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Aluga-se um noivo.


1. — Me diz por que estamos fazendo isso, mesmo? — Porque, meu irmão, vai se casar com a Luiza. — Tem certeza de que é a melhor alternativa? — Carol, você não é obrigada a me acompanhar. — Tá maluca?? E perder toda a diversão?? Atravessamos a Avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro super apressadas, o sinal já piscava indicando que nosso tempo estava acabando. Entramos no prédio na rua do Ouvidor, conforme indicado pela agência, quinto andar, respirei fundo e toquei a campainha, arrumei a saia lápis preta ea blusa bege, a porta abriu, meu queixo foi no chão. — Ammm.... Desculpa, toquei por engano. Saímos do prédio rindo tanto que foi necessário que nos apoiássemos na parede para gargalharmos um pouco mais. — Meu Deus o que era aquilo, Débora?! Tem certeza de que era o lugar certo? — Tá aqui no e-mail, olha o endereço. — Carolina deu uma olhada no papel entre uma fungada e uma respirada profunda para se recompor. 1 — Tem razão, mas tipo, impossível! Realmente, impossível, o homem que nos atendeu usava uma cueca de elefantinho, com aquela “ tromba” pendurada, ele era estranho, com uma cara de sono, barba por fazer... Sem chance! — Vamos tomar um café antes de voltarmos para o trabalho. — Desiste dessa loucura amiga... — Nem pensar! Não posso dar esse gostinho ao João! Carolina, eu sou a irmã do noivo! — E o João seu ex namorado! — Correção, meu ex namorado e padrinho do meu irmão! Não acredito que o Junior fez isso comigo. — É.... chamar seu ex e a atual pra padrinhos foi mesmo... — Carol fechou


os dedos num círculo aberto, sim, foi um cu! — Vamos naquele café na rua do Carmo. — Ah não, muito longe! — odeio a preguiça dela! — Vamos aqui mesmo na livraria que dá no mesmo. Amo trabalhar no centro do Rio de Janeiro, existe tanta opção pra tudo! Que... sei lá, amo! Entramos na gigantesca livraria na rua do Ouvidor mesmo, havia uma fila de espera, nada muito grande, umas cinco pessoas na frente, Carol fez o que sempre faz, disfarçou e foi furar fila, parando no balcão, isso me mata de vergonha! Mas não serei hipócrita, finjo que não vejo e aceito os jeitinhos que ela dá pra tudo. Enquanto ela esperava pelo pedido, estava na cara que iria demorar um pouco, afinal às 13horas, num dia nublado, todos os trabalhadores de bom senso estavam em busca de um café, e bom, fui zanzar um pouco, estava vendo as novidades quando me interessei por um exemplar com um tigre azul na capa, parecia promissor... lembro que pensei em comprar, mas depois... hmmm a fila do 2 caixa estava enorme, coloquei-o de volta na prateleira e dei meia volta, alguém deu meia volta também e nos esbarramos feio! O cara pediu desculpas, eu pedi desculpas e nos olhamos, ele sorriu, fiquei meio sem graça, caralho que gato! Olhos castanhos, cabelos castanhos, nariz perfeito, eu amo nariz, afinal fica no meio da cara! Olhei para os lábios dele, foi tão rápido, mas ele me deixou ver seu sorriso, lindo. Depois disso se afastou com um livro. Não sei o que me deu, peguei o primeiro exemplar que minha mão alcançou


e fui o seguindo, disfarçando, Carol acenava pra mim, e fiz que não com a cabeça, ele entrou na fila que havia diminuído consideravelmente, estiquei os olhos, entortei o rosto, fingi que estava procurando uma revista na prateleira que segue até o caixa e finalmente ele mudou a posição do livro e pude ver que estava para comprar Grande Sertão Veredas. Primeiro pensamento “ hmmm... culto.” Nada de mais, ele pagou com cartão de crédito, segui dois caixas depois e paguei, ele foi embora eu voltei para o café. Carol me olhava com um baita sorriso e uma expressão de safada que eu conhecia muito bem. — Deixa eu ver. — ela puxou a sacola e tirou o livro — O quê?? "Meu primeiro livro de culinária"?? — não se furtou em cair na gargalhada, chamando a atenção de muitos. Fiquei com a cara no chão! — Débora, quem é esse homem que te fez gastar...R$39,90 num livro de culinária infantil? — Não sei. Ah Carol! Nem sei o que me deu, foi meio que um... — jogava meu corpo pra frente — ... um impulso, louco! — Você é louca. Gente, devia ser uma coisinha esse homem... — Gato. Muito. — E você nem puxou assunto com ele? Uma fila daquelas? — Ah! Nem lembrei, estava mais interessada em ver o livro que ele pegou. — Qual foi? 3 — Grandes Sertões Veredas. — Hmmm.... culto. — Porra!!! — agora fui eu quem fez vergonha falando um palavrão em alto e bom som — Foi isso que eu pensei! Exatamente isso! — praticamente sussurrei. Bebemos nosso café e fomos embora, ainda haviam muitos contratos para serem analisados e eu não tinha patrão, tinha chefe, o cara era um escroto, narcisista filho da puta, mas não vou mais falar dele, já gastei algumas


linhas só de lembrar dele e não vale a pena, sério, não vale. Aquela semana foi louca, procurei em vários anúncios, mas nenhum se enquadrou no meu perfil ideal, começava a achar que eu não tinha um perfil ideal. Fiquei repassando mentalmente a péssima quinta-feira. Carol estava comigo o tempo todo, e fazia cada careta... Entrevistamos cinco caras, no meu apartamento, o que fez minha melhor amiga ficar super nervosa, mas eu iria encontrar com eles aonde? Na lanchonete da esquina?? O primeiro era muito mais baixo que eu, até era legal, mas não ia rolar... O segundo só falava espanhol, então, não. O terceiro era lindo, charmoso e.... tinha um tique nervoso de ficar passando o dedo na língua, nem pensar! O quarto tinha pinta de viado. O quinto ficou mais interessado na Carol que em mim, ele mal me olhou! Suspirei fundo, isso não estava indo nada bem e o casamento era pra poucos meses. Merda! 4 Finalmente consegui dormir, mal, um frio da porra no meu apartamento. Acordei de mal humor, o chuveiro demorou pra esquentar, me atrasei com o café... sabe dia que começa estranho? Foi aquela sexta-feira. Começou e seguiu na estranheza. Meu chefe dando esporro em todo mundo, falando da porcaria do time de futebol dele, ah! Que inferno! Discussão acalorada com um fornecedor, almoço trocado, Meu Deus que dia!!! Pra completar, o desgraçado do Otílio, o chefe escroto, deixou uma pilha do tamanho do Everest de documentos de seguro de vida atrasados pra minha amiga resolver, então obviamente que dali ela não sairia tão cedo, e se não fosse um cara chamado Seth, com quem marquei pra conhecer, sem dúvida ficaria com ela,


ajudando. Ao menos Seth era pontual, e bonitão, com umas entradas no cabelo, mas no geral era legal e educado, usava um perfume barato, mas sabia falar de muita coisa. O nome dele na verdade era Setembrino, não consegui evitar a risada, ele não ligou muito de eu estar rindo, acabamos marcando para o sábado, assim a Carol poderia conhece-lo e validar. * Inacreditável! Sábado quase nove da noite e nada do cara aparecer, ligou dizendo que a mãe dele estava com apendicite! — E agora, Débora? — Sei lá, acho que vou procurar na internet. — Tá louca?? Pode aparecer um sequestrador, um estuprador, um assaltante! — Relaxa, Carol! Vamos olhar... sem compromisso... — Ainda acho que deveria ligar pra agência de acompanhantes... Puxei o notebook e digitei no site de busca garoto de programa, ficamos passando umas fotos, até que meu olho bateu num sem rosto, tirou a foto com o celular, pegando uma parte do queixo, o tronco super bem definido e uma parte de seu membro. 5 Carol e eu nos olhamos ao mesmo tempo. — Debby, olha isso, amiga! — Tô olhando mas não tô crendo, ah... isso deve ser photoshop. — Essa coisa tem a espessura de que? Uma lata de Coca-Cola? — E não adianta nada se tiver o tamanho da lata também... — mostrei a mão fazendo sinal de pequeno. — E que diferença faz? Você não vai transar com ele! — O que você acha? Na mesma hora Carol abriu um sorriso enorme e arregalou os olhos.


— Liga ué. Aqui, — ela me passou o celular dela — usa o meu que tem identificação bloqueada. Liguei para o número, não atendeu. Liguei mais duas vezes, nada. — Tenta mais uma vez, de repente ele tá em "atendimento". — Carol falou com tamanho deboche que começamos a rir. — Tá legal, última vez, senão a gente procura outro. — A gente, não querida, você. Não sou eu quem cismou em alugar um namorado só pra aparecer acompanhada na frente do ex. — Até parece que você não conhece o João... — Ah! Liga logo pro gostosão da foto. Liguei, ele atendeu no segundo toque. — Alô? 6 Gaguejei. — É... oi... é... eu.. é... — Quer marcar um programa. — ele perguntou ou afirmou? — É. — minha voz saiu quase que um pedido de desculpas! — Mulher ou homem? — Mu-mulher... mulher! Pude sentir que ele sorria do outro lado da linha, meu Deus que ódio de mim! — Tá, uma mulher... várias mulheres... só mulher... — Só eu. — São cento e vinte a hora, vaginal, a posição que você escolher, não faço chuva de cor nenhuma, dourada, negra, e não aceito isso também, nada com sangue, crianças, animais ou árvores... — Crianças?? Árvores?? Ele continuou com as condições e precisei interrompe-lo. — Moço. Moço! — ele se calou — Sou só eu, sem vaginal, oral ou anal. — ele ria do outro lado da linha, uma risada gostosa, Carolina segurava a boca, até então não havia tido nenhuma conversa assim, na agência era diferente, só precisei dizer que queria um acompanhante para um fim de semana


prolongado e pronto! — Isso é trote, moça? Se for, não ligue, não posso ficar ocupando essa linha com besteiras e... — É sério! Só preciso de um acompanhante. Ele ficou mudo. Será que estava pensando? — Certo... onde podemos nos encontrar? — Anota o endereço. 7 Passei meu endereço a ele enquanto Carol ficava gesticulando que era louca, pra não fazer isso. Mas eu fiz! E depois fiquei morrendo de medo! Foram mais de um século pra ele chegar, na eternidade de quarenta e cinco minutos, meu coração estava saindo pela boca! Carol resolveu manter um spray de inseticida à mão, afinal de contas, a gente não tinha spray de pimenta nem gás lacrimogênio! A campainha tocou, Carol se levantou num pulo e olhou pelo olho mágico, se virou pra mim, com uma cara insana, a boca se abrindo aos poucos até formar um O, estava eufórica, se abanava com uma das mãos e a outra no peito. Fui até a porta, ele tocou novamente a campainha, olhei pelo olho mágico, mas ele estava apoiado na porta, cabeça baixa, só vi seus cabelos repicados. Franzi o cenho, Carol foi para o sofá, do lado oposto ao que havia escondido o spray de inseticida. Respirei fundo e abri a porta. O cara levantou o rosto e eu congelei. Ao mesmo tempo que minhas pernas tremeram. Ele sorriu, fazendo que não com a cabeça, umedeceu os lábios com a língua e voltou a sorrir de lado. O cara da livraria. 8


