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Te dou meu Coração (Amor e Enganos) Familia Bridgerton 03

Julia Quinn Tradução: Zel Revisão: Edith Rev. Final: Cristiane Agapito Formatação: Cristiane Agapito e Gisa PROJETO REVISORAS TRADUÇÕES

Como uma nova Cinderela, Sophie consegue escapar de sua malvada madrasta para ir ao baile de máscaras. Conhece benedict e ambos se apaixonam. Mas à meia-noite foge sem deixar rastros para Benedict, que passa a procurá-la. Algum tempo depois voltam a se encontrar e ele se apaixona novamente por ela sem reconhecê-la pois agora não passa de uma simples empregada. E muitas peripécias acontecem antes que possam unir-se e desvelarem seus segredos.

Nota da Revisora Edith: É uma deliciosa versão da Cinderela. Mas para o mocinho voltar a encontrar a misteriosa dama prateada vai demorar um pouco. Bem, ele a encontra, mas não a reconhece na criada que salva de um perigo. Isso não impede que se apaixone "de novo" por ela. Há uma madrasta malvada que faz tudo para prejudicar a mocinha e até a faz prender como ladra. É ótima a passagem na cadeia! Adoro quando a "bandida" se sai mal, como neste livro. A mãe dos Bridgerton é sempre uma figura encantadora e amorosa: inteligente, suave apoiando os filhos. Mas sem deixar de fazer tudo para casá-los bem.


Prólogo Todo mundo sabia que Sophie Beckett era filha ilegítima. Todos os criados sabiam. Mas todos queriam à Sophie; queriam-na desde o momento em que chegou ao Penwood Park aos três aninhos, um pequeno montinho deixado no degrau da porta principal, numa chuvosa noite de julho, envolto em uma jaqueta muito grande. E como a queriam, simulavam que era exatamente o que o sexto conde do Penwood dizia que era: a órfã de um velho amigo. Que importava que os olhos verde musgo e os cabelos loiro escuro de Sophie fossem idênticos aos do conde. Que importava que a forma de seu rosto tivesse uma extraordinária semelhança com a da mãe do conde, que tinha morrido recentemente, ou que seu sorriso fosse uma réplica exata do sorriso da irmã do conde. Ninguém desejava ferir os sentimentos de Sophie, nem arriscarse a perder o emprego, fazendo notar essas semelhanças. O conde, um tal Richard Gunningworth, jamais falava de Sophie nem de suas origens, mas certamente tinha que saber que era sua filha bastarda. Ninguém sabia o conteúdo da carta que a governanta tirara do bolso da jaqueta que envolvia Sophie aquela chuvosa noite em que a descobriram na porta; o conde queimou a missiva poucos segundos depois de lê-la; observou enroscar o papel nas chamas, e depois ordenou que preparassem um quarto à pequena, perto da sala dos meninos. E depois, ela continuou nesse quarto. Ele a chamava Sophia, e ela o chamava "milord", e se viam umas poucas vezes ao ano, quando ele vinha de Londres para visitar a propriedade, o que não fazia muito freqüentemente. Mas talvez o mais importante seja que Sophie sabia que era bastarda. Não tinha muito claro como soube, só sabia que sabia, e que talvez tivesse sabido toda sua vida. Não recordava nada de sua vida anterior a sua chegada ao Penwood Park, mas recordava uma longa viajem de carruagem através da Inglaterra, e recordava a sua avó, terrivelmente magra, que tossindo e resfolegando lhe dizia que ia viver com seu pai. E mais que qualquer outra coisa, recordava o momento quando estava de pé ante a porta sob a chuva, sabendo que sua avó estava escondida entre os arbustos, esperando para ver se a levavam ao interior da casa. O conde pôs os dedos sob o queixo da pequena e lhe levantou o rosto para a luz, e nesse momento os dois souberam a verdade. Todos sabiam que Sophie era bastarda e ninguém falava disso, e todos estavam muito felizes com esse acerto. Até que o conde decidiu casar-se.


Sophie se sentiu muito contente quando soube da notícia. A governanta confidenciou-lhe uma importante informação, dada pelo mordomo, ele contou que o secretário do conde havia dito que este pensava passar mais tempo no Penwood Park agora que era um homem de família. E embora ela não sentisse falta do conde quando não estava, pois era difícil sentir falta de alguém que não lhe prestava muita atenção, nem sequer quando estava lá, lhe ocorreu que talvez pudesse sentir falta se chegasse a conhecê-lo melhor e que, se chegasse a conhecê-lo melhor, talvez ele não partisse com tanta freqüência. Além disso, a criada do piso superior lhe disse que, segundo a governanta, o mordomo dos vizinhos já contara que a futura esposa do conde já tinha duas filhas, de idades próximas a dela. Depois de passar sete anos só na sala das crianças, encantou-a essa notícia. Diferentemente de outras crianças do distrito, jamais a convidavam às festas nem aos eventos da localidade. Em realidade nunca ninguém a insultava chamando-a bastarda; fazer isso teria equivalido a chamar mentiroso ao conde que, depois de declarar que ela era sua pupila e estava sob sua custódia, jamais voltou a tocar no assunto. Mas, ao mesmo tempo, o conde jamais fez nenhum grande esforço por obter que a aceitassem. Assim, aos seus dez anos, seus melhores amigos eram as criadas e os lacaios, e seus pais bem poderiam ter sido a governanta e o mordomo. Mas por fim ia ter irmãs. Ah, sabia muito bem que não poderia chamá-las de irmãs. Sabia que a apresentariam como Sophia Maria Beckett, a pupila do conde, mas ela as "sentiria" como irmãs. E isso era o que verdadeiramente importava. E assim, em uma tarde de fevereiro, Sophie se encontrou no grande vestíbulo principal junto com todos os criados reunidos ali, esperando, olhando pela janela para ver chegar pelo caminho de entrada a carruagem do conde que trazia a nova condessa e a suas duas filhas. E ao conde, claro. -Acha que gostará de mim? - perguntou em um sussurro à senhora Gibbons, a governanta. - A esposa do conde, quero dizer. -Claro que gostará querida - sussurrou a senhora Gibbons. Mas Sophie viu que em seus olhos não havia tanta segurança como no tom de sua voz. Talvez a nova condessa não aceitasse de boa vontade a presença da filha bastarda de seu marido. -E terei as aulas com suas filhas? - Não tem nenhum sentido que lhe dêem as aulas separadamente.


Sophie assentiu pensativa, e então viu a carruagem avançando pelo caminho de entrada. Revolveu-se inquieta. -chegaram! - sussurrou nervosa. A senhora Gibbons estendeu a mão para lhe dar um tapinha na cabeça, mas ela já tinha se deslocado até a janela, e estava com o rosto praticamente grudado no vidro. O conde desceu primeiro da carruagem e se voltou para ajudar a descer duas meninas. Estas vestiam casacos negros iguais. Uma levava uma fita rosa no cabelo; a outra, uma fita amarela. Quando as meninas ficaram a um lado, o conde estendeu a mão para o interior da carruagem para ajudar a descer a uma última pessoa. Sophie ficou com o ar apanhado na garganta enquanto esperava a aparição da condessa. Cruzou os dedinhos e de seus lábios saiu apenas uma súplica: "Por favor. Por favor, que me queira". Talvez se a condessa a amasse, o conde a amaria também, e talvez, embora não a chamasse filha, tratasse-a como se o fosse, e eles então seriam uma verdadeira família. Olhando pela janela, Sophie viu descer da carruagem a condessa, e notou que seus movimentos eram tão elegantes e graciosos que lhe recordaram à delicada cotovia que de vez em quando chapinhava na água do bebedouro do jardim. Inclusive seu chapéu estava adornado por uma longa pluma cor turquesa que brilhava ao sol do cru inverno. -Que formosa é - sussurrou. Deu um rápido olhar à senhora Gibbons para examinar sua reação, mas a governanta estava muito erguida, em rígida e firme posição, seus olhos fixos à frente, esperando que o conde fizesse entrar sua nova família para fazer as apresentações. Sophie engoliu em seco, sem saber onde deveria situar-se. Todos outros pareciam ter um lugar atribuído. Os criados estavam formados segundo categorias, do mordomo a mais humilde das criadas. Inclusive os cães estavam sentados em um canto, suas correias seguras firmemente pelo encarregado dos cães caçadores. Mas ela era uma desarraigada. Se de verdade fosse a filha da casa, estaria junto a sua preceptora esperando à nova condessa. Se de verdade fosse a pupila do conde, estaria nesse lugar também. Mas a senhorita Timmons tinha pegado uma forte gripe e se negara a sair da sala de estudo das crianças para descer. Nenhum dos criados acreditou nem por um instante que estivesse doente de verdade. Tinha estado muito bem a noite anterior, mas todos compreendiam


sua mentira. Depois de tudo, Sophie era a filha ilegítima do conde, e ninguém gostaria de ser a pessoa a fazer um insulto à condessa lhe apresentando à bastarda de seu marido. E a condessa teria que ser cega ou tola, ou as duas coisas, para não dar-se conta imediatamente de que a menina era algo mais que a pupila do conde. Repentinamente aflita pelo acanhamento, Sophie foi ficar em um canto, encolhida, quando dois lacaios abriram as portas com gesto triunfal. Primeiro entraram as duas meninas, que se puseram a um lado para que entrasse o conde levando a condessa. O conde apresentou à condessa e a suas filhas ao mordomo, e o mordomo lhes apresentou ao resto dos criados. E Sophie esperou. O mordomo apresentou aos lacaios, à cozinheira chefe, à governanta, aos cavalariços. E Sophie continuou esperando. Apresentou às cozinheiras, às criadas do piso superior, às faxineiras. E Sophie continuou esperando. Finalmente o mordomo, que se chamava Rumsey, apresentou a mais humilde das criadas, uma faxineira muito jovem chamada Dulcie que tinha entrado para trabalhar ali só há uma semana. O conde moveu a cabeça de cima abaixo, agradeceu, e Sophie seguia esperando, sem ter a menor ideia do que devia fazer. Então pigarreou e avançou um passo, com um nervoso sorriso no rosto. Não passava muito tempo com o conde, mas sempre que ele visitava Penwood Park a apresentavam a ele, e sempre lhe dedicava alguns minutos de seu tempo, para lhe perguntar como ia nas aulas e lições, e logo insistia para que voltasse para a sala das crianças. Com certeza ele continuaria querendo saber como estava os estudos, mesmo que tivesse se casado. Com certeza iria querer saber que já dominava a ciência de multiplicar frações e que não fazia muito a senhorita Timmons tinha declarado que sua pronúncia do francês era "perfeita". Mas ele estava ocupado dizendo algo às filhas da condessa e não a ouviu. Voltou a pigarrear, desta vez mais forte, e disse: -Milord? - notou que a voz lhe saiu mais trêmula do que tinha querido. O conde se voltou para ela. - Ah, Sophia. Não sabia que estava aqui. Sophie sorriu de orelha a orelha. Não era que ele tivesse feito caso omisso dela, depois de tudo.


-E quem é esta menina? - perguntou a condessa, aproximando-se mais para vê-la melhor. - Minha pupila. - respondeu o conde - A senhorita Sophia Beckett. A condessa lhe cravou um olhar avaliador, e entrecerrou os olhos. E os entrecerrou mais. E os entrecerrou mais ainda. - Já vejo... - disse. E todos os presentes no grande vestíbulo compreenderam imediatamente que o via. -Rosamund, - disse a condessa virando-se para suas duas filhas. - Posy. Venham comigo. As meninas ficaram imediatamente ao lado de sua mãe. Sophie se atreveu a lhes sorrir. A menor lhe correspondeu o sorriso, mas a maior, cujo cabelo era da cor do ouro batido, seguindo o exemplo de sua mãe, levantou o rosto apontando o nariz para cima e firmemente desviou a vista. Sophie engoliu em seco e voltou a sorrir à menina amistosa, mas desta vez a menina mordeu o lábio inferior, indecisa, e baixou a vista para o chão. Dando as costas a Sophie, a condessa disse ao conde: -Suponho que tem quartos preparados para Rosamund e Posy. -Sim. Perto da sala das crianças. Junto ao de Sophia. Depois de um longo silêncio, a condessa deve ter chegado à conclusão de que certas batalhas não se devem lutar diante dos criados, porque se limitou a dizer: -Agora desejo subir aos quartos. Em seguida partiu, levando com ela ao conde e a suas filhas. Sophie observou à família subir a escada e, quando as perdeu de vista no patamar, virou-se para a senhora Gibbons e lhe perguntou: - Acha que deveria subir para ajudá-las? Poderia mostrar a sala de estudo às meninas. A senhora Gibbons negou com a cabeça. -Pareciam cansadas, - mentiu - certamente precisam dormir uma sesta. Sophie franziu o cenho. Haviam-lhe dito que Rosamund tinha onze anos e Posy dez. Era bastante estranho que necessitassem uma sesta. A senhora Gibbons lhe deu uns tapinhas nas costas. -Será melhor que venha comigo. Será bom ter companhia, e a cozinheira me disse que acaba de tirar do forno uma boa quantidade de tortas doces. Acredito que ainda estão quentes.


Sophie assentiu e a seguiu. Nessa tarde teria tempo de sobra para conhecer as duas meninas. Mostraria-lhes a sala das crianças, tornariam-se amigas e dentro de pouco tempo seriam como irmãs. Sorriu. Seria maravilhoso ter irmãs. Acontece que Sophie não se encontrou com Rosamund nem com o Posy, nem com o conde nem a condessa, até o dia seguinte. Quando entrou na sala das crianças para jantar, viu que a mesa estava posta para duas pessoas, não para quatro, e a senhorita Timmons, que tinha se recuperado milagrosamente de sua doença, disse-lhe que Rosamund e Posy estavam tão cansadas pela viagem que não jantariam essa noite. Mas as meninas tinham que receber suas aulas, de modo que na manhã seguinte chegaram à sala arrastando penosamente os pés atrás da condessa. Sophie já levava quase uma hora trabalhando em suas lições, e levantou a vista de seu dever de aritmética com grande interesse. Mas desta vez não sorriu às meninas; pensou que era melhor não fazê-lo. -Senhorita Timmons. - disse a condessa. -Milady. - respondeu a senhorita Timmons inclinando-se em uma reverência. -O conde disse que você ensinará a minhas filhas. -Porei o maior esmero, milady. A condessa fez um gesto para a menina maior, a que tinha o cabelo dourado e os olhos cor aciano. Sophie pensou que era tão bonita como a boneca de porcelana que lhe enviara o conde de Londres quando fez sete anos. -Ela é Rosamund. - disse a condessa - Tem onze anos. E ela é Posy. acrescentou, indicando à outra menina, que não tinha afastado os olhos de seus sapatos - Tem dez. Sophie olhou ao Posy com grande interesse; a diferença de sua mãe e de sua irmã, tinha o cabelo e os olhos muito escuros, e as faces um pouco roliças. -Sophie também tem dez anos. - acrescentou a senhorita Timmons. A condessa franziu os lábios. -Quero que leve às meninas a fazer um percurso pela casa e jardim. A senhorita Timmons assentiu. -Muito bem. Sophie, deixe a lousa. Depois poderemos voltar para a aritmética... -Só minhas filhas. - interrompeu a condessa, com voz cálida e fria ao mesmo tempo - Quero falar com Sophie a sós. Sophie engoliu saliva e tratou de levantar a vista até os olhos da condessa, mas não conseguiu passar mais acima do queixo. Enquanto a senhorita


Timmons fazia sair as meninas sala, ficou de pé, esperando mais ordens da nova esposa de seu pai. -Sei quem é. - lhe disse a condessa logo que fechou a porta. -Mii....milady? -É sua bastarda, e não tente negá-lo. Sophie guardou silêncio. Essa era a verdade, claro, mas nunca ninguém o havia dito em voz alta. Ao menos não em sua cara. A condessa lhe agarrou o queixo e o apertou e puxou até que ela se viu obrigada a olhá-la nos olhos. - Escute, - disse a condessa em tom ameaçador - pode ser que viva em Penwood Park e que compartilhe as aulas com minhas filhas, mas não é outra coisa senão uma bastarda e isso será toda sua vida. Não cometa jamais, nunca, o engano de pensar que vale tanto como o resto de nós. Sophie deixou escapar um suave gemido. A condessa lhe tinha as unhas enterradas sob o queixo. -Meu marido, - continuou a condessa - sente uma espécie de equivocada obrigação por você. É admirável que se ocupe de reparar seus enganos, mas é um insulto para mim que a tenha em minha casa, alimente-a, vista-a e eduque-a como se fosse sua verdadeira filha. Mas era sua verdadeira filha, pensou Sophie, e essa tinha sido sua casa desde muito mais tempo que da condessa. A condessa lhe soltou bruscamente o queixo. - Não quero vê-la. - sibilou - Não quero que me fale, e não tente jamais estar em minha companhia. Tampouco falará com Rosamund nem com Posy fora das horas de aulas. Elas são as filhas da casa agora, e não devem associar-se com meninas de sua índole. Alguma pergunta? Sophie negou com a cabeça. -Estupendo. Dito isso, a condessa saiu rapidamente da sala, deixando Sophie com as pernas e os lábios trêmulos. E muitíssimas lágrimas. Com o tempo Sophie se foi inteirando de mais coisas a respeito de sua precária situação. Os criados sempre sabiam tudo, portanto tudo chegava finalmente a seus ouvidos. A condessa, cujo ou nome era Araminta, tinha insistido desde o primeiro dia que a expulsassem da casa. Mas o conde se negou. Não era necessário que amasse a Sophie, disse-lhe tranquilamente, nem sequer era necessário que gostasse dela; mas tinha que suportá-la. Ele tinha reconhecido sua


responsabilidade pela menina durante sete anos e não estava disposto a deixar de fazê-lo. Seguindo o exemplo da Araminta, Rosamund e Posy tratavam a Sophie com hostilidade e desdém, embora estivesse claro que o coração do Posy não era dado à tortura e a crueldade como era o de Rosamund. Não havia nada que Rosamund gostasse mais que beliscá-la e lhe retorcer a pele do dorso da mão quando a senhorita Timmons não estava olhando. Ela nunca dizia nada; duvidava que a senhorita Timmons tivesse coragem de repreender Rosamund (quem sem dúvida correria a contar uma falsidade a Araminta), e se alguém percebesse que suas mãos sempre tinham machucados, ninguém jamais o dizia. Posy lhe demonstrava amabilidade de tanto em tanto, embora com mais freqüência se limitasse a suspirar e dizer: -Minha mamãe diz que não devo ser simpática com você. Quanto ao conde, nunca intervinha. E assim continuou a vida de Sophie durante quatro anos, até que o conde surpreendeu a todo mundo uma tarde enquanto tomava o chá no jardim de rosas, quando, levando a mão ao peito e emitindo uma resfolegante exclamação, caiu de bruços sobre os paralelepípedos. Não recuperou o conhecimento. Sua morte foi uma comoção para todo mundo. O conde só tinha quarenta anos. Quem podia imaginar que lhe falharia o coração sendo tão jovem? E ninguém se surpreendeu mais que Araminta, que desde sua noite de bodas tinha tentado desesperadamente conceber ao muito importante herdeiro. -Poderia estar grávida! - apressou-se a dizer aos advogados do conde - Não podem dar o título a um primo longínquo. Eu poderia estar grávida Mas não estava grávida, e quando se leu o testamento do conde um mês depois (os advogados decidiram dar tempo à condessa para que comprovasse se estava grávida), Araminta se viu obrigada a sentar-se ao lado do novo conde, um jovem bastante dissipado que passava a maior parte do tempo bêbado. A maioria dos desejos expressos pelo conde em seu testamento era do tipo normal. Deixava legados aos criados leais. Deixava recursos para Rosamund, Posy e inclusive Sophie, assegurando respeitáveis dotes para as três meninas. E então o advogado chegou ao nome da Araminta. À minha esposa Araminta Gunnzngworth, condessa do Penwood, deixo uma renda anual de duas mil libras... -Só isso? - exclamó Araminta.


... a menos que aceite albergar, proteger e cuidar de minha pupila, a senhorita Sophia Maria Beckett, até que cumpra os vinte anos, em cujo caso a renda anual se triplicará a seis mil libras. -Não a quero... - sussurrou Araminta. -Não tem por que fazê-lo - lhe recordou o advogado - Pode... -Viver com umas míseras duas mil libras ao ano? - disparou ela - Acredito que não. O advogado, que vivia com bastante menos de duas mil libras ao ano, guardou silêncio. O novo conde, que tinha estado bebendo sem parar durante toda a reunião, limitou-se a encolher os ombros. Araminta ficou de pé. -Qual é sua decisão? – lhe perguntou o advogado. - Aceito-a. - respondeu ela em voz baixa. -Vou procurar à menina para dizer-lhe. Araminta negou com a cabeça. -Eu o direi pessoalmente. Mas quando Araminta encontrou Sophie calou umas quantas coisas importantes.


Capítulo 1 O convite mais cobiçado na temporada deste ano tem que ser sem dúvida alguma a do baile de máscaras na casa Bridgerton, que será celebrado na próxima segunda-feira. Com efeito, não se pode dar dois passos sem ver-se obrigada a escutar a alguma mamãe da alta sociedade fazendo elucidações sobre quem irá e, talvez o mais importante, quem se disfarçará do que. Entretanto, nenhum destes assuntos são nem de perto tão interessantes como o dos dois irmãos Bridgerton solteiros. (Antes que alguém assinale que existe um terceiro irmão Bridgerton solteiro, permitam que esta cronista lhes assegure que conhece muito bem a existência de Gregory Bridgerton. Mas só tem quatorze anos, portanto não corresponde falar dele nesta determinada coluna, que trata, como costuma tratar as colunas desta cronista, do mais sagrado dos esportes: a caça de marido.) Embora os senhores Bridgerton não possuam nenhum título de nobreza, são considerados dois dos principais partidos da temporada. É um fato conhecido que ambos são donos de respeitáveis fortunas, e não é preciso ser muito observador para perceber que também possuem a beleza Bridgerton, como a possuem os oito membros desta prole. Aproveitará alguma daminha o mistério de uma noite de máscaras para caçar a um dos cobiçados solteiros? Esta cronista nem sequer fará a tentativa de elucubrar. Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 31 de maio de 1815 Continuaram os gritos, fortes para romper os cristais, ou pelo menos um tímpano. -Vou Rosamund! Vou! Agarrando a saia de lã grossa, Sophie subiu depressa a escada, mas no quarto degrau escorregou e conseguiu o justo para agarrar-se ao corrimão para não cair sentada. Deveria ter recordado que os degraus estariam escorregadios; ela mesma tinha ajudado à criada do piso inferior a encerá-los essa manhã. Detendo-se com uma derrapagem na porta do dormitório de Rosamund, tratando de recuperar o fôlego, disse: -Sim? -O chá está frio. "Estava quente quando lhe trouxe a uma hora, folgazona pesada", desejou dizer Sophie, mas disse:


-Trarei outro bule. Rosamund inspirou. -Procura fazê-lo. Sophie esticou os lábios formando um gesto que os cegos poderiam chamar sorriso, e agarrou a bandeja. -Deixo as bolachas? Rosamund negou com sua formosa cabeça. -Quero das recém feitas. Com os ombros ligeiramente encurvados pelo peso do conteúdo da bandeja, Sophie saiu do quarto e teve bom cuidado de não começar a resmungar até quando se afastou bastante pelo corredor. Rosamund vivia pedindo chá e depois não se incomodava em tomá-lo até passada uma hora. Então, logicamente, o chá já se esfriara, por isso tinha que pedir que lhe levassem outro bule com chá quente. O que significava que ela vivia subindo e descendo a escada a toda pressa, acima e abaixo, acima e abaixo. Às vezes lhe parecia que isso era a única coisa que fazia em sua vida. Subir e descer, subir e descer. E claro, também tinha de arrumar a roupa, engomar, pentear, limpar e abrilhantar os sapatos, cerzir, remendar, fazer as camas, enfim. - Sophie! Virou-se e viu Posy caminhando para ela. -Sophie, queria perguntar-lhe, acha que esta cor me fica bem? Com olhar avaliador contemplou o disfarce de sereia que lhe mostrava Posy. O corte não era o adequado, pois Posy continuava conservando a gordura de quando era menina, mas a cor fazia ressaltar o melhor de sua pele. - É um belo matiz de verde. - respondeu, sinceramente - Faz com que fique com as faces muito rosadas. -Ah, que bom, alegra-me tanto que você goste. Tem um verdadeiro dom para escolher minha roupa. - sorrindo, estendeu a mão e agarrou uma bolacha açucarada da bandeja - A mãe esteve absolutamente insuportável comigo toda a semana pelo baile de máscaras, e sei que não verei o fim disso se não estiver bem. - acrescentou enrugando o rosto em uma careta - Se ela achar que estou bem. Está resolvida que uma de nós apanhe a um dos irmãos Bridgerton que estão solteiros, sabe? - Sei.


- E para piorar as coisas, essa mulher Whistledown tornou a escrever sobre eles. Isso só... - Posy guardou silêncio para terminar de mastigar e engolir – abre o apetite. -Era muito boa a coluna esta manhã? - perguntou Sophie, apoiando a bandeja na cadeira - Ainda não tive a oportunidade de lê-la. - Ora, o de sempre. - disse Posy agitando a mão - A verdade é que pode ser muito aborrecida, sabe? Sophie tentou sorrir e não conseguiu. Nada mais gostaria do que viver um dia da aborrecida vida de Posy. Bom, talvez, não gostaria de ter a Araminta por mãe; mas não lhe incomodaria uma vida de festas, saídas e noitadas musicais. - Vejamos, - falou entre dentes Posy - havia uma resenha sobre o último baile de lady Worth, um curto comentário sobre o visconde Guelph, que parece estar bastante apaixonado por uma moça da Escócia, e logo uma longa coluna sobre o próximo baile de máscaras dos Bridgerton. Sophie exalou um suspiro. Estava a semanas lendo a respeito desse baile de máscaras, e embora não fosse outra coisa que uma donzela da senhora (e de tanto em tanto criada também, sempre que Araminta considerava que não trabalhava o bastante) não podia deixar de desejar assistir a esse baile. - Eu por minha parte estaria encantada se esse visconde Guelph se comprometesse em matrimônio. - comentou Posy, agarrando outra bolacha Isso significará que mãe terá um solteiro a menos de que falar e falar como possível marido. E não é que eu tenha tido alguma esperança de atrair sua atenção de qualquer modo. – mordeu um bocado da bolacha, fazendo-a ranger forte - Espero que lady Whistledown tenha razão com respeito a ele. -Provavelmente tem. - respondeu Sophie. Lia a folha Ecos de Sociedade de Lady Whistledown desde que começou a aparecer em 1813, e a colunista de fofocas quase sempre tinha razão quando se tratava de assuntos do Mercado Matrimonial. Logicamente ela não tinha tido jamais a oportunidade de ver esse Mercado em pessoa, mas se alguém lia a Whistledown com suficiente freqüência quase podia sentir-se parte da Sociedade londrina sem ir a nenhum baile. Em realidade, ler a Whistledown era para ela um passatempo verdadeiramente agradável. Já tinha lido todas as novelas da biblioteca, e como nem Araminta, Rosamund ou Posy eram particularmente aficionadas à leitura, não tinha esperanças de que entrasse algum livro novo na casa. Mas a folha Whistledown era divertidíssima. Ninguém conhecia a verdadeira identidade da colunista. Quando fez sua primeira aparição a folha


informativa fazia dois anos, as elucubrações estiveram na ordem do dia. Inclusive nesse momento, sempre que lady Whistledown comentava alguma fofoca particularmente suculenta, a dama voltava a ser assunto de conversa e de hipóteses; voltava a curiosidade sobre quem demônios podia ser essa pessoa que informava com tanta rapidez e exatidão. Quanto à Sophie, para ela Whistledown era um sedutor espião do mundo que poderia ter sido o dela se seus pais tivessem legalizado sua união. Teria sido a filha do conde, não a bastarda; seu sobrenome teria sido Gunningworth, não Beckett. Embora só fosse uma vez, gostaria de ser ela quem subisse à carruagem e assistisse ao baile. Em lugar disso, era a que vestia às demais para suas saídas noturnas, rodeando o espartilho à Posy, penteando à Rosamund ou limpando um par de sapatos de Araminta. Mas não podia, ou ao menos não devia, queixar-se. Talvez tivesse que servir de criada a Araminta e a suas filhas, mas pelo menos tinha um lar, o que era mais do que tinham a maioria das moças em sua situação. Seu pai não lhe deixou nada ao morrer; bom, nada além de um teto sobre a cabeça. Com seu testamento se assegurou de que não a pudessem expulsá-la da casa até que tivesse vinte anos. De maneira nenhuma ia perder Araminta o direito a quatro mil libras anuais expulsando-a de casa. Mas essas quatro mil libras eram da Araminta, não dela, e jamais tinha visto nem um só penny delas. Desapareceram os formosos vestidos que se acostumou a usar, sendo substituídos pelos de lã grossa das criadas. E comia o que comiam as demais criadas, o que fosse que Araminta, Rosamund e Posy decidissem deixar de sobras. Entretanto, fazia quase um ano que chegara e passara seu vigésimo aniversário, e continuava vivendo na casa Penwood, seguia esforçando-se no serviço a Araminta. Por algum motivo desconhecido, fosse porque não queria formar (ou pagar) a outra criada, esta lhe tinha permitido continuar vivendo na casa. E ela continuou, claro. Se Araminta era o demônio que conhecia, o resto do mundo era o demônio que não conhecia. E ela não tinha idéia de qual podia ser pior. -Não te pesa muito essa bandeja? Sophie fechou e abriu os olhos para sair de sua refelexão e concentrou a atenção


em Posy, que estava agarrando a última bolacha da bandeja. -Sim, pesa bastante. E já deveria estar na cozinha com ela. Posy sorriu. -Não a deterei mais tempo, mas quando tiver acabado isso, poderia me engomar o vestido rosa? Vou pôr isso esta noite. Ah, e suponho que teria que limpar os sapatos a jogo também. Ficaram um pouco poeirentos a última vez que os pus e já sabe como é a mãe com os sapatos. Não importa que não se vejam sob minha saia. Ela se fixará na mínima partícula de pó no instante em que levantar a saia para subir um degrau. Sophie assentiu, acrescentando mentalmente essas petições a sua lista de afazeres diários. - Até mais tarde, então! - disse Posy e, engolindo o que restava de bolacha, desapareceu em seu dormitório. E Sophie desceu à cozinha. Passados uns dias, Sophie estava ajoelhada com alguns alfinetes entre os dentes, fazendo os acertos de último momento no disfarce da Araminta para o baile. O traje rainha Isabel tinha chegado perfeito da costureira, mas Araminta insistiu em que ficava um quarto de polegada mais largo na cintura. -Como está aí? - perguntou, falando entre dentes para que não lhe caíssem os alfinetes. -Demasiado apertado. Sophie mudou de lugar uns poucos alfinetes. -E agora? -Demasiado solto. Sophie tirou um alfinete e o prendeu justo no ponto onde tinha estado antes. -E agora, como está? Araminta virou o corpo para um lado e para o outro e, finalmente, declarou. -Assim está bem. Sorrindo para si mesma, Sophie ficou de pé para ajudá-la a tirar o vestido. - Necessitarei dele dentro de uma hora se quiser chegar a tempo ao baile. - disse Araminta. -Sim, é claro - respondeu Sophie. Tinha descoberto que em suas conversações com a Araminta era mais simples dizer muitas vezes "é claro". -Este baile é muito importante. - declarou Araminta muito seria Rosamund tem que obter um matrimônio vantajoso este ano. O novo conde... -


estremeceu desgostada; continuava considerando um intruso ao conde herdeiro, mesmo que fosse o parente vivo mais próximo do defunto conde . Bom, me disse que este é o último ano que podemos usar a casa Penwood de Londres. Que descaramento tem o homem. Eu sou a condessa viúva, depois de tudo, e Rosamund e Posy são as filhas do conde. "Enteadas", a corrigiu Sophie em silêncio. - Temos todo o direito a usar a casa Penwood para a temporada. Que planos tem ele para a casa, não saberei jamais. -Talvez deseje assistir às festas da temporada e procurar uma esposa. sugeriu Sophie - Desejará um herdeiro certamente. Araminta franziu o cenho. -Se Rosamund não se casa com um homem rico, não sei o que faremos. É muito difícil encontrar uma casa de aluguel adequada. E muito caro também. Sophie se absteve de comentar que pelo menos não tinha que pagar a uma criada. De fato, até que ela cumpriu os vinte anos, Araminta tinha recebido quatro mil libras ao ano simplesmente por ter uma criada. Araminta fez estalar os dedos. -Não esqueça que Rosamund necessitará que arrume seu o cabelo. Rosamund iria vestida de Maria Antonieta. Sophie tinha-lhe perguntado se pensava pôr uma fita vermelho sangue ao redor do pescoço. Rosamund não achou nenhuma graça na brincadeira. Araminta pôs seu vestido e atou a faixa com movimentos rápidos e tensos. - E Posy, - enrugou o nariz - bom, Posy necessitará de sua ajuda em uma ou outra coisa, com certeza. -Sempre estou feliz de ajudar Posy - replicou Sophie. Araminta entrecerrou os olhos, como tratando de determinar se isso tinha sido uma insolência. -Procura fazê-lo. - disse ao fim, pronunciando bem cada sílaba. Em seguida, saiu em direção ao quarto de banho. Sophie se ajeitou quando porta foi fechada. -Ah, está aqui, Sophie. - disse Rosamund irrompendo na sala – Necessito de sua ajuda imediatamente. -Creio que isso terá que esperar até... - Disse imediatamente! - gritou Rosamund. Sophie ajeitou os ombros e lhe dirigiu um olhar frio. - Sua mãe quer que lhe arrume o vestido. -Tire os alfinetes e lhe diga que já o arrumou. Não notará a diferença.


Sophie, que tinha considerado a possibilidade de fazer justamente isso, emitiu um gemido. Se fizesse o que lhe pedia Rosamund, esta iria contar no dia seguinte e Araminta destrambelharia e raiaria toda uma semana. Não tinha mais remédio que fazer o acerto. -O que necessita, Rosamund? -Há uma parte descosturada na prega de meu disfarce. Não tenho idéia de como se fez. -Talvez quando o provou... -Não seja impertinente! Sophie fechou a boca. Era muito mais difícil aceitar ordens de Rosamund que da Araminta, talvez porque em outro tempo tinham sido iguais, e compartilhavam a mesma sala-de-aula e a mesma preceptora. - Tem que repará-lo em seguida. - insistiu Rosamund, respirando afetadamente pelo nariz. Sophie suspirou. - Traga-o. O farei logo que acabe com o de sua mãe. Prometo-lhe que o terá com tempo de sobra. -Não quero chegar tarde a este baile. - advertiu Rosamund - Se me atrasar, vou querer sua cabeça em uma bandeja. -Não chegará tarde. - prometeu Sophie. Rosamund emitiu uma espécie de bufo mal-humorado e saiu correndo a procurar o traje. - Uuf! Sophie levantou a vista e viu Rosamund se chocar com o Posy, que ia entrando precipitadamente pela porta. -Olhe por onde anda Posy! - reclamou Rosamund. -Você também poderia olhar por onde anda! - replicou Posy. - Eu ia olhando. É impossível evitar a você, gorda. Com as faces tintas de vermelho subido, Posy se pôs a um lado. - Precisa de algo, Posy? - perguntou Sophie, logo que desapareceu Rosamund. -Sim. Poderia reservar um tempo extra para me pentear esta noite? Encontrei umas fitas verdes que têm certa semelhança a algas. Sophie fez uma longa expiração. As fitas verdes escuro não se veriam muito bem sobre o cabelo escuro da moça, mas não teve coragem para fazê-la notar. - Tentarei Posy, mas tenho que remendar o vestido de Rosamund e arrumar a cintura ao de sua mãe.


-Ah. A expressão do Posy era tão aflita que quase partiu o coração ao Sophie. Além dos criados, Posy era a única pessoa que era meio amável com ela na casa da Araminta. -Não se preocupe. - tranquilizou-a - Eu me encarregarei de que leve o cabelo bonito esta noite, tenhamos o tempo que tivermos. -Ai, obrigado, Sophie! Eu... -Ainda não começou a arrumar meu vestido? - trovejou Araminta, voltando do quarto de asseio. Sophie engoliu em seco. -Estive falando com Rosamund e Posy. Rosamund rasgou o vestido e... - Ponha-se a trabalhar! -Sim, imediatamente. – deixou-se cair no sofá e voltou o avesso do vestido para entrá-lo na cintura - Mais rápido que imediatamente, - murmurou - mais rápido que o bater das asas de um colibri, mais rápido que... -O que diz? - perguntou Araminta. -Nada. -Bom, deixa de tagarelar imediatamente. Acho particularmente irritante o som de sua voz. Sophie apertou os dentes. -Mamá - disse Posy - Esta noite Sophie me vai pentear como... -Pois claro que vai penteá-la. Deixa de perder o tempo e vá pôr compressas nos olhos para que não se vejam tão inchados. Posy ficou triste. -Tenho os olhos inchados? -Sempre tem as pálpebras inchadas. - replicou Araminta - Não lhe parece, Rosamund? Posy e Sophie olharam para a porta. Acabava de entrar Rosamund, vestida com o traje de Maria Antonieta. -Sempre. - concordou - Mas uma compressa irá bem, com certeza. -Está linda esta noite. - disse Araminta à Rosamund - E ainda nem começou a se preparar. Esse dourado do vestido faz jogo delicioso com seu cabelo. Sophie lançou um olhar compassivo para a morena Posy, que jamais recebia esses elogios de sua mãe. -Vai caçar um desses irmãos Bridgerton. - continuou Araminta. - Estou certa. Rosamund desceu os olhos recatadamente. Era uma expressão que tinha aperfeiçoado, e Sophie teve que reconhecer que lhe assentava muito bem. Mas


claro, tudo assentava bem à Rosamund. Seu cabelo dourado e seus olhos azuis faziam furor esse ano, e graças ao generoso dote disposto para ela pelo defunto conde, todos supunham que faria um brilhante matrimônio antes que terminasse a temporada. Sophie voltou a olhar à Posy, que estava contemplando a sua mãe com expressão triste e pensativa. -Você também está formosa, Posy. - lhe disse impulsivamente. Iluminaram-se os olhos de Posy. -Você acha? -É claro. E seu traje é muito original. Estou certa de que não haverá nenhuma outra sereia. -Como pode saber isso, Sophie? - perguntou-lhe Rosamund, rindo - Não lhe apresentaram em sociedade alguma vez. -Estou certa de que passará muito bem, Posy. - disse Sophie intencionalmente, sem fazer caso da brincadeira de Rosamund - Tenho-lhe uma inveja terrível. Tomara pudesse ir. Seu suave suspiro e seu desejo foram recebidos por um silêncio absoluto, que foi seguido pelas estridentes gargalhadas da Araminta e Rosamund. Até Posy soltou um risinho. -Ai, isso sim que está bom. - disse Araminta, quase sem fôlego de tanto rir - A pequena Sophie no baile dos Bridgerton. Não admitem bastardas em nossa sociedade, sabe? -Não disse que esperava ir, - respondeu Sophie, na defensiva - só disse que tomara pudesse. -Bom, não deveria nem se incomodar desejando-o. - repreendeu-a Rosamund - Se deseja coisas que de maneira nenhuma pode esperar, só vai ter decepções. Mas Sophie se esqueceu do que ia responder, porque nesse momento ocorreu algo muito estranho. No momento em que virou a cabeça para Rosamund, viu a governanta na porta. Esta era a senhora Gibbons, que tinha vindo de Penwood Park pra ocupar o posto deixado vazio ao morrer a governanta da casa da cidade. E quando Sophie a olhou nos olhos, a senhora Gibbons lhe piscou. Uma piscada! Não recordava ter visto jamais a senhora Gibbons dar uma piscada. -Sophie! Sophie! Não me ouviu? Sophie voltou seu distraído olhar para a Araminta. -Perdão. O que dizia?


- Estava lhe dizendo, - respondeu Araminta em tom antipático - que será melhor que se ponha a trabalhar em meu vestido imediatamente. Se chegarmos tarde ao baile você responderá por isso amanhã. -Sim, é claro. - se apressou a dizer Sophie. Enterrou a agulha no tecido e começou a costurar, mas sua mente seguia na senhora Gibbons. Uma piscada? Que demônios significava essa piscada? Três horas depois, Sophie estava nos degraus da porta principal da casa Penwood olhando como Araminta, Rosamund e logo Posy agarravam uma a uma a mão do lacaio e subiam à carruagem. Fez um gesto de despedida à Posy, que o correspondeu, e depois ficou observando a carruagem avançar pela rua até desaparecer na esquina. A mansão Bridgerton, onde aconteceria o baile de máscaras, estava só seis quarteirões de distância, mas Araminta teria insistido em fazer o trajeto em carruagem mesmo se a casa estivesse ao lado. Era importante fazer uma grandiosa entrada, depois de tudo. Exalando um suspiro, subiu a escadaria para entrar na casa. Pelo menos, com a emoção do momento, Araminta tinha esquecido de deixar uma lista de tarefas para ela fazer durante sua ausência. Uma noite livre era um verdadeiro luxo; talvez relesse uma novela. Ou talvez pudesse encontrar a edição do Whistledown desse dia. Pareceu-lhe recordar ter visto Rosamund entrar com a folha em seu quarto essa tarde. Mas no preciso instante em que entrou pela porta, se materializou a senhora Gibbons, como saída de nenhuma parte, e lhe agarrou o braço. -Não há tempo a perder! - disse. Sophie a olhou como se tivesse perdido o juízo. -Como disse? A senhora Gibbons puxou a sua manga pelo cotovelo. -Venha comigo. Sophie se deixou levar pelos três lances de escada até seu quarto, um diminuto cômodo metido sob o beiral. A senhora Gibbons agia de modo muito peculiar, mas fez sua vontade e a seguiu. A governanta sempre a tratava com excepcional amabilidade, mesmo que estivesse claro que Araminta desaprovava isso. - Tem que se despir. - disse a senhora Gibbons ao pegar a maçaneta da porta. -O que?


- Temos que nos apressar. - Mas, senhora Gibbons... - perdeu a voz e ficou olhando boquiaberta a cena que tinha lugar em seu dormitório. No centro havia uma banheira, fumegante pelo vapor de água quente, e as três criadas estavam ocupadíssimas ao redor. Alguém estava despejando um balde de água quente na banheira, outra estava tratando de abrir a fechadura de um arca de aspecto misterioso, e a outra segurava uma toalha, dizendo: -Depressa! Depressa! Sophie as olhou a todas, desconcertada. -O que se passa aqui? A senhora Gibbons se virou para olhá-la e sorriu de orelha a orelha. - Você, senhorita Sophie Beckett, vai ao baile de máscaras. Uma hora depois, Sophie estava transformada. A arca continha vestidos da falecida mãe do conde. Todos eram antiquados, de cinqüenta anos atrás, mas isso não importava. Era um baile de máscaras; ninguém esperava que os trajes fossem da última moda. Ao fundo da arca tinham encontrado um lindo vestido de brilhante seda cor prata, com um apertado corpete com incrustações de pérolas e o tipo de saia rodada sobre anáguas que fora tão popular no século anterior. Sophie se sentiu como uma princesa em apenas tocá-lo. Tinha um certo aroma rançoso por ter estado anos na arca, e uma das criadas o sacudiu para arejá-lo e o orvalhou com um pouco de água de rosas. Tinham-na banhado, perfumado e penteado, e inclusive uma das criadas lhe aplicou um pouco de batom. -Não diga à senhorita Rosamund... - lhe sussurrou enquanto aplicava peguei-o de sua coleção. -Ooooh, olhem, - exclamou a senhora Gibbons - encontrei umas luvas a jogo. Sophie levantou a vista e a viu sustentando um par de luvas longas até o cotovelo. -Olhe - disse, pegando uma das luvas e examinando-a - o brasão Penwood. E leva um monograma, justo na borda. A senhora Gibbons voltou à que tinha na mão. - S I G. Sara Louisa Gunningworth. Sua avó. Sophie a olhou surpreendida. A senhora Gibbons nunca se referiu ao conde como a seu pai. Jamais ninguém no Penwood Park tinha reconhecido com palavras seus laços sangüíneos com a família Gunningworth.


- Bem, pois, é sua avó. - afirmou a senhora Gibbons - Todos dançamos em torno do assunto durante muito tempo. É um crime que Rosamund e Posy sejam tratadas como as filhas da casa e que você, a verdadeira filha do conde, tenha que varrer e servir como uma criada. As três criadas assentiram, expressando sua concordância. -Por uma vez, - continuou a senhora Gibbons - por uma só noite, será você a rainha do baile. Sorrindo, fez girar Sophie até deixá-la de frente o espelho. Sophie reteve o fôlego. -Essa sou eu? A senhora Gibbons assentiu, com os olhos suspeitadamente brilhantes. -Está linda, querida. - sussurrou. Sophie levantou lentamente uma mão para tocar o cabelo. -Não o amasse! - gritou uma das criadas. -Não o amassarei. - prometeu Sophie, com os lábios trêmulos ao sorrir, pois tratava de impedir que lhe saísse uma lágrima. Tinham-lhe posto um toque de brilhante pós no cabelo, por isso toda ela brilhava como uma princesa de conto de fadas. Tinham-lhe recolhido os cachos loiro escuro no alto da cabeça, em uma espécie de coque solto, deixando cair uma espessa cabeleira passando o pescoço. Seus olhos, normalmente verde musgo, brilhavam como esmeraldas. Embora ela suspeitasse que o brilho tivesse mais a ver com as lágrimas não derramadas que com qualquer outra coisa. -Esta é sua máscara. - disse energicamente a senhora Gibbons. Era uma máscara, do tipo que se prende atrás, por isso Sophie não teria que ocupar uma mão em segurá-la. Agora só nos falta um par de sapatos. Sophie olhou pesarosa para seus sapatos de trabalho, práticos e feios, que estavam em um canto. -Não tenho nada adequado para esta elegância. - disse. A criada que lhe tinha pintado os lábios levantou um par de delicados sapatos brancos. -Do roupeiro de Rosamund. - declarou. Sophie colocou o pé direito no sapato correspondente e o tirou com a mesma rapidez. -Demasiado grande. - disse, olhando à senhora Gibbons - Não poderia caminhar com eles. -Vá procurar um par no roupeiro de Posy. - disse a senhora Gibbons à criada.


-São maiores ainda. - disse Sophie – Sei por que limpei muitas marcas de arranhões neles. A senhora Gibbons exalou um longo suspiro. -Não há nada que fazer aí, então. Teremos que assaltar a coleção da Araminta. Sophie estremeceu. A idéia de caminhar a qualquer parte com os pés metidos em sapatos da Araminta lhe produzia repulsa. Mas era isso ou ir descalça, e não achava que os pés descalços fossem aceitáveis em um elegante baile de máscaras de Londres. Em poucos minutos a criada voltou com um par de sapatos de cetim branco, costurados com fio de prata e adornados com preciosas rosas de diamantes falsos. Sophie continuava sentindo apreensão por usar sapatos de Araminta, mas de qualquer modo calçou um. Calçavam à perfeição. -E combinam também, - disse uma das criadas apontando os pontos em fio de prata - como se fossem feitos para o vestido. -Não temos tempo para admirar sapatos. - disse repentinamente a senhora Gibbons -Agora escuta atentamente as instruções. O cocheiro voltou depois de deixar a condessa e as meninas, e a levará a casa Bridgerton. Mas tem que estar esperando fora quando elas desejarem partir, o que significa que tem que sair a meia-noite, e nem um segundo só mais tarde. Entende? Sophie assentiu e olhou o relógio da parede. Passava um pouco das nove, o que significava que poderia permanecer mais de duas horas no baile. - Obrigada. – sussurrou - Oh, muitíssimo obrigada. A senhora Gibbons limpou as lágrimas com um lenço. -Aproveite bem, carinho. Isso é o único agradecimento que necessito. Sophie voltou a olhar o relógio. Duas horas. Duas horas que teria que fazer durar toda uma vida.


Capítulo 2 Os Bridgerton são uma família realmente única. Com certeza não há ninguém em Londres que não saiba que a semelhança entre eles é extraornaria ou que seus nomes seguem a ordem alfabética: Anthony, Benedict, Colin, Daphne, Eloise, Francesca, Gregory e Hyacinth. Isto leva a pensar que nome teriam posto o defunto visconde e a viscondessa viúva (ainda muito viva) a seu nono filho ou filha se o ou a tivessem tido. Imogen? lnigo? Talvez tenha sido melhor terem se detido em oito. Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 2 de junho de 1815. Benedict Bridgerton era o segundo de oito irmãos, mas às vezes tinha a impressão de que eram cem. Esse baile em que tanto tinha insistido sua mãe tinha que ser à fantasia, portanto tinha posto obedientemente um traje negro, mas todos sabiam quem era, ou melhor, quase todos sabiam. "Um Bridgerton!", exclamariam dando palmadas alegremente. "Você tem que ser um Bridgerton!". "Um Bridgerton! Sou capaz de conhecer um Bridgerton onde for." Benedict era um Bridgerton, sim, e embora não houvesse nenhuma outra família a que desejasse pertencer, às vezes desejava que o considerassem menos um Bridgerton e mais ele mesmo. Justo quando estava pensando nisso, passou a seu lado uma mulher de idade parcialmente indefinida, disfarçada de pastora. -Um Bridgerton! – gorjeou - Reconheceria esse cabelo castanho em qualquer parte. Qual é? Não, não o diga, me deixe adivinhar. Não é o visconde porque acabo de vê-lo. Tem que ser o número dois ou o número três. Benedict a olhou imperturbável. -Qual é? O Número Dois ou o Número Três? -Dois. - disse ele entre dentes. Ela juntou as mãos. -Isso, foi o que pensei! Ah, tenho que encontrar a porta. Disse-lhe que foi o número dois... Benedict esteve a ponto de grunhir. -... Mas ela não disse, não é o menor, mas eu...


Benedict sentiu a repentina necessidade de afastar-se. Ou se afastava ou matava a essa boba histérica, e havendo tantas testemunhas, certamente não sairia impune. -Se me desculpa, - disse calmamente - vejo uma pessoa com quem devo falar. Era mentira, mas o que importava? Depois de fazer uma seca inclinação de cabeça ante a velha pastora, caminhou em linha reta para a porta lateral do salão, ansioso por escapar da multidão e esconder-se no estúdio de seu irmão, onde poderia encontrar um pouco de bendito silêncio e tranqüilidade e talvez uma taça de bom conhaque. - Benedict! Condenação. Tinha estado a ponto de conseguir escapar. Levantou a vista e viu sua mãe caminhando a toda pressa para ele. Levava um traje de estilo isabelino. Supunha que sua intenção tinha sido disfarçar-se de um personagem de Shakespeare, mas por sua vida que não tinha idéia de qual. -O que posso fazer por você, mãe? E não me diga "Dança com Hermione Smythe-Smith". A última vez que dancei com ela quase perdi três dedos dos pés. -Não tencionava lhe pedir nada desse tipo, - respondeu Violet - ia pedir que dançasse com Prudence Featherington. -Tem piedade, mãe... - gemeu ele - É pior ainda. -Não lhe peço que se case com a mocinha. Só que dance com ela. Benedict reprimiu um gemido. Prudence Featherington, embora, no fundo, fosse uma pessoa simpática, tinha o cérebro do tamanho de uma ervilha, e uma risada tão irritante que tinha visto homens adultos fugir com as mãos nos ouvidos. -Direi que... - propôs em tom bajulador - dançarei com Penélope Featherington se você mantiver à distância a Prudence. -Está bem. - disse Violet, assentindo com ar satisfeito, lhe dando a deprimente sensação de que sua intenção tinha sido desde o começo fazê-lo dançar com Penélope - Está ali, junto à mesa da limonada, - acrescentou vestida de duende, pobrezinha. A cor lhe fica bem, mas alguém deveria acompanhar sua mãe a próxima vez que se aventurem a visitar a costureira. Não consigo imaginar um disfarce mais desafortunado. -Está claro que ainda não viu a sereia. - sussurrou Benedict. Golpeou-lhe levemente o braço. -Não zombe das convidadas.


-Mas é que fazem isso tão fácil. - Vou procurar a sua irmã. - disse ela depois de lhe dirigir um sério olhar de advertência. -Qual? -A uma das que não estão casadas. - respondeu Violet descaradamente Pode ser que o visconde Guelph esteja interessado nessa moça escocesa, mas ainda não estão comprometidos. Em silencio Benedict desejou sorte a Guelph. O pobre homem a necessitaria. -E obrigado por dançar com Penélope. Ele meio que lhe sorriu irônico. Os dois sabiam que essas palavras não eram um agradecimento, mas um aviso. Cruzando os braços em uma postura um tanto severa, ficou um momento observando sua mãe afastar-se; finalmente fez uma longa inspiração e se virou para dirigir-se à mesa de limonada. Adorava a sua mãe com loucura, mas tratando-se da vida social de seus filhos ela pecava pelo lado da intromissão. E se havia algo que a incomodava mais ainda que o celibato de seu filho, era ver o rosto triste de uma jovenzinha quando ninguém a convidava para dançar. Em conseqüência disso, ele passava a maior parte do tempo na pista de baile, às vezes com mocinhas com quem ela queria que se casasse; mas com mais frequência com aquelas feias que ninguém olhava. Dos dois tipos de moças, ele pensava preferir as feias. As jovenzinhas populares tendiam a ser superficiais e, para ser franco, um tanto aborrecidas. Sua mãe sempre tinha tido uma especial simpatia por Penélope Featherington, que estava em sua ... franziu o cenho, sua terceira temporada? Tinha que ser a terceira, e sem nenhuma perspectiva de matrimônio à vista. Ah, bom, bem que poderia cumprir com seu dever. Penélope era uma jovem bastante simpática, com personalidade e uma inteligência decente. Algum dia encontraria um marido. Não seria ele, logicamente, e com toda sinceridade, talvez não fosse nenhum de seus conhecidos, mas certamente encontraria alguém. Suspirando pôs-se a andar para a mesa de limonada. Virtualmente sentia na boca o sabor meloso e amadurecido desse conhaque, mas um copo de limonada o ajudaria a sair do apuro por um momento. -Senhorita Featherington! - exclamou, e tratou de não estremecer ao ver voltar-se as três senhoritas Featherington. Com um sorriso que sabia era muito, muito débil, acrescentou. - Isto... Penélope, eu quis dizer.


De uns quinze palmos de distância, Penélope lhe sorriu de orelha a orelha, e ele recordou que gostava de Penélope Featherington. Em realidade, não a consideraria tão pouco atraente se não estivesse sempre acompanhada por suas desafortunadas irmãs, que facilmente podiam fazer um homem desejar agarrar um navio rumo à Austrália. Quase tinha vencido a distância que os separava quando ouviu atrás dele um rouco murmúrio de sussurros que se ia propagando pelo salão de baile. Devia continuar caminhando para acabar de uma vez com essa dança obrigatória, mas, misericórdia, Senhor, sua curiosidade pôde mais e se virou para olhar. E se encontrou olhando a uma mulher que deveria ser a mais impressionante que tinha visto em toda sua vida. Nem sequer sabia se era formosa. Seu cabelo era de um loiro escuro bastante comum, e com sua máscara bem atada atrás da cabeça, não lhe via nem a metade do rosto. Mas havia algo nela que de certa forma o hipnotizava. Era seu sorriso, a forma de seus olhos, sua superioridade, sua maneira de olhar o salão de baile como se jamais tivesse tido uma visão mais gloriosa que a dos tolos membros da alta sociedade, todos vestidos com ridículas fantasias. Sua beleza irradiava de dentro. Brilhava. Resplandecia. Era uma mulher absolutamente radiante, e de repente Benedict compreendeu que isso se devia ao fato de que parecia condenadamente feliz. Feliz de estar onde estava, feliz por ser quem era. Feliz de uma maneira que ele escassamente recordava. A sua era uma boa vida, talvez inclusive uma vida fabulosa. Tinha sete irmãos maravilhosos, uma mãe amorosa e vintenas de amigos. Mas essa mulher... Essa mulher conhecia a sorte. E ele tinha que conhecê-la. Esquecido de Penélope, ele abriu passagem entre a multidão até encontrar-se a uns poucos passos dela. Outros três cavalheiros tinham chegado antes a seu destino e nesse momento estavam derramando sobre ela elogios e adulações. Ele a observou com interesse; ela não reagia como teria reagido nenhuma das mulheres que conhecia. Não agia com coqueteria; tampouco agia como se soubesse que merecia os elogios. Sua atitude não era tímida, afetada, maliciosa nem irônica, nem nenhuma dessas coisas que se podem esperar de uma mulher.


Simplesmente sorria. Um largo sorriso, em realidade. Ele supunha que os elogios produziriam certa quantidade de felicidade à receptora, mas jamais tinha visto uma mulher que reagisse com uma alegria tão pura, tão autêntica. Avançou outro passo. Desejava essa alegria para ele. -Desculpem-me, senhores, mas a dama já me prometeu esta dança. mentiu. Os buracos da máscara dela eram bastante amplos e ele a viu arregalar os olhos e depois entrecerrá-los com umas ruguinhas nas comissuras, como se sentisse divertida. Estendeu-lhe a mão, desafiando-a a contradizê-lo. Mas lhe sorriu com um largo e radiante sorriso que lhe perfurou a pele e foi tocar lhe diretamente a alma. Ela pôs a mão na dele e só então ele se deu conta de que tinha estado retendo o fôlego. -Tem permissão para dançar a valsa? - lhe sussurrou quando foram chegando à pista de baile. Ela negou com a cabeça. -Não danço. - Brinca. - Pois não. A verdade é que, - acercou um pouco o rosto a ele e com um pequeno sorriso, continuou - não sei dançar. Ele a olhou surpreso. Ela caminhava com uma elegância inata; além disso, que dama de boa criação podia chegar a essa idade sem ter aprendido a dançar? -Então só há uma coisa a fazer... - sussurrou - Eu lhe ensinarei. Ela arregalou os olhos, abriu a boca e deixou escapar uma risada de surpresa. -O que lhe parece tão divertido? - perguntou ele, tratando de fazer sério seu tom. Sorriu-lhe, com esse tipo de sorriso que se esperaria de um companheiro de colégio, não de uma dama em seu primeiro baile. Sem deixar de sorrir, lhe disse: -Inclusive eu sei que não se dão aulas de dança em um baile. - O que quer dizer, pergunto-me, esse "inclusive eu"? Ela guardou silêncio. - Então terei que aproveitar a vantagem e obrigá-la a obedecer. -Me obrigar? Mas disse isso sorrindo, fazendo-o compreender que não estava ofendida. -Seria muito pouco cavalheiresco de minha parte permitir que continue nesta lamentável situação.


-Você diz lamentável? Ele encolheu os ombros. -Uma formosa dama que não sabe dançar. Parece-me um crime, é antinatural. -Se lhe permito me ensinar... -Quando me permitir lhe ensinar... -Se lhe permito me ensinar, onde me dará a aula? Benedict ergueu o queixo e passeou a vista pelo salão. Não lhe era difícil ver por cima das cabeças dos convidados; com sua altura de mais de um metro oitenta, era um dos homens mais altos do salão. -Nos retiraremos ao terraço. - disse finalmente. -Ao terraço? - repetiu ela - Não estará terrivelmente lotado? É uma noite quente. -Não, ao terraço privado. - sussurrou ele aproximando-se mais. -Disse ao terraço privado? E como sabe da existência de um terraço privado? Benedict a olhou fixamente, compenetrado. Era possível que ela não soubesse quem era ele? Sua opinião de si mesmo não era tão elevada para supor que toda Londres conhecesse sua identidade. Simplesmente era um Bridgerton, e se uma pessoa conhecia um Bridgerton, geralmente significava que era capaz de reconhecer a outro. E como não havia ninguém em Londres que não cruzara com um ou outro Bridgerton, o reconheciam em todas as partes. Mesmo que, pensou pesaroso, esse reconhecimento fosse simplesmente como o "Número Dois". -Não respondeu minha pergunta. - lhe recordou a dama misteriosa. - Sobre o terraço privado, - levantou sua mão até seus lábios e beijou a fina seda da luva. - nos limitemos a dizer que tenho meus métodos. Ela pareceu indecisa, de modo que ele puxou sua mão, aproximando-a mais, não mais de uma polegada, mas em certo modo teve a impressão de que ela estava só a distância de um beijo. -Venha... – disse - Dance comigo. Ela avançou um passo e nesse instante ele soube que sua vida tinha mudado para sempre. Sophie não o viu quando entrou no salão, mas percebeu a magia no ar, e quando ele apareceu em frente a ela, como um príncipe encantado de um conto de crianças, sem saber como, teve a clara sensação de que ele era o motivo porque ela se introduzira furtivamente no baile.


Era alto, e seu rosto, o que deixava ver a máscara, era muito formoso; uns lábios que insinuavam ironia e sorrisos, e uma pele lisa, ligeiramente escurecida por uma barba de um dia. Seu cabelo era de uma deliciosa cor castanha escura, brilhando à luz das velas que davam reflexos avermelhados. As pessoas pareciam saber quem era; observou que quando ele avançava, os convidados se faziam a um lado para lhe deixar passagem. E quando mentiu tão descaradamente assegurando que lhe tinha prometido essa dança, os outros homens aceitaram e se afastaram. Era bonito e forte, e por essa única noite, era dela. Quando o relógio desse as doze da noite, ela voltaria para sua monótona e penosa vida de trabalho, de remendar, lavar e atender a todos os desejos da Araminta. Tão mau era desejar essa embriagadora noite de magia e amor? Sentia-se como uma princesa, uma princesa temerária, de modo que quando ele a convidou a dançar, ela colocou sua mão na dele. E embora soubesse que toda essa noite era uma mentira, que ela era a filha bastarda de um nobre e a criada de uma condessa, que seu vestido era emprestado e seus sapatos virtualmente roubados, nada disso pareceu importar quando entrelaçou seus dedos com os dele. Por umas poucas horas ao menos podia simular que esse cavalheiro era "seu" cavalheiro e que a partir desse momento sua vida mudaria para sempre. Não era outra coisa que um sonho, mas fazia tanto tempo que não se permitia sonhar... Jogando longe toda prudência, permitiu-lhe conduzi-la fora do salão de baile. Ele caminhava rápido, mesmo tendo que abrir passagem em meio à vibrante multidão, e se surpreendeu rindo enquanto andava atrás dele. -Por que tenho a impressão de que sempre está rindo de mim? perguntou ele, detendo-se um instante ao chegar ao corredor contíguo ao salão. Ela voltou a rir; não pôde evitá-lo. -Me sinto feliz. - respondeu, e encolheu os ombros, indecisa - Estou muito feliz por estar aqui. -E isso por quê? Um baile como este deve ser uma rotina para uma dama como você. Sophie sorriu. Se ele a achava membro da alta sociedade, uma graduada de muitos bailes e festas, isso queria dizer que estava representando seu papel à perfeição. Tocou-lhe a curva da boca. -Sempre está sorrindo... - murmurou.


- Gosto de sorrir. A mão dele encontrou sua cintura e a aproximou mais. A distância entre seus corpos continuava sendo respeitável, mas a maior proximidade tirou o fôlego dela. - Gosto de vê-la sorrir. - disse ele. Disse essas palavras em voz baixa e sedutora, mas ela notou um tom estranhamente rouco em sua voz e quase se permitiu acreditar que ele o dizia a sério, e, que ela não era simplesmente uma mera conquista dessa noite. Mas antes que pudesse responder soou uma voz acusadora na porta que dava ao salão. -Aí está! O estômago de Sophie deu um salto e lhe subiu até a garganta. Tinham-na descoberto, iriam jogá-la na rua e no dia seguinte talvez a meteriam na prisão por ter roubado os sapatos da Araminta e... O homem que tinha falado já estava ao seu lado e estava dizendo a seu misterioso cavalheiro: - A mãe o andou procurando por toda parte. Escapuliu de sua dança com Penélope e eu tive que ocupar seu lugar. -Sinto muito. - disse seu cavalheiro. Isso não pareceu bastar como desculpa ao recém-chegado, porque franziu terrivelmente o cenho e acrescentou: -Se escapa da festa e abandona essa manada de mocinhas do demônio, juro-lhe que exigirei vingança até o dia de minha morte. - Risco este que estou disposto a correr. - disse seu cavalheiro. -Bem, eu o substituí com Penélope. - grunhiu o outro - Teve sorte de que eu estivesse perto. Pareceu-me que rompia o coração da pobre moça quando se afastou. O cavalheiro teve a elegância de ruborizar-se. -Algumas coisas são inevitáveis, acredito. - disse. Sophie olhou de um ao outro. Inclusive sob suas máscaras era mais que evidente que eram irmãos, e em um relâmpago de luz compreendeu que tinham que ser os irmãos Bridgerton, e que essa tinha que ser sua casa e... Ai, bom Deus, passou por um ridículo total ao lhe perguntar como sabia da existência de um terraço privado. Mas qual dos irmãos era? Benedict. Tinha que ser Benedict. Enviou silenciosos agradecimentos para lady Whistledown, que uma vez escreveu uma coluna dedicada exclusivamente a explicar as diferenças entre os irmãos Bridgerton. Benedict, ela recordava, se distinguia como o mais alto.


O homem que a fazia pulsar o coração três vezes mais rápido do que o normal ultrapassava bons dois dedos a altura de seu irmão. E de repente se deu conta de que o tal irmão a estava olhando muito atentamente. -Compreendo por que partiu. - disse Colin. Tinha que ser Colin; de maneira nenhuma podia ser Gregory, que só tinha quatorze anos; e Anthony estava casado, de modo que não lhe importaria se Benedict escapava da festa deixando-o só para defender-se das mocinhas recém apresentadas em sociedade. Colin olhou Benedict com expressão ardilosa. -Poderia pedir uma apresentação? Benedict arqueou uma sobrancelha. - Pode tentar, mas duvido que tenha êxito. Eu ainda não me inteirei de seu nome. -Não o perguntou. - respondeu Sophie, sem poder evitar. -E me diria isso se o perguntasse? -Lhe diria algo. -Mas não a verdade. Ela negou com a cabeça. -Esta não é uma noite para verdades. -Meu tipo favorito de noite. - disse Colin em tom satisfeito. -Não tem nenhum outro lugar para estar? - perguntou-lhe Benedict. -Com certeza a mãe preferiria que estivesse no salão de baile, mas isso não é precisamente uma exigência. -Eu o exijo. - replicou Benedict. Sophie sentiu borbulhar um risinho na garganta. -Muito bem. - suspirou Colin - Irei daqui a pouco. -Excelente. - disse Benedict. -Eu sozinho frente a tantas lobas... -Lobas? - repetiu Sophie. -Damas muito cotadas para esposas, - esclareceu Colin - uma manada de lobas famintas, todas elas. À exceção da presente, logicamente. Sophie achou melhor não explicar que ela não era uma "dama cotada". -Nada mais do que gostaria minha mãe... - começou Colin. Benedict o interrompeu com um gemido. -... que seria ver casado o meu querido irmão mais velho. - terminou Colin. Guardou silêncio um instante para pesar suas palavras - Com a exceção talvez de ver-me casado.


- Ainda que só seja para que deixe a casa. - acrescentou Benedict, sarcástico. Desta vez Sophie emitiu um risinho. - Mas claro, ele é consideravelmente mais velho, - continuou Colin - assim talvez devessem enviá-lo primeiro à forca, h... quero dizer, ao altar. -Tem algum bom argumento? - grunhiu Benedict. -Não, nenhum. - reconheceu Colin - Mas claro, nunca tenho. -Disse a verdade. - afirmou Benedict olhando Sophie. -Assim, pois, - disse Colin à Sophie fazendo um grandioso gesto com o braço - terá piedade de minha pobre e sofrida mãe e levará a meu querido irmão pelo corredor? -Bem, não me pediu isso. - respondeu ela, tratando de entrar no humor do momento. -Quanto bebeste? - grunhiu Benedict. -Eu? - perguntou Sophie. - Ele. -Nada absolutamente, - replicou Colin alegremente - mas estou pensando seriamente em remediar isso. Na realidade, isso poderia ser a única coisa que me faça suportável esta noite. -Se a busca de bebida o afasta de minha presença, certamente isso será o único que me faça suportável esta noite. - disse Benedict. Colin sorriu de orelha a orelha, fez-lhes uma saudação, e se afastou. - É agradável ver dois irmãos que se querem tanto. - comentou Sophie. Benedict, que estava olhando com expressão ameaçadora para a porta por onde acabava de desaparecer seu irmão, voltou bruscamente a atenção para ela. -A isso chama querer-se? Sophie pensou em Rosamund e Posy, que viviam insultando-se, e não em brincadeira. -Sim. – afirmou - É evidente que você daria sua vida por ele. E ele por você. -Suponho que tenha razão. - disse ele, com um suspiro de aborrecimento, e logo estragou o efeito sorrindo - Por muito que me doa reconhecê-lo. Apoiou as costas na parede e cruzou os braços, adotando um aspecto terrivelmente sofisticado e educado - Me diga, então, tem irmãos? Sophie refletiu um momento e logo respondeu decidida: - Não. Ele ergueu uma sobrancelha em um arco estranhamente arrogante, e inclinou ligeiramente a cabeça.


- Acho bastante curioso que tenha demorado tanto em decidir a resposta a essa pergunta. Eu diria que teria que ser muito fácil encontrar a resposta. Sophie desviou o olhar um momento. Não queria que ele visse a pena que sem dúvida se refletiria em seus olhos. Sempre tinha desejado ter uma família. Em realidade não havia nada na vida que tivesse desejado mais. Seu pai jamais a reconheceu como sua filha, nem sequer na intimidade, e sua mãe morreu ao dar-lhe a luz. Araminta a tratava como à peste, e certamente Rosamund e Posy jamais tinham sido irmãs para ela. De vez em quando Posy se comportava como uma amiga, mas inclusive ela, passava a maior parte do dia lhe pedindo que lhe remendasse um vestido, arrumasse-lhe o cabelo ou lhe limpasse uns sapatos. E verdade seja dita, mesmo que Posy lhe pedisse as coisas, não ordenava, como faziam sua irmã e sua mãe, ela não tinha precisamente a opção de negarse. -Sou filha única. - disse finalmente. -E isso é tudo o que vai dizer sobre o assunto. - disse Benedict. -E isso é tudo o que vou dizer sobre o assunto. – confirmou ela. -Muito bem. - disse ele sorrindo, com esse preguiçoso sorriso masculino O que me está permitido perguntar, então? - Na verdade, nada. -Nada de nada? -Suponho que poderia me sentir induzida a lhe dizer que minha cor preferida é o verde, mas além disso não lhe darei nenhuma pista sobre minha identidade. -Por que tantos segredos? -Se respondesse a isso, - replicou ela com um sorriso enigmático, realmente entusiasmada com seu papel de misteriosa desconhecida - isso seria o fim de meus segredos, não é verdade? Ele se aproximou muito, muito ligeiramente. - Sempre poderia criar-se mais segredos. Sophie retrocedeu um passo. O olhar dele se tornou ardente, e ela tinha ouvido muitas conversas no quarto dos criados para saber o que significava isso. Por mais emocionante que fosse isso, não era tão ousada como simulava ser. -Toda esta noite já é suficiente. - disse. -Então me pergunte algo. Eu não tenho nenhum segredo. Ela arregalou os olhos. -Nenhum? Seriamente? Não tem segredos todo mundo? -Eu não. Minha vida é absolutamente normal. - Isso sim, é que custo acreditar.


- É verdade. - disse ele, encolhendo os ombros - Jamais seduzi a uma inocente, e nem sequer a uma mulher casada. Não tenho dívidas de jogo, e meus pais eram absolutamente fiéis entre eles. O que queria dizer que não era um filho bastardo, pensou ela. Ao pensar isso lhe formou um nó na garganta. E não porque ele fosse legítimo, não, mas sim porque compreendeu que ele jamais buscaria a ela, ao menos não de maneira honrosa, se chegasse a saber que ela não era isso. -Não me fez nenhuma pergunta. - recordou ele. Ela pestanejou surpreendida. Não lhe tinha ocorrido que falasse a sério. -M-muito bem. - meio gaguejou, pois foi surpreendida com a guarda baixa - Qual é sua cor preferida? -E vai desperdiçar sua pergunta com isso? - sorriu ele. -Só posso fazer uma pergunta? -Mais que justo, pois você não me concede nenhuma. - aproximou mais o rosto, com seus olhos brilhantes - E a resposta é o azul. -Por quê? -Por quê? - repetiu ele. -Sim, por quê? Pelo mar? Pelo céu? Ou talvez porque simplesmente gosta? Benedict a olhou com curiosidade. Sim era uma pergunta muito estranha essa, por que sua cor preferida era o azul. Qualquer outra pessoa teria aceitado a resposta azul e pronto. Mas essa mulher, cujo nome ainda ignorava, queria aprofundar mais, passar dos quais aos por quês. -É pintora? - perguntou. Ela negou com a cabeça. -Só curiosa. -Por que sua cor preferida é o verde? Ela suspirou e em seus olhos brilhou a nostalgia. - A erva, suponho, e talvez as folhas das árvores. Mas principalmente a erva. A sensação que produz quando a gente corre descalço no verão. O aroma que despede depois que os jardineiros a cortam deixando-a uniforme com suas foices. -O que tem que ver o aroma e a sensação que produz a erva com a cor? -Nada, suponho. E talvez tudo. Veja, eu vivia no campo... Interrompeu-se bruscamente. Não tinha sido sua intenção lhe dizer nem sequer isso, mas bom, que mal podia haver em que ele soubesse esse detalhe inocente. -E era mais feliz aí? - perguntou ele docemente.


