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Juliana Chap Chap Droghetti Pontifícia Universidade Católica faculdade de filosofia, comunicação, letras e artes Trabalho de Conclusão de Curso

Orientação: Silvio Mieli Diagramação: Carolina Sá Revisão: Marcelo Carpinetti Novembro de 2013 1


Editorial

Índice

Tempo. História. Comportamento. Essas três palavras sempre representaram os principais motivos pelos quais eu escolhi fazer jornalismo. Afinal, ter a capacidade de relacionar tais questões para “discutir” com a população sobre algo que está acontecendo no mundo, é, na minha opinião, o que faz um bom jornalista. Seu trabalho é, na essência, contar uma história que acontece em tempo real, relacionando o comportamento do homem com a época e as condições em que ele vive. Se este profissional for realmente capaz, ainda conseguirá mostrar as consequências deste fato para a sociedade e provocar alguma mudança, seja ela na atitude ou no pensamento, de quem lê sua história. Sempre quis ser este jornalista. Sempre busquei a habilidade de contar uma história que tivesse relevância pera a vida das pessoas, mas de uma forma que explorasse um lado pouco conhecido, que mostrasse o que está escrito nas entrelinhas desta história. Sempre quis fazer uma matéria investigativa sobre temas que aparentemente não despertam a atenção do público, mas que um aprofundamento pode revelar aspectos fundamentais e imprescindíveis de serem tratados. E quem sabe, com isso, provocar uma mudança, um impacto, um pensamento diferente. Na medida do possível, foi o que tentei fazer neste trabalho de conclusão de curso. Ao longo das páginas desta revista, tento contar a história de uma geração – na qual faço parte – que cresceu em um mundo extremamente diferente do que cresceram as gerações anteriores. Um mundo conectado, globalizado, digital e em constantes transformações. Quis mostrar quais são as principais características comportamentais destes jovens, denominados Millennials, e o que os levou a ser e agir dessa forma. E ainda, como a internet – meio de comunicação e informação preferido desta geração – está afetando seus cérebros e quais são as consequências para este fato. Para mostrar como este meio é extremamente capaz de influenciar e alterar o cérebro, a percepção e o comportamento das pessoas, me baseei nos estudos do sociólogo Marshall McLuhan, autor do livro “Understanding Media: The Extentions of Men” 2

e do jornalista Nicholas Carr, autor do livro “The Shallows: What The Internet Is Doing To Our Brains”. Com a ajuda destes dois grandes pensadores, pude perceber que a internet, além de ser uma tecnologia intelectual de imenso poder, também está incentivando o desenvolvimento de uma nova configuração mental e cultural. De início, senti vontade de contar esta história, pois comecei a me questionar sobre os motivos pelos quais a minha geração possui formas de enxergar o mundo e comportamentos tão únicos. E também, porque tantos jovens que conheço, independentemente da nacionalidade, cultura ou classe social, mostram ter aflições, medos, atitudes e posicionamentos tão parecidos. Ao me aprofundar neste assunto, percebi que estes comportamentos estão intrinsicamente relacionados à configuração cultural, econômica, política e social do mundo, na época em que crescemos. E é isso o que almejo mostrar na primeira parte da revista, onde faço uma análise crítica desta geração. Em seguida, comecei a perceber que muitos destes comportamentos estavam sendo influenciados diretamente pelo uso da internet e de suas ferramentas. Entendi que apesar deste meio ter nos ajudado a desenvolver características positivas, ele também está transferindo sua própria lógica de funcionamento para nossa mente e comportamento. E esta lógica é extremamente prejudicial à mente humana. Sendo assim, ao longo da segunda parte da revista, intitulada “Internet”, mostro como o uso intensivo deste meio está nos tornando pessoas com pensamento, memória e inteligência cada vez mais superficiais, além de estar desencadeando novos distúrbios mentais. Nesta parte, alguns estudos de McLuhan nos ajudam a entender como os recentes meios de comunicação então transformando a forma com que nossos pensamento são desenvolvidos e o papel que exercem, ao alterarem nossa percepção da realidade. Apesar de serem dois temas amplos e complexos, eles estão intimamente relacionados e podem ajudar a elucidar algumas questões que considero importantes para o entendimento da sociedade atual. Boa leitura. 3


o que é uma

geração Ge-ra-ção: grupo de pessoas que nasceram e cresceram durante um mesmo período histórico. O termo “geração” é amplamente utilizado no cotidiano para dar sentido às diferenças comportamentais e padrões socioculturais entre distintos grupos etários na sociedade e para localizar e situar indivíduos em um determinado tempo histórico-social. Sendo assim, “Baby Boomers”, “Geração X” e “Millennails” nada mais são, do que termos que surgiram da teoria das gerações, para situar pessoas e formas de percepção do mundo no tempo. Esta teoria visa evidenciar que as diferenças entre gerações, podem ser o subproduto de circunstâncias históricas únicas que uma pessoa vivenciou durante a infância, adolescência e no início da fase adulta, período em que seus sistemas de valores, consciência do mundo e identidade pessoal, estão sendo fortemente moldados. Uma geração tende a durar, aproximadamente, vinte anos. Este período representa o tempo de duração em que uma pessoa nasce, atinge a maioridade e começa a ter seus próprios filhos. É comum algumas gerações receberem diversos nomes para identificá-las. A geração que será tratada neste trabalho é chamada de Geração Y, Net Generation, Globals, Generation We, entre outros. Mas acredito que o termo Millennials

é o mais adequando a ser utilizado, pois ele significa que os primeiros membros desta geração atingiram a maioridade na virada do novo milênio. De acordo com o sociólogo Karl Mannhein, em seu estudo “The Problem Of Generations”, não basta ter nascido em uma determinada época para pertencer a uma geração. O que caracteriza uma posição comum daqueles nascidos em um mesmo tempo cronológico, é a potencialidade ou possibilidade de presenciar os mesmos acontecimentos, de vivenciar experiências semelhantes, e, sobretudo, processar de forma similar tais acontecimentos e experiências. Uma vez que Millennials cresceram em uma época caracterizada pela globalização, pela evolução das tecnologias de comunicação e crescente interconectividade do mundo, esta pode ser a geração de pessoas com características comportamentais mais semelhantes da história. Ou seja, que foram impactadas de forma similar, pelos mesmos acontecimentos, ao redor do mundo. Estes jovens de idades aproximadas, apesar das diferenças pessoais e culturais de cada um, enfrentaram problemas e dividiram experiências similares ao longo de seus anos de formação. Dessa forma, aumenta-se a probabilidade de seus sistemas de valores e posicionamentos em relação aos principais aspectos da vida, serem majoritariamente semelhantes. 4

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millennials 7

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millennials 1980 - 1995 habitantes

2.3 bilhões

espalhados pelos cinco continentes

quem são os millennials | mente não linear juventude global | mais realistas diversidade | medo de anulação | interativos trabalho | famílias | cultura | ecologicamente conscientes

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1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000 2010 BABY BOOMERS

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GERAÇÃO X

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millennials

GERAÇÃO Z


Quem são os

os ambientes de trabalho e suas hierarquias, as escolas e formas de abordar a educação, as relações pessoais e institucionais, as dinâmicas familiares, a cultura e as formas de consumo e entretenimento. Entretanto, mais impactante do que mudar as formas de organização da sociedade, esses jovens adquiriram novas e diferentes formas de enxergarem a si próprios e o lugar que ocupam no mundo – e é isso que os torna tão únicos e com características tão diferentes. Suas escalas de valores, e o significado de conceitos como sucesso e felicidade, por exemplo, representam perspectivas distintas e mais humanistas do que as das gerações anteriores. Eles priorizam a procura por empregos que possam proporcionar realização pessoal e que façam sentido para eles, em detrimento do acúmulo de capital. Querem ser ouvidos da mesma forma que ouvem seus pais e seus chefes. Querem ser produtores do conteúdo que irão consumir. Acreditam e verdadeiramente lutam para quebrar as barreiras que limitam a liberdade individual. E, mais do que nunca, pensam e atuam em escala global. Hiperbólicos, os Millennials sentem uma forte necessidade de se expressarem e querem dominar as vias necessárias para isso. Com a infinidade de ferramentas de comunicação disponíveis na internet, os jovens de hoje estão criando novas formas de produzir e disseminar o próprio conteúdo na rede, que pode ser acessado por milhões de pessoas ao redor do mundo e se tornar “viral” em questão de horas. Dessa forma, ao desenvolverem o próprio material, seja ele em vídeo, texto, áudio ou foto, e de qualquer natureza (informacional, entretenimento,etc.) acabam criando também novas formas de se comunicar, assim como uma cultura própria desta geração que possibilita e estimula o consumo de materiais independentes, sem qualquer intermediação com as grandes instituições de produção de cultura. Sempre conectados e atentos às mudanças que ocorrem na sociedade (não raro, são eles os agentes de tais

millennials

I

magine quais seriam as principais características comportamentais de uma geração que nasceu e cresceu durante os mais intensos anos de avanços tecnológicos da história moderna. Que cresceu com um alto índice de pais separados, muitas vezes ausentes devido à longas jornadas de trabalho necessárias para poder prover educação, saúde e uma infinidade de bens materiais para seus filhos. Que viu o país e o mundo crescerem vertiginosamente, com forte estabilidade política e econômica. Que acompanhou as barreiras físicas do mundo serem derrubadas por três palavras, world wide web, que a possibilitaram entrar em contato com pessoas dos quatro cantos do planeta e saber tudo o que acontece, em qualquer lugar e em tempo real. Que tem mais acesso à informação do que seus pais jamais tiveram quando jovens. E, principalmente, que nunca viveu em um mundo que não fosse globalizado, conectado via internet 24 horas por dia. Sem dúvida, esse contexto histórico, político, econômico, social e cultural das décadas de 1980 e 1990, tão único, intenso e de rápidas transformações, influenciou diretamente na personalidade e nas características comportamentais daqueles que vivenciaram esse período durante seus anos de formação. Mais do que apenas fatos históricos, esses acontecimentos deram forma à concepção de mundo de bilhões de jovens de todas as partes do planeta, os quais são chamados mundialmente de Millennials. Nascidos entre 1980 e 1995, os Millennials são pessoas de 18 a 33 anos que estão mostrando perspectivas, valores, prioridades e comportamentos essencialmente diferentes das gerações anteriores. Juntos, somam mais de 2.3 bilhões de pessoas no mundo. São a maior geração viva atualmente. Eles estão no topo da cadeia de influência de consumo e comportamento, inspirando os mais novos e reorganizando o mais velhos. Suas ideias inovadoras e formas de enxergar o mundo, inspiradas, compartilhadas e ampliadas pelo mundo virtual, estão mudando drasticamente todas as instâncias da sociedade:

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“ao desenvolverem seu próprio matérial, seja ele de qualquer natureza, acabam criando também, novas formas de se comunicarem, assim como uma cultura própria desta geração” mudanças) os Millennials perceberam que em um mundo de constantes e rápidas transformações, tanto tecnológicas como comportamentais, históricas e sociais, quem não for capaz de se adaptar, invariavelmente ficará para trás. Por isso, para essa geração, viver é uma questão de adaptação, rapidez e sagacidade, como viabilidade para estar sempre atualizado e apto a realizar diferentes tarefas com as novas informações, novas formas de comunicação e comportamento, novas tecnologias e, assim, poder estimular novas transformações. Como consequência da grande rapidez e intensidade das transformações que acontecem no mundo de hoje e, também, devido à imensa quantidade de informação bombardeada pelos meios de comunicação a todo momento, essa geração é diagnosticada como extremamente ansiosa. Apesar das tecnologias digitais terem facilitado e melhorado a vida de diversas maneiras, os Millennials, mais intensamente do que qualquer outro grupo geracional, estão sentindo na pele os lados negativos da hiperconectividade à qual se submetem. Até agora foi possível entender que os Millennials são jovens globais, hiperbólicos, autoexpressivos, ansiosos e, segundo dois grandes pesquisados dessa geração, superprotegidos e confiantes em si mesmos. De acordo com William Strauss e Neil Howe, autores do livro Millennials Rising: 14


