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SOMETHING LIKE NORMAL A Guerra 茅 s贸 Metade da Batalha Trish Doller


SINOPSE Quando Travis volta para casa após sua passagem pelo Afeganistão, seus pais estão se separando, o irmão roubou sua namorada e seu carro, e ele é assombrado por pesadelos sobre a morte de seu melhor amigo. Isso não é nada até Travis encontrar Harper, uma jovem com quem teve uma relação complicada desde o ensino médio.É aí que a sua vida realmente começa a melhorar. E enquanto ele e Harper conhecem mais um do outro, ele começa a escolher o caminho entre o campo minado dos problemas familiares e do estress pós-traumático à possibilidade de uma vida que pode parecer normal novamente. O senso de humor negro e o incrível senso de honra de Travis fazem dele um adorável, irresistível e eminentemente herói. 


Capítulo 1 No final do corredor eu posso ver alguns garotos da banda de música tocando o hino da escola de fuzileiros navais, e um par de garotos mais velhos, com seusuniformes azuis alongando a cintura, atuando como guardas de honra oficiais. - Jesus, por favor, diga-me que a minha mãe não contratou uma banda. Os braços de mamãe estão amplamente abertos, segurando um cartaz com brilhantes cores de líder de torcida, dizendo: Bem vindo ao lar, TRAVIS! Amarradas no pulso estão às cordas de uma merda de tonelada de balões de hélio. Já é ruim o suficiente ter que voltar para Fort Myers. Isto é pior. Eu não posso fingir que essa louca caravana de boas-vindas é para alguém mais. Eu era o único fuzileiro no vôo. O cartaz chia esmagado entre nós quando minha mãe joga seus braços para cima ao redor do meu pescoço, ficando na ponta dos pés para me alcançar. Os balões desviam para baixo e batem suavemente contra o topo da minha cabeça. Os abraços pelo tempo de um ano e meio neste único abraço, e me dá a sensação de que se tivesse uma escolha, ela nunca me deixaria ir novamente. - Graças a Deus você está em casa - ela sussurra contra meu peito, sua voz rompendo em lágrimas Graças a Deus você está vivo. Eu me sinto um lixo. Em parte porque eu não sei o que dizer, mas principalmenteporque eu estou vivo. - É bom... - A mentira fica presa na minha garganta e tenho que começar de novo - É bom estar aqui. Ela me abraça por muito tempo, enquanto estranhos tocam minhas costas e braços dizendo obrigado e bem-vindo ao lar, e isso me empurra para além do desconforto. O senso comum me diz que essas pessoas com suas camisas do Estado de Ohio e bonés de beisebol do New York Yankees são apenas turistas. Mas eu passei os últimos sete meses vivendo em um país onde o inimigo se mistura com a população local, assim você nunca tem certeza em quem pode confiar. Minha posição é vulnerável e odeio não ter um rifle. - Tenho que pegar minha bolsa - digo, e fico aliviado quando minha mãe me deixar ir. Ela agradece aos guardas de honra, abraça um par de meninas da banda, e então nos dirigimos à esteira rolante para recolher a bagagem. - Como foi o vôo? -Te deram algo para comer? -Você está com fome? - Porque nós podemos parar em algum lugar para comer, se você estiver com fome. – Minha mãe estava falando rápido e muito, tentando preencher o silêncio entre nós. Uma metálica voz feminina diz a hora local e o tempo, de


modo que os turistas podem reajustar o relógio biológico. Meu relógio ainda está definido para a hora do Afeganistão, apesar de ter vindo aos EUA durante um par de semanas. Eu esqueci, eu acho. - Clancy sempre foi seu favorito - diz mamãe – Você adorava o bolo de carne e batata, lembra? A raiva queima em meu peito e quero falar sem rodeios: Clancy ainda é o meu restaurante favorito, e não esqueci que amo bolo de carne e batata. Só que suas intenções são boas e não vou ser desrespeitoso, por isso ofereço um meio sorriso. - Lembro, mas eu não estou com fome – Digo - Estou cansado. - Seu pai queria estar aqui para recebê-lo hoje, mas teve uma reunião importante – continua mamãe, em um tom que me faz perguntar se acredita no que está dizendo. Talvez esteja falando sobre o pai de alguém mais - E Ryan está trabalhando na concessionária Volkswagen até ir para a faculdade. Depois que sua carreira no futebol profissional terminou, meu pai comprou três concessionárias de veículos. Quando eu estava na escola, trabalhava na concessionária VW de graça apenas para ter acesso à loja e as peças para o meu carro. Porém, eu já era seu decepcionante filho, e meu pai me rejeitou assim acabei trabalhando em uma equipe de paisagismo por oito dólares a hora. Quem teria imaginado que papai daria a Ryan um trabalho de verdade. - E Paige... – Os lábios de mamãe se apertaram em um gesto desaprovador enquanto ficou em silêncio. Minha mãe nunca gostou da minha namorada. Correção, minha ex-namorada. Minha mãe acha que ela parece uma mulher barata. Acho que ela pertence à capa da Maxim em nada mais que sua roupa íntima, que é exatamente o que me atraiu nela, em primeiro lugar. Guardada no fundo da minha bolsa de fuzileiro, a única carta que me enviou. Enviada cuidadosamente junto com um pacote de cigarros, desinfetante, café e pornografia. Só Paige para suavizar o golpe de uma carta de “Querido John” enviando com ela as coisas que os fuzileiros mais querem.

Não era uma longa carta: Trav, Achei que você deveria saber antes de chegar em casa, estou com Ryan agora. ~P...

Não me surpreendeu por romper assim de forma limpa. Paige nunca foi alguém para a diplomacia. Normalmente diz o que está em sua mente, mesmo quando é doloroso ou mal-intencionado. Outra


coisa que eu sempre apreciei nela. Bem, isso...E o sexo. Especialmente depois de brigarmos, o que fazíamos muitas vezes. Tenho uma cicatriz na bochecha de quando ela jogou uma garrafa de cerveja depois de me pegar metendo a mão em uma garota qualquer em uma festa qualquer. Enganávamos-nos o tempo todo. Assim era comigo e Paige, louco e tóxico, mas sempre podremente incrível. Quando me alistei, não esperava que ela ficasse sentada em casa me esperando. Não coloquei sua foto dentro do meu capacete como alguns dos meus colegas faziam com as fotos de suas esposas e namoradas. Eu sempre soube que ela se envolveria com outra pessoa. A única parte surpreendente foi que esse alguém, foi o meu irmão. O problema é? Realmente não me importo. Quero dizer, sim, poderia ter um pouco de curiosidade sobre o porquê Paige estaria interessada em Ryan. Não parece ser o seu tipo, o que me faz perguntar se ela está jogando algum tipo de jogo mental comigo, ou com ele. Eu não tenho nenhum interesse que joguem comigo e ficarei na cidade apenas por trinta dias. Ryan pode ficar com ela. Nem queria vir a Fort Myers, mas não tinha outro lugar para ir. Prefiria estar com meus amigos. Quero estar com pessoas que me conhecem melhor. Quero ir pra casa. Assim com o pensamento cristalizado em minha mente, eu me senti mal novamente. Especialmente com a minha mãe parada ao meu lado no carrossel de bagagens, usando o maior sorriso na história dos sorrisos e falando como estava feliz por eu estar em casa antes de Ryan ir para a universidade. Para evitar disparar um comentário espertinho sobre o meu nível de importância de merda, eu olho ao redor da sala para as famílias se abraçando e empresários com malas para computadores portáteispairando sobre seus ombros.Além de um grupo de pessoas à espera de sua bagagem, eu vejo um menino de cabelo escuro vestindo camuflagem para o deserto, encostado a uma coluna. Parece com meu amigo Charlie Sweeney. Fomos amigos desde o acampamento de treinamento e fomos enviados para o Afeganistão no mesmo pelotão. - Charlie? – Dou um passo em direção a ele e uma estranha sensação de alegria borbulha dentro de mim como uma garrafa de refrigerante, porque se o meu melhor amigo está aqui na Flórida, significa que não está... - Travis? - Pergunta minha mãe - Com quem você está falando? ... Morto. Meu estômago revira e os meus olhos esquentam com lágrimas que parecem nunca chegar. Charlie não pode estar em Fort Myers, porque morreu no Afeganistão e estou parado em meio de uma grande corrida de coleta de bagagem falando em voz alta para um espaço vazio. E toda a alegria simplesmente se esvai, deixando-me vazio novamente. - Você está bem? - Mamãe toca a manga da minha camisa.


Sopro um suspiro e minto. - Sim, estou bem. Eu não consigo entender como tanta coisa mudou - diz mamãe, abraçando-me outra vez. Eu sempre fui alto, mas cresci cinco centímetros no último ano. Além disso, eu costumava ter o cabelo que pendia quase até meus ombros e mamãe sempre me importunava para cortar - Você parece tão bonito – diz ela. A abertura escura cospe minha bolsa sobre a esteira e estou aliviado por ficar longe desta conversa. Eu pego a bolsa com uma mão e levanto-a sobre meu ombro, enviando pequenas nuvens de poeira no ar em torno de mim. O Afeganistão me seguiu até em casa. - Bem vindo ao lar, Fuzileiro - Um homem mais velho se aproxima de mim, levantando sua manga para mostrar o AEA do Corpo de Fuzileiro tatuado em seu braço. Mostrando-me que pertence a irmandade - Semper Fi . - Sempre, senhor. - Aperto sua mão. Ele toca meu cotovelo e me deixa ir. - Deus te abençoe, garoto. Minha mãe tagarela sem parar na viagem, especialmente sobre a escola.Ela é secretária na minha antiga escola, assim acha que sabe todas as fofocas. Não me importa quem está saindo com quem, ou quais professores não serão recontratados no próximo ano, ou que o time de futebol teve uma temporada perdedora, mas deixá-la falar significa que eu não tenho que fazer. A casa está exatamente igual como quando eu saí, incluindo o sapo de cerâmica de mamãe ao lado dos degraus da entrada. Mantemos uma chave reserva escondida debaixo dele, no caso de ficarmos presos do lado de fora. Todos os meus amigos sabem que a chave está ali, mas Paige é a única que já usou. Vinha de carro, no meio da noite e entrava esgueirando-se para o meu quarto. Pergunto-me se faz isso com o Ryan agora. Minha mãe me leva através da casa até meu quarto, como se eu não lembrasse o caminho. Abre a porta e, como o resto da casa, parece que estava congelado no tempo. Pintura cinza? Confirmada. Edredon de cor coordenada? Confirmado. Folhetos de shows e bandas espalhados aleatoriamente nas paredes para disfarçar o trabalho de pintura do decorador? Confirmado. Foto dobrada minha e de Paige no baile de formatura presa no canto do espelho? Confirmado. Incluindo o livro na mesinha de cabeceira que ainda é o mesmo a qual estava lendo antes de ir. Tudo isso é... Assustador. - Deixei tudo do jeito que estava – diz ela, enquanto deixo cair minha bolsa no chão – Assim se sentirá familiar. Como em casa. Eu não digo que não me sinto em casa absolutamente. Arranco a foto do espelho, amasso na minha mão e jogo no lixo.


- Por que você não descansa? – Sugere minha mãe - Tire uma soneca. Virei chamá-lo quando seu pai e Ryan estiverem em casa. Quando ela foi embora, me joguei na cama. É a única coisa que me faz feliz. O colchão é macio e o edredom está limpo, eu vivi sem frescuras desde que fui para o acampamento de treinamento. Deito de costas, minhas botas penduradas na borda inferior da cama, e fecho os olhos. Não consigo ficar confortável. Rolo para o lado e tento novamente. Sobre meu estômago. Tiro as botas com os dedos dos pés. Por fim, pego o travesseiro e caio no chão, puxando o edredom comigo. Dormi na parte superior de um beliche rangendo na área do pelotão em Parris Island, num leito em Camp Bastion, enquanto esperava para começarmos a nossa missão, em fevereiro a temperatura caiu tanto que uma noite eu tive que compartilhar um saco de dormir com Charlie. Considernado todas as coisas, o tapete grosso é confortável e durmo rápido. Me detenho e tento avisar a Moss e Charlie, mas nenhum som sai da minha boca. Tento sinalizar com minhas mãos, mas não posso levantá-las. Eu estou andando por uma estrada em Marjah. É um caminho que fizemos muitas vezes em patrulha. Eu estou no ponto com Charlie e Moss atrás de mim. Faz frio, está aberto e tranqüilo, exceto pelo barulho de nossas botas e o som da oração que ouvimos todas as manhãs. A rua ganha vida com as pessoas indo para a mesquita, lavando-se no canal, ou indo trabalhar em seus campos. Agora, no entanto, a rua está vazia. O cabelo atrás do meu pescoço arrepia e sei que algo vai. Quero correr até eles para detê-los, mas minhas pernas não se movem não importa o quanto eu tente. Observo impotente, enquanto Charlie pisa na placa de pressão. Boom! Ele é envolto em uma nuvem de poeira. A bombaescondida na base de uma árvore pulveriza-o com estilhaços. Charlie cai na suja rua, imóvel. Meus membros se descongelam e caminho lentamente em direção a seu corpo até que estou parado sobre ele. O mundo muda e estou de costas, dor irradiando através do meu corpo, como se eu tivesse pisado na mina, não Charlie. Abro os olhos e há um rosto sobre mim. Um menino afegão que eu vi antes, que sorri enquanto desaparece. Eu fico em posição vertical sobre o chão, os olhos abertos e meu corpo em alerta, mas meu cérebro ainda está no espaço vago entre o pesadelo e o despertar. Minha mãe está me sacudindo. Minhas mãos se curvam em torno de seus pulsos, apertando até que ela grita de dor. - Travis, pare! Deixo-a ir imediatamente e simplesmente me sento ali, piscando, o meu ritmo cardíaco enlouquecendo. Eu estou tremendo um pouco. Minha mãe alisa meu rosto do jeito que fazia quando eu era pequeno e tinha febre. - Foi só um sonho. Deixe-o ir. Não é real. Estou bem acordado agora e sei que ela tem razão. Não é real. Este pesadelo é um mosaico dos meus piores medos. Mas a minha imaginação se envolve num cobertor de horror quando eu durmo. Eu não tenho em média mais do que um par de horas a cada noite durante semanas. Como a minha frequência cardíaca volta ao normal, observo ela esfregando seus pulsos. Podia tê-los quebrado.


- Me desculpe por ter te machucado – Digo - Eu não queria fazer isso. - Tudo bem - Ela olha com tristeza - Eu gostaria de poder apagar tudo o que dificulta seus sonhos. Só que o passado não pode ser rebobinado e esta é a vida que escolhi. Não tive um propósito nobre juntando-me aos fuzileiros navais. Não o fiz paraproteger a liberdade americana e não estava inspirado para agir pelos ataquesterroristas de 11 de setembro. Eu estava na escola primária, e a maiorprioridadena minha vida era qualquer campanha que mostrava que era hora de sair da escola. Quando mealistei foi principalmente porque queria fugir do meu pai, que fazia da minha vida uminferno desde que eu deixei o time de futebol no final da temporada, nosegundo ano. Eu odiava futebol. Não porque não era bom nisso ou porque não eradivertido, mas porque eu odiava o jeito que tomou conta da minha vida. Meu pai me inscreveu para o Pop Warner Tiny Mites quando eu tinha cinco anos. Assimenquanto outras crianças estavam aprendendo a andar sobre duas rodas, eu estava praticando minha recepção. Foi divertido quando eu era pequeno, o jogo era apenas um jogo, mas à medida que ia crescendo, odiava a pressão. Odiava a sensação de passar por um picador de madeira depois que ele criticava os vídeos de meus jogos. Mas o que eu mais odiava era que praticamente em cada referência a mim, nos jornais, comentários de jogos e resumos de jogos nas notícias locais, havia uma referência a ele. Nunca era só Travis Stephenson. Era o filho do antigo jogador do Green Bay Packer : Dean Stephenson. No segundo ano, ele começou a falar sobre caça talentos e futebol universitário, e tudo que eu conseguia pensar era em como seria ficar preso vivendo o sonho do meu pai. Então, quando a temporada terminou, eu parei. Enlouqueci e me tornei um zero à esquerda. No dia em que completei dezoito anos, três dias depois de me formar no ensino médio, fui para o escritório de recrutamento da marinha e me inscrevi. Mais ou menos. O processo é mais complicado do que simplesmente assinar um papel dando sua vida ao Corpo de Fuzileiros, mas o resultado é o mesmo: quatro anos de serviço ativo, e os quatro anos seguintes em listas de reserva. Pode não fazer sentido querer passar de uma vida com treinadores gritando na minha cara para um instrutor gritando na minha cara, mas eu imaginei que não seria muito diferente. Exceto que no campo de treinamento não seria o filho do ex-jogador do Green Bay, Dean Stephenson. Seria apenas eu. Mamãe chorou quando eu lhe disse o porquê, em sua mente, alistamento significava morte certa em um país estrangeiro. Assim,pediu para inscrever-me na Faculdade de Edison em vez disso. - Sei que você não tem as melhores notas – Disse - Mas você pode pegar o básico até que escolha uma especialidade. Por favor, Travis, não faça isso. Meu pai só olhou para mim por um longo tempo, sua bocaestava com uma linha fina. Era uma expressão familiar. Uma reservada para mim. Em seu mundo, onde vencer é tudo, ele não queria ter nada a ver com o menino que se recusou a jogar. Se eu tivesse escolhido outro esporte, poderia ter me perdoado. Mas eu não fiz, e ele tampouco fez.


Seu riso era o clique seco de um chicote. - Lembra-se da moto que ia reconstruir? Ou a banda que você e seus amigos iam começar? Ouespere o que aconteceu com a promissora carreira no futebol que virou lixo, no lugar do seu dom dado por Deus? Quanto tempo, Travis, você acha que vai durar no campo de treinamento antes que queira abandonar isso também? Você não tem a disciplina necessária para ser um fuzileiro naval. Como se soubesse mais sobre estar no exército do que eu. Três semanas mais tarde, embarquei e não retornei. Até agora. Posso admitir agora que talvez não tenha sido uma das minhas decisões mais inteligentes, mas não queria ir para a faculdade, e não achei que ia terminar no Afeganistão diretamente ao sair da escola de infantaria. Eu imaginei que seriadesignado a uma base ou enviado para Okinawa. O caso é que, sou um bom fuzileiro. Melhor do que qualquer outra coisa quetenha feito. Assim, mesmo que o Corpo de Fuzileiros Navais tenha momentos de merda, na realidade não me arrependo da minha decisão. - Trav - Mamãe bate ligeiramente na porta do meu banheiro enquanto estou abotoando o último botão de uma camisa com listras azuis e brancas que encontrei pendurada no armário. Ou é de Ryan, ou algo que minha mãe comprou antes de voltar, esperando por mim para vestí-las. As mangas apertam nos cotovelos quando dobro os braços, mas usei o mesmo uniforme de camuflagem durante sete meses. Meu senso de moda atrofiou. - O jantar será servido em cinco minutos. Limpo o vapor do espelho. Eu passei tanto tempo sem olhar para mim mesmo, que meu rosto me surpreende. Parece que estou olhando para um estranho. Alguém que é menor do que eu imaginava, mas não é pequeno em absoluto. E o cara no espelho não veste um uniforme de combate ou um colete a prova de balas. Sem eles, eu não me sinto muito como eu. O aroma de carne assada me cumprimenta no corredor, e eu juro que se Paigeestivesse nua na minha frente, implorando para voltarmos a ficar juntos, passaria por ela para chegar à mesa. O mais perto que cheguei de uma refeição caseira, foiquando alguns soldados do Exército Nacional do Afeganistão assaram uma cabra inteira, comemos com um prato de arroz local pão afegão. Tivemosfrangoda aldeia um par de vezes também, mas geralmente comíamos CPC. Que é a abreviação para comida preparada para consumir. Ou, como normalmente chamavamos, comida pouco comestível. - Travis - Meu pai se levanta da cabeceira da mesa quando entro na sala de jantar e aperta minha mão, como se eu fosse um parceiro de negócios ou um estranho que ele espera que compre um carro. Ele ainda está vestindo um terno, com a gravata amarela folgada no pescoço – Bem-vindo ao lar, filho.


- Sim, obrigado. Mamãe esfrega Ryan, que está sentado a minha frente, enviando mensagens de texto para alguém em seu celular. Nossa diferença é de apenas um ano, mas ele parece tão jovem. - Ei, Trav - Ele sorri para a tela, em seguida me oferece uma merda de aceno fraco - Bem-vindo de volta. Jesus, isso é estranho. Minha família nunca foi particularmente boa com demonstrações de carinho. A coisa para minha mãe era levar-nos aos treinos, dar sucos no intervalo, e sentar-se nas arquibancadas em cada jogo. Mesmo em dias chuvosos estava lá, encolhida sob seu guarda-chuva verde e branco. As amostras de afeto do meu pai vinham depois de uma vitória, acompanhadas por um vigoroso tapinha nas costas e um estou orgulhoso de você, filho. Fazia muito tempo desde que tive um desses. E Ryan...Quando eu tinha sete anos e ele tinha seis anos, nosso avô me deu um GIJoe (da Guerra da Coreia por meu aniversário). Supunha ser um item de colecionador, mas Pops disse que eu deveria brincar com ele, desfrutá-lo. Às vezes, eu fazia, mas geralmente o mantinha em cima da minha cômoda, porque eu achava que era fantástico. Um dia, Ryan pegou-o sem pedir. Quando eu reclamei com meu pai, ele me disse para parar de me lamentar e deixar o meu irmão brincar com o G. I. Joe. Ryan arrancou o braço dele. Isso resume muito bem nossa relação: Eu tenho. Ele quer. Ele consegue e arruína. Ainda assim, eu não deveria me sentir bem por estar com eles de novo? Por que eu me sentia mais próximo de um grupo de caras que eu conheci há menos de um ano do que me sentia com a minha própria família? - Você recebeu todos os pacotes que enviei? - Mamãe pergunta, entregando o prato para me servir purê de batatas. Depois, que ela aceitou que eu iria me alistar com ou sem a sua bênção, fez de tudo para ser uma mãe da marinha com o mesmo entusiasmo de ser uma mãe do futebol. Inscreveu-se em vários sites de internet, para os Pais USMC, conseguiu uma fita amarela com os dizeres "Nós apoiamos nossas tropas em sua SUV ", e ficou louca com os pacotes de ítens necessários aos fuzileiros. Entre grupos da igreja, as diferentes organizações (grupos de apoio), e os pais, não era incomum um garoto receber quinze pacotes de uma vez. Receber o correio era como o Natal, sentado no chão com as pernas cruzadas abrindo os presentes. E a minha mãe normalmente me enviava material de qualidade, bolsas de calor instantâneo, uma cafeteira e grãos de café, e um chuveiro solar que foi roubado por um dos soldados do Exército Nacional do Afeganistão antes mesmo que eu tivesse a oportunidade para usá-lo. - Sim, senhora. Obrigado - Foi muito ruim manter contato, mas em minha defesa, estivemos desconectados do mundo real nos primeiros dois meses em que estivemos lá. Então nos deram um telefone via satélite e fomos autorizados a ligar para casa a cada duas semanas, mas só por cinco


minutos de cada vez. Durante uma chamada, eu sugeri que provavelmente poderia cancelar o fio dental e os livros de bolso e enviar algum material escolar para as crianças que estavam assediandonos, pedindo tudo. - As crianças enlouqueciam com as canetas e lápis-de-cor. - Água. Caramelos. Comida. Canetas. Não sei por que, mas encantavam-se com as canetas - Eu, uhm, sinto por não ligar muito. Seus olhos se arregalaram. Provavelmente porque eu nunca tive o costume de pedir desculpas. - Bem, nós achamos que você provavelmente estava ocupado - Ela diz. No Afeganistão, isso era verdade, mas eu não tenho nenhuma desculpa para ocampo de treinamento ou a escola de infantaria. Me enviou toneladas de cartas e nunca respondi a nenhuma delas. Liguei no primeiro dia de acampamento e recitei as palavras gravadas na parede ao lado do telefone: Eu sou o recruta Stephenson. Cheguei com segurança em Parris Island. Por favor, não me mande qualquer alimento ou itens volumosos pelo correio. Entrarei em contato com você dentro de três a cinco dias, por correio, com a minha nova direção. Obrigado pelo seu apoio. E isso foi tudo. Além deste punhado de chamadas de cinco minutos, não falei com ela por mais de um ano. - Ellen sempre me chamava, depois de receber uma carta de Charlie - diz mamãe - Então, eu sabia que você estava bem. No acampamento de recrutamento fazíamos tudo em ordem alfabética, assim os outros nomes de recrutas que aprendi primeiro foram Lee Staples e Charlie Sweeney. Um deles estava sempre na frente ou atrás de mim, dependendo do capricho dos nossos instrutores. Staples me incomodou porque chorou depois que rasparam nossas cabeças. Quero dizer, bem, eu posso ver como isso podia ser considerado humilhante porque nos priva de uma das coisas que nos distingue dos demais, mas vai se foder. Ele volta a crescer. De qualquer forma, quando finalmente nos deixaram dormir nesse primeiro dia, depois de estarmos acordados por mais de vinte e quatro horas seguidas, Charlie e eu fomos designados para o mesmo leito, no beliche de cima Stephenson, Sweeney no de baixo. Estávamos tirando as calças quando Charlie disse: - Oi, Stephenson, ouviu dizer que quem vai aos cultos religiosos budistas aos sábados, pode dormir. - Ouvi – Disse - Que se disser que é judeu, pode ir para os serviços de Sabbath e assim ter tempo livre aos domingos. Charlie riu. - Eu gosto da maneira como pensa. Eu não irei dizer que soube que íamos ser amigos, mas ele não era um chorão como Staples. Não sei


por que foi Charlie que se tornou meu melhor amigo. Não há nenhuma razão em particular que pode explicar. Eu tinha suas costas. Ele tinha a minha. Ponto. De alguma forma, eu acho que a mãe de Charlie e a minha se tornaram amigas, também. - Estamos muito orgulhosos de você -Os olhos de mamãe ficaram cheios de água e meu pai balançou a cabeça em concordância, o que me faz pensar se os Quatro Cavaleiros do Apocalipse estavam longe. - Então, como foi lá? – Os olhos do meu pai brilham algo que não vi em anos. Pelo menos não enquanto ele estava olhando para mim - Você matou alguém? – Pergunta ele. Curiosidade. Quem não teria? Mas, como posso responder a essa pergunta? Sim, eu matei, mas não é como matar os caras ruins em um vídeogame. A primeira vez que disparei em alguém, pensei que fosse vomitar, mas não podia porque estávamos no meio de um tiroteio e não podia parar de atirar. Eu não vou dizer isso ao meu pai. Não no jantar. Nem nunca. - Eu realmente não quero falar sobre isso - Respondo. Seu orgulho se esvai e seus os olhos se apertam. - Por quê? Você acha que é bom demais...? - Travis, eu te disse? - Interrompe mamãe - Existe uma organização em Tampa que recolhe material escolar para as crianças... - Tenho certeza de que ele não quer ouvir falar de seu pequeno projeto favorito, Linda – interrompe meu pai. Estou surpreso de ouví-lo falar assim com a minha mãe. Não importa o quão ruim era entre mim e ele, sempre foi bom com ela. - Não, pai – digo - Não acho que sou bom demais para falar sobre o Afeganistão. Simplesmente não quero falar sobre matar pessoas na fodida mesa de jantar - Sem esperar pela resposta, volto para mamãe – Eu quero ouvir sobre o seu projeto. Seus olhos voam nervosamente para meu pai. Ele faz um extensivo armar de ombros e coloca os olhos brancos. Seu anel do Super Bowl em sua mão, um enorme lembrete de que ele é um vencedor. - Eu só... - Mamãe tropeça com as palavras, à luz desapareceu de seus olhos - Eu ia dizer que falei com eles sobre iniciar uma filial aqui em Fort Myers. - Isso é muito legal - Eu sorrio. As crianças mendingas eram boas no início, porque estavam com medo de nós, mas depois de um tempo, viraram ladrões e exigentes. Não digo isso, no entanto. Ela parece bastante emocionada - As crianças enlouquecem por estas coisas. Canetas, papel, bolas de futebol, e bichinhos de pelúcia recheeado de feijões. Eles perdem a cabeça sobre essas coisas. - Posso sair? - Ryan se atrapalha com seu guardanapo e deixa cair em seu prato - Tenho um, Uhm... Seu olhar encontrou o meu, durante uma fração de segundo antes de deslizar para longe nervosamente. Um encontro - Tem um encontro com Paige – Eu vou encontrar com algumas pessoas.


- Talvez Travis gostasse de ir com você - sugere mamãe. - Eu vou passar - A minha imagem fazendo guarda para meu irmão e minha ex-namorada quase me faz rir - Estou acabado. Ryan cai fora da mesa, e nós três passamos o resto do jantar em um silêncio espesso com coisas não ditas. O único som é o tilintar dos talheres contra os pratos. Eu odeio que um ano não tenha sido separação suficiente para evitar que o meu pai fique sob a minha pele, e eu odeio tê-lo deixado me fazer sentir como se tivesse quinze anos novamente. Quando finalmente terminei, vou para o meu quarto e tranco a porta. Voltamos para Camp Lejeune, há um par de semanas e tive que passar por uma avaliação de saúde pós-implantação para verificar qualquer problema físico que desenvolvemos no país, principalmente os problemas de pele como resultado por nos lavarmos em canais lamacentos, acne por ter o rosto constantemente sujo, picadas de insetos e alguns caras tiveram tosse persistente por infecções pulmonares. A avaliação também deveria verificar nossa saúde mental, mas isso era uma piada. Dizíamos que tudo estava bem, porque o caminho mais rápido para afundar sua carreira era admitir que não estivesse bem. Então não contei a ninguém sobre o meu pesadelo recorrente. Só disse ao médico que estava tendo problemas para dormir e ele receitou alguns comprimidos. Eles chacoalham enquanto pego o frasco âmbar na minha bolsa e despejo três comprimidos na minha mão. Engulo em seco, me acomodo no chão e deixo que o mundo se desvaneça.


