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Contra Capa epois de ter sido pega com o namorado da melhor amiga numa festa, Annabel Green começa o ano letivo sendo ignorada pelo resto da escola. Mas o que realmente aconteceu naquela noite ainda é segredo, que ela não se arrisca a contar para ninguém. Os problemas de Annabel são explicitados pela recusa da família em admitir os próprios problemas: a fissura da mãe para que as filhas virem modelos famosas e Whitney, a irmã do meio, que sofre de anorexia. Uma amizade com Owen, o DJ da rádio comunitária, que tenta constantemente ampliar os gostos musicais de Annabel, fará a tímida jovem a aprender a falar a verdade, doa em quem doer. Ele tem uma missão quase impossível: fazer com que Annabel "Não pense nem julgue. Apenas ouça". "Don't think or judge. Just listen."


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Aba da Frente Annabel Green aparentemente tem tudo. - amigos legais, uma família acolhedora, boas notas e uma carreira de modelo de sucesso. Mas tudo de repente vem abaixo. Ela agora é encarada por todos na escola, a última coisa que ela quer é falar sobre seu novo segredo. A família agora parece frágil também. Ela se pergunta o que causou o rigoroso silêncio entre suas irmãs mais velhas e por que ninguém na família comenta sobre o distúrbio alimentar da irmã do meio. E, para piorar, Annabel possui o mau hábito de evitar confrontos, nem que para isso ela precise mentir ou omitir alguma coisa. Entre proteger a família e encarar a experiência devastadora de revelar seu segredo, Annabel encontra conforto na improvável amizade com um solitário estudante, DJ e ex-presidiário que aprendeu a controlar a própria raiva e que auxilia Annabel a ouvir o próprio coração e se arriscar a falar honestamente.


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Ă€s Vezes ĂŠ preciso saber ouvir a si mesmo.


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Um Gravei o comercial em abril do ano passado, antes de tudo acontecer e logo me esqueci dele. Há algumas semanas, ele começou a passar na televisão e, de repente, eu estava em todo lugar. Nas televisões penduradas na parede da academia. Naquela televisão na agência do correio que serve para fazer você esquecer que está na fila há muito tempo. E agora aqui, na TV do meu quarto, enquanto estou sentada na beira da cama, estalando meus dedos, tentando me levantar e sair. "Chegou àquela época do ano, de novo..." Olhei fixamente para minha imagem na tela, a imagem de como eu era cinco meses atrás. Tentava encontrar alguma prova visível do que havia acontecido comigo e estranhei ao me ver através de algo que não fosse um espelho ou uma foto. Eu nunca me acostumei, mesmo depois de todo esse tempo. "Jogos de futebol americano", eu dizia na tela. Usava um uniforme de líder de torcida azul-bebê, o cabelo bem preso em um rabo de cavalo e segurava um megafone daqueles que ninguém usa mais, onde estava pintada a letra K. "Sala de estudos." Corte para outra cena em que eu estava com um ar muito sério, vestindo uma saia pregueada e um bolero marrom. Lembrei que aquela roupa pinicava e não combinava nada com o tempo, que estava finalmente esquentando. "E, é claro, vida social." Eu me inclinei para frente olhando fixamente para mim mesma na tela, vestindo um jeans e uma camiseta brilhante, sentada em uma bancada, me preparando para falar enquanto um grupo de meninas conversava atrás de mim. O diretor, que tinha rosto de bebê e cara de quem tinha acabado de terminar a faculdade de cinema, me explicou o conceito da sua criação. — A garota que tem tudo — ele dizia movimentando as mãos de maneira


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firme e circular, como se apenas aquilo bastasse para entender algo tão amplo, para não dizer vago. Era claro que isso queria dizer ter um megafone, dois neurônios e um grande grupo de amigos. Foquei pensando na ironia implícita dessa última parte, mas minha versão da tela já estava seguindo em frente. "Tudo acontece neste ano", eu disse. Agora eu usava um vestido cor-de-rosa, com uma faixa de miss que dizia RAINHA DO BAILE, quando um rapaz de smoking se aproximou de mim e me ofereceu o braço. Eu aceitei dando um largo sorriso. O garoto estudava na universidade da cidade e ficou na dele durante toda a filmagem. Porém, depois, pediu meu telefone quando eu estava indo embora. Como eu poderia ter esquecido isso? "Os melhores momentos", dizia eu na tela. "As melhores lembranças. Você encontrará a roupa perfeita para cada ocasião na Loja de Departamentos Koft." A câmera se aproxima cada vez mais e as outras coisas sumiam até ser possível enxergar apenas o meu rosto. Isso foi antes daquela noite, antes de tudo o que aconteceu com Sophie, antes do longo e solitário verão cheio de segredos e silêncio. Eu estava péssima, mas essa garota na TV? Ah, ela estava bem. Dava para perceber pelo jeito que ela olhava para mim e para o mundo, cheia de confiança ao abrir a boca para falar novamente. "Faça seu Ano Novo ser melhor ainda", ela disse, e eu respirei fundo antecipadamente, a próxima frase foi dita, a última frase, aquela que era verdade. "Está na hora de voltar para a escola". A cena congelou, o logo da Kopf apareceu abaixo do meu rosto. Em pouco tempo, a imagem da tela mudaria para um comercial de waffle ou previsão do tempo, um novo assunto a cada quinze segundos, ininterruptamente, mas não esperei. Peguei o controle remoto, desliguei minha imagem na TV e fui para a porta. Tive três meses para me preparar para ver Sophie. Porém, na hora, percebi que ainda não estava pronta. Eu estava no estacionamento antes de o sinal tocar, tentando reunir forças para sair do carro e deixar o ano começar oficialmente. Enquanto as pessoas passavam por mim em direção ao pátio, conversando e rindo, eu repassava todos os "talvez": talvez ela já tenha superado tudo. Talvez outra coisa tenha acontecido durante o verão para substituir nosso pequeno drama. Talvez não tenha sido tão ruim quanto eu pensava. Sei que eram possibilidades remotas, mas ainda eram possibilidades.


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Fiquei sentada lá até o último momento e finalmente tirei as chaves da ignição. Ao me virar para a janela para abrir a porta do carro, dei de cara com Sophie. Ficamos nos olhando por um segundo e imediatamente percebi algumas mudanças: seu cabelo enrolado e escuro estava mais curto, seus brincos eram novos. Ela estava mais magra, se é que isso era possível, e tinha parado de usar delineador forte nos olhos como fazia no verão anterior. Pelo jeito estava curtindo um estilo mais natural, com tons de rosa e bronze. Ao ver Sophie me olhando, fiquei me perguntando se eu tinha mudado também. Enquanto eu pensava, Sophie abriu sua boca bem desenhada, apertou os olhos e proferiu o veredicto pelo qual esperei durante todo o verão: — Vadia. O vidro que estava entre nós não abafou o som nem a reação das pessoas que passavam. Vi uma garota que foi da minha classe no ano passado me olhar com ódio, enquanto outra que eu não conhecia estava morrendo de rir. Sophie, no entanto, não esboçou nenhum tipo de expressão ao me dar as costas, colocando sua mochila sobre um ombro e andando em direção ao pátio. Senti meu rosto queimar e percebi que as pessoas me olhavam. Eu não estava preparada para isso e provavelmente nunca estaria; afinal de contas, o começo daquele ano, entre outras coisas, não podia mais ser adiado. Não tive outra escolha a não ser sair do carro sob os olhares de todos e começar o ano séria e sozinha. E foi exatamente o que fiz. Conheci Sophie quatro anos antes, no começo do verão depois da sexta série. Eu estava na piscina comunitária do bairro, parada na fila da lanchonete com duas notas dobradas para comprar uma Coca-Cola, quando percebi que alguém parou atrás de mim. Virei para trás e lá estava uma garota que eu não conhecia. Ela usava um biquíni laranja bem pequeno e sandálias de plataforma combinando. Era morena e seu cabelo, escuro e enrolado bem preso em um rabo de cavalo. No rosto, óculos escuros e uma expressão de tédio e impaciência. Como em nossa vizinhança todos se conhecem, parecia que ela tinha caído do céu. Eu não queria ficar encarando a menina. Mas parece que foi exatamente isso o que fiz. — O que foi? — ela perguntou. Eu me vi refletida na lente dos seus óculos, pequena e fora de perspectiva. — O que você está olhando? Senti meu rosto ficar vermelho, como acontecia toda vez que alguém levantava a voz para mim. Eu era muito sensível a tons de voz, tanto que até aqueles


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programas de TV sobre tribunais e julgamentos me deixavam nervosa. Sempre tinha que mudar de canal quando o juiz levantava a voz para alguém. — Nada — respondi e dei as costas para ela. Logo depois, o menino do Ensino Médio que trabalhava na lanchonete avisou, com um olhar cansado, que era a minha vez. Enquanto ele servia a minha bebida eu podia sentir a garota atrás de mim. A presença dela era como um peso enquanto eu esticava as duas notas em cima do balcão de vidro, me concentrando em alisar cada nota. Depois de pagar, saí de lá, olhando para o cimento esburacado, em direção ao local onde minha melhor amiga, Clarice Reynolds, me esperava. — A Whitney pediu para eu te dizer que ela foi pra casa — disse Clarke, assoando o nariz enquanto eu colocava a Coca-Cola com todo o cuidado ao lado da minha cadeira. — Eu disse a ela que a gente podia voltar a pé. — Beleza — respondi. Minha irmã Whitney tinha acabado de tirar a carteira de motorista, o que queria dizer que ela tinha que me dar carona para todo lugar. No entanto, voltar para casa continuava sendo problema meu, não importava se era da piscina, que nem era tão longe, ou do shopping, que ficava em outra cidade. Whitney era do tipo solitária, mesmo nessas ocasiões. Qualquer área que a rodeava era seu espaço pessoal e qualquer pessoa se tornava um invasor apenas pelo fato de existir. Só depois de me sentar é que me permiti olhar novamente para a garota do biquíni laranja. Ela tinha saído da lanchonete e estava de pé no outro lado da piscina, de toalha no ombro, uma bebida na mão, observando a disposição dos bancos e cadeiras de praia. — Aqui, ó — disse Clarke, me estendendo o baralho. — Você dá as cartas. Clarke é minha melhor amiga desde que tínhamos seis anos. Havia muitas crianças na vizinhança, mas por alguma razão a maioria delas era adolescente, como as minhas irmãs, ou tinham menos de quatro anos, resultado de um baby-boom de alguns anos antes. Quando a família de Clarke se mudou de Washington, nossas mães se conheceram em uma reunião da associação de moradores. Assim que ficaram sabendo que nós éramos da mesma idade, elas nos juntaram, e assim ficamos desde então. Clarke nasceu na China e os Reynolds a adotaram quando ela tinha seis meses de idade. Nós éramos da mesma altura, mas era só isso que tínhamos em comum. Eu


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tenho olhos azuis e sou loira, uma típica Greene, enquanto os cabelos dela são os mais pretos e brilhantes que já vi, e seus olhos são de um castanho quase preto. Enquanto eu era tímida e sempre queria agradar, Clarke era mais séria; o seu jeito de falar, a sua personalidade e aparência, tudo era bem pensado e medido. Eu fazia trabalhos como modelo desde pequena, assim como as minhas irmãs mais velhas; Clarke era uma moleca, a melhor jogadora de futebol da nossa quadra, sem falar de ser um ás nas cartas, especialmente em gin rummy1 no qual ela passou o verão inteiro ganhando de mim. — Posso dar um gole na sua Coca? — ela me perguntou. E espirrou. — Está tão calor aqui! Concordei, estendendo o braço para pegar o copo. Clarke sofria com alergias durante o ano todo, mas no verão piorava. Ela estava sempre com o nariz entupido ou escorrendo de abril a outubro, e nem enormes quantidades de injeções ou remédio funcionavam. Há muito tempo tinha me acostumado com sua voz um pouco fanha, assim como a presença onipresente da caixa de lenços no seu bolso ou na sua mão. Havia uma hierarquia organizada para se sentar ao redor da nossa piscina: os salva-vidas tinham as mesas de piquenique próximas à lanchonete, enquanto as mães e crianças pequenas ficavam na parte rasa e na piscina dos bebês (ou do xixi). Clarke e eu preferíamos a área que tinha um pouco de sombra atrás dos escorregadores, enquanto os caras mais populares da escola — como Chris Pennington, três anos mais velho do que eu e sem dúvida o cara mais lindo do bairro e, eu pensava na época, provavelmente do mundo inteiro — ficavam perto do trampolim. O melhor lugar era a fileira de cadeiras que ficava entre a lanchonete e a piscina olímpica, ocupado normalmente pelas meninas mais populares. Era lá onde a minha irmã mais velha, Kirsten, estava deitada em uma espreguiçadeira, usando um biquíni cor-de-rosa e se abanando com uma revista Glamour. Assim que dei as cartas, me surpreendi ao ver que a garota de laranja andava em direção a onde Kirsten estava levando uma cadeira. Molly Clayton, melhor amiga de Kirsten, que estava do outro lado, apontou a garota para ela e depois balançou a cabeça como quem não estava acreditando naquilo; Kirsten olhou para cima, deu de ombros e se deitou novamente, colocando o braço sobre a cabeça. — Annabel? — Clarke já tinha pegado suas cartas e estava impaciente para Jogo de cartas cujo objetivo é fazer o maior número de combinações de cartas o mais rapidamente possível. As combinações consistem de grupos de três ou mais cartas de mesmo valor ou seqüências de três ou mais cartas do mesmo naipe. 1


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começar a ganhar de mim. — É a sua vez. — Ah — eu disse, me virando para ela. — É verdade. Na tarde seguinte, a garota voltou dessa vez usando um maiô prateado. Quando cheguei, ela já estava instalada na mesma cadeira que minha irmã ocupava no dia anterior, toalha esticada, garrafa de água ao lado, revista no colo. Clarke estava na aula de tênis, então eu estava só quando Kirsten e as amigas dela chegaram, mais ou menos uma hora depois. Elas chegaram fazendo muito barulho, como de costume, batendo os saltos das sandálias no cimento. Quando chegaram ao local de costume e viram a garota sentada lá, as meninas começaram a andar mais devagar e depois se olharam. Molly Clayton parecia irritada, mas Kirsten simplesmente se sentou a umas quatro cadeiras de distância. Nos dias que se seguiram, observei as tentativas teimosas da menina nova para se infiltrar no grupo da minha irmã. Tudo tinha começado com uma simples cadeira, mas, no terceiro dia, a garota já estava seguindo as meninas até a lanchonete. Na tarde seguinte, ela entrou na água poucos segundos depois delas e ficou perto enquanto o grupo conversava e espirrava água umas nas outras. No fim de semana, ela estava sempre atrás das meninas, uma verdadeira sombra viva. Aquilo com certeza era irritante. Vi Molly fuzilando a garota com uns olhares de poucos amigos, até Kirsten tinha pedido a ela para se afastar um pouco, por favor, quando a menina tinha chegado muito perto. Mas a garota parecia não se importar. Ao contrário, se esforçava mais, como se não importasse o que minha irmã e suas amigas falassem desde que fosse com ela e ponto final. — Então — disse a minha mãe uma noite durante o jantar — fiquei sabendo que uma família nova se mudou para a casa que era dos Daughtry, em Sycamore. — Os Daughtry se mudaram? - perguntou meu pai. Minha mãe balançou a cabeça, concordando. — Em junho. Foram para Toledo. Você se lembra? Meu pai pensou um pouco. — É claro — disse finalmente, fazendo que sim com a cabeça. — Toledo. —Também fiquei sabendo — continuou minha mãe, passando a tigela de macarrão para Whitney, que imediatamente a passou para mim — que eles têm uma filha da sua idade, Annabel. Acho que a vi um dia desses quando fui à casa da


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Margie. — Ah, é? — eu disse. Ela balançou a cabeça positivamente. — Ela tem o cabelo preto, é um pouco mais alta que você. Talvez você já a tenha visto por aí. Pensei um pouco e respondi: — Não sei... — Então é ela! — disse Kirsten, de repente, jogando o garfo na mesa de qualquer jeito. — É a louca que persegue a gente na piscina. Eu sabia que ela só podia ser mais nova que a gente. — Como? — Agora era meu pai quem prestava atenção. — Tem uma louca perseguindo vocês na piscina? — Eu espero que não — disse minha mãe em um tom preocupado. —Ela não é louca de verdade — disse Kirsten. — E só uma garota que fica sempre perto da gente. Dá até arrepio. Por exemplo, ela senta perto da gente, segue a gente para todo lado e não fala nada. E está sempre tentando ouvir nossas conversas. Eu já disse pra ela não encher, mas a menina simplesmente me ignora. Não acredito que ela tenha só doze anos. Isso piora tudo. — Que drama! — resmungou Whitney, pegando uma folha de alface com seu garfo. Whitney estava certa, é claro. Kirsten era a nossa rainha do drama. Suas emoções estavam sempre à flor da pele, e sua boca, a todo vapor. Kirsten nunca parava de falar, mesmo quando percebia que ninguém estava prestando atenção. Whitney, por outro lado, era quieta, o que significava que as poucas palavras dela sempre tinham muito mais significado. — Kirsten — disse minha mãe — seja gentil. — Mãe, eu já tentei. Se você visse a menina, me entenderia. É estranha. Minha mãe tomou um pequeno gole de vinho. — Mudar para um lugar novo é difícil, você sabe. Talvez ela não saiba como fazer amigos...


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— Isso é óbvio — respondeu Kirsten. — O que quer dizer que talvez você tenha que fazer um esforço também — concluiu minha mãe. — Ela tem doze anos — disse Kirsten, como fosse equivalente a ter uma doença contagiosa ou algo assim. — A sua irmã também tem — observou meu pai. Kirsten pegou o garfo e apontou para mim. — Exatamente — ela disse. Whitney bufou ao meu lado. Mas eu já era o novo alvo da atenção da minha mãe. — Bem, Annabel — ela disse — talvez você devesse fazer um pequeno esforço e pelo menos cumprimentar essa menina. Eu não contei à minha mãe que já tinha conhecido essa garota, principalmente porque ela teria ficado horrorizada com a grosseria da menina. Não que isso mudasse as expectativas da minha mãe com relação ao meu comportamento. Minha mãe era extremamente gentil e educada, e esperava o mesmo de nós em qualquer circunstância. Diplomacia e ética deveriam estar sempre presentes em nossas vidas. — Tá certo — eu disse. — Vou ver. — Boa menina — disse ela. E eu esperava que tudo parasse por ali. No entanto, na tarde seguinte, quando Clarke e eu chegamos à piscina, Kirsten já estava lá, deitada com Molly de um lado e a garota nova do outro. Eu tentei ignorar a situação enquanto nos arrumávamos no nosso canto, mas de vez em quando dava uma olhada para ver se Kirsten me observava. Logo depois, ela levantou, me olhou e andou até a lanchonete. A garota nova foi atrás imediatamente e eu sabia o que tinha que fazer. — Já volto — eu disse para Clarke, que lia um livro de Stephen King e assoava o nariz. — Beleza — ela disse. Eu me levantei e passei pelo trampolim, cruzando os braços ao ver Chris Pennington. Ele estava deitado na cadeira de praia com uma toalha cobrindo o rosto,


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enquanto dois amigos dele lutavam no deck da piscina. Mas agora, em vez de lançar uns olhares para ele — uma das minhas principais atividades cerebrais na piscina aquele verão, além de nadar e perder no baralho — provavelmente eu seria maltratada de novo, tudo porque minha mãe insistia em criar a gente como boas samaritanas do bairro. Que ótimo. Eu poderia ter contado a Kirsten sobre o meu primeiro contato com essa garota, mas achei melhor não. Diferentemente de mim, ela não fugia de confrontos — ao contrário, gostava de enfrentar os outros e sempre ganhava. Ela era o pavio curto da família e eu já tinha perdido a conta de quantas vezes ficara em um canto encolhida e morrendo de vergonha enquanto ela dizia com todas as letras o que não tinha gostado para vendedores de loja, motoristas ou ex-namorados. Eu a amava, mas ela me deixava muito nervosa. Whitney, por outro lado, era de uma fúria silenciosa. Ela nunca dizia que estava brava, mas dava para saber pela expressão do seu rosto, do seu olhar fulminante, além daqueles suspiros profundos, que podiam ser tão agressivos quanto as palavras e que faziam qualquer um preferir que ela falasse de uma vez. Quando ela e Kirsten brigavam — e isso sempre acontecia, afinal elas só tinham dois anos de diferença — a primeira impressão que se tinha era de uma discussão de uma pessoa só, pois tudo o que se ouvia era Kirsten e sua lista sem fim de acusações e ofensas. Mas era só prestar um pouco mais de atenção para perceber o silêncio pesado de Whitney, assim como suas poucas respostas que eram muito mais mal-educadas e diretas do que o turbilhão de comentários redundantes da Kirsten. Uma aberta, outra fechada. Não é à toa que a primeira imagem que me vinha à cabeça quando eu pensava nas minhas irmãs era a de uma porta. Kirsten era a porta da frente, pela qual ela vivia entrando e saindo, falando pelos cotovelos, seguida de suas amigas barulhentas. Whitney era a porta do quarto, que ela preferia manter sempre fechada entre ela e todo mundo. Eu? Eu me sentia um meio-termo entre minhas irmãs e suas personalidades fortes, a personificação de uma área grande e nebulosa que as separava. Não era valente nem dizia tudo o que pensava, mas também não era silenciosa e calculista. Não fazia a menor idéia de como alguém me descreveria ou o que pensaria ao ouvir meu nome. Eu era só a Annabel. ―Minha mãe, que não gostava nem um pouco de conflitos,‖ odiava ver minhas irmãs brigarem.


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"Por que vocês não conseguem ser gentis?", ela pedia. E minhas irmãs somente reviravam os olhos, mas eu levei a sério a mensagem: que ser gentil era o ideal, a única atitude que fazia com que as pessoas não falassem tão alto e nem fossem tão silenciosas a ponto de assustarem as outras. Bastava ser bom e gentil para não precisar se preocupar com discussões. Mas ser gentil não é tão fácil quanto parece, principalmente quando o resto do mundo pode ser muito mau. Quando cheguei à lanchonete, Kirsten tinha desaparecido (é claro), mas a garota ainda estava lá, esperando que o cara atrás do balcão lhe desse uma barra de chocolate. "Vamos lá", pensei ao andar em sua direção. "Isso não vai dar em nada mesmo." — Oi — eu disse. Ela apenas me olhou com uma expressão indecifrável. — Bom... Meu nome é Annabel. Você acabou de se mudar para cá, não é? A garota não disse nada por um tempo que parecia não ter mais fim. Vi Kirsten saindo do banheiro feminino e parar ao ver a gente conversando. — Eu — continuei ainda mais sem graça. — Eu, hã, acho que estamos no mesmo ano na escola. A garota baixou os óculos de sol até a ponta do nariz. — E? — ela perguntou com a mesma voz aguda e irônica de quando falou comigo pela primeira vez. — Eu só pensei — disse — você sabe, como a gente tem a mesma idade, que talvez pudéssemos fazer alguma coisa juntas. Sei lá. Outra pausa. Até a garota dizer como se tentasse entender tudo muito direitinho: — Você quer que a gente saia junto. Eu e você. Certo? Ela fez isso parecer tão ridículo que eu imediatamente comecei a mudar de idéia. — Quer dizer, você não precisa se não quiser — eu lhe disse. — Eu só... — Não — ela me cortou. Depois Jogou a cabeça para trás e ainda deu risada. — De jeito nenhum. Acontece que tudo teria ficado por isso mesmo se eu fosse a única pessoa ali. Eu teria dado meia-volta, morrendo de vergonha, e ido encontrar a Clarke, ponto


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final. Mas eu não estava sozinha. — Espera aí — disse Kirsten em voz alta. — O que você acabou de dizer? A garota se virou. Quando ela viu a minha irmã, arregalou os olhos. — O que foi? — ela perguntou, e eu não pude deixar de perceber que essa frase, por coincidência a primeira frase que ela tinha me dito, soava diferente agora. — Eu perguntei — repetiu Kirsten com sua voz cortante — o que você acabou de falar para ela? "Droga!", pensei. — Nada — respondeu a garota. — Eu só... — Ela é minha irmã — disse Kirsten, apontando para mim — e você acabou de ser uma verdadeira vadia com ela. Eu já estava completamente sem graça e vermelha de vergonha. Kirsten, por outro lado, já colocou a mão na cintura, o que queria dizer que ela só estava começando. — Eu não fui uma vadia — disse a garota, tirando os óculos de sol. — Eu só... — Você foi e sabe disso — disse Kirsten, cortando a menina. — Então, pode parar de negar. E também pare de ficar me seguindo por aí, entendeu? Você me dá arrepios. Vem, Annabel. Eu congelei só de olhar para a cara da garota. Sem os óculos de sol e com aquela expressão de chocada, ela de repente pareceu mesmo ter doze anos, e ficou encarando a gente quando a Kirsten me pegou pelo pulso e me arrastou de volta para onde ela e as amigas estavam sentadas. — Inacreditável — ela não parava de repetir, e, quando olhei para o outro lado da piscina, vi Clarke me olhando com uma cara de ponto de interrogação, quando Kirsten me fez sentar na cadeira dela. Molly se levantou, apertando os olhos por causa do sol e amarrando o seu biquíni. — O que aconteceu? — ela perguntou, e, enquanto Kirsten começou a contar o acontecido, olhei para a lanchonete, mas a garota tinha ido embora. Então a vi através da cerca atrás de mim, atravessando o estacionamento, descalça e cabisbaixa/ela tinha deixado todas as suas coisas na cadeira ao meu lado: uma


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toalha, as sandálias, uma sacola com uma revista, uma carteira e uma escova de cabelo cor-de-rosa. Fiquei esperando ela se dar conta disso e voltar, o que não aconteceu. As coisas dela ficaram lá a tarde toda. Depois, voltei a me sentar com Clarke e contei tudo para ela. Mais tarde, jogamos várias partidas de baralho e nadamos até nossos dedos ficarem enrugados. Depois, Kirsten e Molly foram embora e outras pessoas sentaram nas suas cadeiras, até que o salva-vidas finalmente apitou anunciando que era hora de fechar. Clarke e eu pegamos nossas coisas e andamos pela borda da piscina, queimadas de sol, com fome e prontas para ir para casa. Eu sabia que qualquer coisa que tivesse a ver com aquela garota não era problema meu. Afinal, ela tinha sido mal-educada comigo duas vezes e, portanto, não merecia minha pena, nem minha ajuda. Mas ao passarmos pela cadeira, Clarke parou. — Não podemos deixar as coisas dela aí — ela disse, inclinando-se para pegar as sandálias e as outras coisas e colocá-las na sacola. — E ela mora no nosso caminho para casa. Eu poderia ter discordado, mas pensei de novo na menina atravessando o estacionamento descalça e sozinha. Então, peguei a toalha da cadeira e a coloquei junto da minha. — É — eu disse. — Tá bom. Mesmo assim, ao chegarmos à antiga casa dos Daughtry, fiquei muito aliviada ao ver que todas as janelas estavam fechadas e que não tinha nenhum carro na entrada. Isso queria dizer que poderíamos apenas deixar as coisas da garota ali e acabar com aquilo. Mas quando Clarke se inclinou para colocar a sacola na porta da frente, a porta se abriu, e lá estava ela. A garota usava um short desfiado e uma camiseta vermelha, o cabelo preso em um rabo de cavalo. Sem óculos de sol. Sem sandálias de plataforma. Ao ver a gente, ela ficou vermelha de vergonha. — Oi — disse Clarke, depois de um silêncio bastante constrangedor. Então, ela espirrou antes de acrescentar: — Nós trouxemos as suas coisas. A garota ficou olhando por um segundo, como se não entendesse o que ela dizia. O que era bem possível, com o nariz sempre entupido da Clarke. Eu me inclinei para pegar a sacola e a estendi para a menina.


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— Você esqueceu suas coisas — eu disse. Ela olhou para a sacola, depois para mim com uma cara desconfiada. — Ah — ela disse, pegando tudo. — Valeu. Atrás de nós vários moleques passaram de bicicleta falando muito alto. Depois, o silêncio voltou. — Querida? — eu escutei uma voz vindo do final do corredor escuro atrás dela. — Tem alguém aí? — Está tudo bem — ela disse, virando a cabeça para o lado. Depois, deu um passo à frente, fechando a porta atrás de si, e saiu para a varanda. Ela tentou disfarçar, mas pude ver seus olhos vermelhos e inchados — ela tinha chorado. E, de repente, como muitas outras vezes, ouvi na minha cabeça a voz da minha mãe: É difícil se mudar para um lugar novo. Talvez ela não saiba fazer amizade. — Olha — eu disse — sobre o que aconteceu. Minha irmã... — Tá tudo bem — ela disse, me interrompendo. — Eu estou bem — mas, ao dizer isso, sua voz engasgou um pouco e ela virou de costas para nós, colocando a mão sobre a boca. Eu fiquei lá sem ter a menor idéia do que fazer, mas, ao olhar para Clarke, vi que ela já estava procurando no bolso do short seu inseparável pacote de lenços. Então, tirou um deles e ofereceu para a garota. Um segundo depois, ela pegou o lenço em silêncio e secou o rosto. — Meu nome é Clarke — disse ela. — E essa é Annabel. Nos anos que seguiram, era desse momento que eu sempre me lembrava. No verão depois do sexto ano, eu e Clarke paradas olhando para as costas daquela garota. Talvez tudo tivesse sido diferente para mim, para todas nós, se alguma outra coisa tivesse acontecido exatamente naquele momento que, na época, parecia ser igual a todos os outros, fugaz e insignificante. A garota deu meia-volta, sem chorar — e incrivelmente recuperada — e encarou a nós duas. — Oi — ela disse. — Meu nome é Sophie.


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Dois — Sophie! Finalmente era hora do almoço, o que significava que faltava meio dia para o primeiro dia de aula terminar. Ao meu redor, o corredor estava lotado e barulhento, mas, mesmo com muitas portas de armários batendo e o zumbido de vários avisos no alto-falante, ainda dava para ouvir claramente a voz de Emily Shuster. Olhei pelo corredor até a escadaria principal e percebi que ela vinha na minha direção - vi o seu cabelo vermelho balançando na multidão. Quando ela finalmente apareceu, a meio metro de onde eu estava, nossos olhares se encontraram por um instante. Depois continuou andando pelo corredor até onde Sophie esperava por ela. Como Emily tinha sido minha melhor amiga, pensei que talvez, apenas talvez, ela quisesse continuar nossa amizade. Mas, pelo jeito, não. Elas já tinham traçado os limites — e eu tinha ficado de fora. Eu tinha outros amigos, é claro. Colegas de classe, pessoas que conheci na agência de modelos Lakerview por causa dos trabalhos que fiz. No entanto, estava na cara que meu auto-isolamento durante o verão tinha surtido mais efeito do que eu pensava. Depois de tudo o que tinha acontecido, eu me excluí completamente, imaginando que seria mais seguro do que correr o risco de ser julgada pelas pessoas. Não atendi ao telefone e evitei cumprimentar as pessoas no shopping ou no cinema. Como não queria falar sobre o que tinha acontecido, achei melhor não falar nada. No entanto, o resultado era que agora, toda manhã, quando eu parava para cumprimentar garotas que conhecia ou me juntava a um grupinho conversando, sentia um momento de frieza e distância que durava até eu dar uma desculpa e me afastar. Em maio, tudo o que eu queria era ficar sozinha. Agora meu desejo tinha sido realizado. Minha ligação com Sophie não ajudava, é claro. Ser amiga dela tinha me transformado em cúmplice de todos os seus crimes sociais — que eram muitos — e de tudo que ela tinha aprontado. Portanto, a maioria dos alunos não estava exatamente


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morrendo de vontade de me dar um abraço. Para as garotas que Sophie xingava ou ignorava, enquanto eu assistia a tudo sem fazer nada, provar desse veneno foi mais do que merecido. Se Sophie não podia ser deixada de lado, eu era a segunda opção. Fui até o saguão principal e parei em frente à longa fileira de portas de vidro que davam vista para o pátio. Do lado de fora, as várias panelinhas — atletas, o pessoal da arte, os do movimento estudantil, os maloqueiros — estavam espalhadas pelo pátio da escola. Todos tinham um lugar, e por um tempo eu sabia bem o meu: o grande banco de madeira à direita da entrada principal, onde Sophie e Emily estavam sentadas. E agora aqui estava eu, me perguntando se não seria melhor ficar aqui dentro. — Chegou àquela época do ano de novo — alguém atrás de mim falou alto com uma voz esganiçada. Houve uma explosão de gargalhadas e, quando me virei, vi um grupo de jogadores de futebol americano parados na frente da secretaria. O carinha alto de dread imitava o jeito com que ofereci meu braço ao garoto do comercial, enquanto os outros riam. Eu sabia que eles estavam só fazendo palhaçada. Talvez em algum outro momento eu não tivesse me importado, mas senti meu rosto ficar vermelho e logo fui lá para fora. À minha direita havia um muro enorme, então andei em direção a ele, procurando um lugar, qualquer lugar, para sentar. Havia somente duas pessoas sentadas no muro e, entre elas, uma distância que era suficiente para deixar claro que não estavam juntas. Uma pessoa era Clarke Reynolds. A outra era Owen Armstrong. Como eu não tinha muita escolha de lugar nem de companhia, me sentei entre eles. Senti os tijolos quentes nas minhas coxas enquanto tirava do saquinho o almoço que minha mãe tinha preparado para mim naquela manhã: um sanduíche de peito de peru, água e uma nectarina. Abri a garrafa de água e dei um grande gole antes de ter coragem de olhar em volta. Assim que avistei o banco, percebi que Sophie estava me observando. Quando nossos olhares se encontraram, ela me olhou com ar sério, balançando a cabeça, e depois virou para o outro lado. "Patética", eu a ouvi dizer em minha cabeça e logo afastei esse pensamento. E não era uma questão de eu querer me sentar com ela. Bem, mas também nunca esperei me ver em companhia de Clarke, de um lado, e do garoto mais bravo da escola, do outro. Pelo menos eu conhecia Clarke, ou já tinha conhecido. Mas tudo o que eu sabia sobre Owen Armstrong me foi contado por outras pessoas: que ele era alto, musculoso, com ombros largos e bíceps grandes. E ele sempre usava botas de solado grosso de


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borracha que o deixavam ainda mais alto e seus passos ainda mais pesados. Seu cabelo era escuro e curto, e nunca o vi sem seu iPod e fones de ouvido, que ele usava dentro e fora da classe, com ou sem aula. E embora eu soubesse que ele devia ter amigos, nunca o vi falar com ninguém. E teve também a briga. Aconteceu em janeiro passado, no estacionamento, antes do primeiro sinal. Eu tinha acabado de sair do meu carro quando Owen, de mochila no ombro e fones de ouvido, como sempre, andava em direção ao prédio principal. No caminho, passou por Ronnie Waterman, que estava encostado em seu carro conversando com os amigos. Toda escola tem um cara igual ao Ronnie — um babaca, famoso por fazer pessoas tropeçarem no corredor, o tipo de cara que grita "Que bunda!" quando você passa perto dele. Seu irmão mais velho, Luke, era o oposto dele. Capitão do time de futebol americano e presidente do conselho estudantil, ele era um cara muito legal e querido, e era só por causa disso que as pessoas aguentavam seu insuportável irmão mais novo. Mas Luke tinha se formado no ano anterior e agora Ronnie estava sozinho na escola. Owen estava andando numa boa quando Ronnie gritou algo para ele. Owen não respondeu e Ronnie pegou o carro e parou na frente dele, bloqueando sua passagem. Eu estava longe, mas percebi que era uma péssima idéia; Ronnie não era pequeno, mas ficava minúsculo perto de Owen Armstrong, que era bem mais alto e com as costas largas. Mas parece que Ronnie ainda não tinha percebido. Ele disse algo para Owen, que apenas o olhou e desviou. Quando ele começou a andar de novo, Ronnie deu um soco no queixo dele! Owen cambaleou, mas só um pouco. Depois, jogou sua mochila no chão e deu um soco bem no meio do rosto do Ronnie. De onde eu estava, deu para ouvir o barulho de punho batendo contra osso. Ronnie caiu em segundos — o corpo primeiro, joelhos dobrando, depois os ombros, seguidos da cabeça que balançou um pouco antes de bater no chão. Então Owen abaixou a mão, passou por cima dele com toda a calma do mundo, pegou sua mochila e continuou andando. As pessoas que tinham se juntado para assistir à briga começaram a se dispersar rapidamente para dar passagem para ele. Os amigos de Ronnie já estavam em volta dele e alguém chamava o guarda do estacionamento. Mas do que mais me lembro é ver Owen se distanciando — no mesmo passo e mesmo ritmo de antes, como se nunca tivesse parado. Como se nada tivesse acontecido.


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Na época, Owen estava na escola fazia somente um mês e, como resultado do incidente, ficou suspenso por outro mês. Quando voltou para as aulas, todos estavam falando sobre ele. Diziam que ele tinha cumprido pena em um reformatório, sido expulso das escolas que freqüentara antes e que fazia parte de uma gangue. Era tanto boato que, poucos meses depois, ouvi dizer que ele tinha sido preso por arranjar briga em uma balada no fim de semana, mas achei que fosse mentira. Porém, ele simplesmente sumiu e nunca mais tinha aparecido na escola. Até hoje. Apesar de tudo, bem de perto, Owen não parecia um monstro. Ele só estava sentado, de óculos escuros, camiseta vermelha e batucando no joelho enquanto ouvia música. Mesmo assim, imaginei que seria melhor ele não perceber que eu o observava. Então, depois de desembrulhar meu sanduíche e dar uma mordida, respirei fundo e olhei para o meu lado direito, para Clarke. Ela estava sentada na ponta do muro com um caderno aberto no colo, comendo uma maçã e escrevendo algo com a outra mão. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo e ela usava uma camiseta branca, calça camuflada e chinelo. Na ponta do nariz, os óculos que ela tinha começado a usar um ano antes, pequenos e de armação estilo tartaruga. Um pouco depois, ela olhou para cima e então para mim. Com certeza ela ficou sabendo do que tinha acontecido em maio passado. Todos ficaram. Os segundos se passavam e ela não virava o rosto. Então, fiquei me perguntando se ela finalmente tinha me perdoado e achando que talvez, já que um problema tinha aparecido, eu poderia resolver um mais antigo. Seria bom, pois, já que nós duas havíamos sido deixadas de lado por Sophie, voltaríamos a ter algo em comum. E ela ainda estava me olhando. Eu abaixei meu sanduíche e respirei fundo. Tudo o que eu precisava fazer agora era lhe dizer algo, algo incrível, algo que talvez... Mas, de repente, ela virou o rosto. Colocou o caderno de qualquer jeito na mochila e fechou o zíper. Sua linguagem corporal era dura, seu cotovelo apontava em minha direção. Então, ela pulou do muro, colocou a mochila nos ombros e foi embora. Eu olhei para o meu sanduíche semi comido e senti um nó na garganta. O que era ridículo, porque eu sabia que Clarke sempre tinha me odiado. Pelo menos isso não era novidade. Durante o resto do almoço, fiquei sentada lá fazendo questão de não olhar


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para ninguém. Quando olhei no relógio e vi que faltavam apenas cinco minutos, imaginei que o pior tinha passado. Mas estava errada. Eu estava colocando minha garrafa de água na mochila, quando ouvi um carro fazendo a volta no retorno que ficava perto do final do muro. Olhei e vi um jipe vermelho fazendo a curva. A porta do passageiro se abriu e um cara de cabelo escuro desceu, colocando um cigarro atrás da orelha enquanto se inclinava para falar com a pessoa que estava ao volante. Quando ele bateu a porta e começou a se afastar do carro, vi quem era o motorista. Will Cash. Senti um frio no estômago, como se estivesse em queda livre. Tudo escureceu, os sons ao meu redor começaram a sumir, enquanto as palmas das minhas mãos suavam muito e meu coração batia mais alto, tum-tum-tum. Eu não consegui parar de olhar para ele sentado lá, com a mão no volante, esperando pelo carro à sua frente — uma station wagon de onde uma garota tirava um violoncelo ou algum outro instrumento grande — para sair dali. Depois de um segundo ele balançou a cabeça, irritado. Shhh, Annabel. Sou só eu. Um milhão de jipes vermelhos passou diante dos meus olhos nos últimos meses e, apesar da minha vontade, eu olhava para dentro de cada um para ver aquele rosto — o rosto dele. A diferença é que agora, ali, era ele de verdade. E, enquanto eu dizia a mim mesma que em plena luz do dia eu poderia ser forte e não ter medo, me senti tão impotente quanto naquela noite, como se, mesmo em um lugar público e durante o dia, eu continuasse correndo perigo. A garota finalmente tirou sua caixa da station wagon e se despediu do motorista ao fechar a porta. No momento em que o carro partiu, fiquei vendo os olhos de Will em movimento, olhando para as pessoas no pátio sem prestar atenção em ninguém. Porém ele me viu. Fiquei encarando Will, com o coração acelerado. Durou apenas um segundo, e não percebi nenhum sinal de reconhecimento, nenhuma expressão em seu rosto, como se ele fosse um estranho, uma pessoa qualquer. Depois, ele saiu com o carro, que se tornou apenas um borrão vermelho, e foi isso. De repente, voltei a perceber o barulho e a agitação ao meu redor: o pessoal apressado para chegar à próxima aula e chamando os amigos. Ainda assim, meu olhar se manteve no jipe, observando-o enquanto subia a rua que levava à avenida principal, se afastando de mim pouco a pouco. Até que, em meio a todo aquele barulho, vozes,


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movimento e mudança, virei a cabeça, tentei cobrir a boca com as mãos, mas não consegui: vomitei na grama atrás de mim. Quando me virei novamente, alguns momentos depois, o pátio estava quase vazio. Os atletas tinham saído do outro muro, a grama sob as árvores estava vazia, Emily e Sophie tinham saído do banco. Só depois de limpar minha boca e olhar para o outro lado, vi que Owen Armstrong ainda estava lá, me olhando. Seus olhos eram escuros e intensos, e fiquei tão assustada que desviei rapidamente o olhar. Quando me virei de novo, ele tinha ido embora. Sophie me odiava. Clarke me odiava. Todos me odiavam. Bom, acho que nem todos. — O pessoal da Mooshka adorou as suas fotos — disse minha mãe. Sua voz contente contrastava com os sentimentos que me afligiam enquanto eu me sentava no carro, em meio ao maior trânsito. Estávamos presas em uma fila enorme para sair do estacionamento, depois da sétima aula. — Lindy disse que eles ligaram e estavam muito animados. — Sério? — eu disse, colocando o telefone na outra orelha. — Que ótimo! Tentei parecer feliz, mas a verdade era que eu tinha esquecido completamente que, alguns dias antes, minha mãe havia dito que Lindy, a minha agente, ia mandar minhas fotos para uma marca de biquínis chamada Mooshka Surfwear, que estava contratando para um novo anúncio. Posso dizer que meu trabalho como modelo não era a minha maior preocupação nos últimos tempos. — Mas tem uma coisa — ela continuou. — Lindy disse que eles querem te conhecer pessoalmente. — Ah — eu disse, enquanto a fila andava alguns milímetros. — Certo. Quando? — Bem — ela respondeu. — Na verdade... Hoje. — Hoje? — eu disse, enquanto percebi que Amanda Cheeker me ignorou completamente, sem nem olhar na minha cara ao sair com o seu carro, que mais parecia uma BMW. — Sim. Parece que um dos gerentes de publicidade está na cidade, mas fica só até esta noite. — Mãe... — O carro andou mais alguns milímetros. Coloquei a cabeça para


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fora do veículo, tentando ver quem estava provocando o engarrafamento. — Eu não posso. Estou tendo um dia péssimo e... — Eu sei, querida — ela falou, como se realmente soubesse de algo, o que não era o caso. Depois de criar três filhas, minha mãe era muito bem versada na política das meninas, o que facilitou a explicação que tive que lhe dar sobre o desaparecimento repentino de Sophie com o clássico "Ela anda meio estranha" e "Eu não faço a menor idéia do que pode ter acontecido". Ela só sabe que Sophie e eu nos distanciamos. Nem consigo imaginar o que ela pensaria se eu lhe contasse a verdadeira história. Na verdade, eu consigo imaginar sim. E é exatamente por isso que eu não tinha a menor intenção de contar. — Mas a Lindy disse que eles estão interessados mesmo em você. Bati o olho no retrovisor e fiquei examinando meu rosto avermelhado, o cabelo escorrido e manchinhas de rímel em volta dos olhos, resultado de chorar escondida no banheiro depois da sexta aula. A minha aparência realmente refletia como eu estava por dentro. —Você não entende — eu disse ao andar um pouco mais com o carro. — Eu não dormi bem essa noite, estou com o rosto cansado, toda suada... — Oh, Annabel — ela disse. Senti um nó na garganta, resposta imediata ao seu tom de voz tão doce e compreensivo, e muito bem-vindo depois desse dia longo e terrível. — Eu sei, querida. Mas é só uma coisinha e depois você estará livre. — Mãe... — O sol batia nos meus olhos e só consegui pensar em como eu estava exausta. — Eu só... — Escute — ela disse. — Que tal fazermos o seguinte: você vem para casa, toma uma ducha, eu preparo um sanduíche e faço sua maquiagem. Depois te levo, a gente resolve e você não precisa mais pensar nisso de novo. Certo? Era isso o que minha mãe fazia. Sempre tinha um "Que tal fazermos o seguinte", que significava algum acordo proposto por ela, mesmo não sendo nada diferente da idéia inicial ao menos soava mais agradável. Antes, recusar era a minha prerrogativa. Depois disso, continuar recusando me faria parecer cabeça-dura. — Tudo bem — eu disse enquanto o trânsito finalmente começava a melhorar. Mais à frente, pude ver o segurança indicando para as pessoas passarem por uma Toyota azul com o pára-choque traseiro amassado. — A que horas é essa reunião?


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— Às quatro. Olhei para o relógio. — Mãe, já são três e meia e eu nem saí do estacionamento. Onde é o escritório? — É no... — ela disse. Eu ouvi barulho de papel. — Mayor's Village. Levava uns bons vinte minutos para chegar lá. Já seria muita sorte não me atrasar, o que só aconteceria se eu pegasse muitos faróis verdes. — Ótimo — eu disse. — Não tem jeito mesmo. Eu sabia que estava sendo teimosa, além de petulante. E também sabia que iria à reunião e daria o meu melhor sorriso, pois tinha plena consciência que, tratando-se de minha mãe, ser teimosa e petulante era o pior que eu podia ser. Afinal de contas, eu era a boazinha, — Bem — ela disse. — Se você quiser, eu posso ligar para Lindy e dizer que você não pode. Não tem problema. — Não — eu disse ao finalmente chegar à saída do estacionamento, ligando a seta. — Tudo bem. Eu vou. Trabalho como modelo desde criança. Na verdade, até antes disso. Minha primeira sessão de fotos foi aos nove meses de idade, usando um body para um jornalzinho de ofertas da SmartMart, trabalho que consegui quando minha mãe teve que me levar junto em um teste da minha irmã Whitney porque a babá faltou. A mulher responsável pela seleção perguntou se eu estava disponível, minha mãe disse que sim, e foi assim que tudo começou. Mas essa coisa de trabalhar como modelo começou com a Kirsten. Ela tinha oito anos quando, após uma apresentação de balé, um caça-talentos foi conversar com meus pais no estacionamento e lhes deu um cartão. Meu pai deu risada achando que fosse golpe, mas minha mãe ficou tão curiosa que levou Kirsten ao escritório do cara. O agente imediatamente arrumou um teste para um comercial de uma concessionária de carros, no qual ela não passou, e para um anúncio sobre a programação de Páscoa do Shopping Lakerview, que ela acabou fazendo. Minha carreira de modelo começou com body de bebê, mas Kirsten tinha começado com coelhinhos, ou melhor, um grande coelho da Páscoa se inclinando para colocar um ovo brilhante em sua cesta enquanto ela, de vestido branco, sorria para a câmera.


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Como Kirsten começou a ter muitos trabalhos, Whitney quis tentar também e logo as duas estavam fazendo testes, inclusive para os mesmos trabalhos, o que contribuiu mais para o atrito entre elas. Elas não tinham nada a ver uma com a outra, tanto no temperamento quando na aparência física. Whitney era linda, com uma estrutura óssea perfeita e um olhar cativante, enquanto Kirsten de alguma forma conseguia transmitir sua personalidade alegre e esperta com apenas um olhar. Whitney era melhor em anúncios impressos, mas Kirsten brilhava nas telas. Por causa disso, quando comecei a trabalhar como modelo, minha família já era muito conhecida no circuito local, que consistia principalmente em anúncios impressos para lojas de departamento e de desconto, além de comerciais regionais. Enquanto meu pai preferiu ficar de fora do nosso trabalho — como ele sempre fazia com qualquer "assunto de menina", de Tampax a corações partidos — minha mãe adorava. Ela amava nos levar para fazer os trabalhos, tratar de negócios com Lindy ao telefone e reunir fotos para atualizar nossos books. Mas quando lhe perguntavam sobre o assunto, ela sempre ressaltava que essa era uma escolha nossa e não dela. "Eu ficaria muito feliz em ver as meninas brincando de fazer tortas de lama no quintal de casa." Eu a ouvi dizer isso ao telefone milhões de vezes. "Mas isso é o que elas querem fazer". No entanto, a verdade era que minha mãe também adorava nosso trabalho de modelo, mesmo não querendo admitir. Porém, acredito que era mais do que isso, pois, de certa forma, isso tinha salvado a vida dela. Não em um primeiro momento, é claro. No começo, nosso trabalho como modelo era um hobby divertido para ela, algo que fazia quando não precisava trabalhar no escritório do meu pai. A gente dizia brincando que lá era o local mais fértil do planeta, pois as secretárias estavam sempre ficando grávidas, deixando para minha mãe a tarefa de atender telefones enquanto meu pai não encontrava uma substituta. Mas no ano em que fiz nove anos, minha avó morreu e algo mudou em minha mãe. As lembranças que tenho da minha avó são distantes, silenciosas e baseadas mais em fotografias do que em acontecimentos de verdade. Minha mãe era filha única e muito apegada à mãe e, apesar de morarem em lados opostos do país e se verem poucas vezes por ano, elas conversavam ao telefone quase todas as manhãs enquanto minha mãe tomava sua xícara de café. Como um relógio, se você entrasse na cozinha por volta das dez e meia a veria sentada na cadeira olhando pela janela, mexendo o café com a colher, segurando o telefone apoiado no ombro. Para mim, aquela conversa sempre pareceu a mais chata do mundo, pois os


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assuntos eram a vida de pessoas que eu nunca conheci, a comida que minha mãe tinha preparado na noite anterior ou até a minha própria vida, o que me parecia muito bobo também. Para minha mãe, no entanto, era diferente. Era fundamental. Mas a gente só se deu conta da importância dessas conversas quando minha avó faleceu. Minha mãe nunca foi um pilar de força. Ela era uma mulher quieta, de fala mansa e com o rosto cheio de bondade — o tipo de pessoa pela qual você procuraria se estivesse em um lugar público e algo muito ruim acontecesse, pois lhe daria conforto instantâneo. Sempre pensei que minha mãe nunca mudaria o seu jeito e foi por isso que a mudança que ela sofreu nas semanas depois do funeral da minha avó era tão estranha. Ela ficou... Mais calada. De repente seu rosto ganhou um ar assustado e cansado e era tão óbvio que até eu, aos nove anos, percebi. Primeiro, meu pai nos garantiu que isso fazia parte do luto, que minha mãe estava cansada e que ficaria bem. Porém, ela começou a se levantar cada vez mais tarde e depois havia dias em que ela nem saía da cama. Quando ela estava acordada, eu às vezes ia para cozinha de manhã e a via sentada na mesma cadeira, com uma xícara vazia na mão, olhando pela janela — Mãe — eu dizia e ela não respondia. Então, eu a chamava de novo. Às vezes, só depois de chamar três vezes é que ela começava a virar lentamente a cabeça. Mas então eu ficava com medo, como se não quisesse ver seu rosto. E tinha medo que ela mudasse de novo e se tornasse uma pessoa que eu não conhecia, como naquela época. Minhas irmãs se lembram melhor do que eu, pois eram mais velhas e tinham mais informações. E, como sempre, cada uma tinha seu jeito de lidar com aquilo. Kirsten começou a cuidar da casa quando minha mãe não saía da cama: limpava e fazia o almoço, como se tudo estivesse normal. Quanto a Whitney, foram muitas as vezes em que a vi à espreita na porta semi aberta do quarto da minha mãe e, ao perceber que eu estava olhando, saía sem me olhar nos olhos. Sendo a filha caçula, e não sabendo como reagir, eu tentava evitar criar confusão e fazer perguntas demais. Cada vez mais, nossas vidas passaram a ser guiadas pelo estado em que minha mãe estava. Era o barômetro pelo qual medíamos tudo. Em minha cabeça, a situação podia ser percebida logo pela manhã: quando eu via que ela tinha se levantado em um horário razoável e preparava o café da manhã, estava tudo bem. Porém, quando no lugar dela encontrava meu pai se esforçando para servir cereal e fazer torradas ou, ainda pior, quando nenhum deles estava por ali, eu sabia que o dia não seria bom. Talvez fosse um sistema rudimentar, mas funcionava, mais ou menos. Além disso, eu não tinha mais nada em que me basear. — Sua mãe não está se sentindo bem — era só o que meu pai dizia quando


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perguntávamos por ela quando seu lugar estava vazio na mesa de jantar, ou quando ela passava o dia sem sair do quarto e a única visão que tínhamos dela era um montinho debaixo das cobertas, e que ficava quase imperceptível na penumbra do quarto. — Nós todos temos que nos esforçar para facilitar as coisas até que ela melhore, certo? Eu me lembro de fazer que sim com a cabeça, concordando, e de ver minhas irmãs fazerem o mesmo. Porém, como fazer isso era outra questão. Para começar, eu não tinha a mínima idéia do que fazer para facilitar as coisas, nem se eu tinha feito algo para piorar tudo. O que eu entendia era que a tarefa principal era proteger a minha mãe de qualquer coisa que pudesse chateá-la, mesmo sem saber quais eram essas coisas. Logo também aprendi uma tática. Em caso de dúvida, era melhor deixar o assunto de fora — fora do campo de audição, fora da casa — mesmo se isso na verdade significasse guardá-lo dentro de mim. A depressão, ou o ''episódio" da minha mãe — nunca consegui definir exatamente — durou cerca de três meses até que meu pai a convenceu a ir ao terapeuta. Em um primeiro momento, ela foi relutante e acabou deixando de lado depois de algumas sessões, mas logo depois voltou a fazer terapia e, dessa vez, deu certo e durou um ano. Mesmo assim, não houve nenhuma mudança brusca — como se um belo dia, ao entrar na cozinha às dez e meia, eu a fosse ver alegre e disposta, como se estivesse me esperando. Ao contrário, o processo foi lento e as melhorias eram pequenas como caminhar meio milímetro por dia — e o progresso fosse notado somente depois de certa distância percorrida. Primeiro, ela parou de dormir o dia todo e, depois, começou a acordar no meio da manhã, até que, finalmente, voltou a preparar o café da manhã de vez em quando. Seus silêncios, tão perceptíveis na mesa de jantar e em todo o lugar, foram diminuindo com uma pequena conversa aqui e um comentário ali. No final das contas, foi o trabalho como modelo que me fez perceber que estávamos passando por maus momentos. Como era minha mãe que conseguia os trabalhos para a gente e combinava os testes com a Lindy, nós todas passamos a trabalhar bem menos no tempo em que ela esteve doente. Meu pai levou Whitney para alguns trabalhos e eu consegui ir a uma sessão de fotos programada com muita antecedência, mas o ritmo diminuiu, sem dúvida — até que um dia Lindy nos ligou na hora do jantar para propor um teste, e já esperando um não. — Provavelmente é melhor assim — disse meu pai, olhando para nós, sentadas à mesa, antes de levar o telefone para a cozinha. — Eu só acho que agora não é um bom momento.


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Kirsten, que estava mastigando um pedaço de pão, disse: — Bom momento para o quê? — Um trabalho — Whitney respondeu secamente. — Por que então a Lindy ligaria aqui em casa na hora do jantar? Meu pai agora estava revirando a gaveta próxima ao telefone e, finalmente, encontrou um lápis. — Bom, está bem — ele disse, pegando um bloco de notas. — Eu vou só anotar as informações, mas é mais provável... Certo. Qual o endereço mesmo? Minhas irmãs ficaram de olho enquanto ele escrevia. Elas provavelmente se perguntavam qual seria o trabalho e para quem. Mas eu observava minha mãe, que não desgrudou os olhos do meu pai mesmo ao tirar o guardanapo do colo, encostando-o levemente nos cantos da boca. Quando ele voltou, sentou-se na cadeira e pegou o garfo, eu esperei que minhas irmãs perguntassem os detalhes. Mas minha mãe falou antes. — Então, o que ela queria? Meu pai olhou para ela. — Ah — ele disse — é só um teste amanhã. Lindy achou que talvez nós estivéssemos interessados. — Nós? — disse Kirsten. — Você — respondeu meu pai, pegando um pouco de feijão com o garfo. — Eu disse que esse provavelmente não era um bom momento. É de manhã e eu tenho que ir para o escritório... — Ele parou de falar, sem se preocupar em terminar a frase — e não que ele tivesse que acabar de explicar. Meu pai era arquiteto e muito ocupado com seu próprio trabalho, além de tomar conta da minha mãe e cuidar da casa, e não tinha tempo para nos levar para cima e para baixo. Kirsten sabia disso, mas estava visivelmente desapontada. Até que, no meio do silêncio depois que todos voltamos a comer, ouvi minha mãe tomar fôlego. — Eu posso levá-la — ela disse. Nós todos olhamos para ela. — Quero dizer, se ela quiser ir. — Sério? — perguntou Kirsten. — Porque isso seria...


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— Grace — disse meu pai com uma voz preocupada. Kirsten voltou a sentarse, em silêncio. — Você não precisa fazer isso. — Eu sei. — Minha mãe sorriu um sorriso abatido, mas mesmo assim era um sorriso. — Mas é só um dia, só uma coisa. Eu estou com vontade. Então, no dia seguinte, minha mãe estava de pé para o café da manhã — disso eu me lembro muito bem — e, enquanto Whitney e eu fomos para a escola, ela e Kirsten foram para o teste de um comercial de boliche. Kirsten conseguiu o trabalho. Não foi seu primeiro comercial e nem o maior. Mas toda vez que passava na televisão, eu a via fazendo aquele strike perfeito (claro que editado, pois ela jogava boliche muito mal, era a rainha da canaleta) e me lembrava daquela noite à mesa e de que tudo finalmente voltaria ao normal. E voltou mesmo — ou mais ou menos. Minha mãe voltou a nos levar para os testes, mas era perceptível que ela nem sempre estava animada e contente. Mas, pensando bem, talvez ela nunca tivesse sido assim e talvez eu tenha apenas imaginado ou acreditado que era daquele jeito, assim como fiz com muitas outras coisas. E mesmo com o passar do tempo eu tinha dificuldade em acreditar que as coisas melhoravam de verdade. Por mais que eu quisesse ter esperança, a verdade era que estava sempre ansiosa e certa de que aquilo não duraria muito. E mesmo vendo as coisas em casa voltarem a se restabelecer, o fato de as mudanças em minha mãe terem sido tão repentinas, sem um começo e nem um fim definidos, me dava a impressão de que tudo aquilo poderia começar de novo a qualquer momento. Naquela época, eu tinha a sensação de que qualquer acontecimento ruim ou uma decepção seria o suficiente para ela nos deixar novamente. Talvez eu ainda sinta isso. Essa era uma das razões por que eu ainda não tinha contado para a minha mãe que não queria mais trabalhar como modelo. A verdade era que, durante todo o verão, eu me senti estranha e fiquei nervosa nos testes de um jeito que nunca tinha me sentido antes. Eu não gostava da idéia de ser examinada minuciosamente, de ter que andar na frente de estranhos que me observavam. Em junho, em um teste para comercial de biquíni, eu me esquivava toda vez que a produtora tentava ajustar o meu biquíni e sentia um nó na garganta mesmo quando pedia desculpas e dizia que estava bem. Quase contei isso para a minha mãe várias vezes, mas sempre acontecia alguma coisa e eu acabava desistindo. Eu era a única filha que continuava trabalhando como modelo. Além disso, se já é difícil tirar de uma pessoa algo que a faz feliz, tudo fica muito pior quando se trata da sua única fonte de felicidade.


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Por isso, ao chegar ao Mayor's Village quinze minutos depois, não me surpreendi ao ver minha mãe me esperando. Como sempre, fiquei perplexa em ver como ela era pequena. Mas minha perspectiva era um tanto distorcida, afinal de contas, eu, a mais baixa das irmãs, tinha 1,70 metro, enquanto Kirsten era um centímetro mais alta do que eu e Whitney media 1,78 metro. Meu pai se destacava com seus 1,58 metro, fazendo minha mãe sempre destoar quando estávamos todos juntos, como naqueles testes de múltipla escolha em que você tem que eliminar a resposta diferente. Quando parei ao lado do carro dela, vi Whitney de braços cruzados sentada no banco do passageiro. Ela parecia irritada, o que não era nenhuma novidade, então nem liguei. Peguei a minha nécessaire de maquiagem da bolsa e fui ao encontro da minha mãe, que estava parada perto do pára-choque e com o porta-malas aberto. — Você não precisava ter vindo — eu disse. — Eu sei — ela respondeu sem me olhar e me dando um tupperware com um garfo em cima. — Salada de frutas. Não tive tempo de preparar um sanduíche. Sente-se. Eu me sentei, abri o pote e logo dei uma garfada. Percebi que estava faminta, é claro, pois vomitara o pouco que tinha conseguido comer no almoço. Meu Deus, que dia péssimo. Minha mãe tirou a nécessaire de maquiagem da minha mão e começou a vasculhá-la, depois pegou uma sombra compacta e meu pó de arroz. — Whitney — ela chamou —, me dê as roupas que estão aí, por favor. Whitney bufou e depois se virou para pegar as blusas que estavam no cabide pendurado atrás dela. — Pronto — ela disse secamente e quase jogando tudo no banco traseiro. Minha mãe tentou pegá-las, mas estava um pouco longe, e então tomei a iniciativa. Enquanto eu me esticava para pegar os cabides e puxá-los para mais perto, Whitney ficou segurando tudo por cerca de um segundo a mais, e fiquei surpresa com sua força quando nossos olhares se cruzaram. Depois de um tempo, ela soltou os cabides de repente e voltou a me dar as costas. Eu procurava ter paciência com a minha irmã. Em momentos como esse, tentava lembrar que não era com ela que eu estava chateada, mas com o seu distúrbio alimentar. Mas era muito difícil diferenciar uma coisa da outra, pois esse tipo de atitude sempre foi típico dela.


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— Beba um pouco d'água — disse minha mãe ao me dar uma garrafa aberta, ao mesmo tempo em que pegava as blusas da minha mão. — E venha aqui. Dei um gole e fiquei parada enquanto ela passava o pó no meu rosto. Quando ela começou a passar sombra e delineador, fechei os olhos e fiquei ouvindo os carros passando na estrada. Em seguida, ela começou a procurar uma blusa, fazendo barulho com os cabides. Abri os olhos e a vi segurando uma blusinha de camurça cor-de-rosa. Shhh, Annabel. Sou só eu. — Não — eu disse. Falei em um tom mais bravo do que era a minha intenção, e minha voz soou mal-educada. Tomei fôlego, me forçando a falar de um jeito mais normal. — Essa não... Ela me olhou surpresa, depois olhou para a blusa e para mim novamente. — Tem certeza? Ela fica ótima em você. Achei que você adorasse essa blusinha! Fiz que sim com a cabeça e logo mudei a direção do meu olhar para uma minivan que passava e tinha um daqueles adesivos MEU FILHO É NOTA 10 no vidro traseiro. — Não — eu disse de novo. Ela continuava me olhando, e então completei: — Acho que fico meio estranha nela. — Ah — eu a ouvi dizendo. Como segunda opção, ela me ofereceu uma blusa azul de decote quadrado. — Aqui — ela disse ao olhar a blusa mais de perto e ver uma etiqueta nela. — Vamos lá, rápido! Já são dez para as quatro. Concordei e depois fui até a porta traseira. Entrei no carro, me abaixei para tirar minha blusa e congelei. — Mãe! — eu disse. — Sim? — Estou sem sutiã. Ouvi o barulho do seu sapato de salto na calçada enquanto ela vinha ao meu encontro. — Sem? Eu confirmei acenando com a cabeça e tentando ficar abaixada.


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— Eu estava de regata e ela já vem com um sutiã embutido. Minha mãe pensou por um segundo. — Whitney — ela disse. — Me dá... Whitney fez que não com a cabeça e disse: — De jeito nenhum. Agora foi minha mãe quem respirou fundo. — Querida, por favor — ela disse. — Ajude a gente, vai? Então, fizemos o que estávamos fazendo havia cerca de nove meses: tivemos que esperar e nos preocupar com Whitney. Após um longo silêncio, ela finalmente colocou os braços para dentro da camiseta e de forma desajeitada tirou o sutiã bege pela gola, jogando-o para trás. Peguei o sutiã do chão (não usávamos exatamente o mesmo número, mas era melhor que nada) e o coloquei, arrumando a blusa. — Obrigada — eu disse. Mas ela me ignorou, é claro. — Três e cinquenta e dois — disse minha mãe. — Vamos, querida. Eu me levantei e fui até onde minha mãe estava sentada, me esperando e segurando minha bolsa, que ela me deu enquanto examinava meu rosto para ver o resultado de seu trabalho. — Feche os olhos — ela disse, inclinando-se para tirar um excesso de rímel dos meus cílios. Quando os abri de novo, ela sorriu para mim. — Você está linda. — Até parece — eu disse, mas ela me deu um olhar desaprovador, e então acrescentei: — Obrigada. Ela deu uma batidinha no relógio. — Vai lá. Nós te esperamos. — Vocês não precisam ficar aqui. Vou ficar bem. Whitney tinha ligado o carro. Ela baixou o vidro, esticando o braço para fora. Whitney estava usando mangas compridas, como sempre, mas dava para ver um pouco do seu pulso, pálido e muito magro, enquanto ela tamborilava os dedos do lado de fora do carro. Minha mãe olhou para ela e depois para mim. — Bem, pelo menos espero você entrar — ela disse. — Certo?


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Fiz que sim com a cabeça e me inclinei para lhe dar um beijo bem pertinho da bochecha e sem manchá-la de batom. — Certo. Ao chegar à porta do prédio, olhei para trás. Vi minha mãe acenar para mim, e, quando acenei de volta, pude enxergar o rosto de Whitney pelo retrovisor. Ela também me olhava, mas seu rosto não tinha expressão alguma. Nesse momento, senti meu estômago revirar, algo que estava ficando bastante frequente. — Boa sorte — disse minha mãe. Eu balancei a cabeça e olhei novamente para Whitney. Mas ela tinha deslizado no banco e eu só pude ver o retrovisor. Nenhum reflexo.


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Três Whitney sempre foi magra. Kirsten era mais cheinha e curvilínea, enquanto eu sempre tive porte mais atlético, mas minha irmã do meio nasceu com um corpo de modelo: alta e longilínea, Eu e Kirsten sempre ouvimos os fotógrafos dizerem que, apesar dos nossos rostos bonitos, nós éramos, respectivamente, gordinhas ou baixas demais para seguir carreira de modelo. E logo ficou claro que Whitney tinha potencial de verdade. Então, ficou decidido que, ao terminar o Ensino Médio, Whitney iria morar em Nova York para tentar a carreira de modelo. Kirsten fez exatamente a mesma coisa dois anos antes, quando ela implorou aos meus pais que a deixassem ir morar com duas amigas da agência de modelos. Eles concordaram, mas sob a condição de que ela se matriculasse em alguns cursos na faculdade. Apesar de conseguir manter certo equilíbrio no começo, Kirsten acabou deixando os estudos completamente de lado depois de conseguir ser escalada para alguns comerciais e anúncios impressos. Apesar de fazer alguns trabalhos, a maior parte do seu dinheiro vinha de trabalhos como hostess e garçonete. Não que isso a incomodasse muito. Desde o Ensino Médio, quando Kirsten descobriu os meninos e a cerveja — não necessariamente nessa ordem — seu interesse pela carreira de modelo diminuiu consideravelmente. Enquanto Whitney sempre se preocupava em ir dormir cedo na véspera dos trabalhos e era sempre pontual, Kirsten sempre chegava atrasada, de ressaca e com aquela cara de quem acabou de acordar. Uma vez ela chegou para uma sessão de fotos de um comercial de vestidos de baile da Kopf com um chupão tão forte no pescoço que nem maquiagem conseguiu escondê-lo completamente. Quando os anúncios começaram a circular, algumas semanas depois, ela caiu na gargalhada ao me mostrar um círculo marrom que mal dava para ver sob uma tira do vestido que parecia de princesa. Minha mãe tinha mais expectativas com relação à Whitney, e, duas semanas depois de terminar o Ensino Médio, ela se mudou para o apartamento onde Kirsten estava morando sozinha. Em minha opinião, a idéia de as duas morarem juntas estava errada desde o começo, mas meus pais já haviam resolvido: Whitney tinha apenas dezoito anos e precisava de alguém da família por perto, e já que meus pais ajudavam


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Kirsten a pagar o aluguel, ela não tinha muito motivo para reclamar. (Mas reclamou, é claro.) Além disso, de acordo com minha mãe, elas estavam mais maduras agora e os conflitos antigos tinham ficado no passado. Logo que Whitney se mudou, minha mãe ficou lá um tempo para que ela se instalasse, e também para matriculá-la em alguns cursos e acompanhá-la em suas primeiras visitas a agências. Toda noite, ela ligava depois do jantar para contar a meu pai e a mim como as coisas iam e parecia mais feliz do que nunca quando falava das celebridades que tinha visto, das reuniões nas agências e do ritmo caótico e acelerado de Nova York. Uma semana depois, Whitney foi para seu primeiro teste e conseguiu seu primeiro trabalho em seguida. Quando minha mãe voltou para casa, um mês depois, Whitney estava trabalhando muito mais do que Kirsten. Tudo estava correndo exatamente como planejado... E de repente não estava mais. Minhas irmãs estavam morando fazia uns quatro meses quando Kirsten começou a ligar para minha mãe para contar que Whitney estava se comportando de forma estranha, que tinha emagrecido e parecia não estar comendo, e, além disso, toda vez que Kirsten tentava tocar em qualquer um desses assuntos, ela ficava irritada. No começo, não parecia ser motivo para preocupação, pois Whitney sempre foi temperamental e nem meus pais esperavam que a convivência entre as duas fosse um mar de rosas. Minha mãe chegou à conclusão de que o mais provável era que Kirsten estivesse fazendo drama, pois se Whitney tivesse perdido um pouco de peso, deveria ser pelo fato de ela realmente trabalhar em um mercado muito competitivo, o que significaria uma exigência maior em relação à sua aparência. Conforme ela ganhasse confiança em si mesma, tudo ficaria mais equilibrado. No entanto, foi só olhar para Whitney para percebermos as mudanças muito bem. Antes, ela era elegante, leve; agora estava esquelética e sua cabeça parecia grande demais para o corpo e pesada sobre o pescoço. Ela e Kirsten tinham vindo juntas para passar o feriado de Ação de Graças e, quando fomos pegá-las no aeroporto, o contraste era enorme. Lá estava Kirsten usando um suéter cor-de-rosa, de bochechas rosadas, olhos azuis e pele quente ao me dar um abraço, choramingando que sentia muitas saudades nossas. Ao seu lado, Whitney, usando uma calça de moletom, uma blusa preta de gola alta e mangas compridas, sem maquiagem e pálida. Foi um choque, mas ninguém disse nada naquele momento, apenas nos cumprimentamos, nos abraçamos e perguntamos como tinha sido a viagem. Mas ao andarmos em direção à esteira para pegar as bagagens, minha mãe não aguentou e perguntou: — Whitney, querida — disse minha mãe. — Você parece exausta. Ainda é por causa daquela gripe?


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— Eu estou bem — disse Whitney. — Não, ela não está — informou Kirsten de forma direta, pegando sua mala. — Ela não come. Nunca. Ela está se matando. Meus pais se entreolharam. — Ah não, ela só esteve doente — minha mãe disse. Ela olhou para Whitney que, por sua vez, encarava Kirsten com muita raiva. — Não é, querida? — Errado — Kirsten respondeu. Para Whitney, ela disse: — Como conversamos no avião: ou você conta ou conto eu. — Cale a boca — disse Whitney, por entre os dentes. — Calma — disse meu pai. — Vamos pegar as malas. Essa atitude era a cara do meu pai, o homem solitário em nosso ambiente familiar carregado de estrógeno. Sua forma de lidar com qualquer tipo de problema emocional ou conflito era fazendo algo concreto e específico: conversas sobre cólicas e fluxo menstrual durante o café da manhã? Ele se levantava para trocar o óleo de um dos carros. Chegar em casa ao prantos por razões sobre as quais você não quer conversar? Ele preparava um misto quente — que ele mesmo acabaria comendo. Início de uma crise familiar em um lugar público? Malas. Era hora de pegar as malas. Minha mãe ainda observava Whitney com ar preocupado. — Querida? — ela disse em um tom macio, enquanto meu pai arrancava outra mala da esteira. — É verdade? O que está acontecendo? — Eu estou bem — disse Whitney novamente. — Ela só está com inveja porque estou conseguindo muitos trabalhos. — Ah, por favor — disse Kirsten. — Eu estou pouco me lixando e você sabe disso. Minha mãe arregalou os olhos e, mais uma vez, pensei nela entre nós, tão pequena e frágil. — Que linguajar é esse? — meu pai perguntou a Kirsten. — Pai, você não entende — ela respondeu. — Isso é sério. Whitney tem um distúrbio alimentar. Se ninguém ajudá-la, ela vai... — Cale essa boca! — Whitney gritou descontrolada e com a voz esganiçada.