MILLENNIALS The Next Great Generation, nenhuma outra geração foi tão protegida e celebrada pelos seus pais e pela indústria cultural. Desde a concepção até o nascimento e infância, os Millennials foram superprotegidos, cuidados e também mimados com produtos criados especialmente para eles, como filmes, músicas, brinquedos, revistas, programas de TV, entre outros. Um boom industrial de produtos infantis e a uma nova configuração cultural, colocaram a criança no centro das atenções das famílias e de diversas ações governamentais. Strauss e Howe acreditam que tamanha proteção e valorização da criança acabaram ajudando a desenvolver não só uma geração com altíssimas taxas de natalidade, como pessoas com altos índices de confiança em si mesmos. Talvez seja justamente por terem sido criados dessa forma que membros de outras gerações os apontam como pessoas excessivamente confiantes em suas habilidades, principalmente no trabalho. Não é raro ler matérias pessimistas sobre essa geração e ouvir pessoas mais velhas reclamando de seus filhos ou netos. Para eles, os Millennials são folgados, preguiçosos, superficiais, alienados, sem ética, liberais demais e não respeitam hierarquias. Alguns desses adjetivos podem até ser verdade;

essa geração, de modo geral, realmente não acredita em hierarquias e eles, de fato, são mais liberais – diversas pesquisas mostram que esses jovens estão entre as pessoas que mais aceitam casais gays e formas não tradicionais de constituições familiares. Para uma grande maioria deles, a liberdade individual deve ser tratada como algo inviolável e inquestionável. Porém, vários desses péssimos adjetivos surgem porquê muitas pessoas não conseguem entender o que esses jovens estão dizendo e fazendo, o que faz deles pessoas constantemente mal interpretadas. O fato é que, afinal de contas, todas essas atitudes e comportamentos tão diversos de outras gerações, que causam tanta estranheza nos mais velhos, encontram razão em um só motivo: trata-se da primeira geração “digital” e globalizada de toda a humanidade. Graças à internet – ela também é um membro dessa geração –, o cérebro dos Millennials está se configurando de forma diferente e, consequentemente, seus comportamentos também. Esses jovens nasceram e cresceram no meio do furacão da revolução digital e da informação, num mundo cada vez mais globalizado e conectado. O metabolismo da cultura e do mundo, e desses jovens, por consequência,

é muito mais acelerado atualmente do que jamais foi. Por tratar-se de uma época na qual tal revolução começou a acontecer e a provocar mudanças drásticas e irreversíveis no comportamento da população, tratamse também de jovens diferentes, com comportamentos únicos. Dessa forma, frases como “os mais... da história”, “nunca antes...”, ou ainda, “maiores índices registrados de...”, são necessárias para descrevê-los. A cada ano, milhares de Millennials estão ocupando mais postos de trabalho, abrindo mais negócios, consumindo mais e consolidando a sua cultura e formas de comportamento no mundo. Eles são a atual juventude economicamente ativa do planeta e, como os outros jovens que vieram antes deles, são os grandes catalizadores de mudanças na sociedade. O diferencial é que os Millennials estão mostrando uma forma totalmente inovadora de fazer isso e, pela primeira vez, eles possuem ferramentas digitais de imenso poder nas mãos. A seguir, algumas das principais características que tornam essa geração, quem ela é.

TECNOLOGIA NO DIA A DIA DOS MILLENNIALS 15

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“Estes jovens nasceram e cresceram no meio do furacão da revolução digital e da informação e com um mundo cada vez mais globalizado e conectado.” 16


em sempre é fácil entender o que os Millennials pensam, dizem ou fazem, porque eles desenvolveram uma forma não linear de pensamento, própria da linguagem da internet, na qual vários assuntos podem ser acompanhados ao mesmo tempo. Eles estão acostumados a assimilar informação e conteúdo simultaneamente através de textos, vídeos e áudio. A linearidade da palavra escrita está dando lugar à circularidade dos meios digitais, nos quais o cérebro e os sentidos do homem são constantemente estimulados de várias formas, afetando diretamente maneira de

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se compor tar, pensar e se ar ticular desses jovens. Como par te das consequências para esse fato, Millennials são essencialmente “multitaskers”, ou seja, realizam diversas tarefas ao mesmo tempo: escutam música, checam os e-mails, trabalham em um projeto, falam ao telefone, assistem a um vídeo, entre muitas outras atividades. Para essa geração, é comum começar em um assunto e terminar em outro completamente diferente. A não linearidade do pensamento desses jovens transforma radicalmente o modo de processar informações e acontecimentos, assim como a forma pela qual realizam tarefas.

mente não linear

N

Mente não linear

M

Juventude Global

illennials são os primeiros jovens globais da história. Devido à internet e à globalização, jovens de diferentes lugares do mundo estão cada vez mais interligados e reconhecem uns nos outros, características similares, independentemente de seus lugares de origem, culturas ou valores familiares. Suas atitudes e perspectivas são pensadas em âmbito mundial e não mais local. Millennials do mundo inteiro estão conectados, trocando e compartilhando informações, experiências e ideias que, juntamente com o incentivo do consumo globalizado, estão criando uma nova e imensa cultura jovem global. Com isso, um senso maior de comunidade é desenvolvido entre eles, o que

influencia diretamente na forma pela qual pensam e enxergam suas vidas, assim como na forma pela qual se relacionam com outras pessoas e governos. Não por acaso, movimentos sociais globais são cada vez mais comuns: pessoas ao redor do mundo se juntam através das mídias sociais e planejam atos simultâneos em diversos países, para lutarem por objetivos em comum. Cria-se cada vez mais a noção de cidadãos do mundo e não apenas de um determinado país. O combo internet + globalização, apesar de todas as características diferentes de cada pessoa, ajuda a estabelecer semelhanças entre jovens ao redor do mundo, que acabam desenvolvendo características comportamentais cada vez mais parecidas em relação ao que fazem e como se posicionam em relação aos principais aspectos da vida.

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Mais Realistas

P

or terem acesso a notícias e imagens de todo o planeta desde pequenos, essa geração cresceu tendo uma noção muito maior e mais realista sobre as distintas realidades existentes no mundo. Questões tristes como a fome, guerras, desastres naturais e outros tipos de acontecimentos, foram expostos de forma muito mais intensa, precoce e frequente em suas vidas, quando comparado a seus pais. Dessa forma, esses jovens adquiriram uma consciência muito maior sobre os acontecimentos do mundo. Além disso, devido a essa exposição, as crianças estão perdendo a inocência cada vez mais cedo, assim como a doce ilusão de um mundo feliz e colorido. Como consequência

dessa questão, os Millennials vêm se mostrando pessoas mais realistas. Seus ídolos não são mais figuras idealistas, com grandes sonhos utópicos, praticamente impossíveis de se realizar, como era comum vermos em gerações anteriores. Agora, seus ídolos são pessoas normais, que conseguiram realizar seus sonhos e estabelecer um equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Devido à complexidade do mundo atual, os jovens estão entendendo que pequenas boas ações no dia a dia podem ser muito mais efetivas e provocar mais mudanças positivas do que o sonho megalomaníaco de mudar o mundo em um golpe só. Eles não querem mais derrubar os sistema e as instituições que não funcionam, mas criar novas que atendam às suas expectativas.

OBS: Nessa questão, muitos podem argumentar que essa geração, mesmo tendo mais acesso a mais notícias e informações desde pequenos, são mais alienados e superficiais quando comparados a outras gerações. Geralmente, o argumento dessas pessoas é dizer que os jovens de hoje ficam o dia inteiro no Facebook, cuidado dos seus próprios problemas supérfluos e não enxergam o que está acontecendo à sua volta. Porém, o que coloco como contra argumento aqui, é que esta

não é uma questão de propriamente enxergar ou não, mas de querer enxergar. Os Millennials têm noção de muita coisa que acontece no mundo, afinal de contas, eles ficam conectados grande parte do seu tempo e mesmo que não procurem, de uma forma ou de outra, as notícias chegam até eles. Porém, muitos escolhem se “ausentar” do mundo real para não saber de nada o que acontece, tanto por realmente não desejarem quanto como mecanismo de proteção.

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Diversidade E D iferentemente da geração X, por exemplo, na qual era comum os jovens terem opiniões radicais e dividirem-se em grupos e tribos de gostos específicos, sem se misturar, para os Milennials é legal ser várias coisas ao mesmo tempo e ser capaz de transitar entre todos os estilos, sem preconceitos. Uma única pessoa pode ter comportamentos e gostos de mundos opostos, sem que isso atrapalhe sua identidade. Podese ser roqueiro e gostar de reggae, ser surfista e também empresário, ser DJ e fazer yoga, ser intelectual e gostar de seriados toscos de comédia. Enfim, ser tudo isso ao mesmo tempo. O mundo dos jovens de hoje celebra a autenticidade e a diversidade (cultural, sexual,

de opiniões, visões de mundo, formas de vestir, etc.) e condena restrições. Quanto mais eclético e flexível você for, melhor. Para essa geração, a liberdade individual de cada um ser o que quiser e de se expressar da maneira que bem entender, é uma questão crucial, inviolável. Talvez seja exatamente por isso, por acreditarem e valorizarem tanto a liberdade individual, que os Millennials se mostram mais tolerantes e menos preconceituosos com pessoas, situações e estilos de vida diferentes. Além disso, a internet funciona como agente potencializador dessa questão, pois ela permite e estimula a expressão das diversas características do “eu”, ao possibilitar a qualquer um estar em contato com diversos assuntos ao mesmo tempo.

“O mundo dos jovens de hoje celebra a autenticidade e a diversidade (cultural, sexual, de opiniões, visões de mundo, formas de vestir, etc) e condena restrições.” 23

medo de anulação

m meio a uma multidão de jovens e com o mercado de trabalho cada vez mais concorrido e saturado, essa geração percebeu que no atual mundo de informações, só quem for “mais”, “maior” e “melhor”, receberá atenção. Dessa forma, mesmo que inconscientemente, é possível perceber que um dos medos mais comuns dos Millennials, é a sua anulação frente à multidão. Diferentemente do que acontecia com as gerações anteriores, quando tudo era menos concorrido e os parâmetros eram mais razoáveis devido à menor quantidade de informação – e, consequentemente, possibilidade de comparação –, os Millennials precisam ser cada vez mais diferenciados no que fazem. Caso contrário, serão apenas

mais um entre bilhões,

já que a escala agora é global e não mais local. Ambiciosos, esses jovens buscam encontrar novas maneiras de realizar velhas tarefas. É por isso que tantas ferramentas de produção e distribuição de conteúdo via internet são cada vez mais usadas e novas possibilidades de comunicação são criadas. Pode-se perceber que uma das consequências desse fato é a superexposição da própria vida como forma de se mostrar e se afirmar no mundo, fazendo-se constantemente lembrado através da presença ativa nas redes sociais. 24 24


M

Interativos

illennials são consumidores/ usuários ativos: não observam apenas. Participam. A essência da sua cultura é a interatividade e é por isso que a ferramenta de comunicação mais usada entre os jovens é a internet. O mundo off-line não oferece oportunidades para construir o próprio mundo, a própria programação. Já o mundo on-line é como uma tela em branco. Pode-se ser, fazer e consumir o conteúdo que quiser. Nesse sentido, é possível fazer uma comparação interessante. Enquanto os Baby Boomers foram marcados

pelo surgimento da televisão, os Millennials foram marcados pela internet, sendo uma a antítese da outra. Na TV, o conteúdo é controlado por grandes instituições, nas quais as pessoas são apenas consumidores passivos da informação. Na internet, ao contrário, as pessoas tornam-se consumidores ativos. Com as ferramentas nela disponíveis, os jovens são estimulados ao debate e têm a possibilidade de criarem seus próprios conteúdos, interagindo tanto com pessoas de todo o mundo como com empresas produtoras de conteúdo. Esta geração quer ser ouvida pelos mesmos meios que ouve.

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Trabalho

ara a grande maioria dos Baby Boomers, geração que nasceu entre 1945 e 1964, sucesso é sinônimo de estabilidade financeira. Já para os Millennials, a mesma questão é sinônimo de prazer e realização pessoal. Isso significa que os jovens estão cada vez mais procurando profissões que fazem sentido para eles, algo como uma mescla entre fazer o que gosta e sentir que o seu trabalho irá contribuir, não apenas para sua realização pessoal e profissional, mas também para a sociedade como um todo. Dinheiro continua sendo importante – muitos estudos apontam essa geração como uma das mais consumistas de todas – mas a forma pela qual irão obtê-lo está mudando. Essa mudança deve-se muito ao fato de que, quando crianças, Milennials cresceram vendo seus pais viverem para trabalhar, fazendo sacrifícios importantes em relação à qualidade de vida e disponibilidade de tempo, em prol da tão almejada estabilidade financeira. Recém integrados ao mercado de trabalho, estes jovens estão mostrando ter uma atitude inversa à de seus pais: eles querem trabalhar para viver. Muitos integrantes dessa geração acreditam que dinheiro deve servir para proporcionar qualidade de vida, assim como uma rotina mais prazerosa, e não uma vida dedicada ao acúmulo de capital, onde as questões pessoais e sociais são deixadas de lado.

