultura de espécies exóticas como o pinus e o eucalipto, que são como bombas que sugam a água do solo, prejudicando o meio ambiente, além de substituir os bosques nativos, as plantas com propriedades medicinais e a soberania alimentar dessas comunidades. Os investidores da indústria florestal e suas derivações, como a de aquacultura, de criação de gado e da agricultura estão diretamente associados ao mercado financeiro e se dividem em nacionais, multinacionais e transnacionais. De acordo com Roberto Morales, diretor da Escola de Antropologia da Universidade Austral do Chile, tais

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grupos também controlam a educação, a saúde, a energia e os meios de comunicação, e são os mesmos que controlam o aparato público estatal a seu favor e ajudam a implantar políticas repressivas que resultaram nas mortes dos jovens mapuche.

Carta branca do governo Na avaliação de Segel, o governo da presidente Michelle Bachelet deu carta branca para uma radical expansão do extrativismo nas terras dos povos originários. No entanto, o modo como esses recursos serão explorados “diz respeito a todos e principalmente às comunidades que fazem parte desse ecossistema”, salienta. Explica, ainda, que a indústria florestal no Chile é representada principalmente por dois grupos econômicos: Matte (CMPC) e Angelini (Copec, Arauco y Celco), os quais controlam aproximadamente 70% do solo utilizado para plantações no país e já superam 7 milhões de dólares de fortuna. Além disso, estão se expandindo para outras regiões como Peru, Equador, Uruguai, Argentina e Brasil. Segundo o advogado José Aylwin, diretor do Observatório Cidadão, e filho do ex-presidente Patrício Aylwin, depois que o Chile ratificou o Convênio 169, da Organização Internacional do Trabalho (OIT) “para cada projeto realizado em terras indígenas deveria ser aplicado um processo de consulta adequada a tais povos, como forma de compensação pelos danos e maior participação nos benefícios que estes geram, exatamente como se estabelece no direito internacional”. Aylwin também ressalta que, apesar do histórico de demandas negadas aos povos indígenas, a ratificação desse Convênio - firmado sob pressão de organismos nacionais e internacionais – ajudou a inserir a problemática indígena do país em um cenário internacional, representando um avanço e uma possibilidade de real transformação. Contudo, “ainda assim são insuficientes, pois as políticas públicas ainda são muitas vezes contraditórias”. Uma das contradições é a própria Constituição chilena, que distingue a propriedade da terra dos elementos que fazem parte dela. Assim, na maioria das vezes, dentro das propriedades indígenas ocorre uma exploração da vegetação e das águas por parte de empresas privadas, gerando um conflito em permanente expansão.

Tradição ao diálogo Apesar de todos os abusos sofridos ao longo desses anos, a tradição mapuche de dialágo se mantém. No princípio de agosto desse ano, as lideranças do sul foram a Santiago reivindicar junto ao governo a recuperação de seus territórios ancestrais, mas como não foram atendidos, decidiram ocupar as terras que tentavam reaver. O ministro Patricio Resende foi enviado a Araucania para fazer um acordo, porém segundo o advogado Aylwin, o representante do governo, além de não ter dialogado com a comunidade, mandou reforçar a estratégia policial, o que terminou provocando a morte de Jaime F. M. Collio. Até hoje todos os agentes policiais responsáveis pelas mortes dos mapuche não foram leva-

dos à justiça civil, mas sim julgados pela justiça militar, que, de acordo com José Aylwin “carece de imparcialidade e independência necessária para analisar membros das forças armadas, gerando, consequentemente, um sentimento de indignação por parte das comunidades mapuche, que por todos esses anos convivem com a impunidade”. Além da responsabilização dos agentes do estado, o diretor do Observatório Cidadão defende o fim imediato da militarização nas zonas de conflito, o que para ele é “uma provocação inaceitável para a convivência interétnica”.

Direitos fundamentais De acordo com Roberto Morales, existem outros aspectos que estão associados ao reconhecimento dos direitos fundamentais dos mapuche como povo, como o exercício efetivo de uma soberania política, a autodeterminação como nação e um modelo de desenvolvimento econômico adequado aos seus princípios coletivos, associativos e de cooperação. Morales acredita que entre as reivindicações mapuche são somente atendidas as que não colocam em risco o modelo econômico vigente, o sistema político e o eixo cultural predominante. Segundo ele, no governo de Michelle Bachelet predomina uma postura ambígua, “que de um lado apoia o respeito ao reconhecimento das demandas mapuche, mas não àquelas associadas aos investimentos públicos, como a criação uma nova legislação, educação diferenciada, espaços de poder a diferentes grupos, instâncias de comunicação e inclusão das comunidades nas tomadas de decisão”. A promulgação da Lei Indígena n° 19.253 pelo Chile, em 1993, foi resultado de pressões externas e internas e uma tentativa de incluir os mapuche. De acordo com Elba Soto, doutora em educação, “no momento de sua elaboração, o governo chileno permitiu aos indígenas que propusessem seus próprios termos”. Contudo, na prática, como ela constatou em entrevistas com lideranças indígenas, “o reconhecimento como nação indígena foi excluído, e também muitas propostas dessa lei não correspondem aos objetivos deles”.