2. Fiquei tão sem ação que ele levantou as sobrancelhas, esperando que eu dissesse algo, como não disse, fiquei feito uma retardada na porta, Carol veio em meu socorro, me puxou de leve para um lado e o convidou pra entrar. Senti o ar sair dos meus pulmões. Eu estava prendendo a respiração???? Que ridícula!!! Espera! O cara culto da livraria era um garoto de programa??? Meu Deus! Esse mundo tá perdido! — Oi, me chamo Carol, essa é a Débora. Senta aí. — Carol indicou o sofá e ele sentou justamente onde ela havia escondido o spray. Ele se recostou e sentiu algo o incomodando, puxou a lata de inseticida e fez uma cara de “ eu hein”, deixou a lata no chão, ao lado dele e ficamos super sem graça. Estava tão bem vestido, uma calça social cinza matizada, sapato social preto, camisa polo da Lacoste preta, relógio de prata, quando passou por mim senti um cheiro bom, tinha quase certeza de que era um perfume Giorgio Armani, mas sei lá, estava tão desorientada de ver o cara ali que me perdi nos pensamentos. Me sentei na poltrona de frente pra ele, Carol no sofá, mas na outra ponta. Ele ficou com pena da gente e começou a falar, parecia que era ele quem estava nos contratando! — Podem me chamar de Théo. Então meninas, qual de vocês precisa dos meus serviços? Levantei a mão meio envergonhada, Deus!!!! Voltei pra sexta série! — Tá, é... Bárbara... — Débora. — corrigi. Que mania que as pessoas tinham de trocar meu nome por Bárbara, nada a ver! 9 — Tá legal, desculpe, Débora. Quando você disse sem vaginal, oral ou anal,


o que tinha em mente? Ir em algum evento com você? É isso? — Isso. — E, você não tem namorado? — ele parecia incrédulo, enquanto gesticulava, era tão desenvolto... — Nnnnão. — Eu já vi que essa conversa vai ser longa. Posso? — ele indicou o pequeno bar que tinha próximo a televisão. Fiz que sim com a cabeça e ele foi lá, se servir, como se estivesse em casa! Carol abriu a boca mais uma vez e abriu as mãos também, fazendo mímica, “ nota dez” mexeu os lábios. — Débora, toma alguma coisa comigo? — ele estava me oferendo minhas bebidas?? — Carol? — ela fez que não, ele me olhou esperando eu responder. — Uma tequila. — eu estava aceitando??!! Ai meu coração tinha que parar de pular daquele jeito! Ele se serviu de uma dose de Absolut e misturou com alguma outra coisa, voltou com os copos, me entregou um, agradeci e ele os bateu num brinde mudo. Voltou a se sentar, visivelmente mais relaxado, de pernas cruzadas. — Que tipo de evento é? — Meu namorado vai casar com o padrinho do meu ex irmão... Théo virou o rosto confuso e Carol deu uma gargalhada, só então percebi as asneiras que estava falando. Segurei a boca e arregalei os olhos, que desastre! — O irmão dela vai casar, e o ex namorado vai ser o padrinho, mas ele está namorando uma moça linda, que foi nossa amiga de faculdade. — Mas ela não se formou! — precisava dizer aquilo! — Tá bem... Por quanto tempo vai precisar de mim? 10 — O casamento vai ser no feriado em Setembro. — Carol continuou respondendo por mim. — Mas tem tempo daqui lá. Débora. — ele me chamou. — É que haverá uns eventos, ensaio de casamento, coquetéis, chá de panela e... e... seria estranho... — Se você aparecesse no dia casamento, do nada com um namorado. —


ele pega as coisas rápido. — É. Ele deu um sorriso aberto, lindo. — Gosto desse seu “ é”. Olhei pra Carol e ela envergava a boca pra baixo, um sinal de afirmativo surgia discretamente em sua mão direita, escondidinho dele. — Escuta, Débora, a gente não se esbarrou na livraria na terça-feira, acho? — É. — outra vez esse maldito “ é”, mais parece um pedido de desculpas! Droga! — Você é o cara da livraria? — Carol estava boquiaberta — Tá explicado! — O que? O que tá explicado? — ele olhava curioso pra ela, que me olhava e eu fazendo que não, ele me olhou e olhou de volta pra Carol, os olhos se apertando um pouco, a cabeça levemente inclinada... Espera aí! Ele estava seduzindo minha amiga? — Ela comprou um livro qualquer só pra ir pra fila atrás de você. — ela falou! Falou? Quase cuspiu a frase inteira! — Jura, Débora? — Senhor!!! Cadê um buraco pra eu me enfiar??!! — Pensei que só quisesse ver o meu livro. Agora minha boca abriu de vez. Ele percebeu! Que merda do caralho! — Eu... eu... — bebi a tequila de uma vez! 11 — Como não perceberia, você estava “ lendo” uma revista de ponta cabeça. — escondo meu rosto em uma das mãos — Por isso deixei você matar sua curiosidade, claro, depois de ficar brincando um pouco com seus contorcionismos. Ele ria livremente da minha cara, estava absolutamente à vontade, que homem é esse?? Ele mordeu o lábio antes de continuar falando. — Mas achei bonitinho. Eu ri um sorriso amarelo. Então ele olhou no relógio, suspendeu as sobrancelhas e se levantou, instintivamente me levantei também. Théo deixou o copo no bar e se dirigiu à porta. Pelo menos consegui ir até ele e abrir a porta.


— Carol, prazer em conhece-la. Débora, como no seu caso não tem sexo, são trezentos Reais por dia ou obviamente cento e cinquenta por meio período de evento, você tem meu telefone, se resolver alguma coisa. Se aproximou de mim, era bem mais alto que eu, cheiroso demais, segurou no meu queixo me olhando nos olhos, pensei que fosse me beijar, meu coração pulando feito louco no peito! Fechei os olhos. Théo se inclinou, deixou um beijo em minha bochecha pegando uma pontinha ínfima dos meus lábios, senti meu ventre contrair no mesmo instante. — Tchau. — Tchau. — ele se foi, fechei a porta. Carolina me olhava com as mãos tapando a boca aberta. Arrastei meu corpo até o sofá e me sentei. O cheiro dele ficou na almofada, fechei os olhos inalando. — Esse cara, não é de agência, não sabemos nada sobre ele, mas se você não ficar com ele, juro que fico! Dou meu salário inteiro na mão dele! — Nem sei o que dizer. 12 — Amiga! Pelo amor de Deus! Esse cara é tudo! Não só combina com você como põe o João no chinelo! E a Letícia, aquela ladra de namorados, vai se rasgar inteira! — Me comportei como uma maluca! Como uma colegial boba! — Tá muito explicado porque comprou aquele livro de culinária infantil. Gente que homem! Seguro, com atitude, liiiiindo, e se ele tiver aquilo que estava no site... — Para Carol! Não vou dormir com ele! Não vou! — Só se você for trouxa... — Me tira uma dúvida, na hora em que ele foi pegar a bebida, por acaso você estava mesmo manjando o pau dele ou foi impressão minha? Carol deu uma risada e se jogou pra trás no sofá. — Vamos sair?! Essa noite tá pedindo uma saída!


— Carol... — Vamos! Nós saímos, foi ótimo, dançamos, cantamos e bebemos, foda foi voltar pra casa sozinha. Fiquei um par de tempo olhando o teto, as sombras ocasionadas eventualmente pelo farol dos carros que passavam. Théo, seria só isso mesmo ou de repente Theodoro? Ou algum nome estranhíssimo? Théo. Adormeci com ele nos pensamentos. E não eram nem oito e meia da manhã de domingo quando resolvi ligar de uma vez. Uma voz pra lá de sonolenta atendeu, puta que pariu acordei o cara! Desliguei. 13 Ele retornou. Atendi. Fiquei muda. Senti que ele sorria, dá pra saber quando a pessoa está rindo! — É você, Débora? — É. Amm... Oi. 14


3. Senti a cor sumir do meu rosto. Micão! Precisava achar um motivo por ligar no domingo cedo! Ouvi Théo bocejar e se espreguiçar, ele ainda estava rindo, que bom saber que meu constrangimento o divertia! — Desculpe ligar tão cedo no domingo, tenho certeza de que o acordei, desculpe. — pronto, agora me pus a matraquear... aff... — É que fiquei com uma dúvida, na verdade a gente não acertou nada, mas é que quanto sai... é... quanto custa você?... Digo... — ele estava rindo! Rindo e rindo de mim! — Quanto fica com beijos? — pronto falei! — Beijos. Que tipo de beijos? — Como assim que tipo de beijos? — minha mão estava tremendo, Jesus Cristo, que absurdo. — Ora, Débora, que tipo de beijos? Selinhos, beijos simples de boca aberta e sem língua, beijo de língua... ou... o meu beijo. — Como assim, seu beijo? Você por acaso tem um beijo?? — agora ele estava tirando uma com a minha cara. — Patenteado. — Tá de sacanagem comigo?! — Bem que gostaria de estar... Fiquei muda e gelada, senti um arrepio estranho, calma Débora, deixa de ser tão carente! Mas a verdade é que estava há quase um ano me contentando com um vibrador de clitóris que a essa altura não estava prestando pra porra nenhuma! — Théo, de quanto é o acréscimo por beijo seja lá qual for? — tentei ser o mais profissional possível, afinal era uma gestora contratual! Como assim que de repente desaprendi a falar com um fornecedor? Ele suspirou — Não vou cobrar pelos beijos, nenhum deles, entre a ponta dos fios de seu cabelos até o busto e da ponta dos seus pés até o alto de suas


coxas, tá bem assim? 15 — Tá bem assim, obrigada pela informação e desculpe mais uma vez pela hora. — Era só isso? — É. — Mais que merda, caralho!!! Novamente aquele "É" que mais parece uma desculpa! — Ai...ai... — ele se recuperava de uma boa risada — E quando vai precisar de mim? Tenho que fazer a agenda do mês. Agenda do mês? Meu Pai celeste, nunca imaginei que esse pessoal tinha agenda! Ah! Que ignorância! Claro que eles tem agenda, pra saber com quem e quando! — Semana que vem vou me encontrar com umas amigas na quinta-feira, pra um Chopp, elas são as madrinhas do casamento, a noiva também vai estar lá. — E o que quer que eu faça? — Eu... não sei. — Tá, já vi que é a primeira vez que contrata um serviço desses. Manda uma mensagem com o endereço de onde estiver que eu vejo o que posso fazer por você. Quinta que vem?!... — ouvi uns barulhinhos de gemido, os pelinhos da minha nuca se arrepiaram. Ele continuou com o barulhinho, era algo como hmmm... — O que... o que você tá fazendo? — Hmm’anotando. — será que ele pode por favor Senhor, ser menos sensual? — certo Dona Débora. Qualquer coisa me avise. Tchau. — Tchau. Ele desligou e corri para minha gaveta de calcinhas, isso estava me deixando fora da realidade, totalmente! Depois de aliviar a tensão daquele homem gostoso gemendo no meu ouvido pelo telefone, fui tomar um banho, frio pra ver se abaixava a temperatura. 16 A verdade é que não estava certa de que ele era o cara ideal pra essa


missão, Théo era muito homem, aonde por acaso ia dizer que o conheci? Não havia pensado nisso! Será que digo que foi na academia? Assim justifica aquele corpo maravilhoso que ele tem... Mas minhas amigas sabiam que eu mal pisava em uma academia. Que trabalha comigo também não, será que ele sabia falar sobre administração de empresas? Ah! Deveria sim, afinal ele administrava a empresa dele né?! Passei o domingo pensando no assunto, mas nada que me impedisse de viver. Carol e eu fomos ao cinema, adoro ir ao cinema em dia de domingo, infelizmente ou felizmente ela acabou encontrando uma “ ex amiga” da época da faculdade e fiquei meio que sobrando, de vela. A bissexualidade de Carol sempre foi o que mais me orgulho nela, nos conhecíamos desde... sei lá, desde sempre, morávamos no mesmo prédio, brincamos juntas, estudamos juntas, fizemos recuperação juntas, faculdade, muita coisa com aquela magricela maluca. Éramos muito amigas e muito parceiras também, fui uma das primeiras a saber que ela estava se interessando também por meninas, na mesma época que ela acobertava minhas saídas pra namorar escondido. Conhecemos Letícia na faculdade, passamos a ser três amigas, até que entrei no banheiro da boate em que estávamos e vi o João, meu ex comendo ela por trás, a saia dela parecia um cinto atado na cintura, ele com a calça jeans pela metade da coxa. Sabe qual foi a pior parte? Já havia bebido todas e mais um pouco, me virei no primeiro vaso que encontrei livre e menos sujo e comecei a vomitar, de cachaça nas ideias, de nojo deles, de raiva, de susto, e quem segurou meu cabelo foi ela, e


foi ele quem apoiou meu corpo pra eu não cair de cara no vaso, tamanha minha tontura alcoólica! Fiquei ouvindo os dois se explicarem na semana seguinte, imagina só, ter de ouvir do meu namorado de quase quatro anos que ele e minha amiga estavam apaixonados, ela dizendo que não foi por querer, ele que Letícia era a mulher de sua vida, e ambos me agradecendo por tê-los apresentado. 17 Deveria ter arrebentado os dois de porrada, deveria ter tocado fogo neles! Mas ouvi tudo calada, sufocando um bolo enorme na garganta, prendendo os lábios nos dentes enquanto meu corpo tremia inteiro de ódio. Fiquei sentada de braços cruzados enquanto eles acabavam comigo. Carol voltava de uma má sucedida campanha amorosa com essa ex dela que encontramos no cinema, e nos acabamos de tanto beber caipirinha. Mas isso tudo aconteceu há muito tempo... mentira, faria um ano naquele mês de junho. Inferno. Segunda-feira chata, terça-feira ótima, meu chefe resolveu nos presentear com sua ausência, quarta-feira tediosa e quinta-feira de quebra pau, sumiu um documento importante, procuramos em tudo quanto foi arquivo e nada, sobrou na pasta somente a cópia, que não tinha validade legal nenhuma! Daria uma enrabação geral, sem dúvida! Mas sabe quando respirei aliviada? Quando dei a primeira golada no meu Chopp. Tipo, amanhã a gente vê a merda que vai dar. Meu rosto paralisou no meio da segunda rodada quando vi aquela vadia da Leticia chegando com a Luiza, minha cunhada. E a cachorra estava linda, de calça de couro marrom e blusa vermelha. Ai que ódio que me deu por estar de calça social preta e blusa de um ombro só branca coberta por um terninho. Carol me olhou preocupada, mas fui super educada.