Como qualquer um, eles querem trabalhar para poderem usufruir das coisas boas que o dinheiro proporciona, como segurança, conforto, viagens, bens materiais, etc. O grande diferencial dessa geração, é que ela está buscando alternativas para não ter que fazer tantos sacrifícios enquanto não alcança tal estabilidade financeira. Eles querem aproveitar o caminho até o sucesso. Para esses jovens, aproveitar vida é visto como algo tão importante quanto ter dinheiro para pagar as contas no fim do mês. Uma pesquisa da Fundação Instituto de Administração (FIA/ USP) realizada com cerca de 200 Millennials de São Paulo, revelou que 99% deles só

“é sinônimo de prazer e realização pessoal.”

se mantêm envolvidos em atividades que gostam e 96% acreditam que o objetivo do trabalho é a realização pessoal. Na questão “qual pessoa gostariam de ser?”, a resposta “equilibrado entre vida profissional e pessoal” alcançou o topo, seguida de perto por “fazer o que gosta e dá prazer ”. Se essa nova forma de encarar o trabalho irá trazer resultados concretos ou

a essência da cultura dos millennials é a interatividade. 25

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não, ainda é muito cedo para saber. Mas os escritórios e presidentes de grandes empresas já estão sentindo os efeitos dessa mudança de atitude. Com a possibilidade de estarem conectados a todo tempo e em qualquer lugar, estes jovens acreditam na política de resultados: horários e locais fixos de trabalho já não fazem mais sentido. Eles acreditam e valorizam relações horizontais, de mútuo respeito e troca de conhecimento, ao invés da rígida estrutura de hierarquização das relações dentro das empresas, algo normal para gerações anteriores. Uma pesquisa da Universidade de Bentley intitulada Millennials in the Workplace, na qual 1000 jovens foram entrevistados, apontou que essa geração é constantemente mal interpretada pelos seus chefes, que os identificam como preguiçosos e sem qualquer ética no trabalho. Porém, segundo dados dessa pesquisa, são esses jovens quem mais apresentam ter dedicação para descobrir e apresentar novas experiências e ideias, tirar proveito das oportunidades e expandir os limites de atuação da empresa quando lhe são dadas autonomia e liberdade no trabalho. A pesquisa aponta também que, majoritariamente, os Millennials confiam em suas habilidades e procuram ser bem sucedidos em suas carreiras, mas não irão tolerar locais de trabalho desagradáveis que não os permitem ser quem verdadeiramente são, quando expressam seus valores pessoais e familiares. Esse fato apenas evidencia que essa geração tem uma outra concepção de trabalho em relação a seus chefes. O que pode parecer preguiça, na realidade mostra que eles não estão dispostos a fazer sacrifícios em relação a seus valores pessoais apenas para alcançar reconhecimento e sucesso no trabalho. 27

troca de conhecimento

“Millennials acreditam que trabalhar juntamente com outras pessoas para fazer uma diferença no mundo, é mais importante do que o sucesso individual.” Outro dado da mesma pesquisa mostra que 84% dos entrevistados dizem que “saber que estou ajudando, com o meu trabalho, a fazer uma mudança positiva para o mundo, é mais importante do que reconhecimento profissional”. Millennials acreditam que trabalhar em conjunto com outras pessoas para fazer uma diferença no mundo é mais importante do que o sucesso individual. Enquanto gerações mais velhas tendem a

enxergar a vida através de lentes mais cínicas e autofocadas, os Millennials mostram pensar globalmente e mais socialmente. Com o poder das novas tecnologias, eles são otimistas em poderem criar uma influência positiva no mundo. Visto isso, é possível perceber que esses jovens procuram empregos que respeitem seus valores pessoais, assim como os permitam participar e contribuir ativamente nos trabalhos da empresa e não apenas serem subordinados à ordens e tarefas alienadas ao resultado, vazias de sentido. Quando não encontram lugares como esses, eles buscam abrir suas próprias empresas e negócios, tendência cada vez mais forte entre os Millennials. Ainda no âmbito profissional, esses jovens nasceram em uma época na qual novas profissões e possibilidades de trabalho começaram a surgir. Ao invés de terem de escolher, como a maioria de seus pais fizeram, entre uma pequena gama de profissões que proporcionam segurança financeira e status social (como, por exemplo, advogado, médico, administrador ou engenheiro), esses jovens têm a possibilidade de escolher entre uma variedade imensa de profissões, muitas delas inexistentes há dez anos atrás. Além disso, funções muito específicas de uma determinada profissão são cada vez mais valorizadas e procuradas pelas empresas, possibilitando a esses jovens se dedicarem profundamente a uma única área dentro da profissão que escolheram. Um último aspecto, fora do âmbito profissional, contribui para a explicação da existência de tal comportamento e atitude em relação ao trabalho. Os jovens de hoje estão demorando muito mais para casar e

“vão em busca de abrir suas próprias empresas e negócios, tendência cada vez mais forte entre os millennials.” ter filhos, o que possibilita uma vida menos voltada para a estabilidade financeira necessária para a construção de uma família, ao mesmo tempo que incentiva a busca de profissões mais gratificantes. Nos Estados Unidos, por exemplo, a idade média em que uma mulher se casa passou de 20.6 anos, em 1967, para 27, em 2011. Fica evidente que as pessoas estão dedicando muito mais tempo para pensarem em si mesmas e nas suas realizações pessoais, como trabalho e

millennials 28


desejos individuais, antes de pensarem na estabilidade financeira para construção de uma família. Em relação às mulheres, a mudança de atitude em relação ao trabalho é ainda mais impactante. As mães dos Millennials – muitas delas da geração Baby Boomer –, foram criadas de acordo com o pensamento dominante da época, no qual a mulher deve dedicar sua vida

para cuidar da família e do lar. Atualmente, esse pensamento é praticamente inexistente, salvo raras exceções. Da forma como as famílias estão se organizando, muitas mulheres não só trabalham por que querem, buscando, assim como os homens, a realização pessoal e profissional, mas também porque devem contribuir com as despesas da casa.

O que faz a sua

geração única? Gen X

Millennial Uso da tecnologia Música/Cultura Pop % Liberal/Tolerante 7% Mais inteligente 6%% Roupas 5%%

% 24% 11%%

12%% Uso da tecnologia % Ética de trabalho 11% % Conservador/Tradicional 7% Mais inteligente 6%% Respeitoso 5%%

Baby Boomer Ética de trabalho % Respeitoso 14% Valores/Morais 8 % baby boom 6%% % Mais inteligente 5%

% 17%

“muitas mulheres não só trabalham por que querem e buscam, assim como os homens, a realização pessoal e profissional, mas também porque devem contribuir com as despesas da casa.” 29

Fonte: Pesquisa Millennials: A Portrait Of Generation Next. Confident. Connected. Open to change. Pew Research Center, 2010

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Famílias

C

om mais experiência de vida e conhecimento,ospaiseavósdepoucas décadas atrás inquestionavelmente ocupavam o topo da hierarquia de influência nas dinâmicas familiares. Na mesa de jantar, eles eram os únicos detentores de conhecimento e credibilidade e eram as figuras de autoridade de todos os assuntos que importavam: os pais falavam e traziam as novidades e os filhos escutavam e absorviam essas novidades. Porém, com o advento das tecnologias digitais e devido à imensa quantidade de informação disponível na internet, os jovens de hoje têm à sua disposição toda e qualquer informação que necessitam e estão expostos a todos os acontecimentos do mundo, de forma rápida e intensa. Imersos desde pequenos no mundo virtual (digital natives), eles conseguem mexer e interagir com tecnologias digitais, muito mais facilmente e de forma mais ampla do que seus pais (digital imigrants). Pesquisas mostram que na grande maioria das vezes, são esses jovens que trazem as novas tecnologias para dentro de casa, influenciando a família a usá-las. Dessa forma, ocorre uma inversão na hierarquia de conhecimento e influência, e os jovens passam a ser vistos como fontes de informação nova e diferenciada da que seus pais estão acostumados. Pela primeira vez na história, os filhos têm mais acesso à informação do que seus pais jamais tiveram enquanto jovens e são capazes de influenciá-los na forma com que se comunicam, utilizam novas tecnologias e absorvem informação. As implicações para esse fato são enormes. Em algumas famílias, pais e filhos começaram a se

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respeitar mais, pois passou a existir uma troca de conhecimento e experiência. Isso acabou por criar uma relação mais dinâmica, aberta e respeitosa dentro das famílias, além de diminuir as diferenças entre as gerações. Ao contrário dos Baby Boomers, que se viam muito distantes da realidade e dos valores caretas de seus pais, os Millennials se enxergam mais próximos e mais amigos dos seus. Isso ocorre, em parte, devido às novas tecnologias que colocam todas as pessoas que as utilizam em um mesmo contexto e, também, pela maior liberdade e informalidade entre as relações pessoais e familiares de hoje. Ainda no âmbito familiar, uma grande parte desses jovens cresceu com pais separados e foi acostumada desde cedo a ter que integrar novas pessoas à família, tornando essa instituição algo menos tradicional e rígido do que era em gerações anteriores. Uma pesquisa realizada pelo governo norte-americano indica que apenas 62% dos Millennials desse país tinham pais casados enquanto cresciam. As famílias modernas muitas vezes são compostas por casais do mesmo sexo, padrastos e madrastas, mães solteiras, pessoas que moram juntas, mas não são casadas, e casais inter-raciais. Pesquisas mostram que os Millennials são os que mais aceitam essas novas formas não tradicionais de constituição familiar, quando comparados às gerações anteriores. E, muito provavelmente, as famílias compostas por pais da geração millennial serão ainda mais diversas, uma vez que a liberdade sexual e de escolha são fatores cada vez mais valorizados e aceitos em sociedade, principalmente por esta geração.

“os millennials são os que mais aceitam estas novas formas não tradicionais de constituição familiar, ”

*Digital Native: Em português, nativo digital. Um indivíduo que cresceu imerso em tecnologias digitais e é tecnologicamente adepto e interessado. Oposto de Digital Imigrant. 32


Tendências em relação a casamento e constituição familiar

E

% que dizem ser uma coisa ruim para a sociedade

Millennials

mães de filhos pequenos que trabalham fora de casa

29

39

32

36

48

pessoas que moram juntos mais não são casadas

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Fonte: Pesquisa Millennials: A Portrait Of Generation Next. Confident. Connected. Open to change. Pew Research Center, 2010

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les são jovens, numerosos, inovadores e dispõem de ferramentas de imenso poder de produção e disseminação de conteúdo. Como nunca antes, a cultura jovem está dominando a cultura mundial: na música, nas artes, nos filmes, na literatura. As novas tecnologias digitais, principalmente a internet, estão permitindo que o conteúdo pessoal ganhe dimensões estratosféricas, onde tudo pode ser remixado, editado, reutilizado e visualizado por milhões de pessoas, sem qualquer veiculação com as instituições tradicionais de produção de conteúdo. Atualmente, qualquer pessoa pode ser produtor musical, diretor de filmes ou escritor. Basta saber manusear os programas de produção e edição e colocar o conteúdo na

Baby Boomers

casais gays com filhos

casamento entre pessoas de diferentes etnias

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Geração X

Cultura internet para que milhares de pessoas tenham acesso a esse material. Com essa possibilidade, pessoas comuns podem se tornar famosas em questão de dias. E, quem sabe melhor que os jovens manusear ferramentas como YouTube, Blogs, Facebook, Instagram, MySpace e Twitter para criar materiais próprios e torná-los virais? A cultura de massa invariavelmente está nas mãos da maior geração viva hoje e o fato de estarem sempre conectados, apenas intensifica essa influência. São os Millennials que estão ditando as tendências na moda, no comportamento, na cultura

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nunca foi tão valorizado e almejado na sociedade como é hoje. Os produtos que consomem, as roupas que vestem, as músicas que escutam, a arte que valorizam, tudo isso é “importado” para gerações mais velhas e mais novas, que buscam a ideologia “forever young” e querem estar sempre atualizados com as novidades deste mundo. Outro fator importante é que a revolução da informação que estamos vivendo hoje, deu poder aos indivíduos comuns através das novas tecnologias digitais, ao torná-los aptos a competir

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M

Ecologicamente Conscientes

illennials nasceram e cresceram em uma época na qual o conceito de “politicamente correto” começou a ser amplamente discutido e aplicado em todo o mundo. Outros termos e conceitos como consumo consciente, desenvolvimento sustentável, senso comunitário, reciclagem, aquecimento global, efeito estufa, emergência de fontes de energia limpa, espécies em extinção, entre outros, também foram explorados com mais força e expostos desde cedo para as crianças nas escolas. Dessa forma, os Millennials cresceram desenvolvendo uma consciência muito mais abrangente sobre questões de imensa importância para o mundo,

contra grandes organizações que antes ditavam as regras: hackers versus instituições, blogueiros versus mídia tradicional, diretores do YouTube versus estúdios de produção. Incentivados pelo consumo global e pela internet, conexões estéticas são cada vez mais comuns, fazendo a cultura, e todas as suas instâncias, se manifestar de forma similar em todo o planeta. Porém, a cultura das mídias sociais estimulada pela internet, cada vez mais forte no mundo inteiro, está ajudando a estabelecer também a cultura da hiperexposição. Pessoas de todas as idades, mas principalmente os mais jovens, estão criando perfis nas redes sociais como

coisa que os pais foram adquirir com muito mais idade, muitas vezes através dos próprios filhos. Esses jovens já nasceram com a urgência de “salvar o planeta”, de encontrar alternativas sustentáveis de consumo e negócios para frear a devastação que seus bisavós, avós e pais, causaram no meio ambiente, sem pensar duas vezes. Como consequência, pesquisas indicam que uma grande parte dos Millennials prefere empresas e produtos socialmente e ambientalmente responsáveis, que se esforçam para contribuir com o desenvolvimento sustentável, que praticam a reciclagem e que pensam em soluções inteligentes para essa questão.