Luta para além dos conflitos O estudante de História da Universidade do Chile, Líber Osorio – filho de mapuche – sustenta que outro elemento fundamental para a constituição da nação mapuche é o idioma, pois é através dele que a cultura é difundida. Ele explica que o Chile é um dos únicos países da América Latina que não se reconhece como um povo mestiço, por isso enfatiza que a luta está para além dos conflitos territoriais. A poeta mapuche Maribel Mora revela com saudosismo e muito orgulho que sua avó - dirigente de uma comunidade mapuche – sempre lhe dizia: “faças o que fizeres, nunca te esqueças que és mapuche”. Apesar disso, aos poucos a família de Maribel foi incorporando o espanhol e deixando de falar o idioma mapugundun – língua originária dos mapuche – o que, para ela, foi um dos grandes crimes cometidos pelo Estado chileno. Tanto a família de Líber como a de Maribel fa-

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zem parte de um processo de migração no qual muitos mapuche saíram dos campos do sul do país para o centro de Santiago, desvinculandose da estrutura comunitária, aprofundando a desagregação das unidades familiares e vendendo sua força de trabalho na cidade. Desse modo, mutilaram não somente sua língua como sua cultura, através de um processo denominado por muitos especialistas de “chilenização”. O professor mapuche José Ancan, da Universidade do Chile, destaca que apesar das demandas comuns dos mapuche, existe dentro do próprio povo uma diversidade de discursos, assim como em qualquer outra cultura. Inclusive, atualmente 70% da população mapuche vive nas zonas urbanas, devido às reduções de terra e ao grave empobrecimento das zonas rurais. O professor relata, ainda, que depois que foram morar na capital, muitos começaram a negar suas origens por medo da discriminação, chegando a trocar o sobrenome para serem aceitos socialmente e negando-se a manter o idioma original mesmo em espaços privados.

Resgate da identidade Patricia Lienlaf, que é dirigente da Organização Meli Wixan Mapu, conta que apenas ingressou na entidade quando começou a se autorreconhecer como mapuche, o que levou muitos anos para acontecer. A organização existe desde o começo da década de 90, e trabalha com o resgate da identidade mapuche, principalmente nos espaços urbanos, pois considera que os indígenas que vivem na capital devem ser incorporados ao processo de liberação do povo, assim como os que estão no sul do Chile, lugar de origem de todos eles. A organização tenta integrar todas as realidades do povo mapuche e, para a difundir essas diversas expressões, se utiliza de um site que, mais do que informar sobre os acontecimentos recentes, faz conhecer suas opiniões, além de mobilizar e coordenar atividades públicas durante todo o ano, como por exemplo, os protestos e manifestações que ocorreram em Santiago em torno da morte de Collio. Outro veículo de manifestação e divulgação de opiniões mapuche é o já citado Mapuexpress. Alfredo explica que este jornal eletrônico é realizado apenas com trabalho voluntário e, além de produzir seus próprios conteúdos, se nutre também de informação de outras redes nacionais e mundiais, faz campanhas e denúncias a favor dos direitos dos povos indígenas e tem uma tribuna permanente para dar voz às comunidades e organizações. Por meio de todos esses mecanismos o editor revela que essas informações têm uma imensa amplificação e ressonância em outras redes, “o que para ele é fundamental, já que a imagem dos mapuche é o resultado de políticas de negação de identidade. Muitos indígenas sentem a carga desses estereótipos diariamente alimentados pelos meios de comunicação chilenos”. Carolina Coral é jornalista e atualmente faz Mestrado em Estudos Culturais Latinosamericanos, na Universidade do Chile. outubro 2009

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Tatiana Merlino

A biblioteca Exodus, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, foi montada em um antigo local de venda de drogas

A Tropicália

da periferia

Antes carentes de cultura, regiões pobres de São Paulo vivem período de efervescência com saraus, bibliotecas, mostras de cinema e oficinas de hip hop Fotos Jesus Carlos

é

noite de jogo do Brasil. São cerca de 20h no bar Zé Batidão, bairro de Piraporinha, zona sul de São Paulo. Faz frio, e, aos poucos, as mesas de plástico vermelhas espalhadas pelo salão vão sendo ocupadas por dezenas de pessoas. São metalúrgicos, taxistas, motoboys, secretárias, professores, vigilantes, lanterninhas, encanadores, que moram nas redondezas do bar e em outras quebradas da cidade. A razão do encontro dessa gente é a literatura. Há seis anos, o bar sedia o Sarau da Cooperativa Cultural da Periferia, a Cooperifa, que acontece religiosamente todas as quartas-feiras, das 21h às 23h. Por entre as mesas apinhadas de jovens, velhos e crianças, garçons equilibram-se com tigelas de