Capítulo 2 Uma forte explosão me sacode, eu acordo e busco o meu rifle. Por alguns segundos eu fico com medo, porque ele não está lá, então me lembro de que estou na Flórida e meu rifle está no arsenal na Carolina do Norte. - Travis! Travis! - Minha mãe está batendo na porta e soa frenética. Abro e ela se joga em mim, quase me estrangulando no processo - Oh, graças a Deus está acordado. Algo molhado escorre no meu peito nu. Ela está chorando. - Mãe, o que foi? - Você dormiu por 16 horas - Ela contém um suspiro - E a porta estava trancada. Pensei... Tive medo de uma overdose. Há momentos, milhares deles ao longo de cada dia, que estou sobrecarregado com a culpa por chegar em casa vivo e Charlie não, mas não tenho vontade de morrer. Eu esfrego os olhos com a palma da minha mão, expulsando às 16 horas de sono. - Estava exausto – Acaricio suas costas sem jeito - Eu não tenho uma noite de sono reparador em um tempo. Não foi minha intenção te assustar. Enxugando as lágrimas com as costas da mão, examina o ninho de cobertores no chão. - Há algo errado com a sua cama? - Eu passei muito tempo dormindo no chão. - Houve noites que dormimos em buracos no chão. Outras noites, dormimos em edifícios abandonados. Nossa base de patrulha era uma escola abandonada, com buracos no telhado e aves vivendo no teto – Ainda não acostumei com a cama. Ela se senta na cama. - Você gostaria de um colchão firme ou...? O que aconteceu com suas pernas? - São, uhm... - Olho para baixo, para os vergões vermelhos que passam por meus tornozelos e se arrastam até minhas panturrilhas – São mordidas de pulgas. - Mordidas de pulgas? - Ela me olha horrorizada. - Sim, bem, depois de um tempo tudo fica muito sujo – Explico - E as pessoas de lá têm quintal com paredes de barro ao redor de suas casas onde eles mantêm seus rebanhos. Às vezes dormíamos lá. A mãe de Charlie mandou um colar anti-pulgas, uma vez ele amarrou em torno de seu tornozelo, mas


não funcionou. O chamamos de Fido por um tempo depois disso, mas ele só latia e ia embora. Cachorro do diabo! Oorah. Nós ríamos o tempo todo. - Dormiu com... – sua mão na boca - eu não posso... Não sei nem mesmo o que dizer - Seus olhos se enchem de novo. O Afeganistão suga. No verão, suava as bolas no sol quente. No inverno, tivemos hipotermia como batalha. Foi o local mais frio que estive em minha vida, ainda mais frio do que quando vivíamos em Green Bay. Com cobras venenosas, escorpiões, moscas, pulgas e tempestades de areia. Sabendo que cada vez que deixávamos nossa base de patrulha, alguém atiraria em nós. Não sinto saudade exatamente, mas parece que nunca estarei completamente em casa novamente. - Não foi tão ruim. - Hoje à noite tem uma festa na Manor - Ryan enfia a cabeça no meu quarto depois de outro jantar familiar desconfortável, a estranha conversa fiada e as coisas não ditas. Estou desarrumando minha mala. As gavetas da cômoda, descubro, estão vazias, minha mãe aparentemente não manteve tudo igual. Antes, ela brigava para que eu me vestisse melhor e ficava envergonhada por comprar roupas no Exército da Salvação. Ela provavelmente teve um dia ruim jogando fora todas as minhas irritantes camisetas e meus jeans com buracos. Não importa. Nenhum deles caberia. - Você está interessado? - Ryan me pergunta. A Manor é uma casa de aluguel em ruínas, fica na praia e é parte local de reuniões e parteboate. Meu amigo Eddie Ramos vive lá desde a graduação, mas não festejava ali desde que éramos calouros. Não tenho certeza que estou pronto para ver meus velhos amigos, mas não quero passar a tarde assistindo a programas militares contra o crime com meus pais. Não só porque é sempre um fuzileiro que acaba morto nesses programas, mas porque eu não posso ficar mais um minuto neste silêncio desconfortável. Eu não sei o que está acontecendo com eles. Sempre achei que eram estáveis. - Sim, com certeza. Ryan aperta as chaves do carro em seus dedos. - Quer dirigir? Pego as chaves. - Nos vemos no carro. Lá fora, sento no banco do motorista do VW vermelho que costumava ser meu e passo minhas mãos pelo volante. O cheiro doce de maconha misturada com McDonald traz de volta memórias de todas


as horas que passei com este carro, trabalhando nele, dirigindo sem rumo por Fort Myers com os amigos, brincando com Paige no banco de trás. Encontrei o carro na internet quando tinha quinze anos e comprei-o com meu próprio dinheiro. Eu fiz todo o trabalho nele, também. Fico um pouco incomodado por Ryan sentir o direito de apropriar-se do carro depois que eu saí, mas nunca disse nada. Eu não estava usando. Agora... Realmente não o sinto mais como meu. Ryan cai no banco do passageiro e o cheiro de colônia toma conta do carro. Tusso e abro a janela. - Droga, Rye, tomou banho com essa merda? - Paige gosta - diz ele - Ela comprou para o meu aniversário. Minhas sobrancelhas levantam. - Sério? Ele balança a cabeça, e quando me dá um sorriso arrogante, vejo a lasca no seu dente da frente do momento que caiu de skate no parque. Há tantas coisas erradas com esta conversa, que não sei por onde começar. Paige odiava quando eu cheirava a qualquer coisa diferente de mim. Se Kenny "Kevlar" Castanha estivesse aqui agora, ele iria teorizar no seu sotaque do Tennessee que os pintos são naturalmente atraídos pelo cheiro de gente ruim. Ele é um cara um pouco grande, com o cabelo vermelho brilhante e um lábio inferior cheio de Skoal . O chamamos de Kevlar, porque é o único em nossa equipe, que poderia digerir a carne de porco MRE•., entãoachamos que seu estômago devia ser revestido com Kevlar (que é uma fibra sintética resistente). Ele fala muito rápido, como se não conseguisse falar tudo de uma vez, as palavras desapareceriam. Ele fala merda sobre as meninas, apesar de ter zero de experiência e ainda menos experiência no jogo. Charlie nunca o deixouescapar sobre isso. - Fez um chamado de merda, Kenneth - disse uma vez depois que Kevlar afirmou que ele teve relações sexuais com uma líder de torcida da Universidade do Tennessee. Você não é mais que um pouco de cabelo vermelho... - Cale a boca! - disse Kevlar todo irritadiço quando tiram sarro do seu cabelo ou chamam a atenção para o fato de que ele é o menor do nosso pelotão – Solo’s tem o cabelo vermelho, também – O meu está mais perto do marrom do que vermelho, mas ele acha que me incluir em sua aflição lhe dá credibilidade. Rio e jogo o braço em torno de seu ombro. - A cor do cabelo é irrelevante quando se é tão bonito como eu. A memória traz felicidade e dor. Eu aperto meus olhos fechados e inalo uma respiração profunda. - Você está bem, irmão? - Ryan me traz de volta à realidade - Tudo isto com Paige está... -...Confuso? - Olho para ele, seu cabelo eriçado e o colar de concha que usa porque acha que o faz


parecer um surfista, e seu rosto está tão sério como nunca vi. Ele realmente gosta dela. - Completamente, mas... - corto uma cruz no ar, da forma como o sacerdote faz na igreja, e ligo o motor - Você tem a minha bênção. Nós nem sequer deixamos nosso lugar, quando noto que o câmbio da embreagem está frouxo na mudança de velocidade. - Quanto tempo à embreagem está assim? Pergunto. - Como? – diz Ryan. - Queimada. - Parece boa pra mim. Eu solto a embreagem e o carro gagueja ao acelerar. - Você está bem? Você trabalha em uma porra de uma concessionária VW. - Eu não sou um mecânico. - Não tem que ser um mecânico para saber quando a embreagem está em más condições Provavelmente estou mais irritado do que deveria estar. Eu sei como substituir uma embreagem queimada, mas é o princípio da coisa. Não havia nada de errado com o carro quando eu saí. Isso é típico de Ryan. E meu carro é o G.I. Joe da Guerra da Coréia. Ele não pede desculpas. Simplesmente não diz nada. Ele fica de mau humor, como se eu fosse o cara mau, então vira o rosto para a janela. À medida que avançamos em direção à praia, percebo as diferenças na paisagem da cidade. Novos negócios que não estavam lá no ano passado. Empresas antigas que acabaram. É como se um pedaço de tempo completo tivesse acabado... Desaparecido. As músicas no rádio são diferentes. Os rostos nas revistas de celebridades no quiosque do aeroporto eram de pessoas que não conhecia. Inclusive há um novo American Idol de merda. Nós paramos na frente da mansão, e acho que estou esperando que estivesse diferente, também. Só que a casa branca com os degraus da varanda tortos nunca muda. Há uma lata de cerveja na grade da varanda, está lá desde que me lembro. Mesmo nas raras ocasiões em que alguém decide limpar o lugar, ninguém toca a cerveja. Tornou-se arte. - Trav, amigo, onde você esteve? - A primeira pessoa que fala comigo é Cooper Middleton, meiaboca e pálpebras caídas, um anel de fumaça de maconha em torno de sua cabeça loura suja. Está sentado na mesma cadeira de jardim que sentou na última vez que estive lá. Talvez tenha ficado lá todo esse tempo. Com Cooper, não é impossível. Graduou-se comigo, mas pelo que sei, nunca teve um emprego, a menos que conte vender drogas.


- Afeganistão. Ele olha para longe por um momento, o fantasma de um sorriso no rosto, e eu posso dizer que está em outro lugar. - Oh, sim... Doce. O salão é um mosh pit 8, todos os móveis de brechó foram empurrados contra as paredes para criar espaço para a dança, e uma banda composta por algumas das pessoas que vivem na Manor, aquecem a sala de jantar. Conforme ando pela casa, as pessoas chegam a mim, apertando minha mão e dandome boas-vindas ao lar. Em vez de me sentir bem-vindo, me sinto preso, como no aeroporto. Nervoso. Assustado por estar no meio de uma multidão sem o meu rifle. - Preciso de uma cerveja – falo pra ninguém, e meu dedo flexiona em gatilho enquanto faço meu caminho através da multidão até a cozinha. Paige está no balcão, um copo de plástico e um cigarro na mesma mão, gesticulando amplamente enquanto fala com um grupo de meninas. Paige tem opinião sobre tudo, e às vezes não cala a boca. Mas com seu cabelo negro de mármore brilhante e seus lábios macios manchados do vermelho de sua bebida, quem se importa com o que ela está dizendo? Seus olhos desviam de suas amigas e se concentram nos meus. Sinto a atração magnética, e tenho que lembrar-me que já não é minha. Antes que possa me aproximar dela, Eddie aparece. - Trav, homem, bem-vindo ao lar! Ele dá um abraço que sei que vai virar uma tentativa de me derrubar. Ele sempre fez isso. Abaixa o ombro e rodeia minha cintura com os braços, tratando de lutar comigo no chão. Costumávamos ficar igualados, mas agora não tem nenhuma chance. Eu coloco minha perna ao redor da sua e deixo-o cair. - Cara, você pode muito bem ser chamado de tio terminal - Rio enquanto puxo seus pés. - Faz muito tempo - Ele me dá um abraço verdadeiro desta vez - Como tem passado? - Bem – Minto - Você? - A mesma merda todo dia, sabe? - Eddie encolhe os ombros. Eu não tenho nenhuma idéia de como deve se sentir um gerente do Taco Bell de dezenove anos com uma namorada grávida. Não estou dizendo que Eddie tomou decisões erradas, ele está vivendo uma vida honesta e não cabe a eu julgar, mas não, eu não sei. Passei a maior parte do ano, do outro lado do mundo, em um país onde um cara aperta sua mão e sorri, e depois pega sua AK-47 e atira. Quando uma criança exige, sem lágrimas nos olhos, der-lhe-lhe uma compensação de cem dólares por matar acidentalmente sua mãe, que é menor do que a taxa por matar seu cachorro. Paige pula fora do balcão e caminha para mim e meu irmão. Posso ver seu biquíni vermelho através da fina camisa branca que usa. Tenho uma memória deste biquíni. Ela chega a Ryan primeiro, tão estranho, fica na ponta dos pés para bagunçar o cabelo dele enquanto se beijam. Seu braço desliza


em torno da cintura. Seu rosto é diferente quando olha pra ele. Mais Suave. Menos irritado. - Você tem um cheiro bom. Ryan não olha para mim, mas eu vejo o sorriso: eu-te-disse em seus lábios. Eu rio. Paige ergue a cabeça para mim e sorri. - Bem, se não é G.I. Joe. - G.I. Joe - Eu tomo sua bebida e bebo de um gole só. É frutado, mas o álcool é forte - era um fraco. Ela risua risada cheia de humor, sexy, e me beija na bochecha, seus seios artificiais, que seus pais compraram para seu aniversário de quinze anos, escovam contra o meu braço. - Bem-vindo ao lar. - Obrigado pelo pacote – digo – “A senhorita Janeiro” trouxe muito prazer a um monte de caras - Ela ri novamente. - Era o mínimo que eu podeia fazer. - Como está Bill? – Pergunto - Seu pai é dono de uma empresa nacional que fornece barricada de barris alaranjados, barricadas de concreto e cones de trânsito para trabalho em construção. Cada barricada só tem seu nome. Nunca gostei dele e da mãe da Paige. Ela encolhe os ombros. - Ainda te odeia. - Figura. - Quanto tempo vai ficar em casa, Trav? – pergunta Eddie. - Um mês - respondo. Ele acena com a cabeça - Bom. O barulho da festa preenche o espaço onde a conversa deveria continuar, mas não faz, e Eddie só faz o que as pessoas fazem, ri um pouco nervoso quando não sabe o que dizer. Isso nunca aconteceu com Charlie. Falamos sobre tudo, desde o filosófico ao ridículo, como quem ganharia uma luta entre um tigre híbrido e um urso polar. Quase lutamos nós mesmos por isso. - Como está, uh...? Como está Jenn? - pergunto. - Tudo bem - Ele acena com a cabeça novamente - O bebê nascerá em setembro. Uma menina. - Isso é incrível, cara, parabéns - Tomo um gole de cerveja em busca de uma fuga. Eddie era meu


melhor amigo na escola, mas agora... Sei que há um lugar dentro de mim que ainda se preocupa com ele, sobre todos eles, mas não posso encontrá-lo esta noite. A banda começa a tocar, e Eddie parece aliviado. Talvez nós dois estejamos procurando uma fuga. - Falamos mais tarde, irmão? Concordo com a cabeça e ele é absorvido pela massa de pessoas dançando na sala de estar. O baixo faz soar as paredes, e me pergunto se esta vai ser uma daquelas noites em que os vizinhos chamam a polícia. Em meio à multidão, vejo uma cabeça escura, parada no meio dos corpos agitando-se. Picos de cabelos negros de sua cabeça em tufos aleatórios como... Charlie. Ele olha pra mim. Pisco e ele se foi. - Travis, você está bem? - A voz de Ryan me traz à realidade - Estive fora por um segundo. - Sim, estou bem - Mas não estou. Suor escorre nas minhas costas sob minha camisa - Eu só preciso de uma cerveja. Cooper está enchendo seu copo de vidro. - Trav, meu homem! Onde você estava? O cara seriamente precisa cortar a erva. - Nós já tivemos essa conversa, Coop. - Oh, sim – ela dá uma risadinha – Afeganistão, Certo? - Sim. - Cara, você viu algum Poppie ? Deixo Cooper perguntar sobre drogas. - Como o Mágico de Oz, homem – digo - porque isso vai fazê-lo feliz - mas não tiramos cochilos nos campos de papoulas do Afeganistão. Tomamos fogo dos talibãs. Devo encher um copo e depois ir para a sala de estar, minhas entranhas ainda enroladas de... Nem tenho certeza do que chamar o que aconteceu. Alucinação? Aparição? Em pé com as costas contra a parede, eu vejo a festa continuar em torno de mim. Um bando de meninas com saias minúsculas me olham em seu caminho até o banheiro escada acima. Derek Michalski, que se formou com o superlativo senior não oficial de que provavelmente já saiu com a maioria das meninas menores de idade, está persuadindo uma garota que parece ter cerca de doze ou


treze anos. Cooper e sua namorada, April, estão nas profundezas de uma dessas assombrosas conversas cheias de idéias profundas que não se lembrarão deamanhã. Seria parte disso. Agora me pergunto onde, se é que em alguma parte, me encaixo. E se inclusive eu me importo. Algumas cervejas depois, volto para a cozinha, onde Eddie, Paige, Ryan, e alguns outros estão sentados ao redor da mesa, lembrando-se de uma viagem que tiveram no verão passado. Paige está sentada no colo de Ryan, com a mão enrolada em torno de seus quadris. Ela brinca com seu cabelo enquanto fala por cima de Eddie para ser ouvida. -... E então o maldito carro morreu no meio do nada, Lembra-se? ... Sento-me por um tempo, mas na verdade eu não estou prestando atenção. Estou pensando na última vez em que fiquei bêbado. Pouco antes de nos enviarem, Kevlar contrabandeou uma garrafa de tequila barata e desagradável para nosso quarto e bebemos enquanto assistimos episódios de M*A*S*H na velha televisão de Charlie. Quando Kevlar desmaiou roncando e babando no meu travesseiro, Charlie me disse que em sua casa em St. Agostinho ele vivia com sua mãe e sua parceira lésbica, e que seu pai era um doador anônimo. - Eu realmente não falo sobre isso porque eu não quero obter merda, Você sabe? – disse - "Charlie tem duas mães". Esse tipo de merda. – Poderia ter zombado dele, se não estivesse tão bêbado, mas a tequila nos deixou sensíveis. Mórbidos - Se algo acontecer lá, só vou querer que vá vê-las, de acordo? - Amigo, não seja estúpido - eu disse. Nunca vou conhecer sua mãe, porque a única coisa que vai acontecer com você, é eu chutar sua bunda. Eu estava errado. O pior aconteceu, e não pude detê-lo. Levanto o copo de cerveja para um gole. Sujeira preenche as linhas da minha mão e meus dedos estão manchados de sangue. O copo desliza do meu aperto, salpicando cerveja sobre a mesa. Paige salta do colo de Ryan, gritando alguma coisa, mas não entendo o que está dizendo. Meu peito está apertado e estou com dificuldade para respirar. Tenho que sair daqui. Minha cadeira cai enquanto fico em pé. - Trav, aonde você vai? - Ryan me chama, mas eu não respondo. Eu faço o meu caminho através da sala e saio pela porta da frente. O ar está mais fresco, claro, enquanto coloco-o em meus pulmões em gigantescos suspiros até a minha frequência cardíaca retornar ao ritmo normal. Olho para as minhas mãos. Estão limpas. Desço a rua até o Shamrock, o bar de motoqueiros na esquina da Delmar com Estero. Além dos motoqueiros, as únicas pessoas que vão lá são poucas putas em pele de couro e velhas mulheres com cabelos quebradiços que pensam que ainda são jovens e quentes. A música é rock Dirtball , o piso é pegajoso e a cerveja é servida em copos de plástico, mas são bons em olhar para o outro lado,


quando "esquece" sua identificação. Passando pela porta aberta, passo por Gage Darnell. Estava um ano antes de mim na escola, mas desistiu quando completou dezoito anos. Ele está com uma garota de aparência familiar com um falso bronzeado, unhas postiças, cabelo loiro tingido e seios provavelmente falsos. Parece uma estrela pornô da internet, e não necessariamente em um bom sentido. Fui para a escola com ela também, mas o seu nome me escapa. Angel? Amber? Algo de clube de strip-tease, eu acho. - Ei, Travis, bem-vindo ao lar - Gage me oferece o punho para bater, e depois segue em frente. A loira mexe os dedos para mim, então gira em torno de seu braço. Podia ter dormido com ela. Debruçadas nas banquetas estão duas meninas da minha idade. A que veste short e botas de cowboy é Lacey Ellison. Não é especialmente quente e usa muita maquiagem, mas não era chamada de E-Fácil na escola por nada. Está flertando com um motoqueiro que usa um emblema dos Anjos do Inferno em seu colete de couro e uma barba loira suja. Lacey ri de algo que ele diz e toca a tatuagem de cobra no antebraço.Ao lado dela está uma menina com um tufo de cabelo castanho claro preso em um desses nós sensuais, desordenados. Em comparação com Lacey, está com muita roupa, mostrando a pele em apenas uma estreita faixa entre o topo de sua Levis desgastada e uma camisa azul desbotada. Não me reconhece, nem mesmo quando levanto o queixo, ao reivindicar o banco vazio ao lado dela e pedir uma cerveja, e por alguma razão, isso me chateia. Provavelmente porque estou bêbado. - Bonita noite, hein? Seus olhos verdes encontraram os meus no espelho com a marca Guinness atrás do bar, e parece que todo o ar foi sugado para fora da sala. Eu nunca dormi com essa garota, mas foi a primeira que recordo querer. Harper Gray. A primeira vez que a beijei foi numa festa de pijama na escola intermediária. Paige deu a festa quando seus pais foram para Key West deixando-a sozinha durante o fim de semana. Era o fim do verão e eu era novo ali, porque o meu pai tinha acabado de ser transferido para Tampa Bay, mas já tinha feito amizade com o a maioria dos meninos da equipe de futebol da oitava série em prática mais cedo. A tentação de álcool e meninas de pijama era muito forte para resistir, por isso caímos na festa. Depois de assaltar o armário de bebidas, Paige decidiu que era hora de jogar Sete Minutos no Céu. Eu fui o primeiro, usando a roleta de um jogo de mesa, e apontou para Harper. - Seus sete minutos começam... Agora - disse Paige, enquanto Harper me seguia até a lavanderia. Fechei a porta e ela apoiou-se na máquina de lavar, assustada. Lembro-me do forte cheiro de água sanitária misturada com cheiro de roupa limpa. - Sou Travis. - Eu sei - Seus olhos se moveram para baixo timidamente, fitando nossos pés, estávamos ambos usando tênis velho, e então pareceu um sinal para mim – Sou Harper.


Eu sabia, também. - Como Harper Lee? Estava presumindo. Eu não tinha lido Matador de Pássaro, mas estava na prateleira da minha mãe, então eu sabia o nome do autor. - Não - ela disse - Charley Harper. - Oh, uhm... - Ele é um artista. - Genial - Com minha aptidão para falar completamente fora, decidi ir para o beijo. Nossos narizes bateram na primeira vez e pude ouvir o nervosismo instável em seu sorriso. A segunda vez nós fizemos bem, mas esqueci de cuspir o chiclete de maçã que amargava a minha boca, e a minha língua estava em todos os lugares enquanto tratava de beijá-la e escondia o chiclete ao mesmo tempo. Começou desleixado e ridículo, mas, no final, fizemos bem, e me lembro dos meus dedos deslizando através das ondas de seu cabelo. Nada mais aconteceu. Simplesmente ficamos ali, apoiados um no outro, nos beijando. Até que a voz de Paige disse-nos que o nosso tempo tinha acabado. Eu não queria parar, e estava prestes a sugerir para abandonarmos o jogo, quando a porta se abriu. Paige agarrou Harper pela mão e puxou-a para a festa. Ela estava enrolada em um nó de garotas sussurrantes quando saí da lavandaria. Todos os meus amigos queriam detalhes do que aconteceu entre Harper e eu. Esperava algo bom, então eu floreei. Disse que me deixou tocá-la em cima. Na segunda-feira, minha mentira tinha ganhado vida própria. As pessoas diziam que Harper fez sexo com todos os meninos que foram para a festa de Paige. Chamavam-na de puta. Não sei como isso ficou tão fora de controle. Eu poderia dizer a todos o que realmente aconteceu, mas não o fiz. Quando ela se aproximou de mim no refeitório, me ignorou. No fim de semana seguinte, Paige virou minha namorada. - Olá, Charley Harper, eu posso te comprar uma cerveja? - Não é a linha de abertura mais suave que usei, mas não me sinto suave. Estou instável. E bêbado. Levanta seu copo quase cheio, mas não me olha. - Eu tenho uma, obrigada. Certo. - Você pode não se lembrar de mim, mas... - Travis Stephenson - me interrompem, suas palavras como uma barricada - Bem vindo ao lar. Agora me deixe em paz. Maldita seja. Ela é hostil.


- Qual é o seu problema? Harper olha para mim um momento, e fico hipnotizado por seus olhos verdes. Então não vejo quando ela me dá um tapa na cara. - Você está brincando comigo? - Jesus Cristo, ai! - Minha órbita do olho lateja, ela definitivamente não bate como uma garota, e eu ficarei com o olho roxo - O que foi isso? - Eu tinha treze anos, Travis! - Harper está gritando e todos estão olhando, inclusive Lacey e o motoqueiro sujo - Ainda brincava com bonecas Barbie em segredo, quando minhas amigas não estavam por perto. Não tive relação sexual com ninguém na festa de Paige, mas você disse a todos que fiz. E quando eu tentei negar, ninguém acreditou em mim. Você destruiu a minha reputação, e agora supõe que tenho que achar que é bonito lembrar que não me chamo Harper "prostituta" Lee? - Eu não... - Você não, o que? Não fez? Não era sua intenção? Vomite as desculpas. Quero me defender, mas este momento é muito semelhante ao campo treinamento. Não importa se sou culpado ou não. Ela passou anos acreditando que sou um idiota, e que a única coisa que vai amenizar é um pedido de desculpas. - Harper... O garçom se aproxima. - Tudo bem por aqui? - Tudo bem - Harper diz bruscamente - Eu estou indo. Você pode colocar a cerveja em sua conta. Jesus, foi uma grande jogada. E embora me odeie, estou um pouco entusiasmado e gostaria que ela não fosse. - Adicione uma dose de tequila, também - digo ao garçom, mas ele nega com a cabeça - Isso é tudo. O que é uma porcaria, porque não estou bêbado o suficiente. Bebo o resto da minha cerveja e solto um monte de moedas no bar, esperando que seja suficiente para compensar o drama que causei esta noite. Viro-me para sair e Paige está ali, com a boca satisfeita. Eu odeio como faz isso. - Rye está te procurando - ela diz - Pronto para ir? - Tudo bem. Meus olhos vagueiam para sua bunda, enquanto a sigo para fora do bar. Força do hábito, eu acho. Além disso, é agradável. Como um tipo de champanhe. - Então, Harper Gray, né? - Ela pergunta à medida que caminhamos pelo meio da rua.


- Quando for problema seu, te faço saber. Ela bufa uma risada. - Você pode fazer melhor do que ela, Trav. Ela é lixo. - Cala a boca. - Você quer que eu vá mais tarde? - pergunta. - Para quê? Morde o lábio inferior entre os dentes e me olha por baixo de seus cílios escuros. É um ato inocente que costumava me deixar quente. Tenho que admitir que ainda funciona muito bem. - Acho que você sabe. - Então me deixe ver se entendi - eu digo - Se envolve com o meu irmão nas minhas costas, e agora você quer que eu faça o mesmo com ele? Pisca os olhos de azuis-geloem direção ao céu noturno. - Não é como se isso significasse alguma coisa. Em algum lugar no fundo da minha consciência, encharcada de cerveja, acredito que isso vai me machucar, mas não é assim. Quando eu penso sobre o que Paige e eu tivemos, o amor nunca entrou nele. - Isso é tão fodido. Você sabe disso, né? - Você quer que eu vá ou não? - Não. - Eu vou estar lá às três horas. Mesmo antes de abrir meus olhos, posso sentir a presença de outra pessoa no meu quarto, e os cabelos na parte de trás do meu pescoço arrepiam e deixam meu corpo em alerta. Corpo a corpo com o inimigo no chão não é o estilo dos talibãs. Eles preferem tomar nosso dinheiro no bazar local e utilizam para comprar armas para nos matar. Preferem emboscadas, bombas nas estradas, e francoatiradores nas janelas e telhados. Mas há alguém aqui comigo no escuro e eu não vou esperar para ser morto. Levanto, agarrando o intruso na altura dos joelhos, e deixo-o cair no chão. O coloco debaixo de mim, a ponta da minha faca em sua garganta. Nas linhas de luz do luar entrando através das cortinas, me dou conta que não é um homem. É Paige. E, pela primeira vez desde que a conheço, ela está com medo.


- Oh, merda! - Deixo cair à faca como se estivesse vermelho vivo e rastejo de volta contra o lado da minha cama - Jesus, Paige, que Diab... Eu machuquei você? Seu medo desaparece enquanto registra minha surpresa, e ri ao mesmo tempo em que pega a faca. - Você sempre gostou de ser um pouco áspero, Trav, mas isso é extremo, você não acha? – engatinha até mim, a faca na mão e atravessa meu colo - Mas... Seus lábios estão perto dos meus que posso sentir seu hálito - Eu acho que gosto. Tomo a faca dela e coloco na mesa de cabeceira, sobre o livro que eu nunca vou terminar. Ela tira a parte de cima de sua camisa. - O que você está fazendo aqui? - pergunto. - Isso... - Pesca um preservativo do bolso da sua pequena saia jeans – deveria ser óbvio. Ela desamarra o biquíni vermelho. Isso não é algo que deveria fazer, mas sua pele é quente e familiar... E ela está aqui. Foi um longo tempo desde que consegui me estabelecer, mas vivi no meio do deserto, onde as mulheres estão escondidas embaixo de burcas . Além disso, as mulheres muçulmanas... Bem, o Alcorão proíbe quase tudo que é divertido de qualquer maneira, por isso mesmo que pudesse ver seus rostos, não faria muito sentido, mesmo considerando-o. Sim, beijei uma garota muçulmana uma vez. Quando Charlie e eu chegamos em Camp Lejeune, o resto da nossa unidade estava em permissão pré-alistamento. Tivemos que ficar na base para uma versão de curso intensivo de toda formação que o batalhão fez quando ainda estávamos na escola de infantaria. Pouco antes de prevermos nos alistar, deram a Charlie e a mim um par de dias para que pudéssemos ir para casa. Em vez disso, fomos à Nova York. Kevlar, que nem conhecia muito bem, mas era novo como eu e Charlie se convidou para ir conosco. Em um clube na primeira noite, Charlie estava flertando com uma garota do Smith College. Ela me disse que sua colega de quarto tinha acabado de terminar com o namorado e que um beijo ardente, suas palavras não minhas, de um fuzileiro restauraria a fé de sua amiga que nem todos os homens são idiotas. Como copiloto de Charlie, eu sabia que havia mais do que uma oportunidade média que sua amiga era uma cachorra, mas estava comprometido e bêbado. Só que ela não era feia. Era linda, com olhos escuros e esperançosos, apesar de estar tratando de não criar esperança, e não podia ser um idiota ainda que tentasse. Ela não me deixaria fazer nada mais que beijá-la, acredite em mim, eu tentei, mas os deuses do sexo sorriram para mim pelo resto do fim de semana. Depois Kevlar, que não conseguiu pegar nenhuma menina que conheceu me chamou de amante-haji por beijar uma menina muçulmana. Passou a viagem para o Afeganistão na enfermaria por um lábio partido.


Quando terminamos, Paige se move para fora de mim e cai de volta na cama, ofegando por ar. Minha própria respiração é curta e os meus ossos estão líquidos. - Jesus, Trav, eu esqueci como é fodidamente bom com você. Ela tem razão. É bom. Exceto que quando a adrenalina começa a se dissipar, odeio-a. Odeio o meu irmão também. Sobretudo me odeio. - Você tem que ir. - Por quê? - Acaricia meu pescoço, como se ainda estivéssemos juntos. - Teve o que você veio buscar. - Não seja assim. - Retira seu biquíni - Você também queria. Eu dou de ombros. - Tudo bem. Não vá. Você e seu namorado podem tomar café da manhã juntos em um par de horas. Paige ri. - Você está com ciúmes. Que lindo. - Não estou. A coisa é que realmente não estou. Se eu sinto algo, é raiva, porque nada mudou e todos os anos que estivemos juntos foramde uma enorme perda de tempo.


Capítulo 3 Estou de pé na calçada rachada na frente de uma pequena casa de campo laranja e branca na Avenida Ohio, perguntando-me o que vou fazer depois, quando um homem sai pela porta da frente. Ainda está escuro, então acredito que não me vê. - Existe uma boa razão para você estar do lado de fora da minha casa às 4:30 da manhã? - pergunta, apoiando a caneca de café sobre o capô de uma antiga Land Rover. As chaves tilitam quando abre a porta do lado do motorista. Ele examina minha camisa encharcada de suor nas axilas e no meio de peito. É uma longa caminhada da minha casa até a praia em Fort Myers... E há uma ponte envolvida. Um pouco de autoaversão faz um longo caminho. - Só acabei aqui, senhor. - Não tenho uma boa resposta. Depois que Paige saiu, eu coloquei meu tênis e corri. Nem mesmo peguei meu celular - Eu não tinha certeza para onde ir. - Interessante escolha de destino. Concordo com a cabeça- Não pensei muito nisso. Ele solta uma risada - Precisa de uma carona para algum lugar? - Cairia bem uma carona para casa. A luz da varanda acende e Harper sai, a porta de madeira e metal batendo atrás dela. - Travis? Seus pés estão descalços e usa um pequeno short de pijama que se acomoda em seus quadris e faz suas pernas parecerem longuíssimas. A última coisa que eu preciso é de ter uma ereção na frente do pai dela. - Sim, uhm... Olá. As sobrancelhas de seu pai levantam, mas ele toma um gole de café sem comentários. - O que você está fazendo aqui? - Ela sai da varanda pela pequena passagem de grama, parecendo apenas um pouco menos irritada comigo do que estava antes - Você não teve o suficiente por uma noite? Aparentemente, não. - Não conseguia dormir, então decidi tomar um pouco de ar.


- Coisa horrível - diz ela - Você correu até aqui? - Mais ou menos. Sua boca abre. - Tem que ser ao menos... - Onze quilômetros. - Ambos ficam olhando fixamente pra mim, mas onze quilômetros não são nada. O que é mais interessante é que ela sabe onde moro. - Bem, tudo bem - O pai de Harper lança um olhar para o relógio - Eu preciso ir para o trabalho, então por que você não me leva até lá e, em seguida, leva Travis para casa? - Deixe-me trocar de roupa rapidamente - diz ela. Uma pena. Eu gostei deste pijama. - Bonita Rover, senhor. - A Land Rover é mais velha do que eu, e com exceção do CD, que ele provavelmente instalou, não tem comodidade dentro. As janelas são de manivela, os bloqueios não são automaticos, e o pneu sobressalente fica no capô. - Obrigado - A porta do motorista range quando ele fecha - Comprei-a quando estava na faculdade. A cada dois meses, precisa substituir uma peça ou consertar alguma coisa, mas é uma meninaresistente. - Se alguma vez precisar de uma mão... Faço uma pausa, sentindo-me como um idiota e soando como um puxa-saco. - Você está familiarizado com um motor? - Alguns. Ele acena com a cabeça. - Você é o filho de Linda Stephenson, certo? - Sim, senhor. - É interessante que ele mencionou a minha mãe e não meu pai. Como se talvez houvesse outra pessoa nesta cidade que não acredita que o sol nasce e se põe sobre o ex-jogador do Green Bay Packers, Dean Stephenson. - Pode me chamar de Bryan em vez de senhor – diz - Isso me faz sentir velho. - Sim, é... - Velhos hábitos não morrem facilmente - Tudo bem. - Você costumava ser um pouco idiota – Ele é um desses caras que podem usar um termo como "idiota" sem soar como um. Da mesma maneira que podem sair com a sua camisa dos The Meat Puppets e não parecer como se estivesse forçando. De qualquer maneira, considerando que as


últimas coisas que eu fiz hoje foram receber um tapa da sua filha e fazer sexo com a namorada do meu irmão, tenho certeza que ainda posso ser classificado como um idiota. - Sim. Tenho certeza que era. Harper volta de casa, desta vez usando o mesmo jeans e a camisa azul que vestia no bar. Enquanto sobe no banco de trás, viro a cabeça para vê-la e percebo o rosto de Elvis Costello na frente de sua camisa. Genial. - Ei, esqueci-me de te dizer ontem à noite - diz o pai de Harper, olhando brevemente pelo espelho retrovisor para ela, enquanto retorna pelo caminho da entrada - Voltei a entrar em contato via internet com uma velha amiga da faculdade. Ela está pensando em vir nos visitar. Harper revira os olhos. - Meu pai descobriu o Facebook. - O que você faz para ter que trabalhar tão cedo? - Eu pergunto. - Eu apresento o show da manhã no Z88 •. - Espere. Você é Bryan da Manhã Z de Bryan e Joe? - Sim - diz ele. - Eu costumava forçar meus companheiros de quarto a ouvir o seu programa na internet. Ele ri. - E ainda falam com você? - Você está brincando? Eles o amavam. Você deveria sindicalizar-se •. O Manhã Z é o programa perfeito, porque não são pretenciosos como se soubessem tudo quando estão falando, seus convidados não são patéticos, e colocam mais música. Todo mundo que conheço escuta esse programa. - Nós conversamos sobre isso - diz ele - Mas isso traz uma pressão que não desejamos - Ele olha para mim - Sabe, se alguma vez quiser vir falar sobre o Afeganistão... Imaginei-me contando a todo o sudeste da Flórida como Kevlar costumava se masturbar com a imagem da Mulher Maravilha, o desenho animado, não com Lynda Carter . O pensamento me causou uma risada. - Eu vou pensar. Poucos minutos depois, estávamos na estação de rádio. Bryan me convidou para um tour pelo lugar,


mas eu recusei. Foi uma longa e estranha noite, e sinto que poderia estar cansado o suficiente para dormir sem pílulas. - Provavelmente deveria ir para casa. Ele desaparece dentro do prédio e Harper assume a direção. - Você está com fome? – pergunta, tomando a Rua Daniels uma direção oposta do caminho para a minha casa. Esta não é uma pergunta que eu esperava. Não estou especialmente com fome. Estou exausto e ainda posso sentir o cheiro de Paige na minha pele. Salvo que acho que Harper está pedindo para passar mais tempo com ela. Isso poderia fazer de mim um masoquista, mas eu não vou recusar. - Faminto. Ela para na Casa do Waffle na Interestadual 75 e nos sentamos em uma mesa perto da janela. Depois de pedir dois cafés-da-manhã que tinha o nome de “todas as estrelas” com ovos e bacon, Harper olha para mim. - Por que você está aqui? Eu agito meu café preto com uma colher, só para fazer algo com as mãos. - Eu acho que queria pedir desculpas. Fui estúpido quando eu tinha quatorze anos, e claramente, não fiz muito progresso desde então. - Você acha que um pedido de desculpas é suficiente? – Pergunta - Você sabe quantos caras agarram minha bunda ou dizem coisas desagradáveis sobre mim, porque eles pensam que sou o tipo de garota que gosta disso? Nunca tive um namorado. Nunca fui a uma festa de formatura. Eu nunca tive um encontro real. - Eu sinto. - Paige... - Ela solta uma respiração profunda, como se inclusive dizer o nome fosse um esforço. Paige tem esse efeito em muitas pessoas - Paige Manning fez seu caminho para o último ano dormindo com todos, incluindo seu irmão, enquanto você estava fora, e eu sou considerada uma cadela. Mas quer saber a melhor parte? Eu não quero. Já me sinto mal o suficiente. Harper se inclina sobre a mesa, seu rosto a apenas alguns centímetros do meu. Perto o suficiente para ver as sardas do sol espalhadas por suas bochechas e nariz. Perto o suficiente para que, se eu achasse que poderia beijá-la sem levar um tapa novamente, eu provavelmente o faria. - Eu nunca dormi com ninguém. Nunca. - Eu...