“precisam salvar o planeta”

se fossem “cartões de visita” para outras pessoas curtirem e seguirem. Os Millennials aprenderam sozinhos a desenvolver a ideia de que popularidade significa mais “followers” e mais “likes” e, com isso, transformam-se em “marcas” de si mesmos. Eles querem divulgar suas vidas, abrem mão da sua privacidade para postar, a todo hora, o que estão fazendo, onde e com quem estão, como forma de se fazerem presentes e atualizados. Como dito antes, os millennials não querem ser esquecidos e nem deixados à margem. Eles querem estar no meio dos acontecimentos, sempre. Talvez por isso sintam essa necessidade de estarem cada vez mais conectados, comentados, curtidos e seguidos. 35

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internet 37

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Marshall Mcluhan

E 39

m 1964, Marshall McLuhan, grande sociólogo da mídia, publicou o que seria seu mais famoso e controverso livro. Understanding Media: the extensions of men, visto de início como uma profecia, anunciava principalmente a dissolução da mente linear, própria da leitura de textos, para dar espaço à mente circular, própria dos meios eletrônicos ou multissensoriais de comunicação. Atento às mudanças que ocorriam com os meios de comunicação na época, McLuhan entendeu que as mídias eletrônicas do século XX – telefone, rádio, televisão, cinema – derrubariam a tirania do texto sobre nossos pensamentos e sentidos, transformando para sempre a mente e o comportamento humanos. O autor acreditava que os avanços das tecnologias de comunicação, uma vez amplamente adotadas pela sociedade, resultam em uma nova dimensão da linguagem, provocando, consequentemente, um novo processo civilizatório. Segundo McLuhan, quando o livro impresso surgiu, foram liquidados dois mil anos de cultura

manuscrita e iniciou-se uma nova forma de civilização baseada na mente linear e em sua lógica. Com a criação do estudante solitário, que os livros permitem e incentivam, foi estabelecido o predomínio da interpretação particular sobre o debate público, além do predomínio do pensamento linear na mente das pessoas, mudando drasticamente a nossa relação com a linguagem e com o mundo à nossa volta. Nos últimos cinco séculos, desde que a imprensa de Gutenberg fez a leitura de um livro algo amplamente acessível e almejado pela população, a mente linear esteve no centro das artes, da ciência e da sociedade. A forma pela qual as pessoas elaboravam e processavam as informações estava intimamente relacionada ao modo linear de pensamento. Ler e escrever eram as principais formas existentes de expressar e absorver ideias e informações. Sendo assim, a mente linear foi a mente imaginativa da Renascença, a mente racional do Iluminismo, a mente inventiva da Revolução Industrial e até a subversiva mente do Modernismo. Porém, com os meios eletrônicos e digitais de comunicação cada vez mais “poderosos” e presentes em nossas vidas, em breve, essa também pode vir a ser, a mente do passado. 40


“ Estamos mais uma vez subestimando o poder que as novas tecnologias de comunicação tem sobre nosso entendimento da realidade. ” De acordo com McLuhan, a mente linear começou a ser “derrubada”, com a introdução das mídias eletrônicas no cotidiano das pessoas. A TV, o rádio, o telefone e o cinema, introduziram uma nova forma de comunicação e deram início a uma nova configuração mental que esses meios estimulam e necessitam para se fazerem entendidos. Porém, apesar do autor não ter presenciado a criação da internet, é plausível dizer que é com a web que o processo linear de assimilação da mensagem vai sendo radicalmente transformado, ao passo que ele é deixado, de forma mais intensa, às margens de nosso cérebro. A mídia digital e sua forma de expor o conteúdo está fazendo com que se estabeleça um novo processo de aprendizado, assimilação da mensagem e compreensão da realidade que baseia-se no dinamismo, na rapidez e no estado nervoso excitado que o homem se encontra quando está em contato com esse meio. Parece que chegamos, como McLuhan previu, a um momento de importante conjuntura entre nossa história intelectual e cultural; um momento de transição entre dois modos muito diferentes de pensamento. Infelizmente, o que estamos dando em troca das facilidades e encantamentos da internet é o nosso bom e velho modo linear de pensamento: calmo, focado e sem distrações, para dar espaço a um novo tipo de mente que quer e precisa receber informação em pequenos e desconexos pedaços, e quanto mais rápido, melhor. Uma coisa é inevitável: quanto mais nos alimentarmos nesse meio, mais insaciáveis por ele nos tornamos, e consequentemente, mais distantes ficamos da mente linear e de seus benefícios.

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Marshall McLuhan - livro: Understanding media the extension of man

meios de comunicação

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M

O meio é a mensagem

cLuhan foi autor de diversas célebres frases relacionadas à mídia. Uma delas em especial, “o meio é a mensagem”, chama mais a atenção atualmente. Para o autor, o importante é o caráter cognitivo dos meios. A relevância de cada um deles não se limita apenas a uma questão de mensagem, imagem ou conteúdo. Toda a comunicação adquire um novo significado técnico e, principalmente, cultural, quando se pensa nos efeitos da influência de tais meios

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nas pessoas. Entretanto, mais do que entender e celebrar o poder transformador das novas tecnologias de comunicação, com esta frase McLuhan alarmava a sociedade das reais ameaças que tamanho poder de um meio poderia provocar sobre as pessoas – e os riscos de nos tornarmos quase cegos a ele, aceitando seus impactos sem qualquer resistência e sem assumirmos uma visão crítica. McLuhan entendeu que sempre que um novo meio de comunicação aparece, as pessoas naturalmente focam sua atenção na informação; no conteúdo que ele oferece. Elas querem a notícia no jornal, a música no rádio,

os programas na TV, as palavras ditas do outro lado da linha telefônica. De início, a tecnologia do meio, ou a forma como a mensagem é exposta parece ser irrelevante em relação ao fluxo de informação que ela disponibiliza. Contudo, como pontua o autor, de fato, ela não é. Quando há discussões sobre os efeitos dos meios de comunicação, é sempre no conteúdo que o debate se debruça. Apesar de válida, essa discussão não é o suficiente para entendermos as verdadeiras implicações que um meio pode desenvolver na mente das pessoas. A internet é o meio mais recente a criar essa discussão. O enfrentamento entre

“o conteúdo do meio é menos importante do que o meio em si, quando se pontua o quanto ele influencia na forma com que pensamos e agimos.” os entusiastas e céticos da internet nas últimas duas décadas, culminou em milhares de artigos e livros sobre o assunto, focados principalmente na qualidade do conteúdo que nela circula. Porém, ambos entusiastas e céticos, ao criarem esse debate, perdem de vista o que McLuhan viu: o conteúdo do meio é menos importante do que o meio em si quando se pontua o quanto ele influencia na forma como pensamos e agimos. Como uma janela para o mundo, um meio de comunicação popular de uma época molda o que vemos e como vemos os fatos. Dependendo do grau de intensidade que o utilizamos, esse meio é capaz de alterar quem somos como indivíduos e como sociedade. “Os efeitos da tecnologia não ocorrem no nível de opiniões ou conceitos”, escreveu o autor. “Mas nos padrões de percepção, de forma constante e sem qualquer resistência”, completa. O foco no conteúdo de um meio, como alerta McLuhan, pode nos cegar para os seus mais profundos efeitos. Geralmente, estamos muito ocupados e deslumbrados com o que vemos nas telas para identificar o que de fato acontece dentro de nossas cabeças quando usamos tais meios. Em paralelo, quase sempre nos deixamos acreditar que os efeitos de uma tecnologia não importam – é a forma como a utilizamos que realmente faz diferença. Porém, ao pensarmos dessa forma, assumimos que 44


estamos no seu controle. Acreditamos que a tecnologia é apenas uma ferramenta; inerte até a utilizarmos, e depois, novamente inerte quando paramos de utilizá-la. Mas o que neurocientistas e estudiosos da forma como os meios de comunicação afetam nossa percepção dizem atualmente, como é o caso de Nicolas Caar, autor do livro The Shallows: What the Internet is Doing to our Brains, esse pensamento não procede. McLuhan, já naquela época, também achava que não. Ele dizia que ao pensar dessa forma, estamos mais uma vez subestimando o poder que as tecnologias de comunicação têm sobre nosso consciente e inconsciente, sobre nosso entendimento da realidade. Para esses autores, independentemente da forma como utilizamos tais tecnologias, elas invariavelmente afetarão nossa percepção, pelo simples fato de as utilizarmos. O que é passível de mudança, entretanto, é o quanto essas tecnologias irão influenciar o nosso comportamento. Para uns mais do que outros, dependendo da intensidade e frequência de uso. Todavia, nem mesmo McLuhan conseguiu prever o poder da internet, a

capacidade e a força que ela tem para influenciar nossas vidas. Todos seus argumentos em relação às características das mídias do século XX, e a capacidade que elas têm de alterar nossa percepção, são levadas ao extremo com a internet. Esse meio não apenas potencializa essa capacidade de influência e alienação, comum aos meios de comunicação, como cria novos paradigmas na sociedade e na mente humana. E esta influência só tende a aumentar. Com o advento dos meios digitais e a criação de smartphones e computadores portáteis, o poder de influência da world wide web passa a ser maior ainda. Podemos agora acessá-la de qualquer lugar, a qualquer hora. Nas principais cidades do mundo, a internet virou algo quase que onipresente. Ela está nos escritórios, nas casas, nas escolas, nos carros e em nossos bolsos. Com a urgência do mundo atual de estarmos sempre conectados, atualizados e disponíveis, acessá-la virou uma questão de necessidade. O que nos leva à seguinte questão: além de uma espécie de servente, estando sempre à nossa disposição, a internet também tornou-se nosso mais novo e poderoso mestre?

“como uma janela para o mundo, um meio de comunicação popular de uma época molda o que vemos e como vemos os fatos.”

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Internet:

uma tecnologia

intelectual

T

oda tecnologia é uma expressão da vontade humana. Através de nossas ferramentas, procuramos expandir nosso poder e controle sobre as circunstâncias ao nosso redor – sobre a natureza, tempo, distância, sobre nós mesmos. Mas nem toda tecnologia é criada sob os mesmos aspectos e nem é destinada para os mesmos fins. Por isso, segundo Nicholas Carr, as ferramentas tecnológicas podem ser divididas em quatro categorias, de acordo com a forma como elas suplementam ou ampliam nossas capacidades naturais. De acordo com Carr, um primeiro tipo de tecnologia aumenta nossa capacidade e habilidade física, como, por exemplo, a agulha de costura e os instrumentos de arar a terra. Um segundo grupo, que inclui o microscópio e o amplificador, entre milhares de outros objetos, estende a sensibilidade dos nossos sentidos. Já o terceiro grupo, como a pílula anticoncepcional e o milho geneticamente modificado, nos permitie de alguma forma remodelar a natureza para servir melhor nossas necessidades e desejos. E uma quarta categoria, em que milhares de grandes avanços tecnológicos estão inseridos, como

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por exemplo, o mapa e o relógio, o livro e a calculadora, a TV e a internet, podem ser chamadas de tecnologias intelectuais. As tecnologias intelectuais incluem todas as ferramentas que utilizamos para estender ou apoiar nossos poderes mentais, como encontrar e classificar a informação, formular e articular ideias, compartilhar conhecimento, medir e fazer cálculos, expandir a capacidade de nossa memória, entre outros. Apesar de todas as quatro categorias influenciarem diretamente nossos pensamentos e perspectivas, e consequentemente, nosso comportamento, são as tecnologias intelectuais que exercem maior poder de influência sobre o que e como pensamos.

“são as tecnologias intelectuais que exercem maior poder de influência sobre o que e como pensamos.”

Para termos uma ideia do poder que essas ferramentas revolucionárias têm sobre a mente humana, proponho pensarmos como seria a vida e o próprio homem se não existissem, por exemplo, mapas e relógios. Como funcionaria nosso cérebro? Talvez não teríamos desenvolvido algumas habilidades mentais que se originaram através do uso intensivo dessas tecnologias. O mapa e o relógio não apenas alteraram a perspectiva humana sobre a realidade, como modificaram para sempre a forma como o homem se relaciona com a natureza, o modo como realiza suas tarefas cotidianas e a forma como ele enxerga a si

mesmo. Tecnologias intelectuais como essas alteraram as estruturas de nossa mente de forma realmente impactante. Quando amplamente utilizadas pela população, elas geralmente provocam novas formas de pensar e agir, podendo resultar até em novas formas de vivermos e nos comportarmos. Como complemento, Carr diz que toda tecnologia intelectual envolve uma ética intelectual; um conjunto de pressupostos sobre como a mente humana funciona e deve funcionar. O mapa e o relógio dividem uma ética parecida: ambos criaram uma nova perspectiva na medição e abstração, na percepção e definição, nas formas e 48


processos, que vão além do que parecem aos sentidos. A ética intelectual, de acordo com o autor, é a mensagem que um meio ou que essas ferramentas tecnológicas transmitem para a mente. E é essa mensagem que nos afeta de forma mais profunda. Muitas vezes, os próprios inventores dessas tecnologias, assim como os seus consumidores, não prestam atenção nas implicações que essas mensagens causam em nossas mentes. Carr chama tais implicações de subprodutos da tecnologia: todas as mudanças de comportamento e alterações na forma como pensamos e enxergamos as coisas que foram desencadeados pelo uso intensivo dessas tecnologias. O autor ainda acrescenta que “às vezes nossas ferramentas fazem o que as mandamos fazer. Outras vezes, nos adaptamos para os requisitos dessas ferramentas”. Contudo, ainda há um outro fator capaz de intensificar a influência de uma tecnologia na mente e no comportamento humano. Tecnologias intelectuais que afetam a linguagem e a forma como nos comunicamos, definitivamente são mais poderosas e capazes de alavancar transformações significativas na mente. Muitas vezes, elas impulsionam mudanças na forma como falamos, lemos e escrevemos.