Geovana, Amélia e Sara também me olharam, mas sorri de volta e vi Amélia fazer mímica de “ fica calma”. Não pensei duas vezes em mandar o endereço do barzinho para o Théo. Não comi nada, não queria ter que mastigar, acho que não suportaria, fiquei bebendo e bebendo e bebendo até ficar entre aquele estágio de estou bêbada mas levemente consciente. 18 Minhas amigas riam muito com as coisas que dizia e estava falando sério e elas rindo, Letícia também ria e fazia a linha de “ não tem nada de errado aqui”, vadia. De repente, elas pararam, ficaram sérias. Carol abriu um sorriso desses que mostra todos os dentes, e eu lá falando merda atrás de merda. Foi quando senti um par de braços fortes em volta do meu corpo, o perfume Armani e me virei pra olhar, seu rosto já colado ao meu e me beijou, selou nossos lábios e praticamente forçou que abrisse a boca para que me invadisse com sua língua macia sabor hortelã. Não ouvi mais nada. Então me soltou, ainda mantendo a menor distância possível entre nossos rostos. — Oi, amor. — Oi. — não sei se respondi direito ou se sussurrei. Ele se afastou e se pôs ereto, estava de terno e gravata, e não era um desses de lojinha não, ele estava com um terno de marca, bem cortado e bem caro pelo visto, mas tinha alguma coisa de diferente, os cabelos estavam claros. — Oi Carol. — ele cumprimentou. — Oi Théo. As meninas olhavam pra ele com a boca entreaberta, Letícia piscava o olho sem parar, Carol sorrindo deu mais um longo gole de Chopp. — Amor, por que não me falou que viria pra cá? — sua voz era segura e suave ao mesmo tempo. Me segurou a mão me pondo de pé diante dele. Precisava embarcar na dele!


— Desculpa, pensei que ficaria no trabalho até tarde. — Não, sai ainda agora, por sorte passei por aqui e te vi. Théo se inclinou e me deu um selinho. — Deixa te apresentar minhas amigas! — ele me olhava com um estranho divertimento no olhar, deve ter pensado que agiria como das outras vezes, uma 19 pateta! — Luiza, a noiva do meu irmão, já te falei dela, Letícia, Amélia, Sara e Geovana, Carol você já conhece. — Boa noite, senhoritas. Elas só faltaram derreter! Até mesmo Luiza! Também... quem usa “ senhorita”, hoje em dia? O cumprimentaram e antes que começasse a chuva de perguntas nos afastamos delas. — Você veio! Você veio! — segurei em seu rosto, feliz da vida! — Claro que vim, você me mandou o endereço, lembra? — É, mas não achei que viria! Ah! Sei lá o que achei! — Você tá chapadinha né?! — Só um pouquinho — indiquei com o dedo. — Deixa ver se é só um pouquinho mesmo. Théo me puxou para um abraço apertado e não recuei, passei os braços em torno de seu pescoço e ele abaixou o rosto para me beijar mas não beijou, ficou brincando, me fazendo buscar pelos seus lábios enquanto ele recuava, sorrindo, e me dava acesso e quando avançava, me negava, minha vez de sorrir e ele tocou meu lábios com sua língua, senti um calafrio na espinha. Théo tomou minha boca, deslizando sua língua em meus dentes antes de encontrar a minha e puxa-la nos lábios, meu corpo inteiro entrou em combustão. Depois um beijo de língua normal e uma mordida no meu pescoço logo abaixo do lóbulo de minha orelha. Naquele instante pude ver que as meninas não


tiravam os olhos de nós e Letícia ainda estava boquiaberta. Théo continuou brincando com meu pescoço, me arrepiando inteira. — Agora é um bom momento pra sairmos daqui. — Também acho. — respondi revirando os olhos. — Me dá um minuto. 20 Théo arrumou os cabelos e se afastou para dentro do bar. Enquanto isso fui me arrastando das nuvens até a mesa. — Débora, quem é esse homem? — Luiza estava se roendo de curiosidade. — Hmmm... — fiquei fazendo charme. — Carol não quis contar! — agora era a vez de Geovana se morder de curiosidade. — É... meu... Théo me interrompeu puxando pela minha cintura, me fazendo girar em meu eixo e me beijou mais uma vez. — Meninas, as rodadas anteriores foram por minha conta. — Ah! Como assim? — Carol olhava espantada. — Como assim que agora vou levar a minha garota de vocês. Minha garota? Gente, quem fala isso? Minha garota? Me despedi rapidinho com um tchau bobo com a mão apressada e fui praticamente arrastada aos risos e gargalhadas, e como dois amantes apaixonados fomos embora. No estacionamento do Edifício garagem Théo se aproximou do Hyundai Sonata preto e as portas se destravaram. 21 — Esse carro é seu ou você alugou só pra me buscar? — É meu. Entra. — Pra onde a gente vai? — Para o seu apartamento. — Ah não... Você me tirou no melhor do Chopp... — Você já está bem chapadinha, Débora. Precisa se controlar ou pode acabar soltando a língua. — Você é um chato! Lindo de morrer, mas um chato! Ele riu mais uma vez de mim! Balançando a cabeça. Não me lembro de muita coisa depois disso, só uns momentos em flash,


lembro dele ter aberto minha bolsa, mais beijos, o rosto dele sobre o meu, como se estivesse olhando um anjo descendo do céu. E... e... não lembro. * Acordei com o despertador do celular, abri os olhos com uma preguiça horrível! E uma dor de cabeça de lascar! Aí me dei conta de que estava em casa, estava mesmo em casa, na minha cama, enrolada no lençol feito um casulo, e estava nua! Ai meu Deus! O que aconteceu? Minha roupa estava dobrada em cima da cômoda. Foi espontâneo, passei a mão entre minhas pernas e estava um pouco úmida. Mas que caralho eu fiz??? 22


4. Primeira coisa depois do banho e foda-se que eram seis da manhã! Ligar para o Théo. Mas o filho da puta deixou o telefone desligado! Desgraçado! Ai, minha cabeça doía tanto! Acho que bebi muito além do que supunha. Encontrei com Carol no elevador do prédio em que trabalhávamos no Centro do Rio, estávamos ambas com um copo de café em punho e óculos escuros pra cobrir a vergonhosa ressaca. — E aí? Deu? — Bom dia pra você também, Carolina. — Bom dia é o caralho, ele te comeu ou não? — Não... sei. — Como é? Ouvi direito? — Não sei, tá legal? Não sei! — Tá me zuando né? — Ah antes estivesse... — passei a mão nos cabelos, estava aflita. — Que perigo, Débora! Descemos no nosso andar e andamos em silêncio até nossas mesas. — E você acha que eu não sei? Tô aqui em pânico!! — gritava em sussurro, tentando conter meus maiores medos. — Esse pessoal pode ter Aids! Gonorreia! Sifilis! HPV... — ela também gritava em um sussurro abafado — Já entendi Carol! — minha voz saiu um pouco mais alta que o planejado — Já entendi porra! — E a gente nem pensou em pedir um teste desses de DST! 23 — A gente? Eu, você quer dizer! Além do mais nenhuma de nós duas pensou em mais nada depois que ele entrou lá no meu apartamento! — Lembra que você disse que ele perguntou se era pra fazer com homem ou mulher? Então... Ai amiga, que merda! Que merda! — Que cu! Tô fudida! Pior que acordei nua! — Que merda! Que merda! — Com a xereca molhada — praticamente fiz mímica pra dizer aquilo.


— Que merda do caralho! E agora? Já tentou falar com ele? — Claro! E só escuto aquela vagabunda dizendo que minha chamada será encaminhada para a caixa de mensagens! — E estará sujeito a cobranças após o sinal... — Carol completou fazendo graça com a minha desgraça — E tá faltando alguma coisa na sua casa? — Não! Tudo ok. — respirei fundo, apavorada — Não sei o que fazer! — Liga agora pro laboratório e pede um exame completo de urgência! — Sem a prescrição médica? — Alooow! — Carol mostrou um papel de Atestado de Saúde Ocupacional. Foi exatamente o que fiz, politicamente incorreta, utilizei um dos contratos com um laboratório e fui fazer o exame, próximo ao primeiro local onde nos encontramos, na rua do Ouvidor, confesso que fiquei andando meio que procurando por ele, mas é óbvio que não o encontrei. Assim que pisei fora do laboratório meu celular tocou. Atendi de imediato. — Théo! — Nossa! Bom dia! Quanta saudade... — ele estava sendo sarcástico! — Théo, pelo amor de Deus o que aconteceu? — Como assim o que aconteceu? — ele parecia ofendido! 24 Ai que merda! Ele me comeu e o pior é que eu nem lembro! — O que aconteceu com.... a gente... Ele deu um tempo do outro lado, o que me deixou ainda mais nervosa. — Débora, você usa pílula? — O que??? — tenho plena consciência de que dei um grito no meio da Avenida Rio Branco — Perguntei se usa pílula, afinal você está no seu período fértil. — Como assim eu tô no meu período fértil? Seu maluco! Você... você... er... dentro? Mentalmente e no meio de toda aquela confusão de pensamentos, fiquei tentando lembrar de uma farmácia próxima! Pílula do dia seguinte! Finalmente ele teve dó e se pôs a rir com vontade! — Fica calma, é brincadeira. — Que parte? Foi fora pelo menos? Você usou camisinha? A gente... — Débora. Débora! Não aconteceu nada.


Me deu um alívio imediato, senti meu corpo flutuar e de repente bater com tudo no chão ilusório dos meus pensamentos. — Por que não aconteceu nada? Se acordei nua! Por acaso eu sou indesejável? — Não mesmo... Foi deveras um esforço sobre humano não enfiar a pica na sua boceta. — ui! Primeiro ele fala todo polido pra depois mandar esse linguajar chulo. — Então... por que... por que... — Nós temos um acordo comercial, senhorita, não um encontro romântico. — sabe balde de água fria? — Portanto, seria no mínimo ante ético da minha parte usufruir do seu maravilhoso corpo por puro prazer, meu prazer, já que a senhorita estava praticamente morta. 25 — Não aconteceu nada. — constatei num misto de surpresa, tranquilidade e contraditoriamente inquietação e frustração. — Não mesmo. Mas pensando muito sobre o assunto, lembrei-me de algo imprescindível, um exame de sangue, estou à caminho do laboratório resolver esta questão, espero que faça o mesmo. Para o caso da senhorita aditar nosso contrato com novas cláusulas. — Engraçado, o senhor, falar disso, pois foi exatamente o que acabei de fazer! — atravessei a rua quando o sinal fechou para os carros. — Excelente. — Excelente. — remedei o jeito dele falar. — Não se esqueça dos meus cento e cinquenta. Mandei um sms com a agência e conta em que deve depositar o valor, pelo que vi na sua carteira, é o mesmo banco. Faça a transferência ainda hoje, para que possamos prosseguir com nosso acordo. — Sem dúvida farei. Dá pra acreditar nisso? Esse cara é muito louco mesmo!


Me joguei na cadeira de rodízio e ouvi as rodinhas da cadeira de Carol deslizando pelo carpete. — Que cara é essa? — Théo ligou. — Ai meu Deus, vocês fizeram? Ele tem alguma doença? Você tá grávida! — Para de falar besteira! Não aconteceu nada. — É? Por que não? — Seria “ ante ético”. — Vixi! Amiga, esse cara é um profissional do sexo e leva isso muito a sério. — Percebi. 26 — Mas você não parece muito contente com isso. — Ah! Sei lá... — Débora você tá apaixonada pelo Théo? Apaixonada pelo Théo... apaixonada pelo... apaixo... — Não! Tá maluca! — Olha nos meus olhos! Nos encaramos, eu com cara de tédio, ela me examinando como se fosse um médico oftalmologista. — Que porra... Você tá apaixonada — de repente começou a sussurrar meio irritada — Você tá apaixonada por um garoto de programa! Sua louca! Não pode! Você tá cheirada?! — Eu não tô apaixonada por ele! — sussurrei de volta Nosso chefe apareceu e fomos deslizando suavemente para baixo da mesa, fingindo arrumar os fios do computador. — Débora! Admite! Você está sim a fim do Théo! — Não tô! Foi só um beijo! — Você tá sim e foi de antes do beijo! Muito antes! Aquilo foi estranho, meu coração martelando enquanto eu me sentia um nada perto da Carol. Me apaixonar por um garoto de programas? Isso não funciona! Saímos de debaixo da mesa pra parar debaixo dos pés do nosso chefe que nos fez de tapetinho por causa do documento desaparecido! Que ódio! A


culpa nem foi nossa! E nessas horas ninguém assume o feito, pelo contrário. Caraca, prioridade número um, arrumar um novo emprego, que aquele cara já estava dando no saco! 27 Théo mandou o sms com os dados bancários de uma empresa e eu depositei, fiz questão de mandar o comprovante por mensagem. Ele agradeceu. Passei a noite como de costume, sozinha olhando as sombras se formarem no vai e vem do farol dos carros. Desejando que ele estivesse comigo, minha mente só formava sua imagem, e não conseguia esquecer dos seus beijos, nenhum deles. “ Para o caso da senhorita aditar... ” Ele sabia exatamente do que estava falando, ninguém sai por aí falando em aditar cláusulas contratuais... Naquele instante dei um salto da cama e liguei o notebook, uma ideia absurda passou pela minha cabeça, mas sei lá! Como um prostituto iria comprar um carro daqueles? Do ano? Por que a agência e conta não eram pessoa física e sim jurídica? Alguns minutos depois estava no site da Junta Comercial do Rio de Janeiro pedindo a verificação dos dados da empresa, com o CNPJ que apareceu pela transferência. Galáctica S/A. Não apareceu o nome Théo, ou Theodoro ou nada similar, mas sem dúvida na segunda-feira teria minhas respostas. Passei o fim de semana em casa, estava fugindo das perguntas das meninas porque no fim das contas não combinamos nenhuma história pra contar sobre nosso amor. Inesperadamente, no domingo pela manhã, e era cedo, meu celular tocou, Théo, me acordou. — Hmm... — Bom dia, Débora. Acordei você pelo visto. — Uhumm...


