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Eduardo Sartor (direita) e o amigo Clay Butler viajaram pela costa uruguaia

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Viajar é preciso, mas de BICICLETA O cicloturismo permite um contato intenso com o percurso, o local e a população. Com sensações marcantes, nem sempre o mais importante é o destino, mas o caminho para chegar até lá. REPORTAGEM E FOTO: CAROLINE CORSO

O

navegador Amyr Klink foi sensível quando disse que um homem precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu, para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor: “Para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser”. Essa filosofia, famosa entre muitos viajantes, expressa o quanto uma jornada pode ser intensa não apenas em desafios climáticos e físicos, mas no que agrega para quem parte mundo afora em busca de novos horizontes. A estrada de Klink foi o mar. Para outros muitos, o asfalto compõe o cenário ideal para chegar ao destino. Para os ciclistas, onde for possível entrar com duas rodas e alforjes, torna-se mais uma alternativa de seguir o itinerário. O certo é que não importa o caminho escolhido, mas o que é possível sentir quando se descobre um novo destino. Para os argentinos Nicolas Villada e Rodrigo Paz, já há oito meses viajando de bicicleta, a sensação é sempre mais intensa JULHO 2013 EXP 35


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pedalando. “Há o vento no rosto, a proximidade das pessoas. Além disso, existe um sentimento fraterno e muita ajuda dos moradores locais que encontramos no caminho”, comenta Paz. A dupla saiu de Córdoba no final de 2012 e pretende explorar a América Latina. Eles já passaram por Buenos Aires, litoral uruguaio, Praia do Cassino, Porto Alegre e Florianópolis. Sem tempo estipulado para findar a viagem, os dois arranjam trabalhos nas paradas do percurso a fim de prover renda para continuar trilhando. Com formação universitária em Design, Villada e Paz construíram um mosaico de azulejos na parede de um restaurante no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre. Além disso, são músicos e promovem acústicos em bares e ruas das cidades por onde passam, complementando as economias. Assim, permutam seus trabalhos por comida, lugares para dormir ou conserto das bicicletas. “A nossa ideia é pedalar, desenvolver nossas artes, aprender e fazer com que outros aprendam, compartilhando experiências”, deseja Villada. Liberdade é a palavra guia do caminho. Desta forma, a dupla não descarta que no decorrer do trajeto, possam “pegar um barco e ir pedalar na África”, brinca Paz. E essa liberdade se insere em vários sentidos no cicloturismo. Alguns optam em planejar apenas o início do percurso e deixar que o caminho mostre alternativas interessantes para apreciar. Quando o caxiense Eduardo Sartor saiu de Montevidéu em janeiro, junto com o amigo americano Clay Butler, para pedalarem o litoral uruguaio, sabia apenas que em algum momento chegariam ao Chuí, na fronteira com o Brasil. Mas o que iria acontecer durante a rota, onde dormir e quais estradas seguir, eram uma incógnita. “Não existia roteiro, nem parada, íamos olhando, conhecendo, às vezes alguém nos indicava um lugar legal em conversas ou pedíamos sugestões”, explica o ciclista, que preferia posar fora da cidade, onde houvesse mais natureza e menos tumulto, ideal para acampar. Durante os sete dias de trajeto, os dois passaram por diversos municípios e vilarejos. Faziam paradas, almoçavam e seguiam até a o fim de tarde, momento de encontrar lugar para ficar. “Eram escolhidos lugares bacanas. O acampamento não ocorria só pela necessidade de dormir, mas pelo real contato com a natureza. Acampei na beira da praia e aproveitei o mar com o pôr do sol na minha frente”, lembra o engenheiro civil. O único momento em que Sartor e o amigo tiveram um destino determinado foi quando cru-

Priscila Favaro viajou a Santiago de Compostela

zaram com um grupo de cicloturistas na estrada, que sugeriram a Laguna Garzón como uma das paradas, uma lagoa entre os departamentos de Maldonado e Rocha.

É você, a bicicleta e pouca bagagem. O que importa é a passagem, as pessoas. Descobre-se que não é preciso de muito para ser feliz. Priscila Favaro, fisioterapeuta

“O lugar era muito legal, com pescadores. Foi um dos pontos mais incríveis que fiquei, em um gramado na beira da lagoa, fim de tarde e pássaros”, recorda. No percurso de Sartor, a prioridade foi o desconhecido, ir pelas rotas menores, estradas locais, trilhas ou beira da praia. Buscou conhecer o ambiente natural, e não o criado e produzido para turista. A

intenção era viver o Uruguai na essência, ter contato com pessoas que não estavam ali para receber excursões ou fazer algo em troca de dinheiro. “Muitos me perguntaram se fui para Punta del Este. Sinceramente, foi o pior lugar que conheci. Muito trânsito, carros de luxo, shopping. Um lugar totalmente maquiado e comercial. A natureza era bonita, mas não havia nada mais interessante. Só circula muito dinheiro e é famoso”, opina. A viagem da paulista Priscila Favaro, teve organização e um estudo prolongado sobre o destino a ser explorado. A fisioterapeuta, residente em Caxias do Sul, pedalou o caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, durante 17 dias. Com calma, pode conhecer todos os castelos e paisagens sobre os quais havia lido. A viagem, realizada em 2009, foi seu presente de 40 anos. “Peguei o avião em 22 de agosto para dia 23, data do meu aniversário, eu estar na França e começar a pedalar o circuito já com 40 anos”, lembra. Priscila considera a trajetória em Santiago de Compostela como um divisor de águas. Para ela, o gosto de viajar desta forma é diferente, pois a integração com o meio é muito fulgente, principalmente porque o motor para isso são as próprias pernas. “Me desloquei de um ponto a outro com o meu esforço. Alguns perguntavam se eu estava fazendo planilha e quantos quilômetros eu completava. Mas cicloturismo não é isso. Se eu gostava de um lugar, ficava mais tempo e tirava o melhor de todos