Porém, o mais importante é que a linguagem para seres humanos é o “ambiente” primário do pensamento consciente da articulação de ideias. Devido a isso, as tecnologias que reestruturam a linguagem, que modificam e ampliam as formas de comunicação, tendem a exercer influências ainda mais fortes e intensas em nossa mente e pensamentos. Geralmente irreversíveis, elas são capazes de alterar nossos hábitos e perspectivas de forma definitiva, assim como nossa relação com a linguagem. Uma vez adotadas, as tecnologias intelectuais raramente conseguem ser abandonadas. Ao serem amplamente utilizadas, elas se tornam componentes indispensáveis para o homem, funcionam como uma necessidade básica, um pressuposto, um mediador para a realização de diversas tarefas que se tornaram intrinsecamente dependentes dessas tecnologias. Como prova desse fato, atualmente o computador e a internet são mediadores de quase todas as atividades que definem o cotidiano das pessoas – como pensam, como buscam e armazenam informação e conhecimento, como aprendem e socializam. Porém, é importante explicitar que toda ferramenta abre possibilidades,

“às vezes nossas ferramentas fazem o que as mandamos fazer. Outras vezes, nos adaptamos para os requisitos dessas ferramentas.”

“tecnologias intelectuais que afetam a linguagem e a forma com que nos comunicamos, são mais poderosas e capazes de alavancar transformações na mente.” 49

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“A internet é nossa máquina de escrever e imprensa, nosso mapa e relógio, nossa calculadora e telefone, nosso correio, biblioteca e enciclopédia, assim como nosso rádio, TV e cinema.” assim como impõe limitações. Apesar dos grandes avanços e benefícios que todas as tecnologias trazem para a humanidade, elas também trazem malefícios. A princípio sutis e imperceptíveis, os lados negativos de tecnologias intelectuais tão poderosas como a internet podem causar grandes problemas para o homem, à medida que seu uso se torna cada vez mais abrangente e determinante na sociedade. É inevitável: quanto mais utilizamos essas ferramentas, mais nos moldamos para suas formas e funções. Assim como, da mesma forma que elas tornam-se extensões de nosso corpo, nós nos tornamos extensões dessas ferramentas. Primeiramente, nós as construímos. Em seguida, elas nos constrõem. O preço que pagamos para nos apropriarmos dos poderes das tecnologias, como já dizia McLuhan, é a alienação. A alienação é um subproduto da tecnologia. Toda vez que utilizamos uma ferramenta para exercer mais controle sobre o mundo externo, nós modificamos nossa relação com esse mundo. Segundo McLuhan, as ferramentas que utilizamos para melhorar alguma habilidade acabam comprometendo

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as partes do nosso corpo que elas amplificam. Quando “ampliamos” uma parte de nós mesmos artificialmente, nós também nos distanciamos dessa parte e de suas funções naturais. O relógio, por exemplo, apesar de todas as qualidades que trouxe para a humanidade, também diminuiu nossa percepção do fluxo natural do tempo. Ao marcá-lo para nós, o relógio passou a decidir quando é hora de comer, dormir, trabalhar ou acordar. Nós paramos de ouvir nossos sentidos e começamos a obedecer à essa ferramenta. Tornamo-nos muito mais científicos, mas também mais mecânicos. Entretanto, não é imediatamente que mudamos nosso modo de operar mentalmente, quando passamos a utilizar uma nova tecnologia intelectual. Uma ferramenta dessa natureza promove sua influência ao alterar a ênfase que damos aos nossos pensamentos. Sendo assim, os efeitos e mudanças mais profundas na mente e comportamento humanos, acontecem mais lentamente, através de várias gerações, à medida que essa tecnologia se torna mais e mais influente no trabalho, educação, entretenimento e em todas as práticas que

definem uma sociedade e a sua cultura. Visto isso, é possível dizer que a internet não apenas é uma tecnologia intelectual, como também afeta diretamente e profundamente a linguagem. Com tamanho poder que essas características lhe concedem, acredito que nem mesmo o livro e a leitura linear, em grande parte responsáveis pela configuração do pensamento, da cultura e do progresso humano ao longo dos últimos cinco séculos, podem ser comparados com o poder de transformação e influência da internet atualmente. Em apenas vinte anos, a web tornouse algo indispensável para o funcionamento da economia, governos, negócios e projetos ao redor do mundo. Essa ferramenta está rapidamente se tornando o principal meio de comunicação e informação utilizado pela

grande maioria das pessoas. Por escolha ou necessidade, nós abraçamos o modo exclusivamente rápido e interativo de coletar e disparar informação na rede e nos apropriamos de suas funções para realizar quase todas as tarefas do nosso dia a dia, de forma tão abrangente e intensa, que atualmente é quase impossível imaginarmos um mundo sem ela. Uma vez que a internet funciona como um meio universal e incorpora outras tecnologias intelectuais em sua própria imagem, sua capacidade de influenciar e determinar o comportamento é imensamente potencializada. Hoje essa ferramenta é nossa máquina de escrever e imprensa, nosso mapa e relógio, nossa calculadora e telefone, nosso correio, biblioteca e enciclopédia, assim como nosso rádio, TV e cinema. Centenas de

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“com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades.” anos de descobertas e avanços tecnológicos foram comprimidos em duas décadas de internet. E isso apenas foi possível devido ao fato de que todas as formas de informação distribuídas pelas mídias tradicionais – palavras, números, sons, imagens – puderam ser traduzidas em códigos digitais e, então, processadas, transmitidas e exibidas pelo computador. Antes da internet chegar, a história da mídia era um conto de fragmentações; tecnologias diferentes detinham seus próprios caminhos, culminando na proliferação de ferramentas com usos específicos. Com a digitalização da informação, os limites entre mídias são dissolvidos e suas possibilidades e capacidade de influência são extremamente ampliadas. Cada vez mais, a internet e as novas tecnologias de comunicação estão governando a produção e o consumo, assim como estão moldando o comportamento das pessoas e afetando suas percepções. A alta capacidade desse meio afetar a forma com que nosso cérebro funciona está ajudando a criar uma nova configuração, não só mental e comportamental, como cultural. 53

O uso da internet como meio de comunicação dominante na sociedade está fazendo as mídias antigas perderem parte da sua importância social para o desenvolvimento da cultura e do progresso humano. Tal importância é transferida quase que exclusivamente para a internet e seus documentos digitais. Os inúmeros saldos positivos desse meio, todos conhecem e celebram. Mas são os saldos negativos, os subprodutos que o uso dessa tecnologia trás para a humanidade, que mais demandam a nossa atenção e cuidado. É preciso adotar uma visão mais crítica sobre o uso de tecnologias intelectuais de tanto poder como a internet. Seu modo de funcionamento está influenciando intensamente a forma como pensamos, agimos e enxergamos o mundo à nossa volta. Apesar dos benefícios, alguns desses novos comportamentos são extremamente prejudiciais a saúde da mente humana. Como já dizia o ditado, “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades”. 54


A internet e a sua

forma de influenciar

o cérebro e

o comportamento “Interatividade, hiperlinks, multimídia, capacidade de busca. Todas estas qualidades fazem a internet algo muito atrativo. Junto com a imensa quantidade de informação online, estas são as principais razões pelas quais somos incentivados a usar tanto a internet. Nós gostamos de poder ler, escrever, escutar música e ver vídeos ao mesmo tempo, em um mesmo lugar. Nós gostamos de conversar com nossos amigos, sem ao menos precisar sair de casa. Nos gostamos de nos sentir conectados – e odiamos nos sentir desconectados. A internet não muda nossa mente, contra nossa vontade. Mas que muda, muda. Nosso uso da internet apenas vai crescer e o seu impacto em nós também.” – Nicholas Carr.

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Ao longo dos textos a seguir, viso evidenciar como a internet e seu modo de funcionamento estão influenciando e alterando a forma como nosso cérebro funciona e quais são as consequências dessas mudanças para o comportamento humano. O texto será dividido de acordo com as áreas que foram influenciadas. A saber: 1. Profundidade da compreensão e

pensamento, e alterações nos hábitos de leitura; 2. Consequências para a memória; 3. Multitasking 4. Imediatismo, ansiedade e distúrbios da mente; 4.a FOMO, Depressão do Facebook e Narcisismo Ao final de cada texto, mostrarei como cada uma dessas consequências afeta mais profundamente e se reflete no comportamento dos Millennials.

1. Profundidade da compreensão e pensamento e hábito de leitura

Quando a internet absorve um meio, ela recria esse meio à sua própria imagem. Ela não somente dissolve a forma física do meio antigo para sua forma, como injeta aspectos próprios do mundo virtual e dos outros meios que absorveu no conteúdo que apresenta.

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Todas as mudanças na forma do conteúdo que a internet provoca, mudam também, a forma como usamos, experimentamos, e até entendemos esse mesmo conteúdo. Nicolas Carr nos ajuda a entender, através da comparação da internet com o

“na internet não somos levados a desenvolver a mesma atenção e compreensão de uma informação que temos quando lemos um livro” livro, como a mudança na forma de um meio também representa uma mudança na forma como assimilamos seu conteúdo. O autor afirma que ler um texto em uma página online, através da tela de um computador, não é a mesma coisa que ler uma página de um livro impresso. Para ele, descer e subir uma página com a barra disposta ao lado da tela e clicar em links expostos no meio do texto, envolvem atos físicos e estímulos sensoriais, diferentes daqueles que estão envolvidos em segurar um livro e virar suas páginas. A mudança do papel para a tela, não apenas significa uma mudança no modo como navegamos um texto, como influencia no nível de atenção que dedicamos a ele e na profundidade da nossa compreensão de seu conteúdo. Através de diversos experimentos neurológicos e pesquisas científicas, Carr mostra que a leitura de textos nesses dois meios tão distintos envolve partes diferentes de nosso cérebro, que resultam em experiências distintas. De acordo com o autor, leitores de livros impressos ativam principalmente partes do cérebro associadas à língua, memória e processamento visual. Usuários da internet, quando leem textos nesse meio, também mostram atividade cerebral nessas áreas, porém, mais intensamente, nas áreas associadas à tomada de decisão e resolução de problemas. A necessidade de avaliar links e escolher se queremos acessálos ou não requer uma constante coordenação

mental e tomada de decisão, que distrai o cérebro de seu trabalho principal no momento: interpretar o texto e absorver suas informações. Ao dividirmos nossa atenção entre a leitura, links, ferramentas de navegação e outras distrações existentes em uma página da web, nossa compreensão e capacidade de reter informação ficam comprometidas. Uma vez distraídos, e ao fazermos isso repetitivamente, nosso cérebro fica sobrecarregado e passa a não fazer as conexões necessárias para o pensamento profundo e crítico. Neurocientistas dizem que, ao ler online, nós sacrificamos a atenção e concentração em um só lugar, que faz a leitura profunda possível. Sem a devida atenção, nos tornamos meros decodificadores de informação e nossa capacidade de fazer ricas conexões mentais (que se formam quando lemos profundamente e sem distrações) não são engajadas. O que leva à seguinte conclusão: na internet, não somos levados a desenvolver a mesma atenção e compreensão de uma

NOTÍCIA EM UMA PÁGINA DA INTERNET

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informação, que temos quando lemos um livro (leitura linear, calma e focada). Por causa desse fato, deixamos de realizar outras funções importantes para nosso intelecto. A internet também está provocando mudanças na própria forma como lemos. Ao invés de decifrarmos um texto do começo ao fim, da esquerda para a direita, de forma linear, na internet geralmente “escaneamos” esse texto. Devido à ansiedade e à aceleração que a internet provoca, nossos olhos tendem a ler de cima para baixo, procurando palavras ou frases chaves que possam resumir o assunto. Na web, quase sempre devotamos menos tempo e atenção à leitura, a não ser quando há um assunto de verdadeiro interesse. Mas, de acordo com Carr, essa forma de leitura não representa um problema isoladamente. O autor diz que a habilidade de ler profundamente e a habilidade de “escanear” um texto, são igualmente importantes. Entretanto, o grande problema nessa questão é que “escanear” um texto e procurar suas palavras-chaves, está se tornando a forma dominante de leitura. Tanto que muitos estão perdendo o costume e a paciência (para não dizer a capacidade) de ler um texto longo do começo ao fim. Com o passar do tempo, a predominância dessa forma de leitura pode acarretar implicações seríssimas para o desenvolvimento do hábito de leitura e do intelecto humano. Uma vez que Millennials são digital natives, e passam grande parte de seus dias

2. Consequências para a memória

conectados, é um fato que a maioria deles lê muito mais na internet do que em jornais, revistas ou livros impressos. Habituados desde pequenos a ler nessa plataforma e acostumados a receber cada vez mais conteúdo em menos tempo, esses jovens procuram absorver a informação contida em um texto da forma mais dinâmica, rápida e eficiente possível. Mesmo que inconscientemente, o “escaneamento” de textos ou a leitura dinâmica tornaram-se solução para essa necessidade. Seus cérebros e hábitos de leitura em grande parte foram desenvolvidos enquanto estavam imersos nesse meio, o que tornou o “escaneamento” de textos algo natural. Sendo assim, ao ler na internet, eles não apenas “sofrem” com a falta de profundidade de compreensão e pensamento crítico provocados pela distração própria desse meio, como praticam uma forma de leitura superficial. É evidente que nem todos vivenciam essa questão da mesma maneira. Muitos integrantes dessa geração praticam a leitura linear facilmente – e com prazer. Porém, é visível a crescente dificuldade das pessoas lerem textos longos e complexos. Professores de universidades, por exemplo, constantemente reclamam da inviabilidade de passar textos dessa natureza para seus alunos, uma vez que muitos deles não terão a paciência de lê-los sem distrações. Infelizmente, o hábito da leitura linear e focada está se transformando em algo cada vez mais raro e complicado de se realizar – e quem perde com isso é a sociedade como um todo.

