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BELÉM DO PARÁ

O povo na marcha do Círio de Nazaré

PORTUGAL

Luta de resistência explode nas ruas

TORTURA

Novo processo contra Ustra

ano XIV nº 164 / 2010 R$ 9,90

Entrevista

Nalu Faria

A luta das mulheres e a real questão do

ABORTO EDUCAÇÃO

Avanços e retrocessos no governo LULA CUBA

Félix Contreras, O poeta rebelde da revolução

ANA MIRANDA CESAR CARDOSO CLAUDIUS DÉBORA PRADO ELAINE TAVARES EMIR SADER EDUARDO MATARAZZO SUPLICY FIDEL CASTRO FREI BETTO GABRIELA MONCAU GERSHON KNISPEL GILBERTO FELISBERTO VASCONCELLOS GLAUCO MATTOSO GUILHERME SCALZILLI GUTO LACAZ JOÃO PEDRO STEDILE JOEL RUFINO DOS SANTOS JOELMA COUTO JOSÉ ARBEX JR. LÚCIA RODRIGUES MARCOS BAGNO MC LEONARDO OTÁVIO NAGOYA PEDRO ALEXANDRE SANCHES RENATO POMPEU RODRIGO VIANNA SÉRGIO VAZ TATIANA MERLINO

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CAROS AMIGOS ANO XIV 164 NOVENBRO 2010

Foto de capa JESUS CARLOS

EDITORA CASA AMARELA REVISTAS • LIVROS • SERVIÇOS EDITORIAIS FUNDADOR: SÉRGIO DE SOUZA (1934-2008) DIRETOR GERAL: WAGNER NABUCO DE ARAÚJO

Aborto e educação, questões do Brasil real

sumário

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José Arbex Jr. diz que o caminho da esquerda agora é derrotar Dilma nas ruas. Caros Leitores. Pedro Alexandre Saches comenta a recuperação da obra de Gal Costa. Marcos Bagno questiona a função e a finalidade da Academia de Letras. Mc Leonardo presta homenagem a dois parlamentares respeitados e de luta.

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João Pedro Stedile denuncia a omissão das autoridades no abuso dos agrotóxicos. Ana Miranda conta como é a convivência com o fantasma de Coetzee.

10 A Caros Amigos sempre procura conhecer, retratar e analisar um pouquinho do Brasil real. Queremos tirar a limpo a questão candente do aborto, que é um problema urgente de saúde pública, mas que ficou distorcido e sofreu contaminação perniciosa durante a última campanha eleitoral. A entrevista com a psicóloga Nalu Faria, da Sempreviva Organização Feminista (SOF) e da Marcha Mundial das Mulheres, recoloca a questão na perspectiva histórica da luta das mulheres, no seu eixo mais significativo, sem paixões religiosas e sem preconceitos odiosos. Entrevistamos estudantes, professores e especialistas em Educação para saber o que avançou e o que regrediu no setor durante os oito anos do presidente Lula da Silva. Como todo balanço, há aspectos negativos e positivos. De um lado, o governo federal ampliou de forma significativa as unidades públicas de ensino superior, mas, de outro, as instituições privadas continuam liderando a oferta de vagas – e, pior, a visão mercantilista predomina na maioria das universidades, públicas ou privadas. Sem maiores pretensões, oferecemos aos leitores essa pequena contribuição crítica para a compreensão de uma área que precisa ser enfrentada pelo próximo governo. A Caros Amigos participou da famosa festa do Círio de Nazaré, em Belém, no Pará. Mais do que relatar a manifestação, procuramos ouvir as pessoas sobre as suas motivações, saber o que faz tanta gente integrar essa marcha religiosa e popular. Outra matéria mostra o que tem levado milhares de pessoas a saírem para as ruas nas capitais da Europa; contamos, em especial, a luta de resistência dos trabalhadores portugueses, que se negam a pagar pela crise do neoliberalismo. Brindamos também os leitores com uma belíssima matéria com e sobre Félix Contreras, o poeta e escritor cubano que mantém aceso o espírito rebelde. Em sua passagem pelo Brasil falou sobre cultura, problemas econômicos e os enfrentamentos atuais de Cuba. Contreras dá uma aula de humanidade, criatividade, visão crítica e compromisso revolucionário. Vale a pena ler e curtir.

Guto Lacaz.

Joel Rufino dos Santos fala dos argentinos e do livro Operación Masacre. Guilherme Scalzilli critica as manipulações da grande imprensa burguesa.

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Frei Betto fala da religiosidade e dos princípios que norteiam nossa vida. Gilberto Vasconcellos pede para a academia desvendar o domínio tucano em SP.

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Entrevista com Nalu Faria: a luta das mulheres e a verdadeira questão do aborto. Gabriela Moncau e Otávio Nagoya: avanços e retrocessos da educação.

Ensaio Fotográfico de Joelma Couto em homenagem à consciência negra. Tatiana Merlino mostra quem é o poeta rebelde cubano Felix Contreras. Glauco Mattoso reivindica a oficialização da bolsa-jornalista chapa branca. Eduardo Matarazzo Suplicy pede para Fidel autorizar viagem de blogueira.

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Lúcia Rodrigues fala sobre os protestos de trabalhadores em Portugal. Lúcia Rodrigues relata o novo processo contra o torturador Ustra. Rodrigo Vianna em Tacape: Dilma segue a linha de Lula na comunicação. Cesar Cardoso resolveu mudar e adotar o besteirol gerencial dominante.

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Sérgio Vaz fala de gente pequena que vence a timidez com a poesia na mente. Débora Prado relata a marcha do povo na festa do Círio de Nazaré. Fidel Castro comenta a nova manifestação da ONU contra o bloqueio a Cuba. Emir Sader analisa a superexploração dos trabalhadores chilenos.

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Gershon Knispel critica a Bienal e elogia a exposição de pintura do Masp. Cavani Rosas coloca em quadrinhos a “Pequena Fábula” de Franz Kafka. Elaine Tavares critica a ausência de democracia na formação do jornalista. Renato Pompeu em Ideias de Botequim: Frei Betto, Tragtenberg, Benjamin. Claudius.

EDITOR: Hamilton Octavio de Souza EDITORA ADJUNTA: Tatiana Merlino EDITOR ESPECIAL: José Arbex Jr EDITORA DE ARTE: Lucia Tavares ASSISTENTE DE ARTE: Henrique Koblitz Essinger EDITOR DE FOTOGRAFIA: Walter Firmo REPÓRTERES: Lúcia Rodrigues, Bárbara Mengardo, Gabriela Moncau e Otávio Nagoya CORRESPONDENTES: Marcelo Salles (Rio de Janeiro) e Anelise Sanchez (Roma) SECRETÁRIA DA REDAÇÃO: Simone Alves REVISORA: Cecília Luedemann DIRETOR DE MARKETING: André Herrmann CIRCULAÇÃO: Pedro Nabuco de Araújo RELAÇÕES INSTITUCIONAIS: Cecília Figueira de Mello ADMINISTRATIVO E FINANCEIRO: Priscila Nunes CONTROLE E PROCESSOS: Wanderley Alves LIVROS CASA AMARELA: Clarice Alvon PUBLICAÇÕES DE REFERÊNCIA: Renato Pompeu SÍTIO: Débora Prado de Oliveira e Gabriela Moncau ASSESSORIA DE IMPRENSA: Kyra Piscitelli APOIO: Maura Carvalho, Douglas Jerônimo e Neidivaldo dos Anjos ATENDIMENTO AO LEITOR: Joze de Cassia, Zélia Coelho ASSESSORIA JURÍDICA: Marco Túlio Bottino, Aton Fon Filho, Juvelino Strozake, Luis F. X. Soares de Mello, Eduardo Gutierrez e Susana Paim Figueiredo REPRESENTANTE DE PUBLICIDADE: BRASÍLIA: Joaquim Barroncas (61) 9972-0741. JORNALISTA RESPONSÁVEL: HAMILTON OCTAVIO DE SOUZA (MTB 11.242) DIRETOR GERAL: WAGNER NABUCO DE ARAÚJO

CAROS AMIGOS, ano XIV, nº 164, é uma publicação mensal da Editora Casa Amarela Ltda. Registro nº 7372, no 8º Cartório de Registro de Títulos e Documentos da Comarca de São Paulo. Distribuída com exclusividade no Brasil pela DINAP S/A - Distribuidora Nacional de Publicações, São Paulo. IMPRESSÃO: Bangraf REDAÇÃO E ADMINISTRAÇÃO: rua Paris, 856, CEP 01257-040, São Paulo, SP

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Associação Brasileira de Empresas e setembro 2009 caros amigos Empreendedores da Comunicação

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José Arbex Jr.

Derrotar Dilma nas ruas Exatamente como aconteceu no dia 3 de outubro, 36 milhões de eleitores (número equivalente 27% do universo de 136 milhões de brasileiros qualificados para votar) preferiram não depositar o seu voto em qualquer candidato à Presidência. Esse é, de longe, o dado mais significativo do segundo turno das eleições: 4,7 milhões anularam o voto, 2,5 milhões votaram em branco e 29 milhões se abstiveram. Dilma Rousseff foi eleita, portanto, com apenas 41% do total de votos possíveis, ao passo que José Serra obteve 32% (isto é, ficou míseros 5 pontos percentuais acima dos votos não válidos e das abstenções). Para um país onde o voto é obrigatório, os resultados revelam, no mínimo, que boa parte da população não deposita qualquer confiança ou entusiasmo nos dois candidatos. Os votos em Dilma tampouco demonstram uma suposta força da “esquerda” ou sequer o desejo de “derrotar a direita”, como alardeiam supostas lideranças da mais suposta ainda “esquerda”, já que boa parte dos votos foi carreada pela máquina coronelista do PMDB, com a preciosa ajuda de tradicionais esquerdistas do quilate de José Sarney e Michel Temer, e outra parte, ainda, foi depositada pelo subproletariado cooptado pela distribuição das migalhas oriundas do assistencialismo estatal. Os votos em Dilma não refletem sequer o apoio do Partido dos Trabalhadores à sua candidatura. Dilma foi a “candidata do Lula”, não do PT, à Presidência do país. Ela filiou-se ao PT apenas em 2001, não tem base partidária, e foi guindada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva à chefia da Casa Civil após a queda de José Dirceu, em 2005, em detrimento da opção por petistas “históricos”. Da mesma forma, Lula acertou “pelo alto” um acordo com o PMDB, assegurando-lhe o cargo de vice de Dilma (Michel Temer) e o apoio do PT à candidatura aos governos do Maranhão (Roseana Sarney) e Minas Gerais (Hélio Costa). Os conflitos provocados no PT por essas medidas foram públicos, assim como as defecções que o partido sofreu a partir de 2003, incluindo a de petistas “emblemáticos” como Heloísa Helena, Marina Silva e Ivan Valente, entre outros. A capacidade de Lula impor a sua vontade ao PT decorre de uma combinação de múltiplos fatores: alianças internas entre grupos que formam a “máquina” do partido, con-

troladas diretamente por ele; uma política de cooptação de militantes guindados a cargos públicos bem remunerados, e o mais importante: o fortalecimento do “lulismo” descolado do PT. O “lulismo” - do qual Dilma tornou-se imagem refratada - é, provavelmente, o fenômeno político e social mais importante e nefasto do cenário conjuntural brasileiro contemporâneo. Começou a adquirir uma forma nítida e concreta a partir de 1998, quando Lula, antes identificado com as grandes greves do ABC, passou a se apresentar como “Lulinha paz e amor” e a cortejar o voto do subproletaridado – constituído por trabalhadores informais, sem carteira assinada, dispostos a aceitar salários miseráveis e condições indignas de trabalho -, com um discurso assistencialista (centrado no programa Fome Zero), ao mesmo tempo em que acenava para os banqueiros a disposição de aceitar as regras do jogo financeiro, compromisso consagrado pela “Carta aos Brasileiros”, em 2002. Em sua primeira gestão, Lula criou uma série de programas sociais destinados a atrair o subproletariado. No final de 2003, lançou o Programa Bolsa Família (PBF), que hoje atende a 12 milhões de lares. Entre os milhões daqueles que votaram em Lula pela primeira vez em 2006, e os que elegeram Dilma agora, a maioria era composta por nordestinos de renda baixa, o público alvo por excelência do PBF. Combinado com o PBF, Lula manteve o controle da inflação, garantiu um aumento menor do preço da cesta básica nas regiões mais pobres, assegurou um ganho real de 25% no salário mínimo, criou o “crédito consignado” e outras medidas destinadas a expandir o financiamento popular. Além disso, lançou uma série de programas que beneficiaram setores tradicionalmente marginalizados, como o Luz para Todos (de eletrificação rural). Se a “distribuição real de renda” é cantada em verso e prosa pela “esquerda” lulista como “prova” de que seu governo tem “um lado progressista”, a contrapartida é o fato de que Lula passou a governar com o apoio direto do capital financeiro, cujos lucros, sem precedentes na história do país, somam dezenas de vezes o total dos investimentos em programas sociais. A contrapartida é o apaziguamento de uma ampla camada conservadora da classe média que quer a “ordem” e a estabilidade, e o amor do subproletariado, que vê no presiden-

te um “igual” que “chegou lá” e está “ajeitando as coisas” para os mais pobres. Seu governo incorporou plenamente a noção conservadora que dispensa a organização da classe trabalhadora, pois um Messias conduz as reformas. Mas, para fazer isso, Lula teve que “congelar” – principalmente, por meio da cooptação - os movimentos sociais, as principais lideranças sindicais do país e “rifar” o seu próprio partido, o PT, que hoje existe apenas como sombra do poder pessoal de um presidente que se coloca acima de todos os partidos. O “lulismo” significou, portanto, o abandono das perspectivas de esquerda que estiveram na base da fundação do PT, as quais pressupunham uma elevação da consciência de classe por meio da luta política. Houve, ao contrário, um rebaixamento da consciência. Por essa razão é que o escândalo do “mensalão”, em 2005, não impediu a reeleição de Lula: ele tinha o apoio de uma camada da sociedade que não lê jornais e que não se sentiu afetada. Por esse mesmo motivo, não teve repercussões mais desastrosas as revelações, às vésperas do primeiro turno de 2010, das maracutaias envolvendo Erenice Guerra, amiga íntima de Dilma e sua substituta na Casa Civil. O governo Dilma – o Lula do mundo bizarro – será, necessariamente, muito pior e mais caótico. Lula, ao menos, tem brilho próprio, controla a máquina petista e coloca-se acima da disputa entre as várias facções dos grupos burgueses (negocia, costura acordos e concilia com todos eles, e ainda faz a ponte com os senhores do Império). Dilma Roussef não é nada disso. Ela deve sua eleição a Lula, sem ter o seu carisma nem base organizada para sustentar o seu governo. Começa como refém do PMDB no Congresso e comprometida até o pescoço com um programa de governo que significa a manutenção da total subordinação ao capital financeiro. A única perspectiva real que sobra à esquerda brasileira é romper com a paralisia que a marcou durante os oitos anos de Lula e passar à oposição ativa, mais ou menos como propunha a fórmula lançada pelo comitê central do PCB, logo após o primeiro turno: “Derrotar Serra nas urnas e depois Dilma nas ruas.” A primeira parte já se cumpriu. José Arbex Jr. é jornalista. novembro 2010

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MERCANTILIZAÇÃO Li com o maior interesse e entusiasmo a entrevista com o informado e competente economista Márcio Pochmann, que, ao contrário de muitos de seus colegas não analisa os fatos da economia sem levar em conta a realidade sócio-histórica. Entretanto, creio que o mesmo se equivocou, e aí comete uma grande injustiça ao equiparar ricos e classe média no que diz respeito a gastos com saúde, educação e previdência. É como na fábula do lobo e do cordeiro, mais do que algoz a classe média é vítima, inclusive dos ricos mercadores da medicina, da saúde e da previdência. Desde a ditadura militar foi incentivada a mercantilização da saúde e da educação, a previdência a partir da “era” FHC, o governo do PT continuou no mesmo diapasão. Os convênios do SUS com o setor privado a quem capitalizam? As bolsas para pagar anuidades de faculdades privadas a quem capitalizam? Não é só a classe média que paga plano de saúde ou escola privada, há planos de saúde “populares” e nos bairros proletários não faltam escolas particulares. Feita esta ressalva, considero a entrevista uma grande contribuição, parabéns. Gilvando Rios.

CORONELISMO Conheci a revista Caros Amigos através de uma grande amiga, que me despertou o interesse pela leitura de seu conteúdo. Hoje sou assinante, considero as matérias brilhantes destacando o número 157 abril 2010 da revista que traz excelentes matérias, entre elas “A qualidade da TV brasileira é muito baixa”. Realmente a televisão brasileira estruturou-se em condições institucionais semelhantes às dos velhos engenhos de açúcar do Nordeste. Da varanda de suas casas grandes, cercados de suas famílias e agregados, os senhores de engenho do audiovisual e da informação decidem sobre o destino de nós, os brasileiros, e nossas mentes. No Brasil, não tomamos nenhuma providência para nos proteger dessa espécie de Estado clandestino. Fernando Albérico Felipe da Silva.

ANTICAPITALISTA Caro José Arbex Jr.: É motivo de jubilo ter uma revista de caráter anticapitalista como é a Caros Amigos. Some-se a essa alegria ter você

como participante destacado dessa publicação. É louvável e, até muito raro, ter pessoas com o seu nível de compreensão e participação, entretanto, lendo a sua entrevista à revista Caros Amigos, de nº 162, observamos muitos e valiosos acertos e alguns pequenos tropeços, dentre eles o juízo feito em relação a LIBELU e a sua visão do chamado centralismo democrático. Ora, quando Lênin escreveu o seu famoso livro O Que Fazer, no final de 1902, mereceu dos mais destacados marxistas, ferrenhas críticas por sua concepção de partido e de militância. Dentre esses marxistas que fizeram robustas reservas à citada obra, destacam-se: Rosa Luxemburgo (bastante veemente), Leon Trotsky, Julio Martov, Karl Kautsky e, depois, o próprio George Plekànov, que de início havia acompanhado a posição de Vladimir Lênin, entre alguns outros próceres socialistas revolucionários. O bolchevismo, que tinha alguns pecados de origem, os acentuou quando do X Congresso, em 1921, quando foi suprimido o direito de tendência, varrendo por completo o livre debate, pressuposto para o sepultamento do marxismo e a consagração do dogmatismo até hoje reinante. É preciso ver, meu caro Arbex, que o stalinismo não foi uma criação pessoal de Joseph Stalin, como o trotskismo procura nos levar a crer. Não é o coveiro que produz o defunto e sim, o defunto que produz o coveiro. O stalinismo é, provavelmente, o mais monstruoso crime cometido contra a humanidade e ele foi produto da derrota da revolução mundial e nunca de um gênio da maldade. A bem da verdade histórica, é preciso que se diga: Joseph Stalin, esse facínora, nada inventou; todos os princípios da perversão política já estavam postos bem antes da morte de Vladimir Lênin. Por outro lado, é fundamental perceber, que o stalinismo apresenta-se sob diversas faces. Tivemos o stalinismo ortodoxo, do próprio Stalin, tivemos os stalinismos: maoísta, fidelista, kruchevista e, o tivemos, na sua versão trotskista. Para bem compreendermos o que foi dito, é necessário saber quais são as características fundamentais do stalinismo: o monolitismo, que suprime o livre debate; o ultra-centralismo, que descambou para o centralismo burocrático; a convicção de “povo eleito de Deus”, que exclui

qualquer outra manifestação; o culto a personalidade, levado aos píncaros; o partido único de caráter excludente; a obsessão pelo aparelho, seja ele partidário, sindical ou estatal, em qualquer dos níveis; a calúnia, e outros expedientes condenáveis, como prática da disputa política. Para além desses traços, que os diversos grupos trotskistas conservam, em maior ou menor grau, cabe observar que o brilhante Leon Trotsky, um gigante da revolução socialista, abjurou suas posições válidas de antes de 1917, para se transformar em um bolchevique e depois, incorporar uma obsessão infundada, de que teria sido leninista “desde criancinha”. Não bastasse, o nosso Leon Trotsky distanciouse do marxismo quando assumiu uma postura essencialmente moralista em relação à sua análise sobre o fenômeno do stalinismo, considerando que a revolução foi traída, sem perceber, contudo, que, antes de ser traída, a revolução fora derrotada em escala mundial. É oportuno lembrar o que disse Lênin, em 1920: “ou a revolução mundial avança, ou pereceremos!”. O juízo moral na avaliação da Revolução Russa é um deslize imperdoável, é cair na vala comum do idealismo como categoria filosófica e isso é a negação do socialismo científico. É célebre a frase de Leon Trotsky em sua autobiografia Minha Vida, quando diz: “nunca pensei que uma caçada de patos tivesse tantas consequências históricas”. Supunha o “nosso herói” que, caso tivesse pegado na alça do caixão de Lênin poderia ter mudado os rumos da história e isso não tem nenhum fundamento. Como vês, caro camarada, temos que remover muitos entulhos que esses longos noventa anos de stalinismo, em suas mais diversas versões, nos infundiu. Trata-se de uma tarefa monumental, e você joga e poderá jogar mais ainda, um papel importantíssimo nessa empreitada. Gostaria de ter o seu endereço para mandarlhe dois ou três livros meus e outros trabalhos que gostaria de discuti-los. De qualquer forma, fico, como já externei, bastante contente que exista a Caros Amigos e exista também, José Arbex Jr. Um abraço revolucionário, Gilvan Rocha, do Centro de Atividades e Estudos Políticos (CAEP).

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PAÇOCA Pedro Alexandre Sanches

O nome dela era “Minoria” tam colocar panos quentes por sobre o que de fato fez os tropicalistas incomodarem tanto o status quo brasileiro de 1968. Havia as letras políticas, a tentativa de integração ao “é proibido proibir” francês, a influência de Che Guevara... Mas o que aqueles cabeludos vieram fazer, acima de tudo, foi cravar intuitivamente no coração de seu país uma versão tropical de movimento pelos direitos humanos civis, pela cidadania igualitária. O festival global da canção de 1968 foi palco para vários choques entre a tropicália e o Brasil. Gil foi impiedosamente vaiado pela plateia ao apresentar sua Questão de Ordem coberto por bata africana e atitude black power. Gal era a frente feminina em atitude agressiva, trajes flower power e cabelo black power – a vaia também acompanhou os versos (proferidos no masculino) “é preciso estar atento e forte/ não temos tempo de temer a morte”, de Divino Maravilhoso. Caetano fazia par com ela na representação sexual do levante tropicalista – evocavam sexo livre, liberação feminina, homossexualidade, bissexualidade etc. É Proibido Proibir culminou em dramático confronto entre Caetano e os torcedores que, impedidos de ir às urnas, depositavam seus votos em vaia. A repulsa à novidade musical-comportamental se firmou, portanto, no tripé (até hoje vigente) de racismo, misoginia e homofobia. Os rapazes foram presos e exilados, a garota perdeu-se (e se achou) nas ruas e areias do Brasil. Sozinha, acabou por assumir liderança espontânea e não pretendida, aglutinando os malucos-beleza que buscavam refúgio na área mais hostil da praia de Ipanema – o píer onde estava em curso a obra de um emissor subterrâneo de esgoto. Nasceram, por intervalo tão efêmero quanto o da tropicália, as hoje mitológicas “dunas da Gal”, onde se congraçavam os hippies, a contracultura, interessados mais em sexo, drogas & MPB que em subversão política ou luta armada. Uma mulher embandeirava a resistência, o nome dela era Gal. Essa fase de “barato total” rendeu uma sequência de álbuns absolutamente antológicos – Legal (1970), Fatal (1971), Índia (1973), Cantar (1973).

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Então voltou à cena a Rede Globo, que encarregou a morena baiana de cantar Modinha para Gabriela (1975), de Dorival Caymmi, na abertura da novela Gabriela. O sucesso da empreitada redundou no também histórico LP Gal Canta Caymmi (1976) – começava a nascer ali a uma cantora adulta de MPB, que mataria aos poucos a intérprete jovem e fogosa da contracultura brasileira. Ainda em 1976, Gal reuniu-se com Caetano, Gil e a mais errática Maria Bethânia para o que seria o canto de cisne da hippie-tropicália: a turnê e disco Doces Bárbaros. Agressivo, audacioso e provocativo, o quarteto viu mais uma vez seu barato total ser estragado por circunstâncias policiais –sobrou a Gil o encargo de ser julgado, condenado e cumprir pena por conta de um flagrante de porte de drogas. A roda da tropicália girava mais uma vez, para variar deixando em xeque-mate as identidades divergentes daquele pequeno coletivo de minorias. Em 1977, Gal testou uma derradeira provocação digamos retropicalista, com o experimental Caras & Bocas, fundado na sensualidade-sexualidade gritante de Tigresa, de Caetano. Também via Globo, essa canção norteou-a feito sereia vaidosa pelos atributos de cantora virtuosa, madura, linda e vaidosa, em álbuns de MPB primeiro altivos (Água Viva, de 1978, e Tropical, de 1979), em seguida popificados (Fantasia, de 1981). A caixa termina na esquina de quando a garota arisca virara diva consolidada, vendedora voraz de discos, mulher adulta adaptada ao showbiz mais competitivo. Se rebeldias não duram a vida inteira, Gal atual paga o preço do percurso inescapável. Mas O Sorriso do Gato de Alice, ausente do arco coberto por Total, paira no ar como dúvida. Por que teria acontecido aquela reação tão raivosa contra os seios desnudos de alguém que jamais quisera escondê-los? Como o Brasil ainda conseguia se chocar com comportamentos sociais-sexuais dissidentes? E, por fim, que papel teria desempenhado aquela tardia manifestação de rejeição na conversão da endiabrada Gal numa reclusa e pacata cidadã do século XXI?

ilustração: murilo silva

Gal Costa tem levado uma vida relativamente pacata nos últimos anos – pelo menos desde 1993, data da última grande controvérsia pública em que se envolveu, ao estrear o show O Sorriso do Gato de Alice, sob direção do dramaturgo Gerald Thomas. A saraivada de críticas que recebeu ali se deveu menos a razões propriamente musicais que ao fato de que Gal, àquela altura com 48 anos, se exibia no palco com os seios desnudos. Foi estranha aquela reação moralista já perto do final do século XX, pois se tratava de uma artista que optou desde 1968 pelo comportamento rebelde e iconoclasta, pelo desafio às normas e costumes estabelecidos, pelo dissenso. Os seios, por exemplo, exibira com igual desenvoltura em 1973, na treva do governo terrorista de Emílio Garrastazu Médici, quando posou praticamente nua para a capa do disco Índia – que, por isso, foi vendido embalado num plástico negro, como se fosse produto pornográfico. A obra de Gal entre 1967 e 1983 acaba de ser recuperada pela multinacional Universal, que acondicionou 15 discos originais e duas compilações de raridades numa caixa batizada Total. A esta altura do campeonato nem era preciso, pois a obra integral de Gal (e de todo mundo) flutua na internet à livre disposição dos bucaneiros virtuais – mas quem puder e/ou se dispuser a pagar quase R$ 300 pelo fetiche testemunhará didaticamente o percurso da Gal indomável que um dia se tornaria a cidadã quieta de hoje. Primeiro, houve a tropicália. Não há quem possa negar o papel decisivo que teve sobre o futuro da música brasileira esse movimento musical que eclodiu em 1967 e implodiu em 1968, sob a bomba do AI-5 e o exílio dos dois líderes principais, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Gal Costa era a figura feminina de frente na trupe – que além dela filiava Rita Lee, então menina e coadjuvante, e uma apenas episódica Nara Leão. Dito de outro modo, Gal foi, praticamente só, a frente avançada da tropicália no feminino. Inacreditavelmente, até os dias atuais se ten-

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falar brasileiro Marcos Bagno

Valeu Chico,

ACADEMIA DE LETRAS PRA QUÊ?