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escondidinho de carne-seca, especialidade da casa. No período que antecede o início do sarau, a música rola solta. Às 21h em ponto, o poeta Sérgio Vaz, idealizador do projeto que reúne artistas da periferia, pede a atenção. Feitas as apresentações, todos cantam, em coro: “Povo lindo, povo inteligente... Uhh, Coperifa, uhh, coperifa!”. Dona Edith, senhora negra de cabelos brancos, é a primeira a declamar seus versos. Amparada por uma moça mais jovem, descobrimos, depois, que dona Edith é cega. Durante a noite de 9 de setembro, 50 pessoas apresentaram-se no sarau. Uns mais tímidos, outros mais ousados. “Essa é a primeira vez dele (ou dela) aqui”, são anunciados alguns, sob aplausos da platéia.

Poeta dos escravos Um dos poetas veteranos da Cooperifa é Elber Ladislau, de 33 anos. Negro, sorriso largo, mais de 1,90. Frequenta o sarau há oito anos. Antes disso, já escrevia, “mas não acreditava que haveria um lugar onde poderia mostrar minha crítica ao sistema”, explica. Na infância, Elber gostava de literatura, mas não de escola. O desinteresse cresceu ainda mais quando uma professora puxou sua orelha por ele ter se negado a cantar. “Isso interferiu na minha vida. Foi um trauma”. Elber largou a escola. Muitos anos depois, já adulto, trabalhando com dedetização de caixas d’água em prédios de bairros da classe média paulistana, achou livros no lixo. “Eram obras de Cruz e Souza, Alphonsus Guimaraes e Castro Alves”. Por motivos mais que óbvios, este último o marcou. Quando perdeu o emprego, passava o dia decorando os poemas do “poeta dos escravos”, em especial “Navio Negreiro”. Incentivado pelos livros, voltou a estudar, matriculando-se num curso supletivo. Na mesma época, foi apresentado à Cooperifa por um amigo. Desde então, suas noites de quarta-feira são marcadas pela poesia. “Foi uma das melhores coisas da minha vida. Aqui, um aprende com o outro. E fazendo poesia eu não morro conformado”, conta o poeta, que trabalha como atendente na Pinacoteca do Estado. Fundada em 2001 por Sérgio Vaz e Marco Pezão, a Cooperifa é uma das principais iniciativas culturais da periferia de São Paulo, onde, em geral, o Estado só se faz presente por meio da força. “Na peri-

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“Todo mundo sabe que na periferia não tem cinema, teatro, museu. A gente resolveu parar de reclamar e fazer”, afirma o poeta Sérgio Vaz feria, o único lugar que a gente tem para receber as pessoas é o bar. Por isso, transformamos o bar em centro cultural. Foi aí que surgiu o sarau da Cooperifa”, conta Sérgio. Durante um ano e meio, os saraus ocorreram no bar Garajão, em Taboão da Serra. No primeiro encontro, havia 17 pessoas, sendo que quatro delas eram esposas de poetas. “Mas foi crescendo, virando um quilombo cultural. As pessoas vinham de outros lugares para conhecer. Era gente que guardava seus escritos e começou a achar sentido para aquilo que estava na gaveta. Elas nos assistiam, e começaram a pensar: ‘É tão simples assim? Então vou fazer também’”.

Revolta canalizada Inspirado na Semana de Arte Moderna de 1922, o sarau é resultado da teimosia de Vaz. “Todo mundo sabe que na periferia não tem cinema, teatro, museu. A gente resolveu parar de reclamar e fazer”, conta. “Ela não é pioneira, mas tem o mérito de acordar outros movimentos e poetas”, explica. Ele conta que, no começo do projeto, as poesias eram de revolta, protesto, desabafo. “Mas, com o tempo, as pessoas foram construindo a poesia, e a poesia foi reconstruindo a pessoa”. No entanto, assinala que o protesto é natural, “porque a periferia é onde moram os negros, os excluídos, os brancos fodidos. É onde mora o pobre, e a partir do momento que você começa a ler, passa a ver as coisas que poderia ter. Como não tem, fica mais revoltado. Só que agora essa revolta é canalizada”. Prova disso é que mais de 50 livros já foram lançados no sarau.

O maior mérito da iniciativa, acredita Vaz, é fazer pela comunidade e amar a periferia. “Eu sou de uma época que a gente queria mudar da periferia, que a gente tinha que mentir que não morava aqui para arrumar emprego. Os bairros eram satanizados”. Hoje, as coisas mudaram, garante o poeta de 45 anos. “Agora a gente quer mudar a periferia”.