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— Cale essa sua boca! Ficamos tão surpresos com o escândalo — afinal, estávamos acostumados só com os chiliques da Kirsten — que ficamos parados durante um segundo, pensando se aquilo realmente tinha acontecido. Até que percebi as pessoas nos olhando, deixando óbvio que sim. Eu vi o rosto da minha mãe ficar vermelho; ela estava envergonhada. — Andrew — ela disse, aproximando-se do meu pai. — Eu não... — Vamos para o carro — falou meu pai ao pegar a mala de Whitney. — Agora. Nós fomos. Em silêncio, meus pais andavam na frente, o braço do meu pai sobre os ombros da minha mãe, Whitney ia atrás deles, de cabeça baixa, e Kirsten e eu éramos as últimas. Enquanto andávamos, ela deslizou a mão para segurar a minha. Sua palma era a única coisa quente naquele frio. — Eles têm que saber — ela disse. Porém, quando virei meu rosto na sua direção, Kirsten olhava para frente e fiquei na dúvida se era comigo mesmo que ela estava falando. — É a coisa certa a fazer. Eu preciso fazer isso. Quando chegamos ao carro, ninguém falou uma palavra. Nem quando saímos do estacionamento e nem quando chegamos à rodovia. No banco de trás, sentada entre as minhas duas irmãs, eu sentia Kirsten respirar fundo, como se fosse dizer algo, mas ela não deu um pio. Do outro lado, Whitney estava encostada na janela, olhando para fora, com as mãos no colo. Fiquei observando seus pulsos, que estavam magros, ossudos e pálidos em contraste com o preto da sua calça de moletom. No banco dianteiro, meus pais olhavam para frente e, de vez em quando, eu percebia o ombro do meu pai se mexendo e sabia que ele fazia carinho na mão da minha mãe, para consolá-la. Assim que paramos na garagem, Whitney abriu sua porta. Em poucos segundos ela chegou à porta da cozinha e entrou na casa, batendo a porta com força. Ao meu lado, Kirsten suspirou. — Bem — ela disse calmamente enquanto meu pai desligava o carro. — Nós precisamos conversar. Eles conversaram, mas não pude participar. Eles deixaram bem claro ("Annabel, que tal ir fazer a lição de casa?") que eu não deveria entrar nessa conversa. Então, fiquei no meu quarto, com um livro de matemática aberto no colo,


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me esforçando para entender o que estava sendo dito lá embaixo. Pude ouvir os tons graves do meu pai e os tons mais agudos de minha mãe, e mudanças ocasionais para o tom de Kirsten. Na outra parede, o silêncio de Whitney em seu quarto. Finalmente, minha mãe subiu as escadas e passou em frente ao meu quarto para bater na porta do quarto de Whitney. Quando não teve resposta, ela disse: — Whitney, querida, me deixe entrar. — E nada. Ela ficou lá durante um ou dois minutos antes de eu ouvir a porta se abrir e depois fechar novamente. Desci as escadas e vi Kirsten e meu pai sentados à mesa da cozinha olhando para um queijo quente. — Olha, pai — ela disse enquanto eu abria a porta do armário para pegar um copo — ela explica tudo de forma bem convincente. Ela vai fazer uma lavagem cerebral em mamãe em três segundos. — Tenho certeza de que não é assim — disse meu pai a ela. — Dê um pouco de crédito para sua mãe. Kirsten fez que não com a cabeça. — Ela está doente, pai. Ela quase nunca come, e quando come, é estranho. Não come nem meia maçã no café da manhã e só três bolachas salgadas no almoço. E malha o tempo todo. A academia que fica na esquina de casa é 24 horas, e, às vezes, eu me levanto e ela não está em casa. Sei que ela está na academia. — Talvez ela não esteja — disse meu pai. — Eu já segui a Whitney, pai. Algumas vezes. Ela fica horas correndo na esteira. Olha, assim que cheguei naquela cidade, fiz uma amiga, e a moça com quem ela dividia o apartamento estava exatamente desse jeito. Ela chegou a pesar quarenta quilos ou algo assim: ela foi parar no hospital. Isso é muito sério. Meu pai não se manifestou durante um segundo. — Vamos ouvir o lado dela — ele disse. — E aí poderemos ver em que pé estamos. Annabel? — Sim. — Que tal ir terminar de fazer sua lição de casa?


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— Está bem — eu disse. Terminei meu copo de água, o coloquei na lavalouças e subi novamente. Ao mesmo tempo em que me esforçava para prestar atenção nos paralelogramas, podia ouvir minha mãe conversando com Whitney no quarto ao lado, sua voz macia e suave. Eu estava quase terminando a lição de casa quando a porta se abriu. — Eu sei — dizia minha mãe. — Faça o seguinte: tome um banho, durma um pouco e eu te acordo na hora do jantar, tá? Vai dar tudo certo. Ouvi um suspiro e concluí que era Whitney concordando, e logo minha mãe passou novamente em frente ao meu quarto. Dessa vez, ela me olhou. — Está tudo bem — ela disse. — Não se preocupe. Relembrando de tudo, eu não tenho a menor dúvida de que minha mãe realmente acreditava no que estava falando. Mais tarde, fiquei sabendo que Whitney tinha tranquilizado minha mãe, dizendo que estava apenas trabalhando demais e muito cansada, e que realmente estava malhando mais e comendo menos, pois havia descoberto que era um pouco mais cheinha do que as garotas com as quais fazia testes, mas não era nada exagerado. E continuou dizendo que, se Kirsten pensava que ela não estava comendo, era porque elas tinham horários completamente diferentes, já que Kirsten trabalhava à noite e Whitney de dia. E que ela achava que isso era mais do que preocupação, pois, desde que chegou a Nova York, Whitney logo conseguiu muito mais trabalhos do que Kirsten, e talvez ela não estivesse lidando bem com isso. Talvez ela estivesse com inveja. — Eu não estou com inveja! — ouvi Kirsten dizer toda cheia de raiva, poucos minutos depois de minha mãe ter descido. — Vocês não conseguem ver? Ela enganou vocês. Acordem! Mais coisas foram ditas, é claro, mas não consegui ouvir. E uma hora depois, quando me chamaram para jantar, o que quer que tenha acontecido já tinha terminado e estávamos de volta à boa e velha configuração da família Greene, fingindo estar tudo bem. E eu tinha certeza de que assim parecia — ao menos para quem olhava de fora. Foi meu pai quem projetou nossa casa, que, na época, era a mais moderna da vizinhança. Todos a chamavam de "A Casa de Vidro", apesar de ela não ser realmente toda feita de vidro, apenas a sua frente. Do lado de fora, dava para ver todo o térreo: a sala de estar, dividida por uma lareira de pedra enorme, além da cozinha e da piscina que ficava atrás, no quintal. Também era possível ver as escadas e parte do segundo andar: o corredor do meu quarto e do quarto da Whitney,


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e a plataforma da escada entre eles, dividida pela chaminé. Então, tinha-se a impressão de que dava para ver tudo, mas na verdade, não dava. Porém, a sala de jantar ficava bem na frente da casa, então ficávamos sempre expostos durante o jantar. Do meu lugar à mesa, eu podia ver os carros passando na rua, e eles sempre diminuíam um pouco a velocidade para nos observar nesse recorte do cotidiano: uma família feliz em volta de uma mesa farta. Mas todos sabem que as aparências enganam. Naquela noite, Whitney comeu normalmente. Kirsten tomou vinho demais, e minha mãe ficou dizendo como era maravilhoso o fato de estarem todos reunidos, finalmente. E ela repetiu isso pelos três dias que se seguiram. Na manhã em que elas foram embora, minha mãe fez as duas se sentarem à mesa da cozinha e pediu para que fizessem uma promessa. Ela queria que Whitney cuidasse melhor de si mesma, dormisse mais e mantivesse uma alimentação saudável. Pediu para Kirsten prestar atenção em Whitney e tentar ser mais solidária, pois a irmã estava sob muita pressão morando em Nova York e trabalhando muito. — Certo? — ela disse, olhando para uma e para outra. — Certo — disse Whitney. — Eu prometo. Kirsten, no entanto, apenas balançou a cabeça. — O problema não sou eu — ela disse a minha mãe, afastando a cadeira e se levantando. — Eu avisei. Só digo isso. Eu avisei e vocês escolheram não me ouvir. Só quero que todos tenham isso em mente. — Kirsten — disse minha mãe, mas ela já tinha saído da cozinha e ido para a garagem, onde estava meu pai, colocando as malas no carro. — Não se preocupe — disse Whitney, levantando-se e dando um beijo na bochecha da minha mãe. — Está tudo bem. Por um tempo, tudo pareceu estar bem mesmo. Whitney continuava fazendo vários trabalhos, inclusive uma sessão de fotos para a revista Nova York, o mais importante de sua carreira até então. Kirsten conseguiu um novo trabalho de hostess em um restaurante famoso e fez um comercial de TV a cabo. Se elas não estavam se dando bem, nós não ficamos sabendo, pois, em vez de ligarem juntas para casa uma vez por semana, elas ligavam em dias diferentes. Kirsten normalmente ligava no fim da manhã e Whitney, à noite. Até que, uma semana antes de elas virem para casa passar o Natal, recebemos uma ligação durante o jantar.


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— Desculpe-me, o quê? — disse minha mãe segurando o telefone e de pé entre a cozinha e a sala de jantar. Meu pai a observou enquanto ela levantou a mão, colocando-a contra a outra orelha para ouvir melhor. — O que é? — Gracie? — Meu pai se levantou. — O que é? Minha mãe balançou a cabeça. — Eu não sei — ela disse passando o telefone para ele. — Eu não... — Alô? — disse meu pai. — Quem fala?... Ah... Entendo... Certo... Bom, isso é um engano, tenho certeza... Um momento, vou procurar a informação correta. Quando ele colocou o telefone de lado, minha mãe disse: — Eu não consegui entender essa mulher. O que ela estava dizendo? — Há um problema com o cartão do convênio médico de Whitney — ele respondeu. — Parece que ela foi ao hospital hoje. — Ao hospital?—A voz da minha mãe foi adquirindo aquele tom assustador que sempre fez meu coração acelerar em um segundo. — Ela está bem? O que aconteceu? —Eu não sei — respondeu meu pai. — Ela já recebeu alta, há apenas um problema com a cobrança. Preciso achar o cartão novo dela... Enquanto meu pai subia para o escritório para procurar o cartão, minha mãe pegou o telefone novamente e tentou obter alguma informação da mulher que tinha ligado. No entanto, por questões de privacidade, ela não disse muita coisa, apenas informou que Whitney tinha chegado de ambulância poucas horas antes. Assim que resolveu a questão do pagamento, ele ligou para o apartamento de Kirsten e Whitney. Kirsten atendeu. — Eu tentei contar para vocês — era tudo o que ela dizia. Pude ouvir a sua voz de onde eu estava. — Eu tentei. — Passe o telefone para a sua irmã — disse meu pai. — Agora. Whitney pegou o telefone e eu podia ouvi-la falar com meus pais. Sua voz era alta e alegre. Mais tarde, fiquei sabendo a história que ela contou para eles: que não era nada demais, pois só estava muito desidratada - resultado de uma sinusite — e acabou desmaiando durante a aula. Parecia ter sido mais grave do que realmente foi e a ambulância foi chamada por alguém que entrou em pânico. Ela não tinha nos


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contado porque não queria deixar minha mãe preocupada, pois não era nada demais. Mesmo. — Talvez eu deva passar um tempo aí — disse minha mãe. — Só para garantir. Whitney disse que não, não era necessário, pois elas viriam para casa em duas semanas para o Natal e era disso que ela estava precisando: uma pausa para dormir melhor. E ela ficaria bem novamente. — Você tem certeza? — perguntou minha mãe. Sim, ela tinha certeza absoluta. Antes de desligar, meu pai pediu para falar com Kirsten novamente. — Sua irmã está bem? — ele perguntou. — Não — Kirsten respondeu. — Ela não está bem. Mesmo assim, minha mãe não viajou para lá. Esse foi o maior erro de todos e até hoje é a única coisa que não consigo entender. Por algum motivo, ela acreditou na Whitney. E foi um erro. Quando Whitney chegou sozinha para o Natal, pois Kirsten precisou ficar mais tempo em Nova York por causa do trabalho, meu pai foi pegá-la no aeroporto, enquanto eu e minha mãe ficamos em casa preparando o jantar. Quando eles chegaram, ao olhar para a minha irmã, não acreditei no que vi. Ela estava magra demais! Esquelética. Era claramente perceptível, mesmo que ela usasse roupas mais largas do que na última vez que a vi. Seus olhos pareciam afundar no rosto e dava para ver os tendões do seu pescoço se movimentando como fios de marionetes toda vez que ela virava a cabeça. Não consegui fazer mais nada além de ficar encarando minha irmã. — Annabel — ela disse, incomodada. — Vem aqui me dar um abraço. Eu larguei o descascador de legumes que estava segurando e atravessei a cozinha devagar. Ao colocar meus braços em volta da minha irmã, senti como se ela fosse quebrar a qualquer momento, pois parecia muito frágil. Meu pai estava parado atrás dela segurando a sua mala e, quando olhei para o seu rosto, percebi que ele também estava chocado com a mudança que Whitney tinha sofrido em apenas um mês. Minha mãe não se deu conta de nada disso, ou pelo menos não se manifestou. Ao contrário, quando me afastei de Whitney, ela deu um passo à frente,


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sorrindo, e a trouxe para perto de si. — Ah, querida — ela disse. — Você está trabalhando tanto! Ao se inclinar para frente e repousar a cabeça sobre o ombro da minha mãe, Whitney fechou os olhos. Suas pálpebras pareciam quase translúcidas, o que me deixou com muito medo. — Você vai se sentir melhor, pode deixar — disse minha mãe — e começando agora mesmo. Vá lavar o rosto. O jantar está pronto. — Ah, mas não estou com fome — disse Whitney. — Eu comi no aeroporto antes de embarcar. — Comeu? — Minha mãe pareceu chateada. Ela tinha passado o dia inteiro cozinhando. — Bem, mas com certeza consegue tomar um pouquinho de sopa de legumes. Fiz especialmente para você, afinal não é disso que está precisando para acordar o seu sistema imunológico? — Na boa, eu só quero dormir — disse Whitney. — Eu estou muito cansada. Minha mãe olhou para meu pai que, por sua vez, continuava muito sério observando Whitney. — Está bem, então, vá se deitar um pouco. Você pode comer quando acordar, não é mesmo? Mas Whitney não comeu naquela noite, pois dormiu até o outro dia e não se manifestou em nenhuma das vezes que minha mãe subiu com uma bandeja, nem na manhã seguinte: ela disse ter se levantado bem cedinho e já ter tomado café da manhã quando meu pai, o madrugador da casa, desceu para fazer café. Na hora do almoço, ela dormiu novamente. E, finalmente, no jantar, minha mãe a fez sentar-se à mesa conosco. Whitney estava sentada ao meu lado e, logo que meu pai começou a nos servir o jantar, cortando o rosbife e colocando as fatias nos pratos, eu fiquei totalmente atenta ao fato de Whitney não conseguir ficar parada, se contorcendo toda nervosa, puxando o punho da manga do seu moletom largo. Ela cruzou e descruzou as pernas, depois tomou um gole de água e puxou a manga do moletom de novo. Eu podia sentir o estresse que emanava dela, era perceptível. E quando meu pai colocou na frente dela um prato cheio de carne, batatas, ervilhas e um bom pedaço do famoso pão de alho da minha


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mãe, ela perdeu o controle. — Eu não estou com fome mesmo — ela disse rapidamente, afastando o prato. — Não estou. — Whitney — meu pai disse. — Coma. — Eu não quero — ela disse com raiva. E do outro lado da mesa estava minha mãe, com um ar tão chateado que partia o meu coração. — Isso é por causa da Kirsten, não é? Foi ela quem falou para vocês fazerem isso. — Não — disse minha mãe — isso é por sua causa, querida. Você precisa ficar bem. — Não estou doente — disse Whitney. — Eu estou bem. Só estou cansada, e não vou comer se não estou com fome. Não vou. Vocês não podem me obrigar. Nós ficamos lá, sentados, observando-a puxar novamente a manga do moletom, com os olhos fixos na mesa. — Whitney — disse meu pai — você está magra demais. Você precisa... — Não me venha dizer o que eu preciso — ela disse, arrastando a cadeira para trás e se levantando. — Você não tem a menor idéia do que eu preciso. Se tivesse, nós nem estaríamos tendo esta conversa. — Querida, nós queremos te ajudar — disse minha mãe com sua voz doce. — Nós queremos... — Então, me deixem em paz! — Ela bateu a cadeira com força na mesa, fazendo os pratos pularem, e saiu batendo os pés. Um segundo depois, eu ouvi a porta da frente abrir e fechar. Ela saiu. O que aconteceu em seguida: depois de se esforçar para acalmar minha mãe, meu pai pegou o carro e saiu para procurar Whitney. Minha mãe se acomodou em uma cadeira do hall de entrada, e eu terminei rapidamente meu jantar, depois cobri os pratos deles com filme plástico e lavei a louça. Eu estava terminando quando vi o carro do meu pai na entrada. Quando ele e Whitney entraram em casa, ela não olhava para ninguém. Em vez disso, ficou de cabeça baixa e olhando para o chão enquanto meu pai explicava que ela comeria um pouco e depois voltaria a dormir, na esperança de que as coisas melhorassem amanhã. Não houve uma discussão sobre esse acordo e nem como os


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dois tinham chegado a ele. Já estava decidido. Naquele momento, minha mãe me pediu para subir, então não cheguei a ver Whitney jantando, nem se houve alguma outra briga por causa disso. Porém, mais tarde, quando a casa ficou silenciosa e tive certeza de que todos estavam dormindo, eu desci. Havia apenas um prato dos três que eu tinha embalado e, apesar de ele parecer ter sido remexido, ainda havia muita comida. Peguei algo para beliscar e fui para a sala de TV, onde assisti à reprise de um reality show sobre transformações e um noticiário local. Quando finalmente subi de novo, era aquela hora da noite quando através do vidro se pode ver a lua brilhando e iluminando tudo. Ver tanta luz dentro de casa era algo que sempre me pareceu estranho e, ao passar pela claridade, cobri os olhos. O corredor do meu quarto e do quarto da Whitney estava iluminado também e apenas o meio estava no escuro por causa da sombra da chaminé. Quando pisei naquela parte escura, pensei ter sentido o ar úmido, como vapor. Só o que sei é que de repente tive a sensação de todo o ar ter mudado, ficando mais pesado. Por um segundo, fiquei parada, inalando aquilo. O banheiro ficava do outro lado do corredor, e dava para ver que a luz estava apagada pela fresta embaixo da porta, mas, conforme eu seguia em frente, o vapor ficava mais pesado e pungente, e eu podia ouvir o barulho da água caindo. Era tudo muito estranho. Eu podia entender que alguém tivesse esquecido a torneira ligada, mas o chuveiro? Bem, Whitney estava agindo de modo estranho desde que chegou, então, tudo era possível. Finalmente cheguei à porta entreaberta, e a empurrei. A porta logo bateu em algo e voltou em minha direção. Eu a abri novamente, senti o vapor direto em meu rosto, já grudando na minha pele. Eu não enxergava nada, e só consegui ouvir a água, então tateei a parede à minha direita até finalmente encontrar o interruptor. Whitney estava no chão, aos meus pés. Foi no ombro dela que a porta bateu quando tentei abri-la pela primeira vez. Ela estava deitada com os joelhos próximos ao peito e envolta em uma toalha, sua bochecha contra o piso. Como eu havia suspeitado, o chuveiro estava no máximo e uma poça de água já estava se formando, pois a quantidade de água era grande demais para escoar pelo ralo. — Whitney? — eu disse, me agachando ao lado dela. Eu não tinha idéia do que ela estaria fazendo ali no escuro, sozinha e àquela hora da noite. —


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Você está... Foi nesse momento que vi o vaso sanitário. A tampa estava levantada e dentro havia uma mistura amarela com um tom de vermelho, e logo percebi de alguma forma que era sangue. — Whitney. — Coloquei minha mão sobre seu rosto. Sua pele estava quente e suas pálpebras palpitavam. Eu a peguei pelo ombro e a sacudi. — Whitney, acorda. Ela não acordou, mas se moveu o suficiente para a toalha se abrir. E, então, eu finalmente vi o que minha irmã tinha feito consigo mesma. Ela era puro osso. Foi a primeira coisa que pensei. Ossos e calombos, cada nozinho da sua coluna vertebral era protuberante e visível. Os ossos do quadril saltados, seus joelhos magros e pálidos. Era impossível que ela conseguisse ser tão magra e ainda estar viva, e mais impossível ainda que ela tenha conseguido esconder isso. E quando ela se mexeu novamente, eu vi a única coisa que me lembraria para sempre: suas duas escápulas pontudas e saltadas iguais às asas dos filhotes de passarinhos mortos, sem pele e recém-nascidos que encontrei uma vez no nosso quintal. — Pai! — gritei. Minha voz era extremamente alta naquele cômodo tão pequeno. — Pai! Lembro-me pouco do resto daquela noite. Meu pai atrapalhado colocando seus óculos enquanto corria pelo corredor de pijama. Minha mãe atrás dele, parada e iluminada por aquele único feixe de luz do outro lado do corredor, suas mãos no rosto ao me afastar do local e, depois, se abaixando ao lado de Whitney e colocando a orelha sobre seu peito. A ambulância, suas luzes que giravam e faziam a casa parecer um caleidoscópio. E depois o silêncio quando ela partiu, levando Whitney e minha mãe. Meu pai a seguindo de carro. Disseram-me para ficar onde eu estava e esperar notícias. Eu não sabia o que fazer. Então, voltei para o banheiro e limpei tudo. Dei descarga sem olhar para o conteúdo do vaso, depois sequei a água que tinha transbordado no chão, levei para a lavanderia as toalhas que eu tinha usado e coloquei-as na máquina. Em seguida, me sentei na sala de estar, sob o luar, e esperei. Foi meu pai quem finalmente ligou, horas depois. O barulho do telefone me fez pular do sofá, e, quando atendi, percebi que o sol já nascia na frente da casa e o


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céu estava cor-de-rosa e vermelho. — Sua irmã vai ficar bem — ele disse. — Quando chegarmos em casa, vamos explicar o que está acontecendo. Depois de desligar o telefone, voltei para meu quarto, me deitei e dormi por mais duas horas até ouvir a porta da garagem se abrindo e perceber que eles tinham chegado. Quando desci para a cozinha, minha mãe fazia café, de costas para mim. Ela usava a mesma roupa da noite anterior e seu cabelo estava despenteado. — Mãe — eu disse. Quando ela se virou, vi seu rosto e senti um aperto no coração. Sua aparência era igual àquela de anos atrás: o rosto muito cansado, os olhos inchados de tanto chorar e uma expressão assombrada. Senti um pânico de repente e fiquei com vontade de me enrolar em volta dela, de ficar entre ela e o mundo, protegendo-a de tudo que pudesse fazer mal a ela, a mim e a qualquer um de nós. E, então, aconteceu. Minha mãe começou a chorar. Com os olhos cheios de lágrimas, ela olhou para suas mãos, que tremiam, e em seguida começou a soluçar alto na cozinha silenciosa. Dei um passo à frente, sem saber o que fazer naquela situação. Por sorte, não precisei fazer nada. — Grace — disse meu pai, que estava parado entre o seu escritório e o corredor. — Querida. Está tudo bem. Os ombros de minha mãe tremiam enquanto ela respirava fundo. — Ai, meu Deus, Andrew. O que nós... Meu pai atravessou o corredor em direção a ela e a abraçou, envolvendo-a com seu corpo grande. Ela enterrou o rosto em seu peito, entre soluços abafados. Eu me retirei com o intuito de ficar fora de seu campo de visão e me sentei na sala de jantar. Ainda podia ouvi-la chorando e era terrível. Mas vê-la era muito pior. Depois, meu pai acalmou minha mãe e lhe disse para subir, tomar um banho e tentar descansar. Ele, então, desceu novamente e se sentou na minha frente. — Sua irmã está muito doente - ele disse. — Ela emagreceu demais e parece que não come normalmente há meses. Seu organismo apagou ontem à noite. — Ela vai ficar bem? — perguntei. Ele passou a mão no rosto, respondendo depois de um tempo:


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—Os médicos acreditam — ele disse — que ela precisa ir imediatamente para uma clínica de tratamento. Sua mãe e eu... — ele disse mais devagar, olhando para a piscina atrás de mim. — Nós queremos o bem da Whitney. — Ela não vai voltar? — Não agora. — ele me disse. — É um processo. Nós temos que ver como as coisas vão andar. Eu olhei para as minhas mãos, estendidas na mesa, sentindo a madeira fresca em minhas palmas. — Ontem à noite — eu disse — quando a vi a primeira vez, eu... — Eu sei. — Ele afastou a cadeira e se levantou. — Mas ela vai receber ajuda. Está bem assim? Fiz que sim com a cabeça. Era claro que meu pai não estava a fim de discutir o impacto emocional do que tinha acontecido. Ele me informou dos fatos, do prognóstico, e era isso o máximo que eu conseguiria dele. Depois de dois dias no hospital, Whitney foi transferida para um centro de tratamento. E ela odiou o lugar de tal forma que, no começo, se recusava a falar com meus pais quando eles iam visitá-la. De qualquer forma, ela estava recebendo ajuda, pois começou a engordar pouco a pouco, dia após dia. Kirsten chegou na noite de Natal e encontrou meus pais cansados e estressados e um clima que não dava a menor chance para festas de final de ano. Quanto a mim, eu apenas tentava não atrapalhar. No entanto, isso não a impediu de dar a sua própria notícia bombástica. — Eu tomei uma decisão — ela anunciou naquela noite durante o jantar. — Vou parar de trabalhar como modelo. Minha mãe, na cabeceira, colocou o garfo sobre a mesa. — O quê? — É que não estou mais a fim de fazer isso — disse Kirsten, tomando um gole de vinho. — Verdade seja dita: não é a minha já faz algum tempo. Além do mais, não tenho conseguido muitos trabalhos. Mas agora resolvi oficializar a decisão. Eu olhei para minha mãe. Ela estava extremamente cansada e triste e, obviamente, isso não a estava ajudando. Meu pai também a observava. Ele disse: — Não tome nenhuma decisão precipitada, Kirsten.


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— Não estou tomando. Já pensei muito sobre isso. — Ela era a única na mesa que continuava comendo e pegou uma garfada de purê de batata ao dizer: — Olha, na real: eu nunca vou pesar cinquenta quilos e muito menos ter um metro e oitenta de altura. — Mas você consegue muitos trabalhos do jeito que é — disse minha mãe. — Alguns trabalhos — Kirsten a corrigiu. — Está longe de ser suficiente para me sustentar. Eu trabalho com isso desde os oito anos. Agora tenho vinte e dois. Quero fazer outra coisa. — Por exemplo? — perguntou meu pai. Kirsten deu de ombros. — Eu ainda não sei. Trabalho como hostess no restaurante e uma amiga minha é dona de um salão de beleza e me ofereceu um trabalho como recepcionista. Então, as contas eu vou conseguir pagar. Estou pensando em me matricular em algumas aulas ou algo assim. Meu pai ergueu as sobrancelhas. — Voltar a estudar — ele disse. — O que é essa cara de surpresa? — retrucou Kirsten. Porém, devo admitir que também me surpreendi, pois, mesmo antes de largar a faculdade em Nova York, Kirsten nunca foi muito de estudar. No Ensino Médio, quando ela não faltava por causa do trabalho de modelo, geralmente matava aula para ficar com algum namorado largado que tinha na época. — A maioria das garotas da minha idade já se formou e tem uma carreira. Sinto que já perdi muito tempo, sabe? Quero ter um diploma. — Você pode ir para a aula e continuar trabalhando como modelo — disse minha mãe. — Não há necessidade de escolher entre uma ou outra. — Há sim — Kirsten respondeu. — Para mim, é necessário. Em outras circunstâncias, talvez meus pais tentassem conversar mais sobre o assunto. Porém, eles estavam cansados e Kirsten, além de ser conhecida por ser uma pessoa muito direta, era também muito teimosa De qualquer maneira, a notícia não deveria ter sido uma grande surpresa, pois ela não se dedicava ao trabalho de modelo havia alguns anos. O negócio é que o fato de a notícia ter sido dada logo depois do desmaio da Whitney a tornava mais significativa. Principalmente para mim, apesar de não ter me dado conta na época.


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Whitney ficou no centro de tratamento por trinta dias, durante os quais ganhou cinco quilos. Ela queria voltar à Nova York assim que tivesse alta, mas meus pais insistiram que voltasse a morar em casa, pois, segundo os médicos, a volta à rotina de modelo poderia comprometer sua recuperação. Isso foi em janeiro, e, desde então, começou a fazer parte de um programa para pacientes externos e ir à terapia duas vezes por semana. Além disso, ela andava mal-humorada pela casa. Quanto à Kirsten, continuava em Nova York, manteve sua palavra e se matriculou em algumas aulas na faculdade, e tinha dois trabalhos. Por causa da sua experiência no Ensino Médio, foi surpreendente o fato de ela adorar a faculdade e ligar para casa toda feliz e animada nos fins de semana para falar das aulas e do que estava estudando. Mais uma vez, minhas irmãs estavam em dois momentos extremos, porém parecidos: as duas estavam recomeçando. Porém, apenas uma delas estava nessa por vontade própria. Em algumas semanas, parecia que Whitney começava a melhorar, e ganhar peso no seu ritmo. Mas em outras, ela se recusava a tomar café da manhã ou era flagrada em seu quarto de madrugada fazendo abdominais, o que era proibido, e a única coisa que a colocava na linha novamente era a ameaça de ter que voltar ao hospital e ser forçada a comer. Durante esse tempo, uma coisa continuava a mesma: ela não falava com Kirsten. Nem quando ela ligava, nem quando veio passar uns fins de semana em casa durante a primavera. No começo, Kirsten ficou magoada, depois com raiva e, mais tarde, passou a revidar com seu próprio silêncio. O resto de nós ficava no meio, preenchendo os silêncios desagradáveis com assuntos que nunca davam certo. Desde então, meus pais passaram a viajar várias vezes para visitá-la e ela, por sua vez, fez questão de não voltar para casa. Era estranho. Quando criança, eu odiava quando as minhas irmãs brigavam, mas o fato de elas não se falarem era pior. A falta de qualquer tipo de comunicação entre as duas era assustadora, pois essa situação já durava cerca de nove meses e parecia que nunca chegaria ao fim. As mudanças pelas quais minhas irmãs passaram no último ano eram evidentes até para os sentidos: uma era rapidamente percebida pelo olhar, enquanto a outra podia ser ouvida à distância mesmo se você não quisesse. Quanto a mim, eu me encontrava onde sempre estive: em algum lugar entre elas. Mas mudei também, mesmo sendo a única a perceber isso. Eu estava diferente. Tão diferente quanto minha família naquela noite em que tudo começou. Nós cinco éramos diferentes do que parecíamos para alguém que passava de carro, olhava para dentro da casa e via uma família feliz com todos sentados em volta da


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mesa de jantar na nossa casa de vidro.


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Quatro Na primeira semana de aula, Sophie me ignorou completamente. Isso foi difícil. Mas quando ela finalmente começou a falar comigo, logo percebi que preferia o silêncio. — Vadia. Era apenas uma palavra. Uma palavra, claramente pronunciada com um ódio que era suficiente para machucar. Às vezes, vinha por trás de mim, por cima de meu ombro quando eu menos esperava, e em outras eu a via se aproximando e a palavra me vinha diretamente na cara. A única coisa que não mudava era que ela sempre sabia quando agir. No momento em que eu começava a me sentir um pouco melhor ou a achar que teria um momento decente em um dia razoável, ela aparecia para garantir que não durasse. Dessa vez, ela estava passando enquanto eu me encontrava sentada em cima do muro na hora do almoço. Emily estava com ela — Emily estava sempre com ela nesses dias. Não olhei para elas e mantive os olhos sobre meu caderno, que segurava no colo, preocupada com o trabalho de história por fazer. Eu tinha acabado de escrever a palavra profissão e não tirei a caneta do papel, acalcando o "o", que ficava cada vez mais escuro, até Emily e Sophie sumirem de uma vez. Havia algo de cármico nisso tudo, embora eu não gostasse de pensar a respeito. A verdade era que, até pouco tempo antes, eu era a pessoa que andava ao lado de Sophie enquanto ela fazia seu trabalho sujo, e, por mais que não participasse da sujeira, eu também não fazia nada para impedi-la. Como aconteceu com Clarke. Pensando nisso, levantei o olhar, observei o pátio e a vi com algumas amigas em uma das mesas de piquenique. Ela estava na ponta do banco com um caderno aberto à sua frente, prestando um pouco de atenção na conversa das garotas ao seu lado e folheando as páginas. Era óbvio que foi ela quem quis ficar sozinha naquele primeiro dia, pois, desde então, não se aproximou mais do muro nem de mim. Mas Owen Armstrong continuava lá. Às vezes outras pessoas se sentavam no


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muro, em grupo ou sozinhas, porém só eu e ele estávamos lá todos os dias. Havia sempre uma distância de cerca de dois metros entre nós que era sempre respeitada por qualquer um que chegasse depois. Outras coisas também sempre aconteciam. Ele nunca comia, pelo menos não que eu tenha visto. Eu sempre trazia almoço, cortesia de minha mãe. Ele parecia ser completamente alheio e não dar importância ao que os outros estavam fazendo, enquanto eu passava o almoço convencida de que todos estavam me olhando e falando de mim. Eu fazia a lição de casa e ele ouvia música. E nós nunca, nunca nos falávamos. Talvez por eu ficar tanto tempo sozinha ou por me sobrar tempo demais na hora do almoço para fazer lição de casa, seja qual for o motivo, Owen Armstrong começou a me fascinar. Todos os dias eu fazia questão de lhe dar umas olhadas de rabo de olho com o intuito de coletar mais informações sobre sua aparência e seus hábitos. Até o momento, eu tinha juntado uma quantidade considerável de dados. Por exemplo, os fones de ouvido. Aparentemente, ele nunca os tirava. Era óbvio que ele gostava de música, e o iPod estava sempre no seu bolso, na sua mão ou ao seu lado no muro. Também percebi que suas reações ao ouvir música eram variadas. Ele quase sempre ficava sentado e apenas balançava a cabeça devagar, quase imperceptivelmente. Às vezes, batia os seus dedos no joelho, como se tocasse bateria, e, muito raramente, ele cantarolava a música com os lábios fechados e num volume tão baixo que eu mal podia ouvir, mas sempre quando não havia ninguém por perto. Nesses momentos eu ficava mais curiosa para saber o que ele estava ouvindo, apesar de imaginar a música exatamente como ele: raivosa, sombria e alta. Também tinha a sua aparência. É claro que o tamanho era o que mais chamava a atenção: a altura, os pulsos grandes, a força de sua mera presença. Mas havia pequenos detalhes também, como os olhos escuros que deviam ser verdes ou castanhos, e os dois anéis idênticos — sem adornos, largos e prateados — que ele usava no dedo do meio de cada mão. Agora, enquanto eu o observava, ele estava sentado com as pernas esticadas, o corpo inclinado para trás e apoiado nas palmas das mãos. Um feixe de luz iluminavalhe o rosto, ele usava fones de ouvido, sua cabeça balançando discretamente, os olhos fechados. Uma garota segurando um pôster passou por mim, desacelerou o passo ao se aproximar de Owen, e fiquei observando-a passar cuidadosamente por cima do pé dele, como o João de "João e o Pé-de-Feijão", arrastando-se ao passar pelo gigante adormecido. Owen não se mexeu e ela voltou a acelerar o passo. Eu também sentia a mesma coisa em relação a Owen, é claro. Todos sentiam.


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Mas algo na nossa proximidade diária me fez relaxar ou, pelo menos, não ficar com medo toda vez que ele olhava na minha direção. Ultimamente as minhas maiores preocupações eram Sophie, uma ameaça real, ou até mesmo Clarke, que havia deixado claro que ainda me odiava. Estranho pensar que era mais seguro ficar perto de Owen Armstrong do que das duas únicas melhores amigas que tive na vida. Eu estava começando a perceber que não se deveria ter medo apenas do desconhecido. As pessoas que mais conhecem você podem ser mais ameaçadoras, pois o que elas dizem e pensam a seu respeito pode não ser apenas assustador, mas também verdadeiro. Eu não tinha uma história com Owen. Com Sophie e Clarke era diferente. Havia um padrão nisso, alguma conexão, mesmo que eu não quisesse enxergá-la. Não parecia justo nem correto, mas eu sempre imaginava que talvez não estivesse nessa situação por acaso e que ela talvez fosse exatamente o que eu merecia. Depois daquela noite, quando eu e Clarke fomos à casa de Sophie e devolvemos as suas coisas, ela começou a andar conosco. Não precisou de nenhum convite específico; simplesmente começou a fazer parte do nosso grupinho. De repente, havia uma terceira cadeira de praia, outra mão dando as cartas nos jogos de baralho e uma Coca-Cola a mais para carregar na sua vez de buscar bebidas. Clarke e eu éramos amigas havia tanto tempo que estava sendo até legal ter coisas novas, e não havia dúvida de que Sophie trazia isso com seus biquínis e maquiagem, além de suas muitas histórias sobre garotos que ela tinha namorado em Dallas. Ela era muito diferente de nós. Sophie chamava a atenção e era segura de si, não tinha o menor medo de conversar com os garotos, nem de usar a roupa que lhe desse vontade ou dizer o que lhe viesse à cabeça. Ela não era diferente de Kirsten nesse ponto. Porém, enquanto a franqueza das minhas irmãs me deixava insegura, com Sophie era diferente. Eu gostava daquilo, e até sentia certa inveja. Eu não era capaz de dizer o que queria, mas podia contar com ela para falar por mim. Além disso, as coisas que ela sugeria para a gente fazer — sempre um pouco arriscadas, pelo menos para mim, mas ao mesmo tempo muito divertidas — eram aquelas que eu nunca teria feito por conta própria. Mesmo assim, eu me sentia insegura perto de Sophie em alguns momentos, apesar de não saber muito bem o porquê. Por mais que andássemos juntas e ela tivesse se tornado parte do meu dia a dia, eu não conseguia esquecer como ela tinha sido maldosa comigo na lanchonete naquele dia. Às vezes, eu apenas olhava para Sophie enquanto ela contava uma história ou pintava as unhas deitada na beira da minha cama, e me perguntava por que ela tinha feito aquilo. E, em seguida, me


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perguntava se ela não seria capaz de fazer tudo de novo. Apesar de toda aquela pose, eu sabia que Sophie tinha seus problemas Seus pais tinham acabado de se divorciar, e, ao mesmo tempo em que ela não parava de falar dos presentes caros que seu pai lhe dava quando ela morava no Texas — roupas, jóias, tudo que ela queria — uma vez ouvi minha mãe e uma amiga conversarem sobre o divórcio, que aparentemente tinha sido bem complicado. O pai de Sophie saiu de casa para ficar com uma mulher muito mais nova e havia uma pequena batalha judicial pela casa deles em Dallas. Parece que o Sr. Rawlins não mantinha nenhum contato com Sophie nem com a mãe dela. Mas Sophie nunca falou sobre isso, e eu nunca perguntei nada. Imaginei que, se ela quisesse dizer algo, falaria de uma vez. Entretanto, ela nunca se intimidava com nada. Por exemplo, ela sempre chamava a mim e Clarke de imaturas. Aparentemente, tudo em nós estava errado: nossas roupas (muito infantis), nossas atividades (chatas) e nossas experiências (inexistentes). E ao mesmo tempo em que Sophie era interessada em meu trabalho como modelo e parecia fascinada por minhas irmãs — que basicamente a ignoravam, assim como a mim — ela implicava com Clarke. — Você parece um menino — ela disse um dia quando fomos ao shopping. — Você podia ficar bem bonita se tentasse. Por que você não usa maquiagem, ou sei lá? — Meus pais não deixam — Clarke disse, assoando o nariz. — Ai, por favor — disse Sophie. — Os seus pais não precisam saber. Passe a maquiagem depois de sair de casa e tire antes de voltar. Mas Clarke não era assim e eu sabia disso. Ela se dava bem com seus pais. Porém, Sophie não dava sossego. Se ela não implicava com o fato de Clarke não se maquiar, o problema eram suas roupas, seus espirros constantes ou o fato de ela ter que voltar para casa uma hora mais cedo do que nós duas — o que queria dizer que qualquer coisa que a gente fizesse juntas tinha que durar menos para garantir que ela chegasse em casa no horário certo. Se eu tivesse prestado mais atenção, talvez percebesse o que estava acontecendo. Porém, só achei que estávamos nos acostumando umas com as outras e imaginei que tudo se acertaria com o tempo — foi o que pensei até aquela noite no começo de julho.


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Era um sábado, e todas íamos dormir na casa da Clarke. Os pais dela tinham saído para assistir a algum concerto; então a casa era toda nossa para uma noite de pizza congelada e filmes. Era apenas um sábado comum. Tínhamos pré aquecido o forno e Clarke estava vendo os filmes no pay-per-view quando Sophie chegou, usando uma minissaia de sarja, um top de alcinha que ressaltava seu bronzeado e sandálias brancas de salto. — Uau! — eu disse quando ela entrou, com o salto fazendo barulho no chão. — Como você está bonita! — Obrigada — ela disse, enquanto eu a seguia em direção à cozinha. — Você está bem-arrumada para comer pizza — disse Clarke, espirrando logo depois. Sophie sorriu. — Não é para comer pizza — ela respondeu. Clarke e eu nos olhamos. Eu perguntei: — É para quê, então? — Garotos — ela respondeu. — Garotos? — repetiu Clarke. — É. — Sophie pulou em cima do balcão da cozinha, cruzando as pernas. — Eu conheci uns carinhas hoje, voltando para casa depois da piscina. Disseram que estariam por lá hoje à noite e que era pra gente ir se encontrar com eles. — A piscina fica fechada à noite — Clarke disse, colocando a pizza em uma assadeira. — E daí? — retrucou Sophie. — Todos vão para lá. Não é nada demais. Naquele exato momento eu soube que Clarke não iria querer participar daquilo. Primeiro, porque os pais dela iriam matá-la se descobrissem. Segundo, porque ela sempre obedecia às regras, mesmo aquelas que todo mundo ignorava, como tomar uma ducha antes de entrar na piscina e sempre sair rápido dela assim que o salva-vidas anunciava que só adultos podiam permanecer ali. — Eu não sei — eu disse, ao pensar em tudo aquilo. — Melhor não. — Ah, Annabel, vamos! — disse Sophie. — Não seja medrosa. Além do


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mais, um dos caras perguntou especificamente de você. Ele nos viu juntas e perguntou se você iria. — Eu? — perguntei. Ela fez que sim com a cabeça. — É. E ele é bonito. O nome dele é Chris Pen alguma coisa. Penner? Penning? — Pennington — respondi. Eu senti Clarke me olhando; ela era a única pessoa que sabia que eu era a fim dele. — Chris Pennington. — Isso mesmo — disse Sophie. — Você conhece esse cara? Dei uma olhada para Clarke, que fez questão de se concentrar na preparação da pizza, colocando-a no forno e ajustando a assadeira. — A gente sabe quem ele é — eu respondi. — Não é, Clarke? — Ele é uma graça — comentou Sophie. — Eles disseram que estariam lá por volta das oito horas e que iam levar umas cervejas. — Cerveja? — perguntei. — Nossa, fique calma — ela disse, rindo. — Você não tem que beber se não quiser. Clarke fechou o forno com um estrondo e falou: — Eu não posso sair. — Ah, você pode vir também, sim — disse Sophie. — Seus pais nem vão ficar sabendo. — Eu não quero ir — resolveu Clarke. — Vou ficar aqui. Apenas olhei para ela, sabendo que deveria dizer a mesma coisa, mas, por algum motivo, as palavras não saíram. Provavelmente porque eu só conseguia pensar que Chris Pennington, o garoto para quem olhei muitas tardes na piscina, tinha perguntado sobre mim. — Bem — eu me forcei a dizer —, talvez... — Então, eu e Annabel vamos — disse Sophie pulando para o chão no-


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vamente. — Não é nada demais, não é, Annabel? Naquele momento, Clarke me olhou. Ela virou a cabeça e percebi seus olhos negros fixados em mim. De repente, senti aquela falta de equilíbrio de estar no meio de três pessoas e, ter que escolher para onde ir. De um lado estava Clarke, minha melhor amiga e toda a nossa rotina, tudo o que sempre fizemos e conhecíamos. Do outro, além de Sophie e Chris Pennington, havia um mundo completamente novo, aberto e disponível — mesmo que por pouco tempo, por apenas uma noite. Eu queria ir. — Clarke — eu disse, dando um passo em sua direção. — Vamos só um pouquinho, a gente fica lá só meia hora. Depois a gente volta, come pizza, assiste ao filme e faz tudo o que tinha combinado. Que tal? Clarke não era o tipo de pessoa que se deixava levar pelos sentimentos. Era uma estóica por natureza, extremamente lógica. Ela lidava com as questões da vida resolvendo os problemas, dando soluções e seguindo em frente. Mas, ao terminar de falar, percebi em seu rosto algo raro: uma expressão de surpresa e, logo em seguida, de mágoa. Foi tão inesperado que nem dava para saber se eu tinha mesmo visto aquilo. — Não — ela respondeu. — Eu não vou. — Dito isso, saiu da cozinha em direção ao sofá, sentou-se e pegou o controle remoto. Um segundo depois, ela estava zapeando os canais. As imagens e cores mudavam rapidamente na tela. — Então tá bom — disse Sophie, dando de ombros. Ela simplesmente se virou para mim e falou: — Vamos. Sophie começou a andar em direção à porta da frente e, por um segundo, não me mexi. Tudo naquela noite na casa dos Reynolds me era muito familiar: o cheiro de pizza no forno, a garrafa de dois litros de Coca-Cola no balcão da cozinha, Clarke sentada no sofá e o meu lugar vago, ao seu lado, me esperando. Olhei para o corredor e para Sophie, parada ao lado da porta aberta. Atrás dela, não estava totalmente escuro e as luzes da rua estavam acesas, e, antes de poder mudar de idéia, andei em sua direção e saímos. Mesmo depois de tantos anos, eu me lembro muito bem daquela noite e do que senti depois de passar pelo buraco na cerca da piscina e atravessar o estacionamento escuro em direção a Chris Pennington, que sorriu para mim e disse meu nome em voz alta. E do gosto suave e efervescente que experimentei ao dar o primeiro gole na cerveja que ele me trouxe. E mais tarde, depois de andar com ele


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até a parte de trás da piscina, de como foi beijá-lo, dos seus lábios quentes contra os meus e as minhas costas pressionadas contra a parede gelada Ou de ouvir de longe a risada de Sophie, sua voz vinda de algum lugar onde ela estava com o melhor amigo dele, um cara chamado Bill, que se mudou da cidade quando o verão acabou. Todas essas coisas ficaram registradas, mas há uma imagem, um momento que é mais importante do que todos os outros. Aconteceu mais tarde, quando olhei para a cerca da piscina e vi alguém parado do outro lado da rua, sob a luz de um poste. Uma garota pequena de cabelos negros, usando shorts e sem maquiagem, que ouvia as vozes, mas não podia nos ver. — Annabel! — ela gritou. — Vem, está tarde. Nós todos paramos de conversar. Eu vi Chris olhando em direção ao escuro, procurando. — O que foi isso? — Shhh! — disse Bill. — Tem alguém lá fora. — Não é "alguém". — disse Sophie, revirando os olhos. — É a Clarke. — Cia...O quê? — perguntou Bill, rindo. Sophie tapou o nariz com os dedos e repetiu. — Clãããrke! Sua voz saiu tão parecida com a da Clarke, entupida e fanhosa, que tomei um susto. Senti um golpe no peito quando todos começaram a rir e olhei para Clarke novamente, sabendo que ela ouvia tudo. Ela ainda estava lá, do outro lado da rua sob a luz, mas eu sabia que não se aproximaria, e que eu tinha que levantar e ir até ela. — É melhor... — eu falei, dando um passo à frente. — Annabel. — Sophie me encarou e arregalou os olhos. Na época, isso era novo, mas depois passei a reconhecer aquela expressão, uma mistura de aborrecimento e impaciência. Era o olhar que ela me dava milhões de vezes ao ano, toda vez que eu não estava fazendo o que ela queria. — O que você está fazendo? Chris e Bill estavam nos olhando. — É que — eu comecei a falar e parei. — É melhor eu ir. — Não — disse Sophie. — É melhor você ficar.


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Eu devia ter simplesmente saído de lá, para longe de Sophie e de tudo aquilo, e feito a coisa certa. Mas não fiz. Mais tarde, fiquei repetindo a mim mesma que tinha sido porque Chris Pennington estava com a mão nas minhas costas, era verão e, antes, quando nossos lábios estavam juntos e sua mão acariciava meu cabelo, ele sussurrou que eu era linda. Mas, na verdade, o que me impediu naquele momento foi Sophie, e o medo do que poderia acontecer se eu a contrariasse. Algo de que senti vergonha nos anos seguintes. Então, eu fiquei onde estava e Clarke voltou para casa. Mais tarde, quando fui para a casa dela, as luzes estavam apagadas e a porta, trancada. Mesmo assim, bati. Porém, diferentemente daquela vez em que fomos à casa da Sophie, a porta não se abriu. Clarke me deixou esperando, assim como eu fiz com ela, e acabei indo para minha casa. Eu sabia que ela estava com muita raiva de mim, mas imaginei que tudo ficaria bem. Foi apenas uma noite — eu errei; ela ia me desculpar. Porém, no dia seguinte, quando fui falar com Clarke na piscina, ela nem me olhou e ignorou os vários "ois" que falei, virando as costas toda vez que me sentava na cadeira ao seu lado. — Poxa — eu disse. Nenhuma resposta — Foi burrice minha ter ido. Desculpa, está bem? Mas era óbvio que não estava nada bem, pois ela não olhava para mim e seu rosto continuava de perfil. Ela estava com tanta raiva e eu me senti tão impotente que não agüentei mais ficar lá. Então, me levantei e fui embora. — E daí? — disse Sophie quando fui até a casa dela contar o que tinha acontecido. — Por que você se importa que ela esteja com raiva? — Clarke é minha melhor amiga — respondi. — E agora ela me odeia. — Ela é só uma criança — retrucou Sophie. Sentada em sua cama, eu olhava para ela, que estava de frente para o espelho da penteadeira. Ela pegou uma escova e a passou pelo cabelo. — E, para falar a verdade, ela é meio nerd, Annabel. Tipo, você realmente quer passar o verão assim? Jogando baralho e a ouvindo fungar daquele jeito? Poupe-me. Você ficou com Chris Pennington ontem à noite. Você devia estar feliz. — Eu estou — respondi, apesar de não acreditar que aquilo fosse verdade. — Ótimo — ela deixou de lado a escova e virou a cabeça para me olhar. — Agora vamos. Vamos para o shopping, sei lá.


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E foi assim que anos de amizade, todos aqueles jogos de baralho, as noites comendo pizza e dormindo uma na casa da outra terminaram em menos de vinte e quatro horas. Ao me lembrar disso tudo, imagino que talvez, se eu tivesse ido falar com Clarke mais uma vez, nós teríamos resolvido a situação. Mas não fui. E, com o passar do tempo, foi como se meu sentimento de culpa e a minha vergonha abrissem um abismo entre nós, que só crescia. Durante um tempo eu talvez ainda conseguisse transpô-lo, mas depois ficou tão grande que não era mais possível enxergar o outro lado, e muito menos tentar chegar nele. Clarke e eu nos encontramos outras vezes, é claro, pois morávamos no mesmo bairro, pegávamos o mesmo ônibus e frequentávamos a mesma escola. Porém, nunca mais nos falamos, e Sophie acabou se tornando minha melhor amiga. Nada mais aconteceu com Chris Pennington, que, apesar do que me disse naquela noite no escuro, nunca mais falou comigo. Quanto à Clarke, ela fez novos amigos no time de futebol; começou a jogar no outono. Nós éramos tão diferentes e estávamos tomando rumos tão distintos que ficava difícil acreditar que um dia tínhamos sido tão próximas uma da outra. No entanto, no meu álbum de fotos tem páginas e páginas de provas — nós duas em almoços ao ar livre, andando de bicicleta, fazendo pose na frente da casa dela, e o pacote de lenços sempre presente entre nós. Antes de Sophie, as pessoas sabiam quem eu era por causa das minhas irmãs e do meu trabalho como modelo, mas bastou eu ficar amiga dela para me tornar popular. E havia uma diferença. O estilo destemido de Sophie era perfeito para lidar com as panelinhas e os vários dramas do Ensino Fundamental e Médio. As garotas mandonas e os cochichos que sempre me deixaram nervosa não me incomodavam mais. Além disso, era muito mais fácil ultrapassar as muitas barreiras sociais depois que Sophie as rompia para mim. De repente, tudo o que eu sempre observei à distância e queria participar — as pessoas, as festas e, principalmente, os garotos — não estava apenas mais próximo; na verdade, era possível. Tudo graças à Sophie. E isso fez as outras coisas que tive que agüentar, como as variações de humor e o que aconteceu com Clarke, quase valerem a pena. Quase. De qualquer maneira, toda essa história entre mim, Clarke e Sophie tinha acontecido havia anos. Mas, no último verão, pensei muito em Clarke, principalmente quando eu ficava sozinha na piscina. Muita coisa teria sido diferente se naquela noite eu tivesse ficado na casa dela, me sentado ao seu lado no sofá e deixado Sophie ir sozinha. No entanto, fiz a minha escolha e não podia voltar atrás. Às vezes, porém, nos finais de tarde, quando fechava os olhos, meu pensamento viajava e eu ficava escutando as crianças brincando na água, o apito dos salva-vidas. Era quase como se nada tivesse mudado. Pelo menos até mais tarde, quando eu acordava de repente e


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me via na sombra, com uma brisa fresca batendo no rosto, e percebia que já tinha passado da hora de ir para casa. Quando cheguei em casa depois da escola, a casa estava vazia e a luz da secretária eletrônica piscava. Peguei uma maçã da geladeira e dei uma lustrada nela com minha blusa enquanto ia em direção à secretária eletrônica para ouvir as mensagens. A primeira era da Lindy, minha agente. "Oi, Grace, sou eu. Estou retornando sua ligação. Desculpe a demora, minha assistente pediu demissão e estou com uma assistente temporária inútil atendendo os telefonemas, um desastre. De qualquer maneira, ainda não há notícias, mas recebi uma ligação do escritório da Mooshka, então espero que tenhamos novidades logo. Mantenho você informada, espero que tudo esteja bem. Beijos na Annabel. Tchau!" Bip. Eu já nem me lembrava do teste da Mooshka, mas minha mãe com certeza não tinha esquecido. Eu também não queria pensar nisso agora. Então, passei para a mensagem seguinte, que era da Kirsten. Suas mensagens eram sempre longas e repetitivas, e quase sempre ela tinha que ligar de novo para continuar falando quando a secretária a interrompia. Então, assim que ouvi a voz dela, sentei-me em uma cadeira. " Sou eu", ela começou, "só estou ligando para dar um oi, ver como estão as coisas. Neste exato momento, estou indo para a aula; o dia está lindo aqui... Não sei se contei a vocês, mas me matriculei em uma aula de comunicação este semestre, muito bem recomendada por uma amiga, e estou adorando. Ela tem uma abordagem psicológica e estou aprendendo muito... E o professor assistente que cuida dos seminários é simplesmente brilhante. Quer dizer, muitas vezes nas aulas eu me pego pensando em outras coisas, mesmo quando a matéria me interessa, mas o Brian, ele é simplesmente incrível. Sério. Eu até estou pensando em seguir a área da comunicação, pois estou aproveitando muito as aulas... Mas também tem a minha aula de cinema, que também me interessa muito, então, eu realmente não sei. De qualquer forma, estou quase na sala de aula, espero que todos estejam bem. Saudades. Amo vocês. Tchau!" Kirsten estava tão acostumada a ser cortada que sempre falava mais rápido no final das mensagens, para terminar antes do bip. Apertei o botão salvar e a casa ficou silenciosa novamente. Então me levantei, peguei a maçã e atravessei a sala de jantar. Quando cheguei ao hall de entrada, parei como de costume para olhar a foto em preto e branco pendurada perto da porta. Era uma foto de minha mãe com as três filhas.


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Estamos de pé no quebra-mar perto da casa de veraneio do meu tio. Todas de branco: Kirsten de jeans branco e uma camiseta lisa de gola em "v", minha mãe com um vestido leve, Whitney com a parte de cima do biquíni e uma calça de tecido leve, eu de top e saia longa. Todas bronzeadas e com o mar às nossas costas. A foto fora tirada três anos antes, durante uma de nossas viagens de família à praia; o fotógrafo era um amigo de um amigo do meu pai. Na época, pareceu espontâneo, pois ele sugeriu de forma casual que tirássemos a foto. Mas, na verdade, meu pai tinha tudo planejado havia semanas para dá-la de presente de Natal à minha mãe. Ainda lembro que seguimos o fotógrafo, um homem alto e magro cujo nome esqueci, pela areia, até chegarmos ao quebra-mar. Kirsten foi a primeira e estendeu a mão para ajudar minha mãe, seguida por Whitney e eu. Era difícil andar pelas pedras e eu me lembro de Kirsten guiar minha mãe pelas bordas cheias de pedras até chegarmos a um local plano, onde posamos. Na foto, estamos abraçadas: os dedos de Kirsten entrelaçados com os de minha mãe, Whitney com os braços em volta dela e eu estou na frente, também um pouco apoiada em minha mãe, com meu braço em torno de sua cintura. Minha mãe e Kirsten estão sorrindo, e Whitney, apenas olhando fixamente para a câmera, linda de tirar o fôlego como sempre. Apesar de me lembrar de ter sorrido todas as vezes que o flash disparava, não reconheço minha expressão no resultado final, que ficou entre o sorriso largo de Kirsten e a seriedade deslumbrante de Whitney. Mas a foto era linda e sua composição, perfeita. As pessoas sempre faziam algum comentário sobre ela, já que era a primeira coisa que se via ao entrar na casa. Nos últimos meses, porém, ela começou a ter um ar lúgubre. Eu não conseguia mais ver somente o belo contraste preto e branco ou a forma como as nossas feições se repetiam de formas diferentes, mas sempre parecidas. Agora eu via outras coisas ao observá-la: a proximidade entre Whitney e Kirsten e como não havia espaço entre elas, o meu próprio rosto e como ele tinha uma expressão diferente e mais relaxada. E como minha mãe parecia pequena rodeada por nós três, inclinadas sobre ela, abraçando-a e protegendo-a com nossos corpos como se ela pudesse ser levada pelo vento caso não estivéssemos lá para segurá-la. Peguei a maçã novamente e dei uma mordida no exato momento em que o carro de minha mãe parou na garagem. Em seguida, ouvi portas batendo e vozes enquanto ela e Whitney entravam em casa. — Olá — disse minha mãe, colocando no balcão da cozinha a sacola de compras que carregava. — Como foi na escola?


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— Bem — eu disse, dando um passo para trás quando Whitney passou apressadamente, sem me notar, e subiu as escadas. Era quarta-feira e isso queria dizer que ela tinha acabado de voltar da terapia, o que sempre a deixava de mau humor. Sempre pensei que terapia fosse algo que fazia as pessoas se sentirem melhor, e não pior, mas aparentemente era bem mais complicado que isso. Porém, tudo era bem mais complicado para Whitney. — Lindy deixou uma mensagem — disse à minha mãe. — O que ela disse? — O pessoal da Mooshka ainda não ligou. Minha mãe pareceu decepcionada, mas apenas por um momento. — Ah, bom. Tenho certeza de que vão ligar — disse. Ela andou em direção à pia, abriu a torneira e passou sabonete líquido nas mãos, olhando para a piscina através da janela. Essa luz de final de tarde a fazia parecer cansada — além disso, quarta-feira era um dia cansativo para ela. — E Kirsten ligou. Ela deixou uma mensagem bem comprida — eu disse. Ela sorriu. — Não me diga. É bom ouvir isso — ela disse, secando as mãos em um pano de prato. Em seguida, ela o dobrou, o pôs novamente perto da pia e veio se sentar ao meu lado. — Então. Conte algo que aconteceu hoje com você. Algo bom. Algo bom. Pensei por um segundo naquela situação com Sophie, nas minhas observações diárias de Owen Armstrong e no fato de Clarke ainda me odiar. Nenhuma dessas coisas podia ser classificada com o adjetivo "bom", e nem algo parecido. Com o passar dos segundos, percebi que começava a entrar em pânico, desesperada para lhe contar algo que pudesse compensar o fato de o pessoal da Mooshka não ter ligado, pelo mau humor da Whitney e por tudo. Ela continuava esperando. — Tem um garoto na minha aula de Educação Física — eu disse, finalmente. — Ele é bonitinho e falou comigo hoje. — Ah é? — ela disse sorrindo. Ponto para mim. — Qual o nome dele? — Peter Matchinsky — eu disse. — Ele está no último ano. Não foi uma mentira. Peter Matchinsky realmente fazia aula de Educação Física


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comigo, era bonitinho e estava no último ano. E ele tinha, sim, falado comigo naquele dia, mas apenas para perguntar o que o treinador Erlenbach tinha dito sobre a prova de natação que estava próxima. Nunca tive o hábito de aumentar histórias para minha mãe, mas nos últimos meses aprendi a me perdoar por essas pequenas transgressões porque ela ficava muito feliz. Diferentemente da verdade, que seria a última coisa que ela iria querer ouvir. — Um garoto bonito do último ano — ela disse, voltando a sentar na sua cadeira. — Bom, me conte mais. E eu contava. Mesmo não sendo muita coisa. Se fosse necessário, eu florearia mais a história, colocaria mais recheio com o objetivo de torná-la substancial o suficiente para saciar a necessidade de que, pelo menos, a minha vida fosse normal. O pior é que havia muitas coisas que eu realmente queria contar para ela, mas nenhuma delas seria facilmente digerida. Ela já tinha passado por tanta coisa com as minhas irmãs — eu não queria lhe dar mais um fardo. Então, me esforçava para ser o ponto de equilíbrio, pouco a pouco, de palavra em palavra, de história em história — mesmo que não fosse verdade. * * * Na maioria das manhãs antes da escola, só eu e minha mãe tomávamos café juntas. Meu pai juntava-se a nós apenas quando podia chegar mais tarde no escritório. Whitney nunca se levantava antes das onze. Até que, havia algumas semanas, eu desci e a vi de banho tomado, vestida para sair e sentada à mesa com as chaves do meu carro à sua frente. Percebi que algo estava acontecendo. E eu estava certa. — Sua irmã vai te levar para a escola hoje — disse minha mãe. — E depois ela vai ficar com o seu carro para fazer umas compras, ir ao cinema e depois te pega à tarde. Tudo bem? Eu olhei para Whitney, que me observava, séria. — Claro — eu disse. Minha mãe sorriu, depois olhou para minha irmã, para mim e para minha irmã de novo. — Ótimo — ela disse. — Tudo se acerta. Ao dizer isso, percebi que ela se esforçou para parecer despreocupada, mas


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seu tom de voz denunciava o contrário. Desde que Whitney tinha saído do hospital, minha mãe preferia mantê-la ocupada e sob seu nariz. Por isso, minha irmã sempre ficava encarregada de tarefas e era arrastada para os compromissos da minha mãe. Whitney sempre reclamava por mais liberdade, mas minha mãe temia que ela fosse exagerar, tomar laxante, fazer exercício ou qualquer outra coisa que fosse proibida. Estava claro que algo havia mudado; porém, eu não consegui saber o que e nem qual o motivo. Quando andamos em direção ao carro, eu automaticamente fui para o lado do motorista e depois parei ao ver Whitney fazer a mesma coisa. Durante um segundo, nós duas ficamos lá. Depois, ela disse: — Eu dirijo. — Ok — respondi. — Tudo bem. O trajeto foi estranho. Apenas quando chegamos à rodovia, me dei conta que não ficava sozinha com Whitney havia muito tempo. Não fazia idéia do que dizer a ela. Eu podia perguntar sobre as compras, mas isso poderia lembrar assuntos relacionados ao corpo, então tentei pensar em outras coisas para falar. Ir ao cinema? O trânsito? Eu não tinha a menor idéia. Então, fiquei lá, sentada em silêncio. Whitney também não falou. Pude perceber que ela não dirigia havia algum tempo. Ela estava sendo muito cuidadosa, freando antes do necessário ao se aproximar dos semáforos, deixando outros carros passarem. Quando estávamos paradas em um sinal vermelho, olhei para o outro lado e vi dois executivos em uma SUV olhando para ela. Os dois usavam terno — um tinha cerca de vinte anos e o outro, a idade do meu pai — e instantaneamente fiquei na defensiva, querendo protegê-la, mesmo sabendo que ela teria odiado isso se soubesse. No entanto, percebi logo depois que eles não estavam olhando por causa da sua magreza, mas porque Whitney chamava atenção. Eu havia me esquecido que minha irmã já tinha sido a garota mais bonita que vi na vida. O mundo, ou pelo menos uma parte dele, ainda parecia vê-la da mesma forma. Estávamos a pouco mais de um quilômetro da escola quando finalmente resolvi tentar dizer algo. — Então — eu falei — você está empolgada para o dia de hoje? Ela me deu uma olhada rápida e depois voltou a prestar atenção no trânsito. — Empolgada? — ela repetiu. — Por que eu estaria empolgada? — Não sei — falei enquanto entrávamos no estacionamento da escola. —


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Talvez porque, sabe, você tem um dia inteiro só para você. Por um segundo, ela não respondeu, preocupada em parar o carro. — É só um dia — ela finalmente disse. — Antes eu tinha uma vida inteira. Eu não sabia o que responder. — Bom, até mais tarde! — pareceu bem tosco, se não completamente inadequado. Então, apenas abri a porta e me estiquei para pegar a mochila no banco de trás. — Vejo-te às três e meia — ela disse. — Certo — respondi. Ela deu a seta, olhando para ver se vinha algum carro. Eu fechei a porta e ela saiu dirigindo. Não pensei mais em Whitney durante o resto do dia, pois eu tinha uma prova de literatura à tarde e estava muito nervosa. E tinha razão para estar, ao final das contas, pois, apesar de ter estudado bastante na noite anterior, além de ter ido às aulas de revisão da professora Gingher no horário do almoço, não consegui responder algumas questões. Eu não podia fazer mais nada além de ficar lá olhando para a prova, e me sentindo uma completa idiota, até ela anunciar que era hora de entregar os testes. Ao descer as escadarias em direção à entrada do prédio principal para encontrar Whitney, peguei minhas anotações e comecei a lê-las, tentando entender por que não tinha ido tão bem. Havia uma multidão passando e eu estava tão concentrada que só vi o jipe vermelho estacionado quando passei bem na frente dele. Eu estava apenas lendo as minhas anotações sobre literatura, tentando encontrar uma citação da qual tinha me esquecido completamente, e, de repente, no minuto seguinte, eu estava na frente de Will Cash. Dessa vez, ele tinha me visto primeiro. E não tirava os olhos de mim. Olhei para o outro lado, bem rápido, andando mais depressa ao passar na frente do pára-choque do seu carro. Estava quase chegando na calçada quando ele me chamou. — Annabel — ele disse. Eu sabia que deveria tê-lo ignorado. Porém, minha cabeça já tinha virado,


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instintivamente. Ele estava sentado, usando uma camisa xadrez, barba por fazer e óculos escuros pendurados na testa, os quais davam a impressão de que iriam cair a qualquer momento. — Ei! — ele disse. Eu estava agora tão perto do carro que podia sentir o arcondicionado soprando para fora da janela aberta. — Oi — emiti apenas uma palavra. Mas ela saiu distorcida, lacerada como se estivesse presa na garganta. Ele aparentemente não se deu conta do meu nervosismo e colocou o cotovelo para fora da janela, olhando para o pátio atrás de mim. — Não te vejo mais nas festas — ele disse. — Você ainda está saindo? Naquele momento, bateu uma brisa que fez minhas anotações flutuarem, fazendo um som igual ao do bater de asas. Eu segurei os papéis com mais força. — Não — consegui dizer. — Não muito. Senti um calafrio subir pelo meu pescoço e fiquei com medo de desmaiar. Eu não podia olhar para ele, então mantive os olhos baixos. Mas, pelo rabo do olho, vi sua mão parada sobre a janela aberta e não conseguia parar de olhar para ela, observando aqueles dedos longos batendo na porta do jipe. Shhh, Annabel. Sou só eu. Eu balancei a cabeça e, finalmente, me virei e saí andando. Respirei fundo, tentando me lembrar de que estava cercada de gente, e a salvo. Até que meu estômago começou a revirar, algo que eu não podia controlar. "Ah, meu Deus", pensei, guardando rapidamente meus papéis dentro da mochila, que eu pus no ombro sem fechar, e comecei a andar em direção ao prédio mais próximo, torcendo para conseguir me segurar até o banheiro. Ou, pelo menos, até um lugar onde não pudessem me ver. Mas eu não andei por muito tempo. — O que foi aquilo? Era Sophie. Ela estava logo atrás de mim. Eu parei de andar, mas a bile continuava subindo. Depois de tantas vezes a ouvindo emitir apenas uma palavra, ouvir essas quatro era demais para mim. E ela não parou. — Que diabos você está fazendo, Annabel? — ela disse. Duas garotas mais novas passaram por mim apressadas e com os olhos


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arregalados. Eu segurei a alça da minha mochila com mais força, engolindo de novo. — Aquela noite não foi suficiente? Você precisa de mais ou algo assim? Eu não sei como, mas continuei andando. "Não passe mal, não olhe para trás, não faça nada", eu repetia para mim mesma, mas minha garganta tinha um gosto amargo e minha cabeça parecia mais leve. — Não me ignore — disse Sophie. — Vira e olha pra mim, sua vadia. Tudo que eu queria — tudo o que eu sempre quis — era me afastar. Estar em algum lugar pequeno onde eu pudesse entrar e me sentir segura, entre quatro paredes estreitas protegendo meu corpo, ninguém olhando, ninguém apontando ou gritando. Mas ali estava eu em um local aberto, à vista de todos. Talvez eu devesse ter desistido e a deixado fazer o que quisesse, já que estava sendo assim havia semanas, mas algo aconteceu. Ela esticou o braço e agarrou o meu ombro. Nesse momento, alguma coisa forte e poderosa tomou conta de mim. E, antes que eu pudesse me dar conta, virei o rosto e a encarei, esticando mãos que eu nem tinha certeza se eram as minhas para afastá-la. Senti minhas palmas batendo contra seu peito, empurrando-a e fazendo-a cambalear. Isso foi um acontecimento inédito e único, surpreendente para nós duas, mas principalmente para mim. Sophie perdeu o equilíbrio, arregalou os olhos, mas se recompôs rapidamente e tornou a vir em minha direção. Ela usava uma saia preta e uma blusa justa amarela e brilhante, seus braços eram bronzeados e definidos, seu cabelo estava solto na altura dos ombros. — Ah, meu Deus — ela disse em voz baixa, e eu de alguma maneira consegui recuar, com os pés firmes. — É melhor você... Uma multidão à nossa volta estava se aproximando. Mais do que o movimento, eu ouvi o barulho do carrinho do segurança se aproximando. — Parem! — ele gritou. — Vão para o estacionamento ou para a área do ônibus. Sophie se aproximou de mim. — Você é uma vagabunda — ela disse em voz baixa, e eu ouvi um oooh vindo de algum lugar, seguido do segundo aviso do segurança. — Fique longe do meu namorado — ela continuou, ainda em voz baixa. — Você está entendendo?


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Eu fiquei lá, parada. Ainda sentia a pressão do peito dela contra a minha mão e a sensação de empurrá-la. — Sophie... — eu disse. Ela balançou a cabeça, deu um passo à frente, passando bem perto de mim. Seu ombro bateu no meu com força e eu me desequilibrei, batendo em alguém que estava atrás de mim antes de me estabilizar. Todos estavam nos olhando e uma névoa de rostos flutuava e mudava de lugar enquanto Sophie passava entre eles. Até que todos os olhos se voltaram para mim. Abri caminho entre as pessoas que estavam perto de mim com uma mão na boca. Eu ouvia as pessoas falando e rindo, enquanto a multidão se desfazia pouco a pouco, até que finalmente cheguei ao outro lado. O prédio principal estava bem na minha frente e em volta dele tinha uma fileira de arbustos altos. Eu corri naquela direção e senti as folhas me pinicando enquanto passava entre eles. Não consegui ir muito longe, e fiquei torcendo para que ninguém me visse enquanto eu me inclinava para a frente, com uma mão apertando o estômago, para vomitar na grama, tossindo e cuspindo, aquele barulho nos meus ouvidos. Quando terminei, minha pele estava úmida e eu tinha lágrimas nos olhos. Foi horrível e vergonhoso. Era um daqueles momentos em que você só quer ficar só. Principalmente quando, de repente, você percebe que não está. Não ouvi os passos. Nem vi a sombra. Do lugar onde eu estava agachada no chão, onde só conseguia enxergar o verde da grama, a primeira coisa que vi foram mãos, um anel prateado no dedo do meio de cada uma delas. Uma estava segurando as minhas anotações. A outra vinha na minha direção.