N

a minha opinião, o mais assustador dos efeitos da internet no cérebro está relacionado à nossa capacidade de memória – ou à falta dela. Atualmente, temos uma visão muito distinta dessa capacidade crucial para a vida, em relação às antigas civilizações. Na Grécia antiga, por exemplo, a memória era vista como algo tão divino e importante para o homem, que havia até uma deusa para personificá-la, chamada Mnemosine. Para essa civilização, a memória era o principal fator que nos distinguia dos animais e que compunha a essência de cada ser humano. Mas, ao avançarmos no tempo até os dias de

“uma vez que Millennials são pessoas digital natives e passam grande parte de seus dias conectados, é um fato que a maioria deles lê muito mais na internet do que em jornais, revistas ou livros impressos” 59

hoje, vemos que a memória perdeu grande parte da sua importância no cotidiano. Afinal, o senso comum diz que os computadores e a internet existem para operar de forma muito mais rápida e eficiente do que a nossa própria memória biológica. Com ferramentas de busca na internet como o Google, e dispositivos de armazenamento de informação nos celulares e computadores, a memória humana parece perder valor, sentido e eficiência. Nós nos acostumamos tanto a buscar e armazenar informação online, que isso tornou-se um hábito. Não precisamos decorar mentalmente um número de telefone, o celular faz isso para nós. Não precisamos mais saber de cor informações históricas como, por exemplo, 60


“ o senso comum diz que computadores e a internet existem para operar de forma muito mais rápida e eficiente do que a nossa própria memória biológica.” em que ano começou a Revolução francesa. Uma rápida busca no Google, fornece não só essa informação, como toda a história desse evento. A rigor, não precisaríamos mais lembrar nem se a palavra “exceção” se escreve com “ç” ou “ss”. É só escrever a palavra nesta ferramenta de busca e ela apresentará a resposta correta. Como esses, existem milhares de outros exemplos que podem ser citados e que abrangem as mais diversas áreas do conhecimento. A internet e suas ferramentas de busca, assim como os sempre presentes celulares, estão funcionando como verdadeiros HD externos das pessoas. Preocupantemente, a internet hoje é vista como uma substituta da memória pessoal, ao invés de funcionar apenas como um suplemento para ela. Dessa forma, nossa memória, além de mais fraca, cada vez mais apresenta aspectos de uma memória artificial. O surgimento dos bancos de dados da internet trouxe uma mudança na forma com que lidamos com a memorização. Atualmente, nosso cérebro é muito mais usado para nos apontar os lugares onde conseguiremos a informação que queremos, do que para propriamente armazenar essa informação. Ele parece funcionar de forma semelhante a um índice. Ao invés de memorizarmos uma informação, nós agora a armazenamos digitalmente e apenas lembramos onde a armazenamos ou, ainda, onde podemos encontrá-la. O grande problema e o perigo dessa questão é que nossa memória biológica, ao contrário do que muitos pensam, é muito

diferente da memória do computador. É graças a ela que conseguimos fazer conexões de conceitos e elaborar novos pensamentos e ideias. Enquanto o computador absorve uma informação e imediatamente a salva, o cérebro humano a continua processando por muito tempo. A qualidade de uma memória (o quanto ela é vívida em nossa mente e o quanto ela nos ajudará a estabelecer novas conexões no futuro) depende da forma como ela é processada. A memória biológica é viva, está sempre fazendo conexões com outros conhecimentos prévios e alcançando novos significados. A memória do computador, ao contrário, é sempre a mesma, é morta. Por isso, ao substituirmos nossa memória biológica por uma memória artificial, deixamos de realizar o processo de consolidação de um conhecimento e corremos o risco de esvaziarmos nossa mente. A memória biológica consegue dar um sentido e um significado para o tempo e experiências, que a memória artificial simplesmente não consegue. A internet, apesar de todos seus inúmeros benefícios, parece ser uma ferramenta que

estimula a distração e, consequentemente, o esquecimento. O uso intensivo desse meio implica em diversas consequências para o modo de funcionamento do cérebro, e essas consequências estimulam outras. É como um efeito dominó. Por exemplo, o intenso fluxo de mensagens e estímulos sensoriais que competem por nossa atenção online, como dito previamente, torna a concentração e a atenção em um só assunto algo muito mais difícil. Sem a devida concentração e atenção nesse assunto, não absorvemos a informação por completo. Sem essa absorção, o processo de consolidação da memória não consegue nem ser iniciado. Sem a consolidação da memória, não há como reter conhecimento. De acordo com Carr, quanto mais usamos a internet, mais treinamos nosso cérebro para ser distraído – processar informação de forma rápida e eficiente, porém sem a atenção necessária para seu pleno funcionamento. Carr diz que isso ajuda a explicar porque é cada vez mais comum acharmos difícil lembrar das coisas. Nossos cérebros se tornaram adeptos a esquecer e ineptos a lembrar. Nossa crescente dependência da internet gera cada vez mais dificuldade para conseguirmos armazenar 61

informação em nosso próprio cérebro. Assim, somos forçados a depender ainda mais dela, de suas ferramentas de busca e de sua memória artificial, mesmo que isso nos torne pessoas com um pensamento mais raso. É um ciclo vicioso. E o pior dessa história toda, segundo Carr, é que, “quando exportamos nossa memória para uma máquina, exportamos também uma parte muito importante de nosso intelecto e até de nossa identidade”. A internet e suas ferramentas de busca e armazenamento de informação não só nos tornam pessoas mais esquecidas e com menor capacidade de armazenar e elaborar novos conhecimentos, como também torna a memória biológica cada vez mais artificial e desconexa com a nossa própria história. Há também outros fatores que mostram como a internet está afetando nossa memória e como esse meio influencia no estilo e profundidade de nossos pensamentos. John Sweller, psicólogo educacional, explica, de forma simplificada, que nosso cérebro incorpora duas formas muito diferentes de memória: a de curto e a de longo prazo. Nós guardamos nossas impressões, sensações e pensamentos imediatos como memórias de 62


curto prazo, que tendem a durar apenas alguns segundos em nossos cérebros. Todas as coisas que aprendemos sobre o mundo, consciente ou inconscientemente, são guardados como memórias de logo prazo, que podem durar dias ou uma vida toda. Ambos os tipos são essenciais para a mente. Entretanto, neurocientistas indicam a memória de longo prazo como uma das partes mais importantes do cérebro e que possibilitam o entendimento profundo das coisas. Nem toda informação processada é transformada em memória de longo prazo e, consequentemente, em conhecimento. É preciso dedicar atenção e concentração a ela. Na internet, entretanto, isso raramente acontece. Com todas as distrações desse meio, conseguimos transferir apenas uma pequena quantidade de informação (desconexa) para a memória de longo prazo, o que torna nossa compreensão e capacidade de reter informação na memória, superficiais. A superficialidade dessas funções importantíssimas para o homem muitas vezes acontece porque nosso cérebro fica “ocupado demais” em processar a enorme quantidade de distrações e estímulos sensoriais provocados pelo meio digital, além da informação que estamos

“quanto mais usamos a internet, mais treinamos nosso cérebro para ser distraído”

lendo. Assim, acontece o que neurocientistas chamam de sobrecarga cognitiva, que impede a atenção e a compreensão necessária para reter as informações. Tais informações deixam de ser transferidas para a memória de longo prazo e nos tornamos consumidores de dados sem qualquer discernimento. Com isso, às vezes não conseguimos nem lembrar exatamente o que acabamos de ler ou ver. Existem muitos fatores que causam a sobrecarga cognitiva, mas duas das mais importantes, de acordo com Sweller, são constantes resoluções de problemas, tomada de decisão e atenção dividida. Coincidentemente, essas são as características centrais da internet como um meio de informação e comunicação. A sobrecarga cognitiva também é indicada como um subproduto da superexposição à informação, mídia e tecnologia. O termo em inglês Information Fatigue Syndrome (algo como Síndrome da fatiga de informação) é utilizado para identificar um tipo de doença psicológica causada pela sobrecarga cognitiva, em que o cérebro não consegue processar toda a informação que lhe é fornecida. Essa síndrome pode causar estresse, exaustão, dor de cabeça e desencadear erros e más decisões. Millennials são as primeiras pessoas do mundo que cresceram com a possibilidade de buscar e armazenar informação online. Seus cérebros se desenvolveram acostumados a depender da internet e de suas ferramentas para realizar essas funções. O Google, para eles, funciona como oráculo, uma espécie de Deus da internet, que tudo sabe, que tudo tem. Para qualquer tarefa que tenham que realizar, contam com essa ferramenta, como se ela fosse um pressuposto para a pesquisa e para a existência. O Google hoje exerce uma função tão importante para a sociedade e principalmente

para os Millennials, que ele tornou-se até um “verbo”. É comum ouvir pessoas se referindo a ele dizendo frases como “dá um google nisso ou naquilo e vê o que aparece”. Essa ferramenta virou um acervo de quase tudo que existe e que já foi produzido no mundo até hoje. Só de sabermos que podemos contar com ele para qualquer coisa que precisamos – GPS, email, consulta de livros e informações, busca de pessoas, endereços e telefones, entre milhares de outras coisas – a qualquer momento, altera-se drasticamente a forma como contamos com ou dependemos da nossa própria memória. Isso tudo somado ajudou a incentivar os Millennials a dependerem hoje tanto de suas memórias biológicas quanto das artificiais. Há muitas e seríssimas implicações preocupantes para esse fato. Ao externarem cada vez mais suas memórias para a internet e computadores, os Millennials correm o risco de comprometer seriamente suas próprias memórias e seus intelectos. Além de pessoas mais esquecidas, esses jovens podem estar se tornando também indivíduos com menor conhecimento armazenado na própria memória, assim como podem desenvolver menor capacidade para retê-lo. O problema é que, sem conhecimento armazenado na memória biológica, não há como desenvolver novas ideias, pensamentos e projetos, os quais são criados a partir da conexão de conhecimentos novos e velhos. Com o agravamento dessa questão (que acontecerá com o passar do tempo e com o 63

aumento da dependência dessas ferramentas), é possível que essa geração e as futuras, realmente tornem-se superficiais com relação à retenção de conhecimento próprio e, assim, de serem capazes de interpretar criticamente a realidade. Como se o uso intensivo da internet estivesse ajudando a criar pessoas que olham as coisas, mas que não conseguem realmente enxergá-las. Em outras palavras, que absorvem uma informação mas não conseguem relacionar o que estão vendo com outros assuntos, outras coisas, outras áreas de conhecimento previamente adquiridos que as possibilite desenvolver suas próprias visões de mundo. A internet, com o passar do tempo, pode ser uma ferramenta que realmente funcione como alienadora, por dificultar, a todo custo, o pensamento crítico. Com isso, ao longo dos anos esses jovens correm também o risco de ficarem menos inteligentes, já que, segundo Carr, “ao expandirmos nossa memória, expandimos também nossa inteligência” – e o que estamos presenciando, é justamente o contrário. É evidente que todos os usuários da internet também correm esse risco, mas ao contrário dos Millennials, pessoas de gerações mais velhas viveram um bom tempo sem o Google, sem computadores ou HDs externos. Para eles,

memória externa

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esse fato conta como um ponto positivo, uma vez que seus cérebros se desenvolveram plenamente antes dessas ferramentas chegarem e se tornar tão atraentes. É evidente também que todos esses malefícios não são causados apenas pela internet. Há milhares de fatores que compõem o mundo de hoje, que contribuem para a memória fraca, alienação e para todos os pontos negativos que elas trazem para o pensamento e para o conhecimento. Mas, sem dúvidas, a internet é a

3. Multitasking

ferramenta que está mostrando maior poder e rapidez para alterar a uma capacidade mental tão importante para a vida, como é a memória. Afinal de contas, o que acontece é que a internet diminui a nossa habilidade de saber, em profundidade, um assunto importante para nós mesmos, podendo assim construir, dentro de nossas próprias mentes, as conexões e reflexões necessárias que nascem da nossa inteligência singular.

