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CORAÇÃO DE PEDRA Sheikh Without A Heart

Sandra Marton

Das luzes brilhantes de Las Vegas... para as joias reluzentes do deserto. Um ousado microbiquíni com lantejoulas não era o traje que Rachel Donnelly queria estar usando para conhecer o sheik Karim al Safir. Especialmente por ele ser tão belo... e estar completamente vestido! Karim não consegue acreditar que aquela é a mãe de seu sobrinho recém descoberto. Sua inquietação diante da visão do corpo seminu de Rachel é uma ameaça à sua reputação de sheik de coração de pedra, mas ele fará jus a ela para assegurar que o herdeiro do trono seja criado em Alcantar.

Digitalização: Simone R. Revisão: Andréa M.


Paixão 321 – Coração de pedra – Sandra Marton

Querida leitora, O sheik Karim al Safir é conhecido como “sheik coração de pedra” — e não é muito difícil de se imaginar o porquê... Mas, como diz o ditado, “água mole em pedra dura...” E a “água”, responsável por furar essa rocha, é ninguém menos que Rachel Donnelly, a mãe de seu sobrinho recém-nascido. Descubra se o implacável e belo sheik conseguirá se manter firme diante de Rachel, em nome de sua reputação e do herdeiro de Alcantar! Boa leitura! Equipe Editorial Harlequin Books

Tradução Celina Romeu HARLEQUIN 2013

PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II B.V./S.à.r.l. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: SHEIKH WITHOUT A HEART Copyright © 2012 by Sandra Marton Originalmente publicado em 2012 por Mills & Boon Modern Romance Projeto gráfico e arte-final de capa: Nucleo i designers associados Arte-final de capa: Isabelle Paiva Distribuição para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil: FC Comercial Distribuidora S.A. Editora HR Ltda. Rua Argentina, 171,4° andar São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380 Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

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CAPÍTULO UM

Era o tipo de noite que fazia um homem ansiar por cavalgar seu garanhão favorito através do mar de areia do deserto. Céu de seda negra. Estrelas brilhantes como fogueiras. Uma lua de marfim lançando um brilho leitoso sobre o infinito mar de areia. Mas não havia um cavalo sob o sheik Karim al Safir. Não naquela noite. Sua Alteza Real, o príncipe de Alcantar, herdeiro do antigo e honrado trono, estava 15 mil metros acima do deserto, invadindo a escuridão em seu jato particular. Um café que esfriava rapidamente estava sobre a pequena mesa ao lado; a pasta de couro, aberta no assento ao lado. Minutos antes, começara a ler seu conteúdo, até que, de repente, pensou: por que diabos? Sabia o que havia na pasta. Estudara os papéis inúmeras vezes nas últimas duas semanas e novamente na noite anterior, quando voara das Índias Ocidentais Britânicas em direção ao seu destino final, como se, ao fazer aquilo, conseguisse encontrar algum sentido nas coisas, quando sabia malditamente bem que não encontraria. Karim estendeu a mão para o café e o levou aos lábios. Estava gelado, mas bebeu assim mesmo. Precisava daquilo. O amargor, a dose de cafeína. Precisava de alguma coisa, Deus sabia, para mantê-lo em movimento. Estava exausto. No corpo. Na mente. No espírito. Se pelo menos pudesse ir até a cabine, dizer ao piloto para pousar. Ali. Agora. No deserto abaixo. Loucura, é claro. Apenas precisava de alguns momentos da tranquilidade que poderia encontrar se inspirasse profundamente, pelo menos uma vez, o ar do deserto. Karim rosnou. A mente estava cheia de pensamentos loucos aquela noite. Não haveria uma sensação de paz naquela terra. Não era o deserto de sua infância. Alcantar estava a milhares de quilômetros de distância, seu deserto de dunas gentis que terminava nas águas de cor turquesa do mar Pérsico. O deserto sobre o qual o avião voava terminava nas luzes de neon de Las Vegas. Karim tomou mais um gole do café frio. Las Vegas. Estivera lá uma vez. Um conhecido tentara convencê-lo a investir em um hotel em construção. Voara até lá uma manhã e voltara para Nova York à noite. Não pusera seu dinheiro no hotel ou melhor, o dinheiro do seu fundo. E jamais voltara a Vegas. Achara a cidade vulgar. Suja. Até seu encanto supervalorizado lhe parecera falso, como uma prostituta barata tentando se fazer passar por uma cortesã cara com camadas extras de maquiagem. Assim, não. Las Vegas não era para ele, mas parecia que fora para seu irmão. Rami passara quase três meses lá, mais tempo do que em

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qualquer outro lugar nos últimos anos. Fora atraído para ela como uma mariposa pela luz de uma chama. Karim se recostou no assento de couro. Depois de descobrir tudo o que agora sabia sobre o irmão, não se surpreendia. Finalmente tivera que enfrentar a verdade sobre ele. Amarrar as pontas soltas do fim da vida do irmão morto acabara com suas últimas ilusões. Aquela era uma frase do pai. O que realmente estava fazendo era limpar a sujeira que Rami deixara, mas o pai não sabia. O rei acreditava que seu filho caçula apenas fora incapaz de se acomodar, ou não quisera, que viajava de um lugar para outro numa busca infinita de si mesmo. A primeira vez em que o pai dissera aquilo, Karim quase o lembrara que se descobrir era um luxo negado a príncipes. Tinham deveres a cumprir e obrigações a aceitar desde a mais tenra infância. Mas Rami fora poupado; sempre tivera um lado selvagem, sempre encontrara maneiras de evitar a responsabilidade. — Você é o herdeiro, irmão — costumava dizer a Karim com um sorriso. — Sou apenas o sobressalente. Talvez, se tivesse sido obrigado a seguir um código de dever e honra, Rami pudesse ter sido poupado de uma morte tão prematura e horrível, mas era tarde demais para especulação. Estava morto, a garganta cortada em uma rua gelada de Moscou. Quando a notícia chegara, Karim sentira uma perda quase insuportável. Esperava que “amarrar as pontas soltas” da vida do irmão desse a ele algum significado e, portanto, um fechamento. Inspirou profundamente, então exalou. Agora, o melhor que podia fazer era esperar para remover a mancha no nome do irmão, que aqueles a quem Rami enganara não dissessem mais seu nome com repugnância. Enganara? Karim quase riu. O irmão jogara. Frequentara bordéis. Usara todas as drogas ilegais. Pedira dinheiro emprestado e nunca pagara. Fugira das dívidas em cassinos e hotéis de todo o mundo. Deixara contas imensas sem pagar em meia dúzia de cidades. Singapura. Moscou. Paris. Rio. Jamaica. Las Vegas. Todas aquelas dívidas precisavam ser pagas se não por motivos legais, então por motivos morais. Dever. Obrigação. Responsabilidade. Todas as coisas de que Rami desdenhara agora eram encargo de Karim. Assim, embarcara numa peregrinação, se é que podia usar essa palavra para descrever aquela viagem profana. Entregara cheques a banqueiros, a gerentes de cassinos, a donos de butiques. Pagara um valor indecente em dinheiro a homens sujos em salas ainda mais sujas. Ouvira coisas sobre o irmão, coisas que jamais esqueceria, por mais que tentasse. Agora, com quase todas as “pontas soltas” amarradas, esta viagem pavorosa pela vida de Rami estava quase no fim. Dois dias em Vegas, no máximo três. E por isso estava viajando à noite. Por que perder tempo do dia seguinte na viagem, quando poderia gastá-lo na limpeza? Depois, voltaria a Alcantar, garantiria ao pai que os negócios de Rami estavam em ordem e jamais contaria os detalhes. Então, finalmente, poderia voltar para a própria vida, para Nova York, para suas responsabilidades como 4


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presidente da Alcantar Foundation. Poderia deixar tudo para trás, as lembranças de um irmão que uma vez amara, um irmão que se perdera. — Vossa Alteza? Karim reprimiu um gemido. A tripulação de seu avião era pequena e eficiente. Dois pilotos, uma comissária de bordo. Mas aquela era nova e ainda claramente excitada por fazer parte da equipe real. Sabia apenas o que todos sabiam: que coubera a ele o dever de cuidar dos negócios inacabados do irmão. Presumia que ela compreendera mal seu rosto severo, que considerara a seriedade uma expressão de luto, quando a verdade era que a dor lutava contra a raiva. Era difícil distinguir qual emoção era mais forte. — Senhor? Como se não bastasse, ela parecia não absorver o conhecimento de que detestava que o paparicassem. — Sim, senhorita Sterling? — É Moira, senhor, e vamos aterrissar em uma hora. — Obrigado. — Posso fazer alguma coisa por Vossa Alteza antes de chegarmos? Poderia fazer o tempo voltar e lhe devolver o irmão alegre e sorridente de sua infância? — Não, obrigado, estou bem. — Sim, Vossa Alteza. Mas, se mudar de ideia. — Tocarei a campainha. A mulher fez uma pequena reverência, sem nenhum estilo, ignorando as instruções de seu chefe de funcionários. — Certamente, Vossa Alteza. E então, felizmente, voltou-se e saiu. Precisava dizer de novo ao chefe de funcionários que ninguém mais no mundo fazia reverências à realeza. Inferno. Karim deitou a cabeça no descanso da poltrona. A mulher fazia apenas o que considerava seu dever. Ele, melhor do que ninguém, entendia aquilo. Fora criado para honrar suas obrigações. Seu pai e sua mãe instilaram aquela noção nele desde a infância. O pai tinha sido, e ainda era, um homem severo, um rei primeiro e um pai em segundo lugar. Sua mãe era alguma coisa entre uma estrela de cinema e uma debutante de Boston, muito linda, com maneiras impecáveis e, principalmente, um anseio ardente para passar a vida o mais longe possível do marido e dos filhos. Odiara Alcantar. Os dias quentes, as noites frias, o vento constante que vinha do mar e erguia nuvens de areia. Desprezara aquilo tudo. Em algumas de suas lembranças mais antigas, estava em pé, de mãos dadas com a babá, engolindo as lágrimas porque um príncipe não podia chorar, vendo sua linda mãe partir em uma limusine. Rami parecia com ela. Alto. Louro. Olhos azuis intensos. Karim, porém, era uma mistura dos dois pais. Nele, os olhos azuis da mãe e os castanhos do pai haviam se misturado e se tornado um cinzento gelado. Tinha os malares altos e a boca esculpida da mãe, mas sua estrutura alta, de ombros largos, pernas longas e corpo rijo e 5


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musculoso, era herança do pai. Rami se parecera com ela de outras maneiras também. Não odiara Alcantar, mas sempre preferira lugares de conforto sibarítico. Karim, ao contrário, não podia se lembrar de não ter amado sempre seu deserto natal. Crescera no palácio do pai, construído num enorme oásis ao pé das Great Wilderness Mountains. Seus amigos de infância tinham sido Rami e os filhos dos ministros e conselheiros do pai. Aos sete anos, já era capaz de cavalgar sem sela, acender uma fogueira com pederneira, dormir com tanto conforto sob o fogo gelado das estrelas como no berçário. Mesmo então, 26 anos atrás, apenas um grupo pequeno das tribos de Alcantar ainda vivia daquele jeito, mas o rei considerara fundamental que ele compreendesse e respeitasse aquele tipo de vida. — Um dia — dizia a Karim —, governará nosso povo, e eles precisam saber que compreende e aceita os costumes antigos. — Sempre havia uma pausa, então olhava para Rami, mas não com severidade; apenas com um pouco de condescendência. — Você também precisa respeitar o povo e seus modos antigos, meu filho, embora não vá se sentar no trono. Fora aquele o ponto sem volta para o irmão? Ou tinha sido quando a mãe morrera, e o pai, arrasado embora ela se afastasse tanto dele e dos filhos, se jogara ainda mais no trabalho de governar e os enviara para longe, para os Estados Unidos, para serem educados, dissera, como sua mãe queria? E, de repente, tão de repente, os irmãos se viram no que parecera uma cultura alienígena. Sentiram uma falta enorme de casa, embora por motivos diferentes. Rami ansiara pelo luxo do palácio. Karim ansiara pelo céu infinito do deserto. Rami lidara com seu anseio matando aula e se juntando a um grupo de garotos que passavam de um problema para outro. Mal conseguiu terminar o ensino médio, então se matriculara numa pequena faculdade da Califórnia, onde se formara em mulheres, cartas e em promessas que jamais cumprira. Karim lidara com o dele mergulhando nos estudos. Recebera seu diploma do ensino médio com louvor e fora aceito em Yale, onde se formara em finanças e direito. Aos 26 anos, criara um fundo de investimento particular em benefício do seu povo e o administrara, em vez de passar o trabalho para um mago das finanças de fala mansa da Wall Street. Rami arranjara um emprego em Hollywood. Assistente de um produtor de filmes classe B, assistente disto e assistente daquilo. Tudo dependia de sua boa aparência, sua fala mansa e seu título. Aos 30 anos, quando recebera a herança deixada pela mãe, abandonara o fingimento de trabalhar e fizera o mesmo que ela: viajara pelo mundo. Karim tentara conversar com ele. Não uma vez nem duas. Muitas, muitas vezes. Falara sobre responsabilidade. Dever. Honra. A resposta de Rami tinha sido sempre a mesma e dada com um sorriso sem humor: — Eu não. Sou apenas o sobressalente, não o herdeiro. Depois de algum tempo, pararam de se ver com frequência. E agora. agora Rami estava morto. Morto. As entranhas de Karim deram um nó. O corpo do irmão, encontrado em Moscou, fora mandado para casa e enterrado com toda a pompa devida 6


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a um príncipe. O pai ficara rijo junto ao túmulo. — Como ele morreu? E Karim, sabendo como o velho estava frágil, mentira. — Um acidente de carro. Era quase verdade. Tudo o que soubera era que Rami tivera um encontro com seu traficante de cocaína, alguma coisa dera errado, o homem lhe cortara a garganta e um Rami moribundo caíra no caminho de um carro que passava. E por que pensar em tudo de novo? A morte era notícia antiga. Em breve, “amarrar as pontas soltas” também seria notícia antiga. Uma última parada. Algumas coisas para consertar. O som dos motores mudou, e logo o avião pousou. Ele se levantou e pegou a pasta de couro. Dentro, estava o que considerava o último arquivo. Cartas de três hotéis, expressando condolências pela morte de Rami e lembrando que deixara muitas dívidas em seus cassinos e lojas. Havia também um pequeno envelope com uma chave e um pedaço de papel com um endereço escrito com a letra de Rami. Pensara em criar raízes ali? Não que agora tivesse importância, pensou Karim, sombrio. Era tarde demais para raízes ou qualquer coisa que parecesse uma vida normal. Levantaria cedo na manhã seguinte, pagaria as dívidas do irmão, localizaria o endereço da chave, faria o que fosse preciso. Certamente haveria um aluguel pendente. E então tudo ficaria no passado. Tomou o carro alugado previamente e dirigiu até o hotel no qual tinha a reserva de uma suíte, usando o GPS. Era quase 1h da madrugada, mas a Las Vegas Strip brilhava, com todas as luzes acesas. Lojas estavam abertas, havia pessoas por toda parte. Havia um frenesi no lugar, um tipo de atmosfera alegre de circo que parecia falsa a Karim. No hotel, entregou o carro a um manobrista, deu ao garoto uma nota de 20 dólares, avisou que carregaria a própria bagagem e entrou no lobby. Os sons metálicos de máquinas caça-níqueis lhe atingiu o ouvido. Foi até a recepção, atravessando uma multidão risonha e barulhenta de jogadores. Foi bem atendido e logo subia no elevador ao lado de um homem acompanhado por duas mulheres, um braço sobre os ombros de cada uma. Uma delas lhe acariciava o peito, a outra tinha a língua dentro da orelha dele. O elevador parou no décimo andar e Karim saiu. Quanto antes terminasse seus assuntos naquela cidade, melhor. Sua suíte, pelo menos, era grande e atraente. Em minutos tirou a roupa e entrou no chuveiro. Deixou que a água quente batesse com força sobre a cabeça e os ombros, esperando que lavasse um pouco do cansaço e da tensão. Não adiantou. Certo. O que precisava era dormir. Mas não conseguiu. O que não o surpreendeu. Depois de duas semanas viajando pelo mundo e descobrindo verdades feias sobre o irmão, o sono lhe fugia. Depois de algum tempo, desistiu. Precisava fazer alguma coisa. Caminhar. Dirigir. Encontrar os hotéis dos quais Rami saíra deixando dívidas enormes. Não aquele, tinha certeza. Talvez devesse ir até o apartamento que o irmão alugara. Podia até entrar, olhar ao 7


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redor. Não que esperasse encontrar qualquer coisa do irmão, mas se houvesse alguma coisa pessoal seu pai poderia querê-la. Karim vestiu um jeans, uma camiseta preta, tênis e uma jaqueta preta de couro. As noites eram frias no deserto, mesmo naquele que abrigava a cidade cujas luzes podiam ser vistas a quilômetros. Tirou a chave e o endereço do apartamento da pasta. Na etiqueta presa à chave estava escrito “4B”. Sem dúvida o número de um apartamento. O manobrista lhe levou o carro. Karim lhe deu outra nota de 20 dólares, digitou o endereço no GPS e seguiu as instruções. Quinze minutos depois, chegava ao destino. Era um edifício pobre numa área pobre de Las Vegas. A região era suja e maltratada, como o próprio edifício. Karim franziu a testa. Mas não havia erro, era o endereço certo. Teria Rami perdido a habilidade de se instalar nos melhores hotéis mesmo sem dinheiro? Só havia uma forma de descobrir. Saiu do carro, trancou-o e se dirigiu para a porta de entrada, que estava destrancada. Havia um cheiro ruim e forte no vestíbulo. A escada rangia. Pisou em alguma coisa gosmenta e tentou não pensar no que poderia ser. Subiu até o terceiro andar, e lá estava o apartamento 4B, embora o “4” estivesse torto e o “B”, de cabeça para baixo. Karim hesitou. Queria mesmo fazer aquilo naquela noite? Seria capaz de enfrentar o que certamente era uma pocilga? Lembrou-se de quando visitara o apartamento de Rami quando era universitário. Pratos sujos na pia e sobre as bancadas. Comida estragada na geladeira. Roupas espalhadas por toda parte. — Maldição — suspirou. A verdade é que não se importava se o apartamento estivesse sujo ou não. O que interessava era que teria as coisas de Rami. Não havia nada nos quartos dos hotéis; tinham removido todos os seus pertences. Isto seria diferente. E era um covarde. — Um maldito covarde — disse, a voz baixa, então pegou a chave e abriu a porta. A primeira coisa que percebeu foi o cheiro. Não de sujeira, mas de alguma coisa muito agradável. Açúcar? Cookies? Leite? A segunda foi que não estava sozinho. Havia alguém em pé a menos de três metros. Não alguém. Uma mulher. Estava em pé, de costas para ele, alta e esguia e nua. Passou o olhar por ela. O cabelo descia, um louro dourado, abaixo dos ombros; a coluna era longa e graciosa. Tinha uma cintura fina que enfatizava a curva dos quadris e as pernas inacreditavelmente longas. Pernas tão longas como o pecado. Inferno. Edifício errado. Apartamento errado. Lugar. A mulher se virou. Não estava nua, usava uma coisa que mal podia ser chamada de sutiã, coberta de lantejoulas. E um fio dental. Um minúsculo triângulo de prata brilhante. Era uma roupa barata que enfatizava a beleza do corpo dela, embora o rosto fosse ainda mais lindo. E o que importava, quando certamente havia entrado no lugar errado. E, maldição, os olhos dela estivessem cheios de terror? Karim ergueu as mãos. — Está tudo bem, cometi um erro. Pensei... — Sei exatamente o que pensou, seu, seu pervertido. — E, antes que pudesse reagir, a mulher o atacou, alguma coisa na mão. Era um sapato. Com um salto tão longo e fino como um estilete. 8


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— Ei! — Karim pulou para trás. — Escute, estou tentando lhe dizer. Ela lhe bateu de novo com o sapato, desta vez mirando o rosto, mas ele se mexeu depressa e o golpe lhe atingiu o ombro. Agarrou-lhe o pulso e levou-lhe o braço para o lado. — Pode esperar um minuto? Apenas um maldito minuto. — Esperar? — Rachel Donnelly estava furiosa. — Esperar? — O tarado do salão de jogos queria que esperasse? Até que a estuprasse? — Diabos que vou esperar — rosnou. Então soltou a mão, virou-a com força. Desta vez, o salto passou perto do rosto dele. Para ela, aquela era a boa notícia. A má foi que ele resmungou alguma coisa, parou de se defender e atacou. Ofegante, ela reagiu com toda força, mas ele era grande demais, forte demais, determinado demais. Um segundo depois, segurava-a pelos dois pulsos e a prendia contra a parede. — Maldição, mulher! Vai me ouvir? — Não há nada a ouvir. Sei o que quer. Estava no salão de jogos esta noite. Eu lhe levei uma bebida atrás da outra e sabia que seria um problema. Estava certa, aqui está você e... e... — A respiração parou. Errada, aquele não era o sujeito que a despira com os olhos. O pervertido era calvo e vesgo e usava óculos de lentes grossas. Aquele tinha cabelo abundante negro e olhos de um cinzento frio, da cor do gelo do inverno. Não que aquilo importasse. Invadira seu apartamento. Era homem, ela era mulher. Depois de três anos em Vegas, sabia o que aquilo. — Está enganada. — Piscou. Ou falara em voz alta ou ele podia ler sua mente. — Não vou machucá-la. — Então dê a volta e vá embora. Agora. Não vou gritar, não vou chamar a polícia. — Pode me ouvir? Um de nós está no apartamento errado. Apesar de tudo, ela teve que sufocar uma risada. A expressão do homem se tornou mais zangada, e ele lhe apertou mais os punhos. — O que estou tentando dizer é que não esperava que houvesse alguém aqui. Pensei que fosse o apartamento do meu irmão. — Bem, não é. Este apartamento é... é... — Olhou para o rosto dele. — Que irmão? — O meu irmão. Rami. O piso pareceu se mover sob os pés de Rachel. Sentiu o sangue fugir do rosto. O homem percebeu, e aqueles olhos cinzentos entrecerraram. — Sabe quem é? Sabia, é claro que sabia. E se este fosse o irmão de Rami... se fosse Karim de Alcantar, o príncipe todo poderoso, implacável, com um coração de pedra. — Vou soltá-la. Se gritar, vai se arrepender. Rachel engoliu com força. — Sim. Lenta e cuidadosamente, os olhos presos nos dela, libertou-a. — É evidente que estava certo. Este é o apartamento do meu irmão. — Eu... eu... — Você... você o quê? — rosnou, com régia impaciência. — O que está fazendo 9


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aqui? Este apartamento pertence a Rami. Não pertencia, nunca pertencera. Era dela e sempre fora, embora aquilo não tivesse impedido que primeiro Suki e depois o amante de Suki se mudassem para lá. Agora, graças a Deus, ambos haviam ido embora e ela vivia sozinha. Oh, Deus! O coração já disparado acelerou ainda mais. Não vivia ali sozinha. — Quem é você? — rosnou o homem. Olhou-o, desamparada. Quem, mesmo? A cabeça girava. Devia saber que mais cedo ou mais tarde alguém viria. A mão dele lhe agarrou o pulso de novo. — Responda à pergunta! Quem é você? O que está fazendo aqui? — Sou... sou uma amiga. — E então, como não tinha ideia do que aquele homem sabia e, principalmente, o que queria, continuou: — Sou amiga de Rami. Muito amiga.

CAPÍTULO DOIS

A BOCA de Karim afinou. Amiga o diabo! Tinha sido a mulher de Rami. Sua amante. Sua namorada. E, pelo menos uma vez na vida, Rami parecia ter se apaixonado por uma mulher que não fazia o tipo dele. Percebera aquilo de imediato. A roupa da mulher era barata e vulgar, mas, de alguma forma, sabia que ela não era. Havia alguma coisa remota sobre ela, alguma coisa naqueles escuros olhos azuis que dizia: cuidado com a forma como me trata. Talvez aquilo tivesse atraído Rami. O desafio de derrubar a barreira invisível em torno dela. Talvez compensasse o fato de não falar em sentenças curtas e arquejantes e não bater os cílios. Rami adorava aquelas tolices. E Karim não conseguia imaginar aquela mulher fazendo coisas assim. Era durona. Inferno, era destemida. Qualquer outra mulher teria gritado por socorro e corrido. Ou, pelo menos, implorado misericórdia. Mas ela o atacara com uma arma. Uma arma muito incomum, pensou divertido, mas uma arma. O sapato com saltos agulha, muito altos e finos, estava no chão ao lado dele. Aquela coisa podia ter causado danos graves. — Estes saltos altos e finos são pura tortura — admitira uma vez sua amante, mas os usava mesmo assim. E ele sabia o motivo. As mulheres os usavam porque sabiam bem demais que os homens adoravam a aparência que davam ao corpo delas: a ligeira inclinação da pélvis para frente, o acréscimo ao comprimento das pernas. Não que a mulher de Rami precisasse de qualquer coisa para tornar suas pernas mais longas. Mesmo agora,

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descalça, elas pareciam infinitas. Estava de meia-calça, ou qualquer coisa que desse nome ao aparato que lhe cobria as pernas e desaparecia sob aquele fio dental. Com saltos ou sem eles, era uma visão fantástica. Macia. Sexy. Toda feminina. Por que negar? Era linda, e ele tinha certeza de que era tudo natural. Vira mulheres demais embelezadas por meios cirúrgicos ou químicos. Malares implantados. Lábios injetados. Testas imóveis e, pior, seios que pareciam balões, em vez de carne quente e suave. Os seios daquela mulher deviam ser maravilhosos nas mãos de um homem. Os mamilos teriam um gosto doce em sua língua. Karim sentiu o corpo enrijecer. Inferno. Estava sem sexo há tempo demais. Por que mais reagiria assim a ela? Era linda, mas ela tinha sido de Rami. Além disso, gostava que suas mulheres fossem bem, pelo menos um pouco modestas. Era o sheik de um reino antigo, com uma cultura que ainda estava aprendendo a aceitar alguns conceitos modernos sobre mulheres, mas também era um homem do século XXI. Tinha sido educado no Ocidente. Acreditava na igualdade de gênero, sim, mas um pouco de recato era uma coisa boa em uma mulher. Duvidava que aquela em particular até mesmo compreendesse o conceito. Karim franziu a testa. Nada daquilo importava, Rami estava morto. E era hora de tratar de negócios. Contar a ela que o amante estava morto e que tinha até o fim do mês para desocupar o apartamento. Dissera que era dela, mas certamente apenas porque estava lá e Rami não. Mesmo assim, lhe daria um cheque generoso, era a coisa certa a fazer. Então amanhã... hoje, pensou, ao olhar o relógio e ver que passava de 6h da manhã... cuidaria do resto das dívidas do irmão em Las Vegas. Com sorte, estaria em Alcantar no fim de semana. Então voltaria para Manhattan e continuaria com sua vida. — Bem? — A voz era áspera. — Diga alguma coisa. Se é mesmo o irmão de Rami, qual é o seu nome? E o que está fazendo aqui? Karim piscou. Aquela era a grande pergunta. Saberia que o amante estava morto? Achava que não. Falava nele no presente. Então qual seria a melhor maneira de lhe dar a notícia? Com gentileza? Ou apenas a informaria? Talvez a última forma fosse a melhor. Ser direto. Por toda aquela aparência feminina — a boca que lembrava a pétala de uma rosa, os seios empinados, as curvas delicadas dos quadris — não havia nada de frágil nela. Ainda era a imagem do desafio, os escuros olhos azuis brilhando, o queixo erguido, pronta para lutar. Podia mudar aquilo numa fração de segundo. E seria fácil. Ele a tomaria nos braços, mergulharia uma das mãos na massa de sedosos fios de cabelo dourado, lhe ergueria o rosto para ele com a outra mão e lhe tomaria a boca. Ela lutaria, mas apenas por breves instantes. Então a pele ficaria quente e rosada de desejo. Os lábios se abririam. Ela gemeria e se renderia, então a carregaria até o sofá, lhe tiraria o sutiã, o fio dental, as meias, e então os gemidos seriam mais profundos porque a faria querê-lo, se abrir para ele, se mover debaixo dele. Danação! Karim lhe deu as costas, fingiu estudar a parede, o piso, qualquer coisa até 11


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controlar seu corpo traidor. Não era de admirar que Rami mantivesse aquela mulher, pensou, enquanto se virava de novo para ela. — Qual é o seu nome? — A voz era áspera. — Perguntei primeiro. Ele quase riu. Ela parecia uma menina pronta para uma briga na escola. — É assim tão difícil me contar quem é? Quase podia ouvi-la pensar sobre o pedido. Então jogou a cabeça para trás. — Rachel. Rachel Donnelly. — Bem, Rachel Donnelly, sou Karim. — Cruzou os braços sobre o peito. — Talvez Rami tenha falado sobre mim. Rachel tentou esconder a aflição. Seu visitante indesejado confirmara seus piores temores. Rami realmente falara sobre Karim. Não para ela. Nunca lhe dera mais do que um “oi” ou um “adeus”, se não contasse as vezes em que roçara nela e sussurrara o quanto desejava levá-la para a cama. Mas Suki lhe contara tudo sobre o irmão de Rami. Sua irmã o detestara mesmo sem conhecê-lo. Karim, dissera Suki, era o motivo pelo qual Rami não tinha dinheiro, a razão por que nunca seria tratado bem pelo pai, o rei. Era tudo culpa dele. Karim. Karim, o Ganancioso. Karim, o Arrogante. Karim, o Príncipe, que havia deliberadamente cavado um abismo entre Rami e o pai. Karim, o Príncipe, que não pensava em ninguém, apenas em si mesmo, que desejava apenas impedir que qualquer outra pessoa herdasse até mesmo uma fração da imensa fortuna do pai. Karim, o Sheik sem Coração. Rachel não prestara muita atenção a nada daquilo até Rami e Suki partirem. Primeiro foi Rami. Sem aviso, sem adeus. Um dia estava lá, no outro, desaparecera. Suki esperara o quanto conseguira. E então, quando lhe fora conveniente, também partira. Tudo o que deixara para trás fora uma pilha de roupas sujas, um traço de perfume barato. E a única coisa que nunca tivera importância para Rami ou Suki, apenas para Rachel. E então Rachel começara a pensar no homem que nunca vira. Sobre o que ele poderia saber. Ou não saber. Sobre como reagiria se algum dia visse o que Suki deixara para trás. Mesmo assim, jamais esperara que ele aparecesse à sua porta sem aviso. Por tudo o que Rami contara a Suki, o irmão dele viajava com uma equipe formada por bajuladores e guarda-costas. Mas ali estava ele. Sozinho. E tratando-a com desprezo mal disfarçado, quando não a olhava com luxúria naqueles olhos de inverno. Rachel conhecia aquela expressão. Uma mulher que usava aquela roupa para servir bebida num cassino era alvo fácil. Detestava tudo sobre o emprego. Os clientes. A atmosfera. O barulho das fichas dos jogos. A roupa horrível. Evitara usá-la até o patrão dizer: — Quer o emprego? Então faça o que lhe mandam e deixe de frescura. As meninas que trabalhavam com ela tinham sido ainda mais diretas. — Quer ser a senhorita Orgulhosa? Vá recolher pratos sujos em restaurantes baratos. Rachel já passara por aquilo. Não poderia pagar o aluguel e sustentar Suki — já 12