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Cinco Owen Armstrong parecia um gigante com sua mão enorme se aproximando de mim. Ainda não sei como, quando me dei conta, já estava me apoiando nele, e, em seguida, ele pegou minha mão para me ajudar a levantar. Fiquei de pé durante cerca de um segundo, até sentir minha cabeça leve novamente, ficar tonta e cambalear. — Opa — ele disse, inclinando-se para me segurar. — Calma. É melhor você se sentar. Ele apoiou minhas costas na parede do prédio e senti os tijolos frios contra a minha pele. Deslizei vagarosamente pela parede até me sentar na grama. Dessa nova perspectiva, ele parecia ainda maior. De repente, Owen tirou a mochila do ombro e ela fez barulho ao bater no chão. Em seguida, ele se agachou ao lado dela e começou a revirá-la à procura de algo. Ouvi objetos batendo uns nos outros enquanto eram movidos e redistribuídos, e pensei que talvez eu devesse ficar esperta. Finalmente, sua mão parou de procurar e ele se sentou calmamente. De tão tensa, nem me mexi quando ele tirou a mão da mochila devagar, segurando... um pacote de lenços, daqueles pequenos, todo amassado, e o pressionou contra seu peito — que, minha nossa, era enorme —, para desamassá-los antes de pegar um e me dar. Eu peguei o lencinho do mesmo jeito com que antes segurei a sua mão — sem acreditar no que estava acontecendo e com muito cuidado. — Você pode ficar com o pacote — ele disse. — Se quiser. — Está tudo bem—falei, com a voz rouca. — Um já está bom. — Pressionei o lenço contra a minha boca, suspirando. Ele colocou o pacote ao meu lado mesmo assim. — Muito obrigada — eu disse. — Não foi nada. Ele se sentou na grama ao lado da mochila. Como fui à aula de revisão, eu ainda não o tinha visto naquele dia, mas ele estava igual: jeans, camiseta desfiada na


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bainha, botas pretas de solado grosso, fones de ouvido. De perto — ou mais de perto — pude ver que ele tinha algumas sardas e que seus olhos eram verdes, e não castanhos. Ouvi vozes que chegavam do pátio; elas pareciam flutuar sobre nossas cabeças. — Então, num... — ele disse — você está bem? Eu balancei a cabeça rapidamente. — Sim — respondi. — Eu passei mal de repente, não sei... — Eu vi o que aconteceu — ele disse. — Ah — falei. Senti meu rosto ficar vermelho. — É. Foi... Horrível. Ele ergueu os ombros. — Podia ter sido pior. — Você acha? — Claro que sim. — Sua voz não era estrondosa como eu imaginava, mas sim, baixa e calma. Quase macia. — Você podia ter dado um soco nela. Eu concordei, fazendo que sim com a cabeça. — É — falei. — Acho que você tem razão. — Mas foi bom você não ter feito isso. Não teria valido a pena. — Não? — eu disse, apesar de nem ter pensado em fazer isso. — Não. Nem mesmo se a sensação fosse boa naquele momento — ele disse. — Acredite em mim. O mais estranho de tudo era que eu acreditava, e confiava nele. Olhei para o pacote de lencinhos que ele tinha me dado, estiquei meu braço e peguei mais um. Naquele exato momento ouvi algo vibrar na minha mochila. Era o meu celular. Eu o peguei, vi que era minha mãe e fiquei na dúvida se atendia ou não, pois já era estranho o suficiente estar sentada naquele lugar com Owen sem envolver a minha mãe. Porém, eu já não tinha muita coisa a perder mesmo; afinal de contas, ele já tinha me visto vomitar — duas vezes — e perder o controle na frente de metade da escola. Não precisávamos mais de formalidades. Atendi. — Alô?


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— Oi, querida! — A voz dela era tão alta no telefone que imaginei que talvez Owen pudesse ouvi-la. Então, apertei o celular contra a minha orelha. — Como foi seu dia? Nesse momento eu já tinha percebido o tom agudo e nervoso que sua voz adquiria quando ela estava preocupada e fingia não estar. — Foi bom — eu disse. — Está tudo bem. O que foi? — Bem — ela disse. — A Whitney ainda está no shopping. Ela achou umas promoções ótimas, mas perdeu o horário do cinema, e como ela quer muito ver esse filme, ligou dizendo que ficaria fora até mais tarde. Eu coloquei o telefone na outra orelha, porque muita gente começou a falar alto perto de nós. Owen olhou para eles, que logo depois saíram de lá. — Então, ela não vem me pegar? — Bem, pelo visto não — ela respondeu. É claro que Whitney ia tentar aproveitar ao máximo o seu primeiro dia de liberdade. E é óbvio que minha mãe diria claro, fique até mais tarde e está tudo bem, mas depois ficaria apavorada. — Mas eu posso te pegar — ela disse — ou talvez você possa pegar carona com algum de seus amigos. Algum de meus amigos. Até parece. Eu balancei a cabeça e passei a mão nos meus cabelos. — Mãe — falei, tentando soar calma. — É que já está meio tarde, e... — Ah, tudo bem! Eu saio para te pegar já! — ela disse. — Chego em quinze minutos. Ela não queria me pegar e nós duas sabíamos disso. Talvez a Whitney ligasse ou aparecesse. Ou pior, talvez ela não aparecesse. E, não pela primeira vez, eu gostaria que a gente dissesse o que realmente queria dizer. Mas isso, assim como tantas outras coisas, era impossível. — Pode deixar — eu lhe disse. — Eu pego uma carona. — Tem certeza? — ela perguntou, porém, eu logo percebi que ela tinha relaxado, pensando que esse problema, pelo menos, estava resolvido. — Sim. Eu ligo se não conseguir.


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— Isso mesmo — ela concordou. E então, no momento em que eu já estava começando a ficar com raiva, ouvi: — Obrigada, Annabel. Logo após desligar, fiquei parada com o telefone na mão. Mais uma vez, tudo girava em torno da Whitney. Para ela, isso pode ter sido apenas um dia, mas para mim, foi um dia horrível. E, agora, eu tinha que voltar para casa a pé. Olhei novamente para Owen. Enquanto eu tinha mais esse problema para resolver, ele pegou o iPod e estava mexendo nele. — Então você precisa de uma carona — ele disse, sem me olhar. — Ah, não — respondi rapidamente, fazendo que não com a cabeça. — É só a minha irmã que... Está sendo chata. — Parece a história da minha vida — ele disse. Owen apertou mais um botão, depois colocou o iPod de volta no bolso e se levantou, limpando a calça jeans. Em seguida, ele se abaixou para pegar a mochila e a colocou em cima do ombro. — Vamos. Eu tive que agüentar muita gente me olhando e me examinando desde o começo do ano. Mas nada comparável aos olhares direcionados a mim e a Owen enquanto andávamos rumo ao estacionamento. Cada pessoa por quem passávamos grudava os olhos em nós, a maioria sem se preocupar em disfarçar, e algumas vezes com alguns comentários — "Caraca, você viu isso?". Owen, no entanto, parecia não perceber nada disso enquanto andava em direção a uma Land Cruiser azul e antiga com uns vinte CDs no banco do passageiro. Ele sentou-se ao volante, tirou os CDs e abriu a porta para mim. Entrei no carro e estiquei o braço para pegar o cinto de segurança. Quando eu já estava quase prendendo o cinto, ele disse: — Espera. Ele está meio zoado. — E fez um gesto para eu lhe dar a fivela. Então ele passou o cinto em mim (percebi que suas mãos estavam a uma distância decente da minha barriga), depois levantou a fivela e fechou o cinto. Em seguida, tirou do porta-treco da porta do motorista um pequeno martelo: Eu devo ter feito uma cara de susto — garota - de-17-anos-encontrada-morta-noestacionamento-do-colégio— porque ele me olhou e disse: — É só assim que ele funciona. — E deu três marteladas leves no fecho antes de puxá-lo para ver se estava bem encaixado. Ao perceber que sim,


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colocou o martelo de volta no porta-treco e deu partida no carro. —Uau! — eu disse, colocando a mão no fecho e dando uma mexidinha. O fecho não se movia. — Como eu saio? — É só apertar o botão — ele respondeu. — Essa parte é fácil. Quando o carro começou a se movimentar pelo estacionamento, Owen abriu a janela e apoiou o braço nela, e eu dei uma olhada no interior do carro. O painel era todo quebrado e o couro dos bancos estava rasgado. Além disso, tinha um cheiro de cigarro tão forte que dava até enjôo. No entanto, o único cinzeiro ali estava meio aberto, limpo e cheio de moedas no lugar de bitucas. Vi uns fones de ouvido no banco de trás, juntamente com um par de coturnos de couro avermelhado do Dr. Martins e várias revistas. Porém, o que mais vi foi CDs, muitos CDs. Não apenas os que ele tinha tirado do banco da frente e jogado atrás para eu me sentar, mas pilhas e pilhas de outros, alguns comprados em lojas e outros claramente gravados em casa, amontoados em uma bagunça no banco e no chão do carro. Olhei novamente para o painel à rainha frente. Apesar de o carro ser antigo, o som parecia praticamente novo, sem falar de avançado, pois tinha várias luzes piscando. No exato momento em que eu pensava sobre isso, nós chegamos ao semáforo que fica no topo do estacionamento, e Owen ligou a seta, olhando para os dois lados. Depois, esticou a mão para ligar o som do carro, girando o botão de volume com o polegar antes de virar à direita. Mesmo depois de tantos almoços examinando-o e de todos os detalhes que eu tinha conseguido observar até o momento, uma coisa ainda permanecia desconhecida: a música. Porém, eu tinha algumas idéias e pensei em punk rock, thrash metal, algo rápido e alto. No entanto, depois de um pouco de interferência, o que ouvi foi... cri cri cri.... Aquele barulho parecia um coro de grilos. Depois, surgiu uma voz que cantava em uma língua que eu não entendia. O cri cri ficou mais alto, mais alto, e a voz também, e parecia que eles chamavam uns aos outros. Ao meu lado, Owen dirigia, balançando a cabeça de leve. Depois de um minuto e meio, minha curiosidade foi maior. — Então — falei — o que é isso? Ele me olhou.


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— Cantos espirituais maias — respondeu. — O quê? — perguntei novamente, falando mais alto para ser ouvida em meio aos cri cris, que agora estavam com tudo. — Cantos espirituais maias — ele repetiu. — Eles são passados de geração para geração, como tradições orais. — Ah — eu disse. A canção agora era tão alta que estava no limite do agudo. — Onde você arrumou isso? Ele esticou o braço e abaixou um pouco o volume. — Na biblioteca da universidade — ele disse. — Eu peguei na coleção de som e cultura que tem lá. — Ah — falei. Então Owen Armstrong era espiritual. Quem diria! Mas, também, quem imaginaria que um dia eu fosse estar sentada no carro dele ouvindo cantos com ele? Eu, nunca. Nem ninguém. E, mesmo assim, ali estávamos nós. — Então você deve gostar mesmo de música — comentei, olhando para as pilhas de CDs. — E você não? — ele respondeu, trocando de faixa. — É claro — respondi. — Quero dizer, todo mundo gosta, não é? — Não — ele disse secamente. — Ah, não? Ele balançou negativamente cabeça. — Algumas pessoas pensam que gostam de música, mas não têm idéia do que ela realmente é. Elas estão se enganando. Há também pessoas que gostam muito de música, mas que não estão ouvindo a coisa certa. Elas são mal orientadas. E há pessoas como eu. Por um segundo, eu fiquei parada, observando. Ele ainda estava com o cotovelo apoiado na janela, praticamente deitado no banco e com a cabeça quase tocando o teto do carro. De perto, eu ainda o achava um pouco intimidador, mas por outros motivos. Um deles era sem dúvida o seu tamanho, mas ainda havia outras coisas, como aqueles olhos escuros e braços fortes, além do olhar atento e penetrante, que ele agora voltava para mim antes de tornar a prestar atenção no trânsito.


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— Pessoas como você — eu disse. — Que tipo de pessoas são essas? Ele deu a seta novamente e desacelerou. À frente, vi minha antiga escola e um ônibus escolar amarelo parado no estacionamento. — Do tipo que vivem para a música e estão constantemente procurando música em todo lugar. Que não conseguem imaginar a vida sem música. São iluminados. — Ah — eu disse, como se isso realmente fizesse sentido para mim. — Assim, quando você realmente pensa sobre ela — ele continuou — a música é a grande unificadora. Uma força inacreditável. Algo que pessoas que são diferentes em tudo podem ter em comum. Eu balancei a cabeça, sem saber o que responder. — E há o fato — ele continuou, deixando claro que não precisava da minha resposta — de que a música é uma constante. É por isso que nós temos uma conexão visceral com ela, sabe? Porque uma música pode instantâneamente transportar você para um momento, um lugar ou até uma pessoa. Não importa que tudo tenha mudado no seu mundo, aquela música específica continua a mesma, assim como aquele momento. E isso é impressionante, se você pára pra pensar de verdade a respeito. Realmente, era bem impressionante. Essa conversa também era impressionante, tão especial e diferente de tudo que eu pudesse imaginar. — Sim — eu disse lentamente. — É sim. Ficamos um tempo em silêncio. Mas o canto continuava — O que eu quero dizer — ele falou — é que, sim, eu gosto de música. — Eu entendi — respondi. — E agora — ele disse ao entrarmos no estacionamento da escola — eu peço desculpas antecipadamente. — Desculpas? Por quê? Ele reduziu a velocidade e parou na calçada. — Minha irmã. Havia várias garotas paradas na entrada principal da escola Lakeview


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Middle e eu olhei com atenção o rosto de cada uma tentando adivinhar quem seria a irmã do Owen. A garota de tranças ao lado de um case de instrumento e encostada na parede do prédio com um livro aberto na mão? A loira alta com uma mochila grande da Nike, um bastão de hóquei e tomando uma Coca-Cola? Ou a mais provável: a garota com cabelo escuro e de corte curto e desfiado, toda de preto, sentada em um banco próximo, de braços cruzados e olhando para o céu? Porém, naquele momento, ouvi alguém batendo na minha janela Quando me virei, vi uma garota pequena, magra e de cabelo escuro, toda vestida de cor-de-rosa: um rabo de cavalo preso com uma fita rosa, gloss rosa brilhante, uma camiseta rosashocking, jeans e uma sandália de plataforma cor-de-rosa. Ela soltou um gritinho estridente quando me viu. — Ai, meu Deus! — ela estava quase sem fôlego e ouvi sua voz abafada pela janela entre nós. — É você! Abri a minha boca para dizer algo, mas, antes disso, ela desapareceu da janela. Um segundo depois, a porta traseira se abriu e ela entrou. — Owen, ai, meu Deus — ela disse com sua voz ainda animada e a todo o volume. — Você não me disse que era amigo da Annabel Greene! Owen olhou para ela pelo retrovisor. — Mallory — ele disse —, segura a onda. Eu comecei a me virar para dar um oi, mas ela já estava inclinada para frente, colocando a cabeça entre o meu banco e o de Owen, e ficou tão perto de mim que pude sentir o hálito de chiclete. — Isso é inacreditável — ela disse. — É, é você. — Oi — eu disse. — Oi — ela respondeu com a voz estridente e deu alguns pulinhos no banco traseiro. — Ai, meu Deus, eu adoro o seu trabalho, gosto muito mesmo. — Trabalho? — Owen perguntou. —É ela, mesmo! Eu não acredito! Estou louca para contar para a Shelley e a Courtney, meu Deus! — Mallory pegou sua mochila, abriu-a e pegou o celular. — Ah! Talvez você possa dar um oi para elas, isso seria tão legal, e... Owen virou para o banco de trás:


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— Mallory. — Um segundinho — ela disse, apertando botões. — Eu só quero... — Mallory — a voz dele ficou mais baixa e ríspida. — Espera só um pouquinho, tá bom, Owen? Owen esticou o braço e tirou o telefone da mão dela. Ela acompanhou o celular sair de sua mão com os olhos arregalados, e o encarou. — Ah, vai! Só queria que ela desse um oi pra Courtney. — Não — ele disse, colocando o telefone no console que ficava entre nós. — Owen! — Coloca o cinto — Owen falou para ela ao sair com o carro. — E respire fundo. Depois de uma curta pausa, Mallory fez as duas coisas que ele disse, e com o maior barulho. Quando olhei para trás de novo, ela estava sentada, com cara de brava, braços cruzados, mas se animou rapidinho quando percebeu que olhei para ela. — Esse suéter é da Lanoler? — Da o quê? Ela se inclinou para frente, passando de leve os dedos no cardigã amarelo que eu tinha colocado de manhã. — Essa blusa. É linda. É da Lanoler? — Bem, é que... — eu disse. — Eu não... A mão dela foi parar no meu colarinho, que ela puxou um pouco para ver a etiqueta, — É sim! Eu sabia, Ah, meu Deus. Eu quero tanto um suéter Lanoler, desde sempre eu... — Mallory — disse Owen — não seja uma dessas peruas loucas que só querem saber de marcas. Mallory abaixou as mãos.


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— Owen — ela disse — R e R. Owen olhou para ela pelo retrovisor. Ele, então, deu um suspiro alto. — O que eu quis dizer, Mallory — ele disse com ar contrariado — é que a importância excessiva que você dá a marcas e bens materiais me deixa preocupado. — Obrigada — ela respondeu. — E eu entendo e agradeço sua preocupação. Mas, como você bem sabe, a moda é a minha vida. Eu olhei para Owen: — ReR? — Reformular e Redirecionar — Mallory me disse. — Faz parte do Gerenciamento de Raiva. Se ele falar algo agressivo, você pode dizer que aquilo feriu seus sentimentos e que ele tem que falar de outro jeito. Owen estava olhando para ela pelo retrovisor com uma expressão séria. — Obrigada, Mallory — ele disse. — De nada — ela respondeu. Depois, me deu um sorrisão e sentou-se no banco novamente. Durante um segundo, nós ficamos em silêncio, o que seria minha oportunidade para tentar me acostumar — ou pelo menos tentar — com todas essas novas descobertas sobre a vida pessoal de Owen Armstrong. Até o momento, a única coisa que não me surpreendeu foi o fato de ele estar em um programa de Gerenciamento de Raiva. Agora, Mallory, a música e, é claro, o fato de eu saber dessas duas coisas eram um super choque. Por outro lado, não sabia muito bem o que eu estava esperando, pois é claro que ele tinha que ter uma família e uma vida. Eu apenas nunca tinha pensado nisso antes. É como quando a gente é criança e encontra a professora ou a bibliotecária no supermercado ou no Wal-Mart, e leva um susto porque nunca passou pela nossa cabeça que essas pessoas existissem fora da escola. — Muito obrigada, de verdade, pela carona — eu disse a Owen. — Eu não sei mesmo como teria chegado em casa. — Sem problemas — ele disse. — Eu só tenho que... Esse pensamento foi, no entanto, interrompido pelo barulho que Mallory fez ao respirar fundo.


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— Ai, meu Deus - ela disse. — Eu vou ver a sua casa. — Não — disse Owen. — Mas nós vamos levá-la para casa! Eu estou aqui! — Nós vamos te deixar primeiro — ele retrucou. — Por quê? — ela perguntou. — Porque — Owen lhe respondeu enquanto atravessávamos um cruzamento saindo da rodovia principal — eu tenho que passar na rádio. Então nossa mãe pediu para eu levar você para a loja. Mallory suspirou contrariada. — Mas Owen... — Nada de "mas" — ele disse. — Já está decidido. Outro barulho foi ouvido quando Mallory se jogou, de forma dramática e desanimada, no banco de trás. — Não é justo — ela disse um segundo depois. — A vida não é justa — Owen lhe disse. — Vá se acostumando. — R e R — ela falou. — Não — ele respondeu, e esticou o braço, aumentando o volume da música e o cri cri recomeçou. Ficamos ouvindo os cantos maias apenas durante alguns minutos, o suficiente para eu começar a me acostumar com a música, até que, de repente, senti um arzinho no meu ouvido. — Quando fez aquele comercial — Mallory perguntou — você ficou com as roupas? — Mallory! — disse Owen. — O quê? — Por que você não relaxa e escuta a música? — Isso não é música! São grilos e gente gritando. Para mim — ela disse —


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Owen é um nazista da música. Ele não me deixa ouvir nada além dessa coisa estranha que ele toca no programa de rádio dele. — Você tem um programa de rádio? — perguntei para Owen. — É só um programa local — ele respondeu. — É a vida dele — disse Mallory, dramática. — Ele fica a semana inteira se preparando, se preocupando, mesmo o programa sendo em um horário que pessoas normais ainda nem estão acordadas. — Eu não escolho músicas para pessoas normais — disse Owen. — Coloco músicas para pessoas que são... — Iluminadas, nós sabemos — disse Mallory, revirando os olhos. — Bem, eu gosto de ouvir a 104Z. Eles tocam as top quarenta, muita música legal para dançar. Eu gosto de Bitsy Bonds. É a minha cantora favorita. Eu fui ao show dela no verão passado com todas as minhas amigas. Foi tão legal. Você conhece aquela música dela, a.Pyramid? — Hum — eu disse. — Não conheço. Mallory se ajeitou no banco e jogou o cabelo para trás. — "Vamos lá, cante mais alto, cante bem alto, o Sol no espaço queima por nós, então me beije agora, que eu me desfaço em... pirâmide"! Owen fez uma careta. — Bitsy Bonds não é uma cantora, Mallory. Ela é um produto. É falsa. Ela não tem alma; não representa nada. — E daí? — E daí — ele disse — ela é mais famosa pela barriga do que pela música. — Bom — disse Mallory — realmente, a barriga de tanquinho dela é incrível. Owen apenas balançou a cabeça, visivelmente incomodado, enquanto saíamos da rodovia principal para entrar em um pequeno estacionamento. À esquerda, havia várias lojas, uma ao lado da outra, e ele parou na frente de uma em cuja vitrine via-se um manequim de poncho e calça boca de sino marrom. Estava escrito ARTESANAIS na placa pendurada na porta.


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— Pronto — ele disse. — Chegamos. Mallory fez cara de contrariada. — Que ótimo — ela disse em tom sarcástico. — Mais uma tarde na loja. — Os seus pais são donos dessa loja? — perguntei. — Sim — Mallory respondeu por entre dentes, enquanto Owen pegou o telefone celular do console e lhe devolveu. — É tão injusto. Aqui estou eu, obcecada por roupas, e minha mãe tem uma loja de roupas. Só que são do tipo que eu nunca usaria. Nem morta. — Se estivesse morta — Owen lhe disse — você teria problemas maiores do que as roupas que usa. Mallory, então, olhou para mim com um ar muito sério. — Annabel, é sério. Só tem tecidos naturais e fibras, sabe? Batiques tibetanos, sapatos sintéticos. — Sapatos sintéticos? — perguntei. — Eles são horrendos — ela sussurrou. — Horrendos. Os bicos nem são pontudos. — Mallory — disse Owen. — Por favor, saia do carro. — Tô indo, tô indo. — Mas ela ainda demorou um tempo arrumando suas coisas, tirando o cinto de segurança e destrancando a porta. — Foi um grande prazer te conhecer — ela me disse. — O prazer foi meu — respondi. Ela desceu do carro, fechou a porta e andou em direção à loja. Antes de entrar, ela se virou e acenou para mim, toda animada. Acenei de volta, Owen deu partida no carro e seguimos em direção à rodovia principal. Sem Mallory, o carro parecia menor, além de mais silencioso. — Mais uma vez — ele disse ao desacelerar por causa do semáforo. — Desculpe. — Não precisa se desculpar — eu lhe disse. — Ela é fofa. — Você não convive com ela. Nem tem que ouvir a música que ela ouve.


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— 104Z — falei. — Todos os hits na ponta da língua. — Você ouve essa rádio? — Costumava ouvir — respondi. — Principalmente quando tinha a idade dela. Ele balançou a cabeça. — Seria diferente se ela não tivesse acesso à música de qualidade. Se ela não tivesse acesso à cultura. Mas já gravei muitos CDs para ela. Ela não ouve nenhum. Prefere encher a cabeça com esse lixo pop, ouvindo uma rádio que, basicamente, toca músicas entre os comerciais. — Então, no seu programa — eu disse. — é diferente? — Bem, é sim. — Ele me olhou, trocando de marcha ao entrarmos na rodovia principal. — Quero dizer, é uma rádio comunitária, então não tem comercial. Mas eu acho que a gente é responsável por aquilo que coloca para as pessoas ouvirem. Se você pode escolher entre poluição e arte, por que não escolher arte? Apenas olhei para ele. Ficou claro que eu tinha julgado mal Owen Armstrong. Não estava muito segura de quem eu imaginava que ele fosse, mas com certeza não era aquela pessoa sentada ao meu lado. — Então, onde você mora? — ele me perguntou, mudando de faixa ao nos aproximarmos do semáforo. — Em Arbors — eu disse. — Fica alguns quilômetros depois do shopping. Você pode... — Eu sei o caminho — ele disse. — A rádio fica apenas a algumas quadras de lá. Preciso parar lá, se estiver tudo bem pra você. — É claro — eu disse. — Tudo bem. A rádio comunitária ficava em um prédio quadrado que já tinha sido um banco. Ao lado, havia uma torre de metal, além de um banner meio caído pendurado na entrada principal. Nele estava escrito em letras pretas grandes: WRU. A NOSSA RÁDIO. Havia um janelão na frente por onde dava para ver um homem sentado em uma cabine, usando fones de ouvido e falando ao microfone. Em um letreiro luminoso aceso no canto da janela lia-se O AR: aparentemente, o N estava queimado.


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Owen parou bem na frente do prédio, desligou o carro e se virou em direção ao banco de trás para pegar alguns CDs no chão. Depois de juntar alguns, ele abriu a porta e disse: — Volto já. Eu acenei a cabeça e disse: — Ok. Quando ele entrou, comecei a ver alguns dos nomes escritos à mão nas caixinhas de CD e eu não conhecia nenhum deles: THE HANDYWACKS (variadas), JEREMIAH REEVES (ANTIGAS) E TRUTH SQUAD (OPUS). De repente, ouvi uma buzina, me virei e vi um Honda Civic parando na vaga ao lado. Isso não seria nada demais se o motorista não estivesse usando um capacete vermelho e brilhante. Não era exatamente um capacete daqueles iguais aos de jogadores de futebol americano, era maior e com mais estofamento. O cara parecia ter a minha idade e vestia suéter preto e calça jeans. Ele acenou para mim, eu retribuí e ele abriu a janela do carro. — Oi — ele disse. — O Owen está lá dentro? — Tá sim — respondi lentamente. Seus olhos eram azuis, ele tinha cílios grandes, e o cabelo comprido, um pouco abaixo dos ombros, estava preso em um rabo de cavalo que saía pela parte de baixo do capacete. — Ele disse que voltaria logo. Ele balançou a cabeça. — Legal — disse. Eu tentei não ficar olhando para ele, mas era um pouco difícil. — Ah, meu nome é Rolly — ele falou. — Ah. Oi, eu sou a Annabel. — Prazer em te conhecer. — Ele pegou um copo descartável com canudinho e deu um gole. Estava colocando-o de volta quando Owen saiu do prédio. — Ei — Rolly o chamou. — Eu tava passando e vi seu carro. Achei que você fosse trabalhar hoje. — Seis horas — Owen lhe disse.


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— Ah, beleza — disse Rolly, erguendo os ombros e encostando-se no banco do carro. — Talvez eu dê uma passada lá ou algo assim. — Isso — Owen disse. — E... Rolly? — O quê? — Você sabe que ainda está com o capacete, né? Rolly arregalou os olhos e levantou as mãos, passando a mão na cabeça com cuidado. Então, ele ficou vermelho, quase tão vermelho quanto o capacete. — Ah — ele disse, tirando o capacete. Seu cabelo estava amassado e a testa, marcada. — Ah é, valeu. — Falou! Até mais tarde. — Beleza. — Rolly colocou o capacete no banco do passageiro e passou a mão na cabeça enquanto Owen voltava para trás do volante. Quando o carro deu ré, eu acenei mais uma vez para o rapaz e ele balançou a cabeça, sorrindo, com o rosto ainda levemente cor-de-rosa. De volta à rodovia principal, rodamos um pouco até que Owen falou: — Ele usa no trabalho, só para você saber. — O capacete? — eu perguntei. — É. Ele trabalha em um local que ensina defesa pessoal. Ele é o atacante. — Atacante? — Com quem as pessoas praticam — ele me disse. — Sabe, quando as pessoas aprendem a técnica. É por isso que ele usa acolchoamento. — Ah — eu disse. — Então... Vocês trabalham juntos? — Não. Eu entrego pizza. É aqui, não é? — ele perguntou ao nos aproximarmos da entrada do meu bairro. Eu acenei positivamente a cabeça, ele deu seta e entrou. — Ele faz o programa de rádio comigo. — Ele estuda na Jackson? — Não. Na Fountain. A Fountain era um "local de aprendizado alternativo", também conhecida


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como a Escola Hippie. Tinha poucos alunos e dava ênfase à expressão individual. E oferecia disciplinas optativas como batique e frisbee avançado. Kirsten já teve vários namorados ripongos de lá, nos velhos tempos. — Esquerda ou direita? — Owen perguntou ao nos aproximarmos de um semáforo. — Reto, mais um pouco — respondi. Conforme entrávamos mais no meu bairro, sem falar, tive a mesma sensação que senti de manhã com Whitney — a de que eu devesse, pelo menos, tentar conversar. — Então — eu disse — como você conseguiu ter um programa de rádio? — É algo que sempre me interessou — respondeu Owen. — E logo depois de eu me mudar para cá, ouvi falar de um curso que é dado na rádio, onde eles ensinam o básico. Depois que você faz o curso, pode apresentar uma proposta de programa. Se eles a aprovam, você faz um teste e, se eles gostarem, te dão um horário. Eu e Rolly conseguimos nosso horário no inverno passado, mas aí fui preso. Isso nos atrasou um pouco. Ele disse isso de um jeito tão despreocupado, como se estivesse falando de férias na praia ou de um casamento. — Você foi preso? — perguntei. — É. — Ele desacelerou para parar no semáforo. — Eu me meti numa briga em uma balada. Com um cara no estacionamento. — Ah — eu disse. — Tá. — Você ouviu falar disso? — Talvez tenha ouvido algo — respondi. — Então, por que pergunta? Senti meu rosto esquentar. Se você faz uma pergunta atrevida, é melhor estar preparada para responder outra. — Eu não sei — eu disse. — Você acredita em tudo o que ouve? — Não — ele respondeu. E ficou me olhando por um momento, antes de virar a cabeça novamente para a rua. — Não acredito.


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Até parece, pensei. Falou. Então, pelo visto eu não era a única que tinha ouvido boatos. Isso me parecia justo. Aqui estava eu, cheia de suposições sobre Owen baseadas em coisas que falavam dele, mas não me tinha ocorrido que havia histórias sobre mim por aí também. Pelo menos uma. Ficamos em silêncio por mais dois semáforos, até que eu, finalmente, respirei fundo e disse: — Não é verdade, se é isso o que você está se perguntando. Ele estava diminuindo a marcha e o motor fez um barulho quando ele pisou no freio para fazer a curva. — O que não é? — perguntou. — O que você ouviu a meu respeito. — Eu não ouvi nada a seu respeito. — Até parece — falei. — Não ouvi — reafirmou Owen. — Eu contaria se tivesse ouvido. — Sério? — É — ele respondeu. Eu devo ter feito cara de quem não estava acreditando, porque ele acrescentou: — Eu não minto. — Você não mente? — repeti. — Foi o que eu disse. — Nunca? — É. "É claro que não", pensei. — Bem, esse é um bom princípio, se você é capaz de mantê-lo. — Eu não tenho escolha — ele repetiu. — Segurar coisas dentro de mim não dá certo. E o aprendizado não foi fácil. Eu me lembrei rapidamente do Ronnie Waterman andando no estacionamento, da cabeça dele no chão.


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— Então você é sempre sincero — falei. — Você não é? — Não — respondi. A resposta saiu da minha boca tão facilmente, tão rapidamente que eu deveria ter me surpreendido. Mas, por algum motivo, isso não aconteceu. — Não sou. — Bom — ele disse enquanto nos aproximávamos de outro semáforo — é bom saber disso. — Eu não estou dizendo que sou mentirosa — falei. Ele ergueu as sobrancelhas. — Não foi isso o que eu quis dizer. — O que você quis dizer, então? Eu estava cavando a minha própria cova e sabia disso. Mas, mesmo assim, tentei me explicar. — É que... Nem sempre eu digo o que sinto. — Por que não? — Porque a verdade dói às vezes — respondi. — É — ele disse. — Mas as mentiras também. — Eu não... — continuei, e depois disse, com a voz mais calma: — É que eu não quero magoar as pessoas. Ou deixá-las chateadas. Então, às vezes, não digo exatamente o que eu penso para poupá-las. — O mais irônico era que, ao falar isso, me dei conta que estava sendo honesta de um jeito que havia muito tempo não era. Ou talvez nunca tenha sido. — Mas ainda assim é uma mentira — ele disse. — Mesmo se as intenções são boas. — Sabe — falei. — É difícil para mim acreditar que você é sempre sincero. — Acredite. É verdade. Eu virei a cabeça para encará-lo. — Então, se eu perguntasse para você se essa roupa me deixa gorda — eu disse — e você achasse que sim, você me diria?


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— Sim — ele respondeu. — Não diria, não. — Eu diria sim. Talvez não exatamente dessa forma, mas se eu achasse que você não ficasse bem... — Duvido — retruquei. —... E você perguntasse — ele continuou — eu diria. Mas eu não falaria à toa. Não sou uma má pessoa. Mas se você pedisse a minha opinião, eu daria. Balancei a cabeça, sem acreditar nele. — Olha — ele completou — como eu disse antes, não me faz bem não dizer o que eu sinto. Então, eu não faço isso. Pense assim. Posso dizer que você é gorda, mas pelo menos não estou te dando um soco. — Essas são as duas únicas opções? — perguntei. — Nem sempre — ele respondeu. — Só às vezes. E é bom saber quais são as opções que a gente tem, né? Eu percebi que estava quase rindo, e isso era tão estranho que virei o rosto quando nos aproximamos de outro semáforo. Havia um carro parado na rua da frente, virado na nossa direção. Um segundo depois, percebi que era o meu. — Continuo reto? — perguntou Owen. — Hum, não — respondi, me aproximando da janela. Com certeza, era Whitney que estava ao volante. Ela estava com a mão espalmada sobre o rosto e seus dedos cobriam os olhos. — E agora? Direita? Esquerda? — Owen perguntou. Ele tirou uma das mãos do volante. — O que foi? Eu olhei para Whitney novamente, me perguntando o que ela estaria fazendo com o carro parado perto de casa. — Aquela é a minha irmã — eu disse, apontando para o carro. Owen se inclinou para frente, olhando para ela. — Ela... Ela está bem? — Não — respondi. Talvez não mentir seja contagioso; essa resposta saiu


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automaticamente, antes de eu conseguir achar outras palavras para explicar. — Não está, — Ah — ele disse. E ficou calado por um segundo. — Bem, você quer... Fiz que não com a cabeça. — Não — respondi. — Pode virar à direita. Foi o que ele fez, e deslizei um pouco no banco para me esconder. Ao passarmos por Whitney, ficou claro que ela estava chorando. Seus ombros magros tremendo, sua mão ainda sobre o rosto. Senti um nó na garganta; continuamos em frente e a deixamos para trás. Pude sentir Owen me olhando quando chegamos ao semáforo seguinte. — Ela está doente — falei. — Já faz um tempo. — Sinto muito — ele disse. Espera-se que você diga isso. É o que qualquer pessoa diria. O estranho é que, depois de tudo o que ele tinha me dito, eu sabia que Owen realmente estava sendo sincero. — Qual é sua casa? — ele perguntou ao entrarmos na minha rua. — A de vidro — respondi. — De vidro... — ele começou a falar, mas parou ao ver a casa — Ah, tá. Era aquela hora do dia em que a luz do sol bate no vidro e o campo de golfe é refletido quase perfeitamente no segundo andar. No térreo, pude ver minha mãe parada no balcão da cozinha. Ela começou a andar em direção à porta quando paramos, mas não continuou ao perceber que era eu e não Whitney que chegava. Pensei em minha irmã, sentada no carro a duas quadras, em minha mãe preocupada aqui em casa, e senti aquela conhecida revirada no estômago, uma mistura de tristeza e obrigação. — Cara — Owen falou, olhando para a casa. — É uma casa e tanto. — Pessoas em casa de vidro — eu disse. Olhei novamente para minha mãe, que ainda estava no balcão, nos olhando. Fiquei pensando se ela estava curiosa para saber quem era Owen, ou distraída demais para perceber que eu estava em um carro desconhecido, ainda por cima com um garoto. Talvez ela pensasse que fosse Peter Matchinsky, o rapaz bonzinho do último ano que fazia Educação Física comigo.


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— Bem — falei, pegando a minha mochila. — Muito obrigada pela carona. E por tudo. — Sem problemas — ele respondeu. Ouvi um carro se aproximando atrás de nós e, um segundo depois, Whitney estava parada na entrada. Ela só viu Owen e a mim depois que tinha estacionado e saído do carro. Levantei a mão para cumprimentá-la, mas ela me ignorou. Eu já sabia o que iria acontecer quando entrasse. Whitney estaria batendo os pés pela casa, ignorando as perguntas animadas da minha mãe e logo se cansaria e iria para o seu quarto, batendo a porta com força. Então, minha mãe ficaria chateada, mas fingiria não estar. Mesmo assim, eu ficaria preocupada com ela até a hora que meu pai chegasse, quando todos se sentariam para jantar, fingindo que tudo ia bem. Pensando nisso, olhei para Owen. — Então, quando é? — perguntei. — O seu programa de rádio. — Domingo — ele respondeu. — Às sete horas — acrescentou. — Eu vou escutar — disse a ele. — Da manhã — ele completou. — Sete da manhã'? — perguntei. — Sério? — É — ele respondeu, pegando no volante. — Não é o horário ideal, mas não podíamos recusar. Pelo menos quem tem insônia ouve. — Insones iluminados — falei. Ele ficou me olhando durante um segundo, como se tivesse ficado surpreso com o que eu disse. — É — ele disse, e sorriu. — Exatamente. "Imagine só", pensei. "Owen Armstrong sorrindo." Em um dia tão estranho, isso foi o mais surpreendente. — Bem — disse. — É melhor eu ir. — Certo. Te vejo por aí. Eu concordei, acenando a cabeça e tirando o cinto de segurança. E como ele


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disse, bastou um clique e eu estava livre. Diferentemente de muita coisa, era mais difícil entrar do que sair. Ao fechar a porta, Owen engatou a marcha e buzinou quando saiu dirigindo. Quando me virei para ver minha casa, Whitney já estava subindo as escadas e minha mãe ainda permanecia na cozinha, olhando para a porta dos fundos. Eu não minto, disse Owen, com a mesma segurança que qualquer outra pessoa diria que não come carne ou que não sabe dirigir. Eu não tinha certeza se era capaz de compreender isso. Mesmo assim, tinha inveja de Owen e sua franqueza, sua habilidade de se abrir para o mundo em vez de se fechar em si mesmo. Principalmente agora ao entrar em casa, onde minha mãe me esperava.


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Seis — Garotas, silêncio. Atenção, por favor! Estamos começando, então preste atenção no seu nome. Trabalho na Lakerview Models desde os quinze anos. Todo verão, eles fazem testes para escolher três modelos para pequenas campanhas, como posar com escoteiros mirins no evento de Pinewood Derby, ou distribuir balões no festival do zoológico. Essas modelos também aparecem em anúncios impressos, desfiles e saem no calendário anual do Shopping Lakerview, entregue todo ano com a lista telefônica. Era essa sessão de fotos que estávamos fazendo então. Deveríamos ter terminado no dia anterior, mas o fotógrafo era lento, então fomos chamadas novamente, no domingo à tarde, para terminar. Eu bocejei e depois me encostei ao lado da planta localizada atrás de mim, e fiquei observando a sala. As garotas mais novas encontravam-se todas juntas em um canto, falando alto, enquanto outras pessoas que eu conhecia de outros trabalhos estavam fofocando sobre alguma festa. As duas únicas veteranas permaneciam sentadas sozinhas, uma com a cabeça para trás e os olhos fechados, enquanto a outra folheava um livro de cursinho para o vestibular. Finalmente, do outro lado da sala, e também sozinha, estava Emily Shuster. Conheci Emily na sessão de fotos para o calendário passado. Ela era um ano mais nova que eu, tinha acabado de se mudar para cá, e não conhecia ninguém. Enquanto todas nós esperávamos na sala, ela se sentou ao meu lado, começamos a conversar e rapidamente nos tornamos amigas. Resumindo Emily em uma palavra: doce. Seu cabelo era ruivo e curto e seu rosto tinha forma de coração, e, quando a convidei para sair comigo e com Sophie naquela noite depois da sessão, ela ficou super contente. Quando cheguei à sua casa, ela já estava do lado de fora esperando, com as bochechas vermelhas de frio — o que indicava que ela já estava lá havia algum tempo. Sophie estava menos interessada. Para falar a verdade, ela tinha problemas em


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lidar com outras garotas, principalmente as bonitas, mesmo sendo linda. Toda vez que eu tinha algum compromisso da Lakerview Models ou conseguia um trabalho grande, ela ficava um pouco mal-humorada. Algumas coisas nela também me incomodavam, como, por exemplo, quando ela me dava patada e me tratava como se eu fosse burra; e o fato de ela só ser legal com as pessoas quando rolava algum interesse, e às vezes nem assim. A verdade era que minha amizade com Sophie era complicada e várias vezes me perguntei por que ela era minha melhor amiga. Afinal de contas, eu estava sempre pisando em ovos perto dela ou sendo obrigada a ignorar comentários grosseiros aqui e ali. Mas, então, me lembrava do quanto minha vida tinha mudado depois que começamos a andar juntas — desde aquela noite com Chris Pennington, tanta coisa tinha acontecido, e eu vivi coisas que nunca teria experimentado se não fosse por ela. Além disso, na verdade, eu não tinha mais ninguém. E Sophie fazia questão de que continuasse assim. Na noite em que conheci Emily, nós íamos para uma festa na A-Frame, uma república nos arredores da cidade onde moravam uns ex-alunos da Perkins Day, uma escola particular. Os carinhas tinham uma banda chamada Day After e, depois que terminaram o Ensino Médio, ficaram por ali fazendo shows em baladas e tentando gravar um álbum. Enquanto isso, quase todo fim de semana eles davam festas que bombavam com alunos do Ensino Médio e gente dos arredores. Assim que nós três entramos naquela festa, percebi que as pessoas olhavam para Emily. Ela era uma garota bonita, mas o fato de estar com a gente — especialmente com Sophie, que era conhecida tanto em nossa escola quanto na Perkins Day — era algo que a fazia ser notada. Nós não estávamos nem na metade do caminho para pegar bebida quando Greg Nichols, um garoto insuportável do primeiro ano, foi correndo falar com a gente. — E aí, garotas. — ele disse. — Tudo bem? — Sai pra lá, Greg — Sophie falou. — Não estamos interessadas. — Fale por você — ele disse totalmente decidido. — Quem é a sua amiga? Sophie respirou fundo, fazendo que não com a cabeça. Eu disse: — Hum, essa é a Emily. — Oi — disse Emily, roxa de vergonha. — Opa! — respondeu Greg. — Posso pegar uma cerveja pra você? — Tá bom — ela respondeu. Depois que ele saiu de perto, virando-se para


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trás para olhar para ela, Emily me olhou com os olhos arregalados. — Ai, meu Deus — ela disse. — Ele é uma graça! — Não — Sophie disse a ela. — Ele não é. E ele só veio falar com você porque já deu em cima de todo mundo aqui. Emily desanimou. — Ah — ela disse. — Sophie — falei. — Na boa. — O que foi? — ela disse enquanto catava alguns fiapos do suéter e examinava a multidão. — É verdade. E provavelmente deveria ser verdade. Mas isso não era motivo para ela ter falado daquele jeito. Porém, aquilo era a cara da Sophie. Ela acreditava que cada um tinha o seu lugar e o dever dela era garantir que cada um soubesse o seu. Ela fez isso com Clarke. Ela fez isso comigo. E, agora, era a vez de Emily. Mas, dessa vez, em vez de ficar apenas observando, como eu tinha feito em todos os outros anos, senti que deveria fazer alguma coisa; afinal de contas, eu é que tinha convidado Emily. — Vem cá — eu disse para Emily. — Vamos pegar uma cerveja. Sophie, você quer uma? — Não — ela respondeu secamente e me deu as costas. Quando peguei a minha bebida e fui procurar por Sophie, ela tinha desaparecido. "Então ela está brava", pensei. "Isso não é nenhuma novidade, eu dou um jeito nisso em um segundo." Mas então Greg Nichols reapareceu, e eu não queria deixar Emily sozinha com ele. Levou uns vinte minutos até conseguirmos nos livrar do cara. Então, deixei Emily conversando com umas garotas que ela conhecia e, finalmente, fui procurar Sophie. Eu a encontrei sentada na varanda da casa, fumando sozinha. — Oi — eu disse, mas ela me ignorou. Tomei um gole de cerveja, olhando para a piscina que estava vazia, coberta de folhas e com uma cadeira no fundo. — Cadê a sua amiga? — ela perguntou. — Sophie — eu disse. — Pare com isso. — O que foi? É só uma pergunta.


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— Está lá dentro — respondi. — E ela é sua amiga também. — Não — ela disse em um tom bravo. — Ela não é. — Por que você não gosta dela? — Ela é do primeiro ano, Annabel. E ela é... — Sophie parou e deu outro trago no cigarro. — Olha aqui, se você quiser andar com ela, vá lá. Eu não quero. — Por que não? — Porque não. — Ela olhou para mim. — O quê? Não temos que ficar grudadas o tempo todo, sabe. Você não tem que fazer tudo o que eu faço. — Eu sei — respondi. — Sabe mesmo? — Ela soltou fumaça entre nós duas. — Porque, na verdade, você nunca faz nada sem mim. Desde que nos conhecemos, fui eu que consegui todos os caras, fiquei sabendo de todas as festas. Antes de me conhecer, você só ficava sentada dando lencinhos de papel para a Clãrke Rebbolds. Tomei mais um gole. Eu odiava quando Sophie era malvada e agressiva daquele jeito. E odiava ainda mais ao pensar que era tudo culpa minha, e não havia como negar. — Olha — eu disse a ela — eu só convidei a Emily para a festa porque ela não conhece ninguém. — Ela conhece você — retrucou Sophie. — E agora o Greg Nichols também. — Engraçadinha. — Não estou sendo engraçadinha — ela disse. — Só estou falando a verdade. Eu não gosto dela. Se você quiser andar com ela, vá em frente. Eu não quero. — E jogou o cigarro no chão, apagando-o com a bota, me deu as costas e entrou na casa. Fiquei apreensiva ao vê-la se afastar tão nervosa. Talvez ela estivesse certa, e que sem ela eu realmente não era ninguém. Uma parte de mim sabia que isso não era verdade, mas havia essa pequena nuvem de dúvida que pairava. As coisas com Sophie eram sempre no "tudo ou nada". Ou você estava com ela — mais especificamente, sempre atrás dela — ou contra ela. Não tinha meio-termo. Então, por mais que não fosse fácil ser sua amiga, ser considerada inimiga era ainda pior.


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Olhei para o meu relógio e vi que Emily tinha que voltar logo para casa. Então, fui procurá-la pela festa, até que a vi conversando com uma garota que também trabalhava como modelo. Fiquei um tempo conversando com elas e esperando Sophie se acalmar. Quando chegou a hora de ir embora, imaginei que o mau humor dela tivesse passado. Porém, quando fui procurá-la, vi que Sophie tinha sumido mais uma vez. Ela não estava lá fora e nem na cozinha. Até que, finalmente, olhei para o final de um corredor e a vi abrindo uma porta. Ela me viu, me deu as costas e entrou. Eu respirei fundo e fui falar com ela. Bati na porta duas vezes. — Sophie - chamei. — Está na hora de ir embora. Nenhuma resposta. Eu suspirei, cruzando os braços, e me aproximei da porta. — Tá certo - eu disse — sei que você está brava, mas vamos embora. Conversamos sobre isso depois. Pode ser? Nada. Olhei novamente a hora. Se nós não saíssemos logo, Emily chegaria tarde em casa. — Sophie - chamei de novo, pegando na maçaneta. A porta não estava trancada, então a abri... — Vamos... Parei e não disse mais nada. Fiquei lá, com a porta semi aberta, olhando para Sophie, que estava espremida entre a parede e um garoto. Uma das mãos dele estava debaixo da blusa dela e a outra, na sua coxa. Não dava para ver o rosto do garoto, pois ele estava beijando o pescoço de Sophie. Quando tentei sair sem ser notada, ele se virou e olhou para mim. Era Will Cash. — Estamos ocupados — ele disse em voz baixa. Os olhos dele estavam vermelhos e os lábios, próximos do ombro dela. — Eu... — falei —... Desculpa. — Vá para casa, Annabel — Sophie me disse, passando a mão no cabelo dele, seus dedos brincando com os fios, bem perto do pescoço. — Vá para casa. Dei um passo para trás, fechando a porta, e fiquei lá, parada no corredor. Will Cash era um dos caras da Perkins Day. Ele tocava guitarra na banda e estava no último ano. Ao mesmo tempo em que era bonito — muito bonito, o tipo do cara que é impossível deixar de notar — ele tinha fama de ser um idiota, além de muito


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mulherengo. Ele estava sempre com uma menina diferente e nunca ficava com a mesma por muito tempo. Sophie, por sua vez, preferia o tipo mauricinho e odiava qualquer um que tivesse um estilo minimamente alternativo. Porém, estava claro que ela tinha aberto uma exceção. Pelo menos naquele momento. Naquela noite, tentei ligar para ela várias vezes, mas Sophie não atendeu. No dia seguinte, por volta do meio-dia, quando ela finalmente me ligou, nem tocou no nome da Emily, e nem falou do que tinha acontecido entre nós. Ela só queria falar do Will Cash. — Ele é incrível — ela me disse. Ela me contou algumas coisas e logo disse que estava vindo para a minha casa, como se esse assunto fosse tão importante que não pudesse ser discutido pelo telefone. Agora, ela estava sentada na minha cama, folheando uma Vogue antiga. — Ele conhece todo mundo, é um ótimo guitarrista e é muito, muito inteligente. Além de sexy. Poderia beijá-lo a noite toda. — Você parecia feliz — eu disse. — Estava. Estou — ela falou virando a página e se inclinando para ver um anúncio de sapato. — Ele é tudo de que eu precisava agora. — Então — eu disse sem me esquecer da péssima reputação de Will — você vai encontrar com ele de novo? — É claro — ela disse, como se eu tivesse feito uma pergunta idiota. — Hoje à noite. A banda dele vai tocar no Bendo. — Bendo? Ela suspirou, jogando o cabelo para trás. — É uma balada na Rua Finley — ela respondeu. — Ai, Annabel, não acredito que você nunca ouviu falar do Bendo. — Ah — eu disse, apesar de não ter ouvido falar de lá. — Ouvi, sim. —Eles vão pra lá às dez horas — ela falou, virando outra página. — Você poder ir junto, se quiser. Ela não me olhou ao dizer isso e sua voz não tinha entonação nenhuma. —Não — respondi. — Amanhã tenho que acordar bem cedo. —Você é quem sabe — ela disse.


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Então, naquela noite, eu fiquei em casa e Sophie foi para o Bendo ver o show, depois do qual, fiquei sabendo mais tarde, ela voltou para a A-Frame e dormiu com Will. Apesar de ela ficar falando e se gabando, aquela foi sua primeira vez e, daquele momento em diante, Sophie passou a se importar só com ele. Mas, para mim, era difícil enxergar essas qualidades no Will. Por mais que Sophie afirmasse que Will era doce, engraçado, gostoso e inteligente (além de milhões de outros elogios), nenhuma dessas coisas me vinha à mente quando me encontrava com ele frente a frente. Will era mesmo bem bonito e extremamente popular. Mas também era estranho, não era uma pessoa agradável. Ao contrário, seu comportamento era distante e intimidador, e toda vez que me encontrava na situação de ter de conversar com ele — no carro, quando Sophie saía para pagar a gasolina ou em festas, quando estávamos os dois procurando por ela — eu ficava tensa, pois percebia claramente que ele ficava me olhando ou que fazia questão de deixar longos silêncios. E pior, era como se Will soubesse que aquilo me deixava perturbada e ele gostasse disso. Eu tentava disfarçar minha insegurança falando muito ou mais alto, ou os dois. E quando fazia isso, Will apenas ficava me olhando sem nenhuma expressão, enquanto eu falava pelos cotovelos até o assunto acabar. Eu tinha certeza de que ele me achava burra, uma garotinha se esforçando para impressionar. De qualquer maneira, eu fazia de tudo para evitá-lo, mas nem sempre era possível. Outras garotas, no entanto, não pareciam ter esse problema e, por causa disso, namorar Will se tornou uma função em tempo integral, mesmo para uma garota tão esforçada quanto Sophie. Desde o começo havia muitos boatos, e parecia que em todo lugar que eles iam Will conhecia alguém, geralmente do sexo feminino. E ainda tinha o agravante de eles estudarem em escolas diferentes, o que fazia as histórias sobre seus olhos e — se é que os boatos eram dignos de confiança — mãos distraídas ficarem mais difíceis de serem confirmadas. E ainda tinha o fator "fazer parte de uma banda". A verdade era que Sophie tinha muito trabalho a fazer e o relacionamento deles logo se resumiu ao seguinte ciclo: Will tem qualquer tipo de interação com uma garota, surgem boatos, Sophie procura a suposta garota, depois procura Will, eles brigam, terminam, voltam a ficar juntos. E assim por diante. — Eu só não entendo como você agüenta isso — eu disse a ela certa noite enquanto dirigíamos em alta velocidade por determinado bairro, procurando a casa de uma garota que ela ouvira dizer que estava paquerando Will em uma festa. — É claro que não — ela respondeu cheia de grosseria, atravessando um farol vermelho e entrando à esquerda em alta velocidade. — Você nunca foi apaixonada por


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alguém, Annabel. Eu não respondi, pois era verdade. Cheguei a namorar alguns garotos, mas nada sério. E me perguntei, enquanto fazíamos outra curva fechada, Sophie com o rosto vermelho e inclinada em cima de mim para observar outra casa, se o amor era sempre tão ruim daquele jeito. — Will poderia ficar com qualquer garota que quisesse — ela disse, freando um pouco ao nos aproximarmos de outro bloco de casas à esquerda. — Mas ele me escolheu. Ele está comigo. E vou ficar possessa se deixar alguma piranha decidir que vai mudar isso. — Mas eles só estavam conversando — eu disse. — Não é? Isso pode não querer dizer nada. — Só conversando, sozinhos, em uma festa, dentro de um quarto onde não tem mais ninguém não é só uma conversa — ela retrucou. — Se você sabe que um cara tem namorada (e especialmente se a namorada for eu), não tem nenhum motivo para fazer nada com ele que seja entendido de maneira errada. É uma escolha, Annabel. E se você faz a escolha errada, você só pode culpar a si mesma pelas conseqüências. Encostei no banco, calada, enquanto ela parava na frente de uma casa pequena e branca. A luz do portão da varanda da entrada estava acesa e havia um Jetta vermelho parado na entrada da garagem, com um adesivo da Perkins Day no pára-choque traseiro. Se eu fosse mais corajosa — ou apenas muito burra — teria dito que não era possível que todas as garotas da cidade estivessem a fim de acabar com o relacionamento da Sophie, e que Will também deveria ter sua parcela de culpa com relação aos boatos. Mas olhei para ela e algo em sua expressão me lembrou daquele dia na piscina havia muitos anos, logo quando ela chegou e ficou tentando ser amiga da Kirsten. Não importava o fato de minha irmã a ignorar ou ser grossa com ela. Quando Sophie decidia que queria algo, ela queria. E apesar de todo o drama, namorar Will a fez ser mais invejada ainda. Ela não precisava mais seguir a garota mais popular, ela era a mais popular. Por causa disso, fiquei pensando que talvez, no final das contas, ela visse Will da mesma forma que eu a via; ficar com ele podia ser difícil, mas não tê-lo seria muito pior. Então, fiquei sentada no carro enquanto ela saiu, desviando da luz da varanda ao andar pela entrada dos carros, em direção ao Jetta. Eu queria olhar em outra direção quando ela pegou a chave que tinha na mão e a arrastou na lataria vermelha e bonita, soletrando o que aquela garota agora era para ela. Mas não desviei


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o olhar. Fiquei observando, como sempre fiz, e só olhei para o outro lado quando ela veio andando em minha direção; quando eu já era cúmplice do crime. A ironia era que, mesmo depois de ter visto o drama de Will e Sophie tantas vezes para saber tudo de cor, não pude deixar de me surpreender quando me vi fazendo parte dele. Um movimento errado em uma noite e, quando me dei conta, era de mim que ela estava atrás — a vadia, a piranha agora era eu — e eu estava fora, não somente da vida dela, mas da minha também.

* * *

— Annabel — a Sra. McMurty, diretora da agência, disse ao passar por mim — você é a próxima, certo? Fiz que sim com a cabeça, já me arrumando. No outro lado da sala, vi uma das garotas, uma morena alta, posando meio sem jeito com uma grande bandeja azul da loja de utensílios para cozinha. A sessão de fotos do calendário era sempre meio estranha. Cada garota posava para um mês e tinha que fazer a foto com produtos de alguma loja do shopping. No ano anterior, eu tive o azar de ser sorteada para a Rochelle Pneus e tive que posar com calotas e pneus. — Segure como se você estivesse oferecendo algo — disse o fotógrafo, e a garota colocou os braços para frente, esticando o pescoço. — Aí foi um pouco demais — ele disse, e ela ficou vermelha e recuou um pouco. Comecei a andar em direção ao fotógrafo, passando por algumas garotas que estavam encostadas na parede. Eu já estava quase chegando quando Hillary Prescott parou na minha frente, bloqueando minha passagem. — Oi, Annabel. Hillary e eu começamos a trabalhar na agência juntas. Depois de termos sido amigas no começo, logo aprendi a ser mais reservada, pois ela era muito fofoqueira. Ela também gostava de provocar; não contente em causar o fogo, ela tinha que pôr mais lenha na fogueira. — Oi, Hillary — eu disse. Ela estava abrindo um pacotinho de chiclete, em seguida colocou-o na boca, e depois me ofereceu. Eu não aceitei. — E aí?


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— Nada demais. — Ela ergueu o braço e ficou enrolando uma mecha de cabelo em volta do dedo, me olhando. — Como foi o seu verão? Se fosse qualquer outra pessoa, eu teria dado a minha resposta-padrão — Bom — sem vacilar. Mas como se tratava de Hillary, eu estava alerta. — Bom — respondi, mantendo um tom sério. — Como foi o seu? — Um tédio completo — ela respondeu, suspirando. Ela mascava o chiclete: eu podia vê-lo, rosa e brilhante, revirar na boca dela. — Então, o que é que há entre você e a Emily? — Nada — falei. — Por quê? Ela deu de ombros. — É só que vocês duas estavam sempre juntas. E agora não estão nem se falando. Meio estranho. Olhei para Emily, que estava examinando suas unhas. — Não sei — eu disse. — Bom, acho que é porque as coisas mudam. Sentia que ela estava me olhando e, apesar de suas perguntas, eu tinha certeza de que ela sabia exatamente o que tinha acontecido, ou boa parte. Mesmo assim, estaria para sempre em maus lençóis se preenchesse as lacunas. — Melhor eu ir — falei. — Sou a próxima. — Certo — ela respondeu e me olhou com raiva quando passei. — Te vejo mais tarde. Encostei-me na parede para esperar mais, bocejando. Eram duas da tarde, mas eu estava exausta. E era tudo culpa de Owen Armstrong. Naquela manhã, acordei e logo tive a sensação de que era cedo demais. Ao olhar o relógio vi que eram 6h57 da manhã. Decidi voltar a dormir e, enquanto me preparava para deitar novamente, me lembrei do programa de Owen. Pensei muito nele durante o fim de semana, pois prestei atenção em cada mentirinha que contei, desde o "tudo bem" que respondi quando meu pai me perguntou como tinha sido a escola na sexta-feira até o "sim" que falei quando minha mãe me perguntou se eu estava empolgada em voltar para a Lakerview Models. Era muita desonestidade contabilizada no final, então queria cumprir a minha palavra sempre que possível. Eu tinha dito a Owen que escutaria o seu programa. E foi o que fiz.


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Assim que liguei o rádio, às sete horas em ponto, só consegui ouvir interferência. Inclinei-me, colocando a orelha perto do rádio no exato momento em que houve uma repentina explosão na música: um som de guitarra irrompeu a interferência, acompanhado do tilintar de címbalos, seguido de um grito. Pulei, assustada, e meu braço bateu no rádio, que caiu no chão, mas continuou ligado, só que agora a todo volume. Whitney começou a bater na parede do seu quarto, e eu me apressei para pegar o rádio e diminuir o volume o mais rápido possível. Quando finalmente o coloquei perto da orelha novamente — dessa vez com mais cuidado —, a música ainda tocava e a letra dela era indecifrável. Eu nunca tinha ouvido uma música assim, se é que aquilo era realmente música. Finalmente, com uma explosão de címbalos, ela terminou. Porém, a próxima música não era nada melhor. Em vez de guitarras, era uma música meio eletrônica que consistia de vários bips e bips ao fundo e um homem falando, recitando o que me parecia ser uma lista de compras. E isso continuou durante cinco minutos e meio. Soube disso porque olhei para o relógio o tempo todo, torcendo para que terminasse. Quando finalmente acabou, Owen entrou no ar. — Você acabou de ouvir Misanthrope com "Descartes Dream" — ele disse. — Antes, foi Iipo com "Jennifer". Você está ouvindo Gerenciamento de Raiva, aqui na WRUS, a estação da rádio comunitária. E agora, Nuptial. Entrou mais uma música eletrônica longa, seguida de algo que parecia ser velhos recitando poemas sobre barcos baleeiros, as vozes eram roucas e tremidas, depois das quais vinham dois minutos de um som meloso de harpa. Era uma bagunça tão grande que nem tentei me acostumar com ela. Mesmo assim, fiquei lá durante uma hora, sentada e ouvindo uma música atrás da outra, esperando por alguma que eu realmente pudesse: a) entender ou b) gostar. Não foi o caso. Estava claro que eu não seria uma iluminada, apenas uma exausta. — Annabel — chamou a Sra. McMurty, me trazendo para o presente. — Estamos te esperando. Acenei a cabeça positivamente e dei um passo para ficar na frente do cenário, que agora estava decorado com várias plantas: uma trepadeira, algumas samambaias e uma grande palmeira em um vaso com rodinhas. Era óbvio que esse ano eu tinha ficado com a Laurel Flores. Pelo menos era melhor do que pneus. Aquele fotógrafo eu ainda não conhecia e ele não disse "oi" quando parei na frente dele. Estava ocupado demais mexendo na câmera enquanto o produtor puxava


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o vaso rolante para perto de mim. Uma folha da palmeira roçou na minha bochecha. Então o fotógrafo olhou para mim. — Precisamos de mais plantas — ele disse para a Sra. McMurty, que estava ao seu lado. — Ou então eu terei que tirar as fotos bem de perto. — Mas será que temos mais plantas? — a Sra. McMurty perguntou ao produtor. Ele olhou para a sala vizinha. — Dois cactos — respondeu. — E um fícus. Mas ele parece meio doente. Ouvi um "pop" quando o fotômetro foi acionado. Eu tentei tirar a folha de palmeira do meu rosto. — Bom — disse o fotógrafo, aproximando-se e depois se afastando. Eu podia ver as outras garotas, que estavam atrás dele, me olhando: as novas, as veteranas, Emily. E apesar de ultimamente ficar incomodada com pessoas me olhando, nesse ambiente isso era conhecido e era assim que funcionava. Se pelo menos por alguns minutos eu conseguisse parar de pensar em tudo o que acontecia dentro de mim e me concentrar somente na superfície: olhar para um lado, olhar para o outro, olhar. Aquele olhar. — Bom — disse o fotógrafo. De rabo de olho, vi um cacto se movendo, mas continuei olhando para ele que se deslocava ao meu redor, disparando o flash e me dizendo repetidamente para mudar de pose. Naquela noite, depois que minha mãe foi dormir e Whitney estava trancada em seu quarto, desci as escadas para tomar um copo de água. Ele estava sentado na sala de estar assistindo televisão com os pés no pufe. Quando acendi a luz, ele se virou. — Você — ele disse — chegou bem na hora! Vai passar um ótimo documentário sobre Cristóvão Colombo. — Sério? — respondi, tirando um copo do armário. — E fascinante — ele falou. — Quer assistir comigo? Você pode aprender algo. Meu pai adorava o History Channel. "É a história do mundo!", ele sempre dizia quando reclamávamos por ter que assistir a mais um programa sobre o Terceiro


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Reich, a queda do Muro de Berlim ou as Grandes Pirâmides. Ele nunca cedia rapidamente e propunha uma votação, mesmo sabendo que seria derrotado e obrigado a assistir a Style Network, a HGTV ou um reality show atrás do outro. Mas quando já era tarde da noite e ele ficava só, a TV era dele e de mais ninguém. Mesmo assim, sempre queria companhia, como se a história ficasse melhor ainda quando se tem alguém para compartilhar. Geralmente, esse alguém era eu. Como minha mãe dormia cedo, Whitney ficava entediada e Kirsten sempre falava demais durante qualquer programa, meu pai e eu éramos parceiros em frente à TV à noite, os dois sentados vendo a história se desenrolar diante de nossos olhos. Ele agia com interesse mesmo quando se tratava de um programa que eu sabia que ele já tinha visto, balançando a cabeça e dizendo "Humm" e "É mesmo?", como se o narrador pudesse ouvi-lo e precisasse de sua interação para continuar. Mas eu tinha parado de assistir à televisão nos últimos meses. Eu não sabia muito bem o motivo, mas, toda vez que ele perguntava, eu me sentia cansada, cansada demais para agüentar eventos mundiais, mesmo os que já tinham acontecido. Ou não podia agüentar o peso da história, do passado. Acho que não tinha vontade de olhar para trás. — Não, obrigada — respondi. — O dia foi longo. Eu estou bem cansada. —Tudo bem — ele falou, sentando-se e pegando o controle remoto. — Fica pra próxima. — Sim, com certeza. Peguei meu copo de água e fui até a poltrona dele, e ele me estendeu sua bochecha para eu lhe dar boa-noite. Depois, sorriu e apertou o botão do volume. Conforme me distanciava da sala, a voz do narrador ficava mais alta. — No século quinze, exploradores buscavam... Na metade do caminho, parei para tomar um gole de água e depois me virei e olhei para ele. O controle remoto agora estava sobre a sua barriga, a luz da TV brilhando no seu rosto. Eu tentei me imaginar refazendo os meus passos, voltando para sentar-me no sofá, mas não consegui. Então, deixei-o lá sozinho vendo a história se repetir, os mesmos eventos recontados várias vezes.


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Sete Durante todo o fim de semana fiquei pensando no que podia esperar quando visse Owen na escola. Se as coisas mudariam depois do que tinha acontecido na sexta-feira, ou se nós voltaríamos a compartilhar do silêncio e da distância, como se nada tivesse acontecido. Alguns minutos depois de se sentar, ele fez a escolha. —

Então. Você ouviu?

Deixei de lado o meu sanduíche, virando o rosto em sua direção. Ele estava no lugar onde sempre ficava e estava usando calça jeans e uma camiseta preta. Seu iPod também estava fora da mochila e o fone de ouvido pendurado no pescoço. — O seu programa? — falei. — Sim. Fiz que sim com a cabeça. — Ouvi sim. — E...? Apesar de ter ficado boa parte do fim de semana prestando atenção em quantas vezes eu menti apenas para manter a paz, o meu primeiro ímpeto naquele momento foi de fazer exatamente isso. Honestidade na teoria era uma coisa. Na frente de uma pessoa, era outra. — Bom — comecei. — Foi... Interessante. — Interessante — ele repetiu. — É — confirmei. — Eu, é, nunca tinha ouvido aquelas músicas antes. Ele ficou me olhando, estudando meu rosto durante um tempo que me pareceu bem longo. Depois me assustei quando ele se levantou e deu três passos


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largos, diminuindo rapidamente a distância entre nós, se sentando ao meu lado. — Certo — ele disse. — Você ouviu de verdade? — Sim — respondi, tentando não gaguejar. — Ouvi. — Eu não sei se você se lembra — ele falou — mas você me disse que mente. — Eu não disse isso. — Ele ergueu uma sobrancelha. — Eu disse que muitas vezes escondia a verdade. Mas não é o que estou fazendo agora. Escutei o programa inteiro. Era óbvio, porém nada surpreendente, que ele continuou não acreditando em mim. Eu respirei fundo. — "Jennifer", do Lipo, "Descartes Dream", do Misanthrope. Uma música com muito som de bip... — Você ouviu mesmo. — Ele se encostou, balançando a cabeça. — Então, tá certo. Agora me diga o que você achou de verdade. — Eu disse. Foi interessante. — Interessante — ele falou — não é uma palavra. — Desde quando? — É um marcador de posição. Algo que você usa quando não quer dizer outra coisa. — Ele se inclinou para mais perto de mim. — Olha, se você está preocupada com os meus sentimentos, não fique. Você pode dizer o que quiser. Eu não vou ficar ofendido. — Já falei. Gostei. — Diga a verdade. Diga algo. Qualquer coisa. Bota pra fora. — Eu... — comecei e depois parei. Talvez fosse o fato de ele ser tão direto comigo. Ou minha repentina consciência de como raramente eu era sincera. De qualquer maneira, eu falei. — Eu... Eu não gostei — disse. Ele deu um tapa na própria perna. — Eu sabia! Sabe, para alguém que mente muito, você não é muito boa nisso.


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Isso era bom ou não? Eu não sabia ao certo. — Eu não sou mentirosa. — Certo. Você é boazinha — ele disse. — E qual é o problema? — Nenhum. Com exceção de que implica não dizer a verdade — ele respondeu. — Agora, diga-me o que realmente achou. O que eu realmente achava era que me sentia insegura como se, de alguma forma, Owen tivesse me compreendido e eu nem tivesse percebido. — Eu gostei do formato do show — eu disse — mas as músicas eram meio... — Meio o quê? — Ele começou a mexer os dedos na minha frente. — Use alguns adjetivos. Além de interessante. — Barulhentas — falei. — Bizarras. — Certo — ele balançou a cabeça. — O que mais? Eu olhei para o seu rosto, procurando sinais de ofensa ou perturbação. Como não havia nenhum sinal, continuei. — Bem, a primeira música era... Difícil de ouvir. E a segunda, a do Misanthrope... — "Descartes Dream". — Ela me fez dormir. Literalmente. — Isso acontece — ele disse. — Continue. Ele disse isso com tanta tranqüilidade, como se não estivesse incomodado. Então falei: — A música da harpa parecia o tipo de música que se houve em funeral. — Ah — ele disse. — Ok. Muito bom. — E eu odiei a música eletrônica. — Toda?


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— Sim. Ele sacudiu positivamente a cabeça. — Bem, tá certo então. É um feedback muito bom. Obrigado. E foi isso. Ele pegou o seu iPod e começou a apertar os botões. Nada de raiva, nada de sentimentos feridos, nada de ofensa. — Então... Você está chateado com o que eu disse? — perguntei. — Que você não gostou do programa? — ele respondeu sem olhar para mim. — Sim. Ele deu de ombros. — Claro. Quero dizer, teria sido legal se você tivesse gostado. Mas a maioria das pessoas não gosta, então não me surpreende. — E isso não te incomoda? — perguntei. — Não. Quero dizer, no começo, ficava um pouco decepcionado. Mas as pessoas se recuperam de decepções. Caso contrário, todos nós nos mataríamos. Certo? — O quê? — Ei, e a música sobre o mar? — ele perguntou. Eu olhei para ele. — Os homens cantando sobre navegar a céu aberto. O que você achou dessa? — Estranha — respondi. — Bem estranha. — Estranha — ele repetiu. — Hum, certo. Naquele exato momento, comecei a ouvir vozes e passos, e me virei bem a tempo de ver Sophie atravessando o pátio com Emily. Fiquei tão distraída com os acontecimentos na companhia de Owen sexta-feira passada que esqueci o confronto que tinha rolado antes. Porém, naquela manhã, indo para a escola, o medo se instaurou quando comecei a imaginar o que aconteceria. Mas até aquele momento, só tinha cruzado com Sophie uma vez e, quando ela passou por mim, me olhou e me chamou de vadia, bem baixinho. O de sempre. Mas agora, ela me olhava fixamente e arregalou os olhos, cutucando a Emily. Depois, as duas ficaram me observando, e eu senti que fiquei vermelha e desviei o


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olhar em direção à minha mochila e meu pé. Owen, por sua vez, não tinha percebido isso, pois colocou o iPod no chão e passou a mão no cabelo. — Então, você não gostou nada da música eletrônica? — perguntou. — De nenhum aspecto? Eu balancei a cabeça. — Não — respondi. — Desculpe. — Não se desculpe, é a sua opinião. Não há certo e errado em música, sabe? Só o que há no meio. O sinal tocou e eu fiquei surpresa, pois estava acostumada com a hora do almoço ser interminável e essa passou voando. Peguei o que tinha sobrado do meu sanduíche enquanto Owen saltava do muro, colocando o iPod no bolso e arrumando seu fone de ouvido. — Bom — eu disse — a gente se vê por aí. — É. — Ele começou a colocar o fone de ouvido enquanto eu pegava minha mochila, escorregando pelo muro. — Te vejo mais tarde. Ao me afastar, dei mais uma olhada em direção ao banco. É claro que Sophie e Emily ainda estavam me olhando. Vi que Sophie disse alguma coisa e Emily sorriu, balançando a cabeça. Fiquei imaginando as coisas que elas iriam dizer e as histórias que iriam inventar sobre nós. Nenhuma delas poderia ser mais estranha do que a verdade: que Owen Armstrong e eu éramos apenas amigos. Ao pensar isso, olhei para o lado e o vi no meio da multidão. Ele tinha colocado o fone de ouvido e estava andando em direção ao prédio de artes com a mochila no ombro. Elas o observavam também, mas ele nem tinha notado. E era isso o que eu mais invejava nele, mais ainda do que sua sinceridade, objetividade e todo o resto. Eu não consegui o trabalho da Mooshka. Isso não era decepcionante nem surpreendente — pelo menos não para mim, mas minha mãe parecia bem chateada. Pessoalmente, eu estava aliviada por tudo aquilo ter terminado e pronta para seguir em frente. Mas no dia seguinte, quando peguei meu almoço, um bilhete saiu junto com ele.


