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PRISÃO A CÉU ABERTO

POPULAÇÃO QUE VIVE NO TERRITÓRIO DO SAARA OCIDENTAL OCUPADO PELO MARROCOS SOFRE COM REPRESSÃO E PÉSSIMAS CONDIÇÕES DE VIDA.

Por Tatiana Merlino e Igor Ojeda O dia ainda não clareou quando o comerciante Mohamed Tarrizi Sarraj é despertado pelo som forte de helicópteros voando. Em seguida, ouve uma voz em um alto-falante ordenando as pessoas a saírem. Instantes depois, cerca de 50 mil policiais marroquinos invadem o acampamento de Gdeim Izik, localizado a 18 quilômetros de El Aaiún, a capital do Saara Ocidental ocupado. “Eu estava dormindo com minha mãe e mais dois irmãos quando entraram ateando fogo nas tendas, jogando gás e água quente, atirando e batendo nas pessoas”, conta Tarrizi, uma das pelo menos 20 mil pessoas que estavam ali naquele 8 de novembro de 2010. Entre os acampados, havia velhos, jovens, mulheres grávidas, deficientes. Ninguém foi poupado. “Vi crianças perdidas de seus pais, mulheres correndo desesperadas sem seus filhos, pessoas foram pisoteadas, meninas e mulheres foram violadas, pessoas foram presas... ”, relata o saaraui. O “Acampamento da Dignidade”, como foi apelidado, começou a ser montado em 10 de outubro em protesto contra as péssimas condições de vida da população saaraui nos territórios ocupados. Os saarauis fazem questão de frisar que foi essa, na verdade, a primeira das mobilizações sociais da recente onda de revoltas do mundo árabe. O acampamento chegou a ter pelo menos 20 mil pessoas, divididas em cerca de 8 mil jaimas, como são chamadas as enormes tendas de pano saarauis. “Lá dentro, tinha mais de cinco saarauis reunidos, isso é uma conquista para quem vive nos territórios ocupados. Era um ambiente de liberdade, entre aspas”, lembra o ativista mexicano Antonio Velásquez, que, com a espanhola Isabel Terraza, estava em Gdeim Izik. Liberdade entre aspas porque o governo marroquino não demorou a reagir. Cercou o acampamento com um muro de areia e pedra, tropas antidistúrbios, soldados, veículos policiais e voos de helicópteros. Dias depois, o invadiu com extrema violência.

PRÁTICAS COMUNS

Até hoje, não se sabe exatamente quantas pessoas foram presas, morreram ou estão desaparecidas como consequência da ação. Sabe-se, porém, que muitos detidos foram submetidos a métodos de tortura utilizados pela polícia marroquina contra o povo saaraui há mais de três décadas. Se nos campos de refugiados no sudoeste da Argélia o sofrimento se dá pela espera eterna, nos territórios ocupados a dor é a da opressão. Lá, os nativos já não são maioria. São apenas 120 mil entre 200 mil colonos marroquinos, incentivados ao

longo dos anos a migrar para o Saara Ocidental. Além das prisões, desaparecimentos e torturas, os saarauis também padecem com as péssimas condições de moradia e trabalho. Moram nos bairros mais pobres e não se beneficiam dos recursos naturais de seu território, especialmente o fosfato e a pesca. “Não há emprego para nós. Somente para os marroquinos, que trabalham na costa com o fosfato, que é nosso”, reclama Mohamed Tarrizi. Outro Mohamed, de sobrenome Embarer, é mais um exemplo da falta de trabalho. “Sou técnico de eletricidade, mas não consigo emprego e tampouco licença para abrir um negócio”, conta o rapaz, que já foi preso e torturado por três vezes. Sua família depende de uma aposentadoria da mãe e de

casa, desnudaram sua mãe e estupraram sua irmã na sua frente. Depois, levaram-no para a delegacia, onde o colocaram num pau de arara, queimaram seu ânus com cigarro e o estupraram. Acusado de ser mafioso e queimar a bandeira do Marrocos, foi condenado a 15 anos de detenção na Prisão Negra. “Dorme-se como uma sardinha. São 40 e tantas pessoas numa cela de 3 por 4 metros”, relata. Dois meses depois de ser preso, fez uma greve de fome de 52 dias com outros 60 prisioneiros políticos. As violações cometidas pelo Marrocos no território ocupado têm sido constantemente denunciadas por organizações de direitos humanos, entre elas, a Anistia Internacional e Human Rights Watch, que alertaram para os abusos da ação contra o “Acampamento da Dignidade”.

REPRESSÃO NA CIDADE

Depois que Gdeim Izik foi desmantelado, as forças marroquinas, ajudadas pelos colonos, passaram a perseguir os saarauis que haviam fugido de volta a El Aaiún, que àquela altura vivia outra “rebelião”. Os que tinham ficado, ao saber da repressão no acampamento, saíram às ruas para protestar. Mas a reação marroquina não demorou a chegar. Casas foram invadidas; homens, espancados; mulheres, estupradas. A polícia tinha uma lista de busca, onde constavam os nomes de Antonio e Isabel, procurados por documentar a ação com imagens e enviá-las FOTO: TATIANA MERLINO ao exterior. pequenos bicos. Os saarauis também sobrevivem Durante nove dias, os dois ficaram escondidos da ajuda em dinheiro enviada por familiares que em uma casa abandonada. “Depois do toque de revivem no exterior, principalmente na Espanha. colher, às 22h, todas as luzes da cidade se apagavam e só se escutava os caminhões militares patrulharem. Na noite do dia 11 para o dia 12 [de PRISÃO NEGRA novembro do ano passado], escutamos baterem na A monarquia sempre negou as acusações de porta da casa quase em frente. Tiraram um hoprática de detenções extrajudiciais, assassinatos e mem de dentro e começaram a torturá-lo em frendesaparecimentos. Segundo a Associação de Fate de sua casa. Escutávamos como sua respiração miliares de Presos e Desaparecidos Saarauis (Afase acelerava, como gritava e gemia. Depois de um predesa), desde o início da ocupação, 4.500 pessocerto tempo, sua respiração se acelerou tanto que as já passaram por desaparecimento forçado. percebemos que estava agonizando. De repente, Graças a entidades de direitos humanos, muideixou de se escutar. Em seguida, ao ouvirmos o tas delas foram encontradas, algumas há anos barulho de um carro, me levantei e vi, por uma sem contato com amigos e familiares. De acordo fresta, que abriam a porta traseira de uma ambucom Abdeslam Omar Lahsen, presidente da Afalância. A luz se acendeu e pude ver pelo menos 12 predesa, além dos centros secretos, há muitas pricadáveres envoltos em lençóis ou sacos brancos, sões marroquinas que, “até agora, nunca foram amontoados”, testemunha Antonio. visitadas por nenhum organismo internacional”. “Até hoje, ainda há os que não podem sair Uma delas é a Prisão Negra de El Aaiún, onde o de casa, pois estão feridos, com balas no corpo. defensor de direitos humanos Bohmud Mohamed E como os hospitais estão militarizados, se vão a Saleh ficou preso. Em 2005, logo após participar um deles, serão presos, torturados ou julgados”, da rebelião que ficou conhecida como a Intifacompleta. da Saaraui, policiais marroquinos invadiram sua

abril 2011

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06.04.11 16:17:34

Ed. 169 - Revista Caros Amigos  

Saara Ocidental, a última colônia da África

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