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Reportagem:

Começar de novo

Carolina Neto Santos, nº6865 Disciplina: Laboratório de Géneros Jornalísticos Jornalismo Pós-Laboral


Começar de novo Regressar à normalidade é o lema de todos aqueles que entram no ginásio de fisioterapia do Hospital S. Francisco Xavier e se empenham de alma e coração para recuperarem a vida que, num determinado momento, interromperam. Pericles Soares, de 32 anos, encontra-se a recuperar de um grave acidente de moto. Procurando entre as suas memórias, conta como se despistou a alta velocidade, quando perdeu a traseira da sua moto. Embateu no separador central, acabando por ser projectado para o lado contrário ao da faixa em que circulava, e isso trouxe-lhe danos irreversíveis. Para além de ter perdido o pé direito logo no local do acidente, foi induzido em coma e esteve internado durante três meses. Foi submetido a mais duas cirurgias, para tentar diminuir as lesões que tinha sofrido. Juntando a este quadro clínico já de si complicado, sofreu uma infecção grave na perna que o impedia de dobrar o joelho: esta situação aumentou, ainda mais, o tempo de internamento e a consequente recuperação. Fracturou, também, a mão e os médicos disseram-lhe que nunca mais ia conseguir fechá-la normalmente. Frequenta o ginásio do S. Francisco Xavier, desde que abandonou o serviço de internamento, três vezes por semana e não tem dúvidas em afirmar que a fisioterapia lhe dá “força para continuar a trabalhar”. Conta que já faz a sua vida normalmente, sem a ajuda de ninguém, a não ser quando tem de se movimentar até à fisioterapia ou quando quer sair de casa. Confidencia, ainda, que “o meu maior desejo é voltar a andar”. Para Pericles, este serviço tem sido essencial na sua recuperação, pois não só lhe permite recuperar fisicamente, como lhe tem dado o ânimo necessário para enfrentar a dura batalha que é recuperar de um acidente tão grave. Hoje, passados cerca de sete meses após a sua entrada no ginásio de fisioterapia do Hospital S. Francisco Xavier, Pericles recuperou muita da força muscular que tinha perdido após ter estado três meses internado. Consegue,


ainda, fechar por completo a mão fracturada, contrariando as previsões dos médicos que aquando do diagnóstico inicial lhe disseram que não o voltaria a fazer, e já consegue dobrar o joelho num ângulo de 45.º graus. Aguarda, igualmente, por uma nova cirurgia e por uma prótese que o ajudará a voltar a andar. Os meses que se advinham para Pericles são de luta mas o jovem garante que conta sempre com a ajuda de todos os profissionais da medicina física

e

de

reabilitação.

“Foram buscar-me ao outro lado três vezes”

À saída do ginásio, Pericles encontra o seu colega de internamento, Tiago Carvalho de 36 anos que, tal como ele, sofreu um grave acidente de moto. “Não tenho qualquer memória do acidente. Lembro-me de tudo o que fiz nesse dia, até do sabor daquilo que comi à hora de almoço. Agora, do acidente não me lembro de nada”, confidencia Tiago. Os médicos já lhe explicaram que sofreu vários traumatismos e que o facto de não se lembrar de nada é um mecanismo de defesa. Contaram-lhe, também, que uma bactéria se alojou nos seus pulmões, o que lhe causou ainda mais problemas. O jovem recorda: “foram buscar-me ao outro lado três vezes”. Dada a gravidade das suas lesões, os médicos e a família quiseram que Tiago frequentasse o centro de fisioterapia de Alcoitão. No entanto, o jovem preferiu ficar no Hospital S. Francisco Xavier, a que já estava habituado, e acabou por fazer aí toda a sua recuperação. Sete meses depois do acidente que lhe marcou a vida, apesar de não se lembrar, já voltou à sua vida profissional com toda a normalidade possível. Tiago explica que nunca precisou de apoio psicológico e/ou psiquiátrico para conseguir ultrapassar o que lhe tinha acontecido. “Foram umas médicas ao meu quarto e começaram a falar comigo sobre o acidente e sobre o meu estado. Passados 15 minutos, estava a rir-me e a conversar com as médicas


de tudo menos do que me tinha acontecido. No fim, elas disseram-me que não precisava

de

apoio”,

recorda.

“A Paula foi o meu anjo da guarda” O jovem defende mesmo que a fisioterapia, além de ser essencial na recuperação

física,

é

fundamental

na

recuperação

psicológica.

“Os

fisioterapeutas são como uns psicólogos”, diz, confessando que mantém uma forte relação de amizade com todos os terapeutas que cuidaram dele tanto no serviço de internamento como no ginásio. “A Paula [fisioterapeuta] foi o meu anjo da guarda”, assume, sem qualquer pejo. Para Tiago, as sessões de fisioterapia e o convívio com os terapeutas trazem-lhe ânimo para continuar a sua recuperação. “Saio daqui sempre bem-disposto”, revela. Apesar destes estados de espíritos positivos, nem tudo são rosas neste processo de recuperação. Não são raras as vezes em que existe clara revolta naqueles que vêem a sua vida dar uma volta de 180.º graus e não sabem como reagir a esse facto. Como explica o terapeuta Hélder Estevão, há “duas fases de revolta”: a primeira ocorre quando as pessoas tomam conhecimento do que lhes aconteceu e das limitações que vão passar a ter; numa segunda fase, há uma espécie de “revolta surda” a que se assiste quando os pacientes chegam ao ginásio de fisioterapia. Essa “revolta surda”, explica o especialista, manifesta-se em pequenos momentos da fase de recuperação, como por exemplo o facto de os doentes se recusarem a fazerem determinados exercícios, tanto no ginásio como em casa. Mas é algo que não é logo perceptível. “É preciso ter alguma experiência para detectar estes casos de ‘revolta surda’”, diz, sublinhando porém: aquelas pessoas que não conseguem aceitar as suas limitações, essas sim precisam de apoio psicológico e/ou psiquiátrico. Sobre o papel da fisioterapia, Maria do Céu Martins, que sofreu uma paralisia facial, em consequência de uma otite no ouvido direito, tem a mesma opinião que Tiago: este trabalho de recuperação sido uma grande ajuda não apenas para recuperar o seu aspecto físico, mas também a nível psicológico. Maria faz questão de sublinhar o importante papel da fisioterapia e da sua


