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ESTADO DE MINAS G D O M I N G O ,

1 º D E J A N E I R O D E 2 0 1 2 G E D I T O R A - A S S I S T E N T E : Te r e s a C a r a m G S U B E D I T O R A : E l l e n C r i s t i e G E - M A I L : b e m v i v e r . e m @ u a i . c o m . b r G T E L E F O N E : ( 3 1 ) 3 2 6 3 - 5 7 8 4

DIETA QUE DEU CERTO

BEM VIVER

Ronycledson Coutinho, que trabalha na Ceasa, está 30 quilos mais magro graças ao consumo de frutas. PÁGINA 5

ISTOCKPHOTO

MARCOS MICHELIN/EM/D.A PRESS

QUAL SERÁ A SUA LISTA? Em vez das tradicionais metas de ano-novo, faça um exercício diferente: pense que teria uma última oportunidade de realizar o que sempre sonhou CAROLINA LENOIR Vamos fazer um teste: na sua lista de resoluções para 2012, você incluiu a) entrar na academia; b) parar de fumar; c) ser mais organizado financeiramente; d) dar chance ao amor; e) ter mais tempo para si; f) nenhuma das alternativas anteriores exatamente, mas algo parecido? Não se preocupe, não é que você seja previsível. O ser humano precisa de desculpas para desemperrar planos feitos com a melhor das intenções, mas que se dissiparam com o correr do tempo. O Bem Viver é a favor das tradicionalíssimas decisões de ano-novo, mas propõe um exercício diferente para 2012. Pegando carona nas profecias sobre o fim do mundo – desencadeadas por interpretações equivocadas de um dos calen-

dários da civilização maia –, que tal fazer uma lista pensando que esta seria a última oportunidade para realizar tudo o que você sempre quis? Não, o mundo não vai acabar, como o historiador Marcelo Lambert explica na página 4, mas a brincadeira pode render uma reflexão mais profunda sobre seus planos de vida, que vão muito além de emagrecer alguns quilos. O que você colocaria nessa lista? Encontrar o amor da sua vida, fazer uma viagem sabática, desengavetar projetos esquecidos há muito tempo, vencer medos, se reconciliar com alguém? Os boatos apocalípticos sempre existiram e provocaram reações na população, em menor ou maior intensidade. Quando,

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em 1910, anunciaram a passagem do cometa Halley próximo à Terra, o povo logo acreditou que, com ele, chegaria o fim do mundo. O compositor baiano Assis Valente transformou o boato em versos de E o mundo não se acabou, uma narrativa deliciosa sobre uma pessoa que decidiu aproveitar seus últimos momentos. “Pensei que o mundo ia se acabar/E fui tratando de me despedir/E sem demora fui tratando de aproveitar/Beijei na boca de quem não devia/Peguei na mão de quem não conhecia/Dancei um samba em traje de maiô/E o tal do mundo não se acabou.” É, o mundo não vai acabar, mas não custa nada aproveitar a profecia para soltar qualquer amarra que impeça você de ser feliz.


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T REPORTAGEM DE CAPA Pessoas com

Sonhos

histórias de vida diversas contam o que fariam se

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soubessem que o mundo iria acabar. Elas gostariam de

CAROLINA LENOIR

ajudar o próximo e

Perguntar às pessoas quais seriam seus planos caso soubessem que o mundo acabaria este ano é uma tarefa curiosa e reveladora. Pegas de surpresa, elas precisam de um tempo para desengavetar ideias, escarafunchar desejos abandonados em um cantinho escuro da mente, diagnosticar receios que paralisaram projetos e assumir os anseios que o correr da vida embrulhou. E, assim, com as revelações que esse mergulho proporciona, elas descobrem que tudo o que querem é perfeitamente realizável e não depende do fim dos tempos para ser colocado em prática. O Bem Viver convidou três pessoas com histórias de vida distintas para revelar os planos pensados a partir desse, digamos assim, empurrãozinho profético.