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valeu Freixo!

afora, tem versão eletrônica e também pode ser consultado on-line no site da própria Academia. Recentemente, em conjunto com todas as academias de língua espanhola do mundo (incluindo os Estados Unidos, que tem mais de 40 milhões de falantes de espanhol, um número maior do que a população da Argentina), foi publicada uma monumental gramática da língua, em dois volumes, com mais de 3.000 páginas, contemplando e dando aval a todas as formas de falar a língua já devidamente implantadas nos diferentes países. O problema do português é que ele é uma língua polarizada: Portugal e Brasil. E como tradicionalmente somos colonizados linguisticamente pelos portugueses, apesar de termos um território dezenas de vezes mais amplo, uma população dez vezes maior, uma economia entre as principais do mundo e uma importância geopolítica incomparável, ainda temos de acreditar nas bobagens que as gramáticas normativas tentam nos ensinar, desconsiderando por completo as características próprias do português brasileiro. E toca a usar mesóclise e outras coisas igualmente ridículas... ¡Ay, qué invidia! Marcos Bagno é linguista e escritor. www.marcosbagno.com.br

É com muito alívio e prazer que escrevo essa coluna, depois de tantos dias de aflição. A possibilidade do Rio de Janeiro perder o mandato do Chico Alencar na Câmara Federal e o mandato do Marcelo Freixo na Assembléia Legislativa, realmente me deixou muito aflito. Na luta para fazer o estado reconhecer o Funk carioca como cultura, conheci esses parlamentares que se empenharam ao máximo para o êxito da missão, e me ensinaram pra que serve um mandato parlamentar. O vai e vem de gente envolvida em tantas causas dentro de seus gabinetes vai ficar marcado na minha mente por muitos anos. Jamais vou esquecer como se deu essa campanha de 2010, totalmente desiguais aos demais candidatos em todos os aspectos, Chico e Freixo foram pras ruas com militantes de verdade que usaram uma camisa com os seguintes dizeres: “NÃO RECEBO 1 REAL, ESTOU NA LUTA POR IDEAL”. Juntos eles conseguiram 417 977 votos , 240.724 pro Chico, ficando pro Freixo 177 253. Eles conseguiram esses votos trabalhando muito e fazendo uma oposição honesta e ética como o país precisa e o povo quer ver dos parlamentares. Essa confiança foi depositada nas urnas, pois eles conseguiram votos de alunos e professores, nas universidades e favelas, na zona norte e zona sul, nos sindicatos e movimentos sociais, no interior do estado e até por uma parcela da policia. A responsabilidade deles vai além de um simples mandato parlamentar, é uma responsabilidade social que está despertando em muita gente uma vontade que estava sepultada há muito tempo na sociedade, que é a vontade de participar e fazer as mudanças e transformações que tanto nós falamos, lemos e escrevemos. Chico e Freixo valem de exemplo, mostraram que é possível fazer campanha barata, sem sujar a cidade e debatendo o que realmente importa em uma campanha eleitoral. Boa sorte nos próximos quatro anos, e que posam caminhar a passos largos em busca do socialismo e da liberdade. Mc Leonardo é presidente da APAfunk, cantor e compositor.

Ilustração: debora borba

Quando os revolucionários franceses demoliram a Bastilha em 14 de julho de 1789, decerto ficaram tão emocionados com o feito que se esqueceram de demolir outro prédio, o da Academia Francesa. Que pena! Tanto quanto a Bastilha, a Academia representa o que há de mais arcaico e feudal. Basta lembrar que foi fundada em 1635 por ninguém menos do que o cardeal Richelieu, todo-poderoso chanceler de Luís XIII, em pleno apogeu do regime monárquico absolutista. Se a coisa ficasse por lá, entre os pernósticos franceses, não teria problema. Mas os espíritos colonizados não iam suportar abrir mão de mais essa macaqueação francófila. E toca a fundar a Academia Brasileira de Letras em 1897, com os mesmos 40 membros da francesa e num prédio chamado Petit Trianon, cópia em escala menor da outra. Criada já na República, a ABL é um belo símbolo do caráter oligárquico, elitista e aristocrático do nosso regime republicano, inaugurado por marechais. Eu não teria nada contra uma Academia de Letras se ela prestasse para alguma coisa. Mas como querer cobrar qualquer presença social significativa de uma entidade que tem entre seus “imortais” figuras desprezíveis como José Sarney, senhor feudal do Maranhão e do Amapá, e Marco Maciel que (graças a Zeus!) não foi reeleito pela ducentésima vez para cumprir seu destino reptiliano de “se há governo, sou a favor”. Quando foi nomeado ministro da Educação, minha professora de latim na Universidade Federal de Pernambuco, a finada D. Inalda, fez uma declaração inesquecível: “Esse homem entende tanto de educação quanto o meu cachorro, e olha que eu nem tenho cachorro!”. Adorei quando o bruxo Paulo Coelho foi eleito para a ABL, pois assim o escracho se institucionalizou de vez. No entanto, lamentei muito quando as mulheres foram admitidas nesse antro de vaidade essencialmente masculina (aliás, vaidade masculina é redundância: comparada à dos homens, a vaidade feminina é uma bênção). E, é claro, essa admissão só se deu porque a matriz francesa abriu as portas às mulheres. Quando vejo a produção, por exemplo, da Real Academia Española, fico roxo de inveja. O dicionário da RAE é uma beleza, abrange todas as variedades da língua faladas mundo

Mc Leonardo

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João Pedro Stedile

Ana Miranda

Todos os dias o povo come veneno.

O fantasma de Coetzee

Quem são os responsáveis?

O Brasil

se transformou desde 2007, no maior consumidor mundial de venenos agrícolas. E na ultima safra as empresas produtoras venderam nada menos do que um bilhão de litros de venenos agrícolas. Isso representa uma media anual de 6 litros por pessoa ou 150 litros por hectare cultivado. Uma vergonha. Um indicador incomparável com a situação de nenhum outro país ou agricultura. Há um oligopólio de produção por parte de algumas empresas transnacionais que controlam toda a produção e estimulam seu uso, como a Bayer, a Basf, Syngenta, Monsanto, Du Pont, Shell química, etc. O Brasil possui a terceira maior frota mundial de aviões de pulverização agrícola. Somente esse ano foram treinados 716 novos pilotos. E a pulverização aérea é a mais contaminadora e comprometedora para toda a população. Há diversos produtos sendo usados no Brasil que já estão proibidos nos países de suas matrizes. A ANVISA conseguiu proibir o uso de um determinado veneno agrícola. Mas as empresas ganharam uma liminar no “neutral poder judiciário” brasileiro, que autorizou a retirada durante o prazo de três anos... e quem será o responsável pelas consequências do uso durante esses três anos? Na minha opinião, é esse juiz irresponsável que autorizou, na verdade, as empresas desovarem seus estoques. Os fazendeiros do agronegócio usam e abusam dos venenos, como única forma que tem de manter sua matriz na base do monocultivo e sem usar mão de obra. Um dos venenos mais usados é o secante, que é aplicado no final da safra para matar as próprias plantas e assim eles podem colher com as máquinas num mesmo período. Pois bem, esse veneno secante vai para atmosfera e depois retorna com a chuva, democraticamente atingindo toda população, inclusive das cidades vizinhas. O DR.Vanderley Pignati da Universidade Federal do Mato Grosso tem várias pesquisas comprovando o aumento de aborto e outras consequências na população que vive no ambiente dominado pelos venenos da soja. Diversos pesquisadores do Instituto Nacional

do Câncer e da Universidade federal do Ceara já comprovaram o aumento do câncer, na população brasileira, consequência do aumento do uso de agrotóxicos. A ANVISA – responsável pela vigilância sanitária de nosso país, detectou e destruiu mais de 500 mil litros de venenos adulterados, somente esse ano, produzido por grandes empresas transnacionais. Ou seja, além de aumentar o uso do veneno, eles falsificavam a fórmula autorizada, para deixar o veneno mais potente, e assim, o agricultor se iludir ainda mais. O Dr. Nascimento, consultor de saúde da revista CARAS, escreveu em sua coluna que ocorrem anualmente ao redor de 20 mil casos de câncer de estômago no Brasil, a maioria consequente dos alimentos contaminados, e destes 12 mil vão a óbito. Tudo isso vem acontecendo todos os dias. E ninguém diz nada. Talvez pelo conluio que existe das grandes empresas com o monopólio dos meios de comunicação. Ao contrário, a propaganda sistemática das empresas fabricantes que tem lucros astronômicos é de que é impossível produzir sem venenos. Uma grande mentira. A humanidade se reproduziu ao longo de 10 milhões de anos, sem usar venenos. Estamos usando veneno, apenas depois da segunda guerra mundial, para cá, como uma adequação das fábricas de bombas químicas, agora, para matar os vegetais e animais. Assim, o poder da Monsanto começou fabricando o Napalm e o agente laranja, usado largamente no Vietnã. E, agora, suas fábricas produzem o glifosato. Que mata ervas, pequenos animais, contamina as águas e vai parar no seu estômago. Esperamos que, na próxima legislatura, com parlamentares mais progressistas e com novo governo, nos estados e a nível federal, consigamos pressão social suficiente para proibir certos venenos, proibir o uso de aviação agrícola, proibir qualquer propaganda de veneno e responsabilizar as empresas por todas as consequências no meio ambiente e na saúde da população. João Pedro Stedile é membro da coordenação nacional do MST e da Via Campesina Brasil.

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Tantas vezes lemos um livro e o fantasma daquele autor passa a viver em nossa casa. Senta-se ao nosso lado, lê o que escrevemos, julga-nos, abre nossos livros, faz perguntas, ouve em silêncio nossos resmungos. Torna-se um companheiro e nos leva a pensamentos que jamais ocorreriam naturalmente. São relações misteriosas, pois nada há de mais íntimo que esse conluio de seres imateriais, e tudo se passa entre desconhecidos. O fantasma de Coetzee veio morar em minha casa, desde que li seus livros ele perambula por aqui, nas horas mais inesperadas. Página após página ele veio se aproximando de mim, desarrumando sua bagagem africânder, mostrando seus hábitos, suas palavras, propondo conversas arrojadas, e por meio de uma ficção que é sua própria vida ele se tornou imprescindível. Quando tira o paletó e senta-se à mesa, altivo e obstinado, é o momento de maior tensão entre nós, ele tão soturno, eu tão sutil. Sinto vergonha porque como animais e prometo ser cada vez mais ritualística, como ele. Então, Coetzee mostra seus sapatos de couro. E me faz perguntas que não sei responder, mas me desafiam, e modificam. Fujo, porém ele segue-me até a cama e se entrega em minhas mãos, sem medo de ser descoberto. Ao contrário, ele diz quem é, ou quem pensa que é, ou quem pensa que pensam que ele é, um homem gentil, retraído, frio e impessoal. Mas o que vejo nele é aquele menino que acreditava na inteligência como o único e desesperado caminho. Ele declara seu amor por nosso país. Falamos sobre natureza, e respondendo a suas inquietações em A vida dos animais conto-lhe como um índio se transforma em bichos, árvores ou paisagens, numa experiência de ser o outro, ou como incorpora a voz dos seres silvestres que passa a ser a sua própria voz. Coetzee gosta do meu quarto, onde me sinto mais só, onde ele fala de seu comportamento como simples pessoa errando e perguntando, entregue a uma sombria pesquisa. Digo-lhe que admiro sua coragem de inventar uma realidade que parece memória. Tudo soa real demais. Ele escreve para participar do mundo, não para se retirar. Assim vai povoando minha quietude. A vida da mente é a recompensa por nossa solidão, ele me diz, ao se despedir. Ana Miranda é escritora. novembro 2010

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amigos de papel Joel Rufino dos Santos

A soberania

das Malvinas

ARGENTINOS

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Continua

si. Nos dois países, modernização foi sempre entendida como liquidação, por vezes violenta, das formas locais de produção e cultura. É fácil ver, ainda, como nosso populismo se pareceu com o deles, varguismo e peronismo. São a mesma fórmula para integrar massas urbanas à vida política, domando velhas oligarquias agropecuárias, acalmando burguesias nacionais. Mais aqui do que lá, a palavra populismo se tornaria um xingamento aos que fazem algo pelos pobres. São questões complexas, que se põem e repõem sem cessar na história de Brasil e Argentina, aproximando-os e afastando-os ao mesmo tempo. Há um certo consenso de que as ditaduras de lá foram mais brutais do que as daqui, os números confirmariam. A organização dos trabalhadores aqui era menor, a luta contra as ditaduras não correspondeu, como lá, a uma luta pela renda. Processos distintos, cujas cicatrizes ficaram. Meus caros amigos, talvez confirmem esta impressão lendo o livro de Operação massacre. Walsh era de luta. Joel Rufino é historiador e escritor.

o imbróglio em torno das ilhas Malvinas, que os colonizadores britânicos chamam Falklands. A imprensa internacional, especialmente a brasileira, esforça-se para abafar as implicações econômicas e ambientais do impasse, tratando-o como teimosia nacionalista, subproduto da ditadura, excentricidade da família Kirchner. Enquanto isso, transnacionais como a Repsol-YPF e a British Petroleum (a mesma que causou a tragédia no Golfo do México) unem esforços para controlar a exploração de petróleo em águas argentinas. O argumento de que a minúscula população do arquipélago prefere viver sob jugo europeu vale quanto a plateia estiver disposta a pagar. É fácil adaptar noções de soberania às conveniências dos envolvidos. Toda reivindicação autonomista carrega prerrogativas transcendentes, do Tibete à Caxemira, do Tamil Eelam ao Curdistão. Até a Scalzillândia ganha ares sacros e humanitários, dependendo da boa-vontade do orador. Mas, curiosamente, esse apelo não serve para pressionar potências econômicas a ceder seus territórios. Respeito à democracia é bom só nos olhos dos outros. Plebiscitos no Havaí ou no Alasca jamais seriam suficientes para corroborar a emancipação desses territórios. A Bélgica ignora os apelos internos para cindir o país nos limites da Valônia e de Flandres. A própria Inglaterra não esteve preocupada com a escolha dos norte-irlandeses, quando espalhava suas barbaridades pela colônia. Rússia e Espanha são poderosos inimigos da independência de Kosovo, aquela depois de causar um pequeno holocausto na separatista Tchetchênia e a segunda preocupada em conter a incômoda rebeldia basca. Nem sempre (raramente?) o critério histórico é compatível com o das aspirações populares. Dilemas dessa natureza só se resolvem diplomaticamente, contemplando todos os antagonistas, sob aval e vigilância da ONU. Guilherme Scalzilli é historiador e escritor. Autor do romance Crisálida (editora Casa Amarela). www.guilhermescalzilli.blogspot.com

Ilustração: hke...

Em 25 de março de 1977, um homem cinquentão, baixinho, míope, distribuiu a algumas pessoas em Buenos Aires uma carta dirigida à Junta Militar. Era o balanço de um ano de ditadura: sequestros, torturas, assassinatos e desaparecimentos. Terminava o libelo com pessimismo, “sem esperança de ser escutado e com a certeza de ser perseguido”. Dava o número de sua carteira de identidade, 2 845 022, e nome completo, Rodolfo Walsh. Sequestrado por torturadores, nunca mais foi visto. Walsh era famoso por um clássico do chamado jornalismo investigativo, Operación masacre, só agora, infelizmente, traduzido para nossa língua (Companhia das Letras). Ali se esmiúça, com técnica de romance policial, o fuzilamento de doze homens que se haviam reunido para ouvir no rádio a transmissão de uma luta de boxe. Perón fora deposto um ano antes (1955), a repressão estava atenta à possibilidade de contragolpes e houve, de fato, aquela noite, um levante de quartéis. Depois de algumas escaramuças, promulgada a lei marcial, milhares de peronistas, civis e militares, foram fuzilados. É possível que um ou dois do grupo que se reunira para jogar cartas e ouvir a luta estivessem implicados no levante, mas a maioria estava no lugar errado na hora errada. Levados em caminhão até um local ermo, sete sobreviveram, milagrosamente. Walsh puxou o fio da meada, reconstituiu passo a passo a brutalidade. Temos pouco e, paradoxalmente, muito a ver com a Argentina. Para começar, o futebol como arte popular, mais do que um esporte. Jogadores argentinos estão hoje entre os melhores do campeonato brasileiro. É como se em futebol a velha maldição se invertesse: a Argentina é o Brasil ontem. A importação de craques argentinos (um Conca, um Montillo, um Dalessandro) mostra ao público jovem brasileiro como se jogava antes de os “atletas” prevalecerem sobre os “artistas” da bola. Também na música. Mais do que simples músicas nacionais – o que se tornaram por um processo semelhante de identificação deliberada – o tango e o samba são formas de sociabilidade tradicionais populares, ao mesmo tempo aceitas e desprezadas, orgulho e vergonha. Há uma extensa literatura sobre o bovarismo de lá e daqui: argentinos e brasileiros parecem gostar mais de estrangeiros, tidos como ricos, sábios, elegantes, do que de

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Frei Betto

NATAL: Jesus ou Papai Noel? Aproxima-se o Natal. Curioso como, numa sociedade tão laicizada como a nossa, na qual predomina a tendência de escantear a religião para a esfera privada, uma festa religiosa ainda possa constituir um marco no calendário dos países do Ocidente. Há nisso uma questão de fundo: o ser humano é, por natureza, lúdico e sociável, o que o induz a ritualizar seus mais atávicos gestos, como alimentar-se ou se relacionar sexualmente. Além de elaborar, condimentar e enfeitar sua comida, o que nenhum outro animal faz, o ser humano exige mesa e protocolo, como talheres e a sequência prato forte e sobremesa. No sexo, não se restringe ao acasalamento associado à procriação. Faz dele expressão de amor e o reveste de erotismo e liturgia, embora o pratique também como degradação (prostituição, pornografia e pedofilia) e violência (jogo de poder entre parceiros). O Carnaval, como o Natal, era originariamente uma festa religiosa. Nos três dias que antecedem a Quaresma, período de jejum e abstinência recomendados pela Igreja, os cristãos se fartavam de carnes – daí o termo Carnaval, festival da carne. Resume-se, hoje, a uma festa meramente profana, onde a carne predomina em outro sentido... Essa transmutação ocorre também com o Natal. Por ser festa de origem cristã, para celebrar o nascimento de Jesus, a sociedade laica a descaracteriza pela introdução da figura consumista de Papai Noel. O que deveria ser memória da presença de Deus na história humana, passa a ser mero período de miniférias centrada em muita comilança e troca compulsiva e compulsória de presentes. Daí o desconforto que todo Natal nos traz. Como se o nosso inconsciente denunciasse o blefe. Sonegamos a espiritualidade e realçamos o consumismo. Ótimo para o mercado. Mas o será também para as crianças que crescem sem referências espirituais e valores subjetivos, sem ritos de passagem e senso de celebração? Longe de mim pretender restaurar a religiosidade repressiva do passado. Mas se há algo tão inerente à condição humana, como a manutenção (comer) e a procriação (sexo) da vida, é a espiritualidade. Ela existe há cerca de um milhão de anos. As religiões são recentes, surgiram há menos de dez mil anos. Se a espiritualidade não é fomentada na linha da interiorização subjetiva e da expressão de conexão com o Transcendente, ela corre o sério risco de, apropriada e redirecionada pelo sistema, cair na idolatria de bens materiais (patrimônio) e de bens simbólicos (prestígio, poder, estética pessoal etc). Talvez isso explique por que a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas similares a catedrais pós-modernas... Já não são princípios religiosos que norteiam a nossa vida. Desestimulados ao altruísmo e à solidariedade, centramos a existência no próprio umbigo – o que certamente explica, na expressão de Freud, “o mal-estar da civilização”, hoje acrescido desse vazio interior que gera tanta angústia, ansiedade e depressão. Com certeza o Natal é ocasião propícia para, como propôs Jesus a Nicodemos, nascer de novo... Frei Betto é escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros. www.freibetto.org <http://www.freibetto.org> twitter: @freibetto

Gilberto Felisberto Vasconcellos

Tiririca, O Palhaço da Democracia Tiririca Tiririca ficha limpa de Jezuis. É que se Jezuis Cristo pintasse por aqui agora em 2010, ele ia prestar atenção em quem? Na Marina, no Aécio ou no ferrado fudido parecido com Charles Chaplin, cheio de verme na infância, sem dente, cabelo ruim, sem água encanada, sem privada, com um milhão de votos? E isso em São Paulo, essa babel multinacional do vocábulo impróprio, como dizia Oswald de Andrade, que aliás não conseguiu se eleger deputado na década de 50. Eu quero saber da Academia Universitária o motivo pelo qual o povo paulista vota em candidato tucano. O povo trabalhador vota na burguesia rentista e cipaia, ou seja, na burguesia bandeirante leão de chácara do capital estrangeiro. Tiririca é analfabeto? Vai ser julgado pelos analfabetos bacharéis do Supremo? Os internautas ficam enciumados porque Tiririca sabe fazer uso semiológico do áudio visual, melhor que Marilia Gabriela, Amauri Junior e Jabor. O palhaço da democracia ou a democracia do palhaço? O povo vota no nome e não no serviço? Se o homem é analfabeto por que não alfabetiza-lo com o método de Marx? E se o Tiririca na Câmara dos Deputados defender os sem terra e batalhar para a eliminação de todos os planos de saúde? Qual o interesse de classe que o Tiririca representa? Burguesia internacional, sub-proletariado, camponês, camelô? Qual a diferença do ponto de vista capitalista entre Tiririca e Eike Batista? As interpretações destes picaretas chamados cientistas políticos não explicam nada. Tiririca não sabe o que um deputado faz, mas a maioria do povo também não sabe. Então quando ele escancara isso, choca a opinião ilustrada que acredita em pesquisa eleitoral. Eu quero saber de um gênio de Haward que me convença sobre a utilidade da pesquisa eleitoral. Esse troço serve para quê? E nós ouvimos que pesquisa eleitoral reforça a democracia. Quando os deputados de esquerda vão fazer um movimento para eliminar a pesquisa eleitoral? Nos debates eleitorais somente apareceram quatro candidatos à presidência da República. Porque esses quatro candidatos democratíssimos não reclamaram que os outros candidatos não apareceram? Ninguém pensa o que significa votar. Voto é plutocracia. Voto é grana. A democracia não tem nada a ver com o capitalismo, ou melhor, o capitalismo é contra a democracia. O eleitor fica o ano inteiro despolitizado, sem saber nada dos interesses econômicos que rolam nas eleições, comendo mal, com problema de dinheiro, aí de repente vem o dia de votar, exerce o seu direito de cidadania, vai para a casa, come arroz com bosta e aí pronto, acabou. Cumpriu o seu dever de cidadão. Que zorra de democracia é esta? O processo eleitoral é uma irracionalidade política. É difícil imaginar que o Brasil vai dar certo pelo voto. Gilberto Felisberto Vasconcellos é sociólogo, jornalista e escritor.

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entrevista

NALU FARIA

Participaram: Cecília Luedemann, Gabriela Moncau, Hamilton Octavio de Souza, Lúcia Rodrigues, Otávio Nagoya e Tatiana Merlino. Fotos: Jesus Carlos

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“O aborto mal feito é a terceira causa de morte materna”

sicóloga, coordenadora geral da Sempreviva Organização Feminista (SOF) e integrante da Secretaria Nacional da Marcha Mundial das Mulheres, Nalu Faria é um dos nomes mais importantes do Brasil na questão da luta das mulheres. Feminista e anticapitalista, ela discute, nesta entrevista à Caros Amigos, as principais bandeiras do movimento de mulheres no país, como violência doméstica, equiparação salarial, luta contra o machismo e o direito ao aborto. A falta de atendimento médico e hospitalar adequado tem sido responsável pela morte de mais de 500 mulheres por ano no Brasil, devido a abortos clandestinos. “São mortes que poderiam ser evitadas. O assunto é recolocado na perspectiva da luta histórica da sociedade, diferentemente das distorções que sofreu no último processo eleitoral. Vale a pena conferir o que Nalu Faria tem a nos contar.

Nalu discute as principais bandeiras do movimento de mulheres no país

Tatiana Merlino - Gostaria que você falasse

um pouco da sua infância, até o início da sua trajetória no feminismo.

Hamilton Octavio de Souza - E nome completo. Nalu Faria – Bom, meu nome é Nalu Faria Silva,

eu nasci em Uberaba. Minha mãe morava na roça, e fui para Uberaba só para nascer e voltei. Eu vivi até os 9 anos em um sítio e depois a gente mudou para uma cidadezinha do lado, Água Comprida, onde vivi até terminar, na época, o ginásio.

Tatiana Merlino – Em que ano você nasceu? Eu nasci em 1958 e vivi lá em Água Comprida até 1974. Aí fui para Uberaba, fiz o colegial, fiz a universidade lá, comecei a militar quando entrei na universidade, em 1978.

Lúcia Rodrigues – Que curso? Fiz Psicologia. E vim para São Paulo. Tem exatamente 27 anos. Cheguei em São Paulo no dia 21 de outubro de 1983.

Tatiana Merlino - Por que você veio para São

Paulo? Acho que por duas coisas. Uma, porque estava militando em Uberaba. Era militante feminista no movimento estudantil lá. Estava num grupo de mulheres, no Partido dos Trabalhadores, as chamadas fundadoras do PT na cidade. E eu tinha muita vontade de militar. Então, eu achava que Uberaba era pequena. Queria militar e São Paulo aparecia como

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um bom lugar. Então, isso foi um dos motivos. Militante do PT e formada em Psicologia é difícil o acesso real ao emprego. Então vim para cá.

Tatiana Merlino – Em Uberaba você já

começou a militar no movimento de mulheres? Em Uberaba, a gente comemorou o 8 de março de 1980. Foi o primeiro contato com esse debate. Eu era do curso da Psicologia e lá tínhamos um bom grupo que naquela época estava aberto a esses

temas da sexualidade, da discussão das mulheres, éramos briguentas. Nós escutávamos muito: “Pra quê vocês estão estudando se vão casar e ter filhos, pôr o diploma na gaveta, tudo isso”. Então, tinha muitos ataques machistas. O primeiro debate que eu fiz foi sobre aborto, um pouco antes de vir para São Paulo, 1983. Chegando em São Paulo, eu até brincava que tinha muita vontade de militar, mas com o desemprego em 1983, eu costumo dizer que a militância foi a última coisa

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que eu resolvi. Aqui, fiz várias tentativas de militância até que consegui achar um lugar no movimento de mulheres e, em 1985, eu comecei a militar no movimento de mulheres. E militando de forma cotidiana no PT nos últimos anos, em particular na secretaria de mulheres do PT. Eu fui da secretaria de mulheres do PT até 2004.

Hamilton Octavio de Souza – Antes disso, no final de 1979, a gente tinha aqui em São Paulo alguns jornais do movimento feminista: Nós, Mulheres, Mulherio, Brasil Mulher. Tinha vários grupos feministas. Quando você começou a militar, como era o movimento das mulheres em 1985? Eu cheguei em um momento bem difícil do movimento de mulheres. Quando eu cheguei, não tinha um espaço de articulação do movimento, porque tinha tido aquilo no período da campanha eleitoral de 1982. A visão dos projetos políticos frente à transição da ditadura marcou dois campos no movimento das mulheres. O setor que era, na época, mais vinculado ao PMDB foi entrando mais para a política institucional, conselhos, e o outro campo de autonomistas, de reflexão, do Nós Mulheres, e outros, se desarticulou. A gente se juntava para organizar o 8 de março, e, justamente nessa época, a gente estava discutindo a importância de ter uma coordenação do movimento de São Paulo para que funcionássemos para além do 8 de março. Mas, a partir de 1986, principalmente, o Encontro Feminista Latino-americano, que teve aqui em São Paulo, em 1985, deu um novo gás, e a partir de 1986 começaram a acontecer várias coisas no movimento de mulheres, para mim, que queria militar com os setores populares, que foi a articulação das mulheres da CUT, que foi em 1986. A gente começa a ir articulando outras coisas nos setores mistos. Hamilton Octavio de Souza – Quais eram os

pontos de luta? Naquela época, tinha uma agenda forte com relação ao tema que se chamava planejamento familiar. Também tinha os tema da violência e da creche. A gente tinha vindo da campanha por creche, já tinha isso. E um tema genérico de “salário igual para trabalho igual”. Aí, com a Constituinte aparece o tema do aborto. A gente fez um processo de mobilização para colher 30 mil assinaturas, para entrar com uma emenda na Constituinte. Foi o momento que a gente colocou mais a cara na rua, com o tema do aborto. Conseguimos as 30 mil assinaturas e o que nós conseguimos na Constituinte, que o direito à vida, na Constituição, é desde o nascimento.