- Eu sei - Ela inclina-se contra a lateral do banco, os olhos fixos nos meu – Você sente. A garçonete desliza nossos pratos sobre a mesa e Harper afasta o olhar. Silenciosamente, ataco minhas batatas fritas, desejando saber como melhorar as coisas. Charlie saberia como. Em Nova York, dizia coisas doces às meninas que as fazia sorrir e suavizar o olhar. Embora eu tivesse sucesso com elas, eu não tinha sua sutileza. Olho para cima e Charlie está sentado no banco ao lado de Harper, seus braços enganchados no encosto e seu corpo tão perto dela, que me pergunto por que ela não o sente, não o vê. - Nós estragamos tudo, não é, Solo? - Diz ele. Simplesmente olho pra ele enquanto estende a mão sobre a mesa e, como se estivessemos na escola de infantaria, pega uma tira de bacon do meu prato. Ela não levitar no ar, e ao lado de Charlie, Harper morde um pedaço de torrada, sem saber que somos três na mesa. - Quero dizer... - Charlie dobra toda a tira de bacon na boca e mastiga por um momento - Estou morto e você está vendo coisas que não estão realmente aqui, e nós não temos mais ninguém para culpar. - Devemos contar a alguém sobre a criança – digo e Harper me olha. - O quê? - pergunta. Charlie vira a cabeça para olhar para ela e vejo a ferida em seu pescoço, a pele rasgada com um escuro sangue seco que formou uma crosta ao redor das bordas. Meu estômago se agita e o garfo faz barulho quando bate no prato. Eu corro para o banheiro, chegando ao cubículo antes de vomitar ovos e bacon. Com os olhos ardendo e o nariz escorrendo, eu fico no cubículo, segurando nas paredes para não cair, até a nausea parar. Minha boca tem um gosto amargo e meu coração bate muito rápido. - Travis, você está bem? - Harper enfia a cabeça no banheiro masculino enquanto jogo água fria no meu rosto. Por uma fração de segundo odeio que me veja assim, mas não é culpa dela que meu cérebro está jogando comigo. Não, eu não estou bem. Estou ficando louco. - Eu tenho que ir. - Sim, é claro – Ela fica confusa e não posso culpá-la. Primeiro flertei com ela em um bar. Depois apareci do lado de fora de sua casa no meio da noite. Agora estou no banheiro masculino da Casa do Waffle, onde acabo de apertar o botão da descarga para me livrar do meu café-da-manhã - Eu, uh... Ela olha para meu reflexo no espelho e não posso dizer o que está pensando - Vou cuidar da conta. - Eu faço – digo, mas a porta fecha com um estrondo atrás dela. Procuro no meu bolso, mas está vazio. Menos mal que não me ouviu. Também esqueci minha carteira. Nós não falamos por toda a viagem até minha casa. Pelo menos não até ela estacionar a Land Rover na entrada.


- Sente-se melhor agora? – pergunta Harper. Eu não posso dizer-lhe que vi Charlie e que ele falou comigo no restaurante. Porque quem é o fuzileiro, alias que pessoa realmente quer admitir que seu cérebro estivesse totalmente confuso? Que garota vai querer sair com um cara assim? - Suponho. Obrigado. No entanto, para minha surpresa, algo mudou entre nós. Como se ela tivesse tirado de seu sistema o que estava incomodando desde o ensino médio. Não acho que vai continuar me odiando. Ou então, pensa que sou patético e sente pena de mim, o que não é o ideal, mas ainda assim é um avanço em relação ao ódio que sentia. - Ei, Harper, posso te perguntar uma coisa? - Tudo bem - Sua expressão é reservada, cautelosa. - Você poderia ter me trazido para casa direto, mas não o fez – digo - Por quê? Não olha para mim, simplesmente olha para frente através do parabrisa. - Eu tenho que ir, ou chegarei atrasada no trabalho. Não insisto com a questão enquanto saio da Rover. Sua não resposta é o suficiente por agora. - Vejo você mais tarde, Harper. Minha mãe está sozinha na ilha da cozinha quando eu entro, com as mãos envolvendo uma xícara de café. Dá um sorriso cansado, então confere o relógio. - Esteve fora todo esse tempo? - Algo assim. Ela tentava me punir por ficar fora a noite toda. Agora nem sequer me pergunta onde estive. Seus olhos estão rodeados por tristeza. - Café? Estou tão cansado que mal consigo ver direito, mas acho que posso ficar mais alguns minutos com a minha mãe. Esfregando as mãos no meu rosto, lembro que preciso fazer a barba. - Sim, obrigado. Ela se estica até o armário aberto e percebo que não usa sua aliança, que descansa na saboneteira na borda da pia, o que é raro. Ela tira quando lava os pratos, mas sempre coloca de volta quando termina. Enche uma xícara que diz Mãe USMC com café e a desliza para mim.


- Você está bem? - pergunto. Ela concorda com a cabeça para baixo, para que eu não veja seu rosto, mas quando olha para cima, há lágrimas em seus olhos. Merda. Esta noite não vai terminar nunca. Ela assua o nariz com um lenço. - Seu pai não voltou para casa ontem à noite. - Que...? Por quê? Onde está? - Eu não sei - diz ela - Liguei para o celular dele, mas não respondeu. Algo não está certo aqui - Mãe, o que acontece? - Ele... Não estamos bem neste último ano. E eu não sei, talvez seja culpa minha. Eu passo para o seu lado da ilha e coloco meus braços ao redor dela. É difícil ser gentil com ela, e não só porque estive longe por tanto tempo. Não estou acostumado a isso. Ela chora no meu peito, suas palavras e soluços derramando juntos em uma torrente. - Enquanto você estava no Afeganistão, fiquei... Bem, eu fiquei um pouco louca – diz - Não tem idéia de como estava com medo por você. Ficava na internet até tarde da noite, conversando com pais de outros fuzileiros e procurando o seu nome no Google para me certificar de que ainda estava vivo. Sempre via uma reportagem com notícias sobre os soldados americanos mortos, ficava com medo de que a campainha tocasse e alguém me dissesse que você estava morto. Em seguida, eles revelavam os nomes e chorava de alívio, porque não era o meu filho e, em seguida, chorava mais, porque era o filho de alguém. Fiquei obcecada em manter o meu telefone carregado e revisava um milhão de vezes por dia, para não perder uma chamada sua. Mamãe enxuga os olhos, mas não pode conter o fluxo de lágrimas. Eu estava tão preocupada com você, eu não prestei atenção quando seu pai começou a ficar até mais tarde na concessionária. Pelo menos é onde achei que estava. Isso não foi sua culpa, foi minha. - Ele está tendo uma aventura - diz. Somos uns idiotas: Eu, Ryan e meu pai. Todos pela mesma maldita razão, mesmo quando o que nos motiva é diferente. Estar aqui, consolando-a, não é absolvição. - Eu vou matá-lo. Mamãe inala e retrocede. - Não. Tudo bem. Não era minha intenção... - Ela passa a mão na mancha molhada da minha camisa Eu não queria colocar isso em seus ombros. Deus sabe que já tem o suficiente para lidar - Ela olha para mim - Travis, você esteve lutando?


- Não exatamente. É uma longa história – digo - Você dormiu? – Ela balança a cabeça e gesticula para a lista de coisas para fazer que repousa sobre a ilha. Compras de supermercado, biscoitos para animar a venda de lavagem de carros, lavanderia a seco. Eu esmago a lista - Primeiro durma - E papai pode pegar sua própria roupa na lavanderia. Os olhos de mamãe ficam chorosos novamente. - Você é um bom homem, Travis. Se ela soubesse a dor que quero infligir ao meu pai, saberia que não estou nem perto de ser um bom homem. - Vá dormir mamãe. Finalmente chego ao meu próprio quarto e colapso na cama, muito cansado para pensar sobre meu pai ou Harper, ou até mesmo que o colchão é muito mole. Se eu tiver qualquer pesadelo, eles vão embora antes de acordar novamente.


Capítulo 4 Tem um ventilador de teto girando lentamente em cima da minha cabeça e me pergunto por que cheiro a biscoitos de aveia. Então percebo, mais uma vez, que ainda estou na Flórida, e me pergunto se a recordação se tornará uma segunda natureza. Olho para o relógio. Só dormi duas horas, mas estou completamente desperto. Troco minha cueca por uma sunga e vou para a piscina. A maioria de nós perdeu peso no campo. Porque mesmo que as CPC sejam ricas em calorias e projetadas para manter uma pessoa por um dia comendo apenas uma ou duas vezes, não podem substituir o que você perde andando, em um calor de cerca de quarenta e três graus e com quarenta quilos de equipamento nas costas. Eu estava quase sempre com fome. Mas só porque posso ganhar alguns quilos não significa dizer que quero ficar preguiçoso e gordo enquanto estou de licença. Levo cerca de cinco passadas quando vejo uma sombra na borda da piscina. Saio para a superfície e encontro meu pai ali de pé usando uma camisa de golfe azul claro que combina com o short xadrez. - Ei, campeão - Soa como um idiota. Campeão é um velho apelido do tempo que eu ainda bebia suco em pó Dean Stephenson. Ele alternava com atleta, tigre e matador. Eu acho que o último é o mais preciso agora, mas todos são falsos como um vendedor de carros usados. Somos amigos porque ele me considera digno de novo. Estou na borda da piscina e espero que diga o que quer dizer, meus olhos cravados nos dele. Seu pomo de Adão cai quando engole nervosamente e eu sinto uma onda de satisfação. Por muito tempo tive medo dele, mas agora sou maior e mais forte. - O que você acha de irmos ao campo de tiro? – diz - Sair do caminho de sua mãe para que possa aprontar o jantar desta noite. - O jantar? - Vamos receber Don e Becky Michalski. O pai do meu amigo Derek, Don, é o cara que acha que é treinador e grita da arquibancada e fica irritado quando os jogadores, treinadores e árbitros não fazem o que ele diz. Ele se mete em brigas com outros pais e foi banido para sempre da escola Ida Baker High School depois de bater no treinador. Minha mãe o odeia, e sua esposa tem vergonha de ser vista com ele em público, então eu não sei por que mamãe aceitaria cozinhar para ele. A não ser que... Não seja por Don. Seja por Becky. - Acho que vou ficar aqui – digo - Vou ajudá-la. - Você tem certeza? - A confusão estampada em seu rosto. Gostaria de vê-lo em ação.


Eu nunca passei voluntariamente um tempo com a minha mãe, mas agora é melhor do que esta pobre tentativa de provar que ele é um grande pai. Além disso, tive notas altas no campo de treinamento de pontaria. Provavelmente é melhor que não me veja em ação. - Eu tenho certeza. Ele fica ali parado quando nado para longe, e posso ver a sua sombra na água por um tempo, como se esperasse que eu fosse mudar de opinião. Toma todas as minhas forças não sair da piscina e bater a merda fora dele. Em vez disso, nado. Eu sou um hipócrita depois do que aconteceu ontem à noite com Paige, mas ter relações sexuais com a minha ex-namorada depois do meu irmão não é o mesmo que meu pai trair sua esposa. Eu e Paige nos usamos desta maneira por anos, separando e voltando como elástico. A única pessoa que pode ser prejudicada é Ryan, mas não é como se ele fosse casar com Paige Manning. Na cozinha, mamãe está tranquila novamente, exceto pelo cansaço à espreita nos cantos de seus olhos. A bolsa pendurada no braço, à lista amarrotada em uma mão e as chaves de um novo Suburban, uma das vantagens de ser casada com o dono de uma concessionária de carros, na outra. - Quer vir comigo? - Claro. Fica surpresa - Sério? - Sério - Coloquei minhas botas marrons de combate. Por fora está riscada e desgastada pelo uso contínuo, um pingo de sangue oxidado sobre o dedo do pé. Dentro cheira a merda, mas não tenho outro sapato, exceto meus tênis de corrida que odeio. Eu comprei um par de Sambas quando me formei no campo de treinamento, mas deixei solta na escola de infantaria e alguém roubou - Qual foi à desculpa de papai? - Disse que Steve Fischer convidou-o para uma bebida. Não queria beber e dirigir, então passou a noite lá - diz ela – Me ligou para dizer que estava bem antes de ir jogar golfe. Sigo-a até a garagem. - Sabe que vou matá-lo, certo? O fantasma de um sorriso cruza seus lábios quando liga o Suburban, como se pudesse imaginar e ela gosta da idéia. Então seu rosto volta para algo mais apropriado para uma mãe com um pouco de desaprovação. - Travis, ele é seu pai. - Ele não tem passe livre porque partilhamos DNA. Em todo caso, essa é outra razão para bater nele. - Não pode deixá-lo escapar dessa, mãe – digo - Justamente por que...


- Vamos falar de outra coisa - Suas mãos apertaram o volante com ferocidade que provavelmente poderia arrancá-lo do console. Tema encerrado. Acho que é justo. Foi hábil em evitar o tema Afeganistão, e suspeito que seja porque leu algum artigo na internet que dizia que falarei sobre isso quando estiver pronto. Não tenho certeza de que alguma vez estarei, mas acho que lhe devo o mesmo respeito. - Nenhumas das minhas roupas cabem e preciso de sapatos novos – digo. Seu sorriso se alarga. - Isso eu posso fazer. Em São Carlos, passamos em um clube de veteranos. É um pequeno e modesto lugar sem vínculo com qualquer outro clube do país, mas sempre tem carros no estacionamento. Pops, que foi fuzileiro naval com o 3/7 na Coreia, me trouxe aqui para almoçar uma vez quando veio a uma visita de Green Bay. - Ei, hum, quer comer alguma coisa? Não sou realmente do tipo que se une a uma organização de veteranos, especialmente porque ainda estou em serviço, mas cairia bem uma cerveja e... Não sei. Talvez não me sinta tão fora do lugar lá. - Aqui? - Mamãe olha com ceticismo o lugar - Hum, com certeza. No interior, o clube de veteranos é mais casebre do que recordo. As paredes são pintadas com os emblemas de todos os ramos das forças armadas, só que são feitas pelos novatos e não tem proporção. As mesas oscilam e as cadeiras não são iguais, mas o garçom me dá um pedido de adesão que ele chama de uma formalidade. - Iraque? - pergunta. - Afeganistão. - Fuzileiro? - Sim, senhor. - Semper Fi, criança. - Aperta minha mão e vejo sua tatuagem de morte antes da desonra. Kevlar fez uma exatamente igual nas costas quando se graduou do campo de treinamento, e os fuzileiros mais revoltados de nosso pelotão o atacaram sem piedade - Você é bem-vindo para ficar para o almoço diz o garçom - O especial de hoje é o sanduíche de peixe com batatas fritas e salada de repolho, cenoura, cebola e maionese. Peço dois sanduíches e uma jarra de cerveja, que me serve sem piscar. - Travis – Mamãe faz uma carranca enquanto derramo a cerveja em copos plástico. Ela se inclina para frente, mantendo a voz baixa. Como se estivéssemos fazendo algo errado – Você não tem vinte e um anos.


- Eu sou um veterano de uma guerra estrangeira - entrego um copo - E o que é mais importante, eu tenho sede. No começo não falamos sobre papai. Não falamos sobre nada, na verdade. Bebemos cerveja, concordamos que os sanduíches de peixe tem um gosto bom, e especulamos sobre que tipo de peixe é. - Estive pensando em ver um advogado – Mamãe volta a encher nossos copos. Eu limpo a minha boca com as costas da minha mão e ela me dá um guardanapo. As maneiras à mesa tendem a falhar quando não há uma sala de jantar, ou até mesmo uma mesa. Na maioria das vezes comíamos sentados no chão, onde não faltava lugares para sentar, e "Ei, guarda um lugar pra mim" era uma piada recorrente entre Charlie e eu. - Sim? - Pergunto. Ela confirma com a cabeça. - Estou...Estou um pouco assustada. - Por quê? - Estamos juntos há muito tempo - diz ela - Não sei como é estar sozinha. Ou o que fazer comigo mesma. - Você pode voltar para a escola. Ela me dá um sorriso hesitante. - Talvez nós dois pudéssemos fazê-lo. Ainda tenho três anos de serviço ativo, mas ela pensa que eu vou usar o meu G.I. Bill para obter educação. Não falo que não tenho interesse na faculdade. Não consigo me ver como um professor, um contador ou um advogado. Ou até mesmo casado e com filhos. Charlie sempre soube o que queria. Algumas noites em campo, deitavámos no chão com as botas contra a parede da escola, compartilhavámos um cigarro, e dizia como queria ir para a escola de culinária, quando deixasse à marinha. - Eu quero ser um chef, Solo – disse - Mas não como esses tipos pretensiosos que fazem pratos minúsculos que ninguém pode pronunciar, sabe? Quero um restaurante onde pessoas normais podem experimentar a comida gourmet sem se sentirem estúpidas ou perguntando-se que garfo usar. Nunca falei que a maioria das pessoas comuns não estão interessadas em experimentar comida assim, porque era o seu sonho e, quem era eu para decepcioná-lo? - E você, Trav? - Perguntou.


Eu não sei cara - disse - Talvez faça reconhecimento . Ele riu porque aprendemos rapidamente a sacanear os caras que falam em realistar-se ou ir para reconhecimento. Fuzileiros são homens especialmente treinados. Elite. Um grande número de meninos se juntam aos fuzileiros querendo ir para reconhecimento porque é genial, mas passam por um rigoroso treinamento. Só estava um ano fora da escola e não estava perto de saber o que eu queria fazer com o meu futuro. Estava apenas brincando com Charlie, mas agora...Eu não sei. Eu acho que poderia fazê-lo. Agora Charlie está morto, estou tendo problemas imaginando um futuro comigo nele. Então, falo para minha mãe - Talvez. De qualquer forma, você deve consultar um advogado. Vou com você se quiser. O sorriso sumiu de seu rosto, e posso dizer que o efeito da cerveja trouxe à tona algumas dúvidas. Confere o seu relógio. - Travis – Emite um gemido - Temos que ir. Ainda não compramos a comida. - Me dê às chaves - Pago a conta, entrego meu pedido de adesão, e sigo minha mãe para o Suburban. Falha ao inserir o cinto de segurança no slot, então eu tenho que fazer isso por ela - Devemos ir para casa – digo - Podemos fazer compras depois. - Seu pai vai ficar com raiva – Boceja - Eu quero tirar um cochilo. Eu rio. Nunca vi isso. - Tudo bem, então, vamos tirar um cochilo. Papai está assistindo golfe na televisão, uma garrafa de cerveja na mão, quando chegamos a casa. - Oh, que bom que chegaram - ele diz - Linda, lembrou-se de comprar cerveja? Ela acena com a cabeça e levanta três dedos, então use a outra mão para dobrar a dedo para baixo de modo que só tem dois para cima. - Duas jarras. Minha mãe está bêbada. De certa forma, é... Genial. Seus olhos se estreitam. - Você andou bebendo? - Volta seu olhar para mim. O pai legal desaparece. O pai verdadeiro está de volta - Travis, embebedou sua mãe? Eu dou de ombros. - Você pode me culpar se quiser.


- Por que não a deteve? – Agora está em pé, com os olhos em chamas, sua voz subindo uma oitava – Virão pessoas aqui em casa esta noite e não tem nada pronto - Ele se vira para ela - Não sei por que estou surpreso. Tem todo o tempo do mundo para comprar meias para Travis e papear toda a noite com estranhos sobre o seu filho no Afeganistão, mas peço uma coisa pequena... - Isso não é sobre Travis - diz ela. - É claro que é sobre Travis - cospe ele - É sempre Travis. - Mãe - Mantenho meus olhos fixos nele - Por que não sobe e tira uma soneca? Eu vou cuidar de tudo. - Mas... - Tudo bem - digo - Tenho tudo sobcontrole. Ela dá um beijo molhado na minha bochecha. - Você é um menino tão bom. Não sou nada bom nesse momento. Pensei que o exército teria feito você amadurecer – diz papai quando ela não pode ouvir - Mas você é o mesmo bandidinho sem respeito que era antes de sair. Pego a frente de sua camisa no meu punho. Este pequeno moleque não faz qualquer esforço em puxálo para mim. Ele olha assustado, e deve, porque não há nada mais assustador neste mundo do que um grunhido de raiva - Você sabe o que eu estava fazendo às seis da manhã? Sentado na cozinha com mamãe, que esperou toda a noite para você voltar para casa. Agora, porra, não fale comigo sobre respeito. Ele não diz nada e seus olhos estão bem abertos. Não deveria sentir bem sobre isso, mas sinto. - Se você quer ser patético e esfolar as costas da minha mãe, porque ela presta atenção a alguém que não seja você, é um problema seu – digo - Mas eu não vou ser sua desculpa. Empurro um pouco quando o deixo ir e ele cambaleia para trás. Se quisesse derrubá-lo, ele estaria no chão agora mesmo, mas isto foi minha advertência. - Vou ao supermercado. - pego as chaves do Suburban - Tenho que assegurar-me que Becky será bem-vinda. O rosto bronzeado do meu pai empalidece. Ele pega sua carteira. - Precisa... Precisa de algum dinheiro?


- Não seu. Não é até chegar ao Winn-Dixie que percebo que tenho um problema, não trouxe a lista de mamãe. Não tenho nenhuma idéia do que as pessoas cozinham para o jantar, inclusive para pessoas que odeiam. Vou para a seção de carnes. - Posso ajudar? - Pergunta o açougueiro. - O que cozinharia se tivesse um, hum... Jantar? Jesus sinto-mecomo um idiota. Bem, um assado é sempre saboroso – oferece - Ou costeletas de porco. Ou mesmo costeletas de cordeiro. Costeletas de cordeiro? Afasto-me do balcão e fico na frente da geladeira cheia de carne. Não tenho nenhuma idéia do que comprar. Nem mesmo sei o quê é a maioria. É um pesadelo. - Precisa de ajuda? - Uma voz feminina pergunta por trás de mim. Estou prestes a lançar uma ofensa negativa sobre o ombro quando Harper vem até mim, olhos verdes e cabelos bagunçados. Provavelmente poderia olhá-la para sempre e não me cansar deste rosto. - Se disser que sim vai pensar mal de mim? Encolhe os ombros, mas posso ver um sorriso no canto de seus lábios. - Já penso mal de você. - Não está planejando me bater de novo, certo? - Bem, não estava planejando, mas eu tento manter as minhas opções em aberto - coloca sua cesta de compras de plástico no meu carrinho - Então você tem um jantar? - Sim, quero dizer, não. É a minha mãe, mas ela...Não se sente bem, então pensei em vir e comprar as coisas, levar para casa e cozinhá-las. Ela inclina a cabeça, cética. - Você sabe cozinhar, Travis? - Quão difícil pode ser? Suas sobrancelhas levantam e não diz nada, o que me faz rir - Ok, não. Mas eu quero fazer algo bom por ela. O sorriso de Harper é como estar sob a luz do sol e sinto como se fosse uma recompensa.


- Talvez você devesse tentar algo um pouco menos complicado, mas ainda bom – diz - Como... Tudo bem, eu tenho uma idéia. Enquanto a sigo até a seção de produtos hortigranjeiros, noto que seu jeans está desbotado em alguns lugares com um círculo gasto no tecido do bolso traseiro direito onde ninguém nunca mergulhou. Jeans de brechó. Eu também costumava comprar minhas roupas em brechós. Gostava que já estivesse macia e suave pelo uso. No caminho, me dá uma palestra sobre como escolher os tomates mais frescos, mas não estou ouvindo realmente. Estou pensando em Becky Michalski. Por que meu pai tería um caso com ela? É comum, especialmente em comparação com mamãe. Eu acho que é a maior perdedora neste caso. Ir de Don para meu pai é uma espécie de movimento lateral. - Travis, você está aí? - Harper acena com a mão na frente do meu rosto. - Quase bati no meu pai hoje - Não sei o que me vem para soltar isto em Harper Gray no meio da seção de produtos hortigranjeiros do Winn-Dixie, mas há algo nela que eu posso confiar. - Por quê? - Ele está traindo a minha mãe. - Eu... Eu sinto muito - Olha para mim e o que vejo nos seus olhos não é pena ou até mesmo a satisfação pelo carma voltar para morder-me pela forma como a tratei no ensino médio. Só olha triste - Quer falar sobre isso? - Não na verdade. Essas são as palavras que saem da minha boca, mas me encontro encostado na bandeja de verduras, dizendo-lhe tudo. Incluindo a parte sobre embebedar minha mãe. Harper sorri sobre isso. - Isso é doce...De uma maneira estranha. Ela se move de modo que estamos bloqueando os abacates, seu braço roçando o meu. Fazendo que os cabelos na parte de trás do meu pescoço piniquem. - Minha mãe foi embora quando eu tinha dez anos de idade – diz – Voltou para Dinamarca para cuidar da minha avó, que estava morrendo de câncer, e nunca voltou. - Oh, merda. Eu não tinha idéia. - Foi há muito tempo - Seus ombros levantam em um pequeno e descuidado salto em que ela revela que isto tem mais importância do que demonstra - Por muito tempo pensei que era minha culpa. Que, se eu tivesse sido melhor, ela não teria ido. Então eu percebi que não tinha nada a ver comigo e


queria bater nela. Só que ela não estava lá. Um idoso se aproxima e temos que sair do seu caminho. Harper me leva a um recipiente cheio de ramalhetes de ervas amarradas com elástico. Todos têm a mesma aparência, verde e densa, mas explica que estamos procurando manjericão. - Você já teve algum contato com sua mãe desde que se foi? - pergunto, entregando um maço de manjericões. - Ela me envia cartões de aniversário todos os anos - diz enquanto sigo-a ao corredor de massas. Só que ela coloca moedas dinamarquesas no cartão em vez de dólares. Nem sequer vale a pena trocá-las – Harper coloca duas caixas de macarrão penne no carrinho – Pela minha graduação, me enviou um bilhete de avião para Copenhagen. - Você foi? - Sim...Ela, hum, vive nesta casa comunhal em Christiania com outras pessoas, e no tempo que estive lá ela estava pintando em seu estúdio, ou drogando-se com o namorado de vinte e dois anos. Dormi em um sofá que cheirava a urina de gato. - Isso é péssimo. Ela concorda enquanto pega uma lata de azeitonas pretas da prateleira. - Copenhagem foi ótimo, apesar de tudo. Fui a LEGOLAND sozinha e comprei este bonito chaveiro. Harper faz oscilar as chaves no final de seu dedo. O chaveiro é um patinho amarelo de lego. - Você bateu nela? - Não - Seu nariz enruga quando sorri - Mas não sinto mais falta dela - Paramos no balcão de frutos do mar - Peça um quilo de camarão. Vou trazer o pão e queijo e, em seguida, estaremos prontos. Agora, se Harper me pedisse para nadar no Golfo do México e pegasse os camarões com minhas mãos, eu o faria. Enquanto o funcionário atrás do balcão de frutos do mar acaba de embrulhar o camarão, ela retorna com pão e queijo branco que definitivamente não é a goma laranja processada que estive comendo. Ainda não tenho idéia do que cozinharei, mas parece impressionante. Bom demais para os Michalskis. Bom demais para meu pai. - Então é apenas você e seu pai? - pergunto, tentando imaginar como seria crescer apenas com minha mãe - Estou surpreso que ele nunca casou novamente. - Nunca foi de sair muito - diz Harper - Mas agora...Não sei. Passa muito tempo trocando e-mails com uma mulher que ele conheceu antes da minha mãe, o que...Fico estranhando. Ela empurra o carrinho para o caixa e quando o caixa termina de marcar tudo, inclusive as coisas de sua cesta, eu pago a conta.


- Então, o que eu faço com isso? - Vou escrever para você. - Poderia vir e... - Eu acho que você vai conseguir - Nossos olhos se encontram por um tempo e busco alguma coisa. O que seja. Mas, em seguida, seus olhos caem para as sandálias uma timidez que me mata da melhor maneira possível. Ela estende a mão e me dá um soco brincalhão no braço – Adapte-se e supere isso, fuzileiro. Eu rio. Quero dizer outra coisa, mas ela começa a colocar uma expressão de cervo travado nos faróis, como se pudesse fugir a qualquer momento. Abro o carro e pego o bloco de notas que mamãe mantém no console central de todos os carros que ela tem. Nossos dedos tocam quando entrego a ela, e suas bochechas ficam rosadas. Interessante. Frustrante, mas interessante. - É muito simples – diz, escrevendo algo no bloco – Asse os tomates, salteie o camarão, ferva o macarrão, misture os ingredientes, em seguida, rale um pouco de queijo por cima. Sirva o pão ao lado. - Parece infalível. - Sim, bem... – me entrega o bloco - Você vai cozinhar. Ficamos parados no estacionamento, apenas nos olhando. O sol da tarde destacando os reflexos dourados e vermelhos dos seus cabelos e as sardas em seu nariz, e mais uma vez tenho a necessidade de beijá-la. Em vez disso, estico a mão e dou um leve puxão de cabelo. - Obrigado. Eu não poderia fazer isso sem você. - Não tem problema - Ela rejeita minhas palavras com um pequeno gesto que diz que não foi nada, mas eu tenho certeza que foi alguma coisa. Não tenho certeza do que. Ouço música vindo de casa, mesmo antes de sair do carro. A princípio acho que é Ryan, mas não é a ridícula merda de pop metal que gosta. É Aretha Franklin gritando sobre RESPEITO . Oh-oh. Abro a porta e mamãe está sentada em seu lugar favorito, na ilha da cozinha com um copo de vinho branco ao lado dela. Seus olhos estão vermelhos e inchados. - Você está bem? - pergunto enquanto coloco os sacos de compras sobre a mesa - O que aconteceu? Mamãe abaixa o volume do som e esfrega o nariz na manga de uma velha e esfarrapada camisa de futebol americano que costumava ser minha. Ela só usa camisetas velhas durante a limpeza da casa. - Eu disse-lhe para sair.


- Quem? - Seu pai – diz - Quando acordei, tivemos a mesma briga que tivemos durante o ano passado sobre essa pessoa terrível e negligente que sou por estar muito preocupada com você. Então cancelei com Michalskis e disse-lhe para ficar onde passou a noite, até que ouça meu advogado. - Porra, mãe. Que maneira de chutar as bolas. Ela deixa escapar uma risada misturada com um soluço, em seguida, seus olhos ficam cheios de novas lágrimas. Oh, merda. Não chore mais - Eu fiz a coisa certa, Travis? Seria fácil mentir e dizer que sim. Eu não me importo se ele fica ou vai, mas ela o ama. - Eu não sei. - Talvez isto seja minha culpa - Ela se estende para pegar seu celular - Talvez pudesse chamá-lo... - Não. - Cubro sua mão com a minha - Ele tem que decidir o que é importante. - Você está certo. É só que...Ele ainda é meu marido. - Eu sei. Mamãe inspira. - Comprou comida? - Sim, bem, assim, aumente o volume da música ou qualquer outra coisa – digo - tenho tudo sobcontrole. Suas sobrancelhas sobem acima da borda de sua taça de vinho, mas não protesta. Aumenta o volume de Aretha. Não tão alto como antes, mas ainda assim alto o suficiente para não ter de falar. O que é bom, porque não sei o que poderia dizer para fazê-la se sentir melhor. - Precisa de ajuda? - pergunta. - Eu posso fazer isso. Os cantos de sua boca levantam em um pequeno sorriso. - Você sempre foi assim. - Assim como? - Independente – diz - Teimoso. Assim, quando estava pronto para falar, sua resposta era “eu faço” e você ficava bravo se eu tentava ajudar. Inclusive tentava afastar-se de mim. Bebe um gole de vinho.


- Só assumi o trabalho em sua escola para ter uma pequena parte de sua vida. Sempre invejei seu pai por gastar tanto tempo com você. - Sério? - Eu lhe dou crédito por manter o futebol por tanto tempo, como você fez – diz mamãe Especialmente porque você odiava. - Bem, só para você saber – digo – tirando os tomates do saco plástico, mantendo os três em uma mão só - nunca tentei afastar-me de você. - Não tem idéia de como isso me deixa feliz – exceto que começa a choramingar como se estivesse prestes a chorar, e não quero isso de novo. - Ei, mamãe? - Sim, Trav? - Como se assa os tomates? Ela sorri. - Gostaria de um pouco de ajuda? Concordo. - Sim, eu gostaria.


Capítulo 5 Faltam 15 minutos para as cinco e ainda estou acordado. Eu me visto no escuro. Pego as chaves do Suburban sem nenhum destino na mente. A US 41 está vazia nessa hora da noite, mas eu gosto. Minha mãe nunca achou bom que eu ficasse fora a noite toda, mas a maioria do tempo eu ficava dirigindo por ai.Pensei em virar a caminhonete para o norte e ir para Carolina do Norte, mas não estou com as minhas coisas, e na realidade ainda não estou autorizado a voltar. Estávamos de volta ao Afeganistão um par de dias, quando o Sargento Peralta, meu líder de pelotão, chamou-me em privado. -Só queria verificá-lo- disse - Você está bem? - Sim, estou bem. - Tem certeza? – perguntou- Porque me parece que estava arrastando a bunda e esse não é você. Os pesadelos estavam me mantendo acordado na maioria das noites. - Estou cansado, eu acho –Respondi. -Escuta, estou preocupado, de você não estar lidando bem com a morte de Charlie - disse meu líder Como amigo, te falo que você precisa arrumar essa merda toda antes que alguém superior a mim perceba. - Estou bem – afirmei - Só preciso comprar um novo Mustang e dormir com uma stripper. Peralta riu. Porque tivemos uma conversa de 2 horas sobre como usar o dinheiro: Basicamente, não gastar com carros caros, não usar nas casas de jogos, não se casar com mulheres que gastariam tudo e logo nos trocariam por outro fuzileiro. Mas, eu não tinha certeza do que ele estava falando. Queria que eu fosse ver um psiquiatra? O que aconteceria com minha carreira se eu fizesse isso? - Você é um bom fuzileiro, Travis. Eu quero ver você vencer na vida – Disse ele - Eu peço que você tire duas semanas adicionais às duas semanas de licença que você tem direito, para resolver as coisas. -Também está sugerindo isso como amigo?- Perguntei. - Deixarei isso a seu critério – Respondeu. Não queria usar essa parte da minha licença e estava certo como o inferno que eu não queria voltar para casa, mas, era uma ordem disfarçada de uma sugestão. Eu respeitava demais o Peralta para


desobedecê-lo. Paro no estacionamento da Casa do Waffle, um dos poucos lugares abertos à noite toda na cidade. Entro e Harper está logo atrás do bar, vestida com uma camiseta de uniforme cinza e avental preto. Seu cabelo está preso em um coque e quando me olha, suas sobrancelhas se juntam por um segundo antes que seus lábios se estendam em um sorriso falso. -Oi. Bem vindo à Casa do Waffle. Você trabalha aqui? - Sento em uma das cadeiras. Tem um crachá em seu avental que diz: “Se eu tivesse meio cérebro ainda seria duas vezes mais inteligente que você”. Ela revira os olhos. -Não, idiota, só coloco a camisa e assim posso pegar comida de graça - Eu rio e ela se estica encima do bar e bate na minha testa. De um jeito brincalhão. Uma mudança boa ao invés de me dar um tapa no rosto. -Está me seguindo? –Questionou ela. - O que? Não! Suas sobrancelhas se arqueiam enquanto cruza os braços por cima do peito como se não acreditasse, mas não parece brava. - Você apareceu onde estive quatro vezes nos últimos três dias. -Grande coincidência - Falo enquanto ela coloca um copo de café em cima do bar e enche com uma chaleira -Exceto, você sabe, quando fui à sua casa, mas desta vez foi intencional. A pergunta é:você se importa? Ela me ignora. -Vai pedir alguma coisa? - Vou comer o “todas as estrelas” mais uma vez. -Ovos fritos com bacon? Eu sorrio. - Oh, lembrou. Ela me mostra o dedo do meio, entrega meu pedido para o cozinheiro, e vira de novo pra mim. - O que vai fazer a noite?