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que Suki certamente não trabalhava — com o que ganharia limpando mesas. Assim, todos os dias cerrava os dentes, vestia a fantasia nojenta e saía para trabalhar em um lugar no qual os homens acreditavam que estaria disponível para muito mais do que receber seus pedidos de bebidas. Odiava aquilo, mas era assim que os homens eram. Sem surpresa. E então Rami se mudara para sua casa. Depois de algumas semanas, quando não suportara mais viver com ele e Suki, Rachel exigira que a irmã e o namorado encontrassem um lugar para eles. Suki caíra no choro e dissera que não podia, que estava com problemas. Aquele “problema” mudara tudo. Rachel não pudera expulsar Suki e... e... — Perdeu a capacidade de falar, Rachel Donnelly? Não posso perder tempo. Sem tempo, pensou Rachel, sem tempo. Oh, Deus! Estivera tão mergulhada no que acontecia que quase esquecera a hora. O relógio da parede mostrava que eram 6h15. Chegara do trabalho duas horas antes, como sempre. O que significava que o motivo pelo qual continuara em Vegas chegaria dentro de 45 minutos. Jamais soubera bem o que fazer se e quando aquele momento chegasse. Agora tinha certeza. E tinha certeza de outra coisa. O irmão de Rami não sabia de nada. Se soubesse, já estaria exigindo seus direitos sobre o que certamente consideraria dele. — Tanta confusão sobre querer saber meu nome. Rachel ergueu os olhos. O sheik estava lá de pé, os braços cruzados, um homem grande, de rosto severo, o corpo rijo, olhos cinzentos frios como gelo e que, por acaso, parecia um deus. Infelizmente para ele, Rachel sabia a verdade: era um filho da mãe sem coração, especialista em manipular pessoas e conseguir que o vissem como queria ser visto. — Tanta confusão... A voz era sarcástica — e agora não tem nada a dizer. Ela enrijeceu os ombros. Precisava enfrentá-lo e fazê-lo partir. — Na verdade, apenas queria ter certeza. Já havia imaginado. — Mesmo? — Agora ele ronronava. — Rami o descreveu muito bem. Egoísta. Arrogante. Um déspota. Sim, ele o descreveu bem. — Viu o que atingira; um rubor lhe cobriu os malares altos. — É um sheik, não é? De Alashazam. Ou Alcatraz. Uma coisa assim. O rubor se aprofundou, e ele deu um passo à frente. Rachel lutou contra o anseio de recuar. — Alguma coisa assim. — A voz agora era gelada. — Bem, Rami não está aqui. — Aquilo o fez sorrir de leve. Dissera alguma coisa divertida? — Mas certamente lhe direi que você veio. Agora, sheik-o-que-quer-queseja-chamado, estou ocupada. E... — Sou chamado príncipe Karim. — A voz era dura. — Ou Vossa Alteza. Ou sheik. Maldição. Estava mesmo dizendo aquelas bobagens? Desprezava o uso daqueles títulos antiquados, mas aquela Rachel Donnelly despertava o pior nele. — Sim, bem, Vossa Sheikeza, darei sua mensagem a Rami. Mais alguma coisa? A maneira como ela o chamara era claramente um insulto deliberado. Queria agarrá-la e sacudi-la. Ou agarrá-la e apagar aquele pequeno sorriso de uma forma 13


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muito diferente, uma forma que mudaria completamente seu comportamento. Mas, por tudo o que sabia, aquele era o motivo por que o abalava. Uma mulher com aquela aparência certamente usaria o sexo para vencer. Não era idiota e não permitiria. — Não. — Não? — Sorriu. — É tudo? Bem, neste caso, adeus, boa sorte e, a caminho da rua, não deixe a porta bater. — Rami está morto. Não pretendera ser tão direto e abrupto, mas, maldição, ela o levara a fazer aquilo. Esperava que a tivesse avaliado corretamente; era dura demais para desmaiar ou. — Morto? Acertara. Não era do tipo de desmaiar. E nem de chorar. Sua reação foi apenas abrir muito os olhos. Queria ser generoso, podia estar em choque. — Sim. Morreu no mês passado. Um acidente em... — Então por que está aqui? Não tivera tempo para pensar em todas as reações possíveis à notícia, mas certamente aquela curiosidade distante não estaria na lista. — É isso? Digo-lhe que seu amante está morto e tudo o que quer saber é o que estou fazendo aqui? — Meu amante? — O homem que a sustentava. — A voz agora era gelada. — É um modo melhor de descrever? — Mas Rami... A voz desapareceu. Podia ver que reavaliava. É claro. Estava tentando compreender a situação, determinar o que seria melhor para ela, agora que Rami estava morto. E desaparecera por um bom tempo. Podia não saber que estava morto, mas aquilo acontecera semanas atrás, tornando a expressão “vou dizer a ele que você veio” uma total mentira. Por quê? — Mas Rami... o quê? Ela balançou a cabeça. — Nada. Quero dizer, eu apenas... — Ele a abandonou. A mente de Rachel era um redemoinho, e aquela notícia apenas aumentou sua confusão. Rami estava morto. Aquilo tornava as coisas melhores ou piores? Não, não mudava nada, apenas lhe dava mais motivos para continuar no caminho que traçara até ter notícia de Suki. Arquejou quando as mãos de Karim lhe apertaram os braços. — Por que mentir para mim, senhorita Donnelly? Sabemos que meu irmão partiu semanas atrás. Rachel ergueu os olhos. Nunca vira tanto desprezo nos olhos de uma pessoa. — Por que me fazer uma pergunta se já sabe a resposta? — O que sei — a boca de Karim entortou — é que você não liga a mínima. — Está me machucando! — Quanto tempo levou para encontrar o sucessor dele? 14


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— O.? — Outro idiota para sustentá-la. Pagar suas contas. Comprar o que está vendendo. Os olhos dela brilharam de fúria. — Saia da minha casa! — Sua casa? — Karim a ergueu nas pontas dos pés. — Rami pagava as contas aqui. Tudo o que teve foi a sorte de lhe esquentar a cama. — Se esquentar a cama do seu irmão é um exemplo de sorte, que os céus nos ajudem! Deus, queria sacudi-la até ela desmaiar! Uma vez, há muito tempo, amara o irmão de todo o coração. Haviam brincado juntos, contado os segredos de meninos um para o outro; choraram juntos ao saber da morte da mãe, ajudaram-se mutuamente a suportar as primeiras semanas de internato numa terra estranha. Aquele menino era agora apenas uma lembrança. Uma lembrança que despertou, de repente, uma tempestade de emoções que Karim mantivera escondidas até de si mesmo. Agora aquelas emoções o esmagavam, despertadas pela frieza de uma mulher por quem seu irmão tivera sentimentos. Karim vira pessoas sentirem mais tristeza por um alce morto na estrada do que a que Rachel Donnelly mostrava agora. — Maldita! — rosnou. — Não tem sentimentos? Os olhos dela brilharam, uma luz azul intensa e súbita. — Que pergunta, vinda de um homem como você! Uma névoa vermelha lhe nublou a visão. Karim praguejou e as mãos a apertaram ainda mais. — Solte-me! Ela lhe deu um soco no ombro. Ele lhe segurou as duas mãos com uma só e as imobilizou junto ao peito. — Foi assim que tratou Rami? Você o enlouqueceu também? Implacavelmente, puxou-a para ele. Segurou-lhe o rosto com a outra mão enorme. Abaixou a cabeça para a dela. E parou. O que estava fazendo? Não era assim. Não forçava mulheres. Sexo não tinha relação nenhuma com a raiva. Não importava que ela fosse a responsável, ou que fosse uma intrigante fria e gananciosa. Não lhe dava o direito de tratá-la daquele jeito. Soltou-a, deu um passo para trás, limpou a garganta. — Senhorita Donnelly. — A voz era cautelosa. — Rachel. — Saia! — A voz tremia, os olhos estavam enormes. — Você me ouviu? Saia, saia, saia. — Rachel? — Karim se virou para a porta. Uma mulher de meia-idade, gordinha, o rosto agradável, olhava de Rachel para ele, então de volta para Rachel. — Querida, está tudo bem? Rachel não respondeu. Karim se virou para ela. Ficara lívida e podia ver o movimento rápido dos seios, subindo e descendo. — Senhora Grey. — A voz era um sussurro rouco. Olhou para Karim, então para a mulher. — Senhora Grey. Se puder voltar um pouco mais tarde. — Pensei que fosse ele. — A senhora Grey franziu a testa. — Cor errada de 15


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cabelo, mas a mesma altura, a mesma postura. Sabe a quem me refiro? Ao estrangeiro. Randy. Raymond. Rasi. Seja lá qual for o nome dele. — Não, não é. — Rachel balançou a cabeça. — Escute, detesto pedir, mas se pudesse... — Ainda bem, se quer saber. Homem bonito, mas qualquer idiota podia ver que não era boa bisca. — Senhora Grey. — A voz de Rachel estava alta e trêmula. — Este cavalheiro e eu temos um assunto para terminar e preciso... — Sinto muito, querida, mas estou atrasada. Trouxe minha filha comigo. Vai trabalhar no turno da manhã e tenho que a deixar depois que sair. — Olhou Karim dos pés à cabeça. — Um novo amigo? — Não. — A voz de Karim era gelada. — Não sou amigo da senhorita Donnelly. — Pena, você parece um tipo decente. Não como aquele Rasi. — Balançou a cabeça. — Mesmo assim, seria de imaginar que ele voltaria, que faria a coisa certa por. — Mamãe? Puxa, você anda depressa demais para mim. — Uma voz de mulher, com uma risada no tom. Uma versão mais jovem da senhora Grey parou ao lado dela. Tinha alguma coisa nos braços. Um cobertor? Uma trouxa? Karim prendeu a respiração. Era um bebê e o lembrava alguém. De muito tempo atrás. — Seria de imaginar que um homem faria a coisa certa por seu próprio filho e a mãe dele, não é? — A senhora Grey se dirigia a Karim. Rachel Donnelly, que não demonstrara emoção nenhuma à notícia da morte de Rami, deixou escapar um pequeno som. Karim tirou os olhos do bebê e os dirigiu a ela. Estava trêmula. Cuidadosamente, estendeu os braços para a criança. Agradeceu às duas mulheres. Disse alguma coisa gentil e fechou a porta. Olhou para o bebê em seus braços. E viu réplicas perfeitas, embora minúsculas, dos olhos do irmão. Do nariz do irmão. E da boca de Rachel Donnelly.

CAPÍTULO TRÊS

O mundo parou. Uma frase tão banal, Karim sabia, mas precisou fazer um esforço consciente para respirar. O que estava pensando era impossível. Aquela criança não tinha relação nenhuma com o irmão. Cor dos olhos. Formato do nariz. E então? Havia um número pequeno de tons de azul no mundo e apenas alguns tipos de nariz. Inalou com força. Certo. O problema era que estava fazendo aquilo havia tempo demais. Tinha rotinas.

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Rami implicara, dizendo como era entediante sua vida, mas uma rotina mantinha um homem ancorado. De pé às seis, meia hora no ginásio particular, chuveiro, vestir-se, café e torradas às sete e à escrivaninha às oito. Perdera aquela normalidade por tempo demais, voando praticamente sem parar pelo mundo, de cidade em cidade, vendo todos os detalhes pavorosos da vida do irmão. Estava lhe provocando um efeito negativo. Se Rami tivesse gerado um filho, ele saberia. Eram irmãos. Não se falavam, mas certamente um homem não esconderia uma coisa assim... — Blaa — disse o bebê. — Blaa-blaa-blaa. Karim olhou para a criança. Isto mesmo, blaa. É claro que Rami manteria aquilo em segredo, assim como jamais mencionara suas dívidas de jogo. Um homem não mencionava seus erros e certamente ter um filho sem se casar era um enorme erro. Rami desdenhara das convenções, mas era o filho de um rei e o segundo na linha de sucessão ao trono. Havia certas normas que até ele devia obedecer. Notícias sobre um filho ilegítimo resultariam num escândalo em seu país. Seu pai poderia deserdar o filho mais novo, até mesmo bani-lo do reino. O menino era de Rami e era ilegítimo. Não havia uma certidão de casamento entre os papéis do irmão. Havia muitas outras coisas. Carteiras de motorista vencidas. Talões de cheques sem validade. Bilhetes e, é claro, contas infinitas. Nada nem mesmo insinuava a existência de uma esposa. Rachel Donnelly estava em pé diante dele, gelada como uma estátua de mármore, os olhos presos no bebê em seus braços. Não, Rami não havia se casado com ela. Irresponsável ou não, bêbado ou não, certamente não se amarraria de forma permanente a uma mulher como aquela. Uma mulher que um homem levaria para a cama, mas não com quem se casaria, pensou Karim. Linda. Feroz. Dura como ferro. Seu irmão podia ter achado sexy toda aquela coragem e desafio. Ele, não. Mas isto não era sobre ele. — Dê-me o bebê. A voz era fraca, mas a cor voltara ao rosto. Estava recuperando a compostura. Por que reagira com tanta aflição? Se aquele era o bebê de Rami, seria uma oportunidade de ouro. O filho do amante e o irmão do amante se encontrando pela primeira vez. — Dê-me o bebê! Perguntou-se por que ela não tentara entrar em contato com ele antes. Bem, aquilo era evidente. Pensava que Rami voltaria para ela. Seria este o motivo por que a deixara? Porque ficara grávida? Era um pensamento horrível saber que o irmão abandonaria o próprio filho, mas nada sobre Rami o surpreendia mais. Presumindo, é claro, que o bebê fosse dele. Como deixara que aquilo acontecesse? Bêbado ou sóbrio, como poderia ter se esquecido de usar um preservativo? Teria aquela mulher o seduzido tanto que se esquecera? Havia sempre uma possibilidade. Karim não era ingênuo. Um homem nascido com um título e uma fortuna aprendia cedo como eram as coisas. As mulheres preparavam armadilhas. A própria mãe ficara grávida dele antes que o pai se casasse com ela. Não deveria saber disso, mas qualquer idiota era capaz de fazer contas. E, 17


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quando descobrira, compreendera melhor por que o casamento dos pais havia fracassado. Se alguém tinha as responsabilidades de um príncipe, escolhia uma esposa que atendesse a certas especificações. Você a escolhia; não se permitia ficar numa posição em que o destino ou a necessidade ou, ainda pior, uma noite de paixão se tornava o fator decisivo. Um pequeno punho lhe atingiu o ombro. Karim piscou de surpresa. A mulher se aproximara e estava ao lado dele. Os olhos brilhavam de raiva. — Está surdo? Me. Entregue. O. Bebê! A criança deixou escapar um som de infelicidade. A boca, que era idêntica à dela, começou a tremer. Karim entrecerrou os olhos. — De quem é este bebê? — O que é isto, um interrogatório? Entregue Ethan para mim e vá para o inferno, para longe daqui! — Ethan? Maldição, pensou Rachel, não pretendia lhe dar nada, nem mesmo o nome do bebê. — Sim. E não gosta de estranhos. — Não gostava do meu irmão? — Você já ultrapassou os limites da minha hospitalidade, Vossa Sheikeza, mas não o queria aqui desde o princípio. — Não me chame assim. Arrependeu-se das palavras mesmo enquanto as dizia. Era um erro deixá-la perceber que o aborrecia porque sabia muito bem que era isso que ela queria. — Vou lhe perguntar de novo. — A voz estava gelada. — A quem pertence este bebê? — Ele pertence a si mesmo. Ao contrário dos seus súditos, americanos não acreditam — Um discurso encantador. Certamente seria muito aplaudido no seu feriado de 4 de Julho. Mas não tem relação nenhuma com minha pergunta. Mais uma vez, de quem é esta criança? Rachel mordeu o lábio inferior. De quem, mesmo? Suki e Rami fizeram Ethan. Mas, desde o começo, fora dela. Para Suki, a barriga enorme tinha sido um aborrecimento de nove meses, especialmente quando percebera que não poderia usar a gravidez para convencer Rami a se casar com ela. Fizera as malas e sumira muito antes do nascimento de Ethan. Foi Rachel que segurou a mão de Suki durante o parto, Rachel que cortara o cordão umbilical. Quando Suki e o filho voltaram para casa do hospital, o bebê chorara sem parar. Estava com fome e Suki se recusara a amamentá-lo. — O quê — dissera, horrorizada —, e estragar meus seios? O leite prescrito pelo pediatra não lhe fizera bem. Recusava-o, a fralda sempre cheia e com um cheiro horrível. Suki estremecera e deixara o bebê aos cuidados de Rachel. E estava tudo bem para ela. Mudara o leite, trocara as fraldas. O bebê cresceu saudável, e Rachel o adorava. Foi ela que lhe deu o nome, que comprou seu berço e as roupinhas. Era dela, não 18


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de Suki. E, quando finalmente Suki partiu, Rachel quase se sentiu envergonhada por ter ficado tão feliz. Agora, tudo estava despedaçando. Nunca tivera medo de que Rami voltasse e reclamasse o filho e, mesmo se tivesse, sabia que era um covarde atrás do charme e da bela aparência. Poderia tê-lo enfrentado. Mas se aquele valentão arrogante quisesse Ethan. — Senhorita Donnelly. Eu lhe fiz uma pergunta simples. O bebê começou a choramingar. — É isto mesmo, erga a voz, aterrorize o bebê. É esta sua especialidade? Invadir casas onde não é bem-vindo? Apavorar criancinhas? — Fiz uma pergunta simples, e você vai responder! De quem é este bebê? — Você... — Rachel tentou ganhar tempo — é um homem horrível! Ele sorriu como um lobo. — Ouvir isto me parte o coração! — O que é preciso para você dar o fora daqui? — A verdade. De quem é este bebê? Rachel o encarou bem dentro dos olhos gelados. — Meu. — Não hesitou e forçou a mentira pela garganta apertada porque Ethan era dela. Apenas não o dera à luz. — Não faça jogos comigo, senhora. Sabe o que estou perguntando. Quem é o pai? Pronto. Haviam chegado ao impasse que temera. E agora? Devia saber que não ficaria satisfeito com a resposta. O sheik, o príncipe, o que quer que se chamasse, não era um idiota. Ethan se parecia com os pais. Tinha o colorido e o formato dos olhos de Rami, o queixo e a boca de Suki. Os dela também porque ela e Suki se pareciam, mas o sheik não saberia disso. Nem mesmo sabia que Suki existia. E tinha que continuar sem saber. — Responda! — Abaixe a voz. Por que continua a gritar? — Acha que estou gritando? — O sheik agora gritou. Previsivelmente. Ethan começou a chorar de verdade. O poderoso príncipe pareceu atônito. Era evidente que nem mesmo bebês tinham a permissão de interromper um rompante régio. — Agora veja o que fez — disse Rachel, furiosa, e tomou Ethan nos braços. Os gritos dele aumentaram de volume; o pequeno corpo tremia de indignação. A expressão no rosto do sheik era impagável. Sob outras circunstâncias, ela teria rido, mas não havia nada engraçado naquela situação. Então apenas caminhou lentamente pela pequena sala, murmurando palavras de carinho para o bebê, acariciando-lhe as costas, beijando-lhe a testa. Seus gritos diminuíram para pequenos soluços. — Bebê lindo — sussurrou Rachel. Sentiu os olhos de Karim a seguindo. Evidentemente exigiria respostas. Para uma pergunta. Era Rami o pai do bebê dela? E, sim, Ethan era dela. Fizera aquela promessa a Ethan no dia em que Suki partira. Agora tudo podia mudar. Quando admitisse a verdade que o sheik já suspeitava, sua vida e a de Ethan estariam nas mãos dele. 19


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Certamente reclamaria o filho do irmão. Era frio, sim, e sem coração. Rami havia dito aquilo e, por fim, provava que estava certo. Não conseguia imaginar que sentisse nada por ninguém, nem mesmo por um bebê. Mesmo assim, jamais deixaria Ethan com ela. Havia aquela coisa de linhagem, de sangue real. Rachel ouvira Rami falar sobre aquilo com Suki. O fato de pertencer à realeza estabelecia o caminho da existência. O sheik exigiria a custódia e a conseguiria. Tinha dinheiro. Poder. Acesso a advogados, políticos e juízes. Pessoas que nem mesmo conseguia imaginar. Ela não tinha nada. Aquele pequeno e escuro apartamento e talvez 400 dólares no banco. Um emprego que detestava e, sim, podia ver como o quesito “ocupação: garçonete seminua” pareceria contra “ocupação: príncipe poderoso que passa os dias contando seu dinheiro”. A resposta era inevitável. Tomaria Ethan dela e o criaria como Rami contara a Suki que fora criado. Sem amor. Sem afeição. Nada a não ser disciplina, críticas, palavras ásperas e exigências impossíveis de atender de um pai imperioso, e agora, para Ethan, as ordens de um tio sem coração. Um nó se formou na garganta de Rachel. Não deixaria que aquilo acontecesse. Não permitiria. Faria tudo para manter o bebê com ela. E só havia um meio de conseguir. Mostrar ao sheik que não conseguiria intimidá-la, tentar fazê-lo partir. Então fazer as malas e fugir. Os gritos do bebê haviam se transformado em fungadas molhadas. Rachel respirou profundamente e se virou para o sheik. — Ele precisa de uma fralda limpa. — E eu preciso de respostas. — Muito bem. Você as terá quando houver tempo. Eu me encontrarei com você mais tarde. Que tal às 16h, em frente a Dancing Waters na... O que é tão engraçado? — Realmente acredita que cairia numa mentira tão estupidamente transparente? — Parou de sorrir. — Troque a fralda do bebê, eu espero. — Não tente me dar ordens na minha casa. — É a casa do meu irmão, não sua. Você viveu aqui com ele. Foi amante dele. — Errado. Este apartamento é meu. — E apenas aconteceu de meu irmão ter a chave. O tom de desprezo a enfureceu e, se não fosse por Ethan, teria esbofeteado o rosto bonito demais. — Erro meu ter lhe dado uma. Foi ele que se mudou para cá, não eu. E, para o registro, nunca fui amante de ninguém. Sempre me sustentei sozinha e pretendo continuar assim. Lá estava de novo. Fogo. Coragem. Desafio. Os olhos dela brilhavam de raiva mesmo enquanto mantinha a voz baixa pelo bem do bebê, mesmo enquanto continuava a passar as mãos gentilmente pelas costas dele. Karim observou a mão que se movia lentamente. A sensação dela acalmaria qualquer um. Um bebê. Uma fera. Um homem. Sem pensar, esticou a mão e tocou o bebê. Os dedos roçaram acidentalmente a curva dos seios da mulher Donnelly. Ela prendeu a respiração. Seus olhos se encontraram. O rubor lhe cobriu o rosto. 20


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— O bebê está dormindo. — A voz de Karim suavizou. — Sim, está. — Engoliu com força, e ele viu o pescoço se mover. — Vou... vou leválo ao quarto, trocá-lo e deitá-lo no berço. — Ótimo. Observou-a se afastar com a postura de uma rainha, as costas retas, apenas um leve balanço dos quadris. Karim quis rir. Que desempenho magistral! A personificação da dignidade numa fantasia barata. Era uma representação, não era? A forma como se mantinha. O amor que parecia ter pelo bebê. A recusa em dizer que Rami era o pai, como se soubesse qual seria a reação de Karim. Não era idiota, longe disso. Certamente sabia que exigiria a custódia do menino. E a conseguiria. Um exame de DNA definiria tudo. Ela era o que quer que fosse. Uma dançarina. Uma stripper. Estava praticamente sem dinheiro, a julgar pelo lugar onde vivia. E ele era um príncipe. Não havia dúvida sobre qual deles seria vitorioso num tribunal, se as coisas chegassem tão longe. Mas Rachel Donnelly não desistiria do bebê sem lutar. Se fosse generoso, diria que era porque gostava do menino, mas não estava se sentindo generoso. Sentia-se enganado. Por Rami. Pelo destino. E, agora, por uma mulher que era uma excelente atriz no papel de mãe carinhosa. Qualquer que fosse o motivo, ela não poderia ficar com o menino. Não permitiria que fosse criado naquele ambiente esquálido por uma mulher que, na melhor das hipóteses, poderia ser chamada pelo eufemismo de dançarina. Com ele, o menino. Ethan teria tudo o que Rami deveria ter lhe dado. Um lar confortável. A melhor educação. O conhecimento do antigo e honrado passado da família. Não teria mãe, mas Rami também não tivera. E nem ele, e nem por isso estava pior. Karim olhou para a porta fechada do quarto e franziu a testa. Por que estava demorando tanto? Trocar uma fralda não era complicado. Esperava que ficasse parado ali? Tinha coisas a fazer. Pagar as dívidas de Rami. E cuidar dos detalhes para levar a criança para Alcantar. Não precisaria providenciar nada, nem mesmo uma certidão de nascimento. Tinha status diplomático e apenas a Secretaria de Estado americana tinha autoridade para questionar suas ações, o que não faria. Mas precisaria de uma babá. Uma mulher que soubesse cuidar de um bebê até Karim levá-lo para casa, onde faria arranjos permanentes para cuidar dele. Tudo simples. Desde que Rachel Donnelly não criasse problemas. Mas por que criaria? Faria um cheque generoso para ela e, se teimasse, faria com que compreendesse como seria melhor sua nova vida como um príncipe no reino do pai. Poderia até permitir que o visitasse uma ou duas vezes por ano. E, maldição, estava perdendo tempo! Foi até a porta fechada e bateu. — Senhorita Donnelly? Silêncio. — Senhorita Donnelly, não posso passar a manhã esperando. Tenho coisas a fazer. Ainda silêncio. 21


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Inferno. Seria possível que houvesse outra saída do apartamento? Uma janela que abrisse para a escada de incêndio externa? Karim abriu a porta. A mobília era escassa. Uma cômoda. Uma poltrona. Um berço, onde Ethan dormia profundamente, o bumbum para cima. E uma cama. Estreita. Coberta por uma colcha branca. E, coloridos, apenas o sutiã, o fio dental e as meias jogadas no centro. O ventre de Karim se contraiu. Viu uma porta entreaberta, de onde saía vapor. O som de água corrente lhe penetrou o ouvido, ou seria a pulsação acelerada? Saia já daqui, sussurrou uma voz interna. Ela está no chuveiro, nua. Não pode ficar aqui. Mas deu um passo, depois outro. Ah, Deus. Podia vê-la. Dentro do pequeno box. O vapor nublava o vidro, mas podia vê-la. Como Matisse ou Degas a pintaria. Apenas a sugestão daquele rosto adorável, do corpo delicado. A água foi fechada. Saia, disse a voz de novo, mas seus pés pareciam enraizados no chão. Ela abriu a porta do box. E ele a viu sem o vidro. O cabelo, molhado e espalhado nos ombros, quase escondendo a perfeição redonda dos seios. A cintura, que certamente poderia abarcar com as mãos. Os quadris com as curvas generosas. As pernas, tão longas que quase podia senti-las o envolvendo. E os cachos dourados na junção das coxas, protegendolhe o núcleo feminino. Ela não o vira. Mechas molhadas de cabelo lhe cobriam os olhos. Observou-a enquanto estendia a mão para a toalha, procurando-a. Foi quando ele se moveu. Agarrou a toalha antes que ela a encontrasse. Os dedos roçaram os dela. Ela gritou, afastando o cabelo do rosto. — Não, não. Karim mergulhou as mãos no ouro rico e molhado do cabelo. Ergueu-lhe o rosto para o dele e lhe tomou a boca num beijo duro, faminto. Era o que queria fazer desde que a vira. Fora capaz de se impedir. Mas não agora. Ela lutou. Ele insistiu. E então o beijo mudou. Precisou de toda a sua força de vontade para torná-lo gentil, suave e sedutor. Os lábios se moveram delicadamente sobre os dela; sussurrou seu nome e o quanto a queria, primeiro em sua língua, depois na dela. Tudo dentro dele se tornou lento. Queria que aquele beijo durasse para sempre. Ela parou de lutar. Suspirou. Os lábios reagiram aos dele. As mãos subiram e lhe tocaram o peito. Podia senti-la tremer, mas não de medo. O sangue engrossou, e Karim sentiu a Terra se inclinar. Agora, dizia tudo dentro dele, tome-a agora... Karim estremeceu. Então ergueu a cabeça, enrolou a toalha nela e fugiu do banheiro, do apartamento, da armadilha dourada que certamente havia sido preparada pela linda e esperta amante do irmão.

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Paixão 321 – Coração de pedra – Sandra Marton

CAPÍTULO QUATRO

Rachel ficou parada onde a deixara, apertando a toalha como se fosse um escudo. Tarde demais, cantava seu corpo, tarde, tarde demais. Ele já fizera o que quisera. Tocara-a. Beijara-a. Levara-a para uma montanha-russa emocional que lhe transformara o terror em... Assustou-se com o som forte da porta da frente batendo. Ele se fora. Arquejante, trêmula, deixou-se cair sobre a tampa fechada do vaso sanitário. O cérebro parecia estar em queda livre. Não conseguia pensar, não encontrava sentido em nada. O que havia acabado de acontecer? Melhor, o que não acontecera? O sheik a forçara. Entrara quando estava nua, puxara-a para ele, beijara-a. E então a soltara. Por quê? Rachel estremeceu. Ele podia ter feito o que quisesse. Ninguém o impediria. Certamente, não ela. Era grande demais, forte demais, aquele corpo rijo, os músculos esculpidos escondidos sob a roupa cara. Ela teria lutado, mas ele a dominaria com facilidade. Deixou escapar um gemido. Ele a havia dominado. Não apenas fisicamente; mentalmente também. Como explicar de outra forma aquele momento infinitesimal, quando a boca se tornara suave sobre a dela, quando o toque ficara gentil e ela... Rachel engoliu em seco. Não importava. As ações dele haviam sido deliberadas. Apavorara-a com uma exibição de força, com o velho truque machista de mim-Tarzan-você-Jane. A mesma coisa que os homens a quem servia bebidas faziam. Seus patrões no cassino. Os jogadores eram os piores. Desperdiçavam seu dinheiro, mostravam seu poder, seu cheiro de colônia. Não ele. Karim. O sheik. O príncipe. O que quer que se chamasse. Não havia colônia nele. Apenas o cheiro limpo dele mesmo. O cheiro quente de um homem que queria uma mulher. E, no entanto, ele a soltara. Rami não a teria soltado. Sempre sentira aquilo nele, a necessidade de dominar, de tomar o que queria e para o inferno com todos. Rachel tirou o cabelo do rosto. Não estava lidando com Rami, mas com o irmão dele. E agora que tinha tempo para pensar, podia ver que era um adversário muito mais astuto. Entendia o que fizera. Tomara-a num beijo duro, profundo, e então o transformara em alguma coisa suave, sedutora e quase terna. Quisera confundi-la e conseguira. Naquele último instante, enquanto a beijava, quando ela reagira de alguma forma à sensação daquela boca na dela. Não. Não! Rachel inspirou com força. Não reagira. Não da forma como ele queria. Sua reação tinha sido instintiva. A mulher decidida que vivia dentro dela a abandonara e o piloto automático assumira. Aceite o beijo. Pare de lutar. E isto era tudo. Não era como Suki. Dinheiro, poder, beleza não a atraíam. Rachel levantou-se; sentia-se melhor. Na verdade, sentia-se muito bem. Forte.