Hamilton Octavio de Souza - A diferença era entre a concepção e o nascimento? No movimento das mulheres tinha prevalecido essa visão de não colocar o tema do aborto, porque se pusesse, ia apanhar. Como no anteprojeto vem essa questão do direito à vida desde a concepção, exige-se uma reação do movimento e aí aparece a emenda, a negociação, a mudança do artigo sobre o direito à vida. Depois começa a haver uma articulação das mulheres negras,

com um primeiro encontro em 1988. Reaparece o grupo de mulheres lésbicas. A gente teve um Encontro Feminista em 1989, aqui em São Paulo, o 10º Encontro Nacional Feminista. Foi um marco: primeiro a gente saiu de lá com a ideia de fazer uma campanha nacional pela legalização do aborto, que era uma polêmica. Teve debates, oficinas amplas sobre a questão lésbica, do partido. Tinha coisas que também que, por um motivo ou por outro, no movimento feminista eram meio tabu, o partido não entrava, porque era movimento autônomo. Aí, depois nos anos 1990, o movimento de mulheres cai num processo de institucionalização, que a gente chama de aumento das Ongs, um momento que o movimento acompanha muito as agendas da ONU, que é essa ideia do neoliberalismo, débâcle mesmo na discussão no movimento mais de esquerda.

Hamilton Octavio de Souza - Por que afetou? Em que aspecto? Porque começa com um discurso no movimento de mulheres do impacto da globalização, do neoliberalismo. Primeiro uma ideia de que tinha perdido o papel dos Estados nacionais, que era uma agenda global da ONU e deveria inserir as questões dos direitos ali. Então, isso foi uma coisa que prevaleceu na América Latina e que significou uma profissionalização do movimento das mulheres, as pessoas começam a participar das conferências da ONU. Nossa avaliação, da Sempre Viva Organização Feminista (SOF), setor em que milito na Marcha Mundial das Mulheres (MMM) é que, embora não tenha grandes vitórias para o movimento de mulheres, na segunda metade dos anos 1990, as feministas que investiram nesse processo manejaram com um discurso triunfalista, de dizer que estava alcançando as vitórias; por exemplo, na Conferência do Cairo, que foi a conferência sobre população, entrou o tema do aborto, pela primeira vez, em 1994. Só no final dos anos 1990 que a gente consegue recuperar o fôlego, organizando um setor mais crítico ao neoliberalismo. Aqui no Brasil, nós identificamos como duas coisas: primeira, a vinda da campanha da Marcha Mundial das Mulheres para cá... Tatiana Merlino - Como a campanha da

Marcha chegou? As mulheres do Quebec começaram a articular a Marcha. Elas tinham feito lá, em 1995, Pão e Rosas, já depois da assinatura do NAFTA, percebendo que ele ia trazer muitos retrocessos para as mulheres. E elas fizeram uma campanha, uma marcha mesmo, de 200 quilômetros e as principais reivindicações tinham a ver com o aumento do salário mínimo, coisas com relação à migração, a economia solidária, os direitos e documentação das imigrantes. E lá surgiu a ideia de ter uma marcha internacional em 2000. Aí elas começaram a articular e criaram essa coisa da internet para a gente aderir. E quem chamou a primeira reunião aqui para definir quem ia para o encontro internacional em 1998, onde a gente definiria a plataforma da marcha, foi a própria CUT, o setor de mulheres. Ela começou

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como uma campanha, em 2000, contra a pobreza e a violência. Fizemos a marcha em 2000, e teve grande impacto, já desde o seu lançamento, porque era algo articulado, uma campanha nacional que era também internacional. E, na avaliação da marcha, que foi lá em Nova York, depois de 17 de outubro, teve a proposta de continuidade, como um movimento permanente. Foram 163 países que participaram da primeira [marcha]. Hoje nós estamos em 70 países. Então, começamos a articular a marcha como um movimento permanente. A gente se vinculou muito ao processo do Fórum Social Mundial. Fizemos duas ações que ajudaram muito a articular a marcha aqui: o nosso envolvimento na campanha contra a Alca, e a campanha pela valorização do salário mínimo. Outra coisa que foi forte desde o início na marcha foi conseguir articular um movimento que junta mulheres da cidade e do campo.

Hamilton Octavio de Souza - Quais são os pontos de união entre as mulheres do campo e as mulheres da cidade? O que tem em comum de luta? A gente está vendo mais pontos que unificam. No caso das trabalhadoras rurais, no início do ano 2000, depois de ter conquistado o direito à aposentadoria, o reconhecimento como trabalhadora rural, elas estavam cada vez mais reivindicando políticas em relação, vamos dizer assim genericamente, ao mundo do trabalho. Não só a posse da terra, crédito, e outras coisas que diferencia de movimento para movimento, mas tem uma pauta comum, aí. Mas, é impressionante como, por exemplo, para a trabalhadora rural também toca o tema da violência, o tema da saúde. E, na medida em que a gente está construindo um movimento que olha para esse geral do modelo de desenvolvimento, do modelo de sociedade, os pontos em comum são cada vez maiores. Então, ter uma opinião sobre a política econômica, ter uma opinião sobre a política previdenciária são coisas que nos juntam. A gente tem tentado mostrar que não se constrói soberania alimentar se não, por exemplo, se altera o que é a indústria da alimentação. Os temas que antes não pareciam ter tanto vínculo entre a mulher urbana e a rural, a gente vai mostrando como as coisas estão vinculadas. Lúcia Rodrigues - Hoje, dá para se dizer que

existe uma bandeira das mulheres? Este é um dos problemas que nós temos no movimento de mulheres. Sempre foi difícil priorizar. O movimento de mulheres, depois foi se organizando muito por temas. Então, tinha a turma que trabalhava o tema da violência, turma da saúde, depois da moradia, sindical. Então, o leque foi se abrindo muito. E isso é uma das dificuldades que a gente tem de construir processos de articulação e mobilização mais ampla, porque tem uma plataforma muito ampla que não consegue definir prioridades por um período. Então, é um movimento multifacetado. Na verdade, nós não somos o movimento de mulheres, somos um setor do movimento de mulheres, no nosso caso da Marcha. novembro 2010

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Hamilton Octavio de Souza - Mas, há alguns pontos? É claro. Cada vez mais, você vê, nos últimos tempos, o tema da violência é muito forte, é um impacto, é sempre um tema na agenda do movimento de mulheres. Mas o fato é que o governo Lula teve várias iniciativas com relação ao tema da violência, teve a lei Maria da Penha, efetivar a lei Maria da Penha. Aí, inclusive, de fato, se a gente tem que falar de um aspecto positivo da lei Maria da Penha, é que tornou o tema da violência muito mais público, muito mais amplo, muito mais debatido do que antes. Então, também o movimento de mulheres passa a ser muito mais solicitado. Então, a violência é um tema bem permanente. Para o setor do tema do aborto, talvez mais para a frente a gente possa falar mais especificamente sobre isso, foi o processo dos direitos, de perseguição das mulheres. Inclusive, a gente criou uma frente contra a criminalização das mulheres e pela legalização do aborto. A gente fez isso depois que “caiu” a clínica lá em Mato Grosso. Porque antes a gente fazia mobilizações em relação ao aborto, eram vários setores fazendo coisas, e nessa frente, o que a gente tentou, foi juntar, além desses grupos de mulheres, nessa frente pela legalização do aborto. Inclusive, tinha essa ideia de ser uma frente muito ampla, de não ser só o movimento de mulheres mais tradicionais, mais cotidianos. Então, agora, o tema do aborto é mais presente. Nas mulheres do campo, há muitos temas específicos do campo, como a gente disse, e o movimento de mulheres do campo é um movimento muito organizado. Eu sempre ressalto isto. Mais do que nas cidades, ele constrói articulações grandes. A Contag, as mulheres do MST, o UMB. Nesse campo de aliança com os setores rurais, o tema da previdência foi um tema permanente. Hamilton Octavio de Souza - O que é o tema da previdência? No Brasil, como você sabe, um número pequeno de mulheres tem acesso à previdência. Se poucos trabalhadores têm acesso à carteira assinada, no Brasil, em relação às mulheres [esse problema] é maior ainda. E tem vários setores que estão fora, inclusive, desse modelo de previdência que nós temos hoje: as empregadas domésticas, que poderiam estar nesse modelo atual, mas, geralmente, estão em contratos precários; também tem as mulheres da economia solidária que fazem trabalhos por conta própria. A gente tem que pensar um sistema de previdência que seja inclusivo, que esteja realmente baseado na reciprocidade. Então, aí, entram esses setores com muito peso: as empregadas domésticas, as próprias donas de casa que estão reivindicando a aposentadoria por idade. Com todas essas questões [é preciso pensar] um sistema universal de previdência. E, aí, também entram os temas como fator previdenciário. Nós sabemos que o fator previdenciário tem um fator maior sobre as mulheres do que sobre os homens. Tatiana Merlino - Com relação à lei Maria

da Penha, eu queria que você falasse sobre a importância da promulgação da lei e fizesse

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um balanço desde sua promulgação, em 2006. Foi em 2006, no segundo mandato do governo Lula. Tem um aspecto da lei Maria da Penha que é bem importante, fruto daquela discussão que prevaleceu no debate dos anos 1990, quando começou a ter em vários países, a partir do modelo da ONU, o tema da violência intrafamiliar. Em vários países da América Latina, o tema da violência doméstica e sexual é tratado como violência intrafamiliar e tira esse aspecto, que para nós é importante, de tratar como a violência contra as mulheres. Então, o primeiro elemento muito importante é que ela posiciona nesse sentido: a violência contra as mulheres. O outro aspecto que eu acho que foi positivo é que o homem que foi denunciado deixa de ser um réu primário. A violência contra as mulheres era considerada uma violência contra os costumes, não contra a pessoa. Então, à medida em que passa a ser considerada um delito contra a pessoa, também trouxe esse elemento de que o homem deixa de ser um réu primário. É claro que ainda falta muito para ser implementada, mas ela deu um passo nesse sentido, de que as mulheres, ao denunciar, o assunto pode continuar sendo levado até o fim. Tem essa questão também das varas. É claro que a lei Maria da Penha, ela sobressai, na parte dela, o aspecto mais punitivo. Não que não tenha que ter punição. Mas, geralmente, quando chega uma denúncia é porque já tem um grau tão grande de construção dessa relação de violência, que a gente fala que essa violência não começa de um dia para o outro. O espancamento não é, em geral, a primeira forma de violência que um homem comete contra uma mulher. Então, a lei prevê as ações de prevenção. São aspectos que não é um problema da lei. A gente tem que impedir que a violência aconteça. É claro que eu estou falando uma coisa muito difícil, porque a violência é o resultado de uma relação de opressão. Mas a gente ainda tem que exigir dos governos, dos conjuntos das instituições, que o tema da violência seja divulgado: que a cada 15 segundos uma mulher é vítima de algum tipo de violência, não quer dizer espancamento.

Tatiana Merlino - Embora haja vários grupos

de mulheres atuando em várias frentes, tem algum tema, na sua opinião, que é a pauta mais importante, que mais faz as mulheres sofrerem no Brasil? É a violência doméstica? É o aborto? Nós, ainda, temos apenas 52 mulheres em cada 100 que está no trabalho assalariado. Então, nós temos muita mulher em relação de dependência econômica. O tema do aborto talvez seja o mais difícil, porque é o mais difícil da gente construir aliados, é o tema que a gente encontra mais resistência. Mas, também, é igualmente difícil, para as mulheres, o esforço para participar do espaço de poder, de como as mulheres são massacradas, cotidianamente, quando nós tentamos ocupar os espaços de poder. O tema do aborto, em parte da sexualidade, você pode dizer que mudou para quem, como, onde, em que condições? Porque isso é uma coisa que aconteceu nos últimos anos, que a gente pode

perceber. Como a gente teve uma certa conquista de direitos, o acesso a esses direitos não foi igual, teve um corte de classe. Nós temos mais desigualdade entre as mulheres. E não só entre as mulheres da burguesia e as mulheres da classe trabalhadora, porque esse abismo sempre foi grande. Mas pensando entre as mais pobres e as mais ricas, a gente construiu mais desigualdade, porque nós temos um pequeno setor que teve acesso à escolaridade, a salários altos. Eu brinco que [a mulher de classe média alta] é quase igual aos homens, se não fosse a violência e o aborto, seria quase igual... Inclusive isso: algumas podem fazer o aborto sem sofrer represálias, mas milhares fazem aborto sofrendo represálias. Agora, no caso das eleições, em si, nós tivemos um elemento bem ruim, a forma como o debate foi colocado. Primeiro, que não podemos isolar o tema do aborto. O ambiente geral do debate eleitoral foi bastante ruim, despolitizado, no sentido de não entrar no debate real das questões e de retroceder alguns temas. Com certeza, o tema do aborto foi o mais utilizado, inclusive, no caso, com relação à Dilma, porque justamente se esperava ter mais posição favorável para destruir a candidatura dela. Ou seja, foi usada como uma forma manipulatória. Não é que as pessoas estavam querendo discutir o aborto, ou pelo o que ele é, pelo que ele significa na nossa vida. E eu acho que aí outros elementos que a gente poderia pensar. Primeiro, que o aborto nunca foi muito bem colocado nas eleições. Se vocês olharem, cada eleição tem essa tentativa das igrejas, em particular, da Igreja Católica, das outras também, de colocar o tema, que nas últimas eleições foi solucionado meio assim: no máximo eu digo que sou contra em público e por ali ficou. O que teve de diferente, nesse ano? O primeiro elemento, não digo que mais importante, mas cronologicamente, eu acho que a Marina quando se coloca como uma religiosa e que algumas posições dela, em particular o tema do aborto, e o [tema da] da união civil, tinha a ver com a sua religião, contribui para que esse tema se transforme em um tema da política. E depois a CNBB em agosto, a regional sul faz aquele documento que recupera todos os elementos de aborto vinculados ao PT, seja o que saiu nas conferências de políticas das mulheres, que aí não é só vinculado ao PT. As conferências de políticas das mulheres tem mulheres de todos os partidos, mulheres sem partido, mulheres do governo, mulheres de movimento, também a resolução do PT do Congresso de 2007, que foi a primeira vez que votou no PT uma resolução sobre o aborto em um congresso, foi a primeira vez.

Hamilton Octavio de Souza - E o que tinha sido aprovado? Foi aprovado a descriminalização do aborto. Eu não me lembro a primeira palavra, se era lutar ou propor a descriminalização do aborto e a regulamentação da sua prática nos serviços públicos. Mas expressa o conteúdo que o movimento de mulheres dá para legalização, que é justamente garantir, porque para nós não interessa só des-

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curso como uma forma de querer mostrar que a Dilma é uma mulher dentro dos padrões. Então, o que acontece com relação à Dilma, tem um grau de ambiguidade que tem com relação da sociedade: você tem que ser competente, mas não pode deixar de ser feminina... O tempo todo a mulher é tratada com essa ambiguidade: tem que ser boa dona de casa, tem que ser bonita, tem que ser sexy. Então, o tempo todo é essa dualidade. Além da campanha, que tem o tema do aborto, a gente também não pode descontextualizar do geral. A partir de 1995, é interessante que era bem naquele período, começa a se organizar a direita em relação ao aborto, não só no Brasil, mas também na América Latina, mas no Brasil de uma forma forte. Depois, no início dos anos 1990, a grande polêmica do aborto, aqui no Brasil, foi a PEC do Severino, que queria retroceder aquilo que a gente tinha ganhado lá na Constituição. E a outra polêmica foi em relação àquele projeto do Eduardo Jorge, que, na época, regulamentava o serviço de aborto legal, o aborto já previsto no Código Penal. E não foi aprovado, teve que retirar o projeto, senão ia perder. E depois se resolveu o tema do aborto legal com uma norma técnica, que, inclusive foi organizada ainda no governo Fernando Henrique, quando o Serra era ministro da saúde, e, depois no governo do PT teve alguns aprimoramentos, lá na norma técnica.

Hamilton Octavio de Souza - A norma criminalizar: quem tem dinheiro paga, quem não tem dinheiro... Mas, em um determinado momento, a candidatura do Serra começa a utilizar isso como elemento de campanha e aí foi um momento muito inesperado, porque o Serra vem de um setor do PSDB que nesse assunto do aborto, ninguém esperava isso. Acho que isso foi um elemento. E o PT, de uma certa forma, imagino, também não esperava. Agora, a reação do PT também foi muito ruim. Então, a reação na defensiva, principalmente ali no começo do segundo turno, no desespero, no medo de que vai perder, acabou optando por uma posição cômoda de querer acalmar os ânimos das igrejas e caiu nessa armadilha do discurso religioso, quando eu acho que poderia ter tido uma postura de não aceitar o debate ser feito nestes termos, dizendo: “Não, aqui não está sendo um debate real sobre o aborto, não vamos ficar nesse tipo de coisa, no jogo manipulatório.” E aí vimos uma coisa que eu não me lembro de ter visto: a forma como a religião entra no debate político, [como um] divisor de águas. Mas, também a gente tem que chamar a atenção para o seguinte: esse debate ruim, em relação às mulheres não foi somente em relação ao aborto, já desde o primeiro turno. Simbolicamente, teoricamente e concretamente, nós tínhamos uma boa condição para fazer um debate mais avançado com relação às mulheres e era o que todo mundo nos perguntava. A gente teria a oportunidade de ter um debate sobre a representação política, saindo do campo do masculino, diferente do que

nós tivemos. No entanto, nós tivemos duas coisas: uma, a contraofensiva, o tempo todo com argumentos machistas, tentando destruir a campanha da Dilma, não só com o aborto, mas também com a ideia de que ela não tinha pensamento próprio, que ela não tinha capacidade, que ela era um poste, era colocada pelo Lula. Então, por mais que o programa da Dilma era sobre os seus feitos, isso não tinha nenhum efeito. Mas, também uma utilização muito grande do discurso da maternidade, da família. Então, até parece contraditório, você quer a mulher num aspecto máximo do poder do país, que é ser presidenta do país, mas ao mesmo tempo não pode deixar de ser mulher, partindo dos estereótipos do que é ser mulher.

Tatiana Merlino - Mas, você acha que o PT e

a Dilma também se colocaram na defensiva, nesse aspecto, a partir do momento que ela fica reiterando que é mãe, que é avó, também entra nesse discurso? Não, eu acho que é mais complexo. O PT vive com o fantasma de que menos mulheres votam no PT do que os homens. E o tempo todo, quando tenta resolver, principalmente no momento em que os marqueteiros tem mais peso no partido, sempre tenta resolver isso de uma forma difícil, puxando para este lado da maternidade. Isso também não começou nesta campanha, isto já vinha antes. Nessa campanha isso ficou mais forte, porque a candidata era uma mulher. A candidata era a Dilma. A coisa já começou lá com a “mãe do PAC”, depois a pátria mãe. Então, a utilização desse dis-

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técnica é o atendimento em determinadas condições, né? É, atendimento em determinadas condições: estupro e gravidez que ponha em risco a vida da mulher. Então, nesse momento a grande polêmica era sobre isso. Foi bem no final dos anos 1990, teve um caso de uma menina grávida, no Rio [de Janeiro] e outra perto de São José, por estupro, que a Igreja deu casa, enxovalzinho, que era para ela não fazer o aborto. Então, foi quando a Igreja começou a interferir em caso a caso, porque, até então, a gente não tinha isso. Com o passar desses anos, foi aumentando, além dessa interferência, começaram a acontecer coisas, de mulher ser denunciada, depois teve a formação da frente pró-vida, que inclusive tem deputados de todos os partidos. Começou a ter uma articulação forte da direita, inclusive denunciando as mulheres e criminalizando; o caso mais grave foi este da clínica, lá em Mato Grosso do Sul, em Campo Grande, onde “caiu” a clínica, que em princípio disseram que iam indiciar 10 mil mulheres, depois, com o tempo foram indiciadas 2 mil.

Hamilton Octavio de Souza - Qual é a dimensão do aborto no Brasil? Primeiro, a gente não consegue dimensionar a quantidade de abortos, por motivos óbvios. Os números estimados são definidos a partir do que chega para ser terminado no serviço público e aqueles mecanismos que eles põem de correção. Então, se estima que mais de 1 milhão de abortos, por ano, acontecem no Brasil. Os dados dos SUS, no ano passado, foram 98 mil curetagens novembro 2010

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por aborto. Estima-se que 20% das mulheres com mais de 18 anos já fizeram pelo menos um aborto na vida. E cinco mulheres por dia. Olha, isso é terrível! Buscam ajuda para fazer aborto, só mulheres vítimas de estupro. Mulheres grávidas por terem sido estupradas, cinco. Essas são, teoricamente, acolhidas no serviço público. Mas, nós temos só 60 serviços no país inteiro. Você imagina quantas mulheres não conseguem. Então, você tem esse número muito grande...

Hamilton Octavio de Souza - Quantos em função de aborto mal feito? O aborto mal feito é a terceira causa de morte materna. Eu acho que dá por volta de menos de 500 mortes por ano. Mas, o problema maior, além das mortes, porque era morte que poderia ser evitada. Então, a gente trabalha em saúde com a seguinte ideia: uma morte que poderia ser evitada e teve, ela é grave. São todas mortes que poderiam ser evitadas, se o aborto fosse feito em condições seguras. Agora, o grande problema do aborto é que deixa muitas sequelas. Porque, por exemplo, hoje em dia, o que mudou muito com relação ao aborto, a partir dos anos 90, à medida em que as mulheres conheceram o efeito do misoprostol, que a gente chama de citoteque. Houve uma mudança na forma como a grande maioria das mulheres iniciou o aborto, porque antes era ou através de chás, coisas mais venenosas, cáusticas, ou a sonda que elas iam em uma enfermeira ou uma parteira para colocar e provocar hemorragia. Hoje, é através desse medicamento, toma, começa ter o processo de abortamento e vai ao hospital do SUS para poder fazer a curetagem. E o que a gente sabe, é cada vez mais visível: as mulheres que tem dinheiro, pagam. Aqui em São Paulo, pagase entre R$ 2.500 um aborto em uma clínica. Em outros estados é mais barato. Também tem outras questões em relação ao aborto: a maioria das mulheres que fazem o aborto estão em união consensual. Então, não é esta visão também estereotipada de que o aborto é fruto do desvario. A maioria dos casos é de mulheres que estão em união estável, muitas que usam método. Muitos estudos que estão sendo feitos [mostram que] muitas pessoas que usam mal o método, dizem que usam a pílula, mas que esquecem. Então, a maioria das mulheres que fazem aborto são mulheres que já têm filho, que estão em união estável, não exatamente casamento. Então, é a ideia de que a gravidez realmente acontece quando as pessoas não estão esperando, e é muito mais presente na vida das mulheres do que a gente pode imaginar. Hamilton Octavio de Souza - E como o

movimento coloca hoje a questão: é a descriminalização, a defesa do aborto? Na verdade, a formulação tem um problema. Há muitos anos, o movimento das mulheres, e, principalmente, nos anos 1990, trabalhou com o aborto como tema de saúde pública, considerando que esse era o lado mais fácil de convencer as pessoas. Eu, particularmente, acho que você pode fazer isso na hora de um discurso eleitoral, para o grande público, até para a justificativa de

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uma lei, mas para convencer as pessoas, eu estou convencida de que as pessoas têm que estar convencidas de que têm direito [ao aborto]. Um dos projetos que foi base para o movimento no último período, depois da conferência nacional de políticas para as mulheres em 2004, foi a proposta para uma revisão da legislação que criminaliza o aborto. Então, a Secretaria de Políticas para as Mulheres convocou uma comissão tripartite, na época, o congresso, o executivo e a sociedade civil. E dessa comissão se formulou um projeto e esse projeto reconhecia o direito ao aborto sem nenhuma penalidade até 12 semanas e tinha...

Hamilton Octavio de Souza - Como direito da mulher é romper até 12 semanas? É até 12 semanas. E esse projeto não foi reapresentado na legislatura passada, porque foi da legislatura de 2003 e de 2006. Então, tem essa compreensão. Na luta, nossa, nós temos cada vez mais recuperado, além do tema da saúde, o tema da autonomia das mulheres. O direito à autonomia. Porque, em última instância, não é o direito ao corpo, e sim o corpo como lugar onde a vida se materializa, mas é uma questão da nossa vida e a gente pode decidir sobre a nossa vida. E uma vez eu escutei uma filósofa falando, ela diz assim: “Diferente de pensar que uma mulher que faz aborto é irresponsável, é exatamente ao contrário, é uma mulher extremamente responsável, porque é a mulher que se pergunta se ela está em

condições de ter um filho e de garantir as condições de vida, e de criação.” Não estamos falando do aspecto econômico, é do aspecto global da vida. Então, no movimento de mulheres tem cada vez mais voltado esse debate, do direito e da autonomia e de que as mulheres podem decidir sobre a maternidade. E está muito vinculado a duas coisas: nós temos que separar sexualidade de maternidade, que maternidade não é destino, maternidade tem que ser uma opção, tem que ser uma decisão. E, também, dentro de uma visão, é claro que a gente também não está contente que tenha 1 milhão de abortos por ano. Tem que ter menos aborto. Também queremos que as mulheres conquistem autonomia na sexualidade para que a gente tenha cada vez menos gravidez indesejada. Você ter, pelo menos, 1 milhão de gravidezes indesejadas por ano é muito, em outros países têm muito menos.

Lúcia Rodrigues - Como a Marcha Mundial

de Mulheres pretende tratar essa questão do aborto no governo da presidenta Dilma? Então, no caso da Marcha, a gente ainda vai ter que conversar, mas eu imagino, que algumas coisas vão se manter e outras coisas a gente vai ter que avaliar e não só como Marcha, mas nessa Frente que a gente faz parte. Eu acho que a gente vai ter que ampliar mais ainda a nossa capacidade de discussão no movimento e de ações articuladas a isso. Não só nos movimentos com

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quem a gente tem aliança, mas aprofundar o diálogo com o Judiciário, inclusive. Tem coisas que a gente vai ter que avaliar por onde que a gente vai poder avançar mais, no tema do aborto, não somente no legislativo. Tem homem no PT que fala que o partido não tem posição sobre isso, não leram a resolução do congresso de 2007. Aquele André Vargas, da Comunicação, foi falar que foi imposição de algumas feministas do PT, como se o debate não fosse um debate que estivesse há tantos anos, desde que o PT surgiu e na relação com o movimento. Inclusive, o primeiro projeto de legalização do aborto que nós tivemos, depois que eu estou na luta, foi do José Genoíno em 1986, um dos melhores projetos de lei que nós fizemos até hoje. Foi um momento muito corajoso, um pouco antes da Constituinte. Esse tema tem que ser incorporado por mais gente. Em todos os lugares onde o aborto foi legalizado é porque teve uma ampla coalizão social. Então, eu acho que o próximo governo vai ter que se comprometer com mais deputados, mais deputadas, chamar mais para o debate, mas sempre com muita dificuldade para as pessoas levarem em consideração.

Lúcia Rodrigues - Você acha que se a Dilma

tivesse enfrentado essa questão do aborto ela teria perdido a eleição? Isto é uma coisa difícil de saber. Eu não acho que nós não tínhamos condições, porque até mesmo os setores feministas demoraram para responder. A primeira nota foi da Frente Feminista Contra a Criminalização das Mulheres e pela Legalização do Aborto, que a gente falava sobre a legalização do aborto, que aceitava que o aborto fosse utilizado de forma manipulatória nas eleições. Eu acho que se tivesse aquela postura que eu falei, ao invés de entrar no jogo do debate religioso, mas dizer que nós não aceitamos que o debate seja feito nesses termos. E isso nós vamos poder responder direitinho, analisando melhor os votos. Porque, com certeza, no final do primeiro turno, uma parte de votos potenciais para a Dilma migrou para a Marina, com relação a esse tema do aborto. Mas, como dentro das igrejas e dos templos, o voto pregado foi contra a Dilma, eu não tenho notícia de que falaram nesses setores de direita: “Não votem no Serra.” Eu acho é que poderia ter saído da armadilha, não aceitando esse jogo. Foi o que eu disse, no início, acabou tendo uma posição cômoda, de achar de que com isso tiraria o debate da agenda, que não tirou, com todo o discurso da Dilma: “Eu sou contra o aborto”, assinou o manifesto e o aborto continuou na pauta. O que tirou o aborto da pauta? Quando aparece o assunto da Mônica e aí o Serra para de atacar.