aproveitar bem os últimos momentos BETO MAGALHÃES/EM/D.A PRESS

Apaixonada por aventuras off-road, a empresária Gladys Costa iria desbravar a Somália, doando palavras de amor e conforto empresária Gladys Costa Cardoso, de 46, tem o costume de se reunir com o marido e uma turma de amigos para realizar viagens off-road, tanto em municípios próximos a Belo Horizonte quanto em locais mais distantes, como o Deserto do Atacama, no Chile. Em meio aos solavancos dos veículos 4x4, ela troca a correria cansativa do dia a dia por uma ou-

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tra que, ironicamente, descansa a mente. “Apaixonei-me por essa aventura, que é muito gostosa. As viagens apresentam grandes desafios físicos e longos trajetos, mas que me instigaram a desbravar os lugares.” É com esse espírito que ela traçou sua resolução para 2012, se este fosse mesmo o último ano. “Pegaria meus filhos e meu marido e iria para um lugar bem distante, a que ninguém tem vontade

de ir, como a Somália, na África. Gostaria de levar palavras de conforto, de consolo, de amor. Usaria uma reserva financeira para montar uma espécie de estação de ajuda, seja ela do tipo que for, e traria as pessoas para junto de mim.” Gladys sabe que nem todo mundo entenderia sua escolha, que pode ser interpretada como uma grande renúncia – à sua cultura, ao conforto e à segurança da sua casa e, principal-

mente, à última chance de realizar seus maiores desejos –, mas ela tem convicção de que essa decisão preencheria seu propósito de vida. “Podemos aproveitar a vida de diferentes formas. A decisão de como vivê-la é algo pessoal, íntimo. É latente dentro de mim essa vontade de doar, de fazer algo realmente bom. Não penso duas vezes em fazer isso, sem medo de julgamentos e críticas.”

MARIA TEREZA CORREIA/EM/D.A PRESS

MARIA TEREZA CORREIA/EM/D.A PRESS

Colocar os pingos nos “is” e celebrar

Poder realizar um sonho antigo

O estudante de administração Valjean Júnior, de 28 anos, conta que, ao pensar em como responderia à pergunta central da matéria, muitas ideias passaram pela sua cabeça, inclusive andar pelado pela rua. Mas, com um ano quase inteiro pela frente, ele decidiu pensar em algo mais relevante. Como resultado dessa reflexão mais profunda, suas resoluções de fim de mundo tiveram que ser divididas. “Primeiro, iria reunir minha família e agradecê-la por ter me aguentado todo esse tempo.” Depois, ele garante que procuraria todas as ex-namoradas e pediria desculpas por qualquer coisa errada que ele – por acaso e não intencionalmente – tenha feito durante os respectivos relacionamentos. “Na verdade, pediria desculpas a todas as pessoas para as quais eu tenha feito algum mal. Se a gente tem um prazo, quer resolver tudo logo. Gostaria de passar tudo a limpo. Se todo mundo for embora junto, então tem que aproveitar junto, sem diferenças.” Com a alma mais leve, o passo seguinte seria organizar a maior festa da sua história, em uma comemoração antecipada dos 30 anos, que, na teoria, serão completados em 2013. A última celebração seria daquelas de fechar com chave de ouro a trajetó-

Formada em relações internacionais, Raquel Garcia, de 24, sempre bateu na trave ao ser confrontada com seu objetivo de vida desde os tempos de colégio: construir sua vida no exterior. Ela já teve oportunidades de fazer intercâmbios, mas, quando se deparava com a decisão de ficar ou retornar ao Brasil, acabava optando pelo caminho mais seguro. Deixava sempre pedacinhos de si para trás, mas com a esperança de voltar para recuperá-los. Este ano, ela vai dar um passo gigantesco nesse sentido. Em março, Raquel começa um estágio na missão brasileira na sede da Organização das Nações Unidas (ONU) em Genebra, na Suíça. “Falei para mim mesma que em 2012 seria diferente, realizaria meu sonho independentemente de qualquer coisa. Adiei por muito tempo.” Inicialmente, serão quatro meses de estágio, mas a intenção é construir um cenário favorável para a sua permanência. Como uma forma de despedida da cidade, ela começou um blog (100coisasbh.blogspot.com) em que fala sobre os 100 lugares, situações, conceitos e formas de viver de Belo Horizonte dos quais vai sentir falta. “BH é uma cidade que desperta sentimentos muito controversos em mim e acho que está sendo um excelente exercício.” E, se a proposta é pensar em planos para um hipotético fim do mundo, Raquel quer se beneficiar do fato de estar no lugar certo, no momento certo. “Faria uma via-