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No controle. Até mesmo tinha um plano. Bem, uma espécie de plano. E estava desperdiçando um tempo precioso, analisando aquela cena feia como se importasse, quando sabia que não era verdade. Karim, o Sheik Todo-Poderoso, voltaria. Ela sabia. A bolsa de maquiagem estava numa prateleira sobre a pia. Pegou-a, abriu a porta do pequeno armário de remédio, tirou batons, máscara, delineador de olhos, aspirina, tudo o que estava lá e jogou na bolsa. É claro que voltaria, pensou, enquanto penteava o cabelo e fazia um rabo de cavalo. O homem era uma porção de coisas, mas não estúpido. Sabia que percebera suas mentiras. Principalmente a maior. Não admitira que Ethan era filho do irmão, mas ele sabia que era. Ainda não tinha provas, mas sabia. O que não sabia e jamais poderia saber era que Ethan não era filho dela. Diante dos fatos — com Suki desaparecida e Rami morto —, tinha tanto direito ao bebê quanto o sheik. Era tia dele. E ele, o tio. Devia ser um empate. Mas não era. Ele tinha uma fortuna inimaginável. Ela se preocupava com o aluguel do mês seguinte. Era o herdeiro de um trono. Ela podia escolher o turno em que trabalharia no cassino. Rachel correu para o quarto, abriu as gavetas da cômoda, pegou um sutiã e uma calcinha, uma camiseta, jeans, meias e tênis. Precisava fugir da cidade e depressa. O bebê ainda dormia. Graças a Deus pelos pequenos milagres. Deixaria que dormisse até estar pronta para partir. Prendeu a respiração. A porta da frente. Talvez o sheik a tivesse batido apenas para enganá-la. Talvez ainda estivesse lá. E, mesmo se tivesse saído, e daí? Tinha a maldita chave. Correu para a sala, suspirou de alívio ao ver que estava vazia, colocou a tranca, pegou uma cadeira de madeira e a apertou contra a maçaneta. Que ele tentasse entrar agora. Um sheik. Um anacrônico idiota que pensava que o mundo ficara imóvel nos últimos séculos e que podia fazer tudo o que queria. Tudo. Como lhe tomar seu bebê. — Errado — disse em voz alta, enquanto voltava para Ethan. — Errado, errado, errado. Completamente errado. O bebê era dela e ninguém o tiraria. Agora, Ethan estava acordado e inquieto. Estivera assim recentemente; havia uma pequena mancha branca na gengiva rosada, onde o primeiro dente estava nascendo. Geralmente o tomaria nos braços, se sentaria na cadeira de balanço que comprara em uma loja de segunda mão e conversaria com ele — ele gostava quando conversava com ele —, mas tempo era uma prioridade. — Ei, rapazinho — sussurrou, enquanto se debruçava sobre o berço —, adivinhe o que vamos fazer? A expressão dele — a boca curvada para baixo, os olhos apertados — mostrou que não se importava. Rachel pegou um mordedor de plástico macio para amenizar a dor nas gengivas e o estendeu. Os dedinhos gordos do bebê se fecharam em torno dele e o levaram para a boca. Bom. Conseguira alguns minutos de paz. Era tudo de que precisava. Pegou a mala, jogoua sobre a cama e a abriu. Embalou outro jeans, camisetas, sutiãs, calcinhas. Um suéter. — Ta-da — disse a Ethan, ainda com o mordedor de cor brilhante na boca. — Está 24


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vendo como foi rápido? Agora é sua vez. Já sabe o que quer vestir para a viagem? Então, não lhe contei a surpresa? Vamos viajar. Não é bom? O bebê deixou escapar um som rude. — Certo, talvez não. — Abriu as gavetas nas quais estavam as roupas de Ethan. Pijamas, meias, pequeninas camisetas e suéteres. — Admito que detestava quando mamãe me dizia que íamos viajar de novo. Ela nos tirava da escola, Suki e eu, exatamente quando nos havíamos acostumado. — O que mais? Fraldas, é claro. Dois cobertores. — Bem, jamais farei isto com você, garotinho, prometo. — O que estava esquecendo? — Ah. Leite. Mamadeiras. Potinhos de alimento para bebês, frutas e vegetais. Uma ida rápida à cozinha, então de volta ao quarto. — Vou encontrar um lugar para nós, vamos morar lá, ter um jardim e talvez um gatinho. Rachel parou. Sua mãe fugira de cobradores de contas e escândalo e, de alguma forma, aquelas coisas sempre conseguiam encontrá-la. Aquilo era diferente. Estava fugindo de um príncipe que tinha todos os recursos do mundo. Estremeceu. Não pensaria naquilo agora. Outras coisas eram vitais. Devia ir para o aeroporto e gastar um dinheiro tão necessário numa passagem de avião ou se dirigir para o terminal de ônibus e comprar uma passagem no primeiro que saísse da cidade? Sem dúvida, o aeroporto. Podia se afastar mais depressa, para mais longe, e velocidade e distâncias eram de máxima importância. Gastaria a metade do dinheiro em uma passagem para qualquer lugar e usaria a outra metade quando ela e Ethan chegassem. Também tinha um cartão de crédito que nunca usara. Era para emergências, e se isto não fosse uma, o que seria? Iria para longe de Vegas e do irmão de Rami. Talvez São Francisco ou Biloxi, onde havia cassinos em barcos. Então alugaria um quarto barato e se daria dois dias para planejar os passos seguintes. — Ffft — disse Ethan. Ela riu. Seu bebê sempre fazia isto; era uma alegria com a qual sempre podia contar. — Bem, talvez — respondeu —, mas pelo menos é um plano. Não muito bom, mas era um começo. Suki sempre implicara com ela, dizia que era obcecada por planejamento, mas sem planos terminaria como sua mãe ou Suki, ou metade das mulheres da cidade. E aquilo, ser mantida, viver à custa de um homem, ser uma posse nunca, jamais aconteceria com ela. Quanto a partir de Las Vegas... Estava pronta. Mais do que pronta. Vegas sempre fora apenas uma parada na estrada para alguma coisa melhor. Fora para lá apenas quando Suki a chamara, gaguejando de excitação enquanto lhe contava que dois dos cassinos estavam contratando crupiês. — É um ótimo emprego — dissera Suki. — Eles treinam as pessoas e elas ganham muito bem. Mas não era verdade, e Rachel terminara servindo mesas, então trabalhando no salão do cassino e se perguntando como pudera ter sido tão estúpida em acreditar na irmã, que nem tentara encontrar um emprego. Descobrira que Suki a havia chamado porque sabia que Rachel encontraria um emprego e um apartamento onde poderia 25


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morar. Nem mesmo perguntara se o namorado, Rami al Safir, podia se mudar para lá. Uma manhã, ela o encontrara saindo do quarto de Suki, e depois daquilo se tornara permanente. Um hóspede que não pagava contas. — Idiota — resmungou para si mesma, enquanto terminava de arrumar as coisas do bebê. Mas então lembrou a si mesma que, se não tivesse ido para Vegas, não teria Ethan. O bebê deixou escapar um pequeno e patético soluço. Perdera o mordedor. Rachel o pegou e o devolveu. Ele sorriu. — Sim, tem razão, é um novo começo para nós dois. Uma nova cidade, um novo lugar para viver. Um emprego que não exigiria que vestisse aquelas roupas que faziam com que os homens a olhassem como um item que podiam comprar. Definitivamente, um novo começo. E tudo por causa de um homem que achava que seu dinheiro, seus títulos, sua bela aparência; sim, realmente era lindo, se gostasse daquele tipo, mas não gostava. Tudo por causa de Sua Sheikeza, o príncipe. O bebê fez uma bolha molhada e barulhenta, e Rachel sorriu. — Exatamente o que penso. Tudo pronto. Adeus, sheik Karim. Oi, vida nova. Rachel pegou Ethan e o agasalhou num cobertor com estampa de girafas azuis. Então, o bebê na curva de um braço, a bolsa pendurada em um ombro, a sacola de fraldas no outro, pegou a mala com a mão livre e se encaminhou para a porta. Abriu e, sem olhar para trás, desceu a escada. Estava feliz por partir de Las Vegas. Só não fora embora antes porque pretendia juntar um pouco mais de dinheiro, mas o que acontecera naquela manhã tornara tudo irrelevante. Rachel parou no térreo. Maldição. O táxi. Esquecera-se de chamar um. E não ligara para a senhora Grey. Sem problema. Podia fazer as duas coisas quando chegasse à rua. Errado. Não conseguiu pegar o celular. Não conseguiu fazer nada porque a primeira coisa que viu quando abriu a porta da rua foi um brilhante carro negro estacionado, com a porta de trás aberta. A segunda foi o sheik, recostado no carro, os braços cruzados, os olhos entrecerrados, a boca uma linha fina. Rachel parou. — Você! — Era uma reação clichê, e ela sabia. Ele também parecia pensar assim porque sorriu. — Eu. — A voz era puro aço envolvido em seda. O olhar caiu para a mala. — Vai a algum lugar? O rosto dela ruborizou. — Saia do meu caminho. Ele sorriu de novo, aproximou-se, pegou a mala, a sacola de fraldas e jogou tudo no banco traseiro do carro. E então ela viu a cadeirinha de bebê. E o estômago se contraiu. — Se acha. — Coloque o bebê na cadeirinha, Rachel. — Como você.? Ele deu de ombros. 26


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— Um telefonema e um título conseguem tudo. Vamos, coloque-o na cadeirinha. — Está louco se pensa que vou permitir que o tome de mim! — É filho de Rami. — É meu! — E este é o único motivo por que decidi levá-la comigo. Ela piscou. — Levar-me com você para onde? — São detalhes que ainda preciso arranjar. E não tenho a intenção de falar sobre eles aqui. — Eu não sei sobre o que está falando. — Oh, pelo amor de Deus, mulher. — Karim se aproximou e parou a centímetros dela, avultando sobre ela, o rosto severo, duro como granito. — Não se faça de idiota, não combina com você. Quero o filho do meu irmão. Você vai querer ser compensada. — Fez uma pausa. — A menos que esteja disposta a entregá-lo agora. Rachel ficou rija, reta e alta. Pela primeira vez na vida desejou estar usando aqueles saltos altos e finos. — Se acha que faria isto. — Não, não acho, mas tudo é possível. — O que é possível é eu gritar por socorro. Há leis neste país. — Leis contra um tio que quer o bem-estar do filho de seu irmão morto? Acho que não. — Você não liga a mínima para o bem-estar de Ethan! Quer apenas roubar meu bebê, levá-lo para longe e criá-lo para se transformar num. num clone seu! — Karim riu, e ela sentiu uma onda de fúria. — Você é uma pessoa desprezível! — Vamos lidar com isto de uma forma civilizada ou não? Rachel observou aquele rosto lindo e sem emoção. Então passou por ele, prendeu Ethan na cadeirinha e começou a se mover para se sentar ao lado dele. A mão do sheik se fechou em seu cotovelo e a puxou para a calçada. — Vai se sentar no banco do passageiro, ao meu lado. Não sou seu motorista. Ela o olhou com ódio. — Você não é honesto e decente o suficiente. Não era uma grande fala, mas era tudo o que tinha.

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CAPÍTULO CINCO

Para onde Karim a levava? Quando perguntara, evitara uma resposta direta. Por que perguntar de novo e lhe dar o prazer de reconhecer que ele estava no comando? Talvez pensar daquela maneira fosse tolice, mas era assim que se sentia. Fizera tudo para humilhá-la. A forma como olhava para ela, falava com ela, lhe dava ordens curtas. A forma como a havia beijado. Não. Não imploraria por informações. Virou-se para olhar para Ethan e quase sorriu. Seu menino estava contente; adorava andar de carro. Ela tivera um velho Ford. A aparência não era grande coisa, mas era confiável. Antes, quando Ethan tinha cólicas e chorava e Suki cobria as orelhas e gritava “este miserável bebê nunca fica quieto?" Rachel descobrira que o levar para uma volta de carro no deserto quase sempre fazia aqueles soluços se transformarem em balbucios de contentamento. Se apenas ela e seu bebê estivessem num passeio daqueles agora, pensou, cruzando as mãos com força no colo e desviando o olhar para a janela. Então lançou um olhar sob os cílios para o sheik. Ele dirigia com pressa e eficiência, a mão esquerda no volante, a direita de leve sobre o câmbio. Seu perfil era sempre severo. O destino lógico seria um escritório de advocacia, mas descartou a ideia assim que a teve. Estalar os dedos e fazer uma cadeirinha de bebê aparecer no meio do deserto era uma coisa. Encontrar um advogado confiável para cuidar da custódia de Ethan era outra muito diferente. E duvidava também que estivesse indo para um laboratório para um exame de DNA. Estava acostumado a usar seu poder e dinheiro para conseguir o que queria, mas até ele sabia que precisava do consentimento dela para obter uma amostra do DNA de Ethan. Então para onde iam? Para a Strip, tinha que ser. Não era muito longe do pobre edifício onde morava até os hotéis luxuosos da Strip, mas a distância era medida em dinheiro, não em quilômetros. Levava-a para um restaurante. Uma cafeteria. Ou para a suíte dele. Um homem como ele, um sheik, certamente teria uma suíte, um enorme e encantador conjunto de aposentos reservados para os ricos e famosos. Exigiria ficar na sala de estar da suíte e deixaria a porta aberta, embora acreditasse que não a beijaria de novo. Tinha certeza de que entendera certo, que aquele beijo fora uma marca do domínio masculino. Como um lobo alfa que demarcava seu território urinando nas pedras e nas árvores. A imagem a divertiu e teve vontade de rir, mas não riu. Não havia nada de engraçado em ser arrastada por um homem que pensava que o mundo e todos nele eram dele. O carro passou pelo Circus Circus, pelo Venetian, pelo Flamingo. Rachel se virou para seu sequestrador. Para o inferno com a decisão de não lhe fazer perguntas sobre para onde estavam indo! Ele usava músculos mentais e emocionais para conseguir o que queria. Era muito bom naquilo. E era contra aquilo que

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precisava lutar. — Quero saber para onde está me levando. — Eu lhe disse. — O tom era muito calmo. — Para um lugar tranquilo onde possamos discutir nossa situação. — Nossa situação? — rosnou. — Não temos uma situação. O sinal de trânsito à frente ficou vermelho. Karim parou o carro. — Seria muito sensato de sua parte... — A voz era suave e baixa — não pensar que sou idiota. — Fiz uma pergunta simples. Pode me dar uma resposta simples. Para onde estamos... O sinal ficou verde. Ele virou em uma rua. Estavam se afastando da Strip, dos hotéis. Um nó de medo lhe apertou a garganta. A única possibilidade agora era o aeroporto. — Ou me diz para onde estamos indo ou. — Vamos pegar meu avião. O pânico a tomou. — Não vou entrar em um avião! — Sim, vai. — Não! — Vamos voar para Nova York. — Você vai para Nova York! Eu vou para casa. — Casa? — O tom mudou, tornou-se duro. — Mesmo? Foi por isso que saiu do prédio com uma mala? — Havia um portão à frente e ele diminuiu a velocidade enquanto se aproximavam. — Eu lhe disse para não me considerar um idiota, Rachel. Quando desceu a escada, só pensava em fugir. Aposto que nem mesmo sabia para onde ir. Bem, agora sabe. — Entenda logo uma coisa, Vossa Alteza. Nem que o inferno congele irei para Nova York ou qualquer outro lugar com você. Se acha que pode continuar o que começou no meu apartamento... Ele a calou com o olhar. Então virou o volante e parou no acostamento. — Garanto-lhe, senhorita Donnelly, que não estou nem um pouco interessado sexualmente em você. — Se é esta a sua ideia de um pedido de desculpas... — É uma declaração de fato. O que aconteceu foi um erro. — Malditamente certo. E se pensa que vai acontecer de novo... — Vou levá-la para Nova York para chegarmos ao fim deste pequeno drama o mais depressa possível. — Podemos fazer isto bem aqui. — Não, não podemos. Tenho uma casa em Manhattan. Compromissos de trabalho. — Tenho compromissos também. Ele riu, e ela sentiu o rosto queimar. — Sei que minha vida não é importante como a sua. — A voz estava gelada — Mas é minha e do meu bebê. 29


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— Vou mandar fazer um exame do DNA do garoto. O tom era decidido. Como se não houvesse alternativa. Aquilo a amedrontou mais do que qualquer outra coisa. E sabia que precisava se manter firme. — O nome do pai do meu filho é assunto meu. — Não se o homem for meu irmão. A resposta era tão lógica que, por alguns segundos, a mente dela embotou. O que poderia responder a isso? — Ora, Rachel — disse suavemente. — Não me diga que não tem mais argumentos. — Aqui vai o argumento principal, Vossa Alteza. Não haverá um exame. Não darei permissão, e não há nada que possa fazer a respeito. — Tem razão, não posso forçá-la. Rachel quis gritar de alegria. Mas apenas cruzou os braços e esperou. Sabia que não seria fácil assim. — Você pode recusar meu pedido. Tem esse direito. — Sorriu e foi um sorriso terrível, que a gelou até os ossos. — Mas eu também tenho direitos. Não se dê ao trabalho de dizer que não tenho. Já falei com meu advogado. — Teve uma manhã ocupada. — Tentou parecer tranquila, embora o coração estivesse disparado. — Tenho motivos para acreditar que Rami é o pai do bebê. — Isto é o que diz. — E o que meu advogado disse. Se recusar a permissão para o exame, levarei o caso à justiça. — Fez uma pausa. — Meu advogado disse que é tudo muito lento. Quem sabe por quanto tempo Ethan ficará sob os cuidados do sistema, num lar adotivo temporário? Rachel ficou lívida. — Não! Não pode. — Com certeza posso. Sou cliente de um dos melhores escritórios de advocacia dos Estados Unidos. Seis sócios. Um número enorme de associados em todo o país, todos saídos das melhores faculdades de direito. Funcionários. Assistentes. Escritórios na costa Oeste e na costa Leste. E quem a representará? Um garoto da Defensoria Pública recém-saído da faculdade? Que tem um armário como escritório? — Sorriu de novo. — A briga pode ser interessante. Era um golpe direto. Karim sabia; a prova foi o tremor súbito dos lábios de Rachel Donnelly, o brilho de lágrimas nos olhos. Queria se sentir triunfante, mas não conseguiu. Era uma oponente fraca e jamais gostara de vitórias fáceis. O poder era todo dele; ela não tinha nada além da posse do filho de Rami. Porque não tinha dúvida nenhuma de que era o filho de Rami. Por que ela não admitia? Tinha tudo a ganhar. Devia saber que ele pagaria o preço que ela quisesse. A menos que a criança fosse realmente importante para ela. Supunha que era possível, mas não provável. Sua própria mãe, quando estava por perto, mostrava mais afeição por seus poodles do que por ele ou Rami; sua empresa tinha mulheres em cargos executivos que davam mais valor à carreira do que aos filhos, 30


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criados por babás. Nada errado com isso. Fazia as crianças crescerem com uma sensação de independência. Ele não era uma prova viva disso? Mesmo assim, sabia que havia outros tipos de mãe. Via-as quando corria no Central Park pela manhã. Elas riam e brincavam com os filhos. Talvez Rachel fosse assim. Talvez não. Talvez tudo fosse fingimento. De qualquer maneira, não ligava a mínima. Qualquer que fosse o motivo dela para complicar as coisas, seria o vitorioso. O quanto ela ganharia com a luta — um valor de seis ou sete algarismos e o direito de visitar o menino de vez em quando — dependeria de quantos obstáculos erguesse. Ele realmente não queria uma luta na Justiça. Sabia muito bem que terminaria nas páginas dos tabloides, em noticiários de televisão, em blogs na internet. E ele e Alcantar estariam melhores sem aquele tipo de publicidade. Rachel aceitaria a derrota antes que as coisas se tornassem públicas, tinha certeza. E aquele silêncio era a primeira prova. Assim, esperou, observando-a sem dizer uma palavra até ela piscar e se livrar daquelas lágrimas. — Por que está fazendo isso comigo? A voz era apenas um sussurro fraco. Quase o fez se sentir culpado. Até se lembrar de seu dever para com o irmão. — Isso não é sobre você. — Havia uma certa gentileza na voz. — É sobre Rami. Rachel balançou a cabeça. — Não acredito nisso. Karim semicerrou os olhos. — Ninguém me chama de mentiroso. — Nem quando mente para si mesmo? — Não sei do que está falando. — Estou falando pouco demais e tarde demais. — A voz dela adquiriu força enquanto cruzava os braços, o que ele estava descobrindo depressa que era sua atitude de desafio. — Porque, Vossa Alteza, se realmente se importava com seu irmão, estaria lá para ele. Teria feito com que percebesse que não podia continuar bebendo e jogando e vivendo o tipo de vida que pessoas como vocês vivem, mergulhado em autoindulgência e dinheiro, e que fossem para o inferno a decência e a honra e... Arquejou quando ele estendeu os braços para ela, ignorando o cinto de segurança, mergulhando as mãos nos ombros dela enquanto a puxava para ele. — Não sabe uma só maldita coisa sobre o que chama de “pessoas como eu”, e, certamente, tão certo como o inferno, não sabe nada sobre o meu irmão, a não ser o que ele lhe revelou quando a levou para a cama. — Sei que você não tem coração. Para fazer isto com Ethan e comigo e, sim, até mesmo com a memória de seu irmão. — Estou fazendo isto pela memória dele. Pela honra do nosso povo. Uma honra que ele nunca entendeu. — As mãos dele lhe apertaram os ombros com força. Então resmungou alguma coisa numa linguagem tão dura e seca quanto ele e a afastou. — Concorde com o exame ou se verá brigando comigo na justiça. — Deu a partida no carro. — Estas são as escolhas. O voo para o Leste é longo. Sugiro que passe o tempo 31


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pensando e tomando uma decisão. Pararam no portão de segurança. Karim mostrou sua identidade, e o guarda os deixou passar. Rachel esperou até ele estacionar, então se virou. — Quero apenas que entenda bem uma coisa. — A voz tremia; limpou a garganta, sentou-se com as costas retas, lembrando a si mesma de que o inimigo adoraria vê-la fraca. — Lembra-se daquele momento no banheiro em que eu pareci parar de lutar com você? — Não, não em detalhes. Achou que me lembraria? Ela ruborizou, mas já fora longe demais. — Teria se lembrado se meu joelho o tivesse atingido onde dói mais caso não me soltasse antes. — Então aquilo foi uma manobra? — Foi fazer qualquer coisa necessária para afastar você de mim! Ele acenou, a expressão grave. — Vou me lembrar na próxima vez. — Acredite, Vossa Alteza, não haverá uma próxima vez. Olhou-a demoradamente. Estaria rindo dela? Achava que era uma brincadeira? Rachel não esperou para descobrir. Abriu o cinto, saiu do carro e tirou Ethan da cadeirinha. Karim estendeu o braço, agarrou a mala dela e a bolsa de fraldas, segurou-lhe o cotovelo e começou a andar em direção a um jato prateado com o emblema de um falcão na fuselagem. Uma escada levava à porta aberta do avião, na qual dois homens e uma mulher, usando ternos de um cinza-escuro, esperavam, observando-os. — Minha tripulação — explicou Karim. Sua tripulação. Seu avião. Sua vida. A realidade do que estava acontecendo atingiu Rachel com uma força que lhe roubou o fôlego. Tropeçou, e Karim deixou cair a mala e a sacola e passou o braço em torno da cintura dela. — Maldição — rosnou. A mulher desceu depressa os degraus, estendeu as mãos para a mala e a sacola, mas Karim balançou a cabeça. — Pegue a criança. Rachel recuou; a mulher sorriu para tranquilizá-la. — Ele ficará bem comigo, senhora. Já tenho tudo pronto: fraldas, alimento, um bebê-conforto. Sua Alteza cuidou de tudo. Rachel piscou. — Cuidou? — Sim — respondeu Karim. — Vamos, dê o bebê a Moira, ou prefere correr o risco de deixá-lo cair? Rachel entregou Ethan e olhou para o sheik. — Quando fez tudo isto? — Tive tempo para dar alguns telefonemas enquanto você fazia as malas. Não há uma mulher no mundo que não leve horas para fazer as malas. — Não demorei horas. E está sempre tão certo de como as coisas acontecerão? 32


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Sabia que estava fazendo as malas? Só porque quer alguma coisa, isso não significa. — Arquejou quando a tomou nos braços. — Posso andar! — Sim, acabou de demonstrar. Subiu a escada; os dois pilotos se empertigaram, atentos. Rachel sentia o rosto queimar. Talvez a tripulação do sheik estivesse acostumada a ver o senhor e mestre entrar no avião com uma mulher nos braços, mas aquele tipo de entrada dramática era novo para ela. — Cuidarei da bagagem, senhor — disse um deles. O sheik acenou. — Ótimo. Quero partir logo. — Sim, senhor. Um dos homens foi pegar a bagagem e o outro se dirigiu para a cabine. Karim conduziu Rachel para o que podia ser considerada a linda sala de estar de uma pessoa. — Eles não batem os calcanhares? Ergueu uma sobrancelha. — Perdão? Ela se afastou o máximo que pôde. — Eu disse: eles não batem os calcanhares? — Apenas em ocasiões formais. Os olhos dela se ergueram para os dele. Era brincadeira; podia ver pela expressão no rosto severo. Pelo menos, havia alguma coisa humana nele. — Pode me soltar. — Posso? — Pode. Me. Soltar! A boca de Karim se moveu. — Ouvi da primeira vez. — Então, maldição, me... — Não é um modo muito gentil de falar. — Não sou uma dama gentil. E quero que você... Os braços dele a apertaram com força enquanto o avião levantava voo. — Sei o que você quer. — Abaixou a cabeça e a beijou. Ela fez um pequeno som de protesto, e ele se perguntou o que diabos estava fazendo. E então ela deixou escapar outro pequeno som que não se parecia em nada com protesto. Karim traçou a linha dos lábios dela com a ponta da língua. Afundou-se na poltrona de couro. Uma das mãos mergulhou no cabelo dela; a outra, encontrou a curva doce do seio. O mamilo rijo lhe pressionou a palma através do algodão da camiseta, e ele estremeceu. — Rachel — sussurrou. Ela gemeu e os lábios se abriram, dando-lhe acesso à doçura de mel da boca. Puxou-a para mais perto. Mergulhou a mão sob a camiseta. Empalmou-lhe o seio. Ela passou os braços pelo pescoço dele. Karim ergueu a outra mão para o rosto dela, segurou-lhe o queixo, descansou o polegar na cavidade delicada do pescoço. O pulso dela pulou sob o toque dele. 33


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Que diabos estava fazendo? Era errado. Era loucura. E, no entanto, queria aquilo, queria-a. O avião atingiu um bolsão de ar. Pulou, e Rachel também. Ela se afastou dos braços dele, o rosto pálido, os olhos grandes e nublados. Ele piscou e a soltou. Ela se levantou. — Não. — A voz não tinha fôlego. — Não me toque nunca mais, seu... seu canalha vil, arrogante, manipulador e sem coração! Sempre ignora a verdade do que as outras pessoas sentem? Não esperou a resposta. Foi bom, pensou Karim enquanto ela se dirigia tropeçando para uma poltrona longe da dele, já que não sabia o que dizer. Estaria certa? Teria ignorado o que poderiam ter sido os gritos não verbalizados de Rami por ajuda? Poderia tê-lo salvado do caminho da autodestruição? E aquilo. O que acabara de fazer. Beijar Rachel. Forçando-a, obrigando-a a aceitar seus beijos. Uma descrição feia, mas não fora isso que fizera? Beijara-a até ela o beijar também, até seus suspiros, a doçura de sua boca lhe mostrarem que corria o risco de sucumbir à mesma escuridão quente que o ameaçava? Apenas uma coisa era certa. Era tarde demais para fazer qualquer coisa por Rami. Mas podia fazer pelo menino. Criá-lo para ser o homem que Rami poderia ter sido. E podia fazer alguma coisa pela mulher de Rami. Podia nunca mais tocá-la. Nunca mais, disse Karim a si mesmo, e virou o rosto para a janela enquanto o avião ganhava velocidade e altitude até, finalmente, as luzes brilhantes muito abaixo serem tão substanciais como uma miragem.

CAPÍTULO SEIS

Que raiva. Já era ruim demais o sheik ter invadido sua vida e assumido o controle dela. Presumindo coisas. E aquilo. Pegando-a como se existisse para o prazer. Sabia o que pensava sobre ela. Rami havia tratado Suki como se fosse uma escrava. Traga-me isto, me dê aquilo, não discuta quando digo alguma coisa... Tentara com ela também, mas não funcionara. — Talvez seja assim que os homens tratam as mulheres no lugar de onde veio — dissera a ele —, mas aqui é a América. América. Onde uma mulher como ela usava uma fantasia que a fazia parecer uma prostituta porque o gerente lhe dizia que precisava. Onde um homem a julgava pela maldita fantasia, ou talvez pela convicção de que tinha sido a amante do irmão dele. Dissera a ele que não tinha sido amante de Rami. Ele não acreditara. Agora queria lhe dizer: Preferia viver nas ruas a dormir com seu horrível irmão. Mas não podia.

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Tinha que continuar a fingir porque tudo o que importava era Ethan. Certo. Precisava se acalmar. Respirar fundo. Deixar o ar sair lentamente dos pulmões. Inspirar de novo. — Danação — disse num murmúrio. Como poderia se acalmar? Precisa se deixar levar pela maré. Era o que a mãe sempre dizia, e fazia. Rachel rosnou. A mãe costumava dizer uma porção de coisas. Ditados populares. Disparates estúpidos. Não mais tão estúpidos. E aquele velho clichê: “A primeira impressão é a que fica.” Aquilo sempre aborrecia Rachel porque a mãe provavelmente repetira centenas de vezes, sempre numa voz alegre, quando ficava diante do espelho se aprontando para o primeiro encontro com o último idiota suado que fungava nos calcanhares dela. E, no entanto, a mãe estava certa. As primeiras impressões importavam. O sheik a julgara pela aparência. E não ajudara, permitindo que ele latisse ordens. Permitindo que a beijasse no banheiro e de novo ali, no avião. Certo, ela lutara, mas então... Vamos, Rachel. Seja honesta, pelo menos consigo mesma. Lutara pouco demais. Ele a beijara e, depois de uma resistência fraca, beijara-o de volta. Aquela era a terrível verdade. Ele era tudo o que um homem podia ser. Rico demais, bonito demais, egoísta demais. Era intolerável. Maldição, era um homem e isso devia ser o bastante. Até ele beijá-la e seu cérebro virar geleia. Como aquilo podia ter acontecido? Sim, tinha boa aparência. Inferno, era sexy, isso sim. Mas não queria um homem sexy. Não queria sexo. Não queria nada que interferisse na vida pela qual ansiava desde que acordara em uma cama desconfortável num quarto barato de hotel em Pocatello, Idaho, na manhã do dia em que fizera 17 anos. Suki, de 16, estava dormindo ao lado dela, a boca aberta, o hálito pesado de cerveja. Rachel teve uma espécie de premonição. Levantou-se e viu o cartão de aniversário sobre a mesa ao lado da cama. Era grande e vulgar. Dentro, havia duas notas novas de 20 dólares e um bilhete.