Tatiana Merlino - Você acha que essa

postura do PT e da Dilma ter caído na armadilha representa um retrocesso para o PT, para o setor de mulheres do PT e para o movimento feminista? Eu acho que foi ruim, mas eu não sei se colocaria de forma tão forte, que foi um retrocesso, porque,

na verdade, a gente nunca teve um compromisso real antes. O Lula foi presidente por dois mandatos e teve poucos momentos que parece que vai avançar e não avança. Quando o Papa esteve aqui, o discurso foi tão reacionário que teve uma reação positiva dentro do governo, e o ministro Temporão começa um levantamento e depois o negócio morre. Porque eles acham assim, tem várias polêmicas, não adianta dar conta de umas e não dar conta de todas. Eu não acho assim... Esse ambiente conservador nas eleições e atingiu um grau máximo, porque foi utilizado de um modo que a gente nunca tinha utilizado. O que eu acho que foi um retrocesso, é mais essa coisa, no geral, de como se enfrentou um tema polêmico, numa campanha eleitoral, que se deixou de uma forma que a gente nunca tinha visto, a religião ser o preponderante nisso, a religião de uma forma totalmente conservadora, sob o aspecto mais conservador da religião que é quase Tradição, Família e Propriedade. Então, nesse sentido, é ruim para o movimento de mulheres. Mas, não acho que isso foi um divisor de águas. Vamos ser muito sinceros. O setor de mulheres já tinha problemas dentro da campanha? Tinha e continua tendo. O setor feminista do PT já não tem o mesmo peso nas eleições que já teve no passado. Isto é visível. No caso do movimento das mulheres, qual é a diferença? É que justamente nesse último período tinha tido essa retomada, a Frente.

Hamilton Octavio de Souza - Dos eleitores

do Lula, uma boa parte dos movimentos sociais, sindicais, preferiram o caminho da negociação, da luta via governo, parlamento e outros ficaram na luta de enfrentamento. Esse é um divisor muito claro nos movimentos. Como a Marcha das Mulheres vê essa questão: a forma de mobilização é a luta aberta ou é a institucional? Nós entendemos que é muito importante manter a mobilização. O que eu acho que faltou em nós, nos movimentos, e eu coloquei isso nos debates, no segundo mandato do Lula, mais, é a gente agregar ou aprofundar algumas formas de como posicionar nossas propostas para o governo. Em alguns elementos, eu acho que ficamos muito retraídos, porque tinha muitos elementos contraditórios, mesmo. E aí, eu acho que isso carece de mais diálogo no conjunto dos movimentos. De um lado, não dizer que tudo é uma continuidade do que estava antes, aprofundar um pouco o debate sobre o que está acontecendo, com os elementos contraditórios, que coisas estão sendo mexidas? As conferências, por exemplo, muitos de nós faz críticas às conferências, que são limitadas. Mas, por que a gente não se junta com os movimentos para apresentar o que nós queremos no lugar das conferências, de forma coletiva, nós queremos referendo, queremos outras formas de democracia participativa, definir mais o orçamento.

Hamilton Octavio de Souza - O que você vê como vitória nesses anos do governo Lula? O que pode ser considerado, na luta das

mulheres? O que dá para computar e falar: em 8 anos conquistamos isso e isso? Eu acho que na luta das mulheres tem duas coisas que tem alterado. São parte das políticas sociais, não só o bolsa família, mas, por exemplo, programas como o que está começando a criar uma possibilidade para as mulheres do campo de produção e comercialização maior, o programa de aquisição de alimentos que o próprio governo adquiriu esse alimento, agora o programa de alimentação escolar. Tem criado oportunidades reais. Então, nesse campo econômico, nós tivemos ganhos. O salário mínimo apresentou ganhos importantes para as mulheres. O campo econômico talvez tenha sido esse campo que a gente mais teve ganho. E eu vejo mais isso. Porque no tema da saúde, é um tema que tem que melhorar muito, isso é avaliação comum, que a saúde é um ponto frágil. E nessas coisas mais específicas das mulheres, eu não acho que a gente avançou tanto.

Lúcia Rodrigues – A mulher é objetificada

nos meios de comunicação. O que nós, mulheres, podemos fazer para reverter isso? Esse é um aspecto bem complicado, porque não adianta a gente ter só norma. Você se lembra que algumas vezes que o governo Lula teve iniciativas de cima para baixo, aquele manual de direitos humanos, o politicamente correto, depois teve que tirar. Então, na mídia, não adianta só normatizar. Não só porque vira chacota, vira uma coisa formal, que não mexe no imaginário, porque no imaginário brasileiro está que as mulheres gostam de rebolar, que as mulheres gostam de colocar pouca roupa e que isso faz parte, ao invés de isso ser coisa ruim, isso é coisa boa: “mulher bonita pode”. Se a gente não constrói práticas contra-hegemônicas, a gente não tem outras referências de práticas; as referências de práticas são essas. Quando a gente começou a trabalhar com [o tema] da mercantilização, começou a buscar e desconstruir por onde que as meninas incorporavam essa coisa da beleza e da imposição. Por exemplo, a exigência da depilação, de novo, se a gente lutou tanto para não se depilar tanto... É por beleza? Não, de novo, eles não mudam nada, é o mesmo discurso higienista, que associa pêlo à sujeira. Então, você tem que estar depilado para estar limpa, bonita. É muito forte. E também do corpo inadequado. Então, a menstruação, a TPM. Esse corpo está inadequado e esse corpo necessita de intervenção. Porque você é inadequada, por origem. E no capitalismo, ser mulher, é ter que ser bela. Se você não é bela, você não tem o mesmo espaço, você fica preterida. Essa relação com a beleza é muito forte entre as mulheres. As mulheres passam a gostar menos de si quando estão mais velhas, não é a toa que aumenta a depressão, aumenta um monte de doença entre as mulheres, porque a relação consigo mesmo interfere no que vai ser a sua vida, no que vai ser sua saúde, no que vai ser seu bem estar. E a gente passa a gostar menos da gente. novembro 2010

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Gabriela Moncau e Otávio Nagoya

EDUCAÇÃO

Avanços e retrocessos do governo Lula A expansão das universidades federais não impediu o crescimento do ensino superior privado e nem a mercantilização da formação. Entrevistas com Moacir Gadotti (Instituto Paulo Freire), Roberto Leher (UFRJ), Augusto Chagas (UNE), Camila Lisboa (Assembleia Nacional dos Estudantes-Livre), Clara Saraiva (Anel), Lisete Arelaro (USP). Ilustrações: Carvani

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e

ncerrado o ciclo de oito anos do governo Lula da Silva, se faz necessário voltar o olhar para as políticas implementadas em âmbito federal a fim de se estabelecer um balanço crítico e embasado a respeito dos avanços e retrocessos do período. No que se refere à política educacional, o governo do PT pôs em prática uma série de mudanças significativas como o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), o Novo Enem, o acréscimo de um ano no ciclo do ensino fundamental, a Reforma Universitária que engloba programas e medidas provisórias como o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI), o Programa Universidade para Todos (PROUNI), o Ensino à Distância, entre outras, que merecem ser destrinchadas.

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Dentre as diferentes avaliações sobre a educação brasileira, uma parece ser consenso: o governo Lula avançou em relação ao governo Fernando Henrique Cardoso (FHC). “Lula avançou bastante em comparação às políticas anteriores. Em primeiro lugar, no acesso ao ensino superior, a expansão das universidades públicas e federais foi extraordinária. O acesso ao ensino médio foi extraordinário também”, relata Moacir Gadotti, presidente do Instituto Paulo Freire. Em contraposição, para Roberto Leher, docente da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), houve um avanço explosivo do setor privado da durante os últimos oito anos: “Quando FHC concluiu o seu mandato, tínhamos aproximadamente 30% das matrículas no setor público e agora temos em torno de 24%”. Porém, o professor acredita que antes de fazer um balanço do governo Lula, é necessário contextualizar a realidade brasileira com a educação mundial que, para ele, tem substituído seu papel de produção de conhecimento para simplesmente formar uma força de trabalho mais flexível e desregulamentada. “O padrão de educação superior foi mundializado e chegou ao Brasil. Esse padrão compreende, de fato, que a educação é um negócio. Pode ter alguma regulamentação, mas é um campo aberto para lucro”, define.

Financiamento Durante a década de 1990, os administradores do Estado brasileiro afirmavam que o problema da educação estava relacionado com má organização de gestão. Essa ideia, que permaneceu durante a década de 2000, é rechaçada pelos educadores. O movimento de educação afirma que o maior problema da área é o baixo financiamento. Durante os últimos 20 anos, a parcela do Produto Interno Bruto (PIB) destinada à educação se manteve em torno de 4%. Em 2000, FHC aprovou o Plano Nacional de Educação (PNE) que, devido à pressão do movimento social de educação, institui que 7% do PIB sejam destinados à educação pública. FHC, no entanto, vetou esse artigo, mantendo os 4%. A grande esperança dos movimentos de educação com o Governo Lula era a retirada do veto, aprovando 7% do PIB para educação. Segundo Moacir Gadotti, a não retirada do veto por parte de Lula “é uma das reclamações que fazemos, mas ele fez intermediações e pôs um prazo para aumentar. Além disso, triplicou o orçamento do MEC, isso é uma vantagem.” Augusto Chagas, 28 anos, presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) e estudante de Sistemas de Informação na Universidade de São Paulo (USP), compartilha a opinião de Gadotti: “Temos uma marca muito expressiva que é o aumento real de financiamento da educação nesse período. Em 2002, o orçamento do MEC era de R$20 bilhões, hoje é de R$ 70 bilhões”. Os setores mais críticos ao Governo Lula apontam que o maior financiamento na educação se deve ao ciclo expansivo da economia brasileira, que ocorreu entre 2005 e 2008. “Não foi

um aumento em termos relativos, mas sim em termos absolutos em relação aos gastos da união, que permaneceram os mesmos 4% do governo FHC”, destaca Leher. Para Camila Lisboa, 26 anos, estudante de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e membro da Comissão Executiva Nacional da Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre (Anel), o investimento destinado para a educação não é suficiente, já que “o governo gastou 36% do orçamento de 2009 com os títulos da dívida pública. Ao longo dos 8 anos do governo Lula os lucros dos empresários e banqueiros aumentaram 400%”. Também integrante da Comissão Executiva Nacional da Anel, a estudante de Serviço Social de 23 anos Clara Saraiva aponta que o investimento educacional de Lula sofre mudanças de acordo com a situação econômica. “No auge da crise econômica, em 2009, o governo também cortou mais de R$1 bilhão para a educação”, completa.

Um país analfabeto De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2009, a taxa de analfabetismo das pessoas de 15 anos ou mais é de 9,8% da população, correspondendo a cerca de 19 milhões de analfabetos. Comparado a alguns de nossos vizinhos latino-americanos, estamos bastante atrasados: segundo levantamento de 2007, feito pela Campanha Latino-Americana pelo Direito à Educação (Clade), em Cuba a porcentagem é 0,2%, no Uruguai é 1,9% e na Argentina, 2,8. Não à toa, a professora da Faculdade de Educação da USP e pesquisadora na área de política educacional Lisete Arelaro destaca a educação de jovens e adultos, particularmente no que tange a alfabetização, como “uma das grandes decepções em relação ao governo Lula. É uma dívida social e que se esperava que pudesse ter sido enfrentada em outro patamar de qualidade”. Para Moacir Gadotti, a alfabetização de jovens e adultos representou uma lacuna no governo Lula, “faltou um plano nacional de erradicação do analfabetismo. Aliás, hoje nós temos o mesmo número de analfabetos que tínhamos quando Paulo Freire foi exilado, em 1964.”. Gadotti conta que, no início do mandato petista, Cristovam Buarque foi nomeado Ministro da Educação e criou uma Secretaria Extraordinária de Erradicação do Analfabetismo. Ainda em 2003, foi inaugurado o Programa Brasil Alfabetizado (PBA), com a promessa de erradicar o analfabetismo em quatro anos. No mesmo ano, Buarque é substituído por Tarso Genro e a política de alfabetização é abandonada. “Tarso Genro extinguiu a secretaria e se focou mais na universidade. Em 2005, entra o Fernando Haddad, continuando a política do Genro”, conclui Gadotti. ”O PBA parte de uma concepção de envolvimento voluntário, pois são as prefeituras que selecionam e pagam, mas o pagamento mensal é tão baixo que é muito difícil que por pouco mais de R$300 exista qualquer profissional que gostaria ou poderia sobreviver exercendo essa

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função. Dentro do voluntariado, existem profissionais sem preparação para exercer a função”, avalia Lisete Arelaro, ponderando que ao menos o fato dos convênios do programa serem feitos com os municípios foi um acerto, de modo que a rede municipal própria tem eventualmente conseguido se ampliar com o oferecimento dos cursos de alfabetização. “Os números do analfabetismo brasileiro só encontram paralelo em países como Guatemala, El Salvador, ou seja, países que viveram guerras civis e que tem uma sociedade com muita influência dos idiomas indígenas”, comenta Roberto Leher. A educação infantil também tem sido um ponto fraco nos últimos 20 anos. Nesse aspecto, tanto FHC, quanto Lula, não executaram medidas para suprir a demanda. “A falta de investimento na educação infantil é uma herança horrível. O Brasil tem cerca de 2 milhões de crianças de 0 a 4 anos que não são atendidas, entre as crianças de 4 a 6 anos, esse número é de 1 milhão”, comenta Moacir Gadotti.

Educação básica Em 2006, o MEC aprovou um projeto que fez com que o ensino fundamental passe a ter 9 anos de duração, começando com a criança de 6 anos. Mesmo existindo, há 15 anos, uma abertura de negociação entre a escola e os pais, em caso de vagas disponíveis, que a criança de 6 anos fosse matriculada na 1ª série, essa situação representava apenas cerca de 15% no Brasil. A professora Lisete Arelaro critica duramente a medida: “Eu sustento a tese de que quem pressionou para ter o ensino fundamental de 9 anos foi a rede privada e que não se trata de acrescentar um ano no fundamental, mas de tirar um ano da educação infantil”. De acordo com o Inep, em 2005 a rede privada de ensino fundamental tinha 131.000 alunos. Em 2006, ele tem um crescimento de 400% passando para 614.000. Muito diferente da rede pública, que teve um crescimento de aproximadamente 15%, passando de 7.900.000 para 10.000.000. Em 2009, o Conselho Nacional de Educação autorizou em caráter excepcional que crianças com 5 anos e meio pudessem se matricular no ensino fundamental. A mesma medida foi tomada em 2010. “Na constituição de 1988 lutamos pela qualidade da educação infantil de 0 a 6 anos, porque lá existe o espaço lúdico obrigatório, o espaço recreativo, não há uma sistematização do processo de escolarização tão duro quanto se tem nas primeiras séries. Com o ensino fundamental começando aos 5 anos, não estamos decidindo contra as crianças?”, questiona Lisete. A professora também acredita que após dois anos aceitando crianças de 5 anos no ensino fundamental, dificilmente essa medida será barrada em 2011. Assegurando que não há nenhuma pesquisa nacional ou internacional que justifique que o processo de letramento e alfabetização sistemática deva começar aos 5 anos, Arelaro argumenta que essas crianças serão “tachadas de fracasnovembro 2010

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sadas a curtíssimo prazo, porque, logicamente, elas não conseguem desenvolver o mesmo programa que era das crianças de 7 anos, e nem deveriam, eu diria que é um retrocesso”. Para ela, “aquilo que poderia ter sido uma ideia interessante, de ampliar o ensino em um ano no Brasil, transformou-se em tirar um ano da educação infantil e agora potencialmente dois”. Outra política adotada no âmbito do ensino básico foi ao criação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (FUNDEB) em 2006. O FUNDEB mantém a política de financiamento da educação e traz características semelhantes ao programa implementado no governo anterior. Durante o período FHC, o que vigeu foi o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (FUNDEF), definido por Lisete Arelaro como “um fundo de nome comprido e dinheiro curto”. O FUNDEF de FHC foi criado em 1996 e teve duração de 10 anos, destinando por meio de uma redistribuição proveniente dos impostos dos municípios e Estados uma parte da receita pública para o ensino fundamental (1ª a 8ª série). Já o FUNDEB de Lula tem a duração prevista de 14 anos. A principal diferença em relação ao modelo anterior é que dessa vez os recursos vêm dos três níveis da administração pública do Brasil (união, estado e município) e são transferidos para a educação básica em geral, atendendo a educação infantil, o ensino médio e as modalidades de educação de jovens e adultos. “Outra qualidade do governo Lula foi ter uma visão sistêmica da educação, o ministro Haddad insiste muito nisso e ele tem razão. O que existia antes era uma política só com o foco no ensino fundamental”, afirma Gadotti. Apesar de aprovado há quatro anos, somente em 2010, o FUNDEB teve a sua aplicação plena, de modo que uma avaliação consistente de sua eficiência só poderá ser completa daqui a alguns anos. Arelaro ressalta, no entanto, que o fundo não significa necessariamente uma superação das desigualdades regionais, “na medida em que são fundos estaduais que fazem uma equalização das desigualdades somente para dentro do estado, mantendo a mesma lógica de fundos estaduais e não um nacional. Efetivamente é preciso de mais dinheiro do governo federal”. “Este seria o primeiro ano em que o governo federal seria responsável por 10% das despesas que o fundo gera. Em termos estimados, estados e municípios gastaram, em 2010, R$69 bilhões na educação básica, portanto o governo federal – e isso seria inédito, a maior contribuição para o fundo desde sua criação em 1996 – R$6 bilhões e 900 milhões na educação”, destaca, fazendo a ressalva de que não tem certeza se o governo cumprirá a promessa.

novo Enem “O novo ENEM surge com uma grande missão: transformar e revolucionar o quase centenário vestibular. E mais, torná-lo a prova de avaliação unificada para ingresso nas universidades”. Com essa propaganda, a reformulação do Exame Nacional do Ensino Médio apresentada em 2009 propôs que a prova substituísse o vestibular nas universidades federais. As possibilidades apresentadas às instituições são de utilizar o exame como fase única, primeira fase, combinado com o vestibular ou como fase única para as vagas remanescentes do vestibular. Este ano pelo menos 36 universidades devem selecionar exclusivamente por meio do ENEM. No artigo ENEM: o que é comodificado é mercadoria, Leher classifica o exame como um serviço terceirizado de avaliação para o ingresso na universidade que teve origem nas empresas nutridas pela política de vestibulares da ditadura empresarial-militar. “Ao contrário da publicidade oficial, o ENEM privilegia os estudantes de maior renda. Um estudante paulista que, apesar de elevada nota, não ingressou na faculdade de medicina da USP (dada a concorrência), poderá, com os seus pontos, frequentar o mesmo curso em uma universidade pública em outro estado, desde que tenha recursos”, argumenta o professor, para quem a “mobilidade estudantil pretendida somente favorece os que possuem renda para se deslocar, uma vez que as universidades não dispõem de moradias estudantis e políticas de assistência estudantil compatível com as necessidades”. A posição de Clara Saraiva casa com os argumentos de Leher: “Na verdade se trocou uma prova meritocrática por outra, a lógica se manteve e a desigualdade do acesso se ampliou, porque, na medida em que as universidades não garantem assistência estudantil plena, a tal mobilidade do ENEM não é garantida para um estudante de baixa renda. Fora as desigualdades regionais do ensino básico, que coloca um estudante de uma particular de São Paulo competindo com um de uma pública de uma cidade do interior do nordeste”. Já Chagas avalia o novo ENEM como uma política que avança na democratização do acesso à universidade. Os resultados do ENEM 2009 revelam, no entanto, a supremacia das escolas particulares: entre as primeiras mil escolas que oferecem ensino médio regular, 91% são da rede privada. Dessa lista, apenas 88 são públicas, apesar das escolas públicas representarem 88% das matrículas do país no ensino médio.

ensino superior O presidente da UNE relembra as dificuldades enfrentadas durante os anos 1990 em relação às políticas educacionais: “Era um período

“Lula avançou bastante em comparação às políticas anteriores. Em primeiro lugar, no acesso ao ensino superior” Moacir Gadotti

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muito marcado pela ideia de que o mercado resolveria o problema da educação, muito influenciada por essas agências internacionais como o Banco Mundial e o FMI que apresentavam ideias como a que o Brasil não deveria investir no ensino superior, um período marcado pela estagnação orçamentária, nossas universidades públicas foram totalmente abandonadas”, frisa. Lisete Arelaro ressalta que “é verdade que o governo Lula tem uma característica que o distingue muito do governo anterior, por mais críticas que se tenha ao projeto de reformulação das escolas, temos uma questão indiscutível: de fato houve reposição de pessoal nas escolas, houve ampliação das despesas correntes das escolas, que tem garantido a manutenção de itens básicos, foi uma normalização que aconteceu”. Apontando o que considera como um marco expressivo das mudanças de políticas voltadas ao ensino, Augusto Chagas diz que uma das primeiras ações do governo Lula foram as reuniões da Organização Mundial do Comércio (OMC), na qual “havia uma pressão por parte de algumas nações de incluir a educação nessas rodadas de negociação. E o Brasil estava para se posicionar, tudo indicava naquele final de governo FHC que o Brasil colocasse a educação como um elemento a ser negociado e o Lula logo de cara se nega, rompendo, portanto, com uma série de lógicas e passa a ter um salto de qualidade nessa visão educacional”. No entanto, em um artigo de Leher denominado Educação no governo Lula da Silva: reformas sem projeto, o docente defende a tese de que as políticas educacionais do governo petista foram balizadas justamente pelos órgãos internacionais que o presidente da UNE afirma terem guiado as medidas tucanas no período anterior. “No Brasil, o Banco Mundial financia dois grandes projetos de educação, (...) foi convidado pelo MEC para apoiar a reforma universitária. O investimento em desenvolvimento humano do Banco no Brasil envolve 10 projetos, totalizando US$ 1,44 bilhão — representa um terço do programa do Banco no Brasil, 28% do total da América Latina e 16% do investimento mundial do Banco nessa área”, expõe o texto, citando também dados do Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC), de que em 2004 as verbas do Banco Mundial no Orçamento da união alcançaram R$576 milhões e, em 2005, tiveram um salto de 1000%, totalizando R$5,97 bilhões.

REUNI O Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) aprovado pelo presidente da República e pelo Ministro da Educação, Fernando Haddad, em abril de 2007 com o objetivo de melhorar a educação no país com um prazo de 15 anos, abarca um conjunto de decretos, projetos de lei, resoluções e portarias que dão continuidade à reforma universitária. Faz parte do plano o Decreto n° 6.096/07, que dá origem ao Plano de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI). O REUNI foi instituído em 2007 com o objeti-

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Analfabetismo em países da América Latina em 2007 35 30 25 20 15 10 5 0

Cuba 0,2%

Uruguai Argentina 1,9% 2,8%

Chile 4,3%

Venezuela 7,0%

Equador 9,0%

Brasil 11,4%

Bolívia 13,3%

Nicarágua Guatemala 23,3% 30,9%

FONTE: Clade (Centro Latino-Americano de Desenvolvimento)

vo de “ampliar o acesso e a permanência na educação superior”, adotando uma série de medidas para “retomar o crescimento do ensino superior público, criando condições para que as universidades federais promovam a expansão física, acadêmica e pedagógica da rede federal de educação superior”. Entre as suas metas, está o aumento de quase 100% da relação alunos/professor na graduação, passando da média de 10 alunos por docente, para 18. “Isso no senso comum parece normal, mas o cálculo de média esconde o fato de que um professor trabalha em mais de uma disciplina por semestre, que nós temos disciplinas que exigem turmas pequenas. A taxa de um professor para 18 alunos só existe nas instituições privadas de pior qualidade”, afirma Leher. Outra meta é alcançar o índice de 90% de aprovação. “Esse patamar é um enigma. Quando estudamos a educação superior, só temos um momento na história com 90% de conclusão, no Japão, em um contexto de alto índice de suicídio de crianças e jovens” conta Roberto Leher. Atualmente, o índice de aprovação nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), composta por países com alta economia, alcança 75%. Um artigo do decreto promete às universidades que cumprirem essas metas um acréscimo de até 20% de seus orçamentos, mas a determinação está condicionada à capacidade orçamentária e operacional do MEC e terá que estar dentro do orçamento anual do Ministério. Augusto Chagas acredita que “estamos conseguindo completar um ciclo de duplicar a oferta de matrículas. É um aumento expressivo, é o ritmo que o Brasil de fato precisa perseguir nesse próximo período”. O estudante afirma que o número de jovens de 18 a 24 anos entrando na universidade está por volta dos 15%. “Nosso déficit sempre foi enorme, então, acreditamos que é bastante expressivo duplicar o número de vagas. O

Brasil voltou a investir na universidade pública. Foram criadas 14 novas universidades federais e mais de 130 expansões universitárias”, analisa. Para Clara Saraiva a visão é outra. “Dobrou o número de alunos, mas não dobrou a quantidade de verba. Além disso, essa verba extra sequer tem sido garantida e esse valor tem sido muito aquém da necessidade. Estão entrando muitos estudantes nas universidades públicas, criando uma série de cursos novos sem qualquer fundamento pedagógico”, critica Saraiva. A estudante acredita que o REUNI aprofundou os problemas das universidades públicas. “Ao invés do governo se utilizar dessas verbas para resolver problemas anteriores, como assistência estudantil, infra-estrutura, falta de professores, qualidade de ensino e currículos defasados, encheu as federais de estudantes e criou novos problemas”, define. A avaliação de Arelaro é de que se o projeto do governo anterior era decididamente de privatização do ensino superior, “grandes empresas que fazem do ensino superior um lócus privilegiado de lucro e, portanto, tratando a educação como uma mercadoria, parece que no governo Lula houve um esforço para fazer uma espécie de média entre os dois lados, entre o investimento que passou a ser feito nas universidades públicas e o que está sendo repassado às privadas, por meio do PROUNI”.

PROUNI O PROUNI, outro pilar da reforma universitária, foi aprovado como medida provisória (MP 213/04) em setembro de 2004 e institucionalizado pela Lei nº 11096 no ano seguinte, tendo como finalidade a “concessão de bolsas de estudo integrais e parciais em cursos de graduação sequenciais de formação específica, em instituições privadas de educação superior”. “Tem uma pesquisa que mostra que sequer 10% dos pais ou mães de estudantes do PROUNI chegaram a con-

cluir o ensino superior, então é uma turma, que às vezes, é o primeiro da família que consegue chegar à universidade. Já são 700 mil pessoas que chegaram à universidade através desse programa”, destaca Chagas. As instituições de ensino superior (IES) que aderem ao PROUNI têm, além de autorização automática para a ampliação de vagas, isenção fiscal do Imposto de Renda de Pessoas Jurídicas (IRPJ), da Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins), da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) e da Contribuição para o Programa de Integração Social (Pis/ Pasep). O programa admite também que as escolas sem fins lucrativos e as instituições beneficentes (filantrópicas, confessionais e comunitárias) tenham um número obrigatório menor de contrapartida em bolsas. No artigo O PROUNI e os muitos enganos escrito no ano em que o PROUNI foi aprovado, os autores Ivan Valente (hoje deputado federal pelo PSOL, mas na época membro da Comissão de Educação da Câmara pelo PT) e Otaviano Helene, professor do Instituto de Física da USP, apontam que a renúncia tributária em favor das instituições de ensino superior privadas “alcançou, em 2003, cerca de R$ 870 milhões; somada à renúncia previdenciária, de R$ 462 milhões, aos débitos previdenciários, de R$ 184 milhões (maio de 2004), e aos gastos do sistema de financiamento estudantil (FIES), de cerca de R$ 900 milhões, chega-se à cifra de R$ 2,4 bilhões. Já no custeio das 54 universidades federais o governo aplicou R$ 695 milhões. Para quem acha que as IES privadas podem quebrar ou reduzir a concessão de bolsas, vale lembrar que o faturamento do conjunto delas (com ou sem fins lucrativos) triplicou desde 1997 e alcançou R$ 10,5 bilhões em 2002”. A principal crítica que se faz ao programa é a transferência de dinheiro público para a iniciativa privada de modo que uma política federal estaria a serviço do salvamento das universidades pagas. “Hoje só 14% dos jovens entre 18 e 24 anos tem acesso ao ensino superior. 4% têm acesso ao ensino superior público. Nós fizemos uma conta que se colocarmos no papel todos os projetos de expansão do governo Lula, demoraria 59 anos para que 30% dos jovens tenham acesso ao ensino superior, que é uma meta que o Plano Nacional de Educação previa para 2010”, relata Camila Lisboa. Para ela, “um programa que favorece os donos das universidades não vai garantir o acesso ao ensino superior a todos os jovens”. Roberto Leher também é bastante crítico ao PROUNI e acredita que o programa é um ótimo negócio para as instituições privadas. “A contrapartida que as universidades privadas fazem com o PROUNI é pífia”, comenta. Segundo Leher, o governo paga cerca de R$ 1050 por uma mensalidade do PROUNI, sendo que na mesma universidade, um estudante sem assistência pagaria R$ 600. “Além disso, o número de bolsas oferecidas entre 2005 e 2008 foi cerca de 610 mil. Porém, vemos que somente 50% do total foram efetivamente ocupadas. Isso significa dizer que as novembro 2010

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instituições privadas aprenderam a burlar a pequena contrapartida para ficarem isentas de impostos”, conclui. O educador Moacir Gadotti é favorável ao PROUNI como uma política conjuntural e não como uma política definitiva. “Se fosse possível tirar o subsídio do ensino privado e por no público, seria a melhor opção, mas provisoriamente, criar um programa que facilite o acesso ao aluno que precisa urgentemente de uma universidade é muito positivo. E mesmo assim o governo construiu muitas escolas técnicas e universidades federais”, analisa Gadotti. Chagas argumenta que a UNE considera o PROUNI bastante avançado e defende a sua expansão, pois o déficit de vagas no ensino superior brasileiro é muito grande: “precisamos ampliar a rede pública, mas a velocidade com que se é possível expandi-la não é suficiente para garantir acesso a pessoas que tem demanda de chegar à universidade hoje, precisamos de mecanismos para oferecer acesso imediato”. Além disso, considera a crítica de que o programa define-se por dinheiro público sendo investido na universidade privada um “erro de conceito”. “A Constituição de 1988 garantia isenção para boa parte das instituições de ensino e a contrapartida social era maquiada, distorcida. Elas criavam programas de bolsas próprias e escolhiam ao seu critério como era a distribuição de bolsas. Então o PROUNI regulamentou o que já existia de isenção fiscal”, afirma. A professora Lisete Arelaro, apesar de enxergar o programa como um “projeto de financiamento de recuperação das instituições privadas sem nenhuma discussão da qualidade de ensino que elas vinham oferecendo”, acredita que a situação é bastante delicada. “Na medida em que de fato se ampliaram as vagas, você passou a ter um problema social extremamente complicado, quer dizer, você faz o quê agora?”, questiona. “Estamos numa situação em que é impossível para qualquer ministro de qualquer partido acabar com o PROUNI. Porque seria uma comoção social. Criaram uma situação contraditória de ser irreversível, a curto prazo, ao passo em que não significou empenho para a melhoria da qualidade de educação superior do Brasil, mas efetivamente cumpriu uma função social de abrir o espaço. O que isso significa nós vamos discutir daqui a 15 anos”, elucida.

