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Por: Caroline Baptista | Fotos: Bianca Ponte e Divulgação

Bruna Linzmeyer ATRIZ DÁ VIDA À PERSONAGEM COM AUTISMO EM TRAMA DA REDE GLOBO

Aos 20 anos de idade, a atriz Bruna Linzmeyer deixa claro seu potencial e dedicação. Natural de Santa Catarina, Bruna se mudou para São Paulo ainda na adolescência – exatamente aos 16 anos – para estudar teatro. Desde então, Bruna já percorreu diversas cidades do mundo em busca de aprimorar seu talento, e após um ano se dedicando aos estudos, fez seu primeiro teste para trabalhar na TV Globo, onde interpretou uma russa chamada Tatiana no seriado ‘Afinal, o que Querem as Mulheres?’, que foi ao ar em 2010. A partir deste primeiro trabalho profissional, Bruna não parou mais e fez outras novelas e minisséries, além de peças de teatro – uma delas em Nova York (EUA). Atualmente, Bruna encara um desafio inédito em sua carreira: interpretar uma personagem com autismo, a Linda da novela ‘Amor à Vida’. Para isso, a atriz mostrou comprometimento com a trama de Walcyr Carrasco e, num trabalho intenso de pesquisas, estudos, convivência com especialistas e pessoas com o transtorno entre outras experiências, sua personagem levanta a discussão sobre o autismo. “Ser a Linda é muita responsabilidade e eu me comprometi com ela. Quero fazer com que esta história seja bonita, quero respeitá-la e desejo que ela exista”, conta Bruna. E, para conhecer por de trás das câmeras este lindo trabalho, Bruna abriu seu coração para a Revista Incluir num bate-papo delicioso, em que falou sobre sua carreira e a dedicação à Linda. entrevista 

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ntrevista e Revista Incluir: Você iniciou sua carreira como atriz ainda adolescente. Por que decidiu seguir este caminho? Bruna Linzmeyer: Em princípio, eu não pensava em realmente ser atriz, apesar de estudar teatro em São Paulo. Naquela época, pensava em montar uma peça, fazer um curta, mas não imaginava que essa seria a minha carreira profissional e a minha vida. Contudo, mudei para São Paulo pelo anseio de uma descoberta, pois não sabia o que queria ser. Assim quando vi, já tinha iniciado a carreira de atriz com a série ‘Afinal, o que querem as mulheres?’, com o Luiz Fernando Carvalho. RI: Como foi o início de carreira como atriz? BL: Fico muito feliz de ter começado como comecei. Tive sorte de encontrar e trabalhar com artistas maravilhosos, sensíveis e generosos logo no meu primeiro trabalho. São pessoas que passei a admirar muito, e alguns deles, meus grandes amigos e parceiros de trabalho hoje. Mas esse foi como o “ultra início”, o que vivo hoje é o início de uma carreira, além dos diretores e autores que me deram oportunidades esplêndidas de mostrar o meu trabalho, tenho nível de responsabilidade e comprometimento altíssimo, há muito esforço e dedicação para que um trabalho aconteça, mas é assim que tem que ser, é assim que eu desejo que seja. RI: E, sobre a sua participação na novela Amor à Vida, da Rede Globo, como foi o processo para interpretar a Linda? BL: A Linda foi um convite do Mauro Mendonça Filho (diretor) e do Walcyr Carrasco (autor). RI: A Linda é uma personagem com autismo. Como foi a preparação para essa personagem?

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BL: Eu fiquei meses trabalhando nesta personagem. Convivi com autistas, pais e profissionais em Santa Catarina e no Rio, bem como vi muitos filmes, documentários, entrevistas, li e continuo lendo alguns livros... Foi um longo período de envolvimento com o tema, as pessoas, a questão, centenas de informações que anotava aqui e acolá, rabiscava nos livros, desde impressões intuitivas até informações formais e práticas como as estereotipias, ecolalia e hipersensibilidade entre outros. E tudo isso foi colocado numa sala de ensaio, onde o nosso preparador, Sérgio Penna, me