Ela assentiu, sentindo um tímido revôo de rubor na pele, produzido por um novo conhecimento. Certamente lady Whistledown nunca tinha tido uma conversa com Benedict Bridgerton a respeito de coisas mais profundas, porque jamais tinha escrito que ele era o homem mais perspicaz de Londres. Quando ele a olhava nos olhos, tinha a curiosa sensação de que lhe via até a alma. -Então deve gostar de passear pelo parque. - disse ele. -Sim. - mentiu ela. Jamais tinha tempo para ir ao parque. Araminta nem sequer lhe dava um dia livre, como a outros criados. - Temos que fazer um passeio juntos. - disse ele. Sophie fugiu da resposta, lhe recordando: - Ainda não me disse por que o azul é sua cor preferida. Ele inclinou ligeiramente a cabeça e entrecerrou os olhos, justo o suficiente para lhe dar a entender que tinha notado sua evasiva. Mas disse: -Não sei. Talvez, como a você, recorda-me algo de que sinto falta. Há um lago no Aubrey Hall, onde me criei, no Kent. Mas a água sempre está mais cinza que azul. -Provavelmente reflete o céu. - comentou ela. -Que a maior parte do tempo está mais cinza que azul... - observou ele, rindo - Talvez seja isso que sinto falta: céus azuis e luz do sol. -Se não chovesse, isto não seria a Inglaterra. - replicou ela sorrindo. -Uma vez fui à Itália. Ali sempre havia sol. -Um verdadeiro céu. - Isso diria alguém, mas me surpreendi sentindo falta da chuva. -Não posso acreditar nisso. - exclamou ela, rindo - E a mim parece que passei a metade de minha vida olhando pela janela e grunhindo à chuva. -Se não houvesse chuva, sentiria falta dela. Sophie ficou pensativa. Havia coisas em sua vida que sentiria falta se desaparecessem? Não sentiria falta da Araminta, isso certamente, e tampouco Rosamund. Talvez sentisse falta de Posy, e certamente sentiria falta do sol que entrava pela janela de seu quarto do apartamento de cobertura de manhã. Sentiria falta das risadas e brincadeiras dos criados e que de tanto em tanto a incluíram na diversão, até sabendo que era a filha bastarda do falecido conde. Mas não ia sentir falta dessas coisas, nem sequer teria a oportunidade de sentir, porque não ia a nenhuma parte. Depois dessa noite, dessa incrível, maravilhosa e mágica noite, voltaria para sua vida de sempre. Pensava que se fosse mais forte, mais valente, teria partido da casa Penwood fazia anos. Mas isso lhe teria mudado em algo a vida? Bem que não


gostava de viver com a Araminta, mas partir não melhoraria sua vida. Talvez tivesse gostado de ser uma preceptora, e sem dúvida estava bem qualificada para esse trabalho, mas esses empregos eram escassos para mulheres sem recomendações, e estava muito claro que Araminta não lhe daria nenhuma. -Está muito calada. - disse Benedict docemente. -Estava pensando. -No que? -No que sentiria falta e não sentiria falta de nada se minha vida mudasse drasticamente. O olhar dele se intensificou. -E supõe que vai mudar drasticamente? Ela negou com a cabeça e tratou de eliminar a tristeza de sua voz ao responder: - Não. -E deseja que mude? - disse ele em voz muito baixa, quase em um sussurro. -Sim. - suspirou ela, e acrescentou sem poder conter - Oh, sim. Agarrou-lhe as mãos, levou-as até seus lábios e beijou suavemente cada uma. -Então começaremos imediatamente. –prometeu - E amanhã estará transformada. -Esta noite estou transformada. - sussurrou ela - Amanhã já teria desaparecido. Benedict a atraiu para ele e depositou o mais muito suave e fugaz beijo em sua testa. -Então temos que envolver toda uma vida nesta noite.


Capitulo 3 Esta cronista espera, com a respiração agitada, ver que fantasia escolherá a alta sociedade para o baile de máscaras dos Bridgerton. Murmura-se que Eloise Bridgerton planejou vestir-se de Joana d'Arc e Penélope Featherington, que se apresenta em sua terceira temporada e acaba de retornar de uma visita a seus primos irlandeses, se disfarçará de duende. A senhorita Posy Reiling, enteada do falecido conde do Penwood, pensa usar um disfarce de sereia, o qual esta cronista não vê a hora de contemplar; Entretanto sua irmã mais velha, a senhorita Rosamund Reiling, teve muito em segredo seu disfarce. Quanto aos homens, se podemos nos guiar por bailes de máscaras anteriores, os gordos se vestirão de Enrique VIII, os mais esbeltos de Alexandre Magno ou talvez de demônios, e os enfastiados (com certeza os cotados irmãos Bridgerton entram nesta categoria) levarão o traje negro de noite normal com apenas uma máscara para fazer honra à ocasião. Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 5 de junho de 1815. -Baile comigo. - disse Sophie impulsivamente. Ele sorriu, divertido, mas entrelaçou firmemente os dedos com os dela. - Achei que não sabia dançar. -Mas você disse que me ensinaria. Ele a olhou fixamente durante um longo momento, lhe perfurando os olhos com os seus. Depois lhe segurou a mão. -Venha comigo. Levando-a segura pela mão, avançaram pelo corredor, subiram um lance de escada, continuaram por outro corredor, dobraram uma esquina e chegaram a um par de portas janelas. Benedict virou as maçanetas de ferro forjado e abriu as portas, que davam a um pequeno terraço adornado com plantas em vasos de barro e dois divãs. -Onde estamos? - perguntou ela, olhando ao redor. - Bem em cima do terraço do salão. - respondeu ele, fechando as portas Ouve a música? O que ouvia ela principalmente era o murmúrio de conversações, mas aguçando os ouvidos conseguiu ouvir fracamente a melodia que estava tocando a orquestra. -Haendel. - exclamou, sorrindo encantada - Minha preceptora tinha uma caixa de música com essa melodia. -Amava muito a sua preceptora. - disse ele em voz baixa.


Ela tinha fechado os olhos seguindo a música, mas ao ouvir essas palavras, abriu-os surpreendida. -Como sabe? -Tal como soube que era mais feliz no campo. - tocou-lhe a face e deslizou lentamente um dedo enluvado por sua pele até chegar ao contorno do queixo Vejo-o em seu rosto. Ela guardou silêncio um momento e depois se afastou. -Sim. Bem, passava mais tempo com ela do que com qualquer outra pessoa da casa. -Dá a impressão de que se criou muito solitária. - comentou ele, docemente. -Às vezes me parecia isso. - caminhou até a borda do balcão, apoiou as mãos no corrimão e contemplou a negra noite - Às vezes não. Repentinamente se virou para ele com um alegre sorriso, e ele compreendeu que não lhe revelaria nada mais a respeito de sua infância. -Sua educação deve ter sido justamente o contrário de solitária, comentou ela - com tantos irmãos e irmãs. -Sabe quem sou. Ela assentiu. -Não desde o começo. Ele caminhou até o corrimão, apoiou o quadril nele e cruzou os braços. -O que me delatou? -Seu irmão. Parecem-se tanto que... -Inclusive com nossas máscaras? -Inclusive com as máscaras. - respondeu ela, sorrindo calmamente - Lady Whistledown escreve com muita frequência a respeito de vocês, e jamais deixa passar a oportunidade de comentar o muito que se parecem todos. -E sabe que irmão sou? -Benedict. Isso se lady Whistledown não se equivocou ao dizer que você é o mais alto entre seus irmãos. -Uma detetive, não é? Ela pareceu ligeiramente sobressaltada. -Simplesmente leio um jornal de fofocas. Isso não me faz diferente do resto das pessoas que estão aqui. Benedict a observou um momento, pensando se ela teria se dado conta de que acabava de lhe revelar outro dado para resolver o quebra-cabeça de sua identidade. Se só o tinha reconhecido pelo que tinha lido no Whistledown, queria dizer que não fazia muito que a tinham apresentado em sociedade, ou


talvez nem sequer a tinham apresentado. Em todo caso, não era uma das muitas jovens que lhe tinha apresentado sua mãe. -Que mais sabe de mim pelo Whistledown? - lhe perguntou, com seu meio sorriso preguiçoso. -Procura algum elogio? - perguntou ela, lhe correspondendo o meio sorriso com um muito ligeiro, torcido em seus lábios - Porque tem que saber que os Bridgerton quase sempre se livram das estocadas de sua pena. Lady Whistledown quase sempre é elogiosa quando escreve sobre sua família. -Isso leva a muitas elucubrações a respeito de sua identidade. reconheceu ele - Há quem pensa que tem que ser uma Bridgerton. -E é? -Não, que eu saiba. - replicou ele, encolhendo os ombros - E não respondeu minha pergunta. -E que pergunta era? -Que mais sabe de mim pelo Whistledown. -Seriamente lhe interessa? - perguntou ela, surpreendida. -Se não posso saber nada de você, ao menos poderia saber o que sabe de mim. Ela sorriu e tocou o lábio inferior com o indicador, em um encantador gesto de distração. -Bem, vejamos. O mês passado você ganhou uma tola corrida de cavalos no Hyde Park. -Não foi nenhuma corrida tola, - disse ele sorrindo - e sou cem libras mais rico graças a ela. Dirigiu-lhe um olhar travesso. - Quase sempre são idiotas as corridas de cavalos. - Diz como o diria qualquer mulher. - falou ele. -Bem... -Não explique o óbvio. - interrompeu ele. Isso a fez sorrir. -Que mais sabe? -Por Whistledown? - deu uns golpezinhos na face com o dedo - Uma vez cortou com a cabeça o pulso de sua irmã. -E ainda estou tratando de descobrir como soube isso. - resmungou Benedict. - Talvez lady Whistledown seja uma Bridgerton, depois de tudo.


- Impossível. E não que não sejamos bastante inteligentes para sê-lo. acrescentou com certa energia - O que passa é que o resto da família é muito inteligente para não descobri-lo. Ela se pôs a rir e ele a observou atentamente, pensando se daria conta de que acabava de lhe dar outra pista à respeito de sua identidade. Já fazia dois anos que lady Whistledown escrevera sobre esse desafortunado encontro do pulso com uma guilhotina; foi em uma de suas primeiríssimas colunas. Na atualidade muitas pessoas de todo o país recebiam o jornal de fofocas, mas no começo, Whistledown era exclusivamente para londrinos. Isso significava que a misteriosa dama vivia em Londres fazia dois anos. E, entretanto só soube quem era ele quando conheceu o Colín. Tinha estado em Londres, mas não tinha sido apresentada em sociedade. Talvez fosse a menor da família e lia Whistledown enquanto suas irmãs maiores desfrutavam das temporadas. Isso não era dado suficiente para descobrir quem era, mas era um começo. -Que mais sabe? – perguntou, impaciente por ver se lhe revelava algo mais sem dar-se conta. Ela se se pôs a rir; estava se divertindo muito, isso estava claro. -Seu nome não esteve ligado a nenhuma dama, e sua mãe se desespera para vê-lo casado. - A pressão diminuiu um pouco agora que meu irmão conseguiu esposa. -O visconde? Benedict assentiu. -Lady Whistledown também escreveu sobre isso. -Com grandes detalhes. Entretanto, - se aproximou mais e baixou a voz não tinha todos os fatos. -Não? - perguntou ela, muito interessada - O que lhe escapou? Ele emitiu um tss-tss e negou com a cabeça. -Não lhe vou revelar os segredos do cortejo de meu irmão, pois você não quer me revelar nem sequer seu nome. Ela emitiu um grunhido. -Cortejo poderia ser uma palavra muito forte. Vamos, lady Whistledown escreveu... -Lady Whistledown, - interrompeu, com um sorriso vagamente zombador não está inteirada de tudo o que ocorre em Londres. -Certamente parece estar inteirada da maioria das coisas.


-Você acha? Eu tendo a divergir. Por exemplo, suspeito que se lady Whistledown estivesse aqui no terraço, não saberia sua identidade. Pelo buraco da máscara viu que ela dilatava os olhos, e isso lhe produziu certa satisfação. Cruzou os braços. -É certo isso? Ela assentiu. - Mas é que estou tão bem disfarçada que ninguém me reconheceria neste momento. Ele arqueou uma sobrancelha. -E se tirasse a máscara? A reconheceria então? Ela se separou do corrimão e avançou uns passos para o centro do terraço. - Isso eu não responderei. Ele a seguiu. - Me parecia isso. Mas quis perguntar de qualquer modo. Sophie se virou e ficou sem fôlego ao ver que ele estava a menos de um palmo dela. Tinha-o ouvido segui-la, mas não imaginou que estivesse tão perto. Abriu os lábios para falar, mas com imensa surpresa, não soube o que dizer. Ao que parecia, a única coisa que sabia fazer era olhá-lo, olhar esses olhos escuros, escuros, que a perfuravam detrás da máscara. Falar era impossível. Inclusive respirar era difícil. -Ainda não dançou comigo. - disse ele. Ela não se moveu. Ficou onde estava quando lhe pôs sua enorme mão nas costas, à altura da cintura. Formigou-lhe a pele no lugar do contato, e sentiu o ar denso, quente. Isso era desejo, compreendeu. Isso era o que tinha ouvido as criadas quando falavam em sussurros. Isso era o que nenhuma dama de boa criação devia nem sequer saber. Mas ela não era uma dama de boa criação, pensou desafiante. Era uma filha ilegítima, a bastarda de um nobre. Não era membro da alta sociedade nem o seria jamais. Tinha que ater-se as suas regras? Sempre tinha jurado que jamais seria a amante de um homem, que jamais traria um filho ao mundo para sofrer o destino de um bastardo. Mas tampouco tinha planejado nada tão atrevido. Isso só era um baile, uma noitada, talvez um beijo. Isso bastava para arruinar uma reputação, mas que tipo de reputação ela tinha, para começar? Estava excluída da sociedade, era uma inaceitável. E desejava uma noite de fantasia. Levantou o rosto.


-Sei que não vai fugir. - sussurrou ele, seus olhos escuros cintilando algo ardente e excitante. Ela negou com a cabeça, compreendendo outra vez que lhe tinha lido os pensamentos. Deveria assustá-la que lhe lesse a mente com tanta facilidade, mas na escura sedução da noite, enquanto o ar movia seus cabelos soltos, e a música subia do salão, isso era algo emocionante. -Onde ponho a mão? – perguntou - Quero dançar. -Sobre meu ombro. - explicou ele - Não, um pouco mais abaixo. Aí. -Com certeza me acha a mais idiota das idiotas. Não saber dançar... -Em realidade acredito que é muito valente por reconhecê-lo. - Com a mão livre procurou a mão livre dela, a segurou e a levantou lentamente - A maioria das mulheres que conheço teriam fingido desinteresse ou uma lesão. Ela o olhou nos olhos, mesmo sabendo que isso a deixaria sem fôlego. -Não tenho a habilidade de uma atriz para fingir desinteresse. A mão nas costas a apertou um pouco mais. -Escute a música. - disse ele, com a voz estranhamente rouca - Nota como sobe e baixa? Ela negou com a cabeça. -Preste mais atenção. - sussurrou ele, aproximando os lábios ao ouvido Um, dois, três; um, dois, três. - continuou acentuando o "um". Sophie fechou os olhos e tratou de isolar o interminável murmúrio de conversas no salão até que por fim a única coisa que ouvia era o crescente da música. Começou a respirar mais lentamente e de repente se encontrou balançando ao ritmo da música, movendo a cabeça atrás e adiante, enquanto Benedict lhe dava suas instruções numéricas. -Um, dois, três; um, dois, três. - Sinto-a. - sussurrou ela. Ele sorriu. Não soube como sabia isso; continuava com os olhos fechados. Mas percebeu seu sorriso, ouviu-o em sua respiração. -Muito bem. - disse ele - Agora olhe meus pés e permita que a guie. Ela abriu os olhos e olhou seus pés. -Um, dois, três; um, dois, três. Vacilante, fez os passos com ele, e justo lhe pisou no pé. -Ui! Perdão! -Minhas irmãs têm feito muito pior. - assegurou ele - Não renuncie. Ela voltou a tentar e de repente seus pés sabiam o que fazer. -Oohh... - suspirou surpreendida - Isto é maravilhoso.


-Levante a vista. - ordenou ele, suavemente. -Mas tropeçarei. -Não. Eu o evitarei. - prometeu ele - Me olhe nos olhos. Ela obedeceu e no instante em que seus olhos se encontraram com os dele, algo pareceu cair em seu lugar em seu interior, e não pôde desviar a vista. Ele a fez girar em círculos e espirais por todo o terraço, a princípio lento, depois mais e mais rápido, até que ela estava sem fôlego e um pouco enjoada. E durante tudo isso, seus olhos estavam cravados nos dele. -O que sente? - perguntou Benedict. -Tudo! - respondeu ela, rindo. -O que ouve? -A música. - abriu os olhos, entusiasmada - Ouço a música como nunca a tinha ouvido antes. Ele aumentou a pressão da mão nas costas e o espaço entre eles diminuiu em várias polegadas. -O que vê? - perguntou ele. Ela tropeçou, mas não afastou os olhos dos dele. -Minha alma, - sussurrou - vejo minha alma. -O que disse? - sussurrou ele, deixando de dançar. Ela guardou silêncio. O momento lhe parecia muito intenso, muito importante, e tinha medo de danificá-lo. Não, isso não era certo. Tinha medo de melhorá-lo, e de que isso a fizesse sofrer mais ainda quando voltasse para a realidade à meia-noite. Como demônios ia voltar a limpar os sapatos de Araminta depois disso? -Sei o que disse. - disse Benedict com voz rouca - Ouvi-a, e... -Não diga nada. - interrompeu ela. Não queria que lhe dissesse que sentia o mesmo, não queria ouvir nada que a fizesse suspirar por esse homem eternamente. Mas talvez já fosse muito tarde para isso. Ele a olhou fixo durante um momento terrivelmente longo, e depois disse. -Não falarei. Não direi nenhuma sílaba. E então, antes que ela tivesse um segundo para respirar, os lábios dele estavam sobre os seus, deliciosamente suaves, sedutoramente ternos. Com intencionada lentidão, ele deslizou os lábios pelos dela, e esse delicado toque produziu a ela espirais de estremecimentos e formigamentos por todo o corpo. Tocava-lhe os lábios e ela o sentia até nos dedos dos pés. Era uma sensação singularmente estranha, singularmente maravilhosa.


Então a mão que ele tinha apoiada em suas costas, a que a tinha guiado com tanta facilidade durante a valsa, começou a aproximá-la mais para ele. A pressão era lenta, mas inexorável, e ela foi sentindo mais e mais calor à medida que seus corpos estavam mais perto, e virtualmente se sentiu arder quando repentinamente sentiu toda a extensão de seu corpo apertado contra o dela. Ele parecia muito grande e muito potente, e em seus braços se sentia como se fosse a mulher mais formosa do mundo. De repente tudo lhe pareceu possível, talvez inclusive uma vida livre de servidão e estigma. A boca dele se fez mais premente, e com a língua lhe fez cócegas na curva da boca. A mão, com que ele ainda segurava a dela na postura para a valsa, deslizou por seu braço e logo subiu por suas costas até pousar-se na nuca, onde lhe acariciou as mechas soltas de seu penteado. - Seu cabelo é como a seda. - sussurrou ele. Ela se pôs a rir, porque ele levava luvas. Ele se afastou e a olhou com expressão divertida. -Do que ri? -Como pode saber como é meu cabelo? Usa luvas. Ele sorriu, um sorriso enviesado, de menino, que lhe produziu revoadas no estômago e lhe derreteu o coração. -Não sei como sei, mas sei. - disse. Com o sorriso mais enviesado ainda, acrescentou - Mas para estar seguro, talvez seja melhor tocá-lo com a mão sem luva. - pôs a mão diante dela - Faça-me o favor? Sophie lhe olhou a mão uns segundos e de repente compreendeu o que queria dizer. Fazendo uma inspiração trêmula e nervosa, retrocedeu um passo e aproximou as duas mãos a dele. Lentamente foi agarrando as pontas de cada dedo, lhes dando um puxãozinho, e assim foi soltando o fino tecido até que ao fim pôde tirar toda a luva de sua mão. Com a luva pendendo de seus dedos, olhou-lhe o rosto. Ele tinha uma expressão muito estranha em seus olhos. Fome... E algo mais; algo quase espiritual. -Desejo acariciá-la. - sussurrou ele. Passando a mão sem luva em sua face, acariciou-lhe suavemente a pele com as pontas dos dedos, deslizando-os até lhe tocar o cabelo perto da orelha. Puxou com suma suavidade até lhe soltar uma mecha. Liberada das forquilhas, a mecha se enroscou em um amplo cacho, e Sophie não pôde afastar os olhos de sua mecha de cabelo dourado enrolado no indicador dele. -Estava equivocado. - falou ele - É mais suave que a seda.


De repente ela sentiu um feroz desejo de acariciá-lo da mesma maneira. Levantou a mão. -Agora me toca. - disse em voz baixa. Com os olhos relampagueantes, ele ficou a trabalhar na luva, soltando-a nas pontas dos dedos, tal como tinha feito ela. Mas logo, em lugar de tirar-lhe pôs os lábios no bordo da longa luva e de lá os deslizou até mais acima do cotovelo, lhe beijando a sensível pele do interior do braço. -Também é mais suave que a seda. - sussurrou. Com a mão livre, Sophie lhe agarrou o ombro, já nada segura de sua capacidade de manter-se firme sobre seus pés. Ele foi lhe tirando a luva, deslizando-a com terrível lentidão pelo braço, seguindo seu avanço com os lábios até chegar ao interior do cotovelo. Quase sem interromper o beijo, olhou-a e lhe disse: -Não se importa se fico aqui um momento? Ela negou com a cabeça, impotente. Ele deslizou a língua pela curva do cotovelo. -Ooh... - gemeu ela. -Pensei que poderia gostar disso. - disse ele, lhe queimando a pele com suas palavras. Ela assentiu. Ou melhor, dizendo, teve a intenção de assentir. Não sabia se o tinha conseguido. Os lábios dele continuaram sua rota, deslizando-se sedutoramente pelo antebraço até chegar ao interior do pulso. Ali se detiveram um momento e logo foram pousar-se no centro da mesma palma. -Quem é? - lhe perguntou, levantando a cabeça, mas sem lhe soltar a mão. Ela negou com a cabeça. -Tenho que sabê-lo. -Não posso dizê-lo. - ao ver que ele não aceitaria uma negativa, acrescentou a mentira - Ainda. Agarrou-lhe um dedo e o esfregou suavemente com os lábios. -Quero vê-la amanhã, - disse docemente - desejo ir visitá-la e ver onde vive. Ela não respondeu simplesmente se manteve firme, tratando de não chorar. -Desejo conhecer seus pais e dar uns tapinhas a seu condenado cão. continuou ele, com a voz ligeiramente trêmula - Compreende o que quero dizer?


De baixo continuavam chegando os sons da música e a conversa, mas o único que eles ouviam no terraço era o som áspero de suas respirações. -Desejo... - sua voz já era um murmúrio, e em seus olhos apareceu uma vaga expressão de surpresa, como se não pudesse acreditar na verdade em suas palavras. – Desejo seu futuro. Desejo todas as coisas de você. -Não diga nada mais. – suplicou ela - Por favor, não diga nenhuma palavra mais. -Então me diga seu nome. Diga-me como encontrá-la amanhã. -Eh... - nesse esse instante ouviu um estranho som, exótico e vibrante - O que é isso? -Um gongo. - respondeu ele - Para indicar que é a hora de tirar as máscaras. -O que? - perguntou ela, aterrada. -Deve ser meia-noite. -Meia-noite? - exclamou ela. - A hora para que tire a máscara. Sem dar-se conta, Sophie levou a mão à têmpora e a apertou sobre a máscara, como se pudesse grudá-la no rosto por pura força de vontade. -Se sente mau? - perguntou Benedict. -Tenho que ir. - exclamou ela e, sem acrescentar palavra, agarrou a saia e saiu correndo do terraço. -Espere! - ouviu-o gritar. Sentiu a rajada de ar que produziu ele ao mover o braço em um vão intento de lhe agarrar o vestido. Mas ela era rápida e, talvez mais importante ainda, encontrava-se em um estado de terror absoluto, e desceu a escada como se o fogo do inferno fosse lhe mordendo os calcanhares. Irrompeu no salão de baile. Sabendo que Benedict seria um resoluto perseguidor, tinha mais possibilidades de que lhe perdesse a pista em meio à uma grande multidão. Só tinha que atravessar o salão, para poder sair pela porta lateral e dar a volta à casa por fora até onde a esperava a carruagem. Os convidados estavam tirando as máscaras e era enorme o burburinho com as fortes risadas. Foi abrindo caminho, desviando e empurrando o que fosse para chegar ao outro lado do salão. Desesperada olhou atrás por cima do ombro. Benedict já tinha entrado no salão e estava escrutinando a multidão com seu intenso olhar. Ao que parecia não a tinha visto ainda, mas ela sabia que a veria; seu vestido prateado a convertia em alvo fácil.


Continuou afastando as pessoas de seu caminho. A metade delas quase nem se fixavam; talvez estivessem muito bêbadas. -Perdão. - murmurou, ao enterrar o cotovelo nas costelas de um Julio César. Ouviu outro "Perdão", que mais parecia um grunhido; isso foi quando Cleópatra lhe pisou em um dedo do pé. -Perdão. - exclamou, e virtualmente ficou sem fôlego, porque se encontrou cara a cara com Araminta. Ou, melhor dizendo, cara a máscara, porque ela continuava com a máscara posta. Mas se alguém podia reconhecê-la, essa era Araminta. E então... -Olhe por onde pisa! - disse Araminta altivamente. E enquanto ela a olhava boquiaberta, paralisada, Araminta recolheu a saia de rainha Isabel e se afastou. Bom, Araminta não a tinha reconhecido. Se não tivesse estado tão desesperada por sair da casa Bridgerton antes que Benedict lhe alcançasse, teria se detido a rir encantada. Novamente olhou para trás. Benedict a tinha visto e estava abrindo passagem por entre a multidão com muito mais eficiência que ela. Engolindo a saliva sonoramente e com renovada energia, continuou e quase atirou ao chão a duas deusas gregas antes de chegar por fim à porta lateral. Voltou a cabeça o tempo suficiente para ver o Benedict detido por uma anciã com uma bengala; saiu correndo pela porta, correndo deu a volta à casa até a fachada, onde a esperava a carruagem da casa Penwood, tal como lhe dissera a senhora Gibbons. -Vamos, vamos! - gritou desesperada ao cocheiro. E a carruagem empreendeu a marcha.


Capítulo 4 Mais de um convidado ao baile de máscaras informou a esta cronista que viram Benedict Bridgerton em companhia de uma dama desconhecida que vestia um traje prateado. Por muito que o tentasse, esta cronista foi absolutamente incapaz de descobrir a identidade da misteriosa dama. E se esta cronista não pôde descobrir a verdade, podem estar certos de que sua identidade é um segredo muito bem guardado. Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 7 de junho de 1815 Ela tinha desaparecido. De pé diante da casa Bridgerton, na calçada, Benedict esquadrinhou a rua. Era uma loucura. Toda Grosvenor Square estava abarrotada de carruagens. Ela podia estar em qualquer uma delas, ou simplesmente sentada em algum lugar sobre os paralelepípedos, protegendo-se do tráfico. Também podia estar em uma das três carruagens que acabavam de sair da confusão e desaparecido na esquina. Fosse como fosse, já não estava. Estava meio disposto a estrangular lady Danbury, que lhe enterrou a bengala no pé e insistiu em lhe dar a opinião da maioria dos disfarces dos convidados. Quando conseguiu livrar-se dela, sua dama misteriosa tinha desaparecido pela porta lateral do salão de baile. E ele sabia que ela não tinha a menor intenção de permitir que voltasse a vê-la. Soltou uma maldição com bastante raiva. De todas as damas que lhe tinha apresentado sua mãe, e eram muitíssimas, com nenhuma delas havia sentido a mesma conexão espiritual que ardesse entre ele e a dama vestida de prata. Desde o momento em que a viu, não, um momento antes de vê-la, quando só sentia sua presença, tinha notado o ar vivo, rangente de tensão e excitação. E ele também se havia sentido vivo, vivo de uma maneira que fazia anos que não sentia, como se de repente tudo fosse novo, resplandecente, cheio de paixão e sonhos. E, entretanto... Voltou a amaldiçoar, desta vez com um ponto de pesar. E, entretanto, nem sequer sabia de que cor tinha os olhos. Certamente não eram castanhos escuros. Disso estava seguro. Mas com a tênue iluminação das velas essa noite, não tinha conseguido discernir se eram


azuis ou verdes, ou castanho claro ou cinzas. Isso o roía, produzia-lhe uma sensação de fome a lhe queimar a boca do estômago. Diziam que os olhos são as janelas da alma. Se de verdade tinha encontrado à mulher de seus sonhos, aquela com qual podia por fim imaginar uma família e um futuro, por Deus que tinha que saber de que cor tinha os olhos. Não lhe seria fácil encontrá-la. Não podia ser fácil encontrar a uma pessoa que não quer que a encontrem, e lhe tinha deixado muito claro que sua identidade era um segredo. Os dados de que dispunha eram insignificantes, olhados em seu melhor aspecto. Uns poucos comentários em relação à coluna de lady Whistledown e... Olhou a luva que ainda tinha na mão direita. Tinha esquecido que a tinha enquanto abria passagem pelo salão. Aproximou-a do rosto para aspirar seu aroma, e muito surpreso comprovou que não cheirava a água de rosas nem a sabão, como cheirava sua misteriosa dama. Tinha um aroma bem rançoso, como se tivesse estado guardada muitos anos em uma arca em um sótão. Isso era estranho. Por que levaria umas luvas antigas? Deu voltas na mão, como se esse movimento a fosse trazer de volta, e então foi quando viu um diminuto bordado na bainha. SLG. Essas eram as iniciais do nome de alguém. Dela talvez? E um brasão de família. Um que não reconhecia. Mas sua mãe saberia. Sua mãe sempre sabia esse tipo de coisas. Era possível que se reconhecesse o brasão também soubesse de quem eram as iniciais. Sentiu seu primeiro indício de esperança. A encontraria. A encontraria e a faria sua. Era assim tão simples. Sophie levou uma escassa meia hora para voltar para seu monótono estado normal. Desaparecidos estavam o vestido, os brilhantes brincos e o elegante penteado. Os sapatos com enfeites estavam muito bem guardados no roupeiro de Araminta, o batom que usara a criada para lhe pintar os lábios tinha retornado a seu lugar no toucador de Rosamund. Inclusive tinha dedicado cinco minutos massageando o rosto para fazer desaparecer as marcas deixadas pela máscara. Estava como sempre antes de deitar-se: simples, ordinária, despretensiosa, o cabelo recolhido em uma trança solta, os pés metidos em meias de lã para proteger-se do frio ar noturno.


Voltava a parecer o que era em realidade, nada mais que uma criada. Tinha desaparecido todo rastro da princesa de conto de fadas que tinha sido durante uma curta noitada. E o mais triste de tudo, havia desaparecido seu príncipe de conto de fadas. Benedict Bridgerton era tudo o que tinha lido sobre ele no Whistledown. Bonito, forte, elegante. Era o assunto dos sonhos de uma jovem, mas não, pensou tristemente, de seus sonhos. Um homem como esse não se casa com a bastarda de um conde. E certamente não se casa com uma criada. Mas por uma noite tinha sido seu, e isso teria que lhe bastar. Agarrou um cão de pelúcia que tinha desde que era pequena. Tinha-o conservado todos esses anos como aviso de tempos mais felizes. Normalmente o tinha sobre a cômoda, mas por algum motivo, essa noite desejava o ter mais perto. Meteu-se na cama com o cãozinho sob o braço e se aninhou sob as mantas. Depois fechou os olhos, mordendo o lábio enquanto umas lágrimas silenciosas caíam sobre o travesseiro. Era uma noite longa, muito longa. -Reconhece isto? Sentado junto a sua mãe em sua sala de estar muito feminina decorada em rosa e nata, Benedict Bridgerton lhe mostrou seu único vínculo com a mulher vestida de prata. Violet Bridgerton agarrou a luva e olhou atentamente o brasão. Não demorou mais de um segundo em declarar: - Penwood. -Como em conde de...? Ela assentiu. -E o G poderia ser do Gunningworth. Se não recordo mau, recentemente o título recaiu fora da família. O conde morreu sem deixar descendência. Ah, deve fazer uns seis ou sete anos isto. O título passou a um primo longínquo. E, acrescentou, movendo a cabeça desaprovadora - ontem à noite esqueceu-se de dançar com Penélope Featherington. Por sorte seu irmão estava ali para dançar com ela em seu lugar. Benedict reprimiu um gemido e tratou de passar por cima da recriminação. -De quem são então as iniciais S, L, G? Violet entrecerrou seus olhos azuis. -Por que lhe interessa? -Suponho que não responderá a minha pergunta me fazendo você outra. disse Benedict em tom queixoso.


Ela emitiu um muito educado grunhido. -Me conhece bem. Benedict esteve a ponto de olhar ao céu e revirar os olhos, mas se conteve. -A quem pertence esta luva, Benedict? - perguntou ela. Ao ver que não respondia com a rapidez que ela queria, acrescentou - Poderia me contar tudo? Sabe que descobrirei muito em breve e será menos vergonhoso para você se não tiver que lhe fazer perguntas. Benedict exalou um suspiro. Ia ter que dizer-lhe tudo. Ou ao menos, quase tudo. Não gostava nada de explicar esse tipo de detalhes a sua mãe; ela tendia a aferrar-se a mais mínima esperança de que ele pudesse casar-se, e se aferrava com a tenacidade de um ignorante. Mas não tinha outra opção, se quisesse encontrá-la. - À noite, no baile de máscaras conheci alguém. - disse por fim. Violet agarrou as mãos, encantada. -Sim? -Ela foi o motivo pelo qual me esqueci de dançar com Penélope. Violet parecia a ponto de morrer num arroubo. -Quem é? Uma das filhas do Penwood? - franziu o cenho - Não, isso é impossível. Não teve filhas. Mas sim tinha enteadas. – voltou a franzir o cenho Embora tenha que dizer, tendo conhecido a essas duas moças... Bom... -Bom o que? Violet enrugou a fronte, procurando palavras educadas. -Bem, simplesmente não teria imaginado que lhe interessaria uma delas, isso é tudo. Mas se lhe interessa, - acrescentou com o rosto perceptivelmente mais alegre – convidarei à condessa viúva a tomar o chá. É o mínimo que posso fazer. Benedict abriu a boca para dizer algo e voltou a fechá-la ao ver que sua mãe voltava a franzir o cenho. -O que se passa agora? -Ah, nada. Só que... Bom... - Diga, mãe. Ela sorriu um sorriso débil. - O que se passa é que não me cai particularmente bem a condessa viúva. Sempre a achei algo fria e ambiciosa. -Há quem diga que você é ambiciosa também, mãe. - observou ele. Violet enrugou o nariz.


-Claro que tenho a grande ambição de que meus filhos façam um bom e feliz matrimônio, mas não sou do tipo que casaria a uma filha com um velho de setenta anos, simplesmente porque é duque. Benedict não conseguiu recordar a nenhum duque de setenta anos fazendo uma viagem ao altar. -Fez isso a condessa? -Não, mas o faria. Enquanto que eu... - Benedict teve que reprimir um sorriso ao ver sua mãe assinalar - Permitiria que minhas filhas se casassem com pessoas pobres se isso as fizesse felizes. Benedict arqueou uma sobrancelha. -Teriam que ser pobres de bons princípios e muito trabalhadores, isso sim. – continuou ela - Nenhum jogador precisa fazer propostas. Não querendo rir de sua mãe, Benedict tossiu discretamente em seu lenço. -Mas você não deveria preocupar-se por mim. - disse Violet, olhando o de esguelha e logo lhe beliscando suavemente o braço. - Pois sim que devo. – ele se apressou a dizer. Ela sorriu muito serena. - Deixarei de lado meus sentimentos pela condessa viúva se quiser a uma de suas filhas. -olhou-o esperançosa. - Quer a uma de suas filhas? -Não tenho idéia. - reconheceu Benedict - Não consegui saber seu nome. Só tenho sua luva. Violet o olhou severamente. -Não lhe vou perguntar como obteve sua luva. -Foi tudo muito inocente, asseguro-lhe. A expressão de Violet era de enorme desconfiança. -Tenho muitos filhos varões para acreditar nisso. - disse entre dentes. -E as iniciais? - lhe recordou ele. Violet voltou a olhar atentamente a luva. - É bastante velha. - disse. -Eu também pensei isso. - concordou ele - Cheira um pouco a rançoso, como se tivesse estado guardada muito tempo. -E o bordado também está desgastado. – comentou ela - Não sei o que poderia significar o L, mas o S poderia ser de Sarah, a mãe do defunto conde, que também morreu. O que teria sentido, dada a antigüidade da luva. Benedict esteve um momento olhando a luva nas mãos de sua mãe. Ao fim disse:


-Estou bastante seguro de que não conversei com um fantasma ontem à noite. A quem acredita que poderia pertencer a luva? -Não tenho idéia. A alguém da família Gunningworth, imagino. -Sabe onde vivem? -Pois, na casa Penwood. O novo conde não as jogou ainda. Não sei por que. Talvez tema que desejem viver com ele quando tomar residência. Acredito que nem sequer veio à cidade para a temporada. Não o conheço. -Sabe por acaso...? -Onde está a casa Penwood? - terminou ela - Claro que sim. Não está longe, só a algumas quadras daqui. Deu-lhe o endereço e Benedict, em sua pressa por ficar em marcha, já estava a meio caminho da porta quando ela terminou. -Ah, Benedict! - chamou-o, sorrindo muito divertida. -Sim? - disse ele, voltando-se. - As filhas da condessa se chamam Rosamund e Posy, se por acaso lhe interessa. Rosamund e Posy. Nenhum dos dois nomes lhe pareceu adequado, mas o que sabia ele? Era possível que seu nome Benedict não lhes parecesse adequado às pessoas que conhecia. Girou sobre seus calcanhares e novamente tratou de sair, mas sua mãe o deteve com outro: -Ah, Benedict! Voltou a girar-se. -Sim, mãe? - perguntou, em tom intencionadamente aborrecido. -Me dirá o que ocorre, verdade? - Claro mãe. -Mente, - disse ela, sorrindo - mas o perdôo. É muito agradável vê-lo apaixonado. -Não estou... - É o que diz querido. - disse ela, lhe fazendo um gesto de despedida. Benedict decidiu que não tinha nenhum sentido responder, assim sem nada mais que um olhar ao céu revirando os olhos, saiu da sala e se apressou a sair da casa. - Soooophiiie! Sophie levantou bruscamente a cabeça. A voz de Araminta soava mais irada que de costume, se isso fosse possível. Araminta sempre estava aborrecida com ela. Destacando- se a si mesma com um grandioso gesto.


-Sophie! Maldição, onde se colocou essa moça infernal? -Aqui está a moça infernal. - falou Sophie, deixando sobre a mesa a colher de prata que tinha estado polindo. Em sua qualidade de criada de Araminta, Rosamund e Posy, não deveria ter que acrescentar essa tarefa a sua lista de afazeres, mas Araminta realmente se deleitava em fazê-la trabalhar como uma escrava. Levantou-se e saiu para o corredor. Só Deus sabia por que estava chateada Araminta desta vez. -Estou aqui. - gritou. Olhou de um a outro lado - Milady? – apareceu Araminta na esquina do corredor, pisando forte. -O que significa isto? - chiou, levantando algo que tinha na mão direita. Sophie olhou a sua mão e conseguiu reprimir uma exclamação abafada. Araminta tinha os sapatos que ela pôs a noite anterior. -N-não sei o que quer dizer... - gaguejou. -Estes sapatos são novos. Novos! Sophie guardou silêncio até que percebeu que Araminta exigia uma resposta. -Mmm, qual é o problema? - Olhe isto! - gritou Araminta, passando o dedo por um dos saltos - Está rachado. Rachado! Como pode ter ocorrido isto? -Não sei, milady. Talvez... -Não há talvez que valha. Alguém pôs meus sapatos. - Asseguro que ninguém pôs seus sapatos. - replicou Sophie, surpreendida de que a voz lhe saísse tão tranquila - Todos sabem quão delicada é com seus calçados. Araminta entrecerrou os olhos e a olhou com desconfiança. -Isso é sarcasmo? Sophie pensou que se Araminta tinha que perguntar queria dizer que lhe tinha saído muito bem o sarcasmo. -Não, claro que não! – mentiu - Simplesmente quis dizer que você cuida muito bem de seus sapatos. Duram mais assim. - como Araminta não dizia nada, acrescentou - E isso significa que não tem necessidade de comprar muitos pares. Dizer isso era uma absolutamente ridículo, pois Araminta tinha mais pares de sapatos que os que poderia usar uma pessoa em toda sua vida. -Isto é culpa sua. - grunhiu a mulher. Segundo Araminta, tudo sempre era culpa dela, mas desta vez tinha razão, de modo que Sophie simplesmente engoliu em seco e disse:


-Que quer que faça a respeito, milady? -Quero saber quem usou meus sapatos. -Talvez tenham se estragado no armário. - sugeriu Sophie - Talvez os tenha roçado por acaso com o pé ao passar. -Nunca faço nada "por acaso". - disparou Araminta. Isso era certo, pensou Sophie. Tudo o que fazia Araminta, o fazia com intenção. - Posso perguntar às criadas. Talvez alguma delas saiba algo. - As criadas são uma manada de idiotas. O que sabem cabe na unha de meu dedo mindinho. Sophie esperou para ver se por acaso Araminta acrescentava "À exceção de você", mas logicamente não o disse. -Posso tratar de limpá-lo. Com certeza poderei fazer algo para apagar a marca de arranhão. -Os saltos estão revestidos em cetim. - disse Araminta, zombeteira - Se consegue encontrar uma maneira de polir isso, teríamos que admiti-la no Colégio Real de Cientistas de Tecidos. Sophie teria gostado de perguntar se existia um Colégio Real de Cientistas de Tecidos, mas Araminta não tinha muito senso de humor, nem sequer quando não estava irritada. Fazer uma brincadeira nesse momento seria um claro convite ao desastre. -Podia esfregá-lo. – sugeriu - Ou escová-lo. -Isso. Por certo, enquanto está nisso... Maldição. Todo o mau começava quando Araminta dizia "Enquanto está nisso...". -... Poderia limpar todos meus sapatos. Sophie engoliu em seco. A coleção de sapatos da Araminta estava formada por pelo menos oitenta pares. -Todos? -Todos. E enquanto está nisso... Bom, mais ainda? -Lady Penwood? Felizmente Araminta interrompeu a metade da ordem para voltar-se para ver o que queria o mordomo. -Um cavalheiro deseja vê-la, milady. - disse ele, lhe passando um cartão de visita branco. Araminta a agarrou e leu o nome. Arregalou os olhos.


-Oh! -voltando-se imediatamente ao mordomo, falou: - Chá! Bolachas! O melhor serviço de prata. Imediatamente! O mordomo se afastou depressa, e Sophie ficou olhando Araminta com curiosidade não dissimulada. -Talvez eu pudesse ajudar em algo? - perguntou. Araminta pestanejou duas vezes e a olhou como se tivesse se esquecido de sua presença. -Não. - disparou - Estou muito ocupada para me incomodar com você. Sobe imediatamente. - olhou-a outro momento, e acrescentou - E o que estava fazendo aqui, por certo? Sophie fez um gesto para a sala de jantar, de onde acabava de sair. - Você me pediu que polisse... - Pedi que se ocupasse de meus sapatos. - chiou Araminta. -Muito bem. - disse Sophie ao fim. Em sua opinião, essa era uma maneira muito estranha de agir, inclusive para Araminta - Primeiro vou guardar as... - Sobe agora mesmo! Sophie correu para a escada. - Espera! -Sim? –perguntou vacilante. Araminta franziu os lábios em um gesto nada atraente. - Assegure-se de que Rosamund e Posy estejam bem penteadas. -É claro. - Depois pode ordenar à Rosamund que a encerre em meu roupeiro. Sophie a olhou fixamente. Queria que ela desse a ordem de que a encerrassem em um roupeiro? -Me entendeste? Sophie nem sequer conseguiu fazer um gesto de assentimento. Algumas coisas eram simplesmente muito humilhantes. Araminta se aproximou até pôr o rosto quase tocando o dela. -Não me respondeu. Entendeu? Sophie assentiu, mas apenas. Ao que parecia cada dia que passava lhe proporcionava mais provas da intensidade do ódio que Araminta sentia por ela. -Por que me tem aqui? - perguntou, antes de pensar melhor. -Porque a acho útil. - foi a resposta. Sophie ficou um momento observando-a afastar-se e logo subiu correndo a escada. Depois de ver que os penteados de Rosamund e Posy estavam bastante aceitáveis, com um suspiro se aproximou de Posy e lhe disse: - Feche-me nesse roupeiro, por favor.


Posy a olhou surpreendida. -O que disse? -Me ordenaram que o pedisse a Rosamund, mas não me sinto capaz de fazê-lo. Posy pôs a cabeça no imenso armário embutido com grande interesse. -Posso perguntar para que? -Tenho que limpar os sapatos de sua mãe. Posy engoliu em seco, incomodada. - Sinto muito. -Eu também. - disse Sophie, suspirando - Eu também.


Capítulo 5 E para acrescentar outro comentário sobre o baile de máscaras, o disfarce de sereia da senhorita Posy Reiling foi algo desafortunado, mas não tão horroroso, em opinião desta cronista, como os da senhora Featherington e suas duas filhas mais velhas, que foram disfarçadas de frutas: Philippa de laranja, Prudence de maçã, e a senhora Featherington de cacho de uvas. Infelizmente, nenhuma das três parecia nem um pouquinho apetitosa. Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 7 de junho de 1815. No que se converteu sua vida que estava obcecado por uma luva? Pensou Benedict. Desde o momento em que tomou assento na sala de estar de lady Penwood apalpou umas dez vezes o bolso da jaqueta para certificar-se de que a luva continuava ali. Tão nervoso estava, coisa muito estranha nele, que não sabia bem o que diria à condessa viúva quando chegasse. Mas normalmente tinha bastante facilidade com as palavras; mas lhe ocorreria algo chegado o momento. Tamborilando o chão com o pé, olhou o relógio do suporte da lareira. Fazia uns quinze minutos que havia entregado seu cartão ao mordomo, o que significava que lady Penwood não demoraria muito em aparecer. Parecia ser uma regra não escrita que todas as damas da alta sociedade fizessem esperar a suas visitas pelo menos quinze minutos; vinte se sentiam-se especialmente malhumoradas. Que regra mais estúpida, ele pensou irritado. Por que o resto do mundo não valorizava a pontualidade, como ele; era algo que não saberia jamais, mas... -Senhor Bridgerton! Ergueu a vista e viu entrar uma mulher loira, bastante atraente e vestida à última moda. Pareceu-lhe vagamente conhecida, mas isso era de esperar. Com certeza em muitas ocasiões teriam ido aos mesmos eventos sociais, mesmo que não os tivessem apresentado. - Você deve ser lady Penwood. - disse, levantando-se e fazendo uma cortês reverência. -Sim. - respondeu ela com uma graciosa inclinação de cabeça - Estou encantada de que tenha decidido nos honrar com uma visita. Certamente já informei a minhas filhas de sua presença. Não demorarão em descer. Benedict sorriu. Isso era exatamente o que tinha esperado. Teria ficado surpreso se ela se comportasse de outra maneira. Nenhuma mãe de filhas casadouras não atendia a um irmão Bridgerton.


- Desejei conhecê-las. - disse. Ela franziu ligeiramente o cenho. -Quer dizer que ainda não as conhece? Maldição. A senhora queria saber por que tinha ido visitá-las. - Ouvi dizer coisas muito encantadoras delas. – improvisou, tratando de não grunhir. Se lady Whistledown chegava a inteirar-se dessa visita, e ao que parecia se inteirava de tudo, muito em breve se propagariam por toda a cidade os rumores de que ele andava procurando esposa, e tinha posto seu interesse nas filhas da condessa. Por que, caso contrário, iria visitar duas mulheres a quem nem sequer tinha sido apresentado? Lady Penwood sorriu de orelha a orelha. -Minha Rosamund é considerada uma das jovens mais formosas da temporada. -E Posy? - perguntou ele com um pouco de perversidade. Esticaram as comissuras de sua boca. -Posy é... É encantadora. Ele sorriu benevolente: -Não vejo a hora de conhecer Posy. Lady Penwood pestanejou e logo tratou de dissimular sua surpresa com um sorriso um tanto duro. -Não tenho dúvidas de que Posy adorará conhecê-lo. Nesse momento entrou uma criada com um serviço de chá de prata, muito elegante, e a um gesto de lady Penwood, deixou-o sobre uma mesa. Mas antes que pudesse sair a criada, a condessa lhe perguntou (em tom um tanto brusco, em opinião de Benedict): - Onde estão as colheres Penwood? A criada se inclinou em uma reverência bastante aterrada e respondeu: -Sophie as estava polindo na sala de jantar, milady, mas teve que subir quando você... -Silêncio! - interrompeu lady Penwood, mesmo que tivesse sido ela à perguntar pelas colheres - Imagino que o senhor Bridgerton não será tão suscetível que precise tomar o chá com colherinhas com monograma. -Claro que não. - falou Benedict, pensando que lady Penwood sim tinha que ser muito suscetível, se tinha mencionado o assunto. - Vá! - ordenou a condessa à criada agitando energicamente a mão - Fora daqui! A criada se apressou a sair e a condessa se voltou para ele e lhe explicou:


- Nosso melhor faqueiro de prata tem gravado o brasão Penwood. -Ah, sim? - exclamou ele, inclinando-se um pouco, com evidente interesse. Essa teria sido uma excelente maneira de verificar se o brasão bordado na luva era o dos Penwood - Não temos nada assim na casa Bridgerton, - acrescentou, com a esperança de que não fosse mentira; jamais se tinha fixado na forma dos talheres - eu adoraria vê-lo. -Sim? - perguntou ela, com os olhos brilhantes de admiração - Sabia que era um homem de bom gosto e refinamento. Benedict sorriu, principalmente para não grunhir. - Terei que enviar alguém à sala de jantar para procurar um talher. Caso essa moça infernal tenha feito seu trabalho. Ao dizer isso a boca lhe formou uma curva rígida para baixo, de um modo nada atraente, e Benedict observou que as rugas de seu sobrecenho eram muito pronunciadas. -Há algum problema? - perguntou, cortesmente. Ela negou com a cabeça e agitou uma mão para lhe subtrair importância. -Simplesmente que é muito difícil encontrar bom pessoal de serviço. Certamente sua mãe diz o mesmo todo o tempo. Sua mãe jamais dizia isso, pensou Benedict, mas talvez se devesse a que em sua casa tratavam muito bem a todos os criados, por isso estes eram muito fiéis à família. Mas assentiu de qualquer modo. -Um dia destes terei que despedir Sophie. - continuou a condessa, soprando pelo nariz - Não é capaz de fazer nada bem. Benedict sentiu uma vaga pontada de compaixão pela pobre e desconhecida Sophie. Mas a última coisa que desejava era entrar em uma conversa sobre a criadagem com lady Penwood, de modo que mudou o assunto fazendo um gesto para o bule. - Imagino que o chá já esteja bem encorpado. -Ah, sim, é claro. - disse ela, olhando também o bule e sorrindo - Como gosta? -Com leite e sem açúcar. Enquanto lhe servia a xícara ouviu o ruído de pés baixando a escada, e lhe acelerou o coração. Em qualquer momento apareceriam as filhas da condessa na porta, e certamente uma delas seria a mulher que tinha conhecido a noite anterior. Certo que não havia visto grande parte de seu rosto, mas tinha boa idéia de sua silhueta e altura. E estava bastante seguro de que tinha os cabelos longos e castanhos claro.


Sim a reconheceria se a visse. Como não ia reconhecê-la? Mas quando entraram as duas mocinhas na sala, soube imediatamente que nenhuma das duas era a mulher que ocupava todos os seus pensamentos. Uma delas era muito loira, e tinha um ar afetado, muito afetado, uma senhorita cheia de melindres. Não havia alegria em sua expressão, nem travessura em seu sorriso. A outra parecia bastante amistosa, mas era muito roliça, e seu cabelo era muito escuro. Procurou ocultar sua decepção. Sorriu durante as apresentações e beijou galantemente as mãos das duas, dizendo uma ou duas tolices sobre como encantado estava de conhecê-las. Empenhou-se decididamente em adular à gordinha, simplesmente porque se via as claras que sua mãe preferia à outra. Esses tipos de mães não mereciam serem mães, pensou. -E tem mais filhos? - perguntou à condessa quando acabaram as apresentações. Ela o olhou estranhando. -Não, claro que não. Se os tivesse os teria feito vir lhe conhecer. -Pensei que talvez pudesse ter filhos pequenos na sala de estudos. Talvez de sua união com o conde. Ela negou com a cabeça. -Meu matrimônio com lorde Penwood não foi abençoado com filhos. É uma lástima que o título tenha saído da família Gunningworth. Benedict não pôde deixar de notar que a condessa parecia mais irritada que entristecida por sua falta de prole Penwood. -Seu marido tinha irmãos ou irmãos? - perguntou, pensando se talvez sua dama misteriosa fosse uma prima Gunningworth. A condessa lhe dirigiu um olhar suspeito, ao qual ele teve de reconhecer que merecia, tomando em conta que suas perguntas não eram as normais para uma visita de tarde. - É evidente que meu marido não tinha nenhum irmão, - replicou a condessa - pois o título saiu da família. Benedict compreendeu que devia manter fechada a boca, mas havia algo nessa mulher que o irritava tanto que não pôde resistir a dizer: - Podia ter tido um irmão que morreu antes dele. -Bem, pois não. Rosamund e Posy seguiam com supremo interesse a conversa, girando as cabeças de um lado a outro como se estivessem vendo uma partida de tênis. -E irmãs? - perguntou ele - Em realidade, o único motivo que me move a fazer estas perguntas é que pertenço a uma família muito numerosa. Não me


imagino com um só irmão ou uma só irmã. - acrescentou, fazendo um gesto para Rosamund e Posy - Pensei que talvez suas filhas desfrutassem da companhia de primos e primas. Uma explicação bastante fraca, pensou, mas teria que servir. -Tinha uma irmã. - respondeu a condessa, enrugando o nariz, desdenhosa Mas viveu e morreu solteira. Era uma mulher de imensa fé, que escolheu dedicar sua vida às obras de caridade. Bom, fim da teoria da prima. -Desfrutei muitíssimo seu baile de máscaras ontem à noite. - disse Rosamund repentinamente. Benedict a olhou surpreso. As duas moças tinham estado tão caladas que ele tinha esquecido que sabiam falar. -Em realidade foi o baile de minha mãe. Eu não participei da preparação. Mas lhe transmitirei seu elogio. -Por favor. - disse Rosamund - Desfrutou do baile, senhor Bridgerton? Benedict esteve um momento olhando-a antes de responder. A jovem tinha uma expressão dura nos olhos, como se desejasse uma informação concreta. -Sim, muito. - respondeu. -Observei que passou grande parte do tempo com uma dama em particular. - insistiu Rosamund. Lady Penwood virou bruscamente a cabeça para olhá-lo, mas não disse nada. -Sim? - falou Benedict. -Levava um traje prateado. - continuou Rosamund - Quem era? -Uma mulher misteriosa. - disse ele com um sorriso enigmático. Não havia nenhuma necessidade de que elas soubessem que para ele também era um mistério. -Suponho que a nós pode dizer seu nome. - teimou lady Penwood. Benedict se limitou a sorrir, e se levantou. Não ia obter mais informações ali. - Temo que já precise partir senhoras. - disse afavelmente, lhes fazendo uma cortês reverência. -E afinal não viu as colheres. - lhe recordou lady Penwood. - Isso terá que reservar para outra ocasião. - disse ele. Era improvável que sua mãe se equivocasse a respeito do brasão Penwood. Além disso, se passasse outro momento mais em companhia da dura e rígida condessa de Penwood, igualmente poderia vomitar.


- Foi agradável. - mentiu. - Pois sim. - concordou lady Penwood, acompanhando-o à porta - Breve, mas agradável. Benedict não teve o trabalho de sorrir. -O que lhe parece que foi isto? - disse Araminta quando ouviu fechar a porta da rua, depois de sair Benedict Bridgerton. -Bem, - disse Posy - talvez... -Não perguntei a você. - resmungou Araminta. -Bem, a quem o perguntou, então? - replicou Posy, com mais bom senso do que a caracterizava. -Talvez me viu de longe. - disse Rosamund - E... -Não a viu de longe. - falou com raiva Araminta, atravessando a sala a longos passos. Rosamund retrocedeu, surpreendida. Sua mãe raras vezes lhe falava em tom tão impaciente. - Você mesma disse que estava apaixonado por uma mulher com vestido prateado. -Não falei "apaixonado" exatamente. -Não discuta por essas tolices. Estivesse apaixonado ou não, não veio aqui em busca de nenhuma de vocês. - disse Araminta, recalcando o "vocês", com sua boa dose de desdém - Não sei o que pretendia. Parecia... - se interrompeu para caminhar até a janela. Pondo a um lado a cortina, viu o senhor Bridgerton na calçada tirando algo do Bolso - O que faz? -sussurrou. -Creio que tem uma luva na mão. - disse Posy, serviçal. -Não é uma luva. - replicou Araminta, acostumada como estava a contradizer o que dissesse Posy - Vá, pois sim que é uma luva. -Me parece que sei conhecer uma luva quando vejo uma. - disse Posy. -O que está olhando? - perguntou Rosamund, dando uma cotovelada a sua irmã para que se apartasse. -Há algo na luva. - disse Posy - Talvez um bordado. Temos algumas luvas com o brasão Penwood bordado na bainha. Talvez essa tenha o mesmo. Araminta empalideceu. -Se sente mau, mãe? - perguntou Posy - Está muito pálida. -Veio aqui em busca dela. - sussurrou Araminta. -De quem? -perguntou Rosamund. - A mulher do vestido prateado. - Bem, não a vai encontrar aqui, - teimou Posy - pois eu fui de sereia e Rosamund de Maria Antonieta. E você de rainha Isabel, claro.


- Os sapatos... - exclamou Araminta - Os sapatos. -Que sapatos? - perguntou Rosamund, irritada. -Estavam arranhados. Alguém usou meus sapatos. - o rosto já terrivelmente pálido ficou mais branco ainda. - Era "ela". Como o fez? Deve ser ela. -Quem? - inquiriu Rosamund. - Mãe, de verdade não se sente mau? - voltou a perguntar Posy. - Está muito estranha. Mas Araminta já tinha saído correndo da sala. -Sapato estúpido. - falou Sophie, esfregando com um trapo o salto de um dos sapatos mais velhos de Araminta - Este não os pôs há anos. Acabou de pôr brilho à ponta e colocou o sapato em seu lugar na muito ordenada fileira. Mas ainda não havia pegado outro par quando se abriu bruscamente a porta do armário e foi chocar com a parede, com tanta força que ela quase lançou um grito de surpresa. -Aí, Deus, que susto me deu. - disse a Araminta - Não a senti vir e... - Recolhe suas coisas e vá embora. - disse Araminta em voz baixa e cruel Quero-a fora desta casa à saída do sol. Caiu da mão de Sophie o trapo com que estava dando brilho aos sapatos. -O que? Por quê? -Tenho que ter um motivo? Nós duas sabemos que há um ano deixei de receber os recursos por seu cuidado. Basta dizer que já não a quero aqui. -Mas aonde irei? Araminta entrecerrou os olhos até deixá-los convertidos em duas feias frestas. -Esse não é meu problema, não é? -Mas... - Tem vinte anos. Idade mais que suficiente para fazer seu caminho no mundo. Não haverá mais mimos de minha parte. -Jamais me mimou. - disse Sophie em voz baixa. -Não se atreva a me responder. -Por que não? - replicou Sophie, com voz mais aguda - O que posso perder? Vai me expulsar da casa de todas as maneiras. - Podia me tratar com um pouco de respeito, - respondeu Araminta, lhe plantando o pé sobre a saia, para cravá-la na posição de joelhos - tomando em conta que todo este ano te vesti e alojei só pela bondade de meu coração.


- Você não faz nada pela bondade de seu coração. - puxou a saia, mas esta estava firmemente agarrada sob o salto de Araminta - Por que me manteve aqui? -É mais barata que uma criada normal, - sibilou Araminta - e desfruto lhe dando ordens. Sophie detestava ser virtualmente a escrava de Araminta, mas a casa Penwood era um lar apesar de tudo. A senhora Gibbons era sua amiga e Posy normalmente era amistosa; o resto do mundo, em troca, era... Bom... Bastante temível. Aonde poderia ir? Que poderia fazer? Como se manteria? -Por que agora? - perguntou. - Já não me é útil. - resmungou Araminta, encolhendo os ombros. Sophie olhou a longa fileira de sapatos que acabava de limpar. -Não? Araminta pressionou o bicudo salto de seu sapato sobre a saia, fazendo-o girar até romper o tecido. - À noite foi ao baile, não é? Sophie sentiu que o sangue lhe abandonava o rosto e compreendeu que Araminta via a verdade em seus olhos. -N-não. – mentiu - Como ia a...? -Não sei como o fez, mas sei que esteve lá. - Com o pé atirou um par de sapatos em sua direção - Ponha estes sapatos. Sophie olhou os sapatos. Consternada viu que eram os de cetim branco costurados com fio de prata, os que usou a noite anterior. - Ponha isso! - gritou Araminta - Os pés de Rosamund e de Posy são muito grandes para estes sapatos. Você é a única que poderia tê-los usado ontem à noite. -E por isso acredita que fui ao baile? - perguntou Sophie, com a voz trêmula de terror. -Ponha os sapatos, Sophie. Ficou de pé e obedeceu. Logicamente, os sapatos ficavam perfeitos. -Ultrapassou seus limites. - disse Araminta em voz baixa - Há muitos anos lhe adverti que não esquecesse seu lugar neste mundo. É filha ilegítima, uma bastarda, o fruto de... - Sei o que significa bastarda! Araminta arqueou uma sobrancelha, zombando altivamente dessa explosão.


- É indigna de alternar com a sociedade educada, – continuou - e, entretanto atreveu-se a simular que vale tanto como o resto de nós indo ao baile de máscaras. -Sim, atrevi-me! - exclamou Sophie, já sem se importar que Araminta tivesse descoberto seu segredo - Atrevi-me e voltaria a me atrever. Meu sangue é tão azul como o seu, e meu coração muito mais bondoso, e... Um instante estava de pé gritando com Araminta e o seguinte estava no chão com a mão na face, vermelha pela bofetada. -Não se compare jamais comigo. – lhe advertiu Araminta. Sophie continuou no chão. Como pôde lhe haver feito isso seu pai, deixá-la aos cuidados de uma mulher que a odiava tanto? Tão pouco a queria? Ou simplesmente tinha estado cego? - Amanhã pela manhã já estará fora daqui. – continuou Araminta em voz baixa - Não quero voltar a ver seu rosto. Sophie se levantou e foi até a porta. Araminta lhe pôs violentamente a mão sobre o ombro. - Mas não antes de acabar o trabalho que lhe atribuí. -Me levará até amanhã terminá-lo. - protestou ela. -Esse é seu problema, não meu. Dito isso, Araminta fechou a porta de um golpe e deu volta à chave na fechadura, com um clique muito forte. Sophie olhou a trêmula chama da vela que tinha levado aí para iluminar o longo e escuro roupeiro. A mecha não duraria de maneira nenhuma até a manhã seguinte. E de maneira nenhuma ela ia limpar o resto dos sapatos de Araminta; certamente de maneira nenhuma. Sentou-se no chão, com as pernas e os braços cruzados e esteve olhando a chama até que se puseram os olhos turvos. Quando saísse o sol na manhã seguinte, sua vida mudaria para sempre. A casa Penwood poderia não ter sido um lugar precisamente acolhedor, mas pelo menos era um lugar seguro. Não tinha quase nada de dinheiro. Não tinha recebido nem um quarto de penny de Araminta nos sete anos passados. Por sorte, ainda tinha um pouco do dinheiro para gastos menores que recebia quando seu pai estava vivo e a tratavam como a sua pupila, não como a escrava de sua mulher. E embora tivesse muitas oportunidades de gastá-lo, sempre tinha sabido que podia chegar esse dia, por isso lhe pareceu prudente guardar os poucos recursos que tinha. Mas essas poucas libras não a levariam muito longe. Necessitava de uma passagem para partir de Londres, e isso era caro; talvez mais da metade de suas


economias. Talvez pudesse ficar um tempo na cidade, mas os bairros pobres de Londres eram sujos e perigosos, e certamente as economias que tinha não lhe permitiriam viver em nenhum dos bairros melhores. Além disso, se ia estar sozinha, bem que podia voltar para o campo, que tanto gostava. E isso sem levar em conta que Benedict Bridgerton estava em Londres. A cidade era grande e não tinha a menor duvida de que poderia evitar encontrarse com ele durante anos, mas seu medo terrível era que não desejaria evitá-lo; com certeza iria olhar sua casa com a esperança de vê-lo quando saísse pela porta principal. E se ele a visse... Bom, não sabia o que poderia ocorrer. Era possível que ele estivesse furioso por seu engano. Poderia desejar fazê-la sua amante. Poderia não reconhecê-la. A única coisa que sabia com certeza era que ele não se jogaria a seus pés lhe declarando seu amor eterno nem lhe pediria a mão em matrimônio. Os filhos de visconde não se casam com moças de humilde berço. Nem sequer nas novelas. Não, tinha que partir de Londres; manter-se afastada da tentação. Mas necessitaria de dinheiro, o suficiente para viver até que encontrasse um emprego. O suficiente para... Seus olhos pousaram em algo brilhante: um par de sapatos metidos no canto. Mas não fazia uma hora ela tinha limpado esses sapatos e sabia que o brilho não provinha dos sapatos, mas sim de umas pinças com jóias que tinham presas, que eram fáceis de tirar e bastante pequenas para guardá-las no bolso. Atreveria-se? Pensou em todo o dinheiro que tinha recebido Araminta por cuidar dela, dinheiro que à mulher jamais lhe ocorreu compartilhar com ela. Pensou em todos os anos que tinha trabalhado como criada e criada sem receber o mínimo pagamento. Pensou em sua consciência e se apressou a esmagá-la. Em momentos como esse não tinha espaço para uma consciência. Agarrou as pinças dos sapatos. E várias horas depois, quando Posy subiu (contra os desejos de sua mãe) para lhe abrir a porta para que saísse, empacotou todos seus pertences e partiu. Ante sua própria surpresa, não olhou para trás.


Capítulo 6 Faz já três anos que não há nenhum casamento na família Bridgerton, e em várias ocasiões se ouviu declarar lady Bridgerton que está quase desenquadrada. Benedict não procurou noiva (e é a opinião desta cronista que em seus trinta anos já deveria fazê-lo); tampouco tem noiva Colin, embora talvez lhe possa perdoar sua tardança porque, ao fim e ao cabo, só tem vinte e seis anos. A viscondessa viúva tem também duas filhas pelas quais preocupar-se. Eloise está muito perto dos vinte e um anos, e embora lhe tenham feito várias propostas, demonstrou não ter nenhuma inclinação a casar-se. Francesca vai completar os vinte (por coincidência, as duas jovens aniversariam no mesmo dia), e também parece mais interessada na temporada que no matrimônio. Esta cronista opina que lady Bridgerton não tem por que preocupar-se em realidade. É inconcebível que qualquer dos irmãos Bridgerton não faça finalmente um matrimônio aceitável; além disso, seus dois filhos casados já lhe deram um total de cinco netos, e suponho que esse é o desejo de seu coração. Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 30 de abril de 1817. Álcool e charutos; partidas de cartas e muitas mulheres de aluguel. Justo o tipo de festa de que Benedict Bridgerton teria desfrutado imensamente quando acabava de sair da universidade. Mas nesse momento estava aborrecido, enfastiado. Nem sequer sabia por que lhe ocorreu ir. Por puro aborrecimento, supunha. Até o momento a temporada de 1817 em Londres tinha sido uma repetição da do ano anterior, e não tinha achado particularmente interessante a de 1816. Fazer o mesmo e o mesmo outra vez já era pior que vulgar. Tampouco conhecia o anfitrião, um tal Phillip Cavender. Era uma dessas situações do amigo de um amigo de um amigo, e nesse momento desejava fervorosamente ter ficado em Londres. Acabava de sair de uma desconfortável gripe, e deveria ter aproveitado esse pretexto para rechaçar o convite, mas seu amigo, ao que, por certo, não via desde á várias horas, tinha insistido, tentandoo, convencendo-o, até que ele cedeu. E quanto o lamentava. Avançou pelo corredor que saía do vestíbulo principal da casa dos pais de Cavender. Pela porta esquerda viu um grupo jogando cartas; um dos jogadores estava suando copiosamente.


-Idiota... - sussurrou. O pobre homem estava igualmente a ponto de perder sua casa ancestral. A porta da direita estava fechada, mas ouviu risinhos femininos e logo a risada de um homem, seguidos por uns grunhidos e chiados bastante desagradáveis. Isso era uma loucura, uma estupidez. Não desejava estar aí. Detestava jogar cartas quando as apostas eram somas superiores ao que podiam permitir os participantes e jamais tinha tido o menor interesse em copular de uma maneira tão pública. Não sabia o que tinha ocorrido ao amigo que o levou ali, e não lhe caíam muito bem outros convidados. -Vou embora. – disse embora não houvesse ninguém que o escutasse. Tinha uma pequena propriedade não muito longe dali, a uma hora de trajeto em realidade. Embora não era muito mais que uma rústica casinha de campo, nesse momento a desejou tanto como a um hotel. Mas as boas maneiras lhe ordenavam que procurasse a seu anfitrião para informá-lo de sua partida, mesmo que o senhor Cavender estivesse tão bêbado que no dia seguinte não recordasse nada da conversa. Mas ao cabo de dez minutos de infrutífera busca, Benedict já começava a desejar que sua mãe não tivesse sido tão firme em seu empenho de inculcar boas maneiras a todos seus filhos. Então lhe teria sido muito mais fácil partir simplesmente e pronto. -Três minutos mais - resmungou - se dentro de três minutos não encontrar ao maldito idiota, vou embora. Justo nesse momento passou a seu lado dois jovens cambaleantes que ao enredar-se em seus próprios pés soltaram uma ruidosa gargalhada. O ar se impregnou de eflúvios alcoólicos, e Benedict retrocedeu discretamente um passo, embora um deles se visse obrigado a lhe jogar em cima o conteúdo de seu estômago. Tinha muitíssimo carinho a suas botas. -Bridgerton! - exclamou um deles. Benedict os saudou com uma seca inclinação da cabeça. Os dois eram uns cinco anos mais novos que ele e não os conhecia bem. -Esse não é um Bridgerton. - disse o outro com a voz pastosa. - Esse é... Vá, pois sim que é um Bridgerton. Tem o cabelo e o nariz. - entrecerrou os olhos – Mas qual dos Bridgerton? -Viram a nosso anfitrião? - perguntou Benedict, passando por cima da pergunta. -Temos um anfitrião?


- Pois, claro. - disse o primeiro - Cavender. Um tipo condenadamente amável, para nos deixar usar sua casa... -A casa de seus pais. - emendou o outro - Não a herdou ainda, o pobre. -Isso! A casa de seus pais. Muito agradável o moço de todos os modos. -Algum de vocês o viu? - grunhiu Benedict. -Está fora. - respondeu o que a princípio não recordava que tinham um anfitrião. - Bem diante da casa. - Obrigado. Sem mais, passou junto a eles em direção à porta. Desceria a escadaria, apresentaria seus respeitos ao Cavender e se dirigiria ao estábulo a recolher seu faeton. Talvez nem sequer tivesse que diminuir o passo. Era hora de buscar outro emprego, pensou Sophie Beckett. Tinham transcorrido quase dois anos desde que partira de Londres, dois anos desde que por fim deixara de ser a escrava da Araminta, dois anos desde que ficara totalmente sozinha. Depois de sair da casa Penwood empenhou as pinças dos sapatos de Araminta, mas os diamantes de que tanto alardeava Araminta não eram na verdade diamantes, mas simples imitações, e não lhe deram muito dinheiro por eles. Tentou encontrar trabalho como preceptora, mas em nenhuma das agências em que se apresentou estiveram dispostas a aceitá-la. Tinha boa educação, mas não tinha nenhuma recomendação; além disso, a maioria das mulheres não queria contratar a uma pessoa tão jovem e bonita. Finalmente comprou um bilhete em uma carruagem de linha até o Wiltshire, pois isso era o mais longe que podia ir se quisesse reservar a maior parte de seu dinheiro para emergências. Felizmente, não demorou muito em encontrar emprego, como criada do piso superior na casa do senhor e senhora Cavender. Estes eram um casal normal, que esperavam bom trabalho de seus criados, mas não exigiam o impossível. Depois de trabalhar tantos anos para a Araminta, o trabalho em casa dos Cavender lhe pareceu quase como fazer férias. Mas então retornou o filho de sua viagem pela Europa e tudo mudou. Phillip vivia tratando de encurralá-la nos corredores, e ao rechaçar ela uma e outra vez, às suas insinuações e propostas, ele foi ficando mais e mais agressivo. Justo quando estava começando a pensar que devia procurar um emprego em outra parte, os senhores Cavender se foram a Brighton,para fazer uma visita de uma semana à irmã da senhora Cavender. E então Phillip decidiu organizar uma festa para uns vinte de seus melhores amigos.