— Estou ligando pra te convidar pra tomar café da manhã comigo. Você quer? — Tá falando sério? — respondi sonolenta. — Estou. Muito sério. Podemos nos ver em uma hora? 28 — Tá. — Coloque um traje de passeio. Traje de passeio, esse cara tinha trinta ou sessenta anos? Traje... Eu coloquei o bendito traje de passeio, do meu jeito, claro, que nem a pau passaria meu domingo toda embonecada. Fiz um rabo de cavalo, vesti um short jeans e uma camisa polo azul, tênis rasteiro e pronto. Théo pontualmente às oito da manhã, surgiu no seu carro pra lá de lindo e nos levou para o jardim botânico, imprevisível, mas legal. Ele estava de calça jeans e blusa também polo cinza chumbo, parecíamos ter combinado nos vestirmos daquele jeito. Ele pendurou os óculos na blusa e me levou pela mão, tocou nossas mãos e me senti estranhamente desconfortável. Nos sentamos e ele pediu o café completo. Então iniciou sobre o real motivo de seu convite. — Débora, a gente precisa definir algumas coisas, por exemplo, nos conhecemos na livraria, vamos continuar assim? — Acho bom... — Ótimo, qual sua cor preferida? — Azul. Preto. Às vezes rosa. — Qual seu time de futebol? — Time de futebol? Nenhum! Odeio futebol! — Ok, somos dois, mas se perguntarem insistindo muito, diga que é América. Alguma coisa que queira saber especificamente? — Você acha mesmo meu corpo bonito? — Maravilhoso. Ainda mais no período fértil. 29 — Como é isso? Como... sabe... — Não precisou muito pra você ficar toda molhada e eu sinto o cheiro do


seu hormônio. — Ai meu Deus eu não ouvi isso. — Relaxa, não estou falando nada demais, além disso, conheço bem as mulheres. Fiquei calada por um tempo, sem encará-lo. — Você está incomodada com isso né? — Com o que? — Débora, não sou estuprador, nem ladrão, nem nada do gênero. Tenha isso em mente. Obs.: Gente, o nariz dele é perfeito, o rosto dele é perfeito e estava ainda mais bonito com os cabelos mais claros. Será que ele vai mudando de estilo como um ator? Dependendo do personagem? Ah! Por mais que estivesse me roendo pra saber, não iria perguntar, sei lá, de repente ele me acha uma louca intrometida... 30


5. Mal havíamos terminado o café da manhã e o celular dele tocou, como um toque de telefone antigo, ele franziu o cenho muito sutilmente ao olhar para o visor, pediu licença e se afastou da mesa, ainda que não pudesse ouvi-lo, fiquei observando, mão no bolso da calça, sério, ouvia mais do que falava, vez e outra me olhava e eu sorria de volta, um sorriso simples, seja lá o que estivesse acontecendo o fazia ter uma postura diferente da habitual descontração e desenvoltura. Voltou, sentou-se e sorriu ao mesmo tempo que suspirava. — Onde paramos? — Na sua índole imaculada. — isso o fez rir, e em seguida ele pegou um iphone do bolso. Nossa ele tinha dois celulares? Ele deve ser muito requisitado. — Azul... Preto... Rosa... — ele estava escrevendo as cores que havia dito? — Comida e bebida? — Feijoada e cerveja — ele sorriu e anotou. — Música? — Samba e Justin Timberlake. — Agora me olhou de lado, confuso, mas anotou. Théo estava mesmo me entrevistando? — Que tipo de samba? — Todos os que tocam em uma feijoada. — Quais são? — Como assim ele não sabia? — Arlindo Cruz, Revelação, Fundo de Quintal, meu preferido, Seu Jorge... — Você sabe sambar? — Fui passista da Mocidade Independente de Padre Miguel, isso responde sua pergunta? Théo estava de boca aberta, chocado e divertido. — Muito interessante. Então você gosta de uma diversão mais popular. 31 — Popular? Não, eu diria tradicional. — Do que mais você gosta? — agora era o Théo quem perguntava, não o namorado de aluguel que precisava decorar meus gostos.


— Gosto de cinema, mas só pra ver comédia, não me chame pra filme de terror que eu odeio levar susto, ficar tensa ou chorar pela morte de gente que nem é real. Também gosto dos vídeos da Porta dos Fundos e sou tipo, muito fã mesmo e viciada em Fábio Porchat! Ele é o máximo! — Melhor que o Adnet? — Infinitamente melhor! Nossa! Sou fã mesmo número um dele! Porra! E do Luis Lobianco que fez o vídeo... — não consegui concluir a frase porque me deu um ataque de riso só de lembrar, quando dei por mim, Théo estava com o cotovelo apoiado na mesa, e sua mão segurava um rosto sorridente, estava prestando atenção em mim, então tentei ser o mais normal possível e concluir o pensamento — Ai, desculpa, — limpei a lágrima que resolveu aparecer de tanto que eu ri —O vídeo é dos dez mandamentos, adoro esse e o do aniversário também! Ah! Você já viu o vídeo “ é pau é pedra”? — Ainda não. Como é? — Ah não vou contar não, você tem que ver! É muito bom. — Você é fã mesmo hein? — Ai desculpa. — sabe quando cai a ficha da tietagem? Então. — Que nada, é bom ver você mais solta, saber do que gosta, é importante pra eu ser o mais verdadeiro possível nesse namoro de faz de contas. — Théo, você já fez isso antes? Quero dizer, pagar de namorado? Ele negava com a cabeça lentamente enquanto sorria com malícia. — Mas isso é ruim pra você? Tipo, sem.... — Sem fuder? — É. 32 — Adoro esse seu “ é”. — de repente ele se pôs sentado corretamente e começou a digitar no iphone enquanto me respondia — Não, Débora, isso


não é ruim, pelo menos não com você. Hã? Estou entendendo certo? Ele disse que não era ruim por ser comigo? Ou eu é que queria interpretar dessa maneira? — Meus amigos me chamam por apelidos, raramente de Débora. — achei melhor informar. — Que apelido? — Apelidos. Debby, Debinha, Debrinha, Debrita, Dé... — Nossa, muitos apelidos. — Meu irmão me chama de Abelhinha. — Abelhinha? Por quê? — Meu nome significa abelha e meu pai e Junior sempre me chamaram assim. — E seus pais? Moram longe? — Aham. No céu. — ele ficou desconfortável e lamentou — Tá tudo bem. — amenizei — Faleceram tem um tempo. Eu tinha vinte e três anos. — Um tempo? Quantos anos tem? — Quantos acha que tenho? — Achava que vinte e cinco, mas como disse que tem um tempo, então sei lá uns vinte e sete?! — Trinta. — Impossível. 33 — Muito possível. E você? Tem o que? Trinta e dois? — Trinta e quatro. Não pude evitar sorrir com as coisas que estavam passando pela minha cabeça, então mandei mais um gole de suco de laranja pra dentro, a fim de abafar o sorriso tosco. Ele percebeu, obviamente, que estava pensando em alguma coisa, mas teve a delicadeza de não perguntar o que era. Continuamos a conversar, ele anotou as datas dos compromissos, reuniões, ensaios de casamento e aconteceu uma coisa estranha... Quando perguntou aonde seria o casamento, e respondi, ele ficou tenso. Estranhíssimo.


— Vai ser na pousada dos meus tios, em Penedo. — Foi nesse instante que ele meio que travou os músculos do ombro. — Que lugar de Penedo? Exatamente? — Parecia uma pergunta casual, mas sei lá... — Na última pousada, seguindo uma estradinha... Bem no pé da montanha, Pousada Lua de Mel. Théo deu uma relaxada de leve aquiescendo. — Quer dar uma volta? — Mudou de assunto de repente. Aceitei o passeio e apesar dele me convidar pra almoçar e eu querer realmente aceitar, precisava arrumar meu apartamento... colocar umas roupas pra lavar, aproveitar o tempo bom, pra ele era fácil passar as manhãs atoa... * 34 Adoro tirar o sapato pra ficar passando os pés com a meia calça lentamente no piso acarpetado do escritório, um prazer quase sexual. Estava nesse momento quando Carol chegou, atrasadíssima, se instalou na mesa ao lado da minha, estava pilhada. — Bom dia. — Bom dia, Carol. — ela já foi ligando o computador, tirando uns papéis da bolsa e o celular. — Que foi? — Ansiedade, fiz merda. Olha isso. Era uma mensagem da Luiza, Letícia estava em cólicas querendo saber quem era o homem do bar. Há! Sabia que ela estava se mordendo. Piranha, filha da puta! Carol foi me mostrando uma sequência de mensagens trocadas com minha cunhada Luiza, onde o ponto máximo parou na palavra “ noivos”. Voltei e li novamente: Mas como assim ela arrumou uma pessoa de repente? – L Amor à primeira vista! – C Letícia disse que deve ser mais um namoro passageiro... – L


Letícia é uma invejosa do caralho! Pode dizer a ela que é mais sério que ela imagina – C Sério quanto? (Roendo unhas de curiosidade) – L Estão noivos, morando junto e tudo. – C Choquei! Ela não contou pra ninguém! – L Pra Letícia não tentar roubar... – C 35 Naquele instante, parei um pouco de pensar, acho que parei até de respirar. Levei minha mão à boca, segurando minha incredulidade diante dos fatos. O plano era apresentar o Théo como namorado e “ desmanchar” logo depois do casamento, agora estava no status de noiva? Como sairia dessa merda? Terminar um namoro é uma coisa, mas um noivado é passar atestado real de incompetência matrimonial! Depois do meu histórico de inúmeros namorados após romper com João, isso seria a cereja do sundae! Que merda! — Que merda sua filha da puta! — nem sei se falei alto, mas falei. — Foi mal amiga! Só fiquei pensando em fazer você se sair bem, eu já estava com umas caipirinhas na ideia... Me perdoa. — Carol estava mais preocupada com ser desculpada do que em como eu resolveria a situação! — Preciso ligar pro Théo! Tentei. Telefone fora de área ou desligado, mais uma vez. Pra que ele me dá um número se não consigo falar com ele? Mandei uma mensagem explicando a situação. Só lá para as duas da tarde que recebi uma mensagem em resposta. Nossa, como esse cara dorme! “ O que você quer?”. Curto e grosso, ou melhor, curto e muito grosseiro! “ Precisamos rever valores. Preciso de um noivo”.


Respondi profissionalmente. “ Como é? Você quer alugar um noivo?”. Ele entendeu. Respondi que sim e a mensagem dele veio em seguida. “ Acréscimo de período?” 36 “ Sim, sem agendamento prévio, full time. Isso é possível ou vamos desfazer o negócio?”. Precisava saber logo de uma vez. Carol estava dependurada no meu ombro! Mais nervosa que eu! Claro, fez merda! — Carolina, quero deixar claro que se ele topar, você vai pagar metade do valor. — Muito justo! — ela que é tão mão de vaca nem pestanejou. Dessa vez a resposta dele demorou um pouco mais. Acho que uns dez minutos. Por fim chegou. “ Tá falando sério? São dois meses daqui até o casamento do seu irmão”. Se ele estava preocupado com o valor, eu muito mais! Já estava até me vendo acenando um largo adeus ao meu décimo terceiro. “ Sim. Preciso alugar um noivo, que finja viver comigo.”. Pronto, mandei de uma vez e seja lá o que Deus quiser. A resposta demorou muito mais dessa vez, acho que meia hora. Fui tomar um cafezinho e quando voltei estava lá o símbolo do envelope na tela. “ Você já fez as contas? Por alto?”. Na verdade não, e antes de responder puxei a calculadora do canto esquerdo na tela do computador. Ele disse trezentos por dia, vezes sessenta dias... Minha Nossa Senhora. Afundei na cadeira. Dona Carolina estava na sala do chefe, sendo pisoteada mais uma vez por nenhuma razão plausível. Não dava pra mostrar a ela a merda que ela me arrumou! “ Você aceita parcelar? Faz desconto por pagamento à vista? Ou crediário?”. Ele respondeu quase que instantaneamente “ Você me mata de rir, Débora! Eu tenho cara de Casas Bahia?”