- Comer na casa do Waffle? - Não, eu quis dizer mais tarde – Disse - Depois que você for dormir e acordar de novo. Não tenho certeza aonde ela quer chegar com isso, mas já que eu devo ficar acordado. O que seja que queira, estou dentro. - Qualquer coisa que você queira –Disse. - Qualquer coisa? - O jeito que ela sorri me faz pensar, no que acabei de aceitar- Perfeito. Te pego às nove. - Então, o que faremos? - Pergunto. Olhando para o banco traseiro da Land Rover, em cima tem uma pequena pá. Junto tem uma lona preta de plástico e uma lanterna com um pedaço de papel metálico vermelho cobrindo as lentes-Enterrar um corpo? –Pergunto arqueando uma sobrancelha. Harper lança um sorriso astuto na minha direção. -Talvez. Ela é fodidamente incrível. - Vamos fazer um assentamento de ninhos -Me entrega outro copo grande de café. - O que isso significa? -Indago. - Bom, estamos no meio da temporada do nascimento das tartarugas marinhas- explica ela - Já se passaram 55 dias, assim essa noite deve ser “À noite”. Não sou uma pessoa romântica, mais quando uma garota linda convida um garoto para a praia a noite, as tartarugas marinhas normalmente não estão envolvidas. Além disso, isso não é uma coisa que eu esperaria de Harper. - Então vamos. . .ajudar? - Mais ou menos isso. Vamos dar todas as vantagens possíveis sem perturbar o processo natural – diz - Eu trouxe você porque achei que você seria bom escavando. - Os fuzileiros carregam pequenas pás chamadas ferramentas para entrincheiramento. E ferramentas para cortar. Usamos para escavar buracos para dormir, queimar lixo, e para fazer nossas necessidades. Então sim, sou bom escavando. - E esse foi o único motivo? Ela lança um pequeno sorriso mordendo o lábio, que tira todo o ar do meu peito. - Talvez.


No caminho a praia, Harper explica que escavarei uma vala do ninho até a água enquanto ela coloca a lona. Amarrada em intervalos nas varas de madeira, assim pode ser colocada ao redor do ninho e ao longo do canal. A trincheira serve para sinalizar aos filhotes de tartarugas marinhas o caminho certo, e mantê-las afastadas dos guaxinins, caranguejos e qualquer outra coisa que poderia querer comê-las. - Há quanto tempo você faz isso? - Um par de anos – Diz-Planejo estudar Biologia marinha. É uma tentação fazer uma piada sobre fuzileiros e biologia, mas seu sorriso diz que isso é importante para ela, e não quero estragar com uma piada idiota. - Isso é genial. - E você? - Harper aperta um botão no reprodutor de CD, e Joe Strummer canta sobre Redenção Vai para faculdade quando terminar com os fuzileiros? - Não sei - Ainda tenho muito tempo, estou pensando em fazer um curso básico de Reconhecimento. Não tenho certeza porque estou falando isso, mas é como se não pudesse evitar. Juro, se alguém quer me torturar e tirar segredos de mim, tudo que tem a fazer é me colocar em um quarto com ela. Era só uma brincadeira quando eu falava sobre Reconhecimento com Charlie, mas agora que falei sobre isso com alguém, sinto como uma opção mais real. - O que significa isso?- Pergunta. - Os fuzileiros de reconhecimento são como forças especiais - Digo - Assim como a Aeronáutica têm os Seal ou o Exército têm os Rangers. - Então quer fazer algo mais perigoso do que já estava fazendo? Eu ri. - Eu acho. - Gosta dos Fuzileiros? - Não sei - Dou de ombros - Exceto pela parte onde a gente atira, não é muito diferente que qualquer outro trabalho. Tem coisas que gosto e coisas que enojam –Digo- Então, onde vai estudar? - Faculdade do Atlântico. Fica no Maine – Ela deixa o Rover em algum lugar do estacionamento da praia deserta, e desliga o motor. -Isso é bem longe de casa - Abro a porta. Não tão longe quanto o Afeganistão - diz.


- Bom ponto. Harper sai do carro enquanto eu pego as coisas do banco de trás. Ela abre a porta do meu lado. - A faculdade tem um programa de ciência marinha que é muito bom. Um dos melhores, na verdade. - Não sabia que era tão inteligente - Digo, caminhando ate à areia - Ou que ainda brincava de Barbie quando tinha 13. - Tem muitas coisas que você não sabe sobre mim. - Suponho – Digo -Mas eu, uhmm. . . . Gostaria de saber. Ela fica calada, logo tira as sandálias e me lembra duma tartaruga, tirando a cabeça para investigar e guardando-a de novo no primeiro sinal de perigo. Quero dizer que não vou ferí-la, mas que prova tem disso? O assunto é: não quero ferí-la. Harper tira algo diferente de mim que Paige, algo muito melhor. Quero acreditar nisso. - Então... - Mudo de assunto - Os ovos? - Pode tomar a noite inteira para sair - Harper passa na minha frente, e luto contra a vontade de segurar seu braço e detê-la, esquecendo por um momento que não tem bombas enterradas aqui. No Afeganistão, estariam em toda parte. Uma vez estávamos limpando um caminho porque sabíamos que tinha uma bomba nele, mas mesmo com o detector de metais não conseguimos achá-la, desistimos, subimos na caminhonete, dirigimos um pouco mais longe pelo caminho, e batemos na bomba que tínhamos procurado. Ninguém saiu ferido, só um pouco sacudidos, mas a bomba estragou um pouco o carro. Mesmo depois que meu cérebro recebe a informação que não vamos explodir em Bonita Beach, não posso deter meus olhos varrendo a areia na procura por explosivos. - Algum problema? – Pergunta Ela. Por um momento tento lembrar o que estávamos falando, mas logo levanto meu olhar para ela. A brisa do mar levantando os seus cabelos em volta do seu rosto. - Não. Não tem problema algum. - Os ninhos estão num lugar escuro da praia, não muito longe de uma casa de três andares. A casa está fechada por causa da baixa temporada. É tranqüilo. Apenas o suave bater das ondas, a lua branca e redonda, dispersando seu reflexo sobre a água. Se eu senti saudades de algo de casa, foi isso. Harper me leva para uma miniatura cena do crime. Os ninhos parecem sobras de um castelo de areia que foi levado pela água, é um entrecruzamento marcado por uma fita isolante amarela e um sinal para se mantiver longe. - A lona vai aqui- Aponta o feixe de luz vermelha para um ponto acima do ninho, depois arrasta até o


outro lado –a trincheira começa aqui, até o caminho para aágua. - Qual a profunfidade? - Até o tornozelo - Harper começa a desenrolar a lona - tem que ser profundo o suficiente para mantê-los saindo e indo por uma fonte de luz artificial. Começo a escavar. A areia aqui é mais densa que no Afeganistão, onde tem a consistência de poeira. Saía arranhando quando eu assuava o nariz, e dos meus ouvidos quando os limpava, e a primeira cuspida quando escovava os dentes era sempre marrom. Em umdos nossos postos avançados tinha um poço, e às vezes a gente se lavava nos canais de irrigação, mas nunca estávamos completamente limpos. Estou na metade do caminho da água quando escuto um rangido. Estou cruzando um canal raso no meio do campo com Charlie e um soldado Afegão atrás de mim, quando escuto um tiro de uma AK-47, que passa assobiando como uma abelha brava.Escorrego para o canal ao mesmo tempo, a água barrenta enchendo minhas botas e subindo até as pernas da minha calça. Charlie está em pé quieto na beira do canal, um alvo imóvel. -Charlie, abaixe-se! -Tento subir parar segurá-lo, mas escorrego enquanto a lama desmorona embaixo da minha bota, minha mão segurando seu tornozelo –“coloque sua bunda no chão!”. Ele desliza no canal quando um tiro raspa sua cabeça. O soldado afegão do meu lado disparasua arma automática, atira as cegas onde acredita que os talibãs estejam escondidos. Dou uma olhada, tentando adivinhar de onde vem o fogo. Crack! -Travis!- A voz de Harper corta minhas lembranças e só assim termina. Estou jogado na areia e ela em pé sobre mim com uma estaca quebrada - a fonte do rangido - na sua mão. Meu coração bate tão rápido que sinto que vai explodir, não consigo recuperar a respiração - Tudo bem? - Ela pergunta. - Não - Não quis dizer isso - Quero dizer...Estou muito envergonhado, não consigo nem olhar para ela. Além do mais, a umidade da areia entrou na frente da minha calça curta e minhas bolas estão frias -Estou bem. Esse tiroteio aconteceu em nossa primeira patrulha e aconteceu tão rápido que não sei se Charlie congelou de medo ou se pensou que era invencível. E hoje não lembro se ele atirou. Só sei que ele teve muita sorte aquele dia. Harper senta do meu lado, segura minha mão. Seus dedos tocam meus calos, bolhas estouradas, e cicatrizes de cortes que demoraram muito para sarar porque minhas mãos sempre estavam sujas. Ela não fala nada, só aperta. - Talvez fosse melhor que você ficasse longe de mim - Digo, escondendo minha cabeça nos meus joelhos. - Sou um desastre.


-Isso foi muito assustador - Diz Harper. – Você estava gritando e não tinha idéia do que poderia fazer. Não consigo imaginar como deve ser isso para você. - Terrível - Seguro a pá e jogo tão forte e tão longe o quanto posso -Quero ser normal de novo – Falo. Mas o que foi feito não pode ser desfeito. Meu melhor amigo está morto e eu nunca mais vou ser o mesmo Travis Stephenson. Harper não me olha enquanto fica em pé e anda para achar a pá. Estou cheio de raiva por ela ser tão amigável, mas a raiva some na hora que ela volta. - Talvez -diz, segurando a pá –Seja hora de achar um novo jeito de ser normal. - Eu, Uhm... Sinto muito. Ela sorri - Não peça desculpas, Travis, apenas cave. Trinta minutos depois, deito num lençol que Harper estendeu ao lado do ninho. Minha camiseta está grudando na minha pele, tiro por cima da cabeça antes de deitar. As estrelas enchem o céu como pintas, a areia embaixo do lençol é fria contra minha pele quente. Essa era a única coisa realmente surpreendente do Afeganistão. Não tem luzes na cidade para obstruir o céu da noite, sentia como se estivesse vendo o universo inteiro, fecho os olhos. - Boa trincheira -Harper cai ao meu lado no lençol. E abraça seus joelhos contra seu peito -Fez um bom trabalho. - E agora? – Pergunto. - Esperamos. – Ela responde. Harper estremece um pouco. Agosto em Fort Myers é geralmente sufocante, inclusive à noite, mas tem uma frente fria entrando e a brisa do mar retrocedeu um pouco. Dou uma camisa que trouxe. - Acredita que eles vão eclodir essa noite? - Há sinais – Diz - O ninho desmoronou em alguns pontos, pequenas mudanças na areia sugerem movimentos. Poderíamos ter um ou dois filhotes esta noite, ou talvez todos - Ela dá um sorriso que me faz ficar preocupado pelas tartarugas marinhas - Éemocionante, não? Contra toda a lógica, sim. - Me ocorrem piores maneiras depassar a noite. Ela veste minha camisa. - Como o quê?


- Cada noite no Afeganistão – Digo - mas não é realmente verdade.Tivemos alguns bons momentos. Conto da vez que a mãe de Charlie mandou massa pronta de pizza, molho em lata,pepperoni e champignon.Também mandou uma bandeja de metal para pizza e um cortador. - Escavamos um buraco, colocamos fogo e uma grade sobre ele e assamos- Digo - Ficou um pouco queimada no fundo e a mussarela não derreteu totalmente, mas estava tão boa. Como em casa. -Charlie é um dos seus amigos? - Foi. Seu sorriso some. -Sinto muito, Travis. Não sabia. - Eu sei. - Escutei uma vez Ryan falando na escola – Diz - Falou que não sabia dos detalhes, mas que você era um herói. Você salvou a vida de algumas pessoas ou algo do tipo. - Ryan não sabe de nada - Sento e coloco minha camiseta.Odeio meu irmão nesse momento por usar minha vida com algum tipo de... Direito para vangloriar-se. Especialmente quando não há nada para presumir isso -Realmente não quero ser grosseiro, mas prefiro não falar disso. - Sinto muito. -Não, Harper, você não fez nada mal. É só que...Não sou um herói. . . – digo - Se eu fosse... Charlie poderia estar vivo ainda –Só não sou. Ela não fala nada. Logo me bate com seu ombro. -Tem habilidades muito boas de escavação. Eu rio. - Bom, uma vez ganhei uma medalha em um campo de treinamento por escavar. Se precisar de um buraco, sou seu homem. Olho para ela, enquanto ela ri. Minha camisa fica enorme nela, mas fica tão bem. Como se fosse parte dela. Não quero nem pensar o que isso significa. Mas penso em chegar perto e beijá-la. Penso muito tempo, e ela já esta em pé, seus olhos muito abertos como se pudesse ler minha mente. - Deveríamos - Harper balança a cabeça em direção ao ninho - As tartarugas. Não consigo entender. Ela não se comporta como todas as meninas que conheço. Existe uma química estranha entre a gente enquanto vou atrás dela até o ninho. Ela liga a lanterna e faz um pequeno barulho emocionado. Uma pequena cabeça e um par de pernas se mexem caminhando para fora da


areia. Harper pega na minha mão e aperta meus dedos, demonstrando sua felicidade através de mim.Eu não faço nada. Uma segunda cabeça aparece na areia enquanto a primeira tartaruga bebê faz seu caminho pela trincheira, isso é só o começo. Tenho que admitir quero pegar e levá-las. -O que acontece quando chegam à água?- Pergunto –há uma séria de predadores lá e a gente não pode fazer nada sobre isso. Harper ri. - Soa como se você desse importância. - Acredita que eu estaria sentado na praia no meio da noite se não considerasse importante? Ela solta minha mão, sua expressão é impossível de ler, abre sua mochila e tira uns papéis. - Tenho que tomar notas. A primeira tartaruga está se virando por baixo da trincheira, e não posso evitar gosto dela ou dele. - Como sabe nomeá-las? - Pergunto. Harper mantém os olhos nas suas notas. - Seriam muitas para nomeá-las Empurro com o cotovelo. - Mas você as nomeia? - Não- o canto da sua boca se contrai, sei que está mentindo. - Admita – insisto. - Travis? - Quê? - Fica quieto. Viro-me para protestar, mas ela toca meus lábios com seus dedos. Não tenho certeza do que está acontecendo, mas me calo. A mão de Harper vai para parte detrás do meu pescoço e puxa minha cabeça para baixo até que nossos rostos estão perto. - Isso provavelmente vai ser um erro –sussurra, antes de juntar sua boca na minha. Beijar Harper é diferente de beijar Paige. Harper não tem o gosto de Malboro light, Não preciso


arquear muito para baixo, ela encaixa melhor em mim, Jesus ela beija muito bem. Tão bem que quero bater em quem ensinou ela a beijar. Talvez ela esteja certa, é um erro, mas, não me importo. - Nós, uhm... Deveríamos estar olhado às tartarugas – Ela está sem fôlego, e não parece acreditar. Olho por cima da lona. Duas tartarugas deixaram o ninho, a terceira e a quarta estão empurrando seu caminho através da areia. - Deveríamos - O cheiro de maçã dos seus cabelos entra no meu cérebro enquanto meus lábios tocam seu pescoço. Treme de um jeito que não tem nada a ver com a temperatura, gosto disso de um jeito que não consigo explicar, dessa vez, eu a beijo. - Travis –O bloco de notas aparece entre nós, acabando com o momento. Não quero que vá,mas deixo. - Eu sei - Toco a ponta do seu nariz com meu dedo - Vou ver Alfa. - Alfa? - A primeira tartaruga – digo – Esse é seu nome. Ela sorri radiante, é quase suficiente para compensar o fato que estou mais duro do que a trigonometria neste momento, quase.


Capítulo 6 Ainda é cedo quando Harper me leva para casa. Muito depois de esgueirar pelas horas, depois do café da manhã e 87 tartarugas bebê mais tarde. Paramos de nomeá-las depois de Zulu. - Espero que a que chamamos de Juliet seja uma menina – digo - Ou ele vai passar os próximos 150 anos sendo ridicularizado pelas outras tartarugas. Ela sorri. - Cala a boca. Eu a beijo, pela primeira vez depois da primeira vez. Não acho estranho passar a maior parte da noite sem beijos. Não é daqueles beijos de pular para o banco detrás do carro. Só é. . . . Bom. Real, e muito bom. - Até logo, Charley Harper. Não falei te ligo depois. Seria brega. Mas sei que ligarei. - Travis? É você? - Escuto a voz da minha mãe enquanto chego à porta da frente. Acho-a no meu quarto, ela tira uma camisa térmica azul escura de dentro da sacola de papel. Minha cama esta cheia de sacolas, nem consigo ver o lençol. - O que é tudo isso? -Bom, como não fomos às compras, pensei em escolher algumas coisas para você usar. Tirei as medidas do seu uniforme. Ela parece tensa, falando. Vou odiar as compras. Não são medos infundados. Temos um histórico desse tipo. - Se tiver algo que não quiser, podemos devolver. E comprei sapatos também. - Obrigado. Olho uma sacola cheia com muitas camisetas de botões daquelas lojas pretensiosas e chatas do shopping, camisetas iguais as do Ryan. Poderia vestir e ficariam legais, mas essas coisas não fazem meu estilo. A última vez que eu comprei roupa dessa loja eu não gostei de saber que eram feitas em algum lugar clandestino e recusei vestir. Esse era eu naquela época, berrando estatísticas que lia na internet e achando que conseguiria mudar o mundo.


- Comprou o shopping inteiro? Seu rosto iluminou, e ela riu. - Fiquei um pouco empolgada, mas, não sei. Pensei que não se importaria. - Não me importo –digo- Mas, se devolvermos um pouco de roupa, poderíamos usar o dinheiro no material escolar que estávamos falando. Não virei um fanático escoteito benfeitor, mas passar sete meses convivendo com pessoas que moravam em casas cheias de lama e sem esgoto me faz ver as coisas de um jeito diferente. Não precisava de tantas coisas. Ainda mas se vou voltar para Lejeune em algumas semanas, e para o Afeganistão na próxima primavera. - Ótima idéia – Ela levanta a camiseta azul e faz um gesto. . E essa? Concordo, e ela tira a etiqueta Ficou fora o tempo todo? - Sim, estive na praia com, uhm... Harper Gray. - Ela é uma menina tão doce - diz –Me recuso a acreditar nos boatos que ouvi falar dela na escola. - Que boatos? - Cruéis coisas vulgares que nem quero repetir – Ela dobra a camiseta e guarda na gaveta - Sei que ela sai com Lacey Ellison e Amber Reynolds, bom, Harper Gray não é uma V.A.G.A.B.U.N.D. A Soletra, como se só falar essa palavra fosse um insulto para ela. - Que tipo de gente começaria esses boatos? Se soubesse. - Algum idiota. - Ficou na praia a noite toda? - Ela é voluntaria num grupo de conservação das tartarugas, estávamos monitorando uma eclosão. Mamãe pisca tenho certeza que minha vida escolar foi melhor na sua mente, do que na realidade. - Sério? - Sim - Peguei a bolsa e tirei uma camiseta branca e uma calça cargo que pareciam bem normais. Posso pegar o carro novo? Preciso fazer algumas coisas. Mamãe procurou a chave no bolso. - Volta para jantar? Estaremos você, Ryan e eu.


Sorrio. - Se eu não tiver que cozinhar. Ela ri e joga as chaves. Depois de um banho rápido, atravesso a cidade. Passei bons momentos com Harper à noite passada, mas as alucinações e lembranças estão me torturando.Os pesadelos atrapalham também. Mas só acontecem quando estou dormindo e não machuquei ninguém. Até agora. Mas o que aconteceria se tivesse uma alucinação dormindo ou algo do tipo? Se me ferir ou pior, a alguém mais? Meu celular toca, é Eddy. - Amigo, comprei uma AK-47 – Diz - Eu, Michalski e Ryan vamos atirar. Quer vir? Como de costume, a cada quatro semanas entrariam no carro e iríamos até o polígono em Tucker's Grade para soltar um pouco de fumaça dá 9 mm, jogando Dirty Harry com Glocks, revólveres e o 38 especial que pertencia ao pai de Eddie. Para Eddie, uma Ak é algo grande, mas no Afeganistão todos tem uma. Talibãs, o exército nacional afegão. Até os civis do interior. A novidade acabaquando se é atingido por uma assim não estou impressionado.Mas droga, gosto mesmo de atirar. - Sim, estou dentro. - Onde está? - pergunta. - A caminho do médico. - Tudo bem? - Sim – Minto - Só rotina. - Vem para cá depois. - Talvez- Digo enquanto viro no estacionamento da clínica dos veteranos. Lamento por isso, mas não quero sair com Eddie hoje. Escrevo meu nome no papel da recepção, quando a recepcionista vê que não tenho hora marcada , mexe a longa unha pintada de roxo na minha direção. - É melhor com hora marcada - Tem sotaque jamaicano, talvez Taitiano –mas pode se sentar- Olha o papel escrito- Travis Stephenson chamarei quando alguém estiver livre. Sento numa cadeira de plástico vermelha reformada em uma sala de espera cheia de pessoas muito diferentes de mim. Tem dois caras com aspecto normal. Devem ter entre 30 e 40 anos. Um deles tem uma prótese na perna. Sentado bem na minha frente tem um velho veterano com um boné de beisebol da USS Saratoga e um bastão de metal. Está olhando uma velha cópia do Newsweek. Sua respiração ecoa no corredor quando tosse. Duas cadeiras longe de mim tem um cara magro e de aparência de


debilitado, talvez cinco anos mais velho que eu, e não consegue ficar quieto. Seus joelhos se mexem, balançando todas as cadeiras e não tem 2 dentes. - Você é militar? Pergunta, mas não espera minha resposta - Fui das forças especiais. Fui escolhido logo depois do básico porque já era faixa preta em jiu-jítsu brasileiro, não precisei de muito treinamento. - Bem pra você, amigo - digo. Segurando uma cópia de uma revista que tem um artigo sobre o Afeganistão. Esperando que ele entenda que não quero conversar. - Sim- continua. Levei meus homens em muitas missões encobertas na África. Você sabe quem pegou Saddam Hussein? Nós. - Claro amigo. -Ainda estaria dentro, mas quebrei as costas pulando – Diz- Não tinham certeza se eu voltaria andar, mas lutei. Sabe? Os médicos estão tendo problemas com meus medicamentos agora, tenho que tomar mais de seis comprimidos de uma vez para que a dor vá embora. -Uh huh - Não o chamei de mentiroso, mas ninguém é escolhido para forças especiais saindo de um treinamento básico, e não parece ser grande o suficiente para fazer tudo o que fala. Viro a página e vejo fotos do meu grupo, tiradas por um fotógrafo que passou semanas conosco. São do começo da nossa missão, quando saímos pela primeira vez e ainda estávamos limpos. Da época que os outros chamavam Charlie, Kevlar, e eu deMCN (malditoscaras novos) e Boot. Parecem anos, em vez de meses. Tem uma foto de Kevlar e Charlie dentro de um campo cheio de papoulas até a cintura.A legenda diz:Fuzileiros dos EUA em fogo na província de Helmand poderia ser qualquer fuzileiro, mas eu os reconheceria em qualquer lugar. Viro a página e nela tem uma foto de um fuzileiro de joelhos sobre uma rua empoeirada, falando com uma menina afegã com lágrimas escorrendo pelo rosto. Sou eu. Nesse dia, estávamos patrulhando e fomos cercados pelas crianças. Principalmente crianças pequenas, mas tinha uma menina magra machucada, tinham batido nela. Suas mãos oleosas e ansiosas estavam me cumprimentando, empurrei no meio dos meninos até a menina. Estava chorando e não gosto de ver meninas pequenas chorando. Mulher também não, mas meninas simplesmente me matam. Quando cheguei perto seus olhos abriram e estava assustada, como se eu fosse machucá-la. Agora posso ver porque ela pensou isso, eu estava carregando uma M16, ao invés disso eu lhe entreguei uma pelúcia de girafa, pegou o brinquedo nos braços como se eu tivesse dado um bebê de verdade, quando sorriu percebi que não tinhas 2 dentes na frente. A legenda da foto me fez um “cara cartaz”, por ganhar corações e mentes da população local, mas não fala sobre os talibãsespalhando avisos à noite ameaçando matar as pessoas que nos ajudassem. Não fala sobre a população, maioria talibã. A foto faz parecer que fizemos alguma diferença,


mastenho certeza de que não fizemos. Estou olhando minha foto quando a enfermeira fala meu nome. - Stephenson? Travis Stephenson. O fuzileiro da revista não pertence a este lugar, uma clínica de veteranos com velhos ou mentirosos viciados em remédios prescritos. Esse fuzileiro é forte, rude. Esse fuzileiro não está louco. Não quero ficar sentado em frente a um conselheiro toda semana e falar sobre meus sentimentos e se oSargento de Pessoal Leonard, sargento do meu pelotão, estivesse aqui diria para mandar todos se foderem e superá-lo. Homens voltando para casa da França e Alemanha depois da 2a guerra mundial, homens voltando do Vietnam, não falam das suas guerras. Não visitam terapeutas.Arquivam em uma esquina obscura e pequena dos seus cérebros, e seguem em frente com suas vidas. Não preciso disso. Dobro a revista, coloco no meu bolso de trás e saio do prédio. Atrás de mim, escuto a recepcionista gritando meu nome. - Então, Trav- Eddie tira a AK-47 da bolsa, e sinto um medofrio subindo pela minha espinha, me congelando. Tenho toda a certeza que meu amigo não vai disparar, mas minhas mãos estão molhadas, e meu pulso muito acelerado. Meus dedos se fecham, caso precise socar ele, e desejo tanto minha M16. -Ouvi dizer que você beijou Harper Gray. O medo vai para longe, me deixando nervoso por entrar em pânico e com Eddie por falar uma coisa tão estúpida. - Onde ouviu isso? - Paige falou que você tentou flertar com Harper no bar em Shrarmrock- diz Ryan– Evi ela te pegando na outra noite, Dou de ombros. - Somos amigos. Michalski ri como sorriso tonto de sempre. -Bom, ela é uma garota muito amigável - Coloca o punho em frente da sua boca simulando um boquete e mexo meu cotovelo para trás. Para acertar seu estômago. Ele se dobra. Tossindo.


- Meu Deus. Porque fez isso? - Tua boca- Falo enquanto Eddie coloca carrega a arma e mexe a válvula –Mantenha-a fechada. - Qual é seu problema?- Ryan reclama- Todo mundo sabe que Harper é uma... - Uma o que? - Meu tom parece uma faca afiada, e não há uma boa resposta. -Vocês se importam se eu for primeiro? - Eddie interrompe, deixando eu e meu irmão nos olhando fixamente. Os punhos de Ryan se mexem como se fosse me bater. Como se eu fosse deixar- Ainda não tive oportunidade de usá-la. - É toda sua- digo. Tendo Michalski como mediador entre meu irmão e eu, Eddie fica a vontade no campo. Olha no binóculo enquanto atira num alvo em forma de homem deixado num pau a 100 metros de distância. Crack,crack, crack. O Som, forte e distinto, é um som que escutei dia após dia no Afeganistão, tenho que lembrar que ninguém está atirando em mim. Ninguém está atirando em mim. De 15 tiros, talvez 6acertassem o papel, nas bordas principalmente. Nada que causasse dano permanentemente. - Demônios- Eddie da à arma para Michalski- Ouvi que essas coisas não eram muito precisas, mas isso é uma loucura. Não falo que talvez seja um erro de operação. O cara que colocou um tiro na cabeça do meu melhor amigo não parecia ter problemas com a precisão de uma AK-47. Michalski dá um passo para frente e esvazia os 15 tiros que sobraram, acertando o papel só algumas vezes. Melhorando a pontaria. Definitivamente não foi fatal. - Fica mais fácil–falo, tomando a AK dele. Tiro o cartucho vazio e coloco um novo. Ryan me olha de um jeito estranho, como se estivesse se vangloriando de algo. Como se atirar em pessoas não fosse meu trabalho. - Então, como é? -Pergunta Eddie - No Afeganistão quero dizer. - Quente e sujo no verão, frio e sujo no inverno. Não posso falar o que na verdade querem saber, como se sente ao matar alguém. É diferente para todos, mas sinto uma onda de adrenalina. Um sentimento de triunfo fugaz. E mais tarde, na noite quando tudo estava quieto, a culpa batia. Mesmo ele tentando me matar, eu tinha tirado a vida de alguém. Essas são coisas que tentei deixar no Afeganistão. De outro jeito. Como conseguirei conviver comigo mesmo?


- Um acampamento que nunca acaba, enviado ao inferno. - As mulheres sempre estão totalmente cobertas? - Pergunta Michalski. Não víamos mulheres nas ruas, mas quando víamos, usualmente estavam cobertascom burcas azuis, parecendo fantasmas. - Quase sempre. Eddie ri como um tonto. - Será que usam isso no sexo? Todos riem, soltando a tensão. Estou sorrindo enquanto encosto-me à mesa de tiro. Com a AK no meu ombro, olho meu alvo. Fecho meus olhos para ter concentração, depois os abro de novo. Tem um talibã de roupa preta no outro lado da cabine, de pé junto ao alvo. Sua cabeça está envolta num turbante com um cachecol preto, assim só consigo ver seu olhos. A versão muçulmana de um bandido do oeste selvagem. Consigo escutar meus amigos rindo e falando, mas não sei o que eles dizem a única coisa que consigo ver é esse homem. Do lado seu turbante está descoberto, a pele exposta cheia de sangue, eu conheço esse homem. Eu o matei. Tento piscar para afastá-lo, mas não vai embora. Minha boca se enche com saliva salgada que vem antes de vomitar, e tenho que engolir fortemente para retê-lo. Aperto o gatilho e o mundo acelera novamente. Quinze tiros e o homem morto se foi. Michalski respira. -Jesus, Trav- Minhas mãos tremem então dou a arma para meu irmão, mas ninguém percebe- Isso foi... Wow. Eddie abaixa o binóculo e sorri. -Você é perigoso, amigo. Sorrio, mas estou muito longe de ser perigoso. Meu coração está fazendo pinball no meu peito, Kevlar estará sentido toda essa merda nesse momento? Ou Moss? E se eu ligasse para saber, admitiriam? - É aqui onde os laços de união masculina acontecem? Fala uma voz feminina. É Paige ela está vestindo a roupa tipo Tomb Raider, em um apertado top cor de oliva e óculos de sol estilo aviador, seu cabelo estápreso em um coque, ela está incrível. -Porque está aqui? -Pergunto, colocando minhas mãos nos meus bolsos. Tentando disfarçar que ainda


estou tremendo. Ela dá de ombros. - Esse lugar não é tão secreto. O olhar de Michalski vira pra Ryan. - Amigo isso não está legal - Quase nunca concordo com Michalski, mas dessa vez ele está certo. Sempre houve uma regra não falada. Tucker's Grade é um lugar de garotos. Nunca chamaria Paige aqui. - Não trazemos garotas aqui. - Que seja- Ryan se despede com a mão - Tem que superar isso. - Não, homem, não- diz Michalski- Isso é algo nosso e você quebrou. Do mesmo jeito que roubou a noiva do seu irmão enquanto ele estava no Afeganistão. Tudo mundo fica quieto-Merda ele falou isso mesmo? - Ela terminou com ele antes que de acontecer alguma coisa - reclama Ryan -Não roubei sua noiva. Ele quer acreditar nisso, mas conheço Paige, e conheço meu irmão. Ele acredita que tem vivido sempre na minha sombra. Mas sabe o que? Não tem noção como tem sido fácil sua vida. Sempre teve tudo que quis mesmo Paige, e nunca teve papai respirando no seu cangote para que seja mais forte. Mais rápido, melhor. - Ele está certo - Digo. Estou falando de chamar Paige aqui, mas seus lábios se contorcem em um sorriso falso. Não preciso ver seus olhos, cobertos com seus óculos, para saber que está me olhando, ou o que está pensando. - Homens- dá um passo na luta, empurrando Michalski e Ryan como referência - Podem se revezar pra ficar bravos comigo depois - Eddie que lutou para não rir, engasgou no seu refrigerante e jogou coca cola pelo nariz- Agora estou aqui, superem. O liquido descendo pelo queixo de Eddie fez todos rirem.Menos Ryan que ainda está bravo. Posso ver nos seus ombros e no jeito que atira. Não acerta o alvo, nenhuma vez. O pesadelo me faz ficar acordado. O mesmo caminho, a mesma bomba, O mesmo desespero que sinto ao ver Charlie voar, me vejo no seu lugar, e depois vejo o menino afegão que se vira sobre mim enquanto morro. Cada vez que começa espero que termine diferente, mas nunca acontece. Não conseguirei dormir de novo, então sento e ligo meu notebook, busco e encontro facilmente, fotos e vídeos do meu pelotão na internet. Algumas fotos foram tiradas por repórteres que iam para todo lado com a gente, outras fotos tiradas por caras da unidade. Tem centenas de fotos, mas nunca vi


nenhuma delas antes. Estamos todos ali, Charlie, Clifton “Ski”Kralewski, Moss, Jared “Marvin faminto”Perumal, Peralta e eu. Tem uma foto de Kevlar perseguindo uma cabra ao redor das barracas que me faz rir. Lembro-me desse dia porque Charlie gritou: Oh, olhem Kenneth achou uma noiva! - Estávamos tão cansados do sono, que rimos até lágrimas caírem nos nossos rostos. A explicação da foto fala sobre o tédio que invade as patrulhas, mas não fala sobre o longo debate se devería comer a cabra ou não. Tem uma foto do meu grupo em Camp Bastion antes de tomar Marjah, Todos esperávamos, Kevlar fazia revisão da sua arma, para ter certeza que estivesse lubrificada. Tem uma foto do “Ski” fazendo a barba, seu espelho encostado na parede suja, usando água de garrafa para enxaguar. Ele gostava de cantar enquanto faziabarba, mas sempre confundia as palavras. O que mais fazia a gente rir era quando ele cantava NO SOY GRANDE EN SALCHICHAS SALSERAS, é uma música dos lugares baixos de Garth Brooke. Estou assistindo um vídeo do meu pelotão atirando nos talibãs em posição de franco atirador. Lembro-me dos tiros a centímetros do meu capacete. Quando a porta abre. - Porque está aqui? - Pergunto, enquanto vejo a foto onde Moss se joga no final de uma parede suja e abre fogo. É esquisito ver coisas que já fizemos, e ainda mais que esses momentos tenham sido capturados, a pessoa que vê isso nem sabe que Charlie está morto. - Como sabia quem era? As mãos de Paige andam pelo meu peito, seu cabelo estilo Lara Croft caindo pelo meu ombro, odeio que ela ainda tenha esse efeito sobre mim. - Não bateu. Meus olhos estão vidrados até que ela pega meu rosto e depois é só lábios e língua, eu sei que não posso, tenho que parar. Mas não paro. Charlie estava junto no dia que recebi a carta. Deixei que a lê-se depois que os outros tinham repartido a pornografia e os cigarros para o natal. - Isso é muito frio - Charlie me deu o cigarro, dei um longo trago. - Sim- digo. Essa é Paige. - Vai ficar bem? –perguntou - Precisa de um abraço ou algo do tipo?