Já lhe tinha sido difícil evitar os encontros com o Phillip antes, mas pelo menos se sentia um pouco protegida; Phillip não se atreveria a atacá-la estando sua mãe em casa. Mas estando ausentes os senhores Cavender, o jovem parecia acreditar que podia fazer e tomar o que desejasse muito; e seus amigos não eram melhores. Sabia que deveria ter partido imediatamente, mas a senhora Cavender a tinha tratado bem e não lhe pareceu correto partir sem dar o aviso com duas semanas de antecedência. Entretanto, depois de sofrer uma perseguição de duas horas por toda a casa, decidiu que as boas maneiras não valiam sua virtude, de modo que depois de dizer à governanta (compassiva, por sorte) que não podia continuar ali, colocou seus poucos pertences em uma pequena bolsa, desceu sigilosamente pela escada lateral de serviço e saiu. Esperava-a uma caminhada de duas milhas até a cidade, mas sem dúvida estaria imensamente mais segura no caminho, inclusive na escuridão dessa negra noite, que ficando na casa Cavender. Além disso, sabia de uma pequena estalagem onde poderia comer algo quente e conseguir um quarto a um preço módico. Acabava de dar a volta à casa e tomar o caminho de entrada quando ouviu um estridente grito. Olhou. Maldição. Era Phillip Cavender, que parecia estar mais bêbado e desagradável que de costume. Pôs-se a correr, rogando que o álcool lhe tivesse quebrado a coordenação, porque sabia que não poderia igualá-lo em velocidade. Mas ao que parecia sua fuga só serviu para excitá-lo, porque o ouviu gritar alegremente e logo ouviu seus passos, ensurdecedores, aproximando-se, aproximando-se, até que sentiu fechar-se sua mão na parte de trás da gola de sua jaqueta, obrigando-a a deter-se. Phillip riu triunfante, e ela se sentiu mais aterrada que nunca em toda sua vida. -Olha o que tenho aqui. - cacarejou - A senhorita Sophie. Terei que apresentá-la a meus amigos. Sophie sentiu a boca ressecada e não soube se o coração lhe tinha parado ou estava pulsando ao dobro de velocidade. -Solte-me, senhor Cavender. - disse com a voz mais severa que conseguiu usar. Sabia que gostava de vê-la impotente e suplicante, e não estava disposta a lhe dar o gosto. -Creio que não. - disse ele. A fez dar meia volta, por isso se viu obrigada a ver estirar seus lábios em um sorriso baboso. Então ele virou a cabeça a um lado e gritou:


-Heasley! Flctcher! Olhem o que tenho aqui! Horrorizada viu sair dois homens das sombras, os que, a julgar por seu aspecto, estavam tão bêbados, ou mais, que Phillip. -Sempre dá as melhores festas. - disse um deles em tom lisonjeador. Phillip se inchou de orgulho. -Me solte! -repetiu Sophie. Phillip sorriu de orelha a orelha. -O que lhes parece moços? Obedeço à dama? - Demônios, não! - respondeu o mais jovem dos dois homens. - Parece que "dama" é uma denominação algo incorreta, não acha? - disse o outro, que acabava de dizer que Phillip dava as melhores festas. -Muito certo! - exclamou Phillip - Esta é uma criada, e, como todos sabemos, esta gentinha nasceu para servir. - deu um forte empurrão em Sophie na direção de um de seus amigos - Aí tem. Jogue um olhar à mercadoria. Sophie lançou um grito ao sentir-se assim catapultada e segurou fortemente sua bolsa. Iria violá-la, isso estava claro. Mas sua mente aterrada queria ater-se a um fiapo de dignidade, e não permitiria que esses homens esparramassem até o último de seus pertences sobre o frio chão. O homem que a agarrou a manuseou grosseiramente e logo a empurrou de volta ao terceiro. Este acabava de lhe passar o braço pela cintura quando alguém gritou: - Cavender! Sophie fechou os olhos, desesperada. Outro homem mais. Quatro. Deus santo, três não eram suficientes? -Bridgerton! - gritou Phillip - Una-se a nós. Sophie abriu os olhos. Bridgerton? Da escuridão saiu um homem alto, de potente musculatura, avançando com confiada soltura. -O que temos aqui? Deus santo, ela teria reconhecido essa voz em qualquer parte. Tinha-a ouvido com muita freqüência em seus sonhos. Era Benedict Bridgerton. Seu Príncipe Encantado. O ar noturno estava frio, mas Benedict o achou refrescante, depois de haver-se visto obrigado a inspirar os eflúvios do álcool e tabaco no interior da casa. A lua brilhava bem arredondada, quase cheia, e uma suave brisa agitava as folhas das árvores. Total, que era uma excelente noite para abandonar uma festa aborrecida e retornar a casa.


Mas o primeiro é o primeiro. Tinha que encontrar a seu anfitrião e passar pelo processo de lhe agradecer sua hospitalidade e informá-lo de sua partida. Quando chegou ao degrau inferior gritou: - Cavender! -Aqui! - chegou a resposta. Olhou à direita. Cavender estava junto a um majestoso olmo com outros dois cavalheiros. Ao que parecia estavam divertindo-se com uma criada, empurrando a de um a outro. Soltou um gemido. Estava muito longe para determinar se a criada estava desfrutando de suas atenções, e se não o estava, teria que salvá-la, e não era isso o que tinha planejado fazer essa noite. Nunca tinha gostado particularmente de se fazer de herói, mas tinha muitas irmãs menores, quatro exatamente, para fazer caso omisso de uma mulher em apuros. -É, aí! - gritou caminhando sem pressa, tratando de manter uma postura despreocupada. Sempre era melhor caminhar lentamente para avaliar a situação, e não jogar-se às cegas. -Bridgerton! - gritou Cavender - Una-se a nós! Benedict chegou ao lugar justo no momento em que um dos homens passava um braço pela cintura da jovem, detrás, e com a outra mão começava a lhe beliscar e lhe manusear o traseiro. Olhou à criada nos olhos. Esses olhos estavam arregalados, aterrados, e olhavam a ele como se acabasse de cair inteiro do céu. -O que temos aqui? - perguntou. -Um pouco de diversão. - riu Cavender - Meus pais tiveram a amabilidade de contratar a este bom bocado como criada do piso superior. -Não parece estar desfrutando de suas atenções. - disse Benedict tranquilamente. -Sim, gosta disso. - respondeu Cavender sorrindo - Gosto o suficiente para mim, em todo caso. -Mas não para mim. - disse Benedict avançando. -Pode ter seu turno com ela, - disse Cavender jovialmente - logo que nós tenhamos terminado. - Entendeu mau. Ante o fio resistente de sua voz os três homens ficaram imóveis, olhando-o com receosa curiosidade. - Solte à moça.


Ainda pasmado pela repentina mudança de atmosfera e talvez com os reflexos adormecidos pelo álcool, o homem que segurava à moça não a soltou. -Não desejo lutar com vocês, - disse Benedict, cruzando os braços - mas o farei. E lhes asseguro que as possibilidades de três contra um não me assustam. -Olhe, você, - disse Cavender enfadado - não pode vir aqui e me dar ordens em minha propriedade. - A propriedade é de seus pais. - emendou Benedict, recordando a todos que Cavender ainda estava com o leite nos lábios. - É minha casa, - replicou Cavender - e ela é minha criada. E fará o que eu queira. -Não sabia que a escravidão era legal neste país. - Tem que fazer o que eu disser. -Sim? -Se não, irei despedi-la. -Muito bem. - disse Benedict com um indício de sorriso zombeteiro Pergunte-lhe, então. Pergunte se deseja copular com vocês três. Porque isso é o que tinham pensado, não é? Cavender balbuciou algo sem saber o que dizer. - Pergunte-lhe. - repetiu Benedict, sorrindo, principalmente porque sabia que seu sorriso enfureceria ao homem menor - E se disser não, pode despedi-la agora mesmo. -Não perguntarei. - gemeu Cavender. - Bem, então não pode esperar que o faça, verdade? - olhou à moça. Era muito atraente, com uma cabeleira curta de cachos castanhos claro e uns olhos que pareciam quase muito grandes em seu rosto - Muito bem, - disse - olhando novamente Cavender - eu perguntarei. A moça entreabriu os lábios, e Benedict teve a estranha impressão de que já haviam se visto antes. Mas isso era impossível, a não ser que tivesse trabalhado para alguma outra família aristocrática. E inclusive nesse caso, só a teria visto de passagem. Seu gosto em mulheres não ia jamais para as criadas, e a verdade, tendia a não fixar-se nelas. -Senhorita... - franziu o cenho - Ouça, como se chama? -Sophie Beckett. - respondeu ela, com a voz sufocada, como se tivesse um imenso entalado na garganta. -Senhorita Beckett, - continuou ele - teria a amabilidade de responder a seguinte pergunta? -Não! - explodiu ela. -Não vai responder? - perguntou ele, com uma expressão de diversão nos olhos.


-Não, não quero copular com esses três homens. As palavras lhe saíram quase fervendo da boca. -Bem, parece que isso resolve o assunto. - disse Benedict. Olhou ao homem que ainda a tinha presa - Sugiro que a solte para que Cavender possa despedi-la de seu emprego. -E aonde irá? - zombou Cavender - Posso lhe assegurar que não voltará a trabalhar neste distrito. Sophie olhou ao Benedict, pensando o mesmo. Benedict encolheu os ombros despreocupadamente. - Encontrar-lhe-ei um posto na casa de minha mãe. - olhou-a e arqueou uma sobrancelha - Suponho que isso é aceitável, não? Sophie estava boquiaberta, com horrorizada surpresa. Benedict queria levá-la a sua casa? -Essa não é exatamente a reação que eu esperava. - comentou ele, sarcástico - Certamente será mais agradável que seu emprego aqui. No mínimo, posso lhe assegurar que não a violarão. O que diz? Desesperada, Sophie olhou aos três homens que tinham tentado violá-la. Em realidade não tinha outra opção; Benedict Bridgerton era seu único meio para sair da propriedade Cavender. Embora, de maneira nenhuma poderia trabalhar para sua mãe; seria absolutamente insuportável estar tão perto dele e continuar sendo uma criada. Mas encontraria a maneira de evitar isso depois; nesse momento o que precisava era livrar-se do Phillip. Olhou ao Benedict e assentiu, sem atrever-se a falar. Sentia-se como se estivesse afogando, embora não sabia se isso se devia a medo ou a alívio. -Muito bem. - disse ele - Vamos então? Ela olhou intencionadamente o braço que a continuava retendo. -Vamos, pelo amor de Deus. - grunhiu Benedict - Vai soltá-la ou terei que lhe destroçar a maldita mão com um tiro? Benedict nem sequer tinha uma pistola na mão, mas seu tom foi tal que o homem a soltou imediatamente. -Estupendo. - disse Benedict oferecendo o braço à criada. Ela deu uns passos e colocou a trêmula mão sobre seu cotovelo. -Não pode levá-la. - chiou Phillip. -Já o fiz. - respondeu Benedict olhando-o desdenhoso. -Lamentarás ter feito isto. - disse Phillip. - Duvido. E agora, fora de minha vista! Depois de emitir vários resmungos, Phillip se voltou para seus amigos.


-Vamos daqui. - lhes disse. Depois olhou para Benedict - E você não acredite que vai receber outro convite a alguma de minhas festas. - Parte-me o coração. - respondeu Benedict, com voz zombadora. Phillip balbuciou algo, indignado, e logo ele e seus dois amigos puseram-se a andar para a casa. Durante um momento Sophie os observou afastar-se e logo voltou lentamente o olhar para Benedict. Quando estava presa pelo Phillip e seus lascivos amigos, sabia o que desejavam lhe fazer e quase desejou morrer. E de repente, aí estava Benedict Bridgerton, ante ela, como um herói de seus sonhos, e chegou a acreditar que tinha morrido, porque como podia estar ele aí com ela se não estava no céu? Estava tão absolutamente pasmada que quase esqueceu que o amigo de Phillip a tinha apertada contra ele e lhe tinha pegado o traseiro de maneira humilhante. Por um breve instante o mundo pareceu desvanecer-se e a única coisa que era capaz de ver, a única que percebia, era a Benedict Bridgerton. Foi um momento perfeito. Mas então reapareceu o mundo, esmagador como com um estalo, e o primeiro pensamento que lhe ocorreu foi que fazia ele aí? Essa era uma festa asquerosa, toda de bêbados e rameiras. Quando se conheceram dois anos atrás, não lhe deu a impressão de ser um homem que frequentasse esse tipo de reuniões. Mas só esteve com ele umas poucas horas; talvez tivesse formado um julgamento equivocado dele. Fechou os olhos, angustiada. Durante esses dois anos passados, Benedict Bridgerton tinha sido a luz mais brilhante em sua monótona e penosa existência. Tinha-se formado uma opinião equivocada dele, se ele fosse pouco melhor que Phillip e seus amigos, ficaria sem nada. Nem sequer com uma lembrança de amor. Mas ele acabava de salvá-la; isso era irrefutável. Talvez o importante não fosse o motivo de que ele tivesse ido à festa do Phillip, mas só que tinha ido e a tinha salvado. -Se sente mau? - perguntou ele. Ela negou com a cabeça, olhando-o nos olhos, esperando que ele a reconhecesse. -Tem certeza? Ela assentiu, e seguiu esperando. Não demoraria em reconhecê-la. -Estupendo. Estavam-na sacudindo brutalmente. -Superarei isso.


Sophie mordeu o lábio inferior. Não sabia como reagiria ele quando se desse conta de quem era ela. Estaria encantado? Ficaria furioso? O suspense a mataria. -Quanto tempo lhe levará empacotar suas coisas? Ela pestanejou um pouco aturdida, e então caiu na conta de que continuava segurando fortemente sua bolsa. - Tenho tudo aqui. Já tinha saído da casa para partir quando me agarraram. -Moça inteligente. - comentou ele, aprovador. Ela se limitou a olhá-lo, sem poder acreditar que não a tivesse reconhecido. - Vamos, então. - disse ele - Só estar na propriedade de Cavender me adoece. Ela guardou silêncio, mas adiantou ligeiramente o queixo e inclinação a cabeça, lhe observando a rosto. -Tem certeza que se encontra bem? - lhe perguntou ele. E então Sophie começou a pensar. Dois anos atrás, quando o conheceu, ela tinha coberto a metade do rosto por uma máscara. Levava ligeiramente empoeirado o cabelo, o que a fazia parecer mais loira do que era em realidade. Além disso, depois tinha cortado e vendido a cabeleira a um fabricante de perucas. Seus cabelos em outro tempo longos e ondeados eram agora cachos curtos. Sem ter à senhora Guibbons para alimentá-la, tinha emagrecido muitíssimo. E, se o pensasse bem, só tinham estado em mútua companhia escassamente uma hora e meia. Olhou-o fixamente nos olhos. E então compreendeu. Ele não a reconheceria. Não tinha a menor ideia de quem era ela. Não soube se se punha a rir ou a chorar.


Capítulo 7 A todos os convidados ao baile dos Mottram, na quinta-feira passada, ficou claro que a senhorita Rosamund Reiling se propôs conquistar ao senhor Phillip Cavender. É a opinião desta cronista que os dois fazem muito bom par. Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 30 de abril de 1817. Dez minutos depois, Sophie estava sentada ao lado do Benedict Bridgerton em seu faeton. - Entrou-lhe algo no olho? - perguntou ele. Isso a tirou de suas reflexões. -O que? -Não pára de pestanejar. - explicou ele - Pensei que poderia lhe haver entrado algo no olho. Ela engoliu em seco, tratando de reprimir um ataque de risada nervosa. O que devia lhe dizer? A verdade? Que pestanejava e pestanejava porque supunha que em qualquer momento despertaria do que poderia ser só um sonho? Ou talvez um pesadelo? -Está bem, de verdade? Ela assentiu. -São os efeitos da comoção, imagino. - disse ele. Ela voltou a assentir; era melhor que ele acreditasse que era isso o que a afetava. Como era possível que não a tivesse reconhecido? Fazia dois anos que sonhava com esse momento. Seu Príncipe Encantado tinha ido por fim resgatála, e nem sequer sabia quem era ela. -Me diga seu nome outra vez? Sinto-o muitíssimo. Sempre tenho que ouvir duas vezes um nome para recordá-lo. -Senhorita Sophie Beckett. Não havia motivo para mentir; não lhe havia dito seu nome no baile de máscaras. -E um prazer conhecê-la, senhorita Beckett. - disse ele, sem afastar a vista do escuro caminho - Eu sou o senhor Benedict Bridgerton. Sophie respondeu a sua apresentação com uma inclinação da cabeça, mesmo que ele não a estivesse olhando. Guardou silêncio um momento, principalmente porque não sabia o que dizer nessa situação tão incrível. Essa


era a apresentação que não teve lugar quando se conheceram. Finalmente se limitou a dizer: - O que fez foi muito corajoso. Ele encolheu os ombros. - Eles eram três e você só uma. -A maioria dos homens não teria intervindo. -Detesto os valentões. - disse ele simplesmente. -Me teriam violado. - continuou ela, assentindo outra vez. - Sei. - disse ele. E acrescentou - Tenho quatro irmãs. Ela esteve a ponto de dizer "Sei", mas se conteve bem a tempo. Como podia saber isso uma criada do Wiltshire? -Suponho que por isso foi tão sensível a minha apurada situação. -Me agrada pensar que outro homem iria ajudá-las se alguma vez se encontrassem em uma situação similar. -Espero de coração que nunca tenha que comprová-lo. -Eu também. - concordou ele tristemente. Continuaram o trajeto, envoltos no silêncio da noite. Sophie se lembrou do baile, quando não tinham parado de conversar nem sequer um momento. A situação era diferente agora. Ela era uma criada, não uma gloriosa mulher da alta sociedade. Não tinham nada em comum. De qualquer modo, continuava esperando que ele a reconhecesse, que parasse a carruagem, estreitasse-a contra seu peito e lhe dissesse que levava dois anos a procurando. Mas muito em breve compreendeu que isso não ocorreria. Ele não podia reconhecer à dama na criada e, seja dita a verdade, por que teria que fazê-lo? As pessoas vêem o que esperam ver. E certamente Benedict Bridgerton não esperava ver uma elegante dama da sociedade sob o disfarce de uma humilde criada. Não tinha passado nem um só dia em que não tivesse pensado nele, que não tivesse recordado os lábios dele sobre os seus ou a embriagadora magia dessa noite de fantasias. Ele se tinha convertido no centro de suas fantasias, nas que ela era outra pessoa, com outros pais. Em seus sonhos, conhecia-o em um baile, talvez seu próprio baile, dado por seus amorosos pai e mãe. Ele a cortejava docemente, lhe levando fragrantes flores e lhe roubando beijos às escondidas. E então, num aprazível dia de primavera, em meio aos gorjeios dos pássaros e uma suave brisa, ele fincava um joelho no chão e lhe pedia que se casasse com ele, lhe fazendo profissão de um amor e adoração eternos.


Era um formoso sonho acordado, superado somente por aquele em que viviam felizes para sempre, com três ou quatro esplêndidos filhos, todos nascidos dentro do sacramento do matrimônio. Mas ainda com todas essas fantasias, jamais se imaginou que voltaria a vêlo na realidade, e muito menos que ele a resgataria de um trio de atacantes licenciosos. Teria lhe encantado saber se ele alguma vez pensou na misteriosa mulher de traje prateado com a que compartilhara um apaixonado beijo. Gostava de acreditar que pensava, mas duvidava de que para ele tivesse significado tanto como para ela. Ele era um homem, ao fim e ao cabo, e o mais provável era que tivesse beijado a muitas mulheres. E para ele, essa noite única teria sido muito parecida com qualquer outra. Ela continuava lendo o jornal Whistledown sempre que conseguia lhe pôr as mãos. Sabia que ele ia à vintenas de bailes. Por que, pois, ia destacar em suas lembranças um baile de máscaras? Suspirando olhou as mãos, nas quais ainda segurava o cordão de sua pequena bolsa. Teria gostado de ter luvas, mas ao começo desse ano tinha tido que atirar seu único par por inútil, e não tinha podido comprar outro. Tinha as mãos ásperas e gretadas, e já lhe estavam esfriando os dedos. -É isso tudo o que possui? - perguntou Benedict, fazendo um gesto para a bolsa. Ela assentiu. -Não tenho muito. Só uma muda de roupa e uns poucos objetos pessoais. Passado um momento ele comentou: - Tem uma dicção muito refinada para ser uma criada. Não era ele a primeira pessoa que o fazia essa observação, por isso já tinha uma resposta preparada: -Minha mãe era a governanta de uma família muito boa e generosa. Permitiam-me que assistisse a algumas aulas com suas filhas. Tinham chegado a uma encruzilhada e com um destro movimento dos pulsos ele fez entrar os cavalos pelo caminho da esquerda. - Por que não trabalha aí? – perguntou - Suponho que não se refere aos Cavender. -Não. - respondeu ela, tratando de inventar uma resposta adequada. Nunca ninguém se incomodou em lhe fazer mais pergunta sobre essa explicação; a ninguém tinha interessado tanto para que lhe importasse saber mais - Minha mãe morreu, - disse por fim - e eu não me dava bem com a nova governanta.


Ele pareceu aceitar isso e continuaram em silêncio uns minutos. O silêncio da noite só era interrompido por esporádicas rajadas de vento e o rítmico clap clap dos cascos dos cavalos. Finalmente, já incapaz de conter sua curiosidade, ela perguntou: -Aonde vamos? -Tenho uma casinha de campo não muito longe. - respondeu ele Passaremos ali uma ou duas noites e depois a levarei a casa de minha mãe. Estou seguro de que lhe encontrará um posto entre seu pessoal. Começou a retumbar o coração dela. -Essa casinha sua... -Estará bem acompanhada. - disse ele com um indício de sorriso - Estão ali os zeladores, e lhe asseguro que não há nenhuma possibilidade de que o senhor e a senhora Crabtree permitam que ocorra algo incorreto em sua casa. -Acha que a casa é dela. Ele alargou o sorriso. -Levo anos tratando de que a considerem minha, mas nunca tive êxito. Sophie não pôde evitar que lhe curvassem as comissuras da boca. -Me parece que são pessoas que vou gostar muitíssimo. - Isso espero. Novamente se fez o silêncio. Sophie mantinha os olhos escrupulosamente fixos à frente. Tinha um medo do mais ridículo de que se seus olhos se encontrassem com os dele, ele a reconheceria. Mas isso era pura fantasia. Ele já a tinha olhado nos olhos, e mais de uma vez, e continuava pensando que ela não era outra coisa que uma criada. Mas passados uns minutos sentiu um muito estranho formigamento na face, e ao girar a rosto para ele comprovou que ele a olhava uma e outra vez com expressão estranha. -Nos conhecemos? -perguntou ele de repente. -Não. - respondeu ela, com a voz mais abafada do que haveria querido Acredito que não. - Tem razão, sem dúvida - disse ele - mas de qualquer modo, tenho a impressão de que a vi antes. -Todas nós criadas somos iguais. - disse ela, com um sorriso irônico. - Isso costumava pensar eu. - disse ele entre dentes. Ela virou o rosto para adiante, surpreendida. Por que havia dito isso? Pois que não queria que ele a reconhecesse? Pois não passou a última meia hora esperando, desejando, sonhando e...?


E esse era o problema. Estava sonhando. Em seus sonhos, ele a amava; em seus sonhos, lhe pedia que se casasse com ele. Na realidade, era possível que lhe pedisse que fosse sua amante, e isso era algo que tinha jurado não fazer jamais; na realidade, era possível que ele se sentisse obrigado pela honra a devolvê-la a Araminta, a qual, com toda probabilidade a levaria diretamente ante o magistrado por lhe haver roubado as pinças dos sapatos, pois não havia acreditado nem por um momento que Araminta não tivesse notado seu desaparecimento. Não, era melhor que ele não a reconhecesse. Isso só lhe complicaria a vida, e considerando que não tinha nenhuma fonte de ganhos, e que em realidade tinha muito pouco além da roupa que levava posta, a sua vida não necessitava de nenhuma complicação nesse momento. Entretanto, sentia-se inexplicavelmente desiludida de que ele não tivesse sabido imediatamente quem era. - Isso foi uma gota de chuva? - perguntou, ansiosa por levar a conversa a assuntos menos espinhosos. Benedict olhou para cima. Nesse momento a lua estava obscurecida por nuvens. -Não parecia que ia chover quando partimos. – disse e caiu-lhe uma gora na coxa - Mas acredito que tem razão. Ela contemplou o céu. - O vento aumentou bastante. Espero que não seja uma tormenta. -Com certeza haverá tormenta, - disse ele irônico - já que estamos em uma carruagem aberta. Se tivesse pegado minha carruagem de quatro portas, não haveria nenhuma só nuvem no céu. -Quanto falta para chegar a sua casa? -Mais ou menos uma meia hora, diria eu. - franziu o cenho - Isso se não nos reter a chuva. -Bem, não me importa um pouco de chuva. - disse ela, valentemente - Há coisas muito piores que molhar-se. Os dois sabiam exatamente a que se referia. - Acho que me esqueci de lhe agradecer. - acrescentou ela, seu tom doce, sereno. Imediatamente Benedict virou a cabeça para olhá-la. Por todo o mais sagrado, havia algo condenadamente conhecido nessa voz. Mas quando seus olhos lhe escrutinaram o rosto, o que viu foi a uma simples criada. Uma criada muito atraente, certo, mas criada de qualquer modo. Não uma pessoa com a que pudesse haver-se cruzado.


-Não foi nada. - disse finalmente. -Para você, talvez. Para mim foi tudo. Incomodado por esse agradecimento, ele se limitou a fazer um gesto de assentimento e fez um desses grunhidos que tendem a emitir os homens quando não sabem o que dizer. -Foi um ato muito corajoso. - continuou ela. Ele voltou a grunhir. E nesse momento os céus se abriram a sério. Ao cabo de mais ou menos um minuto, a roupa do Benedict estava totalmente empapada. -Chegarei ali o mais rápido que possa! - gritou para fazer-se ouvir por cima do ruído do vento. -Não se preocupe comigo! - gritou ela. Mas quando ele a olhou viu que estava muito encolhida, rodeando-se fortemente com os braços, para conservar o melhor possível o calor do corpo. -Permita-me que lhe empreste minha jaqueta. Ela negou com a cabeça e pôs-se a rir. - O mais provável é que me molhe mais, com a empapada que está. Ele açulou aos cavalos para que apertassem o passo, mas o caminho estava cada vez mais lamacento e o vento açoitava à chuva a um e outro lado, formando uma cortina que diminuía a já medíocre visibilidade. Maldição, isso era justo o que necessitava, pensou Benedict. Tinha estado gripado em toda a semana anterior, e era possível que não estivesse recuperado de tudo. Um trajeto sob a gelada chuva sem dúvida lhe produziria uma recaída, e passaria todo o mês com o nariz escorrendo e os olhos aquosos, todos esses irritantes e nada atraentes sintomas. Claro que... Não pôde conter um sorriso. Claro que se voltasse a adoecer, sua mãe não tentaria convencê-lo para que assistisse a todas as festas da cidade, com a esperança de que encontrasse por fim uma dama adequada para estabelecer-se em um tranquilo e feliz matrimônio. Dito seja em sua honra, ele sempre tinha bem abertos os olhos, estava sempre atento se por acaso encontrava uma noiva adequada. Não era absolutamente contrário ao matrimônio. Seu irmão Anthony e sua irmã Daphne estavam esplêndida e felizmente casados. Mas seus matrimônios eram esplêndidos e felizes porque tiveram a sensatez de casar-se com as pessoas corretas, e ele estava muito seguro de que ainda não tinha encontrado à pessoa correta para ele.


Não, pensou, retrocedendo a mente a uns anos atrás, isso não era de todo certo. Uma vez conheceu alguém... À dama de traje prateado. Quando a tinha em seus braços fazendo-a girar pelo pequeno terraço em sua primeira valsa, sentiu algo distinto em seu interior, uma sensação de formigamento, de revoada. Isso teria que tê-lo assustado de morte. Mas não o assustou. Deixou-o sem fôlego, excitado... E resolvido a tê-la. Mas então ela desapareceu. Foi como se o mundo fosse plano e ela tivesse caído pela borda. Não tinha se informado de nada naquela irritante entrevista com lady Penwood. E quando interrogou a seus amigos e familiares, nenhum sabia absolutamente nada de uma jovem vestida com um traje prateado. Tinha chegado sozinha e partiu sozinha, isso estava claro. Para todos os efeitos, era como se nem sequer existisse. Tinha-a procurado em todos os bailes, festas e concertos. Demônios, tinha ido ao dobro de funções sociais, só com a esperança de vê-la. Mas sempre tinha voltado para casa decepcionado. E chegou o momento em que decidiu deixar de procurá-la. Ele era um homem prático e já supunha que algum dia simplesmente renunciaria. E em certo modo renunciou. Ao cabo de uns meses voltou ao o costume de recusar mais convites do que aceitava. E outros poucos meses depois descobriu que novamente era capaz de conhecer mulheres e não as comparar automaticamente com ela. Mas não podia deixar de estar atento se por acaso a visse. Talvez não sentisse a mesma urgência, mas sempre que ia a um baile ou tomava assento em uma noitada musical, surpreendia-se passeando o olhar pela multidão e aguçando os ouvidos se por acaso escutava o timbre de sua risada. Ela estava em alguma parte. Fazia tempo que se resignara ao fato de que não era provável que a encontrasse, e levava mais de um ano sem procurá-la ativamente, mas... Sorriu com tristeza. Simplesmente não poderia deixar de procurá-la. De um modo estranho, isso se tinha convertido em parte de seu ser. Seu nome era Benedict Bridgerton, tinha sete irmãos, era bastante hábil com uma espada e no desenho, e sempre tinha os olhos bem abertos se por acaso viesse a rever a única mulher que lhe havia tocado a alma. Continuava esperando, desejando, observando. E embora se dissesse que talvez já fosse hora de casar-se, não conseguia se armar do entusiasmo necessário para fazê-lo. Porque, e se punha o anel no dedo de uma mulher e no dia seguinte a via?


Isso lhe romperia o coração. Não, seria algo mais que isso: lhe destroçaria a alma. Exalou um suspiro de alívio quando divisou o vilarejo de Rosemeade. Isso significava que estava a cinco minutos de sua casa e, bom, não via as horas de mergulhar em uma banheira com água quente. Olhou à senhorita Beckett. Ela também estava tiritando, mas, pensou bastante admirado, não tinha emitido nem a mínima queixa. Tratou de procurar entre as mulheres que conhecia alguma que tivesse feito frente aos elementos com tanta fortaleza, e não encontrou nenhuma. Inclusive sua irmã Daphne, que era valente como ninguém, já estaria uivando pelo frio. -Já quase chegamos... - lhe assegurou. -Eu estou... Ui! - Você não está nada bem. Tinha-lhe vindo um acesso de tosse, uma tosse rouca, profunda, dessa que ruge dentro do peito. Sentia-se como se lhe estivessem ardendo os pulmões, e como se alguém lhe tivesse passado uma navalha pela garganta. -Estou bem. - conseguiu dizer, dando um ligeiro puxão às rédeas, para compensar a falta de direção dos cavalos enquanto tossia. -A mim não parece que esteja bem. -Tive uma gripe a semana passada. - explicou ele, fazendo um gesto de dor. Condenação, como lhe doíam os pulmões. - Isso não parece ser simplesmente gripe. - disse ela, lhe fazendo um sorriso que esperava fosse travesso. Mas em realidade não lhe saiu travesso. A verdade via-se tremendamente preocupada. -Deve haver-se transladado - disse ele. -No quero que adoeça por minha culpa. Ele tratou de sorrir, mas lhe doíam muito as maçãs do rosto. -Me teria pegado a chuva igualmente, trouxesse-a ou não. -De qualquer modo... O que fosse que ia dizer foi interrompido por outro forte acesso de tosse, rouca, profunda, de peito. - Sinto muito. - disse ele. - Deixe que eu conduza. - disse ela esticando as mãos para agarrar as rédeas. Ele a olhou incrédulo. -Este é um faeton, não uma simples carreta para um cavalo.


Ela venceu o desejo de estrangulá-lo. Tinha o nariz escorrendo, os olhos avermelhados, não podia deixar de tossir, e, entretanto encontrava a energia para agir como um arrogante pavão. - Asseguro que sei conduzir uma carruagem puxada por vários cavalos. -E onde adquiriu essa habilidade? - Na mesma família que me permitia assistir às aulas de suas filhas. mentiu Sophie - Aprendi a conduzir uma carruagem quando aprenderam as meninas. -A senhora da casa devia lhe ter muito carinho. - comentou ele. -Sim, bastante. - respondeu ela, reprimindo a risada. Araminta era a senhora da casa, e brigava com unhas e dentes cada vez que seu pai insistia em que ela devia receber a mesma educação que Rosamund e Posy. As três aprenderam a conduzir cavalos de tiro no ano anterior à morte do conde. - Eu conduzirei, obrigado. - disse Benedict, abruptamente. E estragou todo o efeito encolhendo-se com outro ataque de tosse. Sophie estendeu as mãos para as rédeas. - Pelo amor de Deus... - Pegue. As agarre então. Mas eu a vigiarei. -Não esperava menos. - replicou, irritada. A chuva não fazia o caminho ideal para levar uma carruagem, e já fazia anos que não tinha rédeas nas mãos, mas lhe parecia que estava se saindo bastante bem. Há coisas que não se esquecem nunca, pensou. Em realidade, era-lhe bastante agradável fazer algo que não fazia desde sua vida anterior, quando era a pupila do conde, ao menos oficialmente. Nesse tempo tinha roupa bonita, boa comida, estudos interessantes e... Suspirou. Não tinha sido perfeito, mas sim muito melhor que qualquer das coisas que vieram depois. -O que acontece? - perguntou ele. -Nada. Por que acha que acontece algo? - Suspirou. -E me ouviu suspirar com este vento? - perguntou ela, incrédula. -Estava muito atento. Já estou bastante mau, - tos, tosse, tos - sem que você nos faça aterrissar em um poço. Sophie decidiu não honrá-lo com uma resposta. -Tome o primeiro caminho à direita. - instruiu ele - E chegaremos diretamente a minha casa. Ela seguiu as instruções.


-Tem nome sua casa? -Sim. Minha Cabana. -Podia ter imaginado. Ele sorriu. Toda uma façanha, pensou ela, posto que tinha uma tosse de cães. -Não é brincadeira. - disse ele. E tal qual, ao cabo de um minuto detiveram o carruagem diante de uma elegante casa de campo em cuja fachada havia um discreto letreiro que dizia: "Minha Cabana". - O proprietário anterior lhe pôs esse nome, - explicou Benedict, enquanto lhe indicava o caminho ao estábulo - mas eu gosto também. Sophie olhou a casa, que embora não fosse muito grande, de maneira nenhuma era uma moradia modesta. -E a isto chama cabana? -Eu não, o dono anterior. Deveria ter visto sua outra casa. Um momento depois estavam resguardados da chuva, tinham descido da carruagem e Benedict estava desenganchando os cavalos. Levava luvas, mas estavam tão empapadas e escorregadias, que ele as tirou e as jogou longe. Sophie o observou trabalhar; tinha os dedos enrugados como passas e tremiam de frio. - Deixe que o ajude. - disse, avançando. - Posso fazê-lo. - Já sei que pode, mas o faria mais rápido com minha ajuda. Ele se virou para olhá-la, com certeza para rechaçar a ajuda novamente, mas lhe veio um acesso de tosse que o fez dobrar-se. Sophie se apressou a leválo até um banco. - Sente-se, por favor. - lhe rogou - Eu acabarei o trabalho. Pensou que não ia aceitar, mas ele cedeu. -Lamento. - disse ele com a voz abafada. -Não há nada que lamentar. - disse ela, apressando-se no trabalho; ao menos a maior pressa possível; ainda tinha os dedos adormecidos, e partes da pele estavam brancas por tê-la tido tanto tempo molhada. - Isto não é muito cavalheiresco... - veio-lhe outro acesso de tosse, uma tosse mais rouca e profunda - de minha parte. -Ah, acredito que esta vez posso perdoá-lo, tomando em conta a maneira como me salvou esta noite. Olhou-o, tratando de lhe fazer um gracioso sorriso, mas lhe tremeram os lábios e de repente, inexplicavelmente, lhe encheram de lágrimas os olhos e


esteve a ponto de tornar a chorar. Apressou-se a virar-se para que não lhe visse o rosto. Mas ele deve ter visto algo, ou talvez simplesmente pressentisse que lhe acontecia algo, porque lhe perguntou: - Sente-se mau? - Estou muito bem! - respondeu ela, mas a voz lhe saiu forçada e abafada, e antes de que se desse conta, ele estava a seu lado, e ela estava em seus braços. -Tudo irá bem. - consolou-a - Agora está a salvo. E lhe brotaram as lágrimas a correntes. Chorou pelo que poderia ter sido seu destino essa noite; chorou pelo que tinha sido seu destino os nove anos passados; chorou pela lembrança de quando ele a tinha em seus braços no baile de máscaras e chorou porque nesse momento estava em seus braços. Chorou porque ele era tão condenadamente bom mesmo estando claramente doente, e ainda quando ela não era aos seus olhos, nada mais que uma criada, continuava desejando cuidar dela e protegê-la. Chorou porque não se permitiu chorar mais tempo de que tinha memória, e chorou porque se sentia terrivelmente sozinha. E chorou porque fazia tanto tempo que estava sonhando com ele e ele não a tinha reconhecido. Talvez fosse melhor que ele não a reconhecesse, mas seu coração continuava desejando que a reconhecesse. Finalmente acabaram-se as lágrimas. Ele retrocedeu um passo e, lhe tocando o queixo, perguntou-lhe: -Se sente melhor agora? Ela assentiu, surpreendida de que fosse verdade. -Estupendo. Levou um tremendo susto e... - se separou de um salto e se dobrou com outro acesso de tosse. -É absolutamente necessário que esteja dentro, - disse ela, limpando-as últimas lágrimas das faces - dentro da casa, quero dizer. Ele assentiu. -Damos uma corrida até a porta? Ela arregalou os olhos, surpreendida. Não podia acreditar que ele tivesse ânimo para fazer uma brincadeira disso, quando era evidente que se sentia muito mal. Mas enrolou o cordão da bolsa nas mãos, agarrou a saia e pôs-se a correr para a porta da casa. Quando chegou a escadaria, estava rindo pelo exercício, rindo do ridículo de correr como uma louca para escapar da chuva quando já estava empapada até os ossos.


Certamente Benedict lhe tinha ganhado em chegar ao pequeno pórtico. Podia estar doente, mas tinha as pernas grandemente mais longas e fortes. Quando ela se deteve com uma derrapagem ao seu lado, ele estava golpeando a porta. -Não tem chave? - gritou ela para fazer-se ouvir por cima do ruidoso vento. Ele negou com a cabeça. -Não tinha planejado vir aqui. - Acha que seus zeladores o ouvirão? -Pois, espero que sim, maldita seja... - ele falou entre dentes. Ela passou a mão pelos olhos para tirar a água e foi olhar pela janela mais próxima. -Está muito escuro. Acha que poderiam não estar em casa? -Não sei em que outra parte eles poderiam estar. -Não, teria que haver ao menos uma criada ou um lacaio? -Venho tão poucas vezes que me pareceu idiotice contratar toda uma ordem de empregados. Acho que só vêm durante o dia quando é necessário. Sophie fez um gesto de preocupação. -Eu sugeriria que procurássemos alguma janela aberta, mas claro, com a chuva, isso é improvável. - Isso não é necessário, - disse ele sombriamente - sei onde está a outra chave. Ela o olhou surpreendida. -E por que o diz tão tristemente? Teve outro acesso de tosse. -Porque significa que tenho que voltar a me colocar debaixo desta maldita chuva. -respondeu depois. Sophie compreendeu que ele estava chegando ao limite de sua paciência; já havia dito palavrões duas vezes diante dela, e não parecia ser o tipo de homem que amaldiçoa diante de uma mulher, embora fosse uma criada. -Espere aqui. - ordenou ele, e antes que ela pudesse responder, já tinha descido do pórtico e posto-se a correr. Depois de poucos minutos, ouviu girar uma chave na fechadura, abriu-se a porta e apareceu Benedict com uma vela acesa e jogando água pelo chão. -Não sei onde estão o senhor e a senhora Crabtree, - disse, com a voz áspera pela tosse - mas certamente não estão aqui. Sophie engoliu em seco. -Estamos sozinhos?


-Completamente. - afirmou ele. Ela pôs-se a andar para a escada. -Será melhor que vá procurar um quarto para criados. -Ah, não... - resmungou ele, lhe agarrando o braço. - Não? - Você, querida moça, não irá à parte alguma. - disse ele, negando com a cabeça.


Capítulo 8 Tenho a impressão de que hoje em dia não se pode dar dois passos em um baile de Londres sem tropeçar com uma senhora da sociedade à lamentar das dificuldades de encontrar bom pessoal de serviço. Efetivamente, esta cronista chegou a acreditar que a senhora Featherington e lady Penwood iriam se encetar em uma briga a murros na noite musical dos Smythe-Smith da semana passada. Parece que há um mês lady Penwood surrupiou a criada da senhora Featherington debaixo de seu próprio nariz, lhe prometendo que lhe pagaria melhor e lhe daria de presente a roupa desprezada. (É preciso fazer notar que a senhora Featherington também dava roupa desprezada a pobre moça, mas qualquer um que tenha visto os trajes das senhoritas Featherington compreenderá por que a criada não considerava isto um benefício.) Mas a trama se complicou quando a dita criada voltou a toda pressa para a senhora Featherington a lhe suplicar que voltasse a lhe empregar. Parece que a idéia que tem lady Penwood sobre o trabalho de uma criada inclui deveres que corresponderiam mais exatamente à faxineira, à criada do piso superior "e" cozinheira. Alguém deveria dizer a esta senhora que uma só criada não pode fazer o trabalho de três. Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 2 de maio de 1817. -Antes que qualquer um dos dois vá procurar uma cama, vamos acender a lareira e nos esquentar. Não a salvei de Cavender só para que morra de gripe. Sophie o observou agitar-se com outro acesso de tosse, tão forte que o obrigou a dobrar-se pela cintura e não pôde deixar de comentar: -Com seu perdão, senhor Bridgerton, mas eu diria que dos dois é você o que está em mais perigo de contrair a gripe. -Certo, - disse ele - e posso lhe assegurar que não tenho o menor desejo de contraí-la. Assim... - novamente se dobrou atacado pela tosse. -Senhor Bridgerton? - disse ela, preocupada. Ele engoliu em seco e conseguiu dizer fracamente: - Ajude-me a acender o fogo -tos, tos - antes que a tosse me deixe inconsciente. Sophie franziu o cenho, preocupada. Os acessos de tosse eram cada vez mais seguidos, e cada vez a tosse soava mais rouca, como se lhe saísse do fundo do peito.


Não levou muito tempo para acender o fogo; já tinha bastante experiência em acendê-lo como criada, e muito em breve os dois estavam com as mãos o mais perto possível das chamas sem queimar-se. - Imagino que sua muda de roupa não estará seca. - disse ele, fazendo um gesto para a empapada bolsa. -Duvido. - respondeu ela, pesarosa - Mas não importa. Se ficar bastante tempo aqui, me secará a roupa. -No seja tola. - mofou ele, girando-se para que o fogo lhe esquentasse as costas - Certamente encontrarei algo para que possa trocar-se. -Tem roupa de mulher aqui? - perguntou ela, duvidosa. -Não será tão suscetível que não possa pôr umas meias e uma camisa por uma noite, não é? Até esse momento ela tinha sido talvez suscetível, mas dito dessa maneira, pareceu-lhe bastante tolo. -Suponho que não. - disse. Parecia-lhe atraente qualquer roupa seca. -Ótimo. - disse ele energicamente - Então você poderia ir acender os fogões em dois dormitórios enquanto eu procuro roupa para os dois. -Eu posso dormir em um quarto para a criadagem. - se apressou a dizer Sophie. - Isso não é necessário. - disse ele saindo da sala e lhe indicando que o seguisse. - Tenho quartos para convidados, e você não é uma criada aqui. - Porém sou uma criada. - respondeu ela, correndo atrás. - faça o que quiser, então. - começou a subir a escada, mas teve que deterse na metade, com outro ataque de tosse - Pode subir ao apartamento de cobertura, onde encontrará algum quarto diminuto para a criadagem, com um pequeno e duro colchão, ou pode escolher um quarto com colchão de pluma e edredom de penas. Sophie pensou que devia recordar seu lugar no mundo e subir o seguinte lance de escada até o apartamento de cobertura, mas, ai, Deus, um colchão de plumas e um edredom de penas lhe parecia muito com o céu na terra. Fazia anos que não dormia com essas comodidades. -Buscarei um pequeno quarto para convidados. – concordou - Eh... O menor que tenha. A boca de Benedict meio que se curvou em um sorriso que insinuava um "o disse". - Escolha o que quiser, mas não esse. - disse, assinalando a segunda porta da esquerda - Esse é o meu. - Acenderei o fogão ali imediatamente, então.


Ele necessitava do calor mais que ela; além disso, sentia uma extraordinária curiosidade por ver como era o interior de seu dormitório. Podem-se saber muitas coisas de uma pessoa pela decoração de seu dormitório. Embora claro, disse-se, fazendo um gesto displicente, isso se a pessoa tinha os recursos suficientes para decorar seu quarto da maneira preferida. Sinceramente duvidava de que alguém pudesse ter feito uma idéia sobre ela pela decoração do pequeno cômodo que tinha ocupado na casa dos Cavender; isso sem contar que não tinha nem um penny em seu nome. Deixando sua bolsa no corredor, entrou no dormitório de Benedict. Era um belo quarto, acolhedor e masculino, e muito cômodo. Apesar de Benedict dizer que raramente ia ali, havia todo tipo de objetos pessoais na escrivaninha e mesinhas: retratos em miniatura dos que deviam ser seus irmãos e irmãs, livros encadernados em couro, e inclusive um pequeno vaso de cristal cheio de... Pedras? -Que estranho... - murmurou, aproximando-se, mesmo sabendo que isso era uma tremenda intrusão. -Cada uma tem seu significado para mim. - disse uma voz rouca atrás dela Colecionei-as desde... - interrompeu para tossir - desde que era menino. Sophie sentiu subir o rubor até a raiz dos cabelos, ao ver-se assim surpreendida bisbilhotando descaradamente, mas seguia picada sua curiosidade, de modo que tirou uma. Era uma pedra de cor rosada com uma acidentada veia cinza que a atravessava pelo meio. -E esta? -Essa a recolhi em uma excursão. - explicou com voz terna - Por casualidade esse foi o dia que morreu meu pai. -Oh! Sinto muito... - disse ela deixando cair a pedra sobre as demais, como se a tivesse queimado. - Faz muito tempo. -De qualquer modo sinto muito. -Eu também. - disse ele, sorrindo tristemente. E então lhe veio um acesso de tosse tão forte que teve que apoiar-se na parede. - Tem que esquentar-se. - disse ela - Deixe que acenda o fogo. Benedict deixou um maço de roupas sobre a cama. -Para você. - Obrigada. - respondeu ela, sem desviar a atenção de seu trabalho no pequeno fogão de ferro.


Era perigoso continuar no mesmo quarto com ele, pensou. Não achava que ele fosse lhe fazer nenhuma insinuação indevida; era muito cavalheiro para fazer propostas a uma mulher que mal conhecia. Não, o perigo estava rotundamente no interior dela. Aterrava-a pensar que se passasse muito tempo em companhia dele poderia apaixonar-se perdidamente. E o que ganharia com isso? Nada, além de um coração quebrado. Continuou vários minutos mais inclinada sobre o fogão, atiçando a chama até estar segura de que não se apagaria. - Pronto! - anunciou quando ficou satisfeita. Endireitou-se e arqueou ligeiramente as costas para estirar-se, e se virou para olhá-lo - Isso teria que... Meu Deus! O rosto do Benedict Bridgerton estava francamente verde. -Se sente mau? - perguntou, correndo a seu lado. -Não me sinto muito bem - respondeu ele, com a voz pastosa, apoiando-se pesadamente no poste da cama. Dava a impressão de que estivesse algo bêbado, mas ela tinha estado com ele ao menos duas horas e sabia que não tinha bebido nada. - Tem que meter-se na cama. - disse, e quase caiu ao chão quando ele decidiu deixar o poste e apoiar nela seu peso. -Vem? - perguntou ele, sorrindo. Ela se separou de um salto. -Agora sim sei que está com febre. Ele levantou a mão para tocar a fronte, mas golpeou o nariz. -Ai! - gritou. Ela fez um gesto de compaixão. Ele subiu a mão até a fronte. -Mmm, poderia ter um pouco de febre. Podia ser um gesto de familiaridade horroroso, pensou ela, mas estava em jogo a saúde de um homem, de modo que lhe tocou a fronte. Não estava ardendo, mas tampouco estava fresca. - Tem que tirar essa roupa molhada. Imediatamente. Benedict se olhou e pestanejou, como se ver sua roupa empapada fosse uma surpresa. -Sim. - murmurou pensativo - Acredito que sim. – levou as mãos aos botões, mas os dedos pegajosos e adormecidos escorregavam. Finalmente se encolheu de ombros e a olhou, impotente - Não posso. -Ai, Deus. Deixe-me... - começou a desabotoar o primeiro botão, retirou as mãos, nervosa, e ao cabo de um instante, apertou os dentes e voltou a tentá-lo.


Foi desabotoando rapidamente, tratando de desviar a vista à medida que ia abrindo a camisa deixando ao descoberto outro pedaço mais de pele - Já quase está, só um momento mais. Ele não respondeu nada, assim ergueu a vista e o olhou. Estava com os olhos fechados e o corpo balançava ligeiramente. Se não tivesse estado de pé, ela teria jurado que estava adormecido. -Senhor Bridgerton? - disse suavemente - Senhor Bridgerton? Ele levantou bruscamente a cabeça. -Que? O que? -Ficou adormecido. Ele fechou e abriu os olhos, confuso. -O que tem de mau isso? -Não se pode ficar adormecido com a roupa posta. Ele se olhou. -Como me desabotoou a camisa? Sem fazer caso da pergunta, ela o empurrou até deixá-lo com a parte de trás das pernas apoiadas na cama. - Sente-se. - ordenou. Deve ter dito no tom autoritário necessário, porque ele obedeceu. -Tem algo seco para vestir? - perguntou. Ele tirou a camisa e a deixou cair ao chão em um vulto informe. -Nunca durmo vestido. O estômago de Sophie deu um salto. - Bem, acho que esta noite deveria vestir algo e... Que faz? Ele a olhou como se lhe tivesse feito a pergunta mais estúpida do mundo. - Estou tirando as meias. -Não poderia esperar que eu lhe desse as costas? Ele a olhou sem expressão. Ela também o olhou. Ele continuou olhando-a. Finalmente disse: -E bem? -E bem o que? -Não vai se pôr de costas? -Ah! - gritou ela, virando-se de um salto, como se alguém lhe tivesse aceso fogo sob os pés. Movendo cansativamente a cabeça de um a outro lado, Benedick se moveu até a beira da cama e tirou as meias. Que Deus o protegesse das senhoritas afetadas. Era uma criada, pelo amor de Deus. Até no caso de que


fosse virgem, e dado seu comportamento, suspeitava que o fosse, sem dúvida teria visto um corpo masculino. As criadas passavam a vida entrando e saindo dos quartos sem bater na porta, levando lençóis, toalhas e o que fosse. Era inconcebível que ela não se encontrara nunca, ante um homem nu. Tirou as meias, tarefa nada fácil, pois o tecido estava mais que molhado e teve que desprendê-lo a da pele. Quando estava totalmente nu, arqueou uma sobrancelha olhando as costas de Sophie. Ela estava muito rígida, com as mãos fortemente apertadas em punhos aos flancos. Surpreso, caiu na conta de que vê-la o fazia sorrir. Começava a sentir-se um pouco fraco, e precisou de duas tentativas para conseguir levantar a perna o suficiente para meter-se na cama. Com considerável esforço se inclinou e levantou a borda do edredom, arrastou-se um pouco debaixo e cobriu o corpo. Por fim, absolutamente extenuado, apoiou a cabeça no travesseiro e emitiu um gemido. -Como se sente? - perguntou Sophie. -Bem. - conseguiu dizer com um enorme esforço, mas o que lhe saiu foi uma espécie de "bomm". Ouviu-a mover-se, e quando conseguiu reunir um pouco de energia, abriu parcialmente uma pálpebra. Ela estava junto à cama. Parecia preocupada. Sem saber por que, achou agradável isso. Fazia muito tempo que uma mulher que não fosse parente estivesse preocupada com seu bem estar. - Estou bem. - disse entre dentes, tratando de lhe sorrir tranquilizador. Mas a voz lhe soou como se viesse de um longo e estreito túnel. Levantou uma mão e puxou a orelha. Parecia-lhe que sua boca falava tênue; o problema tinha que ser do ouvido. -Senhor Bridgerton? Senhor Bridgerton? Voltou a abrir uma pálpebra. -Vá deitar-se. - grunhiu - Seque-se. - Tem certeza? Ele assentiu. Já lhe era muito difícil falar. -Muito bem. Mas vou deixar aberta sua porta. Se necessitar de algo, me chame. Ele voltou a assentir, ou ao menos o tentou. E imediatamente ficou adormecido. Sophie demorou um quarto de hora nos preparativos para deitar-se. Estimulada por uma superabundância de energia nervosa, tirou a roupa molhada, pôs a seca e acendeu o fogão de seu quarto, mas logo que sua cabeça


tocou o travesseiro caiu rendida por um esgotamento total e absoluto, que parecia proceder de seus próprios ossos. Tinha sido um dia muito, muito longo, pensou sonolenta. Um dia realmente longuíssimo, entre atender a seus afazeres da manhã, correr por toda a casa para escapar do assédio do Cavender e seus amigos... - lhe fecharam as pálpebras. - Sim, o dia tinha sido extraordinariamente longo e... De repente se sentou na cama sobressaltada. O fogo do fogão ardia suave, o que significava que devia ter ficado adormecida. Mas estava esgotadíssima quando dormiu, portanto algo teve que despertá-la. Seria o senhor Bridgerton? A teria chamado? Quando o deixou para vir deitar-se não tinha muito bom aspecto, mas tampouco estava às portas da morte. Desceu da cama de um salto, agarrou uma vela e correu para a porta do quarto. Ali teve que agarrar a cintura das calças emprestadas por Benedict, porque iam descendo pelos quadris. Quando saiu ao corredor ouviu o som que devia ter despertado-a. Era um gemido rouco, ao qual seguiu um ruído de movimento agitado e logo algo que só podia interpretar-se como um gemido. A toda pressa entrou na habitação do Benedict e se deteve junto ao fogão a acender a vela. Ele jazia em sua cama com uma imobilidade quase antinatural. Aproximou-se um pouco, com os olhos fixos em seu peito. Sabia que não podia estar morto, mas se sentiu muitíssimo melhor ao ver que o peito lhe subia e lhe baixava com a respiração. -Senhor Bridgerton? – sussurrou - Senhor Bridgerton? Não houve resposta. Aproximou-se outro pouco e se inclinou sobre a cama. -Senhor Bridgerton? Ele tirou bruscamente a mão e lhe agarrou o ombro fazendo-a perder o equilíbrio e cair em cima da cama. -Senhor Bridgerton! Solte-me! - gritou. Mas ele começou a mover-se, agitado, gemendo e virando-se a um lado e outro da cama. Seu corpo despedia tanto calor que ela compreendeu que estava com muita febre. Quando conseguiu liberar-se e descer da cama, ele continuava agitado, dando-se voltas e voltas, e falando adormecido, encadeando palavras que formavam frases sem nenhum sentido. Depois de observá-lo um momento em silêncio lhe pôs a mão na fronte. Tinha-a ardendo. Mordeu o lábio inferior, pensando no que podia fazer. Não


tinha nenhuma experiência em atender doentes com febre, mas lhe parecia que o lógico seria esfriá-lo. Por outro lado, sempre tinha visto que os quartos de doentes se mantinham quentes bem fechados para que não entrasse ar, ou seja, que possivelmente... Nesse momento Benedict deu outra volta e murmurou: - Beije-me. Sophie soltou a cintura das calças e estas caíram ao chão. Escapou-lhe um gritinho e se apressou a agachar-se e as agarrar. Segurando firmemente a cintura das calças com a mão direita, estendeu a esquerda para lhe dar uns tapinhas na mão, mas pensou melhor e a retirou. -Está sonhando, senhor Bridgerton. - disse. - Beije-me. - repetiu ele. À tênue luz da solitária vela viu que a ele se moviam rapidamente os olhos sob as pálpebras. Que incrível ver sonhar a outra pessoa, pensou. -Me beije, caramba! - gritou ele de repente. Sophie deu um salto atrás, surpreendida e se apressou a afirmar a vela na mesinha. -Senhor Bridgerton... - começou, com toda a intenção de lhe explicar por que não podia nem sequer ocorrer beijá-lo, mas então pensou por que não? Com o coração acelerado, inclinou-se e depositou uns muito suaves, muito ligeiros beijos em seus lábios. -Te amo. – sussurrou - Sempre o amei. Com um imenso alívio, viu que ele não se movia. Esse não era precisamente um momento que desejasse que ele recordasse pela manhã. E justo quando acabava de convencer-se de que ele havia tornado a dormir profundamente, ele começou a mover a cabeça de um lado a outro, deixando profundas depressões no travesseiro de plumas. -Onde está? - grunhiu ele, com voz rouca - Onde se colocou? -Estou aqui. - respondeu ela. Ele abriu os olhos e por um instante pareceu estar totalmente lúcido. -Não você... - disse e voltando a fechar os olhos continuou movendo a cabeça de lado a lado. - Bem, eu sou a única que tem. - sussurrou Sophie - Não se mova. acrescentou com um risinho nervoso - Volto em seguida. E com o coração acelerado pelo medo e os nervos, saiu correndo do quarto.


Se Sophie tinha aprendido algo em seus tempos de criada era que a maioria das casas se organizavam essencialmente da mesma maneira. E por esse motivo não teve nenhum problema para encontrar lençóis limpos para trocar os molhados de Benedict; também encontrou um jarro, que encheu de água fria, e umas quantas toalhinhas para lhe umedecer a fronte. Quando entrou no dormitório, ele jazia imóvel outra vez, mas sua respiração era superficial e rápida. Voltou a lhe tocar a fronte; podia não estar certa, mas lhe pareceu que estava mais quente. Deus santo; isso não era bom sinal, e ela não estava absolutamente qualificada para atender a um paciente com febre. Nem Araminta, nem Rosamund nem Posy tinham estado doentes nem um só dia, jamais, e os Cavender eram pessoas extraordinariamente saudáveis também. O mais próximo a cuidar de um doente que tinha feito em toda sua vida era atender à mãe da senhora Cavender, que não podia caminhar. Mas jamais tinha cuidado de alguém com febre. Colocou uma toalhinha na jarra e a espremeu para que não jorrasse. -Isto deve fazê-lo sentir-se melhor. - sussurrou, aplicando-lhe cuidadosamente sobre a fronte - Ao menos espero. - disse, em tom muito pouco seguro. Ele não fez o menor esforço de retirar a cabeça ao contato com a molhada e fria toalha. Isso ela interpretou como excelente sinal, de modo que molhou e espremeu outra. Mas não tinha idéia de onde podia pô-la. O peito não lhe pareceu um lugar adequado, e de maneira nenhuma ia descer lhe a manta até mais abaixo da cintura, a não ser que o pobre homem estivesse às portas da morte, e ainda nesse caso, não sabia que demônios poderia fazer por aí abaixo que o ressuscitasse. Assim finalmente lhe passou a toalha molhada por detrás das orelhas e pelos lados do pescoço. -Se sente melhor com isto? - perguntou, sem esperar resposta, logicamente, a não ser pensando que devia continuar com sua conversa unilateral - A verdade é que não sei muito como cuidar de doentes, mas me parece que iria bem, algo fresco na fronte. Se estivesse doente, certamente gostaria. Ele se moveu inquieto, murmurando palavras incoerentes. -Ah, sim? - respondeu ela, tratando de sorrir, mas sem consegui-lo Alegra-me que pense isso. Ele resmungou outra coisa. -Não. - disse ela, lhe passando a toalha fresca pela orelha - Parece-me melhor o que disse primeiro.


Ele ficou imóvel. -Será um prazer para mim reconsiderá-lo. - disse ela, preocupada - Não se ofenda, por favor. Ele não se moveu. Sophie suspirou. Não se podia conversar muito tempo com um homem inconsciente sem começar a sentir-se absolutamente idiota. Tirou-lhe a toalha da testa e pôs a mão. Sentiu-a pegajosa; pegajosa e ainda quente, combinação que não teria acreditado possível. Decidiu não voltar a lhe pôr a toalha, assim a deixou em cima da jarra. Era muito pouco o que podia fazer por ele nesse preciso momento, de modo que se levantou, e para estirar as pernas deu uma lenta volta pelo quarto, detendo-se agarrar e examinar sem vergonha tudo o que podia agarrar-se e também examinando algumas das coisas fixas. A coleção de retratos em miniaturas foi sua primeira parada. Havia nove sobre a escrivaninha; imaginou que eram dos pais e irmãos do Benedict. Começou a pôr as dos irmãos por ordem de idade, mas logo lhe ocorreu que o mais provável era que os retratos não foram pintados todos ao mesmo tempo, por isso igualmente podia estar olhando o retrato de seu irmão maior aos quinze anos e o do irmão menor aos vinte. Surpreendeu-a o quanto que se pareciam todos: a mesma cor de cabelo, castanho escuro, as bocas longas, e a elegante estrutura óssea. Olhou-os atentamente tratando de comparar a cor dos olhos, mas isso lhe foi impossível a tênue luz da vela; além disso, normalmente nos retratos em miniatura não se distinguia bem a cor dos olhos. Junto às miniaturas estava o vaso com a coleção de pedras. Agarrou mais algumas, uma a uma, fê-las rodar um pouco na mão; "por que são tão especiais para você?", pensou em um sussurro, devolvendo-as com supremo cuidado ao seu lugar. Pareciam-lhe simples pedras, mas talvez ele as achasse mais interessantes e únicas porque representavam lembranças especiais. Encontrou um pequeno cofre de madeira que foi absolutamente impossível abrir; tinha que ser uma dessas caixas com truque de que tinha ouvido falar, que vinham do Oriente. E o mais curioso, a um lado da escrivaninha havia um grande caderno de desenho; estava cheio de desenhos a lápis, principalmente paisagens, mas também alguns retratos. Tinha-os desenhado Benedict? Olhou de perto a margem inferior de cada desenho; as pequenas iniciais pareciam ser dois “Bs”. Escapou-lhe uma exclamação abafada e um sorriso não convidado lhe iluminou o rosto. Jamais teria imaginado que Benedict era um artista. Jamais


tinha lido nada a respeito disso no Whistledown, e certamente isso era algo que a colunista de fofoca poderia ter descoberto ao longo dos anos. Levou o caderno perto da mesinha para examiná-lo à luz da vela e foi passando as páginas. Desejou sentar-se a olhá-lo e dedicar dez minutos a contemplar cada desenho, mas considerou intromissão examinar seus desenhos com tanto detalhe; talvez só quisesse justificar sua bisbilhotice, mas não achava tão incorreto lhes dar um olhar. As paisagens eram variadas. Algumas eram de Minha Cabana (ou devia chamá-la Sua Cabana?) e outros eram de uma casa maior; supôs que essa era a casa de campo da família Bridgerton. Na maioria das paisagens não havia nenhuma estrutura arquitetônica, só um arroio borbulhante, uma árvore agitada pelo vento, uma pradaria sob a chuva. E o pasmoso era que os desenhos captavam o momento, verdadeiro e completo. Teria jurado que a água do arroio borbulhava e que o vento agitava as folhas dessa árvore. O número de retratos era menor, mas ela os achou imensamente mais interessantes. Havia vários de uma menina que tinha que ser sua irmã menor, e uns quantos de uma mulher que supôs era sua mãe. Um dos que mais gostou representava um jogo ao ar livre. Ao menos cinco irmãos Bridgerton seguravam uns longos bastões, e uma das meninas, desenhada em primeiro plano, estava a ponto de golpear uma bola para fazê-la passar por um aro; tinha o rosto enrugado pela concentração. O desenho lhe provocou desejos de rir forte. Sentiu a alegria desse dia, e isso a fez sentir ânsias por ter uma família. Olhou Benedict, que continuava dormindo calmamente. Compreenderia a sorte que tinha por ter nascido nesse numeroso e amoroso clã? Exalando um longo suspiro, continuou passando as páginas até que chegou ao final. O último desenho era diferente de outros porque parecia ser uma cena noturna, e a mulher levava recolhida a saia até mais acima dos tornozelos e ia correndo por... Bom Deus! Abafou uma exclamação, pasmada. Era ela! Aproximou o desenho ao rosto. Ele tinha captado à perfeição os detalhes do vestido, esse vestido maravilhoso, mágico, que fora seu por uma só noite. Tinha recordado inclusive suas luvas longas até os cotovelos, e os detalhes de seu penteado. Seu rosto era menos reconhecível, mas isso teria que desculpálo, pois nunca a havia visto inteira. Bom, nunca até essa noite.


Nesse momento Benedict emitiu um gemido e quando ela o olhou viu que estava movendo-se inquieto. Fechou o caderno e foi deixá-lo em seu lugar. Depois se aproximou da cama. - Senhor Bridgerton? - sussurrou. Como desejava chamá-lo Benedict, tratá-lo com intimidade. Assim era como pensava nele; assim o tinha chamado sempre em seus sonhos dois longos anos. Mas isso seria uma familiaridade indesculpável, e certamente não ia bem com sua posição como criada. -Senhor Bridgerton? – repetiu - Sente-se mau? Ele abriu os olhos. - Ofereço-lhe algo? Ele fechou e abriu os olhos várias vezes, e ela não pôde saber se a tinha ouvido ou não. Parecia ter os olhos desfocados, e nem sequer podia saber se a via. - Senhor Bridgerton? -Sophie. - disse ele, com voz áspera. Com certeza tinha a garganta seca e irritada - A criada. -Estou aqui. - disse ela, concordando - O que lhe ofereço? -Água. -Em seguida. Tinha metido as toalhinhas na água da jarra, mas decidiu que esse não era o momento para ser delicada, de modo que agarrou o copo que tinha trazido da cozinha e o encheu. -Aqui está. Ele tinha as mãos trêmulas, de modo que ela continuou segurando o copo enquanto ele o levava a boca. Bebeu dois goles e voltou a pôr a cabeça no travesseiro. - Obrigado. - sussurrou. Sophie lhe tocou a testa. Continuava quente, mas ele parecia estar lúcido outra vez, por isso decidiu interpretar isso como sinal de que tinha começado a lhe ceder a febre. -Acho que se sentirá melhor pela manhã. Ele riu. Não forte nem com nada parecido a vigor, mas riu. -Não acredito. - grasnou. - Bem, não totalmente recuperado, -concedeu ela - mas acredito que se sentirá melhor que agora. -Bem, seria difícil que me sentisse pior. Sophie lhe sorriu.


-Se sente capaz de mover-se para um lado da cama para que possa lhe trocar os lençóis? Ele assentiu e fez o que lhe pedia. Depois fechou os olhos cansados, enquanto ela ia de um a outro lado da cama. -Esse é um bom truque. - comentou quando ela terminou. -A mãe da senhora Cavender costumava ir de visita com freqüência. explicou ela - Estava prostrada na cama, assim tive que aprender a lhe trocar os lençóis sem que ela se levantasse. Não é muito difícil. Ele assentiu. -Agora voltarei a dormir. Sophie lhe deu um tapinha tranquilizador no ombro, não pôde evitá-lo. -Se sentirá melhor pela manhã. - sussurrou - Prometo.


Capítulo 9 Dizem que os médicos são os piores pacientes, mas é a opinião desta cronista que qualquer homem é um paciente terrível. Poderíamos dizer que ser um paciente exige paciência, e Deus sabe que a metade masculina de nossa espécie não goza precisamente de muita paciência. Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 2 de maio de 1817 A primeira coisa que Sophie fez na manhã seguinte foi chiar. Ficou adormecida sentada na poltrona de espaldar reto junto à cama do Benedict, com os braços e pernas em posição muito pouco elegante e a cabeça inclinada em uma postura bastante incômoda. A princípio seu sono foi leve, com os ouvidos aguçados se por acaso lhe chegava algum sinal de mal-estar da cama do doente. Mas depois de uma hora ou algo assim de um total e bendito silêncio, o esgotamento pôde com ela e caiu em um sono profundo, esse tipo de sono de que alguém deveria despertar em paz, com um amplo e descansado sorriso no rosto. E possivelmente a isso se deveu que quando abriu os olhos e viu duas pessoas desconhecidas olhando-a fixamente, levou um susto tão grande que seu coração levou cinco minutos completos para voltar a pulsar com normalidade. - Quem são vocês? As palavras já lhe tinham saído pela boca quando compreendeu quem tinham que ser necessariamente o senhor e a senhora Crabtree, os zeladores de Minha Cabana. -Quem é você? - perguntou o homem, em um tom não menos belicoso. -Sophie Beckett... - respondeu ela, atarantada – É... Eu... - apontou Benedict, desesperada - Ele... -Diga-o, moça! - Não a torturem! - disse o doente. As três cabeças se viraram para Benedict. - Está acordado! - exclamou Sophie. -Quisesse Deus que não estivesse. - disse ele - Arde-me a garganta como se tivesse fogo aí. -Quer que lhe vá procurar outro pouco de água? - ofereceu Sophie, solícita. -Chá, por favor. Ela se levantou de um salto.


- Irei prepará-lo. - Irei eu. - disse firmemente a senhora Crabtree. -Quer que a ajude? - perguntou Sophie, timidamente. Algo nesse par a fazia sentir-se dez anos mais velha. Os dois eram baixos e rechonchudos, mas irradiavam autoridade. A senhora Crabtree negou com a cabeça. - Boa governanta seria eu se não soubesse preparar um chá. Sophie engoliu em seco; não sabia se a senhora Crabtree estava zangada ou se falava em brincadeira. -Não foi minha intenção dar a entender que... A senhora Crabtree interrompeu a desculpa agitando a mão. - Trago-lhe uma xícara? -A mim não deve me trazer nada. Sou uma c... - Traga-lhe uma xícara. - ordenou Benedict. -Mas... -Silêncio. - grunhiu ele apontando-a com o dedo. Depois olhou à senhora Crabtree com um sorriso que poderia ter derretido uma cúpula de gelo - Teria a amabilidade de acrescentar uma xícara para a senhorita Beckett na bandeja? - É claro, senhor Bridgerton, mas poderia lhe dizer...? - Pode me dizer o que quiser quando voltar com o chá. - prometeu ele. Ela o olhou severa. -Tenho muito que dizer. - Isso não me cabe a menor duvida. Benedict, Sophie e o senhor Crabtree guardaram silêncio enquanto a senhora Crabtree saía do quarto, e quando já se afastara bastante e não podia ouvir, o senhor Crabtree se pôs a rir. - Espera-o uma boa, senhor Bridgerton! Benedict sorriu fracamente. O senhor Crabtree se voltou para Sophie e lhe explicou: -Quando a senhora Crabtree diz que tem muito que dizer, é que tem muito que dizer. -Ah... - disse Sophie. Teria gostado de dizer algo mais inteligente, mas com tão pouco tempo de aviso, a única coisa que lhe ocorreu foi "ah". -E quando tem muito que dizer, - continuou o senhor Crabtree, com o sorriso mais largo e astuto - gosta de dizê-lo com imenso vigor. -Por sorte, - falou Benedict, sarcástico - teremos nosso chá para nos manter ocupados.


O estômago de Sophie grunhiu audivelmente. Benedict a olhou brevemente, com expressão divertida. -E um bom café da manhã, também, - acrescentou - se conheço a senhora Crabtree. - Já está preparado, senhor Bridgerton. - assentiu o senhor Crabtree Vimos seus cavalos no estábulo esta manhã, ao voltar da casa de nossa filha, e a senhora Crabtree ficou a trabalhar no café da manhã imediatamente. Sabe quanto gosta dos ovos. Benedict olhou Sophie e lhe sorriu com expressão de cumplicidade: -Me encantam os ovos. Voltou a grunhir o estômago de Sophie. -Porém não sabíamos que estava acompanhado. - disse o senhor Crabtree. Benedict pôs-se a rir, e imediatamente fez um gesto de dor. -Não imagino que a senhora Crabtree não tenha preparado comida suficiente para um pequeno exército. -Bem, não teve tempo para preparar um café da manhã adequado, com bolo de carne e pescado, - explicou o senhor Crabtree - mas acredito que tem toucinho, presunto, ovos e torradas. Desta vez o estômago de Sophie lançou um rugido. Ela pôs a mão no estômago, resistindo apenas o desejo de lhe dizer “Cale-se!". -Deveria nos ter dito que vinha. - continuou o senhor Crabtree - Não teríamos ido de visita se o tivéssemos sabido. -Foi uma decisão de último momento. - explicou Benedict, esticando o pescoço a um e outro lado - Fui a uma festa desagradável e decidi partir. -De onde vem ela? - perguntou o senhor Crabtree fazendo um gesto para Sophie - Estava na festa. - Eu não estava na festa. - emendou Sophie - Simplesmente estava ali. O senhor Crabtree a olhou com desconfiança. -Qual é a diferença? -Não estava na festa. Era criada na casa. -Você é uma criada? - Isso é o que estive tratando de lhe dizer. - Você não parece criada. - olhou para Benedict - Parece-lhe criada? Benedict encolheu os ombros, indeciso. -Não sei o que parece. Sophie o olhou zangada. Talvez isso não fosse um insulto, mas não era um elogio tampouco. -Se é a criada de outros, o que faz aqui? - insistiu o senhor Crabtree.


-Poderia reservar a explicação para quando voltar a senhora Crabtree? Porque estou certo de que ela repetirá todas suas perguntas. O senhor Crabtree o olhou um momento, pestanejou, assentiu e se voltou para Sophie. -Por que está vestida assim? Sophie se olhou e comprovou, horrorizada, que se tinha esquecido que vestia roupas de homem, roupas tão grandes que mal conseguia que as calças não caíssem aos pés. -Minha roupa estava empapada, - explicou - pela chuva. Ele assentiu compreensivo. - Pela tormenta de ontem à noite. Por isso nos alojamos com nossa filha. Tínhamos pensado voltar para casa, sabe? Benedict e Sophie se limitaram a assentir. -Não vive muito longe, - continuou o senhor Crabtree - só do outro lado do povoado. - olhou para Benedict, que se apressou a fazer um gesto de assentimento - Teve outro bebê, uma menina. -Felicitações. - disse Benedict. Por seu rosto, Sophie compreendeu que não dizia isso por simples educação. Dizia-o a sério. Ouviram-se fortes pisadas em procedentes da escada; sem dúvida era a senhora Crabtree que voltava com o café da manhã. - Deveria ir ajudá-la. - disse Sophie, ficando de pé de um salto e correndo para a porta. -Uma vez criada, sempre criada. - comentou sabiamente o senhor Crabtree. Benedict não teria podido assegurá-lo, mas achou ver Sophie fazer um mau gesto. Passado um minuto, entrou a senhora Crabtree levando um esplêndido serviço de chá de prata. -Onde está Sophie? - perguntou Benedict. -Enviei-a para procurar o resto. - respondeu a senhora Crabtree – Não tardará nada. Simpática moça, - acrescentou com toda naturalidade - mas necessita um cinto para essas calças que lhe emprestou. Benedict sentiu uma suspeita opressão no peito ao pensar em Sophie, a criada, com suas calças nos tornozelos. Engoliu a saliva, desconfortável, ao compreender que essa opressiva sensação bem podia ser desejo. E a seguir gemeu e levou a mão ao pescoço, porque a saliva tragada para aliviar o desconforto lhe produzia dor depois de uma noite tossindo.