Universidade Aberta Instituída em 2006 pelo Decreto nº 5800/06 para “o desenvolvimento da modalidade de educação à distância, com a finalidade de expandir e interiorizar a oferta de cursos e programas de educação superior no País”, a Universidade Aberta do Brasil (UAB) foi outra das significati-

vas medidas tomadas pelo governo Lula no que tange a política educacional brasileira. Das poucas convergências de posicionamento dos entrevistados, a reprovação do ensino à distância para os cursos de licenciatura foi uma. “O maior número de cursos à distância que tem sido estimulado é a licenciatura, o que para nós é um crime. Vamos pagar eternamente pelo que tem sido entendido como qualificação e formação de professores”, aponta Lisete. Na opinião do presidente da UNE, com o desenvolvimento tecnológico o processo de criação de cursos de ensino à distância parece irreversível. “A principal batalha que devemos nos dedicar é a ideia de regulamentar duramente essa questão para exigir que haja um padrão mínimo de seriedade e qualidade, e usar essas tecnologias para o que há de positivo, enquanto uma ferramenta para democratizar a educação”, opina, explicitando que dentre os critérios rígidos, as licenciaturas não podem ser cursadas à distância “e o papel do governo federal é fundamental para essa regulamentação, acredito que as iniciativas têm sido insuficientes nesse sentido”. De acordo com o professor Erson Martins de Oliveira, ex-diretor da Associação de Professores da PUC-SP (APROPUC) no artigo Educação à distância; a nova velha escola, o foco fundamental para a implementação do ensino à distância foi a necessidade de cumprir uma exigência da Lei de Diretrizes e Bases. “Estimou-se que setecentas mil novas vagas seriam necessárias. Em vez de criar uma universidade de ensino presencial para formação de professores, o governo entregou essa tarefa às instituições de ensino à distância. Abriu-se, assim, caminho para o ensino privado à distância”, diz. Entre as grandes empresas que apostam no modelo, destaca-se a Fundação Roberto Marinho, alcançando o número de aproximadamente 400 mil alunos. “Erguese o império dos negócios on-line em educação. Há muito, as universidades públicas se tornaram um gueto perante a portentosa estrutura empresarial montada para o ensino superior”, adverte Oliveira no artigo. Para Clara Saraiva, o projeto se insere numa lógica de metas de expansão, criando “uma impressão de que tem aumentado o número de pessoas formadas no ensino superior quando essa formação nem passa perto do tripé entre ensino, pesquisa e extensão, muitas vezes nem se estabelece a relação professor/aluno”. Roberto Leher avalia que a expansão da educação à distância no Brasil é exponencial, “no último ano de FHC tínhamos cerca de 25 mil estudantes graduados a distância, já no governo Lula temos cerca de 750 mil estudantes ingressando nos cursos à distância”. Entre 2007 e 2008, o número de matrículas nas universidades federais aumentou 12%

“O padrão de educação superior foi mundializado e compreende, de fato, que a educação é um negócio” Roberto Leher

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e o número de matrículas no ensino à distância cresceu 96%. “Como no Brasil se autorizou – para mim de forma absolutamente surpreendente – que 20% da carga curricular pudesse ser ministrada por ensino à distância lato sensu, na verdade o que se teve foi uma redução da formação do professor e de outras carreiras” reflete Arelaro. “A maioria das escolas privadas que eu tenho acompanhado não mantém qualquer estímulo. Não quer dizer que não se acredite em formação continuada, mas sem dúvida uma consistente formação teórica é fundamental”, descreve Lisete. Leher acredita que somente os alunos com um ensino prévio conseguem concluir os cursos à distância, já que “é uma estratégia perversa, pois desloca um esforço enorme do aprendizado para o próprio jovem, que basicamente tem que ter uma atividade de autodidata”.

Professores Uma medida do Governo Lula bastante comemorada pelos educadores foi o estabelecimento de um piso nacional para os professores. Na realidade essa determinação já existia na Constituição de 1988, mas foi retirada pela emenda 14 que criou o FUNDEF no governo FHC. A deliberação pelo piso nacional dos docentes voltou em 2006 com o FUNDEB e passou a ser estabelecida em 2007, determinando também que qualquer que seja a jornada de trabalho do professor, 1/3 dela seria destinada a atividades extraclasse, como preparação de aula, correção de trabalhos, pesquisas, etc. Cinco estados (não por acaso governados pelo PSDB: Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Ceará, Minas Gerais e Mato Grosso) entraram com uma ação de inconstitucionalidade contra o plano. “E qual o motivo dessa ação, se eles estão pagando o salário estabelecido pelo piso? Pois o piso obriga que 1/3 das horas do contrato do professor seja destinado à pesquisa e extensão”, critica Gadotti. Os governos tucanos alegaram que esse artigo intervinha no direito do estado estabelecer a sua jornada de trabalho. “Essa ação não foi votada até hoje. Com esse atraso, não sendo julgado o mérito, governos estaduais e municipais não se sentem na obrigação de cumprir o piso”, relata Lisete Arelaro. Roberto Leher acredita que, apesar dos avanços, a medida ainda é insuficiente: “Nos últimos oito anos a grande massa de professores no Brasil ainda segue com um padrão indigno de remuneração. Foi institucionalizado o piso, o que é uma questão importante somente pelo fato de existir um piso, mas é inferior a dois salários mínimos para 40 horas de trabalho”. Leher ainda ressalta que, durante a década de 1990, o movimento de educação reivindicava um piso de cinco salários mínimos e 50% da carga horária para atividades extraclasse. Mesmo considerando um avanço a implementação do piso nacional, Moacir Gadotti faz um diagnóstico pessimista da formação de novos professores, já que eles cumprem um papel de meros reprodutores de informação, apontando que em

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o funil da educação

36% da população têm o

Ensino Fundamental incompleto

23% da população têm

Ensino Fundamental

o Ensino Médio completo

Ensino Médio

10%

Ensino Superior

Apenas da população têm o Ensino Superior completo

FONTE: PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) 2009

alguns casos, como nos governos peessedebistas, o professor recebe uma apostila e é obrigado a seguir um programa preestabelecido. “A concepção ainda é arcaica. Todas as teorias políticas mostram que se o professor não pensa, o aluno também não pensa, se o professor não pesquisa, o aluno também não pesquisa. No âmbito do governo federal, nós não temos uma política de formação de professores atualizada” analisa Gadotti. Leher faz uma crítica semelhante, mas aponta os motivos por trás da situação: “Desde a época mais dura do neoliberalismo, os organismos internacionais diziam que para fazer a reforma educacional no sentido de melhorar a eficiência era preciso quebrar o monopólio dos professores sobre o conhecimento, até porque eles fazem greves e ficam resistentes à reforma”.

funil da educação Mesmo com diferentes avaliações, o fato é que a educação no Brasil continua a apresentar números muito insatisfatórios. Segundo o Pnad de 2009, das pessoas de 25 anos ou mais no Brasil, 23% terminaram o ensino médio e apenas 10,6% tem nível superior completo. 36,2 milhões de pessoas de 10 anos ou mais (22,2% da população) não estudaram ou frequentaram a escola durante menos que 4 anos. Mesmo assim, Moacir Gadotti acredita que o governo Lula iniciou uma “mudança na mentalidade do povo brasileiro, que tem mais auto estima, mais vontade de alcançar seus objetivos. Estamos longe de sermos uma sociedade justa, ainda somos um dos países mais injustos do mundo e isso reflete na educa-

ção, mas o caminho está traçado”. Para Roberto Leher é preciso reconstruir um movimento de educação autônomo. Ele relembra que durante o governo FHC, apesar das políticas prejudiciais à educação, “os educadores e o movimento estudantil estavam organizados, debatendo e se articulando, o que dá um real protagonismo aos trabalhadores de educação e aos estudantes”. Durante esse período, os educadores formularam o Plano Nacional de Educação – Proposta à Sociedade Brasileira, porém, segundo Leher, a agenda criada pelo movimento nos anos 1990 foi ignorada pelo governo Lula. As divergências entre as opiniões da UNE e da

Anel refletem os rachas do movimento estudantil a partir da chegada petista ao governo federal em 2002. A organização dos estudantes sofreu grandes transformações, polarizando-se entre os setores da direção majoritária da UNE, casada às políticas governamentais e os setores de oposição, divididos entre os que racharam com a entidade no intuito de criar outra paralela – hoje a Anel – e grupos que se mantém na UNE como Oposição de Esquerda. Estes dois últimos recentemente se encontraram em um seminário sobre a educação realizado em Uberlândia com o intuito de tirar um calendário de lutas unificadas e como um passo para a reorganização do movimento estudantil que consideram combativo. Leher considera equivocada a estratégia de alguns setores do movimento de educação “dirigidos por forças que estão na base do governo de defender a escola pública sem poder criticar abertamente o governo Lula”. O docente acredita que a falta de pressão dos movimentos foi um fator preponderante nos últimos oito anos. “E como não há mais lutas pela educação pública, como não há mais críticas abertas, o governo acabou aceitando. Não sei se foi uma incorporação por convicção ou se eles incorporaram a agenda empresarial por pressão, ou pela combinação dos dois. O fato é que o governo incorporou a agenda criada pelo Movimento Compromisso todos pela Educação, do setor empresarial”, conclui Roberto Leher. Otávio Nagoya é jornalista. Gabriela Moncau é estudante de jornalismo. novembro 2010

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O reconhecimento dos milhares de Núcleos Quilombolas espalhados pelo país significa não só o pagamento de uma dívida histórica para com aqueles que por séculos produziram com suor e sangue as riquezas do Brasil, mas também a preservação da cultura quilombola, a preservação do meio ambiente e o reconhecimento de quão grande foi a luta de um povo que nunca se dobrou ao poder dominante, que lutou e luta por seus direitos.

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Tatiana Merlino

Félix, torcedor do time de beisebol cubano Industriales, define-se como um rebelde nato.

A história do escritor e jornalista Félix Contreras confunde-se com a da revolução que ajudou a tornar realidade. Por isso mesmo ele não tem pudor em criticá-la, para que o socialismo em Cuba se transforme permanentemente. Fotos: Paula Sacchetta

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O poeta,

a ilha socialista e suas transformações

a

mãe era analfabeta. A família, negra e pobre. Foi num dia de dezembro de 1939, na província de Pinar del Río, no ocidente da ilha de Cuba, que nasceu Félix Contreras, “um filho da fome”, como ele se define. A pobreza conduzia a família por uma vida itinerante. No ritmo das safras de cana, de tomate, de tabaco, percorriam aquela Cuba então miserável. Muito bonita, a mãe dormiu com um homem de família rica por dinheiro. “Foi a trepada da fome”. Nove meses depois, veio ao mundo o poeta, pesquisador, jornalista e escritor cubano. Com inúmeros livros publicados (perdeu a conta de quantos) sobre música, poesia e jornalismo, e

uma enorme paixão por Cuba e pelo socialismo cubano, ele esteve no Brasil pela quinta vez entre outubro e novembro deste ano. Na estadia de dois meses, participou de atividades culturais em São Paulo e Rio de Janeiro e divulgou seu livro Eu conheci Benny Moré, uma obra sobre a vida e trabalho do artista. Félix é autor, também, de livros importantes como La música cubana, una cuestión personal e Porque tienen filin. O poeta cubano ainda biografou o pianista e compositor Bola de Nieve para a editora Cosac Naify, que deve lançá-lo no início do ano que vem. O jornalista já afirmou, em entrevistas, e reafirmou na nossa conversa, que ama a revolu-

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ção e morreria por ela, mas quer estar vivo para transformá-la. “As coisas acabam ficando velhas. Em um processo revolucionário, a cada dez anos, as coisas mudam”. Entre as mudanças, ele apoia as transformações na economia cubana aprovadas recentemente – em 13 de setembro, o governo anunciou a demissão de 500 mil servidores públicos e o estímulo à formação de cooperativas ou à iniciativa econômica pessoal. O homem magro, de bigode grisalho, sobrancelhas descabeladas e igualmente grisalhas define-se como um rebelde nato. Talvez o seja mesmo, pois ele ousa criticar aspectos do socialismo cubano (pela esquerda, é claro) mesmo Cuba sendo um tema que polariza opiniões, no geral passionais, contra ou a favor da ilha de Fidel. Mas, como bom revolucionário, o escritor critica o sistema socialista para que ele melhore. “Eu gosto que a revolução mude com os revolucionários e não com os inimigos. Mas, quando um revolucionário tem vontade de mudança, sempre é olhado com desconfiança. E eu não sei a causa disso. Me chama muito a atenção o fato de a esquerda não gostar da crítica”, alfineta. Usando óculos e uma boina, que tira na metade da conversa, e segurando um charuto que não acendeu durante a entrevista de três horas, Félix defende as conquistas da Revolução Cubana, que ele, como guerrilheiro, ajudou a triunfar. Com a vitória da revolução e a derrubada da ditadura de Fulgêncio Batista, em 1° de janeiro de 1959, a vida do filho da fome mudou completamente. “O país começou a se transformar, em 59 mesmo acabou o desemprego”. Mas, do ano em que nasceu até a vitória dos barbudos rebeldes, passaram-se duas décadas, de muitas dificuldades. Aos cinco anos, a mãe foi embora. O menino foi adotado por um casal de parentes. A felicidade da criança que achava que ia ter pai e mãe durou quatro anos, pois. Aos nove, foi tirada da escola e obrigada a trabalhar numa loja de frutas e verduras recém-adquirida pelo pai adotivo. “Fiquei na escravidão. Não é uma metáfora, era literalmente na escravidão, das seis da manhã às oito da noite”. A situação do menino deixava a avó revoltada, que sempre dizia: “Filho da puta do seu pai, tem dinheiro e você aqui, trabalhando como um escravo”. Um dia, o garoto achou que era hora de dar um basta: “Vou me matar”, disse à avó. “Não, não. Lá nas montanhas, na costa norte de Pinar del Río, há um povoado que se chama San Diego de los Baños. Ali há águas termais. Há muitos turistas dos Estados Unidos e Europa. Lá fica a família do seu pai biológico. Peça ajuda a ele”, disse, encorajando o neto, já adolescente.

“Eu não tinha consciência política nenhuma, somente um sentimento de justiça, de solidariedade”.

Foi então que em 1957, aos 18 anos, o jovem pulou a janela de casa e fugiu. “Eu era muito rebelde. Nasci com essa sorte debaixo do braço”. Ao chegar ao vilarejo, Félix encontrou o irmão de seu pai, que era dono de um hotel. E por ali ficou. Comia bem, estudava de manhã. À tarde e de noite, trabalhava no bar do hotel. “Eu estudava, lia, comprava livros”. Também recebia gorjeta dos turistas. E enganava os visitantes estadunidenses, contra quem nutria antipatia desde a infância. O truque era vender-lhes bilhetes de loteria já usados. Certa vez, numa visita à avó em Pinar del Río, perguntou sobre um amigo. “Foi morto”. Sobre outro. “A ditadura matou”. Era o ano de 1958, e o regime de Batista torturava e matava opositores. O jovem não teve dúvida. Entrou na luta armada. Especificamente, na guerrilha urbana, em uma célula clandestina. “Eu não tinha consciência política nenhuma, somente um sentimento de justiça, de solidariedade”. Durante seu tempo de militância, uma das tarefas revolucionárias que lhe foram incumbidas foi arrumar um trabalho numa farmácia. Então, ele conseguiu emprego na maior farmácia da cidade, e, nas noites de plantão do estabelecimento, separava pacotes de algodão, sabonete e mercúrio e levava aos homens da guerrilha de Fidel Castro. Os sacrifícios do período de guerrilheiro valeram a pena. “Você não pode acreditar os benefícios que a revolução trouxe à Cuba, e de um modo tão radical...”. O encontro definitivo com a arte, poesia, literatura e teatro veio em seguida. No mesmo ano da revolução, monta-se um grupo de teatro em Pinar, e o jovem, que nunca tinha visto um espetáculo, vira um de seus integrantes. Em 1961, o governo cubano inicia um plano de bolsas de estudo em Havana. E Félix ganha uma delas, na primeira turma da Escola Nacional de Instrutores de Arte (Enia), fundada em 1961, que o introduziu no mundo da cultura. Pouco antes, havia conhecido a poesia de Carlos Drummond de Andrade, quando comprara uma versão em espanhol da revista brasileira O Cruzeiro. “Eu fiquei louco, fascinado com a forma, com a expressão literária dos poemas. Todas as noites, eu dizia: um dia eu vou a esse país. E aqui estou, pela quinta vez”. Nesse período, morando em Havana, leu os clássicos da literatura, indicados pelos melhores professores de Cuba. Para recuperar o tempo perdido, o jovem dormia, por noite, apenas três horas. Como professores teve os melhores escritores da ilha. Isso, explica, foi uma exigência de Fidel, “esse maravilhoso homem”. “A natureza não faz outro louco como esse”. O comandante em chefe da Revolução Cubana fez questão que os “caipiras” cubanos conhecessem Drummond, Cervantes... O talento de Félix para poesia foi sendo percebido pelos professores, que orientavam a sua leitura. “Eles diziam: ‘Leia a poesia francesa, os socialistas franceses, os clássicos espanhóis, portugueses, Fernando Pessoa’. E eu peguei cultura ali. Consumia cultura cubana do século 19, que é fabulosa. Procurei, investiguei, pesquisei muito e fiquei apaixonado. Sou até hoje”.

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Depois de formado, o poeta foi enviado para as montanhas de Pinar del Río para educar os camponeses. Finda a tarefa que lhe havia sido atribuída pela revolução, ele retorna para Havana com a ambição de dar continuidade ao desenvolvimento de sua capacidade intelectual e o sonho de reencontrar a mãe. Mas, já aos 24 anos, vivia com um dilema: “Do que vou viver? Gosto de ser professor de arte, gosto, mas não como profissão. O que vou fazer da minha vida?”. Além disso, não tinha onde morar. Ficou dormindo na casa de um e outro colega da época da faculdade e passou a frequentar a União Nacional de Escritores e Artistas de Cuba. Um dia, o conhecido poeta nacional Nicolás Guillén o procurou e disse: “Você tem muito futuro, quero te ajudar”. Até então, Félix havia publicado seus poemas apenas em uma revista que reunia o trabalho de estudantes, intitulada A Semente. Félix dividiu com o poeta comunista seu questionamento existencial: – Nicolás, tenho uma dúvida terrível em minha vida: É possível, é moral, revolucionário viver como poeta?”. – Não, ninguém pode viver, somente Pablo Neruda, que publica muitos livros. E na Cuba revolucionária trabalha-se em alguma coisa, e se escreve poesia em casa. Não fale a ninguém, porque sou comunista e o partido não quer que eu fale nisso, mas é muito chato trabalhar em gabinete. Entre no jornalismo, escreva crônicas. Nós, poetas, fazemos as crônicas mais lindas do mundo. Um ano antes da conversa de Contreras e Guillén, Fidel Castro havia organizado um jantar de Natal para as pessoas “mais esquecidas e marginalizadas da história de Cuba”, os carvoeiros da região de Ciénaga de Zapata, área grande e isolada pela água. “Eles estavam ali esquecidos, não tinham nada e o primeiro hospital e escola que conheceram foi graças à revolução”. Quando Fidel foi inaugurar a escola, os homens da região disseram: “Fidel, não conhecemos o jantar de Natal, como é?”. “Toma-se vinho, come-se porco”, respondeu. O líder cubano voltou ao local em dezembro e organizou um jantar para 500 pessoas. Ao final, perguntou: “Onde será publicada a notícia do jantar com os caipiras?”. “No jornal Revolución”, ouviu como resposta. “Não gosto, pois é um jornal muito pequeno. Gostaria que saísse numa revista grande como Life e Cruzeiro. Vamos fazer uma revista”. É desta forma que nasce a primeira grande revista cubana, chamada Cuba Internacional. “Foi o melhor jornalismo revolucionário. Todos queriam ficar ali”. Nicolás Guillén disse à direção da revista que havia um poeta, “um pouco louco”, que poderia trabalhar com eles. Assim, Félix entrou para o jornalismo. Porém, ele não tinha ideia do que era fazer jornalismo. Foi mandado para a rua, a escrever sobre a primeira coisa que lhe chamasse a atenção. “E eu saí caminhando, caminhando... e havia uns pedreiros reformando um prédio muito belo do século 18. Uma casa bela, estilo arquitetônico maravilhoso. Estavam criando um museu de artes aplicadas. Escrevi uma crônica e gostaram muito”. novembro 2010

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“Começamos a fazer críticas à revolução,à burocracia, às medidas punitivas. Uma revolução que não é criticada se converte em uma religião, um dogma”. Os anos seguintes foram dedicados a um jornalismo “antropológico”, como define Félix, “sobre o que faz o homem, o que comem em Santiago de Cuba, em Baracoa, o que pensam, o que falam que fazem. Um jornalismo que nunca se havia feito em Cuba, o jornalismo do homem cotidiano, construindo dia a dia a sua vida”. O estilo da revista era próximo ao da literatura, “pegando o jeito do romance, surpreendendo ao final. Era parecido com o novo jornalismo americano, com frases bem feitas, descrição”. Em maio de 1966, junto com onze poetas e o cantor e compositor Silvio Rodríguez, Félix lança o primeiro manifesto estético da literatura cubana e cria a revista El Caimán Barbudo (o jacaré barbudo). “Começamos a fazer críticas à revolução, à burocracia, às medidas punitivas. Uma revolução que não é criticada se converte em uma religião, um dogma”. Porém, a liberdade que os poetas e jornalistas gozavam de fazer críticas e jornalismo literário foi banida com a chegada do stalinismo à ilha de Cuba, que perseguiu dissidentes políticos e homossexuais. “O stalinismo é uma visão muito chata de que escrever bonito, procurar a beleza literária, é irrelevante, secundário. O que prevalece é o fato político, cumprimento econômico, e é um erro”. A implantação do modelo soviético em Cuba teve início em março de 1970, “com os velhos membros do Partido Comunista, de formação soviética cega, como Carlos Rafael Rodríguez e

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Blas Roca. Eram fanáticos da linha soviética do comunismo e sonhavam aplicar essa política no socialismo cubano. Em 70, começam a chefiar cargos vitais, estratégicas no campo da cultura e jornalismo”. Logo houve uma reunião, quando os jornalistas ouviram que não poderiam continuar fazendo tal jornalismo “burguês”. “Que façam nos Estados Unidos, que aqui temos que fazer um jornalismo de barricada”. Félix e seus colegas foram demitidos do Caimán e de Cuba Internacional. Ao estilo cala-boca, ofereceram-lhes pagamento sem trabalhar. Doze folhas de cheque, correspondentes a cada mês de salário. Felix não aceitou, e ficou, de 1970 a 1977, trabalhando como faxineiro. A maioria dos outros colegas saiu do país, e nunca mais voltou. Desse período, ele também se recorda, não sem deixar de se emocionar, da perseguição aos homossexuais. “Eu tinha muitos amigos homossexuais que foram expulsos do teatro, amigas lésbicas perseguidas. O stalinismo é uma coisa terrível”. Por sorte, acredita, o povo cubano vive da inconformidade: “Esse povo cubano tem uma coisa linda, ele é muito rebelde”. O jornalista elogia a iniciativa do líder cubano Fidel Castro, que, recentemente, admitiu sua culpa pela perseguição e marginalização dos homossexuais em Cuba nos anos 1960 e 1970, quando foram levados para campos de trabalho. “Ele e Raúl Castro foram, sem dúvida, os responsáveis por essa perseguição. Eles estavam sabendo que havia um campo de concentração para onde mandavam homossexuais, e também artistas que não eram homossexuais, como Pablo Milanés, que esteve por dois meses num dos campos”. Durante esses anos, Félix sofreu muito. O jornalista mandava cartas e cartas para Fidel, “chamando-o de filho da puta”. Depois de muitas queixas e brigas, em 1977 houve uma mudança grande na área de cultura e jornalismo. “Nós, os críticos do realismo socialista, o combatemos muito e ganhamos a batalha. O personagem do Stalin foi mandado para casa”. O governo cubano reconheceu parte dos erros e, nesse mesmo ano, criou o Ministério da Cultura, que passou a ser comandado por um jovem das letras, Abel Prieto. Autor de obras publicadas em Cuba e países da América Latina e Europa, Félix assume-se como um grande apaixonado pelo jornalismo de revista, mas lamenta que hoje, em Cuba, ele seja “muito ruim e doutrinário, controlado por uma burocracia”. “Espero que as mudanças na economia reflitam em mudanças em outras áreas”. Contrariando o que diz a imprensa nacional e internacional acerca das medidas econômicas anunciadas recentemente em Cuba, Félix Contreras é um grande defensor das mudanças, “sobretudo na pequena economia”. Ele lembra o Período Especial, em que, com o fim do socialismo real, em 1989, a economia cubana sofreu um grande baque, pois a União Soviética sustentava 89% da economia da ilha. Além disso, o jornalista acredita que o país sempre teve um problema, que nunca foi debatido, que é uma economia excessivamente controlada pelo Estado, resultado da estatização completa da economia,

ocorrida em março de 1968, na chamada “ofensiva revolucionária”, levando à burocratização e empobrecimento da produção. “À época, declarou-se guerra a toda pequena propriedade. Nós criticamos muito isso, é um erro”. Félix considera que esse controle chega a ser doente. “Uma economia não pode ficar cem por cento nas mãos de um governo. Ele está lá para controlar, não para dirigir”. Para ele, o Estado não pode se ocupar da produção, por exemplo, de botões. Estes poderiam ser fabricados em família, numa cooperativa de cinco pessoas. Ao governo, caberia, então, o controle da grande economia, a mais estratégica, como petróleo e eletricidade. “Ao se perder tempo controlando a pequena economia cotidiana do homem, a vida da rua, perde-se a visão da economia grande, da macro”. Desde o período da revista Cuba Internacional, garante o jornalista, “falávamos que o governo estava perdendo o rumo ao eliminar o pequeno negócio, aquele que vendia o bolo na rua, uma limonada”. Hoje, tardiamente, segundo o poeta, o governo está procurando dinamizar e revitalizar a economia, procurando dar oportunidades a setores da população. E, diferentemente do que tem sido afirmado, as iniciativas são absolutamente compatíveis com o socialismo. “Essa economia não vai trazer danos para a revolução, pelo contrário. Esses milhões de pessoas que foram demitidas agora não ficarão sem trabalho como a imprensa fala aqui no Brasil, elas passarão a trabalhar”, garante Félix. Além disso, o povo cubano está contente, pois há muitos anos espera pelas mudanças. “A vida estava estática”. Agora, haverá espaço para iniciativas como fábricas de chapéu, sapato, chinelo. “Coisas pequenas, mas que a população está necessitando”. O novo modelo cubano também pode ajudar a diminuir a dependência histórica da ajuda econômica externa, dificuldade do regime socialista desde 1959. “Há demanda por produção. Assim, ajuda a diminuir a importação”. Sobre a possibilidade de haver exploração e desigualdades sociais decorrentes da liberação de microempresas que podem contratar empregados, o jornalista acredita que a liberação de pequenos negócios é um “câncer necessário”. “Nós não queríamos o turismo ocidental, mas foi um mal necessário, ele salvou a revolução, pois mantemos as grandes conquistas. Além disso, até 1968, ninguém ficou rico com aquela pequena economia”. O homem divertido e simpático, com sotaque cantado, chega à conclusão que é um romântico. E acredita na Revolução Cubana, à qual atribuiu o reencontro, em 1968, com a mãe, que tinha aprendido a ler, era cantora, lia poesia e havia comprado o livro do filho. “Isso só é possível com uma revolução”. Revolução que deve reinventar-se, manter-se jovem, como ele, que, nos seus até agora 71 anos de vida, já se casou três vezes. “Mas ainda faltam mais cinco”, brinca.