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Annabel, Eu só queria que você soubesse que sinto muito orgulho de você por tudo o que já conseguiu. Gostaria que você não desanimasse por causa da campanha da Mooshka. Era muito competitiva. Lindy disse isso, e eles gostam muito do seu trabalho. Eu e ela marcamos de conversar hoje sobre outras coisas em que ela está pensando. Elas me parecem muito animadoras. Conto tudo para você hoje à noite. Tenha um ótimo dia. — Más notícias? Eu tomei um susto, depois olhei para cima e vi Owen parado na minha frente. — O quê? — Você parece estressada — ele disse, apontando para o bilhete em minha mão. — Algo errado? — Não — respondi, dobrando o bilhete e colocando-o ao meu lado. — Está tudo bem. Ele se aproximou do muro, sentando-se não ao meu lado como tinha feito no dia anterior, mas também não tão longe como antes. Eu observei enquanto ele tirou o iPod do bolso e depois apoiou as palmas das mãos na grama. Em meio a tudo isso, eu sabia que não tinha sido sincera na minha última resposta. É claro que ele nunca saberia disso. E provavelmente não se importaria. Mesmo assim, por alguma razão, senti necessidade de Reformular e Redirecionar. E foi o que fiz. — É só uma coisa com a minha mãe — eu disse. Ele virou a cabeça e eu fiquei imaginando se ele me achava louca ou não tinha a menor idéia do que eu estava falando. — Coisa — ele repetiu. — Só para você ficar sabendo, esse é um marcador de posição grave. "Claro que é", pensei. Ainda assim, esclareci. — Tem a ver com o meu trabalho como modelo. — Modelo? — ele pareceu confuso. — Ah, tá. Aquele negócio sobre o qual


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a Mallory estava falando. Você participou de um comercial ou algo assim? — Eu trabalho como modelo desde criança. Minhas duas irmãs também. Mas ando com vontade de parar. Pronto. Falei para Owen Armstrong, justo para ele, algo que antes só tinha admitido para mim mesma. Esse foi um passo tão grande para mim que eu provavelmente poderia ter parado de falar. Mas, por algum motivo, continuei. — E, bom — eu disse —, é complicado porque minha mãe realmente gosta e se dedica e, se eu parar, ela vai ficar chateada. — Mas você não quer mais — ele falou. — Certo? — É. — Então você deveria contar pra ela. — Você fala como se fosse fácil — eu disse. — E não é? — Não. Houve uma explosão de risadas vinda da porta à nossa esquerda e um grupo de alunos do primeiro ano saiu, falando muito alto. Owen olhou para eles, e para mim novamente. — Por que não? — ele perguntou. — Porque eu não provoco conflitos. Ele olhou para Sophie, que estava sentada no banco de sempre com Emily, e vagarosamente direcionou o olhar para mim. — Bem — acrescentei. — Eu não sou boa em confrontos. — O que aconteceu entre você duas, afinal? — Sophie e eu? — perguntei, mesmo sabendo o que ele queria dizer. Ele fez que sim com a cabeça. — É só que... Nós tivemos um desentendimento no verão. Ele não disse nada. Eu sabia que ele estava esperando mais detalhes. — Ela acha que eu dormi com o namorado dela — acrescentei. — Você dormiu?


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É claro que ele perguntaria isso sem rodeios. Mas, mesmo assim, senti que fiquei vermelha. — Não — eu disse. — Não dormi. — Talvez você deva falar isso pra ela — ele falou. — Não é tão simples assim. — Hum — ele disse. — Pode me chamar de louco, mas sinto que há uma questão aqui. Abaixei o olhar em direção às minhas mãos, pensando mais uma vez que eu deveria ser extremamente simples para ele conseguir deduzir tanta coisa sobre mim em menos de uma semana. — Então, se você fosse eu — eu disse — você iria... — ... Apenas ser sincero — ele terminou. — Nos dois casos. — Você fala como se fosse fácil também — eu disse a ele. — Não é. Mas você consegue fazer. Só precisa praticar. — Praticar? — No Gerenciamento de Raiva — ele respondeu — nós tínhamos que fazer tipo um jogo teatral. Sabe, para se acostumar a lidar com as coisas de um jeito menos volátil. — Você participava desse jogo? — eu perguntei, tentando imaginar a cena. — Eu tive que participar, pois foi decidido no tribunal — ele suspirou. — Mas tenho que admitir que me ajudou, sabe? Caso algo parecido aconteça, você tem uma espécie de mapa para lidar com a situação. — Ah — eu disse. — Bem, acho que isso faz sentido. — Então, tá. — Ele veio para perto de mim. — Então, vamos dizer que eu seja a sua mãe. — O quê? — eu disse. — Eu sou a sua mãe — ele repetiu. — Agora me diga que você não quer mais trabalhar como modelo.


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Senti que estava ficando vermelha de novo. — Eu não consigo fazer isso — falei. —Por que não? — ele perguntou. — É assim tão difícil de acreditar? Você acha que eu não interpreto bem? —Não — eu disse. — É só que... —Porque eu sou bom. Todos no grupo queriam que eu fizesse o papel da mãe. Eu olhei para ele. — Eu só... É estranho. — Não, é difícil. Mas não é impossível. Tenta. Uma semana antes, eu nem sabia qual era cor dos olhos dele. Agora, éramos uma família, pelo menos temporariamente. Eu respirei fundo. — Tá bom — eu disse. — Então... — Mãe — ele disse. — O quê? — Quanto mais preciso for o exercício, mais eficiente — ele explicou. — É tudo ou nada. — Tá — eu disse de novo. — Mãe. — Sim? "Isso é tão estranho", pensei. Em voz alta, eu disse: — Quero falar uma coisa: eu sei que o trabalho como modelo é muito importante para... Ele fez com a mão sinal para eu parar. — R e R. Reformule e Redirecione isso. — Por quê? — Coisa. Como eu disse antes, um grande marcador de posição e super


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vago. Em confrontos, você tem que ser o mais específico possível para evitar mal entendidos. — Ele se inclinou para perto de mim. — Olha, eu sei que é estranho — ele disse. — Mas funciona. Eu garanto. Mas isso não me ajudou muito, pois tinha acabado de deixar de me sentir apenas desconfortável para passar a quase humilhada. — Eu sei que meu trabalho como modelo é muito importante para você — eu disse — e que você gosta muito. Owen acenou com cabeça e fez sinal para eu continuar. — Mas sendo sincera... — Levantei minha mão e coloquei uma mecha de cabelo para trás da orelha. — É que tenho pensado muito sobre isso ultimamente e sinto que... Acontece que eu sabia que aquilo era apenas um jogo. Um treino, não era real. Mas, mesmo assim, senti algo travando dentro de mim, como um motor parando. Eu tinha muita coisa em jogo ali — fracassar não iria somente revelar minha dificuldade em lidar com confrontos, mas também me deixar envergonhada na frente dele. Ele continuava esperando. — Eu não consigo — eu disse e olhei para o outro lado. — Mas você estava indo super bem! — ele disse, batendo na parede com a palma da mão. — Você estava ótima. — Desculpe — falei, pegando meu sanduíche novamente. Eu engasguei ao dizer: — Eu só... Não consigo. Ele ficou me olhando por um momento. Depois, deu de ombros. — Tudo bem — ele disse. — Não é nada demais. Nós ficamos sentados em silêncio por um segundo. Eu não fazia idéia do que tinha acabado de acontecer, mas de repente me pareceu ser algo importante. Então, ouvi Owen tomar fôlego para falar. — Olha — ele disse. — Eu vou só dizer uma coisa: não pode ser bom, sabe? Guardar algo assim dentro de si. Andando por aí todos os dias com tanta coisa que você quer dizer e sem fazer isso. É algo que pode deixar alguém louco. Certo?


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Eu sábia que ele estava falando sobre meu trabalho como modelo. Mas, ao ouvir isso, pensei em outra coisa, a coisa que nunca conseguiria admitir, o maior segredo de todos. Aquele que eu nunca poderia contar, porque se apenas uma pontinha fosse revelada, eu nunca poderia esconder novamente. — É melhor eu ir — eu disse, colocando meu sanduíche de volta na mochila. — Eu... Eu tenho que conversar com a minha professora de inglês sobre um projeto. — Ah — ele disse. Eu sentia que ele estava me olhando e fiz um esforço enorme para não olhar de volta. — Claro. Eu me levantei, pegando minha mochila. — Então, até mais tarde. — Certo. — Ele pegou o iPod. — A gente se vê por aí. Eu concordei, acenando com a cabeça, e logo já estava me afastando e deixando-o para trás. Esperei até a entrada principal para me virar. Ele estava lá, sentado, de cabeça baixa e ouvindo música como se nada tivesse acontecido. Eu me lembrei da primeira impressão que tive dele — de que ele era perigoso, uma ameaça Agora eu sabia que ele não era nada daquilo, pelo menos não do jeito que eu pensava. Mas havia algo em Owen Armstrong que dava medo: ele era sincero e esperava o mesmo de todo mundo. E aquilo me deixava apavorada. Logo que me afastei de Owen, senti um alívio. Mas não por muito tempo. Percebi ao longo do dia que a verdade era que, apesar de mal conhecer Owen, eu tinha sido mais sincera com ele do que com qualquer outra pessoa em muito tempo. Ele sabia o que tinha acontecido entre Sophie e eu, sabia sobre a doença da Whitney e que eu odiava trabalhar como modelo. Isso parecia muita coisa para revelar a uma pessoa de quem, na verdade, eu não poderia nem arriscar a ficar amiga. Mas eu não tinha certeza disso, até ver Clarke. Foi no corredor depois do sétimo horário. Ela estava abrindo o seu armário, tinha o cabelo preso em duas trancas e usava calça jeans, blusa preta e sapatoboneca brilhante. Fiquei observando uma garota que eu não conhecia passar por trás dela, chamá-la pelo nome e Clarke se virar, sorrindo, e lhe dizer oi. Tudo normal, afinal era apenas mais um momento em mais um dia, mas algo naquele acontecimento mexeu comigo e me fez voltar para aquela noite na piscina. Outra vez


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em que fiquei com medo do conflito, com medo de ser sincera, com medo até de falar. Eu perdi uma amiga naquele dia. A melhor amiga que já tive. Era tarde demais para tentar mudar o que tinha acontecido entre Clarke e mim, mas ainda havia tempo para mudar outra coisa. Talvez a mim mesma. Então, fui procurar Owen. Em uma escola que tem mais de dois mil alunos, era fácil se perder e perder outra pessoa, mas Owen realmente se destacava na multidão. Então, quando não consegui encontrá-lo e nem a sua Land Cruiser, achei que o tinha perdido de verdade. Porém, quando entrei no carro e saí pela rodovia principal, eu o vi. Ele estava a pé, andando na calçada com a mochila nas costas e fone de ouvido. Quando já andava com o carro em sua direção, me ocorreu que talvez isso pudesse ser um erro. Mas a gente não tem muitas oportunidades na vida para refazer as coisas, nem muitas chances de alterar o futuro, já que não se pode mudar o passado. Então, diminuí a velocidade e abri a janela. — Ei — chamei, mas ele não me ouviu. — Owen! — Ainda assim, nenhuma resposta. Coloquei a minha mão no centro do volante e buzinei com força. Finalmente, ele virou a cabeça. — Ei — ele disse, enquanto alguém atrás de mim buzinou com raiva antes de me ultrapassar rapidamente. — E aí? — O que aconteceu com o seu carro? — perguntei. Ele parou de andar, levantou o braço para tirar o fone do ouvido esquerdo. — Problemas de transporte — ele disse. É agora, eu disse a mim mesma. Diga alguma coisa. Qualquer coisa. Só fale. — Parece a história da minha vida — eu disse a ele. E me estiquei para abrir a porta do passageiro. — Entra aí.


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Oito A primeira coisa que Owen fez ao entrar no meu carro foi bater a cabeça no teto, que era muito baixo — algo de que eu não tinha me dado conta até aquele momento. — Opa! — ele disse passando a mão na testa, exatamente ao mesmo tempo em que um dos seus joelhos batia no painel. — Nossa. Este carro é pequeno. — É? — eu disse. — Nunca tinha reparado, tenho um metro e setenta. — Isso é alto? — Eu pensava que sim — respondi, olhando para ele. — Bem, eu tenho um metro e noventa e cinco — ele falou, tentando afastar o banco que já estava no limite mais longe do painel. Depois, ele mexeu o braço, tentando colocá-lo para fora da janela, mas ele era grande demais, então mudou de posição, cruzando os braços, antes de finalmente colocá-los ao lado do corpo. — Então, acho que tudo é relativo. — Você está bem? — perguntei. — Sim — ele disse, sem parecer preocupado e com um ar de que já estava acostumado com esse tipo de coisa. — Ah, obrigado pela carona. — Sem problemas — eu disse. — E só me dizer para onde você vai. — Para casa. — Ele movimentou novamente o braço, ainda tentando se ajeitar no banco. — Pode seguir reto. Você não vai precisar entrar em nenhuma rua por um tempo. Nós ficamos calados por alguns minutos. Eu sabia que era hora de dizer o que estava se passando na minha cabeça e me explicar. Eu respirei fundo, me preparando. — Como você agüenta isso? — ele perguntou. Eu pisquei. — Quê?


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— Quero dizer — ele continuou —, está tão silencioso. Vazio. — O quê? — Isso — ele disse, apontando o carro. — Dirigir em silêncio. Sem música. — Bem — respondi devagar. — Na verdade, eu nem percebi. Ele encostou-se no banco, sua cabeça batendo no apoio. — É que para mim, é imediato. O silêncio é extremamente alto. Isso me pareceu muito profundo ou profundamente antagônico. Eu não tinha certeza de qual dos dois. — Bem — eu disse —, meus CDs estão no console do meio, se você... Mas ele já estava abrindo a tampa e tirando uma pilha de CDs. Quando começou a ver quais CDs eu tinha, fiquei nervosa de repente. — Esses não são os meus favoritos — eu disse. — Eles são apenas os que estão no carro no momento. — Hum — ele disse sem erguer os olhos. Eu voltei a olhar para frente, ouvindo as caixas dos CDs batendo enquanto ele as estudava — Drake Peyton, Drake Peyton... Então você gosta dessa coisa meio rock-hippie de universitário? — Acho que sim — respondi. Isso não era bom, pensei. — Eu vi um show dele no verão retrasado. — Hum — ele disse novamente. — Mais Drake Peyton... E Alamance. Isso é altcountry, não é? — É. — Interessante — ele disse. — Como eu iria imaginar que você fosse fã do... Tiny? É o álbum mais recente dele, não é? — Eu comprei nas férias — eu disse, diminuindo a velocidade para parar no farol vermelho. — Então, é esse. — Ele balançou a cabeça. — Sabe, eu tenho que admitir que estou surpreso. Nunca imaginaria que você fosse fã do Tiny. Ou de qualquer tipo de rap. — Por que não?


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Ele deu de ombros. — Não sei. Não devo ser muito bom em especulações, eu acho. Quem gravou esse aqui pra você? Dei uma olhada rápida para o disco e imediatamente reconheci a letra. — Minha irmã Kirsten. — Ela gosta de classic rock — ele disse. — Desde o Ensino Médio — falei. — Ela teve durante anos um pôster do Jimmy Page na parede do quarto dela. — Ah. — Ele olhou a lista de músicas. — Mas ela tem bom gosto. Quero dizer, tem Led Zeppelin aqui, mas pelo menos não é "Stairway to Heaven". Na verdade — ele disse, parecendo estar impressionado — "Thank you" é a minha música preferida do Led Zeppelin. — Sério? — Sério. Tem uma coisa de balada romântica brega. Meio irônica, mas verdadeira. Posso colocar? — Claro — respondi. — Obrigada por perguntar. — Você tem que perguntar — ele disse, colocando o CD no aparelho. — Só um verdadeiro babaca toma liberdades com o som do carro de outra pessoa. Isso é sério. O aparelho fez alguns "cliques" e então eu ouvi a música, bem baixo. Owen esticou a mão até o botão do volume e me olhou. Quando sacudi a cabeça positivamente, ele aumentou o som. Ao ouvir os primeiros acordes, senti saudades da Kirsten, que durante o seu último ano cheio de rebeldia tinha desenvolvido uma paixão pelo guitar rock dos anos 1970 e ouvia nesse mesmo volume o Dark Side of the Moon do Pink Floyd repetidamente, e por semanas seguidas. Ao me lembrar disso, olhei novamente para Owen, que estava batendo os dedos no joelho como se tocasse bateria. Kirsten, é claro, nunca hesitaria em dizer o que passava pela cabeça dela. Então, ouvindo a música dela, eu decidi seguir o seu exemplo. Ou pelo menos tentar. — Então, sobre hoje — eu disse. Ele me olhou. — Me desculpe pelo que aconteceu.


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— O que aconteceu? Eu fixei os olhos na rua à minha frente, sentindo meu rosto ficar vermelho. — Quando estávamos fazendo aquele teatrinho, eu surtei e fui embora. Eu estava esperando ouvir um "Tudo bem" ou talvez um "Não se preocupe". Em vez disso, ele falou: — Aquilo foi um surto? — Bem — respondi. — Acho que sim. — Hum — ele disse. — Tudo bem. — Eu não queria ter ficado tão chateada — expliquei. — Como eu disse, não sou boa em situações de conflito. Bom, o que deve ter ficado óbvio. Então... Desculpe. — Tudo bem. — Ele tentou mudar de posição no banco e seu cotovelo bateu na porta. — Na verdade... Eu esperei que concluísse o pensamento. Quando vi que ele não falava nada, perguntei: — O quê? — É que, para mim, aquilo não pareceu um surto — ele respondeu. — Não? Ele acenou negativamente a cabeça. — Para mim, surtar é aumentar o tom de voz. Gritar. Veias saltando. Bater em pessoas no estacionamento. Esse tipo de coisa. — Eu não faço isso — retruquei. — Eu não estou dizendo que você deveria fazer isso. — Ele levantou a mão, passando-a pelo cabelo; ao fazer isso, o anel no seu dedo do meio refletiu a luz, brilhando por um segundo. — É apenas uma questão semântica, eu acho. Pode entrar na próxima à direita. Eu entrei em uma rua larga. Todas as casas eram grandes, com grandes entradas. Nós passamos por um grupo de crianças em uma rua sem saída jogando hóquei de patins, depois por mães com carrinhos de bebê reunidas em uma esquina.


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— Chegamos. É aquela ali — ele me disse. — A cinza. Eu freei, depois parei na calçada. A casa era linda, a varanda na entrada era grande e tinha um balanço, além de vasos com flores cor-de-rosa e brilhantes nos degraus. Um gato amarelo estava deitado na entrada, esticado ao sol. — Uau! — falei. — Que casa incrível! — Bom, não é de vidro — ele disse. — Mas é bacana. Ficamos lá, sentados, por um segundo. Então a situação era ao contrário da última vez, pois agora era eu quem esperava ele entrar. — Sabe — eu disse, finalmente —, eu só queria te dizer que você estava certo sobre o que disse antes. É difícil ficar guardando tudo dentro da gente. Mas para mim... Às vezes é ainda mais difícil pôr para fora. Eu não sabia ao certo por que tive vontade de falar sobre esse assunto de novo. Talvez para me explicar. Para ele ou para mim mesma. — É — ele disse. — Mas você tem que colocar as coisas para fora. Caso contrário, a coisa vai aumentando e uma hora você explode. — Tá vendo, é exatamente com essa parte que eu não consigo lidar — falei. — Eu não agüento ver as pessoas com raiva. — Raiva não é algo ruim — ele disse. — É humano. E, além disso, o fato de uma pessoa estar chateada não quer dizer que ela ficará assim para sempre. Fiquei olhando para o volante do carro. — Eu não sei — disse. — Minha experiência é que, quando as pessoas que são próximas a mim ficam chateadas comigo, é isso e ponto final. É para sempre. Tudo muda. Owen ficou calado durante um segundo. Eu pude ouvir um cão latindo em outra casa. — Bem — ele disse —, talvez você não fosse tão próxima quanto pensava. — O que isso quer dizer? — Quer dizer que, se alguém é realmente uma pessoa próxima, é normal você ficar chateada ou a pessoa ficar chateada e as pessoas não mudam por causa disso. Isso apenas faz parte do relacionamento. Acontece. E você lida com isso.


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— Você lida com isso — eu disse. — Eu nem saberia o que fazer. — Bem, isso faz sentido — ele disse. — Considerando que você nunca deixa isso acontecer. O CD ainda estava tocando, agora uma música do Rush, e uma van passou por nós, espalhando algumas folhas. Eu não tinha a menor idéia de quantos minutos tinham se passado desde que paramos o carro. Parecia bastante tempo. — Você com certeza tem muitas respostas — falei. — Não tenho — ele retrucou, girando no dedo um de seus anéis. — Eu só estou fazendo o melhor que posso, de acordo com as circunstâncias. — E como você está se saindo? — perguntei. Ele me olhou brevemente. — Bem, você sabe — ele respondeu. — É um dia de cada vez. Eu sorri. — Gostei dos seus anéis — disse a ele, acenando com a cabeça em direção às mãos dele. — Eles são exatamente iguais? — Mais ou menos. E não exatamente. — Ele abaixou a mão direita, tirou o anel da mão esquerda e me deu. — Eles são algo para representar o "antes e depois". Foi o Rolly quem fez pra mim. O pai dele é joalheiro. Senti o anel pesado na palma da minha mão, ele era grosso. — Ele fez o anel? — Não o anel — ele disse. — A gravação. Na parte de dentro. — Ah. — Eu inclinei um pouco o anel, olhando seu interior. Lá, em letras maiúsculas, com uma fonte formal e muito elegante, estava escrito FODA-SE. — Bem gentil — eu disse. — Classudo, hein? — ele falou. E fez uma careta. — Isso foi antes da prisão. Eu era um pouco... — Bravo? — Pode-se dizer que sim. Este aqui ele fez quando eu terminei o curso de Gerenciamento de Raiva. — Ele tirou o anel do dedo do meio e o colocou na minha frente. Com a mesma fonte, mesmo tamanho, estava escrito OU NÃO.


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Eu ri. — Bem — disse, devolvendo o anel a ele. — É sempre bom saber quais são as nossas opções. — Exatamente. — Então, ele sorriu para mim, e mais uma vez eu senti o rosto ficar vermelho, mas não por estar envergonhada, nem ansiosa. Era uma sensação totalmente diferente. Algo que nunca imaginei que iria sentir perto de Owen Armstrong. Nunca. O momento foi interrompido por uma voz. — Annabel! Eu olhei para a direita — era a Mallory. Não sei quando, mas ela apareceu na janela do Owen, onde agora acenava com um sorriso largo. — Oi! — Oi — respondi. Ela fez sinal para Owen abaixar o vidro da janela, o que ele fez, mas bem devagar e claramente a contragosto. Assim que a janela abriu, ela colocou a cabeça para dentro. — Ai, meu Deus, adorei a sua blusa! É da Tosca? – Eu olhei rapidamente para a blusa. — Talvez — eu disse. — Foi minha mãe quem me deu. — Você é tão sortuda! Eu adoro a Tosca. É a minha loja preferida no mundo inteiro. Você vai entrar? — Entrar? — perguntei. — Em casa. Você vai jantar com a gente? Ah, você tem muito que ficar para o jantar. — Mallory — Owen disse, passando mão na testa. — Por favor, pare de gritar. Ela o ignorou, colocando a cabeça mais para dentro. — Você poderia ver meu quarto — ela disse com os olhos animados e arregalados. — E o meu closet, eu poderia mostrar... — Mallory — Owen falou de novo. — Afaste-se do carro. — Você gostou da minha roupa? — ela me perguntou. Depois deu um passo


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para trás para eu poder vê-la: uma camiseta branca e lisa, uma jaqueta curta, calça jeans com a barra virada, e botas brilhantes com solado grosso. Depois de dar uma viradinha, ela colocou novamente a cabeça na janela. — É inspirada na Nicholls Lake; ela é minha cantora favorita no momento, sabe? Ela é punk. Owen encostou-se ao banco, sua cabeça contra o descanso. — Nicholls Lake — ele disse em voz baixa — não é punk. — É sim — Mallory retrucou. — E hoje eu também sou, viu? — Mallory, nós já conversamos sobre isso. Lembra? Nós já não discutimos a verdadeira definição de punk? — Owen disse. — Você nem deve ter escutado o CD do Black Flag que eu te dei, não é? — Aquilo era muito barulhento — ela respondeu. — E, além disso, nem dá para cantar junto. Nicholls Lake é melhor. Owen respirou profundamente. — Mallory — ele disse. — Se você apenas... — Naquele momento, uma mulher alta de cabelos pretos — a mãe de Owen, deduzi — apareceu na entrada da casa, chamando-a. Mallory lhe deu um olhar irritado. — Eu tenho que entrar — ela anunciou e depois colocou a cabeça ainda mais para dentro do carro, e seu rosto ficou muito próximo do rosto de Owen. — Mas você vai voltar outra não vez, não vai? — Claro — respondi. — Tchau, Annabel. — Tchau. Ela sorriu, ficou de pé e acenou para mim. Eu acenei de volta, e Owen e eu a observamos subir as escadas e andar em direção à porta de entrada, virando para nos olhar a cada um ou dois passos. — Uau — eu disse. — Então ela é punk? Owen não respondeu. Em vez disso, só o que eu ouvia era ele inspirando o ar, bem alto, várias vezes seguidas. — Isso é você surtando? — perguntei. Ele expirou.


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— Não. Isso sou eu irritado. Não sei o que acontece com ela. Irmãs parecem ter o dom de irritar até você ficar maluco. — Parece a história da minha vida — eu disse. Mais um silêncio. Cada vez que ficávamos em silêncio, eu imaginava se essa seria a hora em que ele iria se levantar, ir embora e esse momento acabaria. E cada vez menos eu queria que chegasse ao fim. Owen falou: — Você diz isso muito, sabia? — O quê? — Parece a história da minha vida. — Foi você quem disse primeiro. — Eu disse? Fiz que sim com a cabeça. — Aquele dia, atrás da escola. — Ah. — Ele ficou calado por um momento. — Sabe, se você pára pra pensar, isso é meio estranho. Quero dizer, a intenção é de ser solidário, certo? Mas por um lado não é. É como se você dissesse para a outra pessoa que não há nada de original no que ela está dizendo. Eu pensei sobre isso enquanto algumas crianças de patins e bastões de hóquei no ombro passaram voando. — É — eu disse, finalmente —, mas você também pode enxergar isso de outra maneira. Como se você dissesse que não importa como as coisas andam ruins pro seu lado, eu ainda consigo me identificar. — Ah — ele disse. — Então você está dizendo que você se identifica comigo? — Não. De maneira nenhuma. — Legal — ele riu, virando a cabeça para olhar pela janela. Vi seu perfil muito rapidamente e lembrei-me de todos aqueles dias que passei observando-o a distância.


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— Tá bom — eu disse. — Talvez um pouco. Ele virou o rosto em minha direção e eu senti aquilo novamente. Mais uma pausa, longa o suficiente para eu me perguntar o que exatamente estava acontecendo. Em seguida, ele abriu a porta e disse: — Então, mais uma vez, obrigado pela carona. — Sem problemas. Estava te devendo uma. — Não — ele disse — não devia — Ele conseguiu sair do banco. — Te vejo amanhã, ou sei lá. — Sim, até amanhã. Ele saiu do carro, fechando a porta, pegou sua mochila e começou a subir a escada. Eu fiquei olhando até ele entrar. Ao sair da calçada, toda aquela tarde me pareceu estranha, surreal. Tanta coisa se passava pela minha cabeça que eu estava longe de conseguir entender o que se passava. Mas, enquanto dirigia, me dei conta de que alguma outra coisa me incomodava: o CD tinha acabado e não havia música. Antes, eu provavelmente nem perceberia, mas agora que tinha me dado conta, o silêncio, se não era ensurdecedor, era perturbador. Eu não sabia ao certo o que isso significava, mas estiquei o braço e liguei o rádio mesmo assim.


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Nove A Bela e a Fera. Um Estranho Casal. Shrek e Fiona. É claro que fomos alvo de fofocas: nas semanas que se seguiram, inventaram muitos nomes para mim e Owen, e o que quer que estivéssemos fazendo todos os dias no muro durante a hora do almoço. Para mim, era mais difícil definir. Nós não estávamos juntos de maneira nenhuma, mas não éramos estranhos. Estávamos no meio, assim como muitas outras coisas na vida. Em todo caso, algumas coisas já estavam subentendidas. Primeiro, que sentaríamos juntos. Segundo, que eu sempre chamava a atenção dele por ele não comer nada — ele me confessou que gastava todo o dinheiro do almoço em música, sempre — antes de dividirmos o que eu tinha levado. E terceiro, que nós discutiríamos. Não no sentido de brigar. Discutir. No começo, era apenas sobre música, o assunto favorito de Owen e sobre o qual ele tinha fortes opiniões. Quando concordava com ele, eu era brilhante e iluminada. Quando não, eu tinha o Pior Gosto do Mundo para Música. As conversas mais animadas costumavam ser as do começo da semana, pois discutíamos o programa de rádio dele, o qual eu agora ouvia todo domingo de manhã. Era difícil acreditar que antes eu ficava muito nervosa quando tinha que dizer a ele o que eu pensava, pois agora era algo natural. — Você está brincando! — ele disse uma segunda-feira, balançando a cabeça. — Você não gostou daquela música do Baby Bejesuses? — Uma que era só barulho de tecla de telefone? — Não era só barulho de tecla de telefone — ele disse, indignado. — Havia outras coisas também. — Como o quê? Por um segundo, ele só me olhou, metade do meu sanduíche de peito de peru estava na mão.


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— Como — ele disse, dando depois uma mordida, o que queria dizer que ele estava enrolando. Depois de mastigar e engolir sem pressa, ele continuou: — Os Baby Bejesuses são inovadores no gênero. — Então eles deveriam ser capazes de fazer uma música usando mais coisas do que o teclado de um telefone. — Isso — ele disse, apontando para mim com o sanduíche — é LinguagemI. Tome cuidado. Linguagem-I queria dizer Linguagem Inflamada. E, assim como EeEe, marcadores de posição, tinha começado a fazer parte do meu vocabulário cotidiano. Ande com Owen bastante tempo e você ganhará aula particular e gratuita de Gerenciamento de Raiva. — Olha — eu disse —, você sabe que eu não gosto de música eletrônica. Então, talvez, sabe, você devesse parar de pedir minha opinião sobre esse tipo de música — Isso é uma generalização! — ele respondeu. — Como você pode julgar um gênero inteiro? Você está se precipitando. — Não, não estou — retruquei. — Do que você chama isso, então? — Ser sincero. Ele ficou me olhando por um tempo. Depois, com um suspiro, deu outra mordida no sanduíche. — Tá bom — ele disse, mastigando. — Vamos continuar. Que tal aquela música thrash metal dos Lipswitches? — Muito barulhenta. — Mas ela é para ser barulhenta! É thrash metall. — Eu não me importaria com o barulho, se ela tivesse outras qualidades que a redimissem — falei. — É apenas alguém gemendo muito alto. Ele colocou o pouco que faltava do sanduíche na boca. — Então, nem música eletrônica nem thrash metal — ele disse. — O que sobra?


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— Todo o resto. — falei. — Todo o resto — ele repetiu vagarosamente, ainda não convencido. — Tá bom. E a última música que eu coloquei? Aquela com carrilhão? — O carrilhão? — É. Da Aimeé Decker. Havia um contrabaixo, e um falsete no começo, e depois... — Falsete? — eu disse. — É isso o que era? — O quê? Você também não sabe o que é falsete? E assim por diante. Algumas vezes eu ficava nervosinha, mas nunca ao ponto de não dar conta da situação. A verdade era que eu esperava por esses almoços com Owen muito mais do que poderia admitir. Em meio às nossas conversas sobre punk, big band e swing, além das questionáveis qualidades que redimiam a música eletrônica, eu aprendia cada vez mais sobre ele. Agora eu sabia que Owen sempre fora apaixonado por música e que desde que seus pais se divorciaram, um ano e meio atrás, ele tinha se tornado, usando suas próprias palavras, obcecado. Parece que a separação foi bem tensa, com acusações de todo lado. A música, ele me disse, foi um refúgio. Tudo ao redor estava se acabando e mudando, mas música era esse recurso vasto e infindável. — Basicamente — ele disse uma vez —, quando eles não se falavam mais, eu ficava no meio, fazendo a ponte. E é claro que um acusava o outro de ser terrível e não estar nem aí. Se eu concordava, estava ferrado, pois alguém sempre se ofendia. Mas se discordasse, eu também estava tomando partido. Não tinha como ganhar. — Deve ter sido muito difícil — falei. — Foi um saco. Foi aí que comecei a me interessar mais ainda por música, a procurar um lance mais obscuro. Se ninguém ouvia, ninguém poderia me dizer o que eu deveria pensar sobre aquele tipo de música. Não havia certo nem errado. — Ele se encostou, espantando uma abelha que nos rodeava. — Além disso, naquela época, havia uma estação de rádio universitária em Phoenix e eu comecei a ouvi-la, era a KXPC. Havia um cara que apresentava um programa tarde da noite nos fins de semana... Ele tocava umas músicas muito, muito desconhecidas. Como música tribal ou punk muito underground, ou cinco minutos inteiros de uma torneira pingando na pia. Coisas assim.


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— Uma torneira pingando? — eu perguntei. Ele fez que sim com a cabeça. — Isso é música? — Obviamente, não para todo mundo — ele respondeu, me olhando. Eu sorri. — Mas esse era o objetivo. Era como se fosse um território nunca antes explorado. Eu comecei a anotar as coisas que ele tocava no programa e a procurá-las na internet. Pude me concentrar em outra coisa além do que estava acontecendo em minha casa. E era ótimo para abafar a gritaria no andar de baixo. — Sério? Gritaria? Ele ergueu os ombros. — Não era o tempo todo assim. Mas com certeza havia surtos dos dois lados. Honestamente, o silêncio era pior. — Pior que a gritaria? —Bem pior — ele disse, balançando a cabeça. — Quer dizer, pelo menos quando há briga, é possível saber o que está acontecendo. Ou ter uma idéia. Silêncio é... Pode ser qualquer coisa. É que é... — Ensurdecedor — eu concluí por ele. Ele apontou o dedo para mim. — Exatamente. Então, Owen detestava silêncio. Também constava na sua lista de coisas de que ele não gostava: manteiga de amendoim (muito seca), mentirosos (dispensa explicações), e pessoas que não davam gorjetas (aparentemente, entregar pizzas não pagava muito bem). E estes eram apenas os que eu sabia até o momento. Talvez fosse por causa do tempo em que ele ficou no Gerenciamento de Raiva, mas Owen era muito aberto com relação às coisas que o irritavam. — Você não é? — ele me perguntou um dia, quando fiz essa observação. — Não — respondi. — Quero dizer, acho que sou com relação a algumas coisas. — O que te deixa com raiva? Instintivamente, eu olhei para Sophie, que estava sentada no banco de sempre e falando ao telefone. Em voz alta, eu disse: — Música eletrônica.


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— Rá-rá — ele disse. — Fala sério. — Eu não sei. — Peguei o final do meu sanduíche. — Minhas irmãs, eu acho. Às vezes. — O que mais? — Não consigo pensar em mais nada — respondi. — Por favor! Você está realmente dizendo que a única coisa que te incomoda são suas irmãs e um gênero musical? Fala sério. Você não é humana, por acaso? — Talvez — eu disse — não seja tão brava quanto você. — Ninguém é tão bravo quanto eu — ele respondeu, sem parecer se importar. — Isso é um fato. Mas até você tem que ter algo que realmente a deixa muito irritada. — Provavelmente sim. É que... Eu não consigo pensar em nada agora. — Ele revirou os olhos. — Além disso, o que você quer dizer com ninguém é tão bravo quanto você? E o Gerenciamento de Raiva? — O que é que tem? — Bem — eu disse —, o objetivo não era você não sentir mais raiva? — O objetivo do Gerenciamento de Raiva não é impedir que você sinta mais raiva. —Não? Ele fez que não com cabeça. — Não. A raiva é inevitável. O Gerenciamento de Raiva é isso mesmo o que o nome diz: o objetivo é fazer você aprender a lidar com ela. Expressada de uma maneira mais produtiva do que bater nas pessoas em estacionamentos. Minha primeira reação seria duvidar disso, mas agora não mais: Owen era sempre assim, sincero. Faça uma pergunta, você terá a resposta. Eu o testei por um tempo, pedindo a opinião dele em vários assuntos, como as minhas roupas ("não é o tom que fica melhor em você", ele me falou sobre uma blusa nova cor de pêssego), sua primeira impressão sobre mim ("perfeita demais e completamente inatingível), e o estado de sua vida amorosa ("atualmente inexistente"). — Existe algo que você nunca contaria a ninguém? — finalmente lhe


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perguntei um dia, logo depois de ele ter me dito, que apesar de ter gostado do meu novo corte de cabelo, ele o preferia mais comprido. — De jeito nenhum? — Você acabou de perguntar o que eu achava — ele disse, pegando um pretzel de dentro de um saco que estava entre nós. — Por que me pergunta, se você não quer que eu seja sincero? — Eu não estou falando do meu cabelo. Estou falando em geral — Ele me deu um olhar desconfiado, colocando o pretzel na boca. — É sério, você nunca pensou que talvez não devesse contar algo? Que talvez não fosse a coisa certa a fazer? Ele pensou nisso durante um segundo. — Não — ele finalmente disse. — Eu já disse. Não gosto de gente mentirosa. — Mas não é mentir. É só não contar. — Você está dizendo que há uma diferença? — Há sim — eu disse. — Um é enganar ativamente. O outro é apenas não contar. — Sim, mas — ele respondeu, pegando outro pretzel —, mesmo assim você está participando de uma enganação. A menos que seja apenas para você mesmo. Certo? Eu só olhei para ele, pensando nisso. — Eu não sei — disse, devagar. — Na verdade — ele continuou — isso é pior do que mentir, se você pensar bem. Quero dizer, você tem que pelo menos dizer a verdade a si mesmo. Se você não pode confiar em si mesmo, em quem você pode confiar? Entende? Eu nunca conseguiria dizer isso a ele, mas Owen me inspirou. As pequenas mentiras inocentes que eu contava diariamente e as coisas que eu guardava para mim cada vez que não era completamente sincera — agora eu tinha plena consciência de cada uma delas. Agora eu também sabia como é bom dizer para alguém o que eu realmente pensava. Mesmo se fosse só sobre música. Ou não. Um dia, durante, o almoço, Owen encostou a mochila no muro, abriu-a e pegou uma pilha de CDs. — Aqui — ele disse, entregando-os para mim. — Para você.


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— Para mim? — eu disse. — O que é? — Um panorama — ele explicou. — Queria fazer mais, mas meu gravador de CD estava meio temperamental. Então só consegui gravar alguns. Para Owen, "alguns" significavam dez, pelo que contei. Ao olhar para os primeiros da pilha, vi que cada um tinha um título — o VERDADEIRO HIP HOP,CANTOS E CÂNTICOS (VÁRIOS), JAZZ SUPORTÁVEL, CANTORES DE VERDADE CANTANDO DE VERDADE — com as faixas listadas com uma letra bonita. Tive a impressão de que provavelmente foi resultado de uma discussão que tivemos no dia anterior sobre stoner rock, quando Owen decidiu que talvez meu conhecimento sobre música fosse muito "atrofiado e carente" (palavras dele) por causa da falta de exposição. Então, esta era a solução dada por ele: um manual básico e pessoal, dividido em capítulos. — Se você gostar mesmo de algum desses — ele continuou —, aí eu te dou mais. Quando, sabe, você estiver preparada para ir mais fundo. Eu peguei a pilha e olhei os outros títulos. Havia um para música country, Invasão Britânica, músicas folk. Mas quando cheguei ao último, vi que a capa estava quase toda em branco, com apenas duas palavras: JUST LISTEN. Apenas ouça. Logo, fiquei desconfiada. — Isso é música eletrônica? — perguntei. — Eu não acredito que foi só nisso que você pensou — ele disse ofendido. — Puts! — Owen — eu disse. — Não é música eletrônica. Eu fiquei olhando para ele. — É o seguinte — ele disse enquanto eu acenava a cabeça —, todos os outros são set-lists, sets-concept. Uma educação, se você preferir. Você deve ouvir esses primeiro. E depois, quando você terminar e achar que está pronta, realmente pronta, ouça esse. É um pouco mais... Inovador. — Está bem — eu disse. — Agora eu estou oficialmente mais nervosa. — Você vai odiar todas elas — ele admitiu. — Ou não. Talvez seja a resposta para todas as questões da sua vida. É justamente essa a beleza do negócio.


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Sabe? Olhei para os CDs novamente, observando a capa. "Just Listen", eu disse. — Sim. Não pense nem julgue. Apenas ouça. — E depois o quê? — E depois — ele disse — você pode se decidir. Justo, não? E me pareceu justo mesmo. Seja uma música, uma pessoa, ou uma história, não há como saber de algo quando se conhece apenas um trecho, quando se deu uma rápida olhada ou se ouviu parte de um refrão. — Sim — eu disse, colocando-o de volta embaixo da pilha. — Ok.

— Grace — disse meu pai, olhando para o seu relógio de novo. — É hora de irmos. — Andrew, eu sei. Já estou quase pronta. — Minha mãe passou apressada pela cozinha, pegando sua bolsa e colocando-a sobre o ombro. — Agora, Annabel, estou deixando um dinheiro para vocês pedirem uma pizza esta noite, e amanhã vocês podem fazer o que quiserem. Acabei de fazer compras, então tem bastante comida Certo? Fiz sinal positivo com a cabeça, enquanto meu pai se dirigia à porta. — E agora — disse minha mãe —, o que você fez com as minhas chaves? — Você não precisa das suas chaves — meu pai disse a ela. — Sou eu quem vai dirigir. — E eu ficarei em Charleston amanhã o dia todo e metade de segunda-feira enquanto você estará em reuniões — ela respondeu, tirando a bolsa do ombro e começando a mexer dentro dela. — Talvez eu queira sair um pouco do hotel. Meu pai, pelos meus cálculos, já devia estar ao lado da porta da garagem por vinte minutos, encostado e bufando. Era sábado de manhã e meus pais já deveriam ter viajado para Carolina do Sul no fim de semana prolongado para algumas conferências de arquitetura. — Nesse caso você pode usar a minha — ele lhe disse, mas ela o ignorou e começou a tirar coisas da bolsa, colocando a carteira, um pacote de lenços


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e o celular no balcão. — Grace, vamos. — Ela não se mexeu. Quando meu pai propôs a viagem pela primeira vez, disse que seria como uma "fuga" para uma das suas cidades favoritas. Enquanto ele estivesse em reuniões, ela poderia fazer compras e passear, e à noite eles jantariam nos melhores restaurantes e passariam algum tempo juntos, só os dois. Para mim parecia uma idéia ótima, mas minha mãe hesitou, pois não tinha certeza se queria deixar a mim e Whitney sozinhas. Especialmente porque o humor de Whitney estava pior do que nunca desde que ela tinha começado uma nova terapia em grupo uma semana antes, contra a sua vontade e conduzida por, segundo ela própria, uma "louca". — Whitney, por favor — disse minha mãe certa noite durante o jantar, quando o assunto surgiu pela primeira vez. — A doutora Hammond acha que esse grupo pode realmente te ajudar. — A doutora Hammond é uma idiota — respondeu Whitney. Meu pai lhe lançou um olhar bravo, mas ela, se viu, o ignorou completamente. — Eu conheço pessoas que trabalharam com essa mulher, mãe. Ela é louca de pedra. — É difícil acreditar nisso — disse meu pai. — Pois eu acredito. Ela nem é psiquiatra de verdade. Muitos médicos que estão no meu programa acham que ela não bate bem. Seus métodos são extremamente ortodoxos. — Em que sentido? — ele perguntou. — A doutora Hammond — disse minha mãe, enquanto Whitney revirava os olhos — disse que essa mulher, essa tal de Moira Bell, obteve ótimos resultados com muitos dos seus pacientes porque ela tem uma abordagem diferente. — Eu ainda não entendo o que há de tão diferente nessa mulher — disse meu pai. — Ela faz muitos exercícios "práticos" — minha mãe explicou. — Não é apenas sentar e falar. — Você quer um exemplo? — Whitney colocou o garfo na mesa — A Janet, uma garota que eu conheço do hospital. Quando ela estava no grupo da Moira Bell, teve que aprender a fazer fogo. Minha mãe olhou, parecendo confusa.


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— Fazer fogo? — É. A Moira lhe deu dois gravetos e a sua tarefa era esfregar um no outro até fazer fogo. Até que ela conseguisse fazer fogo toda vez que tentasse. — E qual era exatamente — disse meu pai — o objetivo desse exercício? Whitney deu de ombros, pegando novamente seu garfo. — Janet disse que tinha algo a ver com ser auto-suficiente. Ela também disse que Moira Bell era louca. — Isso realmente parece ser bem diferente — disse minha mãe. Ela parecia preocupada, como se estivesse imaginando Whitney colocando fogo na casa. — Eu só estou dizendo — disse Whitney — que será uma perda de tempo. — Pelo menos tente — meu pai lhe disse. — Depois você decide. Porém, a decisão dela já estava tomada, pelo menos levando em consideração o comportamento dela durante o resto da noite — todas aquelas batidas típicas de porta, bufadas e caras amarradas estavam a todo vapor. No dia seguinte, depois do grupo, conforme o programado, ela voltou no pior dos humores. Agora já era a segunda sessão dela e, mesmo Whitney ainda não tendo posto fogo na casa, minha mãe ainda estava nervosa. Eu também estava uma pouco nervosa; afinal, era eu que ia ficar com ela. Meu pai, por outro lado, achava que estava na hora de confiar em Whitney e lhe dar mais responsabilidade. Ela nunca seria independente se minha mãe estivesse o tempo todo perto dela, ele disse, e eles só ficariam fora por dois dias. Ele inclusive ligou para a Dra. Hammond, que concordou. Mesmo assim, minha mãe não estava convencida e era por isso que ela agora estava enrolando, mexendo novamente na bolsa enquanto meu pai checava o relógio mais uma vez. — Eu não entendo — ela disse, abrindo mais a bolsa. — Elas estavam comigo na noite passada e não consigo imaginar onde foram parar... Naquele exato momento, ouvi a porta da frente bater. Logo depois, Whitney apareceu usando calças de ioga, camiseta e tênis, de cabelo preso em um rabo de cavalo. Em uma mão, ela segurava uma sacola da Home & Garden. Na outra, as chaves da minha mãe. — Ah — disse meu pai, andando em direção a minha mãe. — Mistério desvendado. — Ele pegou a bolsa, colocando tudo que estava no balcão


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para dentro dela. — É melhor irmos antes que outra coisa suma. Eles foram, finalmente, e eu fiquei na mesa da cozinha olhando enquanto eles davam ré para sair. Vi minha mãe se virando para olhar a casa quando eles se afastaram. Assim que eles se foram, me levantei da mesa e depois olhei para Whitney, que estava mexendo com alguma coisa que ela tinha comprado na Home & Garden. Sua testa estava enrugada enquanto ela revirava o conteúdo da sacola. — Então — eu disse. — Agora somos só nós duas. — O quê? — ela disse, sem olhar para mim. Ao meu redor, a casa estava vazia, Silenciosa. O fim de semana seria longo. — Nada — eu disse a ela. — Deixa pra lá. Por sorte, eu tinha outras coisas para fazer além de ser ignorada pela minha irmã. Na verdade, somente uma coisa. O Desfile de Outono do Shopping Lakerview seria no próximo fim de semana e naquela tarde eu tinha que ir até lá me informar sobre o horário do ensaio. Como era um sábado, quando cheguei à Kopfs vi que a loja estava caótica como sempre e, para completar, havia a presença de uma cantora pop chamada Jenny Reef que estava promovendo justamente a Mooshka Surfwear. O departamento infantil estava cheio de garotas, com uma fila que se estendia até o departamento de roupa íntima, ao som de uma música pop que tocava repetidamente. — Annabel! Eu me virei e lá estava Mallory Armstrong. Ela estava com aquele sorrisão no rosto e vinha rapidamente em minha direção, um pouco atrapalhada com um pôster, um CD e uma câmera nas mãos. Depois dela, em um ritmo mais tranqüilo, vinha sua mãe, que eu reconheci daquele dia que deixei Owen na casa dele. — Oi! — disse Mallory. — Eu não acredito! Você também é fã da Jenny Reef? — Hum — eu disse enquanto mais um monte de meninas passava por nós para entrar na fila —, na verdade, não. Tive que vir para uma reunião... — De modelos?


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— É — eu disse. — Nós temos um desfile no fim de semana que vem. — O Desfile de Outono. Eu sei! Estou tão animada, eu venho com certeza — ela disse. — Você consegue acreditar que Jenny Reef está, assim, mesmo aqui? Ela assinou o meu pôster! Ela abriu o pôster para me mostrar. E lá estava Jenny Reef com um visual bem surfista e californiano fazendo pose na praia. Ela tinha uma guitarra de pé na areia de um lado e uma prancha de surf do outro. Embaixo, estava escrito: PARA MALLORY. DE MEIA NA AREIA COM MOOSHKA SURFWEAR. COM AMOR, JENNY. — Uau! — eu disse enquanto sua mãe se aproximava. — Que legal! — E ganhei um CD grátis e uma foto! — disse Mallory, pulando levemente. — Eu também queria uma camiseta da Mooshka, mas... —... Mas você já tem milhares de camisetas — a mãe terminou a frase por ela. Ao olhar para a mãe de Mallory, pude ver a quem Owen puxou sua altura: ela era mais alta do que eu, tinha o cabelo escuro preso na altura do pescoço e usava calça jeans e um pulôver de tricô. Olhei rapidamente para os seus sapatos, reparando que não eram de bico fino, e me perguntei se eles seriam sintéticos. — Oi — ela me disse. — Meu nome é Teresa Armstrong. E você? — Mãe! — Mallory balançou negativamente a cabeça. — Essa é a Annabel Greene, não acredito que você não sabe quem ela é. — Desculpe — disse a Sra. Armstrong. — Eu deveria saber? — Não — eu disse. — Sim, — falou Mallory, virando-se para a mãe. — Annabel faz aquele comercial da Kopf, aquele que eu, assim, amo, sabe? — Ah — disse a mãe dela, sorrindo educadamente. — Certo. — E ela é amiga do Owen. Muito amiga. — Sério? — disse a Sra. Armstrong com ar surpreso. Ela sorriu para mim. — Isso é bom. — Annabel vai participar do desfile que eu estava te falando. Aquele da semana que vem — explicou Mallory. Para mim, ela disse: — Minha mãe não é


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muito ligada em moda. Mas estou tentando educá-la. — E eu — disse a Sra. Armstrong com um suspiro — estou tentando fazer Mallory se interessar mais por assuntos sérios, e menos por celebridades e roupas. — Tarefa difícil — eu disse. — Quase impossível. — Ela endireitou a bolsa no ombro. — Mas estou me esforçando. Olá, clientes da Kopf!, uma voz surgiu repentinamente das caixas de som. Obrigada por virem hoje ao nosso dia especial que conta com a presença de Jenny Reef, patrocinada pela Mooshka Surfwear. Por favor, venham ao Kopfs Café dentro de alguns minutos, pois à uma da tarde Jenny irá cantar o seu novo single "Becalmed". O Kopfs Café fica próximo ao departamento masculino. Vemos vocês lá! — Você ouviu isso? Ela vai se apresentar! — Mallory agarrou a mão da mãe. — Nós temos que ficar. — Não podemos — respondeu a Sra. Armstrong. — À uma da tarde temos que estar no centro de mulheres para o nosso grupo. — Mãe — reclamou Mallory. — Hoje não, por favor, por favor? — Nós temos um grupo de discussão entre mães e filhas — a Sra. Armstrong me explicou. — Uma vez por semana, nós nos encontramos. Seis mães e seis filhas, e discutimos assuntos pertinentes para nosso crescimento pessoal. O grupo é conduzido por uma maravilhosa professora de Estudos da Mulher da universidade, a Boo Connel, sabe? É muito... —... Muito chato — Mallory concluiu por ela. — Na semana passada, eu acabei dormindo. — O que foi muito infeliz, porque o assunto foi menstruação — disse a Sra. Armstrong. — É uma manifestação que traz muitas mudanças e começos para mulheres... A discussão foi extremamente interessante. Mallory teve um sobressalto. — Mãe! Não acredito que você está falando sobre menstruação com a Annabel Greene! — Não há por que ficar com vergonha de falar sobre menstruação, querida —


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disse a Sra. Armstrong enquanto Mallory ficava cada vez mais vermelha. — Com certeza até as modelos ficam menstruadas. Mallory colocou as mãos sobre o rosto. — Ai, meu Deus — ela disse e fechou os olhos, como se quisesse desaparecer ou talvez já fingindo desaparecer. — Eu preciso ir — falei enquanto a voz saía novamente das caixas de som. — Foi, assim, um prazer conhecê-la. — Igualmente — disse a Sra. Armstrong. Eu sorri para a Mallory, que ainda estava parada com ar aborrecido. — Até mais — eu disse. Ela acenou positivamente a cabeça. — Tá! Tchau, Annabel. Voltei a andar em direção à sala de reunião. Dei apenas alguns passos quando ouvi Mallory sussurrar: — Mãe, eu não acredito que você fez isso comigo. — Fiz o quê? — Você me humilhou daquele jeito — continuou Mallory. — Você me deve desculpas. — Querida — disse a Sra. Armstrong, suspirando. — Eu ainda não entendi qual é o problema. Talvez se você... Não cheguei a ouvir o resto, pois entrei no departamento de cosméticos, onde uma multidão de mulheres fazia alguns "antes e depois", e suas vozes abafavam tudo. Mas quando cheguei à sala de reunião, me virei para ver se Mallory e sua mãe ainda permaneciam lá. A Sra. Armstrong estava agachada frente da filha ouvindo, acenando a cabeça ocasionalmente, enquanto Mallory falava. Eu ouvi a Sra. McMurty pedir, dentro da sala de reunião, que todos ficassem em silêncio, pois era hora de começar. Mesmo assim, fiquei do lado de fora mais um pouco, observando a Sra. Armstrong finalmente se levantar depois se dirigir à saída com Mallory, que não parecia muito contente, mas depois de um tempo, quando sua mãe abaixou o braço para pegar sua mão, ela não a afastou. Ao contrário, envolveu


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sua mão na dela, apertando o passo, e saíram juntas pela porta. Naquela mesma tarde, quando cheguei em casa, Whitney estava na entrada. Havia uma fila de quatro pequenos vasos de flores na frente dela, um saco de terra ao seu lado, e ela estava sentada com uma pequena pá na mão e uma expressão irritada. — Oi — eu disse ao me aproximar dela. — O que você está fazendo? Ela não me respondeu de imediato, apenas abriu o saco de terra e colocou a pá dentro. Mas depois, quando eu ia passando por ela em direção à porta, ela disse: — Tenho que plantar ervas. Eu parei de andar. — Ervas? — É. — Ela pegou um pouco de terra com a pá, em seguida jogou-a com má vontade em um dos potes pequenos, derramando um pouco de terra nos lados. — Para aquela terapia em grupo idiota. — Por que ervas? — Vai saber? — Ela encheu outro vasinho, fazendo a mesma sujeira, e depois ergueu a mão, passando-a pelo rosto. — É para isso que mamãe e papai estão pagando à Moira Bell cinqüenta por hora: para me mandar cultivar uma porcaria de alecrim. — Ela pegou alguns pacotes de semente que estavam ao lado do seu pé e começou a mexer neles. — E manjericão. E orégano. E tomilho. Dinheiro bem gasto, não? — Realmente parece um pouco estranho — respondi. — Porque é — ela falou, pegando mais terra para o terceiro vaso. — É também idiota e uma perda de tempo, pois não vai funcionar. Já estamos quase no inverno. Nada cresce no inverno. — Você disse isso a ela? — Tentei, mas ela não se importa. Ela não se importa com nada a não ser garantir que você se sinta uma imbecil. — Ela colocou terra no último vaso, ele balançou, mas não chegou a tombar. — "Você pode cultivá-los dentro de casa — ela disse em um tom ironicamente animado — é só achar uma janela onde bata sol". Falou, então. Vou matar essas coisas em poucos dias. E mesmo se eu não matar, o que diabos eu vou fazer com um monte de ervas?


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Observei-a pegar o pacote com sementes de manjericão, abrir e colocar algumas sementes na palma da mão. — Bem — eu disse —, você pode usar o manjericão para cozinhar, sei lá. Ela estava quase plantando as sementes, mas parou para me olhar, séria, sem expressão. — Cozinhar — ela repetiu. — Até parece. Senti meu rosto ficar vermelho. Mais uma vez, eu consegui dizer algo errado, mesmo quando pensei em não dizer absolutamente nada. Ainda bem que o telefone de casa começou a tocar e fui atendê-lo, feliz por ter um motivo para sair dali. Quando cheguei à cozinha, a ligação já tinha caído na secretária eletrônica. Ouvi o bip e depois a voz da Kirsten. — Alô? — ela disse, falando alto como sempre. — Alguém aí? Sou eu, atendam se... Meu, cadê todo mundo? E eu tinha boas notícias pra dar... Eu atendi. — Que boa notícia? — Annabel! Oi! — a voz dela ficou ainda mais alta, um contraste marcante com o tom da Whitney. Eu me sentei para ficar confortável, pois se as mensagens da Kirsten eram longas, conversar com ela poderia levar uma tarde inteira — Que bom que você está em casa. Como você está? — Bem — eu disse, empurrando a minha cadeira um pouco para a direita. Ao olhar em direção à sala de jantar, podia ver Whitney colocando as sementes nos vasos, a testa franzida, pois estava concentrada — E você, como vai? — Maravilhosamente bem. — É claro que sim. — Sabe a aula de cinema te contei? Aquela que estou fazendo este semestre? — Sei — respondi. — Bem — ela continuou —, nós tivemos que fazer um curta-metragem cinco minutos como avaliação de meio de semestre, certo? Eles só escolheram dois para apresentar em um... Uma apresentação a que muita gente participa. E o meu foi escolhido! — Isso é ótimo! — eu disse. — Parabéns!


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—Obrigada — ela riu. — Eu precisava te contar, eu sei que é apenas uma coisa da faculdade, mas estou super animada. Essa aula e a aula de comunicação que estou assistindo... Quero dizer, elas realmente mudaram o meu jeito de ver as coisas. Como diz o Brian, estou aprendendo a contar e também a mostrar. E eu... — Espera — eu disse. — Quem é Brian? — O professor assistente da minha aula de comunicação. Ele ajuda o professor com a aula e conduz um grupinho de discussão do qual eu participo às sextas-feiras. Ele é incrível, muito inteligente. Nossa! De qualquer maneira, estou muito orgulhosa com o curta-metragem que fiz, mas agora tenho que apresentá-lo no próximo fim de semana na frente de todo mundo. Estou tão nervosa que nem dá para contar. — Nervosa? — De todos os adjetivos, esse eu nunca usaria para descrever a minha irmã. — Você? — É sim — ela disse. — Annabel, eu tenho que falar sobre meu filme na frente de todo mundo, na frente de estranhos. — Você costumava se levantar e desfilar na frente de estranhos — eu disse. — Até de biquíni. — Ah, mas isso é diferente — ela disse. — Em que sentido? — Porque é... — ela parou de falar, suspirando. — É pessoal. Real. Sabe? — Sim — eu disse, apesar de não ter certeza se tinha entendido de verdade. — Acho que sim. — De qualquer maneira, é daqui a uma semana. Então, manda pensamentos positivos para mim, ok? — Claro — eu disse. — Então... Sobre o que é? — O meu curta? — É. — Bem, é um pouco difícil de explicar... — ela disse no começo, é claro, já começando a explicar tudo. — Mas é basicamente sobre mim. E Whitney. Só olhei para Whitney, que estava do lado de fora abrindo outro pacote de


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sementes, imaginando qual seria a reação dela quando soubesse disso. — Sério? — falei. — Quero dizer. É ficção, claro — ela disse. — Mas é baseado naquela vez, quando éramos crianças. Nós estávamos andando de bicicleta e ela quebrou o braço, lembra? Eu a levei pra casa no meu guidão. Eu pensei por um segundo. — Sim — eu disse. — Não era... — O seu aniversário — ela disse. — Era o seu aniversário de nove anos. Papai perdeu a festa para levá-la ao hospital. Ela voltou engessada bem na hora do bolo. — Certo — eu estava me lembrando. — Eu me lembro disso. —Bem, é basicamente sobre isso. Mas diferente. É difícil explicar. Eu posso mandar pra você por e-mail, se quiser. Quero dizer, ainda estou fazendo umas modificações, mas dá pra você pegar a idéia geral. — Eu adoraria — respondi. — Mas você tem que me contar se for péssimo. — Eu tenho certeza de que não é. — Acho que só vou descobrir isso no sábado — ela suspirou. — Bom, preciso ir. Só queria contar as novidades pra vocês. Está tudo bem aí? Olhei para Whitney novamente. Ela tinha colocado outra camada de terra nos vasos e agora estava com uma mangueira na mão regando-os. Seus olhos contraídos enquanto as gotas respingavam. — Sim — eu disse. — Está tudo bem.

Assim que desliguei, ouvi a porta se abrindo. Logo depois, quando andei na direção ao corredor de entrada, Whitney estava colocando seus vasos janela da sala de jantar. Fiquei parada observando-a arrumar os vasos soleira, um ao lado do outro, e limpando as bordas com os dedos. Ao acabar, ela se levantou, colocando as mãos no quadril. — Bem — ela disse. — Taí uma coisa que não vai dar em nada.


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— Talvez dê — eu disse. Ela me olhou e me perguntei se ela seria grossa ou faria uma de suas observações sarcásticas. — É o que veremos — ela disse, e tirou as mãos do quadril, andando em à cozinha. Quando ela abriu a torneira e começou a lavar as mãos, andei até lá fora para ver os vasos. A terra que estava neles era negra, perfumada e com marcas de fertilizante, e pude ver pingos d'água aqui e ali, brilhando sob a luz do sol. Talvez fosse um exercício bobo e não era possível cultivar nada no inverno. Mas havia algo que me agradou nessa idéia de sementes enterradas no fundo do vaso, e que tinham pelo menos uma chance de emergir. Mesmo que não fosse possível ver, moléculas começavam a se ligar e a energia estava lentamente sendo consumida, como algo que estivesse se esforçando muito para crescer só.


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Dez Até aquela tarde, minha mãe já tinha deixado duas mensagens: uma nos informando que eles tinham chegado ao hotel, e a outra lembrando onde ela tinha deixado dinheiro para a pizza, um jeito sutil de garantir que nós (Whitney, sendo mais específica) jantássemos. "Mensagem recebida", pensei enquanto ia para a cozinha. O dinheiro estava no balcão com uma lista de vários lugares que entregavam. Minha mãe estava sempre muito bem preparada. — Whitney? — eu a chamei do pé da escada. Nenhuma resposta. Isso 'não queria dizer que ela não estava lá, apenas que não tinha vontade de responder. — Vou pedir pizza. Pode ser de mozzarella. Silêncio. "Tá bom", pensei. "De mozzarella." Escolhi um número qualquer e disquei. Depois de pedir a pizza, fui para o meu quarto escutar os CDs que o Owen tinha me dado, começando com um chamado CANÇÕES DE PROTESTO (ACÚSTICO E WORLD). Eu ouvi três faixas sobre sindicato, capotei e só acordei quando ouvi a campainha. Eu me levantei ao mesmo tempo que Whitney passou pelo meu quarto e desceu as escadas para atender a porta. Depois de escovar os dentes, desci também. Quando cheguei ao corredor, ela estava parada na porta, que encontrava-se aberta, bloqueando minha visão tanto dela quanto da pessoa outro lado. Mesmo assim, consegui ouvir as vozes. —... Não muito das músicas novas, mas dos primeiros álbuns — ela estava dizendo. — Eu tenho alguns importados que comprei de um amigo, são ótimos. — Sério? — respondeu uma voz masculina. — Na Importados UK ou em algum outro lugar? — Acho que na UK, eu teria que verificar. Talvez pelo fato de eu ter acabado de acordar, percebi algo de familiar nessa


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conversa, mas não consegui identificar exatamente o que era. — Quanto é mesmo? — Whitney perguntou. — Onze e oitenta e sete — respondeu o cara. — Aqui tem uma nota de vinte. Só me devolva cinco. — Obrigada. — Eu dei um passo à frente. Agora eu tinha certeza que conhecia aquela voz. — O lance do Ebb Tide — a voz continuou — é que o gosto por eles é algo que vem com o tempo. — Total — respondeu Whitney. — Quero dizer, a maioria das pessoas nem... Dei um passo e fiquei ao lado da porta. Com certeza era Owen. Parado na frente da minha casa, fones de ouvido pendurados no pescoço, contando o dinheiro e dando o troco para minha irmã. Whitney estava concordando enquanto ele falava e olhava de um jeito muito mais simpático do que ela me olhava havia cerca de um ano. Quando ele me viu, deu um sorriso. — Veja — ele disse para Whitney —, eis um caso. Annabel não é fã do Ebb Tide. Ela odeia música eletrônica, na verdade. Whitney olhou para mim e para Owen, claramente confusa. — Ela odeia? — Sim. Apesar dos meus maiores esforços para convencê-la do contrário — ele disse. — Ela é muito teimosa quando tem uma opinião formada. Totalmente sincera e cheia de opinião. Mas imagino que você já saiba disso. Whitney me olhou quando ele falou isso e eu sabia o que ela estava pensando: que aquela não era eu, nem de longe. Eu também não achei que aquela descrição parecia comigo, mas, por alguma razão, a descrença dela me incomodou. — Bem, então — ele disse, e se abaixou em direção à mochila térmica que estava no chão e abriu o zíper para tirar a pizza. — Aí está. Bom apetite. Whitney acenou positivamente a cabeça, ainda me olhando, e pegou a pizza. — Obrigada — ela disse. — Boa noite. — Para você também — respondeu Owen enquanto Whitney virou-se,


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passando pela sala de jantar em direção à cozinha. Dei um passo à frente, vendo Owen colocar no bolso o bolo de dinheiro que estava na sua mão e depois pegar a mochila. Ele estava usando calça jeans e uma camiseta onde se lia SLICE O'CHEESE! De todos os telefones de lugares que entregam pizza que minha mãe deixou, liguei justamente para esse. Quem diria? Mas eu tinha que admitir que estava feliz em vê-lo. — A sua irmã — ele me disse — é fã do Ebb Tide. Ela tem CDs importados. — E isso é bom? — Muito bom — ele respondeu. — É quase iluminado. Importados demandam esforço. — Você conversa sobre música com todo mundo que encontra? — Não — ele disse. Eu olhei para ele. Atrás de mim, ouvi Whitney ligar a televisão. — Bem, nem sempre. Nesse caso, eu estava com meu fone de ouvido e ela me perguntou o que eu estava escutando. — E, por coincidência, você estava ouvindo uma banda que ela conhece e gosta muito. — Isso é a universalidade da música — ele disse animado, pendurando a mochila no outro ombro. — É algo que une as pessoas. Amigos e inimigos. Velho e jovem. Eu e a sua irmã. E... — Eu e a sua irmã — concluí a frase por ele. — Eu e sua mãe. — Minha mãe? — ele perguntou. — Eu a conheci hoje, no shopping. No negócio da Jenny Reef. A cara dele caiu. — Você foi ver a Jenny Reef? — Eu adoro a Jenny Reef — falei, e ele tomou um susto. — Ela é muito melhor que Ebb Tide. — Isso — ele disse — não é nem um pouco engraçado. — O que há de errado com a Jenny Reef? — perguntei. — Tudo está errado com a Jenny Reef! — ele respondeu. "Agora vai


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começar", pensei. — Você chegou a ver o pôster que ela autografou e deu à Mallory? Com o nome do produto nele? Tipo, é tão nojento o fato de que qualquer um pode se considerar um artista e depois se vender completamente para a máquina corporativa, em nome de... — Tá, tá, pode se acalmar — eu disse, percebendo que deveria falar verdade antes que uma veia saltasse do seu pescoço. — Não fui ver a Jenny Reef. Eu tinha uma reunião de modelos na Kopfs. Ele respirou fundo, balançando a cabeça. — Graças a Deus. Você me deixou bem preocupado. — O que aconteceu com não existir certo ou errado em música? — eu lhe perguntei. — Ou isso não se aplica a estrelas pop adolescentes? — Sim, se aplica — ele disse seriamente. — Você tem o direito de ter sua opinião sobre a Jenny Reef. É que eu ficaria chocado se você realmente fosse fã dela. — Mas você chegou a dar uma chance a ela? Lembre-se — eu disse com a mão erguida —, não pense, nem julgue, JUST LISTEN. Apenas ouça. Ele fez uma careta para mim. — Eu já ouvi Jenny Reef. Não por livre e espontânea vontade, mas ouvi. E a minha opinião é que ela é uma prostituta da indústria do entretenimento, que permitiu que sua música, se é que se pode chamar aquilo de música, fosse adulterada e comprometida em nome do materialismo e dos negócios. — Bom — eu disse. — Desde que você não se desgaste por causa disso. De repente, ouvi algo vibrando e ele pegou seu celular do bolso de trás da calça e olhou na tela. — Opa, preciso ir — ele disse, colocando a mochila debaixo do braço. — Sabe, por mais que você queira, eu não posso ficar aqui a noite toda discutindo com você sobre música. — Não? — falei. — Não. — Ele deu um passo para trás, se distanciando da porta. — Mas se você quiser continuar essa discussão outra hora, eu ficaria mais do que contente. — Por exemplo, na terça-feira?


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— Ahã, pra mim tá bom. — Ele começou a descer a escada. — Vejo você na terça, então, certo? Fiz que sim com a cabeça. — Tchau, Owen. — E não se esqueça do programa amanhã! — ele gritou ao entrar no carro. — Vai rolar só música eletrônica. Uma hora inteira de torneiras pingando. — Você tá brincando? — Talvez. Mas você vai ter que ouvir o programa para saber. Eu sorri, e fiquei lá parada, olhando-o entrar na Land Cruiser. Ele primeiro ligou o som e depois engatou a marcha, é claro. Quando cheguei à sala de estar, Whitney estava sentada no sofá bebendo uma garrafa de água. A pizza estava no balcão. Ela não disse nada, seus olhos estavam concentrados na televisão — onde passava algo sobre uma atriz de seriado viciada em cocaína —, enquanto eu pegava um prato e um pedaço de pizza e sentava-me à mesa da cozinha. — Você não... — eu comecei a falar e depois parei. — Você não está com fome? Ela não tirou os olhos da televisão e disse: — Vou comer já, já. "Tá bom", pensei. Minha mãe não ia gostar disso nem um pouco, mas ela não estava aqui. E eu estava faminta. E quando me preparava para dar a primeira mordida, Whitney abaixou o volume da TV e perguntou: — Então, de onde você conhece aquele cara? — Ele estuda na minha escola — respondi, engolindo depois. Ela estava me olhando, então eu completei. — Somos amigos. — Amigos — ela repetiu. Eu me lembrei do sorriso surpreso da Sra. Armstrong após ouvir essa mesma palavra, algumas horas antes. — É — eu disse —, a gente conversa na hora do almoço. Ela acenou com a cabeça.