Libertação Em 2003, a Cooperifa mudou-se para o bar de José Cláudio Rosa, o Zé Batidão. Na infância de Sérgio, seu pai fora dono do estabelecimento. O poeta trabalhou lá por 12 anos atrás do balcão e servindo mesas. “Aqui era minha senzala, e hoje é o que me liberta“, revela. “Na periferia, a literatura nunca foi uma arte porque é uma arte da elite. A gente é iletrado, não frequenta nenhuma academia, não faz parte de nenhum grupo literário, muito pelo contrário. Além de todos os preconceitos, agora tem o preconceito linguístico: ‘essa gente feia com palavra bonita na boca’. Então, incomoda um pouco, mas, e daí, quem pode proibir o povo de ler e escrever? Para quem a gente tem que pedir autorização? Academia brasileira de letras, PUC, USP?”, ironiza. A iniciativa deu tão certo que rendeu novos frutos. “Somos um movimento de poesia, mas há pessoas que fazem teatro, cinema, artes plásticas, dança, então apresentamos as coisas aqui”. Além do sarau, que hoje reúne entre 300 a 400 pessoas por noite, há, a cada 15 dias, o ‘Cinema na Laje’, espaço alternativo para exibição de filmes e documentários

Vaz fundou o sarau da Cooperifa, uma das principais iniciativas culturais da periferia de São Paulo

de todas as partes do Brasil e do mundo, e que acontece literalmente na laje, no “andar de cima” do bar, com pipoca de graça. Lá, já houve mostras de cinema nordestino e africano. A ideia é dar vazão a mais um movimento artístico que surgiu na periferia, que é o cinema. “A molecada está fazendo curtas metragens, documentários. Acho que a Cooperifa fez as pessoas sentirem: ‘eu sou possível, e vou tentar fazer isso’”, explica o idealizador do projeto. Há, ainda, o prêmio Cooperifa, concedido às pessoas que “direta ou indiretamente ajudam a periferia a se transformar num lugar melhor”. Outra iniciativa é a “poesia no ar”, que acontece em abril. Cerca de 500 pessoas juntas soltam, simultaneamente, poesias dentro de balões de gás. A Cooperifa também instituiu o “ajoelhaço”, momento em que os homens se ajoelham para pedir desculpas pelas faltas cometidas com suas esposas. Já durante a “chuva de livros”, recém inaugurada, distribuiu 500 livros para a comunidade. O projeto ainda leva o sarau para escolas e jovens da Fundação Casa.

Bossa nova

Metalúrgicos, taxistas, motoboys, secretárias, lanterninhas e encanadores participam dos encontros no bar Zé Batidão

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Por essas e outras, Vaz afirma: “pelo menos na zona sul, que é onde eu trabalho, estamos vivendo uma efervescência muito grande. Hoje estamos vivendo a nossa Tropicália, nossa Primavera de Praga, a nossa Bossa Nova”. Tal ebulição cultural fez com que a “a bússola mudasse e a classe média se voltasse para cá com outros olhos. A gente também tem cultura, e não somos contra, somos a favor da periferia, do negro, do pobre, do excluído, não é um movimento de ódio. A periferia faz parte do Brasil, quer queiram ou não. É isso que queremos dizer”. A valorização periférica levada a cabo pela Cooperifa inspirou muitos outros produtores de cultura de outras quebradas e periferias de São Paulo. Hoje, há inúmeras iniciativas semelhantes, como saraus, bibliotecas comunitárias, trabalhos em vídeo, grupos com oficina de literatura, teatro, dança, hip hop. “Pode parecer arrogância, mas hoje há um sarau em Minas inspirado na cooperifa, o “Coletivoz”. Em Porto Alegre, há o “Sarau do Bezerra”, outubro 2009

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em Diadema, há o “Sarau do Povo” Qual a dificuldade de montar um sarau hoje? Em qual periferia não tem bar hoje?”, brinca. A inspiração da Cooperifa também vem do movimento hip hop. “Foi ele que acordou a favela, defende a valorização da quebrada, das pessoas da quebrada, do negro, do branco pobre, trabalhador”.