Tatiana Merlino é jornalista tatianamerlino@carosamigos.com.br

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Eduardo Matarazzo Suplicy

PERICULOSIDADE VITALICIA [SONETO 3574]

Com carinho ao Presidente

Quem houvera de suppor? Mexicanos é que são felizardos! “Escriptor”, la no Mexico, é “funcção”!

petrolifera, devidamente lastreados por algum fundo garantidor, como, aliaz, ja se ensaiou... Está ahi uma temptadora perspectiva para um governo de continuidade lulista, hem? Como parte interessada, eu não rejeitaria a “bolsalitteratura”, mas, a titulo de “licença poetica” e de “addicional de cegueira”, eu requereria, em vez da chapa branca, uma charta branca para satirizar as instituições, coisa que, por signal, os humoristas continuam pleiteando...

Honrado em escrever para “Caros Amigos”, como também o faz o ex-Presidente Fidel Castro, aproveito esta oportunidade para lhe fazer um apelo público. Quem escreve é um Senador do Partido dos Trabalhadores, eleito em outubro de 2006 para o terceiro mandato pelo Estado de São Paulo, com 8.986.803 votos, 48% dos votos no Estado. Sempre mantive com as autoridades de Cuba um relacionamento de respeito e amizade. Quando Presidente da Câmara Municipal de São Paulo, 1989-90, estive com Vossa Excelência, juntamente com a Prefeita Luiza Erundina de Souza, em audiência no Horto Florestal de São Paulo. Visitei Cuba em quatro oportunidades: duas nos anos 90 – uma com meu filho André, quando participei de atividade voluntária de construção em Havana e outra vez com minha família – e duas vezes em 2009, quando fui recebido por Sérgio Cervantes, amigo do Brasil, e quando realizei palestra sobre a Renda Básica de Cidadania, no Encontro Internacional de Economistas sobre Globalização e Problemas do Desenvolvimento, organizado pela Associação Nacional de Economistas de Cuba. Nesta ocasião, considerei muito positiva a pluralidade de ideias no evento, que contou inclusive com a participação de três economistas norte-americanos laureados com o Prêmio Nobel de Economia. Tenho sido solidário a Cuba para que os EUA encerrem, o quanto antes, o Embargo que tantas dificuldades tem causado ao desenvolvimento de seu País. Assim como o fez o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, considerei positiva a decisão do governo cubano de realizar um acordo com a Igreja Católica pelo qual foram libertadas pessoas detidas por razões políticas e que foram autorizadas a viver na Espanha. Senhor Presidente, meu apelo é para que recomende às autoridades cubanas autorizarem a Sra. Yoani Sanchez, responsável pelo blog “Generación Y”, viajar ao Brasil para participar da exibição do documentário realizado pelo Sr. Cláudio Galvão da Silva, na cidade de Jequié, Bahia, em 26 de novembro próximo. Considero muito importante a disposição do Governo do Presidente Lula de colaborar com a evolução de Cuba, conforme expressou em sua última carta ao Presidente Raul Castro. Tenho a convicção de que esta cooperação se fortalecerá na medida em que Brasil e Cuba consolidem a democracia e a liberdade de expressão. Respeitosamente,

Glauco Mattoso é poeta, letrista e ensaísta.

Eduardo Matarazzo Suplicy é senador.

Para quem mais tarde o for, dão de mil a bolsa! E dão, aos que provam ter valor, de dois mil uma pensão! O governo financia, mas quem faça poesia vira vate official... E o ceguinho? Vira mero puxa-sacco? Eu tambem quero receber addicional! Engraçado: aqui neste paiz quarenta gattos pingados disputam a tapa e tapete seus quinze minutinhos de immortalidade na ABL, remuneradinhos a jeton e com direito a cha, emquanto, no Mexico, qualquer escriptor tem sustento garantido e perpetuo! Nem acreditei, mas uma professora argentina, leccionando nos States, me garantiu a veracidade dessa verdadeira “bolsa-litteratura”. Ja pensaram si a moda pega? Outro dia commentei sobre a lei que officializa a profissão de repentista... e daqui a pouco estarei fallando no cargo de escriptor como funccionario publico! Sim, porque a contrapartida para uma bolsa estatal teria que ser a estabilidade, mas a que preço? Teriam todos os litteratos que fallar bem do governo, sob pena de demissão por descumprimento de clausula contractual? Ora, si o repentista e o romancista teem direito, o jornalista tambem quereria isonomia, e ahi teriamos só imprensa chapa branca. Levando a “bolsaimprensa” em conta, por que não uma “bolsa-parlamento”, que legalizaria o mensalão, tal como a legalização do lobby ou do bicho? Outro effeito collateral seria, naturalmente, a “bolsa-bolsa”, para subsidiar os pequenos investidores no mercado de capitaes, a começar pelos accionistas minoritarios da estatal

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Fidel Castro Ruz

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Ilustração: bruno paes

porca miséria! Glauco Mattoso

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Lúcia Rodrigues

TRABALHADORES PORTUGUESES marcam

greve contra redução de direitos Paralisação geral acontece em 24 de novembro e deve ser a maior da história do país, segundo a Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP). Manifestantes protestam contra cortes nos salários. enviada especial a lisboa

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taxa aplicada a todas as empresas é de 25%. Estamos perante uma situação de imensa subordinação aos interesses econômicos e financeiros.” O sindicalista também ressalta que no primeiro semestre de 2010 um milhão e duzentos mil euros deixaram o país sem pagar um centavo. “O governo não combate a fraude e a evasão fiscal. A economia paralela movimenta 35 milhões de euros e não paga impostos. Não há vontade política para atacar o problema, mas efetua cortes e lança medidas que põem em causa os direitos dos trabalhadores”, critica. A central sindical está convocando uma greve geral para o próximo dia 24 de novembro. A expectativa da entidade é a de que a paralisação seja a maior já registrada na história do país. “Há um consenso geral de que a greve geral é inevitável.” Até mesmo os magistrados devem aderir à manifestação, segundo o sindicalista. O corte nos salários não é a única motivação que leva os trabalhadores portugueses a cruzarem os braços. Eles também terão de arcar com o impacto provocado pela elevação no percentual do IVA, o imposto sobre o valor agregado dos produtos, de 21% para 23%, o que deve acarretar um efeito dominó no reajuste de todos os preços, em especial no dos alimentos. Mas o saco de maldades do governo português não para por aí. O valor das aposentadorias foi congelado e o aumento do salário mínimo para 500 euros, em 2011, é uma incógnita. A Confederação da Indústria Portuguesa já sinalizou que é contra a elevação, apesar de o acordo firmado em 2006 estabelecer esse valor para o próximo ano. Atualmente, o salário mínimo em Portugal é de 475 euros.

Nas rUas por Direitos A reportagem da Caros Amigos conferiu a indignação dos trabalhadores portugueses nas ruas de Lisboa, no último dia 29 de setembro, quando foram realizados protestos em várias cidades da Europa contra a redução de direitos. Mais de 50 mil pessoas marcharam pelas principais ruas da capital portuguesa. No Porto, foram mais 20 mil trabalhadores a engrossar os protestos. Uma das palavras de ordem gritadas pelos por-

Acima, o cartaz da manifestação de 29 de setembro e da esq. para dir. Oswaldo Batista com o filho João, João Eusébio Varzielas e Brígida Costa, funcionários da TAP.

tugueses que saíram em passeata pelas ruas lisboetas foi a de que “o país não endireita, com políticas de direita”, em uma clara alusão às medidas neoliberais adotadas pelo governo do primeiro-ministro, José Sócrates. A manifestação terminou em frente à Assembleia da República, sede do parlamento português. “Os trabalhadores exigem uma ruptura com a política de direita e a mudança à esquerda. A minha candidatura é parte deste movimento”, garante o candidato à presidência da República pelo Partido Comunista Português (PCP), Francisco Lopes. Ele afirmou à reportagem da Caros Amigos que “ao saírem às ruas, os trabalhadores demonstram uma força que pode mudar Portugal e conduzir o país ao desenvolvimento, à justiça e ao progresso social”. O candidato comunista criticou o Partido Socialista (PS) por executar uma política neoliberal à frente do governo. “O PS faz uma política associada ao PSD (Partido Social Democrata). Não se diferencia no essencial dos partidos de direita”, protesta. Portugal adota como forma de governo o regime parlamentarista, em que o chefe de governo é o primeiro-ministro, José Sócrates, do PS, e o chefe de Estado é o presidente da Re-

fotos: lúcia rodrigues

a

Europa vive uma de suas piores crises. Protestos eclodem em vários países da zona euro. Os trabalhadores se levantam contra as políticas neoliberais, adotadas pelos dirigentes governamentais do velho continente, que retiram direitos conquistados ao longo de décadas. Portugal é um dos países em que os trabalhadores vão sofrer as consequências da crise de maneira mais contundente. O governo português acaba de aprovar no Parlamento a redução dos salários dos funcionários públicos, que deve entrar em vigor a partir de janeiro de 2011. Com a decisão, os servidores terão seus vencimentos mensais achatados de 3,5% a 10%, de acordo com o nível salarial de cada função. Os trabalhadores da TAP, a empresa estatal de aviação, e da Caixa Geral de Depósitos, o banco público português, também serão afetados com a redução dos salários. A justificativa apresentada para a tomada de uma medida tão dura, que o governo prefere classificar como de austeridade, se baseia no argumento de que as finanças públicas atingem um nível de desequilíbrio insuportável e que o corte se faz necessário para reduzir gastos e fechar a conta. Esta é a primeira vez na história portuguesa em que os salários sofrem uma redução em seu valor nominal. O efeito cascata da decisão também deve atingir os trabalhadores do setor privado, na medida em que os patrões se sentirão chancelados para alegar que enfrentam dificuldades e precisam reduzir custos com a folha de pagamento de seus empregados. Para o dirigente da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), Armenio Horácio Alves Carlos, os trabalhadores não podem ser responsabilizados por uma crise que não ajudaram a criar. Ele explica à reportagem da Caros Amigos que o governo prefere impor sacrifícios aos trabalhadores ao invés de atacar o grande capital, responsável pelas dificuldades que o país atravessa. “Diariamente os cinco maiores bancos de Portugal têm um lucro de cinco milhões de euros. Além disso, pagam uma taxa de IRC, o imposto que incide sobre pessoas jurídicas de 12,5% enquanto a

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pública, Aníbal Cavaco Silva, do PSD. Lopes assegura que se vencer a eleição, que acontece no próximo dia 23 de janeiro, pretende melhorar as condições de vida dos trabalhadores. “Vou investir na produção, garantir empregos, melhorar os salários, elevar a qualidade dos serviços públicos, além de defender a soberania nacional. Está nas mãos do povo português a decisão”, destaca. Para o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, candidato do partido nas últimas eleições presidenciais, a manifestação dos trabalhadores é prova de que os portugueses exigem um novo rumo na política nacional. Ele afirma que a candidatura comunista se diferencia das demais porque “transporta consigo um projeto de ruptura e mudança, animado pelos ideais de abril e de transformação social”. “O Partido Socialista teve uma participação positiva no 25 de Abril (data da revolução que derrubou a ditadura salazarista, em 1974), mas deixou esses valores de lado. Tem praticado uma política de submissão aos interesses do grande capital, especialmente do capital financeiro. É inaceitável que um partido que se diz de esquerda faça uma política de direita. Este governo fez uma opção. Faz pagar aos trabalhadores e aos excluídos as consequências de uma crise para a qual não tiveram nenhuma responsabilidade”, desabafa o dirigente, que afirma ainda, “que sem luta não há possibilidade de o governo recuar”. O coordenador do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, também aponta a importância das manifestações de rua para derrotar a política neoliberal do governo. “Demonstram que a grande maioria da população quer evitar a continuidade do abismo e da degradação econômica.” O Bloco não vai lançar candidato à presidência da República nas próximas eleições, optou por apoiar o poeta e escritor socialista Manuel Alegre de Melo Duarte. Manuel Alegre, como é conhecido, é apoiado também pelo PS e pelo Partido Democrático do Atlântico, de direita, que luta por mais autonomia para os arquipélagos dos Açores e da Madeira. As candidaturas presidenciais em Portugal são independentes de partidos. Os candidatos se lan-

çam individualmente e são apoiados pelas siglas partidárias. Para Louçã, Alegre é a melhor opção à esquerda. “Mantém a coerência na defesa do serviço público, da democracia social, justiça econômica e do combate às privatizações. Ele é o grande candidato alternativo ao candidato da direita, que é o atual presidente da República (Cavaco Silva).”

Desemprego Louçã considera o desemprego o principal problema a ser enfrentado. Ele também destaca que há em torno de dois milhões de trabalhadores em funções precárias como, por exemplo, empregos temporários. “Essas pessoas estão entre a fronteira do desemprego e a exploração absoluta.” A precarização das relações e condições de trabalho também atinge empresas importantes como a TAP, a companhia pública de aviação portuguesa. Brígida Costa e o marido Osvaldo Batista, funcionários da TAP, ela do setor de check-in, ele, condutor de push back (veículo que movimenta a aeronave nas manobras de ré) fizeram questão de levar o filho João, de 10 meses, à manifestação do dia 29 de setembro. “Antes, trabalhar na TAP era uma tradição que passava de pai para filho, mas hoje não é mais assim. Não quero que meu filho trabalhe lá. Há muita precarização, os contratos são temporários e há subcontratação. É um dever estarmos aqui (na manifestação)”, frisa Batista, que tem 18 anos de trabalho na companhia. Brígida, há 23 anos na TAP, também revela a insatisfação com a precarização das condições de trabalho e o ataque aos direitos trabalhistas. A possibilidade de privatização da TAP também preocupa a funcionária. “Está tudo muito mal”, ressalta ao se referir ao futuro. O casal e seu bebê foram à manifestação acompanhados pelo colega João Eusébio Varzielas, também funcionário do check-in da empresa, que paralisou o trabalho no Aeroporto Internacional de Lisboa, para ir às ruas manifestar-se contra o corte de direitos imposto pelo governo. Varzielas também teme pelo futuro da compa-

Manifestantes caminham pelas ruas de Lisboa em protesto contra a redução de direitos.

nhia. “A TAP pode ser privatizada a qualquer momento. O governo quer dilapidar uma empresa que é responsável por 1% do PIB.” A companhia, segundo o funcionário, é responsável por aproximadamente 40 mil trabalhadores direta e indiretamente.

Combate à precarização Privatização é sinônimo de desemprego em massa e, por isso, traz inquietações. Portugal ocupa o quinto lugar no ranking de desemprego da União Europeia. Os números oficiais apontam para 560 mil trabalhadores, aproximadamente 10% da população ativa, mas o sindicalista da CGTP explica que esse número é bem superior. “Ronda os 700 mil e deve aumentar com as medidas adotadas pelo governo”, alerta. Na escala da precarização, Portugal desce dois degraus e conquista a medalha de bronze ao ocupar o terceiro lugar, com 23% de trabalhadores nessas condições. Só perde para a Polônia, com 26%, e Espanha, com 25%. “A precariedade em Portugal é gravíssima, porque além de afetar os trabalhadores em geral, penaliza de forma particular os jovens.” Segundo o sindicalista, 38% dos jovens na faixa até 35 anos têm vínculos precários de trabalho. “Isso promove a regressão do futuro. Nossos filhos terão pior condição de vida do que a nossa. Isso é inaceitável.” Armenio destaca que a Europa está subordinada aos interesses econômicos e financeiros. “O funcionamento dos mercados é a prioridade.” O Banco Central Europeu privilegia, por exemplo, os bancos privados em detrimentos de seus Estados membros. Os banqueiros tomam empréstimos a 1% do BCE e repassam aos Estados da zona euro a uma taxa de juros que varia de 6% a 10%. Mesmo assim, o governo prefere transferir o ônus da crise para os trabalhadores. Tanto o primeiro-ministro, José Sócrates, quanto o presidente da República, Cavaco Silva apelam à coesão da população em torno das medidas de austeridade. Em seus discursos na comemoração do centenário da República Portuguesa, que aconteceu no dia 5 de outubro, enfatizaram a importância desse apoio. Caros Amigos quis saber por que as medidas só penalizam os trabalhadores, mas nenhum dos dois atendeu a imprensa. O socialista e ex-presidente da República Mário Soares, que apóia o pacote do governo, afirmou que o país vai superar a crise. “Só tenho a aplaudir os discursos, foram muito sensatos. Portugal sempre superou suas crises. Estou convencido de que vai superar esta também.” Apesar da minimização da crise por parte de Soares, a situação do país é gravíssima. A dívida pública portuguesa projetada no orçamento da União para este ano gira em torno dos 80%. O endividamento médio das famílias também é brutal e compromete 116% de seus orçamentos. O país importa 75% dos alimentos agrícolas que consome e além disso está se desindustrializando. O setor produtivo português está cada vez mais dependente de países ricos como a Alemanha. Lúcia Rodrigues é jornalista luciarodrigues@carosamigos.com.br novembro 2010

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Lúcia Rodrigues

Novo processo contra o torturador Ustra

O coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do centro de tortura mais temido do país na época da ditadura, é réu em ação movida pela família do jornalista assassinado Luiz Eduardo Merlino. Ilustração: Carvall

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reformado do Exército, a ação também pede uma indenização por danos morais causados à família. “Pela dor e humilhação que a tragédia provocou nas duas”, ressalta, ao se referir a Angela e Regina. Foi Regina quem abriu a porta para os agentes do DOI-Codi que prenderam seu irmão. Ela estava no apartamento da família, em Santos (SP), com a mãe, a tia e o irmão, Luiz Eduardo, quando a campainha tocou. “Entraram três sujeitos violentos e levaram meu irmão”, recorda. Essa foi a última vez que elas o viram. “Não sei como minha mãe aguentou”, lamenta ao relembrar o sofrimento causado pela perda. O sofrimento da companheira do jornalista também foi enorme. Ela estava exilada em Paris, na França, quando soube de sua morte. Merlino tinha retornado pouco tempo antes ao Brasil. Angela exercia cargo de direção no POC e era procurada pelos órgãos de repressão. Os militares também procuravam por Nicolau, mas desconheciam que esse era o codinome usado por Merlino na clandestinidade. Por isso, o jornalista conseguiu voltar ao Brasil com passaporte legal. Merlino retornou de uma viagem à França, feita juntamente com sua companheira, com o propósito de se aproximar da Quarta Internacional. Angela explica que a verdadeira identidade do ativista do POC foi obtida pelos militares torturando militantes da organização, capturados naquele período. “De tanto torturarem, conseguiram obter a informação com um desses presos.”

Com a solução do enigma, estabeleceram o elo que faltava entre Nicolau e o jornalista. A partir desse momento, o destino de Merlino estava sentenciado. A última vez que ela o viu foi na véspera de sua partida para o Brasil. Algumas horas antes, Angela embarcaria em um trem na Gare de Lyon rumo a Suíça onde realizaria um treinamento com armas. A notícia da morte, no entanto, só chegou quando ela já havia retornado à França. Do outro lado do oceano e sem nada poder fazer, restou a dor e o desespero. Obviamente ela estava impedida de vir ao enterro e se despedir do amado. Isso impôs um sofrimento com proporção ainda maior.

Justiça Angela e Regina não querem ser remuneradas pela perda. Elas haviam protocolado uma ação conjunta contra Brilhante Ustra, em outubro de 2007, que foi sustada no começo deste ano justamente por não conter um pedido indenizatório. A peça tinha o caráter exclusivamente declaratório, solicitava tão somente o reconhecimento público de que o coronel reformado fosse identificado como torturador e assassino do jornalista. O advogado do torturador, no entanto, se valeu disso para interceptar seu julgamento no Tribunal de Justiça de São Paulo. Por isso, desta vez Regina e Angela preferiram não arriscar e Comparato sistematizou em seu texto a solicitação formal de uma indenização financeira.

foto : arquivo pessoal

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coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, comandante do centro de tortura mais temido do país na época da ditadura, é réu em ação movida pela família do jornalista assassinado Luiz Eduardo Merlino. O comandante do DOI-Codi paulista, o Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna, Carlos Alberto Brilhante Ustra, pode ser responsabilizado pela morte do jornalista Luiz Eduardo Merlino, que ocorreu em 19 de julho de 1971, após ter sido torturado por ele e seus comandados. Merlino ficou pendurado no pau-de-arara por 24 horas ininterruptas, recebendo choques elétricos, socos, pontapés e telefones (golpes desferidos contra os ouvidos da vítima com as duas mãos em formato de concha, cujo ferimento pode levar ao rompimento dos tímpanos). As sevícias a que o jornalista foi submetido pelo comandante Brilhante Ustra foram de tal intensidade que provocaram gangrena em suas pernas. A ação que tramita na justiça paulista impetrada pelo jurista e professor titular aposentado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) Fábio Konder Comparato, a pedido da irmã do jornalista, Regina Merlino Dias de Almeida, e da companheira, Angela Mendes de Almeida, solicita a responsabilização do ex-chefe do DOI-Codi pela tortura e assassinato do ativista do Partido Operário Comunista (POC). Comparato explica que além do reconhecimento da responsabilidade pessoal do coronel

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Mas nem Regina, nem Angela estão interessadas no retorno monetário que a ação possa vir a render. Ambas querem somente que o torturador do irmão e do companheiro seja reconhecido publicamente como seu algoz e assassino. A ação não fixou um valor a ser pago por Brilhante Ustra em caso de condenação. “Como nós não queremos dinheiro, o doutor Comparato propôs que quem irá estabelecer essa quantia será o próprio juiz (que julgar o caso)”, explica Angela. “Queremos o reconhecimento formal da responsabilidade desse coronel na tortura e consequente morte de meu irmão”, frisa Regina. A ação da família Merlino não tem prazo para ir a julgamento, segundo Comparato. Mas Brilhante Ustra enfrenta outros processos na justiça movidos por outras famílias vítimas de sua violência. Uma delas já ganhou o embate contra o torturador. O juiz Gustavo Santini, da 23a Vara Cível da capital paulista, acatou o pedido impetrado pela família Teles e declarou publicamente Brilhante Ustra torturador, em outubro de 2008. O magistrado fundamentou sua decisão com base na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Maria Amélia de Almeida Teles, o marido César Teles, os filhos Janaina Teles, à época com cinco anos, e Edson Teles, com quatro, além de sua irmã, Criméia Alice Schimdt de Almeida, que estava grávida, foram vítimas do militar em 1972. Os três adultos eram militantes do Partido

O jornalista Luiz Eduardo Merlino foi brutalmente torturado no DOI-Codi sob comando do coronel do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra.

Comunista do Brasil, o PC do B, e foram brutamente torturados por Brilhante Ustra e seus subordinados, as duas crianças sofreram torturas psicológicas. Eram levadas ao DOI-Codi para ver os pais machucados. O depoimento de Criméia, dado a uma minissérie da cineasta Tata Amaral exibida na TV Cultura, é contundente. “Eu apanhei muito e apanhei do comandante... ele foi o primeiro a me torturar e me espancou até eu perder a consciência, sendo que eu era uma gestante bem barriguda. Eu estava no sétimo mês de gravidez”, destaca ao se referir a Brilhante Ustra. No ano que vem a morte de Merlino completará 40 anos e o sofrimento da família poderia ser ainda maior. Os militares não entregaram o corpo do jornalista. Não fosse pela ação do marido de Regina, Adalberto Dias de Almeida, que era delegado de polícia, ele certamente engrossaria a lista de desaparecidos políticos da ditadura. Dia 20 de julho de 1971, cinco após a prisão do jornalista, a família recebeu a notícia de que ele teria cometido suicídio. De acordo com a versão dada à sua mãe, ele teria se jogado embaixo de um carro na BR-116, na altura de Jacupiranga. Essa versão consta no laudo necroscópico e na certidão de óbito, assinados pelos médicos legistas Isaac Abramovitc e Abeylard Orsini. No entanto, em nenhum momento, a família acreditou que a versão fosse verdadeira. Como o corpo não foi entregue, dois tios e o cunhado de Merlino, Adalberto, foram ao IML de São Paulo. O diretor do Instituto negou que o corpo estivesse ali, mas usando do fato de ser delegado, o cunhado burlou a vigilância e foi em busca do corpo de Merlino. Encontrou-o com marcas de tortura em uma gaveta sem identificação. O corpo do jornalista foi entregue à família num caixão fechado. Jornalistas amigos de Merlino foram até Jacupiranga e não encontraram nenhum sinal do suposto atropelamento ou outro acidente de trânsito ocorrido naquele ponto, no dia indicado. O veículo que o teria atropelado nunca foi identificado nem foi feita ocorrência no local do fato. O marido de Regina sofreu as consequências do ato, que foi considerado uma afronta aos militares. De imediato, foi transferido para uma delegacia de um bairro periférico. Ao longo da carreira, nunca foi promovido por merecimento, apenas por tempo de serviço. Impedida de noticiar a morte de Merlino, somente mais de um mês depois, o jornal O Estado de S.Paulo publicou um anúncio fúnebre: “Os amigos e parentes do jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino convidam os jornalistas brasileiros e o povo em geral para a missa de trigésimo dia de seu falecimento a realizarse sábado próximo, 28 de agosto, às 18h30, na Catedral da Sé, em São Paulo”. Cerca de 770 jornalistas compareceram à missa. Na cerimônia, os mesmos três homens que buscaram Merlino em Santos compareceram para dar “os pêsames” à sua mãe e irmã.

Torturador não fala A reportagem da Caros Amigos entrou em contato com Brilhante Ustra, mas ele não quis se pronunciar sobre o caso. Sua mulher, Maria Joseíta Brilhante Ustra, informou que o marido não dá entrevista para nenhum jornalista. “Você já é a quinta repórter que liga hoje”, disse. A reportagem da Caros Amigos argumenta que corre na justiça ação que acusa seu marido pela tortura e morte do jornalista Luiz Eduardo Merlino, movida pela família do ativista político. Maria Joseíta desconversa: “Essa ação é antiga e foi barrada”. A reportagem insiste e afirma que tem em mãos as duas ações e que se trata, sim, de uma nova peça. E ela acaba por admitir. “Não estou dizendo que é a mesma, é outro número, outra coisa, mas é a mesma ação. E ele não dá entrevista”, frisa de forma a querer encerrar a conversa. Caros Amigos então pergunta seu nome e Maria Joseíta se irrita. “Meu nome não interessa para você, minha filha, eu não estou dando entrevista”, responde, rispidamente. Apesar de não conceder entrevistas, Brilhante Ustra parece não se preocupar com as ligações que recebe da imprensa em sua residência, em Brasília. O torturador mantém o número de telefone em seu nome. Um rápido acesso ao sítio de busca na internet permite sua localização.