Foi com essa resposta que me vi dando adeus a minha dignidade diante da família e amigos, porque eu não tinha dezoito mil Reais pra pagar a um garoto de programa! Carol desabou na cadeira ao meu lado. — Eu te odeio Carol! 37 — Ai meu Deus, ele recusou? — Olha aqui quanto sai trezentos reais por dia, por um mês! — Caralho! Nove mil por mês? Puta que pariu ele ganha muito mais que a gente! — Mas são dois meses sua idiota! — Dezoito... — ela deu uma engasgada — Dezoito mil reais?? — À vista! Carol parecia pensar seriamente no assunto. — Pode aceitar! — resolveu de repente, mas sem tirar os olhos da tela do seu computador. — Tá maluca?? — Tô baixando minha aplicação da poupança... — estiquei os olhos e vi o site do banco! Ela é muito mais louca que imaginei! — Me dá aqui o celular que eu mesma conserto essa merda. Pegou meu celular e digitou uma mensagem. Ouvi o aparelho apitar e quando tentei pegá-lo ela não deixou! Mandou outra mensagem sorrindo e então se levantou pra ir ao banheiro, mas levou meu aparelho! E devia estar com dor de barriga! Só voltou quarenta minutos depois. Com uma cara orgulhosa que me fez preocupar de imediato! Levantei com tanta vontade que senti vários pares de olhos em cima de mim. Depois desabei na cadeira quando comecei a ler as mensagens. — Carolina, era pra consertar, não pra esmerdar tudo de uma vez, sua puta! — Não precisa agradecer. Acho que está mesmo precisando, está tão... irritadinha com tudo. E que papo é esse de que você tem um vibrador e nem me contou?


E com isso ela se concentrou nos documentos que estava analisando. Voltei a reler as mensagens, ela não tem mesmo noção de nada nessa vida! 38 Casas Bahia? Kkk, você me mata de rir. Ok, pago sua mensalidade, uma parte em adiantamento, uma na virada do mês e o restante no dia seguinte ao casamento. - D Fechado. – T Só mais uma coisa, se eu quiser sexo, tem acréscimo de valor? Afinal já está bem caro! – D Você tá falando sério? – T Sim. Tenho pensado muito em você. – D Pensando? No que exatamente? – T Em você dentro de mim, pra ser bem exata. – D Uau, Dona Débora, que evolução! Me pergunto no que mais andou pensando... – T Tenho certeza de que anda se perguntando. Agora me responda, dezoito mil e sexo de vez em quando? Ou ... de vez em sempre... – D Dezoito mil e o sexo que você quiser quantas vezes quiser. – T Acho que muito. – D O que houve com aquele vibrador na sua gaveta? Quebrou? Você está muito diferente da garota de ontem. – T Você andou mexendo nas minhas coisas? Que xereta! – D Queria vesti-la, mas quando vi o vibrador, achei melhor não, para não constrange-la. – T 39 Juro que não me lembro de nada daquela noite! – D Peguei suas chaves na bolsa, entramos, te coloquei no chuveiro, depois na cama, nos beijamos e fui embora. – T Gosto de beijar você, gosto da sua língua na minha boca, acho que vou gostar do seu pau dentro dela também, quero fuder com você. – D Seu desejo é uma ordem. Farei o possível para fodê-la tão gostoso que


queira me pagar mais dezoito mil pra isso. – T Kkkkk, assim espero! Esse noivado tá saindo quase o preço de um casamento! – D Não chora. Façamos assim: sua satisfação garantida ou seu dinheiro de volta. – T Agora sim tá com cara de Casas Bahia :) Preciso ir. Te ligo amanhã pra acertarmos, ok? – D Ok. Tchau, minha noiva – T Tchau, noivo – D. 40


6. Ainda que quisesse matar a Carol, a quem estava tentando enganar?! Estava louca de vontade de transar com ele! E por dezoito mil Reais eu merecia tudo a que tinha direito! Ah caralho! A quem estava tentando enganar?! Não sei se teria coragem! Sempre saberia que foi por dinheiro, que fui comida por que paguei por isso. Eu sei lá... isso era... estranho. No dia seguinte foi o Théo quem ligou. — Oi, Débora. — Oi, Théo... Sobre ontem... — Fique tranquila, não vou cobrar tudo de uma vez. — Então... você topa mesmo?! — Sim, mas não posso me mudar de verdade pro seu apartamento. — Eu compreendo isso, nem pensei que o faria, mas é que as meninas estão marcando um chá de calcinha e... — Chá de calcinha? — Um chá de lingerie pra Luiza, e vai ser no meu apartamento. — Quando vai ser isso? — No sábado agora. — Sábado agora?? — ele pareceu surpreso. — Você não pode né? Já havia feito sua agenda... — Espera. Pare de falar um pouquinho, me deixe pensar. — puxa — Amm... Façamos o seguinte, vou deixar umas roupas e umas coisas minhas no seu apartamento e se der apareço antes delas irem embora, caso contrário te mando um sms avisando. Pode ser assim? — Assim tá perfeito. — Ok. Tenho compromisso a partir de amanhã, então, passo lá mais tarde, tudo bem? 41 — Tudo bem.


Ah meu Deus, depois daquelas mensagens que a inconsequente da Carol mandou, teria que encarar o Théo, assim.... tão depressa! Hoje?! Assim que cheguei em casa fui direto para o chuveiro, precisava pensar e não havia lugar no mundo melhor pra criar diálogos imaginários quanto o chuveiro. Já ganhei inúmeras discussões e até mesmo uma briga! Sem sair do chuveiro. E foi pensando e pensando que o Théo chegou e eu ainda lá, debaixo d’água. Corri pra atender a porta de toalha mesmo, que hipocrisia me vestir às pressas se o cara já tinha me visto nua em pelo. — Oi, eu... estava no banho. — Percebi. Boa noite, querida, como foi seu dia? — ele estava me zuando? Sério isso? — Foi trabalhoso. Entra. Théo passou pela sala sem cerimônias com uma mala pequena, uma sacola grande e uma mochila. Deixou a mala no meu quarto e entrou no banheiro já abrindo a mochila, mas voltou no mesmo pé, deixando a porta aberta. — Estava tomando banho ou fazendo sauna? — Pensando na vida. — Gastando a água do Planeta. — Olha só! Um garoto de programa ecológico! Ele voltou para o banheiro e fui atrás pra saber o que estava fazendo. — O que tem aí? 42 — Coisas de homem. Théo empurrou sem a menor sutileza meus hidratantes, máscaras faciais e sabonetinhos para um canto da pia e do outro lado deixou uma loção pós barba da Ralph Lauren, um vidro de perfume Paco Rabanne, ahh não era Armani, mas Paco Rabanne... também um cortador de unhas grande e metálico, pente, escova


de dentes e um barbeador elétrico no armário debaixo da pia. Se esticou todo pra não entrar no box e deixou na prateleira de vidro um shampoo para homens da Dolce & Gabbana. Nossa. Ele só usa coisa cara. Passou quase roçando o corpo no meu e saiu do banheiro. Tirou da mala que trouxe, um par de chinelos e um par de tênis Nike meio encardidos e deixou num canto atrás da porta. — Não tire ele daqui. — Tá. Caraca, a mala dele era toda arrumadinha, com roupas enroladinhas e apesar de pequena cabia muita coisa! Théo me disse que não se mudaria de verdade mas estava parecendo que estava se mudando em definitivo! Era tanta roupa que ele tirou de lá! Calça, blusa, blusão, meia, cueca, tinha de tudo! Desembrulhou um terno e colocou tudo sobre a cama. — Onde é minha gaveta? — Eu não tinha pensado ainda. — Bom, eu sou mais alto que você, acho justo ficar com a gaveta de cima. — Eu não ligo pra essas coisas. — claro que eu estava ligando! O cara é muito cheio de marra! Puxei minha gaveta de baixo que tinha poucas blusas e troquei pela gaveta de cima, que tinha calcinhas e remanejei as outras coisas, de modo que as duas gavetas de cima ficaram livres e as três de baixo ocupadas por mim. 43 Ele ia arrumando as coisas rapidamente, enquanto eu dava espaço no guarda roupas. Achei inusitado que ele não estivesse constrangido, mas parecia se divertir imensamente com tudo aquilo. Por último, foi até a área de serviço e despejou as roupas sujas dele no cesto misturando com as minhas. — Pronto, Debby, agora moramos juntos. — Você pensou em tudo.


— Quase tudo, você precisa comprar coisas de homem, para a geladeira. — O que seriam coisas de homem pra geladeira? — Salaminhos, queijos, molhos apimentados, essas coisas. E não se esqueça do meu pão integral, eu só como pão integral. — Tá falando sério? — Estou, mas abro uma exceção para a pizza, topa? — Pizza, tá legal e já que está dando uma de homem da casa, pede você. Minha metade é de calabresa. Enquanto isso vou colocar uma roupa. A entrega não demorou a chegar, esse era o bom de pedir pizza na terçafeira. Calabresa e Portuguesa. Ele pediu bem. Também não ficou de frescura com o vinho, pelo contrário, até elogiou. Esse cara deve pegar só essas mulheres cheias da grana, porque o bichinho sabia o que era coisa boa! Derrubamos (garganta abaixo) a garrafa de vinho italiano, disse ele que era um dos seus preferidos, e concordamos muito sobre o tipo do vinho: seco, nunca o suave! 44 Até que tínhamos muitas coisas em comum! Ele era fã de Sheldon Cooper, eu também, ele gostava de muitas músicas que eu também gostava, não é porque disse a ele que curtia samba que só curtia samba! Ele disse que sabia cozinhar e fiquei curiosa em saber como ele vivia. Será que morava num lugar pé de chinelo? Não que o meu apartamento no Largo do Machado fosse alguma coisa extraordinária, mas era um dos antigos e era bem amplo. Quando dei por mim estava analisando o cabelo dele e não resisti em perguntar, porque havia pintado. — Você é curiosa... Bem, na verdade estava pintado antes, de castanho escuro, essa é a cor natural dos meus cabelos. — Dourado. Seu cabelo é lindo. — Obrigado, o seu também é, gosto do jeito como fica quando seca ao natural.


Ele estava me sacaneando com certeza, meu cabelo, castanho escuro em camadas, só ficava legal com uma boa escova! — E você... faz o que durante o dia? — Durante o dia? Como assim? O que imagina que eu faça? — Sinceramente, não consigo definir uma imaginação fixa, até de professor já te imaginei. Théo deu uma risada dessas que vira a cabeça pra trás. — Professor? Puxa vida, eles são muito mal remunerados, pra você pensar desse jeito... — Não foi por eles ganharem mal, foi pela forma como se expressa. — Hmm, entendi. Você faz uma ideia bem preconceituosa dos acompanhantes, não é Débora? — Claro que não! Ou acha que estaria aqui? — Não sei... Acho que acima do seu preconceito, está seu orgulho ferido. — Pode acreditar, é só o orgulho ferido mesmo. 45 De repente ele ficou quieto, pensativo. — Débora, vou precisar da cópia da chave. Tudo bem? A cópia da chave do meu apartamento??? Ai Jesus, estou mesmo certa disso? Dei uma última golada no vinho e sorri, balançando a cabeça em afirmativo. Estava confiando cegamente num garoto de programa! Um cara que mal conhecia! Quanta estupidez! * Foi estranhíssimo olhar todos os dias daquela semana para os objetos do Théo, parecia mesmo que havia um homem morando comigo! E que homem cheiroso! Depois que ele saiu lá de casa na terça-feira, fui fuxicar as coisas dele, cheiro gostoso, perfume, loção, shampoo... Até as roupas dele, foi quando vi meu reflexo no espelho acima da cômoda. Deus. Estava com a roupa dele nas mãos, inalando seu perfume. Apertando-a entre os dedos.