Versos lapidados Outro dos participantes que teve sua autoestima elevada foi Edimauro Teixeira de Almeida, conhecido como Cocão. Aos 30 anos, o metalúrgico, rapper e poeta frequenta o sarau há seis anos. “No começo, eu tive medo. Ví os caras falando um bagulhos loucos, e não declamei nenhum poema. Fui chegando no sapatinho, devagarzinho. Aqui tem que chegar na humildade, até ter os primeiros convites para ir declamar”, confessa. Segundo ele, desde que começou a ir ao sarau,

seu grupo de rap, o “Versão Popular”, tomou uma nova forma. “Assumimos de verdade a identidade do rap, porque a gente começa a fazer rap e acha que é para falar só de crime. Aqui, ele cresceu: Nele, cabe um universo de palavras. Meus versos foram lapidados, me tornei poeta”. Cocäo, que hoje faz parte da “família Cooperifa”, grupo de pessoas que organizam as noites de quarta e tocam os projetos paralelos do sarau, afirma que hoje assume com orgulho sua origem. “Antes, a gente negava”. De acordo com ele, até “minha família viu os frutos disso, eu era muito fechado, tinha muita revolta”.

Periferia ativa Não muito longe do pólo cultural da Piraporinha, Wilson Lopes dos Santos, o Wilsão, nos espera na frente de sua loja, na favela Godoy, Capão Redondo, também na zona sul. De conjunto de mole-

tom verde, boné e óculos, Wilsão caminha pela rua Adoasto de Godoy e acena para os vizinhos. Todos o conhecem. Ele coordena o projeto Periferia Ativa, que conta com uma biblioteca comunitária, a Exodus, um espaço para oficinas artísticas e a Periferia Digital, onde há aulas de computação. O trecho da rua que leva à biblioteca indica que ali houve uma mudança. As casas são todas coloridas, grafitadas. Para chegar à sede do projeto, caminha-se por uma estreita viela também toda grafitada, onde há entradas para casas, um beco aqui, uma escada ali, cenário típico de uma favela. Ao chegar na biblioteca, nos deparamos com um ambiente iluminado e com estantes brancas que em nada se parece com o que já foi ali antes, um local de venda de drogas. Idealizado pelo poeta e rapper Ferréz, também morador do Capão Redondo, o projeto da biblioteca surgiu em 2000, durante a comemoração de aniversário da favela, na festa 100% favela, que reúne, anualmente, de 10 a 15 mil pessoas. “Festa acaba, e a gente queria algo permanente”, conta Wilsão, que integra o conjunto de rap Negredo, cujos quatro integrantes são coordenadores do projeto. Ferréz e Mano Brown, do grupo Racionais Mcs, levaram livros e foram atrás de doações. “Como o povo não lê, a gente fez questão que fossem livros novos”. Assim, surgiu a Exodus, batizada com esse nome por Brown. Logo depois, o grupo resolveu expandir o projeto, montando, assim, o espaço chamado de “área 2”, em cima da biblioteca, onde se chega por uma escada externa, com vista panorâmica para a favela. Lá acontecem cursos de break, aula de MC, grafite e DJ. Há, ainda, a Periferia Digital, projeto através do qual meninos e meninas aprendem a mexer no computador e navegar na internet. Por vir, estão a brinquedoteca e um estúdio de música, que será tocado por Mano Brown.

Apoio financeiro

Na favela Godoy, além da biblioteca, há cursos de break, grafite, DJ, literatura e cursos de computacão

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É evidente que não é fácil manter tais iniciativas, sobretudo sem apoio financeiro. “A arrecadação é toda feita em festas juninas, de fim de ano, bingo aqui, bingo ali”, explica Wilsão. Segundo ele, nunca aceitaram dinheiro do tráfico, porque, “se aceitássemos, eles iam querer mandar aqui, iam se sentir nossos donos”. Apesar das dificuldades, o rapper de 30 anos nunca pensou em desistir, porque “se não fosse a gente, não ia ter nada aqui”, afirma, contando que a biblioteca mais próxima da favela está no bairro vizinho do Campo Limpo. Apenas há pouco tempo o projeto passou a receber apoio financeiro da organização não governamental Ruca. No espaço, há, ainda, aulas de literatura ministradas por Ferréz, que também dá palestras de conscientização sobre o mal que as drogas fazem à saúde, “dizendo coisas como a maconha deixa o cara mais lerdo. A gente pede porque estamos numa guerra: ou trazemos o moleque para cá ou o tráfico pega. Estamos em confronto, pegamos um pouco e o trafico pega também”, explica Wilsão. O grupo também organiza periodicamente o projeto Periferia Ativa Show, quando juntam as aulas e montam uma apresentação de 45 minutos. Também está previsto um show, ainda sem data, no Sesc. “Porque não adianta nada os moleques aprenderem coisas e não terem onde se apresentar”.