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— Ele é amigo da Sophie também? —Não — eu disse. Eu não sei o motivo, mas automaticamente levantei guarda e fiquei imaginando por que ela estaria me perguntando aquilo. Na verdade, por que estávamos conversando já que era ela quem estava resistente às minhas tentativas de conversa durante todo o dia? Mas aí me lembrei do rosto dela quando Owen me descreveu como sendo sincera, como ficou claro que ela tinha ficado surpresa, então acrescentei: — Não sou mais muito amiga da Sophie. — Não é? — Não. — O que aconteceu? Por que você está interessada? Foi o que eu tive vontade de responder. Em vez disso, falei: — Nós brigamos há alguns meses. A coisa ficou meio feia... Não nos falamos mais. — Ah — ela disse. Eu voltei a olhar para o meu prato, me perguntando por que de repente resolvi falar disso justamente com Whitney. Senti como se tivesse cometido um erro, e fiquei lá sentada, esperando que ela fizesse algum comentário irritado ou ruim, mas Whitney apenas ligou novamente a televisão e, um segundo depois, percebi que ela tinha aumentado o volume. Na tela, a atriz estava contando sua história e secando os olhos com um lenço. Eu olhei para ela e depois para Whitney, que havia sentado na poltrona do meu pai. Quem diria que ela era fã do Ebb Tide, que tinha alguns CDs importados, que possivelmente era, pelo menos de acordo com Owen, uma iluminada? Por outro lado, ela também não sabia muita coisa sobre mim. Talvez nós pudéssemos ter consertado isso nesse fim de semana, mas isso não aconteceu. Ao contrário, ficamos lá sentadas juntas, porém separadas, assistindo a um programa sobre uma estranha e todos os seus segredos, enquanto guardávamos os nossos. Como sempre. Na manhã seguinte, Owen abriu o seu programa com uma música eletrônica que durou, sem brincadeira, oito minutos e meio. E passei esse tempo todo dizendo a mim mesma que eu tinha todo o direito de voltar a dormir, mas, por algum motivo,


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não consegui pregar o olho de novo. — Esse foi Prickle com "Velveteen" — ele disse quando a música finalmente terminou. — Do seu segundo disco, The Burning, provavelmente um dos melhores discos de música eletrônica já lançados. É difícil acreditar que algumas pessoas não gostam desse tipo de música, não é? Você está ouvindo Gerenciamento de Raiva. Quer pedir uma música? Ligue pra gente no 555-WRUS. Agora, Snakeplant. Eu revirei os olhos, mas não me enrolei nas cobertas. Ao contrário, ouvi o programa inteiro, pois já era um hábito, enquanto Owen tocava uns roc-kabillys, alguns cantos gregorianos e uma música em espanhol que ele descreveu como "parecida com Astrud Gilberto, mas não exatamente". Seja lá o que isso queria dizer. Finalmente, um pouco antes das oito horas, ouvi o começo de uma música que me pareceu familiar. Mas não tive certeza do que era até ele voltar a falar. — Esse foi Gerenciamento de Raiva, na nossa estação de rádio comunitária, a WRUS, 89,9. Vamos terminar o programa de hoje com algo dedicado a uma ouvinte assídua, para quem nós queremos dizer: olha, não tenha vergonha da música que você gosta. Mesmo se, na nossa humilde opinião, não seja música de verdade. Nós sabemos o motivo pelo qual você foi ao shopping ontem. Vejo vocês semana que vem! Foi só aí que eu me toquei: era a música da Jenny Reef, aquela que no dia anterior ficou tocando repetidamente no shopping. Quando a música começou, eu me levantei para pegar o telefone. — WRUS, Rádio Comunitária. — Eu não fui ao shopping para ver a Jenny Reef — falei. — Eu te disse isso ontem. — Você não está gostando da música? — Na verdade... — eu disse — estou. É melhor do que praticamente tudo o que você toca. — Engraçadinha. — Eu não estou brincando. — Tenho certeza que não — ele disse. — O que, francamente, é muito.


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— Quase tão triste quanto você tocando Jenny Reef no seu programa. Ow, é isso? Todos os hits na ponta da língua? — É para ser irônico! Eu sorri, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Fique repetindo isso para você mesmo. Ele bufou alto e eu pude ouvir o som no alto-falante. — Chega de Jenny Reef. Responda-me o seguinte: o que você acha de bacon? — Bacon — eu repeti. — Qual música foi essa? — Não é uma música É a comida. Sabe, bacon? Feito de porco? Pedaços em uma frigideira? De verdade, eu afastei o telefone da minha orelha, olhei para ele e o coloquei no ouvido de novo. — O que você me diz. Tá a fim? — A fim do quê? — Café da manhã. — Agora? — eu disse, vendo a hora. — Por quê? Você já tem planos? — Bem, não, mas... — Legal. Te pego em vinte minutos. Ele desligou. Coloquei o telefone de volta na base e me virei para me olhar no espelho. "Vinte minutos", pensei. "Beleza." Em dezenove minutos e meio consegui tomar banho, colocar roupa e sair na porta de casa, onde eu já estava esperando quando Owen parou na calçada. Whitney ainda estava dormindo, portanto eu não precisei dar explicações, o que foi uma mão na roda já que eu não teria uma boa justificativa para dar. Enquanto eu andava em direção ao carro, Rolly, que estava no banco da frente, abriu a porta e saiu, deixando-a aberta para mim. — Você se lembra do Rolly, não é?


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— É— eu disse. — Mas você não precisa mudar de lugar. Posso sentar atrás. — Sem problemas — ele me disse, sentando no banco traseiro. — Além disso, preciso ter certeza se estou com todo o meu equipamento para mais tarde. — Equipamento? — eu perguntei, entrando no carro e fechando a porta. Owen fez sinal para eu colocar o cinto de segurança, o que fiz, deixando-o usar o martelo para prender o cinto. — Para trabalhar. Tenho uma aula hoje — explicou Rolly. Ao me virar, vi que ele estava segurando o mesmo capacete vermelho que usava quando o vi pela primeira vez. Além disso, havia várias almofadas finas de todos os tamanhos no banco do carro: uma grande, parecida com aquelas que árbitros usam, outras com formato de tubo e um par de luvas bem grossas. — É nível intermediário. Tenho que me proteger bem. — Certo — eu disse, enquanto Owen engatava a ré, saindo da entrada da minha casa. — Mas, como você conseguiu um trabalho assim? — Da mesma forma que a maioria dos trabalhos — ele respondeu colocando a almofada no banco. — Respondi a um anúncio. No começo, eu atendia ao telefone e matriculava as pessoas nas aulas. Mas aí, um cara se machucou feio e saiu de lá, então fui promovido à atacante. — Ou rebaixado — disse Owen. — Depende do ponto de vista. — Ah, não — Rolly lhe disse, acenando a cabeça. Percebi que ele tinha um jeito muito doce. Enquanto Owen era alto e largo, mais o estilo atacante, Rolly era menor e mais magro, e tinha olhos azuis brilhantes. — Atacar é bem melhor do que trabalho no escritório. — Ah é? — perguntei. —Claro. Assim, pra começar, é emocionante — ele disse. — Além disso, dá para conhecer as pessoas de verdade. Há uma conexão verdadeira quando alguém está te enchendo de porrada. Eu olhei para Owen, que estava mudando de marcha com uma mão e ajustando o som com a outra. — Você pode me olhar o quanto quiser — ele disse sem desviar o olhar da rua. — Não vou fazer nenhum comentário sobre isso.


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— A luta une as pessoas — disse Rolly. — Várias mulheres que participam das minhas aulas me abraçam depois que elas terminam. As pessoas se conectam comigo. Já aconteceram várias vezes. — Mas só uma vez — acrescentou Owen — foi realmente importante. Rolly deu um suspiro. — É verdade — ele disse. — A pura verdade. — Isso quer dizer o quê? — Rolly está apaixonado por uma garota que deu um soco no rosto dele. — Não no rosto — Rolly o corrigiu. — No pescoço. — Aparentemente — Owen me disse — ela tem um gancho de direita poderoso. — Foi impressionante — concordou Rolly. — Foi em uma exposição em que trabalhei lá no shopping, sabe? Nós tínhamos uma mesa e as pessoas podiam se inscrever para ter uma aula grátis e me dar um golpe por diversão. Owen deu a seta para fazer a curva, balançando a cabeça. — Enfim — Rolly continuou — ela aparece com algumas amigas e Delores, a minha chefe, começa a falar com ela sobre as aulas, e a convida para me dar um soco. As amigas dela não quiseram, mas ela deu um passo à frente na hora. Ela me olhou no olho. E pou! Bem na clavícula. — Mas você estava com almofadas, não é? — perguntei. — Claro! — ele respondeu. — Eu sou um profissional. Mas mesmo usando as almofadas dá para saber quando alguém manda bem na pancada. E a garota mandou. Além disso, ela era linda. Uma combinação letal. Mas antes de eu conseguir falar algo, ela sorriu para mim, agradeceu e foi embora. Sumiu. Assim, rápido. Eu nem sei o nome dela. Estávamos entrando na rodovia agora, acelerando. — Uau! — eu disse. — É uma história e tanto! — É — ele concordou, sacudindo a cabeça, com uma expressão séria. E bem devagar Colocou a mão no capacete que estava no seu colo. — Eu sei.


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Owen abriu sua janela, para o ar entrar. Depois, respirou. — Ah, sim — ele disse. — Já estamos quase lá. Eu me virei para frente e só via a estrada. — Onde? — Duas palavras — Owen disse. — Bacon duplo. Cinco minutos depois, estávamos parando no estacionamento do Mundo dos Waffes, um local bem na saída da interestadual que servia café da manhã vinte e quatro horas. "Então eles gostam de café da manhã", pensei. Nesse momento, o vento mudou de direção e eu, de repente, comecei a sentir o cheiro: bacon. O cheiro era forte, penetrante e implacável. — Ai, meu Deus — eu disse ao nos dirigirmos para a entrada. Owen e Rolly estavam respirando fundo ao meu lado. — Isso é... — Incrível, eu sei — Owen disse. — Antes não era assim. Quer dizer, eles serviam bacon, mas não era tão bom. Mas abriu um lugar novo do outro lado da rodovia... — O Café de Todo Dia — disse Rolly, mexendo o nariz —, muito ruim. As panquecas são conhecidas por serem meio molhadas. — ... Eles tinham que entrar na competição. Então agora, todo dia é o Dia do Bacon Duplo. — Ele se dirigiu à entrada, abriu a porta para mim. — Maravilhoso, não é? Eu concordei e entrei. A primeira coisa que notei era que o cheiro estava ainda mais forte, se é que isso era possível. A segunda era que o salão, pequeno e cheio de mesas, estava congelando. — Ah — Owen disse assim que me viu com os braços cruzados. — Esqueci de te avisar sobre o frio. Tome. — Ele tirou a jaqueta que estava usando e me deu. Eu comecei a protestar, mas ele disse: — Eles mantêm essa temperatura para as pessoas não ficarem aqui por muito tempo. Acredite em mim, se você está com frio agora, em dez minutos estará congelando. Veste aí. E foi o que eu fiz. É claro que a jaqueta ficou enorme em mim, minhas mãos ficaram cobertas pelas mangas. Fechei mais a jaqueta enquanto seguíamos uma garçonete alta e magra, cujo nome DEANN estava escrito no crachá, até uma mesa


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perto da janela. Atrás de nós, uma mulher estava silenciosamente cuidando de um bebê, com a cabeça abaixada. Do outro lado, um casal da nossa idade comia waffles, ambos com roupa de ginástica. A garota era loira e tinha um elástico preso no pulso, enquanto o cara era mais alto e mais moreno e uma parte da sua tatuagem estava visível sob a manga da camiseta. — Eu recomendo a panqueca com gotas de chocolate — Rolly me disse depois que Deann trouxe o café e nos deixou para olharmos o cardápio. — Com muita manteiga e calda. E bacon. — Argh — disse Owen. — Eu sou básico: ovos, bacon e pãozinho. Pronto. Parecia que carne de porco era um item indispensável, então, quando Deann voltou, eu pedi waffles e, é claro, bacon. Apesar de não ter certeza se queria, pois com aquele cheiro senti como se já tivesse comido. — Então, vocês fazem isso toda semana? — perguntei, tomando um gole de água. — É — disse Owen. — Desde o primeiro programa. É uma tradição. E Rolly sempre paga. — Isso não é tradição — Rolly disse. — É porque eu perdi uma aposta. — Por quanto tempo você vai ter que pagar? — Para sempre — Rolly me disse. — Eu tive a minha chance e estraguei, agora estou pagando por isso. Literalmente. — Não é para sempre, na verdade — disse Owen, batendo a colher no seu copo de água. — Só até você falar com ela. — E quando isso vai acontecer? — Rolly perguntou. — Da próxima vez que você a vir. — É — ele disse em tom de piedade. — Da próxima vez.

Eu olhei para Owen. — A garota com o gancho de direita — ele explicou. — Em julho, nós a vimos em uma balada. Nunca a tínhamos visto antes. E Rolly fala sobre ela sem parar...


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Rolly ficou vermelho. — Não é sem parar. — ...ele teve uma chance — Owen concluiu. — Mas não conseguiu agir. — É o seguinte — disse Rolly —, eu realmente acredito no momento perfeito. Eles não aparecem com freqüência. Esse pensamento profundo foi pausado — ou interrompido, dependendo do ponto de vista — por Deann, que trazia nossa comida. Eu nunca tinha visto tanto bacon na minha vida; estava cheio até a borda dos waffles, literalmente caindo do prato. — Então, lá estou eu — Rolly prosseguiu, começando a passar manteiga na panqueca — tentando arrumar um jeito de puxar assunto, e o suéter dela cai do encosto da cadeira. Como se fosse predestinado, sabe? Mas eu congelo. Não consigo. Do meu lado, Owen já tinha colocado um pedaço de bacon na boca e estava mastigando enquanto salpicava pimenta nos ovos. — O lance é — disse Rolly —, o fato de você ter finalmente a chance de fazer aquilo que quer e precisa fazer é muito importante. Isso pode deixar você apavorado. Ele empurrou a calda na minha direção, e coloquei um pouco no meu waffle. — Imagino — falei. — Foi por isso que — disse Owen — eu disse: se ele pegasse o suéter e falasse com ela, eu pagaria o café da manhã para sempre. E se ele não fizesse isso, ele tinha que pagar a conta. Rolly comeu mais um pedaço da panqueca. — Eu cheguei a me levantar e começar a andar na direção dela. Mas aí ela se virou e eu... — Ele engasgou — disse Owen. — Entrei em pânico. Ela me viu e eu fiquei todo atrapalhado e continuei andando. Agora tenho que pagar o café da manhã para toda a eternidade. Ou até eu realmente conseguir cobrir a aposta, o que é improvável porque nunca mais a vi. — Uau! — falei. — Que história!


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Ele concordou fazendo que sim com a cabeça com um ar muito sério, como tinha feito antes no carro. — É — ele disse. — Eu sei. Fomos embora de lá uma hora depois; eu estava tão satisfeita que achei que fosse explodir. De volta ao carro, peguei o cinto de segurança, puxei-o em volta de mim, parando perto do fecho para que Owen o colocasse com o martelo. Enquanto ele martelava o cinto, suas mãos se posicionaram bem na minha cintura e sua cabeça estava baixa na altura do meu ombro. Fiquei olhando o seu cabelo preto, algumas sardas perto da sua orelha e seus cílios longos, mas ele logo terminou e deu partida no carro. Durante todo o caminho até a cidade, observei pelo retrovisor Rolly colocar suas almofadas de trabalho: primeiro, a almofada grande para o peito, depois os tubos em seus braços e pernas; ele ia ficando cada vez maior e menos reconhecível perante meus olhos. Rolly colocou o capacete bem na hora em que paramos em frente ao pequeno shopping onde ficava a Combat! — Obrigado pela carona — ele disse, abrindo a porta e saindo devagar. As almofadas nas suas pernas eram tão grossas que ele era obrigado a dar passos curtinhos. — Te ligo mais tarde. — Tá bom — respondeu Owen. — No caminho de volta para casa, fiquei observando a paisagem que passava e pensei naquele primeiro dia, e em como tinha sido estranho estar na companhia dele. Agora era quase normal. Do lado de fora, o bairro estava tranquilo e havia poucas pessoas na rua. Ao ver um homem de roupão saindo de casa para pegar o jornal, me lembrei do que Rolly tinha dito sobre o momento perfeito. Esse parecia um desses momentos, a hora exata para dizer algo a Owen. Talvez agradecê-lo ou apenas dizer como essa amizade estava sendo importante para mim. Mas quando eu estava quase tomando coragem para dizer algo, ele passou na minha frente. — Então, você já ouviu algum dos CDs que eu gravei pra você? — Sim — respondi, enquanto entrávamos na minha rua. — Na verdade, eu comecei a ouvir as canções de protesto ontem. — E? — Dormi — falei. Ele pareceu surpreso. — Mas eu estava muito cansada. Vou ouvir novamente, aí te conto.


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— Sem pressa — ele disse ao estacionar na frente da minha casa. — Essas coisas levam tempo. — Nem me fale. Você me deu muita coisa para escutar. — Dez CDs — ele respondeu — não é muito. É quase nada. — Owen. São cerca de cento e quarenta músicas. No mínimo. — Se você quer uma educação de verdade — ele continuou, ignorando o que eu tinha acabado de falar — não adianta ficar sentada, esperando a música chegar. Você tem que ir até ela. — Você está sugerindo uma espécie de peregrinação? Eu estava brincando. Mas pela expressão no seu rosto, ele estava falando sério. — Você pode chamar assim, se quiser — ele disse. — Sei — eu disse, me encostando ao banco. — Do que você chamaria? — Assistir ao show de uma banda — ele respondeu. — Uma banda boa. Ao vivo. No próximo fim de semana. A primeira coisa que me veio à mente foi uma pergunta: Você está me chamando para sair? A segunda, que veio logo em seguida, foi que, se eu realmente lhe perguntasse isso, ele iria responder a verdade e eu não tinha certeza se era isso que eu queria. Se ele dissesse que sim, seria... O quê? Ótimo. E eu ficaria apavorada. Se ele dissesse que não, me sentiria uma idiota. Em vez de perguntar, apenas repeti: — Uma banda boa. Boa de acordo com quem? — Comigo, claro. — Ah. Ele ergueu uma sobrancelha. — E com outras pessoas também — completou. — É a banda do primo do Rolly.


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— A banda é de... — Não. Não é música eletrônica — ele logo respondeu. — O estilo deles é mais pro rock descontraído e as músicas originais, um pouco engraçadas, mas bem alternativas. — Uau — eu disse. — Gostei da descrição. — A descrição não quer dizer nada. É a música que conta — ele falou. — E da música você vai gostar. Confie em mim. — Veremos — eu disse, e ele sorriu. — Então, quando essa banda de rock descontraído, músicas originais um pouco engraçadas, mas bem alternativas, vai tocar? — No sábado à noite — ele respondeu. — É um show para todas as idades no Bendo. Outra banda vai abrir para eles, então, eles devem começar a tocar por volta das nove. — Ok. — Ok, quer dizer que você vai? — Sim. — Legal. Eu sorri e vi atrás dele, dentro de casa, Whitney aparecer no topo da escada. Ela estava de pijama e bocejava com uma mão na frente da boca e andava em direção ao hall de entrada, deixando sua sombra na parede. Ao descer a escada, foi até a sala de jantar e se inclinou para ver os vasos de flores que estavam na janela da frente. Logo depois esticou a mão, arrumou a terra em um deles e virou outro para que o lado oposto do vaso ficasse sobre a luz. Depois, ficou de joelhos com as mãos no colo, observando-os. Eu olhei para Owen, que também a observava, e fiquei imaginando o que ele achava daquilo. De fora, certamente tudo parecia diferente do que realmente era. Se você observar outra casa irá ver outra coisa, para cada olhar há outra história. Essa história nem era minha, mas por alguma razão me senti querendo contá-la mesmo assim. — São ervas — eu disse para Owen. — Ela as plantou ontem. São, hum, para a terapia dela.


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Ele balançou levemente a cabeça. — Você me disse que ela estava doente. O que ela tem? Se não se importar em responder, claro. — Ela tem um distúrbio alimentar — contei. — Ah. — Ela está bem melhor do que antes — acrescentei. E isso era verdade. Eu a vi comendo dois pedaços de pizza na noite anterior. Muito tempo depois de eu ter comido e somente após separar qualquer coisa que lhe parecesse gordura, e cortar os pedaços em micro pedacinhos. Mas ela os comeu e isso era significativo. — Quero dizer, quando descobrimos, ela estava muito mal. Ano passado ela ficou um tempo no hospital. Nós dois ficamos olhando Whitney se levantar enquanto tirava uma mecha de cabelo do rosto. Fiquei pensando se Owen a achava diferente agora, como se essa informação talvez mudasse a maneira como ele a via. Eu estudei o seu rosto, mas não consegui chegar a nenhuma conclusão. — Isso deve ter sido difícil — ele disse ao mesmo tempo que ela se virou e começou a andar em direção à mesa de jantar. — Ver sua irmã passar por tudo aquilo. Depois de passar pela sala de jantar em direção à cozinha, ela desapareceu. Um segundo depois, eu a vi novamente passando na frente da ilha da cozinha. Essa era uma coisa sobre a nossa casa da qual eu sempre me esquecia: como se tinha a impressão de que era possível ver tudo, mas na verdade algumas coisas ficavam escondidas, veladas. — É — eu disse. — Foi. Foi horrível. Eu fiquei com muito medo. Dessa vez, não pensei mais no fato de eu estar falando a verdade, e nem tive aquele momento no qual me peguei ousando em ser sincera. Dessa vez, apenas aconteceu. Owen se virou, me olhou e eu engoli seco. Então, como eu fazia todas as vezes que ele estava prestando atenção em mim, continuei. — O que acontece com a Whitney — eu disse — é que ela sempre foi muito reservada. Então, nunca dava para saber se ela estava bem ou não. A minha irmã mais velha, Kirsten, é totalmente o oposto, é o tipo de pessoa que sempre dá informação demais. Então, por exemplo, quando Kirsten estava triste, você ficava sabendo, mesmo se não quisesse. Já com a Whitney, era preciso arrancar informações dela. Ou descobrir de algum outro jeito.


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Owen olhou para a casa novamente, mas Whitney tinha desaparecido mais uma vez. — E você? — ele perguntou. — O que é que tem? — Como eles sabem quando você não está bem? "Eles nunca sabem", pensei, mas não disse isso. Eu não podia dizer isso. — Eu não sei — disse. — Acho que você teria que perguntar para eles. Uma SUV enorme passou voando por nós naquele momento, espalhando um monte de folhas que estavam amontoadas na calçada. Enquanto elas flutuavam na frente do pára-brisa, eu olhei novamente para minha casa e vi Whitney subindo as escadas com uma garrafa de água na mão. Dessa vez, ela olhou para o lado de fora. Ao nos ver, subiu um pouco mais devagar até o topo. — É melhor eu entrar — falei, abaixando o braço em direção ao fecho do cinto de segurança. — Mais uma vez, muito obrigada pelo café da manhã. — Sem problemas — disse Owen. — Não se esqueça da peregrinação, certo? Sábado. Nove horas. —Perfeito. — Abri a porta e saí do carro. Quando passei na frente do párachoque dianteiro, ele ligou o motor e me deu tchau com a mão. Ao chegar perto da entrada de casa, percebi que ainda estava usando a jaqueta dele. Eu me virei rapidamente, mas o vi já virando a esquina como um borrão azul, e desapareceu. Tarde demais. Abri a porta da frente, entrei em casa e tirei a jaqueta, dobrando-a no meu braço. Senti algo estranho no bolso de fora. Coloquei a mão no bolso e apalpei um objeto sólido. Mesmo antes de tirá-lo, eu sabia o que era: o iPod do Owen. Estava completamente detonado, todo arranhado e com uma rachadura na tela, os fones de ouvido enrolados em volta dele. E apesar do gelo que estava no Mundo dos Waffles, o aparelho ainda estava quente. — Annabel? Eu tomei um susto e ergui o olhar. Whitney estava no topo da escada, me olhando. — Oi — respondi.


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— Você levantou cedo. — É — falei. — Eu, hum, saí para tomar café da manhã. Ela estreitou os olhos. — Quando você saiu? — Um tempinho atrás — eu disse, começando a subir a escada. Quando cheguei ao topo, ela deu um passo para o lado, mas não desviou muito, então eu tive que passar apertada entre ela e a parede. Eu a ouvi cheirar uma vez. Depois, duas. "Bacon", pensei. — É melhor eu começar a fazer meu dever de casa — eu disse, andando em direção ao meu quarto. — Ok — ela disse lentamente, sem se mexer, e continuou me olhando até eu entrar e fechar a porta do meu quarto. Como eu nunca tinha visto Owen sem o iPod, imaginei que ele logo sentiria a sua falta. Então, quando o telefone tocou naquela tarde, atendi esperando ouvir a sua voz, já desesperado por estar sem música. Mas não era Owen e sim, a minha mãe. — Annabel! Oi! Quando minha mãe estava nervosa, o seu quociente de alegria ficava nas alturas. A linha parecia estar com interferência por causa da animação forçada. — Oi — falei. — Como está indo a viagem? — Muito bem — ela respondeu. — Agora seu pai está jogando golfe e eu acabei de fazer as unhas. Nós estamos tão ocupados, mas achei melhor ligar para saber como vão as coisas. Como vocês estão? Na verdade, essa era a terceira vez que ela ligava em trinta e seis horas. Mas eu fingi não ter percebido. — Bem — falei. — Sem nenhuma novidade. — Como está a Whitney? — Bem. — Ela está aí?


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— Eu não sei — respondi. Eu me levantei e saí da cama, andando em direção à porta do meu quarto e abrindo-a. — Vou ver... — Ela saiu? — Não sei ao certo — respondi. "Nossa", pensei. — Espere. — Fui até o corredor e coloquei o telefone contra o peito, para ver se ouvia algo. Não ouvi barulho da TV e lá embaixo estava silencioso, então, segui em direção ao quarto de Whitney, cuja porta estava semi fechada. Eu bati na porta, de leve. — Sim? Quando abri a porta, ela estava sentada na cama de pernas cruzadas e escrevendo em um caderno apoiado no colo. — É a mamãe no telefone — eu disse. Ela respirou fundo, estendeu a mão e eu dei um passo a frente para lhe entregar o telefone. — Alô?... Oi... Sim, estou aqui... Estou bem... Está tudo bem. Você não precisa ficar ligando, sabe? Minha mãe disse alguma coisa e Whitney se encostou à cabeceira da cama. Enquanto ela ouvia e respondia com uma série de ahãs, eu olhei pela janela. Apesar de os nossos quartos ficarem lado a lado, a vista que ela tinha do campo de golfe me parecia completamente diferente, como se fosse outro lugar. — É, tá — ela disse, levantando o braço para passar a mão no cabelo. Olhando-a, pensei mais uma vez em como ela era bonita — mesmo de calça jeans e camiseta, sem maquiagem, sua beleza era de tirar o fôlego. Tanto que era difícil acreditar que ela pôde um dia ter se olhado e visto alguma outra coisa. — Eu digo para ela... Tá... Tchau. Ela tirou o telefone da orelha, apertando o botão para desligar. — Mamãe disse que vem amanhã — ela falou. — Eles estarão de volta na hora do jantar. — Ah — eu disse enquanto ela me devolvia o telefone. — Tá bom. — E nós podemos comer espaguete no jantar ou comer fora. — Ela se encostou, encolhendo as pernas, e me olhou. — O que você quer fazer? Eu hesitei, imaginando se essa pergunta seria traiçoeira.


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—Pra mim tanto faz — respondi. — Espaguete está bom. — Então, tá. Eu faço daqui a pouco. — Tá bom. Posso te ajudar se você quiser. — Tanto faz — ela respondeu. — A gente vê depois. — Ela se inclinou para frente, pegou uma caneta que estava ao lado do seu pé e tirou a tampa. Eu vi que tinha algo escrito no topo da página do caderno no colo dela. Fiquei imaginando sobre o que ela escrevia. Logo depois, ela me olhou. — O que foi? — Nada — respondi, me dando conta de que ainda estava lá parada, olhando para ela. — Até daqui a pouquinho. Voltei para meu quarto, sentei na cama e peguei o iPod do Owen. Parecia estranho e um pouco errado eu estar com ele no meu quarto, sem falar nas minhas mãos. Mesmo assim, me vi pegando o fone de ouvido e apertando o botão para ligar o aparelho. Depois de um segundo, a tela ligou. Quando o menu apareceu, apertei em MÚSICAS. Havia 9.987 músicas para escolher. "Caramba", pensei, enquanto passava os dedos no sensor para explorar a lista. Lembrei-me do que ele dissera sobre abafar as coisas. Foi o que ele fez durante o divórcio, mas também me dei conta de que todos os dias, quando ele andava para todo lugar com os fones de ouvido, dez mil músicas podiam preencher muito silêncio. Cliquei novamente no menu e escolhi as PLAYLISTS. Outra lista enorme apareceu: PROGRAMA 12/08, PROGRAMA 19/08, CANTOS (IMPORTADO). E então: ANNABEL. Eu tirei meu dedo do botão. "Devem ser aqueles CDs que ele gravou para mim", pensei. Mesmo assim, hesitei assim como tinha feito anteriormente no carro dele, querendo saber, mas ao mesmo tampo não querendo. Mas dessa vez, eu cedi. Quando apertei o botão, a imagem na tela mudou e uma lista de músicas apareceu. A primeira era "Jennifer", de uma banda chamada Lipo, cujo nome não me era estranho. Também familiar foi a segunda música, "Descartes Dream", da Misanthrope, que acabei ouvindo. Rapidamente, eu reconheci essa como sendo uma das músicas tocadas no primeiro programa do Owen que eu ouvi, das quais não gostei, mas ouvi. E discuti com ele depois. Estavam todas lá. Cada música sobre a qual conversamos ou discutimos, listadas com cuidado. Os cantos maias, da primeira vez que ele me deu carona.


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"Thank you" do Led Zeppelin, de quando eu dei carona para ele. Tinha muita música eletrônica e música thrash metal. Até Jenny Reef. Ao ouvir um pouco de cada música, pensei em todas as vezes que vi Owen com fone de ouvido e fiquei imaginando o que ele estaria escutando, em vez de em que ele estava pensando. Quem imaginaria que talvez pudesse ser em mim? Eu olhei para o relógio — eram 16h55. Com certeza, Owen já deveria ter sentido falta dele. Nada demais. Eu iria até a casa dele e deixaria o Ipod lá. Simples. Mas, descendo as escadas, ouvi um barulho, seguido de um abafado "merda!". Quando coloquei a cabeça na cozinha, Whitney estava colocando uma panela de volta no armário. — Tá tudo bem? — perguntei. — Tá. — Ela se ergueu e tirou o cabelo do rosto. Na ilha na frente dela, havia um pote de molho para macarrão, uma caixa de espaguete, uma tábua de cortar com pimentão e pepino e um saco de alface. — Você vai sair ou algo assim? — Hum — eu disse. — Eu ia... Bem rapidinho. A não ser que você queira que eu... — Não, tá tudo bem. — Ela pegou uma caixa de espaguete e estreitou os olhos para ler a caixa. — Ah. Tá bom — eu disse. — Bem, eu volto em... — É só que... — Ela colocou a caixa no balcão. — Eu não sei direito qual panela usar para cozinhar macarrão. Eu coloquei a jaqueta do Owen na mesa e fui para perto do fogão. — Esta aqui — disse a ela, colocando uma panela grande e o escorredor que encaixava nela. — É mais fácil escorrer o macarrão assim. — Ah — ela disse. — É isso aí. Levei a panela para a pia, enchi de água e a coloquei no fogão. Senti que ela me observava quando liguei o fogo. — Vai demorar um pouco — eu lhe disse. — Se você tampar a panela, é mais rápido. Ela acenou com a cabeça.


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— Ok. Voltei para a cadeira onde tinha deixado o casaco do Owen e fiquei lá, parada, observando-a pegar no armário uma panela pequena e colocá-la no fogão. Depois, ela pegou o molho, abriu e colocou na panela. Tudo isso ela fez vagarosamente e com cuidado, como se estivesse repartindo átomos. O que não era de surpreender porque Whitney quase nunca cozinhava. Minha mãe monitorava todas as refeições dela, preparava lanches e sanduíches, até o cereal que ela comia no café da manhã; me dei conta de que aquela cena era estranha e que ela deveria pensar o mesmo, principalmente estando sozinha. — Você quer ajuda? — perguntei enquanto ela pegava uma colher da gaveta ao lado do fogão e colocava no molho de tomate, mexendo com insegurança. — Por mim, tudo bem. Por um minuto, ela não disse nada e eu fiquei pensando que talvez a tivesse ofendido. Mas, aí, sem se virar, ela disse: — Claro. Quer dizer, se você quiser. Então, naquela noite, pela primeira vez que eu me lembre, fiz o jantar com a minha irmã. Nós não conversamos muito além das perguntas ocasionais feitas por ela (colocar o forno em qual temperatura para o pão de alho, ou fazer quanto espaguete) e eu respondendo (350°C, o pacote inteiro). Arrumei a mesa enquanto ela preparava a salada do seu jeito lento e metódico, cortando as verduras e legumes com muito cuidado, e os organizando de acordo com a cor sobre a tábua. Quando tudo ficou pronto, Whitney e eu fomos juntas para a sala de jantar, só nós duas. Ao me sentar na cadeira, olhei para os vasinhos na janela. — Eles ficaram bonitos lá — eu disse, enquanto ela se sentava. — Acho que sim — ela respondeu pegando o guardanapo. O prato dela tinha muita salada e só um pouquinho de macarrão, mas eu não disse nada, porque sabia que minha mãe diria. — Agora eles só precisam crescer. Enrolei macarrão no meu garfo e comi um pouco. — Está muito bom — eu lhe disse. — Perfeito. — É macarrão — ela disse dando de ombros. — É fácil. — Nem sempre — eu lhe disse. — Se você não cozinha o suficiente, fica duro no meio. E se cozinha demais, fica empapado. É uma linha tênue.


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— Sério? — ela disse. Fiz que sim com a cabeça. Ficamos um tempo em silêncio, só comendo. Eu olhei novamente para as panelas, para o campo de golfe do lado de fora, tão verde que parecia de mentira. — Obrigada — Whitney disse. Eu não entendi direito se era por causa do elogio que fiz à comida, ou à salada, ou apenas por ficar por ali. E também não me importava. Fiquei contente em ouvir aquilo, seja lá por qual motivo. — De nada — eu disse, e ela balançou levemente a cabeça. Do lado de fora, um carro que passava desacelerou e o motorista olhou para nós antes de continuar.


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Onze — É a Annabel! Eu nem tinha tirado o dedo da campainha da casa do Owen e, não sei como, a Mallory já estava do outro lado. Logo depois, a maçaneta girou e a porta se abriu. Quase não a reconheci no primeiro momento, pois ela estava usando maquiagem demais: base, delineador e sombra, muito blush e cílios postiços, que estavam mal colocados e grudados na sua sobrancelha. Ela também usava um vestido tomara que caia justo e preto, além de sandálias de salto bem alto que a faziam balançar ao abrir a porta. Amontoadas em volta dela e me olhando estavam quatro outras meninas igualmente maquiadas e vestidas: uma garota baixa, de cabelo escuro e óculos, usando um vestido preto e salto anabela, duas ruivas idênticas de olhos verdes e sardinhas, ambas de calça jeans e blusinhas curtas, e uma loira cheinha com um vestido que parecia de baile. Na porta, o cheiro de laquê era muito forte. — Annabel! — gritou Mallory, pulando. Seu cabelo, preso bem alto fazendo uma espécie de falso moicano, não se mexeu. — Oi! — Oi! — eu disse. — O que você... Antes de eu conseguir terminar, ela esticou o braço, pegou a minha mão e me puxou para dentro. — Gente — ela disse enquanto as outras garotas deram um passo para trás, ainda me olhando —, ai, meu Deus, esta é a Annabel Greene, vocês acreditam? A loira de vestido de baile me estudou de cima a baixo, franzindo seus lábios cor-de-rosa, e disse: — Você fez aquele comercial. — Dã! — disse Mallory. Ela levantou a mão e finalmente arrumou os cílios


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postiços. — É a garota da Kopf. E uma modelo da Lakerview. — O que você está fazendo aqui? — uma das ruivas perguntou. — Bem — eu disse —, eu estava aqui perto e ... — Ela é amiga do meu irmão. E minha. — Mallory apertou novamente minha mão e senti sua palma quente contra a minha. Para mim ela disse: — Você chegou na hora para a sessão de fotos. Pode nos ajudar com as poses. — Na verdade, eu não posso ficar — eu disse. — Só estou fazendo uma parada rápida. E foi o que eu disse a Whitney depois do jantar. Que eu tinha que entregar algo na casa de um amigo e que voltaria em uma hora. Ela balançou levemente a cabeça, concordando, mas me olhou de um jeito meio estranho, como se estivesse imaginando se eu voltaria para casa com cheiro de bacon novamente. — Você gostou da minha roupa? — Mallory perguntou, fazendo uma pose: uma mão atrás do pescoço e olhos em direção ao teto. Ela ficou parada naquela posição e um pouco depois voltou para sua posição normal. — Nós estamos fazendo vários books diferentes. Eu sou Noite Elegante. — Nós somos Manhã Informal — me contou uma das ruivas, colocando uma mão no quadril. A irmã, que era mais sardenta, concordou muito séria e acenando com a cabeça. Eu olhei para a garota de óculos e cabelo preto. — Trabalho e Classe — ela murmurou, arrumando o vestido preto. — E eu — a loira anunciou, girando para o vestido armar — sou Noivado dos Sonhos. — Não, não é — disse Mallory. — Você é Noite de Gala. — Noivado dos Sonhos — a loira insistiu, girando novamente. Para mim, ela acrescentou: — Este vestido custou... — Quatrocentos dólares, a gente já sabe, já sabe! — disse Mallory, irritada. — Ela acha que isso é importante só porque a irmã dela foi debutante. — Nós vamos tirar as fotos? — perguntou uma das ruivas. — Estou cansada de ser Manhã Informal. Eu quero usar um vestido.


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— Daqui a pouco! — disse Mallory, irritada. — Primeiro, a Annabel tem que ver o meu quarto. Depois ela pode nos ajudar com nosso visual. Ela começou a me puxar em direção à escada, as outras meninas atrás de nós, fazendo barulho com seus sapatos de salto. — O Owen está? — perguntei. — Em algum lugar — ela disse enquanto começamos a subir a escada. A garota do cabelo preto estava agora do meu lado me examinando com uma expressão muito séria, enquanto as outras três cochichavam atrás de mim. — Você deveria ver as fotos que tiramos na casa da Michelle, ficaram muito boas! Eu usei uma roupa que chamei de Elegância Européia. Ficou um arraso. — Elegância Européia? — perguntei. Ela acenou positivamente a cabeça. — Eu usei uma boina e uma saia plissada e posei com uma baguete. Ficou incrível. — Eu quero ser Elegância Européia — a garota de preto disse. — Esse vestido é chato. E por que você sempre é Noite Elegante? — Espere um segundo! — Mallory disse quando chegamos diante de uma porta fechada onde ela parou, cruzando os braços. — Certo — ela disse. Os cílios postiços tinham ficado frouxos novamente. — Preparem-se para a experiência mais incrivelmente incrível do mundo das modelos. Isso não me pareceu muito promissor. Olhei para trás e as outras garotas continuavam me olhando. Eu me virei para Mallory. — Tá bom — eu disse lentamente. Ela girou a maçaneta e abriu a porta. — Aqui está — ela disse. — Vocês acreditam? Eu não acreditava. As paredes em minha frente e ao lado estavam cobertas do chão ao teto com figuras de revistas. Modelo após modelo, anúncio após anúncio, celebridade após celebridade. Havia loiras, morenas, ruivas. Alta-costura, moda baile, moda passeio, moda do showbiz. Vários rostos bonitos com maçãs do rosto protuberantes, fazendo pose de um jeito, de outro, de todos os jeitos possíveis. Havia tantas fotos que não dava nem para ver a parede atrás delas.


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— E aí? — Mallory disse. — O que você acha? Verdade seja dita, tudo aquilo era muito forte, mesmo antes de ela me puxar para a frente, apontando para um rosto em especial. Só depois de chegar bem perto percebi que era eu. — Viu? — ela perguntou. — Esta é do calendário da Lakerview Models do ano passado, quando você foi o mês de abril e posou com os pneus. Lembra? Fiz que sim com a cabeça e logo ela estava me puxando um pouco para a direita, apontando novamente. Enquanto isso, as outras garotas tinham se espalhado: as ruivas pularam em cima da cama onde ficaram folheando uma pilha de revistas, enquanto a loira e a garota de cabelos escuros disputavam para sentar na cadeira que ficava de frente para a penteadeira. — E este — disse Mallory, seu dedo muito próximo à parede — é o anúncio da Boca Tan que estava no programa de um jogo de basquete a que eu fui ano passado, na universidade. O seu cabelo está mais loiro na foto, não é? — É — eu disse. Eu também estava meio laranja. Tão estranho. Eu já tinha esquecido completamente disso. — Com certeza. Mais um puxão e as fotos passavam na minha frente como um borrão enquanto avançávamos, mas dessa vez na direção oposta, parando na parede à direita. — Mas esta aqui — ela disse — é minha favorita. É por isso que ela está ao lado da minha cama. Eu me abaixei para ver mais de perto. Era uma colagem de fotos do comercial de volta às aulas da Kopf: eu de uniforme de líder de torcida, sentada no banco com as garotas atrás de mim, sentada em uma carteira, nos braços de um garoto bonito de smoking. — Onde você conseguiu essas fotos? — eu perguntei a ela. — Eu congelei as imagens — ela disse cheia de orgulho. — Eu gravei o comercial em DVD, depois fiz o upload e salvei as imagens no meu computador. Legal, né? Eu me inclinei para olhar ainda mais de perto, me lembrando, como em todas as vezes que vi o comercial, daquele dia de abril quando o filmei. Eu era muito diferente naquela época, tudo era diferente naquela época.


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Mallory largou minha mão e se inclinou ao meu lado. — Eu adoro esse comercial! — ela disse. — Primeiro gostei dele por causa do uniforme de líder de torcida, porque na época eu fiquei muito interessada nisso, era verão e tal, sabe? Mas depois vi que gostava de tudo, das roupas, da história... É incrível! — A história — eu disse. — É. — Ela se virou para me olhar. — Sabe, que você é essa garota e está voltando para a escola depois de umas férias maravilhosas. — Ah — eu disse. — Pois é. — Primeiro é, ahn, são todas as coisas que acontecem logo no começo das aulas. Como ser líder de torcida em um grande jogo. E estudando para provas e conversando com os amigos no pátio. "Conversando com os amigos no pátio", pensei. "Até parece." — E depois — ela disse — termina com o primeiro baile, quando você fica com o cara, bonitão, o que significa que o resto do ano vai ser ainda melhor — ela suspirou. — É como se você tivesse essa vida maravilhosa, cheia de coisas legais. Todas as coisas que deveriam fazer parte do colégio. Você é... Eu olhei para ela novamente. Seu rosto estava bem próximo das fotos e ela continuava olhando para elas. — A garota que tem tudo — eu disse, me lembrando das palavras do diretor. Ela virou o rosto em minha direção e disse: — Exatamente. Eu queria dizer para ela naquele exato momento que isso não era verdade. Que eu estava longe de ser a garota que tem tudo. Que nem era mais aquela garota nas fotos, se é que algum dia eu fui. A vida de ninguém é daquele jeito, feita apenas de momentos gloriosos, principalmente a minha. Uma seqüência de fotos da minha volta às aulas seria algo completamente diferente: a linda boca de Sophie emitindo um palavrão, Will Cash sorrindo para mim, eu sozinha atrás do prédio vomitando na grama. Essa era a verdade sobre a minha volta à escola. E a história da minha vida. Ouvi passos pesados no corredor e depois um suspiro alto.


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— Mallory, eu já disse, se você quiser que eu tire as fotos, vamos logo com isso. Eu tenho um programa para preparar e não... Eu me levantei. Owen estava parado em frente à porta aberta. Quando ele me viu, arregalou os olhos. —... Tenho a noite toda — ele terminou. — Ei. O que você está fazendo aqui? — Ela veio para a minha festa — Mallory lhe disse. Owen estreitou os olhos. — Você veio para isso? — Você está ajudando na sessão de fotos? — respondi. — Não — ele disse. — Eu só... — Nós precisávamos de um fotógrafo — Mallory me explicou. — Para as fotos do grupo. E agora nós temos uma estilista também! Está perfeito — ela bateu palmas. — Beleza! Gente, todo mundo descendo e em suas posições. Nós vamos fazer as fotos do grupo primeiro e depois faremos as individuais. Quem está com a lista para as fotos? A garota de cabelos escuros se levantou da cadeira ao lado do espelho, colocou a mão no bolso e tirou uma folha dobrada. — Aqui — ela disse. — Tá - Owen disse enquanto Mallory pegou a folha da mão da garota —, agora me diga de verdade por que você está aqui. — Moda é minha vida — eu disse a ele. — Você sabe disso. Mallory pigarreou. — Primeiro o Manhã Informal — ela disse apontando para as ruivas —, depois Trabalho e Classe, Noite Elegante e Noite de Gala. — Noivado dos Sonhos — a loira a corrigiu. — Todo mundo descendo! — Mallory disse. — Vamos! As ruivas desceram da cama em direção à porta, e a garota de cabelos escuros e vestido preto as seguiu. Já a loira não se apressou e me olhou seriamente ao passar.


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— Oi, Owen — ela disse ao passar por ele com a cauda do seu vestido se arrastando no carpete. Owen a cumprimentou com uma expressão séria. — Olá, Elinor - ele disse. Ao ouvir seu nome, seu rosto ficou vermelho e ela se apressou até a porta e pelo corredor, onde foi recebida com risadinhas das amigas. Mallory seguiu as amigas, depois parou na porta e se virou para nós. — Owen — ela disse —, vou precisar de você lá embaixo em cinco minutos pronto para tirar as fotos. Annabel, você cuida do estilo e supervisiona tudo. — Olha como você fala, Mallory — Owen lhe disse. — Ou vocês só vão acabar tirando auto-retratos. — Cinco minutos! — ela disse. E saiu fazendo barulho com o sapato de salto e descendo as escadas. Sua voz ia ficando mais alta conforme ela continuava dando ordens para as amigas. — Uau! — eu disse para Owen. — É uma produção e tanto! — Nem me fale — concordou, sentando-se na ponta da cama. — E lembre-se do que eu vou dizer: vai terminar em lágrimas. Sempre termina. Essas garotas não têm a menor noção de pensamento direcionado ao meio. — Pensamento direcionado ao quê? — Ao meio — ele repetiu enquanto eu me sentava ao seu lado. — É um termo do Gerenciamento de Raiva. Quer dizer não pensar somente nos extremos. Sabe, ou se tem o que quer ou não se tem. Ou estou certo ou errado. — Ou sou Noivado dos Sonhos ou Noite de Gala — eu acrescentei. — Isso. É perigoso pensar assim, porque as coisas não são tão bem definidas — ele disse. — A não ser, pelo visto, que você tenha treze anos. — A Miss Noivado dos Sonhos tem certo ar de diva. — A Elinor? — ele respirou fundo. — Ela é uma figura. — Ela parece gostar bastante de você. — Nem começa — ele disse, me dando um olhar bravo.


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— Isso é Linguagem-I pura. — Você sabe de toda essa história que há entre fotógrafos e modelos ficando juntos — eu disse, cutucando-o com meu joelho. — É quase um requisito. — Por que você veio aqui mesmo? — Só vim deixar isto aqui. — Mostrei a jaqueta dele. — Esqueci de devolver hoje de manhã. — Ah — ele disse. — Obrigado, mas você poderia ter esperado até terça-feira se quisesse. — Eu teria esperado — eu disse, colocando a mão no bolso e tirando o iPod —, mas então achei isto. Ele arregalou os olhos. — Nossa — ele disse, pegando o aparelhinho. — Disso eu teria sentido falta. — Imaginei que você já tivesse sentido. — Ainda não — ele disse. — Mas vou preparar o programa da semana que vem daqui a pouco, então logo sentiria falta. Obrigado. — De nada. De repente, ouvimos muito barulho vindo do andar de baixo e parecia que alguém estava gritando de alegria ou choramingando. — Tá vendo? — disse Owen, apontando para a porta aberta. — Lágrimas. Garantidas. Não há meio-termo. — Talvez nós devêssemos ficar escondidos por aqui — eu disse. — Talvez seja mais seguro. — Eu não sei — ele disse, olhando para as paredes a nossa volta, — Todas essas fotos me dão arrepios. — Pelo menos você não está em nenhuma delas. — Você está? Tem fotos suas aqui? Eu apontei para as fotos do comercial. Ele se levantou e andou em direção a


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elas para vê-las de perto. — Não é nada demais — eu disse. — De verdade. Ele ficou estudando as fotos tempo suficiente para eu me arrepender de tê-las mostrado. — É estranho — ele disse. — Nossa — eu disse. — Muito obrigada. — Não, quero dizer, você não parece ser você, sei lá, — Ele ficou em silêncio e se aproximou mais ainda. — É. Quero dizer, se parece com você, mas não é a mesma pessoa de jeito nenhum. Por um momento, fiquei lá sentada, estranhando aquilo porque na verdade era assim que eu me sentia quando olhava para os antigos anúncios que tinha feito, principalmente o comercial da Kopf. Aquela garota era de fato diferente de quem eu era naquele momento, menos machucada e menos magoada do que aquela que eu via no espelho ultimamente. É que eu pensei ser a única que percebia isso. — Sem querer ofender — disse Owen. Eu balancei a cabeça e disse: — Tudo bem! — Quero dizer, é uma boa foto — ele falou, olhando-a novamente. — Só acho que você está mais bonita agora. Em um primeiro momento, eu tive a impressão de ter ouvido errado. — Agora? — repeti. — É — ele olhou para mim. — O que você pensou que eu queria dizer? — Eu não... — comecei a falar, depois parei. — Deixa pra lá. — Você acha que eu ia te dizer que você era mais bonita na foto? — Bem — eu disse —, você é sincero. — Mas não sou um babaca — ele respondeu. — Você está bonita na foto. É que você não parece você. Você está... Diferente. — Diferente de ruim? — perguntei.


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— Diferente de diferente. — Isso foi super vago — eu observei. — É um marcador de posição, na verdade um marcador de posição duplo. — Você está certa — ele disse. — O que eu quero dizer é que ao olhar para a foto, eu penso, "Hum, essa não é a Annabel. Não se parece nem um pouco com ela". — Como eu sou, então? — Assim — ele disse, apontando para mim com a cabeça. — É o seguinte: eu não te vejo como uma pessoa que tira fotos usando uniforme de líder de torcida. Nem como modelo, ponto. Você não é essa pessoa para mim. Queria pedir para ele explicar um pouco mais, para me dizer como ele me via exatamente. Mas, então, percebi que talvez ele tivesse acabado de fazer isso. Eu já sabia que ele me via como uma pessoa sincera, honesta, direta e até engraçada — coisas que nunca pensei que eu fosse. Alguém que sabia o que mais eu poderia ser, que tipo de potencial existia entre aquela garota da foto e a que ele via agora. Muitas possibilidades. — Owen — gritou Mallory. — Estamos prontas! Owen revirou os olhos. Depois, ele veio em minha direção oferecendo a mão para me ajudar a levantar. — Beleza — ele disse. — Vamos lá. Observando-o, eu percebi que isso também fazia parte da minha volta às aulas: apesar de Sophie e Will e de todas as coisas horríveis, havia Owen me dando a mão. E agora, ao pegar na mão dele e apertar meus dedos contra os seus, eu estava mais agradecida do que nunca por finalmente ter um apoio. Owen estava certo sobre as lágrimas. Uma hora depois, o choro começou. — Não é justo — disse a garota de cabelos escuros, cujo nome agora eu sabia ser Ângela, com a voz trêmula. — Você está bonita — disse Mallory enquanto ajustava o boá. — Qual é o problema? Eu sabia qual era. Na verdade, era meio óbvio. Enquanto Mallory e as demais estavam se alternando entre Noite Elegante e Noite de Gala (ou, dependendo


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do ponto de vista, Noivado dos Sonhos), Ângela ficou sempre com o Trabalho e Classe, que era claramente o visual do qual elas menos gostavam. Agora, ela estava olhando para sua saia e blusa pretas e as sapatilhas. — Eu quero fazer o Noite Elegante — ela protestou. — Quando é a minha vez? — Owen! — disse Elinor, a loira, repuxando uma blusa tomara que caia justa. — Você está pronto para a minha vez? — Não — murmurou Owen enquanto ela andava em sua direção, jogando o cabelo e colocando a mão no quadril. — Estou longe disso. A sessão de fotos tinha toda uma produção. Além de terem afastado todos os móveis da sala de estar e colocado um lençol branco sobre o consolo da lareira para fazer um fundo, as garotas também arrumaram uma área para maquiagem e troca de roupa no lavabo e colocaram música de fundo (com artistas como Jenny Reef, Bitsy Bonds e Z104); a oferta que Owen fez de preparar um remix foi rejeitada unanimemente. — Ângela, a sua vez vai chegar — disse Mallory, que agora usava a parte de cima de um biquíni dourado, um sarongue e um boá sobre os ombros. — Mas o Trabalho e Classe é muito importante. Alguém tem que fazer. — E por que você não faz? Mallory suspirou, assoprando as plumas. — Porque minha aparência combina mais com noite — ela explicou, enquanto as ruivas, já de roupa de banho, praticavam para as fotos de praia jogando uma bola de vôlei uma para a outra. — Como você usa óculos, fica melhor com o visual sério de empresa. Eu olhei para Ângela, cujo lábio superior começava a tremer de leve. — Sabe — eu disse —, talvez ela possa tirar os óculos. — Estou pronta! — Elinor disse para Owen. — Vai! Tira as fotos! Owen, que estava parado na frente do sofá, tomou um susto e levantou a câmera em direção aos olhos. De acordo com a minha experiência, as modelos nunca ficam mandando nos fotógrafos, mas esse não era o caso ali, obviamente. Owen apenas mantinha seu dedo no botão, quase sem parar, enquanto as garotas se


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arrumavam. Agora, Elinor mandava um beijo para a câmera, e para ele, que ficou sem jeito. Como estilista, me informaram que minha função era ficar no lavabo para supervisionar o guarda-roupa, que consistia em pilhas de roupas e sapatos espalhados em cima de balcões, no chão e degraus da escada. Depois que minhas primeiras sugestões — menos decote e menos maquiagem para começar — foram completamente ignoradas, passei a maior parte do tempo observando Owen e tentando não rir. — Sabe — ele disse, quando Elinor se deitou no chão e começou a se contorcer na frente dele com seus cotovelos batendo no chão de madeira. —, acho que está quase na hora de acabar. — Mas nós ainda nem tiramos as fotos em grupo? — disse Mallory. — Então é melhor começar — ele retrucou. — Sua estilista e seu fotógrafo são pagos por hora e vocês não têm mais dinheiro para bancar a gente. — Tá bom, tá bom — resmungou Mallory, jogando o boá sobre o ombro. — Todas juntas na frente do cenário, agora! As ruivas pegaram suas bolas e se encaminharam para lá, enquanto Elinor ficou de pé, ajeitando novamente seu tomara que caia. Olhei para Ângela, que estava parada de braços cruzados na arcada da sala de estar e cujo lábio superior tremia muito. Três poderia ser gente demais, pensei. Mas cinco também. — Ei — eu disse, e ela se virou para me olhar. — Vem cá. Venha colocar uma outra roupa. Eu ouvi Mallory dizer a todas como elas deveriam posar enquanto Ângela me seguiu de volta ao vestiário, onde lhe mostrei as opções. — Este é bonito — eu disse, pegando uma saia vermelha. — O que você acha? E talvez nós possamos combiná-la com... — Dei uma olhada ao redor, depois peguei uma blusa preta de alcinha. — Isto. E sapatos de salto bem altos. Ela concordou, pegando a saia. — Ok — ela disse, andando pelo corredor em direção ao quarto. — Vou me trocar. — Isso — eu concordei. — Eu vou procurar o sapato.


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— Ângela! — gritou Mallory. — Precisamos de você aqui! — Só um segundinho — gritei, me abaixando e remexendo na pilha de sapatos. Peguei uma sandália de tirinhas e estava procurando pelo outro lado quando senti que alguém me observava. Quando olhei, Owen estava parado lá, segurando a câmera. — Um segundinho — eu disse. — Nós estamos trocando o visual. — Eu ouvi. — Ele entrou no vestiário, encostou-se à porta e ficou me observando. Eu finalmente achei a sandália, que estava debaixo de uma parka felpuda. — Foi muito legal você ajudar a menina. — Bom — eu disse —, o trabalho de modelo pode ser um negócio bem sujo. — Ah, é? Fiz que sim com a cabeça ao me levantar, olhando para o corredor para ver se Ângela aparecia, e depois me encostei ao lado oposto da porta, de frente para ele e com o sapato pendurado na mão. Em seguida, ele ergueu a câmera até o olho. — Não — eu disse, colocando a mão na frente do rosto. — Por que não? — Eu odeio que tirem foto minha. — Mas você é modelo. — Por isso mesmo — eu lhe disse. — Já tiram demais. — Ah, vai — ele disse. — Só uma. Eu abaixei minha mão, mas não sorri, enquanto a mão dele apertava o botão para tirar a foto. Fiquei apenas olhando para ele, através da lente, quando o flash disparou. — Bom — ele disse. — É? Ele acenou positivamente a cabeça, virando a câmera para eu poder olhar a tela. Dei um passo à frente e vi a foto. E lá estava eu, com o contorno da porta aparecendo atrás de mim. Meu cabelo parecia despenteado, alguns fios soltos no meu


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rosto, eu estava sem maquiagem e não era o meu melhor ângulo. Mas a foto até que ficou boa, eu me aproximei mais, estudando meu rosto, a luz fraca no fundo. — Está vendo? — Owen disse. Eu sentia seu ombro contra o meu e seu rosto a apenas alguns centímetros, enquanto nós dois olhávamos para a imagem. — É assim que você é. Eu virei a cabeça para responder ao comentário — o que, exatamente, eu não tinha a menor idéia — e sua bochecha estava muito próxima. Eu ergui meu olhar em sua direção, e então, antes de me dar conta do que estava acontecendo, ele virou um pouco a cabeça, inclinando-a na minha direção. Eu fechei os olhos e logo senti seus lábios macios contra os meus e me aproximei mais, pressionando meu corpo contra... — Só falta eu colocar os sapatos. Nós dois demos um pulo, assustados; Owen bateu a cabeça no batente da porta. — Merda — ele disse. Com meu coração batendo forte, eu olhei para Ângela, que nos observava com uma expressão séria. — Sapatos — eu disse, entregando-os. — Pronto. Owen passava a mão na cabeça e estava com os olhos fechados. — Meu — ele disse. — Isso dói. — Você está bem? — perguntei. Ele fez sinal positivo com a cabeça e eu estiquei o braço, tocando na sua têmpora, e mantive meus dedos lá um pouco, sentindo sua pele quente, macia, antes de tirar minha mão. — Owen! — gritou Mallory da sala de estar. — Estamos prontas! Vamos! Owen se desencostou do batente da porta e andou em direção à sala de estar, enquanto Ângela, já de sandálias, começou a segui-lo vagarosamente. Fiquei parada por um tempo, depois me olhei no banheiro do lavabo, espantada com o que tinha acabado de acontecer. Estudei meu reflexo durante um segundo, depois me afastei dele. Quando cheguei à sala de estar, todo o drama tinha sido esquecido e as fotos em grupo estavam a todo vapor. As cinco garotas faziam várias poses enquanto


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Owen se movia concentrado ao redor delas. Encostei-me ao arco da porta, observando a sessão enquanto cada uma das garotas fazia poses à sua maneira: uma jogada de quadril, uma virada de pescoço, cílios esvoaçantes. A música de fundo era exatamente o tipo que Owen odiava: muito pop, batidas dançantes e a voz perfeitamente arquitetada deslizando sem esforço na frente dos instrumentos. Mallory esticou o braço até o CD player que estava ao seu lado no chão, aumentando o volume, e as garotas começaram a dar gritinhos e a dançar com as mãos para cima. Owen saiu de perto enquanto elas se balançavam e giravam, virando a câmera na minha direção, e ficou lá, parado, quando as garotas passaram entre nós. Eu não sabia direito o que ele estava vendo, tinha apenas uma idéia. Então, dessa vez, eu sorri. Naquela mesma noite, quando estacionei o carro, todas as luzes de casa estavam apagadas, menos a do quarto da Whitney. Eu pude vê-la sentada com as pernas cruzadas sobre a cadeira em frente à janela. Ela tinha o mesmo caderno aberto em seu colo e estava escrevendo, sua mão se movia lentamente de um lado para o outro da página. Por algum tempo, fiquei parada olhando para ela, a única coisa que eu podia distinguir no escuro. Eu saí da casa de Owen bem na hora. Elinor, Ângela e as gêmeas, já cansadas tanto da sessão de fotos quanto do autoritarismo da Mallory, caíram em uma espécie de silêncio fashion. A casa estava uma bagunça e a mãe de Owen — que, pelo que entendi, era um pouco maníaca por limpeza — deveria chegar a qualquer momento. Eu me ofereci para ficar e ajudar a limpar a casa, ou fazer o papel de pacificadora, mas ele recusou. — Eu dou conta — ele disse, quando estávamos nos degraus da entrada da casa. — Se eu fosse você, iria embora enquanto pudesse. Só vai piorar daqui para frente. — Que otimista — eu disse. — Não — ele respondeu quando ouvimos um gritinho de indignação, seguido de uma porta batendo com força. Ele virou a cabeça para olhar para a porta e depois olhou para mim novamente. — Apenas realista. Eu sorri, depois desci um degrau, tirando as chaves do meu bolso. — Então vejo você na escola. — Nenhum de nós se mexeu e me perguntei se ele me beijaria novamente. — Ok — eu disse, sentindo meu estômago revirar. — Eu... É... Vou indo.


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— Certo. — Ele deu um passo para frente, ficando mais perto da borda do degrau, e eu fiz a mesma coisa, encontrando-o no meio do caminho. Enquanto ele se inclinava para baixo em minha direção e eu fechava os olhos, ouvi um barulho, um toe toe toe, que ficava cada vez mais alto e mais próximo. A maçaneta da porta fez um ruído, e demos um pulo quando Mallory, que usava um sapato de salto grosso, um macacão preto bem colado no corpo e um boá verde, apareceu apressada na varanda da frente. — Espere! — ela disse, dando passos barulhentos em minha direção com a mão esticada. — Tome. São para você. Ela me deu uma pilha de fotos recém-saídas da impressora e tão fresquinhas que eu ainda podia sentir o cheiro da tinta. A primeira delas era uma foto da própria Mallory, usando biquíni dourado. A foto foi tirada de perto e as plumas do boá envolviam seu rosto. Eu olhei algumas das fotos, que incluíam algumas fotos em grupo, Elinor fazendo pose no chão e, finalmente, Ângela usando a roupa que eu escolhi para ela. — Uau! — eu disse. — Estão ótimas! — Elas são para você colocar na sua parede — ela disse. — Aí você pode olhar para mim de vez em quando. — Obrigada — eu lhe disse. — De nada. — Ela se virou para Owen. — Mamãe acabou de ligar do carro; Ela chega em dez minutos. — Certo — Owen disse, suspirando. Para mim, ele disse: — Te vejo depois. Fiz sinal positivo com a cabeça, e eles andaram em direção à casa. Pude ouvir as outras garotas discutindo. Mallory me deu tchau mais uma vez antes de fechar a porta. Logo depois, Owen disse algo e as garotas ficaram em silêncio, bem rápido. Quando voltei a descer os degraus, não ouvi mais nada. Agora, estava descendo do carro e andando com as fotos da Mallory na mão. Durante toda a volta para casa só consegui pensar no rosto de Owen se aproximando do meu, no que senti quando ele me beijou. Foi tão pouco tempo e mesmo assim inesquecível. Senti meu rosto ficar vermelho quando abri a porta, depois comecei a subir a escada. — Annabel? — Whitney chamou, quando cheguei ao topo. — É você?


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— Sim — eu disse. — Voltei. Quando estiquei o braço para abrir a porta do meu quarto, a do quarto dela se abriu e ela apareceu. — Mamãe ligou de novo — ela disse. — Eu disse a ela que você estava na casa de algum amigo. Ela perguntou de quem, mas eu disse que não sabia. Ficamos apenas nos olhando por um tempo e fiquei me perguntando se eu tinha que lhe dar mais explicações. — Obrigada — eu disse finalmente ao abrir a porta do quarto e acender a luz. Coloquei as fotos na cômoda, depois tirei meu casaco e o coloquei em cima da cadeira da minha escrivaninha. Quando me virei novamente, ela estava na porta. — Eu disse a ela que talvez você ligasse quando chegasse — ela falou. — Mas provavelmente não precisa. — Tá legal — eu disse. Ela se mexeu um pouco e encostou-se à parede. Ao fazer isso, viu as fotos. — O que é isso? — ela perguntou. — Ah, nada — eu disse. — É só... Bobagem. Ela pegou as fotos e começou a vê-las uma a uma. Sua expressão foi mudando de indiferente para curiosa e para um pouco horrorizada, ao ver a foto de Elinor deitada no chão. — A irmã mais nova do meu amigo estava dando uma festa do pijama de modelo — falei, andando em sua direção e parando ao seu lado, enquanto ela olhava as fotos. Havia as ruivas uma ao lado da outra fazendo uma pose imitando um espelho, e Ângela em seu vestido preto, o odiado Trabalho e Classe. Havia mais algumas fotos da Mallory de vários jeitos: pensativa, sonhadora e, talvez por causa de algo que Owen tenha dito, irritada. — Elas se arrumam e tiram fotos umas das outras. Whitney parou para estudar uma foto da Elinor usando um vestido branco e com ar pensativo. — Uau! — ela exclamou. — Esse look é bem legal! — O nome é Noivado dos Sonhos.


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— Hum — ela disse, trocando de foto, que era novamente de Elinor, só que, dessa vez, deitada no chão com a boca semi aberta. — Qual é o nome deste? — Eu acho que esse não tem nome — respondi. Ela não fez nenhum comentário, apenas passou para a próxima foto, que era a Mallory de blusa vermelha olhando para a câmera. Seus lábios estavam franzidos e seus cílios, enormes. — Ela é bonitinha — ela disse, inclinando um pouco a foto. — Uns olhos bonitos. — Nossa — eu disse, balançando a cabeça. — Ela iria enlouquecer se ouvisse você dizer isso. — Sério? Fiz que sim com a cabeça. — Ela é obcecada por modelos. Você deveria ver o quarto dela. É coberto de fotos de revistas por todo lugar. — Então, ela deve ter ficado muito animada de você estar lá — ela disse. — Uma modelo de verdade, ao vivo e em cores. — Acho que sim — eu disse, enquanto ela continuava vendo as fotos, que agora eram do grupo: um rosto ao lado do outro, depois cada uma olhando em uma direção, como se esperando por cinco ônibus diferentes. — Foi meio estranho para mim, na verdade. Whitney ficou em silêncio por algum tempo. Depois falou: — É. Eu sei o que você quer dizer. No meio de tantas coisas que tinham acontecido naquele fim de semana, agora eu me encontrava nesse surpreendente momento com a minha irmã. Finalmente, eu disse: — Quero dizer, nós nunca fizemos isso, sabe? Quando éramos crianças? — Nós não precisávamos — ela disse quando surgiu a foto da Ângela com seus olhos escuros muito sérios, a pele pálida no flash da câmera. — Nós vivíamos aquilo de verdade. — É — eu falei. — Mas isso talvez tivesse sido mais divertido. A pressão teria


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sido menor. Senti que ela me olhou rapidamente quando eu disse isso, e somente mais tarde demais percebi que ela pensava que eu estava falando sobre ela. Esperei que ela fosse ser grossa ou dizer algo maldoso, mas Whitney não falou nada e apenas me devolveu as fotos. — Bom — ela disse. — Acho que a gente nunca vai saber. Quando ela se dirigiu para o corredor, olhei para as fotos e aquela da Mallory de boá estava de volta ao topo da pilha. — Durma bem — eu disse. — É. — Ela me olhou e a luz atrás dela me fez ficar impressionada com a perfeição da sua maçã do rosto e dos seus lábios, tão impressionante e acidental ao mesmo tempo. — Boa noite, Annabel. Mais tarde, quando fui para a cama, peguei as fotos novamente e me deitei enquanto olhava uma a uma. Depois de ver todas duas vezes, me levantei, fui até a escrivaninha e comecei a mexer na primeira gaveta até encontrar algumas tachinhas. Em seguida, pendurei as fotos, em fileiras de três, na parede logo acima do meu rádio. Para você olhar para mim às vezes, disse Mallory, e foi o que fiz ao apagar a luz. A luz da lua que entrava pelo quarto iluminava as fotos, fazendo-as brilhar, e eu mantive meu olhar sobre elas o quanto pude. Depois de um tempo, percebi que estava quase dormindo e tive que virar para o outo lado, para o escuro novamente.


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Doze Minha mãe voltou das suas primeiras férias em mais de um ano descansada, com as unhas feitas, e rejuvenescida. O que teria sido ótimo, se a sua energia renovada não tivesse sido toda direcionada para a coisa em que eu menos queria pensar, mas não podia evitar: o DESFILE DE OUTONO DA LAKERVIEW MODELS. — Então, você tem ir para a Kopf hoje para provar roupas e amanhã para o ensaio — ela avisou enquanto eu beliscava meu café da manhã antes de ir para a escola. — E o ensaio final é na sexta-feira. Você está marcada para fazer o cabelo na quinta-feira e as unhas no sábado de manhã, bem cedo. Tudo bem? Depois de um fim de semana inteiro só para mim, sem falar dos últimos meses com poucos compromissos, não, isso não estava bem. Era um saco. Mas eu não disse nada. Por mais que estivesse odiando a semana e o desfile, pelo menos eu tinha algo pelo qual estava ansiosa para fazer: ir ao Bendo com Owen. — Sabe, me dei conta de uma coisa semana passada — disse minha mãe. — O pessoal da Kopf deve estar quase para começar a fazer a seleção para a campanha da primavera. Então, essa é uma ótima oportunidade para eles te verem pessoalmente, você não acha? Ao ouvir isso, senti uma pontada de medo, sabendo que deveria contar a ela que eu queria parar de trabalhar como modelo. Mas me lembrei de quando eu e Owen simulamos essa situação e que, mesmo sabendo que aquilo não era real, não tinha conseguido nem emitir as palavras. Na minha frente, minha mãe estava dando um gole do seu café e eu sabia que esse, agora, era o momento perfeito. Ela tinha deixado cair o suéter e eu poderia pegá-lo. Mas, assim como Rolly, congelei. E fiquei em silêncio. Depois, eu disse a mim mesma: depois do desfile. Ao mesmo tempo em que eu estaria andando em uma passarela no shopping com roupas de inverno, minha irmã Kirsten também estaria na frente de uma multidão, mas por outro motivo. No dia anterior, ela finalmente tinha me enviado o e-


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mail com o curta-metragem, como tinha prometido. Por estar muito acostumada a ver Kirsten explicando — ou explicando demais — tudo o que fizesse parte da vida dela, a mensagem que ela me mandou junto com o filme realmente me surpreendeu. Oi, Annabel, aqui está. Diga depois o que achou. Com amor, K. Minha primeira reação foi procurar pelo resto da mensagem — se minha irmã falava muito ao telefone, seus e-mails eram igualmente verborrágicos. Mas não havia mais nada escrito. Eu apertei o botão FAZER DOWNLOAD, e vi os quadrados azuis encherem a tela. Quando terminou, apertei o PLAY. A primeira tomada era da grama, verde, bonita, igual à grama do campo de golfe do outro lado da rua, ou seja, cheia de química. Ela preenchia a tela de um lado ao outro. Depois, a câmera se afastou até mostrar que se tratava do quintal de uma casa branca com batentes de um azul bonito, e duas figuras de bicicleta passando rapidamente. A câmera cortou e de repente estávamos vendo duas garotas andando de bicicleta em nossa direção. Uma era loira e parecia ter uns treze anos e a outra, morena, era mais magra e mais esguia, e vinha um pouco atrás. De repente, a garota que estava na frente olhou para a outra, que estava atrás, e começou a pedalar cada vez mais rápido, afastando-se dela. Quando ela fez isso, a câmera se revezou entre cortar para a imagem da menina pedalando com o cabelo ao vento e para imagens bonitas da vizinhança: um cachorro dormindo na calçada, um homem pegando o jornal, o céu azul, um irrigador jorrando água em um arco sobre um canteiro de flores. Conforme ela continuava e aumentava a velocidade, as imagens passavam mais rápido, se repetindo até a câmera cortar para uma tomada da rua à frente da menina, onde aparecia um cruzamento. Ela derrapou para frear e se virou para trás. Atrás dela, longe, era possível ver uma bicicleta caída no meio da rua, uma das rodas girando, a garotinha mais nova sentada ao lado, segurando seu braço. A tomada seguinte foi da garota loira parando ao lado dela. — O que aconteceu? — ela perguntou. A garota mais nova balançou a cabeça. — Eu não sei — respondeu. A loira se inclinou para frente, mais perto.