Coloquei de volta, imediatamente! Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus! Eu estava mesmo apaixonada por ele! Ele não deu sinal de vida desde o momento que saiu do meu apartamento. Passei a semana praticamente em prantos! Carol, ficou comigo no banheiro do escritório, a maior parte do tempo. Estava com tanta raiva de mim! Mais uma vez estava fadada a sofrer por um amor mal resolvido, mal escolhido, mal intencionado, mal tudo! E foi quando resolvi que ele jamais poderia saber o que estava sentindo por ele! Com certeza iria se aproveitar pra tirar todas as minhas economias! Como fui burra! Como fui estúpida! Estava mesmo a fim de um homem que transa com outras mulheres e outros homens também, e por dinheiro!! Tipo, naquele instante, o que estaria ele fazendo? Comendo quem? Alguma bunda? Alguma boceta? Que desgraçado! Como ele pode ser tão lindo e tão sensual e a imagem da foto dele na internet não saia da minha cabeça, aquele abdome bem marcado pelos músculos, aquela pélvis depilada com aquela rola grossa e.... Jesus!!! No que estou pensando?? Para agora!!! 46 Não foi nada fácil pra mim, perceber e cair na real que estava me envolvendo com o Théo, e pra mim era por sentimento, ele, por dinheiro. E voltei correndo para o banheiro, segurando as lágrimas, e o nó na garganta. 47


7. Sábado chegou, as meninas chegaram, meu apartamento ficou lotado e graças ao meu bom Deus, a vagabunda da Letícia não resolveu aparecer. Em compensação meu irmão, que estava ao telefone com Luiza, quis falar comigo. — Alô, oi Junior. — Oi é o caralho! Eu ouvi uma coisa da Luiza que não tenho certeza se estava com muita maconha na ideia... ou se ouvi direito. Você está morando com uma cara? — É, mais ou menos... — Mais ou menos? Como assim mais ou menos? — Ele passa a maior parte do tempo aqui, mas ainda não nos juntamos, se é essa sua preocupação. E outra coisa! — caiu a ficha que ele não tinha o direito de falar assim comigo — Além de ser dona do meu nariz, me respeita! Sou sua irmã mais velha! Luiza levantou os olhos e fiz sinal que iria a estrangular! Passei o telefone e ela ficou toda sem graça. Junior estava muito enganado pensando que poderia se meter desse jeito na minha vida! Ele tinha vinte e oito anos e desde que assumiu a gerência da pousada dos nossos tios, estava se achando a última ruffles do pacote! Nossos tios estavam morrendo de orgulho dele, o que só fazia aumentar-lhe o ego. Também... meu primo Sandro resolveu se assumir e se mandou para viver com seu bofe magia em Macaé! Vida louca... Ainda me lembro, no Ano Novo o sem noção resolveu presentear os pais, levando o Gui pra conhecer a família, ficamos de cara! Tipo, uma coisa é “ será que ele é?” outra coisa bem diferente é ele aparecer com o boy lá em pleno Ano Novo! 48


Carol estava mais animada que nunca, chegou primeiro que todas e já foi logo se enfiando apartamento adentro, fuxicando nas coisas do Théo, cheirando, analisando, fazendo várias caretas! — Menina, mas esse homem é muito chique... Olha só essa gravata lilás! Débora você já viu a marca dessa gravata? É Chanel! Que tipo de garoto de programa usa gravatas Chanel? Débora! Você reparou nisso? — Lógico que eu reparei! E também me liguei que boa parte desses luxos, somos nós quem vamos bancar nos próximos meses! Sua piranha! — Ah deixa de ser escrota e aproveita então, otária! — Aproveitar o que exatamente, sua quenga? — O homem! Sua burra! Um homem desses, com uma piroca dessas a gente não encontra por aí não, eu mesma já andei conferindo essa semana umas coisas que... Deus me livre... cara, ontem fui lá na boate que te falei na Barra, com a Michele, garota... acabei me rolando num canto com um gato! Mas quando botei a mão dentro da cueca dele.... Puta que pariu... — O quê? Era pequeno? — Pior. — Pior como? — O cara tinha piru de bengala. — Como é piru de bengala? — a essa altura já estava rindo. — Ué, bengala! Não sabe como é uma bengala? Fina e torta na ponta. — O quê? — cai na gargalhada — Você tá zuando... — Não tô não! Tirei foto e tudo! — Mentira! 49 Foi quando ela puxou o celular do bolso e me mostrou, não sabia se continuava tendo uma crise de riso ou se me lamentava. Caralho! O cara tinha mesmo a piroca mais torta da face da Terra! Era grosso na base, perto da pélvis e ia afinando e na ponta entortava pro lado esquerdo de uma tal maneira!


Nunca vi algo assim antes! — Amiga que roubada! — Pior é que ele queria que eu chupasse, vê se eu tenho cara de quem fica chupando caramelo natalino? Tentava parar de rir, mas a Carol é mestra em falar coisas sérias como se fosse uma piada! — Fuder, nem pensar! Como é que isso aí entraria em mim, nem que ficasse brincando de bambolê! — ele ficava virando o quadril num semicírculo e eu me acabando de rir! Nesse momento, as meninas começaram a chegar, trazendo cada uma o combinado. Eu daria as bebidas, elas os aperitivos. Estava tudo tão animado que até me esqueci por um momento do Théo. Carol estava inspirada na bobeira! Luiza radiante com as roupas intimas que estava ganhando. Só mesmo um conjunto que a Geovana deu que não daria nela de jeito nenhum, Luiza é muito magrinha e muito pequenininha, o conjunto rendado extremamente sexual de cinta liga, meia, sutiã meia taça e calcinha fio dental ficou parecendo uma fantasia de carnaval! Rimos à beça dela! — Experimenta você, Débora. Com seu tom de pele moreno vai ficar melhor que em mim! — Luiza era bem branquinha de cabelos curtos castanho escuro, parecia uma sósia da Branca de Neve. — Tá! Vou experimentar! — já estava muito chapada a essa hora, de tanta caipirinha de vodca misturada com cuba libre. O conjunto caiu perfeitamente em mim! 50 Apareci na sala, vestindo a lingerie, e coloquei um sapato de salto vermelho de vinil só pra zuar mesmo. Comecei a dançar conforme elas ficavam cantarolando música de streap tease. Não é pra me gabar não, mas meus cento e dez de quadril fazem a diferença numa dança dessas em que a gente vai rebolando até o chão e isso pra mim,


sobre um salto agulha não é nada! Quem aguenta ensaio da Mocidade meses à fio, uma reboladinha sensual até o chão é fichinha! E estava eu, rebolando quase encostando a bunda no chão, de costas para as meninas e resolvi subir como uma dançarina de poli dance, empinado a bunda exposta com um fiapo microscópico que desaparecia por baixo da cinta liga, me sentindo a Beyonce do Largo do Machado! Joguei minha cabeça para trás, levando meu cabelo junto, que bateu feito um chicote no meio das minhas costas e me virei toda sensual pra olhar as meninas. Elas estavam gritando horrores, e dei de cara com Théo, parado na porta da sala. Ninguém o viu chegar! Aquela cara de safado dele, me deixou com uma leve contração no baixo ventre. Que nervoso! Ele estava segurando o lábio inferior nos dentes, de olhos semicerrados e fazendo que sim com a cabeça. Gelei. Parei toda sem graça. E foi minha reação totalmente inesperada que fez com que as meninas se virassem para ver o que havia me feito paralisar. Théo. De calça social grafite e blusão social branco, com um paletó pendurado no braço cruzado, me encarando. — Oi Théo! — Carol estava muito mais embriagada que eu! — Meninas esse é o noivo, namorado marido da Débora! Éramos dez no total, uma zona do cacete, todas pra lá de Bagdá! Cerveja, Vodca, caipirinha, rum e muita tequila foram o combustível alcoólico para nos manter no brilho! Elas começaram a rir e a gritar “ Hmmm, Debinha", "arrasou meu bem!” entre outras coisas... 51 Théo cumprimentou a todas meio por alto e veio até mim. Me deu um


selinho atoa com a mão na minha cintura. — E aí Théo? Tá aprovada? — Será que a Carol não sabia calar a boca?? E eu morri! Quando ele me apertou a cintura e deslizou a mão até minha bunda apertando de leve e me puxando pra ele. Depois se virou pra Carol e respondeu... — Essa já é a roupa da nossa Lua de mel? As meninas gritando e rindo ainda mais! E eu com a cara no chão! Mas aí me deu um calor absurdo, ainda com a mão na minha bunda, colou seus lábios na minha orelha, sussurrando... — Muito gostosa. Tô de pau duro querendo meter fundo nessa bocetinha melada. Senti latejar lá em baixo e um arrepio percorreu minha nuca. — Deixa de ser safado. — Não tem como. Vou tomar um banho e tocar uma punheta pensando na recepção que tive. Théo acenou para as meninas como se estivesse encabulado e seguiu pra dentro do quarto. As meninas ficaram eufóricas com a chegada do Théo. E tenho certeza de que ele ouviu os gritinhos agudos que elas dispensaram quando ele fechou a porta do quarto atrás de si. Não demorou nada pra que fossem embora! Luiza levou os presentes e Carol decidiu que a festa continuaria no apartamento dela, mas foi a última a descer. Claro! Precisava me dar instruções! — Se você não der pra ele, nossa amizade acaba hoje! 52 — Você tá louca?! — Você que tá de não aproveitar! São dezoito mil Reais! Acorda sua retardada! — então gritou bem alto — Tchau Théo! Estamos indo! E saiu do apartamento empurrando a língua na bochecha, me dizendo “ paga um boquete!” De repente me vi no apartamento, sozinha, na maior bagunça de papel de presente rasgado, copos espalhados pra todo lado, restos de salgadinhos em bandejas e um garoto de programa possivelmente se masturbando no meu


banheiro. Fui trocar de roupa, aquilo estava tudo muito insano. Já estava sem o sutiã, indo o mais rápido possível pra que... não adiantou porra nenhuma, Théo abriu a porta do banheiro e deu de cara comigo, de cinta liga branca, meia calça oito oitavos branca, sapato vinilico vermelho de salto alto e de seios de fora. Primeira reação, impulsiva - cobrir os seios com as mãos. Primeira reação dele, sorrir de lado com a maior cara de safado que eu já vi na vida! Segunda reação, involuntária – sentir meu sexo se apertar, umedecer e latejar ao mesmo tempo. Segunda reação dele, tirar do tronco a toalha que lhe cobria a nudez, revelando sua ereção. Ficou se tocando, puxando seu pau na mão, alisando do tronco a cabeça exposta, sem deixar de me encarar. Não era uma dessas picas gigantescas, do tipo tripé vinte e cinco centímetros... que a gente costuma ver nos filmes pornô, mas devia ter uns vinte centímetros com certeza! E era grosso, muito grosso, era de fato como na foto da internet. Foi inevitável não encarar aquela coisa com as veias saltando, ele continuou se tocando e eu encarando boquiaberta, paralisada, sentindo mil coisas ao mesmo tempo. As comparações são inevitáveis, João era muito menor que o Théo! Na grossura então, nem se fala! 53 — Você quer que eu te fôda, tá morrendo de vontade de ter uma pica de verdade te penetrando, não é? Eu não conseguia falar nada só fiquei parada, feito uma idiota. Théo deu o primeiro passo, me senti empurrada por uma força estranha, e dei um passo também em direção a ele. Ele se sentiu mais confiante e deu os três últimos passos que faltavam para


estarmos tão próximos que era possível sentir seu hálito mentolado. Théo esticou as mãos e tocou meu ombros de leve, descendo para meus braços, os descruzando da frente dos meus seios. Me expondo a ele, numa lentidão ao mesmo tempo sensual e angustiante. Meu coração batia na garganta, então ele diminuiu ainda mais a distância entre nós, me olhando nos olhos, maxilar tensionado, as narinas sutilmente dilatadas, mas a respiração dele era controlada, enquanto a minha era exaltada, exasperada. Engoli em seco. Théo molhou os lábios na língua e tocou minha boca suavemente, meu corpo inteiro estremeceu quando senti seu membro em meu umbigo, duro, excitado, faminto. E foi por estremecer e suspirar que ele descolou nossas bocas bruscamente. Me olhou com os olhos semicerrados, de um para o outro, acho que na minha cara estava estampado um pavor absurdo! Senti o membro dele relaxar um pouco e Théo se afastou. Respirou muito fundo mesmo, soltando o ar pela boca de uma só vez, pegou uma muda de roupas quase que correndo e saiu do quarto, sem dizer uma só palavra. E foi estranho porque assim que ouvi a porta da sala bater, uma música do Leny Kravitz começou a tocar, não me lembro de tê-la colocado na playlist. E também não combinava em nada com o momento do chá de lingerie! Calling all angel. http://www.kboing.com.br/lenny-kravitz/1-50152/ Sabe quando dá vontade de chorar? Me senti assim e não pude evitar as lágrimas, aquela música malditamente romântica tocando e eu me esvaindo em 54 lágrimas e coriza, tomei um banho rápido e vesti uma camisola de algodão e me deitei.