“ao externarem mais suas memórias para a internet e computadores, os Millennials correm o risco de comprometerem seriamente suas próprias memórias e seus intelectos”

C

aracterísticas próprias do modo de operar da internet estão sendo aos poucos incorporadas ao nosso comportamento, alterando a forma como realizamos as tarefas do dia a dia. Navegar na internet, de acordo com Carr, requer uma forma tanto física como mental de multitasking (realizar diversas tarefas ao mesmo tempo). Na web, somos “obrigados” não só a processar simultaneamente inúmeras informações e estímulos sensoriais das mais diversas formas – vídeos, fotos, textos, sons – como realizamos diversas funções de naturezas distintas ao mesmo tempo. Nesse meio, é natural e necessário mudarmos

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rapidamente de uma informação para outra, de uma função para outra. Ora lemos e escrevemos sobre um assunto, ora escutamos um podcast sobre outro assunto. Logo em seguida, conversamos com amigos nas redes sociais e checamos se recebemos alguma mensagem ou notificação de e-mail, Facebook ou Instagram. Ao mesmo tempo, ainda escutamos música e lemos uma matéria em um site de notícias, entre muitas outras coisas mais. A diversidade de funções e estímulos sensoriais continua acontecendo frequentemente durante todo o tempo que passamos online. Para nós, essa forma de processar informação e realizar tarefas tornouse algo tão natural e comum – e, aparentemente sem grandes dificuldades – que nem nos damos 66


“navegar na internet requer uma forma tanto física quanto mental de multitasking.” conta que fazemos isso. Entretanto, apesar desse parecer ser um fato de pouca importância, e majoritariamente benéfico para o ser humano, já que assim parecemos nos tornar mais ágeis e eficientes, na realidade, não é. Toda vez que mudamos o foco de nossa atenção, nosso cérebro tem que reorientar sua atenção à nova atividade. Segundo Carr, o cérebro precisa de algum tempo, mesmo que seja mínimo, para mudar o foco do pensamento, lembrar as regras e as necessidades para exercer a nova atividade e bloquear as interferências cognitivas ainda vívidas da atividade prévia. Diversos estudos científicos mostram que mudar constantemente entre duas ou mais atividades pode sobrecarregar nosso cérebro, impedindo o pensamento crítico e aumentando a possibilidade de mal interpretarmos uma informação importante. Dessa forma, perdemos qualidade e atenção nas tarefas e acabamos demorando mais para realizá-las comparado a quando fazemos uma coisa de cada vez. Prestar atenção em várias coisas ao mesmo tempo pode significar não prestar atenção em

nada. O ditado popular já dizia: “estar em todos os lugares, é estar em lugar nenhum”. Multitasking é uma característica própria do modo de navegação da internet. Porém, é cada vez mais comum observar pessoas realizando suas tarefas do dia a dia dessa forma, fora do mundo virtual. Esse novo tipo de comportamento é repetido de forma tão intensa e constante que nosso cérebro o transformou em um hábito. E o multitasking, ao longo dos anos, pode passar a ser também uma característica própria do ser humano. A geração que cresceu com a internet se acostumou e querer viver de “forma multitasking”, sempre. Para eles, mais do que para as gerações mais velhas, que estão ainda absorvendo esse estilo de vida, esse modo de fazer as coisas é algo extremamente natural. Pedir para que uma pessoa dessa geração faça uma coisa de cada vez é quase inviável. Esses jovens dirigem enquanto mandam mensagens pelo celular. Conversam com os amigos enquanto postam uma foto no Instagram. Estudam, enquanto escutam música e falam ao telefone. Seus cérebros parecem mesmo serem mais ágeis para realizar diversas tarefas ao mesmo tempo. Muitos estudiosos desse assunto defendem que o cérebro realmente está desenvolvendo mais essa capacidade atualmente, tornando-se melhor nela, já que ele é constantemente forçado a fazer isso. Mas o que muitos não percebem é que esse comportamento está ajudando a criar jovens cada vez mais ansiosos, que sentem a necessidade angustiante de sempre fazer várias coisas ao mesmo tempo. O ócio completo, a contemplação, a solidão e o ato de realizar uma tarefa de cada vez, são aspectos cada vez mais distantes da realidade de todos

usuários da internet, mas principalmente dos Millennials. A ansiedade natural da juventude, unida à possibilidade do multitasking, pode potencializar ainda mais essas características, aumentando também o estresse. À medida que

esse estilo vida vai se tornando próprio do ser humano, a capacidade de apreciar os momentos mais calmos e ociosos da vida, assim como a habilidade de se dedicar a uma tarefa por vez, vão sendo gradativamente extintos.

“o cérebro precisa de algum tempo, mesmo que seja mínimo, para mudar o foco do pensamento, lembrar as regras e as necessidades para exercer esta nova atividade e bloquear as interferências cognitivas ainda vívidas da atividade prévia” 67

68


4. Imediatismo, ansiedade e

os novos distúrbios mentais

A internet também é caracterizada por um sistema de resposta de alta velocidade. Ao clicarmos em um link, rapidamente entramos em uma “página” que nos da uma quantidade enorme de informação. Quando enviamos um e-mail ou outro tipo de mensagem através da internet, geralmente recebemos uma resposta alguns segundos ou minutos depois. Ao utilizamos alguma ferramenta de busca, recebemos milhares de opções de cliques que podem nos prover com toda informação que necessitamos. A interatividade e a rapidez da internet nos dá ferramentas poderosas para encontrar informação, nos expressar e interagir com outras pessoas. Mas como detecta

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Carr de forma muito oportuna, também nos torna “ratos de laboratório constantemente pressionando alavancas para sempre receber pequenas porções de nutrição e afirmação intelectual e social”. Em função dessas características próprias da internet, que aos poucos estão sendo incorporadas à mente e ao comportamento humanos, estamos nos tornando pessoas ainda mais imediatistas e ansiosas. O constante fluxo de novas informações providas pela internet nos faz passar a supervalorizar o que acontece no momento presente, no aqui e agora. Dessa forma, mesmo que seja inconscientemente, desejamos a todo momento receber novas

“em função de características próprias da internet estamos nos tornamos pessoas ainda mais imediatistas e ansiosas” mensagens, updates, e-mails, ou qualquer coisa que nos permita ter a sensação do imediato. De acordo com Carr, “a internet nos incentiva a sempre buscarmos o novo, mesmo quando sabemos que o novo é geralmente mais trivial do que essencial”. Millennials em geral acabam naturalizando o imediatismo e a interatividade de forma mais intensa do que as gerações mais velhas, uma vez que cresceram acostumados com essas características. Eles se sentem frustrados quando não recebem alguma resposta imediata. São impacientes, querem que as coisas se desenvolvam na rapidez da internet, desde promoções nos trabalhos, até em relações afetivas. O tempo desses jovens é extremamente acelerado e eles buscam estas características, em todas as instâncias de suas vidas. Muitos jovens dessa geração que utilizam smartphones para acessar a internet e as mídias sociais, como Instagram, Facebook e Twitter, estão viciados em receber “notificações” de informação a todo momento. Essas notificações podem ser imagens, conversas por mensagens de texto, posts, notícias ou qualquer outro tipo de conteúdo novo. Receber essas constantes notificações tornou-se um hábito diário que se repete várias vezes ao dia. Uma pesquisa realizada pela InsightExpress, empresa de pesquisa e análise de marketing, com 1800 Millennials de dezoito países, indica que nove a cada dez jovens dessa geração usam

seus celulares para checar se receberam ligações, mensagens de textos, e-mails e updates de mídias sociais no instante em que acordam. Ao longo do dia, esse hábito é repetido frequentemente. De acordo com a pesquisa, um a cada três jovens dizem checar seus celulares a cada meia hora, e 29% deles, cerca de um a cada quatro, checam seus celulares constantemente e compulsivamente, de forma que não conseguem nem manter uma conta de quantas vezes esse ato é repetido. A pesquisa mostra em números o que é perceptível ao observá-los: além de utilizálos constantemente, Millennials checam seus celulares ou smartphones em todos os lugares: na cama, como primeira e última coisa que fazem no dia, nas salas de aula, no banheiro, durante as refeições e enquanto dirigem, andam e conversam. Checar smartphones para ver se há novas notificações, tornou-se um hábito tão intenso, que é quase impossível dizer se essa é realmente uma vontade, ou verdadeiramente

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um vício. Sessenta por cento deles dizem utilizar esses aparelhos compulsivamente, sendo que 40% afirmam que se sentiriam extremamente ansiosos, como se uma parte de seus corpo estivesse faltando, caso não pudessem fazê-lo. O medo de ficar sem acesso a um celular ou smartphone, que pode ser traduzido como medo de ficar desconectado do mundo e “invisível”, é mais comum do que parece. Na realidade, é tão comum que novos distúrbios mentais ou doenças psicológicas desencadeados pelo uso excessivo, tanto desses aparelhos como da internet e mídias sociais, foram recentemente incluídos no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, o DMS-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Distúrbios Mentais). A crescente recorrência desses novos distúrbios, que afetam a todos, mas principalmente aos jovens que são mais suscetíveis à compulsão, alarmam a sociedade com relação aos grandes perigos que o uso não crítico dessas ferramentas pode provocar. Existem diversos transtornos relacionados ao uso excessivo da internet e de smartphones, que vão desde achar que nossos celulares estão tocando ou vibrando, quando, na realidade, não estão, até sentir enjôo devido à vertigem que muitos aparelhos digitais podem causar. Porém, entre eles, os dois mais comuns são: - Nomophobia, termo que surgiu da abreviação de No Mobile Phobia, (fobia de ficar sem telefone móvel). Além de ter sido incluído no DMS-5, o problema levou à criação de um programa de tratamento dedicado à Nomophobia no Centro de Recuperação Morningside, em Newport Beach, Califórnia. - Transtorno de Dependência da Internet, também chamado de Uso Inapropriado da Internet. Esse distúrbio, também incluído no DMS-5, pode ser identificado em pessoas

É o que acontece, por exemplo, com o que psicólogos identificam como uma ansiedade social denominada “FOMO”, abreviação para o termo Fear Of Missing Out (traduzido de forma literal, “medo de perder”). Sabe aquele pensamento incômodo, ou aquela sensação de medo, perda ou vazio que dá quando percebese que alguém está fazendo algo mais legal e interessante do que você – e você gostaria de estar lá com ela? Ou então, sentir medo de que você não está fazendo a coisa mais interessante e legal da vida a todo momento? Não? Explico melhor com um exemplo: Você está em casa assistindo televisão sozinho numa noite de terça-feira. Aí você decide acessar o Instagram para ver o que seus amigos estão fazendo. Para sua surpresa, eles não apenas estão fora de casa, junto com outros amigos, como estão vivenciando experiências incríveis: uma festa sensacional, um prato de comida maravilhoso, uma viagem. Nesse momento você começa a achar o seu programa, que até então era satisfatório, algo chato, tedioso, completamente sem graça, e sente-se mal por não estar lá também, vivenciando coisas legais. Isso é FOMO. De forma semelhante, também é o que acontece com a Síndrome de Depressão do Facebook. Nesse caso, além de sentir esse medo e vazio de não estar vivenciando experiências incríveis sempre, uma pessoa também pode sentir depressão ao comparar sua vida com a de seus amigos. Muitas pessoas utilizam as mídias sociais como uma forma de diário digital para mostrar aos outros as coisas que gostam de fazer, as fotos de onde estiveram, ou fazer comentários de assuntos que as interessam. Porém, acontece que nessas mídias quase sempre “editamos” a nossa vida e aparência, e mostramos só a parte boa de quem somos. Jovens que não têm uma postura já formada

que utilizam esse meio em uma quantidade cada vez maior para se sentirem satisfeitas; que se preocupam excessivamente com algo existente apenas no mundo virtual e que perdem interesse em outros assuntos, entre outros fatores. Tais pessoas se sentem irritadas, ansiosas ou depressivas ao ficarem sem acesso à internet, não conseguindo desenvolver relações saudáveis no mundo real devido o uso excessivo desse meio.