-Necessita de um de meus tônicos. - disse a senhora Crabtree. Ele negou energicamente com a cabeça. Já tinha provado um desses tônicos, e esteve vomitando durante três horas. -Não aceitarei uma negativa. - lhe advertiu ela. -Jamais aceita uma negativa. - acrescentou o senhor Crabtree. - O chá fará maravilhas - se apressou a dizer Benedict - Não me cabe dúvida. Mas a atenção da senhora Crabtree já se desviara a outra coisa. -Onde está essa moça? - disse, e foi até à porta. -Sophie! Sophie! -Se conseguir impedi-la que me traga um tônico, - lhe sussurrou Benedict ao senhor Crabtree rapidamente - conte com cinco libras no bolso. O senhor Crabtree sorriu de orelha a orelha. -Considere-o feito! -Ahí está. - anunciou a senhora Crabtree - Ai, Deus dos céus. -O que acontece, querida? - perguntou o senhor Crabtree caminhando lentamente para a porta. - A pobre criatura não pode levar uma bandeja e segurar as calças ao mesmo tempo. -respondeu ela, rindo compassiva. -Não vai ajudá-la? - perguntou Benedict. -Sim, claro que sim. - respondeu ela e pôs-se a andar. - Volto em seguida. - disse o senhor Crabtree a Benedict, por cima do ombro - Não quero perder isto. -Que alguém busque um maldito cinto a moça! - gritou Benedict, malhumorado. Não achava nada justo que todos saíssem ao corredor para ver o espetáculo enquanto ele estava doente na cama. E certamente estava doente. Só a idéia de levantar o enjoava. Essa noite deve ter estado mais grave do que pensou. Já não sentia a necessidade de tossir em todos os poucos segundos, mas sentia o corpo esgotado, exausto. Doíam-lhe os músculos e lhe ardia a garganta de irritação. Até os dentes lhe doíam um pouco. Tinha vagas lembranças de Sophie atendendo-o. Tinha-lhe posto compressas frias na fronte, tinha estado velando ao lado da cama, inclusive lhe tinha cantado uma canção de berço. Mas nunca conseguiu lhe ver o rosto. A maior parte do tempo não tinha tido a energia para abrir os olhos, e quando conseguia abri-los, o quarto estava escuro, e ela sempre estava nas sombras, lhe recordando a...


Conteve o fôlego, e o coração lhe acelerou no peito, porque em um repentino relâmpago de clareza, recordou seu sonho. Tinha sonhado com "ela". Não era um sonho novo, embora fizesse meses que não o tinha. Não era uma fantasia para inocentes tampouco. Ele não era nenhum santo, e quando sonhava com a mulher do baile de máscaras, ela não levava seu vestido prateado. Não usava nada em cima, pensou sorrindo maliciosamente.

Mas o que o assombrava era que esse sonho houvesse voltado depois de tantos meses adormecido. Era algo que tinha Sophie, que o fez voltar? Tinha suposto, tinha desejado que o desaparecimento desse sonho significasse que tinha acabado sua obsessão por ela. Era evidente que não. Certamente Sophie não se parecia com a mulher com a que dançou fazia dois anos. Seu cabelo não era da mesma cor, e era muito magra. Recordava claramente as exuberantes curvas da mulher mascarada em seus braços; comparada com ela, bem se podia dizer que Sophie era esquálida. Sim, talvez sua voz se parecesse um pouco, mas tinha que reconhecer que com o passar do tempo suas lembranças tinham perdido nitidez e já não recordava com toda clareza a voz de sua mulher misteriosa. Além disso, a pronúncia de Sophie, embora excepcionalmente refinada para ser uma criada, não era de tão bom tom como a "dela". Soltou um grunhido de frustração. Como detestava chamá-la "ela". Esse lhe parecia o mais cruel dos segredos dela, se negou a lhe dizer seu nome. Uma parte dele desejava que lhe tivesse mentido, lhe dizendo um nome falso. Assim pelo menos teria tido como chamá-la quando pensava nela. Um nome para sussurrar de noite, quando olhava pela janela pensando onde demônios estaria. Sons de passos, tropeços e choques procedentes do corredor, lhe impediram de seguir refletindo. O senhor Crabtree foi o primeiro em voltar, cambaleante sob o peso da bandeja com a comida para o café da manhã. -O que lhes ocorreu? - perguntou Benedict, olhando a porta com expressão desconfiada. -A senhora Crabtree foi buscar roupa adequada para Sophie. - respondeu o senhor Crabtree deixando a bandeja na escrivaninha - Presunto ou toucinho?


- As duas coisas. Estou morto de fome. E que demônios quis dizer ela com "roupa adequada"? -Um vestido, senhor Bridgerton. Isso é o que usam as mulheres. Benedict considerou seriamente a possibilidade de lhe arremessar o cabo da vela. -Quis dizer, - explicou, com uma paciência que ele teria qualificado de santa - onde vai encontrar um vestido? O senhor Crabtree se aproximou tranquilamente e lhe instalou no regaço uma bandeja com pernas, com o prato de comida. - A senhora Crabtree tem vários vestidos extras, e sempre tem muito gosto em emprestá-los. Benedict se engasgou com o bocado de ovo que acabava de deitar na boca. - A senhora Crabtree não tem o mesmo talhe de Sophie. -Tampouco você, - observou o senhor Crabtree - e bem que ela levava suas roupas. - Achei que a ouvi dizer que as calças lhe caíram na escada. -Bem, já não temos que nos preocupar disso com o vestido. Não acredito que lhe passem os ombros pelo buraco do pescoço. Benedict decidiu que sua prudência estaria mais segura ao ocupar-se de seus assuntos, e dedicou toda sua atenção ao café da manhã. Já ia a seu terceiro prato quando apareceu a senhora Crabtree na porta. -Aqui estamos. - anunciou. Então apareceu Sophie, virtualmente inundada no volumoso vestido da senhora Crabtree. Além dos tornozelos, claro. A senhora Crabtree era pelo menos meio palmo mais baixa. -Não está muito bonito? - disse a senhora Crabtree, sorrindo de orelha a orelha. -Ah, sim, sim. - respondeu Benedict, curvando os lábios. Sophie o olhou indignada. - Terá abundante espaço para o café da manhã. - disse ele, bravamente. -Só o levará até que eu possa limpar sua roupa. - explicou a senhora Crabtree - Mas pelo menos é decente. - se aproximou da cama - Como está seu café da manhã, senhor Bridgerton? -Delicioso. Não tinha comido tão bem há meses. A senhora Crabtree se inclinou a lhe sussurrar: - Gosto de sua Sophie. Poderíamos ficar com ela?


Benedict voltou a engasgar-se. Com o que, não sabia; mas se engasgou de qualquer modo. -O que? -Já não somos tão jovens, o senhor Crabtree e eu. Não iria mal outro par de mãos aqui. -Eh... Isto... Eu... Bom... - clareou a voz - Pensarei nisso. -Excelente. - a senhora Crabtree voltou até a porta e agarrou Sophie pelo braço - Você vem comigo. O estômago lhe esteve grunhindo toda a manhã. Quando comeu pela última vez? -Ehh... Em algum momento ontem, diria eu. -Ontem a que hora? - insistiu a senhora Crabtree. Benedict teve que pôr o guardanapo na boca para ocultar seu sorriso. Sophie parecia estar totalmente enrolada. A senhora Crabtree tendia a fazer isso às pessoas. -Eh... Bom, em realidade... A senhora Crabtree plantou as mãos nos quadris. Benedict sorriu. Uma boa esperava a Sophie. -Vai me dizer que ontem não comeu em todo o dia? - bradou a senhora Crabtree. Sophie olhou desesperada para Benedict. Ele respondeu com um encolhimento de ombros que lhe dizia "não procure ajuda em mim". Além disso, desfrutava vendo o carinho com que a tratava a senhora Crabtree. Estava disposto a apostar que essa pobre moça não tinha sido tratada com carinho há anos. -Estive muito ocupada. - disse Sophie, fugindo da resposta. Benedict franziu o cenho. O mais provável era que estivesse ocupada fugindo de Phillip Cavender e da manada de idiotas que chamava amigos. A senhora Crabtree fez Sophie sentar no assento da escrivaninha. -Coma. - ordenou. Benedict a observou comer. Era evidente que ela tentava fazer uso de suas melhores maneiras, mas a fome deve ter ganho a batalha, porque passado um minuto estava virtualmente devorando a comida. Só quando de deu conta de que tinha as mandíbulas fortemente apertadas compreendeu que estava absolutamente furioso. Com quem, não sabia exatamente, mas não gostava de ver Sophie tão faminta. Havia um estranho vínculo entre ele e a criada. Ele a tinha salvado e ela tinha salvado a ele. Ah, duvidava de que a febre dessa noite o tivesse matado; se tivesse sido realmente grave, estaria batalhando com ela nesse momento.


Mas ela o tinha cuidado, havia o posto confortável e talvez o tivesse feito avançar no caminho da recuperação. -Me fará o favor de vigiar que coma pelo menos outro prato? - pediu à senhora Crabtree - Vou lhe preparar um quarto. -Um dos quartos para os criados. - disse Sophie. -Não seja tola. Enquanto não a contratarmos, não é uma criada aqui. - Mas... -E não fale mais. - interrompeu a senhora Crabtree. -Quer que a ajude querida? - perguntou o senhor Crabtree. Ela assentiu e imediatamente o casal partiu. Sophie deteve o processo de comer tanta comida como era humanamente possível, para olhar a porta por onde acabavam de desaparecer. Sem dúvida a consideravam uma deles, porque se não tivesse sido uma criada de maneira nenhuma a teriam deixado a sós com o Benedict. As reputações se podiam arruinar com muito menos. - Ontem não comeu nada em todo o dia, não é? - perguntou Benedict em voz baixa. Ela negou com a cabeça. - A próxima vez que vir Cavender, vou deixá-lo convertido em uma polpa sanguinolenta. - grunhiu ele. Se ela fosse uma pessoa melhor se haveria sentido horrorizada, pensou Sophie, mas não pôde evitar um sorriso ao imaginar Benedict defendendo mais sua honra. Ou ao Phillip Cavender com o nariz recolocado na fronte. - Volte a encher o prato. - disse ele. Embora só seja por meu bem. Asseguro-lhe que antes de partir a senhora Crabtree contou os ovos e as fatias de presunto que havia na bandeja, e quererá minha cabeça se não tiver diminuído o número quando voltar. -É uma senhora muito boa. - disse ela, pondo ovos no prato. O primeiro lhe tinha aplacado apenas a fome; não necessitava que insistissem para comer. - A melhor. Com suma perícia, ela equilibrou uma fatia de presunto entre o garfo e a colher de servir e a transladou a seu prato. -Como se sente esta manhã, senhor Bridgerton? -Muito bem, obrigado. Ou se não bem, pelo menos condenadamente melhor que ontem à noite. - Estive muito preocupada com você. - disse ela, tirando a borda de gordura do presunto com o garfo e logo cortando uma parte com a faca. - Foi muito amável ao cuidar de mim.


Ela mastigou e engoliu. Depois disse: -Não foi nada em realidade. Qualquer um o teria feito. -Talvez, mas não com tanta graça e bom humor. O garfo dela ficou imóvel a meio caminho. -Obrigada. – disse - Esse é um belo elogio. - Eu não... mmm... Benedict se interrompeu e clareou a garganta. Ela o olhou com curiosidade, esperando que acabasse o que ia dizer. -Não, nada. - murmurou ele. Decepcionada, ela meteu parte do presunto na boca. -Não fiz nada do que tenha que pedir desculpas? - soltou ele de repente, apressadamente. Sophie tossiu e cuspiu parte do presunto no guardanapo. - Isso interpretarei como um sim. - disse ele. - Não! Simplesmente me surpreendeu. -Não me mentiria a respeito disto, não é? - insistiu ele, olhando-a com os olhos entrecerrados. Ela negou com a cabeça, recordando o beijo perfeito que lhe tinha dado. Ele não tinha feito nada que exigisse uma desculpa, mas isso não significava que não o tivesse feito ela. -Ruborizou-se. - acusou ele. -Não, não estou ruborizada. -Sim, está. -Se me ruborizei, - respondeu ela descaradamente - é porque estranhei lhe ocorra pensar que pudesse haver motivos para pedir desculpas. - Ocorrem-lhe muito boas respostas para ser uma criada. - comentou ele. -Perdão. - se apressou a dizer ela. Tinha que recordar seu lugar; mas isso era difícil com esse homem, o único membro da alta sociedade que a tinha tratado como igual, embora fosse apenas por umas horas. -Disse como cumprimento. Não se reprima por minha causa. Ela guardou silêncio. -Acho você muito... - se interrompeu, obviamente para procurar a palavra correta - Estimulante. -Ah. - deixou o garfo na mesa - Obrigada. -Tem algum plano para o resto do dia? Ela olhou o volumoso vestido e fez uma careta.


-Pensava esperar que estivesse pronta minha roupa e então, suponho que irei ver se em alguma das casas vizinhas necessitam de uma criada. - Disse-lhe que encontraria um posto na casa de minha mãe para você. disse ele, carrancudo. -Isso e o agradeço muito, - se apressou a dizer - mas preferiria continuar no campo. Ele encolheu os ombros, com a atitude daquele a quem jamais a vida lhe pôs nenhum obstáculo à frente. - Então pode trabalhar em Aubrey Hall, no Kent. Sophie mordeu o lábio. Certamente não podia dizer que não queria trabalhar na casa de sua mãe porque teria que vê-lo. Não podia imaginar uma tortura mais deliciosamente dolorosa. -Não deve me considerar uma responsabilidade sua. - disse finalmente. Ele a olhou com certo ar de superioridade. - Disse que lhe encontraria outro posto. -Mas... -O que pode haver nisso para discutir? -Nada. - respondeu ela - Nada absolutamente. Não serviria de nada discutir com ele nesse momento. -Ótimo. - disse ele, reclinando-se satisfeito em seus almofadões - Me alegro que veja à minha maneira. -Devo ir. - disse ela, começando a levantar-se. - Para fazer o que? -Não sei. - respondeu ela, sentindo-se estúpida. Ele sorriu de orelha a orelha. -Que desfrute, então. Ela fechou a mão no cabo da colher de servir. -Não o faça. - advertiu ele. -Que não faça o que? -Lançar-me a colher. - Isso eu nem sonharia. - respondeu ela entre dentes. Ele pôs-se a rir. -Pois sim que o sonharia. Está sonhando com isso neste momento. Só que não o faria. Sophie tinha a colher segura com tanta força que lhe tremia a mão. Benedict ria tão forte que lhe tremia a cama. Sophie continuou de pé, com a colher bem agarrada. -Pensa levar a colher? - perguntou ele sorrindo. "Recorda seu lugar", gritou-se ela, "recorda seu lugar".


-O que poderia estar pensando para ver-se tão adoravelmente feroz? perguntou ele - Não, não me diga. – acrescentou - Certamente tem que ver com minha prematura e dolorosa morte. Muito lentamente ela se voltou de costas para ele e colocou com cuidado a colher na mesa. Não devia arriscar-se a fazer nenhum movimento brusco; um movimento em falso e lhe atiraria a colher à cabeça. - Isso foi muito amadurecido de sua parte. - comentou ele, arqueando as sobrancelhas, aprovador. Ela se virou lentamente para ele. -É assim encantador com todo mundo ou só comigo? -Ah, só com você. - respondeu ele sorrindo - Terei que procurar fazê-la aceitar meu oferecimento de lhe encontrar emprego em casa de minha mãe. Você faz surgir o melhor de mim, senhorita Sophie Beckett. -Isso é o melhor? - perguntou ela, com visível incredulidade. - Temo que sim. Sophie se dirigiu à porta limitando-se a mover a cabeça. Sim, eram exaustivas as conversações com Benedict Bridgerton. -Ah, Sophie! - exclamou ele. Ela se voltou para olhá-lo. Ele sorriu brincalhão. -Sabia que não me atiraria a colher. O que ocorreu então não foi responsabilidade de Sophie. Ela ficou convencida de que por um fugaz instante, apoderou-se dela um demônio, porque de verdade não reconheceu a mão que se alargou até a mesinha e agarrou o cabo de uma vela. Certo que a mão parecia estar unida firmemente ao seu braço, mas não lhe pareceu conhecida quando esta mão se moveu para trás e atirou o cabo da vela através da habitação. Dirigida à cabeça de Benedict Bridgerton. Não esperou para ver se sua pontaria tinha sido acertada. Mas quando saía depressa do dormitório, ouviu a gargalhada de Benedict. E logo o ouviu gritar: - Bem feito, senhorita Beckett! E então se deu conta de que pela primeira vez em anos o sorriso que curvou os lábios era de alegria pura e autêntica.


Capítulo 10 Embora tendo respondido afirmativamente ao convite (ou isso diz lady Covington), Benedict Bridgerton não fez ato de presença no baile anual dos Covington. Ouviram-se queixas de mocinhas (e de suas mães) no salão. Conforme disse lady Bridgerton (a mãe, não a cunhada), o senhor Bridgerton partiu ao campo a semana passada e depois não se tiveram notícias dele. Não se inquietem, aquelas que poderiam temer pela saúde e bem-estar do senhor Bridgerton; lady Bridgerton parecia mais aborrecida que preocupada. O ano passado foram nada menos que quatro os casais que fixaram seu compromisso depois do baile dos Covington, e no ano anterior foram três. Para grande consternação de lady Bridgerton, se o baile dos Covington deste ano estimula compromissos matrimoniais, seu filho Benedict não se contará entre os noivos. Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 5 de maio de 1817 Benedict descobriu muito em breve que uma convalescença longa, e alongada, tinha suas boas vantagens. A mais evidente era a quantidade e variedade da excelente comida que saía da cozinha da senhora Crabtree. Sempre o haviam alimentado bem em Minha Cabana, mas a senhora Crabtree ficava realmente à altura das circunstâncias quando alguém estava confinado em seu leito de doente. E melhor ainda, o senhor Crabtree tinha providenciado para interceptar os tônicos da senhora Crabtree e substituí-los por uma dose do melhor conhaque dele. Ele bebia obedientemente até a última gota, mas a última vez que olhou pela janela lhe pareceu ver que três de suas roseiras tinham morrido, e que presumivelmente era ali onde o senhor Crabtree lançava o tônico. Esse era um triste sacrifício, mas um que ele estava mais que bem disposto a fazer depois de sua última experiência com o tônico da senhora Crabtree. Outro benefício de sua prolongada permanência na cama era o simples fato de poder, pela primeira vez em muitos anos, desfrutar de quietude e tranqüilidade. Lia, desenhava, e inclusive fechava os olhos e simplesmente sonhava acordado, e tudo isso sem sentir-se culpado por desatender outros deveres e afazeres. Muito em breve chegou à conclusão de que seria perfeitamente feliz levando uma vida de preguiçoso. Mas a melhor parte de seu tempo de recuperação, sem dúvida, era Sophie. Ela ia vê-lo várias vezes ao dia, às vezes para lhe ajeitar os almofadões,


às vezes para lhe levar comida, e às vezes só para ler para ele. Tinha a impressão de que sua solicitude se devia a que desejava sentir-se útil e lhe agradecer com obras por tê-la salvado de Phillip Cavender. Mas em realidade não lhe importava muito o motivo porque fosse vê-lo; simplesmente lhe agradava que o fizesse. A princípio ela se mostrava calada e reservada, evidentemente para aterse ao critério geral de que aos criados não se deve ver nem ouvir. Mas ele não aceitava nada disso e com toda intenção entabulava conversa, embora só fosse para que não partisse. Ou a provocava e arreliava, simplesmente para irritá-la, porque gostava muitíssimo, mais cuspia fogo quando se mostrava mansa e reservada. O principal era que lhe agradava estar no mesmo aposento que ela, fosse porque estivessem conversando ou ela estivesse passando as páginas de um livro enquanto ele olhava pela janela. Havia alguma coisa nela que fazia que só sua presença lhe produzisse paz. Um golpe na porta o tirou de suas reflexões; iludido levantou a vista e gritou: - Entre! Sophie apareceu e sua cabeleira frisada até os ombros se agitou ligeiramente ao roçar no batente da porta. - A senhora Crabtree pensou que gostaria de tomar um chá de meio-dia. -Chá? Ou chá com bolachas? -Ah, com bolachas, como não. -Excelente. E me acompanhará em tomá-lo? Ela titubeou, como fazia sempre, mas em seguida assentiu, também como fazia sempre. Já fazia tempo que tinha compreendido que não servia de nada discutir com Benedict quando ele estava resolvido a conseguir algo. E à Benedict agradava isso. - Voltou a cor às faces. - comentou ela, deixando a bandeja em uma mesa próxima - E já não parece tão cansado. Eu diria que muito em breve poderá levantar-se. -Ah, sim, logo. - respondeu ele, evasivo. -Cada dia está mais saudável. - continuou ela. -Lhe parece? - disse ele sorrindo bravamente. Ela deteve o movimento de agarrar o bule para servir, e sorriu irônica. -Sim. Se não, não o teria dito. Benedict lhe observou as mãos enquanto ela servia o chá na xícara para ele. Seus movimentos tinham uma elegância inata, e servia o chá como se


estivesse acostumada desde o berço. Estava claro que o chá da tarde era outra das habilidades aprendidas graças à generosidade dos empregadores de sua mãe. Ou talvez se devesse a que tinha observado atentamente às damas quando serviam o chá. Ele tinha notado que era uma mulher muito observadora. Tinham realizado esse rito com tanta frequência que ela não precisava lhe perguntar como preferia o chá. Passou-lhe a xícara, com leite e sem açúcar, e depois um prato com bolachas e pãezinhos escolhidos. -Sirva-se de uma xícara, - disse ele, mordiscando uma bolacha - e venha sentar-se a meu lado. Ela voltou a titubear. Ele já sabia que o faria, mesmo que tivesse aceitado a acompanhá-lo. Mas ele era um homem paciente, e sua paciência foi recompensada com um suave suspiro quando ela pegou outra xícara da bandeja. Ela serviu a xícara, com dois torrões de açúcar e apenas um bocado de leite, foi sentar se junto à cama na poltrona de espaldar alto estofado em veludo, e o olhou por cima da borda da xícara enquanto bebia um gole. -Não vai se servir de bolachas? - perguntou ele. Ela negou com a cabeça. -Acabo de comer umas recém saídas do forno. -Sorte a sua. Sempre são melhores quando estão quentes. - pegou outra bolacha, sacudiu algumas migalhas da manga e pegou outra - E como passou o dia? -Desde a última vez que o vi, faz duas horas? Benedict a olhou com uma expressão que dizia que tinha captado o sarcasmo, mas decidiu não responder. - Estive ajudando à senhora Crabtree na cozinha. - explicou ela - Está preparando um guisado de carne para o jantar e a ajudei cortando as batatas. Depois peguei um livro de sua biblioteca e fui ao jardim para lê-lo. -Sim? O que leu? -Uma novela. -E era boa? -Tonta, mas romântica. Eu gostei. -E deseja viver um romance? O rubor dela foi instantâneo. -Essa é uma pergunta muito pessoal, não acha?


Ele abriu a boca para responder algo corriqueiro, como "Valia a pena tentá-lo", mas ao lhe olhar a rosto, suas faces deliciosamente ruborizadas, os olhos baixos, olhando-a saia, ocorreu-lhe algo muito estranho. Compreendeu que a desejava. Desejava-a, de verdade. Não teria sabido dizer por que isso o surpreendia. Claro que a desejava. Era um homem de sangue tão vermelho e quente como qualquer um; e um homem não pode passar um tempo prolongado com uma mulher tão travessa e adorável como Sophie sem desejá-la. Demônios, desejava a metade das mulheres que conhecia, puramente de um modo que poderia qualificar-se de baixa intensidade, não urgente. Mas nesse momento, com essa mulher, o desejo se fez urgente. Mudou de posição e arrumou as dobras do edredom. Ao cabo de um instante, teve que voltar a trocar de posição. -Sente incômoda a cama? - perguntou Sophie - Necessita que lhe arranje os almofadões? O primeiro impulso dele foi responder que sim, agarrá-la quando se inclinasse sobre ele, e então seduzi-la, pois estariam, muito convenientemente, na cama. Mas o assaltou a suspeita de que esse determinado plano não teria bom resultado com Sophie, de modo que respondeu: -Estou bem. Não pôde evitar fazer uma careta ao notar que a voz lhe saiu estranhamente trêmula. Ela estava olhando sorridente as bolachas do prato. -Talvez uma mais. - disse. Ele afastou o braço para que ela pudesse acessar facilmente ao prato, o qual estava apoiado, recordou tardiamente, em seu regaço. Vê-la estender a mão para suas virilhas, embora em realidade fosse para o prato com bolachas, produziu-lhe coisas estranhas, nas virilhas, para ser exato. Teve uma repentina visão de algo... Trocando de lugar aí debaixo, e se apressou a agarrar o prato, como se fosse perder o equilíbrio. -Lhe importa se como a última...? -Estupendo! - grasnou ele. Ela agarrou uma bolacha de gengibre do prato e franziu o cenho. - Parece melhor, - comentou aproximando-a ao nariz para aspirar seu cheiro - mas sua voz não soa melhor. Dói-lhe a garganta? Benedict se apressou a beber um pouco de chá. -Não, nada. Devo ter engolido um pouco de pó.


-Ah, beba mais chá, então. Isso não o incomodará muito tempo. - deixou sua xícara na bandeja - Quer que leia para você? -Sim! - exclamou ele, amassando o edredom ao redor da cintura. Se a ela ocorresse retirar o prato, tão estrategicamente situado, como ficaria ele então? -Seriamente está bem? - perguntou ela, olhando-o com mais estranheza que preocupação. Ele conseguiu fazer um sorriso tenso. -Estou muito bem. -De acordo, então. - disse ela, levantando-se - O que gostaria que lesse? -Ah, algo... - respondeu ele, com um alegre movimento de mão. -Poesia? - Esplêndido. Teria dito "Esplêndido" mesmo se lhe tivesse lido uma dissertação sobre a flora da tundra ártica. Sophie se dirigiu a uma estante acondicionada em um nicho na parede e esteve um momento olhando seu conteúdo. -Byron? Blake? -Blake. - respondeu ele com firmeza. Uma hora das tolices românticas do Byron o faria cair pelo bordo, com certeza. Ela tirou um magro livro de poemas e voltou a sentar-se na poltrona, agitando sua nada atraente saia com o movimento. Benedict franziu o cenho. Até esse momento não se fixara em como era feio seu vestido. Não tão feio como o que lhe emprestara a senhora Crabtree, mas certamente não estava desenhado para fazer ressaltar o melhor de uma mulher. Deveria comprar um vestido novo. Ela não o aceitaria jamais, logicamente, mas e se por uma casualidade lhe queimasse a roupa que levava posta? - Senhor Bridgerton? Mas como arrumar para lhe queimar o vestido? Ela não teria que levá-lo posto, e isso já implicaria certa dificuldade... -Está escutando? - perguntou Sophie. -Mmm? -Não está me escutando. - Sinto muito. Perdoe. Tinha escapado a mente. Continue, por favor.


Ela começou de novo, e ele, com o fim de lhe demonstrar com que atenção a estava escutando, fixou a vista em seus lábios. E isso resultou ser um tremendo engano. Porque de repente a única coisa que via eram esses lábios, e não conseguia deixar de pensar em beijá-la. Então compreendeu, com a mais absoluta certeza, que se um deles não saísse do quarto nos próximos trinta segundos, ele ia fazer algo pelo que lhe deveria mil desculpas. E não era que não planejasse seduzi-la, não, só que preferia fazê-lo com algo mais de sutileza. -Ai, Deus. – lhe escapou. Sophie o olhou estranhando. E ele a compreendeu, porque o "ai, Deus" lhe saiu como a um completo idiota. Fazia anos que não dizia essa expressão, se é que a havia dito alguma vez. Demônios, estava falando igual a sua mãe. - Acontece algo? - perguntou ela. -Não, só que recordei algo. - respondeu ele, muito estupidamente, em sua opinião. Ela ergueu as sobrancelhas, em interrogação. -Algo que tinha esquecido. - explicou ele. -As coisas que alguém recorda, - disse ela, como se estivesse muito divertida - costumam ser coisas que tinha esquecido. Ele a olhou carrancudo. -Necessito ficar sozinho um momento. - disse. Ela se levantou imediatamente. -Faltaria mais. Benedict reprimiu um gemido. Condenação; ela parecia magoada. Não tinha sido sua intenção ferir seus sentimentos. Só necessitava que ela saísse do quarto para não agarrá-la e colocá-la na cama. -É um assunto pessoal. - explicou com a intenção de que ela se sentisse melhor, mas suspeitando que a única coisa que conseguia era fazer-se idiota. -Ahhh... - exclamou ela, como se de repente entendesse - Quer que lhe traga o urinol? -Eu posso caminhar até o urinol. - replicou ele, esquecendo que não necessitava o urinol. Ela assentiu e foi deixar o livro em uma mesa. -O deixarei para que se ocupe de seus assuntos. Só tem que puxar o cordão quando me necessitar. -Não vou chamá-la como a uma criada. - grunhiu ele.


- Mas sou uma... -Não. Para mim não é. As palavras lhe saíram com mais dureza do que o necessário, mas ele sempre tinha detestado aos homens que acossavam a criadas impotentes. Só a idéia de que ele pudesse converter-se em um desses seres repelentes lhe produzia náuseas. -Muito bem. - disse ela, no tom submisso de uma criada, e logo depois de lhe fazer uma reverência, como uma criada, partiu. Ele estava bastante certo de que isso o fazia só para chateá-lo. No instante em que ela fechou a porta, desceu da cama de um salto e correu para a janela. Ótimo, ninguém à vista. Tirou o roupão e pôs um par de calças, uma camisa e uma jaqueta. Voltou a olhar pela janela. Ótimo. Ninguém. -Botas, botas... - murmurou. Passeou a vista pelo quarto. Onde diabos estavam suas botas? Não suas botas boas, o par para sujar no barro. Ah, aí. Agarrou as botas e as pôs. Voltou para a janela. Não tinha aparecido ninguém. Excelente. Passou uma perna pelo peitoril, depois a outra, e se agarrou a um ramo largo e forte de um olmo próximo. O resto foi um fácil número de balançar-se avançando pelo ramo, chegar ao tronco, deslizar-se e saltar ao chão. E dali, direto ao lago. Ao muito frio lago. A tomar um banho muito frio. -Se necessitasse do urinol poderia tê-lo dito. - ia resmungando Sophie Como se eu nunca tivesse tido que levar e trazer urinóis. Desceu o último degrau da escada, sem saber por que ia ao piso inferior. Não tinha nada concreto à fazer aí; tinha descido simplesmente porque não lhe ocorreu outra coisa. Não entendia por que ele tinha tanta dificuldade para tratá-la como ao que ela era: uma criada. Não parava de insistir em que ela não trabalhava para ele e que não tinha que fazer nada para ganhar a manutenção em Minha Cabana, e logo na mesma argumentação lhe assegurava que lhe encontraria um posto na casa de sua mãe. Se ele a tratasse como a uma criada, ela não teria nenhuma dificuldade para recordar que era uma ninguém ilegítima e que ele era um membro de uma das famílias mais ricas e influentes da alta sociedade. Cada vez que ele a tratava como a uma pessoa real (e sabia por experiência que a maioria dos aristocratas não trata a seus criados como nada parecido nem remotamente a uma pessoa real) a fazia recordar o baile de máscaras, quando por uma noite perfeita ela foi uma dama elegante, o tipo de mulher que tinha o direito a sonhar com um futuro com Benedict Bridgerton.


Ele agia como se realmente gostasse dela e desfrutasse de sua companhia. E talvez fosse assim. Mas isso tinha o efeito mais cruel de todos, porque a estava fazendo amá-lo, fazendo acreditar, em uma pequena parte dela, que tinha o direito a sonhar com ele. E logo, indevidamente, tinha que recordar a verdade da situação e isso lhe doía muitíssimo. -Ah, está aí, senhorita Sophie! Levantou a vista do chão, onde tinha estado seguindo distraidamente as figuras do tapete, para olhar à senhora Crabtree que vinha descendo a escada. -Bom dia, senhora Crabtree. Como vai o guisado? -Bem, muito bem. - respondeu a senhora Crabtree, distraída Escassearam-nos um pouco as cenouras, mas acredito que vai estar muito saboroso de todos os modos. Viu ao senhor Bridgerton? Sophie a olhou surpreendida. -Em seu quarto, faz só um minuto. -Pois, agora não está lá. - Acho que queria usar o urinol. A senhora Crabtree nem sequer se ruborizou; esse era o tipo de coisas que estavam acostumados a falar os criados a respeito de seus empregadores. -Bem, se queria, não o usou, se sabe o que quero dizer. A habitação cheirava fresca como um dia da primavera. -E não estava lá? - perguntou Sophie, carrancuda. -Nem o cabelo. -Não imagino aonde poderia ter ido. A senhora Crabtree plantou as mãos em seus largos quadris. -Eu o procurarei embaixo e você em cima. Com certeza uma das duas o encontrará. -Não me parece boa idéia, senhora Crabtree. Se saiu de seu quarto devia ter uma boa razão. O mais provável é que não deseje que o encontrem. -Mas está doente. - alegou a senhora Crabtree. Sophie refletiu sobre isso, trazendo sua imagem à mente. Sua pele tinha uma cor saudável, e não parecia cansado o mínimo. -Disso não estou muito certa, senhora Crabtree, - disse ao fim - me parece que finge estar doente de propósito. -Não seja tola. - resmungou a senhora Crabtree - O senhor Bridgerton jamais faria uma coisa assim. -Eu também não teria acreditado, - respondeu Sophie, encolhendo os ombros - mas de verdade, já não parece estar nem um pouquinho doente.


- Isso é meu tônico. - assegurou a senhora Crabtree, concordando satisfeita - Já lhe disse como aceleraria sua recuperação. Sophie tinha visto o senhor Crabtree esvaziar as dose de tônico nas roseiras, e também tinha visto as conseqüências; não era uma vista agradável. Como se arrumou para sorrir e assentir, jamais saberia. -Bem, eu gostaria de saber aonde foi. - disse a senhora Crabtree - Não deveria estar levantado, e sabe. -Certamente não demorará a voltar. - assegurou Sophie em tom tranqüilizador - Enquanto isso necessita de ajuda na cozinha? -Não, não. - respondeu a senhora Crabtree negando com a cabeça – A única coisa que necessita esse guisado é cozer-se. Você é uma convidada aqui e não deveria ter que mover nem um dedo. -Não sou uma convidada. - protestou Sophie. -Bem, o que é, então? Isso fez Sophie pensar. -Não tenho ideia, - respondeu finalmente - mas certamente não sou uma convidada. Uma convidada seria... Uma convidada seria... - tentou encontrar algum sentido a seus pensamentos e sentimentos. - Suponho que uma convidada seria uma pessoa que fosse da mesma classe social, ou pelo menos aproximada. Uma convidada seria uma pessoa que nunca tivesse tido que servir a outra, nem esfregar chãos, nem esvaziar urinóis. Uma convidada seria... - Qualquer pessoa a quem o dono da casa resolva convidar como hóspede. - replicou a senhora Crabtree - Isso é o bom de ser o dono da casa. Você pode fazer o que desejar. E deveria deixar de menosprezar-se. Se o senhor Bridgerton decidiu considerá-la hóspede de sua casa, você deveria aceitar seu julgamento e passá-lo bem. Quando foi a última vez que pôde viver comodamente sem ter que romper os dedos trabalhando em troca? -Não acredito que ele me considere uma hóspede em sua casa. respondeu Sophie - Se fosse assim, teria instalado a uma pessoa que me acompanhasse, para proteger minha reputação. -Como se eu fosse permitir algo incorreto em minha casa. - protestou a senhora Crabtree, arrepiada. -Não, claro que você não o permitiria. Mas tratando-se da reputação, a aparência é tão importante como a realidade. E aos olhos da sociedade, uma governanta não conta como acompanhante, por muito estrita e pura que seja sua moralidade. Isso sim é certo, então necessita uma acompanhante, senhorita Sophie.


-Não seja tola. Não necessito acompanhante porque não sou da classe dele. A ninguém importa que uma criada viva e trabalhe na casa de um homem solteiro. Ninguém pensa mal dela, e certamente nenhum homem que a considerasse para casar-se com ele a consideraria desonrada. Assim são as coisas no mundo. - acrescentou, encolhendo os ombros - E é evidente que o senhor Bridgerton pensa assim, reconheça-o ou não, porque nenhuma só vez disse que é indecoroso que eu esteja aqui. -Bem, pois, eu não gosto disso. - declarou a senhora Crabtree - Eu não gosto nada, nada. Sophie não pôde deixar de sorrir, porque achava muito consolador que à ama de chaves lhe importasse. -Creio que vou sair para caminhar. Desde que estiver certa de que não necessita ajuda na cozinha. E aproveitando, - acrescentou com um sorriso irônico – que me encontro nesta estranha e nebulosa posição. Pode ser que não seja uma hóspede, mas é a primeira vez em muitos anos que não sou uma criada, e vou desfrutar de meu tempo livre enquanto possa. -Isso, senhorita Sophie, faça isso. - disse a senhora Crabtree, lhe dando um cordial tapinha no ombro – E pegue alguma flor para mim enquanto passeia. Sophie se dirigiu à porta sorrindo de orelha a orelha. O dia estava lindo, mais quente e ensolarado do que correspondia à estação, e o ar estava impregnado com a doce fragrância das flores da primavera. Já não recordava a última vez que deu um passeio pelo simples prazer de desfrutar do ar fresco. Benedict lhe tinha falado de uma lagoa que havia nas cercanias; talvez pudesse caminhar para lá, e inclusive colocar os pés na água se sentisse particularmente ousada. Olhou para o céu e sorriu ao sol. O ar estava quente, mas certamente a água ainda estaria gelada; só era começo de maio. De qualquer modo, seria agradável. Algo que representasse tempo de ócio e momentos aprazíveis e solitários seria agradável. Com o cenho franzido se deteve um momento a observar o horizonte, pensativa. Benedict havia dito que o lago estava situado ao sul de Minha Cabana. Se seguisse uma rota para o sul se internaria em uma parte de bosque muito denso. Mas, um pouco de exercício não a mataria. Entrou no bosque, e foi abrindo passagem, saltando por cima das enormes raízes, afastando os ramos baixos e sentindo-os lhe golpear as costas com despreocupado relaxamento. Acima se filtravam fracos raios de sol por entre a folhagem da abóbada formada pelas copas das árvores, e perto do chão mais parecia anoitecer que meio-dia.


Mais adiante divisou um claro, que supôs devia ser a lagoa. Quando já estava perto, viu o brilho do sol na água, e exalou um longo suspiro de satisfação, feliz por não ter errado o caminho. Mas ao aproximar-se mais ouviu ruído de chapinhar e com igual quantidade de terror e curiosidade, compreendeu que não estava sozinha. Só estava a uns cinco ou seis palmos da margem do lago, onde a veria facilmente qualquer um que estivesse na água, de modo que se escondeu atrás do tronco de um enorme carvalho; se tivesse um só osso sensato no corpo, daria-meia volta e voltaria para a casa, mas não pôde evitar pôr a cabeça para ver quem podia ser a pessoa tão louca que se metia a banhar-se no lago quando ainda não tinha começado a estação de calor. Lenta e silenciosamente saiu detrás da árvore e avançou um pouco, procurando manter-se mais oculta possível. E viu um homem. Um homem "nu". Um homem desp... Benedict?


Capítulo 11 As guerras por pessoal de serviço fazem furor em Londres. Lady Penwood insultou à senhora Featherington chamando-a ladra mau nascida, diante de nada menos que três senhoras da sociedade, entre as que se contava a muito popular viscondessa Bridgerton viúva. A senhora Featherington respondeu dizendo que a casa de lady Penwood não era melhor que o asilo dos pobres, enumerando os maus entendimentos a sua criada (cujo nome, conforme se inteirou esta cronista, não é Estelle, como se assegurou, e não é, nem remotamente, francesa. (A moça se chama Bess, e é oriunda de Liverpool). Lady Penwood deixou aí a briga e partiu pisando forte com muito dramalhão, seguida por sua filha, a senhorita Rosamund Reiling. A outra filha de lady Penwood, Posy (que, por certo, levava um desafortunado vestido verde), ficou atrás, com uma expressão como de pedir desculpas, até que voltou sua mãe, agarrou-a pela manga e a puxou a rastros dali. Certamente esta cronista não faz as listas de convidados às festas de sociedade, mas é difícil imaginar que se convide às Penwood ao próximo sarau da senhora Featherington. Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 7 de maio de 1817. Fazia mal em ficar. Muito mal. Horrorosamente mau. Mas não se moveu, nenhuma só polegada. Tinha encontrado um grande canto redondo, de superfície plana, e ali estava sentada, bastante oculta por um matagal largo e baixo, com os olhos fixos nele. Estava "nu". Ainda lhe custava acreditar. Estava parcialmente submerso, claro, com a água até o bordo de sua caixa torácica. O bordo "inferior" de sua caixa torácica pensou, tolamente. Embora quisesse ser totalmente sincera consigo mesma, teria que reformular esse pensamento: estava, "por desgraça" submerso parcialmente. Ela era tão inocente como qualquer... Bom, como qualquer inocente, mas, maldição, sentia curiosidade, e estava se apaixonando por esse homem. Tão mau era desejar que soprasse uma forte rajada de vento, bastante potente para formar uma imensa onda que arrastasse a água que lhe cobria o corpo e a depositasse em outra parte? Em qualquer outra parte?


Bom, pois, era má. Era má e não lhe importava. Passou a vida no caminho seguro, o caminho prudente. Uma só noite em toda sua curta vida tinha jogado a prudência ao vento. E essa noite tinha sido a mais emocionante, a mais mágica; a noite mais estupendamente maravilhosa de sua vida. Portanto decidiu continuar onde estava, deixar correr os acontecimentos e ver o que lhe tocasse ver. Não tinha nada a perder, ao fim e ao cabo. Não tinha trabalho, não tinha nenhuma perspectiva, além da promessa do Benedict de lhe encontrar um posto no pessoal de serviço de sua mãe (e, por certo, tinha a clara sensação de que isso não lhe convinha nada). Assim, continuou sentada, tratando de não mover nenhum músculo, e mantendo os olhos abertos, muito abertos. Benedict não tinha sido jamais supersticioso e de maneira nenhuma se considerava uma pessoa possuidora de um sexto sentido, mas duas vezes em sua vida tinha experimentado uma estranha sensação de pré-conhecimento, uma espécie de misterioso formigamento que lhe advertia que ia ocorrer algo importante. A primeira vez foi o dia em que morreu seu pai. Jamais tinha contado isso a ninguém, nem sequer a seu irmão mais velho, Anthony, que se sentiu absolutamente aniquilado pela morte de seu pai. Mas naquela tarde, quando ele e Anthony foram galopando pelo campo, apostando uma estúpida corrida, sentiu um estranho adormecimento nas extremidades, seguido por uma espécie de tamborilar na cabeça. Não foi algo exatamente doloroso, mas a sensação lhe esvaziou o ar dos pulmões e lhe produziu um terror quase inimaginável. Logicamente, perdeu a corrida, porque era muito difícil dirigir as rédeas com dedos adormecidos que se negavam a funcionar. E quando retornou a casa descobriu que seu terror não tinha sido injustificado. Seu pai já tinha morrido, derrubou-se pela picada de uma abelha. Ainda lhe custava acreditar que um homem tão forte e vital como seu pai tivesse sido derrubado por uma abelha, mas não havia nenhuma outra explicação. A segunda vez que lhe ocorreu, em troca, a sensação foi absolutamente diferente. Ocorreu a noite do baile de máscaras dado por sua mãe, justo antes de ver a mulher do traje prateado. Como na vez anterior, a sensação lhe começou nos braços e nas pernas, mas em lugar de sentir adormecimento sentiu um estranho formigamento, como se de repente recuperasse a vida, depois de anos de sonambulismo.


E então se virou e a viu, e nesse momento soube que ela era o motivo de que ele estivesse ali essa noite; o motivo pelo qual vivesse na Inglaterra; demônios, o motivo de que tivesse nascido. Mas então ela desapareceu, lhe demonstrando que tinha estado equivocado, mas nesse momento tinha acreditado isso, e se lhe tivesse sido permitido, ele o teria demonstrado a ela também. E nesse momento, metido na lagoa, com a água lhe lambendo o diafragma, mais acima do umbigo, novamente tinha a estranha sensação de que em certo modo estava mais vivo que uns segundos antes. Era uma sensação agradável, uma excitante onda de emoção que o deixava sem fôlego. Era a sensação igual aquela ocasião, quando conheceu à "ela". Ia ocorrer algo, ou talvez alguém estivesse perto. Sua vida estava a ponto de mudar. E estava tão nu como quando Deus o jogou ao mundo, pensou, curvando os lábios em um sorriso irônico. Isso não dava nenhuma vantagem a um homem, a não ser que estivesse em meio de dois lençóis de seda com uma atraente jovem seu lado. Ou debaixo. Avançou uns passos para a parte ligeiramente mais profunda, sentindo passar o brando lodo do fundo por entre os dedos dos pés. Sentiu subir a água um par de polegadas. Estava a ponto de congelar, maldição, mas ao menos se sentia mais coberto. Escrutinou a margem, olhando de cima abaixo as árvores e os arbustos. Tinha que haver alguém por ali. Nada fora disso podia explicar o estranho formigamento que já estava sentindo em todo o corpo. E se sentia formigar o corpo estando submerso em um lago tão gelado que lhe aterrava ver suas partes pudendas (imaginava às pobres tão encolhidas que já não eram nada, e isso não era o que um homem gosta de imaginar), sim era um formigamento muito potente. -Quem está aí? - gritou. Não houve resposta. A verdade, não tinha esperado que alguém respondesse, mas valia a pena perguntar. Com os olhos entrecerrados, esquadrinhou novamente a margem, dando uma volta completa, atento a qualquer sinal de movimento. Não viu nada, além do suave movimento das folhas agitadas pela brisa, mas quando terminou o detido exame da margem, de certo modo "soube". - Sophie! Ouviu uma exclamação abafada, seguida por uma rajada de atividade.


-Sophie Beckett! – gritou - Se fugir de mim agora, juro-lhe que a seguirei, e não perderei tempo para me vestir. Os ruídos provenientes da margem se fizeram mais lentos. -E a alcançarei, - continuou ele - porque sou mais forte e mais rápido. E poderia me sentir obrigado a jogá-la ao chão para impedir que escape. Os ruídos de movimento cessaram por completo. -Bem. - grunhiu - Mostre-se. Ela não apareceu. -Sophie... - disse ele, em tom ameaçador. Passado um instante de silêncio, ouviram-se uns passos lentos e vacilantes, e então a viu, de pé à margem, com esse horrível vestido que desejava ver fundo no fundo do Tâmisa. -O que faz aqui? - perguntou. -Saí para caminhar. E o que faz você aqui? Supõe-se que está doente. Isso, – fez um amplo gesto com o braço, abrangendo a ele e ao lago - de maneira nenhuma pode ser bom para você. -Me seguiu? - perguntou ele, passando por cima da pergunta e do comentário dela. - É claro que não. - respondeu ela. Ele acreditou. Não a achava possuidora do talento cênico, necessário para fingir esse grau de virtude. -Jamais o seguiria até um poço para banhar-se. - continuou ela - Seria indecente. E então ficou vermelho seu rosto, porque os dois sabiam que esse argumento não tinha nenhuma base para sustentar-se. Se lhe importava tanto a decência, teria partido do lago no mesmo instante em que o viu, já fosse por acaso ou não. Ele tirou uma mão da água e a apontou para ela, e fez um giro com a pulso, lhe indicando que desse meia volta. -Dê-me as costas e me espere. – ordenou - Só demorarei um momento em pôr a roupa. - Voltarei para casa, - ofereceu - assim terá mais liberdade de movimento e... -Ficará. - interrompeu ele, com voz firme. -Mas... Ele cruzou os braços. -Tenho o aspecto de estar com humor para discussões? Ela o olhou com expressão revoltada.


-Se fugir a alcançarei. - advertiu ele. Sophie observou a distância que os separava e logo tentou calcular a distância para Minha Cabana. Se ele se detinha para pôr a roupa poderia ter o tempo para escapar, mas se não... -Sophie, quase vejo o vapor que lhe sai pelas orelhas. Deixe de atormentar a seu cérebro com inúteis cálculos matemáticos e faça o que lhe pedi. Ela notou que ele movia um pé. Se fosse pela urgência de pôr-se a correr de volta a casa ou simplesmente para dar meia volta, jamais saberia. -Já. - ordenou ele. Soltando um suspiro e um grunhido audíveis, Sophie cruzou os braços, virou-se e fixou a vista no oco de um nó da árvore que tinha à frente, como se sua vida dependesse disso. O infernal homem não era absolutamente silencioso para fazer suas coisas, e embora tentasse, não foi capaz de deixar de escutar e tratar de identificar cada um dos sons de movimento que ouvia atrás. Ia saindo da água, estava agarrando as calças, começava a... Um desastre; tinha uma imaginação tremendamente perversa, e não havia maneira de evitá-lo. Ele teria que tê-la deixado voltar para a casa; mas não, obrigou-a a esperar, absolutamente humilhada, enquanto se vestia. Sentia a pele como se a estivessem queimando, e não lhe cabia dúvida de que tinha as faces tingidas de oito tonalidades de vermelho. Um cavalheiro lhe teria permitido ir esconder sua vergonha em seu quarto na parte detrás da casa e permanecer aí ao menos três dias, e ver se nesse tempo ele esquecia todo o assunto. Mas era evidente que Benedict Bridgerton estava resolvido a não ser cavalheiresco essa tarde, porque quando ela moveu um dos pés, só para flexionar os dedos, que lhe estavam adormecendo ele não deixou passar meio segundo para grunhir: -De verdade! Nem lhe ocorra. -Não ia partir. - protestou ela - Estava dormindo meu pé. E se apresse! Não é possível que tarde tanto em vestir-se. -Ah não? - zombou ele com voz arrastada. -Só faz isto para me torturar. - reclamou ela. -Sinta-se livre para me olhar em qualquer momento. - disse ele, com a voz matizada de tranquila diversão - Asseguro-lhe que pedi que me desse as costas só para respeitar suas sensibilidades, não as minhas. -Estou bem onde estou. - respondeu ela.


Ao cabo do que lhe pareceu uma hora, mas que talvez só fossem três minutos, ouviu-o dizer: -Agora pode voltar-se. Quase sentiu medo de fazê-lo; ele tinha esse tipo de senso de humor perverso que o impulsionaria a lhe ordenar que se voltasse antes que tivesse terminado de vestir-se. Mas decidiu acreditar nele, embora, na verdade, não tivesse muita opção no assunto; voltou-se. Com enorme alívio, e não pouca desilusão, teve que reconhecer por que queria ser sincera consigo mesma, comprovou que ele estava decentemente vestido, isso se não fossem levadas em conta as manchas da água que tinha passado de sua pele ao tecido. -Por que não me permitiu voltar para a casa? - perguntou. - Queria você aqui. - respondeu ele tranquilamente. -Mas por quê? Ele encolheu os ombros. -Pois, não sei. Talvez para castigá-la por ter estado me espiando. -Não estava... - começou ela automaticamente, mas interrompeu a frase, porque sim tinha estado espiando-o. -Inteligente moça. - disse ele. Ela o olhou zangada. Teria gostado de lhe dizer algo absolutamente divertido e engenhoso, mas teve a sensação de que se deixava sair algo pela boca seria justamente o contrário, assim mordeu a língua. Melhor ser uma idiota calada que uma faladora. - É de muito má educação espiar ao anfitrião. - disse ele, pondo as mãos no quadril e arrumando-se para adotar um ar autoritário e relaxado ao mesmo tempo. -Foi uma casualidade. - argumentou ela. -Ah, isso se acreditar. Mas embora não tivesse a intenção de me espiar, fica o fato de que quando lhe apresentou a oportunidade a aproveitou. -E é muito estranho isso? -Não, não, absolutamente. Eu teria feito exatamente o mesmo. Ela o olhou boquiaberta. -Não finja estar ofendida. -Não estou fingindo. Ele se aproximou um pouco. -Para dizer a verdade, sinto-me muito adulado. -Foi uma curiosidade acadêmica, asseguro. - disse ela entre dentes. O sorriso dele se fez irônico.


- Quer dizer que teria espiado a qualquer homem nu que tivesse encontrado? -Certamente que não! -Como disse, - disse ele com voz arrastada, apoiando as costas em uma árvore - sinto-me adulado. -Bem, agora que estabelecemos isso, - disse ela, soprando pelo nariz - vou voltar para Sua Cabana. Só tinha dado dois passos quando ele estendeu a mão e a fechou em um pedaço do tecido do vestido. -Creio que não. Sophie virou a cabeça e o obsequiou com um lento suspiro. - Já me envergonhou sem remédio. Que mais poderia desejar me fazer? -Essa é uma pergunta muito interessante. - disse ele, fazendo-a virar e puxando-a para ele. Sophie tratou de plantar firmemente os calcanhares no chão, mas não tinha força para resistir ao puxão de sua mão. Avançou um passo, meio tropeçando, e se encontrou só a umas polegadas dele. De repente sentiu o ar quente, tremendamente quente, e teve a estranha sensação de que já não sabia mover as mãos nem os pés. Formigava-lhe a pele, sentia acelerado o coração, e o maldito se limitava a olhá-la fixamente, sem mover um só músculo nem para salvar o que ficava de distância entre eles. Só a olhava. -Benedict? - sussurrou, esquecendo que ainda o chamava senhor Bridgerton. Ele sorriu, um sorriso leve, perspicaz, um sorriso que lhe fez descer estremecimentos por toda a coluna até outra parte. - Gosto quando me chama por meu nome. - disse ele. -Não foi minha intenção. - reconheceu ela. Pôs-lhe um dedo sobre os lábios. -Shh. Não diga isso. Não sabe que isso não é o que gosta de ouvir um homem? -Não tenho muita experiência com homens. -Bem, isso sim é algo que um homem gosta de ouvir. -Sim? - perguntou ela, duvidosa. Sabia que os homens desejam inocência em suas esposas, mas claro, Benedict não ia casar-se com uma moça como ela. Passou-lhe a ponta do dedo pela face. -É o que desejo ouvir de você.


Uma suave baforada de ar passou pelos lábios de Sophie, ao abafar uma exclamação. Ia beijá-la. Ia beijá-la. Isso era o mais maravilhoso e espantoso que podia ocorrer. Mas, ai, como desejava isso. Sabia que o lamentaria no dia seguinte. Escapou-lhe um risinho abafado. A quem queria enganar? Lamentá-lo-ia dentro de dez minutos. Mas se tinha passado os dois últimos anos recordando como era estar em seus braços, e não sabia se conseguiria passar o resto de seus dias sem ter pelo menos uma lembrança mais para manter-se viva. Ele subiu suavemente o dedo da face à têmpora e o passou por sua sobrancelha, lhe alvoroçando o suave pêlo, e continuou até a ponte do nariz. -Que bonita, - murmurou - como uma fada de conto. Às vezes penso que não pode ser real. A única resposta dela foi acelerar a respiração. - acho que vou beijá-la. - sussurrou ele. - acha? - Acho que tenho que beijá-la. - respondeu ele, com uma expressão como se não acreditasse no que dizi. - É como respirar; a gente não tem muita opção no assunto. O beijo de Benedict foi atormentadoramente terno. Seus lábios roçaram os dela em uma carícia leve como a de uma pluma, de um lado a outro com a mais leve fricção. Foi absolutamente impressionante, mas houve algo mais, algo que a fez sentir-se enjoada e débil. Agarrou-se de seus ombros, pensando por que se sentia tão desequilibrada e estranha, e de repente compreendeu. Era igual a antes. O modo como seus lábios roçavam os dela, com tanta suavidade e doçura, o modo de começar com lenta estimulação, não se impondo com violência, era igual ao que fez no baile de máscaras. Depois de dois anos de sonhos, por fim estava revivendo o único e mais delicioso momento de sua vida. -Está chorando... - disse ele, lhe acariciando a face. Sophie pestanejou e passou a mão pelo rosto para limpar umas lágrimas que não tinha notado cair. -Quer que pare? - sussurrou ele. Ela negou com a cabeça. Não, não queria que parasse. Desejava que a beijasse tal como a beijou aquela noite, em que a suave carícia deu passagem a uma união mais apaixonada. E desejava que a beijasse mais, porque desta vez o relógio não ia dar as badaladas de meia-noite e não teria que escapar.


E desejava que ele soubesse que ela era a mulher do baile de máscaras. E ao mesmo tempo desejava desesperadamente que não a reconhecesse nunca. Estava tão condenadamente confusa e... E ele a beijou. Beijou-a de verdade, com lábios ardentes, e língua voraz, com toda a paixão e o desejo que poderia desejar uma mulher. Fazia-a sentir-se formosa, bela, valiosa, tratando-a como a uma mulher, não como a uma criada, e até esse momento ela não tinha percebido de quanto sentia falta que a tratassem como a uma pessoa. As pessoas abastadas e os aristocratas não viam os criados, e procuravam não ouvi-los, e quando se viam obrigados a falar com eles, faziam a conversa o mais curta e superficial possível. Mas quando Benedict a beijava se sentia real. E quando a beijava, o fazia com todo o corpo. Seus lábios, que começaram o beijo com essa muito suave reverencia, estavam vorazes e exigentes sobre os dela. Suas mãos, tão grandes e fortes que pareciam lhe cobrir as costas todas, estreitavam-na com uma força que lhe tirava o fôlego. E seu corpo, santo Deus, deveria ser ilegal a forma como o apertava contra o dela transpassando seu calor através da roupa, perfurando até a alma. Fazia-a estremecer; fazia-a derreter-se, fazia-a desejar entregar-se a ele; algo que tinha jurado não fazer jamais fora do sacramento do matrimônio. -Oh, Sophie... - sussurrou ele com voz rouca, seus lábios roçando os dela Nunca havia sentido... Ela se esticou, porque estava bastante segura de que lhe diria que nunca havia se sentido assim antes, e não sabia o que sentiria ela ao ouvir isso. Por um lado, era fascinante ser a única mulher que o fazia sentir-se assim, enjoava-o de desejo e necessidade. Por outro lado, tinha-a beijado antes. Não tinha sentido a mesma deliciosa tortura então também? Céu santo, ia sentir ciúmes de si mesma? Ele afastou a boca meio polegada. -O que se passa? Ela negou com um leve movimento da cabeça. -Nada. Pôs um dedo sob seu queixo e lhe levantou o rosto. -Não minta Sophie. O que se passa? -É... S.. Só que estou nervosa. - meio gaguejou ela - Isso é tudo. Ele entrecerrou os olhos, com expressão de preocupada incredulidade. - Tem certeza?


-Absoluta. - se liberou de seus braços e se afastou uns passos, passando os braços pelo peito, abraçando-se - Não faço este tipo de coisas, sabe? Enquanto ela se afastava lhe observou atentamente a postura das costas: expressava desolação. - Sei. - disse docemente - Não é o tipo de moça que o faria. Ela soltou um risinho, e embora não se voltasse para olhá-lo, ele imaginou sua expressão. -Como sabe isso? - É evidente em tudo o que faz. Ela não se voltou. Não respondeu nada. E então, antes de ter uma idéia do que ia dizer, lhe saiu da boca uma pergunta muito estranha: -Quem é, Sophie? Quem é em realidade? Ela continuou sem voltar-se, e quando falou, sua voz soou apenas mais forte que um sussurro. -O que quer dizer? -Algo não se encaixa bem. - explicou ele – Fala muito bem para ser uma criada. -É um delito desejar falar bem? - perguntou ela passando nervosamente a mão pelas dobras de sua saia - Não se pode chegar muito longe neste país com uma dicção inculta. -Poder-se-ia argumentar que não chegou muito longe com isso. - disse ele, com intencionada suavidade. Os braços dela se transformaram em paus; uns rígidos paus com pequenos punhos nos extremos. E enquanto ele esperava que dissesse algo, ela pôs-se a andar, afastandose. -Espere. - gritou. Em três passadas alcançou-a, agarrou-a pela cintura e a obrigou a girar-se para ele - Não vá. -Não é meu costume continuar na companhia das pessoas que me insultam. Benedict quase se encolheu, ao mesmo tempo em que compreendia que sempre o acossaria a angustiada expressão que viu em seus olhos. -Não era um insulto, - disse - e sabe. Só disse a verdade. Não foi feita para ser uma criada, Sophie. Isso está claro para mim e deveria estar para você. Ela riu, com um som duro, frágil, que ele nunca teria imaginado ouvir nela. -E o que me aconselha que faça, senhor Bridgerton? Que procure emprego como preceptora?


A ele isso pareceu uma boa idéia, e abriu a boca para dizer-lhe, mas cortou a palavra: -E quem acredita que me contrataria? -Bem... - Ninguém. - disparou ela - Ninguém me contrataria. Não tenho recomendações e sou muito jovem. -E bonita. - acrescentou ele, tristemente. Jamais tinha pensado no assunto de contratar preceptoras, mas sabia que normalmente a tarefa recaía na mãe, na senhora da casa. O bom senso lhe dizia que nenhuma mãe iria querer introduzir em sua casa uma mocinha tão bonita. Só precisava ver o que Sophie teve que suportar em mãos de Phillip Cavender. - Podia ser a criada de uma senhora. – sugeriu - Pelo menos assim não teria que limpar urinóis. - Levaria uma surpresa. - disse ela. -Dama de companhia de uma senhora anciã? Ela exalou um suspiro. Foi um suspiro triste, lento, que quase rompeu o coração dele. - É muito amável ao querer me ajudar, - disse ela - mas já explorei todos esses caminhos. Além disso, não sou responsabilidade sua. - Podia sê-lo. Ela o olhou surpreendida. Nesse momento ele soube que tinha que tê-la. Havia uma conexão entre eles, um vínculo estranho, inexplicável, que só havia sentido outra única vez em sua vida, com a dama misteriosa do baile de máscaras. E enquanto ela partiu e desvaneceu-se no ar, Sophie era muito real. Estava cansado de miragens. Desejava uma mulher a que pudesse ver e tocar. E ela o necessitava. Talvez ela não o compreendesse ainda, mas o necessitava. Agarrou-lhe a mão e lhe deu um puxão, fazendo-a perder o equilíbrio, e a estreitou contra ele quando ela caiu sobre seu corpo. -Senhor Bridgerton! - gritou ela. -Benedict. - corrigiu ele com os lábios em seu ouvido. - Solte-me... -Diga meu nome. - insistiu ele. Sabia ser muito tenaz quando convinha a seus interesses, e não a ia soltar enquanto não ouvisse sair seu nome de batismo de seus lábios. E talvez inclusive nem então. -Benedict. - cedeu ela ao fim - Eu... -Shh.


Silenciou-a com a boca, lhe mordiscando a curva dos lábios. Quando ela se abrandou e relaxou em seus braços, ele se afastou um pouco, justo o suficiente para olhá-la nos olhos. Seus olhos estavam de um verde incrível a essa hora da tarde, profundos para afogar-se. -Quero que venha a Londres comigo. - sussurrou, falando com fervor para eliminar a possibilidade de considerar suas palavras - Venha viver comigo. Ela o olhou surpreendida. -Seja minha. - continuou ele, com a voz rouca e urgente - Seja minha agora mesmo. Seja minha eternamente. Darei-lhe tudo o que desejar. A única coisa que quero em troca é você.


Capítulo 12 Continuam as numerosas elucubrações a respeito do desaparecimento de Benedict Bridgerton. Segundo Eloise Bridgerton, que sendo sua irmã deve sabêlo, ele deveria ter voltado para a cidade há vários dias. Mas como certamente deve reconhecer Eloise, um homem da idade e talhe do senhor Bridgerton não tem nenhuma necessidade de informar de seu paradeiro a sua irmã mais nova. Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 9 de maio de 1817. -Quer que seja sua amante. - disse ela secamente. Ele a olhou confuso, embora ela não conseguisse discernir se isso se devia a sua afirmação ser muito óbvia ou não gostar de sua escolha de palavras. -Quero que esteja comigo. - insistiu ele. O momento era espantosamente doloroso, entretanto ela se surpreendeu quase sorrindo. -No que difere isso de ser sua amante? -Sophie... -No que é diferente? - repetiu ela, com a voz quase estridente. -Não sei, Sophie. - respondeu ele, impaciente - Tem importância? -Para mim, sim. -Muito bem. - disse ele, em tom cortante - Muito bem. Seja minha amante e tenha isto. Ela escassamente teve tempo para abafar uma exclamação quando os lábios dele desceram sobre os seus com uma paixão que lhe converteu em água os joelhos. Esse não era um beijo como os anteriores; era violento de necessidade e misturado com uma estranha raiva. Devorava-lhe a boca em uma primitiva dança de paixão; suas mãos pareciam estar em todas as partes, sobre seus seios, ao redor da cintura e inclusive debaixo da saia; deslizava-as por sua pele, acariciando, amassando, esfregando. E todo o tempo a tinha tão fortemente apertada contra ele que ela pensou que ia se derreter e meter-se em sua pele. - Desejo-a. - disse ele asperamente, procurando com os lábios a fenda da base da garganta - Desejo-a agora mesmo, desejo-a aqui. -Benedict... - Desejo-a em minha cama. - grunhiu ele - Desejo-a amanhã. Desejo-a depois de amanhã.


E ela era tão má, tão fraca, que se entregou ao momento, arqueando o pescoço para trás para que ele tivesse mais fácil acesso. Era tão agradável sentir seus lábios na pele, lhe produzindo estremecimentos e formigamentos até mesmo ao centro de seu ser. Fazia ela desejá-lo, desejar todas as coisas que não podia ter e amaldiçoar as que podia. E sem saber como, de repente estava no chão e ele estendido ali com ela, a metade de seu corpo sobre o dela. Era tão grande, tão potente, e nesse momento, tão perfeitamente dela. Uma pequena parte de sua mente seguia funcionando e lhe dizia que tinha que dizer não, tinha que pôr fim a essa loucura, mas, Deus a amparasse, não podia. Não ainda. Levava tanto tempo sonhando com ele, tratando de recordar o aroma de sua pele, o som de sua voz. Tinham sido muitíssimas as noites em que as fantasias com ele eram a única coisa que lhe fazia companhia. Tinha vivido de sonhos, e não era uma mulher a que lhe fizessem realidade a muitos. Não desejava perder esse ainda. -Benedict... - sussurrou, lhe acariciando os sedosos cabelos, e simulando que ele não acabava de lhe pedir que fosse sua amante, que ela era outra pessoa, qualquer outra. Qualquer mulher, exceto a filha bastarda de um conde morto, sem meios para manter-se a não ser servindo a outros. Ao que parecia seus murmúrios o encorajaram, e a mão que levava momento lhe fazendo cócegas detrás do joelho começou a deslizar para cima, acariciando-a e lhe apertando a suave pele da coxa. Anos de árduo trabalho a tinham feito magra, não cheinha e curvilínea como estava na moda, mas ele não pareceu se importar. De fato, sentiu mais acelerados os batimentos de seu coração e notou que a respiração lhe saía em fôlegos mais roucos. -Sophie, Sophie, Sophie... - gemeu ele, deslizando frenético os lábios pelo rosto até voltar a encontrar a boca - Necessito-a. – apertou contra ela as cadeiras - Sente como a necessito? - Eu também o necessito. - sussurrou ela. E o necessitava. Dentro dela havia um fogo que levava anos ardendo suave. Vê-lo tinha o atiçado, reacendido, e seu contato era como querosene, que a estava incendiando. Com os dedos de uma mão ele manipulou os grandes e feios botões das costas de seu vestido. -Vou queimar isto. - resmungou, acariciando-lhe implacavelmente a tenra pele da curva do joelho com a outra mão – A vestirei de sedas e cetins. - passou


a boca à orelha, lhe mordiscando o lóbulo e depois lambendo a pele que unia a orelha à face - A vestirei sem nada. Ela ficou rígida. Ele tinha se arrumado para dizer aquilo que recordava por que estava aí, por que ele a estava beijando. Isso não era amor, nem nenhuma das ternas emoções com que tinha sonhado; era pura luxúria. E queria convertê-la em uma mulher mantida. Tal como fora sua mãe. Ai, Deus, que tentador era isso, que terrivelmente tentador. Oferecia-lhe uma vida de ócio e luxos, uma vida com ele. Ao preço de sua alma. Não, isso não era totalmente certo, nem totalmente um problema. Ela seria capaz de viver como a amante de um homem. Os benefícios, e como considerar a vida com Benedict outra coisa que benefício? Poderiam superar os inconvenientes. Mas embora pudesse estar disposta a tomar essa decisão para sua vida e reputação, não podia fazer isso para um filho. E como poderia não haver um filho? Todas as amantes tinham filhos finalmente. Emitindo um atormentado soluço, deu-lhe um empurrão e se afastou, rodando para o lado até ficar em quatro patas; depois de recuperar o fôlego, ficou de pé. -Não posso fazer isto, Benedict. - disse, quase sem atrever-se a olhá-lo. Ele também se levantou. -E isso por quê? Algo nele a cravou; talvez a arrogância de seu tom ou a insolência de sua postura. -Porque não quero. - disparou. Ele entrecerrou os olhos, não com incredulidade, mas com raiva. -Até uns segundos o desejava. -Não é justo comigo. - disse ela em voz baixa - Não era capaz de pensar. Ele adiantou o queixo em atitude belicosa. -Não deve pensar. Disso se trata. Ela ruborizou e terminou de abotoar as costas do vestido. Ele tinha feito muito bem o trabalho de lhe impedir de pensar. Quase tinha jogado pela amurada toda uma vida de juramentos e moralidade, tudo por um perverso beijo. -Bem, não quero ser sua amante. - disse outra vez. Talvez se repetisse muitas vezes se sentisse mais segura de que ele não conseguiria lhe romper as defesas. -E o que vai fazer? - disse ele - Trabalhar como criada?


-Se for preciso, sim. -Prefere servir às pessoas, polir sua prata, esfregar seus malditos urinóis, que vir a viver comigo. Ela só disse uma palavra, mas com voz grave e sincera: -Sim. Seus olhos relampejaram de fúria. -Não acredito em você. Ninguém faria essa escolha. - Já a fiz. - É uma idiota. Ela guardou silêncio. -Compreende a que renuncia? - insistiu ele, gesticulando como um louco. Tinha-o ferido, compreendeu ela. Tinha-o ferido e insultado seu orgulho, e ele dava tapas como um urso ferido. Assentiu, mesmo que ele não a estivesse olhando. - Podia lhe dar tudo o que deseja. - continuou ele, mordaz - Roupas, jóias, demônios, esquece a roupa e as jóias, poderia lhe dar um maldito teto sobre sua cabeça, que é mais do que tem agora. - Isso é certo. - respondeu ela, tranquilamente. Ele se aproximou lhe perfurando os olhos com os seus. - Podia lhe dar tudo. Ela se ajeitou para continuar bem erguida e não voltar a chorar. E inclusive se ajeitou para manter firme a voz ao dizer: -Se acha que isso é tudo, talvez não entendesse por que devo recusar. Retrocedeu um passo com o fim de voltar para Sua Cabana para colocar seus magros pertences na bolsa, mas era evidente que ele ainda não tinha terminado com ela, porque a deteve com um estridente: -Aonde vai? - Para a casa. Para preparar minha bolsa. -E aonde pensa ir com essa bolsa? Ela o olhou boquiaberta. Não esperaria que ficasse, não é? -Tem um emprego? Um lugar aonde ir? -Não, mas... Ele pôs as mãos nos quadris e a olhou indignado. -E acha que vou permitir que parta daqui sem dinheiro nem perspectivas de trabalho? Ela estava tão surpreendida que começou a pestanejar, descontrolada. -B... Bom, não pensei... -Não, não pensou. - disparou ele.