Saí para umas pequenas férias com Lou! Vocês, meninas, fiquem bem até eu mandar buscá-las! Amo vocês! Lou era o último “mô” da mãe. Era assim que sempre chamava seus amigos masculinos. Saíra antes em “pequenas férias”. Um fim de semana. Alguns dias. Numa ocasião apavorante, quando Rachel tinha 10 anos e Suki, 9, ficara desaparecida por uma semana. Naquela manhã em Pocatello, Rachel tentara se convencer de que a mãe voltaria. Nunca voltou. Depois de três semanas, arranjou um emprego noturno em uma loja de departamentos, mas com o que ganhava não poderia pagar pelo quarto miserável e pela comida. Assim, deixara a escola. Mais um ano e teria seu diploma. Sentira-se morrer por ter que parar de estudar, mas que escolha tinha? Precisava trabalhar para o próprio sustento e o da irmã. Dissera a Suki que continuasse na escola, que uma delas precisava se formar. Em agosto, Rachel conseguiu se mudar com a irmã para um quarto maior, em uma vizinhança melhor. Usara o desconto na loja para comprar o material escolar para Suki e, para roupas, fora a um brechó. Mas Suki se recusara a usá-las. Dissera que tinha 35


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nojo delas. E que estava desperdiçando o dinheiro comprando coisas para a escola, que não pretendia mais frequentar. Quando o inverno chegou, receberam um cartão da mãe. Estava em Hollywood e conhecia alguém que estava fazendo um filme e trabalharia nele. E então mandarei buscar minhas meninas! Mais pontos de exclamação. Mais mentiras. Nunca mais souberam dela. Ou talvez ela tivesse escrito. Não havia como saber porque, em janeiro, Idaho era apenas uma lembrança. Suki havia fugido. Sem adeus, sem explicações. Apenas um bilhete. Vejo você algum dia. Assim como a mãe. A diferença apenas era que a mãe havia deixado aquelas notas de 20. Suki esvaziara o açucareiro onde Rachel guardava 50 dólares para emergências. Rachel se mudou para Bismarck, North Dakota. Arranjou em emprego como garçonete. Então se mudou para Minneapolis. Arranjou outro emprego de garçonete. Mais duas mudanças e terminou numa lanchonete em Little Rock, Arkansas. Comida ruim, clientes rabugentos, gorjetas péssimas. — Tem que haver algum lugar melhor do que este — resmungou uma noite, depois que um cliente saiu sem pagar a conta nem deixar gorjeta. — Dallas é muito melhor — disse uma colega. Certo, pensou Rachel. E, depois de Dallas, veio Albuquerque e então Phoenix. Rachel vira demais do Oeste. Então Suki telefonara. Falou sobre Las Vegas. De certa forma, Vegas foi melhor. Quando os clientes estavam felizes porque haviam ganhado nas máquinas caça-níqueis, davam gorjetas decentes. E, depois que engolira o orgulho e usara aquela fantasia idiota, as gorjetas ficaram ainda melhores. Começara a fazer cursos noturnos na universidade, planos para uma vida melhor para si mesma e então para si mesma e Ethan. E então o sheik. E o beijo. Poderia estar fora de si com a falta de sensação de movimento, tão acima da terra, passando de um fuso horário para outro. Poderia ser a desorientação que explicaria. Não, não houvera avião atravessando o céu na primeira vez em que a beijara. Nada, apenas o próprio homem. O gosto dele. A sensação dele nela. O calor e a firmeza do corpo. Não fazia sentido. Não era assim. Deixava Suki louca com ela, chamava-a de “minha irmã, a santa”. E, quando ficara grávida e começara a beber, arrancara a garrafa da mão dela. E Suki dissera que o sexo a tornaria mais humana. Não, pensara Rachel, apenas a faria mais parecida com a mãe. Sexo tinha sido o vício da mãe e da irmã. Não de Rachel. Sexo era uma armadilha, roubava-lhe o juízo, e com que finalidade? Alguns minutos de prazer, como ouvira algumas mulheres dizerem. Não sabia se era verdade. Tentara duas vezes, e tudo o que sentira depois fora mais solidão. Não precisava de homens, não precisava de sexo, não precisava de nada de ninguém. Bem, exceto de Ethan. Com exceção do bebê, preferia ficar sozinha. Era uma mulher de cabeça fria que pensava nas coisas. Pragmática. Uma sobrevivente. E era por isso que derrotaria o sheik naquele jogo. Não entregaria a ele o controle de sua vida. Não lhe entregaria seu bebê. 36


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Rachel se levantou e andou até á alcova onde Ethan dormia no bebê-conforto. A comissária de bordo estava dormindo também; sentiu a presença de Rachel e acordou. — O que posso fazer por você? Alguma coisa para comer, talvez? Há sanduíches, frutas, café. — Nada, obrigada. Apenas queria ver como está meu bebê. — Oh. Está ótimo. Troquei-o há pouco, alimentei-o. — Sim, que bom. Vou levá-lo comigo de volta à poltrona. Pegou o bebê-conforto e se dirigiu para a poltrona. Era impossível não ver Karim, mas o olhar dela passou por cima dele sem fazer contato. Nem mesmo sabia que ela estava lá. Falava no celular. Ouviu algumas palavras. “Suíte.” “Acomodações para um bebê.” Nada mais. Sentou-se, colocou o bebê-conforto na poltrona ao lado, pegou um cobertor macio de outra poltrona e se enrolou nele. Estava com frio. E, sim, estava com fome. Mas não queria a comida do sheik. Queria apenas saber o que faria a seguir. Uma parada no escritório de um advogado ou em um laboratório? Achava que não. Pensou no que o ouvira dizer. “Suíte.” “Acomodações para um bebê.” Estava tomando providências para uma hospedagem num hotel. Uma suíte para Ethan e ela. Uma gaiola dourada no qual os manteria prisioneiros até providenciar aquele maldito exame de DNA. Até aquele minuto, não conseguira pensar no exame. O que envolveria? Certamente uma amostra do DNA de Rami. Fácil de obter, achava, num fio de cabelo. E se quisesse uma amostra do DNA dela? Não sabia por que o quereria. Nunca duvidara de que fosse a mãe de Ethan, mas e se duvidasse? Não sabia quase nada sobre exames de DNA, apenas o que vira em filmes e programas de televisão. Seu DNA seria igual ao de Suki? Pelo menos parecido, para estabelecer que o bebê era dela? E se não fosse? Já seria muito ruim se o teste confirmasse que Rami era o pai, mas se não confirmasse que era a mãe. Não podia esperar para descobrir. Tinha que fugir. Falhara da primeira vez, mas não falharia de novo. Seria tão astuta como seu inimigo. Ele a hospedaria em um hotel. Não a deixaria sozinha; certamente haveria vigias. Oh, podia compreendê-lo muito bem. Mas tinha uma coisa que ele não tinha. Esperteza das ruas. Se conseguisse sair da suíte, fugiria com Ethan. Não pelo lobby, já que o sheik certamente deixaria alguém lá também, mas já trabalhara em muitos hotéis e sabia que havia outras maneiras de sair. Portas de incêndio. Local de entrega de mercadorias. Porões. Quando o sheik chegasse para pegar Ethan e ela pela manhã, encontraria a suíte vazia. E um bilhete. Pela primeira vez em horas, Rachel quase sorriu. Bilhetes de adeus eram uma tradição familiar das Donnelly. Algumas filas atrás, Karim observa Rachel de olhos semicerrados. Era bom na leitura da linguagem corporal. Anos na rija formalidade do palácio e outros tantos negociando acordos multimilionários com alguns dos mais duros oponentes do mundo haviam lhe dado aquela habilidade. Pela última hora, estivera lendo a dela. Por muito tempo se sentara rija e imóvel, o corpo quase tremendo de raiva. Odiava-o por aquele beijo. No começo, estivera prestes a aproximar-se dela, tomá-la nos braços e carregá37


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la para o pequeno quarto de dormir no fundo do avião. Em dois minutos sozinho com ela, conseguiria mostrar- lhe que o beijo não fora forçado, que qualquer coisa perigosa e sombria que estivesse acontecendo entre eles a envolvia tanto quanto a ele. Graças a Deus, a sanidade prevalecera. Acalmara-se, e ela também. Os ombros haviam relaxado um pouco e ela saíra para pegar o menino. Observara-a passar, a cabeça alta, os olhos frios que miravam alguma coisa sobre a cabeça dele. Nem pense em me tocar, dizia aquela expressão, mas não a tocaria. Ao ver o bebê, lembrara-se sobre o que era aquilo. Levá-la para Nova York não tinha relação com ela ou com ele; tinha relação com Rami. Se o menino fosse do irmão, então também seria dele. Devia aquilo ao menino. Talvez devesse também a Rami. O que ela dissera antes, que talvez, apenas talvez, tivera perdido a oportunidade de ajudar o irmão, fizera-o pensar. Fazer a coisa certa para o filho de Rami ajudaria muito a compensar o próprio Rami. Era um legado muito melhor do que todas aquelas contas. O fato de que também privaria Rachel do filho era secundário. O menino certamente estaria melhor em sua nova vida. Podia explicar aquilo a ela. Se realmente amasse o filho. Estava prestes a se levantar para tentar conversar com ela quando notou que, de repente, não parecia mais tensa. Então soube que estava planejando alguma coisa. E pretendera conversar com ela. A impediria de fugir da primeira vez. Sabia agora que tentaria de novo. Não que sua tentativa fosse ter sucesso ou fizesse sentido. O que ganharia fugindo? E, no entanto, se não estivesse esperando do lado de fora daquele edifício miserável onde ela vivia, teria desaparecido. Pensaria que receberia mais dinheiro se tivesse que perder tempo procurando por ela? A verdade é que não dava a mínima para o valor que teria que pagar para ganhar a custódia do menino. Ameaçara-a com os procedimentos legais, mas este seria um último recurso. E o efeito em cascata. Os olhos do mundo se fixariam no escândalo. Seu pai ficaria devastado. Karim fechou os olhos. Nem queria pensar a respeito, ainda não. Não até que tivesse os resultados do exame. E teria, no dia seguinte. Dera os telefonemas necessários. Primeiro, ligara para os hotéis de Vegas aos quais Rami devia e providenciara o pagamento. Depois, entrara em contato com seu advogado. Seu médico. Seu gerente de pessoal. Eram as três únicas pessoas em quem podia confiar no momento. Dera instruções a cada um deles, e agora tudo o que tinha a fazer era garantir que a mulher não fugisse com a criança. Ainda não conseguia imaginar por que ela fugiria. Era um enigma, assim como ela. Parecia realmente gostar do menino. Só isso já era difícil de compreender. Estava claramente sem dinheiro, e ter um bebê com quem se preocupar certamente tornava sua situação financeira mais difícil. E então havia outras características. Era teimosa. Desafiadora. Dizia o que pensava. As piores qualidades das mulheres modernas, tudo num pacote só. Mulheres, modernas ou não, não deviam ser assim. Deviam ser, bem, talvez dóceis fosse uma palavra forte demais. Jamais lidara com uma mulher como aquela. — É claro que está certo, senhor — diziam nos encontros de negócios porque, 38


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afinal, não era só um sheik, mas o presidente de um fundo de investimentos multibilionário. Se o relacionamento era íntimo, deixavam de lado o “senhor”, mas ele e ela sabiam quem estava no comando. Sua última amante tinha sido uma mulher espetacularmente linda e considerada muito inteligente, mas jamais discutira com ele sobre nada. E gostava assim. Então, depois de algum tempo, tivera a sensação desagradável de que, se pedisse a ela, Alanna, o que acha de caminhar sobre brasas para me divertir?, ela teria sorrido lindamente e dito: Apenas espere eu pegar um fósforo. Franziu a testa, deixou de lado os papéis que fingia ler e cruzou os braços. Sabia como Rachel reagiria se dissesse alguma coisa do tipo para ela. Por mais irritado que estivesse — com o irmão, com ela, com a situação que os dois haviam deixado para ele resolver —, teve vontade de rir. Ela começaria com um Vá para o inferno e continuaria a partir dali. Sabia, também, qual seria sua reação. Ele a tomaria nos braços, sussurraria o que ela poderia fazer para agradá-lo e aquela expressão indignada seria substituída por outra de puro e quente desejo. Ela se ergueria nas pontas dos pés e levaria a boca à dele e ele a deitaria na cama, a despiria, a deixaria nua para sua boca, suas mãos. Maldição! Estava duro como uma pedra. Um homem inteligente não misturava negócios com prazer, e aquilo era só negócio. Sim, ela era atraente. Certo. Era linda. E certamente sabia como dar prazer a um homem. Rami nunca se interessara pela inocência. E, então, um homem só precisava olhar para ela naquela fantasia para saber que era sexualmente sofisticada. Mesmo assim, e apesar de tudo, era apenas uma mulher. Não que desprezasse mulheres, mas não era especial. Não para um homem que sempre pudera escolher as melhores. Os genes da mãe, a linhagem real do pai, seu próprio sucesso. Tudo somado, ele sempre tivera uma boa parcela de amantes desejáveis. Mais do que sua parcela justa, para ser brutalmente honesto. Então, por que toda esta tolice adolescente? Karim franziu a testa. Porque estivera vivendo como um monge, era por isso. Ficara tão ocupado limpando a sujeira que Rami deixara em vez de viver a própria vida que não tinha uma mulher em semanas. Bem, aquilo podia ser consertado logo. Karim olhou o relógio. Estariam em Nova York em mais duas horas. Seu motorista os esperava no aeroporto. Seria começo da noite quando chegasse à cobertura. Dera ordens para que uma das suítes de hóspedes ficasse preparada para a mulher e a criança. Um banho quente de chuveiro. Uma noite de sono. Então, pela manhã, um encontro com o advogado, uma visita ao laboratório que seu médico recomendara, uma negociação séria com a mulher e a custódia seria dele. Com alguma sorte, tudo estaria terminado em dois dias e, depois, pegaria seu celular, escolheria um nome e um número e daria fim às semanas de celibato. E, com isso, amarraria as últimas pontas soltas, pensou Karim com um sorriso. Com toda certeza.

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CAPÍTULO SETE

— Senhorita? — Os olhos de Rachel se abriram; a comissária de bordo sorriu para ela. — Vamos pousar dentro de uma hora. Pensei que podia ter mudado de ideia sobre comer alguma coisa, tomar um café ou um suco enquanto ainda temos tempo. — Café seria ótimo, obrigada. — Trago já. Rachel acenou. Estava se sentindo mais grogue do que antes de dormir. Onde estava Ethan? Deitara-o ali, na poltrona ao lado, dentro do bebê-conforto. — Moira? — Sim, senhorita? — Onde está meu bebê? — Oh, eu o levei comigo lá para a frente da cabine. Ele acordou e pareceu estar com fome. Rachel suspirou, aliviada. — Obrigada. — Sem problema, senhorita. É um garotinho adorável. Rachel sorriu. — Um dentinho está nascendo, sabe, e... — Percebi, lembro-me de meus filhos nesta idade. Esfriei um dos mordedores para gengiva que estava na bolsa de fraldas e dei a ele. Ficou feliz e agora está dormindo. Por que não o deixa comigo? Assim não corremos o risco de acordá-lo e talvez durma durante a descida. A mudança de pressão pode deixar um bebê desconfortável. — Sim, está bem. Obrigada de novo. — É um prazer, senhorita. Vou buscar seu café. — Preto, por favor. — Certo. Rachel ergueu o encosto da poltrona e olhou pela janela. Não fazia ideia de onde estavam. O longo voo, a mudança de fuso, tudo a desorientava, mas principalmente ter sido arrancada da própria vida por um príncipe arrogante. Ainda estaria no meio do avião? Queria se virar para ver, mas não lhe daria aquela satisfação. O que estaria fazendo? Dormindo? Trabalhando nos papéis que tirara da pasta? Olhando pela janela enquanto planejava o próximo movimento? Poderia descobrir. Tudo o que precisava fazer era se levantar e passar a caminho do toalete no fundo do avião. De qualquer maneira, precisava ir lá, com sheik ou sem sheik. Levantou-se antes de perder a coragem. Viu que estava na mesma cadeira, agora recostada. Parecia completamente relaxado, as longas pernas esticadas, os ombros largos pressionados contra o encosto de couro, as mãos cruzadas frouxamente. E o

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rosto. Rachel prendeu a respiração. Era um rosto incrível. Os olhos estavam fechados; os cílios longos e escuros faziam arcos sobre os malares cinzelados. A barba nascente e espessa fazia sombra na mandíbula. Não havia outra palavra. Era lindo. Moreno. Esguio. Um magnífico predador. Uma pantera. Os olhos se abriram e encontraram os dela. As pupilas se contraíram, a boca afinou. O calor lhe tomou o ventre e ela observou, fascinada, aquela boca. Lembrou-se da sensação de seda contra a dela. Pare! Queria correr, mas não seria possível escapar de uma pantera. Enfrentaria. A cabeça erguida, o olhar distante, passou por ele e entrou no toalete. Fechou a porta e se recostou nela, o coração a galope. Aquilo tinha que acabar. Era o inimigo. Era um inimigo muito, muito perigoso. Não podia se sentir atraída por ele. Suki é que gostava de caras malvados. Certo. Respire fundo. Então se afastou da porta. Havia uma bancada de mármore com pia no toalete, um box com chuveiro e um armário com toalhas felpudas bem dobradas. Sabonetes, pasta e escovas de dentes, praticamente tudo o que qualquer pessoa precisaria num banheiro. Rachel olhou para o chuveiro, tentada, mas desistiu; não ficaria nua com apenas uma porta entre ela e o sheik, o que a fez se lembrar do que acontecera naquela manhã. Na manhã anterior. Maldição, não importava o dia, e sim o que acontecera. Karim, os olhos escurecendo enquanto observava seu corpo nu. As mãos lhe empalmando os seios, os dedos acariciando de leve os mamilos subitamente rijos, o calor líquido se construindo no baixo-ventre. Um gemido passou pela garganta. Suprimiu-o e se olhou no espelho. — Ele a pegou de surpresa — disse a seu reflexo. Mesmo?, respondeu uma vozinha sonsa. O que está dizendo, hein? Que nunca foi apanhada de surpresa antes? Rachel piscou. Por que estava perdendo tempo e energia com aquilo? O que aconteceria a seguir era tudo o que importava. Precisava estar preparada para lidar com o que quer que fosse. Mas precisava se arrumar. Aparência era importante. Outro dos pensamentos da mãe. E, como os outros, verdadeiro. Pareça fraca, e as pessoas verão que é fraca. Pareça forte, e as pessoas pensarão que é forte. E, no momento, estava horrível. Olhos vermelhos, pálida de cansaço, o cabelo se soltando. — Você — disse ao reflexo — parece esgotada e derrotada. É assim que quer que Sua Imperial Sheikeza a veja? A resposta era clara, assim se ocupou. Usou o vaso sanitário. Encheu a pia. Lavou as mãos e o rosto com sabonete líquido com cheiro de limão. Escovou os dentes. Soltou a tira que lhe prendia o cabelo e o penteou diversas vezes, então o amarrou de novo. Olhou-se no espelho, o corpo alto, rijo e orgulhoso. — Melhor. — Não muito, mas melhor. Respirou fundo, jogou a cabeça para o lado, então destrancou a porta e saiu. E, no momento em que passou pela cadeira dele, o avião atingiu um bolsão de ar, balançou e ela tropeçou e caiu. Não de novo, pensou, enquanto a mão dele se esticava e se fechava em torno de seu punho. A pantera estava bem acordada. Os dedos eram quentes e rijos contra sua pele. Rachel olhou para ele. Ele olhou para ela. Diga alguma coisa, avisou a si mesma; então 41


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se obrigou a sorrir educadamente. — Obrigada. — Impressionante. — O quê? — Este “obrigada”. Certamente uma palavra que jamais pensei ouvir você dizer, habibi. Ele estava sorrindo; não muito, apenas os cantos dos lábios se erguendo, mas era tão particular e sexy que, por um instante, ela quis sorrir de volta. Mas não sorriu, é claro. Nenhum sorriso sexy do certamente enorme repertório dele poderia fazê-la esquecer quem ele era e o que queria. — Sou educada quando é adequado. — A voz de Rachel era gelada. Desta vez, o sorriso foi amplo. — Muito bem dito. É preciso talento para dizer uma frase que parece educada quando, na realidade, é um insulto. — Puxou-lhe a mão. — Sente-se. — Obrigada, estou bem. — Dois “obrigadas” e apenas um verdadeiro. Sente-se, por favor. Melhor assim? E agora? Se recusasse, ele a soltaria ou a puxaria para o assento ao lado do dele? Descobrir não valeria o preço que teria que pagar ao perder aquele jogo estúpido. Rachel deu de ombros e se sentou ao lado dele. — Ótimo. — Soltou-lhe o pulso. — Moira vai nos trazer café. E alguma coisa para comer. — Ela vai levar café para a minha poltrona. E não estou com fome. — Não seja tola, Rachel, é claro que está com fome. Além disso, em meu país, recusar partilhar o pão com alguém é uma descortesia. — Não estamos no seu país. — Mas estamos. A comissária de bordo se aproximou empurrando um carrinho coberto com bandejas de frutas, queijos e sanduíches minúsculos e um conjunto de prata de café. Para seu horror, o estômago de Rachel roncou. Karim sorriu. — Então não está com fome. — Dispensou a comissária com um gesto, serviu duas xícaras de café, pegou um prato e o encheu com sanduíches e frutas. — E então não está no meu país. — Olhou para ela enquanto lhe estendia o prato, talheres de prata e um enorme guardanapo de linho branco. — Sou um príncipe. — Já deixou isso bem claro. — Sou o embaixador do meu país. — Que bom para você! — A voz era puro mel falso. ��� O que significa que, onde quer que eu viva, é parte de Alcantar. — Karim tomou um gole de café. — Minha casa é em Nova York. Tenho uma casa de campo em Connecticut. — Fez uma pausa. — Este avião. Quando você estiver em qualquer um destes locais está sujeita às leis do meu povo. Compreende? — Sou uma cidadã americana. Não pode simplesmente. — Este não é um assunto para discussão. É um fato. Se estiver no meu espaço, nas minhas casas ou veículos, as leis de Alcantar são válidas para você. 42


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A mão de Rachel tremeu e, cuidadosamente, ela descansou a xícara de café na bandeja. — Pare de falar em círculos. — A voz era seca. — E pare de me dizer que pode fazer o que quiser com Ethan. Sou uma cidadã americana e ele também. Fim da história. — Talvez seja melhor permitir que eu termine de falar antes de me passar um sermão. — Karim parou, então limpou a garganta. — Estive pensando. — Devo ficar impressionada? Ele teve vontade de rir. Tão determinada a não demonstrar fraqueza. Mas percebera a mão trêmula. Era, na verdade, uma mulher interessante. Dura e terna ao mesmo tempo. Amorosa, pelo menos com o bebê. Seria assim na cama? Maldição, tinha que impedir que seus pensamentos voassem. — Somos adultos. — Ele estava calmo. — E ambos queremos o que é melhor para o menino. — Para Ethan, você quer dizer. — Sim. Queremos a coisa certa para ele. Não há motivo para sermos inimigos. — E o que considera a coisa certa, Vossa Alteza? — Por favor, me chame de Karim. Que tipo de jogo era aquele? Rachel tomou um gole de café e escondeu a confusão do olhar. Era uma nova abordagem, mas não acreditava nela nem por um segundo. Talvez tivesse decidido que seria melhor ganhar a cooperação dela a se mostrar hostil. E talvez fosse necessário um mentiroso para compreender outro. Porque era cada vez mais evidente que não queriam a mesma coisa para Ethan. Queria criar seu bebê com amor e alegria; ele queria criá-lo como o filho de Rami. E ela sabia o que acontecera a Rami. — Estou contente por concordarmos que o bem-estar de Ethan é importante, mas... — Por que meu irmão a abandonou? A pergunta a surpreendeu. — Sabe, realmente não quero falar sobre... — Por que não? Acredito que tem muito a dizer sobre um homem que foi seu amante, que fez um filho com você e então abandonou os dois. — Isso está no passado. E... — Ele não fez nenhum arranjo financeiro para você e o bebê? Rachel colocou a xícara na bandeja. — Agradeço sua preocupação, Alteza, mas, como disse, isso é passado. — E este é o futuro com o qual meu irmão deveria ter se preocupado. Ele não tomou nenhuma providência para o sustento de vocês dois, tomou? Ela olhou para ele e viu que seu rosto estava tenso de raiva. De Rami, percebeu, não dela. E se sentiu culpada pelas mentiras que lhe dissera, a imensa mentira. E aquilo não era ridículo? — Ele apenas foi embora? Pelo menos lhe disse que estava partindo? Rachel balançou a cabeça. 43


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— Não — disse, suavemente. Pelo menos, era a verdade. Ele ficou em silêncio por alguns instantes. — Mas ele gostava de você. Rachel não respondeu. Mais alguns instantes de silêncio. Então Karim limpou a garganta. — Sei que não vai mudar nada, mas precisa saber que ele não foi sempre tão descuidado. Nossa infância foi difícil. As coisas pelas quais passamos o mudaram. — E não mudaram você? — Sim, com certeza, mas escolhemos maneiras diferentes de lidar com aquelas experiências. — Deu de ombros. Aqueles largos ombros. — Quem pode explicar por que um irmão toma um caminho na vida e o outro.? — Ninguém pode explicar. — É gentil de sua parte, mas... — Não é gentileza, é apenas um fato. Tenho uma irmã. E eu tenho lembranças melhores dela quando era pequena do que nos últimos anos. Karim acenou. — Ela não se parece com você. — Não. Somos muito diferentes. — E ela não lutaria comigo para ficar com o filho, como você certamente fará, embora eu pretenda criá-lo como um príncipe. — Não, não me importo que seja um príncipe. Ele... — Fechou a boca depressa, mas era tarde demais. Os olhos de Karim se tornaram escuros e ilegíveis, mas havia uma dureza na voz que não estivera lá um instante atrás. — Tarde demais para negar, Rachel, o menino é de Rami. Ela ficou sem palavras, apenas olhando para ele. Então era aquilo. Ele não estava fazendo uma oferta de paz. Tinha sido um modo inteligente de fazê-la confessar que Rami era o pai do bebê. Que idiota tinha sido ao pensar que este homem realmente tinha um coração ou ao esquecer que era o inimigo. — Você continua a deixar de lado a única coisa que importa. Ethan é meu. — Ele é um príncipe. — É um menininho. E tem um nome. — O que isso tem a ver com qualquer coisa? — Você nunca se refere a ele pelo nome. Fala dele como se fosse uma coisa. Um objeto. — Isso é ridículo! Ficará mais feliz se o chamar pelo nome que meu irmão deu a ele? Ótimo. Faço isso, eu o chamarei de... Rachel se levantou de repente. — Seu irmão não lhe deu o nome de Ethan. Eu dei. Karim também se levantou. Se apenas não fosse tão mais alto do que ela. Detestava ter que erguer os olhos para ele, o que parecia lhe dar autoridade sobre ela. — Neste caso — Karim se tornou tenso —, peço desculpas por ele de novo. 44


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Aparentemente, esqueceu todas as suas responsabilidades. — Maldição, pare de pedir desculpas por ele! — É meu dever. Compreendo que a magoou, mas. — Ele me magoou? — Rachel levou as mãos aos quadris. — Eu odiava seu irmão! — E, no entanto... — Agora a voz de Karim era fria. — Você dormiu com ele. — O rosto dela enrubesceu. — Você o deixou plantar a semente dele no seu útero. Ela se virou e se afastou. Karim a seguiu, segurou-lhe o ombro e a virou para ele. — Que tipo de mulher é você? Odiava-o, mas dormiu com ele. Permitiu que lhe desse um filho. A boca de Rachel tremeu. Se quisesse dizer a verdade, o momento era aquele. Mas não podia, não podia, não podia. — Coisas acontecem. — Sabia como parecia feio o que dizia. A boca de Karim retorceu de repugnância. — É isso que diz quando se entrega a um homem? Que coisas acontecem? — Não foi como você está fazendo parecer. — Aposto que não. — Segurou-lhe o queixo e a obrigou a erguer os olhos para os dele. — Tinha dinheiro na primeira vez em que a teve na cama? A mão de Rachel se levantou. Ele a pegou, segurou-a pelos dois pulsos e os prendou contra o peito. — Quanto você custou a ele? Quanto foi necessário para superar seu ódio, habibi? — Seu canalha! Seu canalha miserável! Você não sabe nada sobre mim. Nem uma maldita coisa, compreende? Nem uma só maldita. A boca de Karim se fechou sobre a dela. Ela lutou. Brigou. E então, como antes, perdeu o chão e sua mente ficou vazia de tudo menos do gosto dele, da sensação dele, da forma como os braços dele se fecharam em torno dela. Ergueu-a, a boca angulando sobre a dela, saqueando-a, e ela mergulhou os dedos nos cabelos dele enquanto a puxava com força contra o corpo. — Odeio você — sussurrou contra a boca de Karim, mesmo enquanto o beijava, mesmo enquanto arquejava com a sensação das mãos dele em suas nádegas. — Odeio você, Karim, odeio você. Um sino tocou, e a voz incorpórea do piloto anunciou que pousariam em cinco minutos. Karim a soltou. O rosto estava tenso; os olhos, escuros. Os dela estavam cheios de lágrimas. — Se alguma vez fizer isso de novo. — E então levou os dedos à boca. Tinha tanta culpa como ele. Karim começara o beijo, mas ela aceitara e respondera. A raiva lhe subiu no peito. Dele? Dela mesma? Não importava. Não aconteceria de novo. Virou-se, sentou-se e apertou o cinto. O avião pousou e, assim que parou, ela soltou o cinto e se levantou, mas não a tempo de impedir que o sheik a segurasse pelo ombro e a puxasse para ele. — Bem-vinda a Nova York, habibi — rosnou. — E não faça promessas que não poderá cumprir. 45


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Abaixou a cabeça para a dela e lhe capturou a boca. Ela gemeu, sentiu o corpo se encher de calor. E o mordeu. Mordeu-lhe o lábio inferior com tanta força que ele levou a cabeça para trás. Uma gota de sangue lhe surgiu no lábio. Ele levou o dedo ao ferimento, tocou o sangue, então os olhos semicerraram. — Se quer fazer joguinhos. — A voz era baixa e suave. — Ficarei muito feliz em participar. Ela queria responder, dizer alguma coisa inteligente, mas seu cérebro se recusou a funcionar. Karim manteve os olhos nos dela enquanto abaixava a cabeça e a beijava de novo, um beijo longo, demorado. Ela sentiu o sal do sangue dele, o calor da fome dele. Queria afastar a boca da dele, mas não conseguiu, não conseguiu. Ele ergueu a cabeça, observou-lhe o rosto enrubescido com um brilho de triunfo, então passou por ela e saiu. Um Mercedes preto esperava por eles, o motorista segurando a porta de trás aberta. O interior do carro era luxuoso, exceto pela cadeirinha de bebê. O homem tinha pensado em tudo. A que distância ficava o hotel? Rachel estava exausta e louca para dormir. Precisava de uma longa noite de sono, e então, liberdade. O carro entrou no trânsito pesado. Que horas seriam? Estava muito escuro, não conseguia ver o relógio. — São 19h — informou Karim — da noite. Rachel olhou para ele. — Obrigada, mas não perguntei. — Não precisou. Deve estar se sentindo desorientada. — Sinto muito por desapontá-lo, Vossa Alteza, mas não estou. — É claro que está. Não valia a pena discutir, então apenas olhou pela janela. A viagem parecia sem fim, mas finalmente chegaram a uma ampla avenida, edifícios altos de um lado e o que parecia um denso parque do outro. Onde estava o hotel? Virou-se para ele. — Quanto tempo falta para chegarmos ao hotel? — Que hotel? — O hotel onde vai me despejar com Ethan. Ele riu, e ela quis esbofeteá-lo. O Mercedes parou, a porta se abriu. O hotel, pensou Rachel. Mas o homem que se debruçou e olhou para dentro do carro não parecia um porteiro de hotel, porque que porteiro de hotel bateria os tornozelos e diria: — Bem-vindo ao lar, Vossa Alteza, espero que tenha feito uma boa viagem. — Ao lar? — Estamos na minha casa. — A voz de Karim estava fria. — Um dos meus pequenos pedaços de Alcantar na América. Ethan começou a chorar. Karim estendeu a mão para ele. Rachel tentou impedi-lo. Ethan chorou mais alto. — Solte o garoto. — A voz de Karim era calma. Ela soltou e viu o bebê desaparecer nos braços do único homem a quem odiava mais do que odiara Rami, mais do que a infinidade de homens que haviam feito parte da 46


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vida de sua mãe. O porteiro estendeu a mão. — Senhorita? Ela ignorou a mão, deslizou pelo banco, desceu e se encaminhou para a porta do vestíbulo. O porteiro conseguiu ultrapassá-la e abrir a porta para ela no minuto em que a alcançou. Entrou. Karim esperava por ela ao lado do elevador, com Ethan nos braços. Um Ethan sorridente, alegre. Traidor, pensou Rachel enquanto entrava. A menos que quisesse se afastar de seu bebê, o que jamais aconteceria, era agora, sob todos os aspectos, uma prisioneira do sheik.