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Desde 2000, o rapper Wilsão pilota o projeto Periferia Ativa

Maconha e farinha Questionado sobre o que mudou na comunidade desde que o projeto chegou, Wilsão afirma que “o moleque que tinha quatro anos quando começamos, hoje sabe o mal da maconha, da farinha, respeita a mãe e o pai”. Além disso, fica com a autoestima elevada, “porque ele vem aqui, lê um livro, escuta uma música, aprende alguma coisa”. “É um projeto para mudar a comunidade”, define. A iniciativa também está ajudando a desmistificar a ideia de que na favela só tem bandido, acredita o rapper. “A maioria aqui é trabalhador”. A região, que engloba a favela Godoy, Vila Fundão, Grinsul, Vale das Virtudes e Jardim Rosana, é tida como muito violenta, e “área de risco”: lojas e restaurantes, por exemplo, não fazem entregas por ali. “Habibs não entrega, pizza também não, nem Casas Bahia”. Mas, o cenário está mudando, garante Wilsão. “Depois do projeto, mudou muito. Faz cinco anos que não morre ninguém aqui. A não ser que a polícia mate. Ontem mesmo ela veio dar tiro aqui”. Aliás, “eles já invadiram a biblioteca três vezes, com criança e tudo”. Apesar disso, depois do projeto, as relações com a polícia também ficaram mais amenas. “Quando eles chegam, não é mais aquele corre corre. A gente conversa, troca ideia”.

tava na luta de sermos protagonistas da nossa própria história”, explica Karina Santos, uma das integrantes do grupo. O primeiro trabalho em vídeo ocorreu na época da construção do ultra luxuoso shopping Cidade Jardim, que ameaçava de despejo as famílias que viviam no Jardim Panorama há mais de 30 anos. Intitulado “Rolê de quebrada”, o vídeodocumentário deu voz aos moradores para expressarem suas preocupações em relação ao empreendimento. “A ideia era mobilizar os moradores e descobrirmos coisas juntos”, relata a moça de 22 anos. O processo foi “bruto, ameaçador”, comenta Karina, filha de um pedreiro que construiu muitos dos prédios do entorno, mas que hoje “não pode nem passar na frente. Aquela era nossa casa. Eu morava no Jardim Panorama”. Por sentirem na própria pele, o tema da habitação foi o mote dos outros sete vídeos realizados pelos jovens do Favela Atitude. “Aprendemos a olhar as coisas de outra forma. Sentimos a pressão da elite para remover as favelas. E descobrimos que não estamos em qualquer lugar”. O grupo também se aproximou de movimentos que lutam por moradia, e hoje também mantém relações com o MST.

Histórias da comunidade As oficinas, que no início eram realizadas na própria rua, ganharam uma sede quando receberam apoio do projeto Vai. (Programa da Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo, VAI-Valorização de Iniciativas Culturais) “Aí sim pudemos comprar equipamentos para continuar nosso trabalho”. O espaço oferece oficinas de sapateado, inclusão digital, dança, teatro, mc, alfabetização de adultos, além de organizar exibição de vídeos e filmes. Os primeiros vídeos também foram realizados “na raça”, com equipamentos emprestados, e editados “ora na casa de um, ora na casa de outro”. O Favela Atitude tam-

bém produz um jornal bimensal comunitário, tem conteúdo focado na questão da moradia. Para Karina, recém-formada em pedagogia, o Favela Atitude ajudou no crescimento pessoal dos integrantes e daqueles que participam do projeto. “Nossa visão de mundo ampliou, passamos a acreditar no nosso próprio fazer e descobrimos que, se tivermos organização e objetivos, conseguimos”. De dois em dois meses, o grupo organiza o “Manifesto Cultural”, uma grande apresentação de música, grafite, grupos de rap, batalhas de dança, apresentação de vídeos etc. Recebem também grupos de outras quebradas, como Piraporinha, Capão Redondo e Paraisópolis. O que vem dificultando o trabalho dos realizadores do manifesto é a intimidação da polícia, que tem o hábito de jogar bombas quando o pessoal da favela organiza festas. “Desde o começo da Operação Saturação, no começo do ano, em Paraisópolis, a situação piorou aqui também”, relata a jovem. Segundo ela, ali vivem “quase uma guerra. Mas tudo fica por debaixo dos panos. A gente não é lixo para ser tratado desse jeito”. O Favela Atitude mantém relações de proximidade com outros grupos de periferia, como a Cooperifa e o pessoal do grupo de hip hop Força Ativa, que mantém a Biblioteca Comunitária Solano Trindade, em Embu. “Há muitos espaços de resistência importantes em São Paulo, onde são feitas boas discussões e há desejo de mudar”, defende Karina. Para ela, questões difíceis de serem tratadas “são mais fáceis de serem resolvidas por meio da cultura”. Para a jovem, o maior desafio de todos esses coletivos “é trabalhar em rede, criar uma ação em rede, um grupo grande, que lute pelas nossas coisas, do nosso jeito”, resume. Tatiana Merlino é jornalista. tatianamerlino@carosamigos.com.br