Ela se limitou a olhá-lo, com os olhos arregalados e os lábios entreabertos, sem poder dar crédito a seus ouvidos. -Maldita idiota. Tem uma idéia de como é perigoso o mundo para uma mulher sozinha? -Eh, sim - conseguiu dizer ela - Em realidade sim. Se ele a ouviu, não pareceu. Simplesmente seguiu falando a respeito dos "homens que se aproveitam", "mulheres indefesas" e "destinos piores que a morte". Sophie não o teria jurado, mas acreditou ouvir inclusive a frase "assados e pudins". Na metade de sua argumentação já tinha perdido sua capacidade de concentrar a atenção em suas palavras. Continuou olhando sua boca e ouvindo o tom de sua voz, ao mesmo tempo em que tratava de assimilar o fato de que ele parecia extraordinariamente preocupado por seu bem-estar, tomando em conta que ela acabava de rechaçá-lo. -Escutou uma só palavra do que disse? - perguntou ele. Ela não assentiu nem negou com a cabeça, mas sim fez uma estranha combinação de ambas as coisas. Benedict soltou uma maldição em voz baixa. -Isso é... – declarou - Venha comigo a Londres. Isso pareceu despertá-la. -Acabo de dizer que não! -Não tem porque ser minha maldita amante. - disse ele entre dentes - Mas não vou deixá-la para que se arrume sozinha. -Me arrumei bastante bem antes de conhecê-lo. -Bem? - zombou ele - Na casa dos Cavender? A isso chama bem? -Não é justo! -E você não fala como uma pessoa inteligente. Benedict pensou que seu argumento era bastante sensato, embora algo imperioso, mas estava claro que Sophie não coincidia com sua opinião porque de repente se encontrou, para sua surpresa, deitado de costas no chão, abatido por um gancho com a direita notavelmente rápida. -Não volte a me chamar estúpida. - disse ela. Benedict fechou e abriu os olhos várias vezes com o fim de recuperar a visão o suficiente para só ver uma Sophie. -Não lhe... -Sim, chamou-me de estúpida. - respondeu ela, em tom furioso. Em seguida virou sobre seus calcanhares, e na fração de segundo anterior a que se pusesse a andar, ele compreendeu que só tinha uma maneira de


impedi-la, Não conseguiria levantar-se rapidamente no estado de atordoamento em que se encontrava, de modo que se estirou e lhe agarrou o tornozelo com as duas mãos, fazendo-a cair de bruços ao chão, junto a ele. Não foi uma manobra particularmente cavalheiresca, mas os mendigos não podem escolher. Além disso, ela tinha dado o primeiro murro. -Não irá a nenhuma parte. - grunhiu. Sophie levantou lentamente a cabeça, cuspiu terra e logo o olhou furiosa. -Não posso acreditar que tenha feito isto. - disse, doída. Benedict lhe soltou o pé e se endireitou até ficar de pé e agachado. - Acredite. -É um... -Não diga nada agora. - disse ele, levantando uma mão - Rogo-lhe. Ela o olhou com os olhos dilatados. -Me roga? -E ouvi sua voz, portanto deve ter falado. - Mas... -E quanto a lhe rogar, - continuou ele, interrompendo-a eficientemente outra vez - asseguro-lhe que só foi linguagem figurada. Ela abriu a boca para dizer algo, e depois, pensando melhor, voltou a fechá-la, com a expressão irritada de uma garotinha de três anos. Benedict fez uma expiração curta e lhe ofereceu a mão. Depois de tudo ela continuava sentada na terra e não com uma expressão especialmente feliz. Olhou sua mão com visível repugnância e depois passou o olhar a seu rosto, e o olhou com tanta ferocidade que ele pensou se não lhe teriam brotado chifres. Sem dizer uma palavra, ela não aceitou seu oferecimento de ajuda e se levantou sozinha. -Como queira. - disse ele. -Má escolha de palavras. - disparou ela e pôs-se a andar. Como ele já estava de pé, não foi necessário incapacitá-la. Seguiu-a, mantendo-se detrás dela a uma aborrecida, segura distancia de só dois passos. Ao cabo de um minuto ela virou a cabeça e lhe disse: -Por favor, me deixe em paz. -Creio que não posso. -Não pode ou não quer? Ele pensou um momento. -Não posso. Ela o olhou carrancuda e reatou a marcha.


-Acho tão difícil de acreditar em você. - disse ele, reatando a marcha também. Ela se deteve e se virou. - Isso é impossível. -Não posso evitá-lo. - explicou ele, encolhendo os ombros - Sinto-me absolutamente resistente a deixá-la partir. - Resistente dista muito de "não posso" -Não a salvei de Cavender para depois deixá-la desperdiçar sua vida. -Essa não é uma decisão que você deva tomar. Ela tinha seu ponto de razão nisso, mas ele não se sentia inclinado a ceder. -Talvez, mas tomarei de qualquer modo. Venha comigo a Londres. E não se fala mais. -Quer me castigar porque o rechacei. -Não. - respondeu ele, considerando essas palavras enquanto falava. Não. Eu gostaria de castigá-la, e no estado mental em que me encontro inclusive chegaria a dizer que merece que a castigue, mas não o faço por isso. -Por que, então? -Por seu bem. -Isso é muito paternalista, o mais desd... - Tem razão sem dúvida, - interrompeu ele - mas neste determinado caso, neste determinado momento, eu sei o que é melhor para você e é evidente que você não, assim... Não, não volte a me bater. Sophie olhou a mão fechada em um punho, a qual sem dar-se conta tinha jogado para trás, pronta para golpear. Ele a estava convertendo em um monstro. Não havia outra explicação. Jamais tinha golpeado a ninguém em sua vida, e aí estava pronta para fazê-lo pela segunda vez esse dia. Sem deixar de olhá-lo abriu lentamente a mão e estendendo e separando os dedos como uma estrela de mar, e permaneceu assim contando até três. -Como pretende me impedir que siga meu caminho? - perguntou em voz muito baixa. -Importa isso? - perguntou ele, encolhendo os ombros tranquilamente - Já me ocorrerá algo. Ela o olhou boquiaberta. -Quer dizer que me vai amarrar e...? -Não disse nada dessa sorte, - interrompeu-a - mas a idéia certamente tem seus encantos. - acrescentou, com um malicioso sorriso. -É desprezível.


-E você fala como a heroína de uma má novela. - replicou ele - O que disse que esteve lendo esta manhã? Sophie sentiu moverem-se os músculos de sua face e a mandíbula estava tão apertada a ponto de romper os dentes. Não entenderia jamais como Benedict podia ser o homem mais maravilhoso e o mais horrendo do mundo ao mesmo tempo. Embora nesse momento parecesse estar ganhando o lado horrendo e, deixando de lado a lógica, estava certa de que se continuasse um segundo mais em sua companhia, sua cabeça explodiria. -Parto! - declarou, com grande resolução e dramatismo, em sua opinião. - E eu a sigo. - respondeu ele com um meio sorriso irônico. E o maldito continuou caminhando a dois passos atrás dela todo o caminho para casa. Benedict não estava acostumado a ter muito trabalho em incomodar a outros com a notável exceção de seus irmãos, mas Sophie Beckett fazia surgir o demônio que levava dentro. Ficou na porta de seu quarto enquanto ela colocava suas coisas em sua bolsa, apoiado despreocupadamente no batente. Estava com os braços cruzados, de um modo que sabia a chatearia, tinha a perna direita ligeiramente dobrada e a ponta da bota apoiada na porta para que não se fechasse. -Não esqueça seu vestido. - disse amavelmente. Ela o olhou furiosa - O feio. - acrescentou como se por acaso fosse necessária essa elucidação. - Os dois são feios. - disparou ela. Ah, uma reação, por fim. - Sei. Ela reatou a tarefa de colocar coisas na bolsa. -Sinta-se livre para pegar uma lembrança. - disse ele fazendo um amplo gesto com o braço. Ela se endireitou e plantou as mãos nos quadris. -Isso inclui o serviço de chá de prata? Eu poderia viver vários anos com o que me dariam por ele. -Claro que pode levar o serviço de chá, - respondeu ele afavelmente - pois estará em minha companhia. -Não serei sua amante, - respondeu ela - já lhe disse isso. Não. Não posso fazer isso. Algo na forma como ela disse "não posso" lhe pareceu importante, significativo. Pensou um momento, enquanto ela jogava as últimas coisas e fechava a bolsa puxando um cordão.


- Isso é tudo. - falou. Como se não o tivesse ouvido, ela se dirigiu à porta e o olhou com intenção. Ele compreendeu que queria que lhe deixasse passagem para poder partir. Continuou imóvel, sem sequer mover um músculo, além do dedo que passou pensativo, pelo contorno da mandíbula. -É ilegítima. - disse. Ela empalideceu. -É. - disse ele, mais para si mesmo que para ela. Curiosamente essa revelação o aliviava o bastante. Explicava o rechaço dela, convertendo-o em algo que não tinha nada a ver com ele e tinha tudo a ver com ela. Tirava-lhe o espinho. -Não me importa que seja ilegítima. - disse, tratando de não sorrir. Esse era um momento sério, mas, Por Deus, sentia desejos de sorrir de orelha a orelha, porque ela viria com ele a Londres e seria sua amante. Já não haveria mais obstáculos e... -Não entende nada. - disse ela, negando com a cabeça - Não se trata se eu valho o suficiente para ser sua amante. -Eu cuidaria de qualquer filho que pudéssemos ter. - disse ele solenemente, afastando-se do batente da porta. Ela ficou ainda mais rígida, se fosse possível isso. -E sua esposa? -Não tenho esposa. -Alguma vez a terá? Ele ficou imóvel. Por sua mente passou dançando a imagem da misteriosa dama do baile de máscaras. Tinha imaginado ela de muitas maneiras; às vezes levava o vestido prateado que usava naquela noite. Às vezes não levava nada em cima. Às vezes levava um vestido de casamento. Sophie, que lhe estava observando o rosto com os olhos entrecerrados, emitiu um grunhido depreciativo, e passou por seu lado saindo do quarto. Ele a seguiu lhe pisando os calcanhares. -Essa não é uma pergunta justa, Sophie. Ela continuou avançando pelo corredor e ao chegar à escada começou a descê-la sem deter-se. - Acho que é mais que justa. Ele desceu correndo a escada e ao chegar embaixo se voltou, lhe bloqueando o passo.


-Tenho que me casar algum dia, Sophie. Ela se deteve, por necessidade, pois lhe bloqueava o caminho. -Sim, você tem que se casar. Mas eu não tenho por que ser a amante de ninguém. -Quem foi seu pai, Sophie? -Não sei. - mentiu ela. -Quem foi sua mãe? - Morreu quando nasci. - Creio ter ouvido dizer que era governanta. -Está claro que não disse a verdade. - respondeu ela, indiferente a que ele a tivesse pego em uma mentira. -Onde se criou? - Isso não tem nenhum interesse. - disse ela, tratando de passar. Agarrou-lhe o braço e a manteve firmemente em seu lugar. -Eu acho muito interessante. -Me solte! O grito ressoou no silencioso vestíbulo, o suficientemente forte para que acudissem os Crabtree correndo a resgatá-la. Mas a senhora Crabtree tinha ido ao vilarejo e o senhor Crabtree estava fora da casa, não podia ouvi-la. Não havia ninguém que a ajudasse; estava a mercê dele. -Não posso deixá-la partir. - sussurrou ele - Não foi feita para uma vida de servidão. Essa vida a matará. -Se fosse me matar, já teria me matado há anos. - replicou ela. - Mas já não tem por que continuar fazendo-o. - insistiu ele. -Não se atreva a me fazer isto. - disse ela, quase tremendo de emoção Não faz isto porque o preocupa meu bem-estar. O que se passa é que você não gosta que o frustrem. - Isso é certo, - reconheceu - mas tampouco quero vê-la abandonada à deriva. -Eu tenho estado à deriva toda minha vida... - sussurrou ela, sentindo o ardor de umas traiçoeiras lágrimas. Deus do céu, não queria chorar diante desse homem. Não devia chorar nesse momento, sentindo-se tão desequilibrada e débil. Ele lhe acariciou o queixo. -Permita-me ser sua âncora. Sophie fechou os olhos. Sua carícia era dolorosamente doce, e uma parte não muito pequena dela ansiava aceitar seu oferecimento, deixar a vida que se


viu obrigada a viver e jogar sua sorte com ele, com esse homem fabuloso, maravilhoso, enfurecedor, que tinha habitado seus sonhos todos esses anos. Mas a dor de sua infância estava muito viva ainda. E sentia o estigma de sua bastardia como uma marca a fogo na alma. Não podia fazer isso a um filho. -Não posso. – sussurrou - Tomara... -Tomara o que? - perguntou ele, ansioso. Ela negou com a cabeça. Tinha estado a ponto de lhe dizer que tomara pudesse, mas compreendeu que essas palavras seriam imprudentes. Ele se aferraria a elas e começaria a insistir de novo. E isso lhe tornaria mais difícil negar-se. -Não me deixa outra opção, então. - declarou ele, implacável. Ela o olhou nos olhos. -Ou vem comigo a Londres e... - levantou uma mão para silenciá-la ao ver que ela ia protestar- e lhe encontrarei um posto na casa de minha mãe. acrescentou com resolução. -Ou? -perguntou ela. -Ou terei que informar ao magistrado que me roubou. De repente a boca tinha gosto de ácido. -Não faria isso. -Não desejo fazê-lo, certamente. -Mas o faria. -Faria. - confirmou ele. -Me pendurariam. Ou deportariam a Austrália. -Não se eu pedisse outra coisa. -E o que pediria? Notou que os olhos dele estavam estranhamente insípidos, e compreendeu que ele não estava gostando mais que ela dessa conversa. -Pediria que a deixassem sob minha custódia. - disse ele. - Isso seria muito cômodo para você. A mão dele, que estava lhe acariciando o queixo, desceu até o ombro. -Só quero salvá-la de você mesma. Sophie caminhou até uma janela próxima e pareceu surpreendida de que ele não tivesse tentado impedi-la -Vai fazer-me odiá-lo, sabe? - Posso viver com isso. Fez-lhe uma seca inclinação da cabeça. - Esperarei por você na biblioteca, então. Quero partir hoje.


Benedict a observou afastar-se, mantendo-se absolutamente imóvel até que ela entrou na biblioteca e fechou a porta. Não fugiria. Não era o tipo de pessoa que voltava atrás uma vez dada sua palavra. Não podia deixar Sophie partir; "ela" tinha partido, a fabulosa e misteriosa "ela", pensou com um amargo sorriso, a mulher que lhe havia tocado o coração. A mulher que nem sequer quis lhe dizer seu nome. Mas agora havia Sophie, e lhe "produzia" coisas, coisas que não tinha sentido desde "ela". Estava farto de suspirar por uma mulher que virtualmente não existia. Sophie estava aí, e Sophie seria dele. Além disso, pensou com um sorriso resoluto, Sophie não o abandonaria. - Posso viver com seu ódio, - disse à porta cerrada - mas não posso viver sem você.


Capítulo 13 Informou-se anteriormente nesta coluna que esta cronista prognosticava um possível enlace entre a senhorita Rosamund Reiling e o senhor Phillip Cavender. Esta cronista pode dizer agora que não é provável que ocorra isso. Ouviu-se dizer que lady Penwood (a mãe da senhorita Reiling), não se conformará com um simples "senhor" sem título, mesmo que o pai da senhorita Reiling, embora de bom berço, não fosse membro da aristocracia. Para não mencionar, claro, que o senhor Cavender começou a demonstrar um decidido interesse pela senhorita Cressida Cowper. Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 9 de maio de 1817. Sophie começou a sentir-se mal no instante mesmo em que saiu na carruagem de Minha Cabana. Quando se detiveram para passar a noite em uma estalagem do Oxfordshire, já sentia muito delicado o estômago. E quando chegaram aos subúrbios de Londres, estava convencida de que ia começar a vomitar. Arranjou-se para manter o conteúdo do estômago onde devia estar, mas quando a carruagem entrou nas tortuosas ruas de Londres, já a invadia uma intensa apreensão. Não, não apreensão exatamente; uma sensação de desastre. Estavam em maio, o que significava que a temporada de festas estava em pleno auge, o que significava que Araminta estava em Londres. O que significava que sua chegada ali era muito inconveniente, uma péssima ideia. -Muito má - falou entre dentes. Benedict a olhou. - Disse algo? -Só que é um homem muito mau. Ele se se pôs a rir. Ela já sabia que iria rir, mas a irritou de qualquer maneira. Ele afastou a cortina da janela e olhou para fora. - Já estames quase chegando. - disse. Havia-lhe dito que a levaria diretamente à casa de sua mãe. Sophie recordava a grandiosa mansão do Grosvenor Square como se tivesse estado aí à noite anterior. O salão de baile era imenso, com milhares de candelabros nas paredes, cada um com uma perfeita vela de cera de abelhas. As salas menores


estavam decoradas ao estilo Adam, com deliciosas conchas em relevo no teto liso, e as paredes de creme claro. Essa tinha sido a casa de seus sonhos, literalmente. Em todos seus sonhos com o Benedict e seu futuro juntos, ela sempre se via nessa casa. Isso era uma tolice, logicamente, pois ele era o segundo filho e portanto não estava na linha de sucessão para herdar a propriedade; de qualquer modo, era a casa mais formosa que tinha visto em sua vida, e os sonhos não eram para fazer-se realidade. Se quisesse sonhar que entrava no Kensington Palace, tinha o direito. Claro que não era muito provável que visse o interior do Kensington Palace, pensou, sorrindo irônica. -Do que sorri? - perguntou Benedict. -Estou planejando sua morte. - respondeu ela, sem incomodar-se em olhálo. Ele sorriu; não o estava olhando, mas era um desses sorrisos que ela ouvia em sua forma de respirar. Detestava ser tão sensível até aos menores detalhes dele. Sobre tudo porque tinha a suspeita de que lhe ocorria o mesmo para com ela. -Ao menos parece interessante. - comentou ele. -O que? - perguntou ela, afastando os olhos da bainha inferior da cortina, que estava há horas olhando. -Minha morte. - respondeu ele, com um sorriso enviesado e travesso - Se for me matar, bem que poderia desfrutar enquanto o faz, porque, Deus sabe, eu não o desfrutarei. Ela quase ficou boquiaberta. -Está louco. -Provavelmente. - encolheu os ombros com despreocupação e, acomodando-se em seu assento, apoiou os pés no assento da frente - Por pouco menos a sequestrei, depois de tudo. Eu diria que isso se pode qualificar na maior loucura que cometi em minha vida. - Podia me deixar partir agora. - disse ela, ainda sabendo que ele não aceitaria. -Aqui em Londres? Onde podem atacá-la os foragidos em qualquer momento? Isso seria uma grave irresponsabilidade de minha parte, não lhe parece? -Não se compara me raptando contra minha vontade. -Não a raptei. - disse ele, examinando tranquilamente as unhas - Fiz-lhe chantagem. Há um mundo de diferença.


O brusco movimento que fez a carruagem ao deter-se livrou Sophie de ter que responder. Benedict afastou uma última vez a cortina e a deixou cair. -Ah, chegamos. Sophie esperou que ele apeasse e se aproximou da porta. Passou-lhe pela mente não fazer caso da mão que lhe oferecia e saltar sozinha, mas a porta estava bastante longe do chão, e de verdade não queria fazer o ridículo tropeçando e aterrissando na sarjeta de desaguamento. Adoraria insultá-lo, mas não a custa de uma entorse no tornozelo. Suspirando, agarrou-lhe a mão. -Inteligente decisão. - sussurrou Benedict. Sophie o olhou surpreendida. Como soube o que estava pensando? -Sempre sei o que está pensando. - disse ele. Ela tropeçou. -Opa! - gritou ele, agarrando-a expertamente antes de que aterrissasse na sarjeta. Reteve-a um momento mais longo do que o necessário e a depositou na calçada. Ela diria algo se não tivesse os dentes tão apertados que não deixavam sair nenhuma palavra. -Não a mata a ironia? - perguntou ele, sorrindo perversamente. Ela conseguiu afrouxar a mandíbula. -Não, mas bem poderia matar a você. Ele pôs-se a rir, o condenado. -Vamos. Apresentarei a minha mãe. Com certeza ela lhe encontrará um ou outro posto. -Podia não ter nenhum posto vazio. - observou ela. Ele encolheu os ombros. -Me quer. Criará um posto. Sophie teimou, negando-se a dar um só passo enquanto não tivesse deixado claras as coisas. -Não vou ser sua amante. -Sim, já o disse. - falou ele, sua expressão extraordinariamente impassível. -Não, o que quero dizer é que seu plano não vai dar certo. Ele a olhou, inocente. -Tenho um plano? -Vamos, por favor. Vai tratar de me conquistar com a esperança de que eu mude de ideia. - Isso nem sonharia. -Com certeza o sonha mais que admite. - falou ela em voz baixa.


Ele deve tê-la ouvido, porque riu. Sophie cruzou os braços, revoltada, indiferente à quão pouco decorosa parecesse sua postura, ali na calçada a vista de todo o mundo. Ninguém se fixaria nela, em todo caso, vestida como estava com a lã grossa de uma criada. Deveria adotar uma atitude mais alegre e considerar sua nova posição com mais otimismo, pensou, mas, maldição, nesse momento gostava de mostrar-se áspera. A verdade, o tinha ganhado. Se alguém tinha direito a estar ressentida e contrariada, era ela. - Poderíamos ficar na calçada todo o dia... - disse Benedict, em um tom bastante impregnado de sarcasmo. Ela ergueu a vista para olhá-lo furiosa, mas então se fixou no lugar onde estavam. Não estavam no Grosvenor Square; na realidade não sabia onde estavam. No Mayfair, certamente, mas a casa que tinham diante deles não era aquela onde foi ao baile. -Eh... Esta é a casa Bridgerton? Ele arqueou uma sobrancelha. -Como sabia que minha casa se chamava casa Bridgerton? -Você disse. Por sorte, isso era certo. Em suas conversações ele tinha falado várias vezes da casa Bridgerton e da residência da família no campo, Aubrey Hall. Ele pareceu aceitar isso. -Ah. Bom, em realidade não o é. Minha mãe deixou a casa Bridgerton faz quase dois anos. Ofereceu um último baile ali, que foi um baile de máscaras, por certo, e entregou-a a meu irmão com sua mulher. Sempre havia dito que partiria logo que meu irmão se casasse e iniciasse uma família própria. Acredito que seu primeiro filho nasceu um mês depois que partiu minha mãe. -Foi menino ou menina? - perguntou ela, embora soubesse. Lady Whistledown sempre informava essas coisas. -Um menino. Edmund. Tiveram outro filho, Miles, a começos deste ano. -Que bom! - exclamou ela, embora sentisse oprimido o coração. Não era provável que ela tivesse filhos nunca, e essa era uma das conclusões mais tristes que tinha chegado. Para ter filhos se necessita de um marido, e o matrimônio para ela era um sonho impossível. Não foi educada para ser uma criada, por isso tinha muito pouco em comum com a maioria dos homens com os que se encontrava em sua vida diária. Certamente outros criados eram pessoas boas e honradas, mas era difícil imaginar-se compartilhando a vida com um homem que, por exemplo, não soubesse ler.


Não precisava casar-se com um homem de origem particularmente elevada, mas inclusive a classe média estava fora de seu alcance. Nenhum homem que fosse respeitado no comércio se casaria com uma criada. Benedict lhe indicou que o seguisse, e o seguiu até que chegaram à escadaria da porta principal. Ali se plantou. - Entrarei pela porta lateral de serviço. Ele apertou os lábios para reprimir um sorriso. -Entrará pela principal. -Entrarei pela porta lateral. - repetiu ela firmemente - Nenhuma mulher de linhagem contrata a uma criada que entra pela porta principal. - Venha comigo. - disse ele, entre dentes - Entrará pela principal. Escapou um risinho a ela. -Benedict, só ontem queria que me convertesse em sua amante. Atreverse-ia trazer sua amante para apresentá-la a sua mãe, fazendo-a entrar pela porta principal? Isso o confundiu. Ela sorriu ao lhe ver enrugar o rosto, frustrado. Isso a fez sentir-se melhor do que se sentia há dias. -Traria sua amante para conhecer sua mãe? - continuou, simplesmente para torturá-lo mais. -Não é minha amante. -Não. Ele adiantou o queixo e a olhou, lhe perfurando os olhos com uma fúria mal contida. -É uma maldita criadinha, porque insistiu em sê-lo. E em qualidade de criada, embora esteja abaixo na escala social, continua sendo uma pessoa muito respeitável. Certamente respeitável para minha mãe. Desvaneceu o sorriso de Sophie. Talvez tivesse levado muito longe a provocação. -Muito bem. - resmungou ele, quando ficou claro que ela não ia continuar discutindo - Venha comigo. Ela subiu os degraus com ele. Na realidade isso poderia representar uma vantagem. Certamente sua mãe não contrataria a uma criada que tinha o descaramento de entrar por essa porta. E como já se negara firmemente a ser sua amante, ele teria que aceitar a derrota e deixá-la voltar para o campo. Benedict empurrou a porta e a segurou aberta até que ela entrou diante dele. O mordomo só demorou uns segundos para aparecer. -Wickham, tenha a bondade de informar a minha mãe que estou aqui.


-Num instante, senhor Bridgerton. - respondeu Wickham - E poderia tomar a liberdade de lhe informar que ela esteve bastante curiosa a respeito de seu paradeiro esta semana passada? -Me surpreenderia o contrário. - respondeu Benedict. Wickham fez um gesto para Sophie, com uma expressão que se abatia entre curiosidade e desdém. -Poderia informar a chegada de sua hóspede? -Sim, por favor. -Poderia informar a identidade de sua hóspede? Sophie olhou ao Benedict com grande interesse, pensando o que diria. -Seu nome é senhorita Beckett. Veio em busca de emprego. Wickham arqueou uma sobrancelha. Isso surpreendeu Sophie. Pelo que sabia, os mordomos deviam ser absolutamente inexpressivos. -De criada? -Do que seja. - respondeu Benedict, indicando com seu tom que já começava a impacientar-se. -Muito bem, senhor Bridgerton. - acatou Wickham e desapareceu na escada. -Creio que não lhe pareceu nada bem. - comentou Sophie em um sussurro, cuidando bem de ocultar seu sorriso. -Wickham não está ao comando aqui. Sophie exalou um suspiro como dizendo "como diga". -Imagino que Wickham se oporia. Benedict a olhou incrédulo. -É o mordomo. -E eu sou uma criada. Sei tudo dos mordomos. Mais que você, diria. -Você age menos como criada que qualquer mulher que conheço. - disse ele, olhando-a com os olhos entrecerrados. Ela deu de ombros e fingiu estar contemplando atentamente uma natureza morta que pendia da parede. - Você faz surgir o pior de mim, senhor Bridgerton. -Benedict. - sibilou ele - Já nos tratamos intimamente. Trate-me com meu nome de batismo. -Sua mãe não demorará em descer a escada, - recordou ela - e você insiste em que me contrate como criada. São muitos os criados que lhe tratam com seu nome de batismo? Ele a olhou indignado e ela compreendeu que ele sabia que ela tinha razão.


-Não pode ter as duas coisas, senhor Bridgerton. - disse, permitindo-se um leve sorriso. -Eu só desejava "uma". - resmungou ele. -Benedict! Sophie olhou para a escada, pela qual vinha descendo uma mulher miúda e elegante. Seus cabelos eram mais loiros que os do Benedict, mas sua fisionomia dizia claramente que era sua mãe. - Mãe, quanto me alegra vê-la. - disse ele, avançando para recebê-la ao pé da escada. -E me alegraria mais vê-lo se tivesse sabido onde estava esta semana passada. -respondeu ela com desenvoltura - A última coisa que soube de você foi que tinha ido à festa de Cavender, mas depois todos voltaram e você não. - Parti antes da festa, e fui a Minha Cabana. -Bem, - suspirou ela - suponho que não posso querer que me notifique todos seus movimentos agora que tem trinta anos. Benedict lhe sorriu com carinho. -E ela deve ser a senhorita Beckett. - disse ela olhando Sophie. -Sim. Salvou-me a vida quando estava em Minha Cabana. Sophie deu um salto. -Eu não... -Sim, - interrompeu-a Benedict suavemente - adoeci por conduzir sob a chuva, e ela cuidou de mim e me devolveu a saúde. - Podia ter se recuperado sem mim. - insistiu Sophie. -Mas não com tanta rapidez nem comodidade. - disse Benedict dirigindose a sua mãe. -Não estavam em casa os Crabtree? - perguntou Violet. -Não estavam quando chegamos. - respondeu Benedict. Violet olhou para Sophie com uma curiosidade tão evidente que Benedict se viu obrigado a explicar: - A senhorita Beckett estava empregada em casa dos Cavender, mas certas circunstâncias lhe fizeram impossível continuar ali. -Compreendo... - disse Violet, embora seu tom indicasse que não compreendia. -Seu filho me salvou de um destino horroroso. - explicou Sophie serenamente - Devo-lhe uma imensa gratidão. Benedict a olhou surpreso. Dado o grau de hostilidade para com ele não imaginou que ela contribuiria com uma informação elogiosa a ele. Mas deveria


tê-lo suposto; Sophie tinha princípios elevados, e não era do tipo que permitia que a ira dificultasse a sinceridade. Essa era uma das coisas que mais gostava nela. -Compreendo. - repetiu Violet, esta vez com muito mais sentimento. - Tinha a esperança de que lhe encontrasse um posto em sua casa. - disse Benedict. -Mas não se for muito problema. - apressou-se a acrescentar Sophie. -Não. - disse Violet, fixando os olhos em seu rosto com uma estranha expressão - Não seria nenhum problema, mas... Benedict e Sophie ficaram em suspense, pendentes do resto da frase. -Nos conhecemos de antes? - perguntou Violet de repente. -Creio que não... - respondeu Sophie, com uma ligeira gagueira. Como podia ocorrer a lady Bridgerton que a conhecia? Estava certa de que não cruzara com ela naquela noite do baile de máscaras - Não imagino como poderíamos nos conhecer. - Tem razão, sem dúvida. - disse lady Bridgerton, desprezando a idéia com um gesto de mão - Você tem algo que me é vagamente conhecido. Mas o mais certo é que tenha conhecido a alguém com quem se parece muito. Ocorre com frequência. -Em especial a mim. - disse Benedict, com um sorriso enviesado. Lady Bridgerton olhou a seu filho com visível carinho. -Não é culpa minha que todos meus filhos sejam extraordinariamente parecidos. -Se não podemos jogar a culpa em você, a quem, então? - perguntou Benedict. -A seu pai, totalmente. - replicou lady Bridgerton com ar satisfeito. Olhando para Sophie disse - Todos se parecem muito a meu falecido marido. Sophie sabia que devia permanecer calada, mas achou tão formoso e agradável o momento, que disse: -Eu acho que seu filho se parece com você. -Parece-lhe? - perguntou lady Bridgerton, juntando as mãos, encantada Que maravilhoso. E eu que sempre me considerei um recipiente para a família Bridgerton. -Mãe! - exclamou Benedict. -falei com muita franqueza? -suspirou ela - Cada vez faço mais isso em minha velhice. -Não é velha, mãe. Ela sorriu.


-Benedict, por que não vai ver suas irmãs enquanto eu levo a senhorita Bennet...? -Beckett.- emendou ele. -Sim, claro, Beckett. A levarei acima para instalá-la. -Só precisa me levar a governanta. - disse Sophie. Era muito estranho que a senhora da casa se ocupasse de contratar a uma criada. De acordo, a situação era bastante insólita, pois era Benedict quem pedia que a contratassem, mas era muito estranho que lady Bridgerton tomasse um interesse especial nela. - A senhora Watkins está muito ocupada. - explicou lady Bridgerton - Além disso, acho que necessitamos outra criada acima. Tem experiência nesse trabalho? Sophie assentiu. -Excelente. Imaginei. Fala muito bem. -Minha mãe era governanta, - disse Sophie automaticamente - trabalhava para uma família muito generosa e... Interrompeu-se, horrorizada, recordando tardiamente que havia dito a verdade a Benedict: que sua mãe tinha morrido ao dar-lhe a luz. Olhou-o, nervosa, e lhe respondeu com uma inclinação do queixo, ligeiramente zombador, lhe indicando que não ia deixá-la como mentirosa. -A família era muito generosa, - continuou ela, deixando escapar uma expiração de alivio - e me permitiam assistir a muitas aulas com as filhas da casa. -Compreendo. - disse lady Bridgerton - Isso explica muitíssimo. Custa-me acreditar que tenha estado trabalhando como criada. Está claro que tem educação suficiente para aspirar a postos mais elevados. -Lê muito bem. - disse Benedict. Sophie o olhou surpreendida. -Lia muitíssimo durante minha convalescença. - continuou ele, dirigindo-se a sua mãe. -Escreve também? - perguntou lady Bridgerton. -Tenho boa ortografia e boa letra. - respondeu ela, assentindo. -Excelente. Sempre vai bem poder contar com um par de mãos extras quando escrevo convites. E teremos um baile no verão. Apresento à sociedade duas filhas este ano. -explicou à Sophie - Tenho muitas esperanças de que uma delas escolha um marido antes que acabe a temporada. -Não acredito que Eloise deseje casar-se. - disse Benedict. -Cale a boca. -Essa declaração é um sacrilégio nesta casa. - explicou Benedict a Sophie.


-Não lhe faça caso. - disse lady Bridgerton pondo-se a andar para a escadaria - Venha comigo, senhorita Beckett. Como disse que era seu nome de batismo? -Sophia. -Venha comigo, Sophie. A apresentarei às meninas. E lhe buscaremos roupa nova. -acrescentou enrugando o nariz - Não posso permitir que uma de nossas criadas ande tão mal vestida. Uma pessoa poderia pensar que não lhe pagamos um salário justo. Sophie nunca tinha visto que os membros da alta sociedade se preocupassem em pagar salários justos a seus criados, e lhe comoveu a generosidade de lady Bridgerton. -Você me espere embaixo. - disse lady Bridgerton a Benedict - Temos muito que falar você e eu. -Olhe como tremo. - replicou ele. -Entre ele e seu irmão, não sei qual me vai matar primeiro. - resmungou lady Bridgerton. -Que irmão? - perguntou Sophie. - Qualquer um. Os dois. Os três. Todos uns descarados. Mas uns descarados a quem amava muitíssimo, pensou Sophie. Isso se notava em sua maneira de falar, via-o em seus olhos quando se iluminavam de alegria ao olhar seu filho. E isso a fazia sentir-se sozinha, triste e invejosa. Que distinta poderia ter sido sua vida se sua mãe não tivesse morrido no parto. Não teriam sido respeitáveis, talvez, a senhora Beckett, amante de um nobre, e ela, a filha bastarda, mas lhe agradava pensar que sua mãe a teria amado. O que era mais do que tinha recebido de qualquer outro adulto, incluindo seu pai. -Vamos, Sophie. - disse lady Bridgerton energicamente. Sophie a seguiu escada acima, pensando por que se só ia começar um novo trabalho, sentia-se como se fosse entrar em uma nova família. Era... Agradável. E tinha transcorrido muito, muitíssimo tempo desde que sua vida fora agradável.


Capítulo 14 Rosamund Reiling jura que viu Benedict Bridgerton de volta a Londres. Esta cronista se inclina a acreditar na veracidade desse relatório; a senhorita Reiling é capaz de ver um solteiro a cinqüenta passos. Infelizmente para a senhorita Reiling, parece que não consegue caçar a nenhum. Ecos de Sociedade do Lady Whistledown, 12 de maio de 1817. Benedict só tinha dado dois passos em direção à sala de estar quando apareceu Eloise correndo pelo corredor. Como todos os Bridgerton, tinha abundantes cabelos castanhos e um largo sorriso. Mas à diferença dele, seus olhos eram de uma luminosa e viva cor verde, o tom exato dos olhos de seu irmão Colin. O tom exato dos olhos de Sophie, pensou. -Benedict! - exclamou ela, correndo a abraçá-lo com certa exuberância – Onde esteve? A mãe esteve resmungando toda a semana, perguntando-se onde tinha se metido. -Curioso, quando falei com ela, não faz dois minutos, seus resmungos eram por você, perguntando-se quando pensaria em se casar por fim. Eloise enrugou o nariz. -Quando conhecer alguém com quem valha à pena casar-se, então. Tomara que chegue gente nova à cidade. Tenho a impressão de que vejo sempre as mesmas cem pessoas, mais ou menos, uma e outra vez. -Pois sim que vê as mesmas cem pessoas, mais ou menos, uma e outra vez. -Exatamente o que quero dizer. Já não há segredos em Londres. Já sei tudo de todos. -Ah, sim? - perguntou Benedict, com não pouca medida de sarcasmo. -Zombe tudo o que quiser, - disse ela, apontando um dedo para ele de uma maneira que, estava seguro, sua mãe consideraria impróprio de uma dama - mas não exagero. -Nem sequer um pouco? - sorriu ele. Ela o olhou zangada. -Onde esteve a semana passada? Ele entrou na sala de estar e se deixou cair em um sofá. Talvez tivesse que ter esperado que ela se sentasse primeiro, mas era só sua irmã, depois de tudo,


e jamais sentia a necessidade de andar com cerimônias quando estavam sozinhos. -Fui à festa de Cavender. - respondeu ele, pondo os pés sobre uma mesinha - Foi abominável. - A mãe o matará se o pega com os pés na mesa. - advertiu Eloise sentando-se em uma poltrona que fazia esquina com o sofá - Por que foi tão horrorosa a festa? - A companhia. - olhou os pés e decidiu deixá-los onde estavam - Não tinha visto jamais um grupo de vândalos mais aborrecidos. -Enquanto não tenha papas na língua. Ele arqueou uma sobrancelha ante o sarcasmo. -Portanto lhe proíbo que se case com qualquer dos participantes. -Ordem esta que acredito, não terei nenhuma dificuldade para acatar. Golpeou as mãos nos braços da poltrona e Benedict não pôde deixar de sorrir; Eloise sempre tinha sido um conjunto de energia nervosa. -Mas isso não explica onde esteve toda a semana. - continuou ela, olhando-o com os olhos entreabertos. -Já lhe disseram que é muito bisbilhoteira? -Ah, todo o tempo. Onde esteve? -E insistente também. - É a única maneira de ser. Onde esteve? -Contei-lhe que estou pensando em investir em uma fábrica de focinheiras para humanos? Jogou-lhe uma almofada à cabeça. -Onde esteve? -Dada a casualidade, - respondeu ele, lançando suavemente a almofada - a resposta não é muito interessante. Estive em Minha Cabana, me recuperando de um antipático resfriado. - Achava que já tinha se recuperado. Ele a olhou com uma inverossímil expressão mescla de surpresa e desgosto. -Como sabe isso? - Sei tudo. Isso já deveria sabê-lo. - acrescentou, sorrindo de orelha a orelha - Sim que são antipáticos os resfriados. Teve uma recaída? - Depois de conduzir sob a chuva. - assentiu ele. -Bem, não foi muito inteligente ao fazer isso.


-Há alguma razão, - perguntou ele, olhando ao redor como se a pergunta fosse dirigida a outra pessoa - para que me deixe insultar por minha boba irmã menor? - Provavelmente eu o faço muito bem. - disse ela, lhe empurrando o pé sobre a mesa com o seu, tratando de fazê-lo cair. - A mãe entrará em qualquer momento. -Não. Está ocupada. - respondeu ele. - Fazendo o que? Ele agitou a mão indicando o céu limpo. -Orientando à nova criada. Ela se endireitou. -Temos uma nova criada? Ninguém me disse isso. - Céus! Ocorreu algo e Eloise não sabe. Ela voltou a virar-se para trás e a lhe golpear o pé com o seu. -Criada? Camareira? Faxineira? -Por que se interessa? -Sempre vai bem saber o que é o que. -Camareira, acredito. Eloise precisou de meio segundo para assimilar isso. -E como sabe? Benedict calculou que valia mais lhe dizer a verdade. Deus sabia que ao pôr-do-sol ela já saberia toda a história, mesmo que ele não soubesse. -Porque eu a trouxe aqui. -À criada? -Não, a mãe. Pois claro que à criada. -Desde quando tem o trabalho de contratar criados? -Desde que esta determinada jovem quase me salvou a vida, cuidando de mim quando estava doente. Eloise ficou boquiaberta. -Esteve tão doente? Talvez lhe conviesse fazer acreditar que tinha estado às portas da morte, pensou ele. Um pouco de lástima e preocupação poderia funcionar a seu favor a próxima vez que precisasse conseguir que o ajudasse em algo. -Me sinto melhor. - disse modestamente - Aonde vai? Ela já se levantara. -Procurar a mãe para conhecer a nova criada. É provável que atenda a Francesca e a mim, agora que Marie não está . -Perderam a sua criada?


Ela fez uma careta. -Nos deixou por essa odiosa lady Penwood. Benedict não pôde deixar de sorrir ao ouvir esse epíteto. Recordava muito bem seu único encontro com lady Penwood; ele também a tinha achado odiosa. -Lady Penwood é notória por maltratar os seus criados. Já teve três criadas este ano. Uma roubou da senhora Featherington em seu próprio nariz, mas a pobre moça só durou com ela duas semanas. Benedict escutou pacientemente a argumentação de sua irmã, assombrado por seu interesse no assunto. Mas por algum estranho motivo, interessava-lhe. -Marie voltará arrastando-se dentro de uma semana, a nos pedir que a recebamos, me entenda bem. -Sempre entendo bem o que diz. - respondeu ele - Mas nem sempre me interessa. -Lamentará ter dito isso. - replicou ela, apontando-o com o dedo. -Duvido. - disse ele, negando com a cabeça e com um leve sorriso. -Mmm. Vou subir. -Que se divirta. Mostrou-lhe a língua, certamente um gesto nada apropriado para uma jovem de vinte e um anos, e saiu da sala. Benedict tinha conseguido desfrutar de três escassos minutos de solidão quando ouviu passos no corredor, rítmicos passos em direção à sala de estar. Quando levantou a vista, estava sua mãe na porta. Ficou de pé imediatamente. Podem-se descuidar certas boas maneiras com uma irmã, mas jamais com a própria mãe. - Vi os seus pés sobre a mesa. - disse Violet antes que ele conseguisse abrir a boca. -Só queria abrilhantar a superfície com minhas botas. Ela arqueou as sobrancelhas e foi sentar-se na poltrona que acabava de desocupar Eloise. -De acordo, Benedict . - disse, em um tom extraordinariamente serio Quem é? -A senhorita Beckett, quer dizer? Violet fez um formal gesto de assentimento. -Não tenho idéia, além de que trabalhava para os Cavender e seu filho a maltratava. Violet empalideceu. -Quer dizer que ele...? Meu Deus. A...?


-Creio que não, - respondeu Benedict - mas não por falta de empenho por parte dele. -Pobrezinha. Que sorte para ela que você estivesse lá para salvá-la. Benedict descobriu que não queria reviver essa noite no pátio de entrada dos Cavender. Embora a aventura acabasse muito favoravelmente, não conseguia deixar de pensar em toda a gama de "e se?". E se não tivesse chegado a tempo? E se Cavender e seus amigos tivessem estado menos bêbados e tivessem sido mais obstinados? Poderiam ter violado Sophie. Teriam violado Sophie. E agora que conhecia Sophie, e lhe tinha tomado afeto, só a idéia lhe produzia calafrios. -Bem, - disse Violet - ela não é o que diz ser. Disso estou certa. -Por que diz isso? - perguntou ele, endireitando as costas. -É muito bem educada para ser uma criada. Pode ser que os empregadores de sua mãe lhe tenham permitido assistir a algumas aulas com suas filhas, mas a todas? Benedict, a moça fala francês! -Sim? -Bem, de que o fale, não posso estar certa, - reconheceu Violet - mas a surpreendi olhando um livro escrito em francês que estava na escrivaninha de Francesca. - Olhar não é o mesmo que ler, mãe. Ela o olhou impaciente. - Digo-lhe, vi como movia os olhos. Estava lendo. -Se você o diz, deve ter razão. -Isso é sarcasmo? - perguntou ela, com os olhos entrecerrados. -Normalmente diria que sim, - respondeu ele sorrindo - mas neste caso disse a sério. -Talvez seja a filha repudiada de uma família aristocrática. - disse Violet. - Repudiada? -Por ficar grávida. - explicou ela. Benedict não estava acostumado que sua mãe falasse com tanta franqueza. -Eh, não. - disse, pensando na firmeza com que Sophie se negou a ser sua amante - Não acredito. Mas então pensou por que não? Talvez se negasse a trazer para o mundo um filho ilegítimo porque já tinha tido um filho ilegítimo e não queria repetir o engano. De repente sentiu um sabor amargo na boca. Se Sophie tinha tido um filho, queria dizer que tinha tido um amante.


-Ou talvez seja a filha ilegítima de um nobre. - continuou Violet, entusiasmada com a tarefa de descobrir a identidade de Sophie. Isso era grandemente mais acreditável, pensou ele. E também mais aceitável. -Poderia se pensar que ele teria que ter disposto para ela recursos suficientes para que não tivesse que trabalhar como criada. - Muitíssimos homens se desligam totalmente de seus filhos bastardos. disse Violet, enrugando o nariz, desgostosa - É nada menos que escandaloso. -Mais escandaloso que gerar filhos bastardos? A expressão de Violet se tornou muito mal-humorada. -Ademais, - continuou Benedict, reclinando-se e pondo uma perna para cima - se for a filha ilegítima de um nobre e ele se ocupou dela tanto para lhe dar uma boa educação quando era menina, por que agora está sem um tostão? -Mmm, esse é um bom argumento. - Violet tamborilou a face com o indicador, franziu os lábios e continuou golpeando-se - Mas não tema, - disse finalmente – descobrirei sua identidade em menos de um mês. - Recomendo-lhe que peça ajuda à Eloise. - disse Benedict, irônico. -Boa idéia. - concordou Violet, pensativa - Essa menina seria capaz de surrupiar os segredos de Napoleão. -Tenho que ir. - disse ele, levantando-se - Estou cansado da viagem e quero chegar a casa. -Sempre pode dispor desta casa. Dirigiu-lhe um meio sorriso. Nada gostava mais sua mãe que ter a seus filhos perto. -Necessito voltar para minha casa. - disse, inclinando-se para beijá-la na face - Obrigado por encontrar um posto para Sophie. -A senhorita Beckett, quer dizer? - perguntou ela, curvando travessamente os lábios. -Sophie, senhorita Beckett, - disse ele, fingindo indiferença - chame-a como quiser. Quando partia, não viu o largo sorriso que iluminava o rosto de sua mãe lhe olhando as costas. Devia evitar chegar a sentir-se muito a vontade na casa de lady Bridgerton, pensava Sophie; pois partiria logo que pudesse dispor tudo. Mas ao passear a vista por seu quarto, sem dúvida o mais formoso que tinha visto em toda sua vida atribuída a uma criada, pensou na amistosa atitude de lady Bridgerton e em seu sorriso largo...


Não pôde evitar em desejar poder ficar ali para sempre. Mas isso era impossível. Isso sabia tão bem como sabia que seu nome era Sophia Maria Beckett e não Sophia Maria Gunningworth. Em primeiro lugar sempre corria o perigo de encontrar-se com Araminta, sobre tudo dado que lady Bridgerton a tinha subido de criada a donzela. Como donzela poderia lhe tocar, por exemplo, fazer o papel de acompanhante das filhas solteiras, ou acompanhar às senhoras nas saídas da casa. Saídas a lugares talvez freqüentados pela Araminta e suas filhas. E não lhe cabia a menor duvida de que Araminta encontraria uma maneira de lhe fazer a vida um inferno. Araminta a odiava de uma maneira que desafiava toda razão, toda emoção. Se a via em Londres, não se contentaria com simplesmente fazer caso omisso dela, não. Mentiria, enganaria e roubaria somente com o fim de fazer-lhe a vida mais difícil. Assim era o ódio de Araminta. Mas se fosse sincera consigo mesma, o verdadeiro motivo de que não pudesse continuar em Londres não era Araminta. Era Benedict. Como conseguiria evitar encontrar-se com ele, vivendo na casa de sua mãe? Nesse momento estava furiosa com ele, mais que furiosa, a verdade, mas no fundo sabia que essa fúria seria de muito curta duração. Como poderia resistir a ele dia após dia, quando com apenas por vê-lo, fraquejavam suas pernas de desejo? Algum dia lhe sorriria, com esse sorriso enviesado, e ela teria que aferrar-se a um móvel para não cair derretida ao chão em um patético atoleiro. Apaixonou-se pelo homem que não devia. Jamais poderia o ter segundo suas condições, e de maneira nenhuma podia aceitar as condições dele. Sua situação era irremediável. Um enérgico golpe na porta a salvou de desaparecer em pensamentos mais deprimentes. -Sim? Abriu-se a porta e entrou lady Bridgerton. Sophie se levantou imediatamente e se inclinou em uma reverência. -Necessitava de algo, milady? -Não, não, nada. Simplesmente queria ver se estava se instalando. Precisa de algo? Sophie pestanejou. Lady Bridgerton perguntava a ela se precisava de algo? Uma relação senhora criada, mas bem ao reverso. -Eh, não, obrigada. – disse - Mas eu gostaria de servi-la em algo. Lady Bridgerton desprezou o oferecimento agitando uma mão.


-Não há nenhuma necessidade. Hoje deve pensar que não tem nada no que nos servir. Prefiro que se instale bem primeiro para que não tenha distrações quando começar. Sophie fez um gesto para sua pequena bolsa. -Não é muita a bagagem que tenho que desfazer. De verdade, eu adoraria começar a trabalhar imediatamente. - Bobagem. Já estamos quase ao final do dia, e não temos planejado sair esta noite. A semana passada as meninas e eu tivemos que nos arrumar com uma só criada; certamente sobreviveremos uma noite mais. - Mas... -Basta de discutir, por favor. Um dia livre é o menos que posso lhe dar por salvar a meu filho. - Fiz muito pouco. Ele teria se saído bem sem mim. -De qualquer modo, cuidou dele quando necessitava, e por isso estou em dívida com você. -Para mim foi um prazer. - respondeu Sophie - Era o mínimo que podia fazer em gratidão ao que fez ele por mim. Então, ante sua grande surpresa, lady Bridgerton foi sentar se na cadeira de sua escrivaninha. Tinha uma escrivaninha! Ainda estava tratando de assimilar isso. Que criada teve alguma vez uma escrivaninha em seu quarto? -Bem, pois, Sophie, me diga. - disse lady Bridgerton com um encantador sorriso, a que lhe recordou imediatamente o sorriso de Benedict - De onde é? -Nasci no East Anglia. - respondeu imediatamente; não via nenhum motivo para mentir nisso. Os Bridgerton eram do Kent; era improvável que lady Bridgerton conhecesse muito bem Norfolk, onde ela se criara - Não muito longe do Sandrigharn, se souber onde está. -Sim, sei. Não estive lá, mas me disseram que é um edifício muito bonito. -Sim, muito. Claro que nunca estive no interior. Mas o exterior é muito bonito. -Onde trabalhava sua mãe? -Em Blackheath Hall. - mentiu, sem que nem sequer lhe enrolasse a língua. Tinham-lhe feito essa pergunta muitas vezes; fazia tempo que tinha posto nome ao seu lar de ficção - Conhece-a? Lady Bridgerton franziu o cenho. -Não. Acredito que não. -Está um pouco ao norte do Swaffham. -Não, não a conheço. - disse lady Bridgerton negando com a cabeça.


-Não muitas pessoas a conhecem. - explicou Sophie, sorrindo amavelmente. -Tem algum irmão ou irmã? Sophie não estava acostumada a que uma empregadora desejasse saber tanto de seus dados pessoais; normalmente o único que lhes interessava saber eram referências e recomendações de seus empregos anteriores. -Não. – respondeu - Fui filha única. -Ah, bom, pelo menos tinha a companhia das meninas com quem compartilhava estudos. Isso deve ter sido agradável para você. -Nos divertíamos muitíssimo. - mentiu Sophie. Tinha sido uma tortura estudar com Rosamund e Posy. Tinha preferido muito as aulas quando estava sozinha com sua preceptora, antes que elas chegassem a Penwood Park. -Tenho que dizer que os empregadores de sua mãe foram muito generosos... mmm, perdão, - acrescentou com o cenho franzido - como disse que era o sobrenome da família? -Grenville. Lady Bridgerton voltou a franzir o cenho. -Não os conheço. -Não costumam vir a Londres. -Ah, isso explica tudo. Mas como dizia, foram muito generosos ao permitir que estudasse com suas filhas. O que estudou? Sophie se sentiu paralisada; já não sabia se isso era um interrogatório ou só simples interesse de lady Bridgerton. Ninguém jamais tinha se interessado em se aprofundar no passado falso que inventara. -Pois, as disciplinas normais; aritmética, literatura, história, um pouco de mitologia, francês. -Francês? - repetiu lady Bridgerton, surpreendida - Que interessante. Os tutores de francês costumam ser muito caros. -A preceptora falava francês, - explicou Sophie - portanto não custava um preço extra. -Como é seu francês? De maneira nenhuma podia lhe dizer a verdade, que seu francês era perfeito. Ou quase perfeito, pois fazia muito tempo que não o praticava e tinha perdido um pouco de fluidez. -Passável. – respondeu - O bastante para passar por criada francesa, se isso for o que deseja.


-Oh, não! - exclamou lady Bridgerton rindo alegremente - Céus, não. Sei que está muito na moda ter criadas francesas, mas jamais lhe pediria que fizesse seus afazeres tratando de falar com sotaque francês. -Muito amável de sua parte. - disse Sophie, procurando que não refletisse a desconfiança ao rosto. Estava certa de que lady Bridgerton era uma senhora encantadora; tinha que ser assim para ter criado a uma família tão encantadora. Mas isso era muito encanto. -Bem, é... Ah, bom dia, Eloise. O que a traz por aqui? Sophie olhou para a porta e viu uma jovem que só podia ser uma Bridgerton. Levava seus abundantes cabelos castanhos recolhidos em um elegante coque na nuca, e sua boca era longa e expressiva, igual à de Benedict. -Benedict me disse que temos uma nova criada. - disse Eloise. Lady Bridgerton fez um gesto para o Sophie. -Esta é Sophie Beckett. Estávamos conversando. Acredito que nos vamos dar às mil maravilhas. Eloise olhou a sua mãe estranhando um pouco, ou ao menos pareceu, pois sua expressão era de estranheza. Era possível que Eloise sempre olhasse a sua mãe com certa desconfiança, um pouco confusa, de soslaio. Mas algo a fez pensar que não era assim. -Meu irmão me disse que lhe salvou a vida. - disse Eloise voltando-se para ela. -Exagera. - disse, com um leve sorriso. Eloise a olhou com uma expressão estranhamente atenta, e Sophie teve a clara sensação de que lhe estava analisando o sorriso, tentando discernir se queria ridicularizar a Benedict, e nesse caso, se era em brincadeira ou com má intenção. O momento pareceu alongar-se e de repente Eloise curvou os lábios de uma maneira surpreendentemente ardilosa. -Creio que minha mãe tem razão. Vamos nos dar às mil maravilhas. Sophie teve a impressão de que acabava de ser aprovada em uma espécie de exame fundamental. -Já conhece Francesca e Hyacinth? - perguntou Eloise. Negou com a cabeça, justo no momento em que lady Bridgerton dizia: -Não estão em casa. Francesca foi visitar Daphne e Hyacinth está em casa das Featherington. Parece que já fez as pazes com Felicity e voltaram a ser inseparáveis.


-Pobre Penélope. - riu Eloise - Acredito que gostava da relativa paz e silêncio que desfrutava em ausência de Hyacinth. Sei que eu desfrutava da ausência de Felicity. -Minha filha Hyacinth, - explicou lady Bridgerton à Sophie - costuma encontrar-se com mais freqüência, na casa de sua melhor amiga Felicity Featherington. E quando ela não está lá, pode-se encontrar Felicity aqui. Sophie sorriu e assentiu, novamente tratando de entender por que contavam esses detalhes a ela. Tratavam-na como se fosse da família, algo que não lhe tinha ocorrido jamais em sua própria família. Era muito estranho. Estranho e maravilhoso. Estranho, maravilhoso e horrível. Porque não duraria. Mas talvez pudesse ficar um tempo. Não muito. Umas quantas semanas, talvez inclusive um mês. O tempo suficiente para ordenar seus assuntos e pensamentos. O tempo suficiente para relaxar e simular que era algo mais que uma faxineira. Jamais poderia integrar parte da família Bridgerton. Mas talvez pudesse ser uma amiga. E fazia tanto tempo que não tinha sido amiga de ninguém. - Passa-lhe algo, Sophie? - perguntou lady Bridgerton - Tem uma lágrima no olho. Sophie negou com a cabeça. -Uma bolinha de pó. - disse e se apressou a fingir que estava ocupada tirando as coisas de sua bolsa. Percebeu que não acreditaram, mas não se importou muito. E mesmo que não tivesse idéia de onde pretendia ir, a partir desse momento, teve a estranha sensação de que acabava de começar sua vida.


Capítulo 15 Esta cronista é da certeira opinião de que na metade masculina da população não lhe interessará a parte que vem a seguir, de modo que todos têm permissão para saltar isto e passar a seguinte seção da coluna. As senhoras, entretanto, permitam que esta cronista seja a primeira em lhes informar que não faz muito, a família Bridgerton foi arrastada à batalha pelas criadas que tem feito furor toda à temporada entre lady Penwood e a senhora Featherington. Parece que a criada que atendia às filhas Bridgerton desertou a favor das Penwood, para substituir a criada que voltou correndo à casa Featherington depois de que lady Penwood a obrigasse a limpar trezentos pares de sapatos. Outra notícia relativa aos Bridgerton é que Benedict Bridgerton certamente está de volta em Londres. Parece que caiu doente estando no campo e prolongou sua estadia ali. Tomara houvesse uma explicação mais interessante sobre tudo quando um, como esta cronista, depende de histórias interessantes para ganhar a vida, mas infelizmente, isso é tudo o que há. Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 14 de maio de 1817. Na manhã seguinte Sophie já conhecia cinco dos irmãos de Benedict. Eloise, Francesca e Hyacinth viviam na casa com sua mãe; Anthony tinha ido com seu filho menor para tomar o café da manhã, e Daphne, que era a duquesa do Hasting, tinha ido à chamada de lady Bridgerton para ajudá-la a planejar o baile de fim de temporada. Os únicos Bridgerton que lhe faltava por conhecer eram Gregory, que estava no Eton, e Colin, o qual, segundo palavras do Anthony, estava só Deus sabia onde. Embora, tivesse que ser mais exata, ao Colin já conhecia; conheceu-o no baile de máscaras. Aliviava-a bastante que estivesse fora da cidade. Duvidava de que a reconhecesse, pois depois de tudo Benedict não a tinha reconhecido. Mas achava estressante e inquietante a idéia de encontrar-se novamente com ele. Como se isso importasse, pensou pesarosa. Tudo lhe era muito estressante e inquietante esse último tempo. Não teve a menor surpresa quando Benedict se apresentou em casa de sua mãe nessa manhã para tomar o café da manhã. Ela poderia havê-lo evitado totalmente se ele não tivesse estado vagabundeando no corredor quando ela ia a caminho da cozinha, onde pensava fazer seu desjejum com os outros criados.


-E como foi sua primeira noite no Bruton Street número seis? - lhe perguntou, com esse sorriso preguiçoso e masculino. -Esplêndida. - respondeu ela, dando um passo a um lado para fazer um amplo círculo ao passar por seu lado. Mas ao dar ela o passo à esquerda ele deu um passo à direita e lhe bloqueou o caminho. -Me alegra que esteja passando bem. Ela deu um passo à direita. -Estava. - disse intencionalmente. Ele era muito cortês para dar um passo à esquerda, mas se ajeitou para girar e apoiar-se em uma mesa de tal forma que novamente a impediu de passar. -Mostraram-lhe a casa? - perguntou. -A governanta. -E o parque? -Não há parque. Ele sorriu, seus olhos castanhos quentes e sedutores. -Há um jardim. -Mais ou menos do tamanho de uma nota de libra. - replicou ela. - Entretanto... - Entretanto devo tomar o café da manhã. - interrompeu ela. Ele se pôs a um lado garbosamente. - Até a próxima vez... - sussurrou. E Sophie teve a angustiosa sensação de que a próxima vez chegaria muito em breve. Trinta minutos depois, Sophie saiu lentamente da cozinha, parcialmente esperando que Benedict aparecesse de repente por uma esquina. Bom, talvez não tão parcialmente esperando. A julgar pela dificuldade que sentia para respirar, o mais provável era que toda ela esperasse. Mas ele não apareceu. Continuou avançando. Com certeza desceria correndo a escada em qualquer momento, avassalando-a com sua presença. Benedict continuou sem aparecer. Abriu a boca e conseguiu morder a língua, ao dar-se conta de que estava a ponto de dizer seu nome. -Menina estúpida... - sussurrou. -Quem é estúpida? - perguntou Benedict - Você não, suponho. Sophie deu um salto de mais de um palmo.


-De onde saiu? - perguntou quando já quase tinha recuperado o fôlego. Ele apontou uma porta aberta. -Dali. - disse ele, sua voz era toda inocência. -Assim, agora me assusta saindo dos armários? -Nãoo... - respondeu ele, ofendido - Essa é uma escada. Sophie foi por um lado dele. Era a escada lateral, a escada dos criados. Certamente não era esse um lugar para que passeassem os membros da família. -Costuma descer às escondidas pela escada de serviço? - perguntou, cruzando os braços. Ele se aproximou o suficiente para fazê-la sentir-se ligeiramente desconfortável e, embora isso ela não reconhecesse jamais ante ninguém, nem sequer ante si mesma, ligeiramente excitada. -Só quando quero escapulir de alguém. -Tenho trabalho para fazer. - disse ela, tentando passar por seu lado. -Agora? -Sim, agora. - respondeu entre dentes. -Mas se Hyacinth está tomando o café da manhã. Não pode lhe arrumar o cabelo enquanto come. -Também atendo Francesca e Eloise. Ele encolheu os ombros, sorrindo inocentemente. -Também estão tomando o café da manhã. De verdade, não tem nada que fazer. - O qual indica o pouco que sabe sobre trabalhar para viver. - replicou ela Tenho que engomar, remendar, lustrar... - Fazem você polir a prata? -Sapatos! - disse ela, quase gritando - Tenho que lustrar sapatos. -Ah. – apoiou um ombro na parede e cruzou os braços - Isso parece aborrecido. -"É" aborrecido. - respondeu ela, tratando de desfazer-se das lágrimas que lhe ardiam nos olhos. Sabia que sua vida era aborrecida, mas lhe doía ouvi-lo dizer outra pessoa. Ele curvou a boca em um preguiçoso e sedutor sorriso. - Sua vida não tem por que ser aborrecida, sabe. - A prefiro aborrecida. - disparou ela, tentando passar. Ele moveu o braço para um lado em um amplo gesto, convidando-a a passar. -Se assim é como a deseja.


-Assim a desejo. - disse ela, mas as palavras não lhe saíram com a firmeza que queria - Assim a desejo. - repetiu. Ah, bom, não lhe servia de nada mentir a si mesma. Não desejava essa vida. Mas assim tinha que ser. -Quer convencer a você, ou convencer a mim? - perguntou ele docemente. -Não vou honrá-lo com uma resposta. - replicou ela, mas não o olhou nos olhos ao dizê-lo. -Será melhor que suba, então. - disse ele, e arqueou uma sobrancelha ao ver que ela não se movia - Com certeza tem muitíssimos sapatos por limpar. Sophie subiu correndo a escada, a dos criados, sem olhar para trás. Na vez seguinte Benedict a encontrou no jardim, essa parte verde da qual ela zombara acertadamente comparando seu tamanho com uma nota de libra. As irmãs Bridgerton tinham ido visitar as irmãs Featherington, e lady Bridgerton estava dormindo uma sesta. Sophie já tinha engomado todos os vestidos e os tinha preparado para o evento social dessa noite, tinha escolhido fitas para o cabelo que fizessem jogo com cada vestido, e limpo sapatos suficientes para toda a semana. Terminado seu trabalho, decidiu tomar um curto descanso e ir ler no jardim. Lady Bridgerton lhe havia dito que podia pegar os livros que quisesse de sua pequena biblioteca, de modo que escolheu uma novela de recente publicação e se instalou a lê-la em uma poltrona de ferro forjado no pequeno pátio. Só tinha lido um capítulo quando ouviu passos provenientes da casa. Conseguiu não levantar a vista até quando a cobriu uma sombra. Previsivelmente, era Benedict. -Vive aqui? – perguntou sarcástica. -Não, - respondeu ele, sentando-se na poltrona do lado - embora minha mãe vive me dizendo que aqui me sinta em casa. A ela não ocorreu nenhuma réplica engenhosa de modo que se limitou a emitir um "mmm" e voltou a colocar o nariz no livro. Ele apoiou os pés na mesinha que havia em frente. -E o que está lendo hoje? -Essa pergunta, - respondeu ela fechando o livro, mas deixando o dedo para marcar a página - dá a entender que "estou" lendo, o que asseguro que não posso fazer enquanto está sentado aqui. -Assim irresistível é minha presença, não é? -Assim perturbadora. - Isso é melhor que aborrecida. - observou ele. -Gosto de minha vida aborrecida.


-Se você gosta de sua vida aborrecida, significa que não entende a natureza da emoção. Seu tom de superioridade a indignou. Segurou o livro com tanta força que ficaram brancos os nós. - Já tive suficiente emoção em minha vida. - replicou entre dentes Asseguro-lhe. - Me encantaria participar mais nesta conversa, - disse ele com voz arrastada - mas você não considerou conveniente me contar nenhum detalhe de sua vida. -Não foi por descuido. Ele estalou a língua, desaprovador. -Que hostilidade. Ela o olhou com os olhos dilatados. -Me raptou. - Coagi você. -Quer que o golpeie? -Não me importaria. - respondeu ele, mansamente - Além disso, agora que está aqui, de verdade foi tão terrível que a tenha intimidado para que viesse? Você gosta de minha família, não é? -Sim, mas... -E a tratam bem, não é? -Sim, mas... -Então qual é o problema? - perguntou ele em tom mais arrogante. Sophie quase perdeu os estribos. Esteve a ponto de levantar-se de um salto, agarrá-lo pelos ombros e sacudi-lo, sacudi-lo e sacudi-lo, mas no último instante compreendeu que isso era exatamente o que queria ele. Portanto, limitou-se a suspirar e dizer: -Se não é capaz de reconhecer o problema, não tenho maneira de lhe explicar isso. - ela abriu o livro. Ele se pôs a rir, o maldito. - Bem, Deus, essa foi uma hábil evasiva. Ela abriu o livro. -Estou lendo. -Tratando ao menos. Ela virou a página, embora não tivesse lido os dois últimos parágrafos. A verdade era que só queria aparentar indiferença a ele, além disso, sempre podia retroceder e lê-los quando ele partisse. - Tem o livro de ponta cabeça. - observou ele.


Ela abafou uma exclamação e olhou o livro. -Está bem! - Mas teve que olhá-lo para comprovar, não? - disse ele sorrindo brincalhão. -Vou entrar. - anunciou ela, levantando-se. Ele se levantou imediatamente. -E vai deixar a este esplêndido ar da primavera? - E a você. - replicou ela, embora não lhe passou inadvertido seu gesto de respeito e cortesia. Os cavalheiros não costumavam levantar-se por simples criadas. -Tem piedade... - sussurrou ele – Estava passando tão bem. Ela pensou quanto dano lhe faria se lhe lançasse o livro. Talvez não o suficiente para compensar sua perda de dignidade. Assombrava-lhe a facilidade com que ele a enfurecia. Amava-o desesperadamente, já fazia tempo que tinha deixado de mentir-se a respeito disso, e, entretanto ele era capaz de lhe fazer tremer de raiva todo o corpo com apenas um insignificante sarcasmo. - Adeus, senhor Bridgerton. - Até logo. - respondeu ele lhe fazendo um gesto de despedida. Sophie se deteve, nada segura de que gostasse dessa indiferente despedida. - Pensei que ia embora. - disse ele, com expressão levemente divertida. -E vou. - insistiu ela. Ele inclinou a cabeça, mas não disse nada. Não tinha para que. A expressão vagamente zombadora de seus olhos falava com bastante eloqüência. Ela deu meia volta e pôs-se a andar para a porta que levava ao interior, mas quando estava na metade do caminho, ouviu-o dizer: - Seu vestido novo é muito bonito. Deteve-se e suspirou. Bem podia ter passado de falsa pupila de um conde a uma simples criada, mas as boas maneiras eram boas maneiras, e de maneira nenhuma podia fazer caso omisso de um cumprimento. Virando-se disse: - Obrigada. Deu-me de presente sua mãe. Acredito que era de Francesca. Ele se apoiou na grade em uma postura enganosamente preguiçosa. -É um costume, não é? Dar de presente vestidos à criada. Ela assentiu. -Quando já estão bem usados, logicamente. Ninguém daria de presente um vestido novo. - Compreendo.


Ela o observou desconfiada, pensando por que demônios lhe importava o estado de seu vestido. -Não queria entrar? -O que traz entre as mãos? -Por que acha que trago algo entre mãos? Ela franziu os lábios e disse: -Não seria você se não estivesse tramando algo. - Acho que isso foi um elogio. - disse ele, sorrindo. -Não necessariamente; não era essa a intenção. - De qualquer modo, tomo como elogio. - disse ele mansamente. Ela não encontrou uma boa resposta, assim não disse nada. Tampouco avançou para a porta; não sabia por que, pois tinha expressado muito claramente seu desejo de estar sozinha. Mas suas palavras e seus sentimentos nem sempre coincidiam. Em seu coração, suspirava por esse homem, sonhava com uma vida que não podia ter. Não deveria estar tão zangada com ele, pensou. Ele não deveria tê-la obrigado a vir a Londres contra seus desejos, certo, mas não podia culpá-lo por lhe ter oferecido o posto de amante. Fazia o que teria feito qualquer homem de sua posição. Ela não tinha nenhuma ilusão a respeito a seu lugar na sociedade londrina. Era uma criada, uma faxineira. E o único que a distinguia de outros criados era que tinha conhecido o luxo de menina. Tinham-na educado como a aristocrata, mesmo que fosse sem amor, e essa experiência tinha configurado seus ideais e valores. Agora estava cravada para sempre entre dois mundos sem nenhum lugar claro em nenhum dos dois. -Está muito séria. - disse ele docemente. Sophie o ouviu, mas já não pôde afastar a mente de seus pensamentos. Benedict se aproximou. Estendeu a mão para lhe tocar o queixo, mas se conteve e a retirou. Nesse momento havia nela alguma coisa que a fazia intocável, inalcançável. -Não suporto vê-la tão triste. - lhe disse. Suas palavras o surpreenderam. Não tinha sido sua intenção lhe dizer nada; simplesmente lhe escaparam dos lábios. Então ela o olhou. -Não estou triste. Ele fez um movimento de negação com a cabeça, quase imperceptível. - Há uma pena profunda em seus olhos. Raras vezes desaparece. Ela tocou o rosto, como se pudesse tocar essa pena, como se fosse sólida, como se a pudesse tirar com uma fricção.


Benedict lhe agarrou a mão e a levou a seus lábios. - Tomara que me fizesse partícipe de seus segredos. -Não tenho nenhum... -Não me minta, - disse ele, em tom mais duro do que tinha querido - tem mais segredos que todas as mulheres que... - interrompeu-se bruscamente, porque por sua mente passou como um relâmpago a imagem da mulher do baile de máscaras - Mais que quase todas as mulheres que conheço. - concluiu. Ela o olhou nos olhos por um breve instante e desviou a vista. -Não há nada mau em ter segredos. Se eu decidisse... - Seus segredos a estão comendo viva. - interrompeu-a ele com brusquidão. Não queria estar aí escutando suas justificações, e a frustração estava acabando com sua paciência - Tem a oportunidade de mudar sua vida, de estender a mão para agarrar a felicidade, mas não quer fazê-lo. -Não posso. - respondeu ela. A aflição que ele detectou em sua voz, quase o acovardou. - Bobagem. – disse - Pode fazer o que quiser. O que acontece é que não quer fazê-lo. -Não me faça isto mais difícil do que já é. - disse ela. Ao ouvi-la dizer isso, algo se quebrou dentro dele. Foi uma estranha sensação, evidente, como de explosão, que lhe desencadeou uma corrente de sangue que alimentou a raiva de frustração que estava fervendo a fogo lento dentro dele desde há dias. -Acha que para mim não é difícil? Acha que não é difícil? -Não disse isso! Agarrou-lhe a mão e a aproximou dele, estreitando-a contra seu corpo para que comprovasse por si mesma o quanto terrivelmente excitado estava. -Ardo por você. - sussurrou, lhe roçando a orelha com os lábios - Todas as noites passo horas acordado na cama, pensando em você, pensando por que demônios está na casa de minha mãe e não comigo. -Eu não queria... -Não sabe o que quer. – interrompeu ele. Essa era uma afirmação cruel, tremendamente desdenhosa, mas já não lhe importava. Ela o tinha ferido de uma maneira que não teria acreditado possível, com uma potência da qual não teria imaginado possuidora. Ela tinha preferido uma vida de pesado trabalho a uma vida com ele, e agora ele estava condenado a vê-la quase todo dia, a vê-la, saboreá-la e cheirá-la justo o suficiente para manter vivo e forte seu desejo.


E ele mesmo tinha a culpa, certamente. Poderia tê-la deixado ficar no campo, poderia ter-se economizado essa dolorosa tortura. Mas tinha surpreendido a si mesmo insistindo em que viesse com ele a Londres. Era estranho, e sentia quase medo de analisar o que significava, mas sua necessidade de saber que estava segura e protegida era superior a sua necessidade de tê-la para ele. Ela murmurou seu nome e ele detectou desejo em sua voz; então compreendeu que não lhe era indiferente. Talvez ela não entendesse bem o que era desejar a um homem, mas o desejava. Capturou-lhe a boca com a sua, prometendo-se ao fazê-lo que se ela dissesse não, se fizesse qualquer tipo de indicação de que não desejava esse beijo, não continuaria. Seria o mais difícil que teria feito em toda sua vida, mas o faria. Mas ela não disse não, nem se separou dele, nem o empurrou para separá-lo, nem se debateu. O que fez foi enredar os dedos em seu cabelo e abrir os lábios. Ele não soube por que de repente ela tinha decidido lhe permitir beijá-la, não, "beijá-lo", mas de maneira nenhuma ia separar os lábios dos dela para perguntar. Aproveitou o momento, saboreando-a, bebendo-a, inspirando-a. Já não estava tão seguro de ser capaz de convencê-la a converter-se em sua amante, por isso era imperioso que esse beijo fosse algo mais que um beijo. Poderia ter que lhe durar toda a vida. Beijou-a com renovado vigor, desentendendo-se de uma incomoda voz, que dentro da cabeça lhe dizia que já tinha estado nessa situação, que já tinha ocorrido isso antes. Dois anos atrás tinha dançado com uma mulher, tinha-a beijado, e lhe disse que teria que pôr toda uma vida em um só beijo. Ele pecou de excessiva confiança então. Não acreditou na mulher; e a perdeu, talvez perdesse tudo. Depois, não havia tornado a conhecer ninguém com quem pudesse imaginar-se a construir uma vida. Até conhecer Sophie. Diferentemente da dama do vestido prateado, Sophie não era uma mulher com a que pudesse esperar casar-se, mas também à diferença dessa dama, estava ali. E não ia permitir que partisse. Estava aqui, com ele, e era como ter o céu. O delicado aroma de seu cabelo, o sabor ligeiramente salgado de sua pele, toda ela, era feita para repousar em seus braços. E ele tinha nascido para tê-la abraçada. -Venha para casa comigo. – sussurrou ao ouvido.