Foda, a música ficou repassando na minha cabeça! “ Toda minha vida, Eu tenho esperado alguém para amar” aquela voz triste cantava, eu realmente não me lembro de deixar essa música pra tocar. Não consegui pregar o olho, fiquei rolando de um lado a outro horas e horas e quando ouvi o barulho da porta fiquei nervosa. Olhei no celular, quatro da madrugada. Me virei de lado, fingindo dormir, ele voltou! Mas só entrou no quarto muito tempo depois, ficou com a porta aberta, eu fingi estar dormindo, mas abri os olhos bem pouquinho e pude vê-lo escorado no portal, cabeça reclinada também encostando no portal de madeira, me olhando um bom tempo, pensando em alguma coisa, então esfregou o rosto e andou até o outro lado da cama, se deitou ao meu lado sem fazer muito barulho. — Débora. — não respondi, fiz que estava no décimo sono! Então ele entrou para baixo do lençol que me cobria e se aconchegou a mim. Meu coração disparou, o corpo dele estava quente e podia sentir cheiro de whisky, ele passou o dedo de leve no meu cabelo, tirando-o do meu rosto, tentei manter a respiração controlada, mas tudo o que consegui foi prendê-la. Morri quando senti seus lábios tocando meu pescoço ao mesmo tempo que seus braços me puxavam pra ele, me colocou recostada em seu bíceps, minhas costas em seu peito e seu braço direito enlaçando minha cintura. Suspirou e voltou a respirar normalmente e seu braço relaxou, deixando o peso em meu corpo. E foi aquela respiração que me acalentou a alma e adormeci. 55


8. Abri os olhos por culpa da claridade e.... bem, por causa de uma coisa me cutucando a bunda. Olhei de esguelha e era real, Théo estava ali comigo, ressonando bem baixinho, e eu com um sorrisinho bobo no meio da cara. Não dava pra ser perfeito né? Mas até aquele ronquinho baixinho o deixava sexy. O cabelo caia um pouco sobre o olho fechado e os lábios dele estavam entreabertos, tentei não fazer movimentos bruscos para descer da cama mas assim que me afastei um tantinho atoa ele me puxou com tudo me agarrando forte e aquela coisa dura logo de manhã roçando na minha bunda. Ele continuava dormindo, mas havia parado de ressonar, tentei me afastar novamente, estava estranho aquilo ali, minha camisola mais parecia uma blusa, toda embolada acima da cintura e a mão dele sobre meu abdome. Os dedos dele começaram a deslizar para cima, eu paralisei, meus olhos estavam pra lá de arregalados e então senti seus dedos em meu mamilo, acariciando tão delicadamente quanto se estivesse passando uma pluma. Meus olhos de arregalados começaram a se fechar aos poucos, revirando e revirando, minha respiração presa se esvaindo de meus pulmões lentamente, a mão que outrora era delicada se fecha de uma só vez em meu seio, de repente a voz rouca me alcança os ouvidos e todos os pelos do meu corpo se arrepiam! — Aonde você pensa que vai? — Fazer xixi. — Fazer xixi? Eu disse isso mesmo? Senhor eu disse sim! Foi mico, mas ele me soltou na mesma hora. E eu como sou muito inteligente saí correndo para o banheiro. Como um leão enjaulado (no banheiro de quatro metros quadrados), andando de um lado a outro, o que fazer? O que fazer? Não tinha nem como ligar pra Carol! Ah! O que estou pensando? A primeira coisa que aquela maluca me diria é: dá pra ele!


Será que devo? Não que eu não possa, afinal de contas como diria a Lady Kate, eu tô pagando. Meu coração a mil migrou do peito pra minha garganta, começava a suar. Banho! Um banho frio vai resolver a situação! 56 E foi isso mesmo o que fiz me enfiei por inteiro debaixo do chuveiro e quando saí... estava morrendo de frio e de vontade de transar com ele. Escovei os dentes, fiz o máximo de hora possível! Mas em algum momento precisaria sair e foi isso que fiz, saí! Disposta a me jogar naquela cama e me jogar naqueles braços musculosos e cheguei cheia de atitude no quarto, praticamente jogando os cabelos, toda sexy, enrolada na toalha e.... Ué, cadê o cara? Meu narizinho foi agraciado pelo aroma do café que invadia o quarto. Ouvi os passos dele e me virei, estávamos ambos de toalha, ele também tomou banho. Ele tomou banho? No banheirinho de empregada? Mas lá só tem água fria! — Quer? — O quê?? — cara! mais é um mico atrás do outro, fiz uma cara de espanto achando que ele estava se oferecendo, mas estou tão paranoica com isso de sexo que nem me dei conta da xícara que ele esticava na minha direção. E foi aquele sorrisinho dele que me fez despencar do mundo da lua. — Café. — Ah! É, é.. er.. am... é ... — dei uma risadinha do tipo hi hi hi, balançando a cabeça em negativa, Meu Deus abra um portal para outra dimensão e me suma daqui! Responde alguma coisa sua maluca! É, não saiu nada da minha boca, eu só estiquei a mão e peguei a xícara fumegante, bebi um pouquinho, bem devagarinho, afinal, estava pelando! E ele tomou o dele. — Hmm, gostoso. — elogiei, estava mesmo.


— Eu sei. — ele passou a mão livre no abdome. Eu não acredito que estava se referindo a ele próprio! Segurei a dignidade e fui me vestir, ele saiu do quarto ainda de toalha e entrou no banheiro. Coloquei um conjunto simples de calcinha e sutiã, um short jeans e uma camiseta branca. Théo surgiu ainda de toalha, barba feita, muito cheiroso. Passou por mim e ficou nu, sem o menor constrangimento e só então foi vestir uma cueca. Fiz de 57 conta que aquilo tudo era muito natural e fui saindo de fininho pra arrumar a bagu... Cadê aquela bagunça absurda? Ele arrumou o apartamento? Mas em que momento ele fez isso? Fiquei bege! Fui até a cozinha e estava tudo lavado, tudo organizado, que loucura! — Preciso fazer uma observação, Débora. — se escorou no portal da cozinha. — Tá, mas espera um segundinho. Você arrumou tudo? — ele fez que sim e colocou mais um pouco de café na xícara, contou mentalmente as gotas de adoçante enquanto seus lábios se mexiam sutilmente. — Obrigada, puxa, isso foi muito gentil da sua parte! — O que? Lavar uns copos? — Amm... por tudo! Lavar, arrumar e bancar o noivo tesudo... E qual a observação quer fazer? Olha se for pelo dinheiro já está na sua conta desde sexta! — É sobre você. — O que... o que... eu? O que tem eu? — Apenas uma observação. — Théo deu uma golada no café e me olhou nos olhos — Você está a fim de mim? Ai Jesus Cristo. Senti meu queixo bater de nervoso, então me virei pra pegar... pegar... er... a manteiga! Na geladeira. — Que bobagem é essa? De onde tirou isso? — Do beijo de ontem, da sua reação hoje quando acordamos, do quanto demorou no banheiro, deixa ver o que mais... e da maneira como gagueja quando


fala comigo. — Cara, seu ego é mesmo muito inflado né? — Meu ego? Vai querer me convencer que não tá ficando maluquinha comigo?! — Não estou nem um pouco, eu sou lésbica se quer mesmo saber. Desde que meu namorado terminou comigo. — bati a porta da geladeira, irritada! 58 — Então tomou banho frio só de onda né?! — Agora ele estava rindo novamente e na minha cara. Se aproximou normalmente me imprensando contra a geladeira, colocou a xícara dele sobre a pia e voltou seu olhar pra mim. Minha respiração novamente me deixando na mão! Meu coração é um traidor miserável! Pulando como se tivesse corrido a maratona da São Silvestre! Aquele corpo todo em cima de mim, me inebriando com seu perfume, com seu peito desnudo, com aquele abdome definido, com aquele cabelo úmido e as mãos, ai, as mãos segurando firme meu quadril e os olhos castanhos esquadrinhando minha alma. Seja forte, seja forte! Não me movi um milímetro e ele sorriu. Mas que merda! O que será que ele estava pensando? O que? Pior ainda foi quando mordeu o lábio enquanto enterrava ainda mais os dedos na minha pele e foi até minha orelha mordiscar o lóbulo, me deixar sem fôlego, sem ação, sem lembrar nem mesmo o nome da minha mãe! — Lésbica né?! Sabe Deus de onde tirei forças, mas me desvencilhei dele e fui para o corredor, soltando de uma vez o ar. Droga! Parece que voltei aos meus quinze anos! O mesmo aperto na barriga, as tremedeiras na perna, tudo, tudo! Por um homem que vende sexo! Fui o mais rápido possível para o quarto que havia feito de escritório,


precisava trabalhar, ou fingir pelo menos! O vi passar e voltou já vestindo uma camisa. — Vou sair, querida. — debochado, desgraçado — Não precisa me esperar para o almoço, na verdade, devo voltar só na quarta-feira. — Quarta-feira? — Quarta-feira. Tente não se matar com aquele vibrador, e não estou falando do bullet na gaveta de calcinhas não, mas daquele disfarçado de soldadinho inglês. 59 Acho que abri uma boca tão grande que era possível encaçapar uma bola de basquete dentro dela! Como ele sabia do...? Aff... Como não saberia? Esses brinquedinhos ele devia conhecer todos... Fiquei tão passada com o que ele disse que além de não responder nada, fiz questão de não ligar, nem mandar nenhuma mensagem! Assim que pisei no escritório no dia seguinte, Carolina veio com um mega sorriso. — E aí? — E aí que ele é um grosso! — Ah disso a gente já sabia né?! Quero saber se foi gostoso?! Fiz uma tromba gigantesca e Carol envergou a boca num bico de lado. — Ah fala sério, Dé. — Nenhuma palavra quanto a isso! — O cara tava lá disponibilíssimo, gostosíssimo, mercadoria paga e você de babaquice! — Tem coisa muito mais importante que fuder com um prostituto. — Como o que por exemplo? — Você por acaso se deu conta que não sabemos nada desse cara? Nem onde mora, qual a rotina dele, o nome dele! — eu enumerava nos dedos. — Pelo menos sabemos que ele não tem Aids. — Aff... não dá pra conversar com você. — Tá e você pretende investigar o Théo... Ela falou de brincadeira, mas a sobrancelha esquerda que levantei a fez revirar os olhos. Estava tão preocupada com meus sentimentos (a fatídica constatação de estar apaixonada pelo Théo), que me esqueci completamente na análise que


solicitei na Junta Comercial. 60 Abri meu e-mail e descobri o nome do dono da Galáctica S/A, Paulo Couto do Nascimento. Peguei o endereço e não quis saber de porra nenhuma. — Aonde você vai ô maluca? Tem reunião de coordenação às duas! — Ainda são dez da manhã, relaxa, volto em tempo, qualquer coisa, tranca o banheiro dos deficientes e diz que estou lá com diarreia! — Ah! Capaz! — Fui. Saí discretamente e alcancei o primeiro taxi que passava, muita sorte, seguimos para o endereço da Galáctica S/A. — É aqui, moça. — Ah obrigada. — Paguei ao motorista e desci do taxi um tanto quanto chocada. Estava em um bairro decadente da zona norte do Rio, perto da linha do metrô, tudo tão estranho, conferi novamente e era lá mesmo, apertei o interfone do 302 e uma voz masculina atendeu. Disse que era do senso e ele abriu a porta quase que de imediato. Cara, ninguém é visitado pelo senso! E se alguém diz “ sou do senso”, as pessoas correm pra participar da pesquisa! Agora eu peguei aquele filho da mãe arrogante! Subi os lances da escada quase colocando os bofes pra fora! Dei uma respirada e toquei a campainha, a porta nem olho mágico tinha, ele abriu a porta de uma só vez e nos encaramos. 61


9. Estava vestido com uma roupa simples, jeans e camisa de um deputado estadual, baixinho, careca e com uma baita barrigona! — Por favor senhor, bom dia, antes de mais nada, gostaria de falar com Paulo Nascimento. — Sou eu. — Você? Não é não! — Sou sim! — Não é não! Claro que não é! — Ô moça, a senhora tá doida? Ah! Já sei... — ele colocou a cabeça pra fora do apartamento olhando o corredor — é pegadinha! — Não. — fiquei confusa — Desculpe, mas o Paulo que conheço tem quase 1,90 de altura, é forte, atlético, meio loirinho, olhos castanhos amendoados e tem um sinalzinho discreto no canto direito do lábio superior, braços musculosos, peitoral largo, seguido por um abdome definido e bem marcado, as coxas são grossas e torneadas e... O homem me olhava espantado, Deus eu estava toda derretida pra descrever o Théo, ou Paulo, ou seja lá quem ele for. — Senhorita, não tem ninguém aqui com essa descrição não, eu que moro aqui. — ele bateu na pança de Sancho, é, tá na cara que esse homem não era nem de longe o Théo. Então inesperadamente ele puxou a identidade da carteira em cima da mesa, é... era Paulo Couto do Nascimento, o baixinho gorduchinho. Me desculpei e fui embora. Que absurdo! Ele usava um endereço fantasma e um laranja! Ou... esse cara estava escondendo o Théo de mim! Agora isso virou questão de honra! Na terça-feira pedi pra uma colega do trabalho ligar pro celular dele e perguntar se ele estava disponível. Expliquei que se tratava de uma brincadeira


62 com um amigo antigo de faculdade, um trote bobo. Carol ficou indignada, ela achava que eu deveria estar fazendo outra coisa, ao invés de procurar, como foi que disse... ah sim, chifre em cabeça de cavalo. Quando a Fatinha ligou ele disse que não estaria disponível por um longo período. Pelo menos me deu exclusividade. Isso foi uma coisa que gostei de saber. Quarta-feira, dia muito chato, cheio de problemas no trabalho, me aborreci como nunca antes com um colega, isso é tão desgastante, odeio essas discussões sem fundamento nem finalidade. Cheguei ao meu apartamento um pouco mais tarde que de costume, o dia foi mesmo complicado. Joguei a bolsa sobre a cadeira e percebi que não estava sozinha, a sala toda cheirava a comida, ai que fome, que cheiro bom... — Théo? — Oi, já chegou? — perguntou ainda na cozinha, e então surgiu na sala. Sei que abri a boca, porque isso foi muito mais forte que eu! Mas também, puta merda! Ele apareceu de calça jeans preta, sem camisa e com o meu avental xadrez, que ficou lindo nele, e extremamente sensual. — Oi, boa noite. — tirei os sapatos, Théo veio em minha direção e os tirou da minha mão, me dando um selinho com gosto de vinho, um não, foram dois, minto foi um selinho e um outro beijo mais demorado e mais úmido, que obviamente correspondi. Tomei um banho rápido, não queria deixa-lo esperando pra jantar, além do mais meu irmão e a Luiza estavam à caminho. Théo me serviu de uma taça de vinho tinto seco, nem acreditei quando vi a mesa, linda! Tinha até um vaso com flores do campo. O jantar que ele preparou também surpreendeu demais! Medalhão de mignon ao tornedor, arroz de brócolis e batatas souté.