Divulgação cultural Outra iniciativa periférica relevante é realizada nas favelas Jardim Panorama e Real Parque, no valorizado bairro do Morumbi, região sudoeste da capital paulista. Ali, em 2004, um grupo de jovens amantes do hip hop, que frequentavam a “casa do hip hop” em Diadema, começou a organizar oficinas de dança e de mc para os moradores das duas favelas. Logo depois, em 2005, durante um evento, lançaram um manifesto cultural, que, entre seus princípios, defendia a valorização e divulgação dos grupos culturais existentes ali, como rap, capoeira, samba e as tradições do povo indígena Pankararu, que vive ali também. “Nosso engajamento maior es-

Nas noites de quarta-feira, o sarau da Cooperifa reúne de 300 a 400 pessoas

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Gilberto Felisberto Vasconcellos

Bautista

Será ouvido pela Dilma e Haroldo? Eu acho a expressão Pré-Sal antipopular. O que vem além ou aquém do sal? O povo não entende isso, portanto é enrolado e enganado. O nome correto deveria ser o “petróleo brasileiro do mar”: PBM. Se alguma coisa boa fiz eu na vida, foi ter escrito em 2002 um livro sobre o petróleo, em parceria com Bautista Vidal, chamado Petrobras – Um Clarão Na História, como antítese ao melancólico apagão energético da era FHC, a época do maior entreguismo na história do Brasil, em que se cogitou mudar o nome da Petrobras para Petrobrax. A superestrutura cultural da colônia sabota os verdadeiros gênios nacionais – Glauber Rocha, Darcy Ribeiro, Marcelo Guimarães, e agora Bautista Vidal, que conhece todas as formas de energia: vegetal (biomassa), fóssil (carvão mineral e petróleo), nuclear. Professor de termodinâmica, mais do que isso, ele mentalizou e dirigiu o programa Pró-Álcool, a primeira alternativa do esgotamento do petróleo, durante o governo Geisel. E, para os imbecis e

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pérfidos detratores, esse teria sido o seu pecado capital, isto é, ter participado como cientista do governo militar. Por isso não foi chamado para integrar, dirigir ou assessorar a política energética dos governos civis. O verdadeiro motivo é que Bautista Vidal é um cientista nacionalista e anti-imperialista na área da tecnologia e energia. E isso é imperdoável para o poder entreguista, que o mantém no ostracismo. Bautista Vidal figura na lista negra do poder imperialista mundial desde a época de Kissinger, que foi um dos principais adversários do Pró-Álcool. Aqueles que dominam não o fazem porque sabem mais, na maioria das vezes sabem menos. Não é o conhecimento científico a força motriz da história, todavia estupidez é fazer da ignorância ou da desinformação a virtude da política pública, principalmente na área da energia. O petróleo descoberto no fundo do mar foi uma façanha dos ex-alunos de Bautista Vidal. Esse petróleo estará no âmago da economia e da política na

próxima década. Se isso for bem mentalizado e bem divulgado, o PSDB – qualquer que seja o candidato – estará eleitoralmente no arame com a seguinte didática: eis aí o estrago que FHC fez ao vender 40% das ações da Petrobras para os norte-americanos. Eis o desastre que representou o tucano enterro da era Vargas: desnacionalizou a Petrobras nas mãos dos acionistas estrangeiros. A situação em que emergia a Petrobras nos anos 50, por mais conturbada que tivesse sido, não se compara com a dramática situação de hoje, marcada pela escassez e ocaso do combustível fóssil em escala mundial. Do ponto de vista geopolítico, as últimas décadas mostram que os conflitos armados estão relacionados com a disputa para distribuir a escassez do petróleo, sem o qual as sociedades industriais, sobretudo as avançadas, entram em crise. Gilberto Felisberto Vasconcellos é sociólogo, jornalista e escritor.

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IDEIAS DE BOTEQUIM Renato Pompeu