“ACHO QUE OS AUTISTAS TÊM SUAS ESPECIALIDADES, UNS MAIS OUTROS MENOS, COMO A GENTE TAMBÉM TEM. ELES SÃO SENSÍVEIS, MAS NÃO DIFERENTES.”

ajudou a construir e desenhar quem seria a Linda. RI: Você tinha (ou tem) contato com pessoas com deficiência antes da Linda? BL: Antes desse trabalho eu tive pouquíssimo contato com essas pessoas. Na minha infância e adolescência nunca estudei com ninguém com deficiência, então nunca convivi de fato. Hoje, na faculdade, já tenho uma colega de classe com deficiência visual. Mas isso retrata a realidade social e inclusiva em que vivemos, quantos de nós conviveram na escola com essas pessoas? RI: Fale um pouco sobre como foi esse contato com pessoas com autismo neste período de preparação. BL: Foi um lindo processo de trabalho. Eu nunca tinha tido contato com o autismo, então foi uma experiência singular e muito rica em poder conhecer melhor o transtorno, as pessoas, as características e as especialidades. Foi muito forte esta experiência, desde um choque e tristeza com relação ao preconceito – além de perceber a baixa inclusão tanto escolar, de trabalho quanto à sociedade como um todo, muitas vezes sem maldade – até convivência maravilhosa que tive com os autistas, que puderam contribuir para eu desmistificar, simplificar e ‘amorcificar’ a história deles. entrevista 

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Acho que os autistas têm suas especialidades, uns mais ou-

das características da maioria dos autistas é a dificuldade de

tros menos, como a gente também tem. Eles são sensíveis,

olhar nos olhos das pessoas. Tive que ter um cuidado com o

mas não diferentes.

olhar, pois essa troca entre os atores é quase automática, e a Linda, por ser autista, não tinha muito disso. Agora com a

RI: Você conviveu com autismo do mais leve ao clássico para contribuir na caraterização da

evolução no tratamento, ela olha mais para as pessoas, mas no início foi difícil.

Linda? BL: O primeiro autista que tive contato foi o João, que

RI: A impressão que temos é de que existe

tem autismo clássico. Ele não fala e tem a estereotipia de ter

um desgaste emocional muito grande, as cenas

sempre um objeto na mão girando o tempo todo e de até ba-

são intensas. Você sente esse desgaste após as

ter a cabeça na parede. E o último autista que eu conheci da

gravações?

nossa pesquisa foi o Wilton, um autista que é pai, trabalha, estuda, e, para mim, foi muito bacana ouvir a experiência e o que ele tinha a dizer, enquanto conhecia a Amandinha, uma autista que mais parece com a Linda entre outros. RI: Além das pesquisas e estudos sobre autismo, você teve o apoio de vários médicos especialistas durante o processo de montagem da personagem. Hoje, você ainda tem algum acompanhamento? BL: Sim. Durante as pesquisas e o estudo da personagem conheci pessoas maravilhosas no caminho, que sempre se colocaram à disposição para esclarecer minhas dúvidas. Mas, além delas, tenho acompanhamento de uma psicóloga contratada pela casa (Globo), que está presente em algumas gravações e que também faz trabalhos de pesquisas para nos ajudar. RI: Quais as maiores dificuldades desta interpretação? BL: Um dos meus desafios é que por estarmos falando de uma coisa específica, há milhões de variações do que é, o grau... Mas existe uma linha a ser seguida, uma linguagem deste transtorno, como, por exemplo, o olhar. Uma

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ntrevista e BL: Muitos me perguntam isso e até acham que sim, mas, curiosamente, não é bem assim que me sinto. Sou o reverso, chego precisando de uma preparação e saio de lá me sentindo pronta para mais. Claro que no início era mais tenso e demandava um tempo para entrar na personagem, de buscar a Linda. Mas depois com o tempo, isso muda. Agora é mais fácil, porque eu já sou a personagem, sei como ela age, como ela pensa. Interpretar a Linda é motivador. RI: E tem muito da Bruna na personagem Linda ou vice-versa? BL: Sempre tem, é incontrolável. A Linda existe a partir de uma história criada pelo autor, mas existem coisas nela que são minhas no sentido de que eu inventei aquilo para

me proporciona ir para outros lugares do ser humano, poder

ela. E o que é para a Linda acaba ficando em mim. Uma vez

me entregar a isso e viver por um motivo, por uma concre-

falaram que eu pedi água de um jeito tão Linda (risos). Eu

tização final que é montar uma personagem. Tem tudo que

me misturei com esta personagem e isso faz parte do meu

eu vou levar para a minha vida, porque a Linda me trouxe

trabalho.