CAPÍTULO OITO

Por volta de 3h, até mesmo a cidade de Nova York dormia. Menos Karim. Ficou diante de uma das janelas que ia do teto ao piso no quarto escuro, o peito nu, usando apenas a calça de moletom, uma lembrança de seus dias em Yale. A cama desarrumada era um testemunho vivo da insônia. Ridículo. Devia estar exausto. Não dormira na noite anterior e o dia começara com a descoberta arrasadora de que o irmão tinha um filho. E, então, o confronto com Rachel, um voo de cinco horas de Nevada a Nova York e o tempo passado no escritório para ler e ouvir as mensagens, os e-mails. Caíra na cama por volta da meia-noite. O sono devia ter sido imediato. Não fora. Sentira-se tomado pelas imagens de Rachel na suíte de hóspedes além do quarto dele. O que estava pensando? O que fazia? Teria se acalmado ou ainda estava furiosa como quando descobrira que não a levara para um hotel, mas para a casa dele? A lembrança quase o fez rir. Nunca vira uma mulher tão furiosa. E não hesitara em fazê-lo saber como se sentia. Nunca uma mulher se mostrara enraivecida por passar a noite com ele. Mas, é claro, não estava passando a noite com ele de verdade. Se estivesse, também não estaria dormindo. Estaria na cama com ela nos braços. — Inferno! Karim foi ao banheiro, abriu a torneira da pia, abaixou a cabeça para o fluxo de água fria, depois tomou um longo gole enquanto a água lhe esfriava o rosto. Enxugou-se depressa e voltou à janela. Não tinha fantasias eróticas. Por que teria, quando havia tantas mulheres ansiosas para lhe dar a coisa real? Também não tinha insônia, por mais difícil que fosse seu dia. E, no entanto, ali estava ele, completamente desperto. Dezoito andares abaixo, a Quinta Avenida estava deserta, sem contar um táxi ocasional ou o infeliz dono de um cachorro que precisava da sua caminhada noturna. O Central Park era uma selva escura e verde e até mesmo o horizonte de Manhattan

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parecia pouco iluminado. O mundo inteiro estava dormindo, pensou Karim, menos ele. Jamais precisara de muitas horas de sono; quatro ou cinco eram suficientes. Mas sabia que precisava descansar para o dia seguinte, um dia cheio de decisões difíceis, de retomada ao trabalho abandonado por tanto tempo. Ligara para o assistente e marcara duas reuniões para a manhã: o desjejum com um banqueiro de Tóquio no Regency e outra mais tarde no Balthazar, com um membro do governo da Índia. Ao meio- dia, uma reunião com seus funcionários. Precisava voltar a ter contato com pessoas de sua terra. E, então, havia o resto. Às duas da tarde, uma reunião com o advogado. Ele e Rachel. Sabia que não seria fácil negociar a custódia com ela; Rachel criaria dificuldades. O que seria necessário para ela abrir mão de seus direitos sobre o menino? Ela dissera que jamais abriria, mas aquilo era conversa. Todos tinham um preço, especialmente mulheres. Sim, elas gostavam de sua aparência. Gostavam de sua virilidade. Mas sabia muito bem que gostavam ainda mais de seus títulos e de sua riqueza. Certamente fora assim que Rami conquistara a atenção de Rachel. Dinheiro, um título. Mas Rami não tinha dinheiro. A prova era o pequeno e triste apartamento onde vivera com ela. Quanto ao título. Rachel ria de títulos. Achara engraçado porque também não se impressionava com eles. Pelo menos, ganhara a própria fortuna, mas nascera com aquela fileira de títulos vazios. Não fizera nada para merecê-los, mas se acostumara com os outros impressionados por eles. Quando as pessoas, especialmente as mulheres, descobriam quem era, começavam a agir como se estivesse na França antes da revolução e ele fosse o Rei Sol. Tornavamse efusivas. Batiam as pestanas. Muitas lhe fizeram mesuras e sempre ficava desconcertado como os diabos quando aquilo acontecia. Pensou em Rachel fazendo a mesma coisa e riu. Ela deixara claro que desdenhava de seu papel de príncipe, de sheik, de herdeiro do trono de Alcantar. E ser quase indecentemente rico não melhorara sua posição diante dela também. Tratara-o como trataria qualquer pessoa. Qualquer pessoa de quem não gostasse, pensou, e sorriu. Rachel era uma mulher muito interessante. Uma mulher que cuidava de si mesma sozinha e criava um bebê. Não devia ser fácil. A mãe dele havia tido todo tipo de ajuda e recursos e, no entanto, os filhos tinham sido, na melhor das hipóteses, divertidos e, na pior, uma inconveniência. Não conseguia imaginar Rachel sentindo-se incomodada pelo bebê. E daí? Boa mãe ou não, o bebê ficaria melhor com ele. Ser um príncipe era o destino da criança. Rachel superaria a perda dele. Maldição, por que estava pensando nela? Sabia por quê. Sexo. Queria Rachel em sua cama. Queria-a nua e gemendo debaixo dele, queria sentir o gosto dela na língua. Queria o cheiro dela nele, o calor quente dela nele, queria mergulhar nela e ver seus olhos ficarem vazios enquanto ele a fazia ter um orgasmo e outro e outro. Karim praguejou e esfregou as mãos no rosto. Era um maldito idiota. Beijara-a, mas aquilo não aconteceria de novo. De jeito nenhum. Certamente não dormiria com ela e ficar ali, pensando naquilo, era uma idiotice. Atravessou o quarto, abriu a porta com um repelão e se dirigiu à escadaria. Um 48


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conhaque. Dois conhaques. Então esqueceria aquela bobagem, voltaria ao seu quarto, cairia na cama. O que era aquilo? Um som leve. O vento? O som veio de novo. Era o bebê. Rachel havia dito alguma coisa sobre um dentinho que nascia. Bebês choravam quando os dentes nasciam; alguém lhe contara ou lera em algum lugar. Maldição, era tudo de que precisava. Um bebê chorando. O som parou. Karim esperou, mas não o ouviu de novo. Ou a criança voltara a dormir ou Rachel o acariciava. Chega de pensar em Rachel! A sala de estar estava iluminada pela lua; atravessou-a e abriu a porta do escritório para pegar o decantador e... Inferno. O bebê estava chorando de novo. Com certeza Rachel estava dormindo, nem se importava com ele. Karim teria a custódia e cuidaria do bebê, contrataria babás, tutores e governantas, como ele e Rami tinham tido. Assim o filho de Rami aprenderia a ser responsável e não desperdiçaria a vida com jogos, mulheres, bebidas, drogas. O choro o incomodava. — Maldição — rosnou Karim. Deixou o copo intocado sobre a mesa, saiu do escritório, subiu rapidamente a escadaria, passou pelo longo corredor até a suíte em que Rachel e o menino dormiam. A porta da sala de estar estava fechada. Bateu. — Rachel? Sem resposta. Maravilha. Estava dormindo enquanto ele andava pela casa. Tentou de novo. Bateu com mais força, chamou-a com voz mais alta. Ainda nada. Um músculo no queixo saltou. — Danação — resmungou de novo, então abriu a porta e entrou na sala de estar. Ela devia estar em um daqueles dois quartos. O som havia parado, mas sabia que podia começar de novo. Havia apenas uma forma de lidar com aquilo. Encontraria Rachel e lhe diria para manter a criança calada. Tinha um dia pesado de trabalho à frente e precisava descansar. Passou rapidamente pela sala. A primeira porta estava entreaberta. Hesitou, então a abriu. Sem berço. Sem pilhas de coisas de bebês. Sem tudo o que mandara entregar aquela tarde. Viu apenas uma cama desarrumada como a dele, os cobertores jogados e afastados, como se a ocupante tivesse tido dificuldade para dormir. Era o quarto de Rachel. A cama de Rachel. Havia um leve perfume de limão no ar. Rachel tinha cheiro de limão. Combinava com ela aquele travo picante, doce, limpo. Delicado. Honesto. Quem, a não ser uma mulher honesta, teria olhado nos olhos dele, quando admitira que odiava o homem que tinha sido seu amante? Então, como tudo acontecera? Como uma mulher como ela ia para a cama de um homem que não amava? Karim praguejou baixinho. Estava ali para lidar com o choro de um bebê. Nada mais, nada menos. Que seus pensamentos se desviassem para aquelas imagens eróticas era evidência de que sua mente não estava funcionando bem e precisaria dela para acabar com toda aquela confusão. Dirigiu-se para a outra porta que se abria para a sala de estar. Aquela também estava entreaberta. Entrou. Sim, aquele era o quarto do menino. Lá estava o berço. 49


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Caixas de coisas de bebê. A iluminação suave. Um abajur com a cúpula em formato de um carrossel. Ideia da assistente? Precisava se lembrar de agradecer-lhe pela criatividade. E então Karim viu Rachel. Estava dormindo sentada na grande poltrona, o bebê nos braços. O cabelo estava solto, espalhando-se como uma chuva de verão sobre os ombros de uma camisola de algodão branco, de decote alto, que lhe cobria os pés encolhidos sob o corpo. A garganta de Karim se contraiu. Vira-a com pouca roupa. Nua. Vestida com jeans. Todas as vezes, ela lhe parecera linda, mas aquilo, a maneira como estava sentada, tão inconsciente de como era adorável, tão perfeita e vulnerável, quase fez seu coração parar. Qualquer que fosse o motivo dela para se entregar a Rami, não importava. Sabia apenas que a queria mais do que jamais quisera qualquer outra mulher. Inspirou profundamente, trêmulo. Mas querer não era o mesmo que ter. E não podia tê-la. Apenas complicaria uma situação que já era difícil demais. Tinha uma responsabilidade. Um dever. Para com o pai, o povo, para com a memória do irmão morto. Para com o menino. Devia pensar apenas em seu dever. Sua mãe pensara apenas em si mesma, assim como Rami. Mas não era assim. Nunca. — Babababa. O bebê estava acordado, olhando para ele com os mesmos olhos do irmão, azuis, e cílios longos e escuros. Karim balançou a cabeça e levou um dedo aos lábios. — Shh. Comentário errado. A boca do bebê tremeu. Fez um pequeno som, não exatamente um grito, mas perto. Karim balançou a cabeça de novo. — Não — sussurrou. — Não. Precisa deixar Rachel dormir. A boca da criança virou para baixo, o pequeno rosto escureceu. Karim se mexeu depressa, levantou o menino da curva do braço de Rachel e saiu do quarto. Sentiu-se culpado. E agora? O que uma pessoa fazia com um bebê que chorava? E, por falar nisso, o que uma pessoa fazia com um que não chorava? O bebê soprou uma bolha barulhenta. Karim olhou para ele. O que uma bolha significava? — Bzzzt — disse o menino. Karim limpou a garganta. Precisava de um intérprete. Pequenos punhos acenaram. Pequenos pés bateram. O rosto redondo se retorceu. — Certo — disse Karim rapidamente. — Que tal se, ah, descermos? Desceram a escadaria. O bebê começou a fazer uns barulhinhos. Não muito felizes. — Não sei o que você quer. — Agora Karim parecia desesperado. Que Deus o ajudasse se fosse uma mamadeira ou, pior, uma troca de fraldas. A sala de estar estava mais clara agora; o dia amanhecia e a luz tocava as torres imensas da cidade. Karim foi a uma das grandes janelas. — Veja, vai ser um dia ensolarado. Mais pequenos barulhos. Karim tinha um iate que fazia sons como aquele quando o motor era ligado. Bem, não, não o iate. A lancha. — Naaah. Naaah. Naaah. 50


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— Shh. — Karim se sentiu impotente. Inferno. O bebê estava chorando. Com força. Lágrimas verdadeiras desciam pelas faces redondas. Karim procurou alguma coisa para enxugá-las. Maldição, por que se esquecera de vestir uma camiseta? — Não chore. Passou um dedo cuidadoso pelo rostinho do bebê. Uma mãozinha lhe agarrou o dedo e o puxou para a boquinha rosada. O barulho parou. As lágrimas pararam. Dentinho nascendo. O garotinho estava usando seu dedo para acalmar a gengiva dolorosa. Karim sorriu. Sentou-se na ponta de um dos sofás da sala de estar. Ergueu os pés para a mesinha de centro. Acomodou-se cuidadosamente, as costas contra uma grande almofada macia. O garotinho lhe mastigava o dedo. E. obrigado, Deus. Desta vez, os sons que fazia eram claramente de satisfação. — Gostou, hein? — A voz de Karim era muito suave. As palavras lhe valeram um sorriso com uma bolha. Karim também sorriu. O garotinho era lindo, se gostasse de garotinhos. Ele não gostava. Bem, não. Não era verdade. Não desgostava deles, apenas não passava tempo com nenhum. O garoto tinha um cheiro bom também. Um cheiro macio. Não de limão, como o de Rachel; aquele era um cheiro que até mesmo um homem que tinha zero de conhecimento sobre o assunto automaticamente associava a bebês. O bebê arrulhou. Sorriu em torno do dedo de Karim. Karim respondeu ao sorriso. E bocejou. O bebê bocejou também. As pálpebras desceram. — É isto, garoto. — A voz de Karim se tornou muito suave. — Hora de dormir. Você dorme, eu o levo de volta para Rachel. As pálpebras de Ethan se fecharam e não se ergueram de novo. As de Karim também. Um momento depois, homem e bebê dormiam profundamente. Karim acordou de repente, o bebê ainda nos braços. Dormindo. Uma ótima ideia. Ele queria desesperadamente fazer a mesma coisa, dormir por mais uma ou duas horas. Então ligar para sua assistente e lhe dizer que cancelasse todos os compromissos do dia. Por que não? O cara de Tóquio e o da Índia podiam esperar até que terminasse de lidar com os assuntos de Rami e limpasse a mente. Os assuntos de Rami, pensou, a boca afinando. Aquilo certamente tinha sido o assunto de Vegas. O assunto do irmão com uma dançarina, uma stripper, ou o que quer que Rachel Donnelly fosse. Era também uma mãe. Uma boa mãe. Inferno, uma excelente mãe, pelo que já tinha percebido. Responsável. Cuidadosa. Determinada. Era surpreendente que Rami tivesse se sentido atraído por uma mulher assim. Garotas de festa com seios maiores do que o cérebro sempre tinham sido seu tipo. Não que faltasse qualquer coisa em Rachel naquele departamento. Os seios dela, tudo o que pudera ver naquele encontro rápido no banheiro, eram luxuriosos e femininos. E quantas vezes dissera a si mesmo para não pensar naquelas coisas, maldição? Porque o que Rachel era ou não era não tinha relação nenhuma com ele ou com o que 51


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tinha que fazer. Karim se levantou e levou o bebê de volta à suíte de hóspedes. Rachel ainda estava enroscada na grande poltrona, dormindo. Parecia inacreditavelmente linda. E inocente. Impressionante como as aparências enganavam. Impressionante como estava faminto por ela. Virou-se, deitou o bebê cuidadosamente no berço, cobriu-o e começou a sair do quarto. Um músculo pulou no queixo. Voltou ao berço, debruçou-se e passou os dedos delicadamente pelo cabelo macio da cabeça do menino. — Durma bem, pequenino — sussurrou, e então, antes que cedesse ao impulso insano de fazer a mesma coisa com Rachel, saiu da suíte, desceu o corredor até o quarto, ligou para a assistente. Não para suspender as reuniões, mas para marcar outra. Negligenciara seus negócios por tempo demais. Além disso, o trabalho lhe daria o que pensar, disse a si mesmo enquanto dava outro telefonema, agora para seu advogado, então um terceiro, para o laboratório, e cancelava os dois compromissos. Então se despiu, foi para o banheiro e entrou no chuveiro. Aquelas coisas podiam esperar. Um dia, dois. Até mesmo três. Adiá-las não tinha relação nenhuma com Rachel. Nenhuma mesmo. Na suíte de hóspedes, Rachel, que acordara quando Karim entrara no quarto pela segunda vez, abriu os olhos apenas quando teve certeza de que ele já saíra. Nada fazia sentido. Não o fato de que o severo sheik aparentemente cuidara de Ethan enquanto ela dormia, ou que tratara o bebê com alguma coisa que podia ser chamada de ternura. E certamente não fazia sentido ela tê-lo observado sob os cílios e pensado como seria se ele se aproximasse dela e a tocasse com aquelas grandes mãos gentis. — Idiota — sussurrou para si mesma, e se levantou. Era hora de começar o dia. E planejar sua fuga. Mas descobriu que não seria possível fugir. Havia muitos olhos sobre ela o tempo todo. Karim tinha uma equipe na casa. Rachel sabia que ele lhes dissera alguma coisa sobre ela. Não sabia o quê, mas, quando apareceu na cozinha naquela primeira manhã, com Ethan nos braços, uma mulher de seios grandes e mãos sujas de farinha se virara do fogão, um sorriso educado. — Bom dia, senhora. Sou a senhora Jensen, a cozinheira do sheik. E eu sou a prisioneira do sheik, quis dizer Rachel, mas é claro que não disse, simplesmente manteve uma expressão neutra. Karim era o inimigo. Assim como todos os que ele empregava. — E este é o pequeno Ethan. Oh, Sua Alteza tinha razão! É uma criança linda. Rachel se surpreendeu. — Foi isso que ele disse? — Oh, sim, senhora. Ele nos disse que o bebê é. — “Nos disse”? — Ah. — A senhora Jensen limpou as mãos no avental e pressionou um botão no telefone de parede. — Desculpe, senhora. O príncipe Karim me pediu que apresentasse os outros à senhora. 52


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— Que outros? — Ora, o resto da equipe que trabalha aqui. Eu. A governanta, a senhora Lopez. O motorista do príncipe. Bem, a senhora o conheceu no aeroporto na noite passada. E agora temos mais uma, minha neta Roberta. Ela vai chegar dentro de uma hora. Para ajudar com o bebê — acrescentou, quando viu a expressão intrigada no rosto de Rachel. — Não preciso de ajuda nenhuma com meu bebê. — Rachel abraçou Ethan com mais força. — Vai gostar de Roberta, senhora. É uma babá profissional e adora bebês. — Sou perfeitamente capaz de cuidar eu mesma de Ethan. — É claro que é, senhorita Donnelly. Mas Sua Alteza perguntou se minha Roberta estava disponível. Apenas, sabe, para ajudá-la. — Para me vigiar, você quer dizer. — A voz de Rachel estava gelada. — Não, senhora. Certamente não. Para ajudá-la, é tudo. — Havia indignação no tom de voz da cozinheira. — Ele sabe que minha Roberta é uma excelente babá. A voz de Rachel ficou ainda mais fria. — Oh, sim. — As palavras eram pesadas de sarcasmo. — Ele certamente sabe. A senhora Jensen a observou com desagrado. — Sua Alteza matriculou Roberta na escola, senhora Donnelly. Ela perdeu notas em algumas matérias e ele pagou um tutor para ela e depois a faculdade, até ela decidir que queria trabalhar com bebês, então ele a matriculou numa escola para babás. — Por quê? — Não compreendo sua pergunta, senhora. — Por que ele faria isso? — Porque é assim que ele é. — A voz da cozinheira agora estava quase tão gelada quanto a de Rachel. — Ele cumpre o que acredita serem suas responsabilidades. — Ele se intromete na vida das pessoas, é isso que quer dizer. A expressão da cozinheira endureceu. — Ninguém aqui concordará com isso, senhora. — Agora a cozinheira estava rija como um poste. Felizmente para as duas, os outros empregados chegaram naquele momento à cozinha. Rachel estivera preparada para detestar toda a equipe. Não foi possível. Como odiar pessoas que adoravam Ethan? Depois de dois dias, Ethan, o pequenino e doce traidor, adorava-as de volta. Particularmente Roberta. Era difícil se ressentir dela. Não interferia, apenas ajudava Rachel quando ela permitia. Finalmente, Rachel decidiu que era tolice descontar a raiva em uma garota apenas alguns anos mais nova do que ela e que era maravilhosa com bebês. Seu relacionamento com os outros continuou frio. Certamente por causa do que Karim teria dito sobre ela. Mas não. Uma manhã, ao descer a escadaria, ouviu a senhora Lopez e a senhora Jensen conversando em voz baixa. — O príncipe disse que era uma jovem gentil — dizia a senhora Jensen — e que passou por algumas dificuldades nos últimos tempos, mas, honestamente, Miriam, 53


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detesto dizer isso, mas acho que não é nem um pouco gentil. — Bem — disse a senhora Lopez —, ela é maravilhosa com o bebê. Todos percebem. Mas é impossível conseguir que ela sorria, não é? Se não soubesse das coisas, Amelia, pensaria que não gosta de nós. Mas por que não gostaria, quando mal nos conhece? Maldição! Maldição! Duplamente maldição! Rachel voltou a subir a escadaria. Seria possível que estivesse enganada sobre os empregados de Karim? Aos poucos, mudou o modo de lidar com eles. Sorriu; eles também. Disse coisas gentis; eles também. Teve que admitir que aquilo tornava a vida mais agradável. Quanto a Karim. Nunca o via. O que havia acontecido com os encontros com os advogados? Com os testes de laboratório? Rachel não perguntou. Por que apressar coisas que temia? Aparentemente, Sua Sheikeza estava ocupado demais para lidar com qualquer outra coisa. Não se surpreendeu. Evidentemente, o bem-estar de Ethan sempre viria em segundo lugar. Karim saía cedo para o escritório pela manhã. Não de carro. Quando ela perguntou o motivo. Apenas por curiosidade. Por que um príncipe com uma Mercedes e um motorista deixaria os dois para trás. John, o motorista, disse que Sua Alteza geralmente tomava o metrô. — Ou caminha — acrescentou, e Rachel quase ouviu o som de aborrecimento nas palavras. — Sua Alteza diz que é a melhor maneira de fugir do trânsito pesado. Grande coisa, pensou Rachel. O poderoso sheik se junta aos plebeus. Podia viajar num cabo de vassoura, por tudo que lhe importava. E não voltava até tarde da noite. Muito tarde, nunca a tempo de jantar. Seus caminhos jamais se cruzavam. Ótimo para ela. Na verdade, excelente. E então, uma manhã, depois de outra noite passada andando com Ethan nos braços, Rachel finalmente o deitou depois que dormiu. Estava cansada demais para dormir, então desceu silenciosamente para tomar um café. Era muito cedo. Ninguém ainda havia se levantado. O que significava, pensou ela bocejando enquanto entrava na cozinha vazia, que podia descer como estava, vestida com uma longa camisola de flanela, o cabelo solto, os pés nus, pegar o bule de café e... As luzes da cozinha se acenderam. Rachel arquejou, virou-se em direção à porta. E viu Karim. Ele usava um moletom cinzento, uma camiseta também cinzenta com as mangas cortadas e tênis muito velhos. O rosto e os braços musculosos brilhavam de suor; o cabelo estava caído sobre os olhos; o queixo escuro com a barba por fazer. Absolutamente lindo. — Sinto muito. — Sinto muito. Falaram ao mesmo tempo. Agitada, Rachel recomeçou: — Não pensei. — Não tinha ideia. As palavras colidiram. Karim sorriu, pegou a toalha enrolada no pescoço e enxugou o rosto e os braços. 54


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Rachel mordeu o lábio, então sorriu, hesitante. — Você primeiro — disse ele. Ela engoliu com força. — Queria dizer que achava que não perturbaria ninguém se... — Não perturba. Não me perturba, quero dizer. Acabei de fazer ginástica e pensei. — Ginástica? — repetiu tolamente, porque parecia não conseguir pensar direito. Bem, quem poderia? Não esperara vê-lo. Vê-lo parecendo tão masculino, tão lindo, naquelas roupas nem um pouco principescas. O pensamento a fez rir. Tentou engolir a risada, mas não conseguiu. — O quê? — Ele sorriu. — Nada. É apenas. Não sei. Nunca imaginei. — O quê? — repetiu, o sorriso crescendo enquanto olhava para ela. Deus, era um colírio para olhos cansados. Sem maquiagem. O cabelo, uma nuvem dourada. O corpo escondido sob aquela camisola antiquada, apenas a doce insinuação de seios e quadris. — Eu, bem, nunca pensei que fizesse ginástica. Ele sorriu. Bateu no abdômen achatado. — Preciso fazer. Senão pesaria 200 quilos. Rachel riu. — Duvido muito. Ele passou por ela, abriu a geladeira e tirou uma caixa de suco de laranja. — Sim. Bem, a verdade é que passo tempo demais atrás de uma escrivaninha. Sem oportunidade de fazer esportes. E sempre pratiquei, sabe? Ainda corro um pouco, mas quando estava na faculdade jogava futebol. — Futebol ou futebol americano? — Americano. — Sorriu. — Então, sabe que em todo lugar do mundo chamam o jogo de futebol, menos aqui nos Estados Unidos, hein? Ela acenou. — Quando Ethan teve cólicas, costumava levá-lo para longas viagens de carro para acalmá-lo. Ele adorava o movimento do carro. Então voltava para casa, mas aprendi depressa que poderia acordar se o pusesse logo no berço, assim me deitava no sofá, ligava a televisão e, como era o meio da noite, o que geralmente era. Bem, às 2h ou 3h da manhã não há nada a não ser repetições de jogos de futebol. — Gooool! — disse Karim, solene. Rachel riu. — Certo. Oh, e infocomerciais. — Infocomerciais? — Sim. Você sabe. Homens gritando enquanto tentam lhe vender coisas que você jamais sonhou precisar. Karim pegou dois copos num armário, encheu-os de suco e entregou um a Rachel. — Oh — disse ela rapidamente —, não. Não, obrigada. Eu, ah, eu devia sair do seu caminho. — Não está no meu caminho. Além disso — a expressão solene de Karim não 55


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mudou —, se pedir um copo de suco de laranja, receberá também uma xícara de café sem custo extra. Paga apenas o transporte. Ela riu. Era uma imitação perfeita de infocomercial. Karim sorriu. — Sério, faço um café maravilhoso. Sem acréscimo no preço de entrega e transporte. Certo? Não, nada certo, a mente lhe disse. — Certo. — A voz discordou porque, afinal, que mal haveria em uma coisa tão simples? Ele fez café. Ela fez torrada. Ele comeu a dele com geleia de morango. Ela, com requeijão. — Geleia é melhor — disse ele. Ela negou com um movimento de cabeça. — Doce demais para essa hora da manhã. — Gosto de coisas doces bem cedo. E, embora não tivesse a intenção de insinuar nada, ela ruborizou e ele pensou, por um segundo, em se debruçar na bancada e beijá-la. Mas não fez nada. De algum modo, aquela manhã, aquela pequena trégua, era importante. Assim, limpou a garganta, disse que fazia frio demais para a estação, então falou sobre isto e aquilo, o trânsito, os planos para a reforma do Central Park. E então os dois ficaram em silêncio. E se ele me beijasse?, pensou Rachel. E se eu a beijasse?, pensou Karim. O coração dela disparou. O dele também. Os olhos se encontraram. — Bem. — disse ele. — Bem. — disse ela, ao mesmo tempo. Os dois se levantaram. E se moveram para direções opostas. — Preciso começar a me mexer — disse ele, enérgico. — Eu também. — Rachel mostrava a mesma energia. Ele disse a si mesmo que estava contente por não tê-la tocado. Ela se disse a mesma coisa. Mas tudo em que conseguiram pensar pelo resto do dia foram naqueles momentos tranquilos e agradáveis do começo da manhã. O que não aconteceu de novo. Rachel tomou todas as precauções. Não saía do quarto até ter certeza de que Karim havia partido para o trabalho. Sim, descobrira que seu sequestrador tinha um lado humano. E daí? Dias se passaram e, embora ele não mencionasse exames de DNA ou reuniões com advogados, um dia falaria no assunto. O que faria então? Rachel se enganara ao pensar que poderia desaparecer na multidão com Ethan. Decidiu confrontá-lo. No fim de um longo dia — o primeiro dentinho de Ethan nascera e outro estava começando —, Rachel tomou um banho de chuveiro, vestiu uma camisola, deitou o bebê no berço e se acomodou na poltrona, com caneta e bloco na mão. Hora de se organizar, disse a si mesma, e começou a escrever. 56


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Procurar ajuda legal. Ou procurar nomes de advogados? Qualificações. Direito geral? Direito de família? Como saber se um advogado era bom? Um advogado receberia o pagamento em prestações? Rachel bocejou. Estava exausta. Uma soneca. Uma pequena soneca. E então. E então. O bloco e a caneta caíram no chão, e ela adormeceu.

CAPÍTULO NOVE

Horas depois, Karim saiu do elevador privativo. A cobertura estava silenciosa; lâmpadas fracas brilhavam, apenas o suficiente para diminuir a escuridão. Atualmente, Rachel estava sempre no quarto naquela hora. E não haviam mais se visto pela manhã. Não poderiam; deixara de fazer ginástica. Saía ainda mais cedo do que antes. Era mais seguro assim. De outro modo, pensou severamente enquanto afrouxava a gravata e subia silenciosamente a escadaria, de outro modo ele. Ele o quê? Tomaria Rachel nos braços? De jeito nenhum. Aquilo significaria apenas desastre. Tomaria a custódia do menino. A última coisa de que precisava era dormir com a mãe dele. Certo. Então por que não começara o processo? Por que ainda não ligara para o advogado ou para o laboratório para fazer o exame de DNA? Uma pergunta ainda mais pertinente por que caminhava tão silenciosamente pelo corredor todas as noites, parava diante da porta sempre fechada de Rachel, sentia o pulso acelerar quando se imaginava abrindo-a e se aproximando dela, acordando-a ao tomá-la nos braços.? Maldição. Passara por isso antes. Não pensara na mesma coisa de novo? Nas complicações se fizesse uma coisa tão louca? Até mesmo nas horríveis possibilidades de que a reação dela a ele poderia ser deliberada porque imaginava que poderia afastá-lo de seus planos? O corpo endureceu. Ou talvez, como ele, ela precisasse tirar aquela fome impossível do sistema. Talvez aquela fosse a coisa certa a fazer. Talvez. O que era aquilo? Um som. Um choro. Era o bebê. Karim hesitou. Lembrou-se da última vez em que ouvira a criança chorar, como o encontrara acordado e Rachel dormindo. Abriu a porta. Era a mesma coisa. A sala de estar escura. A luz suave passando pela porta parcialmente aberta do quarto do bebê. E Rachel adormecida na grande poltrona, o cabelo solto e brilhante contra o tecido cor de marfim de uma daquelas antiquadas camisolas que nunca vira outra mulher usar. Suas amantes vestiam seda. Ou renda. Uma coisa sexy, com o objetivo de seduzi- lo. E jamais conseguindo tanto quanto Rachel vestida em algodão ou flanela e coberta do

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pescoço aos pés. Queria se ajoelhar ao lado dela, tomá-la nos braços, puxá-la para o chão ao lado dele. Beijá-la, prová-la, fazê-la gemer de fome. O bebê. Concentre-se no bebê. Ethan estava no berço, os olhos abertos, batendo aqueles pequenos braços e pernas como um corredor de maratona e sorrindo de orelha a orelha. Karim sorriu de volta. — Ei, companheiro — sussurrou. Deu um passo à frente. Pisou em alguma coisa. Uma caneta e, debaixo dela, um bloco. Pegou-o e olhou para a página escrita. Rachel havia feito uma lista de “Coisas a fazer”. Não era da conta dele. Mas podia ver que era sobre manter Ethan com ela. Sentiu uma fisgada de culpa, o que era ridículo. Não tinha por que se sentir culpado. O bebê era filho de um príncipe. Devia à memória do irmão morto, ao rei e ao povo providenciar para que ele fosse criado como um príncipe. — Gaa gaa? Karim colocou o bloco e a caneta sobre uma mesinha próxima, tomou o bebê nos braços e saiu silenciosamente do quarto. A manhã estava próxima quando alguma coisa acordou Rachel. Um som. Em algum lugar do enorme apartamento. — Hmm — murmurou, e esticou os braços sobre a cabeça. Dormir naquela grande poltrona se tornara quase um hábito. Era muito confortável; acordava descansada e. — Ethan? O berço estava vazio. Rachel se levantou num pulo. Teria acordado e começado a chorar e ela não ouvira? Disse a si mesma para se acalmar. Ethan estava bem, em algum lugar do apartamento e bem. Mas quando encontrasse a pessoa que o tirara do berço sem acordá-la... Descalça, desceu o corredor, a escadaria, passou pelos aposentos escuros. E terminou a busca ao seguir a luz pálida até a grande sala de estar, onde encontrou seu menininho e seu sequestrador. Dormiam profundamente. A garganta de Rachel se apertou. A sala refletia a vida e a riqueza do dono. Paredes brancas. Mobília branca enfatizada por toques de um preto profundo. Era um ambiente sofisticado para um homem sofisticado. Um homem grande espalhado em um dos longos sofás brancos, os sapatos, o paletó do terno e a gravata jogados para o lado, e Ethan deitado sobre o peito dele. Ethan tão pequeno e lindo nos braços poderosos do homem poderoso que, a não ser pela primeira noite, se comportava como se ela não existisse. O bebê suspirou na mancha molhada que as gengivas doloridas haviam deixado no que era evidentemente uma cara camisa branca. Karim o puxou para mais junto do corpo e, dormindo, passou a mão grande nas costas de Ethan. O bebê se aninhou mais. Alguma coisa quente e perigosa encheu o coração de Rachel. Não. Não, não deixaria que aquela cena a afetasse. Sabia como eram as coisas, os homens, sabia o que aquele homem era. Sabia que podia ser severo e terno, não apenas quando abraçava um bebê, mas quando a abraçava. Devia ter feito um som, talvez um suspiro como o bebê, porque os cílios escuros e espessos de Karim bateram, então se 58