Ri um pouco. - Não, estou bem. Ali estava bem, do outro lado do mundo, nenhum drama poderia mexer comigo. Agora que estou de volta e ela está aqui, não tenho certeza dos meus sentimentos sobre ela. Deve ser porque acabei de fazer sexo e meu cérebro parece margarina. - Paige? - Hmmm?- Ela não abre os olhos. - Você não quer voltar. Verdade? - Oh, Deus não - Ri suavemente, fazendo a cama vibrar - Você pensou isso? - Não. - Isso é só sexo, Travis. - Acredita que Ryan também pensaria isso? Levanto e visto minha calça. A vontade de fugir me envolve não gosto quem viro do lado dela. Essa merda tem que acabar. - Ele não precisa saber. -Não é isso - Procuro nas minhas gavetas até achar um CD e coloco no meu PC - Porque está no meu quarto e não no quarto dele? - Não sei- Ela diz - Talvez porque você nunca fala não. - É hora de ir. O notebook faz um barulho, descarregando as fotos no disco enquanto coloco minha camiseta. Paige não faz nenhum movimento para ir. - Agora. - O que a marinha fez com você, Trav?– pergunta - Era muito mais divertido. Aperto expulsar e o CD sai. Bato no meu bolso detrás para ter certeza que minha carteira está ali, coloco os novos tênis que mamãe comprou e vou até a porta. - Saia - Digo. E não se esqueça de pôr a chave de volta onde estava. Dirijo até a loja Walgreens 24 horas. Em São Carlos. Onde tem uma daquelas máquinas de fotos. A loja está vazia exceto pela moça do caixa. Ela está sentada no balcão perto da saída, suas pernas


bronzeadas penduradas na borda. Nos seus pés tem um par de botas estilo vaqueira familiares, Lacey Ellison. Nós pegávamos o mesmo ônibus na escola e lembro que sua parada ficava perto de um parque de trailers feios junto à ponte em Fort Myers Beach. Ninguém gostava de sentar-se junto a ela porque fedia a urina, Michalski a chamava de MCG- apelido para menina para comer grátis, porque ela era pobre e se encaixava no plano de café da manhã. Naquela época cobrava cinco dólares para beijar atrás dos banheiros portáteis. Agora parece rude, mas é legal. - Oi, Lace. - Travis Stephenson - ela se levanta e bloqueia meu caminho até a máquina de fotos. - uma palavra. -Claro. - Harper falou que vocês foram à praia outra noite. - Sim - Respondo - Tem algum problema? - Ainda não. -O que quer dizer? - Ela é minha amiga, Travis- Ela diz- Amber e eu... Bom. Harper é diferente, mas não julga a gente. Ela é a melhor pessoa que eu conheço, se você machucar ela, eu te mato. Eu sorrio. - Anotado, senhora. - É serio - Ela tenta me empurrar, mas não é forte o suficiente, sua sinceridade é genial, a respeito por isso- Não a machuque. Concordo. - Não farei isso. - Isso é o que você diz - Lacey senta de novo - Mas não esqueça a última vez que ela deixou que você a beijasse. Bom ponto. Ela não me perturba enquanto tiro as cópias das imagens descarregadas no CD, mas me dá uma garrafa de coca cola depois de 1 hora. - Está estragada- mostra a base da garrafa - Se você não beber terei que jogar fora.


Um tempo depois, o motociclista de Shamrock entra no bar, Lacey pula do balcão e se joga nele. Beijam-se por dez minutos, só se afastam para respirar quando um cliente entra para comprar um pacote de caramelos e um pacote de Doritos. Quando termino, ela me deixa usar o desconto de empregados para minhas impressões acabadas. - Obrigada por comprar na Walgreens - diz com humor, depois aponta - Lembre o que eu falei. Ela olha para seu namorado motociclista, e supõe que eu deveria estar assustado. Poderia derrubá-lo fácil, mas não é o ponto. - Lembrarei. Ainda não estou pronto para ir pra casa, assim dirijo até a Casa do Waffle para ver se Harper está trabalhando. A garçonete atrás do balcão me diz que é seu dia livre, estou um pouco decepcionado. Peço um copo de café para viagem. - Está me seguindo de novo? - Harper bate seu ombro no meu enquanto passa do meu lado no balcão. Está vestindo uma camisa vermelha da Social Distortion e uma calça curta vermelha. - Cheguei aqui antes, quem está assediando quem? -Está se achando, Stephenson - diz ela Sorrindo. Vim pegar meu pagamento. Espero enquanto ela some atrás da porta do escritório. Volta em menos de 1 minuto com seu cheque na mão, depois que pago pelo meu café, vou com ela até sua Land Rover. - Então, o que vai fazer hoje? -Pergunta ela. Encostando-se à porta do carro, como se não tivesse pressa. Estou ganhando todo tipo de sinais. - Café, dormir, e depois meu dia está livre – Digo - Por quê? É um encontro? -Nos seus sonhos. Eu rio. - Se meus sonhos fossem sobre você, Harper, dormir seria muito melhor. Suas bochechas ficam rosa. - O que isso significa? -Nada - Pego seu rosto em minhas mãos. Beijo ela por dias, ou talvez por uns minutos, é difícil saber. O celular no seu bolso vibra contra minha perna e ela ri na minha boca e diz que tem que ir embora.


- Quer fazer algo hoje à noite? – pergunto. Ela sobe na Land Rover e fecha a porta. Por um segundo acho que não vou ter uma resposta, mas ela logo abaixa o vidro. - Sim Paige não está quando chego a casa, mamãe e Ryan continuam dormindo. No meu quarto escolho as fotos até que acho minha favorita. Uma de Charlie e eu brincando de pedra,papel ou tesoura para decidir quem iria ler primeiroa ultima edição da revista playboy. Na foto ele tem pedra, e eu tesoura, e perco minha vez contra a Srta. Março. Esse era o jeito de decidir tudo. E só agora percebo que Charlie sempre tirava pedra. Usando uma tachinha da minha gaveta, grudei a foto na parede junto da minha cama. Parecia esquisita e solitária, não pertencia a essa parede cheia de pôsteres de bandas e shows. Afasto minha cama para longe da parede e tiro todas as fotos, só fica aquela foto, depois vou para a cozinha. Papai está na pia, bebendo água de garrafa e olhando pela janela para o rio Caloosahatchee. - O que faz aqui?- há acusação no seu tom, como se procurar por tachinhas nas gavetas da cozinha estivesse na lista de comportamentos inaceitáveis. - O que você faz aqui? –volto à acusação - Pensei que mamãe tivesse te mandado embora. - Na verdade não te interessa Travis – Diz- Francamente, essa interpretação de filho pródigo está pesada. - Não é umainterpretação. - Então - Papai fecha a garrafa e a coloca na geladeira - Não tenho certeza se seu irmão gostaria de escutar sobre as visitas de Paige à noite. O que você acha de cuidar dos seus assuntos e eu cuidar dos meus? Merda. Enquanto subo as escadas de volta para o meu quarto, custa resistir à vontade de voltar e bater no sorriso estampado no seu rosto. Então pego todas as 243 fotos e colo todas elas na parede, até que a parede esté cheia, pequenas janelas de volta a um lugar e tempo que não me sentia preso. Quando termino, não se vê muito bem. As filas de fotos estão tortas e papai ficará uma fera quando perceber que tem 243 novos buracos de tachinhas nas suas lindas paredes pensava que me sentiria melhor, mas não. Um pouco antes de fechar os olhos Charlie está sentado na minha cadeira. - Vá embora, Charlie – Digo- Não estou com ânimo para essa merda agora. Ele não fala nada, mas não vai embora, só fica ali me olhando.


- Vai pro inferno! – Grito- E jogo meu travesseiro tão forte quanto consigo em direção a ele, bate na lâmpada da minha mesa, que cai no chão e quebra. A porta se abre, mamãe entra rápido, seus braços mexendo freneticamente. -Está tudo bem? Escutei um barulho, está ferido? - Sai... Não sei se estou falando com ela ou com Charlie, mas agora ele foi embora e ela pega a lâmpada quebrada do chão. Colocando os pedaços suavemente na sua palma. -Travis, seu pai. Ela quer se desculpar, mas não há nada que ela possa dizer que eu queira ouvir. -Não quero falar sobre isso. Viro-me para a parede, escutando enquanto ela limpa em silêncio. Se ela vê a parede não fala nada. Finjo dormir até que ela vá embora.


Capítulo 7 Harper usa um top roxo brilhante, ela fez aquele truque mágico que as garotas fazem para fazer seu cabelo ficar liso, e enquanto levo-a até meu novo jipe não posso parar de olhar para ela. Não é porque ela é quente, quero dizer, ela sempre é. Ela é aquela garota quente da porta ao lado, da vizinhança onde eu quero viver. Essa noite? Ela está demais e estou contente de usar uma camisa com botões. -É seu? - Pergunta. Quando acordei pela manhã achei uma nota na cama falando que não estou autorizado para dirigir o Suburban de mamãe porque não estou coberto pela seguradora. É um jeito passivo-agressivo de o meu pai me castigar. Na nota também falava para tampar os buracos da parede do meu quarto antes de voltar para Lejeune. Como se eu realmente fosse fazer isso. Peguei um táxi até Palm Beach Boulevard, aquele alinhado com mamãe é o tipo de concessionária que tem os carros mais limpos, a baixo preço e o melhor financiamento. Comprei um jeep preto de um vendedor de aspecto cansado, que deu um bom desconto por pagar à vista. Não é nada especial, mas é um jogo de rodas. -Sim-Eu digo- Comprei hoje. Só para você. - Fica quieto - Ela ri e sinto borboletas no estômago. Essa é a garota que eu conheço. - Estava pensando, uhm, filme? -Não faço ideia do que estou fazendo. Paige e eu não tínhamos encontros.Era só, sua casa, minha casa, no carro, na praia, festas. Com Harper é tudo novo. - É bom. - Sinto pelo teto - Eu tinha tirado o teto do jeep quando cheguei em casa, mas agora estou sentindo ter feito isso - Isso fará com que seu cabelo fique muito bem - Digo - não é que não fique bem sempre. Meu Deus sou muito ruim nisso. -Por quê? - O encontro - passo a mão por cima da cabeça - Deveria ter deixado o teto. Estou envergonhado e não sei o porquê. Talvez porque ela me tira do meu jogo. Talvez quando é sobre Harper Gray, sinto como se não houvesse nenhum jogo. Ela chega mais perto e dá um beijo na minha bochecha. - É só cabelo.


- Vamos ouvir música –Digo- Ligando o motor. Deixar Paige escolher sempre foi arriscado o gosto dela era muito ruim, mas Harper escolhe Flogging Molly e estamos na rota 41, cantando como se não fosse o primeiro encontro, e chegamos ao cinema muito rápido. Estaciono e olho para ela. -Seu cabelo está uma bagunça. Ela mostra a língua, depois gira o espelho retrovisor e penteia o cabelo. -O que quer ver? - Pergunta enquanto esperamos na fila da entrada. -Não faço ideia do que está em cartaz - Digo. Não me lembro da última vez que assisti a um filme que não estivesse na frente da pequena tela do ipod do Charlie - Topo tudo, acho, menos aqueles filmes de meninas. - Ação? Uns dos pôsteres de “AGORA EM CARTAZ” anuncia um filme sobre um pelotão do exército no Iraque e quero assistir. Só sinto medo do que possa acontecer no cinema. Não tenho certeza de querer ver um filme de ação, porque, não sei se os barulhos dos tiros me farão explodir de novo. Não gosto que minhas opções tenham sido reduzidas a filmes de meninas e comédia. -E esse?-Indico o filme militar. O ceticismo se mostra no rosto de Harper antes que ela sorria. -Tudo bem. É bom que esteja no jogo, mas é uma merda que pense o mesmo que eu estou pensando. Que ela tenha que pensar. - Pipoca? - Pergunto, depois de comprar as entradas. - Amigo - Ela me olha como se eu estivesse louco- Ainda pergunta? Pipoca é um fato. - Uma pipoca - Falo para o cara atrás do balcão - duas Coca-colas, espera – Olho para Harper-coca cola está bem? Dieta? -Não faço dieta. -Doces? -Skittles.


- Meus favoritos. Os Skittles vêm em alguns dos combos e quase todo mundo ama porque não se derretem no calor e não dão má sorte, como os Charms. Ninguém falou que dão má sorte, mas a superstição dos fuzileiros diz isso. Sentamos no meio do cinema. O filme abre com um Humvees andando pelo deserto, perto de uma pequena aldeia, tem uma menina usando um hiyab com listras vermelhas nela. Um dos soldados mexe a mão para trás, segundos depois um ataque aéreo atira nos prédios atrás dela. Merda. Meu coração bate com grande velocidade. Merda. Porque isso pareceu uma boa idéia. Merda. Preciso sair daqui. - Isso não vai funcionar - Levanto e manobro entre os joelhos das pessoas no final da fila. Desço pelas escadas. Fora da porta. No corredor bem iluminado, onde me dobro e tento respirar. Uns minutos depois, Harper sai do cinema, com os braços cheios de pipoca, refrigerantes e doces. - Oh, merda, sinto muito - Digo. Pego as bebidas das suas mãos, mesmo que as minhas ainda estejam tremendo. Ela sorri. - Sou uma garçonete, lembra? Está tudo bem. Uma onda de raiva bate em mim.Raiva por mim mesmo, por ser incapaz de controlar meus sentimentos. E por Harper por seu sorriso e falar que está tudo bem, quando não está tudo bem. Jogo meu copo de refrigerante na parede. Explode ao bater, respingando coca-cola em toda parte. - Você é muito boa para mim - Estou gritando e não sei o porquê. - O que quer que eu faça Travis?- Grita ela de novo - Ficar brava com você por isso? - Não seja estúpido. Caio na cadeira com a cabeça entre as mãos. -Sinto muito.


Harper senta e se dobra contra mim, seu conforto mexe através de mim onde seu corpo toca o meu e isso me faz sentir melhor. - Eu deveria saber - Digo. - Talvez - Ela concorda. - Podemos ver outra coisa. Como se sente sobre monstros? Mostra o corredor, tem um filme de desenho para crianças que está em cartaz - Ela levanta as sobrancelhas. Olho em volta. Não tem ninguém. Ninguém que nos pegue se trocarmos de sala. Sorrio. - Em três... Harper ri, não é surpresa. Pegamos as guloseimas e caminhamos até a outra sala. As propagandas continuam passando, assim não perdemos nada. Tentamos de novo, escolhendo as cadeiras da metade da sala. A tensão no meu corpo se foi enquanto alcanço, ao longo do assento, a mão de Harper na minha. - Obrigado. Ela não tira os olhos da tela enquanto sorri. -Cale a boca e coma sua pipoca. Mas ela também não larga minha mão, mesmo quando o filme termina.


Capítulo 8 Alguns dia depois acordo e sou incapaz de me levantar da cama. Literalmente. Só consigo levantar os braços e as pernas debaixo da coberta e sinto como se algo estivesse me puxando para baixo. O pânico passa por mim e me pergunto se isso é normal. Como se não fosse suficiente meu cérebro pregar peças em mim agora meu corpo também não esta cooperando? - Mamãe! – grito. Não possa alcançar o celular A porta se abre e uma voz profunda diz - Sua mãe não pode te ajudar no momento, menino. Jesus, acho que estou morrendo. Levanto a cabeça e CJ Moss está em pé na porta com Kevlar rindo na sala atrás dele. - Que domínio me fez? Risadas enchem a casa e espero que seja lá o que fizeram não tenha a ver com o adesivo prateado. Isso doerá. Kevlar tira a coberta com um movimento apenas. Atravessando meu corpo há um par de redes elásticas me mantendo no lugar. Quero ficar irritado, mas, não posso, o Kevlar tem uma risada aguda que faz com que seja im-possível não rir também. - Pensei que estava tendo um ataque de merda – Digo, libertando-me dessa prisão de elásticos, fazendo-os rir ainda mais – O que vocês estão fazendo aqui? - Estava triste. – Kevlar pega um pouco de tabaco para mascar e coloco um short – Assim que chamei Moss por lá e lhe disse: “C.J., meu homem, é o momento de uma viajem de estrada”. Moss põe os olhos em branco. Ele não fala muito. Claro que não é necessário falar quando Kevlar não se cala. Nem posso imaginar essa viagem. - Subimos na camionete e aqui estamos. – diz Kevlar – Vamos nos divertir! - Que horas são? – Olho entre as persianas – Jesus, Kenny, já esta de noite. - Decidivê-lo comoum ataque preventivodedia -Ele esfregaas mãos, comose o significado, iniciasse um incêndio– Vamos, estamos perdendo tempo. - O que quer fazer? – Visto a camisa rapidamente e começo a fazer a cama. - Quero... – Kevlar começa a falar, mas Moss põem a mão em sua boca.


- Quero pescar em alto mar – Diz – Lembro-me de você falando sobre isso. Só quero pegar peixes. - Feito. - Eu estava pensando em algo mais como meninas gostosas de biquíni e body shots •... Oh, oi senhora Stephenson – Diz Kevlar quando minha mãe entra na casa. Na realidade não temos nos falado muito desde que o papai se mudou de volta e me sinto incomodado com ele de volta. Não quero que as coisas sejam iguais, ela foi realmente genial durante um tempo, mas acho que queria ouvir o que tenho para falar e vice-versa. - Obrigado por ser cúmplice nessa missão, mãe - Digo – Me prenderam na cama com cordas elástica. Ela ri - Pergunte se seus amigos querem passar a noite aqui. - Obrigado pela hospitalidade, senhora – diz Kevlar – Mas já fizemos reservas em um hotel na praia. - Nós, provavelmente, já deveríamos ir – Digo. - Meninos, aonde vocês vão tão tarde? – mamãe pergunta - Pescar. - Oh, isso deve ser divertido – O entusiasmo em sua voz não combina com a tristeza em seus olhos – Estarão para o jantar? - Provavelmente não. - Está certo, bom, lembre-se do protetor solar – Ela nos segue pelas as escadas e quando fecho a porta atrás de nos, sinto-me mal. Havia cachorros que rodeavam nosso acampamento e apesar de não poder, nos os alimentávamos. Quando fomos embora esse cachorro branco com manchas negras nas orelhas ficou parado nos olhando esperançoso como que se pedisse para não irmos embora. Esse é o olhar da minha mãe agora e me sinto mal. - Podemos conseguir algo para comer? – pergunta Moss quando entramos no Jeep. Kevlar reclama o assento de copiloto. - Podemos parar em algum lugar – digo – O que quer? - A Casa de Waffle. - Não outra vez – Kevlar reclama da sugestão de Moss – Sabia que existem 38 Casas de Waffle entre aqui e Lejeune? Bom, não comemos em todas, mas você não acha que quatro é excessivo em um período de 17 horas?


- Eu gosto da Casa de Waffle – Diz Moss. Harper provavelmente esta trabalhando que é uma razão suficiente para mim. - Quieto Kenneth. Se ele quer, nos vamos à Casa de Waffle. Harper nos vê ao entrarmos no restaurante. Kevlar vai à frente e assim que ele abre a boca coloco meu dedo em seus lábios. Ela nos da um sorriso brilhante e energético. - Olá! Bem vindos à Casa de Waffles. Sentem-se onde desejarem e logo estarei com vocês. - Maldito seja, se nas outras Casas de Waffle tivesse garotas tão lindas assim pararia em todas – diz kevlar. - Por quê? Para ficar sentado olhando para elas desejando poder falar com elas igual em NY? -Cala a boca. _ C.J. ... – Digo - Vou falar com ela. - Oh, isso é certo – aceno – Uma menina! Um beijo? Pediria o seu telefone? Amigo, não é difícil. Aposto que você consegue com essa menina. – Harper – Antes que o café termine. - De jeito nenhum – kevlar nega com a cabeça – Não é tão bom - Quanto? - 20,00. -Feito. Harper trás os menus. - Meu nome é Harper. Querem café? Ou talvez suco de laranja? - Harper? [É um lindo nome!]. – Digo – por causa de Harper Lee? - Não, Charlie Harper. - O artista? É um dos meus favoritos... Meu nome é Travis e esses são meus amigos Kenny... -Ken – me interrompi, Ken? Desde quando pelo amor de Deus? – Ken Chertnut. - E esse é c.j. -Encantada em Conhecê-los. Vocês não são daqui né?


- Estamos viajando por alguns dias desde a Carolina no norte – Digo -Marina – Kevlar – Nós acabamos de chegar do Afeganistão. Ela ficou vermelha como seu cabelo. - Bom. - Vamos pescar em alto mar depois- Digo – Gostaria de se juntar a nós? Ela me olha e seu rosto fica com outra expressão que eu gosto muito. - Claro, parece divertido – Diz Harper – Agora, e o pedido de vocês? Depois que ela se foi, kevlar me começa a falar. - Lembram-se do Nardello do segundo pelotão? Sua esposa se separou dele e levou ate o seu Mustang 66 -Maldita seja, isso é deprimente. -E Day? Matou-se -Que? Não! - Sim – diz kevlar – estava bastante afetado com o Palmer. Palmer foi um dos oito que morreram. Não conhecia o Day e nem o Palmer muito bem, mas suponho que sei como é que se sentem. Como um vaso que quebrou. Harper voltou com o café e tiro isso da minha cabeça. - Já sabem o que vão comer? Moss pede biscoitos e salada com rúcula e Kevlar pede Waffle e eu olho para ela - A única coisa que eu quero é um beijo. Seus olhos se levantam. - Que? - Não tem nada no cardápio que se compare. Kevlar gemeu e tenho que admitir que foi o mais direto que já consegui até hoje. Isso se trata de ganhar 20,00 do menino que me tirou da cama - Bem, isso é o mais doce que já escutei – Diz ela e se senta comigo. Ela toma meu rosto com as


pontas dos dedos e pressiona os lábios contra os meus. Sua língua entra na minha ao e começa a brincar com a minha isso faz com que o restaurante suma da minha cabeça e me manda diretamente para o pensamento de uma ducha gelada. Seus olhos verdes estão olhando os meus e se levanta lentamente me dando um sorriso privado. Deixando minhas Mãos sobre a mesa com a palma pra cima e Kevlar coloca uma nota de 20,00 nela. Ela me da outro beijo e se Poe em pé. - Quer o de sempre Travis. - Sim - Isso não foi justo – Diz Kevlar. Fecho o dinheiro na Mão. Moss ri e bate a Mao na minha e me sinto mais normal desde quando voltamos do Afeganistão, com exceção de quando estou sozinho com Harper. Eles são meus irmãos. Minha família. -Harper?- Chamo pelo restaurante. - Sim - Estava falando serio sobre a pesca. -Eu também, só tenho que terminar de servir uma mesa de marinheiros idiotas e estarei pronta. - Calma então você dois...? – A cabeça de kevlar se move entre eu e Harper. Ela não é minha namorada mais não estou interessado em, mas ninguém além dela. A menos que Paige conte, não sei por que ela me afeta tanto. Não gosto dela da mesma forma que gosto da Harper. Ele deixa a cabeça cair na mesa fazendo um barulho alto – Esse mundo é tão injusto. - já te disse que se quer ficar com alguém você precisa falar com ela. Ele me mostra o dedo sem levantar a cabeça. Harper terminou seu turno. E seguimos nossa viagem. -Jesus, minha avó dirige mais rápido que você. - Estou a 70 km/h e o limite é de 45 km/h. Qual o problema? Moss se inclina entre os assentos. -Passa nas minhas costas?- Harper que já estava de biquíni verde e short, me entregou o protetor solar. Ela esta tentando evitar tocar sua pele. É como que se ela estivesse jogando com a minha cabeça e tenho que pensar como desarmar um M16 para não cair na armadilha, mas gosto. Kevlar entra na cabine segurando uma cerveja em uma Mão e na outra um tubo de protetor solar. Sua


pele esta um pouco queimada e ao ver que estou passando o protetor na Harper ele diz FILHO DA PUTA somente com os lábios me fazendo rir. - Alguém quer uma cerveja? Moss nega com a cabeça por estar um pouco mareado. - Muito cedo para mim – Digo - Amigos, é a hora feliz em Helmand – kevlar me joga uma cerveja que quase cai da minha Mão por causa do protetor solar. Toco as costas da Harper com a lata a fazendo esgueirar e dar uma tapa no meu braço. Vejo o kevlar tomar sua cerveja em um gole só e pegar outra. - Travis? – Diz Harper – tudo bem? Não sei como responder. Eu tenho minha própria merda. E não tenho certeza se posso lidar com a merda dele também. Mas talvez devesse. Talvez seja isso que precisamos... Para falar do Afeganistão, perto de Charlie. - Sim, estou bem – Não acho que ela acredita – Pode me dar um minuto com kevlar? - Esta bem? – Pergunto para kevlar assim que Harper sai da cabine. - Sim, por quê? – diz kevlar - Não sei. Só acho que esta bebendo muito. - Que me merda - Ele diz com rugas entre os olhos – Estou de FÉRIAS - Desculpe amigo – Levanto as mãos – Só quero que saiba que se precisar conversar estou aqui... - Vai à merda – kevlar sai da cabine. O barco golpeia uma onde fazendo um spray de água salgada golpear sua cara. Ele grita de alegria sorrindo como um tonto. Vou ao lado de Moss. - Desde quando esta assim? - Desde quando chegamos em casa – Diz- Fui de ônibus ver a minha família para ficar mais seguro. No caminho até aqui ele me disse que passou a noite e uma delegacia no tennessee por causa de brigas de bar. Não sei, mas é como se a vida real não é fosse o suficiente pra ele.


Capítulo 9 É um dia calmo na água, as ondas não estão muito grandes. Moss parece ter encontrado o seu equilíbrio no mar, e uma cerveja. - Eu vou pegar um tubarão hoje - Anuncia Kevlar, enquanto Gary distribui varas de pesca. Estamos pescando em um barco de tarpão real, mas Gary diz que há uma possibilidade de avistar um tubarão. - Um tubarão com uma ponta preta ou um limão ou um martelo. Kevlar diz. - Sim, um martelo seria ótimo. Ele volta a sua vara de pesca, prestes a lançar, quando Gary pede para ele parar. - Criança calma, você não vai pegar nada sem uma isca. - Com exceção de um zumbido. Disse Moss. - Não - disse. - Ele já pegou um desses. Kevlar mostra o dedo enquanto Gary estava segurando uma sardinha viva - Como isca de peixe – Como isca o anzol. E Harper coloca a si mesma. Eu passo atrás dela, minha boca perto de seu ouvido e minha mão no seu quadril. Protetor solar faz com que cheire a verão. - Você é oficialmente a garota mais legal do mundo. Ela começa, mas simplesmente responde revirando os olhos para mim. - E agora que você percebe isso? - Eu tinha minhas suspeitas. Harper se vira para mim e colocou as mãos no meu peito. Eu ignoro o fato de que eles são cobertos com lodo de peixe, porque, bem, é Harper. E vai me beijar. - Travis? - Sim? - Fique longe. - Me dá um empurrão. - Eu tenho uma captura de tubarões. Kevlar começa a rir. - Oh, Sozinho. Rejeitado.


- Ei, Kenneth. Você não vai me apresentar à sua escolha? - Eu alcanço o recipiente de isca de sardinha e pego uma para o meu próprio anzol. Oh, espera. Você não tem uma. Ele toma um longo gole, depois arrota. - Harper poderia ajudar com um casal de amigos dela. Enquanto eu jogo minha corda, Kevlar pensa em corresponder a Lacey Ellison. Ele poderia finalmente ter relações sexuais. Olhei Harper. - Nem pensar. – Diz ela, sem tirar os olhos de água. - Não. Eu tenho controle sobre o que minhas amigas fazem com caras aleatórios que se encontram em bares, mas eu não vou prostituí-las para os fuzileiros navais. Isto me faz rir. - Eu acho que é justo. Hoje é um bom dia. Sol, Cerveja e peixe. E o Afeganistão está tão longe como ela esta. Eu não preciso de terapia. Eu só preciso de mais dias como este. Moss pegou o primeiro peixe, um tarpão prata brilhante que se ilumina com a euforia. Eles são ótimos para a pesca, tarpão, mas não para comer, assim Gary tira uma foto de Moss segurando, antes de lançar de volta para o Golfo. - Só? - Moss diz, puxando um segmento de fio novo. - Tem esse tipo de peixe na Carolina do Norte? - Claro - eu digo. - Podemos ir quando quiser amigo. Ele me dá aquele sorriso de Buda. - Brilhante. - Eu tenho alguma coisa. - diz Harper, um pouco mais tarde, quando a linha começa a puxar o rolo mais rápido. Os músculos de seu braço enquanto tentam manobras flexionam e posso dizer que isso é algo grande. - Tarpão. - diz Gary, mas ela balança a cabeça. - Parece que vai mais profundo. - diz ela. – Quem sabe um tubarão? - Bem, agora, senta-se na cadeira de pesca. - diz ele. - E espera. Tudo o que ela está envolvida a desempenhar. Não é como nos desenhos animados, quando o peixe nada para longe e o barco vai ziguezagueando atrás dele. Mas os tubarões são fortes o suficiente para o barco começar a apontar na direção de tudo o que esta no final do anzol de Harper.


Depois de alguns minutos, o rolo para de girar e Harper começa a manobrar para trás. Ela é forte, mas a pressão sobre a vara émuito intensa. - Você está bem? Eu pergunto. - sim - ela diz. Uma mecha de cabelo escapando de seu rabo de cavalo e gotas de umidade na parte de trás do seu pescoço. - Pode querer um pouco de água. Kevlar traz uma garrafa, e para manter o sol fora de seu rosto eu dou um boné de beisebol velho dos Brewers que tinha quando eu morava em GreenBay. Com o barco seguindo o tubarão de Harper, Kevlar se conforma com o refrigerador de peixes, por isso não se importa. Já no meio da bolsa. Moss, por outro lado, se contenta em ver o peixe de Harper. Como ele prometeu manter tudo na memória. Em cerca de 30 minutos vai ficar assim: o freio da carretilha da vara solta enquanto o tubarão dá andamento, puxando tanto fio quanto pude; o carretel para e Harper arrasta o máximo que puder. É tedioso e seus braços tremem com o esforço. - Quer ajuda? - Ofereço. - Não. - Ela me dá um sorriso cruel. - Mas obrigada. Não é de admirar que ela me rejeite, mesmo assim, ela é provavelmente melhor pescadora do que eu. E isso é algo quente. Quarenta e cinco minutos, talvez uma hora, passaram antes que o tubarão começasse a se cansar tanto quanto Harper. Na sombra do boné dos Brewers, ela está lutando para não chorar, e parte de mim quer segurar a vara para lhe dar uma pausa, mas ela é muito teimosa para isso. Um passo à frente, dois passos para trás, manobra lentamente. Os assobios puxam cada vez que o tubarão ataca contra eles, tentando soltar o gancho, e ela se esforça para devolvê-lo. - Mais tarde. - Como o último segundo de uma luta onde o pulso mais fraco desiste. - O tubarão apenas para de lutar. Harper pega um metro, depois dois, depois dez. - Parece que ele esta pronto. - diz Gary. - Mas cuidado, você pode começar a lutar novamente, quando chegar ao barco. No início, o tubarão parece apenas uma sombra escura no fundo da água e não podemos dizer o que é, mas o mais perto da superfície nós podemos distinguir a forma de um tubarão-martelo. E é um monstro. - Jesus. - Kevlar respira. - Como é que vamos subir essa coisa até o barco? - Esse peixe tem, possivelmente, 12 pés de comprimento, filho. - Gary diz. – Isso não vai entrar neste barco. - Ele se vira para Harper. – Mantenha puxando.