terapeuta neste longo processo. “ Depositamos toda a nossa esperança na nossa fisioterapeuta”, diz. Após algum tempo sem conseguir exercer a sua actividade profissional, Maria do Céu pediu para “regressar ao emprego”. Hoje, já está a trabalhar activamente mas ainda se encontra em recuperação já que este tipo de doença obriga

a

cuidados

longos.

Tudo pela recuperação total Numa situação algo diferente está Ricardo Pires que, aos 26 anos, se encontra a recuperar de um acidente de kitesurf, no Chipre, local onde trabalhava quando se aleijou. Fracturou o fémur em cinco partes e ficou com estilhaços de osso na perna. Ainda no Chipre, onde trabalhava num barco de recreio, foi submetido a uma primeira intervenção cirúrgica para diminuir as lesões sofridas e só passados 15 dias teve autorização dos médicos para voltar a Portugal, onde foi prontamente operado pela segunda vez. Os médicos disseram-lhe que o tempo de recuperação seria de nove meses e, a partir desse momento, Ricardo programou a sua vida em função da lesão e do recobro que se adivinhava longo. Passou a fazer fisioterapia três vezes por semana e nos outros dias livres fazia hidroterapia, para conseguir recuperar a normalidade da sua vida mais depressa.”A fisioterapia foi tudo para mim nestes dois meses”, assume, garantindo, ainda: “muito do mérito da minha recuperação está no Tiago. Apertou comigo e eu consegui recuperar a mobilidade da perna”. Perante o cenário complicado que lhe foi apresentando, o jovem recorda as dificuldades passadas e não tem dúvidas que o fisioterapeuta foi tão importante como o intenso trabalho que fez no ginásio de fisioterapia e que conciliou com a hidroterapia. Terminou a fisioterapia no Hospital S. Francisco no passado dia 18 de Maio, porque lhe surgiu uma oportunidade para regressar à sua área profissional e de formação, que é o sector hoteleiro. Apesar nesta nova etapa da sua vida, Ricardo não abandona a sua recuperação e vai continuar a fazer fisioterapia noutra cidade que não Lisboa.


Além disso, quando abandonou o Hospital S. Francisco Xavier e consequentemente o serviço de medicina física e de reabilitação, Ricardo já tinha largado as canadianas e já conseguia movimentar-se sem a sua ajuda de uma forma quase perfeita. Não esquecendo o Chipre e os seus companheiros, confessa: “o meu capitão quer que eu volte.” E assim, no fim do processo de recuperação, que se prevê ocorra entre Outubro e Novembro, Ricardo vai voltar ao Chipre e aos barcos de recreio, que o encantam. A importância das tarefas mais simples Outro doente que frequenta o ginásio de fisioterapia é Guilherme Sousa, piloto do campeonato nacional de todo o terreno, que sofreu um acidente de moto enquanto praticava o seu desporto favorito. Uma forte queda trouxe-lhe uma sub-luxação do braço esquerdo e uma fractura do úmero. Os médicos disseram-lhe que a sua recuperação demoraria cerca de seis meses. Para Guilherme, a fisioterapia ajudou-o na eliminação dos movimentos de improviso que a lesão no braço lhe provocou e, ainda, a reeducar os movimentos que tinha perdido. Confessa que, aos 29 anos, deu por si a não conseguir efectuar as mais simples tarefas do dia-a-dia como tomar banho, acender as luzes ou comer. Com a fisioterapia, recuperou todos estes pequenos mas grandes detalhes que lhe permitem ter uma vida mais autónoma. “ Já consigo comer sem me inclinar para o lado”, conta, feliz. Agora, também já consegue fazer todos os pequenos movimentos que antes estavam viciados, devido às dores provocadas pela lesão. Recuperou, pouco a pouco, a normalidade da sua vida através de um processo evolutivo: cada sessão de fisioterapia tinha novos desenvolvimentos, permitia alcançar todos os dias mais um objectivo rumo ao triunfo final. Pequenos passos, grandes conquistas. É este o lema de cada um dos doentes que entra pela porta do ginásio do Hospital S. Francisco Xavier. À sua maneira, com o seu esforço e a sua dedicação, acabam por recuperar aquilo que os acidentes lhes tinham roubado. Porém, essas vitórias devem-se em grande parte a todos os profissionais que se dedicam a este serviço. E Tiago é a voz


de muitos dos pacientes: “os médicos salvaram-me, mas foi a fisioterapia que me devolveu a vida.”

Começar de Novo  

Reportagem elaborada no âmbito da disciplina: Laboratório de Géneros Jornalísticos

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