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ergueram. Os olhos ainda cheios de sono encontraram os dela. — Ethan estava chorando. — A voz estava rouca do sono. — Você estava dormindo. Não quis que a acordasse. — Parou. Por que ela estava olhando para ele como se nunca o tivesse visto? Karim limpou a garganta. — Assim, eu o trouxe para cá comigo. Calou-se. O coração estava disparado. Como poderia ser tão linda? Uma palavra tão insignificante para descrevê-la, mas era a única que conhecia. Linda. A boca suave e rosada. O cabelo despenteado pelo sono. E todo o resto. Os seios pressionando o algodão fino da camisola. As pernas longas, visíveis sob o tecido suave. Apenas o peso do bebê sobre seu peito o manteve são, permitiu que erguesse os olhos para os de Rachel sem constranger os dois. — Eu. — Limpou a garganta de novo. — Eu vou levá-lo para cima. — Obrigada. Por cuidar dele. Karim sorriu. — É um garotinho adorável. — Sim. Sim, é. — Engoliu em seco. — Preciso levá-lo para o berço. — Se pegá-lo, ele pode acordar. Deixe que eu faça isso. Ela acenou. Karim se levantou e ela saiu atrás dele, seguiu-o pela escadaria até o quarto do bebê. Observou-o se debruçar no berço e deitar cuidadosamente o bebê adormecido. Havia um leve cobertor nos pés; ele o puxou, cobriu a criança, tocou os cachos claros de leve com a mão como fizera daquela primeira vez. — Durma bem, pequenino — sussurrou. Rachel sentiu um aperto no peito. Quantas vezes segurara o bebê e pensara: se você fosse realmente meu...? Impossível, é claro. O irmão de Karim e a irmã dela haviam feito aquele garotinho. Mas e se o destino tivesse escrito uma história diferente? E se Ethan não fosse de Rami e de Suki, mas dela e de... Virou-se depressa, passou pela sala de estar e saiu para o corredor. Karim a seguiu. — Rachel? Estava tremendo. Deus, estava. — Rachel — repetiu —, o que há? Afaste-se, disse a si mesma. Não seja idiota... não, não, não. A mão dele repousou no ombro dela. Podia sentir-lhe o corpo rijo atrás do dela, podia sentir o calor que emanava dele. Repetiu o nome dela de novo, a voz baixa e rouca, e ela se virou para ele. O que viu nos olhos dele lhe disse que aquela noite, pelo menos, qualquer coisa seria possível. — Karim — sussurrou quando ele estendeu os braços e caiu diretamente neles. Ele disse a si mesmo que havia infinitos motivos para soltá-la. Para afastar-se enquanto ainda podia. Sempre fizera a coisa certa, a coisa lógica, seu dever. Karim gemeu e a apertou nos braços. Aquilo, apenas aquilo era a coisa certa. Era o lugar a que Rachel pertencia. — Karim. Seu nome era um suspiro nos lábios dela. Abaixou o olhar para o rosto de Rachel, 59


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aquele rosto adorável, e soube que ela sentia as mesmas emoções. Desejo. Confusão. O conhecimento de que o que estavam fazendo era perigoso, que não haveria volta. — Não podemos. A voz era um suspiro trêmulo e ele respondeu que ela estava certa, que não poderiam. Ela gemeu. Ergueu-se na ponta dos pés. Pressionou-se contra ele. Ele abaixou a cabeça para a dela e lhe capturou a boca. Ela tinha gosto de noite, de mel, dela mesma. Tinha gosto de creme e baunilha, e ele estremeceu, aprofundou o beijo, aprofundou ainda mais. — Você é tão linda — sussurrou, e ela estremeceu e passou os braços em torno do pescoço dele. E ele soube que estavam perdidos. Desceu as mãos pelas costas dela, empalmou-lhe as nádegas, ergueu-a contra ele. Outro gemido lhe escapou da garganta. Podia senti-la toda contra ele agora. Seus seios. Seu ventre. Sua virilha. O corpo dela queimava. Assim como sua boca, enquanto ele bebia dela. Os botões superiores da camisa de Karim estavam abertos. Rachel passou a mão sob ela e lhe acariciou os ombros nus. Ele estremeceu ao toque suave e tentador. Puxou-a para mais perto do corpo, segurando- a como se seus braços fossem faixas de aço, mas não era suficiente, não podia ser suficiente. Não quando a necessidade de tomá-la lhe pulsava no sangue. Queria erguê-la nos braços e carregá-la para a cama. Mas antes precisava provar sua pele. Ali, atrás da orelha. Ali, na concavidade tenra do pescoço. Ali, na delicada junção do pescoço e do ombro. Ela gemeu. O som passou por ele como um rio de chamas. — Você quer isso? — sussurrou, rouco. — Diga-me, habibi. Diga-me o que quer. Ela lhe empalmou o rosto, puxou-o para o dela e o beijou. — Isto — murmurou. — Você. Mas não podemos. Não podemos. O beijo dele foi quente e duro. Os joelhos dela dobraram; ele a ergueu nos braços, a boca jamais deixando a dela, e a carregou para o quarto dele. O luar passava pelas janelas e se concentrava em um poço iridescente de marfim. Colocou-a de pé ao lado da cama, e seu olhar se prendeu ao dela. — Mande-me parar. — A voz era áspera. — E paro. Mas me diga agora, antes que seja tarde demais. Compreende, Rachel? Se eu começar a tocá-la, não haverá volta. O quarto se encheu de um silêncio perturbado apenas pela respiração áspera de Karim. Então, lentamente, ela ergueu as mãos para os botões altos da camisola. A mão de Karim se fechou sobre as dela. — Deixe-me despi-la. Ouviu a respiração dela falhar. As mãos caíram para as laterais do corpo. Estendeu a mão para o primeiro do que certamente eram mil botões, nenhum deles feito para mãos masculinas tão grandes e de repente tão desajeitadas como as dele, mas queria revelá-la para seus olhos. Um botão cedeu. Dois. Três. E finalmente pôde ver. ah, Deus. Pôde ver a curva suave dos seios dela. — Karim — sussurrou Rachel. 60


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Relutante, afastou os olhos dos seios e os fixou no rosto dela. Viu os lábios afastados, o rubor do desejo que lhe esticava a pele, a escuridão das pupilas. A garganta apertou. Debruçou-se e lhe beijou a boca. E abriu o botão seguinte. Então o outro. E todos eles, um por um, até não haver mais nenhum. Lentamente, abriu a camisola. E a viu. Toda ela. Nua e incrivelmente adorável. Os seios eram pequenos e redondos, e soube imediatamente que lhe encheriam perfeitamente as mãos. Os mamilos eram botões elegantes, da cor rosada das rosas do começo do verão e que cresciam, selvagens, nos vales das Great Wilderness Mountains. Os quadris eram curvas luxuriosas e femininas, molduras perfeitas para os suaves cachos dourados na junção das coxas. Deus, precisava tocá-la. Empalmar-lhe os seios. Roçar os dedos sobre os mamilos eretos. Descansar a boca no coração dela, deixar que ela sentisse o calor de sua língua entre as coxas. Ergueu o olhar. Observou-lhe o rosto. Estendeu a mão lentamente, roçou os dedos nos mamilos. Ela arquejou e ele abaixou a cabeça, beijou-lhe a boca, o pescoço, os seios. Puxou um botão rosado para dentro da boca. Ela soluçou seu nome, estremeceu. A cabeça caiu para trás e gemeu de prazer. Foi quando o derrubou. Puxou-a com ele para a cama. Vá devagar, disse a si mesmo. Devagar. O corpo dela fervia junto ao dele. A boca era macia. E sua ereção estava tão rija que quase sentia dor. — Rachel. — A voz era trêmula, insegura, e ela passou os braços pelo pescoço dele e, de alguma forma, a camisola subiu para os quadris e a mão dele estava entre suas coxas. Ela estava molhada e escorregadia, e ele encontrou aquele doce botão que era a essência dela. E, quando o encontrou, Rachel arqueou contra a sua mão e gritou, o que o fez se afastar, arrancar as roupas, abrir a gaveta da mesinha de cabeceira e encontrar um preservativo. Colocou-o. E então estava dentro dela. Um gemido lhe escapou. Rachel era apertada em torno dele, tão apertada que teve medo de machucá-la. Então parou, o corpo trêmulo com o esforço, controlandose, permitindo que ela se esticasse para acomodá-lo. Mas ela não permitiu. Soluçava e se movia contra ele, se movia, se movia. Disse o nome dele. Podia senti-la estremecer; estava no fio da navalha, à beira da eternidade com ele. Poderia a vida inteira de um homem significar que precisava chegar àquele momento? Investiu dentro dela, com mais força, mais profundidade, mais pressa. Ela sussurrou o nome dele de novo e então gritou em êxtase. E Karim soltou tudo. A dor das últimas semanas, a rigidez de sua vida. E voou com ela pelo luar e para dentro do coração do céu noturno. Deixou-se cair sobre ela, o corpo molhado de suor. O rosto mergulhou na curva do ombro dela, o cabelo uma teia sedosa, e amou a sensação dele contra seus lábios. Seu coração batia com força; e o dela também. Podia senti-lo contra seu corpo. Sabia que era pesado demais para ela, mas não queria se mover. Não se isso significasse desistir do momento. A pele de Rachel contra sua pele, os braços dela em torno dele, as pernas envolvendo-lhe os quadris. 61


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Ela suspirou de leve. Ele também, então rolou para o lado e a puxou para os braços. — Você está bem? — A voz era muito suave. Ela acenou. — Estou bem. — Muito bem? — E sorriu. Usou uma das mãos para lhe erguer o rosto para o dele. — Incrivelmente bem? — Então a beijou. Os lábios dela eram macios. Apertaram-se contra os dele, mas apenas por um momento. Então ela se afastou. — Eu preciso me levantar — sussurrou. — Ainda não. — A voz dele era sexy e áspera enquanto afastava uma mecha de cabelo da têmpora de Rachel e a colocava atrás da orelha. — Fique mais um pouco comigo. — Não. De verdade. Preciso me levantar. Um pedido simples, disse Karim a si mesmo. Ela precisava ir ao banheiro. Um pedido simples, normal. Mas a voz estava tensa e os olhos dela se afastaram dos dele. — Rachel? Ela não respondeu. — Rachel. Querida. — Solte-me, me deixe levantar! Por um terrível momento, teve medo de que ele mantivesse os braços onde estavam, um deles em torno de seus ombros, o outro sobre sua cintura, mas finalmente ele a soltou. Agora precisava se sentar e não deixá-lo vê-la nua e, sim, ele já a vira, fizera muito mais do que vê-la. De alguma forma, conseguiu erguer o corpo e puxar as duas partes da camisola e juntá-las. Levantou-se de costas para ele. — Aonde vai? A voz não era mais sexy. Não importava. Ela podia parecer enérgica e decidida também. — Ao banheiro. Karim se sentou. — A porta do banheiro está atrás de você. — O banheiro da suíte de hóspedes. — O que está acontecendo, Rachel? Arrependeu-se? — Honestamente, Karim, acho que você sabe que não há nada menos atraente do que uma avaliação depois do sexo. E, se não se importa. Virou-se e se dirigiu para a porta, o corpo rijo. Ele agarrou a calça, vestiu-a e chegou à porta antes dela. Ficou parado com as costas para a porta, os braços cruzados sobre o peito, as pernas ligeiramente abertas, o rosto inexpressivo. — Por favor, saia da minha frente. — Não até você conversar comigo. — Eu lhe disse, tenho que ir ao... 62


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— Você está fugindo. Ela ergueu mais a cabeça. — O diabo que estou. — Um minuto atrás você estava nos meus braços. E agora. — E agora acabou. Você teve o que queria. Gritou quando as mãos dele se fecharam com força nos ombros dela. — Não — rosnou. — Não o quê? Dizer a verdade? Maldição, me solte. — Fizemos amor. Não tente transformar isso numa coisa feia. — Fomos para a cama. — Os olhos brilharam. — Não tente transformar isso numa coisa bonita. A boca de Karim se retorceu. — E agora — a voz era suave — vai alegar que a forcei. — Não. — Ergueu o queixo; o rosto ruborizou. — Não vou. Já há muitas mentiras entre nós! — Por exemplo. — Por exemplo... A voz de Rachel se calou. Era uma única mentira, uma enorme mentira que havia entre eles, mas não podia revelar. Se ele soubesse a verdade, teria a munição de que precisava para lhe tomar Ethan. — Estou esperando. Exatamente a que mentiras está se referindo? Ela ergueu os olhos. Umedeceu os lábios com a ponta da língua. — Não há necessidade de nada disto. — A voz estava cansada. — Fizemos o que fizemos. E agora. — E agora quer esquecer que aconteceu. Sim, queria dizer, mas aquilo seria outra grande mentira. Sabia que jamais esqueceria Karim. Jamais. — Eu apenas quero ir em frente. Os olhos de Karim escureceram. — Ir em frente? — Sim. Você sabe, isto foi bom, mas. Ele lhe empalmou o rosto e lhe cortou as palavras com um beijo. Ela lutou, mas apenas por um segundo. Então deixou escapar um pequeno grito, colocou os braços em torno do pescoço dele e se entregou. Quando ele finalmente ergueu a boca, ela tremia. — Não podemos — sussurrou. — Já fizemos. E eu não mudaria nada por toda a riqueza do mundo, querida. E você também não. — A voz se tornou mais suave. — Diga-me que não é verdade e a deixarei partir. Ali estava sua oportunidade. Era um homem honrado, sabia. Se dissesse o que aconteceu não significa nada para mim, ele a soltaria. Mas não podia dizer aquelas palavras. Não podia transformar o que fora tão lindo numa coisa feia. — Karim. — Gosto da maneira como diz meu nome. 63


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— Você não sabe nada sobre mim. Ele sorriu. — Sei que faz muito mal ao meu ego. E isso é dizer muito, vindo de um homem que. Como foi que me chamou? Arrogante. Egoísta. Um déspota. — Outro sorriso. — Esqueci alguma coisa? Oh, sim, o deboche. Vossa Sheikeza. — Havíamos acabado de nos conhecer. E você não vai acreditar, mas eu não... — Não o quê? — O rosto estava solene. Ela ruborizou. — Não sou a mulher que pensa que sou. — Aquilo, pelo menos, era verdade. — E não vou para a cama com estranhos. — Então sou um estranho, hein? — Não! Não quis dizer. — Está tudo bem. — Estava ainda mais solene. — Não segure nada, diga tudo o que pensa. Agora, havia riso nos olhos dele. Ela podia sentir um sorriso tentando se formar nos lábios, mas não havia nada do que sorrir. Muito menos rir. — Você é impossível. Estou tentando falar sério. — Eu também. — Debruçou-a e a beijou com uma ternura que ela sabia não merecer. — Você acha que é errado por causa de Rami. — O peso de sua mentira tornou difícil respirar. Ela acenou; não conseguia falar. — Porque você dormiu com ele. — Karim, por favor. Não quero. — Não. Eu também não. Inferno, Rami é a última coisa de que quero falar agora. — Você acha que eu gostava dele. Mas... — Não. Não acho. Você disse que o odiava, lembra-se? — Os olhos escureceram. — Mas não podemos fingir que você e ele. — Inspirou com força. — Você dormiu com ele. Teve o filho dele. — Um soluço escapou da garganta de Rachel. Ela se virou, mas Karim a segurou e a girou para ele. — Pensa que preciso saber seus motivos? — Mergulhou os olhos nos dela. — Não preciso. O que aconteceu é passado. Agora, hoje, amanhã. Isso é tudo o que importa. Além disso, sei perfeitamente que você fez sexo com Rami. Mas nós fizemos amor. — Lágrimas encheram os olhos de Rachel. — Fizemos amor — repetiu. — Você sabe. Eu sei. Por que não admite? — Porque... Porque... Ela sufocou um soluço. Karim praguejou e a tomou nos braços. Ela se encostou nele e deixou as lágrimas quentes lhe molharem o peito nu. — Não dou a mínima para nada do que aconteceu antes de nos conhecermos. — A voz era áspera. — Isto. Nós. É tudo o que importa. — Não há “nós”. Não pode haver. Eu lhe disse. Você não sabe nada sobre mim. Ele abaixou a cabeça e a beijou, depressa e com força. — Sei tudo o que preciso saber. Você é valente. E forte. Enfrenta a vida com dignidade e coragem. A culpa a tomou. Conte-lhe, aconselhou uma voz dentro dela. Precisa lhe contar. Precisa. — Estava errado quando disse que lhe tomaria seu filho. 64


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Oh, Deus! — Karim... — Tentou ser rápida. — Karim. Sobre o bebê. — Não. Não precisa dizer nada, habibi. Você é uma boa mãe. Uma mãe maravilhosa. Encontraremos um modo de resolver tudo. — A expressão se tornou suave; sorriu e passou o polegar gentilmente sobre os lábios dela. — E você é linda. — A voz suavizou ainda mais. — Não apenas o rosto e o corpo. Por dentro, onde realmente importa, você é a mulher mais linda do mundo. Então, está vendo? Sei tudo o que preciso saber sobre você. — Sorriu. — Mas não sei do que gostaria para um lanche no meio da noite. Rachel olhou dentro dos olhos daquele homem que, descobrira, não se parecia em nada com o irmão, nada com qualquer homem que já conhecera. Apesar de si mesma, seus lábios se curvaram num sorriso em resposta. — Está mudando de assunto, Vossa Alteza. — Aha. Um progresso. — O tom voltou a ser solene, mas os olhos estavam cheios de risada. — Esta é a primeira vez que usa estas palavras sem fazer com que eu me encolha. O sorriso dela aumentou. — Não deixe que isto lhe suba à cabeça, mas pode ser um homem muito gentil. Ele sorriu. — Para um déspota arrogante e egoísta, você quer dizer? Rachel encostou a mão no queixo de Karim. Estava áspero com a barba do fim do dia. Fazia-o parecer perigoso e incrivelmente sexy. — Talvez eu estivesse errada sobre isso. — Estava certa, habibi. Sou todas essas coisas. Mas não quando estou com você. — Segurou-lhe a mão e pressionou um beijo na palma. — Pensando melhor. — A voz se tornou áspera como a barba. — Pensando melhor. — Os dentes mergulharam de leve na carne macia. — Está com fome também, querida? Rachel olhou nos olhos escuros do amante e respondeu à pergunta que viu neles. — Sim. De você. Karim grunhiu, puxou-a contra ele e a beijou. O mundo e a teia de mentiras que ela criara desapareceram.

CAPÍTULO DEZ

Agora fizeram amor mais lentamente. Havia tempo para descobrir os segredos mais íntimos um do outro, para explorar com mãos lentas e beijos profundos, para conversar na linguagem dos amantes em doces sussurros e suspiros ainda mais doces.

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— Adoro o seu gosto. Karim estava deitado com Rachel nos braços. E, Deus, era verdade. A pele dela era seda contra seus lábios, e os mamilos, botões de mel. O cheiro dela era intoxicante, puro, feminino e limpo. Tudo nela aumentava seu desejo: a maneira como gemia quando a acariciava, a curva de sua boca na dele, os olhos enevoados quando a penetrava. Gostava de sexo, e não havia motivo para não admitir que era um amante habilidoso. Mesmo assim, uma parte dele sempre se mantinha distante e, se pensasse a respeito, diria que era uma boa coisa; significava que podia se manter controlado até o último segundo. Mas não com Rachel. Não sabia onde o prazer dela começava e o dele acabava. Era uma sensação maravilhosa. E, quando ela se tornou ousada e começou a explorar o corpo dele. tocando-lhe a pele com a ponta da língua, mordendo-lhe de leve o lábio, passando as mãos pelos ombros e pelos braços musculosos. Ele quase enlouqueceu. Queria jogá-la de costas na cama, mergulhar nela até a terra tremer. Mas, de alguma forma, conseguia se impedir de fazer aquilo. Como agora. Quando a mão dela se moveu para baixo. E parou. Karim sussurrou o nome dela. Rachel ergueu os olhos, os dela um poço de escuridão. Podia me afogar nestes olhos e morrer feliz, pensou Karim. — Toque-me. — A voz era um sussurro rouco. Rachel jamais quisera tocar um homem tão intimamente, nunca nem mesmo olhara para a carne dura e ereta de um homem. Agora queria fazer as duas coisas. Precisava de menos coragem para olhar. E então segurou a respiração. Aquela parte do amante que lhe dava tanto prazer era linda, um símbolo não apenas da virilidade dele, mas de seu desejo por ela. — Rachel. A voz de Karim era baixa. Tensa. Gentilmente, ele lhe segurou a mão e a levou para junto dele. E esperou, mal respirando. Lentamente, tão lentamente que ele podia sentir o suor lhe cobrir a testa, observou-a abri-la. Os dedos roçaram a carne rija. Ele gemeu. Ela puxou a mão para trás. — Não quero. Não quero machucar você. Um homem chorava ou ria num momento daqueles? — Não vai me machucar. — Deixou escapar um som que esperava ser uma pequena risada. — Pode me matar, habibi, mas não vai me machucar. Rachel passou a ponta da língua sobre o lábio inferior. Karim sufocou outro gemido. Então ela fechou a mão em torno dele. Ele estremeceu. — Sim — sussurrou. — Sim, querida. É isto. Toque-me assim. Assim. A mão dele se fechou sobre a dela. Ensinou-lhe como fazê-lo gemer de novo, mas agora ela compreendia que não era um som de dor. Era de prazer. Um prazer que apenas ela podia lhe dar. Ela compreendeu tudo ao ver a expressão no rosto dele, a forma como a pele dourada parecia se esticar sobre os ossos, a forma como as narinas se abriam. Até ele lhe segurar o pulso e fazê-la parar. — Espere. — A voz estava ainda mais grossa. Ele respirou profundamente, depois 66


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de novo, então se debruçou sobre ela. — Minha vez. Deitou-a de costas. Ajoelhou-se entre as coxas dela. Beijou-lhe a boca. O pescoço. Os seios. E então foi ela que gemeu e se moveu, inquieta, sob suas carícias. — Adoro olhar para você. Ver a cor lhe tomar o rosto. A forma como as pálpebras descem para velar seus olhos. Adoro ver o que lhe acontece quando a toco. Quando a beijo. Quando faço isto. Ela arquejou quando ele a separou com os dedos. Acariciou-a, então se abaixou e a lambeu, sugou-a. Ela se entregou a uma onda torturante de prazer. Mas havia mais. Primeiro, um preservativo. Então ele se aproximou das dobras sedosas. — Veja. — A voz era cada vez mais rouca. — Observe enquanto a penetro, habibi. — As palavras a fizeram tremer de antecipação. Ergueu a cabeça e olhou para o ponto onde seus corpos se encontravam no mais íntimo dos beijos. — Veja — repetiu. Ela olhou e gritou com a doce tortura de vê-lo penetrando-a lentamente, de senti-lo clamando-a como dele. — Rachel. Penetrou-a com força, profundamente, e ela deixou escapar um longo e louco soluço de alegria, os dedos lhe apertando os braços, as pernas lhe envolvendo os quadris. O corpo de Karim brilhava de suor, o coração disparado. Queria segui-la no esquecimento. Com os dentes cerrados, lutou. E a levou novamente para a beira do abismo. Era demais; Rachel sentia-se como se estivesse despedaçando. — Por favor — soluçou. — Por favor, Karim, por favor. Investiu uma última vez. E, quando ela gritou, se soltou e se derramou dentro da caverna sedosa, então se deixou cair nos braços dela. Momentos se passaram. Karim ergueu a cabeça, roçou os lábios nos dela e rolou para o lado, com Rachel presa nos braços. Ela lhe deu um beijo lento e doce. E então sorriu. O tipo de sorriso com o qual um homem sonha ver no rosto da mulher com quem acabava de fazer amor, e ele sorriu de volta. Inferno, ele quase riu alto. — Devo entender — tentou parecer solene, mas não teve muito sucesso — que este sorriso significa satisfação? — Em três vias. Ele riu, deliciado. Ela sorriu de novo. — Sem falsa modéstia, Vossa Alteza? — Nenhuma, já que você foi o motivo por que isto foi tão maravilhoso, habibi. Tão incrivelmente perfeito. — Aproximou a boca da dela para um beijo longo e terno e, quando ela suspirou contra seus lábios, ele sentiu o coração apertar. — Perfeito — murmurou. Rachel fechou os olhos, deitou a cabeça no ombro dele, a mão sobre seu coração. — O que isto significa? Habibi? — Significa “querida”. — Beijou-lhe o cabelo. — Em árabe? — Sim. Minha primeira língua. Ela ergueu a cabeça, moveu a mão para descansar nela o queixo. Deus, era linda! 67


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O cabelo era uma gloriosa massa de ondas suaves em torno do rosto. Fazer amor lhe dera um brilho nos olhos e na pele rosada. Ele queria se deitar sobre ela e fazer amor de novo. — Sua primeira língua? Quer dizer, antes do inglês? — Antes do francês. Então aprendi inglês. E espanhol. E alemão. E. — O quê? Cinco línguas? — Seis. Bem, quase seis. Ainda tenho dificuldades com o japonês. Ela riu. — Ainda tenho problemas com o espanhol, o que é uma tristeza, já que estudei por um ano no ensino médio. É claro, foi há muito tempo. — Aposto que foi. — Karim tentava ficar muito sério. — Quanto tempo? Vinte anos? Vinte e cinco? Rachel fechou o punho e lhe bateu de leve no ventre. — Ai! Certo, não 25. — Estava no ensino médio sete anos atrás, Senhor Sheik. — Tentou parecer indignada. — Senhor Sheik, hein? — Ele sorriu e afastou uma grossa mecha de cabelo sedoso do rosto dela. — Aposto que se formou com louvor. Uma nuvem pareceu escurecer os olhos dela. — Não. — Ocupada demais sendo a rainha da escola para estudar? Olhou para ele pelo que pareceu um longo tempo. Então se afastou, pegou o edredom e o enrolou no corpo. — Rachel. — Karim se movimentou depressa e lhe segurou a mão antes que ela pudesse se levantar. — Querida, o que eu disse? — Nada. — Não faça isso. Se eu disse alguma coisa que a feriu, me conte. A tensão nela pareceu irradiar até ele. — Lembra-se do que lhe disse? Que há muita coisa sobre mim que você não sabe? Bem, aqui está uma delas. Não me formei no ensino médio. Consegui um diploma equivalente dois anos atrás e é por isso que ainda estou lutando para aprender espanhol. Porque só comecei a ter aulas de novo numa faculdade que funciona à noite. Assim, não, não falo seis línguas, e não, não tenho um diploma universitário, e não... Karim a virou para ele e fez o fluxo doloroso de palavras parar com um beijo. Quando ergueu a cabeça, ela continuou, a voz baixa: — Não pude continuar na escola, tive que cuidar de mim e de minha irmã. — Seus pais? — Karim tentou manter a voz baixa e calma. Ela balançou a cabeça. — Meu pai morreu quando Suki e eu éramos pequenas. Minha mãe gostava de se divertir. Partiu um dia e nunca mais a vimos. — Então você e eu temos alguma coisa em comum. Minha mãe também nos abandonou. — É difícil compreender como uma mãe pode. 68


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Karim praguejou, puxou-a e a beijou. — Habibi. Habibi. Ana behibek. — O que isso significa? — Significa. Significa que você é muito corajosa, querida. Significa que adoro têla nos meus braços. — Não sou nem um pouco corajosa. A voz tremeu, e Karim se deixou cair na cama porque a única maneira segura de lhe mostrar o que acabara de dizer era fazendo amor com ela de novo. Não havia nada seguro em lhe dizer a verdade. O que realmente dissera era que a amava. Dormiram nos braços um do outro e acordaram com a luz do sol. Karim olhou dentro dos olhos de Rachel. — Bom dia. Rachel sorriu. — Bom dia. — Dormiu bem? — Maravilhosamente. Na verdade. — Ergueu-se no cotovelo e olhou o relógio na mesinha da cabeceira. — Oh! Passa de 7h. Ethan. — Ethan está ótimo. — Mas. — De verdade. Verifiquei há alguns minutos. Roberta está com ele na cozinha. Alimentando-o com uma papa amarela impossível de identificar, misturada com outra branca, igualmente impossível de identificar. Rachel riu da descrição excelente dele sobre pêssegos amassados misturados com cereal de arroz. — Ele adora aquela papa. — O que apenas prova que Ethan é um bebê. Ela disse que vai levá-lo ao parque quando ele acabar de comer. — Então é melhor eu correr, tomar um banho e... — Sou um homem do deserto, habibi. — O que significa.? — O que significa — ele estava muito sério — que compreendo coisas que você não. — Coisas como? — Que água é um bem precioso. Assim, é imperativo economizá-la. — A boca se retorceu. — Portanto, devemos fazer o sacrifício de tomar um banho de chuveiro juntos. Rachel sorriu. — E seria um sacrifício adorável, mas se Roberta vai levar Ethan ao Central Park... — Ela ama o garoto, Rachel. — Eu sei. É maravilhosa com ele e... — E tem um diploma muito impressionante de babá de uma escola de luxo. Rachel acenou. 69


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— Sim. E você pagou as mensalidades. — A senhora Jensen lhe contou? — Com certeza, ela. Karim! Você está ruborizando! — Não estou. — Ruborizou ainda mais. — Primeiro, aulas particulares. Então faculdade. Então a escola para babás. — Beijou-lhe o queixo. — Você é mesmo um homem muito gentil. Karim sorriu. — O que sou é um homem com uma necessidade desesperada por alimento. — Certo, mude de assunto. — Suspirou. — Ethan vai se divertir muito com Roberta. E você precisa se alimentar. Nós dois precisamos. — Adoro saber que lhe abri o apetite. Foi a vez de Rachel ruborizar. Abriu a mão sobre o peito dele e empurrou de leve. — Vou fazer o desjejum para nós. — E expulsar a senhora Jensen da própria cozinha? — Oh. Não pensei. — Adoraria se você fizesse nosso desjejum, querida. — Mas a senhora Jensen. Karim tomou-a nos braços. — Vou mandá-la ao mercado. Rachel bateu as pestanas. — Um homem tão sábio, Vossa Alteza. — Treinando. Quando um homem está destinado a ser rei, sabe como manter a paz. O sorriso provocante desapareceu do rosto de Rachel. — Por alguns momentos, quase me esqueci disto. Sim. E ele também. Mas agora lá estava. A realidade. O compromisso com o dever. Honra. Responsabilidade. Tudo o que levara aquela mulher para a vida dele. Havia apenas um problema. Não esperava amá-la, mas amava. Ela era tudo para ele. Como podia? Tinha sido de Rami. Não. Ela mesma dissera. Ninguém era propriedade de ninguém. Além disso, ele dissera que o passado não importava. E falara sério. Não importava. Tudo o que importava era que amava Rachel. Era boa, gentil e honesta. Nunca nem mesmo imaginara que encontraria uma mulher como ela para completá-lo; e era isso que ela fazia. Completava-o. A respiração parou na garganta. De repente, viu um caminho aberto. Um caminho que lhe permitiria não apenas cumprir seus deveres, preservar sua honra, atender às responsabilidades para com seu pai, seu país, seu irmão morto e o filho de seu irmão. Com um simples e único passo poderia fazer todas aquelas coisas e cumprir a promessa que fizera a Rachel sobre encontrar uma forma de ela manter Ethan. Seja honesto, Karim. Tudo aquilo era importante. Mas não eram os motivos reais para o que pretendia fazer. Dever era importante. Mas o amor era tudo. Tudo. — Karim? Ele piscou e olhou o rosto da mulher que amava. Ela parecia preocupada. Com ele. 70


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E não era impressionante? Quando imaginaria que uma mulher se importaria com ele, o homem, e não com ele, o sheik? — Karim. Por favor, fale comigo. O que está errado? — Nada. — Então deu uma risada, ergueu-a, rodou com ela pelo quarto e dançou ao som de uma música que apenas ele ouvia e, quando ela estava sem fôlego e rindo com ele, parou e a tomou nos braços. — Lembra-se de que lhe prometi que encontraria uma solução para o nosso problema? O problema deles. Oh, Deus. Na alegria das últimas horas, conseguira deixar de lado a realidade. Agora ela voltava. — Sim, eu me lembro. Você quer Ethan. Ele acenou e a puxou para mais perto. — No começo, era tudo o que queria. — Você disse. disse que não o tomaria de mim. — Querida. — Karim limpou a garganta. Emoldurou-lhe o rosto com as mãos e o ergueu par ele. — A resposta para o nosso problema é saber que não há problema nenhum. — Mas há. Gostaria que não houvesse, mas. — Amo você, habibi. A voz era áspera; e as palavras, as mais lindas que já ouvira. Os olhos se encheram de lágrimas. Ele as afastou com beijos, então lhe beijou a boca, gentil e ternamente. — Rachel. — Inspirou com força. — Vivi toda a minha vida sozinho. Por escolha. Eu não quero parecer uma daquelas pessoas que vão à televisão e exibem suas emoções. — Riu de leve. — Inferno, muita gente me disse que não tenho emoções. Rachel balançou a cabeça. — Você é um homem maravilhoso — o tom era quase violento —, com um coração do tamanho do mundo. — Um coração que você despertou, habibi. — Beijou-a de novo. — O que eu disse. Que a amo, nunca disse essas palavras a ninguém. A ninguém. — Fez uma pausa. — E nunca confiei completamente em ninguém. Nunca. Desde que era um garotinho. — Sorriu. — E então eu a encontrei. — Lágrimas encheram os olhos de Rachel de novo. Precisava lhe contar agora, não importava o custo. — Rachel. — Karim olhou bem dentro dos olhos dela. — Case-se comigo. Seja minha esposa. A mãe dos filhos que teremos juntos, como já tem Ethan, a quem passei a amar como se fosse meu. Vou adotá-lo e lhe dar meu nome. Rachel começou a chorar. — Rachel? Querida, adoro você. Pensei. Pensei que você sentisse a mesma coisa. Ela jogou os braços em torno do pescoço dele. Ergueu-se nele. Beijou-lhe a boca com todo o amor que ele levara ao seu coração solitário. — Amo você — sussurrou entre beijos. — Amo você, amo você, amo você. — Case-se comigo — pediu Karim. Não, sussurrou uma voz dentro dela. Rachel, não deve... — Rachel? Ela atirou a cautela ao vento. 71


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— Sim.