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— Pronto — ela disse. — Sobe aqui. Na cena seguinte, a menor estava sentada no guidão, ainda segurando um dos braços, enquanto a loira pedalava pela rua. Novamente, a câmera se revezou entre imagens das duas e da vizinhança, mas agora ambas eram diferentes: o cachorro estava agitado e latindo quando elas passaram, o homem tropeçou quando foi pegar o jornal, o céu estava cinza, o irrigador fazia muito barulho enquanto a água caía em cima de um carro estacionado. Era o mesmo cenário, porém muito diferente, e quando a casa surgiu, de longe, estava diferente também. A loirinha pedalou até a entrada, enquanto a câmera se afastava, e depois parou para a menina menor sair de cima do guidão, sempre segurando o braço. Elas deixaram a bicicleta na grama e andaram em direção à casa. Subiram os degraus de entrada. A porta se abriu para elas, mas não dava para ver quem estava do outro lado. Quando elas desapareceram dentro da casa, a câmera foi baixando até só aparecer grama na tela, de um lado a outro, assustadoramente verde e brilhante e artificial. E terminou. Fiquei sentada sem me mexer por um tempo, olhando para a tela. Então, apertei o PLAY e o assisti novamente. E ainda uma terceira vez. Eu ainda não sabia direito o que pensar, mesmo quando peguei o telefone e liguei para Kirsten. No entanto, quando ela atendeu e lhe contei que gostei, mas não entendi, ela não ficou chateada. Ao contrário, ela disse que era esse o objetivo. — Qual, me deixar confusa? — perguntei. — Não — ela disse —, que o significado não seja óbvio. É para você fazer sua própria interpretação. — Sim, mas você sabe qual o significado — falei —, certo? — Claro. — Que é...? Ela suspirou e respondeu: — Eu sei o que ele significa para mim. Para você, será diferente. Olha, filme é uma coisa pessoal. Não há mensagem certa ou errada. Depende de como você o vê. Eu olhei de novo para a tela, que estava pausada na última cena, a da grama verde. — Ah — eu disse. — Certo.


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Isso era muito estranho. Aqui estava a minha irmã, a rainha da superexposição, resistindo em contar algo. Escondendo algo. Eu estava acostumada a ter que adivinhar coisas de algumas pessoas, mas esse nunca foi o caso da Kirsten, e eu não tinha certeza se tinha gostado da idéia. Ela, por outro lado, estava com a voz animada de um jeito que eu não ouvia fazia meses. — Estou tão feliz por você ter gostado do filme. E teve uma reação tão forte! — Ela riu. — Agora eu só preciso que todas as pessoas que vejam o filme sábado se sintam do mesmo jeito, e tudo vai dar certo. "Certo pra você", pensei, alguns minutos depois de termos desligado. Quanto a mim, eu ainda estava confusa. E não podia deixar de admitir que também estava encafifada. Pelo menos o suficiente para ver o filme mais duas vezes, estudando-o quadro a quadro. Agora, enquanto meu pai entrava apressado na cozinha e minha mãe conversava com ele na maior afobação, levei meu prato para a pia e joguei um pouco de água nele. Pela janela, pude ver Whitney sentada em uma chaise ao lado da piscina, com uma xícara de café. Geralmente, ela ainda estava dormindo a essa hora, mas nos últimos tempos tinha começado a acordar cedo. Essa era apenas uma das mudanças ocorridas recentemente. A princípio, elas eram pequenas, mas mesmo assim perceptíveis. Ela de repente ficou mais sociável — alguns dias antes tinha saído para tomar café com algumas pessoas do grupo da Moira Bell — e também começou a trabalhar algumas manhãs no escritório do meu pai atendendo ao telefone, substituindo mais uma secretária grávida. Em casa, ela começou a passar mais tempo fora do quarto. Isso aconteceu em etapas: primeiro, a porta que ficava sempre fechada passou a ficar entreaberta, depois ela a deixava aberta de vez em quando. Mais tarde, percebi que ela começou a circular pela sala de estar em vez de ficar trancada lá em cima. E, no dia anterior, eu voltei para casa depois da escola e a vi sentada à mesa de jantar, rodeada por pilhas de livros, escrevendo em um bloco de fichário. Fui ignorada por tanto tempo que ainda hesitava antes de me dirigir a Whitney. Porém, dessa vez, foi ela quem veio falar comigo. — Ei — ela disse, sem levantar o olhar. — Mamãe está por aí resolvendo umas coisas. Ela disse para você não se esquecer do ensaio às quatro e meia. — Tá legal — eu disse. Seu braço estava dobrado em cima do bloco e a caneta fazia barulho ao se movimentar sobre o papel. Na janela, os vasos com ervas estavam sob a luz do sol, mas ainda não tinham demonstrado nenhum sinal de que


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iriam brotar. — O que você está fazendo? — Eu tenho que escrever uma história. — Uma história? — repeti. — Sobre o quê? — Bem, na verdade, são duas histórias. — Ela deixou a caneta de lado e alongou os dedos. — Uma sobre a minha vida. E outra sobre meu distúrbio alimentar. Ouvi-la dizer isso me pareceu estranho e depois de um segundo eu percebi qual era o motivo. Apesar de o problema da Whitney ter dominado a nossa dinâmica familiar havia quase um ano, eu nunca a tinha ouvido admiti-lo em voz alta. Assim como acontecia com muitas outras coisas, todos sabiam sobre ele, mas ninguém discutia; ele estava presente, mas não era considerado oficialmente. Porém, pelo jeito corriqueiro com o qual ela falou aquilo, me pareceu que pelo menos ela estava acostumada — Então, são duas coisas separadas? — perguntei. — Parece que sim. Pelo menos de acordo com a Moira — Ela respirou fundo, mas dessa vez, ao mencionar o nome da sua terapeuta, parecia mais cansada do que irritada. — A idéia é a de que existe uma separação, mesmo que não seja o que pareça. E de que nós tínhamos uma vida antes do distúrbio. Eu me aproximei da mesa, olhando para os livros empilhados. Faminta por atenção: distúrbios alimentares e adolescentes era o título de um; havia um menor chamado A fome dói. — Então, você tem que ler todos esses livros? — Não é que eu tenho que ler. — Ela pegou a caneta novamente. — Eles servem apenas para trazer mais informações aos fatos, caso eu precise. Mas a história pessoal se trata apenas das minhas lembranças. Nós temos que escrever um ano de cada vez. — Ela apontou com a cabeça para o bloco à frente dela, e eu vi que ela tinha escrito ONZE (11). O resto da página estava em branco. — Deve ser um pouco estranho — falei. — Lembrar de ano após ano. — É difícil. Mais difícil do que eu pensava. — Ela abriu um livro ao lado do seu cotovelo e começou a folheá-lo, depois o fechou. — Eu não me lembro muito, não sei por quê.


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Olhei novamente para os vasos e vi a luz do sol batendo neles. Pela janela e do outro lado da rua, o campo de golfe estava verde e brilhante. — Você quebrou o braço — eu disse. — O quê? — Quando você tinha onze anos — continuei. — Você quebrou o braço. Você caiu da bicicleta. Lembra? Por um tempo, ela ficou calada. — Isso mesmo — ela finalmente disse, balançando a cabeça. — Nossa. Não foi logo depois do seu aniversário? — Foi no dia do meu aniversário — falei. — Você voltou engessada bem na hora do bolo. — Eu não acredito que tinha me esquecido disso — ela comentou balançando a cabeça novamente e olhando para o papel antes de pegar a caneta. Depois, ela começou a escrever e vi sua letra preenchendo a primeira linha. Eu comecei a falar sobre o filme da Kirsten e como ele me lembrou disso, mas parei. Ela já tinha escrito três linhas e continuava a escrever. Não quis interrompê-la. Então, saí dali e a deixei só. Quando passei por lá novamente, uma hora depois, ela continuava escrevendo, e dessa vez não ergueu o olhar. Ao me afastar da pia, olhei para minha mãe, imaginando do que ela se lembraria se eu lhe perguntasse o que aconteceu naquele dia do meu nono aniversário, cerca de um ou dois meses antes de a mãe dela morrer. Da grama verde, como Kirsten. Ou, como Whitney, de absolutamente nada, pelo menos em um primeiro momento. Tantas versões de apenas uma lembrança, e, mesmo assim, nenhuma delas estava certa ou errada. Ao contrário, todas faziam parte. Como peças que somente depois de encaixadas poderiam começar a contar toda a história. — Entra. Eu olhei para Owen levantando uma sobrancelha. Um minuto antes, eu estava atravessando o estacionamento da Kopf em direção ao meu carro depois de mais um ensaio para o desfile, quando um veículo parou ao meu lado. Eu virei o rosto, apavorada, esperando ver uma van branca de sequestrador. Em vez disso, era Owen na sua Land Cruiser, já esticando o braço para abrir a porta do passageiro. — Isso é um sequestro? — perguntei.


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Ele balançou a cabeça fazendo um sinal impaciente com uma mão para eu entrar no carro, enquanto arrumava o som com a outra. — É sério — ele falou, enquanto eu me sentava no banco. — Você tem que ouvir isso. — Owen — falei, vendo-o continuar a apertar botões no painel —, como você sabia que eu estava aqui? — Eu não sabia — ele respondeu. — Eu estava parado naquele farol, voltando para casa, quando te vi. Escuta só. Ele esticou a mão em direção ao botão do volume, aumentou o som, e um barulho chiado entrou pelos meus ouvidos, seguido de algo que parecia ser um violino, mas em alta velocidade, como se eletrocutado O resultado era um barulho que poderia ser perturbador em um volume normal. Mas alto do jeito que estava, fez eu sentir meus cabelos no pescoço ficarem de pé. — Demais, né? — disse Owen, falando alto. Ele balançava a cabeça a cada acorde. Na minha mente, eu imaginei uma daquelas máquinas que monitoram a frequência cardíaca, pois cada som fazia meu coração sentir uma pontada. Fiquei encolhida ao dizer (ou gritar): — O que é isso? — O nome é Melisma — ele gritou em resposta bem na hora em que um baixo entrou alto o suficiente para fazer meu banco tremer. No carro ao lado, uma mulher que colocava um bebê na cadeirinha, nos olhou. — É um projeto musical. Esses instrumentos de cordas e sintetizadores misturados com vários ritmos mundiais, influenciados por... Ele disse mais alguma coisa, que foi abafada por uma repentina explosão de tambores. Observei seus lábios se moverem até conseguir novamente escutar o que ele dizia. —... uma coisa realmente colaborativa, esse novo tipo de iniciativa musical. Inacreditável, não é? Antes de eu responder, címbalos tilintaram seguidos de um barulho efervescente. Pode ter sido reflexo, auto preservação ou apenas senso comum, mas não consegui evitar: coloquei as mãos sobre meus ouvidos.


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Owen arregalou os olhos e eu percebi o que tinha feito. E a música terminou repentinamente no exato momento em que abaixei minhas mãos e pude sentir o som inacreditavelmente alto dos instrumentos batendo forte dos meus dois lados. Principalmente comparado com o silêncio que se seguiu. — Você não — Owen finalmente disse em voz baixa — acabou de tapar os ouvidos, não é? — Foi um acidente — eu disse. — Eu só... — Isso é muito sério. — Ele esticou a mão, balançando a cabeça, e abaixou o volume. — Quero dizer, uma coisa é ouvir e respeitosamente discordar. Mas você tapou os ouvidos e nem deu chance... — Eu dei chance! — eu disse. — Você chama aquilo de chance? — ele perguntou. — Aquilo foi cinco segundos. — Foi o suficiente para eu formar uma opinião — eu disse. — Que foi? — Eu tapei meus ouvidos — disse a ele. — O que você acha? Ele começou a dizer algo, depois parou, balançando a cabeça. Ao nosso lado, a mulher na minivan estava dando ré. Eu a olhei passar por nós. — Melisma — disse Owen um pouco depois — é inovador e texturizado. — Se por texturizado você quer dizer insuportável—falei calmamente —, então eu concordo. — Linguagem-I — ele disse, apontando para mim. Dei de ombros. — Eu não acredito que você está dizendo isso! Trata-se do perfeito casamento entre instrumento e tecnologia! É diferente de tudo o que já foi feito! É incrível! — Talvez dentro de um lava-rápido — murmurei. Ele tomou fôlego para continuar o falatório, mas, ao expirar, fez um barulho, e virou a cabeça para me olhar. — O que você acabou de dizer? Assim como tinha acontecido quando tapei os ouvidos, eu tinha falado sem


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pensar e sem me dar conta. Havia algum tempo, eu tinha plena e total consciência de tudo o que eu fazia ou dizia perto do Owen. O fato de isso não acontecer mais poderia ser bom ou muito ruim. A julgar pela expressão no rosto dele — uma mistura de horrorizado e ofendido —, eu comecei a achar que seria a segunda opção. Pelo menos naquele momento. — Eu disse... — limpei a garganta. — Eu disse que talvez seja incrível dentro de um lava-rápido. Eu senti que ele me olhava fixamente, então me mantive ocupada cutucando a borda do meu banco. Até que ele disse: — Isso quer dizer o quê? — Você sabe o que isso quer dizer — respondi. — Realmente, não. Ilumine minhas idéias. É claro que ele me faria explicar. — Bem — falei lentamente —, sabe, o som de tudo melhora quando você está dentro do lava-rápido. É um fato, certo? Ele não disse nada, ficou só me olhando. — Eu quero dizer — continuei esclarecendo — que não é o tipo de som de que eu gosto. Desculpe. Eu não deveria ter tapado os ouvidos, foi grosseria minha. Mas eu só... — Qual lava-rápido? — O quê? — Qual é a estação mágica para os ouvidos depois da qual todo o valor musical é determinado? Eu só olhei para ele. — Owen. — É sério. Eu quero saber. — Não é um lava-rápido específico — eu disse. — É o fenômeno lavarápido. Você não sabe mesmo do que eu estou falando? — Não — ele disse. Então, engatou a marcha à ré. — Mas vou descobrir. E


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agora. Cinco minutos depois, estávamos parando no 123SUDS, o lava-rápido automático que ficava perto do meu bairro desde que eu conseguia me lembrar. Cresci indo lá sempre, principalmente porque minha mãe adorava. Meu pai dizia que a única maneira de ter carro limpo de verdade era lavá-lo a mão — como ele fazia na entrada de casa, nos dias quentes —, que ir ao 123SUDS era perda de tempo e dinheiro. Mas minha mãe não ligava. Não é pela lavagem — ela dizia, — É pela experiência. Nossas visitas nunca eram planejadas. Ao contrário, às vezes passávamos por lá e ela simplesmente entrava, pedindo que eu e minhas irmãs procurássemos moedas no chão ou no console entre os bancos para colocar na máquina. Nós sempre escolhíamos a lavagem básica, dispensando a cera, e às vezes acrescentávamos o opcional Proteção Total nos pneus. Vidros fechados, a gente se recostava nos bancos e entrava. Havia algo de interessante naquilo. Entrar naquele local escuro e então ver água repentinamente por todos os lados em nossa direção, como se fosse a maior tempestade de todos os tempos. Ela batia no capo e porta-malas e se derramava sobre nossas janelas, lavando toda a poeira, e, se você fechasse os olhos, era como se estivesse flutuando com ela. Era ao mesmo tempo assustador e incrível, e, ao falar qualquer coisa sempre saía um sussurro, mesmo se você não soubesse o motivo. Porém, do que eu mais me lembro é a música. Minha mãe adorava música clássica — era só o que ela colocava para tocar no carro, o que enlouquecia a mim e minhas irmãs. Nós implorávamos para ouvir rádio ou qualquer coisa que fosse deste século, mas ela era teimosa. "Quando vocês começarem a dirigir, vão poder ouvir tudo que quiserem", ela dizia, e depois colocava Brahms e Beethoven no último volume para abafar nossos resmungos irritados. Mas, dentro do lava-rápido, a música da minha mãe ficava diferente. Linda. Era só naquele momento que eu fechava meus olhos, gostava dela e entendia o que minha mãe ouvia. Quando finalmente tirei minha carteira de motorista, colocava para tocar tudo o que eu queria e era ótimo. Mesmo assim, quando entrei sozinha no123SUDS pela primeira vez, procurei as estações de rádio para encontrar música clássica e me lembrar dos velhos tempos. Mas tão logo comecei a entrar, a estação de rádio


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perdeu o sinal e mudou para outra em que estava tocando uma musica country horrível, ou seja, outra coisa que eu não teria escolhido. Mas foi estranho. Sentada lá, com as escovas enormes passando pelo carro, a água espirrando na minha janela, até a música que estava tocando — algo sobre dirigir um Ford antigo sob a lua cheia — soou perfeita. Como se não importasse o que estivesse tocando, mas com quanta atenção eu estava ouvindo, lá no escuro. Eu contei tudo isso a Owen no caminho, explicando como, desde então, eu estava convencida de que qualquer música ficava boa dentro do lava-rápido. Porém, ele pareceu duvidar e, enquanto colocávamos as moedas na máquina, fiquei me perguntando se a minha teoria seria derrubada. — E agora? — ele perguntou quando a máquina imprimiu um recibo e a luz vermelha ao lado dela ficou verde. — É só a gente entrar ali com o carro? — Você nunca fez isso? — perguntei a ele. — Não sou muito do tipo que gosta de limpar o carro apenas pelo lado de fora, por razões estéticas — ele disse. — Além disso, acho que tem um buraco no teto do carro. Fiz sinal para ele seguir em frente e foi o que ele fez, passando pela pequena lombada até a linha amarela, já apagada pelo tempo, onde se lia PARE AQUI. Depois, ele desligou o motor. — Beleza — ele disse. — Estou pronto para me surpreender. Eu olhei para ele. — Sabe — eu disse —, essa é a sua primeira vez. E então, para que o impacto seja completo, você precisa reclinar o banco. — Reclinar. — A experiência fica melhor — disse a ele. — Confie em mim. Nós dois abaixamos nossos bancos, nos acomodando. Seu braço estava ao lado do meu e me lembrei de quando fui à casa dele naquela noite e de como fiquei tão perto de beijá-lo, duas vezes. Quando a máquina começou a fazer barulho atrás de nós, estiquei o braço e coloquei novamente o CD para tocar. — Bom — eu disse quando os jatos começaram. — Vamos lá. Primeiro só se ouvia o tilintar da água, depois ela começou a descer pelo vidro


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na nossa frente, como uma onda. Owen mudou um pouco de lugar no seu banco quando um pingo caiu do teto bem em cima da sua camiseta. — Que ótimo — ele disse. — Tem mesmo um buraco no teto. Em seguida ficamos quietos, pois a próxima faixa do CD começou com um murmúrio suave, seguido de dedilhados de corda. Havia também um zumbido, mas com a água caindo sobre nós e o interior do carro parecendo cada vez menor, foi como se ele se dissipasse e sumisse lá atrás. Eu podia ouvir o barulho das escovas ao se aproximarem do carro misturado ao triste e transbordante som do violino. Eu já sentia o que estava acontecendo: o tempo passava mais devagar, tudo tinha parado para esse único momento, aqui e agora. Virei minha cabeça para olhar para Owen. Ele estava deitado olhando fixamente as escovas, que ficavam maiores, e os círculos de espuma se formando no pára-brisa. Ouvindo. Fechei os olhos para fazer a mesma coisa. Mas tudo o que eu sentia era que toda a minha vida tinha mudado — novamente — nessas poucas semanas desde que tinha conhecido Owen, e, não pela primeira vez, tive vontade de lhe dizer isso, de encontrar as palavras certas e organizá-las, sabendo que essa seria a melhor chance que elas teriam de soar perfeitamente. Virei meu rosto novamente em sua direção, pensando nisso, e abri meus olhos. Ele estava me olhando. — Você estava certa — ele disse em voz baixa. — Isso é impressionante. Sério. — É — concordei. — É sim. E então ele mudou de posição, se aproximando de mim, e eu senti seu braço contra o meu, sua pele quente. E, finalmente, Owen me beijou — me beijou de verdade — e eu não ouvia mais nada: nem a água, nem a música e nem meu próprio coração que deveria estar batendo acelerado. Tudo era silêncio, o melhor silêncio de todos, durando para sempre ou apenas por um momento, até que terminou. De repente, o lava-rápido estava silencioso e a música tinha acabado. Em cima de mim, pude ver um pingo grande, pendendo sobre nossas cabeças. Fiquei de olho nele até que caísse no meu ombro, ao mesmo tempo em que, atrás de nós, uma buzina soou. — Opa — disse Owen, quando nós dois levantamos. Ele ligou o motor, olhei para trás e vi que um cara dentro de um Mustang estava esperando, com as janelas


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já fechadas, na entrada. — Espera aí. Quando saímos de lá, o sol brilhava sobre os montinhos de água que se desfaziam, escorrendo pelo capo. Depois do beijo e do escuro, eu ainda me sentia sob a água e aquele brilho surpreendente. — Nossa — Owen falou, piscando enquanto parou o carro no meio-fio. — Foi uma experiência e tanto. — Eu disse a você. Tudo soa melhor no lava-rápido. — Tudo é? Ao dizer isso, ele estava me olhando e eu rapidamente me lembrei do seu rosto momentos antes, olhando para o pára-brisa e ouvindo com muita atenção. Talvez um dia eu consiga dizer a ele tudo o que pensei naquele momento. E até mais. — Será que — ele perguntou, passando a mão no cabelo — isso funciona com música eletrônica? — Não — eu disse sem pestanejar. — Tem certeza? — Ah, sim — balancei a cabeça. — Absoluta, Ele levantou uma sobrancelha. — Tá certo — ele disse saindo com o carro do meio-fio e começando a dar a volta novamente. — Veremos. — Você ficou sabendo? Eram seis horas da tarde no sábado do desfile, e eu estava sentada no vestiário da Kopf, esperando. Durante todas as horas que fiquei lá, enquanto meu cabelo e maquiagem eram arrumados, e minhas roupas ajustadas, tentei ignorar o falatório ao meu redor. E me concentrei para que esse desfile terminasse logo e eu pudesse fazer algo que realmente me importava: ir para o Bendo com Owen. E estava dando tudo certo. Até agora. Olhei para a esquerda, onde Hillary Prescott tinha acabado de se sentar ao lado de uma garota chamada Marnie. Assim como eu, seus cabelos e maquiagem estavam prontos, o que significava que elas não tinham mais nada para fazer além de tomar água, olhar para si mesmas no espelho e fofocar.


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— Fiquei sabendo do quê? — Marnie perguntou. Ela era magra, de rosto comprido e maçãs do rosto altas. Quando a vi pela primeira vez, achei-a levemente parecida com Whitney, porém, ela estava mais para bonitinha que para linda. Hillary olhou para trás, de um lado e do outro, para ter certeza de que não tinha ninguém muito próximo. — O que aconteceu ontem à noite na festa da Becca Durnham — ela disse. — Não — respondeu Marnie, passando o dedo sobre o gloss em seus lábios. — O que foi? Hillary se inclinou para aproximar-se dela. — Bem — ela começou —, pelo que ouvi dizer, foi um drama total. Louise me contou que na metade da festa... Ela parou de falar de repente, olhando fixamente para o espelho, enquanto Emily Shuster entrava. Ela estava com os braços cruzados, cabeça baixa, e acompanhada da mãe. Eu olhei rapidamente, mas era só o que precisava para ver que Emily parecia muito mal: seu rosto estava inchado, os olhos vermelhos e escuros ao redor. Hillary, Marnie e eu vimos quando ela e sua mãe passaram na direção da Sra. McMurty, que estava do outro lado do vestiário. Depois, Hillary disse: — Eu não acredito que ela teve coragem de aparecer aqui. — Por quê? — Marnie perguntou. — O que aconteceu? "Não tenho nada a ver com isso", pensei, prestando novamente atenção no caderno de história que tinha trazido para estudar. Enquanto fazia isso, senti uma mecha do meu cabelo grudar na minha bochecha. Olhei para o espelho para tirá-la bem na hora em que Hillary se inclinou mais para frente. — Ela ficou com Mil Cash noite passada — ela falou em voz baixa, mas não tão baixa assim. — No carro dele. E Sophie pegou os dois. — Não! — disse Marnie com os olhos arregalados. — Você está falando sério? Como estava olhando para a minha imagem no espelho, eu pude realmente observar como meu rosto reagiu quando ouvi isso. Vi meus olhos piscarem, minha boca abrir um pouco antes de eu fechá-la, rapidamente, e olhei para o outro lado.


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— Louise estava do lado de dentro — Hillary continuou —, então ela só ficou sabendo da história. Mas parece que Will deu carona para a Emily e alguém os viu. Quando Sophie ficou sabendo, ela surtou. Marnie olhou para Emily, que agora estava de costas para nós enquanto sua mãe conversava com a Sra. McMurty. — Ah, meu Deus — ela exclamou. — O que o Will fez? — Eu não sei. Mas Louise disse que Sophie estava desconfiada de alguma coisa. Achando que Emily já estava paquerando ele, sempre ficando com cara de boba quando ele estava por perto. Boba, eu pensei. Ou nervosa. Eu me lembrei do olhar intenso e direto de Will, de como o tempo passava devagar quando estávamos no carro esperando por Sophie. Atrás de mim, as pessoas passavam e conversavam fazendo o mesmo barulho de sempre, mas tudo o que eu ouvia eram essas duas vozes e a batida do meu coração. — Nossa — Marnie disse. — Coitada da Sophie. — Nem me fala. Elas eram melhores amigas — disse Hillary suspirando. — Acho que a gente não pode confiar em ninguém mesmo. Virei a cabeça. Com certeza as duas estavam me olhando. Olhei para elas também, e Marnie ficou vermelha e desviou o olhar. Mas Hillary ficou me encarando por um bom tempo antes de se levantar, jogar o cabelo e sair da lá. Depois de mexer na sua garrafa de água por algum tempo, Marnie se levantou e a seguiu. Por um tempo, eu fiquei parada, tentando digerir o que tinha acabado de ouvir. Olhei para Emily, que agora estava sentada em uma cadeira do outro lado do vestiário. Sua mãe, ao seu lado, dizia algo, sua expressão era séria, e a Sra. McMurty, por sua vez, balançava a cabeça. A mão da Sra. Shuster estava sobre o ombro da filha e, de vez em quando, eu via pelo movimento do tecido que ela o apertava de leve. Eu fechei os olhos, engolindo o nó que deu em minha garganta. Ela ficou com Will Cash noite passada. A Sophie surtou. Elas eram melhores amigas. Acho que a gente não pode confiar em ninguém mesmo. Não, pensei, não pode. Lembrei dos últimos meses, do meu verão recluso, da solitária volta às aulas, daquele dia horrível no pátio quando empurrei Sophie. Talvez eu não pudesse ter mudado nada disso. Porém, tarde demais, me dei conta de que talvez eu pudesse ter mudado algo. Ou alguma coisa.


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Eu tentei estudar, procurei pensar em Owen e no que viria depois. Mas toda vez que me distraía, mesmo que fosse por um segundo, eu me via olhando para o outro lado do vestiário, onde Emily estava sentada na frente de um espelho. Ela chegara tão atrasada que estavam fazendo sua maquiagem e cabelo ao mesmo tempo, o maquiador e o cabeleireiro trabalhando em um ritmo frenético. Entre nós, as pessoas continuavam passando de um lado para o outro e falando alto conforme a hora do desfile se aproximava, mas Emily mantinha o olhar fixo no espelho, em si mesma e mais ninguém. Quando nos chamaram para sair do vestiário, Emily não saiu de lá com as outras modelos, e só depois que estávamos todas em nossas posições ela apareceu para ocupar seu lugar de segunda na fila, três pessoas à minha frente. Havia um relógio digital próximo à administração do shopping que marcava 18h55. A alguns estados e quilômetros de distância, Kirsten estava quase apresentando seu curtametragem, e eu me lembrei da grama tão verde, que de repente não parecia mais tão perfeita. Geralmente, esse era o momento que me deixava mais nervosa, esses últimos minutos antes de entrar na passarela. Na minha frente, Julia Reinhart estava arrumando a bainha da sua blusa e, atrás de mim, pude ouvir uma das modelos mais jovens reclamando que seus sapatos estavam muito apertados. Emily não disse uma palavra e mantinha os olhos na fenda da cortina. A música começou — estava alta e era muito pop, bem o estilo da rádio Z104 — e a Sra. McMurty apareceu no canto, com um ar cansado e uma prancheta na mão. — Um minuto! — ela disse, e a garota da primeira fileira, uma das mais velhas, jogou o cabelo, arrumando os quadris. Eu estiquei meus dedos, respirando fundo. Agora, no shopping, tudo parecia mais aberto e brilhante. Tudo o que eu tinha que fazer era terminar logo com isso, sair de lá e encontrar Owen, indo em direção ao que eu queria ser e não ao que eu tinha sido. A música parou por um momento, depois recomeçou. Pronto. A Sra. McMurty subiu as escadas para ficar ao lado da cortina, depois a puxou para o lado e fez sinal para a primeira garota entrar. Quando ela fez isso, dei uma olhada na multidão — havia muita gente sentada nas cadeiras dos dois lados da passarela, e mais gente ainda de pé depois delas.


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Quando chegou a vez da Emily, ela pisou na passarela com a cabeça erguida, costas muito eretas, e, enquanto olhava para ela, eu desejava ser como todas as outras pessoas que estavam vendo uma bela garota usando belas roupas, nada mais nem menos. Outra garota entrou na passarela, depois Julia. Nesse ponto, Emily já estava saindo do outro lado do palco em direção ao vestiário. E, então, era a minha vez. Logo no primeiro momento em que a cortina se abriu, só conseguia ver a longa passarela a minha frente e um borrão de rostos dos dois lados. A música palpitava nos meus ouvidos quando comecei a andar, tentando manter meu olhar sempre à frente, mas, mesmo assim, vi rapidamente meus pais do lado esquerdo, minha mãe me olhando orgulhosa e meu pai com os braços em volta dela. Mallory Armstrong estava sentada ao lado das gêmeas ruivas que eu conhecera na festa dela, do outro lado e algumas fileiras para trás. Por um segundo, nossos olhos se cruzaram, ela acenou para mim animada e pulando na cadeira. Continuei seguindo em frente na passarela. Quando cheguei à ponta, vi Whitney. Ela estava encostada em um canteiro na frente da loja de suplementos alimentares, a uns bons quinze metros depois da multidão que olhava o desfile. Eu nem sabia que ela viria. Mas o que mais me surpreendeu foi a sua expressão, que era tão triste que eu quase me perdi. Quando nossos olhos se encontraram, ela deu um passo à frente, colocando a mão no bolso, e, por um momento, fiquei olhando para ela, sentindo um aperto no peito. E, então, tive que dar a volta. Senti um nó na garganta ao andar em direção à cortina. Já tinha sido demais para mim. Eu não queria pensar em nada do que estava acontecendo nem no que tinha acontecido com Emily ou comigo. Eu só queria ficar no muro com Owen falando sobre música e ser a garota que ele via em mim, que era diferente de um jeito bom. De todos os jeitos bons. Estava no meio da passarela agora e faltava metade para chegar lá. Mais quatro trocas de roupa, mais quatro idas à passarela, um grandfinale e isso estaria terminado. De qualquer maneira, não era o meu dever salvar ninguém. Principalmente por eu não ter conseguido nem salvar a mim mesma. — Annabel! — ouvi uma voz chamando, olhei levemente para a minha direita e vi Mallory, com um sorriso largo ao erguer a câmera na frente do rosto e colocar seu dedo no disparador. As ruivas acenavam, todos estavam olhando, mas, quando o flash disparou, eu só conseguia pensar naquela noite com Owen no quarto dela, olhando para todos aqueles rostos na parede e sem nem reconhecer o meu.


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Eu me virei e continuei olhando para frente até que Emily surgiu de trás da cortina. Ao vê-la, a voz de Kirsten me veio à cabeça me explicando por que ela estava com medo de mostrar o seu filme: É pessoal, ela disse. Real. Por mais que não pudesse ser notado logo de cara, esse momento também era pessoal. Era falso no exterior, mas muito verdadeiro no interior. Bastava olhar, mas olhar de verdade, para perceber. O estranho era que, desde o começo das aulas, em todos os lugares em que nos encontrávamos, seja na escola ou nos ensaios, todas as vezes que nos cruzávamos, ela não me olhava. Mas dessa vez, ao nos aproximarmos uma da outra, eu pude sentir que ela me olhava, querendo que eu virasse a cabeça, puxando meu olhar em sua direção. Relutei o máximo que pude. Mas quando ela passou por mim, eu me rendi. Ela sabia. Eu percebi com um olhar e por um rápido instante. Eram seus olhos. Apesar da maquiagem pesada, eles ainda estavam inchados, assustados e tristes. Mas mais do que tudo, eles me eram familiares. O fato de estarmos diante de centenas de estranhos não mudava absolutamente nada. Eu passei o verão inteiro com aqueles mesmos olhos — amedrontados, perdidos e confusos — olhando para mim, e eu os reconheceria em qualquer lugar.


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Treze — Sophie! Era a festa de final de ano, junho passado, e eu estava atrasada. A voz da Emily dizendo isso foi a primeira coisa que ouvi quando entrei na casa. Na hora eu não consegui vê-la — o hall estava cheio de gente, a escada igualmente lotada —, mas, então, no momento seguinte, ela apareceu, segurando uma cerveja em cada mão. E sorriu ao me ver. — Ah, você chegou! — ela disse. — Por que demorou tanto? Lembrei-me da expressão no rosto da minha mãe uma hora antes e como seus olhos se arregalaram quando Whitney afastou a cadeira e depois a bateu com força contra a mesa, fazendo todos os pratos pularem. Dessa vez, o problema tinha sido o frango, especificamente a metade do peito de frango que meu pai tinha colocado no prato da Whitney. Depois de cortá-lo em pedaços de um quarto, um oitavo e finalmente em impossíveis um dezesseis avos, ela afastou o frango em seu prato antes de começar a comer a salada, mastigando cada pedaço de alface durante muito tempo. Meus pais e eu agimos como se não estivéssemos vendo isso, como se não estivéssemos prestando atenção, e continuamos a conversar sobre o tempo. Mesmo assim, alguns minutos depois, quando Whitney colocou o guardanapo sobre seu prato, eu o vi caindo e envolvendo o frango como o lenço de um mágico enquanto ela desejava que ele desaparecesse. Não deu certo. Meu pai lhe disse para comer toda a comida, e então ela explodiu. Nós já devíamos estar todos acostumados com o melodrama que era a hora do jantar — ela tinha saído do hospital havia vários meses, tempo no qual eles se tornaram uma rotina —, mas, às vezes, o volume e a grosseria de seus rompantes ainda nos pegavam de surpresa. Principalmente minha mãe, que sempre parecia tomar qualquer silaba mais alta, qualquer batida de porta e até os inúmeros resmungos sarcásticos como ataques pessoais. E foi por isso que fiquei mais tempo em casa depois do jantar, parada na cozinha enquanto minha mãe lavava a louça.


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Podia ver seu rosto refletido no vidro da janela em cima da pia, e observei-a atentamente, como sempre fazia toda vez que ela ficava chateada, com medo de que eu talvez visse algo que eu reconhecesse e que não fossem seus traços. — Fiquei presa em casa — disse a Emily. — O que eu perdi? — Nada demais — ela disse. — Você viu a Sophie? Olhei em volta, para trás do monte de pessoas ao nosso lado e para dentro da sala de estar, onde eu a vi sentada no sofá perto da janela, com cara de saco cheio. — Vem por aqui — disse para Emily, pegando uma das cervejas que estava na mão dela enquanto eu passava no meio do amontoado de gente, em direção ao sofá. — Ei — chamei Sophie que estava perto da barulheira e da TV. — O que foi? — Nada — ela respondeu, com uma voz amuada. Ela fez sinal com a cabeça apontando para a cerveja. — É para mim? — Talvez — eu disse. Ela fez uma careta para mim, eu lhe dei a cerveja e depois me sentei enquanto ela dava um gole. Seu batom ficou marcado na borda da garrafa. — Nossa, adorei a sua blusa, Annabel — disse Emily. — É nova? — É. Bem novinha. — Eu levantei a mão, passando-a sobre a blusa de camurça rosa que minha mãe e eu havíamos comprado na Tosca, no dia anterior. Ela tinha sido bem cara, mas imaginamos que o fato de que ela seria usada durante todo o verão compensaria o preço. — Comprei esta semana. Sophie bufou, balançando a cabeça. — Essa — ela anunciou — é oficialmente a pior festa de último dia de aula de todos os tempos. — Ainda são oito e meia—eu disse a ela, olhando ao redor da sala. Tinha um casal se beijando em uma poltrona próxima e vi um grupo de pessoas sentadas em volta da mesa de jantar jogando baralho. Eu podia ouvir música vinda de algum lugar, provavelmente dos fundos da casa, o chão tremia ao som do baixo. — As coisas podem melhorar. Ela tomou mais um gole de cerveja. — Eu duvido. E se isso é algum indicador, esse verão vai ser ainda pior.


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— Você acha? — Emily disse, parecendo surpresa. — Lá fora tinha uns garotos bem bonitos e que estão na faculdade. — E você quer namorar um cara que está na faculdade e vai em balada do Ensino Médio? — disse Sophie. — Bom — Emily respondeu. — Não sei... — Como eu te disse — Sophie falou. — Uma droga. De repente, começamos a ouvir muito barulho vindo da nossa esquerda. Eu me virei e vi um grupo de pessoas entrando no hall. Reconheci uma garota que fazia Educação Física comigo, dois caras que eu não conhecia e, por último, Will Cash. — Viu? Tudo já está ficando mais animado — eu disse para Sophie. Mas, em vez de parecer contente, ela estreitou os olhos. Eles tinham discutido algumas horas antes, mas eu achei que já estivesse tudo resolvido da mesma forma que sempre acontecia entre eles. Aparentemente não. Will apenas acenou com a cabeça para Sophie antes de seguir as pessoas com quem ele tinha chegado pelo corredor, em direção à cozinha. Assim que ele sumiu, ela se encostou de braços cruzados ao sofá. — Está horrível aqui — ela anunciou, e dessa vez tive outra idéia em vez de discordar. Eu me levantei, estendendo minha mão para ela — Vem — eu disse. — Vamos dar uma volta. — Não — ela respondeu. Emily, que tinha começado a se levantar, sentou-se novamente. — Sophie. Ela fez sinal negativo com a cabeça. — Vão vocês duas. Divirtam-se muito. — Então, você quer é ficar aqui amuada? — Eu não estou amuada — ela disse friamente. — Estou apenas sentada. — Está bem — eu disse. — Eu vou pegar outra cerveja. Você quer alguma coisa?


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— Não — ela respondeu, mantendo os olhos fixos na sala de jantar, onde Will estava conversando com o cara na cabeceira da mesa que dava as cartas. — Você quer vir comigo?—perguntei a Emily. Ela concordou, colocando sua cerveja na mesa de centro e me seguindo pelo corredor. — Ela está bem? — Emily me perguntou assim que nos afastamos de Sophie. — Está sim — respondi. — Ela parece estar chateada — ela continuou. — Antes de você chegar, ela mal falava comigo. — Depois ela melhora — eu disse a ela. — Você sabe como ela é. Nós andamos pela cozinha, entramos na varanda em direção ao barril de chope, que estava cercado por uns carinhas mais velhos. — Ei — um deles me disse. Era um cara alto, magro e de cigarro na mão. — Deixa eu pegar uma cerveja pra você. — Não precisa — respondi, dando um meio sorriso enquanto pegava uma caneca para eu mesma encher. — Vocês duas estudam na Jackson? — o outro perguntou para Emily, que estava do lado de fora da roda com os braços cruzados. Ela balançou a cabeça positivamente. — Nossa, essas garotas do primeiro ano são cada vez mais bonitas. —Não somos do primeiro ano — falei ao me afastar do barril. Um cara de cabelo encaracolado estava parado bem na minha frente, bloqueando a minha passagem. — Com licença. Ele ficou me olhando, até eu desviar dele. — Garota difícil, né? — ele comentou quando passei. — Eu gosto disso. Eu voltei para a cozinha, Emily me seguiu e fechou a porta atrás de nós. — Não era deles que eu estava falando antes — ela disse calmamente. — Eu sei — disse a ela — Esses caras estão em todas as festas. Nós estávamos indo encontrar Sophie novamente, mas um monte de gente


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tinha acabado de entrar e o corredor estava lotado e muito barulhento. Tentei passar, mas fiquei parada no meio do caminho, rodeada de pessoas por todos os lados. Vireime para procurar Emily, mas ela fora parada por uma garota que falava muito alto, chamada Helena, uma conhecida nossa da Lakerview Models que, pelo visto, estava gritando no ouvido dela. — Com licença — alguma garota que eu não conhecia falou ao me empurrar batendo seu cotovelo no meu para abrir espaço. Eu senti algo derramando em mim, olhei para baixo e vi que era cerveja (não dava para saber se era minha ou dela) e escorria pela minha perna. De repente, o corredor parecia menor e mais quente. Então, quando um espaço abriu do meu lado esquerdo, eu me acomodei lá e fiquei em um lugarzinho debaixo da escada, onde finalmente consegui respirar. Eu me inclinei para trás, me encostando à parede, e tomei um gole de cerveja enquanto as pessoas continuavam se empurrando. Estava quase me preparando para voltar para a multidão quando Will Cash passou, parando ao me ver. — Ei — ele disse. Dois caras passaram por ele indo para a direção oposta. Um deles ergueu a mão, bagunçou o cabelo dele e Will fez uma careta. — O que você está fazendo? — Nada — respondi. — Eu só... Ele se virou e se abaixou para ficar onde eu estava. Quase não havia espaço para nós dois naquele local — era um local feito para ter uma mesinha ou talvez uma obra de arte —, mas, mesmo assim, tentei me deslocar um pouco para a esquerda e deixar um pouco de espaço entre nós. — Tá se escondendo, é? — ele perguntou. Ele não riu ao dizer isso, apesar de eu ter certeza de que era uma brincadeira. Com Will era assim. Nunca dava para saber. — É que... Ficou muito confuso aí — eu disse. — Você já, não, encontrou com Sophie? Ele não parava de olhar para mim, um olhar seco, e eu me senti ficar vermelha de novo. — Ainda não — ele falou. — Há quanto tempo vocês chegaram? — Ah, eu não vim com elas - respondi. Nesse momento, Hillary Prescott passou e, ao nos ver, andou mais devagar, olhando para nós por um tempo antes de continuar. — Eu acabei de chegar... Fiquei presa em casa.


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Will não disse nada, apenas continuou me olhando. — Sabe como é — eu disse tomando mais um gole de cerveja enquanto um monte de garotas passou, rindo alto. — Drama familiar e aquela coisa toda. Eu não sabia por que estava falando isso para ele, assim como não fazia a menor idéia do que fazer perto de Will Cash. Algo nele me perturbava tanto ao ponto de não me sentir à vontade, e eu tentava, por alguma razão, compensar sendo aberta demais. — Sério — ele falou, sem mudar o tom de voz. Senti meu rosto ficar vermelho mais uma vez. — É melhor eu ir ver a Sophie — falei. — Eu, hum, te vejo por aí, acho. Ele concordou com a cabeça. — É — ele disse. — Até mais. Eu nem esperei que começasse a passar menos gente para tentar andar. Acabei dando de encontro com um jogador de futebol americano que estava passando e aproveitei para segui-lo até a cozinha, onde encontrei Emily encostada na ilha com o celular na orelha. — Onde você foi? — ela perguntou, desligando o celular e colocando-o de volta no bolso. — Lugar nenhum — respondi. — Vamos. Quando voltamos para a sala de estar, Sophie ainda estava no sofá, mas não mais sozinha. Will juntara-se a ela e, pelo que parecia, eles estavam discutindo. Sophie dizia algo e tinha uma expressão tensa, enquanto Will parecia ouvir mais ou menos, olhando em volta enquanto ela falava. — É melhor não perturbá-los agora—eu disse a Emily. — Depois a gente volta. Além disso, eu preciso fazer xixi. Sabe onde é o banheiro? — Acho que vi um bem ali — ela apontou para um corredor próximo. — Vem. Lá havia um banheiro, mas também uma fila. Então decidimos tentar a sorte no segundo andar. Estávamos andando no corredor quando ouvi alguém me chamar. Parei e dei alguns passos para trás até uma porta aberta pela qual tínhamos


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acabado de passar, e vi Michael Kitchens e Nick Lester, dois carinhas do último ano que estavam na minha turma de história da arte e me atormentavam o tempo todo, jogando sinuca. — Está vendo? — disse Nick. — Eu disse pra você que tinha visto a Annabel. — Que coisa... — exclamou Michael, que estava inclinado sobre a mesa quase dando uma tacada. — E eu aqui achando que você estava alucinando. Nick virou e colocou a mão sobre o coração quando me viu. — Não. É a Annabel — ele falou. — Annabel, Annabel, Annabel Greene. — Você prometeu que, quando o ano terminasse, pararia com isso — eu disse a ele. Ele fez um projeto de pesquisa de último ano sobre Edgard Allan Poe. E desde então ficava me enchendo com essa fala sem parar. — Lembra? — Não — ele respondeu, tirando sarro. Michael deu a tacada, as bolas se espalharam sobre a mesa. — Nick está bêbado — ele nos informou. — Vocês já estão avisadas. — Eu não estou bêbado — Nick disse. — Só estou animado. — Tem algum banheiro por aqui? — eu perguntei. — Estamos procurando um. — Bem ali — Michael apontou com a cabeça para o outro lado do quarto. — Vem — eu disse para Emily e ela entrou no quarto comigo. — Esses aqui são Nick e Michael — informei-a, entregando-lhe a minha cerveja. — E essa é Emily. Volto já, ok? Ela concordou, parecendo um pouco nervosa. — Você joga? — Michael perguntou a ela, apontando para a mesa. — Um pouco — ela respondeu. Ele andou até a parede e pegou um taco. — Sei, sei — ele disse. — Você diz isso e depois ganha de mim em dez segundos.


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— Ela tem mesmo cara de ás da sinuca — Nick comentou. Emily riu, balançando a cabeça. — As quietinhas são sempre assim. — Não pegue pesado comigo — Michael disse a ela. — É só o que peço. Quando eu saí do banheiro, dois minutos depois, Emily estava à vontade. Ela também tinha entrado no "modo flerte" com Michael, que parecia mais do que feliz em retribuir, e Nick acabou sobrando para mim. Ele sentara-se perto de mim em uma poltrona próxima, e anunciou que tinha algo a dizer. Sabe — ele começou enquanto tomava um gole de cerveja —, como o colégio acabou e tudo mais, acho apenas que você deve saber que eu sei o que você sente por mim. — O que eu sinto por você... — repeti. — Meu — disse Michael do outro lado da mesa. — É melhor você parar antes que diga algo de que vai se arrepender depois. — Shhh — Nick respondeu. Ele se virou para a minha direção. — Annabel — ele disse seriamente —, não tem problema nenhum você ser afim de mim. — Ai, não — Michael disse. — Nossa, estou sentindo vergonha por você neste momento. — Quero dizer, faz total sentido — disse Nick enrolando um pouco a língua enquanto eu tentava não rir. — Eu estou no último ano. Sou um homem mais velho. Faz sentido você me admirar, mas... — ele fez uma pausa para mais um gole de cerveja — é que não daria certo entre nós. — Ah — exclamei. — Bem, é melhor saber logo, eu acho. Nick afagou a minha mão, balançando a cabeça. — Eu fico realmente lisonjeado, mas não importa o quanto você me ama. Eu não consigo sentir a mesma coisa por você. — Péssimo — Michael disse e Emily riu. — Eu entendo — eu disse a Nick. — Você entende? — Sim, completamente. Ele ainda afagava a minha mão, mas acho que nem estava se dando conta


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disso. — Que bom. Porque realmente ficaria contente se continuássemos sendo amigos. — Eu também — falei. Nick se encostou à poltrona, levando a garrafa de cerveja à boca. Depois, abaixou a mão e colocou a garrafa de cabeça para baixo. Um pingo caiu. — Vazia — ele anunciou. — Preciso de mais uma. — Na verdade você não precisa — Michael disse e depois fez cara de surpreso ao ver Emily dar uma tacada e encaçapar duas bolas. — Que tal uma água? — perguntei ao Nick. — Eu já estava indo pegar uma para mim. — Água — ele repetiu devagar, como se estivesse falando um idioma estrangeiro. — Certo. Vai à frente. — A gente já volta — eu disse para Emily ao me levantar, seguida de Nick, que fez a mesma coisa, só que com mais dificuldade. — Você quer alguma coisa? Ela fez sinal que não e se inclinou para outra tacada. — Estou bem — ela disse. — Bem demais — falou Michael ao ver mais duas bolas desaparecerem. — Joga mais ou menos coisa nenhuma. Nick e eu descemos até a metade da escada e ele anunciou que tinha mudado de idéia. — Estou muito cansado — falou, parando ao lado da porta de um quarto. — Preciso descansar. — Você está bem? — perguntei. — Ótimo — ele respondeu. — Você só precisa me trazer aquela, aquela... — Água — eu disse. — Água... E eu te encontro aqui. Certo? — Ele encostou-se à parede. — Bem aqui.


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Concordei com a cabeça e continuei descendo as escadas. No caminho, parei para dar uma olhada na sala de estar, que estava agora bem mais cheia. Sophie não estava mais no sofá e Will também não, então pensei que isso poderia ser um bom ou um péssimo sinal. Lá embaixo, peguei duas garrafas de água e parei para conversar com algumas pessoas. Quando voltei para o corredor, Nick não estava lá. Imaginei que ele tivesse voltado para a sala de jogos e estava indo para lá, quando ouvi uma voz. — Annabel. A voz era suave e irreconhecível. Eu me virei. Tinha um quarto à minha direita e a porta estava entreaberta. O que era bom se você estivesse cambaleando ou, pior, vomitando. "Coitado do Nick", pensei. Coloquei uma garrafa de água no bolso de trás, depois abri a porta e entrei no quarto. — Ei — eu disse. — Você se perdeu? Quando entrei naquele quarto escuro, tive a sensação de que algo estava errado. Aquele quarto me passou uma sensação esquisita, como se todo aquele espaço não fosse seguro. Dei um passo para trás, procurando a maçaneta, mas não consegui achar, meus dedos só sentiam a parede. — Nick? — chamei. Até que, de repente, senti algo dar de encontro comigo à esquerda. Não era um móvel nem um objeto, era algo vivo. Alguém. "É o Nick", disse a mim mesma. "Ele está bêbado." Mas, ao mesmo tempo, comecei a tatear a parede com mais rapidez procurando o interruptor ou a maçaneta. Finalmente, achei a maçaneta. Mas no momento em que comecei a virá-la, senti dedos segurando o meu pulso. — Ei — eu disse, e, apesar de me esforçar para agir tranqüilamente, minha voz denunciava o meu medo. — O que...? — Shhh, Annabel — uma voz disse, e então os dedos subiram pelo meu braço, sobre a minha pele, e eu senti outra mão sobre meu ombro direito. — Sou só eu. Não era o Nick. Essa voz era mais grave e não estava mole, cada sílaba era emitida perfeitamente. Assim que me dei conta disso, fiquei apavorada, minha mão segurava com mais força a garrafa de água. A tampa da garrafa se abriu e senti a água gelada molhar a minha blusa e minha pele. — Não — eu falei.


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— Shhh — disse novamente a voz, mas a mão não me tocava mais e um segundo depois estava tampando os meus olhos. Dei um impulso para frente, tentando sair. A garrafa de água, que agora estava quase vazia, caiu no carpete fazendo barulho, e duas mãos me seguraram pelo ombro, com força. Continuei me contorcendo, tentando me soltar e me virar em direção à porta, mas minhas mãos se mexiam vazias no ar. Parecia que as paredes tinham se afastado, fora do meu alcance. Não havia nada em que me apoiar. Eu podia ouvir minha respiração ofegante e comecei a perder o fôlego quando ele encaixou seu cotovelo no meu pescoço, me puxando para mais perto dele. Minhas pernas saíram do chão e eu comecei a chutar, tentando atingir a porta, e consegui uma vez — pou! — antes de ele me arrastar para trás, dando alguns passos. Depois, senti seu outro braço passando pela minha barriga, levantando a minha blusa e empurrando para baixo minha calça jeans. — Para — eu disse, mas então seu braço (quente e com cheiro de suor) tapou minha boca, impedindo a saída do som. Seus dedos eram ágeis ao afastarem a minha calcinha e eu sentia sua respiração mais intensa e forte, como pequenas explosões de ar na minha orelha. Eu ainda estava tentando me livrar dele, me contorcendo, mesmo quando seus dedos continuaram explorando, até eles ficarem dentro de mim. Eu mordi o seu braço. Ele ganiu, depois puxou o braço da minha boca, me empurrando para frente. Assim que senti meus pés novamente, procurei pela parede na tentativa de recuperar algum apoio, meus dedos tocaram levemente uma superfície sólida antes de ele pegar no cós da minha calça e me colocar de frente para ele. Instintivamente, coloquei minhas mãos na frente, me protegendo, mas ele as empurrou bruscamente e eu caí. Em um segundo — não entendia como ele conseguia se mover tão rápido — ele estava em cima de mim com seus dedos tateando e abrindo o fecho da minha calça. Eu sentia o carpete embaixo de mim, pinicando as minhas costas, enquanto eu tentava empurrá-lo para longe. O cheiro de camurça molhada penetrava as minhas narinas quando ele pôs uma das mãos sobre meu peito, e senti sua mão aberta contra a minha pele, para que eu não me mexesse, e então começou a tirar minha calça com a outra. Eu estava cavando o chão com meus cotovelos, usando toda a minha força para tentar levantar, mas não conseguia me mover. Eu o ouvi abrir o zíper e, em seguida, ele estava novamente em cima de mim. Tentei empurrar seus ombros com minhas mãos, depositando todo o meu peso contra ele, mas ele era muito pesado e se pressionava contra mim ao mesmo tempo em que


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levantava uma das minhas pernas — isso realmente estava acontecendo —, até que, no momento em que o senti contra a minha perna e me contorci uma última e desesperada vez, eu vi algo: um minúsculo feixe de luz entre nós. Era como uma linha no meio do escuro e, por causa dela, eu vi um pouco das suas costas sardentas, do cabelo loiro no braço que estava em cima de mim, bem pouquinho da camurça cor-de-rosa escura e, antes de ele se afastar de mim, vi seus olhos azuis, e suas pupilas aumentaram e diminuíram, e aumentaram e diminuíram mais uma vez conforme o feixe de luz aumentava. E, então, ele levantou. Eu me sentei, meu coração batendo forte, e subi minhas calças. Não sei como, mas me lembrei de fechar o zíper, como se fosse a coisa mais importante do mundo naquele momento. Tinha acabado de fechá-lo quando o interruptor fez um clique e lá, bem na minha frente, estava Sophie. Ela me viu antes. Depois virou o rosto e olhou para Will Cash, que estava sentado na cama atrás de mim. — Will? — ela perguntou. Sua voz era alta e apreensiva. — O que está acontecendo? "Will", pensei. Eu tive uma rápida lembrança do seu braço tapando a minha boca, das suas mãos cobrindo meus olhos e, depois, em um momento um pouco antes, de ele parado muito perto de mim debaixo da escada. "É o Will." — Eu não sei. — Ele deu de ombros, depois passou a mão pelo cabelo. — Ela só... Sophie ficou olhando para ele por um tempo. Do corredor, atrás dela, ouvi risadas e me lembrei de Emily e Michael jogando sinuca. Ainda esperando por mim. Sophie olhou para mim. — Annabel? — ela disse, e entrou no quarto com a mão ainda na maça neta. — O que você está fazendo? Eu me senti quebrada, como se tudo o que tinha acabado de acontecer fosse um fragmento e não fizesse parte do mundo real. Eu me levantei, arrumando a minha blusa sobre a barriga. — Nada — eu disse, a palavra engasgando na minha garganta. Eu tentei engolir. — Eu...


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Sophie olhou novamente para Will e, apesar de não ter me interrompido, parei de falar. Ele olhou para ela diretamente. Nenhuma hesitação. Nenhuma. — É melhor alguém aqui — ela disse — começar a me explicar o que é isso. Agora. Mas ninguém disse nada. Mais tarde me dei conta, um tanto surpresa que eu estava realmente esperando que alguém definisse aquilo, como se não tivesse estado lá e não soubesse que nome dar para aquilo. — Olha — ele falou. — Eu estava te esperando, e então ela veio aqui... ele parou de falar, balançando a cabeça, mas sem deixar de olhar para ela. — Eu não sei. Sophie voltou sua atenção para mim e, por um momento, nós ficamos nos olhando. Ela tinha que perceber que algo estava errado. Eu não precisava contar para ela. Eu não era qualquer garota, como aquela que procuramos de carro naquela noite. Nós éramos melhores amigas. Eu realmente acreditava nisso. Naquela época. Ela franziu a boca. Eu observei os lábios se mexendo. — Sua vagabunda — ela disse. Depois, percebi que foi ingenuidade minha. Mas a verdade é que eu realmente, sinceramente, pensei ter ouvido errado. — O quê? — perguntei. — Você é uma puta — ela estava falando mais alto agora, sua voz ainda era trêmula, mas estava ganhando força. — Eu não acredito que você fez isso. — Sophie — eu disse. — Espere. Eu não... — Você não o quê? — ela exclamou. Atrás dela, vi sombras se aproximando no outro lado do corredor. As pessoas estão vindo, pensei. As pessoas estavam ouvindo isso. As pessoas iriam saber. — Você achava que poderia transar com o meu namorado em uma festa sem que eu soubesse? Senti minha boca se abrir, mas as palavras não vieram. Só fiquei lá parada, olhando para ela, e, então, Emily apareceu atrás dela na porta com os olhos arregalados. — Annabel? — ela perguntou. — O que está acontecendo?


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— Sua amiga é uma vagabunda, é isso o que está acontecendo — Sophie disse a ela. — Não — eu disse. — Não é assim. — Eu sei o que vi! — ela gritou. Emily, atrás dela, deu um passo para trás. Sophie apontou o dedo para mim. — Você sempre quis ter o que eu tenho!—ela disse. — Você sempre teve inveja de mim! Eu me senti recuar. Sua voz era tão alta que meus ossos pareciam chacoalhar. Eu estava tão confusa e com medo, e mesmo depois de tudo isso eu não tinha chorado — como eu não chorei? — agora eu sentia um nó subindo pela garganta. Sophie entrou no quarto, dando dois passos largos até ficar bem na minha frente, e o quarto pareceu ficar muito pequeno: Will, Emily, todos desapareceram da minha visão periférica, até eu só ver seus olhos estreitos, seus dedos tremendo de tanta raiva e fúria. — Você já era — ela disse. Sua voz era trêmula. — Acabou pra você. — Sophie. — Eu balancei a cabeça. — Por favor. Só... — Sai da minha frente! — ela disse. — Sai! E, então, minha visão voltou tão rápido quanto tinha sumido e eu vi tudo. A multidão de rostos amontoada no corredor. Na minha lateral, Will Cash ainda estava sentado na cama. O carpete verde debaixo dos meus pés e o brilho amarelo da luz sobre minha cabeça. Era difícil acreditar que apenas alguns momentos antes tudo isso estava tão escondido sob a escuridão que eu não conseguiria reconhecer nada. Mas agora, assim como eu, eles estavam expostos. Sophie ainda estava parada na minha frente. Tudo estava em silêncio em nossa volta. Eu sabia que poderia ter quebrado aquele silêncio, que poderia ter falado. Era apenas a minha palavra contra a dele, e agora contra a dela. Mas não foi o que eu fiz. Em vez disso, saí daquele quarto sob os olhares de todos. Senti seus olhos sobre mim quando desviei de Sophie, depois abri caminho até o corredor em direção à escada. Passei pelo hall, fui até a porta, abrindo-a, saí e atravessei a grama para chegar até meu carro. Fiz tudo isso com muita atenção e segurança, como se ter controle sobre essas ações poderia de alguma maneira compensar o que tinha acontecido.


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No caminho para casa, a única coisa que não fiz foi me olhar. Em nenhum dos retrovisores. Em cada farol vermelho, toda vez que diminuía a marcha, eu escolhia um ponto fixo à frente — o pára-choque do carro da frente, algum prédio, até as faixas amarelas na rua — para ficar olhando. Eu não queria me ver assim. Quando cheguei em casa, meu pai estava sozinho me esperando. Eu vi a luz da televisão, pálida e piscando, assim que entrei. — Annabel? — ele chamou, enquanto o volume da TV diminuía pouco a pouco, até sumir. — É você? Eu fiquei parada um tempo no hall sabendo que, se eu não aparecesse, ele suspeitaria de alguma coisa. Levantei a mão e arrumei o cabelo com os dedos, depois respirei fundo e entrei na sala de estar. — Sim — eu disse. — Sou eu. Ele virou sua poltrona para me ver. — A noite foi boa? — perguntou. — Foi normal — eu disse. — Tem um ótimo programa passando — ele falou, apontando com a cabeça para a televisão. — É sobre o New Deall. Interessada? Qualquer outra noite, eu assistiria ao programa com ele. Era uma tradição, mesmo que eu me sentasse por apenas alguns minutos. Mas, dessa vez, eu simplesmente não podia. — Não, obrigada — respondi. — Estou meio cansada. Acho que vou dormir. — Está bem — ele disse, se virando novamente para a TV. — Boa noite, Annabel. — Boa noite. Ele pegou o controle remoto e eu dei as costas, voltando para o hall, onde a luz da lua entrava pela janela próxima à porta, iluminando a foto de mim, de minha mãe, minhas irmãs e eu que estava pendurada na parede oposta. Sob aquela luz brilhante, era possível ver cada detalhe: as ondas distantes, um tom acinzentado bem discreto no céu. Fiquei algum tempo parada diante da foto, estudando cada uma de nós: o sorriso de Kirsten, o olhar assustado de Whitney e o jeito que minha mãe


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inclinou sua cabeça levemente para o lado. Quando cheguei ao meu próprio rosto, olhei-o fixamente, e estava tão brilhante, envolto pelo escuro, como se eu não o reconhecesse. Como uma palavra escrita numa página que você já imprimiu e leu um milhão de vezes e que, de repente, lhe parece estranha ou errada, estrangeira, e você fica com medo por um segundo como se tivesse perdido algo, mesmo sem ter certeza do quê. No dia seguinte, tentei ligar para Sophie, mas ela não me atendia. Eu sabia que devia ir à casa dela e me explicar pessoalmente, mas, cada vez que pensava nisso, eu me lembrava daquela mão na minha boca e do barulho que meu pé fez ao bater na porta, e eu simplesmente não consegui ir até lá. Na verdade, toda vez que me lembrava do que tinha acontecido, meu estômago revirava e eu sentia a bile subindo pela minha garganta. Como se alguma parte de mim tentasse empurrar aquilo para cima e para fora, limpando completamente o meu corpo de um jeito que eu não conseguiria fazer sozinha. A outra opção também não era boa, é claro. Eu já tinha sido taxada de vagabunda e vai saber o quanto essa história já tinha sido espalhada desde então. Mas o que realmente aconteceu foi pior do que qualquer coisa que Sophie pudesse inventar e contar para as pessoas. Mas eu sabia, lá no fundo, que não tinha feito nada de errado. Que não tinha sido minha culpa e que, em um mundo perfeito, eu poderia contar às pessoas o que tinha acontecido e não sentir vergonha. Porém, na vida real, isso era mais difícil. Eu estava acostumada a ter pessoas me olhando—fazia parte de mim, de quem eu sou desde que me entendo por gente. Mas assim que as pessoas ficassem sabendo do que tinha acontecido, eu estava certa de que seria vista de um jeito diferente. Que, a cada olhar, as pessoas não veriam mais Annabel, mas o que tinha acontecido comigo, algo tão brutal, vergonhoso e particular, virado do avesso e, de repente, observado. Eu não seria a garota que tem tudo, mas a garota que foi atacada, tão desamparada. Achei mais seguro guardar aquilo dentro de mim, onde a única pessoa que podia julgar era eu. Ainda assim, algumas vezes me perguntei se tinha tomado a decisão certa. Porém, com os passar dos dias e das semanas, tive a impressão de que agora era tarde para contar a minha história, mesmo se eu pudesse. Como se quanto mais tempo se passasse, menos as pessoas acreditariam nela. Então, não fiz nada. Mas, algumas semanas depois, eu estava na farmácia com a minha mãe vendo algumas revistas, pegando algumas coisas, quando ela disse:


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— Aquela não é a Sophie? Era. Ela estava na outra ponta do corredor, olhando algumas revistas. Eu a vi virar uma página, fazendo careta para algo que tinha visto lá. — É — eu respondi. — Acho que sim. — Então, vai lá falar com ela. Eu pego isso — ela disse, tirando a lista da minha mão. — Encontre-me ali na frente, ok? — E ela saiu de perto, levantando a sua cesta na altura do braço e nos deixando a sós. Eu devia tê-la seguido. Mas, não sei por que, me vi andando em direção a Sophie, para aparecer por trás dela bem no momento em que ela colocava a revista — cuja capa era inteira dedicada ao término do último relacionamento de alguma celebridade — de volta na estante. — Oi — eu disse. Ela deu um pulo, assustada, e se virou. Quando me viu, estreitou os olhos. — Eu só queria... — Eu não tinha planejado o que iria dizer, mas mesmo se tivesse esse momento seria difícil. — Olhe — eu disse, observando o corredor ao lado, onde minha mãe estava olhando alguma propaganda de aspirina —, eu só queria... — Não fale comigo — ela disse. A voz dela era tão alta, muito mais alta que a minha. — Eu não tenho nada para dizer a você. — Sophie — eu disse, quase sussurrando. — Não foi o que você pensa. — Ah, então agora, além de vagabunda, você é vidente? Senti meu rosto ficar vermelho ao ouvir essa palavra e instintivamente fitei minha mãe, me perguntando se ela tinha ouvido. Ela ergueu o olhar, sorriu para nós e foi para o outro corredor. — O que foi? Algum problema, Annabel? — Sophie disse. — Deixe-me adivinhar. Apenas o drama familiar de sempre? Eu olhei para ela, confusa. Então me lembrei: foi isso que eu tinha dito a Will quando estávamos debaixo da escada naquela noite. O motivo de ter dito aquilo eu ainda não sei. É claro que ele diria isso a ela e usaria essa confissão idiota contra mim. Podia até imaginar como ele inverteu a situação, eu lhe fazendo confidências e depois indo atrás dele no andar de cima. "Eu não sei", Will disse


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aquela noite enquanto ela esperava sua explicação. "Ela só..." "Se você sabe que um cara tem namorada, principalmente se essa namorada for eu, não há razão para você fazer qualquer coisa com ele que possa ser mal interpretada", Sophie me dissera, havia vários meses. "É uma escolha, Annabel. E se você faz a escolha errada, você é a única culpada quando há consequências." Na cabeça dela era simples. Eu sabia que isso não era verdade, mas senti uma ponta de dúvida e medo quando as peças se juntaram, e contra mim. Meu maior medo tinha virado verdade. O que eu ia fazer se tivesse contado, ou contasse, e ninguém acreditasse em mim? Ou pior, colocassem a culpa em mim? Meu estômago revirou e senti aquele gosto conhecido subindo para a boca. Sophie olhou para minha mãe e observou-a por um segundo, e eu tive uma lembrança dela naquela noite, quando ela ficou assustada na hora do jantar depois que Whitney bateu a cadeira contra a mesa. Fiquei tão preocupada com ela naquela noite, assim como em tantas outras noites, que não poderia imaginar o que passaria pela sua cabeça se ela ficasse sabendo. — Sophie — eu disse novamente. — É só... — Sai de perto de mim — ela disse. — Eu nunca mais quero te ver. Então, ela desviou de mim, balançando a cabeça, e foi embora. Eu não sei como, mas consegui me virar e andar pelo corredor, vendo as prateleiras passando rapidamente. Vi também uma mulher com uma criança no colo, um senhor empurrando um andador, algum gerente observando uma pistola de colocar preço e, finalmente, minha mãe, parada ao lado de uma propaganda de protetor solar, procurando por mim. — Aí está você — ela disse enquanto eu me aproximava. — Como vai a Sophie? Suspirei, e com muito esforço respondi: — Ela está bem. Esta foi a primeira mentira que contei para a minha mãe sobre Sophie e, certamente, não foi a última. Naquela época eu ainda achava que tudo o que sentia por causa daquela noite — a vergonha e o medo — iria passar com o tempo e sarar, como um único golpe que resulta em uma cicatriz quase imperceptível. Mas isso não aconteceu. Ao contrário, as coisas das quais eu me lembrava, os pequenos detalhes, pareciam ficar mais fortes, ao ponto de eu conseguir sentir o peso deles no meu peito. Mas nada ficou mais marcado em minha memória do que a lembrança de entrar naquele


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quarto escuro e do que eu encontrei lá, e de como, depois, a luz transformou aquele pesadelo em realidade. Era o seguinte: antes, a diferença entre luz e escuridão era muito simples. Uma era boa e outra má. Porém, de repente, isso deixou de ser tão óbvio. A escuridão ainda era um mistério, algo escondido, algo do qual se tinha medo. Porém, eu passei a sentir medo da luz também. De olhos fechados, eu só via o breu, o que me lembrava desta única coisa: o meu segredo mais profundo. De olhos abertos, havia somente o mundo que não sabia de nada, brilhante, inescapável e, de alguma maneira, ainda lá.


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Catorze — Oi — Owen disse sorrindo, ao virar-se para mim. — Você conseguiu. Sim, consegui. Eu estava lá, no Bendo, parada na frente do palco. Eu só não sabia muito bem como. Na verdade, desde que eu e Emily ficamos cara a cara, tudo ficou meio confuso. De alguma maneira eu consegui terminar o desfile com mais três roupas e bater palmas quando a Sra. McMurty fingia estar tímida e muito surpresa de ser recebida com flores no palco, como acontecia todos os anos. Depois fui para o camarim, onde meus pais me esperavam. Assim que me viu, minha mãe veio me dar um abraço, e senti suas mãos macias nas minhas costas. — Você foi fantástica — ela disse. — Absolutamente maravilhosa. — Apesar de esse vestido ser um tanto decotado — acrescentou meu pai, apontando com os olhos o vestido justo que usei para o estilo formal, o último desfile. — Você não acha? — Não — disse minha mãe, me dando tapinhas nas costas ao terminar o abraço. — É perfeito. Você estava perfeita. Consegui sorrir, mas minha cabeça ainda estava em um turbilhão. Havia muita gente nos bastidores, muito barulho e tumulto, mas eu só conseguia pensar na Emily. "Ela sabia", pensei enquanto minha mãe falava algo sobre encontrar a Sra. McMurty. "Ela sabia." Levantei a mão para colocar uma mecha de cabelo atrás da orelha. Eu me sentia nervosa e agitada, e o barulho da multidão e o calor de todos aqueles corpos não ajudavam, e agora minha mãe estava falando de novo. — ...simplesmente maravilhoso, mas é melhor irmos para casa. A Whitney está preparando o jantar e eu disse a ela que estaríamos lá dez minutos atrás.


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— Whitney? — eu disse enquanto meu pai cumprimentava com a cabeça um homem de terno que passava por ali. — Ela não veio? Minha mãe apertou meu ombro. — Ah, querida, tenho certeza de que ela gostaria de vir, mas acho que ainda é difícil para ela... Ela quis ficar em casa. Mas nós adoramos. De verdade. Com tudo o que tinha acontecido com Emily, eu estava atordoada, mas uma coisa eu sabia: que era a minha irmã que estava me olhando de longe quando cheguei à ponta da passarela. Eu podia apostar a minha vida. Senti uma mão no meu braço, me virei e vi a Sra. McMurty e, ao lado dela, um homem alto de terno e com os cabelos grisalhos. — Annabel — ela disse, sorrindo —, gostaria de lhe apresentar o senhor Driscoll. Ele é o diretor de marketing da Kopf e queria cumprimentar você. — Oi — eu disse. — É um prazer conhecê-lo. — O prazer é meu — ele respondeu, esticando a mão cuja palma era seca e fria. — Nós todos somos grandes fãs seus. Adoramos você no comercial de volta às aulas. — Obrigada — eu disse. — Ótimo desfile. — Ele sorriu, cumprimentando minha mãe e meu pai com a cabeça e, depois, continuou andando pela multidão com a Sra. McMurty. Minha mãe os observou ao se afastarem, com o rosto até vermelho. — Ah, Annabel — ela disse, e apertou meu braço novamente, sem dizer nada, mas eu entendi a mensagem. Claramente. Naquele momento, por cima da cabeça da minha mãe, eu vi a Sra. Shuster parada na saída do palco, segurando um casaco dobrado no braço. Ela olhou para o relógio, depois olhou em volta com ar preocupado. Um segundo depois, sua expressão relaxou e eu vi Emily andando em direção a ela. Emily ainda estava maquiada e com o cabelo arrumado, mas de roupa trocada, e não falou com ninguém enquanto passava pela multidão. — Hum, é melhor eu me trocar — eu disse aos meus pais. — Esses sapatos estão me matando. Minha mãe balançou a cabeça e se inclinou para me dar outro beijo.