Ela não respondeu, mas ele a sentiu esticar-se. -Venha para casa comigo. - repetiu. -Não posso. - sussurrou ela, fazendo-o sentir seu suave fôlego na pele. - Pode. Ela negou com a cabeça, mas não se afastou por isso ele aproveitou o momento e voltou lhe cobrir a boca com a sua. Introduziu a língua e explorou as curvas de sua boca, saboreando sua essência. Sua mão procurou e encontrou o montículo de seu seio e o apertou suavemente; teve que conter o fôlego ao ouvi-la gemer de prazer. Mas isso não lhe bastava. Desejava sentir sua pele, não o tecido do vestido. Mas esse não era o lugar. Estavam no jardim de sua mãe, pelo amor de Deus. Qualquer um podia passar por aí, e a verdade, se não a tivesse levado para o esconderijo do lado da porta, qualquer um poderia tê-los visto. Esse era o tipo de coisa que poderia ser causa de que Sophie perdesse o trabalho. Talvez devesse levá-la ao lugar onde todos pudessem vê-los, porque então ela ficaria desamparada novamente e não teria mais remédio que converter-se em sua amante. Que era justamente o que ele desejava, recordou. Mas então lhe ocorreu, e francamente o surpreendeu o fato de ter o aprumo necessário para que lhe ocorresse algo nesse momento, que uma parte do motivo de que se preocupasse tanto por ela, era o sólido sentido de identidade que tinha ela. Sabia quem era e, por desgraça para ele, essa pessoa não saía dos limites da sociedade respeitável. Se a desonrava tão publicamente, diante de pessoas às que ela admirava e respeitava, romper-lhe-ia a alma. E isso seria um crime imperdoável. Afastou-se lentamente. Continuava desejando-a, continuava desejando que fosse sua amante, mas não devia forçar as coisas comprometendo-a na casa de sua mãe. Quando ela se entregasse a ele, e se entregaria, prometeu-se, seria livremente, por sua própria vontade. Enquanto isso, a cortejaria, a conquistaria. Enquanto isso... -Parou. - sussurrou ela, surpreendida. -Este não é o lugar. Por um instante, ela não mudou a expressão. De repente, como se alguém lhe estivesse cobrindo o rosto com um véu, a expressão passou a ser de horror. Começou nos olhos, que se arregalaram enormemente e a cor verde se fez mais intensa que o habitual, depois lhe chegou à boca, que se entreabriu para poder tomar ar e abafar uma exclamação. -Não pensei... - disse mais para si mesma que para ele.


-Sei. - sorriu ele - Chateia-me quando pensa. Sempre acaba mal para mim. -Não podemos voltar a fazer isto. -Certamente não podemos fazê-lo "aqui". -Não, quero dizer... -Não o estrague. -Mas... -Dê-me prazer, me deixando acreditar que a tarde acabou sem que me dissesse que isto não voltará a ocorrer. -Mas... Pôs um dedo nos seus lábios. -Não me está agradando. -Mas... -Não mereço esta pequena fantasia? Com isso o obteve. Ela sorriu. -Isso. Isso está melhor. Os lábios tremeram e depois, assombrosamente, alargou o sorriso. -Excelente. - sussurrou ele - Bom, agora vou. E só tem uma tarefa enquanto parto. Ficará aqui e continuará sorrindo. Porque me rompe o coração ver qualquer outra expressão em seu rosto. -Não poderá ver-me. - observou ela. -Sei. - disse ele lhe acariciando a face. E em seguida, antes que ela mudasse essa expressão, encantadora combinação de comoção e adoração, partiu.


Capítulo 16 Ontem à noite os Featherington ofereceram um jantar e, embora esta cronista não tivesse o privilégio de ir, comentou-se que a noitada foi um êxito. Estiveram os três Bridgerton, mas, por desgraça para as senhoritas Featherington, nenhum da variedade masculina. Estava aí o sempre encantador Nigel Berbrooke, dedicando grande atenção à senhorita Philippa Featherington. Esta cronista se inteirou de que foram convidados Benedict e Colin Bridgerton, mas tiveram que enviar suas desculpas. Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 19 de maio de 1817. À medida que os dias se fundiam em uma semana, Sophie foi descobrindo que trabalhar para as Bridgerton podia manter ocupadíssima a uma moça. Seu trabalho de criada consistia em atender às três filhas solteiras, por isso seus dias estavam repletos, entre as pentear, arrumar roupa, engomar vestidos, lustrar sapatos, etc. Não tinha saído de casa nenhuma só vez, a não ser que contasse os momentos que passava no jardim detrás. Mas se a vida em casa de Araminta tinha sido triste, monótona e humilhante, na casa das Bridgerton abundavam as risadas e os sorrisos. As meninas brigavam e zombavam entre elas, mas nunca com a crueldade com que ela tinha visto Rosamund tratar Posy. E citando o chá era informal, na sala de estar de cima, e só estavam pressentes lady Bridgerton e suas filhas, a ela sempre a convidavam a participar. Normalmente ela levava sua cesta de costuras, para remendar, cerzir ou pregar botões enquanto as outras conversavam, mas era maravilhoso poder estar sentada ali, bebendo chá com leite fresco, em uma fina xícara, e pãezinhos quentes. E passados uns dias, sentia-se tão a gosto que começou intervir na conversa. A hora do chá se converteu em sua favorita. Uma tarde, por volta de uma semana depois do que ela tinha começado a chamar "o grande beijo", Eloise perguntou: -Onde acham que poderia estar Benedict? -Ai! Quatro rostos Bridgerton se viraram para Sophie. -Se sente mau? – lhe perguntou lady Bridgerton, com a xícara detida a meio caminho entre o pires e sua boca. - Piquei o dedo. - respondeu Sophie, fazendo uma careta. Os lábios de lady Bridgerton se curvaram em um misterioso sorrisinho. - Mãe lhe disse, - disse Hyacinth, de quatorze anos - pelo menos mil vezes.


-Mil vezes? - perguntou Francesca com as sobrancelhas arqueadas. -Cem vezes, - corrigiu Hyacinth, olhando furiosa a sua irmã - que não tem que trazer seus remendos ao chá. Sophie teve que reprimir um sorriso. -Me sentiria uma folgada se não os trouxesse. - disse. -Bem, eu não vou trazer meu bordado. - declarou Hyacinth, embora ninguém lhe tivesse pedido que o trouxesse. -Se sente uma folgada? – lhe perguntou Francesca. -Nem o mínimo. - replicou Hyacinth. -Fez Hyacint sentir-se folgada. - disse Francesca à Sophie. - Não me sinto folgada! - protestou Hyacinth. -Está a bastante tempo trabalhando no mesmo bordado, Hyacinth. - disse lady Bridgerton, depois de acabar de tomar um gole de chá - Desde fevereiro, se não me falha a memória. -Nunca falha a memória. - explicou Francesca à Sophie. Hyacinth dirigiu um olhar furioso a Francesca, que sorriu a sua xícara de chá. Sophie tossiu para ocultar seu sorriso. Francesca, que em seus vinte anos era só um ano mais nova que Eloise, tinha um senso de humor malicioso e provocador. Algum dia Hyacinth estaria a sua altura, mas ainda não tinha chegado esse momento. - Ninguém respondeu minha pergunta. - teimou Eloise, deixando a xícara no prato com um forte clac - Onde está Benedict? Não o vejo há séculos. - Faz uma semana. – emendou lady Bridgerton. - Ai! -Não pôs o dedal? - perguntou Hyacinth à Sophie. -Normalmente não sou tão atrapalhada. -respondeu Sophie. Lady Bridgerton levou a xícara à boca e a manteve aí um bom tempo. Sophie apertou os dentes e reatou seu trabalho com renovado brio. Surpreendia-a muito que Benedict não se apresentara na casa em toda a semana, desde o "grande beijo". Surpreendeu-se aparecendo às janelas, colocando o nariz nos rincões, sempre com a esperança de lhe ver. Mas ele não estava nunca. Não sabia discernir se sentia-se decepcionada ou aliviada. Ou as duas coisas. As duas coisas, certamente, concluiu, exalando um suspiro. - Disse algo, Sophie? - perguntou Eloise. -Não. - respondeu ela, negando com a cabeça, mas sem afastar os olhos de seu pobre indicador maltratado.


Enrugando o nariz apertou a ponta e viu formar-se lentamente uma gotinha de sangue. -Onde está? - insistiu Eloise. -Benedict tem trinta anos. - disse lady Bridgerton calmamente - Não tem por que nos informar de todas suas atividades. Eloise emitiu um forte grunhido. - Isso é uma mudança radical em relação à semana passada, mãe. comentou. -O que quer dizer? -"Onde está Benedict?" - arremedou Eloise, em uma boa imitação de sua mãe - "Como se atreve a partir sem dizer uma palavra? É como se tivesse desaparecido da face da Terra." -Isso era diferente. - disse lady Bridgerton. -No que? - perguntou Francesca, que tinha posto seu habitual sorriso brincalhão. -Tinha dito que iria à festa desse horrendo moço Cavender, e depois não voltou, enquanto que esta vez... - se interrompeu e franziu os lábios - E por que teria que lhes explicar meus motivos? -Não consigo imaginar. - disse Sophie. Eloise, que estava ao seu lado, engasgou-se com o chá. Francesca se apressou a lhe dar umas palmadas nas costas e se inclinou para perguntar: -Disse algo, Sophie? Negando com a cabeça, Sophie enterrou a agulha para dar o seguinte ponto na prega que estava repassando e errou totalmente o alvo. Eloise a olhou de esguelha, estranhando bastante. Lady Bridgerton pigarreou. -Bem, acredito que... - se interrompeu e inclinou a cabeça - Ouça, há alguém no corredor? Abafando um gemido, Sophie olhou para a porta, esperando ver entrar o mordomo. Wickham sempre a olhava desaprovador antes de dizer qualquer recado ou notícia que levasse. Não aprovava que a criada tomasse o chá com as senhoras da casa, e embora nunca expressasse sua opinião sobre o assunto diante das Bridgerton, raras vezes tinha o trabalho de impedir que lhe refletisse a opinião no rosto. Mas não foi Wickham quem apareceu na porta, mas sim Benedict. -Benedict! - exclamou Eloise levantando-se na hora - Justamente estávamos falando de você.


-Ah, sim? - disse ele, olhando para Sophie. - Eu não. - disse ela. -Disse algo, Sophie? - perguntou Hyacinth. -Ai! -Tem que tirar essa costura. - disse lady Bridgerton sorrindo divertida – Ou terá perdido muito sangue quando tiver acabado o dia. Sophie deixou a um lado a costura dispondo-se a levantar-se. - Irei procurar um dedal. -Não tem dedal?! - exclamou Hyacinth - Eu jamais sonharia remendar algo sem um dedal. -E alguma vez sonhou remendar? - perguntou Francesca, sorrindo zombadora. Hyacinth lhe deu um chute, com o que quase derrubou o serviço de chá. -Hyacinth! - repreendeu-a lady Bridgerton. Sophie olhou para a porta, tratando de fixar os olhos em algo que não fosse Benedict. Passou toda a semana desejando vê-lo, e agora que estava ali, a única coisa que desejava era escapar. Se lhe olhasse o rosto, seu olhar se desviaria indevidamente para seus lábios, e se lhe olhasse os lábios, seus pensamentos iriam imediatamente para aquele beijo, e se pensasse naquele beijo... -Necessito desse dedal. - disse, levantando-se de um salto. Havia certas coisas que não se deviam pensar em público. -Isso disse. - comentou Benedict, elevando uma sobrancelha em um arco perfeito, e perfeitamente arrogante. -Está lá embaixo, - explicou ela - em meu quarto. -Mas se seu quarto está lá em cima. - observou Hyacinth. Sophie a teria matado. - Isso foi o que disse. - falou ela entre dentes. -Não disse isso. – rebateu Hyacinth, muito segura. -Sim, disse isso. - afirmou lady Bridgerton - Eu a ouvi. Sophie virou a cabeça para olhar para lady Bridgerton e imediatamente compreendeu que esta tinha mentido. -Tenho que ir procurar esse dedal. - disse, mais ou menos pela enésima vez. Correu para a porta, engasgando-se com a saliva ao aproximar-se de Benedict.


-Não quereria que lhe fizesse mal. - disse ele, pondo-se a um lado para deixá-la passar pela porta. Mas quando ela passou se aproximou um pouco e sussurrou - Covarde. Ela sentiu arder as faces, e quando já tinha descido meia escada, percebeu que tinha que ter subido a seu quarto. Maldição, não desejava voltar e passar novamente junto ao Benedict. O mais provável era que ele continuasse de pé na porta, e curvaria os lábios quando ela passasse, em um desses sorrisos levemente zombadores, levemente sedutores que sempre conseguiam lhe tirar o fôlego. Que desastre. De maneira nenhuma podia continuar nessa casa. Como poderia continuar com lady Bridgerton quando cada vez que via o Benedict se liquidificavam os joelhos? Simplesmente não tinha força. Ele a conquistaria, a faria esquecer todos seus princípios, todos seus juramentos. Teria que partir. Não tinha outra opção. E isso era terrível também, porque gostava de trabalhar para as irmãs Bridgerton. Tratavam-na como a um ser humano, não como a um cavalo de tiro. Faziam-lhe perguntas e pareciam interessar-se em suas respostas. Ela não era uma delas, certo, jamais o seria, mas elas lhe tornavam fácil imaginar, simular, que o era. E acima de tudo, a única coisa que de verdade tinha desejado em sua vida era uma família. Com as Bridgerton, quase podia simular que tinha uma família. -Extraviou-se? Levantou a vista e viu Benedict no alto da escada, apoiado despreocupadamente na parede. Olhou o chão e caiu na conta de que continuava na a metade da escada. -Vou sair. -Para comprar um dedal? -Sim. - respondeu ela, desafiadora. -Não necessita de dinheiro? Podia lhe mentir e lhe dizer que levava dinheiro no bolso ou lhe dizer a verdade e deixar ao descoberto a patética idiota que era. Ou igualmente podia descer correndo a escada e sair da casa. Essa era a saída covarde, mas... -Tenho que ir. - disse, e desceu tão rápido que se esqueceu de que devia sair pela porta de serviço. Atravessou correndo o vestíbulo, abriu a pesada porta e desceu a tropeções a escadaria de entrada. Ao tocar seus pés na calçada, virou em direção norte, não por nenhum motivo em particular, mas simplesmente


porque tinha que ir a alguma parte. E então ouviu uma voz. Uma voz gritando, horrível, espantosa. Deus santo! Era a voz de Araminta. O seu coração parou. Correu para a parede e se apertou contra ela. Araminta estava olhando para a rua, e a menos que se virasse, não a veria. Pelo menos era fácil permanecer em silêncio quando não se tinham forças nem para respirar. E que fazia aí Araminta? A casa Penwood estava pelo menos a umas oito quadras, mais perto de... Então lhe veio a lembrança. Tinha-o lido no Whistledown no ano anterior, em um dos poucos exemplares que tinham caído em suas mãos quando trabalhava para os Cavender. O novo conde do Penwood tinha decidido tomar residência em sua casa de Londres, por isso Araminta, Rosamund e Posy se viram obrigadas buscar outra casa. Mas a casa vizinha a dos Bridgerton? Nem que tivesse tentado teria podido imaginar um pesadelo pior. -Onde está essa moça insuportável? - estava dizendo Araminta. Imediatamente Sophie sentiu pena dessa determinada moça. Tendo sido a anterior "moça insuportável" de Araminta, sabia que esse posto ia acompanhado de muito poucos benefícios. -Posy! - gritou Araminta e foi subir a uma carruagem que estava esperando. Sophie mordeu o lábio, com o coração oprimido. Nesse momento compreendeu exatamente o que deve ter ocorrido quando ela partiu. Araminta teria contratado uma criada, e certamente a trataria horrorosamente, mas não podia degradá-la e humilhá-la do mesmo modo que a ela. Teria que conhecer a pessoa e odiá-la realmente para ser tão cruel. Qualquer criada não lhe serviria. E como Araminta precisava humilhar a alguém, pois não podia sentir-se bem consigo mesma se não fizesse alguém sentir-se mal, evidentemente escolheu Posy como cabeça de turco, ou de turca, talvez. Nesse momento Posy saiu correndo da casa, com o rosto pálido e com olheiras. Sophie a observou; parecia desgraçada, e talvez um pouco mais gorda que há dois anos. Araminta não gostaria nada disso, pensou tristemente. Araminta nunca tinha conseguido aceitar que Posy não fosse miúda, loira e formosa, como ela e como Rosamund. Se ela tinha sido o castigo de Araminta, Posy sempre tinha sido sua desilusão, pensou.


Posy estava agachada no alto da escadaria, atando as correias das botas de cano longo. Rosamund pôs a cabeça pela janela da carruagem e gritou: -Posy! Uma voz estridente muito pouco atraente pensou Sophie. - Já vou! - gritou Posy. - Apresse-se! Posy acabou de amarrar e desceu, mas em sua pressa lhe escorregou o pé no último degrau e imediatamente a seguir estava caída na calçada. Instintivamente Sophie deu um passo para correr para ajudá-la, mas voltou a grudar-se à parede. Posy não tinha feito nenhum dano, e não havia nada na vida que desejasse menos que a possibilidade de que Araminta se inteirasse de que estava em Londres, e justamente na casa vizinha. Posy se levantou do chão e dedicou um momento a mover o pescoço, primeiro à esquerda, logo à direita e... E então a viu. Disso não cabia a menor duvida, porque arregalou os olhos, abriu ligeiramente a boca e logo formou um pequeno focinho com os lábios, para dizer "Sophie?". Sophie negou energicamente com a cabeça. -Posy! - gritou Araminta com voz irada. Sophie voltou a negar com a cabeça, lhe suplicando com os olhos que não delatasse sua presença. - Já vou, mãe! - gritou Posy e, depois de fazer um leve gesto de assentimento a ela, subiu na carruagem. A carruagem empreendeu a marcha e, por sorte, ia à direção oposta aonde se encontrava ela. A ponto de desabar-se, esteve um minuto inteiro apoiada na parede sem mover-se. E depois continuou imóvel outros cinco. Não tinha sido a intenção de Benedict ir tomar o chá com sua mãe e suas irmãs, embora ao chegar tivesse pensado melhor. Mas no momento em que Sophie saiu correndo da sala de estar de cima, perdeu todo o interesse no chá e pãezinhos. -Justo estava perguntando onde estaria. - dizia Eloise. -Mmm? - virou levemente a cabeça para a direita e estirou o pescoço, para ver quanto da rua conseguia ver pela janela desse ângulo. -Disse que estava perguntando... - conseguiu dizer Eloise, quase a gritos. -Eloise, baixe a voz. - interrompeu-a lady Bridgerton.


-Mas não está escutando. -Se não está escutando, gritando não vai atrair sua atenção. - disse lady Bridgerton. -Jogar um pãozinho nele poderia ajudar. - sugeriu Hyacinth. -Hyacinth, não lhe at... Mas Hyacinth já tinha jogado o pãozinho. Benedict se fez a um lado um segundo antes que o pãozinho lhe ricocheteasse em um lado da cabeça. O primeiro que fez foi olhar a parede, onde o pãozinho tinha deixado uma ligeira mancha, e depois olhou ao chão, onde tinha aterrissado, notavelmente, em uma só peça. -Creio que esse é o sinal para que parta. - disse afavelmente, dirigindo um frio sorriso a sua irmã menor. O pãozinho volante lhe dava o pretexto perfeito para sair da sala para ver se conseguia seguir o rastro de Sophie até onde achava que ia. -Mas se acabou de chegar. - disse sua mãe. Imediatamente ele a observou com desconfiança. Esse não tinha sido nem remotamente o tom queixoso que empregava habitualmente para dizer "Mas se acabar de chegar". Na verdade, não parecia aborrecida o mínimo porque ele pensava partir. O que significava que trazia algo na cabeça. -Podia ficar. - disse, só para experimentá-la. -Oh, não. - respondeu ela, levando a xícara aos lábios, embora ele estivesse certo de que estava vazia - Não permita que o retenhamos se está ocupado. Benedict tratou de acomodar os traços em uma expressão impassível, ou pelo menos uma que ocultasse sua surpresa. A última vez que informou a sua mãe de que estava "ocupado", ela reagiu com um "Muito ocupado para sua mãe?". Seu primeiro impulso foi afirmar "fico" e instalar-se em uma cadeira, mas teve o sangue-frio necessário para compreender que ficar aí só para frustrar a sua mãe era bastante ridículo, quando o que seriamente desejava fazer era partir. -Vou embora, então. - disse finalmente, retrocedendo para a porta. - Vá. - disse ela, lhe fazendo um gesto de despedida - Que se divirta. Benedict decidiu sair antes que ela arrumasse para confundi-lo mais. Agachou-se para recolher o pãozinho, e o lançou suavemente em Hyacinth, que o agarrou no vôo, sorrindo. Depois fez uma inclinação para sua mãe e suas


irmãs e saiu ao corredor. Quando chegava à escada conseguiu ouvir sua mãe dizer: - Achei que não partiria nunca. Muito estranho, francamente. Desceu depressa a escada, atravessou o vestíbulo com longas e tranquilas passadas, e saiu. Duvidava de que Sophie estivesse perto da casa, mas se tinha ido comprar, só podia ter tomado uma direção. Girou à direita, com a intenção de dirigir-se à pequena fileira de lojas, mas só tinha dado três passos quando a viu. Ela estava junto à parede de tijolos exterior, com o aspecto de recordar apenas a forma de respirar. Correu para ela. -Sophie? O que aconteceu? Sente-se mau? Ela se sobressaltou ao vê-lo, depois negou com a cabeça. Ele não acreditou, naturalmente, mas não viu nenhum sentido em lhe dizer isso. -Está tremendo, - disse, olhando as suas mãos - me diga o que ocorreu. Alguém te incomodou? -Não. - disse ela com voz trêmula nada característica - Só... Isto... É... Olhou para o lado e viu a escadaria - Tropecei ao descer e me assustei. – sorriu debilmente - Com certeza sabe o que quero dizer, essa sensação de que lhe deram um tombo no seu interior. Benedict assentiu porque sabia o que queria dizer, mas não porque acreditasse. -Venha comigo. Ela o olhou e havia algo nessas profundidades verdes que lhe oprimiu o coração. -Aonde? - perguntou ela em um sussurro. -A qualquer parte, para não estar aqui. -Eh... -Vivo cinco casas mais à frente. -Sim? - perguntou ela com os olhos arregalados - Ninguém me havia dito isso. - Prometo que sua virtude estará a salvo. - e logo acrescentou, simplesmente porque não pôde evitar - A não ser que "você" deseje outra coisa. Teve a impressão de que ela teria resistido ou protestado se não tivesse estado tão aturdida, mas se deixou levar pela rua. -Simplesmente estaremos sentados em minha sala de estar até que se sinta melhor.


Ela assentiu e ele a fez subir a escadaria e entrar em sua casa, uma modesta casa de cidade um pouco ao sul da de sua mãe. Quando já estavam comodamente instalados e ele tinha fechado a porta para que não os incomodasse nenhum criado ao passar, olhou-a pensando lhe dizer "Agora poderia me contar a verdade do que ocorreu", mas no último minuto, algo o obrigou a morder a língua. Ele podia perguntar-lhe mas com certeza ela não o diria. Ficaria na defensiva e isso não favoreceria em nada sua causa. Ficando uma expressão neutra no rosto, perguntou-lhe: -Como é trabalhar para minha família? -São muito simpáticas. -Simpáticas? - repetiu ele, sem poder evitar que lhe refletisse a incredulidade no rosto - Enlouquecedoras, possivelmente, inclusive exaustivas, mas simpáticas? - Eu as acho simpáticas. - disse Sophie firmemente. Benedict sorriu porque queria muitíssimo bem a sua mãe e suas irmãs, e adorava que Sophie estivesse começando à querê-las bem, mas então caiu na conta de que isso ia contra seus próprios interesses, porque quanto mais se afeiçoasse Sophie a elas menos possibilidade teria de que ela se desonrasse a seus olhos aceitando ser sua amante. Maldição. Tinha cometido um grave engano de cálculo ao levá-la ali. Como tinha estado tão empenhado em que se viesse com ele a Londres que lhe oferecer um posto na casa de sua mãe lhe pareceu a única maneira de convencê-la. Isso, combinado com um pouco de coação. Maldição, maldição, maldição. Por que não a tinha coagido a fazer algo que fizesse mais fácil e jogar-se em seus braços? -Deveria agradecer a sua estrela da sorte por tê-las. - disse ela, com a voz mais enérgica do que lhe tinha saído em toda a tarde - Eu daria tudo por... – não acabou a frase. -Daria tudo por quê? – perguntou ele, surpreso do muito que lhe interessava ouvir a resposta. -Por ter uma família como a sua. - respondeu ela, olhando tristemente pela janela. -Não tem ninguém. - disse ele, não como pergunta, mas sim como afirmação. -Nunca tive ninguém.


-Nem sequer a você...? - recordou que em um descuido lhe havia dito que sua mãe tinha morrido ao nascer ela - Às vezes não é fácil ser um Bridgerton. disse, em tom intencionalmente alegre e afável. Ela virou lentamente a cabeça e o olhou. -Não posso imaginar nada mais agradável. -E não há nada mais agradável, mas isso não quer dizer que sempre seja fácil. -O que quer dizer? E então Benedict se viu impulsionado a expressar sentimentos que jamais tinha contado a nenhuma alma vivente, nem sequer a sua família. -Para a maior parte do mundo, - explicou - só sou um Bridgerton. Não sou Benedict, nem Ben e nem sequer um cavalheiro de possíveis e um pouco de inteligência. Sou simplesmente, - sorriu pesaroso - um Bridgerton. Concretamente, o Número Dois. Tremeram seus lábios e por fim sorriu. -É muito mais que isso. -E assim eu gosto de pensar, mas a maior parte do mundo não me vê assim. -A maior parte do mundo é tola e não o conhece. Ele pôs-se a rir. Não havia nada mais atraente que Sophie franzindo o sobrecenho. -Não encontrará oposição em mim com respeito a isso. Mas então, justo quando achava que tinha acabado esse assunto, ela o surpreendeu dizendo: -Não se parece em nada ao resto de sua família. -Como? - perguntou ele, sem olhá-la nos olhos. Não queria que ela visse quão importante era para ele sua resposta. -Bem, seu irmão Anthony... - enrugou o rosto, pensando - O fato de ser o mais velho alterou toda sua vida. Evidentemente sente uma responsabilidade para a família que você não. -Vamos ver, espera um mo... -Não me interrompa. - disse ela, lhe colocando uma mão tranqüilizadora no peito - Não disse que não queira a sua família nem que não daria sua vida por qualquer um deles. Mas no caso de seu irmão é diferente; sente-se responsável, e de verdade acredito que se consideraria um fracasso se qualquer de seus irmãos fosse desgraçado. -Quantas vezes viu Anthony?


-Uma só vez. - tencionou as curvas da boca como se quisesse reprimir um sorriso - Mas essa vez foi suficiente. Quanto a seu irmão menor Colin... Bom, não o vi, mas ouvi falar muito... - De quem? -De todo mundo. Para não dizer que sempre o mencionam na folha Whistledown, a qual eu tenho que confessar, tenho lido durante anos. - Então sabia de mim antes de me conhecer. Ela assentiu. -Mas não o conhecia. É muito mais do que imagina lady Whistledown. -Diga-me. - disse ele, colocando a mão sobre a dela - O que vê? Sophie o olhou nos olhos, examinou essas profundidades cor chocolate e viu algo que jamais teria sonhado que existia. Uma diminuta faísca de vulnerabilidade, de necessidade. Ele precisava saber o que pensava ela dele, que ele era importante para ela. Esse homem, tão seguro de si mesmo, necessitava sua aprovação. Talvez necessitasse a ela. Virou a mão até que se tocaram as Palmas e com o indicador da outra mão riscou círculos e redemoinhos sobre a fina pelica de sua luva. -É... - começou, tomando seu tempo, porque sabia que cada palavra pesava mais nesse intenso momento - Não é do todo o homem que se apresenta ante o resto do mundo. Você gosta que o considerem galhardo, elegante, irônico, perspicaz, e o é, mas sob tudo isso é muito mais. Importamlhe as pessoas, - continuou, consciente de que a voz lhe saía áspera de emoção – importa-lhe sua família, e inclusive lhe importo eu, embora Deus sabe que nem sempre mereço isso. -Sempre... – interrompeu ele, levando sua mão aos lábios e beijando a palma, com um ardor que lhe cortou o alento - Sempre. -E... E... - custava continuar, estando esses olhos fixos nos dela com uma emoção tão transparente. -E o que? - insistiu ele em um sussurro. -Grande parte do que é vem de sua família. - disse ela, quase em borbotões - Isso é verdade. Não se pode crescer com tanto amor e lealdade e não ser uma pessoa melhor devido a isso. Mas no fundo de você, em seu coração, em sua alma, está o homem para ser o qual nasceu. Você, não o filho de alguém, não o irmão de alguém. Você. Benedict a observou atentamente. Abriu a boca para falar, mas descobriu que não tinha palavras. Não havia palavras para um momento como esse. -No fundo, - continuou ela - tem a alma de um artista.


-Nãoo. - disse ele, negando com a cabeça. -Sim. Vi seus desenhos. É brilhante. Eu não sabia o quanto até que conheci sua família. Captou-os a todos à perfeição, da expressão brincalhona de Francesca quando sorri até a travessura na forma como Hyacinth põe os ombros. -Nunca mostrei a ninguém meus desenhos. - reconheceu ele. Ela levantou bruscamente a cabeça. -Nãoo. Sério? -A ninguém. -Mas são excelentes. Você é excelente. Estou certa de que a sua mãe adoraria vê-los. -Não sei por que, - disse ele, sentindo-se tímido - mas nunca desejei mostrá-los a ninguém. -Mas me mostrou. - disse ela docemente. -Não sei, pareceu-me... Bem. E então o coração saltou um batimento, porque de repente "tudo" estava bem. Amava-a. Não sabia como ocorreu isso, só sabia que era certo. Não era só que ela conviesse a suas necessidades corporais. Tinha havido montões de mulheres convenientes nesse sentido. Sophie era diferente. Fazia-o rir. Fazia-o desejar fazê-la rir. E quando estava com ela... Bom, quando estava com ela a desejava desesperadamente, mas durante esses momentos em que seu corpo conseguia manter-se controlado... Sentia-se contente, satisfeito. Era estranho, isso de encontrar uma mulher que pudesse fazê-lo feliz só com sua presença. Nem sequer precisava vê-la, nem ouvir sua voz, nem cheirar seu aroma. Simplesmente precisava saber que estava aí. Se isso não fosse amor, não sabia o que era. Contemplou-a, tratando de prolongar o momento, de reter esses instantes de perfeição total. Viu que algo se abrandava em seus olhos, e a cor pareceu fundir-se, converter-se de uma brilhante esmeralda em um musgo brando e harmonioso. Entreabriram-se e abrandaram os lábios e compreendeu que tinha que beijá-la, e não porque o desejasse, mas sim porque tinha que beijá-la. Necessitava-a junto a ele, debaixo dele, em cima dele. Necessitava-a dentro dele, ao redor dele, como uma parte dele. Necessitava-a como necessitava o ar. E, pensou nesse último instante racional antes que seus lábios encontrassem os dela, necessitava-a nesse preciso momento.


Capítulo 17 Esta cronista soube, de muito boa fonte, que há dois dias, quando tomava o chá no Gunter‘s, lady Penwood foi golpeada em um lado da cabeça por uma bolacha volante. Esta cronista foi incapaz de determinar quem jogou a bolacha, mas todas as suspeitas apontam às clientes mais jovens do estabelecimento: as senhoritas Felicity Featherington e Hyacinth Bridgerton. Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 21 de maio de 1817. Sophie foi beijada antes, Benedict a tinha beijado antes, mas nada, nem um só momento de um só beijo, tinham-na preparado para esse beijo. Não era um beijo. Era o próprio céu. Ele a beijava com uma intensidade que quase não conseguia compreender, acariciando-a com os lábios, roçando, mordiscando, tentando-a, atiçando o fogo em seu interior, lhe mostrando o desejo de ser amada, o desejo de amar; e, Deus a amparasse, quando a beijava, a única coisa que desejava fazer era beijá-lo também. Ouvia-o sussurrar seu nome, mas o sussurro apenas lhe chegava através do rugido que sentia nos ouvidos. Isso era desejo; isso era necessidade. Que idiota tinha sido ao pensar que poderia negar-se isso; que presunção a sua ao acreditar que poderia ser mais forte que a paixão. "Sophie, Sophie", dizia ele uma e outra vez, deslizando os lábios pelas faces, pescoço, orelhas. Repetia seu nome tantas vezes que parecia lhe penetrar a pele. Sentiu suas mãos nos botões de seu vestido, sentiu soltar o tecido à medida que cada botão saía de sua casa. Isso era tudo o que sempre tinha jurado não fazer jamais, e, entretanto, quando o corpete lhe desceu à cintura, deixando-a impudicamente descoberta, gemeu seu nome e arqueou as costas, oferecendo-se a ele como uma espécie de fruto proibido. Benedict deixou de respirar quando a viu. Imaginou esse momento muitas vezes, todas as noites quando jazia na cama, e em todos os sonhos quando estava dormindo. Mas isso, a realidade, era muito mais doce que um sonho, e muito mais erótica. Lentamente deslizou para frente a mão com que lhe tinha estado acariciando as costas para lhe acariciar a caixa torácica. -É linda... - sussurrou incapaz de encontrar palavras mais adequadas.


Não havia palavras para expressar o que sentia. E quando sua trêmula mão acabou sua viagem e se pousou sobre seu seio, lhe escapou um trêmulo gemido. Já era impossível encontrar palavras; sua necessidade era tão intensa, tão primitiva, que o despojou de sua capacidade de falar. Demônios, quase não podia pensar. Não sabia como essa mulher tinha chegado a significar tanto para ele; tinha a impressão de que um dia era uma desconhecida, e no seguinte lhe era tão indispensável como o ar. E, entretanto isso não tinha ocorrido em um piscar de olhos. Tinha sido um processo imprevisto, lento, tortuoso, que foi colorindo silenciosamente as emoções até que compreendeu que sem ela sua vida carecia de sentido. Tocou-lhe o queixo e lhe levantou o rosto até poder olhar seus olhos; estes pareciam irradiar luz de dentro, brilhavam com lágrimas não derramadas. Também lhe tremiam os lábios, e ele compreendeu que fora tão afetada como ele por esse momento. Foi aproximando seu corpo lenta, muito lentamente. Queria lhe dar a oportunidade de dizer não. O mataria se dissesse não, mas pior seria escutá-la lamentá-lo na manhã seguinte. Mas ela não disse não, e quando ele estava a umas poucas polegadas, ela fechou os olhos e inclinou ligeiramente a cabeça, convidando-o silenciosamente a beijá-la. Era extraordinário, mas cada vez que a beijava sentia mais doces seus lábios, mais sedutor seu aroma. E aumentava sua necessidade também. Sentia acelerar o sangue de desejo, e tinha que valer-se até seu último fiapo de controle para não deitá-la sobre o sofá e lhe arrancar a roupa. Isso viria depois, pensou, sorrindo para si mesmo. Desta vez, certamente a primeira para ela, seria lento, terno, tudo o que sonhava uma mocinha. Bom, talvez não. Sorriu de verdade. A ela não teria ocorrido nem sonhar com a metade das coisas que ia fazer lhe. -Do que sorri? - perguntou ela. Ele se afastou um pouco e lhe segurou o rosto entre as mãos. -Como sabe que sorri? -Senti seu sorriso em meus lábios. Ele deslizou um dedo pelo contorno desses lábios e logo lhe roçou a parte carnuda com a borda da unha. - Você me faz sorrir, - sussurrou - quando não me faz desejá-la gemendo, faz-me sorrir.


Tremeram seus lábios e ele sentiu seu fôlego, quente e úmido no dedo. Agarrou-lhe a mão e a levou a boca, e com um dedo dela roçou os lábios do mesmo modo que tinha roçado os lábios a ela. Ao vê-la dilatar os olhos, meteu o dedo na boca e o chupou suavemente, lambendo e mordiscando a ponta. Ela abafou uma exclamação, em um som doce e erótico ao mesmo tempo. Eram milhares as coisas que desejava lhe perguntar, por exemplo, como se sentia, o que sentia, mas o aterrava que ela voltasse atrás se lhe desse a oportunidade de pôr em palavras algum de seus pensamentos. Portanto, em lugar de lhe fazer perguntas, deu-lhe beijos, pousando outra vez seus lábios sobre os dela, em uma atormentadora e escassamente controlada dança de desejo. Sussurrando seu nome como uma bênção, foi fazendo-a descer sobre o sofá lhe roçando as costas nuas contra o tecido do espaldar. -Desejo-a. - gemeu - Não pode imaginar quanto. Não tem idéia. A única reação dela foi um suave e rouco gemido que pareceu sair do fundo da garganta. Isso foi como jogar azeite ao fogo que ardia dentro dele, e a segurou mais forte com os dedos, enterrando-os na pele, enquanto deslizava os lábios pela esbelta coluna de seu pescoço. Foi baixando, baixando os lábios, deixando uma esteira quente na pele, detendo-se brevemente quando chegou ao começo da elevação de seu seio. Ela já estava completamente debaixo dele, seus olhos velados de desejo. E isso era muitíssimo melhor que qualquer um de seus sonhos. E como tinha sonhado com ela. Emitindo um possessivo grunhido, introduziu o mamilo na boca. Escapou um gritinho dela, e ele não pôde reprimir um rouco rugido de satisfação. -Shhh... - sussurrou - me deixe... - Mas... Pôs-lhe um dedo sobre os lábios, talvez com muita força, mas estava sendo cada vez mais difícil controlar seus movimentos. -Não pense. Limite-se a repousar a cabeça no sofá e deixa que eu lhe dê prazer. Ela pareceu duvidosa, mas quando ele passou a sugar ao outro seio reatando seu assalto sensual, lhe velaram mais os olhos, entreabriu os lábios e apoiou a cabeça nas almofadas. -Você gosta disto? - sussurrou ele, seguindo o contorno do mamilo com a língua. Sophie não conseguiu abrir os olhos, mas assentiu.


-Você gosta disto? - perguntou ele, baixando a língua pelo lado do seio e mordiscando a sensível pele mais abaixo. Ela assentiu, com a respiração superficial e rápida. -E isto? - desceu mais o vestido, e deslizou a boca para baixo, mordiscando suavemente a pele até chegar ao umbigo. Esta vez Sophie nem sequer conseguiu fazer um gesto de assentimento. Deus santo, estava virtualmente nua diante dele e a única coisa que era capaz de fazer era gemer, suspirar e suplicar que continuasse. -Necessito-o. – sussurrou ofegante. -Eu sei. - disse ele com a boca sobre a suave pele do abdômen. Sophie se agitou debaixo dele, nervosa, intimidada por essa primitiva necessidade de mover-se. Sentia expandir-se algo estranho dentro dela, uma espécie de calor, de formigamento. Era como se ela mesma estivesse se expandindo, como se preparando para explodir, para sair através da pele. Era como se, depois de vinte e dois anos de vida, estivesse por fim vivendo. Desejosa de sentir a pele dele agarrou-lhe a camisa de fino linho e a puxou até tirá-la das calças. Acariciou-o, deslizando as mãos pela parte inferior de suas costas, surpreendida e encantada ao sentir estremecer seus músculos ao contato de suas mãos. -Ui, Sophie... - gemeu ele, estremecendo, quando ela colocou as mãos sob a camisa para lhe acariciar a pele. Sua reação a encorajou e o acariciou mais, subindo as mãos até chegar aos ombros, largos e musculosos. Ele voltou a gemer e se endireitou soltando uma maldição em voz baixa. -Esta maldita camisa estorva. - resmungou, tirando-a e jogando-a ao outro extremo da sala. Sophie teve um breve instante para olhar seu peito nu antes que ele voltasse a ficar em cima dela; e desta vez sim estavam pele com pele. Era a sensação mais maravilhosa que poderia ter imaginado. Sentiu sua pele cálida, e embora seus músculos fossem duros e potentes, sua pele era sedutoramente suave. E cheirava bem, a uma agradável e masculina combinação de sândalo e sabonete. Quando ele desceu a cabeça para lhe beijar e lhe mordiscar o pescoço, ela aproveitou para passar os dedos por entre seus cabelos. Seu cabelo era abundante e forte, e fazia cócegas no queixo. -Hum, Benedict... – suspirou - Isto é absolutamente perfeito. Não consigo imaginar nada melhor.


Ele levantou a cabeça para olhá-la, seus olhos escuros tão maliciosos como seu sorriso. -Eu sim. - disse. Ela abriu a boca como por vontade própria, e pensou em que aspecto devia ter, deitada ali o olhando como uma idiota. -Espere e já verá. - disse ele - Espere. -Mas... Oh! - exclamou ela com um gritinho quando lhe tirou os sapatos. Então ele fechou a mão em seu tornozelo e a deslizou para cima, por toda a perna. -Imaginava isto? - perguntou, roçando a curva do joelho. Ela negou energicamente com a cabeça, tratando de não agitar o corpo pela sensação. -Não? Então, certamente não imaginou isto. - disse ele lhe soltando as ligas. -Ui, Benedict, não deve... -Ah, não, "devo". - desceu as meias pelas pernas com uma torturante lentidão - De verdade, devo. Boquiaberta de prazer, ela o observou jogar as meias ao ar por cima de sua cabeça. Suas meias não eram da melhor qualidade, mas de qualquer modo eram bastante leves, e flutuaram um momento no ar como pistilos de dente de leão até aterrissar, uma sobre um abajur e a outra no chão. E quando ainda estava rindo olhando a meia que pendia como bêbada da copa do abajur, ele a sobressaltou subindo as mãos por suas pernas até chegar às coxas. -Parece que nunca ninguém a tocou aqui. - disse ele, peralta. Ela negou com a cabeça. -E parece que nunca imaginou. Ela voltou a negar com a cabeça. -Se não imaginou isto, - apertou-lhe as coxas, fazendo-a soltar um gritinho e arquear o corpo - então tampouco imaginou isto. - acrescentou, deslizando os dedos para cima, lhe roçando ligeiramente a pele com as arredondadas unhas, até chegar ao arbusto de suave pêlo entre as coxas. - Isso não. - disse ela, mais por reflexo que por outra coisa - Não pode... -Pois claro que posso. Asseguro-lhe. -Mas... Oooooh! De repente sentiu como se o cérebro lhe tivesse saído voando pela janela, porque lhe era impossível pensar em nada, enquanto os dedos dele a acariciavam aí. Bom, quase nada, porque não era capaz de pensar no quão


absolutamente imoral era isso e em que não desejava por nada do mundo que ele parasse. -O que vai me fazer? - perguntou, notando que lhe esticavam todos os músculos enquanto ele movia os dedos de uma maneira particularmente perversa. -Tudo. - respondeu ele, capturando seus lábios com os dele - Tudo o que desejar. -Desejo... Oooh! - Gosta, não é? - sussurrou ele, com a boca junto a sua face. -Não sei o que desejo. - suspirou ela. -Eu sim. - deslizou a boca para a orelha e lhe mordiscou suavemente o lóbulo - Sei exatamente que deseja. Confie em mim. E assim foi tão fácil. Ela se entregou totalmente a ele, e não era que não tivesse chegado a esse ponto. Mas quando lhe disse "Confie em mim", e compreendeu que se confiasse, algo mudaria ligeiramente em seu interior. Estava preparada para isso. Continuava estando mau, mas estava disposta e o desejava, e por uma vez em sua vida faria algo insensato e desatinado, absolutamente atípico nela. Como se lhe tivesse lido os pensamentos, afastou-se um pouco e lhe pôs a enorme mão na face. -Se quer que pare tem que me dizer agora. - disse com uma voz incrivelmente rouca - Não dentro de dez minutos nem dentro de um. Tem que ser agora. Comovida porque ele tomou o tempo para lhe pedir isso, acariciou-lhe a face como ele a ela. Mas quando abriu a boca, a única coisa que conseguiu dizer foi: -Por favor. Nos olhos dele relampejou o desejo e no mesmo instante mudou, como se algo tivesse explodido dentro dele. Desapareceu o amante suave e lânguido, e foi substituído por um homem possuído pelo desejo. Suas mãos estavam em todas as partes, sobre suas pernas, ao redor de sua cintura, lhe acariciando o rosto. E antes que se desse conta, seu vestido estava no chão, ao lado de uma de suas meias. Estava completamente nua; sentiu-se muito estranha, mas ao mesmo tempo muito bem, enquanto ele continuava acariciando-a. O sofá era estreito, mas isso não parecia importar a Benedict enquanto tirava as botas e as calças. Estava sentado junto a ela despindo-se, porque não podia deixar de tocá-la, de acariciá-la. Levou mais tempo despir-se, mas por


outro lado, tinha a estranha sensação de que pereceria aí mesmo caso se separasse dela. Achava que já tinha desejado a uma mulher antes. Achava que tinha necessitado a uma mulher. Mas isso, isso transcendia o desejo e a necessidade. Era algo espiritual; estava em sua alma. Quando terminou de tirar a roupa, voltou a colocar-se em cima dela, e ficou assim durante um estremecido momento para saborear a sensação de têla debaixo, pele com pele, da cabeça aos pés. Estava duro como uma pedra, mais duro do que recordava ter estado antes, mas batalhou com seus impulsos e procurou avançar lentamente. Essa era a primeira vez para ela. Tinha que ser perfeito. E se não perfeito, pelo menos condenadamente fabuloso. Deslizou uma mão entre eles e a tocou. Ela estava preparada, mais que pronta para ele. Introduziu-lhe um dedo, e sorriu de satisfação ao sentir agitarse todo seu corpo e esticar-se ao redor de seu dedo. -Isso é muito... - disse ela com a voz áspera, ofegante - Muito... -Estranho? Ela assentiu. Ele sorriu; um sorriso lento, como o de um gato. - Se acostumará. – assegurou - Tenho a intenção de acostumá-la. Sophie jogou pra trás a cabeça. Isso era loucura, febre. Sentia acrescentarse algo dentro dela, no fundo das entranhas, enrolando-se, desenrolando-se, vibrando, esticando-a. Era algo que precisava sair e liberar-se, algo que a oprimia, mas ainda com toda essa opressão, era espetacularmente maravilhoso, como se estivesse nascendo nesse momento. -Ah, Benedict... – suspirou - Aaah, meu amor. Ele ficou imóvel, só uma fração de segundo, mas isso bastou para que ela compreendesse que a tinha ouvido. Mas não disse nada, simplesmente lhe beijou o pescoço e lhe apertou a perna enquanto se situava entre suas coxas e lhe tocava a entrada com o membro. Ela entreabriu os lábios, emocionada. -Não se preocupe. - disse ele, alegremente, lendo sua mente, como sempre - Irá bem. -Mas... -Acredite-me. - sussurrou ele com os lábios sobre os dela. Ela o sentiu entrar, lentamente. A sensação era de dilatação, de invasão, mas não podia dizer que fosse desagradável. Era... Era... -Está muito séria... - disse ele, lhe acariciando a face.


- É que estou pensando como é a sensação. -Se tem o sangue-frio para fazer isso quer dizer que não o estou fazendo nada bem. Sobressaltada, ela o olhou. Estava lhe sorrindo, com esse sorriso enviesado que nunca deixava de reduzi-la a geleia. -Deixe de pensar. - murmurou ele. -Mas é difícil não... Oooh! - exclamou, revirando os olhos e arqueando-se. Benedict afundou a cabeça em seu pescoço, para que ela não visse sua expressão divertida. Pareceu-lhe que continuar movendo-se seria a melhor maneira de impedir que ela analisasse um momento que deveria ser pura sensação e emoção. E isso fez. Entrando e saindo, foi entrando inexoravelmente até chegar à frágil barreira de sua virgindade. Era a primeira vez que estava com uma virgem, pensou meio carrancudo. Tinha ouvido dizer que doía, que o homem não podia fazer nada para evitar a dor, mas certamente se o fizesse com a maior suavidade, lhe seria menos doloroso. Olhou-a. Ela tinha o rosto rosado e sua respiração era rápida. Tinha os olhos velados, claramente enevoados de paixão. Isso estimulou seu ardor. Desejava-a tanto, que lhe doíam até os ossos. -Isto poderá doer. - mentiu. Doeria. Mas estava esmigalhado entre o desejo de lhe dizer a verdade para que estivesse preparada e o de lhe dizer a versão moderada para que não ficasse nervosa. -Não me importa. - ofegou ela - Continue, por favor. Necessito-o. Baixou a cabeça para lhe dar um último e abrasador beijo ao mesmo tempo em que investia impulsionando-se com os quadris. Sentiu-a esticar-se quando lhe rompeu a membrana, e teve que morder a mão para não gozar nesse mesmo instante. Parecia mais um moço novato de dezesseis anos que um homem experiente de trinta. Produzia-lhe isso. Só ela. Esse pensamento lhe inspirava humildade. Apertando os dentes para controlar seus impulsos mais baixos, começou a mover-se dentro dela, com lentos embates, quando o que em realidade desejava era desenfrear-se totalmente. -Sophie, Sophie... - sussurrou, e continuou repetindo seu nome em silêncio para recordar que desta vez era para ela. Estava aí para satisfazer às necessidades dela, não as dele.


Seria perfeito. Tinha que ser perfeito. Necessitava que gostasse disso. Necessitava que ela o amasse. Ela já tinha começado a mover-se, cada vez mais rápido, e cada movimento desencadeava seu próprio frenesi. Queria fazê-lo mais pausado, mais suave, por ela, mas lhe estava condenadamente cada vez mais difícil agüentar-se. Sentia suas mãos por toda parte, nos quadris, nas costas, lhe apertando os ombros. -Sophie. - gemeu outra vez. Não poderia conter-se muito tempo mais. Não tinha a força, não tinha a nobreza, não era... -Oooooooohhhh! Ela estremeceu, arqueando o corpo e soltando um gritinho. Enterrou-lhe os dedos nas costas, arranhando sua pele, mas não se importou. A única coisa que sabia era que ela tinha chegado a sua liberação, e isso era fantástico e, pelo amor de Deus, por fim podia... - Aaahhhh! Explodiu. Nenhuma outra palavra podia descrevê-lo. Por uns momentos, não pôde deixar de seguir movendo-se, não pôde deixar de estremecer, e de repente, em um instante, desmoronou, vagamente consciente de que a estava esmagando; mas era incapaz de mover um só músculo. Deveria lhe dizer algo, lhe dizer algo sobre como maravilhoso tinha sido. Mas tinha a língua torpe, sentia pesados os lábios e, além disso, mal podia abrir os olhos. As palavras bonitas teriam que esperar. Só era um homem ao fim e ao cabo, e tinha que recuperar o fôlego. -Benedict? - sussurrou ela. Ele deixou cair a mão, roçando-a ligeiramente. Foi unicamente o que conseguiu fazer para lhe indicar que a tinha ouvido. -Sempre é assim? Ele moveu a cabeça de um a outro lado, com a esperança de que ela sentisse o movimento e entendesse que queria dizer não. Ela suspirou e pareceu afundar-se mais nas almofadas. - Já desconfiava disso. Benedict lhe beijou o lado da cabeça, que foi o mais longe que conseguiu chegar. Não, nem sempre era assim. Tinha sonhado com ela muitas vezes, mas isso... Isso... Isso era muito mais que os sonhos.


Sophie não teria acreditado possível, mas devia ter ficado adormecida, ainda com o sensacional peso de Benedict esmagando-a no sofá e lhe fazendo um pouco difícil respirar. Ele devia ter ficado adormecido também, e ao despertar despertou a ela, com a repentina rajada de ar fresco que lhe deu no corpo ao levantar-se de cima. Ele a cobriu com uma manta antes que ela tivesse a possibilidade de sobressaltar-se por sua nudez. Sorriu ao mesmo tempo em que ruborizou, porque não era muito que se podia fazer para lhe aliviar o sobressalto. E não era que se arrependesse do que acabava de fazer. Mas uma mulher não perde a virgindade em um sofá sem sentir um pouco de vergonha. Isso simplesmente não é possível. De qualquer modo, lhe colocar a manta foi um gesto de consideração, embora não surpreendente. Benedict era um homem gentil. Mas estava claro que ele não compartilhava seu recato, pensou, porque não fez nem ameaça de cobrir-se quando atravessou a sala para ir recolher a roupa que jogara de qualquer maneira. Olhou-o descadaramente enquanto ele punha as meias. Ele estava erguido e orgulhoso, e o sorriso com que a obsequiou quando a surpreendeu olhando-a foi cálido e franco. Deus santo, como amava a esse homem. -Como se sente? - perguntou ele. -Muito bem. Estupendamente bem. – sorriu tímida - Esplendidamente. Ele recolheu sua camisa e colocou um braço. -Enviarei alguém para recolher suas coisas. Ela pestanejou. -O que quer dizer? -Não se preocupe, escolherei alguém que seja discreto. Sei que poderia ser violento para você agora que conhece minha família. Sophie apertou a manta contra o corpo, desejando que sua roupa não estivesse fora de seu alcance. Porque repentinamente se sentiu envergonhada. Fizera o que sempre tinha jurado não fazer, e agora Benedict supunha que ia ser sua amante. E por que não teria que supô-lo? Era uma hipótese muito natural. -Por favor, não envie a ninguém. - disse com a voz débil. Ele a olhou surpreso. -Prefere ir você? -Prefiro que minhas coisas continuem onde estão. - disse docemente. Era mais fácil dizer isso, que lhe dizer que não se converteria em sua amante.


Uma vez, podia perdoar-se uma vez, podia inclusive ser uma lembrança íntima. Mas uma vida com um homem que não era seu marido, isso sim sabia que não o poderia fazer. Olhou o ventre, rogando que não houvesse ali um filho que nasceria ilegítimo. -O que disse? - perguntou ele, olhando atentamente seu rosto. - Eu disse, - ela engoliu em seco para passar o nó que lhe tinha formado na garganta - que não posso ser sua amante. -E como chama a isto? - perguntou ele entre dentes, agitando os braços para ela. -Chamo um engano de julgamento. - respondeu ela, sem olhá-lo nos olhos. -Ah, diz que sou um engano de julgamento? - disse ele em um tom exageradamente agradável. - Bem. Acredito que nunca antes fui um engano de julgamento de ninguém. -Sabe que não é isso o que quis dizer. -Sim? - pegou uma bota e se sentou no braço de uma poltrona para pô-la Francamente, querida minha, já não sei que quer dizer. -Não deveria ter feito isto. Ele virou bruscamente a cabeça para olhá-la, a fúria que despediam seus olhos brigava com a suavidade de seu sorriso. -Agora sou um "não deveria"? Excelente. Inclusive melhor que um engano de julgamento. Soa muito mais malvado, não acha? Um engano é simplesmente um equívoco. -Não há nenhuma necessidade que trate isto de um modo tão repugnante. Ele inclinou a cabeça como se estivesse considerando essas palavras. -Fiz isso? Eu achava que agia de modo mais amistoso e compreensivo. Ouça, nem gritos nem chiados. -Preferiria os gritos e chiados a isto. Ele recolheu o vestido e o lançou, sem muita suavidade. -Bem, nem sempre temos o que preferimos, não é senhorita Beckett? Eu posso dar fé disso. Ela agarrou o vestido e o colocou sob a manta, com a esperança de encontrar a maneira de vesti-lo sem retirar a manta. -Será um excelente truque se descobrir a forma de fazê-lo. - disse ele, olhando-a com ar de superioridade. Ela o olhou indignada. -Não lhe pedirei que se desculpe desse insulto.


-Bem, isso é um alívio. Duvido de minha capacidade para encontrar as palavras. -Por favor, não seja tão sarcástico. -Não está em posição para me pedir nada. - respondeu ele, com um sorriso muito zombador. -Benedict... Ele se inclinou sobre ela com um sorriso grosseiramente impudico. -A não ser, claro, que me peça que volte a me deitar com você, o que faria com muito prazer. Ela guardou silêncio. -Sabe como sinto ter sido rechaçado? - continuou ele, adoçando um tanto a expressão de seus olhos - Quantas vezes acha que pode me rechaçar até que eu deixe de tentá-lo? -Não é que eu queira... -Vamos, deixe essa velha desculpa. Está gasta. Se quisesse viver comigo, viveria comigo. Se nega é por que não quer. -Não compreende. - disse ela em voz baixa - Você sempre esteve em uma posição em que pode fazer o que quer. Alguns não têm esse luxo. -Tonto de mim. Pensei que o que te oferecia era justamente esse luxo. -O luxo de ser sua amante. - disse ela amargamente. Ele cruzou os braços, franzindo os lábios. -Não fará nada que já não tenha feito. Ela decidiu passar por cima do insulto, pois não era mais do que merecia. Deitara-se com ele. Por que não ia pensar ele que seria sua amante? -Me deixei levar, - contestou ao fim - cometi um engano. Mas isso não significa que deva cometê-lo outra vez. -Posso lhe oferecer uma vida melhor. - disse ele em voz baixa. -Não serei sua amante. - respondeu ela, negando com a cabeça - Não serei a amante de nenhum homem. Ele entreabriu os lábios, aniquilado ao entender o sentido de suas palavras. Olhou-a incrédulo. -Sophie, sabe que não posso me casar com você. -Claro que sei. - disparou ela - Sou uma criada, não uma idiota. Benedict tratou de ficar em sua pele por um momento. Sabia que ela desejava respeitabilidade, mas tinha que entender que ele não podia dar-lhe. -Então por que...? -Seria difícil para você também se me casasse com você. - disse docemente - Não a aceitariam. A alta sociedade sabe ser cruel.


Escapou à Sophie um risinho oco. -Sei... - disse, sorrindo sem humor - Pode estar certo de que sei. -Então por que...? -Faça-me um favor, - interrompeu ela desviando o rosto para não continuar olhando-o. - procura alguém para se casar. Encontre uma pessoa aceitável, que o faça feliz, e então me deixe em paz. Essas palavras deram no prego. Repentinamente Benedict recordou à dama do baile de máscaras. Ela era de seu mundo, de sua classe. Teria sido aceitável. E enquanto olhava Sophie, que estava encolhida no sofá tratando de não olhá-lo, caiu na conta de que essa era a mulher que sempre tinha visto em sua mente quando pensava no futuro, quando se imaginava com uma esposa e filhos. Tinha passado os dois últimos anos com um olho posto na porta de cada salão em que se encontrasse, sempre esperando que entrasse sua dama do vestido prateado. Às vezes se sentia tolo, inclusive estúpido, mas nunca tinha conseguido apagá-la de seus pensamentos. Tampouco tinha conseguido se livrar do sonho, daquele em que se casava com ela e viviam felizes para sempre. Era uma fantasia tola para um homem de sua reputação, adocicada e muito sensível, mas não tinha podido evitá-la. Esse era o resultado de criar-se em uma família numerosa e amorosa: queria ter uma família igual. Mas a misteriosa mulher do baile tinha sido apenas algo mais que uma miragem. Demônios, se nem sequer sabia como se chamava. Em troca Sophie estava ali. Não podia casar-se com ela, mas isso não significava que não pudessem viver juntos. Isso significaria transigência, principalmente por parte dela, reconheceu. Mas era possível. E certamente seriam mais felizes do que se estivessem separados. -Sophie, eu sei que a situação não é ideal... -Não. - interrompeu ela, em voz muito baixa, apenas audível. -Se quisesse me escutar... -Por favor, não. -Mas se não... -Basta! - exclamou ela, elevando perigosamente o volume de sua voz. Tinha os ombros tão tensos que quase lhe tocavam as orelhas, mas Benedict continuou de todos os modos. Amava-a; necessitava-a. Tinha que fazêla ser razoável. -Sophie, sei que estaria de acordo se...


- Não quero ter um filho ilegítimo! - gritou ela, ficando de pé e tratando de envolver-se na manta - Não quero! Amo-o, mas não tanto para isso. A ninguém amo tanto. -Bem, poderia ser já muito tarde para isso. - murmurou ele lhe olhando o ventre. -Sei, - respondeu ela em voz baixa - e isso já está me roendo por dentro. - Os remorsos costumam fazer isso. -Não me arrependo do que fizemos. - disse ela desviando a vista - Tomara pudesse. Sei que deveria, mas não posso. Benedict se limitou a contemplá-la. Desejava entendê-la, mas não conseguia compreender como podia ser tão inflexível em sua negativa a ser sua amante e ter seus filhos e ao mesmo tempo não lamentar haver-se deitado com ele. Como podia dizer que o amava? Isso fazia ainda mais intensa a dor. -Se não geramos um filho, - continuou ela em voz baixa – me considerarei muito afortunada. E não quero voltar a tentar a sorte. -Não, só me tentará. - disse ele, detestando a brincadeira que detectou em sua voz. Ela fez como se não o tivesse ouvido e amassou mais a manta, olhando sem ver um quadro da parede. -Terei uma lembrança que mimarei sempre. E por isso, suponho, não posso me arrepender do que fizemos. -Não a esquentará de noite. -Não, - concedeu ela tristemente - mas encherá meus sonhos. -É uma covarde. Uma covarde por não tratar de tornar realidade esses sonhos. Ela se virou para olhá-lo. -Não, covarde não. - disse com a voz extraordinariamente serena dada a ferocidade com que ele a olhava - O que sou é uma filha ilegítima, uma bastarda. E antes que diga que não lhe importa, me permita que te diga que sim. E a todos outros importa. Não passou um só dia sem que me recorde de algum jeito a ilegitimidade de meu nascimento. -Sophie... -Se tivesse uma filha, - continuou ela, com a voz um pouco quebrada sabe quanto a amaria? Mais que a minha vida, mais que a minha respiração, mais que tudo. Como poderia fazer a minha filha o dano que me fizeram? Como poderia submetê-la ao mesmo tipo de sofrimento? -Rechaçaria a sua filha?


-É claro que não! - Então não sentiria o mesmo tipo de sofrimento. - disse ele, encolhendo os ombros - Porque eu tampouco a rechaçaria. -Não entende... - disse ela, acabando com um soluço abafado. Ele fez como se não a tivesse ouvido. -Tenho razão em supor que a rechaçaram seus pais? Ela sorriu irônica. -Não exatamente. Desentenderam-se seria uma melhor definição. -Sophie, - disse ele correndo a abraçá-la - não tem por que repetir os enganos de seus pais. -Eu sei. - respondeu ela, sem recusar o abraço, mas sem o corresponder tampouco - E por isso não posso ser sua amante. Não quero reviver a vida de minha mãe. -Não a rev... -Dizem que uma pessoa inteligente é aquela que aprende com seus enganos. -interrompeu ela com voz enérgica, silenciando-o - Mas uma pessoa verdadeiramente inteligente é aquela que aprende com os enganos de outros. se separou dele e levantou o rosto para olhá-lo - Agrada-me pensar que sou uma pessoa verdadeiramente inteligente. Por favor, não me tire isso. Ele viu em seus olhos uma dor desesperada, quase evidente, que lhe golpeou o peito e o fez retroceder um passo. -Queria me vestir. - disse ela voltando-se até lhe dar as costas - Acho que deveria sair. Olhou suas costas uns segundos e logo disse: -Podia fazê-la mudar de opinião. Poderia beijá-la e você... -Não o faria. - respondeu ela sem mover um músculo - Isso não está em você. -Está. -Me beijaria e logo se odiaria. E isso só levaria um segundo. Sem dizer outra palavra ele saiu, e deixou que o ruído da porta se fechando indicasse sua saída. Então Sophie, com as mãos trêmulas, deixou cair a manta e se jogou no sofá, manchando para sempre o delicado tecido com suas lágrimas.


Capítulo 18 Estas duas últimas semanas escassearam-se as possibilidades para as senhoritas interessadas no matrimônio e suas mães. Para começar, não é abundante a colheita de solteiros esta temporada, posto que dois dos melhores partidos da temporada passada, o duque do Ashbourne e o conde do Macclesfield, já estão comprometidos. Para piorar as coisas, brilharam por sua ausência os dois irmãos Bridgerton solteiros (descontando Gregory, pois com seus dezesseis anos não está em posição de ir a auxílio de nenhuma das pobres daminhas do mercado do matrimônio). Colin, conforme se inteirou esta cronista, está fora da cidade, possivelmente no Gales ou Escócia (embora ninguém demonstre saber por que pode ter ido ao Gales ou Escócia na metade da temporada). A história do Benedict é mais desconcertante. Pelo visto está em Londres, mas evita todas as reuniões da boa sociedade em favor de meios menos refinados. Para ser fiel à verdade, esta cronista não deveria causar a impressão de que o senhor Bridgerton passou todas suas horas de vigília em desenfreada libertinagem. Se os informes são corretos, passou estas duas semanas em seus aposentos em Brutton Street. Como não houve nenhum rumor de que esteja doente, esta cronista só pode supor que finalmente chegou à conclusão de que a temporada em Londres é absolutamente aborrecida e não vale seu tempo. Homem inteligente, sem dúvida. Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 9 de junho de 1817. Sophie já estava duas semanas inteiras sem ver Benedict. Não sabia se deveria sentir prazer, surpresa ou decepção. Não sabia nada esses dias. A metade do tempo se sentia como se nem sequer conhecesse a si mesma. Estava certa de que tinha tomado a decisão correta ao negar novamente a proposta de Benedict. Isso sabia na cabeça, e embora suspirasse pelo homem que amava, sabia também em seu coração. Tinha sofrido muito por causa de sua bastardia para arriscar-se a impor o mesmo sofrimento a um menino ou menina, sobre tudo se fosse filho ou filha dela. Não, isso não era certo. Arriscara-se uma vez. E embora o tentasse não podia lamentá-lo; a lembrança era muito preciosa. Mas isso não significava que devesse voltar a fazê-lo.


Mas se estava tão segura de que tinha feito o correto, por que lhe doía tanto? Sentia como se o coração estivesse rompendo-se perpetuamente. Cada dia se rasgava um pouco mais, e cada dia se dizia que a dor não podia piorar, que seu coração já tinha acabado de romper-se, que já estava total e absolutamente quebrado, e, entretanto cada noite chorava até ficar adormecida, sentindo falta de Benedict. E cada dia se sentia pior. A isto se somava seu terror a dar um passo fora da casa, o que intensificava sua angústia e nervosismo. Estava certa que Posy andava procurando-a, e certamente era melhor que não a encontrasse. E não era que acreditasse que Posy ia revelar sua presença em Londres para Araminta; conhecia-a bastante bem, e estava segura de que nunca faltaria a uma promessa intencionalmente. E o gesto de assentimento que lhe fez aquela tarde enquanto ela negava com a cabeça, podia ser considerado uma promessa. Mas, por mais fiel que fosse Posy em seu coração para cumprir promessas, desgraçadamente sua boca a traía. E não era difícil imaginar uma situação, muitas situações em realidade, em que Posy poderia deixar sair acidentalmente a revelação de que ela estava em Londres. O que significava que sua única vantagem era que Posy não sabia onde estava vivendo. Podia supor que essa tarde ela só ia passando por aí dando um passeio, ou que talvez tivesse ido espiar a Araminta. E, sem dúvida alguma, esse último parecia horrivelmente mais acreditável que a verdade: que o que ocorreu foi que a chantagearam para que tomasse o posto de criada justo na casa ao lado. Com tudo isto, tinha passado os dias sacudida por emoções que passavam de melancolia a nervosismo, e, de sofrimento pelo amor frustrado a absoluto medo. Porém se arrumou para ocultar suas emoções, mas se dava conta de que estava distraída e mais calada, e sabia que lady Bridgerton e suas filhas também o tinham notado. Olhavam-na com expressões preocupadas e lhe falavam com extraordinária amabilidade. E viviam lhe perguntando por que não ia tomar o chá com elas. Ia a toda pressa com seu cesto de costura pelo corredor em direção a seu quarto, onde a esperava um montão de roupa para arrumar, quando a viu a senhora Bridgerton. -Sophie! Está aí! Deteve-se e conseguiu sorrir ao lhe fazer uma reverência de saudação.


- Boa tarde, lady Bridgerton. - Boa tarde, Sophie. Estive procurando-a por toda a casa. Ela a olhou sem expressão. Ao que parecia, ultimamente o fazia muitíssimo. Não era capaz de concentrar a atenção em nada. -Sim? -Sim. Queria lhe perguntar por que não foi tomar o chá conosco em toda a semana. Sabe que sempre está convidada quando estamos em família. Sophie sentiu subir o calor às faces. Tinha evitado a hora do chá porque lhe era muito difícil estar na mesma habitação com todas as Bridgerton ao mesmo tempo e não pensar em Benedict; todas se pareciam muito com ele . Além disso, sempre que estavam juntas se comportavam como uma família. Isso a fazia pensar em tudo o que não tinha ela, recordava-lhe o que nunca tinha tido: uma família própria. Alguém a quem amar, alguém que a amasse, tudo dentro da respeitabilidade do matrimônio. Sabia que havia mulheres capazes de permutar a respeitabilidade pela paixão e o amor. Uma grande parte dela desejava ser uma dessas mulheres. Mas não o era. O amor não era capaz de vencer a tudo, ao menos em seu caso. - Tenho estado muito ocupada. - disse finalmente. Lady Bridgerton se limitou a lhe sorrir, com um leve sorriso vagamente interrogante, impondo um silêncio que a obrigava a dizer algo mais. -Com os remendos. - acrescentou. -Que terrível para você. Não sabia que tínhamos feito tantos buracos nas meias. -Nãoo, não é isso! - se apressou a dizer ela, arrependendo-se imediatamente; tinha deixado escapar uma desculpa - Tenho que remendar coisas minhas também. - improvisou. Engoliu em seco ao compreender tardiamente seu engano. Lady Bridgerton sabia muito bem que não tinha roupa fora da que ela mesma lhe tinha presenteado. E que toda essa roupa estava em perfeitas condições. Além disso, era de muito mau gosto que ela arrumasse sua roupa durante o dia, quando seu dever era atender às meninas. Lady Bridgerton era uma senhora compreensiva; provavelmente não se importaria, mas isso ia contra seu próprio código ético. Tinham-lhe dado um trabalho, um bom, e embora entranhasse rasgar o coração dia após dia, ela se orgulhava de seu trabalho. -Compreendo. - disse lady Bridgerton, com esse enigmático sorriso ainda no rosto - Certamente poderia levar esse trabalho ao chá. -Ah, mas isso nem o sonharia. - Mas acabo de te dizer que pode.


E a julgar pelo tom de sua voz, Sophie compreendeu que o que queria dizer era que "devia". -Pois não. - falou, e a seguiu à sala de estar de cima. Estavam todas as meninas aí, em seus lugares habituais, brigando, sorrindo e gracejando (embora, felizmente, não se jogando pãezinhos). Também estava a filha mais velha, Daphne, a duquesa do Hasting, com sua filha menor, Caroline, nos braços. -Sophie! - exclamou Hyacinth sorrindo de orelha a orelha - Pensei que estava doente. - Mas se me viu esta manhã quando te penteei. -Sim, mas estava muito estranha. Sophie não encontrou nenhuma resposta adequada a isso, porque tinha estado estranha; não podia contradizer a verdade. Portanto, simplesmente tomou assento, e assentiu quando Francesca lhe ofereceu uma xícara de chá. -Penélope Featherington disse que viria hoje. - disse Eloise a sua mãe quando Sophie estava tomando seu primeiro gole. Sophie não conhecia pessoalmente Penélope, mas lady Whistledown escrevia com frequência a respeito dela. Também sabia que era íntima amiga de Eloise. -Alguém percebeu que faz tempo que Benedict não vem nos ver? perguntou Hyacinth. Sophie picou o dedo, mas conseguiu conter a exclamação de dor. -Tampouco foi nos ver, a Simon e a mim. - disse Daphne. -Bem, prometeu-me que me ajudaria em aritmética, - grunhiu Hyacinth - e faltou a sua palavra. -Com certeza não recordou - falou lady Bridgerton diplomaticamente Talvez se lhe enviasse uma nota. -Ou simplesmente lhe golpeasse a porta. - disse Francesca, erguendo ligeiramente as sobrancelhas como estranhando que não vissem o evidente Não vive tão longe. -Sou uma mulher solteira. - bufou Hyacinth - Não posso visitar um solteiro em sua casa. Sophie tossiu. -Só tem quatorze anos. - disse Francesca, desdenhosa. -De qualquer maneira! -Deveria pedir ajuda ao Simon. – sugeriu Daphne - É muito melhor com os números que Benedict.


-Sabe? Tem razão. - disse Hyacinth olhando a sua mãe, depois de lançar um olhar furioso à Francesca - Sinto pelo Benedict, já não me é de nenhuma utilidade. Todas se puseram a rir, porque sabiam que era uma brincadeira. Todas à exceção de Sophie, que achava que já não sabia rir. -Agora a sério, - continuou Hyacinth - para que é bom? Simon é melhor com os números e Anthony sabe mais história. Colin é mais divertido, claro, e... -Arte. - interrompeu Sophia em tom áspero, irritada porque a família de Benedict não via sua individualidade nem seus pontos fortes. -O que disse? - perguntou Hyacinth, olhando-a surpreendida. -É bom em arte. - repetiu Sophie - Melhor que qualquer um de vocês, imagino. Isso atraiu a atenção de todas, porque embora Sophie as tivesse deixado ver seu engenho naturalmente agudo, normalmente falava com voz suave e jamais havia dito uma palavra em tom duro a nenhuma delas. -Não sabia que desenhava. - disse Daphne, com tranquilo interesse - Ou pinta? Sophie a olhou. Das mulheres Bridgerton era a que menos conhecia, mas teria sido impossível não ver a expressão de aguda inteligência em seus olhos. Daphne sentia curiosidade pelo talento oculto de seu irmão, estranhava sua ignorância a respeito e, principalmente, desejava saber como era que ela sabia. Em menos de um segundo, Sophie viu tudo isso nos olhos da jovem duquesa. E em menos de um segundo compreendeu que tinha cometido um engano. Se Benedict não havia dito nada a sua família sobre sua arte, não correspondia a ela dizê-lo. -Desenha. - disse finalmente, em um tom que esperava fosse o bastante seco para impedir mais perguntas. E o conseguiu. Ninguém disse uma palavra, embora cinco pares de olhos continuassem lhe olhando atentamente o rosto. -Faz desenhos. - continuou. Olhou os rostos, uma a uma. Eloise estava pestanejando rapidamente. Lady Bridgerton não pestanejava absolutamente. - Desenha muito bem. - continuou, dando-se pontapés mentalmente enquanto falava. Havia algo no silêncio das Bridgerton que a impulsionava a encher o vazio. Finalmente, quando o momento de silêncio mais longo entre elas encheu o espaço de um segundo, lady Bridgerton clareou a garganta e disse:


-Me encantaria ver um de seus desenhos. - levou o guardanapo aos lábios, embora não tivesse tomado nem um só gole de chá. Desde que ele queira me mostrar, evidentemente. Sophie se levantou. - Acho que devo ir. Os olhos de lady Bridgerton a cravaram onde estava. - Fique, por favor. - disse com uma voz que era veludo sobre aço. Sophie voltou a sentar-se. - Acho que ouço Penélope! - exclamou Eloise levantando-se de um salto. -Não a ouviu. - disse Hyacinth. -Por que ia mentir? -Não sei, mas... Apareceu o mordomo na porta. -A senhorita Penélope Featherington. - anunciou. Eloise olhou Hyacinth com os olhos dilatados como dizendo "O vê?". -É um mau momento? - perguntou Penélope. -Não, - respondeu Daphne, com um leve sorriso vagamente divertido - só estranho. -Ah. Bom, suponho que poderia voltar depois. -Isso nem pensar. - disse lady Bridgerton - Faça o favor de se sentar para tomar chá. Sophie observou a jovem enquanto tomava assento no sofá, ao lado de Francesca. Penélope não era nenhuma refinada beldade, mas sim muito atraente a sua nada complicada maneira. Tinha o cabelo castanho avermelhado e as faces ligeiramente polvilhadas com sardas. Sua tez era um pouco cítrica, embora talvez isso tivesse mais a ver com seu nada atraente vestido amarelo que com qualquer outra coisa. Pensando bem, acreditou recordar ter lido algo na folha de lady Whistledown a respeito dos feios vestidos de Penélope. Que lástima que a pobre moça não pudesse convencer a sua mãe para que a deixasse usar a cor azul. Mas enquanto observava dissimuladamente Penélope se deu conta de que esta a estava examinando sem muita dissimulação. -Já nos vimos? - lhe perguntou Penélope de repente. Assaltou Sophie uma horrorosa sensação, que lhe pareceu premonitória, ou talvez de algo... Conhecido, já visto. -Creio que não. - se apressou a responder. Penélope continuou olhando-a sem pestanejar. - Tem certeza?