CAPÍTULO ONZE

Quem poderia ter imaginado que Manhattan, aquele lugar onde tubarão come tubarão e as ruas são apinhadas de pessoas ocupadas, fosse ideal para amantes? Não Karim. Conhecia a cidade como conhecia Londres, Paris e Istambul, conhecia seus hotéis, restaurantes, centros comerciais. E, embora não pensasse em romance, diria que aquelas cidades talvez fossem românticas. Paris tinha charme e uma beleza única. Istambul tinha o mistério originado por culturas mistas do Oriente e do Ocidente. Londres tinha ruelas tortas de onde emanava história. Mas Nova York? Frenética. Impaciente. Lotada. Rude. Barulhenta. E, no entanto, magnífica. Aquelas eram as palavras que a descreviam. Mas romântica? Não. Seria isso o que diria, se alguém perguntasse. E se pensasse em romance. Afinal, não houvera espaço para romance em sua vida. Não até dez dias atrás. Quando Rachel a mudara. Vivera dez anos em Nova York, mas jamais a havia visto realmente. O Central Park não era mais apenas um lugar para uma corrida pela manhã. Era uma extensão de verde tão linda como as vertentes cobertas de florestas que se erguiam sobre o deserto de sua terra natal. As ruas calçadas de pedras do SoHo e da Greenwich Village eram lugares tão adoráveis para caminhar como Montmartre. De mãos dadas, exploraram juntos a cidade. Descobriram pequenas e tranquilas cafeterias, lindos parques, lugares onde um homem e uma mulher poderiam ficar sozinhos apesar de cercados por uma multidão. Conseguira um pequeno milagre quando finalmente convencera a futura esposa de que não havia nada errado em deixá-lo levála a algumas butiques e lhe comprar vestidos leves e macios de verão, lingerie delicada e sapatos adoráveis. Saltos sim, mas não agulha. E foi então que descobriu que ela não tinha sido uma dançarina, e sim uma garçonete, que odiava os sapatos e a roupa minúscula, e a expressão dela se tornara tão melancólica que bem ali, na esquina apinhada da Spring com a Mercer, ele a tomara nos braços e a beijara. De todas as formas que importavam, a cidade era quase tão desconhecida para Karim como para Rachel. Até mesmo os restaurantes para onde a levava eram lugares que nunca vira antes. Mas vira. Levara clientes ao Four Seasons, ao Daniel, ao La Grenouille, mas eram lugares diferentes quando estava com a mulher que amava. A mulher que amava, pensou, enquanto ele e Rachel se sentavam a uma pequena mesa para dois no River Café, com as luzes de Manhattan refletidas nas águas profundas e escuras do East River, visíveis através das janelas ao lado deles. A boca

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de Karim se curvou num sorriso muito particular. Amava Rachel. E ela o amava. Ainda estava tentando se acostumar com a ideia. Tanta coisa com que precisava se acostumar. A começar com as manhãs, quando acordava com ela nos braços. E se deitava todas as noites da mesma maneira. Fora ao escritório apenas duas vezes. E até mesmo ele considerava aquilo inacreditável. Sua equipe certamente pensava assim. Tivera a intenção de trabalhar da primeira vez, mas partira antes de receber qualquer pessoa. Pensara em pedir o carro, parar um táxi, mas o trânsito pesado o fez desistir. O modo mais rápido de voltar para casa era correr. E ele correra. Era uma visão impressionante, um homem grande correndo pela Madison Avenue vestido em um terno e sapatos de grife, então subindo pelo elevador e invadindo o vestíbulo da cobertura. — Rachel? — gritara. — Rachel? — Karim? — respondera do alto da escadaria. — Qual é o problema? — Nada. — Subira a escadaria de dois em dois degraus. — Tudo — acrescentara, tomando-a nos braços e a beijando. — Fiquei com saudades de você. — E o rosto dela se iluminara com tanta alegria que ele a levara diretamente para a cama. Da segunda vez, ficara tempo suficiente apenas para verificar sua agenda, delegar o que quer que precisasse ser feito a seus diretores e mandar sua assistente cancelar seus compromissos e dizer a qualquer um que o procurasse que estaria indisponível. Ela o olhara com se ele tivesse enlouquecido. — Indisponível, senhor? — Indisponível. — A voz era muito firme. Porque estava. Indisponível. Inalcançável. Incomunicável para qualquer um a não ser Rachel. E Ethan. O bebê era certamente o garotinho mais inteligente, mais adorável do mundo. Ria, deliciado, quando Karim o erguia nos braços, bem alto, ou lhe mostrava coisas engraçadas. Adorava quando Karim lhe soprava o ventre. Risos e amor, o que ele e Rami não tiveram na infância. O que o havia transformado em um homem com um coração tão escondido que praticamente não existira, e Rami em um homem que desperdiçara a vida. Karim pretendia, de alguma forma, compensar o vazio da vida de Rami criando o filho dele com todo o amor do mundo. E o melhor era a facilidade de tudo. Quem imaginaria que ele, o todo-poderoso sheik de Wall Street — um título ridículo que algum jornalista lhe dera — trocaria fraldas, alimentaria um bebê, caminharia à noite com uma criança que chorava de desconforto, se sentaria no parque com Rachel e um carrinho de bebê e se sentiria tão feliz que metade do tempo tinha um sorriso tolo no rosto? Deus, estava feliz. Mas, algumas vezes, via uma expressão nos olhos de Rachel que o preocupava. Uma escuridão. Talvez apenas imaginasse aquilo. Mas lá estava de novo, bem agora, enquanto ela olhava a noite pela janela do restaurante. Uma súbita mudança no sorriso, como se um pensamento, uma lembrança, se erguesse e lhe causasse dor. — Querida? — chamou com ternura. Viu o pescoço dela se mover quando engoliu. 73


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E, ao se voltar para ele, lá estava o sorriso alegre de novo. Karim levou a mão dela à boca. — Você está bem? — Sim. — Mas você pareceu. Não sei. Triste. Ela balançou a cabeça e levou as duas mãos juntas à boca para lhe beijar os dedos. — Como posso me sentir triste ao seu lado? Estava apenas pensando em como tudo aqui é lindo. — É você que é linda. E Rachel pensou, como pensara apenas há um momento atrás: se ao menos mentiras pudessem ser apagadas... Se o tempo parasse. Enquanto crescia, odiava a lentidão do tempo. É claro que sabia que o tempo se movia em uma velocidade permanente. Pulara de uma escola para outra, de uma cidade para outra, mas lia muito, tudo em que podia colocar as mãos. Se desse mais atenção à aparência do que aos livros, dizia a mãe, seria uma garota mais feliz. Mas sentir que o tempo era lento demais não tinha nada a ver com aprendizado escolar. Tinha relação com. bem, com sua vida. A mãe encontrando um novo homem. Semanas ou meses lentos de paz relativa enquanto ela se dedicava completamente ao namorado da vez, até que ele se tornasse notícia velha. Então a mãe faria as malas e, no dia seguinte, estariam em um ônibus de novo, em direção a uma nova cidade. Era a única vez em que as coisas se moviam depressa. E depois. Uma nova cidade. Uma nova escola. Novas crianças. Rachel não se enturmava. Suki se comportava mal. E, sempre, sempre, um novo homem para a mãe. E o tempo seria lento de novo até a mãe mostrar aquela expressão novamente, fazer o discurso costumeiro sobre estar cansada de Jim ou Bill ou Art, qualquer que fosse o nome do homem que a deixara, e todo o triste padrão começaria de novo. Assim, não. Rachel jamais quisera que o tempo fosse lento. Queria que corresse. Porque nunca fora feliz. Levara 24 anos para descobrir aquilo. Quando alguém era feliz, tudo o que queria era que o tempo parasse. A primeira vez em que se sentira assim fora no dia em que Suki lhe dera Ethan. E agora isto. Agora Karim. Amava-o. Adorava-o. Mal acreditava ser capaz de respirar com a profundidade da alegria no coração. Sentada ali aquela noite, o amante diante dela, as mãos grandes segurando as dela, vendo o sorriso dele, ouvindo-o sussurrar sobre o que faria se ela abrisse os lábios de novo e lhe mostrasse a ponta da língua. Se a agarrasse, puxasse da cadeira e a carregasse para fora do restaurante, aceitaria, feliz. Durante o jantar, ele falara sobre sua infância. Como o dia em que fugira do palácio, fora aos estábulos, pegara o garanhão favorito do pai e montara sem sela, correndo pelo deserto até os homens do pai o alcançarem e o levarem de volta. — Meu pai ficou furioso. — Tenho certeza. E se o cavalo o atirasse no chão? — Ele ficou preocupado com o cavalo, habibi. Custou-lhe uma fortuna. E eu tinha apenas sete anos. Não conseguiria controlar o animal. — Ele não se preocupou com você? Oh, isso é terrível! 74


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— E isso é adorável. — O quê? — O modo como esta sua boca tentadora se abre, como se precisasse que eu a beije. — Levou a mão dela aos lábios e a mordeu de leve. — Talvez outras partes de você também precisem de beijos. — Silêncio — sussurrou. — E se alguém ouvi-lo? Mas estava sorrindo e ele percebeu, pelo rosado no rosto, que o que dissera a agradara. O que era excelente, já que tudo o que queria era agradá-la. Especialmente naquela noite. Com uma sobremesa. Uma sobremesa muito especial, pensou, enquanto o garçom se aproximava da mesa. — Vossa Alteza. Senhorita. — Sorriu, e Karim lhe lançou um olhar de advertência. O homem limpou a garganta. — O chef manda seus cumprimentos e diz que preparou uma sobremesa especial — lançou um sorriso a Rachel — em honra da dama. — Para mim? — Estava deliciada. — Sim, senhora. Se estiver pronto, senhor.? Karim acenou. Estava pronto. Nervoso, mas pronto. Depois de quase duas semanas juntos, ainda não conseguia acreditar na sua sorte. Fora a Las Vegas tentar consertar os problemas que o irmão deixara e então encontrara aquela mulher maravilhosa. Que idiota você foi, Rami, pensou. E, no entanto, tinha que agradecer a Rami por aquele milagre. Rachel. O garotinho dela. Gostaria de poder dizer aquilo a ele. Tinham sido próximos uma vez. E agora, de um modo estranho, sentia-se próximo de Rami de novo. A única coisa que o incomodava era aceitar que Rachel tinha. Tinha estado com Rami. Não era apenas o sexo. Não era um chauvinista. Vinha de uma cultura na qual as mulheres, até recentemente, não tinham os mesmos direitos com os quais os homens nasciam. Mas jamais considerara a virgindade alguma coisa que exigiria de uma esposa. O problema estava além disso. Não conseguia imaginar Rami e Rachel conversando, muito menos dormindo juntos. Rami pensava apenas na aparência da mulher. Rachel era linda, mas era muito mais do que isso. Era brilhante. Articulada. Tinha opiniões. Opiniões fortes que defendia com veemência. Já experimentara aquilo e sabia que Rami não se importaria. Ele a amava. O que o levava de volta ao começo. Como duas pessoas tão diferentes como Rachel e Rami podiam ter tido um relacionamento? Queria perguntar a ela. Mas não perguntou. Rachel deixara claro que não queria falar sobre o tempo que passara com Rami. E não sabia se gostaria das respostas. Como dissera a ela, era melhor deixar o passado no passado e se concentrar no presente. No agora. Porque o garçom estava chegando com a sobremesa. Uma linda miniatura de chocolate da ponte do Brooklyn para ele. Uma taça de sorvete de baunilha para ela. O garçom colocou as sobremesas diante deles e saiu. Karim observou Rachel olhar da pequena e elaborada réplica da ponte para sua simples taça de sorvete de baunilha. Os olhos dela brilharam, e ele precisou se esforçar para não rir. Parecia uma criança comparando os doces. — Hum — murmurou, feliz. — Parece bom. — É, parece delicioso. 75


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Como a amava! Que outra mulher sorriria como se estivesse realmente alegre por ser privada de uma escultura de chocolate e receber o que parecia ser um simples sorvete de baunilha? Karim pegou o garfo de sobremesa e cortou um pedaço. — Fantástico. — Então perguntou, educado: — E o seu? — Tenho certeza de que está maravilhoso. — Pegou a colher de sobremesa e a mergulhou no sorvete. — Oh. — Sorriu, surpreendida. — Há uma concha de chocolate sob o... — Alguma coisa errada? — Não. Bem, talvez. Há alguma coisa dentro da concha. É. é... Ficou completamente imóvel. Karim deixou o garfo sobre a mesa. O coração disparou. — Bolo? — Tentou permanecer calmo. — Morangos? Ela balançou a cabeça. — É. é. — Ergueu os olhos para ele. Por que não conseguia compreender a expressão no rosto dela? — É uma caixa. — sussurrou. — Uma caixinha azul. E, de repente, seu plano oh-tão-romântico pareceu cheio de furos. Inferno, o que sabia sobre o que uma mulher consideraria romântico? — Rachel — murmurou. — Rachel, querida, escute, se quiser partir. Rachel engoliu com força. Deixou a colher. Tirou a pequena caixa azul da concha de chocolate. Abriu-a. Uma explosão de luz branca azulada pareceu pular da caixa para os olhos dela. — Karim, oh, Karim! Era um anel de diamante. Mas parecia dizer que o sol era apenas mais uma estrela. O diamante era enorme. Parecia que todo o fogo que criara o universo tinha sido capturado por ele. Era o centro de um anel de ouro branco e estava rodeado por safiras do tom exato do céu numa perfeita manhã de junho. Karim observou o rosto de Rachel. Esperou que dissesse alguma coisa. Não disse. O silêncio cresceu. Ele queria morrer. Tinha sido tão cuidadoso ao escolher o anel quando fingira ter ido ao escritório uma terceira vez. Conhecia sua Rachel. Não gostaria de nada ostentoso, mas quisera alguma coisa especial. Amava-a e queria que o mundo inteiro soubesse. Passara grande parte da manhã escolhendo o anel. Não havia gostado? Não o queria? Havia mudado de ideia? Não queria ser a esposa dele? Acalme-se, aconselhou a si mesmo. Relaxe. Dê-lhe mais um minuto, então diga alguma coisa casual, como “espero que goste”. Ou “se não gostar, vamos comprar outra coisa”. Ou “pensei que isto seria agradável, mas se não acha...” — Maldição, Rachel. — Era um sussurro áspero. — Diga alguma coisa! Ela segurou o anel na palma da mão e olhou dele para Karim. — É a coisa mais linda do mundo! Graças a Deus. — Amo você — disse Karim. — Karim. — Lágrimas lhe encheram os olhos. — Eu não mereço. 76


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Ele pegou o anel e o colocou no dedo dela. Sim. Servia. Era perfeito. Era lindo. Mas não tanto quanto ela. — Amo você — repetiu, então empurrou a cadeira, ergueu-a e lhe tomou a boca em um beijo que dizia tão claramente o que sentia. Esperara a vida toda por aquela mulher. Fado, destino, carma, o que quer que fosse, exigira que eles se encontrassem e ficassem juntos por toda a eternidade. — Rachel — sussurrou, e ela deu um gritinho leve e doce, passou os braços pelo pescoço dele e o beijou também. — Amo você de todo o coração. — A voz saiu trêmula pelas lágrimas. — Vou amálo para sempre. Lembre-se disso. Lembre-se de que eu sempre, sempre amarei você. — Enti hayati, habibi. Você é minha vida. Alguém no salão assobiou, outra pessoa aplaudiu e Rachel ruborizou como nunca a vira ruborizar. Todo o corpo rosado. E o sorriso dela o enlouqueceu. Jogou algumas notas sobre a mesa, levou-a para fora, para casa, para a cama deles, para o pequeno e particular mundo que pertencia apenas a eles. Dormiram nos braços um do outro. Ele acordou no meio da noite e fez amor com ela de novo. Ele acordou-a ao amanhecer e tomou-a mais uma vez. Quando finalmente acordou, o quarto estava ensolarado. E, quando as pálpebras dela se ergueram, ele sorriu. — Bom dia, dorminhoca. Rachel sorriu. Ergueu a mão para o rosto dele e roçou a palma de leve na barba nascente e deliciosamente sexy. — Que horas são? — A voz era sonolenta. Ele lhe deu um beijo longo e suave. — Hora de tomar um banho de chuveiro e se vestir, habibi. Meu avião está esperando. Uma sensação de medo a tomou. Sentou-se e apertou o lençol contra os seios nus. — Seu avião? Karim afastou o lençol. Abaixou a cabeça e lhe beijou os seios. — Vamos para casa. — O tom era baixo e suave. — Para Alcantar. O voo pareceu infinito. Muito mais longo do que o de Vegas para Nova York. Roberta viajava com eles. Acomodara-se confortavelmente com Ethan no quarto de dormir nos fundos da cabine. Rachel tinha muitas perguntas. — Por que não me contou que iríamos hoje para Alcantar? Karim entrelaçou os dedos nos dela. — Ia dizer. Então pensei que apenas a deixaria nervosa por mais tempo. Verdade. Não estava apenas nervosa, estava aterrorizada. O pensamento de conhecer o pai de Karim era assustador. — Mas e se ele não gostar de mim? Karim lhe envolveu os ombros e a puxou para o peito. — Querida, ele vai amar você. — Sorriu. — Além disso, tem me atormentado há anos para encontrar uma esposa adequada. — Sou uma esposa adequada para você? — Estava tímida e insegura. 77


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Ele riu e lhe beijou a têmpora. — Você é uma esposa adequada para qualquer homem, mas especialmente para quem a ama como eu. — Fez uma pausa. — Contei-lhe sobre Ethan. Rachel ergueu o olhar para ele. — E o que ele disse? Karim limpou a garganta. — Ficou surpreendido, é claro. Mas meu pai, por toda a sua, vamos dizer, atitude imperiosa, é um homem pragmático. Está feliz por ter um neto. — Mas. Mas ele acha. Quero dizer, sabe que Rami. Que eu. — Sim. — E? Karim hesitou. O momento exigia honestidade absoluta. O que era a coisa mais impressionante do relacionamento com sua linda noiva. Sempre podiam dizer a verdade um para o outro. — E — a voz se tornou lenta — ele a amará como uma filha. Quando a conhecer. Ela acenou. — Mas ainda não. Um músculo pulsou no queixo de Karim. A conversa com o pai tinha sido muito difícil. — Uma mulher que tem o filho de um homem com quem não é casada — dissera o pai com frieza — é uma mulher de moral discutível. — O mundo mudou, pai. — Não aqui em Alcantar. Errado, pensara Karim. O mundo mudara, até mesmo em Alcantar, e mudaria mais ainda quando ele fosse rei. Mas não havia motivo para discutir. O que importava era deixar claro que não admitiria interferência em sua decisão de se casar com Rachel ou permitiria que fosse desrespeitada. — Mas meu mundo mudou — dissera ao pai. — Rachel o mudou. Amo-a e tenho orgulho de tomá-la como esposa. O pai devia ter ouvido o aço em sua voz porque terminara a conversa e se despedira, dizendo que eles se veriam logo. Bem depressa, pensou Karim, enquanto o avião pousava. A voz incorpórea do piloto encheu a cabine. — Chegamos, Vossa Alteza. Karim abriu o cinto de segurança dele e o de Rachel; então a levantou. O rosto dela estava pálido e seu coração se encheu de amor por ela. O mundo dela também estava prestes a mudar. Alcantar era um país lindo e orgulhoso, mas certamente era um lugar muito diferente do que ela conhecia. E ele, no instante em que saíssem do avião, também seria diferente. Talvez devesse tê-la preparado, pensou, enquanto descia a escada do jato. Tarde demais. Ouviu seu murmúrio de admiração quando viu o comboio de Bentleys brancos com 78


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a bandeira do falcão de Alcantar, a guarda de honra uniformizada e atenta, toda pompa e circunstância que os esperavam. — Karim — sussurrou — acho que não sei se eu... Ele a enlaçou com um braço. Era uma quebra do protocolo, mas que o protocolo fosse para o inferno. Rachel era tudo o que importava. — Você pode — afirmou, suave. Ela se recostou nele por um segundo, como se para se fortalecer com a força dele. Então se ergueu, ereta. Ele tinha razão. Podia fazer aquilo. Posso fazer isso, pensou Rachel. Podia fazer qualquer coisa por Karim. Apenas, até então, seus títulos: sheik, príncipe, herdeiro do trono, nada eram além de palavras. E agora sentia que não podia ser a esposa perfeita que ele queria porque era uma mentirosa de classe mundial. Certo. Aquilo acabara. Se podia fazer qualquer coisa pelo homem que amava, então podia lhe contar a verdade. Ele a amava. Ele a compreendia. Entenderia que mentir tinha sido sua única escolha. A decisão lhe deu a coragem de que precisava. Obrigou-se a sorrir enquanto descia a escada do avião ao lado dele, continuou sorrir quando ele parou e saudou o capitão da guarda de honra. Manteve a mão no braço dele e se perguntou se ele podia sentir seu tremor. — Está tudo bem, querida? — perguntou-lhe suavemente depois que entraram no primeiro carro, com Roberta e Ethan no segundo. — Sim — sussurrou. E pensou como era mentirosa. Passaram por uma estrada flanqueada por palmeiras através de uma cidade que parecia moderna e próspera, e seguiram em direção a um palácio dourado e marfim que se erguia contra um céu azul sem nuvens, então atravessaram um portão dourado, outra estrada alinhada por árvores e pararam em um pátio enorme, com a cúpula assomando sobre eles. Um homem num keffiyeh branco abriu a porta do carro, então se imobilizou. Karim desceu e ofereceu a mão a Rachel. Ela descansou os dedos gelados nos dele. — Tudo ficará bem — disse ele, a voz baixa e suave. — Você verá. Tudo estava bem enquanto subiam a escadaria do palácio; Roberta bem atrás deles com Ethan nos braços. Tudo continuou bem enquanto passavam pelas maciças portas douradas e entravam num largo e comprido corredor de mármore que levava não à sala do trono, mas aos aposentos particulares do rei. Aquilo surpreendeu Karim. Seria um bom ou um mau sinal o pai os receber ali? Parou de imaginar coisas quando entraram no imenso salão de estar do pai. As cortinas pesadas estavam fechadas contra o sol da tarde; o rei se sentava em uma cadeira grande e trabalhada em marfim e ébano, as sombras escuras se estendendo atrás dele. Karim sentiu a tensão no ar. Manteve o braço em torno da cintura de Rachel. — Pai — cumprimentou. O rei se levantou. — Não podemos ser perturbados. — A voz era alta e poderosa. O criado que os escoltara até lá se curvou, saiu e fechou a porta. 79


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— Pai — repetiu Karim —, esta é... O rei ergueu a mão e olhou dele para Rachel. Havia um fogo gelado em seus olhos. — Esta é a mulher que viu a forma perfeita de atrair um tolo para sua cama. Os olhos de Karim entrecerraram. — Escute, senhor. — Não, meu filho, você é que vai escutar. Como se fosse um sinal, uma mulher com longo cabelo louro e brilhantes olhos azuis saiu das sombras atrás do rei. A mão de Rachel pulou para o pescoço. — Suki? — Isso mesmo, maldição! — O tom de Suki era áspero. — Você realmente achou que conseguiria fazer isto, Rachel? Karim olhou de uma mulher para a outra. — Rachel? Esta é sua irmã? Rachel se virou para ele. — Karim. — A voz tremia. — Karim, por favor. Tentei lhe contar. Tentei tanto. Karim sentiu que um poço profundo se abria a seus pés. — Contar o quê? — Mesmo? — Suki colocou as mãos nos quadris. — Tentou lhe contar? Acho que não. Acho que não tinha a intenção de lhe contar a verdade, nunca. Quero dizer, não conseguiu me tomar Rami. Agarrar o irmão dele era a segunda coisa melhor. Karim olhou para Rachel. — Do que ela está falando? — Rachel balançou a cabeça. Ele lhe segurou os ombros e a suspendeu na ponta dos pés. — Maldição, o que ela quer dizer? — O que quero dizer — interrompeu Suki — é que minha amada irmã tentou de todas as formas conquistar um cara rico. Primeiro no cassino. Depois, bem debaixo do meu nariz. — Suki — sussurrou Rachel —, não. — Mas não conseguiu. Sabe, Rami me amava. Então, ele e eu tivemos uma briga boba. — Suki pegou um lenço de papel do decote da blusa cor-de-rosa e enxugou os olhos secos. — Ele me deixou. E entrei em pânico. Eu o amava, sabe? E ele era o pai do meu bebê. — O quê? — Pedi a ela para cuidar de Ethan enquanto procurava por Rami, mas... — Isso é verdade? — A voz de Karim era áspera; os olhos queimavam os de Rachel. — Ethan é filho de sua irmã? Rachel estava entorpecida. — Karim — sussurrou. — Karim, por favor. — É claro que é meu — afirmou Suki, e se virou para Rachel. — E você o roubou. Mesmo em seu desespero, Rachel se perguntou por que apenas ela podia ver o brilho de maldade nos olhos da irmã. — Não o roubei, e você sabe. Você o abandonou. — Você quer dizer que confiei em você para cuidar dele enquanto tentava encontrar um emprego. — Suki olhou para Karim. — Sabe, depois que seu irmão me 80


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deixou. Bem, fiquei arrasada. Não conseguia encontrar emprego em Vegas. Cara, estava desesperada. Pedi a Rachel para cuidar de Ethan por algum tempo, por pouco tempo, enquanto ia a Los Angeles. E, finalmente, consegui um emprego. — Não foi assim. — A voz de Rachel mostrava seu desespero. — Mandei dinheiro todas as semanas, mas ela sempre queria mais. E então viu sua oportunidade. O irmão de Rami... você, príncipe Karim, apareceu e é rico. Ainda mais rico do que Rami. — Não. — A voz de Rachel era fraca. — Suki, não faça isso! Eu imploro. As mãos de Karim apertaram os ombros de Rachel. — Diga que ela está mentindo. — Manteve a voz baixa. — Diga que nada disso é verdade, que as últimas semanas não foram uma mentira. — Karim. — implorou Rachel. — Ethan é dela. Mas nada mais é como ela disse. Os olhos de Karim se encheram de dor. Ergueu as mãos dos ombros dela, virou-se e saiu do salão. Suki sorriu, triunfante. Passou por Rachel e estendeu os braços para o bebê. — Garotinho precioso — arrulhou —, venha para a mamãe. Ethan gritou, infeliz, e Rachel caiu no chão, chorando.