Mídia cúmplice Merlino tinha uma carreira promissora, mas ousou não se curvar ao algoz. O jornalista passou por grandes redações. Trabalhou na Folha da Tarde, publicação da Grupo Folha de São Paulo de propriedade de família Frias, logo após ter deixado o Jornal da Tarde, do Grupo Estado da família Mesquita. Com o fechamento do regime, a Folha da Tarde assume o papel de porta-voz da versão oficial dos militares sobre fatos que envolviam ativistas de esquerda. Policiais passaram a trabalhar em sua redação como jornalistas. O jornal passou a noticiar, inclusive, a morte de ativistas antes de terem ocorrido. O jornalista e ex-preso político Ivan Seixas soube que o pai seria assassinado ao ver sua morte noticiada na Folha da Tarde. Os dois estavam presos no DOI-Codi do comandante Brilhante Ustra, no início dos anos 70. Naquela época, os militares levavam suas vitimas do DOI-Codi para o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e vice-versa. Em uma dessas saídas, Ivan viu a publicação com a notícia macabra. Quando retornou ao DOI-Codi constatou que seu pai continuava a ser torturado. A ditadura militar contou com o apoio logístico e/ou monetário de empresários de vários setores da economia. O proprietário do Grupo Folha de São Paulo, Otávio Frias de Oliveira, era um dos que apoiavam os militares. Sua empresa cedia carros para fazer o transporte de presos políticos entre os centros de tortura. Lúcia Rodrigues é jornalista luciarodrigues@carosamigos.com.br novembro 2010

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Cesar Cardoso

tacape Rodrigo Vianna

DILMA E A COMUNICAÇÃO Em 2002, naquele domingo em que conquistou o poder depois de três tentativas frustradas, a primeira entrevista de Lula como presidente eleito foi para o “Fantástico”, na Globo. No dia seguinte, lá estava Lula de novo na Globo: sentado à bancada do “Jornal Nacional” ao lado de Bonner. Foi uma escolha. Um aceno para a família Marinho. Inútil, diga-se. Quatro anos depois, Ali Kamel voltou suas baterias contra Lula na reeleição. Agora, em 2010, a primeira entrevista de Dilma depois de eleita não foi para a Globo, mas para o “Jornal da Record”. Uma escolha, sem dúvida. Dilma falou para a Record durante 15 minutos. Foi entrevistada por duas jornalistas mulheres. E só depois seguiu para a Globo onde foi recebida por um manso Willian Bonner (nem sombra daquele raivoso entrevistador que a confrontara algumas semanas antes, ainda no calor da campanha). Foi um sinal. Não do que pode mudar. Mas do que já mudou na dura batalha da Comunicação no Brasil. A Globo ainda tem muita força, sem dúvida. Mas já não fala sozinha. E o que disse Dilma, sobre imprensa e comunicação, na primeira bateria de entrevistas pós-eleição? Nada de especial, adotou a fala protocolar: Dilma defendeu a liberdade de imprensa, claro. Mas deixou no ar uma frase curiosa durante a entrevista para a Record: “a melhor forma de controle da imprensa é o controle remoto, é mudar de canal”. Um outro recado para a Globo? Talvez. Dilma deu sinais de que seguirá os passos de Lula na área de Comunicação. Nada de confronto aberto. Globo/Veja/Folha/Estadão, todos sabemos, seguirão com a oposição. Mais que isso: eles são a oposição, em muitos sentidos. Mas seria tolo esperar do governo Dilma qualquer movimento brusco contra esse envelhecido consórcio midiático. Ainda assim, muita coisa vai mudar nos próximos. E uma parte das mudanças pode vir das soluções de mercado. As “teles” querem produzir conteúdo jornalístico no Brasil. Na verdade, já produzem, nos portais Terra e IG. Os barões da mídia querem barrar o avanço das teles, com um discurso nacionalista – logo eles. O governo Dilma certamente estará atento para explorar essas contradições entre os velhos e novos conglomerados de comunicação.

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EM DIANTE No campo mais tradicional das TVs abertas, Record e SBT - com uma cobertura política não-alinhada aos tucanos, especialmente no segundo turno - marcaram posição durante as eleições. E a emissora de Edir Macedo agora ameaça invadir o último território onde a Globo reina absoluta: o futebol. Pouco antes da eleição, uma decisão do CADE abriu espaço para uma disputa mais acirrada pelos direitos de transmissão dos Campeonato Brasileiros. A Globo pode perder a jóia da Coroa, ou ser obrigada a pagar caro demais para mantê-la. Outras mudanças dependem de avanço tecnológico. A internet torna o mercado de Comunicação menos concentrado no Brasil, e, aos poucos, tira poder das quatro ou cinco famílias que ainda mandam na velha mídia. Na eleição, vimos que os blogs e as redes sociais cumpriram um papel de contraponto. Mas um papel ainda limitado, frente ao poderio da TV. A internet só terá mais peso se a Banda Larga se popularizar. Por isso, o PNBL (Plano Nacional de Banda Larga) é hoje – ao lado da redução da jornada de trabalho – uma das mais importantes bandeiras da esquerda no Brasil. Tão feroz quanto a briga pela regulamentação da Comunicação no Brasil. Alguns movimentos sociais preferem falar em “controle da mídia”. Humildemente, acho um erro. Falar em “controle” é jogar no colo da direita e das grandes corporações a defesa (hipócrita, diga-se) da “liberdade de expressão”. O que ameaça a liberdade de expressão no Brasil, como sabemos, é a concentração dos meios nas mãos de poucas famílias. Quem defende regulamentação (e não “controle”) luta por uma Comunicação mais justa, menos concentrada. Estados como o Ceará já votaram pela criação de um Conselho Estadual de Comunicação - com o apoio majoritário de deputados tucanos, diga-se. Em São Paulo, a proposta de se criar conselho semelhante partiu de um deputado do DEM. Prova de que a discussão avança, e de que o Brasil talvez já esteja maduro para adotar normas mais civilizadas nessa área. Como Lula, Dilma não deve entrar de sola na batalha – mas pode criar as condições para que esse debate avance de forma consistente: a briga será travada de baixo pra cima - na sociedade e no Congresso. Rodrigo Vianna é jornalista.

Oi, amor, Te deixo esse bilhete pra dizer que você tem razão e que eu vou mudar minha vida. Passei a noite em claro e graças à internet pensei muito e já decidi tudo. Querida, lendo meus emails eu percebi que a motivação pessoal é fundamental para o sucesso e me matriculei no curso de Comentários sobre o Sistema de Apuração Simplificada e o Preenchimento de Suas Fichas. Você não deve estar acreditando, eu já falei que ia mudar outras vezes, mas agora é pra valer. E foi a internet que me abriu os olhos. A internet! Incrível como as coisas estão na nossa cara e a gente não vê. Mas eu já estou passando por mudanças. Quer ver? Me matriculei no MBA de Ferramentas na Gestão Corporativa e Potencializadora do Diferencial Produtivo Para o Desenvolvimento de Aptidões Empreendedoras. Por essa você não esperava, hã? Minha transformação é radical, aquela que você sempre brigou pra eu fazer. Sim, porque você pensa que acabou? Não! Também vou fazer o Treinamento em Overview para a Dinâmica de Equipe na Travessia da Administração do Trabalho Gestor. E vou me capacitar para os Dez Conceitos de Justiça por Merecimento e Aprendizado Organizacional na Gestão Praticada. E tem mais: vou implantar os conceitos em foco, assentar parcerias estratégicas para o fechamento e constituir alianças que possibilitem. E também vou oferecer ferramentas específicas de percepção do perfil predador na postura proativa sob situações e vou criar cenários interativos e dialógicos à distância do repertório do olhar do interlocutor. Imagina só, meu bem: do olhar do interlocutor! Amor, eu sou um novo homem. Você duvida? Pois eu provo: solicitei pra hoje mesmo o programa completo pela Central de Atendimento! Cesar Cardoso diz que é escritor e que tem o blog PATAVINA’S (http://cesarcar.blogspot. com). Você acredita?

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Sérgio Vaz

O Pequeno Príncipe Na semana passada fui participar de um sarau com os alunos da escola Paulo Afonso em Capuava, que fica em Embu das Artes, na divisa com Cotia. Além de mim também foram convidados o Gaspar (Záfrica Brasil), Zinho Trindade e o Baltazar (Preto Soul). O Alunos da 5ª e 6ª série também prepararam uma apresentação para o dia, sob a supervisão de alguns professores, inclusive do Wagner, meu amigo. A Manhã de poesia já estava servida como merenda no pátio da escola e, para minha surpresa, a molecada repetia várias vezes. Até aí, além do presente da vida, nada demais. Um poema solo aqui, um poema em grupo ali, uma música à capela, e o frescor da infância se esfregando nos meus olhos. Em um determinado momento a professora chama um garoto para se apresentar. Tímido, como poucos, recitava sua poesia com bastante nervosismo, o suficiente para que alguns dos alunos começassem a rir da sua declamação. Sei que não riam por maldade, crianças apenas riem. De Súbito senti minha alma desprender do corpo, numa rápida viagem para o passado. Vi-me ali no seu lugar, com 12 anos, sendo punido pela timidez por apenas estar vivo na hora errada. “A Timidez é uma lei muito severa a ser cumprida...” De volta ao futuro, ainda consegui vê-lo em sua batalha contra o mundo. Como já disse, enquanto alguns riam, ele recitava, como quem expulsasse o silêncio do corpo.

Parecia que lhe faltava o ar, as palavras lhe traíam, as vírgulas abriram fuga, os olhos caminhavam devagar demais para tanta pressa de sair de cena. As mãos tremiam por todo o corpo. Nós, poetas, torcíamos por ele, os educadores gritavam pelos olhos por ele. E de repente o vento parou de soprar para que o barulho não o atrapalhasse. Os Pássaros debruçados nas árvores acompanhavam-no em si bemol. Uma nuvem calou a camada de ozônio para que ele pudesse respirar melhor. Assim como um milagre, que só as crianças sabem o segredo, pude vê-lo refletido nos olhos úmidos das pessoas, e o riso, como se recebesse uma ordem do universo, partiu para uma outra dimensão. O mundo inteiro parou para ouvir o mais lindo poema da vida, a coragem de enfrentar as dificuldades. Ao terminar, ele riu, agradeceu aos aplausos e saiu como um nobre cavaleiro que acaba de derrotar um dragão numa batalha sangrenta, e sem nenhuma gota de sangue pelo corpo. Eu ali como um fraco, voltando ao passado, tendo pena dele, e ele ali, como um príncipe guerreiro enfrentando o futuro, e de canja, deixando a lição pra gente fazer em casa, de que só os fortes sobrevivem. Se um dia eu crescer quero ser como ele: gente. Sérgio Vaz é poeta e fundador da Cooperifa. poetavaz@ig.com.br

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Débora Prado

O povo nas ruas na

MARCHA DE NAZARÉ Em 2010, o Círio de Nazaré, a festa religiosa de Belém que já se tornou patrimônio da cultura popular e regional, atraiu mais de dois milhões de pessoas para as ruas.

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rodrigo cruz

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m romeiro carregando uma cruz de madeira com proporção de grande penitência diz: - Eu vim pagar promessa porque saí da cadeia. Cumpri minha pena com os homens e agora vim agradecer a Santa, tô na paz de Cristo. Ele não para pra falar, segue caminhando lentamente, porém ritmado. Outra mulher negra e forte, mas com feição exausta, conta: - Tô fazendo toda procissão. Meu filho foi esfaqueado em 2007, teve risco de perder a perna esquerda e eu pedi que ela intercedesse. Por meio de Nossa Senhora, hoje, ele tá aí na corda pagando a promessa dele e eu vou acompanhando por fora. Nos alto-falantes rua afora, uma voz diz para as milhões de pessoas em procissão: “Caminha, povo de Deus, caminha”. A fé vai até onde o Estado não chega. E alcança inclusive as pessoas esquecidas na repartição das riquezas. Em 2010, o Círio de Nazaré – a festa religiosa de Belém que já se tornou patrimônio da cultura popular – atraiu mais de dois milhões de pessoas para as ruas. Todo outubro, na capital paraense é assim: católicos, cristãos, gente de toda religião e pagãos marcham por alguém que olhe por eles. Momento de entrega, transe, penitência, mas também de muita festa e reafirmação da cultura local. Para os belenenses, é hora de reunir família e amigos para celebrar uma espécie de Natal só desse povo. Sueli é uma dessas mulheres de fibra, que parece ser forte e solícita por nascimento ou vocação. Sua família acompanha sempre o Círio e, nesse ano, ela está contente porque o filho que mora em São Paulo chega em breve. Ele mesmo já foi romeiro de corda durante os quatro anos de faculdade, agradecendo pelo acesso ao ensino superior gratuito – no Brasil, questão de milagre para muitos. Dias antes da procissão, a cidade já é só Círio.

Pessoas de diferentes religiões e pagãos vão às ruas no domingo de Círio, espécie de Natal paraense

Tanto no pensamento do povo, quanto na imagem da “rainha da Amazônia” por todos os lados e, inclusive, no comércio – ora uma mecânica com faixa saudando a santa, ora um supermercado, um saldão de calcinhas, farmácia e até banco se dizendo católico, apesar de trabalhar com a usura o ano todo. No Mercado Ver-o-Peso, maior feira livre da América Latina, os ingredientes para o almoço tradicional do Círio já estão à disposição da necessidade dos paraenses e da curiosidade dos turistas. É uma porção de gente descascando mandioca com velocidade de dar inveja às máquinas. Com a mandioca em Belém se faz muita coisa. É a farinha fina que acompanha quase toda comida, a tapioca que vai no açaí e o suco de macaxeira moída pra fazer o tradicional pato no tucupi, servido no almoço do Círio – cozido com o caldo da mandioca e temperado com Jambú, uma erva de gosto próprio que adormece a língua de quem come. A uma semana do dia 10, domingo de Círio, a maioria das casas cheira a maniçoba. Espécie de feijoada feita com a folha da mandioca que deve ser bem cozida pra “apurar o veneno”, como explica Sueli. É outra comida tradicional do Círio e, para evitar um incidente fatal, requer sete dias de panela acesa no fogão antes da apreciação. Em Belém, o calor é tanto que a gente cozinha o tempo todo, que nem a maniçoba. Mas, não está provado que o calor constante possa apurar

o veneno humano como opera com a folha de mandioca. Na festa do Círio, milhares de pessoas vêm em busca de graça ou redenção. A procissão começou em 1793 por decreto do governador da capital da então província do Grão-Pará, D. Francisco de Souza Coutinho. Dizem em Belém que a ideia era estimular as relações da cidade com o interior. Mas, todo mundo acredita mesmo na história que atravessou os séculos pela tradição oral e diz que um caboclo de nome Plácido, gente do povo mesmo, encontrou uma imagem da Nazaré num nicho natural às margens do Igarapé Murutucu. Ele levou a imagem para sua choupana, mas toda manhã ela insistia em voltar pro lugar onde tinha sido encontrada, registrando aí seu primeiro milagre regional de que se tem conhecimento. O caboclo resolveu então logo construir uma capela pra Santa, onde hoje fica a Basílica do Santuário de Nazaré. No Círio, os fiéis fazem uma caminhada em homenagem ao percurso que Nazaré fez por milagre. A primeira romaria aconteceu em 1793. Hoje, ela já está profissionalizada. Conta com uma diretoria, assessoria de imprensa e programação oficial intensa. Ora é uma missa, ora uma orquestra e muitas procissões – só as oficiais são 11. Na agenda de eventos, a revelação do manto que a Santa usará durante as procissões é um episódio aguardado e cercado de suspense. Os fiéis es-

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Os caminhos de Nazaré Círio é sinônimo de procissão. A imagem original, aquela que o cabloco achou, não sai da igreja. Mas a réplica oficial da Nazaré – a Santa Peregrina – anda. É maratonista em outubro. É Círio rodoviário, de barco e a pé, de sexta a domingo. Só o percurso da caminhada tem 3,6 km e é feito duas vezes – na transladação, quando a Santa é levada para a Catedral de Belém na noite do sábado, e no Círio, no domingo de manhã, quando a imagem refaz o percurso até a Basílica. E os fiéis – aos milhares – andam junto sob o sol equatorial. Antes das duas caminhadas principais, a imagem circula a região com os meios de transporte. Na sexta-feira bem cedo, vai da Basílica para Ananindeua e Marituba, dois municípios próximos, na romaria rodoviária. No caminho de carro, a Santa passa pelo monumento Memorial da Cabanagem, única obra que Oscar Niemayer fez pra cidade Amazônica. Um dos poucos pontos na cidade que lembra o movimento cabano, episódio raro na história nacional por seu caráter popular. A revolta de negros, índios e mestiços que se insurgiram contra a elite política e tomaram o poder na então província do Grão-Pará começou com uma rebelião em 1831, com o povo indignado com os destinos políticos da cidade e a imensa pobreza ribeirinha. Os cabanos lutaram até 1840 ou, mais precisamente, até seu completo extermínio. O Memorial da Cabanagem – com seus 15 metros de altura por 20 de comprimento, todo em concreto – não disputa a atenção do povo com a Santa. Na rodovia, todos se aglomeram mesmo é pra ver a “Naza” passar, como dizem alguns mais íntimos. E, quando ela passa, o trabalhador da madrugada corre pra rua, as famílias disputam o espaço das janelas, os fiéis caem de joelhos e choram. É uma imagem de crença de gente simples de comover qualquer ateu. Enquanto Nazaré visita os fiéis na região, em Belém, acontece o auto do Círio, momento dos artistas amadores e profissionais da cidade se apresentarem a céu aberto. Criado no Núcleo de Arte da UFPA (Universidade Federal do Pará), o auto completa 15 anos e criou fama. O ‘teatro’ itinerante lembra um desfile de carnaval e o povo se reúne em volta para festejar. Todos os elementos culturais, sagrados e da rua estão representados – no desfile passam orixás, Iansã, Pombajira, mãe-de-santo, índios tapajós, batuques afros e até palhaços. Na manhã do sábado, Nazaré segue pro trapiche de Icoaraci, onde acontece o Círio fluvial,

quando a Santa volta de barco para Belém. Cabe aos ribeirinhos enfeitar as margens da Baía do Guajará. Muitos ornamentam também seus barcos e seguem Nazaré pelo rio costurado entre a floresta e a cidade. Nas embarcações, há um aviso pouco usual para quem vive longe das margens fluviais: “cuidado com o escalpelamento”. Não é raro aqui os motores dos barcos, sem proteção, enroscarem cabelos, causando o arrancamento brusco do escalpo – acidente grave que pode matar. Dicas como viajar de coque e evitar sentar perto do motor estão estampadas em cartazes pelas embarcações. O problema é tão recorrente na Amazônia, que o dia 28 de agosto se tornou o Dia Nacional de Combate e Prevenção ao Escalpelamento. Nazaré desembarca no cais do porto da Estação das Docas, de volta à capital paraense. O cais reúne um complexo turístico e guarda parte da história de Belém. Lá ainda se pode ver os sobradinhos com azulejos coloridos, herança da invasão portuguesa. Também as grandes obras das elites do século passado que guardam a memória da cidade rica ou poderosa, como o mosteiro onde hoje funciona o Museu de Arte Sacra ou o Forte do Castelo. Mas, o porto é também onde a memória popular se perpetua pela cultura, pelo hábito em mutação e pelas atividades de sobrevivência. Lá se reúnem os feirantes do Ver-o-Peso que vendem comida, artesanatos de tradição indígena e até águas de ervas para banhos, que prometem desde amor, dinheiro até cura para males diversos. É também onde se descarregam os peixes toda manhã e onde fica a feira do açaí, que traz nas madrugadas carregamentos do fruto base de subsistência e alimentação da região. Muitas comunidades ribeirinhas, que colhem o açaí, colocam em água morna pra amolecer a poupa e maceram pra produzir o vinho. A Santa chega ao Porto sábado de manhã e par-

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peram ansiosamente a aparição, dessa vez da roupa, e não da imagem que o cabloco viu há tantos anos. Quando Nazaré é vestida com o novo manto, a exaltação é geral – as pessoas comemoram aos gritos de “viva, viva!” e aplausos. O modelo para o Círio de 2010 é branco com detalhes em azul e dourado, e periquitos verdes bordados. Diz-se que são uma homenagem às milhares de aves guardiãs da Basílica, que, durante todo ano, realizam com boa pontualidade a revoada dos periquitos em frente à igreja de Nazaré no fim de tarde.

As manifestações artísticas e culturais também tomam a cidade no período do Círio de Nazaré.

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te das pessoas segue pra missa do Glória, rezada com a imagem original na Basílica. Outra parte vai pro Arraial do Pavulagem – uma festa popular que reúne um grupo de músicos e compositores paraenses em ode à música de raiz Amazônica. O arraial é um cortejo popular que lembra um bumba-meuboi e reúne figuras do folclore local como a cobragrande e o boitatá. Os ritmistas levam a toada e as ruas ganham som de carimbó, mazurca, pássaro e boi - os ritmos da Amazônia tocados pelo Batalhão da Estrela em homenagem a Nazaré. A primeira procissão a pé de Nazaré em Belém, a transladação, acontece no sábado à noite. A Santa Peregrina é conduzida dentro de uma berlinda. Muita gente aproveita a ausência do sol forte pra pagar suas promessas debaixo da lua. A passagem de Nazaré é esperada com ansiedade pelos fiéis. - Ai, minha mãe, tu tá tão linda, nunca te vi de tão perto. Tira o jovem da droga, tira minha mãe. Tu tá tão linda, diz uma senhora emocionada que guardou sua melhor roupa pra se apresentar à Santa. Outra mulher conta que vai na transladação e no Círio “pra agradecer a saúde que a gente tem e porque aos poucos a gente vai alcançando nossos objetivos”. Pra participar das duas procissões e não perder o almoço em família, o banquete é preparado na véspera: - Já tá tudo pronto lá em casa pro almoço de amanhã. Tem o pato, o peru, a maniçoba, tudo, vamos reunir a família, fora os amigos que vem, né? E igual um Natal mesmo. Enquanto alguns esperam a passagem da Santa nas ruas cheias de gente, outros se aventuram na corda pra pagar promessa. A corda é uma tradição e um dos principais símbolos do Círio e surgiu quando Nazaré atolou - foi inserida em 1855, quando as fortes chuvas inundaram a feira do Ver-o-Peso. A solução foi atar cordas a fim de que os romeiros pudessem desatolar a berlinda e agilizar a romaria. Agora, todos os anos, os romeiros disputam um pedaço da corda pra ‘puxar’ Nazaré. Vez ou outra se escuta um coro de vozes mais masculinas: - É minha santa, pode esperar, a sua corda vai chegar! Na corda, a penitência é maior, pois o espaço é bem disputado. Segundo os dados oficiais deste ano, o total de pessoas por metro chegou a 18. Como é muita gente pra pouca corda e grande temperatura, muitos passam mal. Um homem com seus cinquenta anos reclama ofegante: - Tô pagando uma promessa, minha esposa teve um tumor na cabeça e ela se curou. Tá muito calor, deu um cansaço esse ano, dei uma saidinha pra descansar, mas daqui a pouco a gente dá um jeito de voltar lá pra corda. Os belenenses consideram a transladação mais jovem que o Círio, porque na corda se vê muita gente nova que vai pedir emprego ou pra passar no vestibular. - À noite é mais de classe media, enquanto o Círio é mais popular mesmo, diz uma romeira. Já um sorveteiro de ocasião vem da ilha de Mosqueiro pra Belém e aproveita a procissão pra novembro 2010

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conseguir um rendimento extra: - Eu trabalho fazendo bico, mas sempre venho no Círio. Tem bastante movimento, a gente ganha bem uma graninha extra pra comprar uma coisinha que tá precisando. Eu tô querendo comprar um celular de segunda mão pra mim. Mas, até para ele, não é só questão de um rendimento extra: - Só a caminhada de vir até aqui vender já é uma promessa que a gente paga, né?

Baile da Chiquita Depois da transladação, Nazaré dorme na catedral. Mas Belém ainda está acordada. Para quem mora na capital, o Círio é o momento de ver a cidade cheia. Da Estação das Docas, até os pontos de encontro, como a Praça do Carmo, os bares e restaurantes estão movimentados e a agenda de festas é generosa. E é na véspera de Círio que acontece o Baile da Chiquita, a festa LGBT que começou da reunião de artistas e intelectuais no sábado à noite, ao redor de um boteco. Passado alguns anos, a produção ganhou pompa, plumas e paetês. As drags capricham na produção pra Nazaré. Quem ciceroneia o baile é a transformista regionalmente reconhecida Eloy Iglesia, que, entre as homenagens a Santa, chama seus convidados, canta Cássia Eller e Cazuza, e pede o combate à homofobia. A festa também faz algumas premiações de distinção, como a coroação da “Rainha do Círio”,

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na maioria das vezes, dedicada a uma prostituta ou ao homossexual mais charmoso do ano. Já o “Veado de ouro” é dado a uma personalidade pública que tenha se destacado. A festa atrai muitas pessoas para a Praça da República, que se torna cenário também de outras manifestações, como o IV Festival de Música Independente de Belém, onde se toca Raul (Seixas). Um belenense diz que é bom ver o espaço público ocupado pela população, coisa que não acontece com frequência durante o ano.

Domingo de Círio Finalmente chega o domingo de Círio e a procissão começa logo cedo, para o pesar de quem aproveitou as festas no sábado a noite até o último instante. O povo toma as ruas de Belém. Muitos fiéis caminham com uma casa na cabeça, porque conseguiram comprar sua moradia. Mas, a casa já virou símbolo de promessa e outros usam a réplica pra agradecer outras graças, como conta um homem de 40 anos que conseguiu emprego numa fábrica de alumínio. Uma jovem que passou no vestibular pra medicina caminha de jaleco carregando o nada sutil manual de anatomia sobre a testa. Outros levam as conhecidas imagens de cera – tem estômago de quem se curou de gastrite, pernas e partes variadas do corpo humano e da vida. Irene tem 61 anos e está muito bem vestida no

Círio. Ela não acompanha a procissão, mas sempre espera Nazaré passar. - Eu, quando era menininha, caí na água do barco e me salvei. Aí alguém fez uma promessa que, enquanto eu existisse, eu tinha que vir aqui e dar uma vela do meu tamanho pra Santa. Então eu venho todo ano dar a vela. Uma outra senhora de 66 anos paga promessa terceirizada. - Eu vim pagar a promessa do meu neto, ele não pode vir, porque torceu o tornozelo, então eu vim cumprir e no próximo ano ele vem. Ele tem 16 anos e tava muito ruim na escola e a Santa deu uma força mesmo, ele sentiu vontade de estudar. Com o calor, os desmaios acontecem mais. Algumas pessoas fazem o percurso de joelhos, como Claudia, que está com as mãos esfoladas. Ela vai de joelhos porque sua sobrinha se curou de uma dengue hemorrágica há alguns anos. Depois da procissão, que dura mais de cinco horas, os melhores momentos de Nazaré e as maiores superações em promessas são assunto no almoço em família. O Círio envolve muito da cultura paraense, como as comidas, os artesãos de miriti, os mestres fogueteiros, o Arrastão da Pavulagem, a devoção em Nazaré, a crença em dias melhores. E por emprego, estudo, saúde, casa e liberdade, o povo de Deus caminha. Débora Prado é jornalista debora.prado@carosamigos.com.br

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Fidel Castro

Emir Sader

A revolta na ONU

Chile: Superexplotação dos Trabalhadores

A reunião de terça-feira passada, 26 de outubro, da Assembléia Geral da ONU, que se supõe seja a máxima autoridade política do planeta, foi convocada com um objetivo tantas vezes repetido que já se torna familiar: “Necessidade de pôr fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América contra Cuba”. É o projeto mais discutido, mais aprovado e nunca cumprido na história das Nações Unidas. Todos sabemos que se tal imputação fosse feita contra Cuba ou contra qualquer outro país latino-americano ou caribenho e fazer ouvidos moucos disso, sobre o dito país choveriam críticas. O ato detestável que com tanta clareza e precisão é atribuído aos “Estados Unidos da América”, cujo fim vem sendo exigido, é classificado pelo direito internacional de “ato de genocídio”. Já são mais de 19 as vezes que, a partir do ano 1992, a referida resolução foi aprovada pela Assembleia Geral, exigindo o fim dessa abusiva e criminosa ação. Mas, da mesma maneira em que crescia o número de vezes em que a Resolução era reiterada e aprovada, também crescia o número de países que ofereciam seu apoio e diminuía o número daqueles que se abstinham e o minúsculo grupinho que votava contra. Na última votação apenas dois a rejeitaram e três se abstiveram, cujos nomes correspondem a pequenos Estados que, na verdade, são dependências coloniais dos Estados Unidos. Um fato a levar em conta é que no mundo aconteceram grandes mudanças depois da fundação da ONU, quando ainda não tinham acabado os combates da Segunda Guerra Mundial, que custou 50 milhões de vidas e uma enorme destruição. Muitos países que hoje constituem a maioria das Nações Unidas ainda eram colônias das potências europeias, as quais se apoderaram pela força do território da maior parte do mundo e, em alguns continentes, quase de sua totalidade. Milhões de pessoas, em muitos casos, de civilizações muito mais antigas e de cultura superior, foram submetidas ao colonialismo, em razão da superioridade das armas dos agressores. Cuba não foi uma exceção. Neste hemisfério, o nosso país foi a última colônia da Espanha devido a suas riquezas em produtos agrícolas escassos e muito procurados naquela altura, que surgiam das mãos trabalhadoras dos camponeses livres e de milhares de escravos de origem africana. Quando o resto das colônias da Espanha já era livre, nas primeiras décadas do século XIX, esta mantinha com mão de ferro e os métodos mais despóticos sua colônia em Cuba. Na segunda metade desse século, nossa ilha, na qual a Espanha sonhou ter um baluarte para a reconquista de suas antigas colônias na América do Sul, foi berço de um profundo sentimento nacional e patriótico. O povo cubano iniciou a batalha por sua independência quase 70 anos depois do que as outras nações irmãs da América Latina, sem outra arma que não fosse o machete, com o qual se cortava a cana-de-açúcar e o brio e a rapidez dos cavalos crioulos. Em pouco tempo, os patriotas cubanos se converteram em soldados temíveis. * A íntegra desse artigo está no sítio da Caros Amigos: http://carosamigos. terra.com.br/ Fidel Castro Ruz é ex-presidente de Cuba.