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— É claro — ela disse. O Sr. Driscoll passou por nós novamente, mas dessa vez sem a Sra. McMurty. Minha mãe o acompanhou com o olhar e depois falou: — Vou preparar o seu prato, está bem? — Na verdade — eu disse —, é, umas meninas vão sair pra comer uma pizza. Sabe, para comemorar o final do desfile, essas coisas. — Ah — minha mãe disse. — Bem, eu sei que você deve estar exausta, então, não demore muito. Certo? Eu balancei a cabeça sem deixar de observar a Sra. Shuster, que esticou a mão para Emily, estendendo-lhe o casaco, e esperou a menina colocá-lo com uma expressão triste. Depois, ela passou a mão no braço da filha, acariciando-o de leve, e elas saíram em direção à saída do shopping. Voltei a prestar atenção na minha mãe, rapidamente. — Não vou chegar tarde — disse. — No máximo às onze horas — disse meu pai ao se inclinar para me dar um abraço. — Certo? — Certo — eu respondi. Durante todo o tempo em que troquei de roupa, depois andando em direção ao meu carro e dirigindo pela cidade, eu repetia a mim mesma que deveria tirar da cabeça o que tinha acontecido com Emily. Eu estava ansiosa para ir ao Bendo e determinada a me divertir. Ou a tentar me divertir. A partir de agora. — Então — eu disse, enquanto Owen voltava a olhar o palco —, o que eu perdi? — Nada demais — ele respondeu ao mesmo tempo em que alguém esbarrou em mim por trás. Quando caí para frente, ele agarrou meu braço e me segurou. — Opa — ele disse. — Cuidado, este lugar pode ficar igual a um hospício. — Houve um ruído estrondoso de interferência vindo do palco à nossa frente, e um grupo de pessoas à nossa esquerda começou a vaiar muito alto. Owen abaixou a cabeça para perto da minha orelha. — Como foi o desfile? Eu não queria mentir para ele. Mas, ao mesmo tempo, sabia que não podia contar o que tinha acontecido de verdade — não ali, não aquela noite. Talvez nunca.


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— Acabou — respondi, o que era tecnicamente verdade. — Isso é bom, não é? — ele disse, e uma garota alta usando uma blusa enfeitada com pedras passou por nós derrubando um pouco da bebida. Eu sorri. — Com certeza. — Bem, não se preocupe. Quando a banda começar, sua noite vai melhorar. — Você acha? — Eu tenho certeza — ele respondeu, no momento em que um cara de casaco preto falando ao celular esbarrou nele. Owen olhou para ele, que deu de ombros, não parecendo muito preocupado, e continuou andando. — Pois é. Hora de procurar mais espaço. Vem. Ele se virou e começou a andar no meio da multidão, e eu me esforcei para segui-lo até uma mesa próxima à parede. — Vamos sentar aqui — ele disse, fazendo sinal para a cadeira. — A vista não é boa, mas pelo menos ninguém está dando cotovelada no seu baço. Eu ouvi algo que me pareceu alguém afinando um instrumento, seguido de mais ruído de interferência. — É a Banda que vai abrir — disse Owen, apontando com a cabeça para o palco. — Era para eles terem começado há meia hora, mas... Esse pensamento foi interrompido por Rolly, que apareceu do nada e se sentou ao lado de Owen, fazendo o banco dar um tranco. — Eu — ele disse, sem fôlego — não acredito. — Finalmente — Owen disse, olhando para ele. — Onde você estava, cara? Eu já estava começando a pensar que você tinha sido sequestrado, sei lá. — Não — respondeu Rolly. — Você não vai acreditar no que acabou de acontecer. — Ele foi pegar uma bebida faz uma meia hora — Owen explicou para mim. — Quero dizer, você sabe que tem muita gente, mas isso é demais. E cadê a minha água?


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Rolly balançou a cabeça. — Meu. Ela está aqui. — O quê? Rolly respirou fundo e colocou as mãos na mesa com as palmas para cima. — Ela está aqui — ele repetiu. Depois pausou, para entendermos a situação antes de acrescentar. — Ela está aqui e sorriu para mim. — Durante meia hora? — Owen perguntou. — Não. Só um momento. — É a menina que te deu o soco? — eu perguntei, esclarecendo. — É. — Eu não acredito que você não pegou a minha água — Owen disse. — Você poderia deixar isso pra lá só por um segundo? — Rolly passou a mão no cabelo. — Acho que você não está entendendo a importância dessa situação. — Então você falou com ela? — Owen perguntou. — Não. O que aconteceu foi o seguinte — Rolly respirou fundo. — Eu estava indo para o bar e então, de repente, lá estava ela. Bum! Surgiu do nada bem na minha frente, como uma aparição ou algo assim. Mas no momento em que eu estava indo falar com ela, alguém parou entre nós. E quando me dei conta, ela tinha saído andando com algumas pessoas. Então desde aquela hora eu fiquei perto dela, esperando o momento perfeito para me apresentar. Quero dizer, tem que ser perfeito. — Por que você não vai lá e se oferece para pegar uma água pra ela? — sugeriu Owen. — Você pode pegar uma pra mim também. Rolly apenas olhou para ele. — O que é que há com você e esse lance de água? — Estou com sede — Owen lhe disse. — E eu estava indo pegar uma, mas você se ofereceu. Insistiu, devo acrescentar. — Eu vou pegar água pra você! — Rolly disse. — Mas antes, se você não se


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importar, eu gostaria de encontrar meu destino da forma mais perfeita possível. Mais um ruído de interferência vindo do palco. Owen suspirou. — Olha — ele disse —, talvez você deva esquecer esse momento ideal. Rolly apenas olhou para ele. — Eu não estou entendendo — ele disse. — Demorou muito tempo para você encontrá-la de novo, certo? — disse Owen. — E só Deus sabe quanto tempo mais vai demorar até o momento perfeito aparecer. Talvez você deva ir falar com ela e pronto. Assim... Rolly arregalou os olhos, de repente. — Ai, merda — ele disse. — Olha lá ela. Owen se levantou um pouco para olhar. — Onde? — Não olhe! — Rolly disse, puxando Owen para trás. Owen olhou para a manga da camisa, que estava sendo apertada por Rolly, e este tirou a mão. — Certo — ele falou em voz baixa. — Ela está parada ao lado da porta.De vermelho. Fiquei vendo Owen se levantar de novo, dar uma olhada e depois se sentar novamente. — Sim, é ela — ele disse. — E agora? — É exatamente isso que estou pensando — Rolly disse. — Eu preciso de uma entrada triunfal. Tenho que admitir que aquela altura tal suspense estava me deixando morta de curiosidade. — Eu só vou dar uma olhada geral no local — eu disse para Rolly. — Tudo bem? Rolly concordou e Owen olhou feio para ele. — Ela é menina — Rolly explicou. — Elas conseguem olhar sem olhar.


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De primeira, só consegui ver um cara enorme com uma camiseta do Metálica. Mas ao mover meu olhar com mais calma, vi que realmente havia uma garota atrás de mim. Ela tinha cabelos pretos brilhantes e estava usando uns óculos estilo retro, um suéter vermelho e calça jeans, e segurando uma bolsa cheia de contas. Mas eu nem precisava prestar atenção em tudo isso, pois soube de primeira. — Espere — eu disse, me virando para Rolly. — A menina... É a Clarke? Por um segundo, Rolly ficou apenas me olhando. Depois ele se debruçou sobre a mesa tão rapidamente que eu me inclinei para trás, assustada, batendo minha cabeça. —Esse é o nome dela? — ele perguntou. O rosto agora estava a poucos centímetros do meu. — Clarke? Fiz que sim com a cabeça. — Hum... É. Depois de fixar o olhar em mim por mais um segundo, ele recuou vagarosamente, até voltar a sua posição normal. —Ela tem um nome. E é Clarke. Clarke... — Ele parou de falar e me olhou de novo. — Reynolds — eu disse. — Reynolds — ele repetiu. — Uau! — Ele parecia estar em transe. Então, de repente, ele arregalou os olhos e estalou os dedos. — É isso! Essa é a minha entrada. Você. — Eu? Ele balançou a cabeça rapidamente. — Você a conhece. — Não — eu disse logo. — Não conheço. — Você sabia o nome dela — ele disse. — Nós éramos amigas. Foi... — Você é amiga dela? — ele perguntou. — Isso é perfeito!


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— Na verdade, não é... — eu disse balançando negativamente a cabeça. — Você vai lá e fala com ela e, então, eu passo e você me apresenta. É natural. É ideal! — Rolly, sério — eu disse. — Eu não sou a pessoa certa para se aproximar da Clarke. — Annabel — ele se inclinou sobre a mesa novamente, deslizando sua mão até a minha. — Annabel, Annabel, Annabel Greene. Shhh, Annabel. Sou só eu. Senti um arrepio. — Por favor — Rolly disse. — Só me escuta. Eu olhei para Owen, que balançou a cabeça. Quando levei minha mão direita para frente, Rolly segurou-a. — Essa garota — ele disse todo sério, a palma da sua mão estava quente — é meu destino. — Pronto — Owen disse —, agora você a está assustando de verdade. — Rolly — eu disse. — Isso é... — Por favor, Annabel — ele disse. Ele colocou a outra mão sobre a minha e meus dedos ficaram todos cobertos. — Por favor, só me apresenta pra ela. É só o que eu peço. Uma tentativa. Uma chance. Por favor. Eu sabia que deveria lhe contar a verdadeira razão pela qual ele não iria querer que eu fosse o cupido dele, ou que eu fizesse parte de qualquer coisa que acontecesse, ou não, entre ele e Clarke. Não apenas porque ele merecia saber disso, mas também porque até o momento eu vinha falando a verdade para Owen — e tudo relacionado a Owen — e não contar isso significaria que, pela segunda vez naquela noite, eu não estava sendo a garota sincera que ele pensava que eu era. Se é que alguma vez eu fui. Ao mesmo tempo, olhando para o rosto esperançoso de Rolly, fiquei hesitante. Em uma noite na qual o que eu fiz, ou não fiz, tomava proporções grandes, isso parecia um jeito pequeno de compensar, de alguma forma. Eu não poderia arrumar o passado nem mudar o que aconteceu com Emily. Mas, com isso, talvez eu conseguisse mudar o futuro de alguém. — Está bem — eu disse. — Mas estou avisando: talvez não dê certo.


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Os olhos de Rolly brilharam e ele rapidamente fez sinal para Owen se levantar da mesa para ele sair. — Vou ficar no bar — ele disse — e esperar você falar com ela. Depois, vou aparecer de repente e você apresenta a gente. Beleza? Concordei. Mas já estava me arrependendo do trato, o que Rolly deve ter percebido, pois ele saiu de lá rapidinho, para não me dar tempo de mudar de idéia. — Você tem certeza de que quer fazer isso? — Owen perguntou quando me levantei. — Não. — Eu olhei para Clarke, que agora estava sentada com algumas pessoas em uma mesa. — Volto em um segundo. Ao me virar, senti a mão dele no meu braço. — Ei — ele disse. — Tá tudo bem? — O quê? — eu perguntei. — Por quê? — Eu não sei — ele abaixou a mão, depois me olhou. — Você parece... Eu não sei. Você não parece você mesma ou algo assim. Tá tudo bem? E eu ali achando que estava disfarçando bem. Porém, assim como a diferença existente entre o meu rosto no retrato na parede da Mallory e na foto que ele tirou, o contraste — entre quem eu fui e quem eu estava novamente me tornando a cada passo que dava, ou era obrigada a dar, para trás — era óbvio. Para nós dois. E foi por isso que não hesitei ou tentei ser sincera, e apenas segui o que saiu naturalmente. — Estou bem — respondi, mas pude sentir que ele me observava enquanto eu me afastava. Clarke estava conversando com uma garota loira que usava delineador demais no olho e não me viu até eu ficar bem ao seu lado. Ela olhou ainda sorrindo, provavelmente por causa de algo que a sua amiga tinha acabado de dizer. Quando me viu, imediatamente voltou à sua expressão estóica, séria. Mas agora eu não podia mais desistir. Então, continuei. — Oi — eu disse. Primeiro, ela não disse nada. O silêncio durou o suficiente para eu achar que ela viraria o rosto e me ignoraria completamente. Mas quando aquela pausa estava


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se tornando insuportável, ela disse: — Olá. Alguém que estava na mesa disse algo para a loira e ela virou para o outro lado, nos deixando a sós. Clarke continuava me olhando com uma expressão séria, Eu me lembrei de nós na piscina, muitos anos atrás, uma fileira de cartas abertas entre seu polegar e o indicador. — Olha — eu falei rapidamente —, eu sei que você me odeia, tá bom? Mas é que... — É isso o que você acha? Eu parei ao recuperar o fôlego. — O quê? — Você acha que eu te odeio? — ela perguntou. Percebi de repente que a voz dela não era mais fanhosa e que ela não deu nenhuma fungada. — Você acha que esse é o problema? — Eu não sei — respondi. — Quero dizer, eu só pensei... — Você não sabe — ela repetiu. Sua voz era severa. — De verdade. Naquele momento, senti uma mão batendo no meu ombro com tanta força que quase caí em cima da mesa. — Annabel. Olá!! Era Rolly. Quando eu me virei, ele estava parado com uma cara de "nossa, que surpresa", como se fôssemos amigos de longa data e não nos víssemos havia séculos. Ao mesmo tempo, senti sua mão úmida no meu ombro. — Oi — eu disse, tentando parecer casual. — Oi! — ele respondeu, não muito melhor que eu. — Eu estou indo ao bar pegar umas águas. Quer vir? Clarke nos olhava, estreitando os olhos. "Melhor eu ir direto ao assunto", pensei. — Claro — eu disse. — Obrigada. Ah... é... Rolly, essa é a Clarke. Clarke, esse é o Rolly.


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Rolly estendeu rapidamente a mão. — Oi — ele disse enquanto Clarke, mais devagar, estendeu a dela. — Prazer em conhecê-la. — Prazer — ela disse secamente, e olhou de novo para mim. — Você estava dizendo? — Então, você veio ver o Truth Squad, certo? — Rolly disse, olhando de mim para Clarke, e imediatamente para Clarke novamente. — Eles são muito bons, você já os viu tocando antes? — Hum — Clarke respondeu. — Não, não vi. — Ah, eles são demais — Rolly disse todo empolgado. Dei um passo para o lado, e ele imediatamente foi para o lugar onde eu estava, perto dela. — Já vi esses caras tocando várias vezes. — É... É melhor eu ver se Owen quer uma bebida — falei. Clarke me fuzilou com os olhos; agora ela estava realmente muito brava. — Eu... hum... Volto em um minuto. Ou dois. E então saí de lá rapidinho. Quando encontrei Owen, ele estava falando com um carinha de cabelo preto e curto e olhar intenso. — ... Bagunça total — o cara de cabelo preto estava dizendo quando me sentei. — Era melhor quando nós fazíamos a nossa própria agenda. Pelo menos a gente podia dar nossa opinião sobre datas e lugares. Agora estamos nas mãos deles, no seu joguinho corporativo doentio. — Isso é péssimo — Owen disse. — É mesmo — o cara balançou a cabeça. — Pelo menos os nossos singles tocam em rádios do país inteiro. Quer dizer, isso é o que eles dizem. Vai saber se é verdade ou não. Eu olhei para a mesa da Clarke. Rolly ainda estava de pé, falando todo animado, enquanto Clarke parecia bem menos animada em ouvi-lo. — Annabel — Owen disse —, este é o Ted. Ted, Annabel. — Oi — Ted respondeu, mal olhando para mim. — Oi.


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Do palco, veio um estampido alto enquanto alguém testava o microfone. — Ei — a voz disse. — Isso aqui está ligado? — A resposta veio de alguém na multidão vaiando. Ted suspirou. — Está vendo? — ele disse — É disso que eu estou falando. Era para esses palhaços fazerem um show curto, e eles ainda nem começaram. — Quem são eles? — Owen perguntou. — Nem sei — Ted disse, claramente revoltado. — A banda que ia abrir apareceu com um tipo de gripe, então eles colocaram esses caras para substituir. — Deveriam ter deixado vocês começarem mais cedo — Owen disse. — Afinal, é um show para todas as idades. Além disso, todos estão aqui para ver vocês. — Exatamente o que eu acho — Ted respondeu. — Além disso, se tivéssemos um show mais longo, poderíamos tocar umas músicas novas. Nosso som está mudando muito. — Sério? Ted balançou a cabeça positivamente, parecendo mais animado. — Quer dizer, não é tão diferente do nosso som de sempre. É um pouco mais lento e com mais toques técnicos. Reverberação. E tudo mais. — Técnico? — Owen disse. — Ou eletrônico? — É difícil dizer — Ted respondeu. — É meio que uma coisa nova. Talvez a gente consiga tocar umas dessas músicas novas na segunda parte do show. Depois me fala o que achou, valeu? É... Não muito convencional, mas ainda assim acessível. Owen me olhou. — Sabe, se é essa opinião que quer, você deveria perguntar para Annabel o que ela acha — ele disse. — Ela odeia música eletrônica. Os dois me olharam. — Bem — eu disse. — Na verdade... — Então, se ela gostar — Owen disse —, não é experimental demais. Mas


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se ela odiar, não será tão bem aceito entre as massas. — E ela diria se odiasse? — Ted perguntou. — Sim — Owen balançou a cabeça. — Ela é super sincera. Não esconde. Quando ele falou isso, senti uma parte de mim desabar porque queria muito que aquilo fosse verdade, tanto que, por um tempo, eu realmente acreditei que fosse. Mas agora, sentada lá, percebendo que os dois me olhavam, me senti a maior mentirosa do mundo. Do palco, começou a vir um som de guitarra, seguido de bateria. Finalmente, a banda de abertura começava. Ted fez uma careta, depois se levantou. — Eu não agüento ficar ouvindo essa merda. Vou voltar. Vocês querem vir comigo? — Claro — Owen disse. Ouvi alguém berrar e mais interferência. Para mim ele disse: — Vamos. Segui Owen e Ted pela multidão, passando pela mesa de Clarke. Rolly ainda estava lá, falando, animado, e gesticulando. Clarke estava ouvindo, então, aquilo deve ter servido para alguma coisa. Ted nos levou até uma porta ao lado do bar, e depois o seguimos por um corredor tão escuro que eu nem conseguia ver os banheiros quando passamos por eles. Quando ele abriu uma porta que tinha um sinal onde estava escrito RESERVADO, uma luz brilhante surgiu de repente e me fez ficar piscando. Lá dentro, a primeira coisa que vi foi um cara de cabelo preto e de quatro no chão, procurando algo debaixo de um sofá. Quando nos viu, ele se levantou e abriu um sorriso largo. — Owen! E aí, cara? — Tudo bem — Owen disse ao apertarem as mãos. — E você? — Tudo, velho. Tudo. — O cara mostrou um celular e a bateria. — Acabei de quebrar meu celular. De novo. — Esta é a Annabel — Owen disse. — Dexter — ele disse, estendendo a mão. Para Ted ele perguntou: — Novidades?


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— A banda de abertura acabou de entrar — Ted respondeu ao andar na direção de um frigobar e pegar uma cerveja. — Tá tudo pronto aí? Havia dois caras em uma mesa próxima, jogando baralho. Um deles, um ruivo, respondeu: — Não parece, não? — Não. — Bem, quem vê cara não vê coração. Porque tá tudo certo. O outro cara que estava na mesa riu, descartando uma carta, e Ted o fuzilou com os olhos, e depois se deitou no sofá, colocando seus pés em cima de uma mesa à frente. —Então — Dexter disse, sentando do outro lado do sofá. Ele colocou o celular no joelho, depois pegou a bateria, estudando-a. — O que tá rolando de novo na música dessa cidade? — Nada sobre a qual vale a pena falar — Owen disse a ele. — É sério — Ted disse. — Você devia ver a banda cover de rock universitário que está tocando agora. Total imitação de Spinnerbait. — Spinnerbait? — eu disse. — É uma banda — Owen falou. — Odeio Spinnerbait! — disse o ruivo, batendo uma carta na mesa. — Calma, calma — Dexter disse, colocando cuidadosamente a bateria de volta em seu celular. Mas quando tirou a mão, ela caiu novamente no chão, fazendo barulho, e ele se abaixou para pegá-la. — É disso que eu gosto nesta cidade — ele disse, tentando colocar mais uma vez a bateria. — Tem um monte de bandas para escolher. — Isso não quer dizer que alguma delas saiba tocar — falou Ted. — Verdade. Mas variedade é sempre bom — Dexter disse enquanto a bateria caía de novo. Ele virou o telefone, tentando colocá-la de outro jeito: nada. — Em alguns lugares — ele disse — você quase não tem escolha e isso — a bateria caiu novamente — é péssimo. — Dexter. — Eu me virei e vi uma garota loira sentada em uma cadeira no


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canto da sala. Ela estava segurando um marcador amarelo e tinha um livro aberto sobre o colo. Eu nem a tinha visto. — Você precisa de ajuda? — ela perguntou. — Nem. Estou bem. Mas obrigado. Ela se levantou, colocando a caneta no livro e o livro debaixo do braço, e foi até ele. — Dá para mim. — Não precisa — Dexter disse, virando o telefone novamente. — Eu acho que agora quebrou de vez. Acho que deu pau em alguma coisa. Ela esticou a mão. — Deixa eu tentar. Ele entregou a ela o celular. Então, sob os olhares de todos nós, ela estudou o aparelho por um segundo, colocou a bateria e a empurrou para baixo. Houve um clique e depois ouvimos uma musiquinha quando o telefone ligou. Ela o devolveu para ele e voltou ao sofá. — Ah — ele disse, olhando para o telefone. — Obrigado, querida. — De nada. — Ela abriu seu livro — Estatísticas aplicadas a negócios, estava escrito na lombada — e sorriu para nós. — Meu nome é Remy — ela disse. — Ai! Desculpa! — disse Dexter. Ele abaixou a mão, fazendo carinho no cabelo dela. — Estes aqui são o Owen e a Annabel. Esta é a Remy. — Oi — cumprimentei, e ela respondeu com um aceno de cabeça, já pegando o marcador novamente. — Remy está passando as férias com os plebeus, nos acompanhando na turnê — Dexter explicou. — Ela estuda em Stanford. É muito inteligente. — Então por que ela está com você? — gritou o ruivo sentado à mesa. — Eu não faço a menor idéia — Dexter respondeu enquanto Remy revirava os olhos —, mas deve ser porque eu beijo bem. — Ele se inclinou, dando uma série de beijinhos estalados bem altos na bochecha dela. Ela se inclinou para trás, tentando empurrá-lo, mas ele caiu no colo dela, suas pernas compridas se estendendo desajeitadamente no sofá. — Para — ela disse rindo. — Credo.


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De repente começamos a ouvir mais interferência vinda do lado de fora, e mais vaias. — Espero que eles encurtem o show — disse Ted. — Será que mais alguém aqui gostaria de, talvez, se aprontar para o nosso show? — Não — disse o ruivo. — De jeito nenhum — acrescentou o outro cara. Ted olhou furiosamente os dois. Depois, colocou sua cerveja na mesa fazendo o maior barulhão, andou até a porta e a abriu. Assim que saiu para o corredor, bateu a porta com força. Muita força. O ruivo abaixou as cartas. — Gin! — ele exclamou, erguendo as mãos sobre a cabeça em uma comemoração de vitória. — Finalmente! — Ah, meu! — disse o outro cara. — Eu quase ganhei... — Sai — Remy disse, e Dexter saiu de cima do seu colo e ficou de pé. Ao fazer isso, deixou cair seu celular novamente, mas dessa vez a bateria não saiu. — O Ted tem razão — ele disse, porém o Ted já tinha saído. — Nós devíamos nos organizar. Owen, vocês vão ficar por aqui depois? Owen olhou para mim. — Claro — ele disse. — Legal. A gente se vê depois, então, está bem? — Beleza. Então, todo mundo começou a se movimentar: Dexter colocou o celular no bolso, o ruivo se levantou enquanto o outro cara recolhia as cartas. Segui Owen em direção ao corredor, onde passamos pelo Ted, que estava encostado na parede ainda com uma cara de irritado. Owen lhe desejou um bom show ao passarmos e ele murmurou alguma coisa de volta, mas eu não consegui entender o que disse. Ao voltarmos para a nossa mesa, eu olhei para a mesa da Clarke. Ela ainda estava lá, mas Rolly tinha saído. "Bom", pensei, "pelo menos eu tentei." — Agora sim — Owen disse ao sentarmos. Eu ouvi a banda de abertura


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terminando o show. — Agora começa música de verdade. Você vai gostar. Fiz que sim com a cabeça e coloquei uma mecha de cabelo para trás da orelha. Quando virei o rosto na direção de Owen, vi que ele me observava. — O que foi? — eu disse. — Bom — ele falou. — Alguma coisa está acontecendo com você. O que é? Eu congelei. Ali estava a pergunta direta. Talvez eu pudesse responder. Dizer alguma coisa, botar finalmente para fora Talvez... — Quero dizer — ele disse —, quando você vai simplesmente assumir que gosta do que eu gosto? Essa banda pode ser o Ebb Tide Dois. Você está com febre ou algo assim? Ele sorria ao dizer isso e eu tentei sorrir para ele também. Mas bem lá no fundo, de repente, comecei a sentir o peso das minhas tantas mentiras e omissões. — Tá tudo bem — respondi enquanto alguém começava a tocar alguns acordes de guitarra. — Mas pare de me distrair. Preciso me concentrar na música. Agora a multidão era muito maior do que no show da banda anterior e logo só o que eu conseguia ver eram costas e ombros. Owen se levantou. — Você deveria se levantar — ele disse. — Eu estou bem aqui — falei. — Parte da graça de ver o show de uma banda é realmente ver a banda — ele disse. E depois me estendeu a mão. Desde que saí do shopping tenho tentado esquecer o que aconteceu entre Emily e mim na passarela. Mas agora, olhando para Owen, tudo voltou. Não apenas o dia que resultou nisso, mas todas as vezes desde que ele fez isso pela primeira vez, oferecendo não apenas a sua mão, mas uma amizade que me salvou. Eu estava tão sozinha e com medo e, sim, com raiva, e de alguma maneira Owen enxergou isso, mesmo quando todas as outras pessoas preferiram desviar o olhar e fingir que nada estava acontecendo. Exatamente o que eu fiz, e estava fazendo, com Emily naquela noite. Sua mão ainda estava estendida, esperando. — Preciso ir ao banheiro — eu disse, me desencostando da parede e saindo


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da mesa — Volto em um segundo. — Espera — ele falou, abaixando a mão. E olhou para o palco. — A banda está entrando... — Eu sei. Já volto. Então, comecei a andar antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa. Principalmente porque não suportaria ter que mentir de novo. Mas também foi por causa daquele gosto amargo subindo até a minha boca. Eu tinha que sair de lá. Estava mais difícil passar pela multidão agora e eu teria que me esforçar para conseguir chegar à porta. Enquanto isso, a Truth Squad abriu o show com uma música que, a julgar pelo número de pessoas que imediatamente começou a cantar junto, era bem conhecida pela galera; as letras tinham alguma coisa a ver com batatas. Eu continuei me esforçando para sair, abrindo caminho em meio a um monte de pessoas que olhava para frente. Era um perfil atrás do outro e alguns viravam levemente o rosto, irritados, quando eu passava. Finalmente, a quantidade de pessoas começou a diminuir. Eu estava quase na porta quando alguém me segurou pelo braço. — Annabel! — Era Rolly. Ele estava com um sorriso enorme e carregava várias garrafas de água. — Consegui! Eu olhei para ele ao mesmo tempo que, de repente, aplausos e gritos vinham da multidão. — O quê? — Consegui — ele disse, segurando uma garrafa de água. — Eu fui pegar uma água para ela. Está dando certo! Finalmente, está dando certo mesmo! Você acredita? Ele estava tão feliz que o rosto ficou vermelho. — Mas que ótimo! — eu consegui dizer. — Na verdade, eu estava... — Tome — ele disse, me cortando, e colocou uma das águas no bolso da camisa, outra debaixo do braço e me deu as outras duas. — Pra você e pro Owen. Diz pra ele que eu disse que ele estava certo. Sobre tudo. Ok? Eu concordei, acenando a cabeça, ele me fez um sinal de "jóia" e foi embora. Ao vê-lo desaparecer na multidão, me dei conta de que gostaria de ter mandado por ele


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uma mensagem para Owen também. Olhei para aquele tanto de gente, sabendo que ele estava em algum lugar do outro lado, me esperando. Mas agora a distância parecia vasta e impossível, havia muita coisa no meio. Então, sentindo um gosto amargo na garganta e com as mãos úmidas, andei em direção à porta. Lá fora, o ar frio era cortante e eu sentia pedregulhos sobre meus pés ao deixar a balada. Eu já conhecia essa efervescência dentro de mim, a minha garganta queimando e a falta de tempo para conseguir me afastar. Mal consegui chegar ao meu carro, perto do qual eu caí de joelhos. As águas foram parar no chão, enquanto minhas mãos seguravam meu cabelo para trás. Mas dessa vez, apesar de sentir meu estômago revirar e de vomitar, nada saiu. Eu só ouvia o barulho da minha respiração, o meu coração batendo forte e a música quase inaudível.


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Quinze — Certo — minha mãe disse, pegando um carrinho de compras ao lado da porta automática. Ela colocou a bolsa na frente, depois pegou a lista e a desdobrou. — Vamos lá. Era a segunda semana de dezembro e nós estávamos no supermercado Mayor, pois eu tinha sido a companhia escolhida para fazer as compras para o jantar de boas-vindas de Kirsten. Eu não estava muito animada com isso, ao contrário da minha mãe, feliz em ritmo de férias. Mesmo assim, ao vê-la empurrando o carrinho e sorrindo para mim, fiz o melhor que pude para sorrir para ela também. Ultimamente, tudo era na base da tentativa. O último mês e meio foi muito confuso. A única coisa da qual eu tinha total consciência era de como as coisas voltaram a ser completamente iguais ao começo do ano letivo. Parecia que o tempo que passei com Owen não tinha nem acontecido. Novamente, eu estava só na escola, trabalhando como modelo a contragosto e completamente incapaz de fazer qualquer coisa para mudar isso. No domingo seguinte àquela noite no Bendo, eu acordei às sete horas em ponto, bem na hora do programa do Owen. Só quando abri os olhos é que me lembrei que essa manhã era diferente e virei de costas para o relógio, tentando voltar a dormir. Mas senti que uma teimosa dentro de mim insistia em ficar acordada, pouco a pouco, e tudo voltou como uma avalanche. Ele deveria estar furioso comigo, afinal de contas, eu simplesmente fui embora, sem explicação nem nada. O pior era que eu sabia que estava errada, mesmo sob as circunstâncias em que tudo estava acontecendo, mas mesmo assim não fiz nada a respeito. A única maneira de consertar isso seria explicar aberta e honestamente por que eu tinha ido embora, e eu não podia fazer isso. Nem mesmo por ele. Porém, no final das contas, discutir ou não sobre aquela noite não dependia só de mim. No dia seguinte, de volta à escola, Owen tomou a decisão por nós.


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Eu estava dentro do meu carro, pois tinha acabado de estacionar, quando ele apareceu do nada na janela. Anunciou sua presença batendo no vidro, forte: tum, tum, tum. Eu pulei e virei o rosto. Assim que percebeu que eu estava prestando atenção, ele abaixou a mão e deu a volta no carro em direção ao banco do passageiro. Quando ele abriu aporta, eu respirei fundo, exatamente como dizem que se deve fazer caso o seu carro esteja imerso em água, o último fôlego. E Owen estava dentro do carro. — O que aconteceu com você? Como eu esperava, ele não disse nem oi. Nenhum silêncio profundo para eu preencher. Apenas a única frase que ficou na cabeça dele por... hum... trinta e seis horas mais ou menos. E o pior, ele me olhava com tanta atenção — e raiva — que só consegui olhar para ele rapidamente, durante cerca de um segundo. Seus lábios estavam sérios, seu rosto, vermelho, sua presença inquieta preenchendo o pequeno espaço ao nosso redor. — Desculpe — eu disse, e senti minha voz vacilar quando as palavras saíram. — Eu só... Esse é o problema em lidar com alguém que é um verdadeiro bom ouvinte. Eles não interrompem você no meio de frases, impedindo, ou melhor, salvando você de ter que terminá-las. E nem falam antes de você, permitindo que o que você quer dizer se perca ou se altere no caminho. Em vez disso, eles esperam. Então você tem que continuar. — Eu não sei o que dizer — eu consegui falar, finalmente. — Eu só... Não consigo. Ele ficou em silêncio por um tempo que me pareceu longo. "Isso é tortura", pensei. Então ele disse: — Se você não queria ir lá no sábado, era só ter me dito. Mordi meu lábio, olhando para as minhas mãos enquanto dois carinhas passavam pela minha janela gritando algo sobre o treino de futebol. — Eu queria estar lá — falei. — Então, o que aconteceu? — ele perguntou. — Por que você simplesmente foi embora? Eu não sabia o que estava acontecendo. Fiquei te esperando. Algo nessas poucas e últimas palavras me fez desmoronar. Fiquei te


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esperando. É claro que sim. E é claro que ele me diria isso porque, diferentemente de mim, Owen não guardava segredos. Com ele, tudo era um livro aberto. — Desculpe — eu disse de novo, mas até para mim aquilo soou tão ruim e fraco, sem significado. — Eu só... Muita coisa tinha acontecido. — Como o quê? Eu balancei a cabeça. Era isso que eu não podia fazer: ficar contra a parede e não ter saída a não ser contar a verdade. — É que foi muita coisa — eu disse. — Coisa — ele repetiu, e eu pensei, Marcador de Posição. Mas ele não disse isso em voz alta. Em vez disso, ele espirrou, virando a cabeça para a janela. Só então eu me permiti olhar para ele, observando tudo o que me era familiar: o traço forte da sua mandíbula, os anéis nos dedos e os fones de ouvido em volta do seu pescoço. Bem de longe, eu ouvi música saindo deles e me perguntei, por hábito, o que ele estaria ouvindo. — Eu só não entendo — ele disse. — Quero dizer, tem que ter uma razão, e você simplesmente não quer contar. E isso não... — ele parou, balançando a cabeça. — Isso não parece você. Durante um momento, o silêncio foi absoluto. Ninguém andava, nenhum carro passava atrás de nós. E eu disse: — Mas é. Owen me olhou, colocando a mochila em cima do outro joelho. — O quê? — Isso se parece comigo — eu disse. Minha voz era tão baixa que eu mal podia me ouvir. — Isso é tipicamente meu. — Annabel. — Ele ainda parecia perturbado, como se isso nunca pudesse ser verdade. Ele estava errado. — Pare com isso. Abaixei o olhar em direção às minhas mãos novamente. — Eu queria ser diferente — eu disse a ele. — Mas sou assim.


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Tentei dizer isso a ele naquele primeiro dia. Eu disse que nem sempre falava a verdade, que eu não sabia lidar bem com conflitos, que raiva me dava medo e que estava acostumada às pessoas simplesmente desaparecerem quando estavam com raiva. Nosso erro foi ambos acreditarmos que eu fosse capaz de mudar. Que eu tinha mudado. Mas no final das contas, essa era a maior mentira de todas. O primeiro sinal tocou alto e longo. Owen mudou de posição no banco, depois colocou a mão na maçaneta da porta. — Seja lá o que for — ele disse —, você poderia ter me contado. Você sabe disso, não é? Vendo Owen sentado lá, com uma mão na porta, eu sabia que ele estava esperando que eu fosse a garota corajosa que ele pensava e contasse a ele. Ele esperou mais tempo que imaginei, até que abriu a porta e saiu. E, assim, ele se foi, atravessando o estacionamento com a mochila no ombro e já colocando os fones de ouvido. Quase um ano antes, eu o vi desse mesmo jeito logo depois de ele ter dado um soco em Ronnie Waterman. Naquele dia, fiquei espantada e com um pouco de medo. Eu me sentia do mesmo jeito agora, ao me dar conta do que meu silêncio e medo me custaram, mais uma vez. Esperei até o segundo sinal, quando o pátio estava quase vazio, para sair do carro e ir para a aula. Não queria ver Owen, não queria ver ninguém. Durante toda a manhã, andei pelos corredores como se envolta por uma névoa, bloqueando deliberadamente as vozes ao meu redor. No almoço, fui para a biblioteca e me sentei em uma mesa individual perto da seção de História Americana com livros espalhados na minha frente, mas sem ler uma palavra. Ao chegar o final do período, recolhi minhas coisas e fui ao banheiro. Estava vazio, com exceção de duas garotas que eu não conhecia, paradas perto das pias, que começaram a falar assim que entrei em uma cabine. — O que estou dizendo — uma disse enquanto a torneira foi ligada e a água começou a cair — é que eu não acho que ela esteja mentindo. — Ah, fala sério — a outra garota falava alto e a voz era mais nasal. — Ele poderia sair com a garota que quisesse. Então, por que ele faria uma coisa dessas? — Você realmente acha que ela iria à polícia se não tivesse acontecido? — Talvez ela só queira chamar a atenção.


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— De jeito nenhum. — A torneira parou e ouvi papéis-toalha serem puxados. — Ela e Sophie eram melhores amigas. E agora todo mundo sabe! Por que passar por tudo isso por causa de uma mentira? Congelei. Elas estavam falando sobre Emily. — E ele foi preso acusado do quê? — a primeira garota perguntou. — Agressão sexual. Ou estupro em segundo grau, eu não sei qual. — Não acredito que ele foi preso de verdade — a outra garota disse. — Na república em que ele mora, a A-Frame! — a amiga respondeu. — Megan disse que, quando a polícia estacionou na frente, era gente correndo para todos os lados. Todos achavam que era uma batida pra procurarem bebida na casa. — Não exatamente. — Ouvi o zíper de uma mochila. — Você viu a Sophie? — Não. Eu acho que ela não veio hoje — disse a outra garota. — Que merda. Você viria? Elas saíram, fazendo barulho no chão com os saltos, então não cheguei a ouvir a resposta. Em vez disso, fiquei na cabine com uma mão na parede ao meu lado, onde alguém tinha escrito EU ODEIO ESTE LUGAR em caneta azul. Abaixei a mão, depois tampei o vaso sanitário e me sentei, tentando organizar mentalmente o que tinha acabado de ouvir. Emily foi à polícia. Emily prestou queixa. Emily contou. Essa descoberta foi tão impactante que fiquei lá, sentada, com as mãos nas coxas e atordoada. Will tinha sido preso. As pessoas estavam sabendo disso. Desde sábado à noite, eu deduzi que Emily, assim como eu, tivesse ficado em silêncio, com medo, e guardado para si a história e a deixado lá. Mas não foi isso que ela fez. Com o passar da tarde, comecei a ouvir as pessoas ao meu redor e peguei o resto da história. Ouvi que Emily ia pegar uma carona da A-Frame até uma festa com Sophie, mas ela se atrasou, então Will se ofereceu para levá-la. Que ele estacionou na rua e, então, dependendo de quem acredita em quem, ele pulou nela ou ficou surpreso quando ela tomou a iniciativa. Que uma mulher passeando com o cachorro viu algo acontecendo e ameaçou chamar a polícia caso eles não saíssem de lá. Foi assim que Emily saiu do carro e, depois de pegar uma carona para casa, contou tudo para sua


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mãe. Parece que ela tinha passado a manhã inteira do sábado na polícia, dando queixa. Que, quando a polícia foi prender Will no sábado à noite, ele chorou ao ser algemado. Que o pai do Will pagou a fiança em poucas horas e contratou o melhor advogado da cidade para ele. E que Sophie estava contando para todo mundo que Emily sempre tinha sido a fim do Will e que, quando ele disse que não estava interessado, ela falou ter sido estuprada E enquanto Sophie não tinha ido à escola hoje, Emily estava lá. Não a vi até depois do último sinal. Eu estava pegando um caderno no meu armário quando percebi as vozes sumindo de repente, o que era muito estranho para a bagunça de final de dia. Não chegou a ficar um silêncio absoluto, mas mais silencioso. Quando me virei, eu a vi andando no corredor em minha direção. Ela não estava encolhida nem sozinha. Estava acompanhada de duas garotas, uma de cada lado; as duas eram suas amigas antes de Sophie. Eu simplesmente deduzi que não teria ninguém ao meu lado depois do que tinha acontecido, e que todos simplesmente aceitariam a versão da Sophie. Nem passou pela minha cabeça que alguém fosse acreditar na minha. O assunto dos dias que se seguiram continuou sendo o que aconteceu entre Emily e Will, mas eu me esforçava para não prestar atenção. Mas às vezes isso era impossível, como no dia em que eu estava na aula de inglês, lendo um pouco mais da matéria na última hora, e Jessica Norfolk e Tabitha Johnson, que estavam sentadas atrás de mim, começaram a falar sobre Will. — Eu ouvi dizer — disse Jessica, que era tesoureira do primeiro ano e não fazia, pelo menos era o que eu pensava, o estilo fofoqueira — que ele fez isso antes. — Sério? — respondeu Tabitha. Ela sentou-se atrás de mim durante todo o ano e ficava sempre fazendo clic clic com a caneta, o que me deixava louca. E estava fazendo isso agora. — É. Parece que rolavam uns boatos quando ele estudava na Perkins Day. Sabe, umas meninas disseram que algo parecido aconteceu com elas. — Mas ninguém o fez ser preso. — Bem, não — Jessica disse. — Mas isso quer dizer que poderia ser... Um padrão. Tabitha, ainda fazendo clic clic com a caneta, suspirou profundamente. — Nossa — ela exclamou. — Coitada da Sophie.


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— Eu sei. Imagina você namorar alguém e acontecer isso? Em muitas dessas conversas que ouvi, o nome da Sophie aparecia, o que não era de se surpreender. Ela e Will eram um desses casais conhecidos com a frequente exposição dos seus dramas. Então, me pareceu estranho ela não ter ido à escola naquele primeiro dia. Fiquei surpresa com Emily, mas com Sophie também. Não apenas pelo fato de não ter ido à escola, mas pelo seu comportamento depois, quando ela finalmente voltou às aulas. Ela não ficou no pátio para deixar claro que não tinha ficado abatida pelo que aconteceu. Nem confrontou Emily na frente das pessoas, como fez comigo. Na verdade, a primeira vez que a vi, ela estava só, andando no corredor e falando ao celular. No almoço, quando olhei pela janela da biblioteca, ela não estava sentada no seu banco — que estava cheio de garotas mais novas que eu nem conhecia —, mas na calçada próxima ao retorno, esperando uma carona. Já Emily estava sentada em uma mesa de piquenique, tomando água e comendo batatinhas, cercada de pessoas. Então, Sophie estava só. Eu estava só. E Owen estava só, pelo menos foi o que deduzi. Às vezes, antes ou depois da escola, eu o olhava de relance. Ele sempre se destacando no meio de todos ao andar no pátio ou entrar em algum prédio. Às vezes, ao vê-lo, tudo o que eu queria era contar tudo a ele. Essa vontade me vinha como uma onda, repentina e inesperada. Mas, no momento seguinte, eu já dizia a mim mesma que agora ele provavelmente nem queria saber de nada. Ao vê-lo atravessando o pátio sem nenhuma expressão no rosto, usando fones de ouvido, era como se ele retrocedesse e voltasse a ser para mim a pessoa que era antes de tudo isso. Apenas um mistério, um garoto que eu não conhecia, apenas mais um rosto na multidão. Se a escola me estressava, em casa não era diferente. Mas apenas eu me sentia assim, pois tudo estava ótimo para todos os outros membros da minha família. Minha mãe, ao meu lado, estava nesse exato momento empurrando o carrinho de compras pelo setor de frutas do supermercado, toda feliz que a família estaria finalmente reunida de novo depois de Kirsten ter falado em vir no feriado de Ação de Graças e, mais tarde, ter resolvido ficar em Nova York para trabalhar algumas horas extras e estudar. Porém, ela mencionou ter passado o jantar de Ação de Graças com Brian, o professor assistente, mas não deu maiores detalhes, o que não era muito o "estilo Kirsten de ser". Agora ela finalmente viria nos visitar no Natal, e minha mãe estava muito empolgada. —Vamos fazer dois tipos de batata — minha mãe disse, fazendo sinal para eu pegar algumas sacolas plásticas. — Vou fazer a minha batata ensopada de forno e Whitney fará uma batata assada com azeite de oliva.


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— Ah, é? — eu perguntei, lhe estendendo as sacolas. — É uma receita que Moira passou pra ela — ela disse. — Não é ótimo? E era. Deixando meus problemas de lado, tenho que admitir que fiquei impressionada com a recente melhora da Whitney. Há um ano tudo aquilo começou e agora, por mais que ela ainda não estivesse curada, as mudanças eram evidentes e muito boas. Primeiro, ela começou a cozinhar. Não muito e nem com muita frequência. Foi bem devagar, logo depois do macarrão que ela fez para mim. Parece que Moira Bell gostava de alimentação natural e cozinha orgânica, e quando Whitney lhe contou que tinha feito espaguete, ela lhe emprestou alguns livros de receita. As refeições da minha mãe eram mais cremosas e substanciosas: muito ensopado de forno com base de creme de cogumelo, molhos pesados, carne e maisena. Whitney tomou um rumo diferente, o que era de se esperar. Começou fazendo salada para o jantar de vez em quando e, depois, passou a ir à quitanda comprar verduras e legumes que ela ficava séculos fatiando. Seus molhos para a salada eram vinagretes, misturas com ervas, e, se você tentasse pegar o molho ranch ou tártaro, ela olhava atravessado. No fim de semana do desfile, ela fez salmão grelhado com molho de limão, seguido de ervilhas no vapor com limão fresco para substituir o encorpado ensopado de forno com cobertura de cebola frita que normalmente comíamos no Dia de Ação de Graças. Minha mãe era uma ótima cozinheira, do tipo que não precisava de receitas, nem medidas, pois trabalhava somente com pitadas e salpicadas. Quando Whitney cozinhava, era com muita exatidão, e sempre com seu jeito mandão — fosse sobre o molho para salada ou ao dizer que sim, nós poderíamos viver sem colocar manteiga em todos os acompanhamentos —; era tudo parte do processo. Mas mesmo quando irritava, ainda era uma melhora e nós todos estávamos comendo de maneira mais saudável. Querendo ou não. Ela também estava escrevendo e terminou sua história oficial no final de outubro, mas não parou de trabalhar nela, sentando-se com frequência à mesa de jantar ou enrolada perto da lareira, mordendo o lápis. Até agora ela não me pediu para ler nada do que escreveu, mas eu também não pedi para ver. Mesmo assim, das poucas vezes que vi seu caderno na escada ou na mesa da cozinha, fiquei tentada a abri-lo apenas para ver o que diziam aquelas linhas escritas com tanto cuidado. Mas não fiz. Afinal de contas, eu era uma especialista em guardar as coisas para mim. Porém, as ervas foram o que mais me impressionou. Depois de ficar na janela sem fazer nada durante uns dois meses, o alecrim finalmente germinou um pouco antes do Halloween. Era apenas um pontinho verde, mas logo outros o seguiram. Whitney verificava como eles estavam todos os dias, testando a umidade do solo com


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os dedos e virando-os de leve para onde tinha mais luz. Antes, eu pensava em minha irmã do meio como uma porta fechada, mas ultimamente eu a via de outra forma: suas mãos segurando uma faca, ou uma caneta, ou um regador se movendo sobre as plantas e as ajudando a crescer. Enquanto isso, Kirsten não só tinha sobrevivido à exibição do seu filme para seus professores e colegas de classe, mas foi vitoriosa ganhando o primeiro lugar na competição. Esperei que ela nos ligasse para nos presentear com um dos seus extensos monólogos cheios de detalhes, mas, em vez disso, ela deixou uma mensagem — nos contando que tinha ganhado e que estava muito contente — que durou menos de dois minutos, um recorde para ela. Era tão estranho que todos nós tínhamos certeza de que algo deveria estar errado, mas, quando retornei a ligação, ela falou exatamente o contrário. — Está tudo ótimo — ela me disse. — Simplesmente ótimo. — Tem certeza? — perguntei. — Você deixou uma mensagem muito curta. — Foi? — Primeiro pensei que a secretária tivesse cortado — eu disse. Ela suspirou. — Bem, isso não é totalmente surpreendente, eu acho. Tenho feito muitos exercícios para me comunicar melhor. — É mesmo? — perguntei. — Sim, claro — ela suspirou novamente, um suspiro feliz. — Fico impressionada com o tanto que aprendi este semestre. Quero dizer, entre o trabalho como diretora de cinema e a aula de Brian, eu estou aprendendo muito sobre o verdadeiro significado da comunicação. Realmente abriu meus olhos. Fiquei esperando que ela continuasse, que explicasse. Especialmente sobre o Brian. Mas não foi o que ela fez. Em vez disso, ela disse que me amava, que tinha que ir e que me veria logo. E nós desligamos. Em menos de quatro minutos. Kirsten pode ter aprendido a arte da verdadeira comunicação, mas eu estava tristemente reprovando nessa matéria. Não apenas com Owen, mas também com minha mãe, pois, de alguma maneira, no meio de tudo aquilo que estava acontecendo, concordei em fazer outro comercial para a Kopf. Foi na mesma semana em que fiquei sabendo que Emily deu queixa. Quando


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cheguei da escola naquela sexta-feira, minha mãe me esperava na porta. — Adivinha! — ela disse, antes de eu entrar em casa. — Acabei de receber um telefonema de Lindy. O pessoal da Kopf entrou em contato com ela ontem pela manhã. Eles querem você no novo comercial de primavera. — O quê? — eu perguntei. — Parece que eles gostaram muito dos resultados da campanha passada. E, eu tenho que dizer, ter conhecido aquele homem do marketing não fez mal algum. Eles vão filmar em janeiro, mas querem te ver em dezembro para a prova de roupas. Não é ótimo? "Ótimo", pensei. A verdade é que isso seria algo que eu consideraria muito mais importante alguns meses atrás. Cerca de duas semanas antes, eu talvez conseguisse impedir tudo aquilo. Mas agora, eu simplesmente fiquei parada e mal consegui balançar a cabeça, concordando. — Disse a Lindy que ligaria para ela assim que contasse a você — ela falou andando em direção à cozinha e pegando o telefone. Enquanto discava, ela acrescentou: — Pelo que Lindy disse, o anúncio foi muito bem aceito entre as garotas e foi disso que o pessoal da Kopf realmente gostou. Você é um modelo, um exemplo, Annabel! Isso não é incrível? Pensei no quarto da Mallory, as tomadas das cenas enfileiradas na parede. E depois em seu rosto olhando para a câmera, as plumas do boá flutuando. — Eu não sou modelo para ninguém. — É claro que é — ela respondeu com uma facilidade incrível. Ela virou a cabeça para me olhar, sorrindo novamente ao mudar o telefone para a outra orelha. — Você tem muito do que se orgulhar, querida. Tem mesmo. Quero dizer... Lindy?... Oi! É a Grace. Estou tentando falar... A sua recepcionista ainda não voltou?... Ainda?... Que péssimo... Sim, eu acabei de conversar com a Annabel e ela está animadíssima... "Animadíssima", pensei. Não muito. E nem um modelo, também. Não que isso importasse. Contanto que alguém pense que eu sou todas essas coisas, é isso o que importa. De repente, outubro virou novembro, e novembro virou dezembro, sem que eu notasse os dias ficando mais curtos e mais frios, e as musiquinhas de Natal tocando nas rádios. Ia para a escola, estudava e voltava para casa. Mesmo quando as


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pessoas tentavam falar comigo na escola, eu mal respondia, tão acostumada ao meu isolamento que até preferia ficar assim. Logo nos primeiros fins de semana, meus pais pareciam intrigados com o fato de eu não sair mais e nem fazer planos. Mas depois de justificar dizendo que eu estava muito cansada por causa do meu trabalho como modelo e da escola, e que precisava fazer dever de casa, eles pararam de perguntar. Mesmo assim, eu tinha consciência do que estava acontecendo ao meu redor. Sabia pelas fofocas que o julgamento do Will se aproximava e que garotas da Perkins Day se apresentariam para contar histórias parecidas com a de Emily. Quanto a Emily, ela parecia estar indo bem. Ela com certeza não estava se escondendo. Na verdade, eu a via em todos os lugares — nos corredores, no pátio, conversando no estacionamento — sempre com um monte de garotas em volta dela. Mais ou menos uma semana atrás, no corredor, eu a vi parada perto do seu armário e ela ria de alguma coisa. Suas bochechas estavam vermelhas, a mão sobre a boca. Foi apenas um momento, uma coisa, mas que por algum motivo ficou na minha cabeça o dia inteiro. Sophie não estava indo tão bem. Das vezes que a vi, ela estava sozinha e agora saía da escola no horário de almoço todos os dias em um carro preto que parava para pegá-la. Não era Will, e eu me perguntava se eles ainda estariam juntos, mas, já que não ouvi dizer o contrário, imaginei que ainda estivessem. Parecia que tinha passado um milhão de anos desde que as aulas começaram, quando eu tinha medo dela. Agora, ao ver Sophie, eu simplesmente ficava triste por nós duas. Sentia um pouco de solidão quando via Owen. Mas apesar de não nos falarmos, continuava escutando, à minha própria maneira. Não o programa de rádio, embora ainda acordasse pontualmente às sete da manhã aos domingos, um mau hábito que por alguma razão eu não perdia. Mais difícil de esquecer era a música. Não apenas a música dele, mas qualquer música. Não sei exatamente quando começou, mas de repente eu prestava atenção ao silêncio. Em todo lugar que ia, eu precisava de algum tipo de barulho. Quando estava no carro, ligava o som sem pensar; no meu quarto, desligava a luz antes de desligar o tocaCD. Até na aula ou sentada à mesa com meus pais, sempre tinha uma música se repetindo na minha cabeça. Lembrava de Owen me contando como a música o salvou quando ele morava em Phoenix, pois ela abafava tudo, e eu sentia a mesma coisa agora. Desde que tivesse algo para ouvir, eu podia disfarçar as coisas sobre as quais não queria pensar, ou até bloqueá-las completamente. Mas eu precisei de muita música para fazer isso e depois de algumas semanas já tinha ouvido várias vezes todos os meus CDs. E foi por isso que, numa


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noite de sábado, não aguentei e peguei a pilha de CDs que Owen tinha gravado para mim. "Momento de Desespero", pensei ao abrir o CD de MÚSICAS DE PROTESTO novamente e ouvi-lo. Eu continuei não adorando. Algumas músicas eram estranhas e outras eu não entendia. Porém, achei que fosse ser estranho ouvir as músicas de Owen, mas, na verdade (e para a minha surpresa), foi muito reconfortante. Eu gostava de imaginá-lo escolhendo as músicas para mim, organizando tudo com cuidado, esperando que eu me tornasse uma iluminada. De qualquer maneira, era prova de que um dia nós tínhamos sido amigos. Nas últimas semanas, venho ouvindo os CDs, música por música, prestando atenção em cada faixa até saber de cor. Cada vez que terminava um deles, me sentia triste por saber que faltava pouco para essa experiência terminar também. Assim, eu planejava não ouvir o CD onde estava escrito Just LISTEN. Era um mistério para mim, assim como Owen tinha sido, e às vezes eu pensava que seria melhor deixá-lo sem solução. Mesmo assim, eu o pegava de vez em quando, apenas para tocá-lo, e depois o colocava de volta junto com os outros. Quando minha mãe e eu finalmente estávamos indo para o estacionamento do supermercado, fiquei surpresa ao ver que estava nevando. Os flocos eram grandes, do tipo rechonchudos e bonitos demais para acreditar, mas nós duas ficamos paradas por um tempo, observando-os cair. Quando chegamos ao carro e saímos do estacionamento, eles já estavam diminuindo, alguns deles eram pegos pelo vento e voavam em círculos. Minha mãe ligou o limpador de pára-brisas ao pararmos em um semáforo, olhando os flocos caírem sobre o carro. — É lindo, não é? — ela disse. — Há algo na neve que faz tudo parecer tão fresco e novo. Você não acha? Fiz que sim com a cabeça. O semáforo demorava e, apesar de ser apenas cinco horas da tarde, já estava escurecendo. Minha mãe me olhou sorrindo e estendeu a mão para ligar o som. Quando ela aumentou o volume, enchendo o carro de música clássica, virei meu rosto para o lado de fora. Senti a janela fria contra a minha bochecha, e fiquei olhando aqueles flocos bonitos caindo até fechar os olhos.


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Dezesseis A mesa de estudos individuais da biblioteca, onde eu agora passava a hora do almoço, ficava bem no canto direito, escondida e longe de qualquer movimento. Eu não estava acostumada a ter companhia e, por isso, quando Emily entrou lá no último dia antes das férias de Natal, eu a vi primeiro. Em um primeiro momento, ela era apenas um borrão vermelho que vi de canto do olho e passou uma, depois, duas vezes. Eu ergui o olhar e logo voltei para as anotações de inglês que estavam espalhadas na minha frente, pois estava estudando para uma prova; depois, olhei novamente ao meu redor: nada. As mesmas estantes silenciosas e as mesmas fileiras de livros. Porém, em seguida, ouvi passos. Quando me virei, ela estava atrás de mim, em uma estante próxima. — Ah — ela disse. Sua voz era baixa, mas audível. — Você está aí. Ela falou como se eu tivesse sido perdida, ou extraviada, e agora aparecesse, como uma meia que você encontra muito tempo depois de achar que ela tinha sumido na máquina de lavar. Eu não disse nada, de tão preocupada com o pânico que estava começando a sentir. Escolhi ficar naquele lugar justamente por ser isolado, de frente para a parede e longe de tudo, os mesmos motivos pelos quais esse era o pior lugar para ficar encurralada. Emily começou a vir em minha direção e eu, sem nem me dar conta, me inclinei para trás e bati na mesa seguinte. Ela parou de braços cruzados. — Olha — ela disse. — Eu sei que as coisas ficaram estranhas entre nós nesse ano. Mas eu... Eu preciso falar com você. Ouvi vozes vindas de algum lugar próximo, uma voz feminina e outra masculina, conversando ao andar por entre as estantes. Emily as ouviu também e virou a cabeça na direção de onde vinha aquele som até ele sumir. Depois, pegou uma cadeira próxima, arrastou-a para perto de mim e se sentou. Sua voz era quase um sussurro, quando ela disse:


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— Eu sei que você ficou sabendo do que aconteceu. Do que Will fez comigo. Ela estava tão perto de mim que eu sentia o cheiro do seu perfume, uma mistura de floral e frutas. — Depois — ela continuou, sem tirar aqueles olhos verdes de mim — eu comecei a pensar em você. E naquela noite na festa, nas férias do ano passado. Eu podia ouvir a minha respiração, o que queria dizer que provavelmente ela também podia. Atrás dela, dava para ver pela janela as árvores se mexendo levemente, e um raio de luz se abria sobre as prateleiras de livros e a poeira. — Você não precisa conversar sobre isso comigo — ela continuou. — Quero dizer, eu sei que você me odeia e tudo mais. Eu me lembrei da Clarke, olhando para mim no Bendo. "É isso o que você acha?", ela respondeu quando eu disse essa mesma coisa a ela. — Mas acontece que — Emily disse — se algo aconteceu... Algo parecido com o que aconteceu comigo, você poderia ajudar. Assim ele nunca mais vai poder fazer isso. Nunca mais. Eu ainda não tinha dito nenhuma palavra Não consegui dizer nada. Só fiquei lá, imóvel, vendo-a colocar a mão no bolso da calça e tirar um cartãozinho branco. — Esse é o nome da mulher que está cuidando do meu caso — ela disse, estendendo o cartão para mim. Como eu não o peguei imediatamente, ela colocou o cartão em cima da mesa, do lado do meu cotovelo e com a frente para cima. O nome estava em fonte preta e tinha um logotipo no canto superior esquerdo. — O julgamento começa na segunda-feira, mas eles ainda querem falar com algumas pessoas. Você poderia apenas ligar para ela encontrar... O que você quiser. Ela é muito bacana. A única coisa que eu mais temia, a razão pela qual não fui sincera com Owen sobre o que realmente estava acontecendo naquela noite no Bendo, ela fez parecer tão fácil. Se não consegui contar para ele, a única pessoa que eu realmente achava que agüentaria, como conseguiria me abrir com uma estranha? De jeito nenhum, nem se eu quisesse. E eu não queria. — Só pense sobre o assunto — ela me disse. Depois, tomou fôlego, como se fosse falar mais alguma coisa, mas não disse e se levantou. — Aí a gente se vê, tá?


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Ela colocou a cadeira de volta no local onde estava e começou a andar na direção da prateleira mais próxima. Porém, depois de dar dois passos, ela se virou para me encarar. — E Annabel? — ela perguntou. — Desculpa. Por um momento, essa palavra ficou suspensa no ar entre nós até que ela voltou a andar e desapareceu ao passar pela última mesa de estudo. Desculpa. Era a mesma coisa que eu queria dizer a ela desde aquela noite de sábado, no desfile. Por que ela estava me pedindo desculpa? Mas mesmo enquanto minha mente se debatia para tentar entender a lógica disso tudo, tive uma reação visceral ao que tinha acabado de acontecer, ao fato de ela ter chegado mais perto da verdade do que qualquer outra pessoa. Da minha verdade. E, de repente, senti algo subindo dentro de mim. Olhei em volta, me perguntando onde eu poderia encontrar um lugar para passar mal discretamente e em silêncio. Porém, algo diferente aconteceu: eu comecei a chorar. Chorar. Chorar de verdade, de um jeito que eu não chorava havia anos, o tipo de choro que faz você soluçar e bate feito uma onda, derrubando. As lágrimas apareceram de repente e senti soluços subindo pela minha garganta e meus ombros tremendo. Tentando me esconder, me virei desajeitada e bati o ombro na mesa, fazendo cair o cartão de visitas, que flutuou até pousar sobre o meu pé. Apoiei a cabeça nas mãos, pressionando as palmas contra meus olhos para ficar no escuro. Eu chorei e chorei lá mesmo, escondida em um canto da biblioteca, até me sentir vazia por dentro. Fiquei com muito medo de alguém me ver, mas ninguém apareceu. Ninguém ouviu. Porém, aos meus próprios ouvidos, meus soluços pareciam altos e assustadores, algo que eu simplesmente desligaria se pudesse. Mas a única coisa que podia fazer era deixá-lo sair até ele — e eu — acabar com isso. Quando isso aconteceu, abaixei as mãos e olhei ao meu redor. Nada tinha mudado. Os livros ainda estavam lá, a poeira dançava no feixe de luz e o cartão continuava no meu pé. Então, me abaixei para pegá-lo, sem ler nem olhar para ele. Mas coloquei-o no meu bolso no exato momento em que o sinal tocou e a hora do almoço tinha acabado. * * * O clima de final de ano ficou no ar durante o resto do dia, e se podia sentir a animação por causa das férias, com todo mundo fazendo contagem regressiva.


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Ao terminar tarde o meu teste, fui para meu armário e depois para o banheiro, onde só tinha uma menina se olhando no espelho, passando delineador azul. Logo depois que entrei na cabine, eu a ouvi indo embora. Porém, ao sair, vi Clarke Reynolds, de calça jeans e uma camiseta do TRUTH SQUAD, encostada na pia. — Oi — ela disse. Minha primeira reação foi olhar atrás de mim, o que era maluquice, além de burrice, pois dava para ver pelo espelho que não havia mais ninguém lá. — Oi — respondi. Dei um passo para o lado e abri a torneira da pia seguinte. Senti que ela me olhava lavar as mãos e apertei o recipiente de sabonete líquido, vazio como sempre. — Então — ela falou, e eu, mais uma vez, notei que sua voz não estava mais fanhosa. — Tá tudo bem? Desliguei a torneira. — O quê? Ela levantou a mão, endireitando os óculos. — Não sou só eu que estou perguntando — ela disse. — Quer dizer, obviamente sou eu. Mas o Owen também está querendo saber. Foi tão estranho ouvi-la dizer o nome do Owen que demorei um pouco para entender. — O Owen? — perguntei. Ela fez que sim com a cabeça. — Ele está só... — ela hesitou. — Preocupado, acho que é a palavra. — Comigo — eu disse, esclarecendo. — É. Algo estava errado ali. — E ele pediu para você vir falar comigo? — Ah, não — ela respondeu, fazendo que não com a cabeça. — Ele só comentou comigo algumas vezes, então eu também fiquei me perguntando e... Depois


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vi você hoje logo depois do almoço. Você estava saindo da biblioteca e parecia muito triste. Talvez fosse porque ela falou no Owen. Ou porque, a essa altura, eu não tinha muito a perder. Seja lá por qual motivo, eu simplesmente decidi ser sincera. — Que surpresa! — falei. — Não achei que você se importaria se eu estivesse triste. Clarke mordeu o lábio inferior por um segundo, e de repente me lembrei que era algo que ela fazia milhares de vezes quando éramos mais novas. Isso queria dizer que ela não esperava por isso. — É isso o que você acha mesmo? — ela perguntou. — Que eu não gosto de você? — Você não gosta — eu disse. — Você não gosta desde aquele verão com a Sophie. — Annabel, por favor. Foi você que me ignorou, lembra? — É, mas... — É, mas nada. É você quem não gosta de mim, Annabel — sua voz era uniforme. — É assim desde aquele verão. Fiquei olhando para ela. — Mas você nem olha para a minha cara no corredor — eu disse. — Nunca me olhou. E naquele primeiro dia, no muro... — Você me magoou — ela falou. — Nossa, Annabel. Nós éramos melhores amigas e você me deixou completamente de lado. Como você queria que eu me sentisse? — Eu tentei falar com você — eu disse. — Aquele dia na piscina. — E aquela — ela respondeu, apontando para mim — foi a única vez. É, eu estava brava. Tinha acabado de acontecer! Mas depois você não apareceu mais, você nunca mais ligou. Você simplesmente sumiu. Foi igual a Emily me pedindo desculpas, uma completa inversão de como eu via as coisas, o que me parecia maluco e impossível de digerir. — E por que agora? — perguntei. — Por que falar comigo agora?


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Ela suspirou. — Bom — ela respondeu devagar. — Vou ser honesta. Em boa parte, é por causa do Rolly. "O Rolly", eu pensei. Em seguida, me lembrei daquela noite e de ele segurando as garrafas de água. "Fala pro Owen que ele estava certo sobre tudo", ele disse muito empolgado. — Você e o Rolly? — perguntei. Clarke enrubesceu, mas apenas por um segundo. — Nós estamos nos conhecendo — ela disse, abaixando as mãos para arrumar a camiseta do TRUTH SQUAD que, só então percebi, parecia muito usada para alguém que tinha visto a banda pela primeira vez havia um mês e meio. — De qualquer maneira, naquela noite no show, quando ele te convenceu a me apresentar para ele, você disse que eu te odiava. Isso me fez pensar sobre tudo o que aconteceu entre a gente há muitos anos. E como Owen fala de você... Tenho pensado muito em você. Então, quando hoje vi que você estava... — Como? — perguntei. — O Owen fala de mim? — Ele não falou muita coisa — ela contou. — Só que vocês eram amigos e, então, alguma coisa aconteceu e agora não são mais. Desculpe contar, mas isso me pareceu, sei lá, um pouco familiar, entende? Senti meu rosto ficar vermelho, imaginando Clarke e Owen falando sobre mim e meu comportamento anti-social. Que vergonha! — Não falamos sobre isso — ela acrescentou, como se eu tivesse falado em voz alta. Outra coisa que me lembrei da Clarke: ela sempre lia minha mente. Clarke estava preocupada comigo. Emily me pediu desculpas. Aquele dia estava muito estranho. — Então, você está? — Clarke me perguntou, quando um grupo de garotas já de cigarro na mão entrou no banheiro e vi seus rostos desanimarem ao nos verem lá. Elas resmungaram e depois saíram, com certeza para esperar que fôssemos embora. — Bem, eu quero dizer. Fiquei parada, sem saber o que responder. Então me dei conta que, nas últimas semanas, além de sentir falta do Owen, eu também tinha saudades de uma parte de mim que conseguia ser sincera com ele. Talvez eu não pudesse fazer isso


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ali. Mas eu não precisava mentir. Então, fui para aquela posição em que sempre me colocava: para o meio. — Eu não sei — respondi. Clarke ficou me olhando por um tempo. — Bom — ela disse —, você quer conversar? Eu tive muitas chances. Ela, Owen, Emily. Durante muito tempo, pensei que tudo de que eu precisava era alguém que me ouvisse, mas isso não era verdade. Eu era o problema. Eu tinha feito aquilo. E agora, estava fazendo novamente. — Não — respondi. — Mas, de qualquer maneira, obrigada. Ela balançou a cabeça, se afastou da pia e eu saí do banheiro logo atrás dela. No corredor, quando estávamos nos preparando para seguir nossos caminhos opostos, ela abriu sua mochila e pegou um pedaço de papel e uma caneta. — Toma — ela disse ao mesmo tempo que escrevia no papel, que depois estendeu para mim. — Esse é o meu celular. Caso você mude de idéia. O nome dela estava escrito embaixo do número de telefone e com a letra que eu ainda reconhecia — nítida, bem definida, a pequena voltinha do E no final. — Obrigada — eu disse. Ao nos afastarmos uma da outra, eu sabia que provavelmente não ligaria para ela. Mesmo assim, abri minha mochila e coloquei o papel juntamente ao cartão que Emily me deu. Mesmo que nunca os usasse, era bom saber que estavam lá. Mais um feriado, mais uma ida ao aeroporto. Assim como no ano anterior, me sentei no banco de trás e meus pais nos bancos da frente. Ao andarmos pela rodovia, um avião apareceu de um lado a outro do para brisa, enquanto pegávamos a saída. Whitney ficou em casa fazendo o jantar. Então, éramos apenas nós três esperando Kirsten aparecer no desembarque. — Lá está ela! — minha mãe falou, acenando com a mão quando minha irmã apareceu, usando um casaco vermelho brilhante e com o cabelo preso em um rabo de cavalo. Kirsten sorriu, acenando de volta e andando em nossa direção, as rodinhas da sua mala fazendo barulho no chão. — Olá! — ela disse, levantando as mãos imediatamente para abraçar meu


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pai e depois minha mãe, que já estava com os olhos cheios de lágrimas como sempre ficava em chegadas e partidas. Quando chegou a minha vez, ela me deu um abraço forte, e eu fechei os olhos, sentindo o cheiro dela: sabonete, o ar gelado e a hortelã do seu xampu, também muito conhecido. — Estou tão contente em ver vocês! — Como foi a viagem? — minha mãe perguntou enquanto meu pai pegava a mala dela, e começamos a sair do terminal. — Algum problema? — Nenhum — Kirsten respondeu cruzando o braço no meu. — Foi tudo bem. Eu esperei que ela continuasse, mas, em vez disso, ela simplesmente sorriu para mim, depois me deu a mão, apertando-a quando saímos e sentimos o frio. Durante a volta para casa, meus pais encheram Kirsten de perguntas sobre a escola, as quais ela respondeu, e sobre Brian, das quais ela se esquivou com alegria, ficando vermelha de vez em quando. A nova Kirsten, cuja presença eu já tinha percebido ao telefone, agora se mostrava. Suas respostas não eram curtas, mas eram mais breves do que qualquer um de nós estava acostumado, tanto que caíamos em silêncios estranhos quando ela terminava de falar, pois esperávamos que ela recomeçasse. Em vez disso, ela suspirava ou olhava pela janela ou apertava a minha mão, que ela continuou segurando durante todo o trajeto para casa. — Eu tenho que dizer — falou minha mãe no momento em que meu pai entrava na vizinhança — você está diferente, querida. — Sério? — Kirsten perguntou. — Não sei dizer muito bem o que é... — disse minha mãe, com o ar pensativo. — Mas eu acho... — ...que ela está deixando o mundo falar um pouco? — meu pai terminou a frase por ela, olhando para Kirsten pelo retrovisor. Ele estava sorrindo. E estava certo. — Ah, pai — Kirsten disse. — Eu não falava tanto assim, falava? — É claro que não! — minha mãe disse a ela. — Nós sempre adoramos ouvir o que você tinha para falar. Kirsten suspirou. — É que eu aprendi muito sobre ser mais concisa. Assim como me esforçar para ouvir o que está sendo dito para mim. Quero dizer, vocês já se deram conta de


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como pouquíssimas pessoas realmente escutam as outras hoje em dia? Eu tinha me dado conta. Inclusive, passei o tempo entre a escola e a ida ao aeroporto terminando de ouvir as últimas faixas do CD de PUNK OLD SCHOOL / SKA do Owen, o último de todos que ele tinha me dado. Depois desse, faltava apenas o JUST LISTEN, O que me deixou triste. Estava acostumada a passar algumas horas do dia ou da noite ouvindo algumas faixas aqui e ali. Era uma espécie de ritual, um tipo estranho de consolo constante, mesmo quando a música não era confortante. Sempre que ouvia esses CDs, eu ficava deitada em minha cama com os olhos fechados, tentando me deixar levar pelo que estava ouvindo. Mas hoje, quando o CD começou com batidas de uma música estilo reggae, peguei minha mochila e tirei o cartão que Emily me deu e o telefone da Clarke e os coloquei sobre a cama, na minha frente. Enquanto a música tocava, examinei cada um deles, como que para deixá-los na memória: o nome da advogada, ANDREA THOMLINSON, e o número do celular da Clarke. Disse a mim mesma que não precisava fazer nada com nenhum deles. Eram apenas opções. Como os dois anéis do Owen, eram duas mensagens. E é sempre bom saber quais opções temos. Quando chegamos em casa, já estava escuro, mas as luzes estavam acesas e eu vi Whitney na cozinha, preparando alguma coisa no fogão. Ao pararmos, Kirsten apertou a minha mão. Fiquei imaginando se ela estaria nervosa. Mas ela não disse nada. Lá dentro, a casa estava quente e me dei conta de que estava morrendo de fome. Kirsten respirou fundo, fechando os olhos. — Nossa — ela exclamou, enquanto meu pai entrava —, que cheiro gostoso! — É a Whitney cozinhando — minha mãe disse. — A Whitney cozinha? — ela perguntou. Olhei para frente e vi Whitney parada diante da ilha da cozinha. Ela estava segurando um pano de prato. — A Whitney cozinha — ela mesma respondeu. — Mais uns cinco minutos e está pronto. — Prepare-se para experimentar uma comida deliciosa! — minha mãe disse para Kirsten, e sua voz saiu um pouco alta demais. — Whitney é uma cozinheira de mão cheia!