Valjean Júnior: estudante faria uma grande festa para fechar último ano de vida

ria de um dos organizadores do evento anual Caminhada Alcoológica, uma espécie de via-sacra por bares de Belo Horizonte. “Acho que, dos planos de vida tradicionais, só ficaria faltando casar e ter filho mesmo. Porque eu não vou fazer isso no meu último ano, né?”

Raquel Garcia gostaria de viajar de carro, partindo de Genebra, na Suíça, até o Sul da França

gem gastronômica de carro com amigos, de Genebra até o Sul da França. Gostaria de provar os melhores vinhos e comer nos melhores restaurantes.”

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T REPORTAGEM DE CAPA Calendário

Fascínio

maia envolve 30 formas de

pelo tempo

dividir o ciclo da vida. Historiador

JACKSON ROMANELLI/EM/D.A PRESS – 12/6/10

explica que

Neste primeiro dia do ano, diga que vai ser melhor do que ontem, reze o salmo 23, o salmo da coragem, e tome um banho energético com essência de alecrim, que significa alegria

esses povos continuam preocupados com o planeta

I Mari Senac, taróloga ARQUIVO PESSOAL

uem nunca ouviu alguém dizer a frase “é 2012 chegando” ao comentar catástrofes e outras situações extremas que ocorreram no ano passado? O novo ano já chega com o peso das profecias sobre o fim do mundo, mas o historiador Marcelo Lambert, especialista em civilização maia, trata de explicá-las. De acordo com Marcelo, a data de 21 de dezembro de 2012 representa o fim de um ciclo e o início de um novo tempo no entendimento da civilização maia – constituída por cerca de 50 cidades-estado do Período Clássico, entre os anos 250 e 900. “Era uma sociedade muito complexa, com um nível de abstração muito alto. O que entendemos hoje como ciclo era, para os maias, o conceito de mundo.Eleseramfascinadospelacompreensão do tempo e toda a estrutura da civilização, como a política, a agricultura e a sociedade, era organizada sob essa perspectiva.” O fascínio pelo tempo fez com que os maias criassem cerca de 30 calendários, divididos entre lineares e circulares. O calendário em que o ciclo termina em 2012 é conhecido como calendário de contagem longa, em que o ciclo dura 5.125 anos. “Há divergências no mundoacadêmicoquantoaoponto zero, mas chegou-se a um consenso de que o início seria o ano 3113 a.C. (antes de Cristo) e culminaria em dezembro de 2012.” O historiador explica que o principalerroéinterpretá-locomo um calendário cristão. “É um equívocopegarprofeciasespecíficasdo Período Clássico e de determina-

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ENTREVISTA

SYLVIA FLORES PSICÓLOGA E PROFESSORA DO CENTRO UNIVERSITÁRIO NEWTON PAIVA

Sentido para a existência Para a psicóloga Sylvia Flores, a brincadeira de pensar no que você gostaria de realizar se só tivesse este ano é um exercício interessante. Não se trata de acreditar em previsões catastróficas e entrar em uma espécie de histeria induzida, mas de aposentar planejamentos vazios e refletir no sentido da própria existência. ARQUIVO PESSOAL

Por que as pessoas evitam pensar em questões existenciais? A compreensão de que nossa existência é finita é muito angustiante, porque existe uma indeterminação desse fim. Com isso, estabelece-se uma tentativa de alienação, mas, ao não pensar no fim, a maior parte das pessoas não pensa no próprio processo da vida. Quando se pergunta sobre os planos de vida, quais as respostas mais comuns? Nós vivemos numa sociedade voltada para a produção e o consumo, o nosso valor é estabelecido a partir disso. Na brincadeira de questionar o que se faria se o mundo fosse acabar, o primeiro impulso é atender aos desejos, se divertir, gastar tudo o que se tem. Porém, se a pessoa tiver cinco minutos para pensar, ela vai controlar esse primeiro impulso e seguir para uma segunda etapa, que é buscar um sentido para a sua existência. O medo, na verdade, não é do fim, mas de a vida não ter tido um significado.