O tubarão-martelo atinge a superfície e fica louco, batendo e sacudindo, espirrando água em volta. Olho de volta para Harper, eu sorrio. - É isso aí. - Os cantos de sua boca se curvaram um pouco, mas é difícil dizer se ela está sorrindo ou fazendo careta enquanto tentava bater o último bocado de luta que o tubarão está dando. Finalmente, ele desiste e descansa em seu lado, apenas flutuando lá. Para fora. Uma parte de sua feia cabeça acima da água, seu olhos lacrimejados olhando quase perplexo. Como se estivesse se perguntando, o que diabos aconteceu. Kevlar inclina-se para o lado e toca o tubarão. - Isso é muito foda. - Se você quer uma foto, agora é a hora. - Disse Gary. - E seja rápido, porque nós precisamos ir. Moss pega a vara de pesca de Harper para que eu possa tirar uma foto com minha câmera do telefone. Gary lhe dá uma tesoura para cortar a fio que libera o tubarão-martelo. Não existe nenhuma maneira de recuperar o gancho entre os dentes afiados. Ele permanecerá lá até oxidar. - Quer dar um nome? Algumas pessoas gostam de fazer isso. - Está tudo bem. - Harper cortar o fio e o tubarão lentamente nada para longe, afundando a barbatana dorsal sob a água até o peixe desaparecer completamente. - Isso foi incrível. – eu passo ao seu lado e deslizo e coloco o braço em torno de sua cintura. Seu corpo inteiro está tremendo de exaustão enquanto inclina-se sobre mim, fechando os olhos. O beijo na testa que esta en-charcada de suor. Depois de mais um par de horas de pesca excessiva. - Harper foi até a cabine e dormiu o tempo todo. - Nós levamos Kevlar e Moss para o hotel, em seguida, levou-a para sua casa. - Eu vou te dar a grande turnê. - Diz enquanto eu sigo para a entrada. - Não vai levar muito tempo, já que você pode estar no quarto e ver tudo. Harper abre a porta e para. Encontro-me com ela por trás, agarrando-a pela cintura para não cair. No sofá, um pouco acima do ombro.O pai de Harper e uma mulher com o cabelo escuro se apoiam. Eles pulam e separaram-se, organizam suas roupas confusas. Seu batom está borrado em um lado de sua boca e os dois parecem tão... Espantados. - Bem, isso é embaraçoso. - Diz o dela pai, enquanto eles se levantam. Eles estão de mãos dadas. Harper, esta é Alison Redding, Alison, esta é Harper e seu amigo Travis. - Não é exatamente como eu imaginei este momento. - O sorriso de Alison é brilhante, genuíno, ao esticar a mão para alcançar Harper, que ainda está dentro do círculo de meus braços. Eu não tenho certeza de que ela ainda respirava. - Mas é bom finalmente conhecê-la. Harper não diz nada. Ela está separada de mim e vai para o seu quarto, batendo a porta. Deixando-


me em uma situação de desconforto. Seu pai soltou um suspiro e coçou a parte de trás de sua cabeça. - Eu deveria ir falar com ela. - Provavelmente, é melhor se você fizer. - Digo. - Deixe-me falar com ela. - Eu não acho que... - Ele olha para a porta, como se eu fosse tentar algo com a sua filha agora, então suspira. - Sim, tudo bem. Bati na porta do quarto de Harper. - Ei, sou eu. Seu rosto aparece em uma pequena abertura, esta com os olhos úmidos. - Eu posso entrar? Ela abriu mais a porta e entro no seu quarto amarelo brilhante, ao lado de sua cama. Eu tenho que admitir, o meu plano de ação favorito iria arrastar em seus lençóis e fazer coisas que alienam sua mente de seu pai. Só que não é o que ela quer agora. E considerando tudo o que eu passei não vai me matar calar a boca e ouvir. - Quando ele me disse que estava pensando em vir para uma visita, pensei que significava que eles estavam, sabe, falando sobre uma futura visita. - Harper é deixado cair em sua cama. - Eu não achava que ele significava agora, e... Assim. Sentei-me ao lado dela e olhei ao redor do quarto. Penduradas nas paredes são pinturas de cores vivas com criaturas marinhas. Tartarugas Vermelhas. Cavalos-marinhos roxos. Peixes verdes. Golfinhos laranja. Eles são grandiosos. Eu gostaria de saber se a mãe de Harper pintou. - Quem é ela? - Eles estavam noivos. - Ele esfrega os olhos com as costas da mão. Ofereço a minha camisa de manga com odor de peixe e ela vira o rosto em meu ombro. - Ele terminou com ela quando conheceu minha mãe. Sou péssimo nisso. Ser criança é muito menos complicado às vezes. - Talvez, hum, você devesse falar com ele? - Não. Eu não estou pronta. - Ela enxuga os olhos na minha manga. - Só vamos nos focar aos nossos planos. - Tudo bem.


Ela abre uma gaveta no armário e desenrola uma toalha vermelha. - Há um chuveiro com sabonete e xampu atrás. Não se esqueça de fechar bem a cortina ou as mulheres mais velhas podem chamar a polícia. Soa emocionante. Estou quase atingindo a maçaneta da porta quando ela atravessa a pequena sala e me segura contra a porta, me beijando a maneira como fizemos no Waffle House, esta manhã. Droga. Nós dois estamos um pouco sem fôlego quando ela vai embora. -Obrigada, Travis. Seu pai e Alison esperam na mesa da cozinha, passando por eles com a toalha vermelha colocada estrategicamente para esconder a ereção. Quase bato na cadeira, em que ele está. Eu não posso sequer imaginar um pai que se preocupa da mesma maneira que o pai da Harper faz. - Ela está bem? - Esta confusa. Estava esperando que você e Harper se juntassem a nós para comer sushi. - disse ele. - Então, vocês podem conhecer Alison. - Eu não faria isso. - Eu não digo que a imagem deles se beijando provavelmente ainda está queimando suas retinas. - Ela achou que isso aconteceria algum outro dia. Ela precisa de certo tempo para adaptar sua cabeça para a ideia. - Obrigado, Travis. - Ele aperta minha mão. - Você é um bom homem. Duvido que dissesse isso, se soubesse que estava a caminho de tomar uma ducha fria.


Capítulo 10 Uma montanha de caranguejos com pernas quebradas conchas de ostras vazias e peles de camarões descascados estava no meio de uma mesa na varanda do hotel com vista para o Golfo. Temos comido um monte de frutos do mar que foram entregues por cottage Pincher e se o número de garrafas Corona com limões espremidos no fundo é qualquer indicação, nós matamos uma caixa de cerveja. Estamos todos um pouco queimados de sol, e muito mais do que um pouco bêbados. Kevlar me pergunta por que ainda não passou. -A noite é uma criança, e no piso térreo é um bar cheio de mulheres jovens e atraentes. - Ele sai do banheiro com uma camisa xadrez e jeans novo, eu me pergunto se as etiquetas ainda estão presas. -Olhe. Indo para o rodeio, Kenneth? – Digo -Droga sim. - Sorrio-Eu vou encontrar uma mulher, agarra-la e mover os quadris como se estivesse montando um touro e acenando com o chapéu de cowboy no ar-, Yu-hu! Moss riu. -Meu dinheiro diz que não vai durar os oito segundos. Eu bati com um soco nele. -Foda-se, rapazes- Kevlar diz. - Hoje é à noite. O que eu posso ser. Quem vai?- Ele olhou para Harper, e gemeu-. Sozinho, espera estas palavras da minha boca, mas você, meu amigo, são afligidos. Eu apontei minha garrafa de cerveja para ele, apertando os olhos, um olho como se estivesse apontando. -Não me faça ir até aí e chutar o seu traseiro. - Só estou dizendo. -Sim, bem, vamos examinar os fatos, ok? Eu digo. Estou aqui com uma menina, que passa a ser incrivelmente quente. -Harper fica rosa-, enquanto você está vestido como um idiota, do Tennessee, na esperança de, possivelmente, consiga algo bom. Harper pode me rejeitar esta noite, amanha a noite e a noite depois disso e ainda tem mais chance de dormir com alguém, e você permanece inato. Vimos Kevlar sorri, e então começamos a rir. Logo todos nós estamos rindo, exceto Harper, quem olhava intrigado. -Vocês são tão mal, uns com os outros.Diz ela, depois disso rimos mais.


É verdade. Dizemos coisas ofensivas entre nós. Racista. Homofóbicos. Insultar as mães do outro. Às vezes, ocasionalmente nos leva a brigas de rolar no chão, mas geralmente nós rimos porque sabemos que podemos dizer isso. Cada um de nós receberia uma bala pelo outro. - Então vamos sair ou o quê? Kevlar pergunta com o cigarro Skoal no seu lábio inferior. Moss dá de ombros. Vamos. -Sim, diz Harper. Kevlar tenta cobrir o braço em volta dos ombros enquanto caminhamos pelo corredor até o elevador, mas é um pouco difícil considerando que é cerca de quatro centímetros mais baixo do que ela. -Você sabe -ele diz-não é tarde demais para lançar-se apenas ao meio-fio. - Por que eles chamam? , Ele pergunta. -Sabe como em Star Wars, pouco antes de as paredes do triturador de lixo estar prestes a começar a fechar, Han Solo diz: “Eu tenho um mau pressentimento sobre isso”. Harper concorda. -Bem, é escuro como breu no Stan – diz Kevlar. E estão embarcando em helicópteros que vão sair no meio de Bumfuck Oeste, onde Deus sabe quem vai nos atirar. E fora de Stephenson nada diz "eu tenho um mau pressentimento sobre isso”.

-Nós estávamos morrendo de fome e com medo, Moss acrescentou. Mas sempre que um de nós iria repetir, nós começávamos a rir de novo. Lembro-me da sensação de pesadelo quando o helicóptero nos deixou lá no escuro desconhecido, coberto de nossa primeira camada de sujeira, incapaz de fugir. Incapaz de mudar sua mente e ir para casa. Minha piada não foi profética. Incapaz de mudar sua mente e ir para casa. Rodamos um par de casas, cercamos um punhado de supostos bandidos, e quando o sol saiu, nós nos sentimos duros. E eu estava permanentemente Han Solo. Eu me movi entre Kevlar e Harper, colocando meu braço em volta dela. -Também me chamam apenas - digo contra o pescoço dela, fazendo-a tremer, porque eu sempre quis ficar com essa garota. Ela me olha de soslaio. -Han Solo era algum tipo de idiota. Kevlar ri e cospe o suco de tabaco na boca de uma garrafa de cerveja vazia.


- Ela está certa. Ele é o único que interferiu com o Império antes que Luke Skywalker explodisse a Estrela da Morte- Protesto. - Ele é um herói. -É um canalha. - Harper sorri enquanto pressiona ao lado das portas do elevador, e sorri de volta, porque ele conhece Star Wars. -Você gosta de mim porque eu sou um canalha, eu respondo, citando ofilme. Não há canalhas o suficiente em sua vida. O elevador para e as portas deslizantes abrem. Harper olha para mim, Moss, então, depois para Kevlar, e ri. -É tão verdadeiro. O clube lá embaixo é surpreendentemente cheio para agosto. Só que nenhuma das mulheres daqui é jovem e atraente. Está cheio de pessoas com roupas tropicais da meia-idade movendo-se, você pode chamá-lo de Jimmy Buffett da banda tributo aFloridays. -Lotes de belas damas aqui esta noite, Kenneth – Digo. - O que vai ser? -Se você gostaria de um puma, seria a sua mãe. - Por quê? Cansado de vocês? Ele me ignorou. -Este lugar é horrível. Onde mais podemos ir? Caminhamos até o centro. Os amigos de Harper estão em uma mesa perto do bar. Gritos e Lacey faz um caminho mais curto em nossa direção instantaneamente, suas botas de cowboy espancado no chão durante a caminhada. Kevlar se ergue para observar - saia jeans curta, mas seus olhos estão fixos no âmbar, cujo cabelo é tingido de uma cor muito semelhante... - Amigo, não. Ela é o Tour de France. São rodas de treinamento. Não está pronto para Amber Reynolds. - Amigo, sim-Diz ele. - Harper! Travis! Lacey nos atinge, empurrando-nos para a sua mesa, mas o seu sorriso vai para... Moss? Não é que eu tenho um problema com isso, porque ele é bom de olhar, você sabe um menino. É que este não é o caminho que espera que seja tudo, se ele estava em tudo. Então você vai apresentar os seus amigos? Eu faço as apresentações, então eu vou para o bar e peço um jarro de cerveja. Enquanto o barman está enchendo, eu olho para trás para a mesa, onde Lacey esta com o braço ao redor de Moss, e de aparência nervosa Kevlar fala com Amber. Louco.


Harper se junta a mim. -Então, nós estamos em um universo paralelo? Eu digo. - Porque eu não tenho nenhuma ideia de quem é esse cara. -Ele está muito bêbado, diz Harper. Olhe para o chão, em seguida, para mim. Essa coisa me deixa cada vez mais tímido, mesmo quando Paige fez e sabia que não era real. Mas Harper... Não é um movimento calculado para esquentar. É verdade. E é ainda incrivelmente eficaz. -Você, uh, você quer ir dar uma volta? - Pergunta. Este poderia ser um convite para ir a uma caminhada, ou algo mais. De qualquer maneira, estou dentro. Mesmo que isso signifique caminhar para Bonitas Molas e costas. -Claro. -Estamos de volta, e Harper coloca a jarra na mesa. Eu pego no meu bolso da calça uma tira de três preservativos. - Tenha cuidado. Divirta-se. Não faça nada que eu não faria. Kevlar olha para mim com um sorriso de merda. - Então isso significa que pra sua mãe é um sim? Eu bato na parte de trás de sua cabeça, em seguida, entrelaço os dedos com Harper. - Nós somos daqui. Atravessamos uma pista de acesso à praia, onde deixamos nossos sapatos para trás. A areia é fresca e úmida entre meus dedos, então nós caminhamos para o cais da praia e lojas de pescas. - É um bolso cheio de preservativos? -Pergunta. Você acha que você precisa de um monte hoje à noite? -Eu comprei para Kevlar. Apenas no acaso. Harper se inclina para um olhar cético para mim. - Sério? -Eu garanto que ia colocar na sua carteira, mas não deu tempo, - eu digo. Eu sabia que eu não iria pensar sobre isso até que fosse tarde demais. -Isso foi um pouco... Bom. Eu ri -Sim, bem, eu sou algo como um cara legal.


- Você manteve alguma para você? -Não, eu digo. Devo fazer isso? Ela balança a cabeça. - Isso é certo? Eu dou de ombros. -Eu não tenho pressa. Passeamos, parando para olhar para um mágico que executa para um grupo de turistas alemães. Depois de comprar cones sorvete no Dairy Queen, voltamos para o Time Square para chegar à rua. - Quer que eu te leve para casa? - Eu não quero ir para casa. - Harper-tenho que dizer-lhe para enfrenta-lo, mesmo que seja chato, mas o que eu tenho problema de dizer ou o que fazer quando não tenho ideia de como lidar com o que me incomoda? -. Tudo bem -É só que, ao chegarmos lá no carro ainda está na forma de entrada... -Harper desaparece. Eu tenho um problema com Alison, mas um pequeno aviso teria sido bom, sabe? Concordo. -Isso é o que eu disse a seu pai.

- Sério? Seu rosto e sua voz suavizaram e a beijei ali mesmo na esquina da rua. Até que um carro passou buzinando e alguém grita que devemos obter um quarto. - Quer voltar para o hotel? Eu pergunto. - E se o quarto estiver ocupado...? Tremo só com a imagem mental de Kevlar e Amber, e Harper faz uma cara como se ela pensou o mesmo. -Sim, não tem problema- eu digo - Vamos à minha casa. O sol brilha através das ripas das persianas quando eu abri meus olhos na manhã seguinte. O relógio na mesa de cabeceira mostra eu ter dormido mais desde que me lembro de antes de ir para o campo de treinamento. E eu me sinto bem. Descansado. Como se... Dormi a noite toda.


Sem insônia. Sem pesadelos. Sem pílulas. Sem Charlie. -Hey. A voz de Harper é rouca de sono ao meu lado, com o braço no meu peito. Paige nunca passou a noite inteira, ela sempre fugiu antes que minha mãe acordasse, e nunca trouxe ninguém aqui. Na noite passada, eu fiz coisas com Harper. Eu pulei quando eu tinha quatorze anos, e Paige fez sexo com cavalo no celeiro atrás de sua casa. Não que eu me arrependa. Eu não. É só que... É como se estiver com Harper eu voltasse a fazer essas coisas. - Bem-vinda de volta - eu digo. - Me deu uma boa noite de sono. - É isso que as crianças têm vindo dizer sobre mim todos esses anos? -Sim, eu li sobre o banheiro no vestiário. Ela boceja, ri. - Que horas são? Eu pego meu telefone. -Quase dez. - Oh, não! -Harper corre para fora da minha cama e amarra o cabelo. Eu estou atrasada para o trabalho. Minha mãe está na cozinha quando descemos. Suas sobrancelhas erguem quando ela vê Harper, então ela me agarra com um olhar de raio da morte silencioso de re-provação: Travis Henry Stephenson é melhor não ter feito o que Eu acho que vocês estavam fazendo. Não com uma menina doce como Harper Gray. -Harper, diz ela. Que surpresa. -Sim, uhm, é bom vê-la, Sra. Stephenson. O rosto de Harper é rosa de vergonha, apesar de que não tem nada do que se envergonhar. -É uma longa história, eu digo. Temos que ir. Deixo Harper no Waffle House e me junto a Kevlar e Moss na praia. Moss está dormindo em uma cadeira, mas Kevlar esta com uma cerveja na mão. Eu rio de sua Afghani-tan 37, rosto e pescoço bronzeado e branco em todas as outras partes, mas eu tenho um também. Charlie era o único que apelidaram o Afghani-lo. -Você perdeu uma grande noite, é só o que ela diz. Fomos para este clube chamado Fantasy. Você


sabia que Amber é uma dançarina exótica? Eu não estou surpreso. Tirar a roupa por dinheiro é um conjunto de habilidades. Tirei a camisa e eu peguei uma cerveja nas profundezas da geladeira. -Cara, ela é uma stripper. -Não seja um inimigo, apenas porque sua namorada é uma deusa, diz Kevlar. Amber é uma menina muito sensível, se você sabe o que estou dizendo. -O que você está dizendo é que provavelmente pagou 60 dólares por três horas, em seguida, voltou para o hotel apenas para liquidar estoques. -Foda-se. - Será que você vai fechar o negócio ou não, Kenneth? - Eu não acho que quero dizer a você agora. - Cruzou os braços sobre o peito magricela sardento, com toda sua raiva, e empinou o nariz, fingindo me ignorar. - Kevlar, cara, eu pensei que nós éramos MAPS - digo. Moss abriu os olhos, mas dá uma risada. Ainda tenho a minha metade do colar, e na noite passada eu escrevi em meu diário: “Querido Diário, Kenneth é meus MAPS. Espero que se ele mentir, porque é uma noite especial, quando um homem perde a virgindade econtrai uma doença sexualmente transmissível ao mesmo tempo". - Hey! Eu usei uma camisinha. – Vai a merda. Explode um sorriso em seu rosto, e eu sei que ele quer contar todos os detalhes, mas só... Não. Não preciso desse pesadelo. -Oh, Moss, o nosso menino é um adulto. - Eu balanço minha lata. Devemos comemorar. -Solo. - Kevlar salta para fora de sua cadeira. Não. Ele corre ao longo da praia em perseguição, mas não é mais rápido do que eu. Eu o pego, dou um forte abraço e jogo cerveja em seu rosto. -Parabéns, amigo. Já era o maldito tempo. Nós saímos na praia por um par de horas, até os meus amigos tem que voltar para a Carolina do Norte. Sento-me na sala com eles enquanto arrumam a bagagem. - Eu voltaria, também, eu digo. - Será que você tem algum tempo para a família, você pode esperar? Solicita Moss. Eles não sabem que Peralta "sugeriu" a minha licença extra. Ou que Charlie única pessoa que poderia


falar sobre tudo isso é parte da razão de eu estar aqui. 'Yeah. -Eu amo minha mãe, ela diz. Mas depois de cerca de quatro dias que eu passei na maternidade é tudo o que posso tomar. Não chore, Solo. - Kevlar sai pegando todos os pequenos sabonetes e garrafas de xampu. Vejo vocês na próxima semana. - Qual é o próximo fim de semana? - Kevlar, homem, você não pode dizer? Kevlar-Moss ataca a parte de trás da cabeça, em seguida, vasculha através de sua bolsa. Ele retira um envelope de cor creme e me dá. Todos os recebem. Se você tem o seu e-mail enviado, é suscetível de vir todos os dias. Dentro é um cartão que combina com cartão de creme. Um convite.

Em memória LCpl. Charles Thompson Sweeney Ele solicita a honra de sua presença em um serviço memorial. Sábado 14 de agosto às cinco horas O Quarto Branco. 1 Calle Rei St. Augustine, Flórida

Minha boca está seca, e quando eu engulo, sinto como uma lixa preso na minha garganta. Eu realmente não quero ir a um funeral, mas prometi a Charlie visitar sua mãe, e eu não fui ainda. Como você diz para a mãe de seu melhor amigo, que tudo o que você poderia fazer não era suficiente? - Este Marine está esperando para tocar o blues - Kevlar diz – sem calcinha. Moss bate na cabeça dele novamente. - Tenha um pouco de respeito. É um serviço memorial. Amigo, se vivo, Charlie seria a primeira pessoa a levar a situação para o sexo, diz Kevlar. Seria tudo o cazanovias38, estilo Navy. É um ponto justo. Charlie costumava brincar sobre a forma como eles iriam comprar um Coração


Púrpuro no ebay para que eu pudesse usá-lo para obter sexo com simpatia. -Acho que vou vê-lo na próxima semana, então. Eles deixam-me de pé no estacionamento do hotel, e estou tentado a entrar no bar, porque o único outro lugar que eu tenho que ir é minha casa. Mamãe encontra-se na ilha da cozinha quando eu chego. Eu rompo o papel caro, apesar de eu saber o que você disse, tem um bilhete dobrado fora do convite. É a mãe de Charlie

Caro Travis, Espero que você esteja disposto a dizer algumas palavras no Memorial de Charlie. Enquanto eu estava abençoada por tê-lo em minha vida já o conhecia melhor. Ele chamou o irmão. Ele chamou o amigo. Eu sei que é pedir muito, e entendo se não quiser, mas, por favor, me avise quando você decidir. Sempre, Ellen Sweeney.

- Por favor, não diga, Solo. -Charlie está ao meu lado na ilha. Ela acha que eu sou um herói. Não tome isso. -Eu não vou. -Esfrego as palmas das mãos contra os olhos para manda-lo embora, mas ele ainda está lá. Mas você precisa ir. Quando eu abro meus olhos, minha mãe está me observando da porta. - Quem precisair, Travis? -Não- digo. - Não é nada. Dor de cabeça. -Mentira. Eu não voudizer à minha mãe que o meu melhor amigo que morreu estava falando comigo. Ou que eu estava respondendo. Realmente. Tudo está bem. Eu não sei se acredito, mas é preciso uma torta de limão inteira, o meu favorito da geladeira e a corto em pedaços. Ela estava um pouco surpresa ao ver Harper na minha escadaesta manhã. Espero que você não... -Eu não sou. -Não importa como eu disse, ela é realmente... -Eu dou de ombros. Eu gosto. É uma migalha, realmente, mas a mãe está iluminada, como se fosse um pão inteiro. Ela desliza uma pequena fatia no prato para ele.


-Eu sempre soube que você conseguiria algo muito melhor do que Paige Manning. Rindo, curto, com o garfo na sobremesa. - Sim, bem, não sei se você está ciente disso, mas isso aconteceu com Ryan. - O quê? Não! - Estou surpreso que eu não conte para o papai. Eles foram feridos enquanto eu estava fora. Ela suspira. - Eu tento ser caridosa, mas desculpe. Eu não gosto dessa garota. - Como eu tinha essa impressão. Mamãe tem um olhar de resignação no rosto. -Bem, eu acho que se ela tem que... Conectar-se com uma das minhas crianças, que seja com Ryan. Minhas sobrancelhas são levantadas. - Oh? Eu sei que uma mãe não deveria ter favoritos, e eu amo os dois, mas eu sempre queria mais. Ela varre seu dedo através do chantilly em parte superior do bolo. No início, isto me surpreendeu. Por que todas as vezes que ela estava lá, enquanto o pai ia pra casa para outra coisa, eu nunca imaginei. Eu era o seu favorito. - Embora eu seja uma decepção? -Você não é uma decepção, ela diz. Travis, você levou tudo o que seu pai deu enquanto tomava banho e nunca se queixou. Lágrimas formaram-se seus olhos. Eu podia ver o quanto você odiava, mas parecia tão importante para ele eu não interferir. Desculpe. Eu dou de ombros. -Tudo bem. -Eu fui vê-lo jogar futebol uma vez - ela diz. Depois que eu deixei o time de futebol, começou a jogar futebol aos domingos com o futebol mexicano em Kelly Road. Era muito mais divertido para apenas correr para cima e para baixo em um campo e não ter alguém gritando que eu estava fazendo de errado. Nenhuma análise do jogo então, qualquer um. Nós nos sentamos no capô do carro de alguém e paqueramos as meninas. Foi bom te ver...


- Por que você não o deixa? Ela pressiona os dedos contra pedaços soltos de biscoito de Graham no balcão, em seguida, coloca no meu prato vazio. Você está indo para a Carolina do Norte em breve, e Ryan vai para a Pensilvânia. No final deste mês, diz ele. Apenas... Eu acho que tenho medo de ficar sozinha. - E estar com o cara que te traiu é melhor? Jesus, mãe, não vou permitir. Por um momento, apenas olhe pra mim. Através dos anos, eu ignorava quando ela estava me incomodando, mas eu nunca fui desrespeitoso, tudo mesmo quando ele me deixou com raiva. -Isso não é o Afeganistão, Travis. Sua voz treme, e eu posso dizer que é. Eu machuquei. Eu me sinto mal sobre isso, mas ela precisa ouvir. Talvez você possa conversar com seus amigos dessa forma, mas aqui... -Isto não é sobre a minha escolha de palavras - eu digo. Eu sei que o meu caminho, o Afeganistão foi difícil para você e realmente, realmente sinto muito, mas isso não é desculpa para ele andar em cima de você, mãe. Eu sinto que é minha culpa quando... Não é culpa sua. -Eu sei que não é, digo eu. Mas não é sua culpa, também. Levo o convite do memorial fechado, embora que o conteúdo tenha sido lido. Eu não sei Travis. Quando olho para trás, talvez negligenciasse ele e Ryan. - Por que enviar pacotes e suporte de cuidados de outras mães Marine? Eu peço. Eu acho que meu pai e Ryan foram os únicos que foram apoiá-lo. -Mas... -Não. -Empurre a placa. Nada de mais. Eu terminei. Se você quiser continuar fingindo que ele é um cara bom, vá em frente. Mas não espere que eu faça o mesmo. -Travis... Ignorando-a, eu vou para o meu quarto. No caminho, eu ligo pra Harper. - O que você vai fazer neste fim de semana? Pergunto, fechando a porta do meu quarto. - Trabalho. - Você acha que pode se livrar dele? - Meu computador emite um som quando ligo. O que posso dizer sobre Charlie no serviço? -Possivelmente. Por quê? -Há um memorial para Charlie St. Augustine. Você pode ir comigo? -Eu tenho que perguntar ao meu pai. Eu tenho certeza de como você se sente sobre...


-Diga a ele que você vai ter o seu próprio quarto. Em um andar diferente de mim, se isso faz você se sentir melhor. Tudo o que ele quer Harper. Nada. Você só pode vê? Por favor? Eu nunca pedi a uma menina, por nada na minha vida, mas nada sobre este memorial ia ser fácil. Com Harper lá... Eu não sei. Pode não ser tão ruim. - Deixe-me fazer algumas chamadas para cobrir o meu turno, diz ela. Se eu puder fazê-lo funcionar, eu vou. Em seguida, sob a mãe de Charlie. -Sra. Sweeney é Travis Stephenson. -Oh, Travis. Ela suspira. Na esperança de ouvir de você. “Sim, senhora, uh, só queria dizer que eu vou estar no Memorial e eu posso falar sobre Charlie sim”. -Isso significaria muito para Jenny e eu. Sua voz está presa na garganta e eu percebo o quão ruim quanto foi à morte de Charlie para mim, tem que ser um milhão de vezes pior para ela. Precisa de um lugar para ficar? Você está convidado a ficar conosco. -Não, obrigado, senhora, já reservei um quarto. Lamentações de lágrimas. -Estou ansioso para conhecê-lo, Travis. -Eu, hum, obrigado. -Vejo você no sábado. Desliguei a chamada e olho para a tela do computador em branco, desejando que as palavras fossem escritas por elas mesmas.

Charlie Sweeney foi...


Capítulo 11 Horas depois o cursor continua piscando pressionado no final das mesmas três palavras e não estou perto de descobrir o que escrever. Eu desisto de tentar e caio sobre a cama. Meus olhos estão fechados quando a porta range, mas não os abro para ver quem é. Eu já sei. - Vá. - Quê? - Diz uma voz feminina - Agora você não está falando comigo? Merda. Não estou com humor para lidar com Paige. A cama afunda um pouco quando ela se senta na borda e seus dedos tocam no botão da minha bermuda. Posso sentir meu corpo responder a ela, como sempre faz, mas meu cérebro não está mais jogando. Embora Harper não seja oficialmente minha namorada, se soubesse sobre isso, ficaria ferida. Ou zangada. Provavelmente ambos. E, pela primeira vez na minha vida, eu me importo. Meus dedos fecham em torno do pulso de Paige, detendo-a. - Não. Ela ri de mim de uma forma tipicamente condescendente. - O que há em Harper Gray que te faz tão diferente? - Por que se importa? Você me deixou por Ryan. - Eu não sou ciumenta. - Ninguém disse que você era – digo - Mas continua aparecendo no meu quarto no meio da noite, quando o seu namorado está no fim do corredor. - Você pode ser tão estúpido às vezes, Travis – diz – Supõe-se que tentaria voltar comigo. Sempre volta. Resmungo e olho para cima. Ela está chorando. Não lamentando completamente nem nada, apenas uma lágrima escorrendo por sua bochecha, algo que nunca vi antes. Ela solta um suspiro. - Exceto que foi direto para Harper, assim como fez no secundário. Estou confuso. - Então, espere... - Não - Paige enxuga os olhos com a parte inferior de seu top - Cale a boca. Sei que a única coisa


boa que tivemos foi o sexo. Acho que uma vez quis que me quisesse do jeito que você deseja ela. Às vezes, as meninas não fazem sentido. - Do que você está falando? - Eu vim ontem à noite - diz - Você estava dormindo com ela, e todas as suas roupas estavam no lugar, e... Você a ama. - Não... Você, uh... - tropeço com minhas palavras - Não me ama, Certo? Ela ri. - Jesus, você realmente é um idiota. Não, eu não te amo. Mas seria ótimo se você meamasse. - Como Ryan? Paro de rir, sabendo que eu tenho razão. Meu irmão é louco por ela de um jeito que eu nunca fui. Nunca serei. Paige teve uma série de idiotas apaixonados que não perceberam que ela nunca os amou. Embora Ryan e eu não estivessemos inteiramente bem, ainda assim é meu irmão. Não gosto da idéia dele acabar como um desses idiotas. - Ele é muito melhor para você do que eu. - Eu sei. Eu ouço a dúvida em sua voz. - Mas? - Ele não é você. - Bem, de jeito nenhum – digo, o que faz ela se lamentar, rindo - Mas se você não estiver interessada em Ryan, não brinque com ele. Deixe-o em paz. Ela me bate com o ombro. - Se as coisas não derem certo entre você e Harper... - Saia daqui –rio -Tenho coisas para fazer. Paige se inclina e beija minha bochecha. - Nos vemos Trav. Abre a porta do meu quarto e Ryan está de pé no corredor. Por acaso. A única vez que nada acontece entre Paige e eu, somos pegos. O rosto de Ryan torna-se instantaneamente raivoso.


- Mas o que...? Lança-se sobre mim, batendo com as mãos no meio do meu peito, e me empurra contra a parede. Escuto cair algumas das fotos na parede e a cabeça do percevejo pressiona minhas costas. Isso acontece tão rápido que ainda estou tentando processar o fato de que Ryan se aproveitou de mim quando seu punho se conecta com meu olho. O mesmo olho que Harper atingiu. - Ryan, pare! - Paige agarra seus braços e tenta afastá-lo, mas ele se livra dela e inclina seu punho para me bater de novo. Eu empurro, mas o idiota estúpido se volta contra mim novamente. Um golpe? Certo. Eu merecia isso. Mas não vou ser seu saco de pancadas pessoal. Não quando ele começou isso. Abaixando meu ombro, golpeio seu peito. Me agarra e batemos no chão. Seus punhos batem em mim onde alcançam, mas tenho-o preso no chão. - Deixe-o ir – Meu pai agarra a parte de trás da minha camisa, apertando até que eu posso sentir o colarinho pressionando firmemente contra a frente de meu pescoço como um nó. Ryan dá um golpe final, acertando a lateral da minha cabeça com o punho. Que diabo está acontecendo aqui? - Nada. – Estico a mão para ajudar Ryan a levantar-se, mas afasta minha mão com um golpe - Apenas um mal-entendido. - Quero você fora daqui – diz meu pai – me apontando. - Dean... - Não, Linda – a interrompe e ajuda Ryan a ficar de pé - Desde que voltou para casa, Travis criou problemas: embebedando você, fazendo-nos romper com o nosso casamento, e esta não é a primeira vez recebeu Paige no meio da noite. Já tive o suficiente. Eles estão em pé em um grupo do outro lado do meu quarto. Eles contra mim. Exceto Paige, que parece que queria estar em qualquer lugar, menos aqui, minha mãe está mordendo o lábio. O braço do meu pai está no peito do meu irmão, contendo-o. - Bem, finalmente concordamos com algo - Pego minha bolsa colocando um monte de camisas da primeira gaveta da minha cômoda - Estou cansado disto. - Travis, espere. - Minha mãe dá um passo à frente. Fora da sombra do meu pai - Não precisa ir. Esta é a minha casa... - Sua casa? - Interrompe papai. - Será minha no divórcio, se você continuar a falar - diz mamãe abruptamente. Os olhos dele se abrem, porque ela nunca fala assim, mas ele deixa de falar - Travis não é o cara mau aqui, Dean. Ele passou a infância tentando preencher suas expectativas impossíveis e quando decidiu que não queria mais, você tratou-o como se ele fosse indigno. E me fez sentir como se estivesse errada por apoiar o nosso filho quando ele estava no meio de uma guerra. Você é o mau, Dean. Você. E eu tive o suficiente.