Nicolas Villada e Rodrigo Paz, em Porto Alegre, uma das paradas da viagem

os aspectos”, argumenta. A ciclista partiu de Sain Jean Pied de Port, na França, passando por Pamplona, Logronho, León e Finisterre, percorrendo mais de mil quilômetros em praticamente todo o norte da Espanha. A prática do cicloturismo tem crescido no Brasil. Fábio Eduardo da Silva, um dos diretores do Clube de Cicloturismo do Brasil, entidade que difunde e incentiva a prática de se viajar com bicicleta, afirma que existe mais de de 20 mil e-mails ativos cadastrados no site da organização. Além disso, o diretor sente a cada evento organizado pelo clube o aumento do número de interessados e simpatizantes a atividade. “Desde 2001, quando começamos o cadastro em nossa página, o número só ascende. Atualmente, a bicicleta voltou a estar em evidência em diversas modalidades. Com isso o número de pessoas exercendo o cicloturismo também cresceu, e muito”, explica. Foi a partir desta entidade que Priscila encontrou informações para estruturar sua viagem. Sem noção do universo que a esperava, nenhum amigo com a experiência de viajar pedalando e quais equipamentos comprar, buscou subsídios por conta própria. Assim, acabou descobrindo o clube. “Eles me incentivaram a fazer o itinerário e escolher o material. Como já tinha livros sobre o caminho de Santiago, juntei os relatos com as informações que li e fui sozinha”, lembra. Seguir de bicicleta altera significativa-

mente alguns paradigmas sobre viagem. Muita bagagem, por exemplo, não é aconselhável. Silva lembra que todos os pertences que levar será o próprio ciclista

A única coisa que precisa é não ter medo do que pode acontecer. Rodrigo Paz, designer

que irá carregar. Por isso é preciso considerar a real necessidade de cada utensílio levado. “Nada de uma roupa para cada dia. Isso pode acarretar em peso demais e sem utilidade. Pode-se levar menos e lavar no caminho. Viajar de bicicleta é um exercício de renúncia ao excesso”, observa. Além disso, é preciso conhecer bem os limites e vantagens da bicicleta que se escolhe, pois assim o ciclista não terá surpresas. “A bike precisa ser confiável. Não recomendo uma marca ou modelo específico, mas as bicicletas todo terreno (estilo mountain) são as mais indicadas”, sugere. Por mais que haja limites com a bicicleta, ela, ao mesmo tempo, abre portas para

novas vivências. Não é possível chegar rapidamente a um lugar, em compensação, o ritmo da pedalada proporciona outro campo de visão do ambiente e, ao mesmo tempo, outras sensações e contato com os moradores locais. Para Paz, “a única coisa que precisa é não ter medo do que pode acontecer”. Para eles, durante os momentos de bicicleta há outra perspectiva. No carro se entra em uma “nave” e logo se chega a algum lugar. “Um automóvel completar cem ou 200 quilômetros não significa muito, mas, com a bicicleta essas distâncias e o juizo de valor se transformam”, pensa Villada. Muitos ficam inseguros em relação a fazer uma viagem sem estrutura e comodidade. Mas para Sartor, o ser humano em si não precisa disso: “alguns não entendem, porque vivem absolutamente no conforto. Mas quando descobrem que é possível, seguem um dos caminhos; ou não param mais, ou não era aquilo que imaginavam. No meu caso, eu não paro mais”, brinca. Priscila viu que era mais forte do que pensava. “Viajar pedalando é completamente diferente do que pegar a bicicleta e sair pela cidade. Você levar seu próprio equipamento proporciona uma sensação de liberdade e autonomia muito grande”, explica. Muitos creem que o caminho de Santiago opera transformações. Mas Priscila acredita que não somente o roteiro religioso, mas viajar pedalando realiza as mesmas metamorfoses. “É você, a bicicleta e pouca bagagem. O que importa mais é a passagem, as pessoas. Descobre-se que não é preciso de muito para ser feliz”, acredita. Eduardo Sartor não usa medidores de distância, de tempo e de velocidade na bicicleta. Antes utilizava, mas, no fim, seus dias se resumiam a dígitos e não a sentimentos. “Eu passava a analisar os números do dia e não lembrar do que tinha vivido. Hoje o que vale para mim é o que eu experimentei e passei pelo caminho e não a distância que percorri”, conclui. Para os iniciantes no cicloturismo, Silva indica começar com viagens menores e aumentar o ritmo devagar. Além disso, procurar ajuda de pessoas com experiência. Sobre os cuidados, são os mesmos que se deve ter em qualquer deslocamento com o pedal: “respeitar as leis de trânsito, pois a bicicleta é um veículo e deve seguir regras. Igualmente, é sempre importante estar preparado com água e algum alimento, usar filtro solar e ser educado com o todo”, recomenda.

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Viajar é preciso, mas de bicicleta