-Bem, hum... Não vejo como poderíamos ter nos conhecido. Penélope fez uma curta expiração e agitou a cabeça, para limpá-la de teias de aranhas. -Sem duvida tem razão. Mas há algo em você que me é conhecido. -Sophie é nossa nova criada. - disse Hyacinth como se isso explicasse tudo - Normalmente deve tomar o chá conosco quando estamos em família. Sophie observou Penélope enquanto respondia algo, e repentinamente recordou. Sim tinha visto Penélope antes! Foi no baile de máscaras, talvez não mais de dez segundos antes de conhecer Benedict. Acabava de entrar no salão, e os jovens que se apressaram a rodeá-la ainda foram caminhando com ela. Penélope estava ali, vestida com um traje verde bastante estranho e um curioso chapéu; e não levava máscara. Ela estava olhando-a, tratando de determinar do que ia disfarçada, quando um jovem se chocou com Penélope e esta quase caiu ao chão. Ela estendeu a mão e a ajudou a recuperar o equilíbrio. E só tinha conseguido lhe dizer algo assim como "pronto" quando a rodearam mais jovens e as separaram. Então apareceu Benedict e ela só teve olhos para ele. Até esse momento tinha esquecido Penélope, e a abominável maneira como a trataram os jovens cavalheiros. E era evidente que a ocasião tinha ficado enterrada na memória de Penélope também. -Sem dúvida devo estar equivocada. - disse Penélope pegando a xícara que lhe oferecia Francesca. - Não é seu rosto, exatamente, mas sim sua maneira de estar, se é que isso tem algum sentido. Sophie decidiu que era necessária uma intervenção persuasiva, de modo que pôs seu melhor sorriso social e disse: Isso tomarei como um elogio, pois estou segura de que as damas com que se relaciona são verdadeiramente elegantes e amáveis. Mas no instante em que fechou a boca compreendeu que se excedeu. Francesca a estava olhando como se lhe tivessem brotado chifres, e se curvaram as comissuras da boca de lady Bridgerton quando disse: -Ah, Sophie, juro que essa é a frase mais longa que disse em duas semanas. Sophie levou a xícara aos lábios para ocultar um pouco o rosto. -Não me tenho sentido muito bem. -Oh! - exclamou alarmada Hyacinth - Espero que não se sinta muito mal porque queria lhe pedir que me ajudasse esta tarde.


-Como não. - disse Sophie, impaciente por desviar o rosto de Penélope, que continuava observando-a como se fosse um quebra-cabeça humano - O que necessita? -Prometi entreter meus primos esta tarde. -Ah, pois sim. - disse lady Bridgerton, deixando a taça na mesa - Quase tinha esquecido. Hyacinth assentiu. -Poderia me ajudar? São quatro. Muitos para mim. -Claro que sim. Que idades têm? Hyacinth encolheu os ombros. -Entre seis e dez anos. - respondeu lady Bridgerton, olhando desaprovadora para Hyacinth - São os filhos de minha irmã mais nova. acrescentou, dirigindo-se à Sophie. - Me avise quando chegarem, - disse Sophie ao Hyacinth - eu adoro crianças e a ajudarei com muito prazer. -Excelente! - exclamou Hyacinth, juntando as mãos - São uns pirralhos tão ativos que a mim só esgotariam. -Hyacinth, não é uma velha decrépita. - disse Francesca. -Quando foi a última vez que passou duas horas com quatro meninos menores de dez anos? -Basta. - disse Sophie, rindo pela primeira vez desde duas semanas - Eu a ajudarei. Ninguém se esgotará. E você deveria vir também Francesca. - Vamos nos divertir muito, estou certa. -É você...? - começou Penélope, mas deixou sem terminar a pergunta Nada, não importa. Mas quando Sophie a olhou, Penélope continuava olhando-a com uma expressão perplexa. De repente abriu a boca, fechou-a e voltou a abri-la para dizer: -Sei que a conheço. -E com certeza tem razão, - disse Eloise, sorrindo satisfeita - Penélope jamais esquece um rosto. Sophie empalideceu. -Se sente mal? - perguntou lady Bridgerton, inclinando-se - Está muito pálida. -Acho que algo me caiu mal. - se apressou a mentir Sophie, pondo a mão no estômago, para dar mais veracidade a suas palavras - Talvez o leite estivesse talhado.


-Ai, Deus. - exclamou Daphne, carrancuda, olhando a seu bebê. - Dei um pouco à Caroline. -A mim pareceu bom. - replicou Hyacinth. -Poderia ser algo que comi esta manhã. - disse Sophie, para que Daphne não se preocupasse - De qualquer modo, acho que vou sair um momento. - se levantou e deu um passo para a porta - Se lhe parecer bem, lady Bridgerton. -É claro. Espero que melhore logo. -Com certeza sim. - respondeu Sophie, sinceramente. Já se sentia melhor, logo que saiu da linha de visão de Penélope Featherington. -Irei procurá-la quando chegarem meus primos. - lhe disse Hyacinth. -Caso se sinta melhor. - acrescentou lady Bridgerton. Sophie assentiu e se apressou a sair, mas no instante em que saía conseguiu ver Penélope observando-a com uma expressão tão atenta que a sobressaltou uma horrorosa sensação de medo. Benedict estava de mau humor há duas semanas. E esse mau humor estava a ponto de piorar, pensou, caminhando lentamente para a casa de sua mãe. Tinha evitado ir a casa porque não queria ver Sophie; não queria ver sua mãe, que perceberia seu mau humor e lhe faria perguntas; não queria ver Eloise, que perceberia o interesse de sua mãe e também tentaria interrogá-lo; não queria ver... Demônios, não queria ver ninguém. E dada à forma como tinha estado massacrando as cabeças de seus criados de palavras, isso sim, (embora de tanto em tanto com os punhos em seus sonhos), o resto do mundo faria bem em não querer vê-lo tampouco. Mas quis sua sorte que no instante em que punha o pé no primeiro degrau da escadaria, ouviu gritar seu nome, e ao girar-se, viu seus dois irmãos adultos caminhando para ele pela calçada. Escapou-lhe um gemido. Ninguém o conhecia melhor que Anthony e Colin, e não havia a mínima possibilidade de que estes não percebessem nem comentassem algo como um coração quebrado. - Faz séculos que não o vejo. - disse Anthony - Onde esteve? -Por aqui e por lá. Em casa, principalmente. E você onde esteve? perguntou a Colin. -Em Gales. -Em Gales? Mas como? -Gostei disso - respondeu Colin, encolhendo os ombros - Nunca tinha estado lá.


-A maioria das pessoas necessitaria de um motivo um pouco mais irresistível para partir no meio da temporada. - comentou Benedict. -Eu não. Benedict o olhou fixamente. Anthony o olhou fixamente. -Bem, muito bem. - disse Colin aborrecido - Precisava me afastar. A mãe iniciou comigo esse porco assunto do matrimônio. -Porco assunto do matrimônio? - repetiu Anthony, sorrindo divertido Asseguro que o defloramento da própria esposa não tem nada de porco. Benedict manteve a expressão escrupulosamente impassível. Tinha encontrado uma mancha de sangue em seu sofá depois que fizera amor com Sophie. Tinha-lhe posto uma almofada em cima, esperando que quando algum dos criados a visse tivesse esquecido que tinha estado com uma mulher ali. Tinha ilusão de acreditar que ninguém do pessoal tinha estado escutando na porta nem fofocando, mas a própria Sophie lhe contou uma vez que em geral os criados sabiam tudo o que ocorria em uma casa, e ele tendia a pensar que tinha razão nisso. Mas ruborizou, e sentiu acaloradas as faces, nenhum de seus irmãos o notou, porque não disseram nada, e se havia algo na vida tão certo como, digamos, que o sol sai pelo este, era que um Bridgerton jamais desperdiçava a oportunidade de gracejar e atormentar a outro Bridgerton. -Não pára de me falar de Penélope Featherington. - resmungou Colin Vamos, conheço a moça desde que nós dois levávamos calças curtas, não é, desde que eu levava calças curtas ao menos. Ela usava... - franziu mais o sobrecenho porque seus dois irmãos estavam rindo - Levava o que fosse que usam as crias. -Vestidos? - acudiu Anthony, generosamente. -Saias? - sugeriu Benedict. -Do que se trata, - interrompeu Colin energicamente - é de que a conheço de toda a vida e lhes posso assegurar que não é provável que me apaixone por ela. -Se casarão antes do ano. - disse Anthony a Benedict. -Anthony! - bradou Colin, cruzando os braços. -Talvez dentro de dois. - disse Benedict - É jovem ainda. -Diferentemente de você, - replicou Colin - por que a mãe me assedia , digo eu? Bom Deus, você tem trinta e um. -Trinta! -De qualquer maneira, o lógico seria que você levasse a maior parte do assédio.


Benedict franziu o cenho. Desde há um tempo sua mãe tinha estado atipicamente reservada em suas opiniões sobre ele e o matrimônio e sobre por que devia casar-se e logo. Claro que essas últimas semanas ele tinha evitado a casa de sua mãe como à peste, mas inclusive antes disso não lhe havia dito nenhuma palavra sobre o assunto. Era muito estranho. -Em todo caso, - disse grunhindo Colin - não vou casar logo, e certamente não vou me casar com Penélope Featherington. -Ah! Era um "ah" feminino, e sem sequer olhar, Benedict compreendeu que estava a ponto de experimentar um dos momentos mais violentos de sua vida. Atemorizado, levantou a cabeça e se virou para a porta. Ali estava Penélope Featherington, emoldurada à perfeição e por sorte à porta aberta, seus lábios entreabertos pela surpresa, seus olhos cheios de pena. E nesse momento ele compreendeu o que talvez tivesse sido muito estúpido (e estupidamente masculino) para ver: Penélope Featherington estava apaixonada por seu irmão. Colin pigarreou. -Penélope, - disse, com uma vozinha chiada, como se tivesse retrocedido dez anos e estivesse em plena puberdade - hé.... alegra-me vê-la. Olhou a seus irmãos, esperando que o salvassem dizendo algo, mas os dois tinham decidido não intervir. Benedict fez um gesto de dor para si mesmo. Esse era um desses momentos que simplesmente não se podiam salvar. -Não sabia que estava aí. - continuou Colin, hesitante. - Isso é evidente. - respondeu Penélope, mas sem muita energia. Colin engoliu em seco. - Veio ver Eloise? -Me convidaram. - assentiu ela. -Claro que a convidaram! - se apressou a dizer ele - Claro que a convidaram! É uma fabulosa amiga da família. Silêncio. Horrível, incômodo silêncio. -Como se fosse vir sem convite. - sussurrou Colin. Penélope não disse nada. Tratou de sorrir, mas não conseguiu. Finalmente, quando Benedict pensou que a moça ia passar veloz junto a eles e pôr-se a correr rua abaixo, ela olhou para Colin e disse: -Nunca lhe pedi que se casasse comigo. As faces do Colin se tingiram de um vermelho mais forte que Benedict tivesse imaginado possível. Abriu a boca, mas não lhe saiu nenhum som.


Essa era a primeira vez, e possivelmente seria a única, que Benedict via seu irmão mais novo sem saber o que dizer. -E nunca... - continuou Penélope, engolindo em seco ao cortar-se a voz Nunca disse a ninguém que desejasse que me pedisse isso. -Penélope... - conseguiu dizer Colin ao fim - Perdão, sinto muito. -Não há nada que perdoar. -Claro que há. - insistiu ele - Feri seus sentimentos e... -Não sabia que eu estava aqui. -De qualquer modo... -Não vai se casar comigo. - disse ela, com voz apagada - Não há nada mau nisso. Eu não vou me casar com seu irmão Benedict. Benedict tinha estado tratando de não olhar, mas ao ouvir isso se ergueu atento. -E não lhe firo os sentimentos quando declaro que não me vou casar com ele. - Penélope virou a cabeça para Benedict e fixou seus olhos castanhos nele Não é, senhor Bridgerton? -Claro que não. - se apressou a responder ele. -Tudo arrumado então. - disse ela entre dentes - Não se feriu nenhum sentimento. E agora, se me desculparem, cavalheiros, devo ir para casa. Benedict, Anthony e Colin se afastaram tal qual as águas do Mar Vermelho quando ela desceu a escadaria. -Não a acompanha uma criada? - lhe perguntou Colin. -Vivo só a uma esquina. - respondeu ela. -Sei, mas... -Eu a acompanharei. - disse Anthony tranquilamente. -Isso não é necessário, milord, de verdade. -Isso me dá gosto. - disse ele. Ela assentiu e os dois puseram-se a andar rua abaixo. Benedict e Colin ficaram olhando-os afastar-se, em silêncio, durante trinta segundos inteiros. Depois Benedict se virou para seu irmão e lhe disse. -Fez muito bem. - Não sabia que estava aí! -É evidente. - zombou Benedict. -No zombe. Sinto-me infeliz. -Como deve ser. -Ah, e você alguma vez feriu os sentimentos de uma mulher sem se dar conta?


O tom de Colin era defensivo, e tanto que Benedict compreendeu que se sentia como um ignorante. Salvou-o de responder a aparição de sua mãe no alto da escadaria, emoldurada na porta mais ou menos como tinha estado Penélope fazia uns instantes. -Ainda não chegou seu irmão? - perguntou Violet. -Foi a acompanhar à senhorita Featherington a sua casa. - respondeu Benedict, fazendo um gesto para a esquina. -Ah, bom. Que atento. Queria... Aonde vai Colin? - Preciso beber algo. - respondeu Colin, detendo-se brevemente mas sem voltar a cabeça. - É um pouco cedo para... Benedict a interrompeu lhe colocando uma mão no braço. - Deixe-o. Ela abriu a boca, para protestar, mas mudou de opinião e se limitou a fazer um gesto de assentimento. -Queria reunir toda a família para fazer um anúncio, - suspirou - mas suponho que isso pode esperar. Enquanto isso, por que não me acompanha a um chá? Benedict olhou para o relógio do vestíbulo. -Não é um pouco tarde para o chá? -Salte o chá então. - disse ela, encolhendo os ombros - Simplesmente procurava um pretexto para falar com você. Benedict conseguiu fazer um débil sorriso. Não estava de humor para conversar com sua mãe. Para ser franco, não estava de humor para falar com ninguém, fato este que podiam testemunhar todas as pessoas com quem se cruzara nesse último tempo. -Não é nada sério. - tranqüilizou-o Violet - Céus, tem o rosto como se estivesse preparando-se para ir à forca. Teria sido grosseiro dizer que assim era exatamente como se sentia, de modo que simplesmente se inclinou e lhe deu um beijo na face. -Bem, isso é uma agradável surpresa. - disse ela, sorrindo de orelha a orelha - Agora, venha comigo. - acrescentou, indicando com um gesto a sala de estar de baixo - Há uma pessoa de quem quero lhe falar. -Mãe! -Simplesmente me escute. É uma moça encantadora... A forca, certamente.


Capítulo 19 A senhorita Posy Reiling (a enteada mais nova do falecido conde de Penwood) não é assunto frequente nesta coluna (como tampouco é, lamenta dizer esta cronista, objeto frequente de atenção nas funções sociais), mas não se pôde deixar de observar que seu comportamento foi muito estranho na noite musical que ofereceu sua mãe na noite da terça-feira. Insistiu em sentar-se junto à janela e durante toda a atuação não fez outra coisa que olhar para a rua; como se procurasse algo, ou a alguém talvez? Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 11 de junho de 1817. Ao cabo de quarenta e cinco minutos, Benedict estava ajeitado na poltrona com os olhos frágeis. De tanto em tanto tinha que fazer uma revisão para assegurar-se de que não lhe pendia a mandíbula. Assim aborrecida era a conversa de sua mãe. A mocinha da qual queria lhe falar era na verdade sete mocinhas, cada uma das quais, assegurava-lhe, era melhor que a anterior. Pensou que ia ficar louco. Aí mesmo na sala de estar de sua mãe ia ficar louco furioso. De repente saltaria da poltrona e se jogaria no chão, frenético, agitando braços e pernas, jogando espuma pela boca, e... -Benedict, está me escutando sequer? Ele ergueu a vista e pestanejou. Maldição, teria que concentrar a atenção na lista de possíveis noivas que tinha sua mãe. A perspectiva de perder a prudência era imensamente mais atraente. -Estava lhe falando da Mary Edgeware. - disse Violet, com expressão mais divertida que frustrada. Imediatamente o assaltou a desconfiança. Quando se tratava do assunto de arrastar a seus filhos ao altar, sua mãe jamais tinha expressão divertida. -Mary quanto? -Edge... Ora, deixemo-lo. Já vejo que não posso competir com o que seja que te atormenta neste momento. - Mãe... Ela inclinou ligeiramente a cabeça, seus olhos curiosos e talvez um pouco surpreendidos. -Sim? -Quando conheceu o pai... -Ocorreu em um instante. - disse ela docemente, como se tivesse sabido o que lhe ia perguntar.


-Ou seja, soube imediatamente que era ele? Ela sorriu e seus olhos adquiriram uma expressão longínqua, nebulosa. -Hum, eu não o teria admitido, ao menos não imediatamente. Achava-me uma moça prática. Sempre tinha mofado da idéia do amor a primeira vista. Ficou calada e Benedict compreendeu que já não estava na sala com ele mas em um baile de anos atrás, conhecendo seu pai. Passado um momento, quando ele já achava que ela tinha esquecido a pergunta, ela o olhou e disse: -Mas soube. -No momento em que o viu pela primeira vez? -Bem, a primeira vez que falamos, pelo menos. Agarrou o lenço que lhe estendia e o passou pelos olhos, sorrindo timidamente, como envergonhada de suas lágrimas. Benedict sentiu formar um bolo na garganta e desviou o rosto, para que não fosse ela a ver que tinha os olhos úmidos. Choraria alguém por ele depois de dez anos de ter morrido? Inspirava humildade estar em presença do verdadeiro amor, pensou, e de repente se sentiu condenadamente invejoso de seus próprios pais. Eles encontraram o amor e tiveram a sensatez de reconhecê-lo e mimá-lo. Poucas pessoas eram tão afortunadas. -Havia alguma coisa em sua voz tremendamente tranqüilizadora, muito quente. - continuou Violet - Quando falava, a gente tinha a sensação de que era a única pessoa presente no aposento. -Recordo. - disse ele, com um sorriso cálido, nostálgico - Era uma proeza ser capaz de fazer isso, com oito filhos. Violet engoliu em seco para abafar um soluço e disse, com a voz novamente enérgica: -Sim, bom, não chegou a conhecer a Hyacinth, assim digamos que só eram sete. -De qualquer maneira... -De qualquer maneira. - concordou ela. Benedict se inclinou para lhe dar um tapinha na mão. Não soube por que o fez; não tinha planejado fazê-lo. Simplesmente lhe pareceu que era o adequado. -Sim, bom, - disse ela, lhe dando um suave apertão na mão e voltando a pô-la em sua saia - perguntaste por seu pai por algum motivo especial? -Não. - mentiu ele - Ao menos não... Bom... Ela esperou com paciência, e com essa expressão calmamente espectadora que fazia impossível lhe ocultar os sentimentos. -O que acontece quando alguém se apaixona por uma pessoa inadequada?


-Uma pessoa inadequada. - repetiu ela. Benedict assentiu já lamentando angustiosamente suas palavras. Não deveria haver dito nada a sua mãe, e, entretanto... Suspirou. Sua mãe sempre tinha sido extraordinária para escutar. E apesar de todos seus fastidiosos métodos casamenteiros, realmente estava mais qualificada que qualquer das pessoas que ele conhecia para dar conselhos em assuntos do coração. Quando Violet falou, dava a impressão de estar escolhendo cuidadosamente as palavras. -O que quer dizer com uma pessoa inadequada? -Alguém... - pensou um momento - Uma pessoa com a qual provavelmente não deveria casar-se alguém como eu. -Talvez uma pessoa que não é de nossa classe social? -Uma pessoa assim. - respondeu ele, com os olhos cravados em um quadro da parede. -Compreendo. Bom... - franziu um pouco a fronte e continuou - Suponho que dependeria da que distância está esta pessoa de nossa classe social. -Longe. -Um pouco longe ou muito longe? Benedict estava convencido de que nenhum homem de sua idade e reputação tinha tido jamais uma conversa assim com sua mãe, mas respondeu: -Muitíssimo. -Compreendo. Bom, eu diria... - mordeu o lábio inferior e esteve assim um momento - Eu diria... - repetiu em tom ligeiramente mais enérgico, embora nada enérgico se medisse em termos absolutos - Eu diria, - repetiu pela terceira vez - que o quero muitíssimo e o apoiaria em tudo. - clareou a garganta - Se é que estamos falando de você. Não servia de nada negá-lo, de modo que Benedict assentiu. -Mas, - continuou Violet – lhe recomendaria pensar bem. O amor é certamente o elemento mais importante em qualquer união, mas as influências externas podem criar tensões no matrimônio. Se casar com uma mulher de, digamos, - pigarreou - da classe servil, será objeto de muita fofoca e não pouco ostracismo. E isso será difícil de suportar para alguém como você. -Alguém como eu? - perguntou ele, arrepiado. -Tem que saber que não foi minha intenção insultá-lo. Mas você e seus irmãos têm aparência encantadora. São bonitos, inteligentes, atraentes. Caem bem a todo mundo. Não sabe como me faz feliz isso. - sorriu, mas seu sorriso era melancólico, ligeiramente triste - Não é fácil ser a feia do baile.


Repentinamente Benedict compreendeu por que sua mãe sempre o obrigava a dançar com moças como Penélope Featherington. Com aquelas que estavam nas bordas do salão, aquelas que sempre fingiam que não desejavam dançar. Ela tinha sido pouco atraente. Era difícil imaginar-se isso. Sua mãe era tremendamente popular, sempre sorridente, e tinha montões de amizades. E se ele tinha ouvido corretamente a história, seu pai tinha sido considerado o melhor partido da temporada. -Só você poderá tomar esta decisão, - continuou Violet, voltando-o para o presente - e temo que não seja fácil. Ele olhou pela janela, outorgando com seu silêncio. -Porém, - acrescentou ela - se decidisse unir sua vida a de uma mulher que não é de nossa classe, eu certamente o apoiaria de todas as maneiras possíveis. Benedict virou bruscamente a cabeça para olhá-la. Poucas mulheres da alta sociedade diriam isso a seus filhos. -É meu filho. - disse ela simplesmente - Daria minha vida por você. Ele abriu a boca para falar, mas comprovou surpreso, que não podia emitir nem um som. -Certamente não o renegarei por se casar com uma pessoa inadequada. - Obrigado. - disse ele e foi a única palavra que conseguiu dizer. Violet exalou um suspiro, bastante forte para atrair toda sua atenção. Viase cansada, melancólica. - Gostaria que seu pai estivesse aqui. - disse. -Não diz isso muito frequentemente. -Sempre desejo que seu pai estivesse aqui. - cerrou os olhos um breve momento - Sempre. E então Benedict viu tudo claro. Ao olhar o rosto de sua mãe, ao dar-se conta por fim, não; ao "entender" por fim, a profundidade do amor entre seus pais, se esclareceu tudo. Amor. Amava Sophie. Isso era a única coisa que deveria importar. Tinha acreditado que amava à mulher do baile de máscaras; tinha acreditado que desejava casar-se com ela. Mas nesse momento compreendia que isso só tinha sido um sonho, uma fantasia fugaz com uma mulher a quem mal conhecia. Em troca Sophie era... Sophie era Sophie. E isso era tudo o que necessitava.


Sophie não era uma grande crente no destino nem nos fados, mas quando levava uma hora com o Nicholas, Elizabeth, John e Alice Wentworth, os primos pequenos do clã Bridgerton, já começava a pensar que talvez houvesse uma razão que explicasse por que nunca tinha conseguido obter um posto de preceptora. Estava esgotada. Não, pensou, com mais um pouco de desespero. A palavra esgotamento não era uma definição adequada para o estado em que se encontrava nesse momento. Esgotamento não chegava a captar o aumento de loucura que tinha produzido em sua mente esse quarteto. -Não, não e não, esse é minha boneca. - estava dizendo Elizabeth a Alice. -É minha! - replicou Alice. -Não é sua! -É minha! -Eu arrumarei isto. - gritou Nicholas, aproximando-se com as mãos nos quadris. Sophie emitiu um gemido. Tinha a clara impressão de que não era nada conveniente deixar um menino de dez anos, que por a casualidade se achava pirata, resolver a briga. -Nenhuma das duas vai querer a boneca, - disse Nicholas com um ardiloso brilho nos olhos – se eu lhe corto a... -Não lhe cortará a cabeça, Nicholas Wentworth. - interveio Sophie. -Mas assim deixarão de... -Não. - disse Sophie energicamente. Ele a olhou um momento, como avaliando sua resolução de impedir-lhe e logo se afastou grunhindo. -Creio que necessitamos de outra brincadeira. - sussurrou Hyacinth à Sophie. -Sim necessitamos outra brincadeira. - concordou Sophie. -Solte meu soldado! - gritou John - Solte-o, solte-o, solte-o! -Jamais terei filhos. - declarou Hyacinth - De fato, jamais me casarei. Sophie se absteve de lhe dizer que quando se casasse e tivesse filhos teria uma frota de babás que a ajudariam em sua criação e cuidado. Hyacinth fez um gesto de dor ao ver John puxando o cabelo de Alice, e engoliu em seco desgostada quando Alice enterrou o punho no estômago de John. -A situação está ficando desesperadora. - sussurrou à Sophie.


-A galinha cega! - exclamou Sophie - O que lhes parece a todos? Jogamos à galinha cega? Alice e John assentiram entusiasmados. Elizabeth pensou um momento e ao final disse, a contra gosto: -De acordo. -E o que diz você, Nicholas? - perguntou Sophie ao último duvidoso. Ele pensou um pouco. -Podia ser divertido. - respondeu ao fim, aterrando Sophie com um diabólico brilho nos olhos. -Excelente. - disse Sophie, tratando de que não se notasse seu receio. -Mas você tem que ser a galinha cega. - acrescentou ele. Sophie abriu a boca para protestar, mas nesse momento os outros três meninos começaram a saltar e gritar encantados. E seu destino ficou selado quando Hyacinth a olhou com um ardiloso sorriso e lhe disse: -Vamos, tem que ser você. Como era inútil protestar, Sophie exalou um longo suspiro, bem exagerado, para divertir aos meninos, e se virou, para que Hyacinth lhe enfaixasse os olhos. -Vê algo? - perguntou Nicholas. -Não. - mentiu Sophie. -Vê. - disse ele à Hyacinth fazendo uma careta. Como podia sabê-lo? -Amarre um segundo lenço. - disse o menino - Esse é muito transparente. -Que indignidade. - protestou Sophie, mas agachou um pouco a cabeça para que Hyacinth lhe atasse outro lenço. -Agora sim que está cega! - gritou John a todo pulmão. Sophie os obsequiou a tudo com um enjoativo sorriso. -Muito bem, então. - disse Nicholas, que tinha tomado o comando - Espera dez segundos para que ocupemos nossos lugares. Sophie assentiu e reprimiu um mau gesto ao ouvir o ruído de um choque. -Procurem não quebrar nada! - gritou, como se isso fosse influir em um super excitado menino de seis anos. -Preparados? - perguntou. Não houve resposta. Isso significava sim. -Galinha cega! - gritou. -Me pegue! – gritaram cinco vozes ao uníssono. Sophie franziu o cenho, calculando. Uma das meninas estava atrás do sofá. Deu uns passos a prova à direita. -Galinha cega!


-Me pegue! A isso seguiram, logicamente, uns quantos chiados e risinhos. -Galinha, ai! Mais gritos e gargalhadas. Sophie grunhiu e se agachou a esfregar a tíbia. -Galinha cega! - gritou com muito menos entusiasmo. -Me pegue! -Me pegue! -Me pegue! -Me pegue! -É toda minha, Alice... - falou em voz baixa, decidindo ir atrás da menor e, presumivelmente, a mais fraca do grupo - Toda minha. Benedict quase conseguiu escapar sem ser visto. Depois que sua mãe saíra da sala de estar, ele bebeu uma taça de conhaque muito necessitada e se dirigiu ao vestíbulo. Estava a ponto de chegar à porta quando o surpreendeu Eloise e o informou que de maneira nenhuma podia partir ainda, que sua mãe tinha feito o enorme esforço de reunir a todos seus filhos em um lugar porque Daphne tinha que fazer um anúncio muito importante. -Grávida outra vez? - perguntou ele. -Finja surpresa. Supõe-se que não sabe. -Não vou fingir nada. Vou... De um salto lhe alcançou e lhe agarrou a manga. -Não pode. Benedict exalou um longo suspiro e tratou de lhe tirar a mão do braço, mas ela tinha bem agarrada a camisa. -Vou levantar um pé, - disse ele em tom do mais tedioso - e dar um passo. Depois levantarei o outro pé... - Prometeu à Hyacinth que a ajudaria em aritmética, - soltou Eloise - e não lhe viu o cabelo em duas semanas. -Como se fosse suspender em um colégio. - respondeu Benedict. -Benedict, que terrível o que disse! -Sei... - gemeu ele, com a esperança de economizar um sermão. -Que não se permita às mulheres estudar em colégios como Eton ou Cambridge não significa que nossa educação não seja importante, - criticou Eloise, como se não tivesse ouvido seu fraco "sei" - Além disso... Benedict se desmoronou contra a parede. -Sou da opinião de que o motivo de não nos permitir o acesso a colégios é que se nos permitissem isso, derrotaríamos aos homens em todas as disciplinas! -Sem duvida tem razão. - suspirou ele.


-Não me trate com esse ar de superioridade. - Asseguro-lhe, Eloise, que jamais me ocorreria nem sonhar tratá-la assim. Ela o olhou desconfiada um momento e depois cruzou os braços. -Bem, não decepcione Hyacinth. -Nãoo. - disse ele cansativamente. -Creio que está na sala das crianças. Depois de lhe fazer um distraído gesto de assentimento, ele se dirigiu à escada e começou a subir. Mas enquanto subia não viu Eloise virar-se para sua mãe, que estava parada na porta da sala de música, e lhe dar uma piscada, sorrindo. A sala das crianças estava no segundo andar. Não era frequente que Benedict subisse ali. Os dormitórios da maioria de seus irmãos estavam no primeiro andar; só Gregory e Hyacinth continuavam tendo seus dormitórios contíguos à sala das crianças, e estando Gregory no Eton a maior parte do ano e Hyacinth aterrorizando a alguém em alguma outra parte da casa, ele simplesmente não tinha motivos para subir ali. Não lhe escapava que além da sala de estudo e dormitórios dos meninos, também estavam nesse andar os dormitórios dos criados de mais categoria, entre eles as criadas. O dormitório de Sophie. Provavelmente ela estava em algum canto por aí, ocupada em seus remendos, não no quarto das crianças, logicamente, que era o domínio das babás. Uma criada não teria nenhum motivo para... -Ha ha ha ha ha! Benedict arqueou as sobrancelhas. Essas eram certamente risadas de meninos pequenos, não um som que pudesse sair da boca de Hyacinth. Ah, claro. Estavam de visita seus primos Wentworth, sua mãe lhe havia dito algo a respeito. Bom, isso seria um extra. Fazia meses que não os via, e eram meninos bastante simpáticos, embora um pouco revoltosos. Quando se aproximava da sala das crianças, as risadas aumentaram mescladas com uns quantos gritos. Isso o fez sorrir, e quando chegou à porta aberta olhou dentro, e então... Viu-a. A "ela". Não à Sophie, a "ela". E, entretanto era Sophie.


Tinha os olhos enfaixados e estava sorrindo com as mãos estendidas para os risonhos meninos. Só lhe via a parte inferior do rosto, e então foi quando se deu conta. Só havia outra única mulher no mundo a que lhe tinha visto somente a parte inferior do rosto. O sorriso era igual; a atraente covinha no extremo do queixo era igual. Tudo era igual. Sophie era a mulher do vestido prateado, a mulher do baile de máscaras. De repente tudo tomou sentido. Só duas vezes em sua vida havia sentido essa atração inexplicável, quase mística, por uma mulher. Tinha-lhe parecido extraordinário encontrar a duas, quando em seu coração sempre tinha acreditado que só havia uma mulher perfeita para ele. Seu coração não se equivocara. Só havia uma. Tinha-a procurado durante meses; tinha suspirado por ela mais tempo ainda. E estava aí, ante seu próprio nariz. E ela não o havia dito. Compreenderia quanto o tinha feito sofrer? As horas que tinha jazido acordado na cama pensando que fazia traição à dama do vestido prateado porque estava se apaixonando por uma criada? Deus santo, isso raiava ao absurdo. Finalmente tinha decidido esquecer à dama do baile; ia pedir a Sophie que se casasse com ele, e a merda as consequências sociais. E acontecia que eram uma e a mesma. Um estranho rugido lhe encheu a cabeça, como se lhe tivessem abafado cada ouvido com uma enorme concha; sentia assobios, chiados, zumbidos; e de repente sentia um aroma algo acre no ar, e tudo começava a tomar uma cor vermelha, e... Não podia afastar os olhos dela. Todos os meninos ficaram em silêncio, olhando-o com os olhos arregalados, boquiabertos. -Acontece algo? - perguntou Sophie. -Hyacinth, - disse ele - faria o favor de esvaziar a sala? -Mas... -Agora mesmo! - rugiu ele. -Nicholas, Elizabeth, John, Alice, venham comigo. - se apressou a dizer Hyacinth com voz partida - Há bolachas na cozinha e sei que...


Benedict não ouviu o resto. Hyacinth tinha arranjado para evacuar a sala em tempo recorde e sua voz se foi perdendo pelo corredor levando aos meninos. -Benedict? - estava dizendo Sophie, com as mãos atrás da cabeça tratando de desatar os lenços. - Benedict? Ele fechou a porta de um golpe; o ruído foi tão forte que ela deu um salto. -O que passa? - perguntou em um sussurro. Ele não respondeu, limitando-se a observá-la tirar os lenços. Agradava-lhe que estivesse impotente. Não se sentia nada amável nem caridoso nesse momento. -Tem algo que precise me dizer? - perguntou com a voz controlada, embora lhe tremessem as mãos. Ela ficou imóvel, tão imóvel que ele teria jurado que lhe via sair o calor do corpo. Depois pigarreou, indicando com o som que se sentia incomodada, violenta, e reatou a tarefa de desatar os nós. Seus movimentos lhe rodeavam o vestido aos seios, mas ele não sentiu nenhum pingo de desejo. Era a primeira vez que não sentia desejo por essa mulher, em nenhuma de suas duas encarnações, pensou com ironia. -Pode me ajudar nisto? - perguntou ela, mas com voz hesitante. Benedict não se moveu. -Benedict? -É interessante vê-la com um lenço amarrado ao redor da cabeça, Sophie. disse ele em voz baixa. Ela desceu lentamente as mãos aos flancos. -É quase como uma máscara, não te parece? Ela entreabriu os lábios, e a suave baforada de ar que passou por entre eles foi o único som que se ouviu na sala. Ele caminhou para ela, lenta, inexoravelmente, o ruído de seus passos suficientemente forte para que ela soubesse que ia aproximando. -Faz anos que estive em um baile de máscaras. - disse. Ela compreendeu. Viu-o em seu rosto, na expressão de sua boca, apertada nas comissuras e, entretanto ligeiramente entreaberta. Ela sabia que ele sabia. Esperava que estivesse aterrada. Deu outros dois passos para ela e bruscamente virou à direita, lhe roçando a manga com o braço. -Iria dizer-me alguma vez que já nos conhecíamos? Ela moveu a boca, mas não disse nada. -Iria me dizer isso. - insistiu ele, em voz baixa e controlada.


-Não. - balbuciou ela. -Não? Ela não disse nada. -Por algum motivo em particular? -Não... Não me parecia pertinente. -Não lhe parecia pertinente? - bradou ele, virando-se para olhá-la - Me apaixonei por você há dois anos, e não lhe parecia pertinente? -Posso tirar o lenço, por favor? - sussurrou ela. -Pode continuar cega. -Benedict... -Como estive cego eu este mês. - continuou ele furioso - Por que não cega você, para ver se você gosta? -Não se apaixonou por mim há dois anos. - disse ela, tirando a atadura. -Como podia sabê-lo? Desapareceu. -Tinha que desaparecer. - exclamou ela - Não tinha opção. -Sempre temos opções. - disse ele, desdenhoso - A isso chamamos livre arbítrio. -Para você é fácil dizer isso. - replicou ela, puxando o lenço desesperada Para você, que tem tudo! Eu tinha que... Ai! Com um violento puxão conseguiu descer o lenço até deixá-lo pendendo solto no pescoço. Fechou os olhos ante o repentino assalto da luz; quando os abriu viu o rosto de Benedict e retrocedeu um passo. Ele tinha os olhos brilhantes, ardendo de raiva e, sim, de uma dor que ela não conseguia compreender de todo. -Me alegra vê-la, Sophie. - disse ele em um tom perigosamente suave - Se é que esse é seu verdadeiro nome. Ela assentiu. -Se me ocorreu, - continuou ele, em um tom exageradamente despreocupado - que se esteve no baile de máscaras não é da classe servil. -Não tinha convite. - se apressou a responder - Era uma impostora. Não tinha nenhum direito a estar ali. -Me mentiu. Em todas as coisas, em tudo isto, mentiu-me. -Tive que fazê-lo - sussurrou ela. -Vamos, por favor. O que podia ser tão terrível para que não pudesse me revelar sua identidade? Sophie engoliu em seco. Aí no quarto das crianças Bridgerton, frente a ele, não conseguia recordar por que decidiu não lhe dizer que era a dama do baile de máscaras.


Talvez temesse que ele desejasse fazê-la sua amante. O que ocorreu de qualquer modo. Ou talvez não quisesse lhe dizer nada porque quando compreendeu que esse não ia ser um encontro casual, que ele não ia deixar sair de sua vida a Sophie a criada, já era muito tarde. Já tinha passado muito tempo sem dizer-lhe e temeu sua ira. E isso ocorreu, exatamente. O que demonstrava que tinha tido razão. Claro que isso não era nenhum consolo ao encontrar-se ali, frente a ele, vendo seus olhos ardentes de raiva e frios de desdém ao mesmo tempo. Talvez a verdade, por pouco aduladora que fosse, era que sentiu ferido seu orgulho. Tinha-a decepcionado que ele não a reconhecesse. Se a noite do baile de máscaras tinha sido tão mágica para ele como para ela, não deveria havê-la reconhecido imediatamente? Dois anos tinha passado sonhando com ele. Dois anos tinha visto seu rosto na mente todas as noites. E quando ele viu a dela, viu uma desconhecida. Ou talvez, só talvez, não foi por nenhuma dessas coisas. Talvez fosse algo mais simples: só desejava proteger seu coração. Não sabia por que, mas havia se sentido um pouco mais segura, um pouco menos exposta como uma criada anônima. Se Benedict tivesse sabido quem era, ou pelo menos sabido que ela era a dama do baile de máscaras, lhe teria ido atrás, implacavelmente. Bom, sim tinha ido atrás quando achava uma criada. Mas teria sido distinto se tivesse sabido a verdade. Estava segura. Não teria considerado tão grande a diferença de classe, e então ela teria perdido uma importante barreira entre eles. Sua posição social, ou sua falta de posição social, tinha sido um muro protetor ao redor de seu coração. Não podia aproximar-se muito porque, simplesmente não podia; um homem como Benedict, filho de um visconde, irmão de um visconde, jamais se casaria com uma criada. Mas para uma filha ilegítima de um conde, bom, a situação era muito mais difícil. A diferença de uma criada, uma bastarda aristocrática podia sonhar. Embora, como no caso de uma criada, esses sonhos não tinham probabilidades de fazer-se realidade, o que os fazia muito mais dolorosos. E compreendia cada vez mais que tinha estado a ponto de revelar seu segredo o tinha compreendido, que lhe dizer a verdade a levaria direto a um coração quebrado. Sentiu desejos de rir. Seu coração não podia sentir-se pior que nesse momento. -Procurei-a. - disse ele, sua voz intensa penetrando seus pensamentos.


Ela abriu mais os olhos, sentiu-os molhados. -Sim? -Durante seis malditos meses. - maldisse ele - Foi como se tivesse desaparecido da face da terra. -Não tinha aonde ir. - disse ela, sem saber por que lhe dizia isso. -Tinha a mim. As palavras ficaram suspensas no ar, opressivas, sombrias. Finalmente, impulsionada por um tardio sentido de sinceridade. Sophie disse: -Não sabia que me buscava. Mas, mas... - engasgou com as palavras, não pôde dizê-las, e fechou fortemente os olhos, para proteger-se do sofrimento. -Mas o que? Ela engoliu em seco e abriu os olhos, mas não o olhou no rosto. -Ainda que tivesse sabido que me buscava, - disse, cruzando os braços para abraçar-se - não teria permitido que me encontrasse. -Tão repugnante era eu para você? -Não! - exclamou ela, olhando-o no rosto. Viu dor em seus olhos. Ele a ocultava, mas ela o conhecia bem. Estava ferido; via-o em seus olhos. -Não. - repetiu, tratando de falar calmamente - Não por isso. Isso não poderia ser jamais. -Então por quê? -Somos de mundos diferentes, Benedict. Inclusive então, eu sabia que não podia haver nenhum futuro para nós. E teria sido uma tortura. Me torturar com um sonho que não podia fazer-se realidade? Não podia fazer isso. -Quem é? - perguntou ele repentinamente. Ela só pôde olhá-lo, sem poder falar, paralisada. -Diga-me. Diga-me quem é. Porque não é nenhuma condenada criada, estou certo. -Sou exatamente o que lhe disse que era. - disse ela. Ao ver seu olhar assassino, apressou-se a acrescentar - Quase. -Quem é? - repetiu ele, aproximando um passo. Ela retrocedeu um passo. -Tenho sido criada desde os quatorze anos. -E quem era antes disso? -Uma bastarda. -respondeu ela em um sussurro. -De quem? -Importa isso?


Ele adotou uma postura mais belicosa. -A mim importa. Sophie se sentiu desanimada. Não tinha esperado que ele fizesse caso omisso dos deveres impostos por sua posição para casar-se com uma pessoa como ela, mas tampouco tinha esperado que lhe importasse tanto. -Quem foram seus pais? – insistiu ele. -Ninguém que você conheça. -Quem foram seus pais? - rugiu ele. -O conde de Penwood. Ele ficou absolutamente imóvel, sem mover nem um só músculo. Nem sequer pestanejou. -Sou a bastarda de um nobre. - continuou ela, em tom áspero, deixando sair anos de raiva e ressentimento - Meu pai foi o conde de Penwood, e minha mãe, uma criada. -Ao ver que ele empalidecia, disparou - Sim, minha mãe era uma criada, tal como eu o sou agora. -Ao cabo de um denso silêncio, acrescentou - Não quero ser como minha mãe. -E, entretanto, - disse ele - se ela se comportasse de outro modo, você não estaria aqui para me dizer isso Benedict retorceu as mãos, que tinha tido em punhos dos lados. -Me mentiu. - disse em voz baixa. -Não havia nenhuma necessidade de lhe dizer a verdade. -Quem demônios é você para decidir isso? - explodiu - Pobre Benedict, não é capaz de enfrentar a verdade, é incapaz de decidir-se. Não é... Interrompeu-se aborrecido ao perceber sua voz queixosa. Ela o tinha convertido em alguém a quem não conhecia, alguém que lhe caía mal. Tinha que sair daí, tinha que... -Benedict...? Ela o estava olhando estranhando, seus olhos preocupados. -Tenho que ir. - disse - Não posso estar com você neste momento. -Por quê? -perguntou ela, e ele notou que imediatamente se arrependia de ter perguntado isso. -Estou tão zangado neste momento, - disse, lentamente, marcando bem cada palavra - que não me conheço. Não... Olhou-se as mãos; tremiam-lhe. Desejava feri-la, compreendeu. Não, não desejava feri-la. Jamais desejaria feri-la. E, entretanto... E, entretanto... Era a primeira vez em sua vida que se sentia tão descontrolado. Assustavao isso.


-Tenho que ir. - repetiu; passou bruscamente por seu lado, chegou Ă porta e saiu.


Capítulo 20 Continuando com o assunto, a mãe da senhorita Reiling, a condessa de Penwood, também agiu que modo muito estranho ultimamente. Segundo as fofocas dos criados (quem, todos sabemos, sempre são os mais confiáveis), a condessa teve um chilique ontem à noite, e arrojou nada menos que dezessete sapatos em seus criados. Um lacaio traz um olho arroxeado, mas, além disso, todos continuam com boa saúde. Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 11 de junho de 1817. Antes de uma hora Sophie já tinha pronta sua bolsa para partir. Não sabia o que mais fazer. Estava possuída, dolorosamente possuída por uma energia nervosa, e não podia ficar quieta. Os pés se moviam sozinhos, tremiam-lhe as mãos e a cada minuto se surpreendia inspirando uma quantidade extra de ar, como se este pudesse tranquilizá-la por dentro. Não lhe cabia na cabeça que lhe permitissem continuar ao serviço de lady Bridgerton depois dessa horrorosa briga com Benedict. Lady Bridgerton lhe tinha afeto, certo, mas Benedict era seu filho. Os laços de sangue eram mais fortes que tudo, em especial tratando-se da família Bridgerton. Era uma pena, em realidade, pensou, sentando-se na cama, sem deixar de retorcer entre as mãos um pobre lenço já destroçado sem remédio. Apesar de todo o transtorno interior que lhe causava Benedict, gostava de viver nessa casa. Nunca em sua vida tinha tido a honra de viver entre um grupo de pessoas que entendiam verdadeiramente o significado da palavra família. Sentiria falta deles. Sentiria falta de Benedict. E choraria pela vida que não podia ter. Sem poder continuar sentada, levantou-se de um salto e foi até a janela. -Maldito seja, papai, - disse, olhando o céu - Toma, chamei-te papai. Nunca me permitiu isso. Nunca quis ser isso - não pôde conter uns estremecidos soluços, limpou o nariz, com o dorso da mão - Chamei-o papai. Como sente isso? Mas não houve nenhum repentino trovão nem apareceu nenhuma nuvem negra para tampar o sol da tarde. Seu pai não saberia jamais que estava furiosa com ele por havê-la deixado sem um cêntimo, por havê-la deixado nas mãos de Araminta. O mais provável era que não lhe teria importado.


Sentiu-se cansada e se apoiou no batente da janela, limpando os olhos com a mão. -Me fez provar outro tipo de vida, e logo me deixou no ar. - disse - Teria sido muito mais fácil para mim se tivesse sido criada como uma faxineira. Então eu não teria desejado tanto. Teria-me sido mais fácil. Deu as costas à janela e seus olhos pousaram em sua pequena bolsa com seus escassos pertences. Teria preferido não ter que levar nenhum dos vestidos que lhe tinham presenteado lady Bridgerton e suas filhas, mas não tinha escolha, pois seus vestidos velhos já tinham sido jogados na lata de lixo. Tinha escolhido somente dois, o mesmo número com o qual chegara: que levava quando Benedict descobriu sua identidade e outro de muda, que já estava guardado em sua bolsa. Outros estavam pendurados, bem engomados, no roupeiro. Suspirando fechou os olhos e esteve assim um momento. Era hora de partir. Aonde, não sabia, mas não podia continuar ali. Agachou-se para recolher a bolsa. Tinha um pouco de dinheiro economizado; não muito, mas se trabalhasse e era frugal em seus gastos, dentro de um ano teria o suficiente para comprar uma passagem aos Estados Unidos. Tinha ouvido dizer que ali as coisas eram mais fáceis para aqueles de berço menos que respeitável, que ali as fronteiras entre diferentes classes sociais não eram tão definidas como na Inglaterra. Pôs a cabeça no corredor; felizmente não havia ninguém. Era uma covarde, sim, mas não desejava ter que despedir-se das filhas Bridgerton; poderia fazer algo realmente estúpido, como pôr-se a chorar, e depois se sentiria pior ainda. Nunca em sua vida tinha tido a oportunidade de passar tempo com mulheres de sua idade que a tratassem com respeito e afeto. Houve uma época em que desejou que Rosamund e Posy fossem suas irmãs, mas esse desejo nunca chegou a fazer-se realidade. Posy poderia tê-lo tentado, mas Araminta não o teria permitido. Apesar de sua natureza amável, Posy nunca tinha tido a força necessária para enfrentar a sua mãe. Mas teria que despedir-se de lady Bridgerton; de maneira nenhuma podia saltar isso. Lady Bridgerton a tinha tratado com uma amabilidade que superava toda expectativa, e ela não podia lhe agradecer partindo às escondidas e desaparecendo como uma delinquente. Se tivesse sorte, lady Bridgerton ainda não teria se informado de sua briga com Benedict. Podia lhe avisar que iria embora, despedir-se e pôr-se em marcha. Era última hora da tarde; certamente já fazia tempo que tinha acabado a hora do chá, de modo que decidiu ver se lady Bridgerton estava no pequeno


escritório que tinha contíguo a seu dormitório. Era um quartinho muito acolhedor, com uma escrivaninha e várias estantes de livros; o lugar onde lady Bridgerton escrevia sua correspondência e fazia as contas da casa. A porta estava entreaberta. Golpeou suavemente, e ao contato de seu punho com a madeira a porta se abriu outro pouco. -Adiante! - disse a voz de lady Bridgerton. Sophie empurrou mais a porta e entrou. -Interrompo? - perguntou em voz baixa. -Sim, mas é uma interrupção bem-vinda. - respondeu lady Bridgerton deixando sua pena a um lado - Nunca gostei de fazer as contas da casa. -Eu poderia... - começou Sophie, mas conseguiu morder a língua. Tinha estado a ponto de dizer que com muito gosto poderia relevá-la nessa tarefa; sempre tinha sido boa para os números. -Dizia? - perguntou lady Bridgerton, olhando-a afavelmente. -Nada. - respondeu ela, negando ligeiramente com a cabeça. Passado um momento de silêncio, lady Bridgerton a olhou com um sorriso ligeiramente divertido e lhe perguntou: -Tinha algum motivo concreto para bater em minha porta? Sophie fez uma funda inspiração, com o fim de acalmar os nervos (que não os acalmou), e respondeu: -Sim. Lady Bridgerton a olhou esperando, mas sem dizer nada. -Acho que devo renunciar a meu trabalho aqui. - disse. Lady Bridgerton deu um salto que quase a fez cair da cadeira. -Mas por quê? Não é feliz aqui? Alguma das meninas a tratou mal? -Não, não. Isso não poderia estar mais longe da verdade. Suas filhas são muito belas, de coração e de aparência. Nunca hei... quer dizer, nunca ninguém... -O que se passa Sophie? Sophie se agarrou ao batente da porta, para não perder o equilíbrio e cair. Sentia pouco firmes as pernas, sentia pouco firme o coração. Em qualquer momento por-se-ia a chorar, e por quê? Porque o homem que amava não se casaria alguma vez com ela? Porque a detestava por lhe haver mentido? Porque já lhe tinha quebrado o coração duas vezes: uma ao lhe pedir que fosse sua amante e a outra ao fazê-la amar a sua família e logo a obrigando a partir? Embora não lhe tivesse pedido que partisse, não podia ser mais evidente que ela não podia continuar ali. -É pelo Benedict, não é?


Sophie levantou bruscamente a cabeça e a olhou. Lady Bridgerton sorriu tristemente. -É evidente que há sentimento entre vocês. - disse docemente, respondendo a pergunta que sem dúvida via em seus olhos. -Por que não me despediu? - perguntou em um sussurro. Não achava que lady Bridgerton soubesse que tinha tido relações íntimas com Benedict, mas nenhuma mulher de sua posição quereria que seu filho suspirasse por uma criada. -Não sei. - respondeu lady Bridgerton, com uma expressão mais aflita que Sophie tivesse imaginado possível - Provavelmente deveria tê-lo feito. – encolheu os ombros, com uma estranha expressão de impotência em seus olhos - Mas eu gosto de você. As lágrimas que Sophie tinha estado tratando de conter, começaram a lhe rolar pelo rosto, mas, além disso, conseguiu manter a calma; não soluçou estremecida, não emitiu nenhum som; simplesmente continuou onde estava absolutamente imóvel, enquanto lhe brotavam lágrimas e mais lágrimas. Quando lady Bridgerton voltou a falar, o fez com palavras muito medidas, como se as tivesse escolhido com supremo cuidado para obter uma resposta concreta. -É o tipo de mulher que eu gostaria para meu filho. - disse, sem deixar de olhar seu rosto nem um só instante - Não nos conhecemos há muito tempo, mas conheço seu caráter e conheço seu coração. E tomara... Escapou um soluço abafado de Sophie, mas se apressou a reprimir os que lutavam por sair. Lady Bridgerton reagiu ao soluço inclinando a cabeça, compassiva, e lhe dando uma piscada de tristeza com os olhos. -Tomara seus antecedentes fossem diferentes. – continuou - E não é que eu pense mal de você nem a considere menos por isso, mas faz as coisas muito difíceis. -Impossíveis. - sussurrou Sophie. Lady Bridgerton não disse nada, e Sophie compreendeu que em seu coração estava de acordo, se não de todo, em noventa e nove por cento, com sua afirmação. -É possível que seus antecedentes não sejam exatamente o que parecem? – perguntou lady Bridgerton, pronunciando as palavras com mais mesura e cuidado que antes. Sophie guardou silêncio. - Há coisas em você que não combinam, Sophie.


Sophie sabia que esperava que lhe perguntasse o que, mas tinha uma boa idéia do que queria dizer. -Sua dicção é impecável. - continuou lady Bridgerton - Explicou-me que assistia às aulas com as filhas da casa onde trabalhava sua mãe, mas para mim essa explicação não é suficiente. Essas aulas começariam quando já tinha uns anos, seis pelo menos, idade em que já teria firmemente estabelecida sua forma de falar. Sophie arregalou os olhos. Nunca tinha visto essa determinada falha em sua história inventada, e a surpreendeu que ninguém o tivesse visto até esse momento. Mas claro, lady Bridgerton era muitíssimo mais inteligente que a maioria das pessoas às quais tinha contado essa história. -E sabe latim. - continuou lady Bridgerton - Não tente negá-lo. Ouvi-a resmungar em voz baixa o outro dia quando Hyacinth te irritou. Sophie manteve a vista fixa na janela, à esquerda de lady Bridgerton, sem conseguir atrever-se a olhá-la nos olhos. -Obrigada por não negá-lo. - disse lady Bridgerton, e ficou esperando que ela dissesse algo. Esperou tanto que Sophie se viu obrigada a pôr fim a esse interminável silêncio. -Não sou par adequado para seu filho. - disse. -Compreendo. -Na verdade tenho que partir. - se apressou a continuar, antes de ter tempo para arrepender-se. -Se esse é seu desejo, - disse lady Bridgerton, assentindo - não posso fazer nada para impedir isso. Onde pensa ir? -Tenho parentes no norte. - mentiu Sophie. Foi evidente que lady Bridgerton não acreditou, mas respondeu: -Certamente usará uma de nossas carruagens. -Não, de maneira nenhuma. -Não acredita que lhe permitiria fazer outra coisa. Considero-a minha responsabilidade, ao menos durante os próximos dias, e é muito perigoso que parta sem companhia. Este mundo não é seguro para mulheres sozinhas. Sophie não pôde reprimir um pesaroso sorriso. O tom de lady Bridgerton podia ser distinto, mas suas palavras eram quase as mesmas que lhe dissera Benedict umas semanas antes. E no que a tinham metido essas palavras. Não podia dizer que lady Bridgerton e ela fossem íntimas amigas, mas a conhecia o suficiente para saber que não faria concessões.


Podia pedir ao cocheiro que a deixasse em algum lugar, preferivelmente não muito longe de algum porto, onde finalmente poderia comprar uma passagem para os Estados Unidos, e logo decidir o que faria a partir disso. -Muito bem. – disse - Obrigada. Lady Bridgerton a obsequiou com um leve e triste sorriso. -Suponho que já tem feitas suas malas... Sophie assentiu. Não havia nenhuma necessidade de dizer que só tinha uma bolsa, em singular. -Já fez suas despedidas? -Prefiro não as fazer. - respondeu Sophie, negando com a cabeça. Lady Bridgerton ficou de pé e assentiu. -Às vezes isso é o melhor. Por que não me espera no vestíbulo da entrada? Irei ordenar que levem uma carruagem à porta. Sophie se virou e pôs-se a caminhar, mas justo antes de sair se deteve e se virou novamente. -Lady Bridgerton... Iluminaram os olhos da senhora, como se esperasse ouvir uma boa notícia, ou se não boa, pelo menos diferente. -Sim? Sophie engoliu em seco. -Queria lhe agradecer. Apagou-se um tanto a luz nos olhos de lady Bridgerton. -Do que? -Por me ter aqui, por me aceitar e me permitir fingir que formava parte de sua família. -Não seja tom... -Não tinha porque me convidar para tomar chá com você e as moças. – interrompeu Sophie. Se não reconhecesse, tudo isso perderia o valor - A maioria das senhoras não o teria feito. Foi bonito... E novo... E... - se emocionou Sentirei falta de todas. -Não tem por que partir. – disse lady Bridgerton docemente. Sophie tentou sorrir, mas o sorriso lhe saiu pela metade, e teve sabor de lágrimas. -Sim, tenho que ir. - disse quase afogada pelas palavras. Lady Bridgerton a contemplou um longo tempo, com seus olhos azul claro, cheios de compaixão e talvez um pouco de compreensão. - Já vejo. - disse em voz baixa. E Sophie teve a incômoda sensação de que via.


-Espere-me embaixo. - disse. Sophie assentiu e se pôs a um lado para deixá-la passar. A viscondessa viúva se deteve na porta a olhar a puída bolsa que estava no chão. -Isso é tudo o que possui? -Tudo no mundo. Lady Bridgerton engoliu em seco, desconfortável, e as faces se tingiram levemente de rosa, quase como se a envergonhassem suas riquezas, e a carência dela. -Mas isso, - disse Sophie fazendo um gesto para a bolsa - isso não é o importante. O que você tem... - se interrompeu para engolir o nó que lhe tinha formado na garganta - Não quero dizer o que possui... -Sei o que quer dizer, Sophie. - disse lady Bridgerton, limpando-os olhos com os dedos - Obrigada. -É a verdade. - respondeu ela, erguendo ligeiramente os ombros. -Permita-me que lhe dê um pouco de dinheiro antes que parta, Sophie. -Não poderia. - negou ela com a cabeça - Já peguei dois dos vestidos que me deu de presente. Não queria, mas... - Fez bem. - tranquilizou-a lady Bridgerton - O que mais podia fazer? Os que trouxe com você já não existem. - clareou a garganta - Mas, por favor, aceite um pouco de dinheiro. – ao vê-la abrir a boca para protestar, insistiu - Por favor. Me faria sentir melhor. Lady Bridgerton tinha uma maneira de olhar que fazia desejar fazer o que pedia. E, além disso, pensou Sophie, necessitava desse dinheiro. Lady Bridgerton era uma senhora generosa; talvez pudesse lhe dar o suficiente para comprar uma passagem de terceira classe para atravessar o oceano. - Obrigada. - disse, antes que sua consciência tivesse a oportunidade de convencê-la de recusar o oferecimento. Depois de um breve gesto de assentimento, lady Bridgerton pôs-se a andar pelo corredor. Quando a perdeu de vista, Sophie fez uma longa e trêmula inspiração, agachou-se para recolher sua bolsa e lentamente caminhou até a escada e desceu ao vestíbulo. Depois de estar um momento esperando ali, decidiu que igualmente podia esperar fora. Era um formoso dia de primavera e talvez sentir um pouquinho de sol no nariz seria justo o que necessitava para sentir-se melhor. Bom, ao menos um pouco melhor. Além disso, ali havia menos probabilidades de encontrar-se de repente com uma das meninas Bridgerton, e por muito que fosse sentir falta delas, não queria ver-se obrigada a despedir-se.


Com a bolsa firmemente agarrada em uma mão, abriu a pesada porta e desceu a escadaria. A carruagem não demoraria muito em dar a volta. Cinco minutos, talvez dez, talvez... -Sophie Beckett! O estômago caiu aos tornozelos. Era Araminta. Como podia ter esquecido? Não pôde mover-se, paralisada. Olhou ao redor e logo os degraus, tratando de decidir para onde fugir. Se voltasse a entrar na casa, Araminta saberia onde encontrá-la, e se punha-se a correr pela rua... -Polícia! - gritou Araminta - Necessito de um policial! Sophie soltou a bolsa e pôs-se a correr. -Que alguém a detenha! - gritou Araminta - Detenham a ladra! Detenham a ladra! Sophie continuou correndo, ainda sabendo que isso a faria parecer culpada. Correu com todas as fibras de seus músculos, com cada baforada de ar que conseguia fazer entrar nos pulmões; correu, correu e correu... Até que alguém lhe fechou o passo e de um empurrão a derrubou de costas na calçada. -A tenho! - gritou o homem - Tenho-a! Sophie fechou e abriu os olhos, abafando uma exclamação de dor. A cabeça lhe tinha se chocado com a calçada em um golpe atordoante, e o homem que a agarrou estava virtualmente sentado em seu abdômen. -Aí está! - grasnou Araminta, correndo para ela - Sophie Beckett que descaramento! Sophie a olhou furiosa. Não existiam palavras para expressar o aborrecimento que sentia em seu coração. Para não dizer que não podia falar pela dor. - Andei procurando você. - disse Araminta com um diabólico sorriso - Posy me disse que a tinha visto. Sophie fechou os olhos e os manteve assim um momento mais longo que um pestanejo normal. Ai, Posy. Duvidava de que a moça tivesse querido delatála, mas sua língua tinha uma maneira inelutável de adiantar-se a sua mente. Araminta afirmou o pé muito perto de sua mão, a que tinha imobilizada pela pulso o homem que a agarrou, e sorrindo mudou o pé até plantá-lo sobre a mão. -Não deveria me ter roubado. - disse Araminta, com seus olhos azuis brilhantes. Sophie se limitou a grunhir. Foi o único som que conseguiu fazer.


-O vê? - continuou Araminta alegremente - Agora posso fazer encarcerá-la. Suponho que poderia ter feito isso antes, mas agora tenho a verdade de minha parte. Nesse momento chegou um homem correndo e se deteve com uma derrapagem ante a Araminta. -As autoridades vêm em caminho, milady. Dentro em pouco teremos a esta ladra na prisão. Sophie agarrou o lábio inferior entre os dentes, uma parte dela rogando que as autoridades se atrasassem até que saísse lady Bridgerton, e outra parte rogando que chegassem imediatamente para que as Bridgerton não vissem sua vergonha. E ao final obteve seu desejo, quer dizer o segundo. Não tinham passado dois minutos quando chegaram as autoridades, meteram-na em um carrinho de mão e a levaram ao cárcere. E o único que podia pensar Sophie enquanto a levavam era que os Bridgerton não saberiam nunca o que lhe tinha ocorrido, e que talvez isso fosse o melhor.


Capítulo 21 Ah se não houve emoção ontem na escadaria da porta principal da residência de lady Bridgerton no Bruton Street! A primeira foi que se viu a Penélope Featherington na companhia, não de um nem de dois, mas sim de três irmãos Bridgerton, certamente uma proeza até o momento impossível para a pobre moça, que tem a não muito boa fama de ser a feia do baile. Por desgraça (embora talvez previsivelmente) para a senhorita Featherington, quando finalmente partiu, fez isso pelo braço do visconde, o único homem casado do grupo. Se a senhorita Featherington chegasse a arranjar-se para levar ao altar a um irmão Bridgerton quereria dizer que teria chegado o fim do mundo tal como o conhecemos, e que esta cronista, que não vacila em reconhecer que esse mundo não teria nem pés nem cabeça para ela, veria-se obrigada a renunciar a esta coluna no ato. E como se a senhorita Featherington não tivesse sido suficiente noticia, ainda não tinham transcorrido três horas quando lady Penwood, que vive três portas mais à frente, abordou violentamente a uma mulher diante da casa da família Bridgerton. Parece que a dita mulher, a que, segundo suspeita esta cronista, trabalhava para a família Bridgerton, tinha trabalhado para lady Penwood anteriormente. Lady Penwood alega que esta mulher não identificada lhe roubou, e imediatamente fez encarcerasse a pobre criatura. Esta cronista não sabe bem como se castiga o roubo nesta época, mas é de supor que se alguém tiver a audácia de roubar à condessa, o castigo é muito estrito. É possível que pendurem a essa pobre moça ou, no mínimo, deportemna. Agora parece insignificante a guerra pelas criadas (da qual se informou nesta coluna o mês passado). Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 13 de junho de 1817. A primeira inclinação de Benedict na manhã seguinte foi servir uma boa taça de licor forte. Ou talvez três. Podia ser escandalosamente cedo para beber licor, mas lhe parecia muito atraente o atordoamento alcoólico depois da estocada que recebeu na tarde anterior das mãos de Sophie Beckett. Então recordou que tinha combinado com seu irmão Colin essa manhã para uma competição de esgrima. De repente achou bastante atraente a idéia de dar umas boas estocadas a seu irmão, mesmo que este não tivesse nada que ver com seu péssimo humor.


Para isso havia os irmãos, pensou, sorrindo tristemente, enquanto punha a indumentária. -Só tenho uma hora. - disse Colin, inserindo o botão arredondado na ponta de seu florete - Tenho um encontro mais tarde. -Não importa. - respondeu Benedict, fazendo umas quantas fintas para afrouxar os músculos das pernas; fazia tempo que não praticava; sentia cômodo o florete na mão. Retrocedeu e tocou o chão com a ponta, dobrando ligeiramente a lâmina - Não me levará mais de uma hora derrotá-lo. Colin olhou ao céu revirando os olhos antes de descer, a máscara. Benedict avançou até o centro da sala. -Está preparado? -Não de todo. - respondeu Colin seguindo-o. Benedict lhe fez outra finta. -Disse que ainda não estou preparado! - rugiu Colin saltando para um lado. -É muito lento. - disparou Benedict. Colin soltou uma maldição em voz baixa e acrescentou outra em voz alta: -Condenação! Que mosca o picou? - Nenhuma, - quase grunhiu Benedict - por que o diz? Colin retrocedeu até ficar a uma distância adequada para começar o combate. -Ah, não sei. - cantarolou, sarcástico - Suponho que será porque quase me fez voar a cabeça. -Tenho o bote na ponta. -E moveu o florete como se fosse um sabre. - replicou Colin. -Assim é mais divertido. - rebateu Benedict, sorrindo com dureza. -Não para meu pescoço. - mudou de mão o florete para flexionar e estirar os dedos. Deteve o movimento e franziu o cenho - Tem certeza que é um florete o que tem? -Pelo amor de Deus, Colin. - resmungou Benedict - Jamais usaria uma arma de verdade. -Só era para me assegurar. - respondeu Colin, tocando ligeiramente o pescoço - Preparado? Benedict assentiu e flexionou os joelhos. - As regras normais. - disse Colin, adotando a postura inicial - Nada de fazer cortes. Benedict assentiu secamente. -Em guarda!


Os dois levantaram o braço direito até ter a palma acima, os dedos fechados no punho do florete. -É nova essa? - perguntou de repente Colin, olhando interessado o punho do florete do Benedict. Benedict amaldiçoou sua perda de concentração. -Sim. - disparou - Prefiro o punho italiano. Colin retrocedeu, abandonando a postura de esgrima, e olhou seu florete, que tinha um punho francês menos adornado. -Me emprestaria isso alguma vez? Eu gostaria de ver se... -Sim! - gritou Benedict, resistindo apenas o desejo de atacar nesse mesmo instante - Vai voltar a se pôr em guarda? Colin o olhou com um sorriso enviesado, e Benedict compreendeu que lhe tinha perguntado por seu punho só para incomodá-lo. -Como queira. - respondeu Colin, recobrando a postura. Passado um momento em que os dois estiveram imóveis, gritou: -Ao ataque! Benedict avançou, fazendo fintas e atacando, mas Colin sempre tinha tido um excelente jogo de pés, e retrocedia e respondia com peritas paradas seus ataques. -Está com um humor de mil diabos hoje. - comentou Colin, atacando e quase tocando Benedict no ombro. Benedict esquivou e levantou o florete para parar o ataque. -Sim, bem, é que tive um mau dia. - voltou a avançar com o florete apontando reto. Colin fez o estorvo limpamente. -Bonita estocada. - comentou, tocando a fronte com seu punho em fingida saudação. -Cale-se e ataque. - disparou Benedict. Colin riu e avançou movendo o florete aqui e lá, mantendo Benedict em retirada. - Tem que ser uma mulher. - disse. Benedict parou o ataque e começou seu avanço. -Não é teu assunto. -É uma mulher. - disse Colin, sorrindo satisfeito. Benedict atacou e lhe tocou a clavícula com a ponta de seu florete. -Ponto. - resmungou. -Touché para ti. - disse Colin, assentindo secamente. Os dois voltaram para centro da sala - Preparado?


Benedict assentiu. -Em guarda! Ao ataque! Desta vez Colin foi o primeiro a atacar. -Se necessita de conselho sobre mulheres... - disse, levando Benedict para o canto. Benedict levantou o florete e parou o ataque com tanta força que seu irmão mais novo retrocedeu cambaleante. -Se necessitasse de conselho sobre mulheres, a última pessoa a que acudiria seria você. -Me feriste. - disse Colin, recuperando o equilíbrio. -Não. - disse Benedict, zombador - Para isso existe a ponta de segurança. -Certamente tenho melhor histórico com mulheres que você. -Ah, sim? - disse Benedict, sarcástico. Apontou o nariz para cima e arremedou, bastante bem, por certo - Certamente não vou me casar com Penélope Featherington! Colin fez uma careta. -Você não deveria dar conselho a ninguém. -Não sabia que estava ali. -Essa não é desculpa. - Avançou o florete e por pouco não lhe tocou o ombro - Estava em um lugar público, e a plena luz do dia. Embora ela não tivesse estado ali, qualquer um poderia tê-lo ouvido e o maldito assunto teria acabado aparecendo no Whistledown. Colin parou o golpe e se jogou com uma estocada tão veloz que tocou Benedict no meio do abdômen. -Touché. - grunhiu. Benedict assentiu, lhe reconhecendo o ponto. -Fui tolo. - disse Colin enquanto voltavam para o centro da sala - Você, em troca, é estúpido. -Que demônios significa isso? Colin exalou um suspiro e levantou a máscara. -Por que não vai e nos faz o favor a todos de se casar com a moça? Benedict ficou olhando fixamente, e lhe afrouxou a mão no punho do florete. Havia alguma possibilidade de que Colin não soubesse de quem estavam falando? Tirou a máscara, olhou os olhos verdes de seu irmão e quase emitiu um gemido. Colin sabia. Não sabia como, mas estava claro que sabia. Embora isso não devesse surpreendê-lo. Colin sempre sabia tudo. De fato, a única pessoa que sempre parecia saber mais fofocas que Colin era Eloise, e esta nunca


demorava mais de umas poucas horas em repartir seus duvidosos conhecimentos com Colin. -Como soube? - perguntou finalmente. - Sobre Sophie? É bastante evidente. -Colin, é... -Uma criada? E a quem importa? O que lhe vai passar se casa com ela? perguntou Colin, encolhendo os ombros como dizendo a quem diabos o importa - Pessoas que não poderiam lhe importar menos o vão excluir de sua sociedade? Demônios, não me importaria que me excluíssem algumas pessoas com as que estou obrigado a tratar. -Já decidi que não me importa nada disso. - disse Benedict, com um desdenhoso encolhimento de ombros. -Então qual é o problema? -É complicado. -Nunca nada é tão complicado como a gente crê. Benedict ruminou isso um momento, apoiando a ponta do florete no chão e fazendo com que se dobrasse a flexível lâmina para diante e atrás. -Lembra-se do baile de máscaras da mãe? -Faz uns anos? Justo antes de deixar a casa Bridgerton? -Esse. - confirmou Benedict - Recorda que conheceu uma mulher de vestido prateado? Encontrou-nos no corredor. -Claro. Você estava bastante interessado... - e logo arregalou os olhos Não era Sophie? -Extraordinário, verdade? - disse Benedict, a inflexão de sua voz gritando que isso ficava curto. -Mas... Como...? -Não sei como chegou ali, mas não é uma criada. -Não? -Bem, é... - esclareceu Benedict - Mas também é a filha bastarda do conde de Penwood. -Não o atual, sup...? -Não, o que morreu faz vários anos. -E você sabia tudo isso? -Não. - disse Benedict, fazendo vibrar a palavra na língua - Não. -Ah. - Colin agarrou o lábio inferior entre os dentes, assimilando o sentido da lacônica resposta de seu irmão - Compreendo. O que vai fazer? O florete de Benedict, que tinha estado dobrando para diante e atrás, apoiado no chão, de repente se endireitou e lhe escapou da mão. Ele o


observou impassível deslizar pelo chão, e enquanto ia recolhê-lo respondeu, sem erguer a vista: -Essa é uma pergunta muito boa. Continuava furioso com Sophie por seu engano, mas ele tampouco estava livre de culpa. Não deveria ter pedido que fosse sua amante. Tinha o direito a pedir-lhe sim, mas ela também tinha o direito a negar-se. E uma vez que ela se negou, ele deveria havê-la deixado em paz. Ele não tinha crescido sendo um bastardo, e se a experiência dela tinha sido tão terrível que não queria arriscar-se a ter filhos bastardos, bom, ele deveria ter respeitado isso. Se a respeitava, tinha que respeitar suas crenças. Não deveria ter sido tão frívolo com ela, insistindo em que tudo era possível, que ela era livre para fazer o que fosse que desejasse seu coração. Sua mãe tinha razão: sim vivia uma vida encantada. Tinha riqueza, família, felicidade, e nada estava fora de seu alcance. O único terrível fato que tinha ocorrido em sua vida era a prematura morte de seu pai, e inclusive então, tinha tido a sua família a seu lado para suportá-la. Era-lhe difícil imaginar certos sofrimentos porque nunca os tinha experimentado. E à diferença de Sophie, nunca tinha estado sozinho. E agora o que? Já tinha decidido que estava preparado para fazer frente ao ostracismo social e casar-se com ela. A filha bastarda não reconhecida de um conde era ligeiramente mais aceitável que uma criada, mas só ligeiramente. A sociedade londrina poderia aceitá-la se ele os obrigasse, mas não fariam maior esforço por ser amáveis. Provavelmente teriam que viver discretamente no campo, evitando a sociedade de Londres, que quase com toda segurança lhes voltaria às costas. Mas seu coração demorou menos de um segundo em saber que uma vida discreta com o Sophie era imensamente preferível a uma vida pública sem ela. Importava que ela fosse a mulher do baile de máscaras? Tinha-lhe mentido a respeito da sua identidade, mas ele conhecia sua alma. Quando se beijavam, quando riam juntos, quando simplesmente estavam sentados conversando, ela jamais fingia, nem por um instante. A mulher capaz de lhe fazer cantar o coração com um simples sorriso, a mulher que o enchia de satisfação simplesmente estando sentada a seu lado enquanto ele desenhava, essa era a verdadeira Sophie. E ele a amava. - Tem o aspecto de ter chegado a uma decisão. - comentou Colin em voz baixa.