Eu tenho que fazer uma revisão mental para certificar-me de que minha boca não está entreaberta por que... Caramba, mãe. - Então, Travis não irá a menos que queira ir, e as coisas vão mudar por aqui – diz – Se quiser continuar casado comigo, terá que endireitar-se, e se não fizer isso, você tem que arrumar suas coisas e ir embora. Papai parece confuso, como se ele não pudesse descobrir o que aconteceu, mas não tenho nenhuma simpatia. Não quando estou tão orgulhoso da minha mãe. - Agora – diz - Vou voltar para a cama. Paige é melhor você ir agora, e Dean... Bem, o que você faz é problema seu. Boa noite. Sai com dignidade, deixando-nos ali em silêncio. A expressão do meu pai é assassina enquanto se agarra à sua insistência patética de que a culpa é minha. Seus punhos batem dos seus lados e sua mandíbula se contorce como se considerasse fazer algo. Encontro seu olhar. - Eu não faria isso. Ele sai do meu quarto, seus passos sumindo nas escadas, em vez do fundo do corredor até mamãe, como deveria ser. Covarde. - Ouça Rye... Digo. - Vá para o inferno. Paige não diz nada. Solta a chave reserva no final da minha cama e vai. Dor cruza o rosto do meu irmão - ele não vai ter a cortesia de uma carta de querido John para oficializar a separação - antes de voltar a endurecer de raiva. - Por que você fez isso? - ele não olha para mim. - Fazer o quê? - Dormir com a minha namorada. - Por que você dormiu com a minha namorada? - Você tem tudo, Travis - diz. - O que exatamente eu tenho que você não tenha tomado Ryan? – pergunto – Sai com meus amigos, dirige meu carro e rouba minha namorada enquanto estou no Afe-ganistão. O que mais quer de mim? Tenho pesadelos que me mantém acordado durante a noite. Você é fodidamente bem-vindo para leválos. Ryan não diz nada por um momento. Simplesmente olha para o chão. Mas quando me olha, seu rosto ainda é duro.


- Posso tirar mais - diz ele – Conte para Harper ou eu contarei. Merda. Quando se vai e estou sozinho, volto para o meu computador e as palavras ainda estão lá esperando. O cursor piscando. Charlie Sweeney foi... Não há maneira que vá pensar em alguma coisa hoje à noite. Não com a ameaça de Ryan pairando sobre mim. Fecho o computador e vou para a cama. Estou andando por uma estrada em Marjah, enquanto o encarregado da mesquita convoca os fiéis para a oração. Um cachorro cor de barro levanta a cabeça para olhar nossa patrulha passar. Primeiro eu, depois Charlie e Moss. Peralta está atrás deles. O cabelo no meu pescoço fica em estado de alerta. Algo não está certo. Mas quando eu tento gritar com meus amigos, minha voz não sai. Minhas mãos não se levantam para avisá-los. Sinto como se meus pés estivessem enraizados no chão. Charlie dá um passo em frente, seu pé aterrissando na placa de pressão de uma bomba, escondida na base de uma árvore, crivando seu corpo e ele cai. O movimento volta de repente aos meus membros, mas quando o alcanço o mundo cai. Sou o que está no chão, não Charlie. Sou o que metralharam o que envia uma dor latejante através mim. Sobre mim está um garoto afegão. Um que vi antes nas ruas, implorando por tudo o que temos para oferecer. Sorri pra mim enquanto morro. Meu sangue está batendo nos meus ouvidos enquanto eu estou no escuro com apenas um sonho, apenas um sonho, apenas um sonho repetindo em minha mente como um mantra. As palavras não ajudam. Não podem apagar o pesadelo. Alcanço o frasco de comprimidos na mesa de cabeceira e depois de tomar dois, ligo para Harper. - Travis? - Sua voz é rouca de sono. - Esqueci que estamos no meio da noite. - Você não deveria estar dormindo? - Eu tive um pesadelo, então eu estou acordado – digo – Acabo de tomar meu remédio. - Você quer que eu fique no telefone até que você sinta sono? - Você se importa? Ela fica em silêncio por um segundo e me pergunto se está calculando mentalmente as horas entre agora e o momento que tem que se levantar para trabalhar. Quase desligo, assim pode voltar a dormir, mas, em seguida, diz, com a voz suave e baixa: - Não me importo. Harper falou por um tempo. Sobre as tartarugas marinhas. Sobre como está pronta para ir para a


faculdade e como seu pai sentirá falta quando se for. Sobre a armadilha de caranguejos que mantém no canal atrás de sua casa. - Dependendo da época, temos caranguejos azuis ou cor de pedra – diz - Normalmente fervemos e congelamos a carne até que tenhamos o suficiente para pastéis de caranguejo. Ou às vezes fazemos salada de caranguejo ou Pasta Alfredo. - Eu gosto de caranguejo - Estou ficando cansado e isso está me fazendo falar como uma criança de três anos. - Eu também - diz ela - É o meu favorito. Talvez...Talvez te faça pastéis de caranguejo. - Tudo bem - Um bocejo me oprime. - Travis? - diz. - O quê? - Doces sonhos. - Espero que sim - Estou muito cansado dos maus. - Conversamos amanhã? - Tudo bem - Sinto uma onda de sono chegando. Daqueles que levam as palavras se não as disser Eu realmente sinto muito. Provavelmente pensa que estou pedindo desculpas por acordá-la, mas antes que possa dizer que é pelo que aconteceu com Paige, ela sussurra boa noite e desliga. Pelo menos eu acho que ela fez. Não tenho certeza porque estou dormindo.


Capítulo 12 O sol mal tinha se posto no horizonte, alguns dias depois, quando deslizo o Jeep na calçada da casa de Harper. Ela está esperando no balanço do alpendre com uma mochila amarela. - Ei, você! Chama sobre o barulho do motor, enquanto puxa a mochila nas costas e cai no banco do passageiro. Sinto um cheiro de protetor solar enquanto se inclina para beijar minha bochecha. - Ei! Digo de volta. - Obrigado por ter vindo comigo. - Sem problema. - Eu não posso prometer que será divertido. - Tudo bem - Eu não posso ver seus olhos por trás dos óculos de sol, mas ela está sorrindo enquanto torce o cabelo em um coque. Ela fica tão bem com esse aspecto desalinhado - Nunca estive em St. Agostinho. E você? - Não. Ela está feliz e não quero desperdiçar isso falando sobre Paige. Ela vai ficar com raiva. Agora seria o momento perfeito e assim teria uma oportunidade de sair do jipe e deixar-me. Mas não quero que isso aconteça, assim dou ré cuspindo cascalho enquanto saio para a rua. - Trouxe música - Harper procura na bolsa e pega o iPod - O que você quer ouvir? - Escolha você. Ela conecta o iPod ao aparelho de som com uma daquelas fitas falsas e escolhe uma banda de reggae que eu nunca ouvi falar antes. Harper canta seus pés descalços apoiados no painel, e gostaria de correr por ali com ela, longe de Paige e Charlie e do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos. Eu paro para abastecer em RaceTrac um pouco antes da Interestadual. - Vou comprar Coca-Cola - diz Harper enquanto afundo os botões da bomba de gasolina. Quer uma? - Sim, com certeza. Estou encostado ao lado do jipe, esperando o tanque encher, quando ela sai. - Eu tenho uma coisa para você - diz. Das suas costas, pega um saco de Skittles e esfrega na minha cara e me deixa nocauteado, não só por


lembrar meu doce favorito, mas por comprar pra mim. Paige nunca fez nada parecido com isso. Com uma mão pego a sacola. Com a outra, envolvo meus braços ao redor de sua cintura, puxando-a contra mim e a beijo. O trinco trava na bomba de combustível, quando o tanque está cheio e ela desliga, mas não paramos de beijar até que uma voz vem através do pequeno alto-falante na bomba, perguntando se terminamos de encher o meu veículo. - Wow – Harper respira. Suas mãos estão sob minha camisa, espalhadas nas minhas costas, então eu tenho certeza que ela está envolvida, tanto quanto eu - Deveria comprar Skittles com mais freqüência. - Você não tem que comprar nada meu amor – digo - Eu vou te beijar gratuitamente em qualquer hora que quiser. Assim que as palavras saem da minha boca desejo colocá-las de volta para dentro: “meu amor?” Jesus, ela provavelmente acha que sou um idiota. Porque sou um idiota. Mas ela não parece ter medo da palavra com “A”. Ela sorri. - Eu já sabia sobre isso, Travis - Ela entra de volta no jipe - Eu li na parede do vestiário das meninas. - Isso - eu digo com uma risada - não me surpreende. É quase impossível falar quando se dirige a mais 120 km/h na Interestadual, assim nas próximas horas Harper mantém a música em ordem aleatória e canta. Não estou tentando ser um bom cantor, mas na escola, Eddie e eu metemos na cabeça que íamos começar uma banda, com ele no baixo e eu na guitarra e vocais, e nós poderíamos encontrar um baterista. Era uma banda de punk, assim achei que não teria que cantar bem. Fomos em direção ao centro da Flórida, através de cidades que nunca ouvi falar, passamos por fazendas e laranjais e árvores que não são palmeiras, até chegar aos arredores da Disney. No caminho encontramos restaurantes, hotéis e atrações turísticas, e o tráfego aumenta, já que principalmente no verão não há como escapar do Mickey. Uma vez que estamos do outro lado, a paisagem muda novamente e os sinais verdes da estrada nos dizem que estamos perto das praias. New Smyrna. Daytona. Ormond. Os quilometros nos cercam até St. Augustine e começo a pensar em Charlie. Eu perguntei a ele uma vez, quando estávamos escolhendo as melhores partes de nosso CPC, por que ele foi para a Marinha. - Foi o comercial deles que me pegou, homem – disse, cavando com uma garfada o sanduíche até sua boca. - Você sabe aquele que o cara vai para a piscina e, em seguida, sai da água marchando? Eu não tinha idéia do que ele estava falando. Eu nunca prestei atenção nas propagandas de recrutamento na televisão e não tinha sequer considerado alistar-me até o dia em que entrei no escritório do recrutador. Não tinha idéia do porque as maiorias dos caras se inscrevem e sãoenviados para o campo de treinamento algumas semanas mais tarde, da maneira que eu fiz.


- Minha mãe é uma garota hippie - disse Charlie - Sempre falou que eu deveria tirar um ano sabático entre o ensino médio e a faculdade para me encontrar. Eu acho que ela estava esperando que eu virasse um mochileiro pela Europa ou vivesse em um monastério budista na Tailândia. Assim quando estava assistindo Tv um dia e esse anúncio passou, comecei a pensar sobre quão legal seria virar um fuzileiro naval. Moss, que estava conosco, enquanto nós comíamos sacudiu cabeça e murmurou: - Idiota. Charlie riu, porque nunca se sentia insultado. Ele sempre foi assim. A única coisa que o deixava fora de controle era se os outros caras zombassem que sua mãe era lésbica, mas eu era o único que sabia. - Então, quando fui até ela e falei: "Mãe, eu vou virar um fuzileiro". Ela ficou completamente chocada, porque era uma pacifista do tipo abraça-árvore, mas ela disse: “Bem, se é isso que você realmente quer”...mas Charlie, você não quer ir à busca de uma visão ou algo assim? Eu conheço um cara no Novo México. Ele tem peyote . Ele riu de novo, com a boca cheia de comida. - Minha mãe é a única mãe do planeta que oferece ao filho drogas para mantê-lo fora da marinha. Passou um pouco da hora do almoço, quando chegamos a St Augustine pela estrada. Sinto meu rosto ficar ardido contra o vento e o sol, e a ponta do nariz de Harper está um pouco rosa. Minhas entranhas ficam enroladas por estarmos aqui, mesmo que o funeral não seja até mais tarde esta noite, e ainda penso, se acaso houver, uma maneira de dizer a Harper. - Você está com fome? Pergunto enquanto diminuo a velocidade da estrada para a cidade. - Com certeza. - Gostaria de um churrasco? - Ao lado da estrada tem um pequeno restaurante. O cheiro da carne assada fica no ar e meu estômago ronca em voz alta. - Eu acho que seu estômago já decidiu - diz ela - Mas isso parece bom. Entramos e pedimos as costelas, legumes e macarrão com queijo, na parte de fora tem um cardápio escrito com letras incompreensíveis. - Você quer sentar dentro ou fora? - pergunto. - Dentro - diz Harper enquanto sentamos em uma mesa piquenique - O ar condicionado faz com que eu me sinta bem. Tem razão, mas merda tem que tirar os óculos de sol. Porque seria estranho se eu não tirasse. E assim que tiro, ela percebe o olho roxo. - O que aconteceu com seu olho? - Entrei em uma briga com Ryan.


- Por Paige? - Por que você acha isso? Ela pega uma costela. - Porque se você entrou numa briga com seu irmão, o mais provável era que fosse uma coisa de família ou Paige. Eu fui com a lógica. - Eu, uh..., eu tenho dormido com ela desde que retornei. Ela deixa a costela e começa a recolher toda a comida da bandeja que trouxemos do bar. Ela é muito rápida. Muito rápida quando está com raiva. - Harper, não quis dizer... - Não fale - Sua voz é baixa e controlada, enquanto fica de pé com a bandeja. Calma, para não chamar a atenção - Ou eu vou vomitar meu almoço em você e seria um desperdício de boa comida. Eu vou para o Jeep. Levanto-me, mas ela me interrompe com um olhar tão afiado que caio para trás no banco. Meu estômago ronca novamente, lembrando-me que ainda tenho fome, mas entreter-me no meu fodido almoço seria um movimento de merda. Acima de todos os outros que eu tenho feito desde que a conheço, quero dizer. Da janela vejo-a sentada no banco do passageiro com a bandeja em seu colo. Ela não olha para mim. Tento pensar uma maneira de consertar as coisas. Mais uma vez. Ela ainda está no jipe quando eu saio, mas a bandeja desapareceu, e ela sai do seu caminho para me evitar. Verifico as indicações impressas do computador para o hotel e depois ligo o motor. - Por quê? – diz Harper, enquanto me jogo no trânsito. Primeiro acho que está perguntando por que eu dormi com Paige, mas, em seguida, continua. - Por que você me trouxe todo o caminho até St Agostine e, em seguida, disse que dormiu com sua ex-namorada? - Se eu tivesse dito em casa, você não teria vindo. - Você é um idiota, Travis - ela diz - E sou uma estúpida por achar que você pudesse sentir o mesmo por mim o que eu sinto por você. - Eu sinto. - Não, você não sente. Porque eu nunca faria isso com você. Então, estou derrotado. Como uma ferida aberta. Ela poderia ter atirado em mim e seria menos doloroso. Eu sei disso. Eu já fui baleado. Só que sobrevivi. - Harper, desculpe - digo.


Ela não respondeu, mas realmente não estou esperando uma resposta. Eu disse um monte de desculpas e posso ver como isso poderia colocar em cheque minha sinceridade, e estragar tudo com ela. Chegamos ao centro da cidade e é uma porcaria que ela não fale comigo, porque St Agostine é genial. Os prédios são antigos e históricos, alguns datando de 1700, bem como o musgo espanhol pingando carvalhos no parque que me fazem sentir como se estivéssemos em outro lugar que não a Flórida. Me pergunto se Harper gosta tanto quanto eu, mas não pergunto a ela. Em vez disso pergunto se quer que conduza de volta para Fort Myers. - E mostrar ao meu pai que você é tão estúpido como quando você estava na sétima série? – bufa Acho que não. Vamos para o hotel. Então você pode fazer suas coisas e eu as minhas até a homenagem em memória de Charlie. Merda - Eu não quero... - Eu não me importo com o que você quer - diz ela - O que eu quero agora é que me deixe em paz. - Mas... - Eu quero explicar. Dizer que o que aconteceu com Paige não significou nada. - Não, faça – diz - Porque se você tentar me dizer que isso não significou nada ou que só aconteceu porque não estávamos tecnicamente juntos quando você dormiu com Paige, eu vou bater na sua cara novamente. E isso é a coisa. Não há nenhuma boa razão para ter dormido com Paige. Eu não fiz para vingar-me de Ryan ou porque a queria de volta. Fiz apenas porque podia. E realmente não há desculpa para isso. Não nos falamos mais até chegar ao hotel, que é provavelmente o lugar mais fantástico que eu já vi. O lobby está cheio de cadeiras estofadas com couro, tapeçarias, lustres de ouro espanhóis e uma fonte de azulejos. Sinto-me como um camponês no palácio quando me aproximo do homem vestido de preto atrás do balcão de mármore da recepção. Ele levanta as sobrancelhas quando digo que tenho uma reserva, como se não pudesse acreditar, e por um momento me irrito. - Nome? - Ele pergunta. - Stephenson. Seus dedos clicam no teclado do computador. -Dois quartos – lê na tela - Uma noite. - Eu quero pagar o meu próprio quarto - diz Harper. - Harper... - Todo o tempo em que estive no Afeganistão, meu salário foi depositado diretamente em


minha conta bancária. Desde que gastei muito pouco dinheiro no ano passado, eu posso pagar estes quartos. Eles são caros. Demais para o que corresponde um par de quartos bem decorados, mas queria impressioná-la. Agora só quero fazer as pazes com ela. - Eu já paguei. Ela não diz nada, mas anda o mais longe de mim quanto possível enquanto o carregador leva nossa bagagem até o quarto andar. É estranho deixar alguém mais levar a minha bagagem. Além disso, meu saco empoeirado parece tão estranho em um hotel que parece um castelo espanhol. Paramos primeiro no quarto de Harper. Embora ela não diga nada enquanto entra, dá uma olhada pra mim antes de fechar a porta. Meu quarto fica ao lado do dela, com uma grande cama de ferro coberta com lençóis macios e encosto de ferro forjado, com vista para o Centro e para a Baía de Matanzas. Eu pego minha bagagem e penduro meu uniforme no armário e, em seguida, vou para a varanda. Na rua, uma charrete circula cheia de turistas, os cascos dos cavalos fazem barulho no pavimento. Harper aparece e o constrangimento enche o pequeno espaço entre sua varanda e a minha. Não há nenhuma razão pela qual não podemos estar aqui, mas é estranho. Quero pedir-lhe para dirigir por St. Augustine comigo. Ou na praia. Ou até mesmo ir a essa bobagem de museu de cera pela rua para assistir os falsos Michael Jackson e Michael Jordan. Antes que possa dizer qualquer coisa, ela entra.


Capítulo 13 São quase cinco horas quando bato à porta de Harper. Nunca antes eu tinha usado o uniforme azul de gala, assim como está engomado e cheira novo, e não tenho certeza se as medalhas e as insígnias de qualificação encontram-se de acordo com os regulamentos. Além disso, o revestimento é quente mesmo com o ar condicionado - e eu estou suando entre os dedos com estas luvas. Este uniforme poderia impressionar as meninas, mas é desconfortável. Especialmente em comparação com o meu traje de camuflagem, que tinha sido jogado fora com uma suavidade salgada. Estou puxando para baixo a barra da minha jaqueta, quando Harper sai para o corredor com um vestido preto que de alguma forma consegue fazê-la ser respeitada e sexy ao mesmo tempo a serviço memorial. Ela tem novamente o cabelo liso e as sandálias à deixa quase tão alta como eu. - Uau, Harper, você está linda. - Eu ofereço o meu braço quando um casal de idosos passa e espero que ela não me ignore. Eles nos olham e sorriem quando sua mão escorregou debaixo do meu braço. Seus dedos estão tremendos. - Obrigada. - Sua voz é calma como se não quisesse falar comigo, mas não querendo ser rude. O que é bom para mim. Lidarei com isso -. Você também. Quero dizer, você está linda. Você parece muito... Bem... Eu tenho certeza que eu pareci um idiota - e esta pode ser a única coisa remotamente agradável que ela me diga o resto da noite - mas não consigo tirar o sorriso do meu rosto. - Obrigada. A sala de banquetes está há alguns quarteirões de distância, por isso deixamos o Jeep no estacionamento e caminhamos pela Avenida King. Conseguimos muitos olhares. Kevlar tem razão sobre o efeito do uniforme a-zul nas garotas. Apenas entramos na sala de banquetes, a mãe de Charlie aparece. Ellen Sweeney se parece exatamente com seu filho. Sim, você sabe, Ellen era uma mulher de meia-idade, com grossas tranças pretas e usava um vestido vermelho estilo chinês apertado com dragões de ouro em toda parte. - Oh, Travis, você é muito mais bonito pessoalmente do que nas fotos. - Diz quando me alcança para tocar meu rosto - seu braço está cheio de pulseiras que parece nem mesmo ser capaz de levantá-lo então me dá um abraço -. Estou tão feliz em vê-lo. É bom ter você aqui. Eu envolvo meus braços em torno dela me sentindo desconfortável quando lhe devolvo o abraço. Ela cheira como um hippie. Há incenso ou algo assim. Isso faz cócegas em meu nariz e não é a coisa mais agradável que eu já tinha cheirado, mas a deixo me segurar o tempo que precisar. Eu estou me acostumando com abraços. Quando ela se afasta, seus olhos estão brilhantes de lágrimas. - Obrigada por ter vindo.


- Eu não perderia isso por nada - eu digo. A mãe de Charlie se vira para Harper e lhe aperta as mãos. - Você é adorável. - ela diz -. Eu sou Ellen. - Eu sou Harper. - Obrigada Harper por fazer companhia à Travis em sua viagem. Charlie me disse uma vez que a filosofia pessoal de sua mãe é algo como uma salada. Ela toma suas peças favoritas - um pouco de dogma aqui, um pouco de karma lá - até encontrar um prato extremamente estranho. Eu provavelmente deveria ter avisado a Harper, mas ela com a sua raiva de mim me esqueci. Harper não perde o ritmo enquanto sorri a Ellen. - Eu gostaria de tê-la conhecido em melhores circunstâncias - diz ela -. Sinto muito por Charlie. Ellen acaricia sua mão e toca seu rosto. - Se você me der licença. - Quando a mãe de Charlie se afasta para saudar alguém novo, dá uma olhada em Harper -. Alguém famoso - agora esqueci quem - uma vez disse que o coração tem razões que a própria razão desconhece. Isso nos dá em que pensar. Harper balança a cabeça em minha direção e me dá um olhar feroz com os olhos semiabertos. Como se eu tivesse algo a ver com isso. - Não me olhe. - levanto as mãos em sinal de rendição -. Eu acabo de conhecer a mulher. - Embora não tenha certeza se ela acreditava em mim. Do outro lado da sala eu vejo Kevlar, Moss, Ski e Starvin 'Marvin. Nós o chamamos assim - ou geralmente só Marv - porque ele é alto e magro e com sua cabeça raspada parece uma criança africana adotada pelas crianças de South Park. Eu não era tão próximo de Ski e Marv como era de Charlie, Kevlar e Moss, mas caminhamos juntos noite após noite no Afeganistão ao redor da fogueira, fumando, contando piadas e discutindo sobre as celebridades femininas mais quentes. Peralta também está com eles. - Charlie me disse que ela acha que tem como ela diz um toque de Percepção Extra-Sensorial - eu digo à Harper. - Ela é... Rara. – responde -. Mas eu gosto disso. - Sim, eu também. Harper segue a minha linha de visão e vê a maior parte da Companhia Kilo, um monte de uniformes azuis.


- Eu, uh, preciso ir ao banheiro - diz e me deixa sozinho para me juntar a meus amigos. No canto da sala há uma banda tocando uma versão reggae de uma das tristes canções dos Beatles e as pessoas que decoram a sala de estar estão vestidas de tudo, desde ternos de negócio, até as saias hippies tingidas com tornozeleiras de sinos. Há ainda uma mulher com os pés descalços. Ela tem cerca de meia dúzia de sacolas de compras em torno de seu braço e parece que ele não tomava banho há algum tempo, e que podia ser uma dama sem teto que a mãe de Charlie teria convidado para comer de graça. - Aqui está o homem. - Kevlar me bate nas costas quando me aproximo. Ele cheira a uísque. - Como está indo, Solo? Você trouxe o chicote? - Ele ri -. Porque você está chicoteado. Entendeu? - Isso foi frouxo, Kenneth - respondo enquanto eu dou a mão a todos -. Fale comigo quando você tiver algo original. - Tanto faz. Ele trabalha com a língua no espaço vazio onde sua imersão seria fazer sobressair seu lábio inferior -. Onde está a sua mulher? - No banheiro - eu digo -. Mas está um pouco com raiva de mim agora. - O que você fez? - Moss pergunta. - Entrei em contato com a minha ex. - A - Kevlar faz um grande sinal no peito - aquela ex? - Eu não poderia ter levado uma foto de Paige, mas isso não significa que eu não a tenha descrito. - Ela mesma - respondo. - Como ela soube? - ele pergunta. Meu rosto fica corado quando eu admito que eu a disse. - Mas... - Kevlar balança a cabeça para mim -. Para um cara inteligente, você consegue ser um idiota. Não lhe digo que eu não tinha muitas opções. - Não dê ouvidos - diz Moss -. Mexer com a sua ex quando você tem uma coisa boa é um movimento estúpido, mas dizer a verdade é uma coisa honrosa. - Honrosa porra nenhuma. - Marv se inclina para frente e me cutuca o peito com o dedo com cada palavra -. É simplesmente estúpido. O que os olhos não veem o coração não sente. Dito. - Então, se a sua garota tivesse te deixado quando estávamos em Cali no ano passado para o treinamento você não iria querer saber sobre isso? – Ski é sempre o advogado do diabo em uma discussão, especialmente com Marv que se trabalha facilmente.


A testa de Marv fica enrugada quando as sobrancelhas se juntam. - Sabe de uma coisa eu não saiba? Ski ri. - É hipotético. - Hipo- o quê? - Um e se, retardado. - Ah. Bem, isso é diferente - diz Marv -. Eu gostaria de saber se ela estivesse me traindo com um idiota quando eu não estava. E bateria no merda que ela esti-vesse tocando. - Então por que a garota de Solo não tem o direito de saber? - É por isso que você está com esse olhar roxo recente? – Pergunta Kevlar -. Harper te bateu de novo? - Não, meu irmão me bateu quando me pegou com sua namorada - eu admito, o que os enlouquece a todos. E seria engraçado se Harper não me odiasse. Pensar nela me faz sentir como se dentro de mim não houvesse nada mais que uma série de nós, e faz com que eu não queira estar aqui neste momento. - Stephenson, tem um segundo? - Peralta pede como se estivesse lendo minha mente. Sua voz é calma. Mesmo quando ele estava chateado conosco raramente nos mostrava. Nós nos afastamos dos outros -, Você está bem? - Somente sofrendo um caso violento de estupidez. Mesmo sua risada é tranquila. Caminhamos em silêncio por algum tempo. - Você está... Fazendo as coisas a um quadrado de distância? - ele pergunta. - Sim. Se ele sabe que eu estou mentindo, não o menciona. - Ouça -, diz ele. Eu só queria que você soubesse que Leonard te ofereceu como voluntário para a escola de cães-bomba. - Eu? – Esvazio-me um pouco. Não é como se o meu plano para tornar o curso de reconhecimento estivesse gravado em pedra, mas o treinamento para ser um adestrador não é algo que eu já houvesse considerado. - Pediram-me para recomendar alguém - diz Peralta -. Eu escolhi você porque eu sei que você vai fazer um bom trabalho... E eu acho que isso pode te ajudar.


- Não tenho escolha, certo? Ele sorri e me dá um tapinha no ombro. Considere-se voluntário, mas confie em mim ok? Harper volta a entrar na sala de banquetes, quando a mãe de Charlie e uma pequena mulher loira eu acho que é Jenny dobem até o pódio com um microfone. - Bem-vindo a todos. Se você tomarem um assento começaremos em um momento. O fluxo da conversa diminui à medida que cada um encontra uma cadeira, os fuzileiros navais fazem uma fila contínua à frente. Deixo uma cadeira vazia no final para Harper. Sua coxa se esfrega contra a minha quando ela se senta e mesmo depois de se afastar ela continua quente, como se ainda estivesse lá. - Obrigada – a mãe de Charlie diz chegando a tomar a mão da mulher loira -. Jenny e eu agradecemos a todos por terem vindo hoje e partilhar a celebração da vida de nosso filho. Kevlar se vira e faz uma cara de que eu sabia sobre isso, mas eu encolho os ombros em um silencioso supere isso. Ellen fala por algum tempo, levando-nos para o passado quando Charlie era um menino pequeno e ficou horrorizado ao ver flamenco no cardápio do restaurante, mas na realidade era um filé mignon. Eu não conheci esse cara, mas invejava sua vida porque mesmo que sua mãe fosse um pouco estranha, eles estavam ligados de uma maneira que eu nunca fui com meus pais. Eles fizeram coisas juntos. Eles foram para lugares que não envolviam o futebol. Enquanto a mãe de Charlie Harper fala, dou uma olhada em Harper com canto do meu olho. Ela está limpando o nariz com as costas da mão, de modo que então eu tiro minhas luvas e dou-lhe uma. Eu provavelmente estou quebrando algumas regras estúpidas do uniforme do USMC, mas ela não tem um lenço e a luva é bastante absorvente. Suas palavras formam soluços em sua garganta quando ela sussurra obrigada. A mãe de Charlie não trata de pintá-lo como um patriota que amou seu país antes de qualquer coisa. Ele era como o resto de nós, tentando descobrir o que ele queria de sua vida, e a melhor maneira de conseguir isso. Ela é forte, mesmo que de pé em frente de todos com os seus olhos brilhantes, mas sem desmoronar ao falar sobre o filho que não tem mais. Ao terminar me olha. - Antes de morrer, Charlie me enviava e-mails sempre que podia e suas cartas sempre estavam recheadas com Solo isso e Travis aquilo. Então, eu gostaria de convidar Travis Stephenson para dizer algumas palavras. Eu fico de pé e olho a partir da meia distância, tentando acalmar os nervos que não tem sido alterado desde o último combate antes de sairmos do Afeganistão. Não importa quantas vezes enfrentamos o


Talibã, sempre se tratava de ajustar completamente o medo. Deixo escapar um suspiro e, apesar de não a ver, eu acho que sinto Harper tocar minha mão. Curvo meus dedos em torno do toque, mantendo-os lá e, em seguida, vou ao pódio. Ellen me sorri e espero que ela e Jenny se sentassem antes de começar. - Muitas noites no Afeganistão nós jogamos pôquer - eu digo -. Como nenhum de nós tinha muito dinheiro usávamos dinheiro de mentira. Na última contagem devo a Charlie oito milhões de dólares. - A mãe de Charlie solta um pequeno riso da primeira fila que envia um murmúrio de risadas silenciosas pela sala e dissipar o medo que senti sobre esta piada ter sido de mau gosto. Eu dou um sorriso para Ellen -. Eu realmente espero que não esteja pensando em me cobrar. Seus olhos estão cheios e coloca os dedos sobre sua boca e sorri. Fico ali por um momento, olhando para a sala cheia de pessoas. É como se todo o St. Augustine tivesse vindo para isso. Família. Amigos do colégio. Ex-namoradas, talvez. Alguém aqui tem que ser mais qualificado para fazer este discurso que eu. - Eu, hum, lutei por um longo tempo tentando descobrir o que ia dizer e agora que eu estou aqui, eu ainda não tenho ideia – digo -. Coisas que continuam vindo à minha mente não são realmente adequadas, como seu gosto por Miss Novembro, ou a vez que ele colocou... Sim, esqueçam isso. Eu limpo minha garganta e procuro um lugar na parte de trás da sala, então eu não tenho que ver lenços e lágrimas. Em vez disso, eu vejo Charlie. Ele está encostado na parede, como se à espera de ouvir o que eu diria sobre ele. Como se esperasse que eu contasse a sua verdade. - A coisa é que Charlie só era... Quando eu o conheci eu pensei que era como uma moto completa, ridicula-mente motivado para ser um fuzileiro naval, já sabem. Porque se oferecia para ser voluntário para qualquer coisa, e quem faz isso. Mas depois eu percebi quem era. Ele atacou a vida não perder nada e se eu puder dizer-lhes uma coisa sobre Charlie, que vocês não saibam, é que ele deixou este mundo tão bravamente como ele fez o seu caminho através dele. Meus olhos procuram Charlie, mas ele se foi. Olho para sua mãe. - Ele era a pessoa que todos nós deveríamos ser, mas a maioria de nós não é. E se eu pudesse ter tomado seu lugar para comprar-lhe um pouco mais de tempo no mundo eu teria. Desculpe, mas eu não pude. Ellen balança a cabeça e eu sei que ela está me dizendo que eu não tenho que lamentar, mas como não o faria? Como é que pode ser bom para eu estar aqui e Charlie não? Eu me afasto do pódio e meu assento vazio está logo ali. Mas quando a mãe de Charlie estava prestes a apresentar a Peralta, calmamente peço desculpas a ela. E me vou.


Capítulo 14 Harper chama por mim enquanto deixo a sala, e apesar de ter sido desrespeitoso ao sair em meio à cerimônia. Não posso. Porque meus olhos estão marejados e tenho medo de perder o controle. Caminho rápido, meus sapatos batendo forte na calçada, enquanto me dirijo ao hotel. Aperto e solto minhas mãos com força. Aspiro uma grande quantidade de ar e solto em grandes suspiros. Preciso ir ao centro de St. Augustine, onde os turistas ainda vagam pelas calçadas iluminadas, sem saber que Charlie Sweeney está morto. Pego um atalho por um beco lateral que conduz a uma entrada por trás do hotel. Vou até a piscina e abro o botão da gola do meu uniforme. O terraço da piscina está vazio sob uma luz tênue e todas as espreguiçadeiras estão alinhadas com toalhas limpas dobradas aos pés. Deixo cair minha pesada jaqueta em uma das cadeiras e minhas calças em outra enquanto abaixo minha cueca boxer até os pés. Deixo minhas meias jogadas em um extremo da piscina e me atiro na água. Enquanto nado, minha respiração e cérebro funcionam em sintonia e não tenho que pensar. Somente quando conto minhas braçadas – um dois; um dois; um dois – até que os músculos do meu ombro queimam e a tristeza e raiva que sinto estão sobcontrole. Não tenho ideia de quanto tempo fiquei na água e qual a distância que per-corri nadando quando me detenho. O entardecer se dis-sipa e vem à escuridão - assim sei que se passou bastante tempo - e Harper está parada em um extremo da piscina, carregando uma toalha. Meus braços tremem pelo esforço, me arrasto para fora da água e fico na beira da piscina, derramando água por todos os lados. Ao envolver a toalha em volta dos meus ombros, seus olhos se encontram com os meus. - Você está bem? Se eu estivesse nu, não me sentiria menos exposto que neste momento. Mas lhe digo a verdade. - Não. Harper não diz nada enquanto me seco e amarro a toalha em minha cintura. Simplesmente espera até que eu termine depois pega minha mão como se eu fosse uma criança. Espero que esteja me levando a um bom lugar, porque eu tive tanto quanto eu podia suportar. Sinto-me oco e vazio. Estou cansado. De tudo. Estou na porta do hotel quando me lembro de meu uniforme. - Esqueci meu... – Paro e olho para trás, mas a cadeira está vazia. Merda. - Eu cuidei disso. - Oh. – Ela é a única que tem sido amável comigo desde que estou um desastre – Obrigado.