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— Uau! — disse Kirsten. Mais uma vez, caímos no silêncio. Então, ela disse para Whitney: — Aliás, você está ótima! — Obrigada — Whitney respondeu. — Você também. Até aqui, tudo bem. Ao meu lado, minha mãe sorria. — Vou levar suas malas lá pra cima — meu pai disse a Kirsten, que concordou acenando com a cabeça — E eu vou montar a salada — falou minha mãe. — E depois todos nós podemos nos sentar e colocar o papo em dia. Enquanto isso, vocês garotas podem subir e lavar as mãos. O que vocês acham? — Ótimo — Kirsten disse, olhando novamente para Whitney. Meu pai se virou para a escada com as malas. — Está ótimo. No andar de cima, fiquei no meu quarto, ouvindo os barulhos ao meu redor. O quarto de Kirsten estava praticamente intocado desde que ela se mudou, então era estranho ouvir movimento vindo de lá — gavetas sendo abertas e fechadas e o barulho de móveis sendo mudados de lugar — isso de um lado do quarto. Na outra parede, havia os barulhos da Whitney aos quais eu estava acostumada: a cama rangendo e o volume baixo do rádio. Quando minha mãe nos chamou dizendo que estava tudo pronto, nós todas fomos para o corredor ao mesmo tempo. Kirsten tinha trocado de blusa e soltado o cabelo. Ela olhou para mim, depois para Whitney, que estava atrás de mim ainda colocando um suéter. — Prontas? — ela perguntou, como se fôssemos para um local mais longe do que a mesa de jantar. Eu concordei e ela começou a descer as escadas. Quando chegamos à sala de jantar, a comida já estava servida: uma grande travessa com um prato todo colorido, uma tigela de arroz integral, a salada da minha mãe cujo molho foi preparado de acordo com as especificações da Whitney. O cheiro estava uma delícia, e meu pai ficou de pé à cabeceira da mesa enquanto todas nós nos sentamos em nossos respectivos lugares. Assim que nos acomodamos, minha mãe serviu um copo de vinho para Kirsten, e meu pai, uma pessoa acostumada à carne e batatas, pediu que Whitney explicasse, se pudesse, exatamente o que nós comeríamos. — Tempeh e legumes no vapor — ela disse. — E molho de hoisin de amendoim.


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— Tempeh? O que é isso? — É gostoso, pai — Kirsten disse a ele. — É tudo o que você precisa saber. — Você não precisa comer se não quiser — disse Whitney. — Mas acho que é a coisa mais gostosa que já fiz. — Coloque um pouco no prato dele — disse minha mãe. — Ele vai gostar. Meu pai parecia um pouco desconfiado ao ver Whitney pegando uma colher e colocando um pouco no seu prato. Enquanto ela servia os acompanhamentos, olhei para a minha família ao redor da mesa, tão diferente de um ano atrás. Era muito provável que nós nunca voltássemos a ser como éramos, mas pelo menos estávamos juntos. Ao pensar nisso, percebi que luzes se aproximavam. Com certeza era um carro que passava debaixo da janela e atrás da fileira de arbustos. Quando o motorista desacelerou, olhando para nós, pensei mais uma vez que era impossível saber o que se está vendo com uma olhada rápida e em movimento. Bom ou mau, certo ou errado. Sempre havia muito mais. A regra na nossa casa era: quem não cozinha, arruma as coisas depois. Então, após o jantar, Kirsten, meu pai e eu ficamos juntos na cozinha lavando a louça. — Aquilo — disse Kirsten ao me dar uma panela ensaboada para enxaguar — estava delicioso. O molho estava uma loucura de tão bom. — Não estava mesmo? — concordou minha mãe, sentada à mesa da cozinha tomando café, mas bocejando mesmo assim. — E o seu pai repetiu duas vezes. Espero que Whitney tenha reparado. Esse é o melhor elogio que se pode fazer a um cozinheiro. — Eu nunca cozinho — disse Kirsten. — A não ser que pedir comida por telefone conte. — Conta sim — meu pai disse a ela. Ele deveria estar ajudando, mas até agora só tinha levado o lixo para fora e demorado muito para trocar o saco plástico. — Pedir comida por telefone é a minha receita favorita. Minha mãe fez uma careta para ele quando Whitney, que tinha desaparecido logo após o jantar, reapareceu usando sua jaqueta e com suas chaves na mão.


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— Vou sair um pouquinho — ela disse. — Não vou chegar tarde. Kirsten, ainda com as mãos na água, se virou para ela. — Aonde você vai? — Só encontrar um pessoal para tomar um café — Whitney respondeu. — Ah — Kirsten disse, fazendo que sim com a cabeça. E voltou a ficar de frente para a pia. — Você... — Whitney fez uma pausa. — Você quer vir? — Eu não quero ser intrometida — Kirsten disse a ela. — Não se preocupe. — Você pode vir comigo — ouvi Whitney falar. — Quer dizer, se você não se importar de ficar lá por um tempo. Novamente, eu senti a trégua ainda incerta e cuidadosa entre minhas irmãs — não exatamente frágil, mas também não forte como pedra. Meus pais trocaram olhares. — Annabel, você quer vir? — Kirsten perguntou. — Eu te pago um mocha. Senti os olhos de Kirsten sobre mim quando ela me perguntou isso e me lembrei dela apertando a minha mão algumas horas antes, sinal de que talvez estivesse mais nervosa do que parecia. — Claro — eu disse. — Vou, sim. — Que maravilha! — minha mãe exclamou. — Divirtam-se! Eu e seu pai terminamos de arrumar tudo aqui. — Tem certeza? — perguntei. — Estamos só na metade... — Tudo bem. — Ela se levantou e se aproximou, fazendo sinal para eu e Kirsten sairmos da frente enquanto ela arregaçava as mangas. Olhei para Whitney, parada na entrada da cozinha. Eu não tinha certeza de como tinha entrado naquela. Mas ali estava eu. — Vão, vão. — Olá e bem-vindos à noite do sarau aqui no Café Jump Java. Meu nome é Esther e sou a mestre de cerimônias esta noite. Se você já veio aqui antes, sabe as regras: faça sua inscrição lá nos fundos, fale baixo quando alguém estiver lendo e, o mais importante, não se esqueça da gorjeta do moço do bar. Obrigada!


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Quando chegamos, imaginei que tinha sido uma coincidência Mas quando os amigos do grupo da Whitney acenaram para nós, ficou claro que não era o caso. — Então, você está pronta? — uma garota chamada Jane, que era alta e muito magra, de suéter vermelho e com um maço de cigarros no bolso da frente, perguntou para Whitney depois de escolhermos nossos cafés e sermos apresentadas. — E o mais importante, você está nervosa? — A Whitney não fica nervosa — disse Heather, outra garota. Ela parecia ter a minha idade e seu cabelo era escuro, curto e espetado; ela tinha um monte de piercings no nariz e lábios — Você sabe disso. Kirsten e eu nos olhamos. — Por que você estaria nervosa? — ela perguntou para Whitney, que estava sentada ao meu lado, mexendo na bolsa sobre seu colo. — Por causa da leitura — Jane disse a ela, tomando um gole da caneca que estava à sua frente. — Ela se inscreveu para hoje à noite. — Ela tinha que se inscrever — completou Heather. — É um Imperativo Moira. — Imperativo Moira? — perguntei. — É uma coisa do nosso grupo — Whitney explicou, pegando alguns papéis dobrados da bolsa e colocando-os à sua frente, em cima da mesa. — Sabe, como uma tarefa. A Moira é uma das minhas médicas. — Ah — disse Kirsten. — Entendi. — Então, você vai ler algo que escreveu? — eu perguntei. — Como uma parte da sua história, por exemplo? Whitney fez que sim com a cabeça: — Alguma coisa parecida. — Muito bem, estamos prontos para começar — disse Esther. — E o primeiro é o Jacob. Bem-vindo, Jacob! Todos começaram a aplaudir quando um cara alto e magro usando um gorro preto de crochê andou entre as mesas e subiu no palco. Ele abriu um caderninho de espiral e pigarreou.


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— O texto se chama "Sem título" — ele disse enquanto a máquina de café expresso fazia barulho atrás de nós. — É sobre a minha ex-namorada. O poema começava com imagens sobre a luz do dia e sonhos e depois começou a crescer rapidamente até se tornar uma lista de palavras que ele simplesmente pronunciava, uma atrás da outra. — Metal, Frio, Traição, Sem fim! — ele dizia quando um cuspe ocasional pousou no microfone. Eu olhei para Whitney, que estava mordendo os lábios, depois para Kirsten, que parecia completamente fascinada. — O que é isso? — perguntei. — Shhh — ela disse. O poema do Jacob continuou durante o que me pareceu muito tempo, antes de terminar com uma série de suspiros penosos e convulsivos. Quando ele terminou, ficamos todos parados por um segundo antes de decidirmos que era hora de aplaudir. — Uau! — eu disse para Heather. — Isso foi forte! — Ah, você não viu nada — ela falou. — Você devia ter vindo aqui na semana passada. Ele recitou um de dez minutos sobre castração. — Foi nojento — Jane acrescentou. — Arrebatador, mas nojento. — A próxima! — Esther anunciou. — Hoje temos uma estreante. Então, todos, vamos receber calorosamente a Whitney. Jane e Heather imediatamente começaram a aplaudir com muita empolgação, e Kirsten e eu fizemos a mesma coisa. Conforme Whitney avançava em direção ao microfone, eu observei a reação da platéia: cabeças virando, absortas pela beleza dela. — Vou ler um texto curto — ela disse, a voz baixa demais. Ela se aproximou do microfone. — Um texto curto — ela repetiu — sobre as minhas irmãs. Eu pisquei, surpresa, e olhei para Kirsten. Eu queria dizer algo, mas fiquei quieta. Whitney engoliu, depois olhou para os papéis cujas pontas, eu pude ver, se mexiam levemente. Parecia que ela estava com medo e de repente tudo ficou em completo silêncio. Mas então, ela começou.


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— Eu sou a irmã do meio — ela disse. — Aquela que fica entre duas outras. Não a mais velha, nem a mais nova, não a mais atrevida, não a mais gentil. Eu sou o tom de cinza, o copo meio cheio ou meio vazio, dependendo do seu ponto de vista. Na minha vida, fiz poucas coisas primeiro, ou melhor, do que aquela que me precedeu ou quem veio depois de mim. Porém, de todas nós, eu fui a única que se quebrou. Eu ouvi o barulho da porta, me virei e vi uma mulher mais velha de cabelos compridos e encaracolados entrar e ficar parada nos fundos. Quando ela viu Whitney ao microfone, sorriu e começou a tirar sua echarpe do pescoço. — Aconteceu no dia da festa de nove anos da minha irmã mais nova — Whitney continuou — eu tinha passado o dia inteiro andando pela casa amuada, me sentindo ignorada, e mal-humorada, que na verdade era o modo no qual eu nasci programada, já aos onze anos de idade. Kirsten arregalou os olhos quando, na mesa próxima à nossa, um homem riu alto, e ouvi algumas outras risadas também. Whitney ficou vermelha e sorriu. — Minha irmã mais velha, a mais social de todas, ia andar de bicicleta até a piscina do bairro para se encontrar com algumas amigas e me chamou para ir junto. Se a minha irmã mais velha era simpática e a mais nova era doce, eu era a escuridão. Ninguém entendia a minha dor. Muito menos eu. Houve outra risada, dessa vez de alguém do outro lado do salão, e ela sorriu. Então Whitney também podia ser engraçada. Quem diria. — Minha irmã mais velha subiu na bicicleta e pedalou em direção à piscina e eu comecei a segui-la. Eu sempre a seguia, e enquanto estávamos andando de bicicleta, comecei a ficar brava. Eu estava cansada de ser sempre a segunda. Eu olhei para Kirsten novamente: ela estava com o olhar vidrado em Whitney de um modo tão intenso que parecia que ninguém mais estava lá. — Então, virei para o outro lado. E de repente, a rua estava vazia na minha frente e eu tinha essa vista nova e toda para mim. E comecei a pedalar o mais rápido que pude. Ouvi a colher da Heather batendo na caneca quando ela colocou mais um pacote de açúcar no café. Continuei sentada em silêncio e imóvel. — Era ótimo. Liberdade, mesmo quando imaginada, é liberdade. Mas quando eu me afastei mais, comecei a não reconhecer o que estava na minha frente


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e me dei conta do quanto tinha andado. Eu ainda estava pedalando rápido, longe de casa, quando minha roda dianteira de repente quebrou e eu voei. Ao meu lado, Kirsten mudou de posição na cadeira e aproximei minha cadeira da dela. — Foi uma sensação engraçada estar de repente no ar — Whitney disse. — Quando você se dá conta, já acabou e você está caindo. Quando eu caí no asfalto, ouvi meu osso do braço quebrar. Nos momentos seguintes, ouvi a roda da minha bicicleta fazer craques ao girar. Eu só conseguia pensar no que sempre pensava: que aquilo não era justo. Sentir o gosto da liberdade apenas para, no instante seguinte, ser punida. Olhei para a mulher perto da porta. Ela observava Whitney com total atenção. — Tudo doía. Fechei meus olhos, pressionei minha bochecha contra o asfalto e esperei. O quê, eu não sei. Ser resgatada. Ou encontrada. Mas ninguém veio. Eu sempre achei que tudo o que queria era ser deixada em paz, sozinha. Até isso acontecer de verdade. Ao ouvir isso, eu engoli em seco, e depois olhei para a minha caneca de café e deslizei meus dedos por ela. — Eu não sei quanto tempo fiquei lá antes de a minha irmã vir me procurar. Eu me lembro de ficar olhando para o céu, de ver as nuvens passando e depois de ouvila chamando por mim. Quando ela parou ao meu lado, era a última pessoa que eu queria ver. E, no entanto, a única pessoa que eu tinha, assim como muitas outras vezes antes e desde então. Whitney fez uma pausa e respirou fundo. — Ela me levantou e me colocou sobre o guidão da sua bicicleta. Eu sabia que deveria estar agradecida, mas durante todo o caminho para casa eu estava com raiva. De mim, por ter caído, e dela, por estar lá para ver. Ao chegarmos em casa, minha irmã mais nova, a aniversariante, veio rapidamente. Quando me viu e olhou meu braço, saiu correndo, chamando minha mãe. Esse era o seu papel, sempre. Já que era a mais nova, era ela quem contava. Eu me lembro disso. A primeira coisa que pensei foi que algo de muito errado devia estar acontecendo por elas estarem tão perto uma da outra. E isso nunca acontecia.


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— Meu pai me levou para o pronto-socorro, onde o osso foi recolocado. Quando chegamos em casa, a festa já estava quase no final: presentes abertos, bolo sendo servido. Nas fotos tiradas aquele dia, eu estou segurando meu braço engessado, como se não confiasse no gesso para me manter em um pedaço só. Minha irmã mais velha está de um lado, a heroína, e a mais nova, a aniversariante, do outro. Eu conhecia aquela foto. Nela, eu estou de biquíni e com um pedaço de bolo na mão, e Kirsten está com um sorriso largo e uma mão no quadril, que está para o lado. — Durante anos, ao olhar para aquela foto, a única coisa que eu via era o meu braço quebrado. Só recentemente é que comecei a me dar conta de outras coisas. Por exemplo, que as minhas duas irmãs estão sorrindo e inclinadas na minha direção, enquanto eu estou, como sempre, entre elas. Ela respirou fundo, olhando para as folhas de papel. — Essa não foi a última vez que tentei fugir das minhas irmãs. Nem a última vez que preferi ficar sozinha. Eu ainda sou a irmã do meio. Mas agora vejo isso de um jeito diferente. Tem que haver um meio. Sem ele, nada é realmente completo. Porque não é apenas o espaço que há entre, mas é também o que une as coisas. Obrigada. Eu fiquei lá sentada, sentindo um nó na garganta quando os aplausos começaram ao meu redor, primeiro aqui e ali e logo depois em todo o salão, preenchendo-o. Whitney ficou vermelha, pressionando uma das mãos contra o peito, depois sorriu ao se afastar do microfone. Ao meu lado, Kirsten estava com os olhos cheios de lágrimas. Ao andar em direção à nossa mesa, Whitney recebia cumprimentos das pessoas, que acenavam com a cabeça para ela. Eu estava tão orgulhosa dela, porque ficava imaginando como deve ter sido difícil ler aquilo em voz alta. Não só para estranhos, mas para nós também. Mas ela conseguiu. Sentada e vendo a minha irmã, eu fiquei imaginando o que seria mais difícil no final das contas. O ato de contar ou para quem contar. Ou talvez se, depois de ter colocado tudo para fora, o que realmente importava era a história.


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Dezessete O relógio ao lado da minha cama indicava, com uma luz vermelha, que eram 12h15. Isso queria dizer que eu estava tentando dormir havia três horas e oito minutos. Desde a leitura de Whitney na noite anterior, todas as coisas que tentava afastar de mim — meu desentendimento com Owen, Emily me dando o telefone da advogada, Clarke voltando a falar comigo — estavam me assombrando. A casa agora estava cheia e animada, meus pais pareciam relaxados de um jeito que não via fazia meses e minhas irmãs não estavam apenas se falando como se dando bem de verdade. Essa harmonia repentina era tão inesperada que me fez sentir muito mais deslocada. Na noite anterior, ao voltar para casa depois do café, Kirsten contou para Whitney sobre o seu filme e como ele era parecido com o que ela tinha acabado de ler. Whitney quis assistir. Então hoje, antes do jantar, Kirsten colocou seu laptop na mesa de centro e nós todos nos juntamos para assistir. Meus pais se sentaram no sofá e Whitney acomodou-se no braço do sofá ao lado deles. Kirsten se sentou em uma posição boa, e me ofereceu o lugar, mas eu simplesmente disse que não precisava e fiquei mais atrás. — Eu já vi — disse a ela. — Senta você aí. — Eu já vi milhares de vezes — ela respondeu, mas se sentou no local de qualquer maneira. — Isso é tão emocionante! — minha mãe disse, olhando para todos nós, e eu não entendi se ela estava falando sobre estarmos todos juntos ou sobre o filme. Kirsten respirou fundo, e esticou a mão para apertar um botão. — Pronto — ela disse. — Aí vai. Quando começou a primeira cena daquela grama muito verde, eu tentei manter meus olhos nela, mas, aos poucos, me peguei olhando para a minha família.


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Meu pai estava sério, estudando a tela; minha mãe, ao lado dele, com as mãos no colo. Whitney, do outro lado, tinha encolhido a perna junto ao peito, e eu olhava o reflexo da luz piscando no rosto dela com o passar do filme. — Mas, Whitney — minha mãe disse enquanto, no filme, as garotas pedalavam na rua —, o filme é um pouco parecido com o ensaio que você nos deu para ler um tempo atrás, não é? — É, sim — Kirsten respondeu baixinho. — Engraçado, não é? Nós só descobrimos isso ontem à noite. Whitney não disse nada, seus olhos estavam fixos na tela que mostrava, de longe, a garota menor fora da bicicleta e a roda girando. E depois, começaram as imagens assustadoras da vizinhança: o cachorro bravo, o homem pegando o jornal. Quando o filme terminou com a última tomada de cor verde, todos ficamos quietos por um tempo. — Kirsten, meu Deus! — minha mãe disse, finalmente. — Isso foi incrível. — Está longe de ser incrível — Kirsten respondeu, colocando uma media de cabelo atrás da orelha. Mas ela parecia contente. — É só o começo. — Quem diria que você tem um olho tão bom — meu pai disse, esticando o braço para apertar a sua perna. — Toda aquela televisão a que você assistiu não foi à toa. Kirsten sorriu para ele, mas sua atenção estava de verdade voltada para Whitney, que ainda não tinha dito nada. — Então — ela perguntou —, o que você achou? — Eu gostei — Whitney disse a ela. — Mas nunca iria imaginar que você tinha me deixado para trás de propósito. — E eu nunca teria imaginado que você começou a pedalar na direção oposta — Kirsten respondeu. — Que engraçado. — Whitney concordou, acenando a cabeça, sem dizer nada. Então, minha mãe suspirou e disse: — Bem, e eu nunca me dei conta que aquele dia significasse tanto para vocês! — O quê, você não lembra da Whitney ter quebrado o braço? — Kirsten


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perguntou. — A memória da mãe de vocês é seletiva — meu pai respondeu. — Mas eu me lembro instintivamente do trauma coletivo. — É claro que eu me lembro — disse minha mãe. — Eu só... Não fazia idéia de que tinha marcado tanto vocês duas. — Ela se virou, olhando ao redor até me ver. — E você, Annabel? O que você se lembra desse dia? — Fazer nove anos — disse meu pai —, certo? Eu balancei a cabeça positivamente porque estavam todos me olhando, mas a verdade era que eu não tinha mais certeza do que me lembrava daquele dia, pois ele foi contado novamente agora, sob outros pontos de vista. Era meu aniversário, tinha um bolo. Eu corri para avisar minha mãe que Whitney estava machucada. Mas do resto eu não tinha certeza. Fiquei observando minha família durante todo o jantar Kirsten contando histórias dos colegas da aula de direção de cinema, Whitney explicando os detalhes do sushi que ela preparou durante toda a tarde, e as bochechas rosadas da minha mãe quando ela ria. Até meu pai estava relaxado, claramente contente em ver todos juntos e em circunstâncias bem melhores. Era uma coisa boa, mas, mesmo assim, eu me sentia estranhamente desconectada. Como se estivesse agora dentro de um carro do lado de fora, diminuindo a velocidade para olhar, sem nada em comum além de proximidade, que nem era tanta assim. Tirei as cobertas de cima de mim, me levantei e andei até aporta, abrindo-a devagar. O corredor estava silencioso e escuro, mas, como eu suspeitava, havia uma luz acesa. Meu pai ainda estava acordado. Assim que me viu passar pela sala de estar, ele diminuiu o volume da televisão. — Ei, mocinha — ele disse. — Não consegue dormir? Fiz sinal negativo com a cabeça. Na televisão, eu podia ver imagens granuladas e em preto e branco de uma reportagem antiga de televisão: dois homens apertando as mãos à mesa. Atrás deles, uma multidão batia palmas. — Bem — ele disse —, você chegou bem na hora de me ajudar a decidir. Estou entre um programa fascinante sobre o começo da Primeira Guerra Mundial, ou algo no A&E sobre o Dust Bowl. O que você acha?


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Olhei para a televisão, que tinha mudado de canal. Na tela havia uma paisagem descampada e um carro atravessando-a lentamente. — Não sei — eu disse. — Os dois me parecem irresistíveis. — Ei — ele disse. — Não zombe da História. Isso é muito importante. Eu sorri, andando em direção ao sofá e me sentando. — Eu sei — falei. — É que é difícil se empolgar. Pelo menos para mim. — Como você consegue não ficar empolgada com isso? — perguntou. — É real. Não é uma história boba que alguém inventou. São coisas que aconteceram de verdade. — Há muito tempo — eu acrescentei. — Exatamente! — Ele disse fazendo que sim com a cabeça. — É isso que eu quero dizer. É por isso que não conseguimos esquecer. Não importa quanto tempo tenha passado, essas coisas ainda nos afetam e afetam o mundo em que vivemos. Se você não prestar atenção no passado, nunca entenderá o futuro. Está tudo ligado. Entende o que eu estou dizendo? Em um primeiro momento, não entendi. Mas depois, olhei novamente para a tela, aquelas imagens se movendo, e me dei conta de que ele estava certo. O passado afetava o presente e o futuro tanto de formas perceptíveis quanto de milhares de outras que não se podia ver. Tempo não era algo que se podia dividir facilmente; não havia meio, começo, nem fim definidos. Eu poderia fingir deixar o passado para trás, mas o passado não iria me deixar. Sentada lá, me senti ficar mais ansiosa de repente. Minha mente estava em alta velocidade, tão rápida que eu nem conseguia pensar direito, e, depois de alguns minutos, voltei para a cama. "Isso é loucura", pensei quando, de novo, me vi olhando fixamente para o teto. Minhas irmãs em silêncio nos seus quartos, dos dois lados. Fechei os olhos e os fragmentos dos eventos ocorridos nos últimos dias passavam rapidamente por minha cabeça. Meu coração batia forte. Algo estava acontecendo e eu não conseguia entender. Então me levantei, jogando as cobertas para longe. Eu precisava de algo para me acalmar ou pelo menos para espantar esses pensamentos por algum tempo. Estiquei o braço até a gaveta do criado-mudo, peguei meus fones de ouvido e os conectei ao meu aparelho de CD. Depois fui até a minha escrivaninha. Na última gaveta, depois de procurar no meio de todos os CDs que Owen tinha gravado para


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mim, finalmente o achei: o CD amarelo onde estava escrito ouça.

JUST LISTEN.

Apenas

Talvez você odeie completamente, Owen tinha me dito. Ou não. Pode ser exatamente o que você precisa. Essa é a beleza. Sabe? Quando apertei o botão do PLAY, eu só ouvi estática e me acomodei, fechando os olhos e esperando pelo começo da primeira música. Não começou. Nem nos momentos seguintes, nem nunca. E então, me dei conta: o CD estava em branco. Talvez fosse para ser uma piada. Ou algo profundo. Mas ao ficar deitada, parecia que o silêncio preenchia os meus ouvidos. Só que era ensurdecedor. Era a coisa mais estranha e tão diferente de música. O som era nada, vazio, mas ao mesmo tempo, empurrava tudo para fora, me acalmando o suficiente para eu conseguir entender algo que estava longe e difícil de ouvir. Mas mesmo assim estava lá, mesmo que levemente, vindo de algum lugar escuro que eu nunca tinha visto, mas conhecia muito bem. Shhh, Annabel. Sou só eu. Mas essas palavras eram apenas o meio da história. Havia também o começo. E eu soube que se ficasse onde estava, em todo aquele silêncio, e não fugisse dele, eu poderia ouvi-lo. Eu teria que voltar para aquela noite na festa quando ouvi Emily chamar Sophie, mas tudo bem. Era o único jeito de, finalmente, chegar ao final. Tudo o que eu sempre quis foi esquecer, mas mesmo quando pensei ter esquecido, fragmentos continuavam surgindo como pedaços de madeira flutuando para a superfície e que indicam o naufrágio de um navio logo além. Uma blusa corde-rosa, uma rima com meu nome, uma mão no meu pescoço. Porque é isso o que acontece quando se tenta fugir do passado. Ele não só nos alcança: ele nos ultrapassa, manchando o futuro, a paisagem, o próprio céu, até que não haja outro caminho a não ser o que passa por ele, o único que pode fazer você voltar para casa. Agora eu conseguia entender. Essa voz que estava tentando conseguir minha atenção durante todo esse tempo, me chamando, implorando para que eu a ouvisse — não era a voz do Will. Era a minha.


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Dezoito — Aqui é a rádio WRUS, a sua estação de rádio comunitária. São sete e cinquenta e oito, e você está ouvindo Gerenciamento de Raiva. Agora, a nossa última música. Houve um zumbido, seguido de uma explosão de interferência. Algo experimental, diferente e não exatamente agradável de ouvir. Apenas mais um domingo no programa do Owen. Mas para mim não era apenas mais um domingo. Em algum momento entre colocar meus fones de ouvido na noite passada e agora, alguma coisa tinha mudado. Depois de ficar deitada por muito tempo refazendo os passos daquela noite na festa, eu saí daquele silêncio e a voz dentro de mim finalmente se manifestou. Quando acordei às sete da manhã, ainda com os fones de ouvido, eu ouvia meu coração. Então me levantei, tirando os fones, e o silêncio ao meu redor dessa vez não me pareceu vazio e enorme. Pela primeira vez em muito tempo, ele me pareceu cheio. Quando liguei o rádio, o programa tinha acabado de começar com uma explosão de metal tradicional, com guitarras pesadas. Seguido de algo que parecia ser uma música pop russa, e Owen finalmente começou a falar. — Esse foi Leningrado — ele disse — e você está ouvindo Gerenciamento de Raiva. Eu sou Owen. São sete e seis, obrigado por nos ouvir. Tem um pedido? Uma sugestão? Problemas? Ligue para a gente no 555-WRUS. Agora, Dominic Waverly. A música que seguiu era eletrônica e começava com umas batidas dançantes aparentemente fora de sincronia, mas que depois ficavam uniformes. Naqueles outros domingos, ouvi tão intensamente o programa, querendo gostar ou pelo menos entender o que eu estava ouvindo. Quando não conseguia, nunca hesitava em contar para Owen. Se eu ao menos tivesse conseguido contar a ele todas as outras coisas também. Mas nem sempre se pode ter o momento perfeito. Às vezes, só nos resta fazer o melhor que podemos de acordo com as circunstâncias.


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E era por isso que eu estava agora no meu carro, saindo do meu bairro, indo em direção à WRUS. Eram 8h02 quando entrei no estacionamento. O Receitas e Ervas, programa que entrava no ar logo após o dele, estava começando. Estacionei entre o carro de Rolly e o de Owen. Peguei o CD no banco do passageiro e entrei. A estação estava em silêncio, uma voz murmurava algo sobre ginko bi-loba quando atravessei a recepção. À minha direita, no final do corredor, vi uma cabine de vidro. Ao me aproximar, a primeira coisa que vi foi Rolly na mesa de áudio em uma sala pequena. Ele usava uma camiseta verde e um boné de beisebol com a aba para trás, e fones de ouvido sob ele. Clarke estava ao lado dele, tomando café em um copo de plástico e com as palavras cruzadas do jornal de domingo na frente dela. Eles estavam conversando e nenhum deles percebeu minha chegada. Mas quando me virei para a cabine principal, Owen estava me olhando. Ele estava sentado e tinha o microfone à sua frente, juntamente com uma pilha de CDs espalhados, e pela expressão em seu rosto não estava feliz em me ver, pois era pior do que naquele dia do estacionamento, fazendo com que fosse imprescindível que eu abrisse a porta e entrasse. E foi o que fiz. — Oi — eu disse. Por um momento, ele ficou apenas me olhando. — Oi — ele respondeu, finalmente, em um tom seco. Houve um zumbido e, então, a voz do Rolly surgiu por cima da minha cabeça. — Annabel! — ele disse, seu tom animado fazia um belo contraste com o tom impaciente do Owen. — E aí! Beleza? Olhei para ele, levantando a minha mão para dar um oi. Ele acenou de volta, e Clarke também. Ele estava se inclinando ao microfone para me dizer algo quando olhou para Owen — que o fuzilava com os olhos — e lentamente recuou, não dizendo mais nada. Pude ouvir um clique e o microfone estava novamente desligado. — O que você está fazendo aqui? — Owen perguntou. É claro que ele iria logo fazer essa pergunta. — Eu preciso falar com você — respondi. De canto de olho, percebi um movimento repentino na outra sala. Olhei, e vi


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Clarke enfiando com pressa o jornal na mochila dela, enquanto Rolly tirava seus fones de ouvido e ficava de pé. "Agora vamos ver quem não gosta de conflitos", eu pensei, ao vê-la sair a jato da sala, seguida por Rolly, que apagou as luzes com força. — Nós... vamos pro bacon — ele disse para Owen quando passaram atrás dele. — A gente se vê lá? Owen acenou positivamente a cabeça, e Rolly me deu novamente um sorriso antes de sair. Clarke ficou mais um pouco segurando a porta aberta. — Tá tudo bem? — ela perguntou. — Sim — eu respondi. — Estou bem. Ela colocou a mochila no ombro, lançando a Owen um olhar que não consegui entender. Depois, foi atrás de Rolly, e eles desapareceram ao entrarem no saguão. Quando olhei para Owen, ele estava arrumando suas coisas também, enrolando os fios do seu fone de ouvido. — Eu não tenho muito tempo — ele disse, sem me olhar. — Então, se você tem algo a dizer, é melhor dizer logo. — Tá bom — eu disse. — É que... — Meu coração batia acelerado e fiquei enjoada. Geralmente, era nesse momento que eu parava, ficava com medo, e desistia. — É sobre isso — eu disse, segurando o CD na mão. Minha voz estava trêmula, então pigarreei. — Ele deveria me afetar intensamente. Lembra? Ele olhou para o CD novamente, com um ar desconfiado. — Vagamente — ele respondeu. — Eu o ouvi ontem à noite — continuei. — Mas eu queria... Ter certeza se entendi. Quero dizer, a sua intenção. — Minha intenção? — ele repetiu. — Bem, sabe — eu disse. — Há muito para se interpretar — minha voz agora estava mais firme, finalmente. — É o poder da música, com certeza. Então, eu queria ter certeza se entendi, sabe. Ficamos apenas nos olhando por um tempo, e era o que eu precisava fazer para não desviar o olhar. E consegui. Então, depois de um tempo, ele pegou o CD. Ele olhou para a caixinha, depois a virou.


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— Não tem a lista de músicas aqui — ele disse. — Você não lembra o que gravou? — Foi há muito tempo. — Ele me olhou de forma intensa. — E eu gravei muitos CDs para você. — Dez — eu disse a ele. — E eu ouvi todos. — Sério? Fiz que sim com a cabeça. — É. Você me disse que queria que eu ouvisse todos antes de ouvir esse. — Ah — ele disse. — Então agora você se importa com o que eu quero. Eu vi Rolly e Clarke do lado de fora, saindo do estacionamento no carro de Rolly. Ele dizia alguma coisa e ela estava rindo, sacudindo a cabeça. — Eu sempre me importei com isso — falei para Owen. — Sério? Ficou meio difícil de perceber, já que você está me evitando há dois meses. — Ele esticou o braço em direção ao painel à frente e apertou um botão. Um compartimento se abriu e ele colocou o CD. — Eu imaginei que fosse isso que você quisesse — eu disse. — Por quê? — ele falou e abaixou o braço para virar um botão embaixo do CD player. Eu engoli seco. — Foi você quem saiu do carro no estacionamento e foi embora naquele dia — eu disse a ele. — Você estava de saco cheio de mim. — Você me largou sozinho em um show e nem me disse o motivo — ele respondeu, com o tom de voz mais alto. Ele virou o botão um pouco mais. — Eu estava com raiva, Annabel. — Exatamente — eu disse, e agora eu ouvia estática. — Você estava com raiva. Eu te decepcionei. Eu não era quem você queria que eu fosse e... — ...então você simplesmente pulou fora—ele terminou a frase, girando novamente o botão. A estática aumentou. — Desapareceu. Uma briga e você pula fora.


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— O que você queria que eu fizesse? — perguntei. — Me contasse o que estava acontecendo, para começar — ele respondeu. — Meu Deus, que você me dissesse alguma coisa. É como eu disse. Eu saberia lidar com o que quer que fosse. — Assim como você estava lidando com o fato de eu não ter dito nada? Você ficou furioso comigo. — E daí? Eu tinha o direito de estar — ele respondeu, e olhou novamente para o CD player. — As pessoas ficam bravas, Annabel. Não é o fim do mundo. — Então, eu deveria ter me explicado, e deixado você ficar com raiva de mim e depois, talvez, você tivesse superado... — Eu teria superado. — ...ou não — eu disse, olhando para ele intensamente. — Talvez tivesse mudado tudo. — Isso aconteceu de qualquer maneira! — ele retrucou. — Olhe para a gente agora. Se pelo menos você tivesse me contado o que estava acontecendo, nós teríamos lidado com a situação. Do jeito que as coisas aconteceram, você deixou tudo no ar, sem solução. Era isso o que você queria? Que eu fosse embora para sempre, em vez de ficar bravo por um tempinho? Enquanto ele falava isso, eu fiquei parada, ouvindo. — Eu não — eu falei. — Eu não sabia que essa era uma opção. — É claro que era — ele disse, olhando para o alto-falante em cima; a estática estava ainda mais alta. — Seja lá o motivo, não poderia ter sido tão ruim. Você só precisava ser sincera. Dizer o que realmente tinha acontecido. — Não é tão fácil assim. — E isso é? Ficamos nos ignorando e nos evitando, agindo como se nunca tivéssemos sido amigos? Talvez para você. Para mim foi muito ruim. Eu não gosto de joguinhos. Quando ele falou isso, senti uma coisa no estômago. Não era aquele enjôo ao qual eu estava acostumada. Era mais parecido com uma efervescência leve. — Eu também não gosto disso — falei. — Mas...


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— Se for algo tão sério que valha a pena tudo isso — ele disse, fazendo sinal com as mãos para incluir o estúdio, a estática e nós no meio de tudo aquilo —, toda essa merda e mal-estar que tem acontecido desde então é também grande demais para guardar dentro de você. Você sabe disso. — Não — eu disse —, você sabe disso, Owen. Porque você não tem problemas com a sua raiva, nem com a de ninguém. Você simplesmente usa as suas frases e tudo o que aprendeu, e é sempre sincero e nunca se arrepende de nada que diz ou faz... — Sim, eu me arrependo. — ...mas eu não sou assim — concluí. — Eu não sou. — Então como você é, Annabel? — ele perguntou. — Uma mentirosa, como você me disse no primeiro dia? Por favor. Essa foi a maior mentira de todas. Só consegui olhar para ele. Minhas mãos tremiam. — Se fosse mentirosa, você teria simplesmente mentido para mim — ele disse, olhando mais uma vez para o painel quando a estática ficou mais alta. — Você teria agido como se tudo estivesse bem, mas você não fez isso. — Não — eu disse, balançando a cabeça. — E não me diga que isso é fácil para mim, porque não é. Esses dois últimos meses têm sido uma bosta por não saber o que se passa com você. O que é, Annabel? O que é tão ruim que você não pode nem me contar? Eu senti meu coração batendo forte, meu sangue pulsando. Owen se virou novamente para o painel, aumentando mais ainda o volume do CD, e quando o som preencheu meus ouvidos, eu me dei conta do que estava sentindo. Eu estava com raiva. Com muita raiva. Raiva dele por ter me atacado. Raiva de mim por ter demorado tanto para lutar. De cada chance que não aproveitei. Durante todos esses meses, eu vinha tendo essa mesma reação, mas culpei meus nervos, ou medo. E não era. — Você não entende — eu disse a Owen. — Conte pra mim, talvez eu entenda — ele respondeu, empurrando na minha direção uma cadeira vazia que estava ao seu lado. — E o que — ele falou alto —


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acontece com esse CD? Onde está a música? Por que não dá pra ouvir nada? — O quê? — eu disse. Ele apertou alguns botões, falando bem baixo alguns palavrões. — Não tem nada nele — ele disse. — Está em branco. — Não era esse o objetivo? — O quê? — ele disse. — Que objetivo? "Meu Deus", eu pensei. Peguei a cadeira que ele empurrou na minha direção e me sentei nela. "Eu, aqui, achando que esse gesto tinha sido tão profundo e, na verdade, foi apenas... Um erro. Um problema no CD." Eu estava errada, completamente errada Ou não. De repente, tudo ficou muito alto. A voz dele, meu coração e a estática preenchendo a sala. Fechei os olhos, me levando de volta para a noite anterior, quando eu consegui ouvir as coisas que mantive em silêncio por tanto tempo. Shhh, Annabel, eu ouvi a voz dizendo, mas dessa vez ela me soou diferente. Conhecida. Sou só eu. Owen começou a diminuir o volume e a estática diminuía pouco a pouco. Em toda vida, chega um momento em que o mundo fica em silêncio e só o que sobra é o seu próprio coração. Então, é melhor você saber qual o som dele. Caso contrário, você nunca entenderá o que ele diz. — Annabel? — Owen perguntou. Sua voz agora estava mais baixa. Mais próxima. Owen parecia preocupado. — O que é? Owen já tinha me dado muita coisa, mas agora eu me inclinei para perto dele, pedindo uma última coisa. Algo que ele fazia melhor do que ninguém. — Não pense, nem julgue — eu disse. — Apenas ouça. — Annabel? Nós já vamos colocar o filme... — A voz da minha mãe era suave. Ela pensava que eu estava dormindo. — Você está pronta? — Quase — respondi. No dia anterior, não contei para Owen apenas o que tinha acontecido


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comigo na festa. Contei tudo: as coisas com Sophie na escola, a recuperação da Whitney, o filme da Kirsten, eu ter aceitado fazer outro comercial, minha conversa sobre história com meu pai e ouvir o CD em branco na noite anterior. Ele ficou ouvindo cada palavra. E quando finalmente terminei, ele disse as duas palavras que normalmente não significam nada, mas que naquele momento disseram tudo. — Sinto muito, Annabel. Sinto muito que isso tenha acontecido com você. Talvez fosse isso que eu quisesse ouvir esse tempo todo. Não um pedido de desculpas — e certamente não de Owen —, mas um reconhecimento. Porém o que mais importou foi que eu passei por tudo novamente — começo, meio e fim. Mas isso, é claro, não queria dizer que tudo tinha terminado. — Então, o que você vai fazer? — ele me perguntou mais tarde, quando estávamos parados ao lado da Land Cruiser, pois tivemos que sair da cabine para o outro programa entrar. — Você vai ligar para aquela mulher? Sobre o julgamento? — Eu não sei — respondi. Sei que, sob qualquer outra circunstância, ele me diria exatamente qual era sua opinião sobre o assunto, mas dessa vez não falou nada. Durante cerca de um minuto. — É o seguinte — ele disse —, não há muitas oportunidades na vida em que se pode fazer a diferença de verdade. E essa é uma delas. — Fácil para você dizer — eu falei. — Você sempre faz a coisa certa. — Não, não faço — ele respondeu, balançando a cabeça. — Eu só faço o melhor que posso... — ...de acordo com as circunstâncias, eu sei — terminei a frase por ele. — Mas estou com medo, não sei se consigo fazer isso. — É claro que consegue — ele disse. — Como você pode ter certeza? — Porque você acabou de fazer — ele respondeu. — Vir aqui e me contar isso? É um passo enorme. A maioria das pessoas não conseguiria. Mas você conseguiu. — Eu tive que fazer isso — falei. — Eu tinha que me explicar.


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— E você pode fazer novamente — ele respondeu. — É só ligar para aquela mulher e contar a ela o que você me contou. Levantei o braço, passando a mão pelo cabelo. — Há mais coisa envolvida — eu disse. — E se ela quiser que eu testemunhe ou algo assim? Eu teria que contar aos meus pais, minha mãe... Eu não sei se ela agüenta isso. — Ela agüenta. — Mas você nem a conhece — falei. — E nem preciso — ele respondeu. — Olha, isso é importante e você sabe disso. Então, faça o que tem que fazer. Talvez sua mãe surpreenda você. Senti um nó na garganta. Eu realmente queria acreditar que aquilo fosse verdade, e talvez fosse mesmo. Owen colocou a mochila no chão, depois se agachou ao lado dela procurando algo. Lembrei dele naquele dia atrás da escola fazendo exatamente a mesma coisa, e como eu não fazia a menor idéia do que ele estava fazendo, o que Owen Armstrong tinha para me oferecer. Depois de um tempo, ele tirou de lá uma foto. — Tome — ele disse, entregando-a para mim. — Para te inspirar. Foi a foto que ele tirou de mim naquela noite da sessão de fotos da Mallory. Eu estava parada perto da porta do lavabo, sem maquiagem, com meu rosto relaxado, o brilho amarelo da luz atrás de mim. Veja, ele disse na ocasião, é assim que você é, e, ao olhar para ele, vi que era finalmente uma prova de que eu não era a garota na parede de Mallory ou do comercial da Kopf, nem daquela festa em uma noite de maio. Que algo em mim tinha mudado naquele outono, por causa de Owen, mesmo que eu só conseguisse perceber agora. — Mallory me disse para dar para você — ele disse. — Mas... — Mas? — perguntei. — Eu não dei — ele terminou. Eu sei que talvez eu não devesse perguntar, mas perguntei mesmo assim. — Por que não? — Eu gostei da foto — ele disse, erguendo os ombros. — Queria ficar com


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ela. Era essa foto que eu estava segurando quando tive coragem de ligar para Andréa Thomlinson, a mulher cujo cartão Emily me deu. Deixei uma mensagem na caixa postal dela e ela me retornou em dez minutos. Emily estava certa: ela era legal. Nós conversamos durante quarenta e cinco minutos. E quando ela perguntou se eu iria ao tribunal no dia seguinte, caso eles precisassem de mim, eu concordei, mesmo sabendo o que aquilo significava. Assim que desligamos, liguei para Owen. — Que bom — ele disse quando contei a ele o que tinha feito. Sua voz era amável, satisfeita, e eu apertei o telefone contra a minha orelha para que ela enchesse meus ouvidos. — Você fez a coisa certa. — É — concordei. — Eu sei. Mas agora tenho que me levantar na frente das pessoas... — Você consegue — ele falou, e, quando eu suspirei, sem ter muita certeza, Owen continuou. — Você consegue. Olha, se você estiver nervosa por causa de amanhã... — Se? — eu disse. — ...então, eu vou com você. Se você quiser. — Você faria isso? — perguntei. — Claro — ele respondeu. Muito facilmente, sem perguntas. — Só me diga onde e quando. Combinamos de nos encontrar no chafariz que fica em frente ao tribunal, um pouco antes das nove. Eu sei que, mesmo sem ele, não estaria sozinha. Mas era bom ter opções. Então, dei mais uma olhada na foto, depois a coloquei na gaveta do meu criado-mudo. No caminho para a sala de estar, onde minha família estava reunida, parei para ver a foto no hall de entrada. Como sempre, meus olhos caíram primeiro sobre meu próprio rosto, depois os de minhas irmãs, e finalmente o de minha mãe, que parecia tão pequena entre nós. Mas eu agora via o retrato de outra forma. Quando essa foto foi tirada, nós estávamos todas juntas em volta de minha mãe, protegendo-a. Mas isso foi apenas um dia, uma foto. Desde então, essa


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composição já tinha mudado várias vezes. Nós nos juntamos em volta de Whitney, mesmo quando ela não queria, e Kirsten e eu ficamos mais próximas quando ela nos afastou. E nós ainda estávamos em movimento, como ficou claro naquela noite quando vi minha mãe e irmãs juntas novamente. Naquele momento, eu estava convencida de que não fazia parte, mas, na verdade, sempre estive próxima. Só o que eu precisava fazer era pedir e também seria facilmente trazida de volta, cercada e imersa, a salvo entre elas. Atravessei a sala de estar; minha família estava reunida na frente da TV. Assim que cheguei, ninguém me viu; fiquei parada lá por um tempo, olhando para eles reunidos. Finalmente, minha mãe virou a cabeça e eu respirei fundo, sabendo que, apesar do que eu visse em seu rosto, seria capaz de fazer isso. Eu tinha que fazer isso. — Annabel — ela disse. Depois, sorriu, abrindo espaço para eu me sentar ao lado dela. — Venha se sentar com a gente. Hesitei por um momento, mas então olhei para Whitney. Ela estava me olhando, sua expressão era séria, e eu me lembrei daquela noite um ano atrás, quando abri a porta e apertei o interruptor, expondo-a à luz. O que aconteceu com ela me deixou com muito medo, mas ela sobreviveu. Então, fixei meus olhos nela ao andar e sentar-me no sofá. Minha mãe sorriu para mim novamente e senti uma onda de tristeza e medo me atingir, pois eu sabia o que estava para fazer. "Você está quase pronta?", ela me perguntou mais cedo e, naquele momento, eu não estava. Talvez nunca estivesse. Mas agora não tinha mais jeito. Então, ao me preparar para contar mais uma vez a minha história, fiz o que Owen fez por mim tantas vezes: estendi a mão para minha mãe e minha família. E, dessa vez, eu os trouxe comigo.


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Dezenove Assim que cheguei ao tribunal, só vi Will Cash de relance. A parte de trás da sua cabeça aqui, a manga do seu paletó ali e o seu perfil, bem rapidamente. Primeiro fiquei frustrada e ainda mais nervosa, mas, conforme se aproximava a hora de eu ser chamada, comecei a ver isso como algo bom. Pedaços e partes eram mais fáceis de ser processados. O retrato inteiro, a história completa, era uma coisa completamente diferente. Mas não dava para saber. Às vezes, as pessoas nos surpreendem. Contar para a minha família foi mais difícil do que contar para Owen. Mas eu consegui. Mesmo nos momentos mais difíceis, mesmo quando ouvi minha mãe recuperar o fôlego, quando vi meu pai estreitando os olhos e senti Kirsten tremendo ao meu lado, eu continuei. E quando senti que estava hesitando de verdade, olhei para Whitney, que em nenhum momento recuou. Ela era a mais forte de todos nós e eu mantive meus olhos nela até o final. Minha mãe foi quem mais me surpreendeu. Ela não teve um ataque nervoso, nem se desesperou, embora eu soubesse que ouvir o que tinha acontecido comigo não tenha sido fácil para ela. Em vez disso, enquanto Kirsten chorava e Whitney ajudava meu pai a achar o cartão da Andréa Thomlinson no meu quarto para que ele pudesse ligar para saber mais detalhes, minha mãe ficou sentada ao meu lado com os braços em volta de mim, afagando a minha cabeça. Naquela manhã, no caminho para o tribunal, sentei no banco de trás entre as minhas irmãs, e fiquei observando meus pais. De vez em quando o ombro da minha mãe se movia e eu sabia que ela estava acariciando a mão do meu pai, como ele fez com ela em outra ocasião no carro, após segredos serem revelados, não muito tempo atrás. Então me dei conta que em minha vida toda tinha visto meus pais de uma só maneira, como se fosse a única que eles pudessem ser. Um fraco, um forte. Um medroso. O outro corajoso. Mas eu começava a entender que não existia essa coisa de absolutos, nem na vida, nem nas pessoas. Assim como Owen disse, era dia a dia, talvez momento a momento. Só o que você podia fazer era aguentar o máximo de


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peso possível. E se você tiver sorte, há alguma outra pessoa perto o suficiente para lhe dar apoio. Quando chegamos ao tribunal, eram quase oito e quarenta e cinco e eu olhei a multidão que estava em volta do chafariz, procurando por Owen. Ele não estava lá. Nem naquele momento, nem quando minha mãe e eu encontramos Andréa Thomlinson em um escritório próximo para relatarmos a história novamente. Nem quando o tribunal abriu as portas e nós entramos e nos sentamos na fileira seguinte à de Emily e sua mãe. Eu continuei procurando por ele, imaginando que Owen chegaria na última hora, mas ele não veio. Isso não parecia uma atitude dele e fiquei preocupada. Uma hora e meia depois, o promotor chamou meu nome. Eu me levantei, minha palma deslizou pelo banco à minha frente e andei até o fim da fileira. Então, pisei no corredor e estava sozinha. Ao andar, finalmente consegui ver tudo claramente — a multidão, o juiz, o promotor e o advogado de defesa — e resolvi olhar somente para o oficial de justiça, que me esperava ao lado do assento da testemunha Eu me sentei, sentindo meu coração bater forte ao responder às perguntas e ver o juiz olhando para mim e balançando a cabeça. Foi só depois que o promotor se levantou e começou a andar na minha direção que eu finalmente me permiti olhar para Will Cash. O terno chique que ele usava não foi a primeira coisa que percebi. Nem o novo corte de cabelo, curto e arrumado, cuja provável intenção era de fazê-lo parecer mais novo e inocente. A expressão — olhos estreitos e lábios contraídos — também não combinavam. Na verdade, a única coisa que eu via era o círculo roxo em volta do olho e a vermelhidão da bochecha logo abaixo. Alguém tinha tentado disfarçar com maquiagem, mas ainda estava lá. Claro como o dia. — Diga seu nome para registro — pediu o promotor. — Annabel Greene — eu disse. Minha voz estava trêmula. — Você conhece William Cash, Annabel? — Sim. — Você poderia apontá-lo para mim, por favor? Depois de ficar em silêncio por tanto tempo, senti que tinha falado muito nas últimas vinte e quatro horas. Mas, com sorte, essa seria a última vez por um tempo. Talvez por isso não tenha sido tão difícil respirar fundo e começar.


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— Ali — eu disse, levantando meu dedo e apontando para ele. — Ele está ali.

* * * Quando finalmente terminou, saímos do saguão escuro do tribunal e sentimos o sol do meio-dia, tão brilhante que meus olhos demoraram um pouco para se adaptar. Quando isso aconteceu, logo vi Owen. Ele estava sentado na borda do chafariz, usava calça jeans, uma camiseta branca e uma jaqueta, seus fones de ouvido estavam pendurados no pescoço. Era hora do almoço e a praça estava cheia de gente andando para todos os lados: executivos com pastas, universitários, um monte de crianças da pré-escola andando de mãos dadas em fileira. Quando me viu, Owen se levantou. — Eu acho — minha mãe dizia, ao passar a mão em meu braço — que nós deveríamos comer alguma coisa. O que você acha, Annabel? Você está com fome? Eu olhei para Owen, que também me olhava e agora estava com as mãos no bolso. — Sim — eu disse a ela — Só me dê um segundo. Ao começar a descer a escada, ouvi meu pai perguntando onde eu estava indo e minha mãe respondendo que não fazia a menor idéia. Eu tinha certeza de que eles estavam me olhando, mas não olhei para trás ao atravessar a praça, andar até Owen, que estava com uma expressão estranha, que eu nunca tinha visto antes. Ele ficava mudando de posição, claramente desconfortável. — Ei — ele disse, assim que teve certeza que eu podia ouvir. — Oi. Ele respirou fundo, quase falou, depois parou, passando a mão no rosto. — Olha—ele começou. — Eu sei que você deve estar bem brava comigo. O mais estranho era que eu não estava. No começo, fiquei surpresa, depois preocupada com o fato de ele não ter aparecido, mas a experiência foi tão forte — e também catártica — que eu meio que me esqueci disso ao me sentar no banco das testemunhas. Abri minha boca para dizer isso a ele, mas ele já estava falando novamente.


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— O fato é que eu deveria estar aqui. Eu não tenho desculpa. Não há desculpa, — Ele olhou para o chão, arrastando o sapato no asfalto. — Quero dizer, há uma razão. Mas não é uma desculpa. — Owen — eu disse. — Está... — Aconteceu uma coisa — ele suspirou, balançando a cabeça negativamente. Seu rosto estava vermelho e ele continuava irrequieto. — Uma coisa burra. Eu cometi um erro, e... Só naquele momento eu juntei as peças. A sua ausência. Essa vergonha irrequieta. E o olho roxo de Will Cash. "Ai, meu Deus", pensei. — Owen — eu disse em voz baixa. — Ai, não. — Foi uma má escolha — ele disse rapidamente. — E uma coisa da qual eu me arrependo. — Uma coisa? — Sim. Um executivo passou por nós falando alto ao celular. Algo sobre uma fusão. — Marcador de posição — eu disse a ele. — Eu imaginei que você talvez dissesse isso. — Fala sério — eu disse —, você sabia que eu iria dizer isso. — Tá, tá. — Ele passou a mão pelo cabelo. — Eu estava tendo uma discussão profunda com a minha mãe. Uma da qual não consegui escapar com facilidade. — Uma discussão — eu repeti — sobre o quê? Novamente, ele recuou. Ele estava muito mal por causa daquilo. Depois de estar do outro lado da verdade por tanto tempo, percebi que estava gostando de fazer as perguntas. — Bem — ele disse, depois tossiu. — Resumindo, eu estou sendo punido no momento. Na verdade, até um futuro próximo. Então, tive que negociar uma dispensa. E levou mais tempo do que eu pensava. — Você está de castigo — afirmei, esclarecendo.


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— Sim. — Por quê? Ele hesitou, depois balançou a cabeça negativamente, olhando para a fonte. Quem iria adivinhar que a verdade pudesse ser tão difícil para Owen Armstrong, o garoto mais sincero do mundo. Mas se eu perguntasse, ele diria. Isso era certeza. — Owen — eu disse, vendo-o extremamente chateado e com seus ombros se remexendo — o que você fez? Ele ficou olhando para mim durante um minuto e depois suspirou. — Eu dei um soco na cara de Will Cash. — Mas o que você estava pensando? —Bem, claramente, eu não estava. — Ele ficou vermelho feito um pimentão. — Não era a minha intenção. — Você deu um soco nele sem querer? — Não. — Ele me olhou com ar sério. — Tá bom, você quer mesmo saber? — Eu estou perguntando, não estou? — Então — Owen disse. — A verdade é que ontem, depois que você foi embora, eu estava muito bravo. Quero dizer, eu sou humano, certo? — Você é — eu concordei. — Eu só queria olhar para a cara dele. Era só isso. E eu sabia que às vezes ele toca com aquela bosta de banda, a Perkins Day, e que tinha show deles no Bendo ontem à noite. Então, imaginei que ele talvez estivesse lá. E ele estava. O que é realmente desprezível, quando você para pra pensar. Que tipo de pessoa vai para um lugar, ver uma banda de bosta, na noite anterior ao seu julgamento? É... — Owen — eu disse. — Estou falando sério! Você sabe o quanto eles são péssimos? Sério, até para uma banda cover. Eles são patéticos. Quero dizer, se você vai aparecer e dizer que não consegue compor suas próprias músicas, pelo menos toque bem a música alheia... Eu só olhei para ele.


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— Certo — ele confirmou. E passou a mão no cabelo novamente. — Então... ele estava lá, eu olhei bem para a cara dele. Ponto final. — Está na cara — eu disse, brava — que esse não é o final da história. Owen continuou, contrariado. — Eu vi o show deles que, como eu disse, foi péssimo. Saí para tomar um ar e ele estava lá fora fumando um cigarro. Aí, ele começa a falar comigo. Como se nós nos conhecêssemos. Como se ele não fosse a escória do mundo, um bosta de um imbecil. — Owen — eu disse suavemente. — Eu fui ficando cada vez mais e mais bravo — ele hesitou um pouco. — Eu sabia que deveria respirar e sair andando e tudo mais, mas não fiz isso. E então, ele terminou de fumar o cigarro, deu um tapinha no meu ombro e se virou para entrar novamente. E simplesmente... Eu dei um passo à frente para me aproximar dele. — ...me deu um estalo — ele terminou. — Perdi a cabeça. — Tudo bem — eu disse. — Mesmo quando eu estava fazendo aquilo, eu sabia que iria me arrepender — ele disse —, que aquilo não valia a pena. Mas aí, já estava acontecendo. Estou com muita raiva de mim, se você quer saber a verdade. — Eu sei. — Foi só um soco — ele resmungou, acrescentando rapidamente —, o que não quer dizer que tudo bem. E eu tive muita sorte de o segurança ter nos separado e nos mandado embora de lá sem chamar a polícia. Se ele tivesse... — ele ficou quieto. — É que foi muita burrice. — Mas você contou para a sua mãe de qualquer maneira — eu disse. — Quando cheguei em casa, ela percebeu que eu estava muito bravo. Então, perguntou o que tinha acontecido, e tive que contar para ela... — Porque você fala a verdade — eu disse, dando mais um passo à frente. — Bem, é — falou, olhando para mim. — Ela ficou, no mínimo, furiosa. E me deu essa punição pesada, totalmente merecida. Mas hoje, quando eu tentei sair


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para vir, as coisas ficaram um pouco pesadas. — Tudo bem — eu disse novamente. — Mas não está. — Atrás dele, o chafariz estava jorrando e a luz do sol brilhava sobre a água. — Porque eu não sou assim. Mais. Eu simplesmente... Surtei. Ergui minha mão e tirei seu cabelo do rosto. — Hum — murmurei. — Sério? — O quê? — Eu não sei. — Ergui os ombros. — É que para mim isso não é surtar. — Não é? — ele perguntou. Depois ficou me olhando por um momento. — Ah — ele finalmente falou. — Certo. — Quero dizer, para mim — ao falar isso, eu me aproximava dele — surtar é diferente. É mais parecido com algo do tipo fugir de casa, não dizer a ninguém o que está errado, deixar algo fervendo lentamente até você explodir ou algo assim. — Ah — ele disse. — Bom, então, acho que é apenas uma questão de semântica. — Acho que sim. Ao nosso redor, as pessoas continuavam andando para lá e para cá, preenchendo o seu horário de almoço do melhor jeito que podiam antes de o resto do dia começar. Eu sabia que, em algum lugar atrás de mim, minha família estava me esperando, mas mesmo assim abaixei a mão para segurar a dele. — Sabe — Owen disse, quando seus dedos encontraram os meus — parece mesmo que você tem todas as respostas. — Não — falei. — Só estou tentando fazer o melhor que posso de acordo com as circunstâncias. — E como você está se saindo? — ele perguntou. Não havia uma resposta curta para isso, assim como para muitas outras coisas, era uma longa história. Mas o que realmente torna qualquer história verdadeira é saber que alguém irá ouvi-la. E entendê-la. — Bem, você sabe — respondi —, é algo que se constrói dia após dia.


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Ele me deu um sorriso e eu sorri de volta, e dei mais um passo para me aproximar, virando meu rosto para ficar perto do dele. Quando ele se inclinou para me beijar, eu fechei os olhos e não vi apenas escuridão, vi outra coisa: algo brilhante, parecido com uma luz, brilhando pouco, mas de maneira firme. Mais do que suficiente para esperar uma parte de mim ir para cima e para fora até, finalmente, encontrá-la.


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Vinte Coloquei meus fones de ouvido, depois olhei para Rolly. Quando ele me deu um sinal de "ok", me inclinei na direção do microfone. — São sete e cinquenta e você está ouvindo nossa estação de rádio comunitária, a WRUS. Se você está esperando pelo programa Gerenciamento de Raiva, ele voltará ao ar em — olhei para meu bloco de anotações onde, em cima da minha bem organizada lista de músicas, havia um número dois escrito bem grande, seguido de um ponto de exclamação — duas semanas. Enquanto isso, eu sou Annabel, e você está ouvindo História da Minha Vida. Agora, The Clash. Continuei com meus fones de ouvido, olhando Rolly até que os primeiros acordes de "Rebel Waltz" começassem. Então, finalmente expirei o ar que eu tinha a sensação de estar segurando para sempre, no momento em que o alto-falante foi ligado e ouvi a voz de Clarke. — Bom — ela disse —, você nem parece mais tão nervosa. — Isto é, ainda estou nervosa — falei. — Você está indo muito bem — Rolly elogiou. — E eu não sei por que você fica tão nervosa. Você não está andando de biquíni na frente das pessoas. — Clarke se virou para ele, com um olhar de reprovação. — O que foi? É verdade! — Isso é mais difícil — eu disse, tirando meus fones de ouvido —, bem mais difícil. — Por quê? — ele perguntou. Eu dei de ombros. — Não sei — respondi —, é mais real. Pessoal. E realmente era. Na verdade, eu fiquei apavorada quando Owen me pediu para substituí-lo quando sua mãe decidiu que tirar dele temporariamente o programa


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de rádio era uma boa punição por ele ter batido em Will Cash. Mas quando Owen me convenceu que Rolly (e Clarke) estaria lá para me ajudar com as coisas técnicas e garantir que eu cumprisse a hora toda semana, aceitei tentar pelo menos uma vez. Isso tinha sido quatro semanas e agora, por mais que eu continuasse nervosa, estava me divertindo. Tanto que Rolly já estava no meu pé tentando me convencer a fazer o curso preparatório da rádio comunitária e tentar conseguir um horário para mim, mas eu ainda não estava pronta para isso. Mas nunca diga nunca. É claro que Owen ainda estava envolvido com o programa. Assim que eu comecei a substituí-lo, ele insistiu que eu tocasse as músicas escolhidas por ele, mesmo que isso significasse eu ter que colocar no ar músicas que odiava. Porém, depois da primeira semana (e assim que ele percebeu que não poderia me impedir), ele cedeu e eu comecei a colocar algumas das minhas músicas. Era ótima essa sensação de poder mostrar alguma coisa para o mundo — uma música, uma introdução, a minha voz — e deixar as pessoas entenderem da maneira que quiserem. Eu não precisava me importar com a minha aparência nem se a imagem que as pessoas tinham de mim era realmente eu. A música falava por si mesma e por mim e, depois de tanto tempo sendo observada e estudada, descobri que gostava disso. E muito. Rolly bateu no vidro que ficava entre nós e fez sinal para eu preparar a próxima música. Era um single da Jenny Reef, especialmente para Mallory — minha primeira fã de verdade —, que toda semana colocava o rádio-relógio para tocar e ligava para fazer um pedido. Deixei a música no ponto, esperei a música do The Clash se aproximar do fim antes de apertar o botão para deixar as batidas dançantes rolarem (uma passagem que eu sabia que irritaria Owen, que por muitas razões insistia em ouvir a transmissão do programa sozinho em seu carro). Depois que a música começou, mudei de posição na cadeira, olhando para a fileira de fotos próxima ao meu painel. Logo que comecei, fiquei tão nervosa que imaginei que seria uma boa idéia ter o máximo de inspiração possível. Então, trouxe a foto da Mallory com o boá de penas ao redor do rosto para me lembrar que pelo menos uma pessoa estava ouvindo. A foto que Owen tirou de mim para eu me lembrar que não tinha problema se ela fosse a única. E mais uma. A foto tirada de mim, minha mãe e irmãs no Ano-novo. Diferentemente daquela foto que está no vestíbulo, ela não foi tirada por um profissional e não tinha uma vista dramática atrás de nós. Em vez disso, estávamos todas em volta da ilha da cozinha. Conversávamos sobre algo que não me lembro e, então, o namorado da Kirsten, Brian — como as aulas tinham acabado, eles já podiam assumir publicamente seu relacionamento —, disse para nós olharmos para ele, e o flash


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disparou. A foto não ficou ótima em termos técnicos. Dá para ver o flash na janela atrás de nós, minha mãe está de boca aberta e Whitney está rindo. Mas eu adorei a foto porque ela parecia com a gente. E o melhor de tudo, dessa vez ninguém estava no meio. Toda vez que olhava para ela, me lembrava do quanto eu gostava dessa nova vida, sem um segredo a esconder. Era um recomeço e agora eu não precisava mais ser a garota que tinha tudo, ou nada, mas uma garota completamente nova. Talvez até a garota que contou a verdade. — Dois minutos para a próxima pausa — disse Rolly, e fiz que sim com a cabeça, colocando os fones de ouvido de volta. Quando ele afastou sua cabeça do microfone, Clarke esticou o braço e arrepiou o seu cabelo. Ele lhe deu um sorriso e fez uma careta quando ela voltou para as palavras cruzadas do jornal de domingo, que fazia questão de tentar completar até o final do programa. Clarke era competitiva, mesmo consigo mesma. Essa era uma das muitas coisas sobre ela que eu tinha esquecido, mas que agora me voltava à memória — como ela sempre gostava de cantar junto com o rádio, se recusava assistir a filmes de terror e conseguia me fazer rir descontroladamente com as coisas mais bobas — conforme retomávamos nossa amizade, pouco a pouco. Não era a mesma coisa de antes, mas nenhuma de nós queria isso. Nós estávamos felizes por estarmos andando juntas. O resto era um dia de cada vez. Essa era a forma como eu estava lidando com tudo e com todos ultimamente, aceitando as coisas boas e más quando apareciam, sabendo que ambas passariam com o tempo. Minhas irmãs estavam se falando e também brigando de vez em quando. Kirsten estava fazendo sua segunda aula de direção e trabalhando em um novo filme que era sobre, por mais estranho que seja, o trabalho de modelo, que ela prometia que iria virar nosso mundo de cabeça para baixo (seja lá o que isso quisesse dizer). Em janeiro, Whitney se matriculou na universidade da cidade, onde, juntamente com algumas exigências, ela estava assistindo a uma aula de registro de memória e outra de ficção. Na primavera, com a aprovação da sua terapeuta, ela iria se mudar para o próprio apartamento, um local onde ela fez questão que fosse muito iluminado por causa das plantas. Enquanto isso, as ervas ainda estavam na janela, onde, sempre que podia, eu parava para passar a mão nas folhas, deixando um bom aroma no ar. Quanto à minha mãe, ela aceitou todas essas mudanças derramando algumas lágrimas, é claro, além de demonstrar uma força que continuava a me surpreender. Eu finalmente lhe contei que não queria mais trabalhar como modelo e ela compensou sua dificuldade em se desapegar dessa parte da minha vida trabalhando meio período


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com a Lindy, que ainda precisava desesperadamente de uma recepcionista. Foi uma combinação perfeita. Agora ela organizava testes para outras garotas e lidava com clientes, mantendo um pé no mundo em que ela, mais do que todas nós, se sentia muito confortável. Mesmo assim, eu sabia que seria difícil para ela ver o comercial da Kopf, que começaria a passar em algumas semanas. Pelo que fiquei sabendo, eles mantiveram a mesma idéia daquele que fiz, focando na Garota Ideal, dos esportes ao baile de formatura. Ele provavelmente teria me incomodado pelos mesmos motivos do outro se não fosse pela garota que escolheram para me substituir: Emily. Afinal de contas, se alguém pudesse ser um exemplo para todas, só poderia ser ela. Quanto às coisas entre Emily e mim, não éramos exatamente amigas. Mas o fato de ambas sabermos pelo que passamos nos ligaria para sempre, gostássemos daquilo ou não. Agora, sempre que nos cruzávamos no corredor, fazíamos questão de nos cumprimentar, mesmo que não passasse disso. Isso era mais do que eu podia dizer para Sophie, que ignorava a nós duas. Depois de Will ter sido condenado por estupro em segundo grau — ele pegou seis anos, apesar de ter grandes chances de sair antes —, ela ficou na dela por um tempo, obviamente constrangida por ser assunto de tantas discussões. Eu a vi, algumas vezes, sozinha nos corredores, ou no almoço, e pensei que em um mundo ideal eu iria falar com ela, tentar acabar com esse malestar e fazer por ela o que ela nunca fez por mim. Ou não. Ao pensar isso, olhei para meu polegar, tirando o anel de prata para ler essas mesmas palavras. O anel era muito grande para os meus dedos, então tive que passar um durex para que se ajustasse melhor, mas estava perfeito enquanto eu ainda pensava em algo para colocar no anel que Rolly prometeu me dar. Até lá, Owen disse que eu poderia ficar com o dele apenas para me lembrar que é sempre bom saber quais são as opções que temos. — Trinta segundos — ouvi Rolly dizendo no fone de ouvido. Fiz que sim com a cabeça, aproximando minha cadeira do microfone. Com o passar dos segundos, olhei pela janela do lado esquerdo e vi uma Land Cruiser azul entrando no estacionamento. Bem na hora. — E... — Rolly disse — você está no ar. — Você acabou de ouvir Jenny Reef, com "Whatever" — comecei. — E agora chega ao fim o nosso História da Minha Vida, aqui na WRUS. Eu sou


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Annabel. Fique agora com Receitas e Ervas. Obrigada por nos ouvir. Fique com nossa última música. Os primeiros acordes de "Thank You" do Led Zeppelin começaram e afastei minha cadeira. Depois, fechei os olhos para ouvi-la, como eu fazia toda vez que escutava essa música; era meu pequeno ritual. Assim que o refrão começou, ouvi a porta se abrir e, um segundo depois, senti uma mão em meu ombro. — Por favor, me diga — Owen disse, sentando-se dramaticamente na cadeira ao meu lado — que eu não acabei de ouvir Jenny Reef no meu programa. — Foi um pedido — falei. — Além disso, você disse que eu poderia tocar qualquer coisa que quisesse desde que desse outro nome ao programa. — Mas com noção — ele respondeu —, quero dizer, você só precisa se lembrar que meus ouvintes vão ficar confusos. Eles ainda ligam o rádio e esperam qualidade. Se possível, iluminação. Sem essa porcaria comercial feita para as massas e cantada por uma adolescente totalmente controlada pelo marketing corporativo. — Owen. — Quero dizer, é claro que há espaço para a ironia, mas é uma linha tênue e precisa de equilíbrio. Se você pender mais para um dos lados, perde credibilidade. O que significa que... — Você está pelo menos ouvindo o que eu estou tocando agora? — perguntei. Ele parou no meio do discurso, depois olhou para o alto-falante em cima, ouvindo por um segundo. — Ah — ele disse. — É isso o que eu estou dizendo, essa música é a minha... — Música favorita do Led Zepellin — eu terminei por ele. — Eu sei. Na cabine, Clarke revirou os olhos. — Está bem — Owen concordou, aproximando sua cadeira da minha. — Então, você só tocou um pouquinho de Jenny Reef. Eu gostei muito do resto do programa. Mas tenho as minhas dúvidas quando à justaposição que você fez naquela...


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— Owen. — O quê? Eu me inclinei e coloquei meus lábios perto da sua orelha e disse: — Shhh. Ele começou a dizer alguma outra coisa — é claro —, mas parou quando coloquei minha mão perto da dele, envolvendo os seus dedos nos meus. Não tinha acabado. Eventualmente, ele falaria tudo o que pensava ou pelo menos insistiria. Mas, por enquanto, os acordes tocavam e o refrão se aproximava. Então, cheguei mais perto dele, apoiando minha cabeça no seu ombro para ouvir a música, e ficamos parados recebendo a luz do sol pela janela atrás de nós. Ela era brilhante e quente, refletindo-se no anel em meu polegar. Owen esticou a mão, girando-o bem devagar, enquanto a música tocava.

Fim..


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Aba de Trás SARAH DESSEN nasceu em Illinois e hoje em dia vive em Chapel Hill, Carolina do Norte. Seus pais eram professores na Universidade da Carolina do Norte, onde Sarah se graduou. Sempre foi uma devoradora de livros e logo na infância se encantou com a arte de escrever. Seus dois primeiros livros publicados foram adaptados para o cinema com o filme Meu novo amor, que revelou a sensação teen Mandy Moore. Just Listen está na lista dos livros mais vendidos do The New York Times, além de ganhar os prêmios Book-sense Top Ten Pie, Ala Best Book for Young Adults e VRISR Teen's Top Ten.


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Just listen em português - sarah dessen  
Just listen em português - sarah dessen  
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