Como aprimorar a já tradicional lista de resoluções de ano-novo? Mais do que fazer planos típicos desta época do ano, que, em boa partedoscasos,sãoplanejamentos pequenos e focados no material, seria interessante fazer um questionamento mais complexo e colocaremxequeasuaexistênciaaté então,nãosóemrelaçãoaoúltimo ano. Se pudesse escolher, viveria diferente? Se a questão material desaparece – a necessidade de trabalhar e ganhar dinheiro –, sobra a questão espiritual, que independe de religião e ideologia.

Eles mostraram ansiedades puramente humanas, materiais, do cotidiano I Marcelo Lambert, historiador

dascidades-estadoetransportá-las para 2012. Enquanto o mundo atual pensa de forma linear, os maias tinham um pensamento circular. Eles não tinham o conceito de morte, de fim, como o que entendemos. É uma grande incoerênciafalaremtérminoquandose tratadeumacivilizaçãoquepensa de forma circular.” Marcelo conta que realizou uma expedição no ano passado às cidades do mundo maia e aproveitou para perguntar a alguns anciãos, que mantêm muitos dos rituais de seus ancestrais, o que esperavam para 2012. “Eles mostraram ansiedades puramente humanas, materiais, do cotidiano. Em momento nenhum sequer citaram o fim dos tempos. O grande ganho dessa discussão é que, em 2012, estamos preocupados com problemáticas levantadas há séculos, do cuidado com o planeta, do que podemos fazer de melhor para o mundo e para os outros.” O fim de um ciclo de qualquer calendário maia sempre acompanhou o início de uma nova era no entendimento dessa civilização. “Poucos documentos sobreviveram ao tempo, mas o que temos de informação é um artefato que diz que um novo ciclo se inicia em 2013 e que seria o tempo da mulher, da maternidade e da fertilidade. Seria um tempo mais sensível e humano para o mundo.” AtarólogaMariSenacconcorda e explica que 2012 é um ano regido pela carta 5, O Hierofante ou O Papa, que representa a reconstrução dos valores, como a família, a religiosidade (e não a religião) e os

estudos. “É o ano da fertilidade, da construçãodolar,dareestruturação do casamento. Além disso, é um ano regido pela Lua, que também rege o signo de câncer, que representa a mulher e a sensibilidade.” Segundo Mari, neste ano vai haver uma mudança de consciência da sociedade em relação a muitos aspectos, especialmente a saúde. “O corpo vai reclamar tudo o que a pessoa fez de bom ou de mau ao longo da vida. O ano de 2012 marca um processo mais fortalecido de mudança. É bom recorrer a reiki, acupuntura, florais, shiatsu, ioga, tudo o que a pessoa achar que pode ajudar na reestruturação da consciência, a pensar nos seus objetivos, no que quer conquistar e no bem-estar próprio e do outro.” A taróloga acrescenta que este é o ano para as pessoas se destacarem individualmente, de forma independente. “Quem não praticar as suas dádivas e dons pode começar a pensar mesmo que o mundo acabou, porque quem desperdiçar as oportunidades desteanovaisentirapenasinércia,falta de graça, vazio. O ser humano vai estar mais exigente.” Dessa forma, Mari garante que o melhor é ter atitude e falar o que pensa.“Corageméapalavra-chave de 2012. É não ter medo, que consome a saúde, e ter cuidado com o que pensa e sente. Gritar, chorar, exteriorizar sentimentos, dizer eu te amo. Neste primeiro dia do ano, digaquevaisermelhordoqueontem, reze o salmo 23, o salmo da coragem, e tome um banho energético com essência de alecrim, que significa alegria.” (CL)


QUAL SERÁ A SUA LISTA?