Benedict o contemplou pensativo. Quando havia se tornado tão perspicaz seu irmão? Pensando bem, quando tinha crescido? Ele sempre tinha considerado Colin um jovenzinho malandro, encantador e galhardo, mas não um que tivesse tido que assumir nenhum tipo de responsabilidade jamais. Mas ao observá-lo nesse momento, viu outra pessoa. Tinha os ombros um pouco mais largos, a postura um pouco mais firme e séria. E seus olhos pareciam mais sábios. Essa era a maior mudança. Se de verdade os olhos eram os espelhos da alma, a alma do Colin tinha crescido em algum momento em que ele não estava prestando atenção. -Devo-lhe umas quantas desculpas. - disse. -Com certeza o perdoará. -Ela me deve várias também. Mais que várias. Benedict percebeu que seu irmão desejava perguntar "Do que?", mas teve que lhe reconhecer o mérito quando a única coisa que lhe perguntou foi: - Está disposto a perdoá-la? Benedict assentiu. Colin se aproximou e lhe tirou o florete da mão. -Eu lhe guardarei isto. Benedict contemplou a mão de seu irmão com seu florete um momento estupidamente longo, até que levantou bruscamente a cabeça. -Tenho que ir! - exclamou. -Supus isso. - respondeu Colin, reprimindo um sorriso. Benedict o olhou e de repente, sem outro motivo que um avassalador desejo, deu-lhe um rápido abraço. -Não digo isto frequentemente, - disse, com uma voz que a seus ouvidos soou bronca - mas o amo. - Eu também o amo, irmão mais velho. - respondeu Colin, abrindo o sorriso, sempre um pouco torto - Agora, fora daqui! Benedict lhe passou sua máscara e saiu da sala com longas passadas. -O que quer dizer com partiu? -Pois é isso, - disse lady Bridgerton, com os olhos tristes e compassivos partiu. Benedict sentiu uma insuportável pressão nas têmporas; era um milagre que não lhe explodisse a cabeça. -E você a deixou? -Não teria sido legal que a obrigasse a ficar.


Benedict quase emitiu um gemido. Tampouco tinha sido legal obrigá-la a vir a Londres, mas ele a obrigou de qualquer modo. -Aonde foi? Sua mãe pareceu desmoronar-se em seu assento. -Não sei. Insisti em que usasse uma de nossas carruagens, em parte porque temia por sua segurança, mas também porque desejava saber aonde ia. -O que ocorreu, pois? - disse ele golpeando a escrivaninha com as Palmas. -Como estava lhe explicando, insisti em que usasse uma de nossas carruagens, mas era evidente que ela não queria, e desapareceu antes que a carruagem desse a volta até a porta. Benedict soltou uma maldição em voz baixa. Era provável que Sophie ainda estivesse em Londres, mas a cidade era enorme e muito populosa. Era virtualmente impossível localizar a uma pessoa que não queria que a encontrassem. -Supus que tinham tido uma rixa. - disse Violet delicadamente. Benedict passou a mão pelo cabelo e então se fixou em sua manga branca. Tinha ido ali com sua indumentária de esgrima. -Demônios! - disse. Viu o gesto que fazia sua mãe, mostrando os brancos dos olhos - Nada de sermões sobre palavrões agora, mãe, por favor. -Nem o sonharia. - respondeu ela, os lábios curvados em um sorriso. -Onde a vou encontrar? Desapareceu a expressão risonha dos olhos de Violet. -Não sei Benedict. Tomara soubesse. Eu gostava muito de Sophie. -É a filha de Penwood. -Suspeitava algo assim, - disse Violet, pensativa - ilegítima, suponho? Benedict assentiu. Sua mãe abriu a boca para dizer algo, mas ele não chegou, a saber, o que ia dizer, porque nesse momento se abriu bruscamente a porta do escritório, com tanto ímpeto que bateu contra a parede com um forte estrondo. Francesca, que sem dúvida tinha vindo correndo por toda a casa, não conseguiu frear e foi se estatelar com a escrivaninha, e Hyacinth, que vinha correndo atrás, chocou-se com ela. -O que se passa? - perguntou Violet, levantando-se. -Sophie. - ofegou Francesca. - Sei, - disse Violet - partiu. Estávamos... -Não! - interrompeu Hyacinth, pondo uma folha sobre a escrivaninha Olhem.


Benedict estendeu a mão para agarrar o papel, que imediatamente reconheceu como um número do Whistledown, mas sua mãe se adiantou e começou a ler. -O que passa? - perguntou, com um nó no estômago, ao ver que sua mãe empalidecia. Passou-lhe a folha. Ele passou rapidamente a vista pelas fofocas sobre o duque do Ashbourne, o conde do Macclesfield e Penélope Featherington, até chegar à parte que tinha que ser sobre Sophie. -Prisão? - disse, sua voz apenas um sussurro. -Temos que tirá-la dali. - disse sua mãe, erguendo os ombros como um general preparando-se para a batalha. Mas Benedict já tinha saído pela porta. -Espere! - gritou Violet, correndo atrás dele - Eu também vou. Benedict se deteve justo antes de chegar à escada. - Você não vem. - ordenou - Não permitirei que se exponha A... -Vamos, não diga tolices. Não sou nenhuma fraca florzinha. E posso dar fé da honradez e integridade de Sophie. -Eu também vou. - disse Hyacinth, detendo-se com uma derrapagem junto a Francesca, que os tinha seguido. -Não! - responderam mãe e irmão, ao uníssono. -Mas... -Disse não! - interrompeu Violet em tom firme. Francesca emitiu um ressentido resmungo. -Suponho que não tiraria nada se insistisse em... -Nem lhe ocorra acabar essa frase. - bradou Benedict. -Como se fosse deixar-me. - reclamou ela. -Se quer ir, - disse Benedict a sua mãe, sem fazer caso de Francesca temos que ir imediatamente. -Ordenarei que tirem a carruagem e o estarei esperando na porta. Dez minutos depois, já estavam em marcha.


Capítulo 22 Que agitação e pressa no Bruton Street. Na sexta-feira pela manhã viram sair correndo de sua casa a viscondessa Bridgerton viúva acompanhada por seu filho Benedict. O senhor Bridgerton virtualmente jogou sua mãe dentro de uma carruagem, e imediatamente partiram como alma que leva o diabo. Francesca e Hyacinth ficaram na porta, e esta cronista soube de muito boa fonte que se ouviu Francesca exclamar uma palavra muito imprópria à uma dama. Mas a casa Bridgerton não é a única em que se viu semelhante agitação. Também houve muitíssima atividade na casa das Penwood, a que culminou em uma briga em público, na escadaria de entrada da casa, entre a condessa e sua filha, a senhorita Posy Reiling. Como esta cronista nunca teve simpatia à lady Penwood, só pode exclamar: "Hurra por Posy!" Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 16 de junho de 1817 Fazia frio, um frio tremendo. E se ouvia um desagradável ruído de furtivas correrias pelos cantos, correrias que não deixavam nenhuma dúvida de que eram de animaizinhos de quatro patas. Ou inclusive pior, de animais de quatro patas. Ou, para ser mais exato, de versões grandes de animaizinhos de quatro patas. Ratos. -Ai Deus... - gemeu Sophie. Não tinha por costume pronunciar o nome do Senhor em vão, mas esse lhe pareceu tão bom momento como qualquer para começar. Talvez ele a ouvisse, e talvez ele castigasse os ratos. Sim, isso iria muito bem: um bom golpe com um raio. Um raio grande, de proporções bíblicas. O raio golpearia a terra, se estenderia como tentáculos elétricos ao redor do globo e torraria a todos os ratos. Era um sonho bonito para ter aí, junto com aquele em que se encontrava vivendo feliz para sempre como a senhora Benedict Bridgerton. Fez uma rápida inspiração ao sentir atravessado o coração por uma repentina pontada de dor. Dos dois sonhos, temia que o que tinha mais probabilidades de fazer-se realidade era o do raticídio. Estava sozinha. Absoluta e verdadeiramente sozinha. Não entendia por que isso lhe doía tanto, porque, a verdade, sempre tinha estado sozinha. Desde que sua avó a depositara na escadaria da entrada principal de Penwood Park


não tinha tido jamais a ninguém que a defendesse, a nenhuma pessoa que pusesse os interesses dela por cima, ou sequer ao mesmo nível, dos próprios. Grunhiu-lhe o estômago, lhe recordando que podia acrescentar fome a sua crescente lista de desgraças. E sede. Não lhe tinham levado nem sequer um gole de água para beber. Começava a ter fantasias muito estranhas com o chá. Fez uma longa e lenta expiração, procurando não esquecer que devia inspirar pela boca depois. O fedor era espantoso, entristecedor. Tinham-lhe dado um tosco urinol para que aliviasse suas necessidades corporais, mas até o momento tinha tratado de usá-lo com a menor freqüência possível. Tinham esvaziado o urinol antes de jogá-lo dentro de sua cela, mas não o tinham limpado, e quando o agarrou notou que estava molhado, o que a impulsionou a soltá-lo imediatamente, com todo o corpo estremecido de repugnância. Claro que tinha esvaziado muitos urinóis em sua vida, mas as pessoas para as quais trabalhava em geral se arrumavam para acertar dentro, por assim dizer. Para não dizer que sempre tinha podido lavar as mãos depois. E ali, além disso, do frio e a fome, não podia nem sentir limpa sua pele. Era uma sensação horrível. -Tem uma visita. Sophie ficou de pé de um salto ao ouvir a voz bronca e hostil do guarda. Poderia ser que Benedict tivesse descoberto onde estava? Poderia ser que tivesse desejado ir em sua ajuda? Haveria...? -Bem, bom, bom. Era Araminta. Caiu-lhe o coração ao chão. -Sophie Beckett. - cacarejou Araminta, se aproximando da cela e cobrindo o nariz com um lenço como se Sophie fosse a causa do fedor - Nunca teria imaginado que fosse ter a audácia de mostrar seu rosto em Londres. Sophie fechou firmemente a boca para obrigar-se a não falar. Araminta queria enfurecê-la com brincadeiras, e de maneira nenhuma lhe daria essa satisfação. -As coisas não vão bem para você, temo eu. - continuou Araminta, sacudindo a cabeça em fingida compaixão. Aproximou-se mais um pouco e sussurrou - O magistrado não sente muita simpatia pelos ladrões. Sophie cruzou os braços e ficou a olhar fixamente a parede. Se olhasse Araminta, embora só fosse fugazmente, não seria capaz de resistir a jogar-se sobre ela e certamente os barrotes da cela lhe machucariam gravemente o rosto.


-Já lhe pareceu mal o roubo das pinças dos sapatos, - continuou Araminta, dando-se tapinhas no queixo com o indicador - mas ficou muito furioso quando lhe informei do roubo de meu anel de casamento. -Eu não...! Conseguiu reprimir o resto da exclamação; justamente isso era o que desejava Araminta: tirá-la do sério. -Ah, não? - replicou Araminta, sorrindo maliciosamente e agitando os dedos - Parece que não o levo, e é sua palavra contra a minha. Sophie abriu a boca, mas dela não saiu nenhum som. Araminta tinha razão; nenhum juiz aceitaria sua palavra contra a da condessa de Penwood. Araminta sorriu com uma expressão vagamente felina. -O homem da porta, acreditei ouvi-lo dizer que era o guarda, disse que não é provável que a pendurem, assim não tem por que preocupar-se nesse ponto. A deportação é uma consequência muito mais provável. Sophie quase se pôs a rir. Só no dia anterior tinha estado fazendo planos para emigrar aos Estados Unidos. E ao parecer deixaria a Inglaterra, embora seu destino fosse a Austrália. E iria acorrentada. -Suplicarei que tenham clemência. - disse Araminta - Não quero que a matem, só quero que... Parta. -Todo um modelo de caridade cristã. - disse Sophie – Seguramente o juiz se comoverá. Araminta passou distraidamente os dedos pela têmpora pondo atrás uma mecha. -Mas não será comovedor? - disse, olhando-a e sorrindo, com uma expressão dura, lúgubre. Repentinamente Sophie sentiu a urgente necessidade de saber... -Por que me odeia? - perguntou em um sussurro. Araminta esteve um momento olhando-a fixamente e depois respondeu: -Porque ele a amava. Sophie não pôde dizer nada, muda pela surpresa. Os olhos de Araminta brilharam com uma dureza que os faziam parecer quebradiços. -Jamais lhe perdoarei isso. Sophie negou com a cabeça, incrédula. -Nunca me amou. -Vestia-a, alimentava-a... - disse Araminta, entre dentes, com os lábios franzidos - Obrigou-me a viver com você.


-Isso não era amor. Isso era sentimento de culpa. Se me tivesse amado não me teria deixado com você. Não era estúpido, tinha que saber o muito que você me odiava. Se me tivesse amado não me teria esquecido em seu testamento. Se me tivesse amado... - não pôde continuar, engasgada com suas palavras. Araminta cruzou os braços. -Se me tivesse amado, - continuou Sophie - teria achado tempo para falar comigo. Poderia ter me perguntado como tinha ido o dia, ou o que estava estudando, ou se eu gostava do café da manhã. - engoliu a saliva para evitar um soluço, e se voltou de costas. Era muito difícil olhar a Araminta nesse momento – Nunca me amou. - disse em voz baixa - Não sabia amar. Durante um longo momento nenhuma das duas disse nada. -Queria me castigar. - disse Araminta finalmente. Sophie se virou lentamente. -Por não lhe dar um herdeiro. - continuou Araminta, e as mãos começaram a tremer - Odiava-me por isso. Sophie não soube o que dizer. Não sabia se havia algo que dizer. Passado outro longo momento, Araminta voltou a falar: -A princípio a odiava porque foi um insulto para mim. Nenhuma mulher deveria ter que albergar à bastarda de seu marido. Sophie guardou silêncio. -Mas depois... Mas depois... Ante a enorme surpresa de Sophie, Araminta se apoiou na parede como desmoronada, como se as lembranças a tivessem despojado de toda sua força. -Mas depois isso mudou. - disse Araminta ao fim - Como ele pôde ter você com uma puta e eu não pude lhe dar um filho? Sophie não viu muita utilidade em defender a sua mãe. -Não só a odiava. - continuou Araminta em um sussurro - Odiava vê-la. Isso não surpreendeu Sophie. -Odiava ouvir sua voz; odiava ver que seus olhos eram iguais aos dele; odiava saber que estava em minha casa. -Era minha casa também. - disse Sophie tranquilamente. -Sim. Sei. Também odiava isso. De repente Sophie ergueu o rosto e a olhou nos olhos. -A que veio? Não lhe basta o que fez? Já conseguiu que me deportem a Austrália. Araminta encolheu os ombros.


-Não sei, parece que não posso me manter afastada. Há algo tão agradável em vê-la na prisão. Terei que estar três horas na banheira para me tirar a fetidez, mas vale a pena. -Então tem que me desculpar se for me sentar no canto e faço como quem lê um livro. -disparou Sophie - Não há nada agradável em ver você. Foi até a desmantelada banqueta de três pernas que era o único móvel de sua cela e se sentou, procurando dissimular como se sentia desgraçada. Araminta a tinha derrotado, certo, mas não destroçado a alma, e de maneira nenhuma permitiria que acreditasse isso. Cruzou os braços, sentada de costas à porta da cela, com o ouvido atento a qualquer som que indicasse que Araminta partia. Mas Araminta continuou ali. Finalmente, passados uns dez minutos dessa tolice, Sophie se levantou de um salto e gritou: -Vá embora?! Araminta inclinou ligeiramente a cabeça. -Estou pensando. - disse. Sophie desejou lhe perguntar "no que?", mas sentiu um pouco de medo de ouvir a resposta. -Gostaria de saber como é a vida na Austrália. - disse Araminta - Nunca estive lá, naturalmente; nenhuma pessoa civilizada que eu conheça consideraria a possibilidade de ir lá. Mas ouvi dizer que o clima é tremendamente quente. E você com essa pele tão branca. Essa preciosa cútis não vai sobreviver a esse ardente sol. De fato... Mas uma repentina comoção no corredor que fazia esquina com esse interrompeu o que ia dizer (felizmente, porque Sophie já temia ver-se impulsionada a tentar assassiná-la se ouvisse uma palavra mais). -Que demônios se passa? - exclamou Araminta, retrocedendo uns passos e estirando o pescoço para ver melhor o outro corredor. Nesse instante Sophie ouviu uma voz muito conhecida. -Benedict? - falou. -O que disse ? - perguntou Araminta. Mas Sophie já estava com o rosto junto as grades de sua cela. -Nos deixe passar! - gritou Benedict. Sophie esqueceu que não desejava particularmente que os Bridgerton a vissem nesse degradante lugar. Esqueceu que não tinha nenhum futuro com Benedict. A única coisa que foi capaz de pensar foi que ele estava aí, que tinha vindo por ela.


-Benedict! - gritou. Se tivesse podido passar a cabeça por entre as grades o teria feito. Então ressoou no ar um forte golpe, claramente o de um punho contra osso, seguido por um ruído mais apagado, o mais provável o de um corpo ao encontrar-se com o chão. Ouviram-se passos apressados e então... -Benedict! -Sophie! Meu Deus! Como está? Benedict passou as mãos por entre as grades e as passou em suas faces. Seus lábios encontraram os dela. O beijo não foi de paixão, mas sim de terror e alívio. -Senhor Bridgerton? - grasnou Araminta. Com um esforço, Sophie conseguiu afastar os olhos do Benedict para olhar horrorizada o rosto de Araminta. Na agitação e emoção do momento tinha esquecido que Araminta ainda não sabia nada sobre seus laços com a família Bridgerton. Esse era um dos momentos mais perfeitos de sua vida. Talvez isso significasse que era uma pessoa frívola, pensou. Talvez significasse que não tinha na ordem adequada suas prioridades. Mas simplesmente adorou que Araminta, para quem a posição social e o poder eram tudo, fosse testemunha desse beijo dado por um dos solteiros mais cobiçados de Londres. Claro que também estava muito feliz por ver Benedict. Benedict se afastou a contra gosto, suas mãos lhe acariciando suavemente o rosto enquanto retrocedia uns passos. Depois cruzou os braços e dirigiu a Araminta um olhar de fúria capaz de chamuscar a terra. -Do que a acusa? – lhe perguntou. Os sentimentos de Sophie para Araminta bem podiam qualificar-se de "aversão extrema", mas jamais teria qualificado a mulher de estúpida. Mas nesse momento pensou que talvez tivesse que reavaliar esse julgamento, porque Araminta, em lugar de tornar-se a tremer e acovardar-se ante essa fúria, plantou as mãos em seus quadris e chiou: -Roubo! Nesse momento apareceu lady Bridgerton na esquina do corredor. -Não acredito que Sophie faça algo assim. - disse, correndo a ficar ao lado de seu filho. Olhou Araminta um momento, com os olhos inclinados - E você nunca me foi simpática, lady Penwood. - acrescentou, em tom bastante desdenhoso. Araminta retrocedeu um passo e pôs uma mão no peito, ofendida.


-Não se trata de mim, - arquejou. Dirigiu um olhar fulminante à Sophie trata-se dessa moça, que teve a audácia de roubar meu anel de casamento. -Não roubei seu anel de casamento, e sabe disso. - protestou Sophie - A última coisa que quereria de você... -Roubou as pinças de meus sapatos! Sophie apertou os lábios em uma linha belicosa. -Ah! Viram não? - exclamou Araminta, olhando ao redor para contar quantas pessoas haviam visto - Clara admissão de culpa. -É sua enteada. - chiou Benedict - Jamais deveria ter estado em uma posição em que lhe ocorresse que tinha que... -Não se atreva a chamá-la jamais minha enteada! - rangeu Araminta com o rosto contorcido e vermelho - Não significa nada para mim. Nada! -Com seu perdão, - contestou lady Bridgerton em um tom extraordinariamente amável - mas se de verdade não significasse nada para você, não estaria nesta asquerosa prisão tentando fazê-la pendurar por roubo. Araminta se salvou de ter que responder, pela chegada do magistrado, seguido por um mal-humorado guarda que, por casualidade, também levava um olho surpreendentemente arroxeado. Como o guarda lhe tinha dado uma palmada no traseiro quando a jogou com um empurrão na cela, Sophie não pôde resistir um sorriso. -O que se passa aqui? - perguntou o magistrado. -Essa mulher, - disse Benedict, impossibilitando com sua voz forte e grave qualquer outro esforço de contestar – acusou de roubo a minha noiva. Noiva? Sophie conseguiu manter a boca bem fechada, mas de qualquer modo teve que agarrar-se firmemente nas grades da cela porque as pernas se tinham convertido em água. -Noiva? - exclamou Araminta. O magistrado se ergueu em toda sua estatura. -E pode saber-se quem é você, senhor? - perguntou muito consciente de que Benedict era alguém importante, embora não sabia exatamente quem. Benedict cruzou os braços e disse seu nome. O magistrado empalideceu. -Algum parentesco com o visconde? -É meu irmão. -E ela... - engoliu em seco e apontou Sophie - é sua noiva? Sophie esperou que algum signo sobrenatural agitasse o ar, marcando Benedict como mentiroso, mas ante sua surpresa, não ocorreu nada. Viu inclusive que lady Bridgerton assentia.


-Não pode casar-se com ela. - disse Araminta. Benedict virou a cabeça para sua mãe. -Há algum motivo que indique a necessidade de que eu consulte lady Penwood sobre isto? -Nenhum que me ocorra. - respondeu lady Bridgerton. -Não é outra coisa que uma puta. - sibilou Araminta - Sua mãe era uma puta e isso se fere.. ai! Benedict a tinha pego pelo pescoço antes que alguém se desse conta de que se movera. -Não me obrigue a golpeá-la. - grunhiu. O magistrado lhe tocou o ombro. -Deveria soltá-la, de verdade. -Poderia amordaçá-la? O magistrado pareceu duvidoso, mas finalmente negou com a cabeça. Benedict soltou Araminta com visível relutância. -Se casar com ela, - disse Araminta, massageando o pescoço - me encarregarei de que todo mundo saiba quem é: a filha bastarda de uma puta. -Me parece que não necessitamos esse tipo de linguagem. - disse severamente o magistrado a Araminta. -Asseguro-lhe que não tenho o costume de falar dessa maneira, respondeu ela, respirando desdenhosamente pelo nariz - mas a ocasião justifica uma linguagem forte. Sophie mordeu um nódulo ao ver Benedict flexionando e estirando os dedos de um modo muito ameaçador. Estava claro que ele pensava que a ocasião justificava punhos fortes. O magistrado pigarreou e olhou a Araminta. -Acusou-a de um delito muito grave. - engoliu em seco - E vai se casar com um Bridgerton. -Eu sou a condessa de Penwood. - chiou Araminta - Condessa! O magistrado olhou de um em um aos ocupantes do corredor. Em qualidade de condessa, Araminta tinha a posição superior, mas ao mesmo tempo era só uma Penwood contra dois Bridgerton, um dos quais era muito corpulento, estava muito furioso e já tinha metido seu punho no olho do guarda. -Me roubou! - gritou Araminta. -Não, você roubou a ela! - rugiu Benedict. Suas palavras produziram um silêncio instantâneo. -Lhe roubou sua infância! - exclamou Benedict, estremecido de ira.


Havia grandes lacunas em seu conhecimento da vida de Sophie, mas sabia que essa mulher tinha causado grande parte do sofrimento que ele sempre via refletido no fundo de seus olhos verdes. E estaria disposto a apostar que seu querido e falecido pai era o causador do resto. Olhou ao magistrado e explicou: -Minha noiva é a filha ilegítima do defunto conde de Penwood. E a isso se deve que a condessa viúva a tenha acusado falsamente de roubo. Seu motivo é vingança e ódio, pura e simplesmente. O magistrado passou o olhar de Benedict a Araminta. Ao cabo de um instante, disse à Sophie: -É certo isso? Acusaram-na falsamente? -Roubou as pinças dos sapatos! - gritou Araminta - Juro pela tumba de meu marido que roubou as pinças. -Vamos, mãe, pelo amor de Deus, eu peguei essas pinças. Sophie abriu a boca, pasmada. -Posy? Benedict olhou a recém chegada, uma mocinha baixa, ligeiramente gordinha, que claramente era a filha da condessa. Depois olhou para Sophie, que havia ficado branca como um lençol. -Vá embora. - ordenou Araminta - Não tem nada que fazer nesta discussão. -Pois sim que tem, - disse o magistrado a Araminta - se ela pegou as pinças dos sapatos. Deseja apresentar queixas contra ela? -É minha filha! -Me ponham na cela com Sophie! - exclamou Posy, pondo uma mão no peito com grande dramatismo - Se a deportarem por roubo, a mim também devem deportar. Pela primeira vez em várias semanas, Benedict se surpreendeu sorrindo. O guarda tirou suas chaves e deu uma cotovelada ao magistrado. -Senhor? - disse hesitante. -Guarde essas chaves. - disparou o magistrado - Não vamos encarcerar a filha da condessa. -Não as guarde ainda. - interveio lady Bridgerton - Quero livre imediatamente a minha futura nora. O guarda olhou ao magistrado, indeciso. -Ah, pois, muito bem, deixe-a livre. - disse o magistrado apontando em direção à Sophie - Mas ninguém vai a nenhuma parte enquanto eu não tenha esclarecido isto.


Araminta se ofendeu e resmungou, mas o guarda abriu a porta da cela. Sophie saiu e imediatamente avançou para apoiar-se nos braços de Benedict, mas o magistrado a interceptou estirando um braço. -Não tão rápido. Não teremos nenhuma reunião de pombinhos enquanto eu não descubra a quem se tem que prender. -Não vai prender a ninguém. - grunhiu Benedict. -Irá para Austrália! - gritou Araminta apontando Sophie. -Me coloquem na cela! - suspirou Posy, pondo o dorso da mão na frente Fui eu! -Posy, quer se calar? - sussurrou Sophie - Me acredite, não lhe convém estar nessa cela. É horrorosa. E há ratos. Posy retrocedeu, afastando-se da cela. -Nunca receberá outro convite nesta cidade. - disse lady Bridgerton a Araminta. -Sou condessa! – sibilou Araminta. -E eu sou mais popular. - replicou lady Bridgerton. Tão estranhas eram essas depreciativas palavras em sua boca que tanto Benedict como Sophie a olharam boquiabertos. -Basta! - exclamou o magistrado. Olhou para Posy e, apontando Araminta, perguntou - É sua mãe? Posy assentiu. -E confessa ter sido você quem roubou as pinças dos sapatos? Posy voltou a assentir. -E ninguém lhe roubou seu anel de casamento. Está em seu joalheiro, em casa. Ninguém fez nenhuma exclamação de surpresa, porque a ninguém surpreendeu isso. Mas Araminta protestou de qualquer modo. -Não está! -Em seu outro joalheiro, - esclareceu Posy - que guarda na terceira gaveta da esquerda. Araminta empalideceu. -Parece que não tem nada do que acusar à senhorita Beckett, lady Penwood. - disse o magistrado. Araminta estremeceu de raiva e estirando um braço trêmulo apontou com um dedo ao Sophie: -Me roubou. - disse com voz abafada e voltou seus olhos furiosos para Posy - Minha filha mente. Não sei por que, e não sei o que espera ganhar com isso, mas mente.


Sophie sentiu uma desagradável revoada no estômago. Posy ia ter problemas terríveis quando voltasse para sua casa. Era impossível saber o que faria Araminta para vingar essa humilhação em público. Não podia permitir que Posy levasse a culpa sobre ela. Tinha que... -Posy não... As palavras lhe saíram da boca antes de ter tempo para pensar, mas não pôde acabar a frase porque Posy lhe enterrou o cotovelo no abdômen. -Ia dizer algo? - perguntou o magistrado. Sophie negou com a cabeça, sem poder falar, sem fôlego: Posy lhe tinha enviado o fôlego para a Escócia. O magistrado exalou um lento suspiro e passou a mão por seus espaçados cabelos loiros. Olhou para Posy, depois para Sophie, depois para Araminta e depois para Benedict. Lady Bridgerton clareou a garganta, obrigando-o a olhá-la também. -É evidente que isto é muitíssimo mais que uma pinça de sapato roubada. disse o magistrado, com uma expressão que dizia às claras que preferiria estar em qualquer outra parte. -Pinças. - corrigiu Araminta soprando pelo nariz - Eram duas. -Seja uma ou duas, está claro que há ódio entre vocês, e antes de condenar a alguém quero saber por que. Durante um instante ninguém falou, e de repente falaram todos de uma vez. -Silêncio! - rugiu o magistrado – Você. - apontou para Sophie - Comece. Ao ter a todos os pressente pendentes de suas palavras, Sophie se sentiu tremendamente tímida. -Eehhh... O magistrado pigarreou. -O que disse ele é correto. - se apressou a dizer Sophie, apontando Benedict - Sou filha do conde de Penwood, embora ele nunca me reconhecesse como tal. Araminta abriu a boca para dizer algo, mas o magistrado lhe dirigiu um olhar tão fulminante que voltou a fechá-la. -Vivi em Penwood sete anos antes que ela se casasse com o conde. continuou Sophie fazendo um gesto para Araminta - O conde dizia que era meu tutor, mas todos sabiam a verdade. - calou um momento, ao recordar o rosto de seu pai, pensando que não devia surpreendê-la o não poder imaginar-lhe com um sorriso no rosto - Pareço-me muito a ele.


- Conheci seu pai. - disse lady Bridgerton docemente - E a sua tia. Isso explica por que desde o começo tive a impressão de que já a conhecia. Sophie a olhou e lhe sorriu, agradecida. No tom de lady Bridgerton havia um não sei que muito tranqüilizador, que lhe produziu um agradável calor interior e a fez sentir-se um pouco mais segura. -Continue, por favor. – disse o magistrado. Ela assentiu e continuou: -Quando o conde se casou com a condessa, ela não queria que eu continuasse vivendo ali, mas ele insistiu. Eu o via muito raramente, e não acredito que pensasse muito em mim, mas me considerava sua responsabilidade e não queria que me expulsassem. Mas quando morreu... engoliu em seco, para passar o nó que lhe tinha formado na garganta. Jamais tinha contado sua história a ninguém; as palavras que saíam de sua boca lhe pareciam muito estranhas e desconhecidas - Quando morreu, seu testamento especificava que a parte de lady Penwood se triplicaria se me mantivesse em sua casa até que eu completasse os vinte anos. E isso ela fez. Mas minha posição mudou drasticamente. Converti-me em faxineira. Bom, não em faxineira exatamente. – sorriu irônica - A uma faxineira se paga. Assim, em realidade, poderia dizer que me converti em uma espécie de escrava. Olhou a Araminta. Esta estava de braços cruzados com o nariz apontando para cima e com os lábios ligeiramente franzidos. De repente caiu na conta das muitas vezes que tinha visto essa mesma expressão no rosto de Araminta; mais vezes que as que se atrevia a contar, tantas para lhe destroçar a alma. Entretanto, ali estava, suja e sem um cêntimo, mas com sua mente e têmpera ainda fortes. -Sophie? - disse Benedict, olhando-a com expressão preocupada - Ocorrelhe algo? Ela negou lentamente com a cabeça, porque acabava de compreender que de verdade tudo estava bem. O homem a que amava acabava de lhe pedir (de um modo algo indireto) que se casasse com ele, Araminta ia receber por fim o castigo que merecia, e às mãos dos Bridgerton, nada menos, que a deixariam feita farrapos quando acabassem, e Posy... Bom, talvez isso fosse o mais belo de tudo. Posy, que sempre tinha desejado ser uma irmã para ela, que jamais tinha tido a coragem de ser ela mesma, enfrentou sua mãe, e muito possivelmente a tinha salvado. Estava cem por cento segura que se Benedict não tivesse ido ali e declarado que ela era sua noiva, o testemunho de Posy teria sido a única coisa que a teria salvado da deportação, ou inclusive da execução. E ela sabia melhor


que ninguém que Posy pagaria muito caro sua coragem. Era possível que Araminta já estivesse planejando a maneira de lhe fazer a vida um inferno. Sim, tudo estava bem, e de repente se surpreendeu erguendo-se mais. -Permita que acabe minha história. – disse - Depois que morreu o conde, lady Penwood me manteve em sua casa em qualidade de criada sem salário. Embora a verdade é que eu fazia o trabalho de três criadas. -Lady Whistledown disse isso mesmo o mês passado! - exclamou Posy, entusiasmada - Disse à mãe que... -Feche a boca, Posy! - ladrou Araminta. -Quando completei os vinte, - continuou Sophie - não me expulsou de casa. Até o dia de hoje não sei por que. -Creio que já ouvimos suficiente. - disse Araminta. -Pois eu não acredito que tenhamos ouvido suficiente. - disse Benedict. Sophie olhou ao magistrado, em busca de orientação. Ele assentiu, e ela continuou: -Só posso deduzir que desfrutava tendo a alguém a quem mandar. Ou talvez gostasse de ter uma criada a quem não tinha que pagar. O conde não me deixou nada em seu testamento. -Isso não é verdade! - exclamou Posy. Sophie a olhou assombrada. -Deixou-lhe dinheiro. - insistiu Posy. Sophie sentiu que lhe afrouxava a mandíbula. -Isso não é possível. Eu não tinha nada. Meu pai se preocupou em deixar assegurada minha manutenção até os vinte anos, mas depois disso... -Para depois disso lhe deixou um dote. - disse Posy com bastante energia. -Um dote? -Isso não é verdade! - gritou Araminta. -É verdade! - rebateu Posy - Não deveria deixar provas incriminatórias por aí, mãe. O ano passado li a cópia do testamento do conde. - dirigindo-se a outros pressentes, acrescentou - Estava no mesmo joalheiro onde guardou seu anel de casamento. -Me roubou o dote? - disse Sophie a Araminta, com uma voz que soou apenas como um débil sussurro. Todos esses anos eu tinha acreditado que seu pai a deixou sem nada. Sabia que nunca a tinha amado, que a considerava pouco mais que sua responsabilidade, mas lhe doeu que deixasse dotes à Rosamund e Posy, que nem sequer eram filhas dele, e não a ela.


Jamais lhe tinha ocorrido pensar que não lhe tivesse deixado nada de propósito; tinha acreditado que, simplesmente, tinha-a esquecido. O que lhe assentava pior que um desprezo intencional. -Me deixou um dote. - disse, como desconcertada - Tenho um dote... disse à Benedict. -Não me importa se tem ou não tem um dote. - respondeu ele - Eu não o necessito. -A mim sim importa. - disse ela - Eu achava que me tinha esquecido. Todos estes anos achei que quando fez seu testamento, simplesmente se esquecera de mim. Sei que não poderia ter deixado dinheiro a sua filha bastarda, mas ele dizia a todo mundo que eu era sua pupila. E não havia nenhum motivo para que não assegurasse o futuro de sua pupila. - sem saber por que, olhou a lady Bridgerton - Poderia ter legado algo a sua pupila. As pessoas fazem isso todo o tempo. O magistrado pigarreou e olhou a Araminta. -E o que aconteceu a esse dote? Araminta não respondeu. Lady Bridgerton clareou a garganta. -Creio que não é legal dilapidar o dote de uma jovem. - sorriu, com um sorriso muito satisfeito – Não é, Araminta?


Capítulo 23 Disseram-me que lady Bridgerton partiu da cidade. O mesmo dizem de lady Penwood. Muito interessante. Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 18 de junho de 1817. Benedict decidiu que nunca tinha querido mais a sua mãe que nesse momento. Esforçava-se por não sorrir, mas isso lhe era extremamente difícil vendo resfolegar sufocada lady Penwood como um peixe fora da água. O magistrado olhou para lady Bridgerton com os olhos arregalados. -Não quererá insinuar que prenda à condessa? -Não, claro que não. - respondeu Violet - Ficaria em liberdade. A aristocracia raramente paga seus delitos. Mas, - acrescentou, inclinando ligeiramente a cabeça e lançando um rápido e intencional olhar a lady Penwood - se a prendesse, seria terrivelmente vergonhoso o que diria para defender-se das acusações. -O que quer dizer? - perguntou lady Penwood com os dentes apertados. Violet se dirigiu ao magistrado: -Poderia falar um momento a sós com lady Penwood? -Certamente, milady. - respondeu ele, lhe fazendo uma brusca reverência Todos fora! -ordenou aos outros. -Não, não. - disse Violet com um doce sorriso ao mesmo tempo em que lhe punha na palma da mão algo que tinha muitos traços de ser uma nota de libra - Minha família pode ficar. Ruborizando-se levemente, o magistrado agarrou pelo braço o guarda e o levou pelo outro corredor. - Pronto. - disse Violet - Onde estávamos? Benedict sorriu de orelha a orelha, orgulhoso, ao ver sua mãe aproximarse de lady Penwood e olhá-la fixamente até fazê-la descer os olhos. Olhou para Sophie e viu que esta tinha a boca aberta. -Meu filho vai se casar com Sophie, - disse Violet - e você vai dizer a todo mundo que queira escutar que ela era a pupila de seu falecido marido. -Jamais mentirei por ela. - replicou lady Penwood. -Muito bem. - disse Violet, encolhendo os ombros - Então pode esperar que meus advogados comecem imediatamente a averiguar o paradeiro do dote de Sophie. Depois de tudo, Benedict terá direito a ele uma vez que se casem.


-Se alguém me perguntar, - disse lady Penwood entre dentes - confirmarei qualquer história que vocês ponham a correr. Mas não espere que faça um esforço por ajudá-la. Violet simulou estar ruminando isso um momento e depois disse: -Excelente, acredito que isso irá muito bem. - se virou para seu filho Benedict? Ele assentiu energicamente, e sua mãe voltou a virar-se para lady Penwood. -O pai de Sophie se chamava Charles Beckett e era um primo longínquo do conde, não é verdade? Lady Penwood deu a impressão de ter engolido uma ameixa podre, mas assentiu. Violet deu ostentosamente as costas à condessa e disse: -Não me cabe dúvida de que os membros da alta sociedade a considerarão pouco elegante, pois ninguém saberá nada de sua família, mas pelo menos será respeitável. Depois de tudo, - acrescentou, e se virou a obsequiar com um radiante sorriso a Araminta - existe essa conexão com os Penwood. Araminta emitiu um estranho som, muito parecido com um grunhido. Benedict teve que fazer um enorme esforço para não tornar a rir. -Não é, magistrado! - gritou Violet, e quando o homem reapareceu apressadamente no corredor, sorriu-lhe bravamente e disse: -Acho que já está concluído meu trabalho aqui. Ele exalou um suspiro de alívio. -Então não tenho que prender a ninguém? -Parece que não. Ele se apoiou na parede, virtualmente desmoronado de alívio. -Bem, eu parto. - anunciou lady Penwood, como se alguém fosse sentir sua falta. Voltou-se para sua filha com olhos furiosos - Vamos, Posy. Benedict viu como a cor abandonava o rosto de Posy, mas antes que ele pudesse intervir, Sophie deu um salto para diante. -Lady Bridgerton! - exclamou, justo no momento em que Araminta dizia à Posy: - Mova-se, vamos! -Sim, querida? Sophie agarrou o braço de Violet e a aproximou para lhe sussurrar algo ao ouvido. -Muito bem. - disse Violet e se virou para Posy. - Senhorita Gunningworth?


-Em realidade sou senhorita Reiling. - emendou Posy - O conde não me adotou. -Muito bem, senhorita Reiling. Que idade tem? -Vinte e um anos, milady. -Bem, essa já é uma idade para que tome suas próprias decisões. Gostaria de passar uns dias em minha casa? -Oh, sim! -Posy, não tem permissão para ir viver com os Bridgerton! - bradou Araminta. -Acho que irei antes de Londres esta temporada. - continuou Violet dirigindo-se à Posy, sem fazer caso de Araminta - Gostaria de passar conosco uma longa estadia no Kent? Posy se apressou a assentir. -Eu agradeceria muitíssimo. -Combinado, então. -Não há nada arrumado. - reclamou Araminta - É minha filha e... -Benedict, - disse lady Bridgerton em tom aborrecido - como se chama meu advogado? -Vá! - disparou Araminta à Posy - E não volte jamais para obscurecer minha porta. Pela primeira vez em toda a reunião, Posy pareceu um pouco assustada. E o susto piorou quando Araminta ficou frente a ela e lhe falou muito perto do rosto: -Se vai com eles agora, estará morta para mim. Entende? Morta! Posy olhou aterrada à Violet, que se apressou a aproximar-se e a entrelaçar seu braço com o dela. -Não tem importância, Posy. - disse docemente - Pode viver conosco todo o tempo que quiser. Sophie também se aproximou e lhe agarrou o braço livre. -Agora sim, seremos irmãs de verdade. - lhe disse, lhe dando um beijo na face. -Oh, Sophie... - soluçou Posy, com os olhos inundados de lágrimas – Perdoa-me, sinto tanto. Nunca a defendi. Deveria ter dito algo. Deveria ter feito algo, mas... -Era uma menina. - interrompeu-a Sophie, negando com a cabeça - Eu era também uma menina. E sei melhor que ninguém como difícil é desafiá-la. acrescentou olhando duramente Araminta. -Não me fale assim. - chiou Araminta, levantando a mão para golpeá-la.


-Não, não! - interveio Violet - Os advogados, lady Penwood. Não se esqueça dos advogados. Araminta desceu a mão, mas sua expressão dava a entender que igualmente explodiria em chamas espontaneamente em qualquer momento. -Benedict? Quanto demoraria em chegar aos escritórios de nossos advogados? Sorrindo para si mesmo, ele passou a mão pelo queixo, pensativo. -Não é muito longe. Vinte minutos? Trinta se houver muito trânsito nas ruas. Araminta estremeceu de raiva e dirigiu suas palavras à Violet: -Leve-a, então. Para mim nunca foi outra coisa que decepção. E pode esperar estar atada com ela até o dia de sua morte, pois não há nenhuma probabilidade de que alguém lhe peça a mão. Tive que subornar a homens só para que a tirem dançar. E então ocorreu algo muito estranho. Sophie começou a tremer, ficou com o rosto vermelho, chiaram-lhe os dentes e lhe saiu um incrível rugido pela boca. E antes que a alguém ocorresse sequer intervir, jogou-se sobre Araminta e lhe enterrou o punho no olho, jogando-a ao chão. Benedict tinha pensado que nunca nada poderia surpreendê-lo mais que a veia maquiavélica que acabava de descobrir em sua mãe. Estava equivocado. -Isso não é por me roubar o dote, - disse Sophie - não é por todas as vezes que tentou me expulsar de minha casa antes que morresse meu pai. E não é por me ter convertido em sua escrava pessoal. -E, Sophie, - disse Benedict calmamente - por que, então? -Por não amar igualmente a suas duas filhas. - respondeu Sophie, sem afastar os olhos do rosto de Araminta. Posy ficou a soluçar, chorando desconsolada. -Há um lugar especial no inferno para mães como você. - disse Sophie, com voz perigosamente grave. -Precisam saber, - grasnou o magistrado - que temos urgente necessidade de desocupar esta cela para o próximo ocupante. - Tem razão. - disse Violet, pondo-se rapidamente diante de Sophie, não fosse decidir começar a dar pontapés à Araminta. - Há algum pertence que deseje ir recolher? -perguntou à Posy. Posy negou com a cabeça. Violet ficou com os olhos tristes, e lhe apertou suavemente a mão. -Nós lhe faremos novas lembranças, querida minha.


Araminta ficou de pé e, depois de lançar um horrível olhar de fúria a Posy, partiu pisando forte. -Bem, - disse Violet, plantando-as mãos nas cadeiras - achei que não se ia nunca. -Não mova nem um só músculo. - sussurrou Benedict a Sophie, lhe tirando o braço da cintura. Depois foi ficar ao lado de sua mãe. -Disse-lhe ultimamente o muito que a amo? - lhe sussurrou ao ouvido. -Não, mas sei de qualquer modo. - respondeu ela, com um sorriso satisfeito. -Disse-lhe que é a melhor das mães? -Não, mas isso também sei. -Estupendo! - disse ele lhe dando um beijo no rosto - Obrigado. É um privilégio ser seu filho. Então sua mãe, que se tinha mantido firme todo esse tempo demonstrando que era a menos sentimental e a mais prática e engenhosa de todos eles, pôs-se a chorar. -O que lhe disse? - perguntou Sophie a Benedict. -Não se passa nada... - disse Violet, soprando pelo nariz - É... – estreitando Benedict em seus braços - Eu também o amo. -Esta é uma família maravilhosa. - comentou Posy à Sophie. Sophie virou a cabeça para olhá-la. -Sim, eu sei. - disse. Uma hora depois, Sophie estava na sala de estar de Benedict, sentada no mesmo sofá onde perdeu a inocência só fazia umas semanas. Lady Bridgerton tinha manifestado suas dúvidas em relação à prudência (e decoro) de que ela fosse à casa do Benedict sozinha, mas ele a olhou com tal expressão que se apressou a dar marcha atrás e só pôs a condição de que estivesse de volta em casa às sete. Isso lhes dava uma hora para estar juntos. -Sinto muito... - disse no instante em que seu traseiro tocava o sofá. Durante o trajeto a casa em carruagem, por algum inexplicável motivo, não tinham falado nada. Vieram agarrados pelas mãos e Benedict lhe tinha beijado os dedos, mas nenhum dos dois disse nada. Para ela isso foi um alívio. Não se sentia preparada para dizer palavras. Na prisão lhe tinha sido fácil falar, com toda a comoção e as muitas pessoas, mas nesse momento, a sós com ele, não lhe ocorreu nada, além de "sinto muito".


-Não, eu sinto muito. - respondeu ele, sentando-se a seu lado e lhe agarrando as mãos. -Não, eu... - depois sorriu - Isto é muito tolo. -Amo-a. - disse ele. Ela entreabriu os lábios. -Quero me casar com você. Ela deixou de respirar. -E não me importam seus pais nem o pacto de minha mãe com lady Penwood para fazê-la respeitável. - olhou-a com os olhos ardentes de amor Teria me casado com você fosse como fosse. Sophie pestanejou. Sentia quentes e grandes lágrimas nos olhos, e teve a desagradável suspeita de que estava a ponto de fazer o ridículo choramingando e molhando-o inteiro. Conseguiu pronunciar seu nome, mas não soube que mais dizer. Benedict lhe apertou as mãos. -Não poderíamos ter vivido em Londres, sei, mas não temos nenhuma necessidade de viver em Londres. Sempre que pensava no que verdadeiramente necessitava em minha vida, não o que desejava mas o que necessitava, a única coisa que aparecia em minha mente era você. -E... -Não, me deixe terminar. - disse ele, com a voz suspeitamente rouca - Não deveria ter lhe pedido que fosse minha amante. Isso não foi correto de minha parte. -Benedict, que outra coisa poderia ter feito? - disse ela docemente Achava-me uma faxineira. Em um mundo perfeito poderíamos nos ter casado, mas este não é um mundo perfeito. Os homens como você não se casam com... -Bem, não foi incorreto lhe pedir isso então. - disse ele. Tratou de sorrir, e o sorriso lhe saiu torto - Teria sido um idiota se não lhe tivesse pedido isso. Desejava-a tanto, tanto, e acredito que já a amava. E... -Benedict, não tem por que... -Lhe explicar isso? Sim tenho. Não deveria ter insistido depois que recusou minha proposta. Fui injusto ao lhe pedir isso, sobretudo quando os dois sabiam que eu teria que me casar finalmente. Morreria antes de compartilhá-la com outro. Como podia lhe pedir que fizesse isso? Ela estendeu a mão e lhe tirou algo da face. Céu santo, estava chorando? Nem recordava a última vez que chorou. Quando morreu seu pai, talvez? Mas inclusive então, derramou suas lágrimas em privado.


-Há muitos motivos para amá-la. - disse, marcando cada palavra com esmerada precisão. Sabia que a tinha conquistado; ela não ia fugir, seria sua esposa. Mas de qualquer modo queria que o momento fosse perfeito. Um homem só tem uma oportunidade para declarar-se a seu verdadeiro amor, e ele não queria danificála. -Mas uma das coisas que mais gosto, - continuou - é que se conhece. Sabe quem é e o que vale. Tem princípios, Sophie, e se atém a eles. - levou uma mão aos lábios para beijá-la. - Isso é muito excepcional. A ela lhe encheram os olhos de lágrimas e ele desejou abraçá-la imediatamente, mas tinha que terminar. Eram muitas as palavras que ferviam dentro dele e tinha que dizê-las todas. -Ademais, - disse, em voz mais baixa - encontrou tempo para ver-me, para me conhecer. A mim, Benedict, não ao senhor Bridgerton, não ao Número Dois. Ao Benedict. Acariciou-lhe a face. -É a pessoa mais maravilhosa que conheço. Adoro a sua família, mas o amo. Ele a estreitou em seus braços, não pôde evitá-lo. Tinha que senti-la em seus braços, certificar-se de que estava aí e que sempre estaria aí, com ele, ao seu lado, até que a morte os separasse. Era estranho, mas sentia a estranha necessidade de abraçá-la, simplesmente abraçá-la. Desejava-a, é claro. Sempre a desejava. Mas mais que isso, desejava abraçá-la, cheirá-la, senti-la. Sua presença o consolava, compreendeu. Não precisavam falar. Nem sequer precisavam acariciar-se embora não fosse soltá-la. Dito simplesmente, era um homem mais feliz, e muito possivelmente um homem melhor, quando ela estava perto. Afundou o rosto em seu cabelo, aspirando seu aroma; cheirava a... Cheirava a... Afastou-se. -Gostaria de lhe dar um banho? Subiram-lhe as cores imediatamente, ficou vermelha. -Oh, não... - gemeu, apagando as palavras ao cobrir a boca com a mão. Era terrível a sujeira na cela, tive que dormir no chão e... -Não me diga nada mais. - disse ele. -Mas... -Por favor.


Se ouvisse uma coisa mais poderia ter que matar a alguém. Enquanto ela não tivesse sofrido um dano permanente, preferia não conhecer os detalhes. -Acho, - disse, com um primeiro indício de sorriso na comissura esquerda da boca - que deveria lhe dar um banho. -Muito bem. - assentiu ela, ficando de pé - Irei direito à casa de sua ma... -Aqui. -Aqui? Ele estendeu o sorriso até a comissura direita. -Aqui. -Mas dissemos a sua mãe... -Que estaria em casa às nove. -Creio que disse às sete. -Sim? Que estranho, eu ouvi nove. -Benedict... Agarrou-lhe a mão e a puxou para a porta. -Sete soa tremendamente parecido a nove. -Benedict... -Em realidade, soa mais parecido a onze. -Benedict! Ele a deixou junto à porta. -Fique aqui. -Que? -Não mova nem um só músculo. - disse ele lhe acariciando o nariz com um dedo. Sophie, o observou, indecisa, sair ao corredor. Só demorou dois minutos em voltar. -Aonde foi? -Ordenar que preparassem um banho. -Mas... Ele a olhou com olhos muito, muito maliciosos. -Para dois. Ela engoliu em seco. -Por acaso já estavam esquentando água. -Sim? -Não demorarão mais de uns minutos em encher a banheira. Ela olhou para a porta principal. -Já são quase sete. -Mas tenho permissão para tê-la até as doze. -Benedict!


Ele a aproximou. -Se quiser ficar. -Não disse isso. -Não tem por que. Se de verdade não estivesse de acordo comigo teria feito algo mais que dizer "Benedict!". Ela não teve mais remédio que sorrir; Imitava-lhe muito bem a voz. Ele curvou a boca em um sorriso travesso. -Estou enganado? Ela desviou a vista, mas se curvaram os lábios. -Creio que não. - concordou ele. Fez-lhe um gesto com a cabeça para a escadaria - Venha comigo. Ela foi. Ante a grande surpresa de Sophie, Benedict saiu do aposento para que ela se despisse. Reteve o fôlego quando tirou o vestido pela cabeça. Ele tinha razão, cheirava fatal. A criada que preparou o banho tinha perfumado a água com azeite aromático e um sabão espumoso que formava borbulhas na superfície. Quando terminou de tirar a roupa, colocou um dedo do pé na água quente. O resto do corpo não demorou em segui-lo. Céus. Era difícil acreditar que se banhara só há dois dias. Uma noite no cárcere a fazia sentir-se como se fosse um ano que não se banhava. Tratou de limpar a mente e desfrutar do prazer do momento, mas lhe resultava difícil desfrutar com a sensação de espera que ia aumentando nas veias. Quando decidiu ficar sabia que Benedict planejava unir-se com ela. Poderia ter se negado; com todas suas mímicas e adulações, ele a teria levado de volta à casa de sua mãe. Mas ela tinha decidido ficar. Em algum momento, entre a porta da sala de estar e a escada, compreendeu que "desejava" ficar. Um longuíssimo caminho tinha levado a esse momento, e não estava nada disposta a renunciar a ele, nem que só fosse até a manhã seguinte, quando com toda segurança ele iria tomar o café da manhã em casa de sua mãe. Viria logo. E quando estivesse... Estremeceu. Dentro da banheira com água quente, estremeceu. E quando estava mergulhando mais na água, para que lhe cobrisse os ombros e pescoço, e inclusive até o nariz, ouviu abrir-se a porta. Benedict. Usava um roupão verde escuro maçã com cinto. Estava descalço, e as pernas nuas do joelho para abaixo.


-Espero que não se importe se faço destruir isso. - disse ele indicando o vestido que estava no chão. Sorriu-lhe e negou com a cabeça. Não era isso o que tinha esperado que dissesse, e compreendeu que ele o havia dito para tranqüilizá-la. -Enviarei alguém para lhe buscar outro. -Obrigada. Moveu-se ligeiramente para um lado para fazer espaço a ele, mas ele a surpreendeu colocando-se no extremo da banheira, a suas costas. -Incline-se. - disse ele em voz baixa. Ela se inclinou, e suspirou de prazer quando ele começou a lhe lavar as costas. -Tenho sonhado fazer isto durante anos. -Anos? - perguntou ela, divertida. -Mmmm. Tive muitíssimos sonhos com você depois do baile de máscaras. Sophie se alegrou de estar inclinada com a fronte apoiada nos joelhos flexionados, porque ruborizou. -Afunde a cabeça para poder lavar seu cabelo. - ordenou ele. Ela inundou a cabeça e voltou a tirá-la rapidamente. Ele esfregou o sabonete nas mãos e começou a lhe estender a espuma pelo cabelo. -Tinha-o mais longo antes. - comentou. -Tive que cortar. Vendi-o a um fabricante de perucas. - não poderia assegurar, mas acreditou ouvi-lo grunhir – Tive-o ainda mais curto. acrescentou. -Pronto para limpar. Ela voltou a afundar a cabeça na água e a moveu de um lado a outro até que teve que tirá-la fora para respirar. Benedict agarrou água nas mãos em conchas. -Todavia fica espuma atrás. - disse, deixando cair a água sobre o cabelo. Sophie o deixou repetir a operação várias vezes e finalmente lhe perguntou: -Não vai me amar? Essa era uma pergunta horrorosamente descarada, e certamente tinha o rosto ruborizado como uma framboesa, mas tinha que sabê-lo. Ele negou com a cabeça. -Isso pensava fazer, mas isto é muito mais divertido. -Me lavar? - perguntou ela, duvidosa. Ele curvou a comissura da boca em um indício de sorriso.


-Imagino secá-la também. -estendeu a mão para agarrar uma enorme toalha branca - Vamos. Sophie mordeu o lábio inferior, indecisa. Já tinha tido com ele toda a intimidade que podem ter duas pessoas, mas não chegava a tanto sua desenvoltura para sair nua da banheira sem sentir um pouco de pudor. Benedict sorriu levemente enquanto desdobrava a toalha. Pô-la estendida diante dela e desviou o rosto. -Tê-la-ei toda envolta antes de ter a possibilidade de ver algo. Sophie fez uma funda inspiração e se levantou, com a estranha sensação de que esse ato só poderia marcar o começo do resto de sua vida. Benedict a envolveu na toalha com suma suavidade e ao terminar subiu as mãos até os lados do rosto, e as passou pelas faces, onde tinha algumas gotinhas de água; depois lhe aproximou a rosto e lhe beijou o nariz. -Me alegra que esteja aqui. -Eu também. Acariciou-lhe a face, sem deixar de olhá-la nos olhos, e ela quase sentiu que lhe acariciava os olhos também. E então, com a mais suave e terna das carícias, beijou-a na boca. Sophie não só se sentiu amada, sentiu-se adorada. -Deveria esperar até a segunda-feira, - disse ele - mas não quero esperar. -E eu não quero que espere. - sussurrou ela. Ele voltou a beijá-la, desta vez com um pouco mais de urgência. -Que formosa é... – murmurou - É tudo o que sonhei em minha vida. Seus lábios encontraram a face, o queixo, o pescoço e com cada beijo, com cada suave sucção foi roubando o equilíbrio e o fôlego. Estava segura de que lhe cederiam as pernas, falhar-lhe-iam as forças com esse terno assalto, e justo quando estava convencida de que cairia desabada ao chão, ele a levantou nos braços e a levou para cama. -Em meu coração já é minha esposa. - jurou ele depositando-a sobre os edredons e almofadas. Cortou o fôlego a Sophie. -Depois de nosso casamento será legal, bento Por Deus e o país, continuou ele estirando-se ao seu lado - mas neste momento... - acrescentou com a voz mais rouca, endireitando-se um pouco, apoiado no cotovelo, para olhá-la nos olhos - Neste momento é verdadeira. Sophie lhe acariciou o rosto. -Eu te amo... - sussurrou - Sempre o amei. Acho que o amei desde antes de o conhecer.


Ele se inclinou para beijá-la outra vez, mas ela o deteve com um estremecimento: -Não, espere. Ele deteve o movimento com a boca a uns dedos de seus lábios. - No baile de máscaras, - continuou ela com voz temerosa - inclusive antes de vê-lo o senti. Senti espera, magia. Havia um não sei o que no ar. E quando me virei e você estava aí, foi como se me tivesse estado esperando, e compreendi que você foi o motivo de que eu tivesse entrado furtivamente no baile. Sentiu cair uma gota na face, era uma só lágrima, caída de um olho dele. -Você é a razão de minha existência, - disse suavemente - o motivo de que eu tenha nascido. Ele abriu a boca e ela esperou um momento, segura de que diria algo, mas o único que saiu de sua boca foi um som rouco, entrecortado. Compreendeu que ele estava tão avassalado que não podia falar. E não soube o que dizer. Então Benedict a beijou, tratando de demonstrar com fatos o que não podia dizer em palavras. Não se tinha imaginado que pudesse amá-la mais do que a amava fazia cinco segundos, mas quando ela disse... Quando lhe disse... Alargou-lhe o coração e chegou a acreditar que ia explodir. Amava-a. Repentinamente o mundo era um lugar muito simples. Amava-a e isso era a única coisa que importava. Saíram voando seu roupão e a toalha dela, e quando estiveram pele contra pele a adorou com suas mãos e lábios. Desejava que ela compreendesse quanto a necessitava e desejava que ela conhecesse o mesmo desejo. -Oh, Sophie... - gemeu, porque seu nome era a única palavra que conseguia dizer - Sophie, Sophie. Sorriu-lhe e ele sentiu o mais extraordinário desejo de rir. Sentia-se feliz, compreendeu, condenadamente feliz. E isso era agradável. Colocou-se em cima dela, preparado para entrar, preparado para fazê-la sua. Isso era diferente da vez anterior, em que os dois se deixaram levar pela emoção. Desta vez os dois tinham a intenção; tinham escolhido mais que paixão; escolheram-se mutuamente. -É minha... - disse, sem deixar de olhá-la nos olhos enquanto a penetrava É minha. E muito depois, quando estavam saciados e esgotados, cada um repousando nos braços do outro, aproximou os lábios ao ouvido e lhe sussurrou:


-E eu sou seu. Várias horas depois, Sophie bocejou, abriu os olhos e pestanejou para avivar-se, pensando por que se sentia tão maravilhosamente bem, abrigada e... -Benedict! Que horas são? Ele não respondeu por isso lhe agarrou o ombro e o sacudiu com força. - Benedict! Benedict! -Estou dormindo. - resmungou ele, dando a volta. -Que horas são? Ele afundou o rosto no travesseiro. -Não tenho a menor ideia. -Tinha que estar na casa de sua mãe às sete. -Às onze. - disse ele. -Às sete! Ele abriu um olho, que aparentemente lhe custou um enorme esforço. -Quando decidiu lhe dar um banho sabia que não conseguiria voltar às sete. - Ah, mas achei que poderia voltar não muito passadas as nove. Benedict fechou e abriu os olhos várias vezes e olhou ao redor. -Não acredito que consiga voltar para essa... Mas ela já tinha visto o relógio do suporte da lareira e estava agitando a cabeça, sufocada. -Se sente mau? - perguntou ele. -São três da manhã! -Bem poderia passar a noite aqui, então. - disse ele sorrindo. -Benedict! -Não quererá incomodar a algum dos criados, não é? Estão todos bem adormecidos, com certeza. -Mas é que... -Tenha piedade, mulher. Casaremo-nos na próxima semana. - declarou ele finalmente. Isso captou a atenção dela. - Na próxima semana? - perguntou com uma vozinha aguda. Ele tratou de pôr uma expressão séria. -É melhor ocupar-se destas coisas rápido. -Por quê? -Por quê? - repetiu ele. -Sim, por quê?


-Hum... Para pôr fim às fofocas e tudo isso. Ela entreabriu os lábios e arregalou os olhos. -Acha que lady Whistledown escreverá sobre mim? -Deus, espero que não. Ela encompridou o rosto. -Bem, suponho que poderia. Por que demônios quer que escreva sobre você? -Há anos leio sua coluna. Sempre sonhei ver meu nome nela. -Tem uns sonhos muito estranhos. - comentou ele, movendo a cabeça. -Benedict! -Muito bem, sim, imagino que lady Whistledown informará de nossas bodas, se não antes da cerimônia, certamente muito em breve depois. É diabólica nisso. -Me encantaria saber quem é. -Você e meia Londres. -Eu e toda Londres, diria eu. - Sophie suspirou e acrescentou, não muito convencida - Deveria ir, de verdade. Sua mãe deve estar preocupada comigo. -Sabe onde está. - disse ele, encolhendo os ombros. -Mas pensará mal de mim. -Duvido. Lhe dará mais liberdade, com certeza, tomando em conta que nos casaremos dentro de três dias. -Três dias? - exclamou ela - Pensei ouvi-lo dizer na próxima semana. -Dentro de três dias é na próxima semana. Sophie franziu o cenho. -Ah, tem razão. Na segunda-feira, então? Ele assentiu, com expressão muito satisfeita. -Imagina, aparecerei no Whistledown. Ele se endireitou apoiado em um cotovelo e a olhou com desconfiança: -Quer se casar comigo, ou é simplesmente a menção no Whistledown o que a entusiasma tanto? Deu-lhe uma travessa palmada no ombro. -Em realidade, - disse ele, pensativo - já apareceu no Whistledown. -Sim? Quando? -Depois do baile de máscaras. Lady Whistledown comentou que eu parecia muito conquistado por uma misteriosa dama de vestido prateado. E que apesar de todos seus esforços não tinha conseguido deduzir sua identidade – sorriu Muito bem poderia ser o único segredo de Londres que não descobriu.


Imediatamente Sophie fez uma expressão séria e se afastou algo mais de um palmo dele. - Ai, Benedict. Tenho que... Desejo... Quer dizer... - desviou o rosto um momento e voltou a olhá-lo - Perdão. Ele considerou a possibilidade de atraí-la de um puxão a seus braços, mas ela estava tão condenadamente séria que não teve mais remédio que tomá-la a sério. -Não lhe ter dito quem era. Foi incorreto de minha parte. - mordeu o lábio - Bom não incorreto exatamente. Ele se afastou um pouco. -Se não foi incorreto, o que foi então? -Não sei. Não sei explicar exatamente por que fiz o que fiz, mas é que... Mordeu mais o lábio. Ele já começava a pensar que se faria um dano irremediável no lábio, quando ela suspirou: -Não lhe disse isso imediatamente porque me pareceu que não tinha nenhum sentido fazê-lo. Estava muito certa de que nos separaríamos logo que nos afastássemos da propriedade Cavender. Mas então você caiu doente, eu tive que cuidar de você e não me reconheceu e... Pôs-lhe um dedo sobre os lábios. -Não importa. Ela arqueou as sobrancelhas. -Me parece que a outra noite te importava muitíssimo. Ele não sabia por que, mas não queria entrar em uma conversa séria nesse momento. -Muitas coisas mudaram depois. -Não quer saber por que não lhe disse quem era? -Sei quem é. - respondeu ele, lhe acariciando a face. Ela mordeu o lábio. -E quer ouvir a parte mais divertida? - continuou ele - Sabe um dos motivos de que eu vacilasse tanto em lhe entregar totalmente o coração? Tinha estado reservando uma parte dele para a dama do baile de máscaras, sempre com a esperança de que algum dia a encontrasse. -Oh, Benedict... - suspirou ela, emocionada por suas palavras, e ao mesmo tempo triste por havê-lo feito sofrer tanto. -Decidir me casar com você significava abandonar meu sonho de me casar com ela. - disse ele - Irônico, não é? -Lamento fazê-lo sofrer ao não revelar minha identidade, - disse ela, sem olhá-lo nos olhos - mas não sei se lamento tê-lo feito. Tem isso algum sentido?


Ele não disse nada. -Acho que voltaria a fazer. Ele continuou sem dizer nada. Ela começou a sentir uma imensa inquietação. -Me pareceu que isso era o correto no momento. - prosseguiu - Dizer-lhe que tinha estado no baile de máscaras não teria servido a nenhuma finalidade. - Eu teria sabido a verdade. - disse ele docemente. -Sim, e o que teria feito com essa verdade? - se sentou e subiu o edredom até o ter bem junto sob os braços - Teria desejado que sua misteriosa mulher fosse sua amante, tal como desejou que a criada fosse sua amante. Ele guardou silêncio, sem deixar de olhar seu rosto. -Suponho que o que quero dizer, - se apressou a falar ela - é que se então tivesse sabido o que sei agora, haveria dito algo. Mas não sabia, e pensei que só me poria em posição para sofrer, e... - se engasgou com as últimas palavras e olhou-o angustiada o rosto, em busca de algum sinal que revelasse seus sentimentos - Por favor, dia algo. - Amo-a... - disse ele. Isso era tudo o que ela precisava ouvir.

Epílogo A festa do domingo na casa Bridgerton será sem dúvida o acontecimento da temporada. Reunir-se-á toda a família com uns cem de seus melhores amigos para celebrar o aniversário da viscondessa viúva. Considera-se grosseria mencionar a idade de uma dama, portanto esta cronista não revelará que aniversário celebra lady Bridgerton. Mas não temam, esta Cronista sabe! Ecos de Sociedade de Lady Whistledown, 30 de abril de 1824. Dando muita risada, Sophie desceu correndo a escadaria de pedra que levava ao jardim de trás da casa Bridgerton. Depois de três filhos e sete anos de


matrimônio, Benedict ainda a fazia sorrir, ainda a fazia rir, e continuava perseguindo-a por toda a casa sempre que se apresentava a oportunidade. -Onde estão os meninos? - perguntou lhe resfolegando quando lhe alcançou no último degrau. -Francesca os está vigiando. -E sua mãe? Ele sorriu de orelha a orelha. -Eu diria que Francesca a está vigiando também. -Qualquer um poderia nos surpreender aqui. - disse ela, olhando a um e outro lado. O sorriso dele se tornou malicioso. -Talvez, - disse, lhe agarrando a saia de veludo verde e enrolando-a nela deveríamos nos retirar ao terraço privado. Essas palavras tão conhecidas não demoraram mais de um segundo em transportá-la ao baile de máscaras, nove anos atrás. -O terraço privado, diz? - perguntou, seus olhos dançando travessos - E como sabe, por favor, da existência de um terraço privado? Roçou os lábios com os dele. -Digamos que tenho meus métodos. - sussurrou. -E eu tenho meus segredos. - respondeu ela, sorrindo maliciosa. Ele se afastou um pouco. -Ah, sim? E vai me contar? -Os cinco, - disse ela, assentindo - vão ser seis. Olhou atentamente seu rosto e depois lhe olhou o ventre. -Tem certeza? -Tão segura como estava a última vez. Agarrou-lhe uma mão e a levou aos lábios. -Está será uma menina. -Isso foi o que disse a última vez. -Sei, mas... -E na vez anterior. -Tanta mais razão para que as probabilidades estejam a meu favor desta vez. -Me alegra que não seja um jogador. - disse ela movendo a cabeça. Ele sorriu ante isso. -Não digamos a ninguém ainda. -Acho que algumas pessoas já o suspeitam. - reconheceu ela.


-Quero ver quanto demora em descobri-lo essa mulher Whistledown. disse Benedict. -Diz a sério? -A maldita mulher descobriu sobre Charles, descobriu sobre Alexander e descobriu sobre William. Sorrindo, Sophie se deixou levar para as sombras do jardim. -Deu-se conta de que me mencionaram duzentas e trinta e duas vezes no Whistledown? Ele parou em seco. -Fez a conta? -Duzentas e trinta e três se contarmos a vez depois do baile de máscaras. -Não posso acreditar que as tenha contado. Ela fez um despreocupado encolhimento de ombros. -É emocionante ser mencionada. Benedict achava horrivelmente perturbador ser mencionado, mas não lhe ia estragar o prazer dizendo-lhe, por isso simplesmente disse: -Pelo menos sempre escreve coisas simpáticas de você. Se não, poderia ter que lhe dar caça e expulsá-la do país. Sophie não pôde evitar sorrir. -Vamos, por favor. Não acredito que conseguisse descobrir sua identidade; ninguém da alta sociedade o conseguiu. Ele arqueou uma arrogante sobrancelha: -Isso não parece refletir o carinho e a fé de uma esposa. Ela fez como se estivesse examinando atentamente uma de suas luvas. -Não tem para que gastar energia nisso. Evidentemente é muito boa no que faz. -Bem, não se inteirará sobre Violet. - jurou Benedict - Ao menos não antes que seja evidente ao resto do mundo. -Violet? - perguntou Sophie docemente. -Já é hora de que minha mãe tenha um descendente que leve seu nome, não lhe parece? Sophie se abraçou a ele, apoiando a face em sua camisa de linho engomada. - Acho lindo o nome Violet. - falou, acomodando-se mais no refúgio de seus braços - É de esperar que seja uma menina. Porque se for um menino, não nos perdoará isso jamais. Essa noite, em uma casa do melhor bairro de Londres, uma mulher agarrou sua pena e escreveu:


Ecos de Sociedade de Lady Whistledown 3 de maio de 1824. Ah, amáveis Leitores, esta cronista se inteirou de que o número de netos Bridgerton muito em breve vai aumentar de dez a onze. Mas quando tentou continuar escrevendo, a única coisa que pôde fazer foi fechar os olhos e exalar um suspiro. Levava muito tempo fazendo isso. Podia ser possível que já fossem onze anos? Talvez fosse hora de passar a outra coisa. Estava cansada de escrever a respeito de todos outros. Era hora de que começasse a viver sua própria vida. Assim, deixando sua pena, lady Whistledown se dirigiu à janela, abriu as cortinas verde sálvia e contemplou o negro céu noturno. -É hora de que faça algo diferente. – sussurrou - É hora de que por fim eu seja eu mesma.

Fim

Te dou meu coração (amor e enganos) familia bridgerton livro 3  
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