EMBRULHADAS PARA PRESENTE,

Maria Rita Kehl e Marilena Chauí Um belo presente: o livro VidaVícioVirtude, organizado pelo pesquisador Adauto Novaes, publicado em conjunto pela Editora Senac São Paulo e pelas Edições Sesc SP. Os autores dos ensaios são Mario Vitor Santos, Adauto Novaes, Marilena Chauí, Francis Wolff, Marcelo Perine, Marcelo Coelho, Franklin Leopoldo e Silva, Renato Lessa, Maria Rita Kehl, Eugênio Bucci, Michel Deguy, Renato Janine Ribeiro e Ruwen Ogien. A idéia geral é que, com a derrocada do comunismo, o mundo globalizado ficou sem valores éticos – à humanidade apenas restou o valor de troca das mercadorias em geral, inclusive os corações e mentes de cada pessoa. Os artigos que mais sentem esse vazio de valores são caracteristicamente de mulheres: a filósofa Marilena Chauí e a psicanalista Maria Rita Kehl. Mas em geral todos os artigos são interessantes. Outro presente igualmente belo: a obra Uma história da música popular brasileira – Das origens à modernidade, lançada pela Editora 34 e de autoria do pesquisador Jairo Severiano. São 500 alentadas páginas, cobrindo o período desde 1770 até os dias de hoje. Um trecho: “O primeiro nome a entrar para a história da nossa música popular é o do poeta, compositor e cantor Domingos Caldas Barbosa, no final do século 18. Naturalmente, houve compositores anônimos que o precederam, além de conhecidos como o baiano Gregório de Matos Guerra, o Boca do Inferno (1633-1696), o padre Lourenço Ribeiro (1648-1724), rival de Gregório, e o malogrado Antônio José da Silva, o Judeu (17051739), queimado aos 34 anos numa fogueira da Inquisição, em Lisboa”. Tanta tradição tem a música popular brasileira, cujo primeiro expoente, Caldas Barbosa, era filho de um funcionário público português e de uma escrava angolana alforriada – caracteristicamente a nossa música popular já nasceu mestiça. Desfilam nas páginas do livro figuras como Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Pixinguinha, Noel Rosa, Carmen Miranda, Ary Barroso, Caymmi, Luiz Gonzaga, João Gilberto, Tom Jobim, Chico Buarque, Milton Nascimento, Elis Regina, os tropicalistas, a Jovem Guarda, os roqueiros, os cantores sertanejos, o funk, Zeca Pagodinho. Digno de nota é que o livro reconhece as contribuições documentais do jornalista e escritor José Ramos Tinhorão, importante pesquisador normalmente atacado por achar que, a partir da se-

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gunda metade do século 20, a mercantilização levou a uma “degeneração” da MPB.

Também alentado

– 590 páginas – é o volume A ascensão do ‘resto’ – Os desafios ao Ocidente de economias com industrialização tardia, da pesquisadora americana Alice H. Amsden, do famoso Instituto de Tecnologia do Massachusetts, Editora Unesp. Lembrando que, na tradição dos países de língua inglesa, a América Latina não faz parte do Ocidente, para eles composto apenas dos Estados Unidos, Canadá e Europa Ocidental, o livro se destaca por notar que, “após um século de lutas”, emergiram países industrializados fora do Ocidente: além do caso anteriormente bem estudado do Japão, a pesquisadora menciona Argentina, Brasil, Chile e México, Turquia, Índia, China, Coreia, Taiwan, Malaísia, Indonésia e Tailândia. Amsden nota particularmente que há duas variedades nesse “resto”: os integracionistas que, como o México e a Argentina, dependem do investimento estrangeiro e pouco desenvolvem autonomamentte as tecnologias, e os independentes, como a China, Índia, Coreia e Taiwan, em que predominam as empresas de capital nacional e o “intenso investimento em capacidade tecnológica”. O Brasil está num estágio intermediário – por enquanto está incluído nos integracionistas, mas tem a ambição de se tornar independente. Já os educadores, um dos públicos preferenciais da Caros Amigos, vão sentir um interesse especial pelo livro Escola e leitura – Velha crise, novas alternativas, organizado pelas suas famosas colegas Regina Zilberman e Tânia M.K. Rösing e editado pela Global em conjunto com a ALB, dentro da Coleção Leitura e Formação. Há artigos de Ezequiel Theodoro da Silva, Graça Paulino, José Luís Jobim, José Luiz Fiorin, Maria Cristina Castilho Costa, Maria da Gloria Bordini, Marisa Lajolo, Miguel Rettenhaier, Rildo Cosson. O tema central é como conseguir incutir o hábito da leitura nos jovens alunos, nas difíceis condições atuais de crise na educação. Renato Pompeu é jornalista e escritor, autor do romance-ensaio O Mundo como Obra de Arte Criada pelo Brasil, Editora Casa Amarela, e editor-especial de Caros Amigos. Envio de livros para a revista, rua Paris, 856, cep 01257-040, São Paulo-SP.

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Votar para presidente, expressar a sua opinião sem medo, manifestar posições políticas contrárias ao governo, entrar e sair do país livremente. O que hoje parece tão simples e natural marcou toda uma geração que sofreu com a repressão num passado não distante.

Conheça um Brasil onde a democracia era um sonho e sonhar era proibido. Conhecer a luta do povo brasileiro para recuperar a democracia é a melhor forma de impedir que erros do passado se repitam no futuro.

Se você tem informações ou documentos sobre o período de 1964 a 1985, acesse www.memoriasreveladas.gov.br. O sigilo de sua identidade é garantido. Foto de greve dos metalúrgicos do ABC (1979-1980). Arquivo público do Estado de São Paulo.

Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça.

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Ed. 151 - Revista Caros Amigos  

capa ferrez

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