Não nos falamos no elevador enquanto nos dirigíamos a nossos quartos. Eu apenas fiquei no chão até que a campainha tocou e as portas se abrem. Harper não deixou minha mão, mas não sinto como nas outras vezes quando sustentou suas mãos. Agora mesmo é uma salva-vidas. - Uhm? A mãe de Charlie se chateou porque eu saí? - pergunto enquanto ela desliza o cartão na fechadura de minha porta. - Ela entende Travis – diz Harper – Eu entendo. Inclusive depois deste tempo na piscina, meus olhos começam a ficar úmidos novamente. Esfrego minhas mãos contra os olhos, mas desta vez não posso conter minhas lágrimas e odeio me descontrolar assim. Harper fecha a porta atrás de nós e coloca seus braços em volta de mim. Enterro meu rosto no seu pescoço e tudo dentro de mim saide um jeito feio e angustiado pranto que nunca antes havia escutado. Não importava o quanto duro meu pai foi comigo, o quanto difíceis ficaram as coisas no campo de treinamento, ou o quanto assustado estava no Afeganistão, nunca chorei. Nunca. E sei que devia estar envergonhado, mas esta é Harper, que não trata de dizer-me que tudo vai ficar bem. Ela está de pé ali e me salva de morrer afogado. Até que termino e estou tranquilo. Se for possível sentir-se mais vazio, eu me sinto. Sou Travis Stephenson, uma forma no espaço que necessita ser preenchida. - Está com fome? - É uma pergunta estranha vindo de Harper neste momento, mas acredito que faz sentido. Houve um jantar na cerimônia e eu o perdi. Também não posso agarrar-me a ela para sempre. Apesar de gostar da ideia. - Não realmente. Ela se afasta um pouco e me olha. - Porque não veste uma roupa seca? Eu vou me trocar e... Não sei. Podemos ver um filme, falar ou qualquer outra coisa que quiser. Em qualquer outro dia, tiraria minhas próprias conclusões para “outra coisa que quiser” e estaria quente e me incomodaria. Esta vez, porém, sua definição de “outra coisa que quiser” é suficiente boa para mim. - Sim, claro. Enquanto ela não vem, visto um par de calças limpas e depois me deixo cair na cama e começo a passar pelos canais da TV. Minhas pálpebras estão pesadas. Deslizam para baixo como persianas, se abrem outra vez e se fecham depois. Estou caminhando por uma estrada no Afeganistão com minha equipe de fogo. Charlie está à frente,


Moss e Peralta estão em algum lugar detrás de mim. A rua está deserta. Inclusive os cachorros estão dispersos. Algo está a ponto de acontecer. O cabelo de traz do meu pescoço se arrepia e o pânico desliza por minhas costas. Uma bala atinge a parede que está ao meu lado. Sou salvo por cinco centímetros de espaço. Eu entro por uma porta enquanto outro impacto passa através do ar e vejo Charlie cair na estrada. - Atingiram Charlie! – Não sei se sou eu quem está gritando ou se é alguém atrás de mim, mas ouço em minha cabeça, assim penso que sou eu. Agachado, corro até meu amigo, as balas zunindo a minha frente. Pausa. Fogo. Correr de novo. Apesar de Charlie não estar a mais de dez ou quinze metros, a distância leva uma eternidade. - Charlie, amigo. Aguenta. Grito por uma enfermeira e tento parar a hemorragia, mas não consigo. O sangue cobre meus dedos sujos enquanto tento encontrar a veia e o solo ao redor de Charlie se transforma em uma lama escura. - Sozinho. – Seus dedos se agarram inutilmente em minha manga. Outra avalanche de disparos de AK criva no solo ao meu redor, soprando o pó. Uma bala roça meu braço e sinto como se houvessem me golpeado com um bastão de beisebol. Moss se move para nossa frente, estabelecendo uma sequência de tiros com a arma automática. - Aguenta Charlie – repito-Você vai conseguir. Você pode fazer isto. Exceto que não consegue. Seus olhos estão brancos como se eles mirassem para o céu do Afeganistão e seu peito está parado. Uma bala passa ao meu lado e nem sequer tenho tempo para pensar no que acabara de acontecer. Deixo cair meu estomago no sangue sujo, meu ombro ardendo como fogo. Meus olhos buscam o rifle, e o vejo, o talibã com seu turbante negro com uma AK apontando para mim. Aponto para ele. E depois o mato. Sento-me, desperto, com meu coração batendo ao redor do meu peito como um foguete, e Harper parada ao pé da cama. Levanto minhas mãos para ver se há sangue, mas sei que foi um sonho. O problema com este sonho, é que é verdade... - Foi nossa culpa – digo - De Charlie e minha. Harper senta-se na cama com as pernas cruzadas, olhando-me. Seu vestido se foi, substituído por uns shorts vermelhos e uma camisa Clash. Seus pés estão descalços e pela primeira vez me dou conta de que suas unhas estão pintadas de vermelho. - Estávamos operando a partir de uma velha escola amarela, e cada vez que saíamos da cerca, éramos emboscados – digo - Inclusive quando esperávamos uma emboscada, nunca sabíamos quando


ou onde ia ser. Assim que, na maioria das vezes íamos caminhando por alguma parte, eles começavam a disparar em nós e terminávamos em um canal com a metade do corpo enlameado pelos próximos cinco a dez minutos, disparando de volta. Fugiram, os perseguimos se misturaram entre as pessoas, e nos deixaram com raiva e suados, sem a possibilidade de uma ducha quente quando voltássemos. Harper observava meu rosto e sabia que estava se perguntando se eu ia desmoronar de novo. Não o fiz. - No dia em que Charlie foi assassinado, creio, foi diferente – continuo - Charlie e eu... Vimos uma criança com um celular. Muitas vezes os nativos usam seus telefones para informar os Talibãs nossa posição. Assim, ao vermos a criança, não dissemos nada porque era só uma criança pequena, sabe? Harper assentiu, mas não sei se podia entender. Ele era uma das crianças entre a multidão quando entregamos balões e bonecas um dia antes. Havia pulado de alegria com emoção quando o entregamos as coisas, como se fosse à primeira vez que alguém o havia dado algo. Uma vez tratou de tomar um monte de canetas minhas. Como poderia esta criança ser suspeita? Exceto que deveríamos ter suspeitado quando o vimos com o celular. - Deveríamos ter informado a Peralta. Poucos minutos depois, fomos emboscados – digo - Acertaram Charlie e enquanto eu tentava conter a hemorragia, me acertaram. Seus olhos se abriram assustados e se moveram até a desbotada cicatriz vermelha em meu braço. Moss a havia enfaixado antes de levarmos o corpo de Charlie até a base. A ferida não era suficientemente grave para mandar-me de volta a casa ou algo assim, e eu voltei a patrulhar de novo no dia seguinte. Minha garganta estava seca. - Não pude salvá-lo – digo - Eu falhei duas vezes. E nunca disse a ninguém. A nota oficial disse que arrisquei minha própria vida com a intenção de salvar um companheiro da Marinha, adquirindo um ferimento de bala e matando um inimigo de combate no processo. Soa muito mais heroico em um papel do que em realidade foi, creio. Especialmente porque quando tudo isso passou recordo da fúria, mas não da coragem. - A coisa é... – Me detive e passei a mão na parte superior de minha cabeça, tentando encontrar as palavras certas - Charlie está morto e eu continuo vivo, e não acredito que o mereça. - Acredita que ele estaria de acordo com isso? - Não sei – digo - Provavelmente me diria para deixar de ser um idiota. O sorriso de Harper foi gentil e doce. - Soa como uma boa advertência para mim - disse.


Sorri um pouco. - Saber isso e fazer isso é duas coisas bem diferentes. E não... Não sei se poderia. Arrastou-se para cima para sentar-se ao meu lado, tomou o controle remoto, e pressiona o botão para um dos filmes do canal Premium. - Talvez devesse falar com alguém – disse - Alguém que possa ajuda-lo, quero dizer. Um profissional. - Sim, talvez. O filme era um desses dos anos 80, tipo Brat Pack, sobre uma pobre menina apaixonada por um rapaz rico que nem sabia de sua existência. Não é meu tipo de filme, mas Harper desliza para o meu braço e descansa sua cabeça contra meu ombro, e de repente não poderia me importar menos com o que passa na tela. - Escuta Harper – digo - Sobre o que aconteceu com Paige... - Melhor não... – disse, com os olhos fixos na tela do televisor - Simplesmente o considero como um segundo Strike. - Isso é bastante indulgente de sua parte. - Sim, bem, na verdade não quero chutá-lo quando já está abatido, mas, sobretudo por alguma razão – seu rosto se inclina para cima e me dá um tímido sorriso - creio que valeria a pena. Concordo com um movimento. - De verdade que vale a pena. Harper ri e me dá uma cotovelada nas costelas e senta de novo para ver o filme - Quer fazer algo amanhã em especial? Quero sugerir algo agradável e turístico – como a Fonte da Juventude ou o museu de cera – e as palavras estão prontas em minha boca, esperando ser ditas. Mas a exaustão dentro de mim chega antes de dizê-las. Acordo pouco antes do amanhecer para me perceber feito uma concha detrás de Harper, seu rabo de cavalo fazendo cócegas em meu nariz. Algo que não estou pronto para nomear sobre as garras da morte de Charlie aparece e se solta, e mantém os pesadelos na borda quando volto a dormir.


Capítulo 15 Harper acordou e, por um momento, antes que abrisse os seus olhos, me senti... Estranho. Como se a noite fosse uma coisa de uma noite e deveria sair antes que falássemos um ao outro. Exceto que não fazia sentido, porque não tivemos sexo e caí dormindo contra a parte superior de sua cabeça. Talvez até babasse em seu cabelo. É só que estou envergonhado. Ela viu um lado meu que nem eu conheço. E suponho que isso poderia ser considerado algo bom – porque confio nela – mas não detém a faísca de pânico de que ela viu demais. Então seus olhos se abrem e ela pisca, seu rosto se contorce de sono, e o incomodo se dissolve. Depois disso, sorri e meu cérebro se dissolve. - Olá – Sua voz se rompe com a primeira palavra do dia. - Olá você – digo minha voz sussurrando em sua orelha. Ela estremece. Amo isso. - Está acordado há muito tempo? - pergunta Harper. - Uma hora, talvez. – Meus dedos encontram sua pele nua onde a parte superior de sua camisa subiu e deslizo minha mão debaixo dela. Sua pele está quente pelo sono. A pequena respiração que toma me faz sorrir. Ela se move para me beijar. - Porque não me acordou? - Simplesmente não o fiz. – Meus dedos roçam a parte superior de seu seio... E meu celular toca. Merda – digo contra sua boca. Harper sorri. - Deveria atender isso. - Provavelmente. – Estou de acordo, e continuo a beijá-la enquanto o telefone toca - Mas não quero. Estou com minha boca na sua enquanto alcanço meu telefone na mesa ao lado da cama. Ela me empurra longe para que eu possa atender. - É melhor que seja algo bom – digo. - Bem, bom dia para você também. – A mãe de Charlie parece estar ofendida, mas posso escutar o riso em sua voz - Não te acordei certo? Queria encontrá-los antes que tomassem o café da manhã,


assim você e Harper podem se reunir conosco aqui em casa. Olho Harper na cama, seu cabelo todo bagunçado por dormir, e não quero tomar o café da manhã com a mãe de Charlie, mas seria pouco educado negar. - Sim, senhora, estaremos aí. Enquanto anoto o endereço, Harper não espera que eu a diga para onde vamos. Levanta-se da cama e se dirige para seu quarto, deixando-me com a perspectiva de outra ducha fria. -Este é o lugar, bem aqui. – Harper sentada em seu lado no Jeep aponta para uma casa alta com bordas amarelas nas janelas e caixas cheias de rosas vermelhas. Deveria ser uma loja de antiguidades, ou um lugar onde a avó de alguém vive, mas um sinalizador pintado e pendurado do teto e envolta com luzes tatuagens. Estaciono em frente à loja. Campainhas tocam na porta da frente enquanto abro a porta para Harper e entramos em uma sala que foi convertida em uma sala de espera com um velho sofá de couro, uma caixa registradora cheia de joias para o corpo, e uma mesa de café cheia de revistas de tatuagens. Uma cortina rígida com uma imagem de Buda, oculta o estúdio e em uma corda através de um conjunto de escadas um aviso que diz Família, Amigos, e Jovens da Marinha dos EUA. - Travis, é você? - A voz da mãe de Charlie desce as escadas, junto com o cheiro de salsichas para o café da manhã - Vem aqui para cima. O piso de cima é um apartamento transformado em uma pequena cozinha, onde Jenny está cortando salsichas sobre uma fileira de tortinhas de farinha, e em uma sala cheia de parafernálias religiosa. Uma imagem da Virgem de Guadalupe do México com velas ao redor, Buda, a deusa hindu com todos os braços. Há uma pintura de veludo de Jesus pendurado sobre o sofá. Pergunto-me como tem tempo para todas estas divindades... Eem qual delas Charlie acreditava. O imaginei passando perto de Buda com seu sorriso e barrigão, como na pequena versão que Charlie carregava em seu bolso para dar sorte. Tinha um lado desgastado por ser esfregado. Hoje sua mãe está encarnando seu pirata interior com uma camiseta de listras brancas e vermelhas, e seus dreads amarrados para cima com uma bandana de esqueletos. Ela sufoca a Harper e a mim com um abraço com aroma de patchouli que me faz espirrar. Está sorrindo, mas reconheço a tristeza em torno dos cantos de seus olhos. - Como está hoje, Travis? - Estou bem – digo - Eu, hum... Queriadesculpar-me por ter saído da cerimônia ontem à noite. Fui grosseiro e o sinto. Ela toma meu rosto em suas mãos. - Não tem nada que desculpar, querido. Seu caminho será o que escolher e tem que segui-lo. Alcanço o bolso do meu short e tiro a carta que Charlie escreveu caso morresse. Quando


descobrimos que estávamos designados a uma unidade que estaria em uma zona de guerra, ele sugeriu que escrevêssemos cartas de despedidas para casa, caso acontecesse. Fizemos um trato de que se algum de nós morresse, o outro entregaria a carta pessoalmente. Não sabia o que dizia a carta de Charlie. Tinha sido tentador lê-la, mas nunca o fiz. - Também precisava te dar isso. – Entrego a carta a Ellen - Não a li. Ellen coloca a carta em seu bolso sem ler. - Está com fome? Não comi nada desde ontem no almoço, assim, estou seriamente faminto. Depressivamente faminto. - Sim, senhora. - Então se sente - ela disse - Farei café. Harper e eu sentamo-nos à mesa de madeira enquanto Ellen fazia café. Conta sobre como ela compra somente determinada marca de feijões do Equador e enrola os burritos da maneira que Jenny o fazia, enquanto alguma louca música de flauta – que Ellen disse que se supõe que deve ser relaxante – soa ao fundo. Estão rindo e brincando, e ainda que Charlie se foi, são felizes de uma maneira que minha família jamais foi capaz. Nós nunca tivemos uma comida assim, a não ser que conte uma vez que minha mãe e eu comemos uns camarões que eram uma receita de Harper na mesa da cozinha com Aretha Franklin cantando sobre um monte de bobagens. Pude ver porque Charlie era tão próximo de sua mãe. - Escuta, hum... Já volto – digo a Harper, minha cadeira raspando o chão de madeira enquanto me afasto da mesa. Volto para baixo até a loja de tatuagem e marco o número de minha mãe em meu telefone. - Travis. – Meu nome sai como se ela estivesse com a respiração em suspenso - Como vai? Eu havia estado mentindo por tanto tempo, ou para evitar ter que falar com ela ou para evitar dizer a verdade. - Suponho que esteja bem – digo - Esta coisa com Charlie tem sido bastante difícil, entretanto, não sei... Creio que preciso falar com alguém. Preciso de ajuda. - Gostaria quer marcasse um horário para você? - Sim. Por favor. - Posso marcar com minha terapeuta – disse ela. Não sei o que dizer sobre isso. Minha mãe está indo a um terapeuta? Passo minha mão pela cabeça.


- Escuta, hum, mamãe. Tenho que ir porque estamos tomando café com a mãe de Charlie, mas queria dizer que... - Não me recordo à última vez que disse as palavras - Eu, hum... A linha está muda por um momento enquanto minha mãe espera pro minhas palavras, mas então as termina por mim. - Também te amo, Travis. Quanto retorno para o apartamento, o café da manhã está na mesa e Harper está contando a Jenny e a Ellen sobre seus planos para a universidade. - Estou começando no segundo semestre, assim posso guardar um pouco mais de dinheiro - diz Harper- Me qualifico para uma ajuda financeira, mas quero ter algum dinheiro extra e talvez comprar um carro. Sempre pensei que seu pai vivia bem como apresentador de um show matutino – eles eram celebridades locais – assim estou surpreso de que necessite de ajuda financeira. - Meu pai e seu companheiro de rádio, Joe, ofereceram um acordo de divulgação assim teriam o dinheiro para a matrícula – disse Harper, lendo minha mente - E, Deus, não tem ideia de quanto queria dizer sim, mas odiaria a mim mesma se eles o fizessem para que não tivesse que pagar os empréstimos da universidade, sabe? Meu pai conseguiu passar pela universidade, assim suponho que se ele pôde, eu também posso. A mãe de Charlie aplaude. - Admiro seu empenho, Harper, e por assumir a responsabilidade de seu futuro. Harper fica com seu rosto vermelho. - Eu, hum... Obrigada. Depois do café da manhã, Jenny pede a Harper que a ajude com os pratos, enquanto Ellen me pede que vá com ela até a loja. - Quero te mostrar algo – diz - enquanto a sigo pelas escadas e através da cortina de bambu de Buda. Ela tira sua camiseta, revelando um bustiê esportivo cinza, e se vira me dando as costas. Na parte superior de suas costas, perto do ombro, está uma cruz celta como nome de Charlie com um desenho de nós entrelaçados. Escrito embaixo se encontram as datas de seu nascimento e morte. Sem saber mais o que dizer, digo que é genial. Quero dizer, é genial... Para uma tatuagem. - Eu mesma o desenhei. – Veste a camisa novamente - Ainda tenho o modelo se você quiser igual. A maioria dos Marinheiros que conheço tem tatuagens. Ski tem uma enorme nas costas do campo dos marinheiros e os nomes de seus amigos que morreram no Iraque. Kevlar saiu do campo de treinamento e em seguida fez uma tatuagem. Morte antes da Desonra. Inclusive Moss tinha uma


etiqueta em sua pele. É equivalente em tamanho a uma etiqueta de cachorro para que assim em caso de que um jovem da marinha perca as pernas por um caminho de bombas – porque guardamos uma placa de identificação em nossas botas – seu corpo, todavia teria uma identificação. Nunca quis ter uma tatuagem, mas pela cara otimista de Ellen é impossível negar. - Sim. Tudo bem. - Tire sua camisa e sente-se. Faço o que me manda e olho enquanto ela prepara tudo, enchendo pequenos copos de plástico com tinta e colocando novas agulhas em sua máquina de tatuagens. - Música? - pergunta. - Qualquer coisa menos esta merdas suave. Ela sorri e pressiona o controle remoto. The Clash soa através das caixas de som. Genial. - Charlie costumava dizer o mesmo. Ele dizia: “Mamãe? Porque não pode escutar música normal e constrangedora como Celine Dion ou Journey ou algo assim?" - Ela abaixa sua voz e quase soa como ele. Faz-me rir. Ela gira em sua banqueta atrás de mim - Não sei se doerá, mas suspeito que seu limite de dor seja tão alto que não sentirá. - Está bem. A máquina de tatuagem começa a trabalhar e quando toca minha pele, a sensação é como se alguém tirasse os pelos de meus braços uma e outra vez. Não é prazeroso, mas tem muitas outras coisas mais dolorosas que esta. - Enquanto estamos com o assunto do meu filho – diz Ellen - Você se desculpou no cerimonial por não ter sido capaz de salvar a Charlie, mas, por favor, não faça isso outra vez. Não para mim, nem para outra pessoa qualquer. Meu filho morreu fora do seu tempo, mas isto não significa que tenha que carregar a culpa por toda a vida. – Ela dá umas palmadinhas em meu ombro com sua mão enluvada. Liberte-o. Deixe-o ir. Não posso dizer que a culpa irá embora, mas sinto como se me houvessem dado permissão para deter o interminável jogo de “e se”... Em minha cabeça. - E enquanto tenho você preso aqui sobre a agulha... – A mãe de Charlie não espera que eu agradeça - A outra coisa que preciso que saiba é o quanto sua mãe te ama. Quase todas as vezes que nos falamos por telefone, ela estava a caminho da única loja no povoado que vende as mais confortáveis meias e as camisetas mais frescas ou seu doce preferido. A máquina de tatuagem para de trabalhar enquanto ela carrega a agulha com mais tinta. - Não posso dizer que perder meu filho não me desfez – disse - Mas a última coisa que me disse antes de morrer é que me amava. É reconfortante lembrar-se disso. Travis, não há nada neste mundo


que sua mãe ame mais do que a você. Não seu pai. Não seu irmão. Você. Se algo acontecesse, ela deveria estar... - Eu sei. - Seja gentil com ela. – Outra vez, ela dá palmadinhas em meu ombro - E este é o final do sermão. Ela trabalha em silêncio por um tempo, até que Harper e Jenny vêm para baixo. Harper fica de pé atrás de mim por um minuto ou dois, olhando, logo se senta em outra banqueta, empurrando-a para de frente a minha até que seus joelhos estão tocando os meus. - Eu gosto. - Bem. - Harper, ficaria encantada se me deixasse fazer uma tatuagem em você - disse a mãe de Charlie - O que você quiser. - Aprecio a oferta - diz ela - Mas uma já é suficiente para mim. Espera. O quê? Harper tem uma tatuagem? - Você tem uma tatuagem? - pergunto. - Sim. Eu já a havia visto em um par de shorts curtos e a parte superior de um biquíni, assim que não havia muitos lugares onde pudesse esconder a tatuagem... O quê meio que me excita. Tanto, quanto posso, enquanto estou sendo repetidamente furado por agulhas. - Porque eu não a vi? Harper sorri. - Porque não te mostrei ainda. - Posso ver agora? - Não vou falar sobre isso agora. – Seu rosto fica vermelho, assim que sua tatuagem deve estar em um lugar bem interessante - Esquece. Atrás de mim, a mãe de Charlie sorri enquanto desenha linhas com tinta nas minhas costas. Que eu devo esquecer? Não quando minha imaginação está me levando a muitas partes interessantes do seu corpo. - É uma tartaruga? - pergunto - Boas suposições – diz Harper - Mas não.


- Um símbolo chinês? - Ela franze o nariz. - Ei. - Tem algo a ver com Charley Harper? - Possivelmente, - diz ela - mas luta contra um sorriso que me diz que é. - Boa escolha – diz Ellen sobre meu ombro - Amo as tatuagens que tenham algo de original por detrás. Não me interprete mal, meu pão e manteiga vêm de tatuagens nas costas e bandas tribais, mas não há nada melhor do que fazer uma peça ou desenho que leva a alguma reflexão. - O que é? - pergunto a Harper. Pesquisei sobre Charley Harper uma vez. Seu estilo era tipo desenhos animados e se especializava em ecologia. Especialmente aves. Quando Ellen termina, limpa o sangue e a tinta de minha pele, logo me passa um espelho para que eu possa ver o resultado. Eu vejo a tatuagem e está bom. - Obrigado – digo - Por tudo. Ela coloca um curativo sobre a tatuagem e depois que visto minha camisa, me dá um abraço. - Obrigada por oferecer sua pele para me agradar – diz ela - Tomara que veja a tatuagem como uma maneira mais fácil de levar Charlie contigo, ao invés da culpa.


Capítulo 16 Ainda é cedo quando voltamos para o hotel. Há uma mensagem de Kevlar no meu telefone convidando-nos a um motel na praia, onde a maioria dos fuzileiros navais de Kilo estão ficando. Eles falam de praticar kitesurf e ir para algum pub Inglês. É a garantia de um bom momento e estou pronto para isso. - Podemos ir, se quiser. - – diz Harper. Só que agora eu não sei. Eu acho que preferia passar o tempo com ela a sair com um grupo de rapazes que verei novamente daqui a algumas semanas. Eu sei que tipo de merda vou ouvir de Kevlar, mas não me importo. Pego sua cintura, puxando-a até que seu quadril descanse contra o meu. - Eu quero ver sua tatuagem. Sua mão se curva ao redor do meu pescoço e meu rosto. Deixa beijos na minha testa, minhas bochechas, na linha da minha mandíbula e abaixo do meu ouvido, seus lábios tão efêmeros que meu cérebro só pode registrá-los antes de se moverem. Calafrios percorrem minha espinha como eletricidade. Poderia iluminar a cidade. O estado. Esse mundo fodido. Harper suspira e toca sua testa na minha. - Travis? - Sim? - Eu, hum... -– Sua voz é um sussurro –. - Eu não sei se posso fazer isso. - Bem. - O desejo dói tanto agora, mas eu não serei um idiota. Então engulo a frustração e beijo sua testa. - Tudo bem. - Acho que estou um pouco...Com medo. - De que? - De tudo –- diz. - Que seja desconfortável e estranho. Ou fazer algo errado. Mas principalmente...Bem, especialmente porque não posso me comparar com Paige. Ela é bonita e... – Harper olha para o seu peito –. - Tem seios grandes e... - Não há comparação – - interrompo –. - Tudo em você é muito melhor. - Você não pensava assim na época da escola. - Eu tinha quatorze anos –- eu digo –. - Eu estava pensando com a cabeça errada naquela época. O


que é diferente, você sabe, de agora. Quando só penso com a cabeça errada às vezes. Ela ri. Um bom sinal. - E, bem, para ser completamente honesto? –- Eu digo. –- Eu também estou um pouco nervoso. Seus olhos se abrem. - Sério? Sexo com Harper vai ser complicado. Ela é o tipo de garota “felizes para sempre" e não posso fazer esse tipo de promessa, quando tenho apenas dezenove anos e mais três anos de serviço ativo no Corpo dos Fuzileiros Navais. Qualquer coisa pode acontecer. Ela poderia me trocar por um cara inteligente da aula de biologia na faculdade e que a carta de Querido John não seria, nem de longe, tão fácil de superar. Ou eu poderia pisar em uma bomba na minha próxima missão e ela...Veja, eu estou pensando demais nisso. Mas o fato é este: os vínculos já estão formados. - Sim, bem, é a minha primeira vez com você e quero fazer bem. - –Soa como algo normal. Como se estivesse tentando entrar em suas calças. O que é verdade, mas não é o que parece. O ceticismo de Harper é registrado quando ela levanta as sobrancelhas e isso me faz rir. - Ok, isso soa patético, mas... – - Baixo a minha voz, porque tenho que admitir algo que me assusta um pouco–. - Não quero estragar isso. Ela me dá aquele sorrisinho mordendo o lábio, que sempre me faz perder os sentidos, e eu sei que eu disse a coisa certa. - Mas... –- lhe lanço um sorriso -– se você quiser esperar, vou viver. Claro que minhas bolas provavelmente vão murchar e cair, mas não se sinta mal por isso nem nada. Harper me dá um pequeno golpe no estômago, então envolve seus braços ao redor do meu pescoço. Seu lábio inferior roça meus lábios e pouco antes de me beijar me diz para calar a boca. As tábuas de madeira da varanda rangem na escuridão silenciosa, enquanto levo a mala de Harper até a porta da frente. Ficamos ali por um momento no tênue brilho amarelo da luz da varanda, dois idiotas mutuamente sorrindo porque as coisas são diferentes agora. Por um lado, eu não tenho o fantasma do meu rolo com Paige pairando sobre mim. Por outro lado, o funeral está atrás de mim. Além disso, eu vi a tatuagem de Harper. Mas não é só isso. No caminho para casa jogamos Bug Slug, batendo-nos cada vez que víamos um VW Beetle. Provamos sorvete à moda Guinness e paramos para almoçar em um restaurante – teatro de aventura pirata de Orlando, aonde vimos um show de estilo Broadway sobre uma princesa tomada refém por piratas. Era uma tolice a um grau que deveria ter sido embaraçoso, mas não foi. Foi muito divertido.


Foi normal. Eu não sei se a minha vida algum dia vai ser completamente normal, mas algo parecido com normalidade já é um bom começo. - Obrigado por ter vindo comigo –- digo. – - E, você sabe, apenas por estar lá. - O que posso dizer? – - ela me dá um sorrisinho. – - Gosto um pouco. - Um pouco? – - eu envolvo meus braços em torno dela, os meus lábios perto ao seu ouvido –. - Não acredito. Ela vira o rosto para mim para que eu possa beijá-la, e quando estamos nos beijando a porta se abre. O pai dela está no outro lado da porta de tela. Ele passa a mão pelo cabelo de quem acabou de acordar e pisca sonolento à luz. - Estão em casa. - Sim, senhor. - Essa exposição pública de afeto com a minha filha na frente da minha varanda significa que eu estou preso a você agora? – - Pergunta ele, abrindo a porta de tela para Harper. Não tenho certeza se você deveria rir então me contenho. - Temo que sim. Ele ri e aperta minha mão. - Obrigado por trazê-la para casa inteira. Agora vá para casa e não volte até que o sol tenha, pelo menos, se posto há algumas horas. Quando chego em casa, minha mãe está encolhida no canto do sofá da sala, assistindo seu filme favorito em preto e branco. Sento-me ao lado dela e ela me oferece uma tigela de pipoca. Eu pego um pouco e limpo a garganta. - Eu, uh... Eu acho que eu esqueci de lhe agradecer por tudo que você me enviou enquanto eu estava no Afeganistão. - Tornou-se um jogo, tentando encontrar as melhores coisas e mais úteis. -– diz ela –. - Eu me diverti muito. Pego mais pipoca e falo com a boca cheia. - Da próxima vez, mande mais pornografia.


- Travis! - Estou brincando – - digo –. - Mas você sabe o que teria sido incrível? Atum. Teria matado por um sanduíche de atum. - Por que você não me contou? - Eu não sei –- digo –. - Acho que não queria parecer ingrato, especialmente porque mal entrava em contato. Seu semblante fica sério. - Eu não vou fingir que meus sentimentos não estavam feridos, mas teria enviado qualquer coisa que você quisesse. Você é meu filho, Travis, e eu te amo. - Eu também te amo. Ficamos em silêncio por um momento, enquanto a princesa do filme faz um corte de cabelo para que ninguém em Roma a reconheça. - Fui um idiota em relação ao papai, sinto muito. –- digo. –- Na verdade, não é da minha conta. E eu vou apoiá-la em tudo que decidir. - Dei entrada nos papéis. - Não posso dizer que eu fico triste –- digo –. - Mas você vai ficar bem, certo? - Agora? – - Ela sorri –. - Absolutamente.


Capítulo 17 Charlie, Eu sei que você não pode ler isso, mas eu tenho visto uma terapeuta e ela acha que eu deveria escrever sobre você. Ao invés disso, pensei que poderia ser mais fácil escrever para você. Talvez nós dois estejamos errados e, além disso, eu me sinto um pouco estúpido escrevendo para uma pessoa morta, mas pensei em fazer uma tentativa. Eu fui diagnosticado com estresse pós-traumático, mas só conversar com uma terapeuta simplesmente não faz nada desaparecer magicamente. Eu quero dizer, é bom para desabafar sobre algumas das coisas que eu te-nho carregado, mas ainda tenho pesadelos. Ainda acordo no meio da noite, suado e com medo, e tenho que lembrar que não é real. Acontece que ela me disse que os pesadelos podem nunca ir embora. Posso levar anos para parar de reagir a barulhos altos ou vasculhar o terreno procurando dispositivos explosivos improvisados. E embora eu não o tenha visto há algum tempo, provavelmente nunca pare de te confundir com estranhos nas multidões. É uma merda, mas eu estou aprendendo a lidar com isso. Algumas coisas mudaram desde que você partiu. Meus pais se separaram e meu pai voltou para Green Bay. Isso é o que a minha mãe me diz, de qualquer ma-neira. Eu não falo com ele, ele não fala comigo e parece funcionar para ambos. Mamãe vendeu a casa e tem um lugar menor. Ela passa a maior parte do seu tempo cole-tando material para as crianças afegãs, mas tem visto sua mãe e Jenny algumas vezes. Falando de sua mãe, eu fui vê-la como prometido. Você estava certo sobre ela. É um pouco estranha, mas em um bom sentido. Você teria rido da cara de Kevlar quando percebeu que ela é lésbica. A propósito, finalmente Kevlar começou o trabalho, mas realmente não vai querer saber desses detalhes. Lembra-se de como eu brincava sobre fazer o curso de reconhecimento? Acontece que Kevlar foi no meu lu-gar, e ele está com o Primeiro Batalhão de Reconheci-mento de Pendleton agora. Uma vez que o Afeganistão tem vivido em ritmo intenso, espero que isso funcione para ele. A última vez que nos falamos, já faz algum tempo, ele me disse que tem uma namorada séria, mas não vai mostrar fotos dela, por isso lhe disse que era um mentiroso. Ela é provavelmente uma baleia. Enfim, acabei sendo enviado para a escola de cães-bomba. No começo eu era contra, porque isso significa mais patrulhas quando fôssemos para o Afeganistão, mas amigo...Esta é provavelmente a melhor coisa que fiz. Meu cão é um labrador preto chamado Bodhi, que sua mãe me disse que é uma palavra sânscrita que significa "despertar", e disse que é um sinal que é o cão certo para mim. Eu não tenho certeza se isso é verdade, mas eu gosto. Bodhi está terminando um treino, enquanto eu estou de licença, então só o vejo agora no aeroporto. Eu não estou dizendo que quero voltar para aquele país de merda, mas eu realmente queria trabalhar com meu cão novamente.


Agora eu estou em Maine visitando minha nova na-morada, Harper. Não sei como toda essa coisa de namoro à longa distância vai funcionar, mas ela disse que vai estar aqui quando eu voltar. Sendo assim, tenho que acreditar, porque este é o tipo de garota que ela é. Você realmente iria gostar dela e sei que ela também gostaria de você. Talvez você já saiba de tudo isso. Talvez você este-ja passando um tempo com Buda nos observando desco-brir como funciona a vida sem você. Mas se você não sa-be, não é fácil. Às vezes parece que deixamos a água correndo ou esquecemos de trancar a porta e então me lembro e é uma merda. Talvez um dia vamos nos encontrar novamente, Charlie. Sério mesmo. Até um dia, guarde um lugar para mim, ok?


Trish Doller Nasceu na Alemanha, mas cresceu em Ohio. Foi para a Universidade do Estado de Ohio, se ca-sou com alguém realmente especial, se mudou de Maine para Michigan e voltou para Ohio por um tempo. Agora vive na Flórida com seus dois filhos, dois cães e um pirata. Realmente. Já trabalhou como apresentadora de um programa de rádio matutino foi repórter de jornal, e passou todos os seus verões durante a Universidade trabalhando em um parque incrível.

Something like normal trish doller  
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