4.a FOMO, DEPRESSÃO DO FACEBOOK E NARCISISMO Devido ao fato de que quase sempre utilizamos nossos celulares e a internet em um contexto social – seja para conversar com amigos, mandar mensagens, postar fotos, criar perfis nas redes sociais, expor nossos pensamentos e criações através de blogs e do “status” do Facebook, entre outros – nossa aparência e posição social ficam, de um jeito ou de outro, sempre em jogo, sempre vulneráveis a comentários, “curtidas” e “seguidores”. Por causa dessa vulnerabilidade, nosso envolvimento com esse meio se intensifica ainda mais e a internet e as mídias sociais passam a existir como uma espécie de extensão de nossa vida e aparência, e do modo como nos apresentamos à sociedade. Dessa forma, é possível identificar que os distúrbios mentais causados pela internet não estão associados apenas ao uso excessivo, que desencadeiam o vício, fobias e a compulsão, assim como não se limitam às alterações nas funções cognitivas, como mostrado anteriormente. Tais distúrbios estão associados também à forma como enxergamos nossa vida, como nos sentimos em relação a nós mesmos e como desenvolvemos nossa identidade e personalidade. 71

e segura podem se sentir extremamente mal e depressivos ao compararem suas vidas com a de seus amigos. Como dizia Caetano Veloso, “Cada um sabe a dor a e beleza de ser o que é”. Mas, nas mídias sociais, mostra-se só a beleza – e ainda de forma exacerbada – e, dessa forma, muitos criam a ilusão de que suas vidas são, de fato, muito piores do que a de seus amigos. No entanto, esses não são fenômenos originados com a internet e a criação das mídias sociais. Candido Fontan, psicólogo especialista em lidar com pessoas viciadas em internet, diz que um tipo de FOMO ou Depressão do Facebook sempre existiram na humanidade. Ele argumenta que o ato de sentir-se mal em relação à sua própria vida, quando ela é comparada com a de outras pessoas, sempre existiu e, por isso, é comum ao homem. Porém, nas mídias sociais, a possibilidade de comparação são infinitamente maiores, e esses sentimentos afloram constantemente e podem ser levados ao extremo. A capacidade da internet e das mídias sociais para fazer esses fenômenos tornarem-se virais torna-os muito mais complicados de serem lidados. Há ainda uma outra forma na qual a internet está influenciando nosso comportamento. Como dito anteriormente, ao criarmos um “perfil” de nós mesmos nas redes sociais, “editamos” nossa aparência e mostramos apenas o que desejamos. Porém, não é só isso. Por exemplo, toda vez que postamos uma foto nossa, ficamos suscetíveis à aprovação de outras pessoas, que, em argumentos digitais, são traduzidos em “likes” e “comentários”. Dessa forma, geralmente cria-se uma percepção de que quanto mais “likes” ou ainda “seguidores” se tem (quando trata-se do Instagram e Twitter), maior é a sua aprovação perante seus amigos e a sociedade. Além dessa ser uma nova forma de socialização e de interação, é possível perceber 72


Millennials são uma geração de Smartphones Globalmente 76 % dizem “eu possuo um smartphone “

América do Norte 71%%

“a criação de “perfis” nas redes sociais incentiva o desenvolvimento de uma preocupação exagerada com a aparência”. também que a criação de “perfis” nas redes sociais incentiva o desenvolvimento de uma preocupação exagerada com a aparência. É natural do ser humano buscar aprovação de outras pessoas e procurar ser o mais aceito possível, assim como é normal preocuparse com a aparência e a forma como nos apresentamos à sociedade. Entretanto, com essas novas formas de socialização, que se baseiam principalmente em imagens e, consequentemente, na aparência propriamente dita, é cada vez mais comum o índice extremamente alto de narcisismo entre as pessoas.

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Jovens que cresceram nesse meio predominantemente de imagens tendem a buscar aprovação dessa maneira ainda mais intensamente. Atualmente, a sociedade supervaloriza a aparência, o corpo perfeito e a beleza, e constantemente afirma, através da mídia, o exemplo de que pessoas que são bonitas e que despertam o desejo são mais socialmente aceitas e procuradas. Sendo assim, é cada vez mais comum jovens ansiarem pela aparência perfeita, desenvolvendo altos índices de narcisismo, uma vez que a imagem exerce um fator importantíssimo para o desenvolvimento da personalidade no mundo de hoje.

Europa ocidental 83%%

laptop computador % tablet 7%

% 50%

% 68%

% 62% % 22%

58% %

Europa central & oriental 60% %

laptop computador tablet

% 49%

Oriente Médio & África

América Latina laptop computador tablet

79%%

72%%

laptop computador tablet 22%%

% 64% % 54% 23%%

Fonte: Financial Times/Telefónica Global Millennial Survey

% 72%

% 66%

laptop computador % tablet 20%

% 45%

Ásia 83%

laptop computador tablet

% 77% % 49% % 31%

74


Conclusão

A nova mídia sobrepõe a antiga em relação a informação e entretenimento

Ao longo das páginas desta revista, busquei evidenciar como diversos padrões de comportamento comuns aos Millennials, estão intrinsicamente relacionados à configuração mundial vigente durante a época de formação desta geração. Em um segundo momento, também procurei mostrar como o uso da internet está influenciando a mente destes jovens e quais são as consequências deste uso. Ao me aprofundar neste tema para verdadeiramente entender porque estes padrões de comportamento existem, pude perceber que o estudo de gerações é de extrema importância para a sociedade. Ele nos ajuda a entender, lidar e criar soluções inteligentes para problemas associados à relação entre o pessoal e o social, assim como ajuda a aproximar e facilitar o diálogo e a relação entre pessoas de diferentes gerações, em famílias, escolas e empresas, por exemplo. A partir deste estudo, é possível perceber que o modo com que uma pessoa irá construir sua visão de mundo, como irá desenvolver seus sistemas de valores e quais posicionamentos terá em relação aos principais aspectos da vida, é, em grande parte, determinado pelos padrões socioculturais dominantes de época em que cresceu. Esta área sempre despertou grande interesse em mim, uma vez que nela, relacionamse amplamente os conceitos de tempo, história e comportamento, para promover um entendimento profundo sobre a razão de determinadas formas de existência. Entretanto, mais do querer elucidar

Qual é a melhor fonte para.. Cobertura e credibilidade de notícias

45%%

entretenimento

Acompanhamento de notícias e crises

34% %

36%% 54%%

15%% internet, incluindo mídias sociais

31%%

64%%

% 8%

3%%

jornais e revistas impressos

televisão

Fonte: Financial Times/Telefónica Global Millennial Survey

“ Você tem um perfil em alguma rede social?“ % dizem “sim“

todos

41

Millennials

75 75

geração x Baby Boomers Fonte: Pesquisa Millennials: A Portrait Of Generation Next. Confident. Connected. Open to change. Pew Research Center, 2010

50

30 75

as pessoas sobre quais são estas características e porque elas existem, senti a necessidade de fazer este trabalho pois acredito tratar-se de uma geração muito especial. Como faço parte dela, posso relatar em primeira pessoa alguns dos motivos que me fazem acreditar nesta constatação, além de todos os outros que já foram mostrados neste trabalho. Nós, Millennials, somos a penúltima geração a nascer no século XX e a primeira a atingir a maioridade no século XXI. Crescemos entre milênios, em um mundo de constantes transformações, em que sutis, mas importantes revoluções estavam acontecendo. A revolução digital, por exemplo, assim como a revolução da informação e a globalização, trouxeram novas perspectivas e paradoxos à sociedade e influenciaram diretamente nossa percepção e comportamentos, enquanto crescíamos. Por causa disso, somos digital natives, mas também desenvolvemos a mente linear durante nossos anos de formação. Lembro-me desta “dualidade” de formas de pensamento e hábitos, quando criança. Na escola, frequentava bibliotecas e pesquisava em enciclopédias. Aprendi a ler, escrever e estudar da forma tradicional, linear. No entanto, de um ano para o outro, computadores e celulares começaram a surgir e ocupar um tempo cada vez maior de meus dias. Comecei, então, a ter aulas de computação e de datilografia em teclados. Passei a usar a internet para buscar e armazenar informação, assim como para me comunicar com meus amigos e brincar com joguinhos virtuais.

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A cada ano que passava, novas funções eram atribuídas à estas tecnologias e o uso que fazia delas, só aumentava. Sendo assim, posso dizer que a minha geração cresceu e nossos cérebros foram formados, com estes dois modos extremante distintos de pensamento e processamento da realidade. Ambos na mesma proporção. Parece até que nossos cérebros funcionam de forma meio linear, meio “circular”. E é isso o que nos faz tão únicos e diferentes de todas as outras gerações. A geração X, por exemplo, uma anterior aos Millennials, desenvolveu, durante seus anos de formação, a mente linear e sua lógica de processamento da realidade, predominantemente. A geração Z, seguinte à minha, está crescendo em um mundo extremamente digital. Um mundo em que a internet aparelhos digitais exercem um papel essencial no dia a dia das pessoas. Estas crianças estão crescendo em casas e estudando em escolas repletas de computadores e smartphones, que muitas vezes, funcionam como ferramentas indispensáveis para a vida. Ao contrário de nós, eles nunca viveram em um mundo sem internet, smartphones, Ipods ou tablets. Todavia, a internet não deixou de nos impactar de forma particular e transformar radicalmente nossos comportamentos e hábitos. A partir dos meus 12 anos de idade mais ou menos, o computador, a internet e sua lógica de funcionamento, começaram a sobrepor o livro e a mente linear. Desde então, o uso destes aparelhos digitais e da internet, passaram a existir como verdadeiras extensões de nossos corpos. Devido a isso, acredito que a minha geração ocupa uma posição importante no tempo e na história, para o entendimento do desenvolvimento da humanidade, tanto para os

dias de hoje, quanto para os anos que estão pela frente. No futuro, podemos ser estudados como a primeira geração digital, ou seja, que desenvolveu, durante o crescimento, uma percepção da vida influenciada pelo mundo digital e por sua lógica não linear. O que nos tornaria, de certa forma, os pioneiros desta nova configuração mental e social que está sendo desenvolvida com a chegada destas novas tecnologias digitais. Mas também podemos ser vistos como a última geração que cresceu sem esta influência, nos primeiros dez anos de vida. Que cresceu com um mundo ainda intensamente determinado pela mente linear. Com esta questão em mente, ao longo de meu crescimento, observei atentamente a forma com que eu e meus amigos estávamos sendo influenciados pelo mundo a nossa volta, mas principalmente pela internet. Porém, foi apenas ao me aprofundar nesta área que entendi que mais do que apenas influenciar meus comportamentos, a internet estava alterando a própria forma com que meu cérebro funciona. Fiquei extremamente preocupada com as consequências desta influência e por isso, fiz questão de explicitá-las nesta revista. Além de querer mostrar quais são estas consequências e como elas são prejudiciais à mente, quis fazer este trabalho com o objetivo de reforçar a ideia de que precisamos adotar uma visão mais crítica em relação ao uso da internet. Acredito que esta questão é de crucial importância para a saúde mental e emocional do homem, assim como para o desenvolvimento do progresso da humanidade. No entanto, ela é pouco explorada na sociedade. Apesar de valorizar a internet e suas facilidades e usá-la frequentemente, acredito que não podemos deixar os benefícios desta tecnologia nos cegar tanto, a ponto de não percebermos o quanto ela está comprometendo

as partes mais importantes e humanas de nossas mentes. Com este estudo, pude perceber que a internet possui ferramentas tão poderosas em alterar a nossa percepção, que muitas pessoas ainda nem se deram conta do quanto estamos nos transformando em função deste meio de comunicação e o quanto estamos nos apropriando de suas características. O mundo virtual está sendo incorporado tão intensamente em nossas vidas, que passamos a sentir o artificial como natural e acolhemos suas características e consequências sem qualquer resistência. Infelizmente é um fato: quanto mais externamos nossas tarefas cognitivas para a internet e computadores, mais reduzimos a capacidade de nossos próprios cérebros para realizá-las e mais dependentes nos tornamos destas tecnologias. Sendo assim, nos apoiamos cada vez mais nestas ferramentas para mediar nossa compreensão da realidade. E com isso, é nossa própria inteligência que está sendo, aos poucos, transformada em uma inteligência artificial: eficiente, calculista e superficial, em que não há espaço para a contemplação e o

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pensamento crítico. Penso que se não adotarmos uma visão mais crítica do uso da internet agora, corremos o risco de testemunharmos, com o passar dos anos, o desenvolvimento de gerações futuras extremamente dependentes e bitoladas nestas tecnologias e que incorporaram completamente a lógica de funcionamento de computadores e da internet. Por isso, é preciso que jornalistas sem empenhem para introduzir este assunto em jornais e revistas, assim como é necessário que professores se dediquem a desenvolver uma disciplina especialmente criada para a discussão e esclarecimento deste tema. Caso contrário, deixaremos nas mãos de engenheiros da computação, a função de educar as novas gerações. E o que eles nos mostraram até agora, é a incrível capacidade de criar tecnologias que nos deixam cada vez mais íntimos, compatíveis e semelhantes a computadores. A grande gravidade deste fato, é que computadores não olham criticamente a realidade. Seguem regras, apenas.

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Bibliografia LIVROS % % % %

- HOWE Neil; STRAUSS William. Millennials Rising: The Next Great Generation ed. Vintage, 2000 - TAPSCOTT Don. Growing Up Digital: The Rise Of The Net Generation ed. McGraw-Hill, 2008 - CARR, Nicholas. The Shallows: What The Internet Is Doing To Our Brains ed. W. W. Norton & Company, 2008 - MENNHEIN Karl. The Problem Of Generations, 1923

PESQUISAS % % % %

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DOCUMENTÁRIOS % - RUSHKOFF Douglas. Digital%nation: Life On The Virtual Frontier, 2010 e The Persuits Of Cool, 2001 % - BOX1824. We All Want To Be Young, 2010 e All Work And All Play, 2012 % IMAGENS % - Google e Shutterstock

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Revista Millennials