CAPÍTULO DOZE

Roberta correu para Rachel e a abraçou. — Por favor — pediu, enquanto a ajudava a se levantar. — Rachel, não chore! Aquelas coisas que aquela mulher disse... — O que ela disse sobre Ethan é a verdade — soluçou Rachel. — Ela deu à luz a ele. Mas sou eu que o amo. — E o resto são mentiras. Qualquer um que a conheça sabe disso. — O tom da jovem era amargo. — O príncipe Karim também deveria saber. Como pode acreditar naquelas coisas que ela disse? Era a pergunta que partia o coração de Rachel. Karim dissera que a amava, mas acreditara em todas as terríveis mentiras de Suki. Como era possível? A resposta era simples. Aceitara a história de Suki porque o núcleo era verdade. Ela, Rachel, mentira para ele desde o primeiro minuto. Mentira sobre Ethan, sobre Rami, e agora aquelas mentiras haviam lhe custado tudo. O bebê que amava como se fosse dela. O homem que adorava. Perdera-os para sempre. Oh, poderia culpar Suki por aquilo. Por abandonar Ethan, por contar uma história mentirosa a Karim e ao pai dele. Poderia culpar Karim por lhe dar as costas daquela maneira sem coração, como sempre o considerara. Mas a terrível verdade era que

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podia culpar apenas a si mesma. Não só por mentir. Por se deixar dominar por emoções que sempre soubera serem perigosas. Amor era a maior mentira de todas. Era a luxúria que unia homens e mulheres. Se apenas tivesse se lembrado daquilo, em vez de tentar enfeitar a verdade. E depois de uma vida inteira de conhecimento. — Senhorita? Rachel ergueu os olhos. Era o criado que as levara àquele aposento, mas estava falando com Roberta, não com ela. — O bebê. — O homem olhou, furtivo, para Rachel. — A mãe do bebê precisa da sua ajuda. — Mande-a procurar outra pessoa. — Roberta estava zangada, mas Rachel lhe tocou o braço. — Por favor, vá até ele. Ajude-a. — Ajudar sua irmã? Está louca? Ela é uma... — Sei o que ela é. — A voz de Rachel mostrava toda a sua amargura. — Mas não faça isso por ela. Vá por causa do meu bebê. — A voz falhou. — Ele deve estar apavorado. Em um lugar estranho, com uma pessoa que não... que não... — As lágrimas lhe encheram os olhos. Estendeu a mão e Roberta a apertou. — Por favor, Roberta, meu bebê precisa de você. Roberta começou a chorar. — Sim, tem razão. Não se preocupe. Ficarei com ele enquanto permitirem. As mulheres se abraçaram. Então Roberta se apressou a seguir o criado e Rachel ficou sozinha. Até o rei se afastara. O salão se encheu de silêncio. Rachel limpou os olhos com as mãos, sem saber o que fazer. Precisava sair daquele lugar horrível, mas como? — Rachel. Aquela voz profunda, familiar. Virou-se para a porta e lá estava seu amante. O rosto estava frio e zangado, mas não importava. Sabia que havia apenas acrescentado mais uma mentira às outras ao dizer a si mesma que o que sentia por ele era apenas luxúria. Amava-o. E o perdera. Um vazio enorme se estendia à sua frente. Anos de solidão, sem seu bebê. Sem o homem que adorava. Ele ficou parado, apenas olhando para ela, os braços cruzados, os olhos frios entrecerrados. Mesmo assim, teve uma fisgada de esperança. — Karim. — A voz era trêmula. — Karim, por favor, se apenas me ouvir. — Esse foi meu primeiro erro. Eu ouvi suas mentiras e acreditei nelas. — Não devia ter mentido. Sei disso. Mas nunca menti sobre nós. A boca de Karim afinou. — Não há um “nós”. Nunca houve. — Amo você, Karim. Tem que... Ele estendeu a mão. Ela olhou para um pedaço de papel. — O que é isto? — Um cheque. — Um cheque? — Olhou para ele sem compreender. — Por quê? 82


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— Por um desempenho admirável. Vamos, pegue-o. Rachel ergueu as mãos diante do corpo, como se tentasse afastar alguma coisa maligna. — É de 50 mil dólares. Não chega? Quanto então? Cem mil? Aviso, Rachel, há um limite para a minha generosidade. — Acha mesmo que receberia seu dinheiro? — Deu uma risada triste, incrédula. — Não quero dinheiro, quero... — O que quase teve. — A voz era tão fria como os olhos. — Minha fortuna. Meu título. Um bebê que não é seu. Cada acusação foi como um golpe físico. — Não é verdade! — Você não sabe o que é e o que não é verdade. — Você nunca me amou — sussurrou Rachel. — Se tivesse me amado, saberia que não quero dinheiro. Saberia que Suki inventou toda a história. É mãe de Ethan, é verdade, mas não o deixou comigo para procurar emprego. Deixou-o porque não o queria. Partiu sem dizer nada, e eu nunca mais soube dela. — Você inventa coisas com muita rapidez. Como disse, é uma excelente atriz. — Maldição, quer me ouvir? Suki inventou tudo! Nunca tentei seduzir Rami. Mal falava com ele. Sim, menti sobre Ethan. Mas, se não mentisse, você o tomaria de mim. Não percebe? — O que percebo é que você é incapaz de dizer a verdade. Rachel olhou para Karim. Diante dos olhos dela, havia se tornado tudo de que o chamara quando o conhecera: um déspota arrogante e egoísta. Como podia ter pensado que o amava? Perder Karim era a melhor coisa que podia ter acontecido a ela. — E você é incapaz de ser um homem. Tudo o que está preparado para ser é o que é. Um sheik frio e sem coração! Inspirou com força e então, com a cabeça alta, passou por ele. — Rachel! — Não respondeu. Ele praguejou e saiu atrás dela. Quando a alcançou, segurou-a pelo ombro com a mão pesada e a virou. — Ninguém se afasta de mim antes que eu permita. — Não, tenho certeza de que ninguém faz isso, Vossa Alteza. — Ergueu o queixo. — Quem ousaria? — Cuidado com o que me diz, mulher! — Por quê? O que mais pode fazer contra mim além do que já fez? — Está em meu país agora. Minha palavra é... Karim se calou. Deus do céu, o que estava fazendo? Sim, ela mentira para ele. Fizera-o de idiota. Agora estava transformando-o na mesma espécie de homem que o acusara ser. Que tipo de poder tinha Rachel para reduzi-lo àquilo? Fazê-lo perder o controle não só na cama, mas também fora dela? Não. Não pensaria nela na cama. Sua aparente inocência no começo, seu incrível abandono quando estava nos braços dele. Olhando para ela, mesmo agora, sabendo que mentira, que o usara, ainda a queria. E ela o queria. Tinha que querê-lo. Tinha que... — Quero voltar para os Estados Unidos. 83


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— E se eu não quiser que volte? — Não entendeu ainda? Não dou a mínima para o que você... Karim a puxou para os braços. Ela lutou; ele lhe segurou as mãos e as prendeu contra o peito. — Solte-me! — O que aconteceu na cama — rosnou — foi mentira também? — Ela lutou com mais força. Ele lhe segurou as duas mãos com uma só e mergulhou a outra no cabelo dela, puxando-a para ele. — Os suspiros. Os gemidos. As coisas que fez, as coisas que me implorou para fazer. — Você é nojento! — A voz de Rachel tremia. — E odeio você. Odeio. Beijou-a. Ela lutou, e ele lhe tomou o lábio inferior entre os dentes, sugou a carne doce, ouviu-a gemer, sentiu a boca ficar macia sob a dele. — Fique em Alcantar. Pode ajudar a cuidar do bebê durante o dia e, à noite, quando eu estiver aqui. Ela deixou escapar um som selvagem, terrível, afastou-se dos braços dele e lhe cuspiu no rosto. — Fique longe de mim — soluçou. — Juro, se me tocar de novo... Karim a empurrou. A raiva que pulsava nele. Dela, dele, o aterrorizou. — Meu piloto a levará para Nova York pela manhã. — Agora — exigiu Rachel. — Ele não pode voar de novo sem dormir. — O problema é seu, não meu. — Meu problema — a voz de Karim voltou a ser gelada — é garantir que nunca mais vou colocar os olhos em você. — Estalou os dedos; um criado se aproximou depressa. — Leve a senhorita Donnelly à suíte dela. — Não vou passar a noite sob o mesmo teto que você! — Se preferir as areias do deserto como cama, posso providenciar. Tenho certeza de que as cobras e os escorpiões gostarão da companhia. Disse alguma coisa em sua língua ao criado, então se afastou depressa, a atitude arrogante. A expressão chocada no rosto do criado a fez se sentir melhor. O pensamento de dormir no deserto, não. — Onde são os aposentos do sheik? — Na ala norte, senhora. — Ótimo. Então me leve para uma suíte na ala sul. O criado inclinou a cabeça e saiu em um passo rápido, com Rachel atrás. Tinha certeza de que não dormiria. Estava furiosa demais. Bancara a idiota, pensando que amava o sheik e pensando em tudo o que fizera com ele. Suki sempre a provocara. — Você simplesmente não é normal, Rachel — dizia. — Não gostar de homens. O que você é, frígida? Talvez fosse. Ou talvez tivesse sido. Karim mudara aquilo. Talvez devesse ser grata a ele por ensinar-lhe os prazeres da luxúria porque o que sentira por ele era aquilo. Pura e básica luxúria. Claro, sendo uma idiota puritana, precisou dar 84


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à necessidade sexual puramente primitiva e física os enfeites do romance. — Estúpida — disse a si mesma enquanto tomava um banho de chuveiro em um banheiro do tamanho de um salão de baile, e então mergulhava sob as cobertas de uma cama na qual um time inteiro de futebol poderia ter dormido. Estúpida mesmo. E como poderia esperar dormir, sabendo o que sabia sobre si mesma? E por que estava se lembrando de quando dormia nos braços dele, de sua respiração quente na nuca, a mão lhe empalmando um dos seios. As lágrimas foram uma surpresa. Por que estava chorando? Não por ele. Então mergulhou o rosto no travesseiro para abafar os soluços. Karim ficou deitado sem dormir, os braços dobrados sob a cabeça, olhando para o teto escuro. Ainda estava zangado demais para dormir. No dia seguinte, enfrentaria situações muito desagradáveis. Precisaria conversar com Suki Donnelly. E a perspectiva era odiosa. Detestara a mulher à primeira vista, mas precisava saber se ela lhe daria a custódia de Ethan sem briga. Era a mãe do bebê, afinal. Rachel, que era apenas a tia, recusara de imediato. Acreditava que a mãe fizesse a mesma coisa. Mas lutaria pela custódia na justiça. E venceria. No entanto, seria muito mais simples se ela concordasse que deixar Ethan sob sua guarda seria muito melhor para a criança. Também precisava procurar uma babá, já que a tola lealdade de Roberta era para com Rachel. E teria que confrontar o pai. Sabia exatamente o que o velho fizera. O rei se gabara daquilo. — Você me deu o nome de Rachel Donnelly. Mandei investigá-la. Foi preciso muito pouco tempo para descobrir que ela não tivera um filho. Que havia uma certidão de nascimento redigida para uma Suki Donnelly. Foi ainda mais fácil localizá-la. Não estava escondida. Meus agentes a encontraram em Los Angeles em menos de um dia. — A expressão do pai endureceu. — Se tivesse pensado com o cérebro em vez de com o... — Cuidado com o que vai dizer — rosnara Karim. Mas tinha sido bom ele ter feito aquelas coisas. De outra maneira, ainda estaria com Rachel, planejando uma vida com ela. Karim empurrou os lençóis, levantou-se, vestiu um jeans e andou pela suíte. Era muito grande. Mesmo assim, sentiu-se sufocado. Preso, como um animal selvagem capturado. Como podia ter feito tanta confusão? Nunca fazia nada sem antes pensar cuidadosamente e chegar à conclusão lógica. Aquele era o comportamento que exigia de si mesmo. Jamais se entregava a atos egoístas, jamais falava uma palavra sem pensar. E então conhecera Rachel. Quisera-a e a tivera. Nada tão terrível, na verdade. Sexo era sexo. Se queria uma mulher, se ela o queria, não havia motivo para hesitar. O erro estava no que se seguira. Quando sentiu que estava se apaixonando por ela, não devia ter permitido que acontecesse. Porque era verdade. Amava-a, e tinha sido um erro terrível. Devia ter pensado nas consequências, considerado para onde uma emoção tão indisciplinada o levaria, se lembrado de que era um príncipe, não um homem. — Oh, Deus — sussurrou, enquanto se deixava cair em uma cadeira e mergulhava o rosto nas mãos. 85


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Já era muito ruim ter se apaixonado por ela. O pior era que ainda a amava. Jamais admitiria, mas era verdade. Amava-a. Superaria aquilo, é claro, mas quando? Quanto tempo levaria antes que parasse de se sentir vazio sem ela ao lado dele? Por quanto tempo sentiria a dor que as mentiras dela lhe causaram? Como podia pensar com clareza? Precisava dormir. Ou fazer alguma coisa útil. Ethan. Como estaria o bebê? A babá estava com ele, mas nada mais no mundo era familiar. Um novo ambiente, novos rostos. Sem Rachel. E daí? A mãe dele. sua mãe verdadeira, estava com ele agora. Certamente haveria um laço intrínseco entre um bebê e sua mãe. Karim se levantou depressa, pegou uma camiseta e deixou seus aposentos. Os corredores do palácio eram muito longos. Foi uma caminhada de alguns minutos até o berçário, onde ele e Rami e gerações de bebês reais tinham sido criados. Quando chegou, parou. Então bateu à porta. A irmã de Rachel a abriu logo, quase como se o estivesse esperando. — Príncipe Karim — arrulhou —, que bom que veio me fazer uma visita. Estava usando alguma coisa longa, rosada e volumosa. Alguma coisa que era também transparente, e ele podia ver partes do corpo dela quando recuou para ele passar. Pensou na primeira vez em que vira Rachel. Estivera usando aquela fantasia idiota, o cabelo despenteado, descalça. Não havia nada sexy nela, mas a beleza dela lhe tirara o fôlego. E aquela primeira vez em que a vira nua, como havia deliberadamente aberto o box, o corpo luxurioso e molhado, o rosto limpo. — Entre, Vossa Alteza — convidou Suki, sorrindo. — Estava com a esperança de que viesse. Karim ficou à porta e limpou a garganta. — Como está Ethan? — O quê? — Seu filho. Como está? — Oh. Oh, está bem. Não quer entrar por alguns minutos? — Disse ao pessoal da cozinha para deixar prontas as mamadeiras e manter um bom suprimento de frutas e vegetais para fazer papa, mas se precisar de mais alguma coisa para ele... — Aquela garota. Rebecca, Roberta, qualquer que seja o nome dela, está cuidando de tudo isso. — Outro sorriso, desta vez acompanhado de batidas de cílios. — Isto aqui é mesmo uma coisa. O palácio, estes aposentos. — Bateu os cílios de novo. — Você. — Deve ter sido difícil para você ficar longe de Ethan por tanto tempo. — Oh, é claro. E há um bar com um bom estoque de bebidas. Não sabia que vocês tomavam vinho. Abri uma garrafa. Ainda tem um pouco. O que acha de tomarmos uma bebida juntos? Não sei quanto a você, mas eu realmente preciso de alguma coisa para relaxar. Que dia! — Não quero beber nada. — Uh. certo. Mas ainda pode entrar e... — Disse que mandava dinheiro para Rachel? 86


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— Isso mesmo. — Nunca ligava para ela? Para saber como Ethan estava? — Sim — disse depressa. Depressa demais. — É claro que telefonava. — Quando? — A voz ficou dura de repente. — Ela e eu ficamos juntos por três semanas. Rachel tem um celular, mas você não ligou nem uma vez durante todo esse tempo. — Bem, ela quis assim. — Rachel quis? — Sim. Eu, bem, não quero fazê-la parecer mesquinha. — Ela não queria que você ligasse? — Sabe, ela me disse que estava me fazendo um grande favor. Disse que não tinha tempo para cuidar do garoto e trabalhar, como era complicado e penoso, sabe, então finalmente disse que sabia que eu estaria ocupada procurando emprego e que só precisava mandar dinheiro, que cuidaria do garoto. Apenas não queria que eu a aborrecesse ligando todo o tempo. Compreendeu? — O garoto? — A voz era inexpressiva. — Certo. Ethan. Ela sorriu. Molhou os lábios. A ação era deliberada, uma distração. Sabia que devia perceber e percebeu. E pensou como a boca molhada era repugnante e como a de Rachel parecia deliciosa molhada pelos beijos dele. — Tem certeza de que não quer entrar, Vossa Majestade? Ele nem pensou em corrigi-la. Majestade não era um título correto, mas que diferença faria no que aconteceria a seguir? Era tarde e sabia o que precisava fazer, se queria dormir. Sorriu. — Pensando melhor. Entrou no quarto e fechou a porta.

CAPÍTULO TREZE

Finalmente o cansaço venceu, e Rachel mergulhou num sono inquieto. Acordou de repente, sozinha em um quarto estranho, com um ventilador de teto girando bem alto, a chuva batendo contra as janelas em arco. Chuva no deserto. Parecia muito apropriado. Sentou-se e tirou o cabelo do rosto. Dormira de camiseta e calcinha. Não nua, como dormia nos braços de Karim. Não pensaria nele. Chorara por ele na noite anterior, mas não era mais nada para ela agora, como ela não era nada para ele. Sua

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mala estava sobre um banco baixo. Abriu-a, os movimentos ágeis, a cabeça lhe dizendo que, se não se apressasse, o desespero a alcançaria. Tirou um sutiã, uma calcinha e uma muda de roupa. Cinco minutos no banheiro — uma chuveirada rápida, escovar os dentes, pentear o cabelo molhado em um rabo de cavalo baixo — e estava pronta e vestida. Só havia uma coisa que precisava fazer. Ver Ethan. Não importavam as objeções que Suki e Karim fariam. Depois, o piloto de Karim a levaria para casa. E exatamente onde era aquilo? Casa, diziam as pessoas, era onde o coração estava. Ethan era o motivo pelo qual Las Vegas tinha sido sua casa. Karim tornara Nova York seu porto seguro. Agora, o quê? Rachel se sentou na beirada da cama. Aquilo era tolice. Estava acostumada a ser sozinha. Estivera sozinha antes de Ethan, antes de Karim. E daí que estava sozinha de novo? Ficaria muito bem. Precisar de outros era sempre um erro. Certamente a vida lhe ensinara aquilo. Agora tentaria desenvolver uma distância emocional do bebê. Mas permitira que um homem lhe roubasse o coração. Não. Não lhe roubara o coração. Entregara-o a ele em uma bandeja. — Pare com isso — sussurrou. Era perda de tempo ficar repassando tudo aquilo de novo e de novo. A ideia era continuar. Precisava fazer planos, decidir para que cidade iria, e então encontrar um lugar para viver, um emprego. Alguém bateu à porta. Provavelmente era um dos criados do palácio para lhe dizer que o avião estava pronto. Bem, o piloto teria que esperar. Não partiria sem antes ver seu bebê. A batida à porta se repetiu. Rachel passou as mãos nos olhos e se levantou. — Já vou! — E correu para a porta, abriu-a. Karim. A visão dele, vestido tão casualmente como ela, com camiseta e jeans, o queixo escuro com a barba por fazer, lhe enviou uma onda de anseio. Ainda parecia com o homem por quem se apaixonara, mas não era. Precisava se lembrar disso. — Ótimo. — A voz era gelada. — Pensei que teria que perder tempo procurando por você. — Posso entrar? — Não vejo motivo nenhum para isso. O que preciso dizer vai levar apenas um minuto. — Pensou que era importante parecer determinada. — Quero ver Ethan. — Ele está dormindo. — Quero vê-lo, Karim, e não vou aceitar um “não” como resposta. Uma onda de desespero o percorreu. Apesar de tudo, sabia que sentiria uma falta enorme de Rachel. Na cama, sim. Mas daquilo. Sentiria mais falta daquilo. Sua coragem. Sua determinação. Sua disposição para lutar. Os olhos estavam vermelhos, como se tivesse chorado; vestira a camiseta de trás para frente. Podia ver a ponta da etiqueta no decote. Assim, talvez, não estivesse tão controlada como parecia. Esperava que não. Uma mulher que mentia para um homem, que o deixava pensar que era o que não era, devia, pelo menos, ter arrependimentos. O coração endureceu. Que tipo de tolo 88


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era ele para achar que sentiria falta de qualquer coisa dela? Quanto a arrependimentos... É claro que tinha. Perdera um belo prêmio de loteria quando o perdera. — Você me ouviu? Quero ver. — Ouvi. A resposta é “não”. Rachel colocou as mãos nos quadris. — Não vou partir antes de vê-lo! Karim riu. Não foi um som agradável. — Você partirá quando eu mandar. E é daqui a 20 minutos. — Exijo. — Exige? — O tom era sedoso. — Você não está em posição de exigir nada. — Karim. Se alguma vez teve sentimentos por mim... Gritou quando ele lhe segurou os cotovelos e a ergueu nas pontas dos pés. — Não me fale sobre sentimentos — rosnou. — Não sabe o significado da palavra. — Amei você. — As palavras que prometera a si mesma nunca mais dizer brotaram de seus lábios. — Amei tanto você. — Estou doente com suas mentiras! — Não é mentira. Amei você. Amo Ethan. Soltou-a. — Sim, nisso eu acredito. — Por um segundo, a esperança cintilou em Rachel. Mas não durou. - Acredito que ama Ethan e foi por isso que vim falar com você. — Fez uma pausa. — Ele vai precisar de uma babá. — Roberta pode. — Não pode. Ficará uma semana, mas está matriculada num curso de verão em Nova York. — Bem, Suki terá que se arranjar sozinha. A boca de Karim retorceu. — Sua irmã e eu tivemos uma conversa na noite passada. Ela já partiu. — Suki? Mas. — Quando precisou escolher entre criar o filho ou me dar a custódia, não teve dúvidas. — Está dizendo que ela o deixou ficar com Ethan? — Concordou em assinar um documento abrindo mão de seus direitos e me permitindo adotá-lo. Rachel o observou, perplexa. — Por que concordaria com uma coisa dessas? — Seus olhos se abriram. — Você a comprou. Comprara. E fora por isso que concordara em entrar na sala da aranha. Suki havia esperado sexo. O que conseguiu foi um cheque com sete algarismos, um documento sem falhas que a obrigava a manter o silêncio sobre Rami, o bebê ou qualquer outra coisa relacionada com o assunto e um aviso para nunca mais se aproximar de Ethan. Mas não queria falar sobre aquilo. — Vamos apenas dizer que chegamos a um acordo mutuamente benéfico. — E o resto? Ela lhe contou por que mentiu a meu respeito? 89


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— Não falamos sobre você, apenas sobre Ethan. Rachel acenou. Podia sentir lágrimas lhe queimando o fundo dos olhos. Por que falariam sobre ela, quando Karim acreditara nas mentiras de Suki sem hesitação? — E? — E o quê? — E o que está fazendo aqui? — Pensei que gostaria de saber que vou criar Ethan. Presumi que seria importante para você saber que ele ficará em segurança. Os olhos de Rachel se encheram de lágrimas. — Obrigada. Isso foi gentil de sua parte. Contar para mim, quero dizer. Karim hesitou. — Você fez um ótimo trabalho com ele. Ela acenou. — Eu tentei. — Quero que saiba que o amo. E quanto a mim? Quase perguntou. Não pode me amar? Mas ele não podia, sabia. Era um homem para quem a honra era tudo, e mentir para ele o havia desonrado. — Sei que ama. E isso é bom. Porque ele vai precisar de você, sabe? É apenas um bebê, mas esta será uma transição difícil para ele. Karim acenou. — Farei o que puder para torná-la mais fácil. — Hesitou. — Lamento ter feito aquela sugestão na noite passada. Rachel ergueu o queixo. — Está pedindo desculpas? — Não. É... — Suspirou. Deus, ela era durona. — Sim. Estou. Mas há o problema de Ethan precisar de uma babá até eu achar outra. Ele gosta de você, e você dele. — Os olhos dela se abriram e ele levantou a mão. — Não. Não estou sugerindo. Estou apenas dizendo que se quiser ser a babá dele. Apenas isso, nada mais. — Maldição, estava fazendo tudo errado. — Você terá sua própria suíte no palácio, um ótimo salário e. — Você quer dizer que serei sua criada. — Acho que esta é uma forma de interpretar. — Agora estava rijo. — E — a voz dela tremeu — por quanto tempo vai durar este arranjo? — Até ele fazer cinco anos, talvez, ou seis. Até ele não precisar mais de você. Ate ele não precisar mais de você... Rachel quis esbofetear o sheik que amava, como a idiota que era. Que ele pudesse até mesmo pensar que aceitaria uma parte tão temporária da vida de seu bebê lhe dizia tudo o que precisava saber. — Apenas um homem sem coração faria uma proposta destas. — A voz era muito calma. — E tenho pena de você, Karim, por ser um homem assim. Passou por ele, esperando um pouco que a seguisse e a detivesse. Mas ele não fez nada e, depois de alguns minutos, encontrou um criado e exigiu que lhe dissesse onde era o quarto de Ethan. O criado se recusou, alegou que ela não poderia ver a criança. Rachel lhe garantiu que o veria de qualquer maneira, então Karim chegou, latiu uma ordem, o criado fez uma reverência e a levou para onde o bebê estava, como Karim 90


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dissera, dormindo. Ela ficou ao lado do berço, chorou silenciosamente, disse baixinho a ele que o amava, que sabia que ele cresceria e seria um homem grande, inteligente e forte, prometeu que lutaria para tê-lo de volta. E então, antes que desmaiasse de dor, virouse, afastou-se da criança que tinha o coração dela nas mãos pequeninas e correu pelo palácio. Desceu o que certamente eram mil degraus e saiu pela porta, para a chuva. Um carro a esperava. O motorista a levou para o aeroporto do palácio. Sem saber como conseguia, manteve-se controlada até estar no avião, o cinto fechado. — Vamos partir imediatamente — disse a educada comissária de bordo. Rachel acenou. Não confiava em si mesma para falar. Os motores do avião foram ligados. O jato começou a taxiar. Não vou chorar, pensou Rachel, enquanto olhava sem ver pela janela. Não vou... Soluços lhe arranharam a garganta. Encostou a testa no vidro e deixou as lágrimas descerem. O céu chorava, e ela também. O avião aumentou a velocidade. Mais alguns metros e chegaria à pista de decolagem; os motores ganhariam mais força. Então se ergueria no céu e tudo terminaria. De repente, o som dos motores mudou de um trovão poderoso para um lamento. A velocidade do avião começou a diminuir. Um carro, vermelho e baixo, chegava muito, muito depressa, percorrendo a pista de decolagem ensopada e se dirigindo a eles. O jato parou, os motores foram desligados. O copiloto correu para a cabine. — O que está acontecendo? — A voz de Rachel se ergueu. — Eu disse: o que.? Mas ela mesma podia ver o que estava acontecendo. O copiloto começou a abrir a porta externa da cabine. E a porta do carro esporte vermelho se abriu. Karim desceu. Karim? Ali? Rachel estava perplexa. Por quê? A porta externa do avião se abriu. A escada caiu no lugar. Rachel mexeu no cinto. Não enfrentaria Karim sentada. Ela o faria em pé e, se tivesse que lutar com ele para partir daquele lugar horrível. Karim subiu a escada correndo, o rosto tenso de raiva. — Maldita seja você, Rachel! — E, antes que ela pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, puxou-a para os braços e a beijou. Ela afastou a cabeça. Não queria os beijos dele, a sensação dos braços dele nela, a maravilhosa sensação daquele corpo forte contra o dela. E então soluçou seu nome, segurou-lhe o rosto e se entregou a ele. — Odeio você — sussurrou. — Está me entendendo, Karim? Odeio você, odeio você, odeio. — Não me deixe. Eu imploro, habibi, nunca, jamais me deixe. — Não posso ficar. Não assim. Não serei sua amante e isso é o que acabaria me tornando se ficasse, porque não consigo me afastar de você. Não consigo, não consigo. — Amo você. — Você me quer. É diferente. — Tem toda razão, quero você. Quero você porque a amo. E você também me ama. Diga as palavras, querida. Diga que também me ama. Rachel balançou a cabeça. Ele lhe partira o coração. Tudo o que lhe restara era seu orgulho. — Não, não amo. 91


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Karim a silenciou com outro beijo. — Nada mais de mentiras — disse, feroz. — Não entre nós. — Segurou-lhe o rosto e o ergueu para ele. — Fui um idiota, Rachel. É claro que mentiu sobre Ethan. Não lhe dei escolha. Fui tomá-lo de você, e você o amava demais para deixar que isso acontecesse. — Fez uma pausa, os olhos nos dela. — Rachel, nós nos pertencemos. Você. Eu. Nosso filho. Nosso Ethan. — Não — implorou Rachel. — Não diga nada que não tenha significado. — Cada palavra tem significado — afirmou Karim. — Sua irmã trouxe Ethan ao mundo, mas você, habibi, foi sua verdadeira mãe. — Sorriu. — Como eu serei o pai dele. — Roçou os lábios gentilmente nos de Rachel. — Amo você. Case-se comigo e seja minha esposa. — Mas você acreditou em Suki. — Estava em uma agonia de dor e angústia. Dei meu coração. — A voz faltou. — O coração que você disse que não tenho. — Karim. Por favor, não. Disse isso para ferir você. — Tenho um coração, habibi. Mas, muito cedo, aprendi a guardá-lo bem. É o que acontece quando as pessoas nos veem apenas como um príncipe ou um sheik. Elas mentem. Elas lhe dizem o que pensam que quer ouvir. Até mesmo aqueles que amei. — Karim limpou a garganta. — Toda vez que minha mãe voltava de onde quer que estava, prometia que não partiria de novo, mas sempre partiu. E Rami. Éramos muito diferentes um do outro, mesmo quando éramos meninos, mas nos amávamos. Então ele se transformou em uma pessoa que não conhecia, e eu o deixei partir. — Não podemos prender aqueles que não nos querem. — A voz de Rachel havia se tornado muito suave. — Minha mãe. Minha irmã. — Sim. Compreendo isso agora. Mas nós, você e eu, nós nos queremos. Temos um ao outro. — Karim sorriu. — E temos Ethan. Podemos ser uma família, habibi, e podemos ser felizes. Rachel sentiu o coração se encher de felicidade. Ergueu-se na ponta dos pés e beijou os lábios de Karim. — Odiei a mim mesma por mentir para você, Karim. Mas tinha tanto medo de perder Ethan, perder você. — Nunca perderá nenhum de nós, habibi. Não me perderá e não perderá nosso filho. — Nosso filho — repetiu Rachel e sorriu. Karim lhe beijou as faces molhadas. — Esta foi uma longa viagem para mim. — O tom era tranquilo, pensativo. — Quando começou, pensei que estava descobrindo coisas sobre Rami. Agora sei que estava também aprendendo coisas sobre mim mesmo e sobre o que é importante no mundo. — E o que é? — Mas Rachel sabia a resposta. — Amor. Apenas o amor importa. — Olhou profundamente nos olhos dela. — Rachel, vai se casar comigo e ser meu amor para sempre? Rachel riu. 92


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— Sim, sim, sim, sim. Karim apertou-a nos braços e a beijou, e, enquanto a beijava, a chuva parou, e a cabine do avião foi inundada pela brilhante luz dourada do sol.

FIM

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PRÓXIMO LANÇAMENTO

NOITE SEM FIM SARAH MORGAN

Era a noite do ano que ele mais temia. No início, tentara de tudo para fugir dela: festas exuberantes, mulheres, trabalho, mas não importava o que fizesse ou com quem estivesse, a dor continuava igual. Escolhera viver no presente, mas o passado fazia parte dele e era carregado para onde fosse. A lembrança não se apagaria. Uma ferida que não cicatrizaria. Uma dor que lhe atingia os ossos. Não havia escapatória, e, por isso, a sua maneira preferida de passar aquela noite era ficar sozinho e se embebedar. Ele dirigira duas horas, do escritório, em Londres, para voltar para a casa que restaurava na área rural de Oxfordshire, pelo simples desejo de se isolar. Desligara o telefone e iria mantê-lo assim. A neve caía em ondas contra o para-brisa e se acumulava em montes, ao longo da estrada, formando uma armadilha para motoristas nervosos e inexperientes. Lucas Jackson não era nervoso nem inexperiente, mas o seu humor estava mais sombrio que o tempo. O uivo do vento soava como se fosse um grito de criança, e ele tentou ignorá-lo. Nunca ficara tão satisfeito ao ver os leões de pedra que vigiavam a entrada de sua propriedade. Apesar das condições, ele acelerou para percorrer o caminho que atravessava acres de terra e levava à casa principal. Passou pelo lago que congelara e atravessou a ponte sobre o rio, que anunciava o trecho final até Chigworth Castle. Esperou sentir a satisfação de ser seu proprietário, mas, como sempre, nada sentiu. Não deveria ficar surpreso: há muito aceitara ser incapaz de sentir como as outras pessoas sentiam. Desligara essa parte de si mesmo e não conseguira ligá-la outra vez. O que ele sentia ao ver a construção magnífica era uma admiração impessoal por algo que satisfazia o arquiteto que ele era. As dimensões e a estrutura eram perfeitas. A casa de pedra ao lado do portão de entrada dava uma primeira impressão de imponência e de beleza. E mais adiante havia o castelo, com suas pedras nuas e ameias que atraíam o interesse de historiadores do mundo inteiro. A consciência de estar preservando a história lhe dava certo orgulho profissional, mas, quanto ao resto — o pessoal e o emocional —, ele nada sentia. Quem quer que tenha dito que a vingança é um prato que se come frio, estava errado. Ele provou, mas achou sem gosto. E, naquela noite, Lucas sequer se interessava pelo significado histórico da 94


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propriedade. Só lhe importava o seu isolamento, a quilômetros do indício mais próximo de civilização, e isso lhe convinha perfeitamente. A última coisa que desejava aquela noite era contato humano. As luzes brilhavam em algumas janelas do primeiro andar, e ele se aborreceu. Dera folga aos empregados naquela noite porque não estava disposto a ter companhia alguma. Lucas atravessou a ponte sobre o fosso, passou sob o arco que guardava a entrada e entrou no pátio, com os pneus jogando neve para o alto. Se não tivesse saído do escritório no momento em que escolheu sair, poderia não ter conseguido chegar. Seus empregados tiravam a neve das estradas da propriedade, mas para chegar até lá precisava percorrer uma rede de estradas municipais cuja manutenção não era uma prioridade para as autoridades responsáveis. Ele pensou em Emma, sua fiel secretária, que ficara no escritório até tarde para ajudá-lo a preparar sua viagem para Zubran, um Estado rico em petróleo, no Golfo Pérsico. Felizmente, ela morava em Londres e não precisava pegar nenhuma estrada para chegar em casa. Deixando o carro ao ar livre, ele atravessou o tapete de neve e entrou na escuridão do saguão. Naquela noite não deveria haver ninguém para recebê-lo. — Surpresa! — gritou um coro de vozes em volta dele, e a luz se acendeu. Temporariamente cego, Lucas ficou parado na soleira da porta. — Parabéns para mim! — Tara se adiantou, rebolando, com um sorriso no lindo rosto, segurou-o pelo casaco e lhe ofereceu os lábios pintados de vermelho. — Você prometeu dar o meu presente na semana que vem, mas não aguento esperar tanto tempo. Quero agora.

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