novas experiências, muitas pessoas do bem. Os dias em que eu olhava uma situação e chorava escondido, pois eu ficava

RI: Como está sendo a repercussão dessa personagem? BL: A gente nunca espera, nunca sabe como vai ser a repercussão. Sempre é uma surpresa, pois você não sabe o

muito fragilizada, os dias em que a pessoa com autismo me olhou nos olhos pela primeira vez e pensei ‘uau... estou aqui há duas semanas e é a primeira vez que ela me olha assim’. Isso é muito potente, forte.

tamanho que aquele personagem vai ter. Há o desejo que as pessoas gostem e se identifiquem. Ser a Linda é muita responsabilidade e eu me comprometi com ela. Quero fazer

RI: O que você vai levar – pela vida – desta experiência?

que esta história seja bonita, quero respeitá-la e desejo que

BL: Me transformei em outra pessoa. As experiên-

ela exista, não só por minha causa, mas porque o Walcyr

cias que vivi e as histórias que conheci acrescentaram

inventou esta personagem, porque o Mauro conceituou, en-

na minha vida com uma bagagem de milhões de pen-

tão todo mundo que está em volta inventa e contribui com

samentos novos e novas visões. Aprendi a ter um olhar

a Linda.

generoso com o outro.

RI: O que esta personagem trouxe de positivo para você e para sua carreira? BL: Eu só tenho que agradecer por minha profissão que

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RI: Sua visão sobre a inclusão de pessoas com deficiência mudou após a Linda? Qual sua visão hoje?


BL: Apesar de antes ter tido pouco contato com pessoas com deficiência, e consequentemente, ter ficado de fora do assunto, sempre fui a favor da inclusão. Com a personagem, isso mudou por ter adquirido maior conhecimento, entendimento e desejo. Saber como as coisas funcionam na prática com relação à inclusão de autistas me mostrou o quanto isso é complexo e quanto exige a dedicação para se incluir uma pessoa especial. RI: E qual a sua opinião sobre a inclusão no Brasil? BL: A minha opinião é da visão mais artística que a de quem conhece o assunto, mas é sentimental e intuitiva. Acredito que inclusão deve ser máxima. Todas as pessoas deveriam estar incluídas no trabalho, na escola, em tudo, como tem que ter, e ela começa na educação. Da minha pequena experiência, se todas as crianças hoje convivem com uma pessoa com deficiência, a visão e o jeito de tratar iria mudar, e, consequentemente os adultos mudariam o comportamento. Acredito que a maioria do preconceito não é por maldade, é por falta de conhecimento. Se ela conhecesse, ela saberia o quanto é importante. Neste momento, faço parte desta história com a Linda, pois esse é um exercício da minha atuação: contribuir para abrir os olhos para aquilo. RI: Você tem algum projeto engatilhado após a novela? Pode adiantar alguma coisa? BL: Atuei no filmei ‘Rio eu Te Amo’, uma franquia de

RI: Para finalizar, qual mensagem você deixa para os leitores da Revista Incluir?

um filme internacional produzido pelo Carlos Saldanha,

BL: Trago a frase de Guimarães Rosa: “O que a vida

diretor brasileiro, que traz onze histórias de vida, e eu

quer da gente é coragem”. Não importa o passo que você

faço uma delas com o Rodrigo Santoro. Enquanto conti-

tem que dar, você precisa de coragem para tudo, por mais

nuo gravando a novela, até janeiro, tenho outros projetos

difícil que seja. E, do fundo do meu coração desejo coragem

também em vista, mas nada concretizado ainda.

e amor para todos.

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Entrevista com Bruna Linzmeyer  

Entrevista Bruna Linzmeyer para Revista Incluir. A atriz releva anseios e opiniões sobre sua personagem com autismo em trama de telenovela.