Uma das características específicas do Chile como país é a de que, dada sua estrutura física, sua economia foi sempre centrada na exploração de recursos minerais – salitre primeiro, cobre depois. A consequência social e política mais importante foi o surgimento relativamente precoce – em comparação com outros países da região – de um proletariado mineiro. O Chile era também uma economia primário exportadora, mas enquanto aquelas fundadas em exportações agrícolas – como a brasileira – produziam um grande campesinato, atomizado ao longo de territórios mais ou menos extensos, o Chile produzia pólos concentrados de operários mineiros – as chamadas economias de enclave. Nessas zonas havia predominância absoluta dos trabalhadores, que povoavam os eixos fundamentais da economia do país. Os mineiros foram os grandes protagonistas da história do movimento operário chileno, com uma classe operária que nasceu antes mesmo da burguesia chilena, explorado por empresas estrangeiras. Greves operárias afetavam o núcleo principal da economia chilena e os interesses das empresas estrangeiras, sendo por isso reprimidas com sangue, como o massacre da Escola Santa Maria de Iquique, no norte, em que canhões atiraram dos navios e mataram mais de 3 mil trabalhadores e seus familiares, em 1907. A classe operária mineira foi a vanguarda na luta pelas conquistas sociais fundamentais que fizeram do Chile – antes da ditadura de Pinochet – um dos países de menor desigualdade no continente. Foram eles que apoiaram firmemente o governo de Allende, a quem deram de presente o capacete de mineiro com que ele resistiu até à morte no Palácio da Moneda.Os mineiros foram vítimas privilegiadas da ditadura militar, sofreram com a repressão e com a “flexibilização laboral”, levada a cabo por José Piñera, Ministro do Trabalho de Pinochet e irmão do atual presidente do Chile, Sebastien, ambos do grupo da Lan Chile, que recentemente comprou a TAM. Piñera introduziu esse tema tão caro ao neoliberalismo, que na realidade significa precarização das condições de trabalho, sem carteira assinada, sem direitos, sem possibilidade de se organizar, de apelar à Justiça. Foi o modelo resgatado pelos tucanos, que fizeram com que a maior parte dos trabalhadores brasileiros tivesse deixado de ter carteira de trabalho, deixasse de ser sujeitos de direitos. Em toda a América Latina um dos aspectos mais importantes de superação do neoliberalismo é a superação da precariedade das relações de trabalho, com o aumento constante do trabalho formal. sugestões de leitura TEORIA MATERIALISTA DO ESTADO

Joachim Hirsch – Editora Revan

LEITURAS CRITICAS SOBRE MARIA CONCEIÇÃO TAVARES

Org.: Juarez Guimarães – Editora Fundação Perseu Abramo A POTENCIA PLEBEIA

Alvaro Garcia Lineira – Boitempo Editorial Emir Sader é cientista político. novembro 2010

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Gershon Knispel

Bienal

Reprodução da pintura “Sobre a História do Movimento Alemão dos Trabalhadores”, extraída do livro Pintura Alemã Contemporânea: 1989-2010.

ou comércio globalizado?

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Bienal de 2010 parecia ter vencido a crise que vinha das anteriores. Parecia. Diz Heitor Martins, presidente da Fundação Bienal, no prefácio do catálogo: “Há tal riqueza que acaba sendo distribuída dentre todos no mundo das artes plásticas, galerias e casas de leilões etc. Esse círculo das artes é um grande incentivo ao turismo, trazendo benefícios materiais e simbólicos para todos...” E para o público? Na minha visita notei que 95% dos 159 artistas não fazem uso do pincel, do lápis, carvão ou ferramentas de gravuras e esculturas; 52% usam apenas máquinas fotográficas, vídeos e filmagens; 18% criam instalações; 13% atuam com performances; 9% estão construindo objetos no espaço e 8% usam meios cinematográficos. Só 5%, “os últimos moicanos”, desenham, gravam e esculpem: Kimathi Donkor, da Inglaterra – pintor figurativo, que aborda questões políticas e sociais. Nancy Spero, dos EUA – faz uso do desenho e da pintura para expressar sua revolta contra os abusos de poder. Andrea Büttner, da Alemanha – atua na área de gravura e do monotipo.

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N.S. Harsha, da Índia – influenciado pela tradição da miniatura indiana pinta multidões em grande escala. Qiu Anxiong, da China – por meio de produção pictórica, usa a paisagem chinesa típica e tradicional, com uma virtuosidade impressionante. Ai Weiwei, outro chinês – cria um círculo de animais com as cabeças cortadas em bronze, espetadas, em escala monumental. Sandra Gamarra, do Peru – torna viva com pinceladas vigorosas e paleta monocromática cenas documentais. Efraim Almeida, do Brasil – esculpe em madeira pequenos corpos em atitude de meditação, inspirado pelas imagens da cultura popular do Nordeste. Gil Vicente, mais um brasileiro – com realismo macabro, realizou uma série de desenhos monumentais, com crayon bem refinado. Documenta um revólver que atira contra líderes políticos nacionais e internacionais. Ainda antes da abertura da Bienal, seus desenhos de virtuose, de um realismo seco, causaram um escândalo, iniciado pelos dirigentes da Ordem dos Advogados do Brasil, que ameaçaram entrar na Justiça pela “provocação”, por uma pretensa con-

vocação a assassinar essas “vítimas” do pintor. Isso levou a um debate, em toda a mídia, sobre a tentativa de frear a liberdade da expressão. Apenas um pintor realista, o único com mensagem direta, sem necessidade de educadores recrutados, conseguiu pôr a Bienal na mídia ainda antes da abertura. Os outros 158 artistas, para ser entendidos precisam da ajuda de guias-educadores, que acompanham os visitantes, e foram recrutados pela Fundação Bienal, como explicou no catálogo o presidente Heitor Martins. Talvez os esforços educativos visam explicar que “o rei não está nu”? E as “novidades” apresentadas são nada mais do que uma repetição forçada das descobertas de Joseph Beuys, que foram relevantes quatro décadas atrás. Não basta que Tatiana Blass (Brasil) tenha jogado cera branca sobre o piano, enchendo o chão e transformando tudo numa lagoa de neve. E daí? Criando “Beuys” para pobres? Chama atenção o fato de que a maioria dos participantes estrangeiros, 64%, deixaram o seu país de origem e se radicaram nas capitais que ditam as tendências controladas pelas mais famosas galerias: Nova York, Paris, Berlim, Londres e Amsterdã, os centros de marketing da arte. Será que a Bienal virou uma Feira Internacional das Galerias de Artes Mais Proeminentes? Os curadores da mostra, Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos, confessam, no início do catálogo: “A 29a Bienal de S.P. mantém a tradição de internacionalização estabelecida desde as primeiras edições do evento, convidando 159 artistas de distintas partes do mundo. Evita a tentação de tomar a origem territorial de artistas como valor absoluto”, mas daí até o fato de que a maioria dos convidados atua fora do seu país de origem, e muito perto dos centros que estão promovendo a preferência pelo art-vídeo, a performance, a arte conceitual e instalações, a distância é grande e muito significativa. Com saudades me lembrava das Bienais passadas, em que cada comissão selecionava, com os comitês locais, as obras escolhidas. Tinha-se a oportunidade de sentir o pulso das artes plásticas, sem intervenção da “curadoria globalizada”que domina o mercado das artes, fechando a Bienal a artistas plásticos de altíssimo nível, cujo “grande crime” foi a continuidade em pegar a paleta, os pincéis, as talhadeiras, pintando, gravando, esculpindo, envolvidos na realidade contemporânea. Deixando a Bienal para trás, perturbado e frustrado com o que vi, atendendo ao convite do MASP, compareci nesse mesmo dia à inauguração da exposição da pintura alemã contemporânea, de 1989 a 2010, “Se Não Neste Tempo”, e ali encontrei o alívio. A exposição traz as criações dos artistas plásticos alemães depois da queda do muro. Encontrei respostas às perguntas provocadas pela frustração que me causou as obras selecionadas para a Bienal. Encontrei aquilo que se convenciona chamar tradição, numa cultura marcada pela busca do novo a todo custo, que no caso da atual Bienal já está num atraso de 40 anos, ruminando uma comida velha, pois o fenômeno Beuys se espalhou pelo mundo inteiro já há quatro décadas.

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Encontrei uma abundância de telas enormes, com grande impacto, um eco multiplicado do expressionismo alemão. Não se pode ignorar o grande papel do teatro Berliner Ensemble, de Bertolt Brecht, trabalhando com as peças Mãe Coragem, Galileu Galilei e Os Horrores do Terceiro Reich para se tornar o teatro de vanguarda mais famoso da Europa, enquanto na Alemanha Ocidental, com o Plano Marshall, ocorreu a expansão dos movimentos como o pop, minimalismo, arte conceitual, cujo fruto foi o fenômeno chamado Beuys, confundido a sua genialidade com a “arte contemporânea alemã” No catálogo da exposição do MASP, escreve o curador Teixeira Coelho, sobre o encontro dele com Arno Rink, o ex-diretor da Academia de Leipzig. “Ele fez uma observação sobre a arte da Escola de Leipzig, que já correu o mundo, falando sobre o muro que durante 40 anos isolou a Alemanha Oriental da Europa Ocidental. Rink disse que o muro permitiu ao pessoal de Leipzig ‘seguir na tradição de Cranach e Max Beckmann’, protegendo a arte que nessa cidade se fazia ‘da influência de Joseph Beuys”. Teixeira traz a citação do artista polonês Wawizyrier Jokarski (nascido em 1968), dizendo, “Nunca foi tudo tão simples e inútil”, que se refere exatamente a essa arte chamada contemporânea. O catálogo traz citações de Edward Said, “antes de mais nada o exercício da liberdade, e a primeira delas é a liberdade de não seguir a moda”. Três participantes dessa mostra vindos da ex-Alemanha Oriental, Bernhard Heisig, Wer-

ner Tübke, e Wolfgang Mattheuer, que completaram seus estudos na famosa Escola Superior das Artes em Leipzig, não demoraram para denunciar em suas telas a sua “pálida Pátria”. No caso de Heisig, se refletiram da maneira mais objetiva os profundos sentimentos de culpa, levando em conta que ainda em 1943 ele serviu, como voluntário da Juventude Hitlerista, na 12a Divisão de Tanques da SS. A queda do muro provocou a queda do muro de silêncio na Alemanha Ocidental. Lá, antes disso, todos esses assuntos problemáticos relacionados com os crimes do Terceiro Reich eram varridos para debaixo do tapete. Nem nas escolas, nem dentro das famílias os alemães ocidentais se confrontavam com os horrores do nazismo. “Protegidos” pelo muro, os integrantes da Escola Superior das Artes em Leipzig a transformaram na “Nova Escola de Leipzig”. Da nova geração, há na mostra obras de dois artistas mais dois da Academia de Dresden, ou seja, representantes das duas mais importantes academias da ex-Alemanha Oriental. Suas imensas telas pintadas com pinceladas rigorosamente livres, espontâneas, sem possibilidades de esconder nada, acentuando gritos de protestos, procurando a essência humana. A curadora Tereza de Arruda faz um relato sobre o fato de que, diferentemente do que se pensava, o muro derrubado não teve o impacto esperado de que a arte “moderna” da Alemanha Ocidental influenciada pelo pop, pelos movimentos do minimalismo, arte conceitual e performances, iam invadir os círculos de artistas plásticos da ex-Alemanha Oriental. Aconteceu o contrário,

Artistas plásticos israelenses contra a ocupação da PALESTINA (3) Aviva Uri, nasceu na Palestina em 1926, encabeçou o movimento da pintura minimalista, é uma das artistas plásticas mais respeitadas de Israel. Foi convidada para participar do álbum dos 67 artistas palestinos e israelenses contra a ocupação, atrasou na entrega da obra, mas insistiu em participar por apoio à causa palestina. Manifestou surpresa ao ver a utilização de uma gravura figurativa-expressiva naquela obra, quando declarou: “Detesto a ocupação e com o minimalismo não consegui expressar isso”. Ela faleceu em 1988. Logo depois, o diretor do museu Telaviv me pediu autorização de incluir aquela gravura na exposição dedicada a ela. Só autorizei depois que garantiram a exposição da obra integral, inclusive com a frase “Abaixo a ocupação”. (Gershon Knispel)

e os pintores do Oriente invadiram a Alemanha Ocidental e “inúmeras mostras e publicações assumem continuamente o papel da difusão da pintura alemã atual. A famosa Kunsthalle, de Frankfurt, apresentou à mostra “Dear Painter, Paint Me”, com cinco renomados artistas da pintura figurativa, Franzic Picabia, Sigmar Polke, Bernard Buffet, Alex Katz e Martin Kipenberger. O Instituto Frankfurter Kunstverein apresentou a Mostra Pintura Alemã 2003, uma coletânea da produção atual, com obras de 60 artistas. E em Leipzig a Mostra Sete Vezes Pintura, apresentou uma novíssima geração de pintores formados pela Academia de Arte e Design de Livros, em que o figurativo se tornou avant-garde. Nessa mostra do MASP, enormes telas pintadas a óleo, também de colegas da Alemanha Ocidental, estão dando a prova de que se pode aceitar a tese da curadora. Exemplos disso são: Werner Büttner (1954), da Academia de Hamburgo, realiza telas gigantescas dominadas por figuras humanas e diversos objetos, com pinceladas vigorosas. André Butzer (1933), ataca as telas enormes com contornos livres, lembrando a espontaneidade infantil e “O Grito” de Edvard Munch. Andreas Hofer (1963), da Academia de Munique, domina o grande espaço com figuras grotescas, criticando a falsa justiça social. Jörg Imenndorff (1945-2007), da Academia de Düsseldorf, paisagens monumentais com cores frias, o inverno ameaçador. Martin Kippenberger (1953-1997), do Colégio de Arte de Hamburgo, esqueleto de mamute como metáfora das grandes potências caindo aos pedaços. Markus Lüppertz (1941), da Academia de Arte de Dusseldorf, homenageia o pintor Max Beckmann. Jonathan Meese (1932), da Academia de Hamburgo, prefere o preto com poucas nuanças de cores transparentes. Executa suas telas com pinceladas expressivas e imediatas a la prima, temas humanos, caóticos e enraizado no melhor expressionismo alemão. Daniel Richter (1962), da Academia de Hamburgo, mostra numa tela de 252 x 368 um evento macabro, com uma multidão, usando colorido – influenciado pelo Jugendstil. Thomas Zipp (1966), da Escola de Arte de Frankfurt, com sete pinturas 230 x 180, profetiza o fim do mundo, com paisagens de chumbo, tendo como único sujeito figurativo um orangotango. Tatjana Doll (1970), Academia de Arte de Düsseldorf. Apresenta uma interpretação da Guernica de Picasso num tamanho colossal, 520 x 280, com uma pincelada livre, seriedade e execução perfeita, que não deixa você respirar. Como poderiam os organizadores dessa 29a Bienal ignorar o fato de que a chamada “arte contemporânea”, dominando esta mostra, sofreu uma derrota tão significativa nesta virada causada pela nova vanguarda do figurativo? Gershon Knispel é artista plástico. novembro 2010

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Elaine Tavares

Democracia e Jornalismo

na era digital O tema pomposo me seduziu e lá fui eu assistir a conferência promovida pela pós-graduação em Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Já na entrada um enorme banner do Diário Catarinense, jornal principal da empresa monopólica da comunicação em Santa Catarina, não me surpreendeu. Faz muito tempo que o curso da UFSC está rendido à razão empresarial, afinal, existe até uma Cátedra RBS. É de se lamentar, mas, enfim, vamos em frente. A conferência do professor Silvio Waisbord, um argentino com sotaque gringo, era uma promoção da Associação Nacional de Jornais, entidade patronal que, conforme explicou o jornalista responsável pelo jornal da entidade, Carlo Müller, estava realizando um recorrido por várias capitais do país, levando estas informações às escolas porque: “nós entendemos que as escolas são os melhores espaços para a formação de jornalistas e para a reflexão do jornalismo”. A declaração do assessor da ANJ me surpreendeu pelo cinismo, afinal, a ANJ saudou a queda da obrigatoriedade do diploma. A ANJ diz que não é contra o diploma, mas garante que fere a liberdade de expressão. Logo... Confuso, não? Absolutamente não! Muito claro... A conferência de Silvio Waisbord limitouse a apresentar aquilo que ele considera como as três transições, nos Estados Unidos, que afetam o jornalismo mundial. Segundo ele, há mudanças na área comercial, na prática jornalística e na comunicação política. E, segundo ele, é nesse paradoxo que o jornalismo vem se equilibrando: ser produto para os empresários ganharem dinheiro, mas ao mesmo tempo ser o responsável pela manutenção da democracia. Silvio falou aos estudantes, futuros trabalhadores do jornalismo, sobre os grandes problemas vividos pelo empresariado da comunicação. Com as novas tecnologias muita coisa está mudando e as empresas já se ressentem da falta de financiamento para seus negócios. “Há uma crise na propaganda porque os anunciantes estão diversificando os veículos”. Conforme o estudo de Sílvio, estas medidas acabam sendo as de cortar edições impressas, cortar pessoal e fazer um jornalismo mais econômico. Como a conferência foi preparada para as empresas, é óbvio que o professor em nenhum momento problematizou o que deveria ser o mais importante para os futuros profissionais que o as-

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sistiam. As medidas das empresas são sempre desfavoráveis para os trabalhadores. Como ele mesmo repetiu várias vezes durante a palestra, fazer jornalismo é coisa cara. Jornalismo de análise, com profundidade e com investigação é caro, mas as empresas não podem gastar, então fazer o quê? A solução que as empresas têm para o futuro do jornalismo é a tendência do nicho. Fazer publicações cada vez mais dirigidas, para um público específico. É a última fronteira da especialização. Dizer apenas o que as pessoas querem ouvir. É o fim da diversidade, da universalidade. O fim da democracia, portanto. Esta é única forma de as empresas sobreviverem. A tendência é a criação de plataformas comunicacionais com múltiplas funções. Pouca gente trabalhando, muito trabalho para cada um, produção para vários meios ao mesmo tempo. Lucro para os patrões, escravidão para os trabalhadores, mas essa parte aí não foi tocada. Conforme Waisbord as empresas estadunidenses “estão lutando” contra a crise. E neste processo já se fala em formas de financiamento. Os empresários, com perdas de lucro, pensam em várias alternativas para “sobreviver”. Há várias alternativas tais como buscar fundos filantrópicos (?), criar esquemas de membros fixos, trabalhar na lógica do “micropayments” que seria a pessoa pagando pela matéria que consumir, e até mesmo subvenções estatais. As novas tecnologias também apontam para mudanças nas práticas jornalísticas. Como hoje qualquer pessoa é um produtor de conteúdo na internet, o monopólio da produção já não pertence mais ao jornalista. “As habilidades jornalísticas estão democratizadas no jornalismo cidadão”. Mais um equívoco do professor argentino/estadunidense. O que ele chama de jornalismo cidadão é a produção de informações por parte das pessoas e dos movimentos sociais que, para nós, está mais na linha da soberania comunicacional. E isso não tira do jornalismo a capacidade de ser jornalismo, porque as pessoas que escrevem nos blogs ou em páginas pessoais não estão vendendo sua força de trabalho. Não estão, portanto, sob o domínio da empresa. Há uma tremenda incompreensão, ou má fé, nesta reflexão. Para Waisbord as empresas de comunicação ainda não atentaram para as múltiplas possibilidades das novas tecnologias. “Hoje valem as velhas regras da autoridade do jornalista, há uma distância entre profissional e cidadão. Os jornalistas não têm inicia-

tiva para realizar novas experiências. O jornalismo em profundidade é caro, não é viável. Os jornalistas precisam inventar”. Ou seja, conforme o assessor da ANJ, os jornalistas, além de estarem proporcionando mais mais-valia, aumento de horas de trabalho excedente, por conta das novas tecnologias, ainda precisam ser criativos, inventivos, apontando aos patrões novas formas de eles (patrões) ganharem mais dinheiro. Carlos Müller, da ANJ, acrescentou que há diferenças bem grandes entre os Estados Unidos e o Brasil. “Lá eles tem a primeira emenda, que garante liberdade de imprensa. Aqui já tivemos oito Constituições no mesmo período e seguimos lutando. Lá nos EUA as empresas familiares se abriram para o mercado, aqui ainda não. A vantagem que temos em relação aos EUA é que lá as cadeias de jornais são cada vez mais parecidas e aqui não, temos imprensa regional”. Ora, o assessor da ANJ não deve conhecer seu próprio país. O que ele chama de “imprensa regional” são monopólios regionais, praticamente clones do grande monopólio nacional, reproduzindo a mesma lógica e a mesma proposta de superexploração dos trabalhadores. Enfim, a conversa do jornalista Sílvio Waisbord, trazendo para os estudantes os grandes problemas do empresariado do jornalismo estadunidense só reforça aquilo que já temos muito claro. O jornalismo ensinado na maioria das universidades segue cativo de mentes colonizadas, incapazes de pensar o jornalismo desde os problemas reais daqueles que serão os futuros trabalhadores. A pedagogia do “empreendedorismo” cria no aluno a certeza de que eles são parte desta “família” que são as empresas, que devem encontrar saídas para melhorar os lucros, que precisam ser flexíveis, maleáveis, multifuncionais, capazes de filmar, escrever, postar no blog, fotografar, dirigir, editar, diagramar, e tudo isso nas cinco horas de sua jornadas. Já o pensamento herege, anti-sistêmico, anticapitalista e descolonizado, é rechaçado e ridicularizado. Ou seja, não se dá aos estudantes o direito de sequer conhecer que a moeda do jornalismo tem outros lados que não só o do patrão. Que o diga a comunicação ostensiva subliminar do evento do jornalismo da UFSC, concretizada nos dois imensos banners do Diário Catarinense, a casa grande do jornalismo local. Elaine Tavares. é jornalista.

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IDEIAS DE BOTEQUIM Renato Pompeu

FREI BETTO, sempre atual Onze anos

depois do lançamento original, sai pela Rocco uma nova edição do primeiro romance de suspense de Frei Betto, Hotel Brasil – O mistério das cabeças degoladas. Trata-se de um hotel na Lapa, bairro tradicional do Rio de Janeiro, “o ponto maior do mapa” do antigo Distrito Federal, segundo um samba famoso dos anos 1950, que dizia também “Enquanto a cidade dorme, a Lapa fica acordada, acalentando quem vive de madrugada”. Nesse hotel passam a acontecer homicídios misteriosos, e a trama, ainda atual, envolve cafetinas, faxineiras, assessores de políticos, travestis, crianças de rua. Num texto ágil e envolvente, temos uma boa documentação social sobre as mazelas da vida urbana em nossa sociedade. Mas quem não gostaria de saber mais sobre a Revolta da Chibata, em seu centenário, sobre a primeira grande greve de camponeses no Brasil, em São Paulo, em 1913, sobre os conflitos nas obras contra as secas no Nordeste durante a Primeira Guerra Mundial, sobre a Rebelião dos Marinheiros em 1964, sobre os conflitos no Acre nos anos 1980, sobre o massacre de trabalhadores em Volta Redonda em 1988? Pois tudo isso está no número 5 da revista Perseu – História, Memória e Política – Revista do Centro Sérgio Buarque de Holanda da Fundação Perseu Abramo, ligada ao Partido dos Trabalhadores, que apresenta um Dossiê – Rebeliões; Motim e negociação. E parte da obra jornalística do grande cientista político e militante das causas trabalhadoras, Maurício Tragtenberg, já falecido, que começou como operário e se tornou um dos maiores pensadores políticos do País, e um dos principais teóricos do anarquismo e, mais particularmente, um dos mais contundentes críticos de qualquer tipo de autoritarismo, inclusive os de esquerda, foi reunida pela Editora Unesp no volume A falência da política. Os artigos estão organizados em três partes: na primeira, Tragtenberg crítica os modelos sociopolíticos do século 20, entre eles as concepções de Lenin na Rússia, Franco na Espanha e Maluf no Brasil. Na segunda, ele comenta notícias específicas, como suicídios de estudantes japoneses, conflitos entre israelenses e palestinos, a prática de torturas na Grã-Bretanha democrática e na Alemanha Ocidental socialdemocrata. Por fim, questões brasileiras, como o burocratismo na política, os problemas da educação, Previdência e saúde. Já uma análise da série televisiva americana The L Word é apresentada pela pesquisadora Adriana Agostini no livro L – Lésbicas na TV: The L Word, pela Editora Malagueta. Diz a apresentação: “Alice, Jenny, o casal Bette e Tina e a sedutora Shane marcaram o imaginário de milhões de mu-

lheres no mundo inteiro. Primeiras protagonistas lésbicas de uma série televisiva, as cinco personagens centrais de The L Word e a constelação de personagens lésbicas, transgêneros, bissexuais e heterossexuais a seu redor levantaram, nas seis temporadas, as mais variadas questões de identidade e orientação sexual, embaladas em dramas com lindas atrizes”. As maldições das desigualdades sociais no Rio Grande Norte, onde jornalistas e até Igrejas se juntam na submissão aos poderosos, são o alvo do escritor Claudio Guerra, que relata as frustrações da ação pública a respeito do Lixão do Maruim de Macau, no livro Cidadãos off-line e o Lixão do Maruim de Macau – A via crucis do cidadão comum em busca da efetivação do direito, lançado por O Baú de Macau – Editora e Artes. Para encerrar, livros fundamentais de e sobre dois importantes pensadores marxistas europeus. Do recém-falecido teórico literário inglês Terry Eagleton, temos Walter Benjamin – Rumo a uma crítica revolucionária, sobre o famoso crítico alemão do começo do século 20, publicado pela Omni. Diz Eagleton que ele imbrica a linguagem de Benjamin e a sua “para produzir uma terceira que não pertence inteiramente a nenhum de nós”. Igualmente a partir de Benjamin, e da Editora da Unesp, temos, da filósofa da Universidade de São Paulo Olgária Chaim Féres Matos, Benjaminianas – Cultura capitalista e fetichismo contemporâneo, em que ela aplica conceitos do pensador alemão à realidade do consumismo no século 21. Ainda de Eagleton, mas pela Civilização Brasileira, temos O problema dos desconhecidos – um estudo da ética, que segundo o pensador cultural marxista mais famoso na atualidade, o esloveno Slavoj Zizek, é “uma ponte entre a alta reflexão e os populares manuais de filosofia”. Finalmente, e também da Unesp, temos de Eagleton um seu perfil biográfico e intelectual, em colaboração com Matthew Beaumont, no livro A tarefa do crítico. Renato Pompeu é jornalista e escritor. www.renatopompeu.blogspot.com rrpompeu@uol.com.br> novembro 2010

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Ed. 164 - Revista Caros Amigos  

Revista com a Nalu Faria

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