Posso definir agora a refeição? Incrível! — Jura que foi você quem fez? 63 — Claro que fui eu. Gostou? — Tá sensacional! Delicioso! — Seu dia foi estressante? Está parecendo. — Muita coisa. — Quer me contar? — Quero. — respondi com sinceridade, queria mesmo dividir — Tudo começou quando me deram um contrato pra analisar de uma empresa de prestação de serviços, mas então descobri que eles não entregaram os documentos de seguro de vida do pessoal, e como uma das cláusulas é o cumprimento do seguro de vida, mandei parar a medição, medição é o pagamento... — expliquei — só que o coordenador tem algum tipo de ligação com esse gerente... Enquanto eu contava tudinho o que aconteceu detalhadamente, Théo continuava comendo, mas prestando a maior atenção! E vez e outra balançava a cabeça confirmando, ou assentindo pra que eu continuasse. — ...Então foi isso que aconteceu, mas o que me deu mais raiva, foi a cara de pau dele de dizer que poderia ir medindo enquanto eles acertavam os documentos! — E o valor do seguro foi pago inicialmente? Estava previsto no DFP? — Pior que estava, já foi até pago essa porra! Isso me tira do sério... — Se tem algum esquema por trás, você não pode fazer muita coisa, mas fica esperta, e mande seus e-mails sempre com cópia oculta para o seu particular, se eles liberarem a medição ainda que tenha feito a análise desfavorável o ideal é que tenha isso registrado. Sabe quando de repente a gente se liga numa coisa? Foi esse o momento. Ele percebeu que eu percebi. Porque pousei o garfo no prato ainda olhando para a comida, cabeça baixa e um silêncio insuportável.


— Com que tipo de pessoa você anda fudendo, Théo? — a pergunta saiu baixinha, mas ele ouviu, e eu ainda não o conseguia encarar, como não me 64 respondeu, eu continuei — Falar de Demonstrações Financeiras Padronizadas pela sigla... — levantei meus olhos, ele apenas sorriu um sorriso sem graça. — Conheço muitas pessoas, já estou nessa vida há muito tempo, muito mais do que gostaria. — Você não gosta do que faz, não é? — Sim e não. — Resposta ambígua, como devo entender? — Do jeito que é, ambígua, por que tudo tem de ser preto no branco, certo ou errado, sim ou não? — Eu não sei. — Mudando de assunto, seu irmão vem a que horas? — Devem chegar lá pelas nove, ele vem de Penedo. — Tá, e tem alguma coisa que queira que eu faça... Ou que não faça? — Sinceramente?... Não quero que seja o Théo, o cara que faz programas, quero que seja você mesmo. Minha resposta o fez sorrir um sorriso aberto, feliz. Terminamos o jantar ainda conversando sobre contratos e administração e foi quando o Théo deixou escapar que “ na faculdade houve um estudo de caso...” Caralho! Ele tem nível superior! Por isso tanta desenvoltura pra conversar sobre tantas coisas, deixei com que falasse bem à vontade, nada de pressionar por respostas, aceitei o que ele quis me dar. Lavei a louça e ele foi enxugando e guardando, as vezes ficava olhando ele falar e mexer o nariz tipo A Feiticeira fazendo suas bruxarias, ele tem uma mania bonitinha. A forma que seus lábios se mexiam ao falar a letra erre, diferente, acho que ele fala outra língua que não seja o português, e a forma sutil com que levantava as sobrancelhas surpreso com alguma coisa que tenha dito.


65 Ele explicava seu ponto de vista sobre o direito trabalhista, mas tudo o que podia ver era um homem lindo, mexendo os lábios em câmera lenta, com aquele erre diferente e aquele sorriso de dentes alinhados, a pintinha acima do lábio, pequenininha, estava lá, dando um charme a mais em sua boca, a essa altura absolutamente desejável por mim. Meu irmão estava demorando, como de costume, ele não entendia bem o conceito de pontualidade e foda-se o Mundo esperando pelo príncipe. E naqueles quinze minutos em que ficamos esperando o Junior, Théo colocou meu cd (já quase furado do Justin T.) e quando Mirrors começou a tocar ele me tirou pra dançar. Me pegou pela mão delicadamente me levantando do sofá e colou nossos corpos, nossos rostos, apoiando sua mão esquerda em minha escápula, forçando meu braço a ficar em posição de dança de salão. Dançando comigo, descalços, no meio da sala, desviando perfeitamente dos móveis. Me rodopiando em meu eixo e me puxando firme pra junto do seu corpo, seus olhos nos meus, e me abaixou para um beijo que não veio, a campainha tocou. Sério, se não estivesse de fato apaixonada por esse cara, teria ficado naquele instante, pior que tenho a leve impressão de que está tentando me seduzir pra isso, e o resto de consciência que tenho me diz pra fugir dele como o Diabo foge da cruz, porque provavelmente ele só quer me deixar pobre de uma vez. 66


10. Meu irmão chegou, finalmente, os apresentei e começamos a conversar sobre vários assuntos, Junior não gostou do Théo ou está se mordendo de ciúmes... acho de uma graça, o João me sacaneou até o último fio de cabelo e esse traíra o chama pra padrinho de casamento! Por serem amigos desde a infância é que ele deveria ficar ainda mais indignado pela traição do João comigo! Por isso penso que os homens são mesmo todos iguais e se defendem mutuamente. Momento chato: Junior perguntou na maior o que Théo fazia da vida e ele me olhou sorrindo, antes de responder... — No momento, a única coisa que faço da vida é cuidar para que sua irmã seja a mulher mais feliz desse Mundo. — E isso dá dinheiro? — perguntou Junior irônico. — Sim dá. — sabe quando o queixo da gente cai e o tempo para em algum ponto e não sabemos mais que dia da semana é? Pois então. — Não tanto quanto gostaria, mas dá sim. Luiza caiu na gargalhada e Junior ficou de cenho franzido e puto por Luiza estar rindo. — Desculpe amor, mas você mereceu essa resposta! Deixa de ser ridículo! Deixe o Théo em paz, não viemos pra entrevistar o noivo da sua irmã, viemos pra acertar os detalhes do nosso casamento! — Tá tudo bem, Luiza, — Théo começou a falar novamente, Deus faça-o se calar! — apesar de ser filho único, entendo perfeitamente o que deve estar se passando pela cabeça do Junior. Mas fique tranquilo, não vou fugir com a herança de vocês. Meu maior interesse nessa história é fazer a Débora feliz, cada segundo em que estivermos juntos, nem que seja só pra ficar olhando um pra cara do outro sem falar nada.


Théo me olhava de um jeito ou era eu que estava o olhando de um jeito, ou querendo que ele estivesse me olhando daquele jeito? ... tô ferrada. Ele ainda segurou minha mão e beijou o nó de meus dedos, sabe cara de besta? A minha. Aí veio o Junior pra tipo acabar de vez com a minha alegria. 67 Para tudo!!! Imagine: tá rolando um assalto e a gente faz o que? Fica quietinho e até esconde o Tablet na bunda, certo? Pois o Junior praticamente se levantou e disse: Aqui! Olha minha carteira! Voltando: — Vocês vão se casar com separação de bens né? Não, porque seria um absurdo se a Débora dividisse a parte dela nos bens que nossos pais deixaram depois de anos de sacrifício pra uma pessoa que ninguém conhece, que a família nunca ouviu falar e que de repente se enfiou no apartamento dela. —Théo me olhou estranho, com um sorriso torto, e o Junior não calava a boca, e a Luiza tentando fazê-lo parar e ele prosseguia em me expor completamente! — A Débora, pode não usufruir da parte dela na pousada, nem do restaurante ou mesmo ficar desfilando por aí de carro do ano, mas ela merece um homem que lhe dê coisas, que complemente o que ela tem. — Junior, cala a boca, você está me constrangendo. — Eu? É bom eu ser sincero e colocar logo as cartas na mesa! — Você é estúpido. Se veio aqui pra ficar destratando o Théo não precisa prolongar a visita não, pode ir. Meu irmão surpreso, jogou o rosto pra trás, piscando seguidamente, ele não esperava que eu tomasse pulso, e a verdade é que nunca fui de enfrentar nada, de ficar batendo o pé, pra mim sempre foi “ tá tudo bem”. Mas aquela não era uma


situação comum e o Théo não era um homem comum, era um garoto de programas. — Gente que clima tosco, desnecessário, desculpa Debby, desculpa Théo, o Junior está se roendo de ciúmes da irmã, só isso. — Como eu disse anteriormente, compreendo e não estou nem um pouco chateado com suas palavras, Junior, pelo contrário, isso só me faz admira-lo. — que sacana esperto! Filho da mãe! — Um homem que zela pela família, é assim que estou te vendo e realmente te respeito e admiro, pra dizer a verdade... — Théo olhou pra mim, para meus olhos — se tivesse uma irmã tão incrível e perfeita como a Déb, também estaria me preocupando, afinal um cara surge do nada e já vai morar com ela... — Pois é, como foi isso? Porque ela não me contou. 68 — Nos conhecemos na livraria do Ouvidor, começamos a conversar e acho que uma semana depois... uma semana não é amor? — fiz que sim com a cabeça — nos encontramos novamente, casualmente, e tomamos um drinque e então começamos a nos encontrar e cá estamos. — Nossa, rápido! Em o que? Quinze dias? Surpreendente! — Junior, o amor é surpreendente, a gente tá muito bem levando nossa vida e de repente dá de cara com um sentimento desses que não se pode medir ou explicar, a gente só sente e começa a rever tudo na vida, tudo. Eu tô surtando ou ele está se declarando? Eu tô surtando! Ele tá se declarando pra minha herança! Só pode! Junior seu idiota! — Isso foi lindo, Théo! Junior e eu nos conhecemos desde o segundo grau! Fiquei arrasada quando ele se mudou para Penedo, mas então ele me pediu em casamento e cá estamos! — E como é que foi esse pedido de casamento de vocês? — Junior estava bem mais tranquilo depois que Théo ficou “ amaciando a carne”,


alimentando seu ego. — Foi ela quem me pediu. Junior e Luiza abriram a boca! — Debby! — Luiza caiu na gargalhada. — Isso foi inesperado. — Junior deu uma repensada em tudo o que disse, bem não poderia ser o Théo o interesseiro se fui eu quem o “ pediu em casamento”. — Que loucura, amiga! Mas quer saber? Parabéns! Você tá certa, e tá na cara que vocês serão muito felizes! Dá pra ver que tem um amor muito grande entre vocês! — Como assim dá pra ver? — tô dando tanta bandeira assim? — Ah! Dá pra ver, vocês são lindos juntos, e ficam sempre se olhando com essa carinha de “ ownnn”. — a romântica incurável da Luiza já estava com as mãozinhas juntas abaixo do queixo, será que ela pode parar de bancar a Branca de Neve? 69 — Nesse caso, parabéns Abelhinha, e parabéns Théo... — meu irmão se levantou, e Théo fez o mesmo e se abraçaram! — Seja bem-vindo à família. — Fui aprovado então?! — Théo estava todo felizinho, devia estar somando mentalmente o tanto de grana que iria tirar de mim! Sorri, mas com uma dorzinha no peito. 70


11. Assim que Théo terminou de escovar os dentes, deu de cara com a pilha de roupa de cama no sofá da sala e eu seguindo para o quarto, puta da vida! — Que isso? — Sua roupa de cama. Boa noite. — Peraí. — segurou meu braço — Você tá puta comigo? Por quê? — Por ser tão prostituível! — puxei meu braço de sua mão e entrei no quarto batendo a porta, deixando-o com uma cara de espanto. Me deu um nó na garganta, uma raiva, um tudo! Fiquei deitadinha, deixando as lágrimas molharem meu rosto e o travesseiro. Amar dói tanto, e amar um homem impossível, ainda mais! Como pude me apaixonar por um cara que se alugou de noivo? Fiquei chorando baixinho, rolando de um lado para o outro, até pegar no sono. O celular tocou às seis, levantei com o corpo moído, uma sensação de que iria ficar gripada. Separei a roupa para o trabalho e fui direto para o banheiro, apesar de curiosa, entrei na porta ao lado do meu quarto sem espiar o final do corredor, estava um silêncio, Théo devia estar dormindo, dorminhoco. Deve estar habituado a passar o dia inteiro dormindo... Por fim saí do quarto arrumada e ao chegar na sala, encontrei a roupa de cama dobrada e o cômodo vazio. Sorri, magoada, e fui para o trabalho. Eu só pedi pra ele ser ele mesmo! Mas por que estava magoada? Será que era tonta o suficiente pra achar que ele se importaria e iria até o meu quarto, se declarar? Dizer que tudo o que disse ao Junior era verdade e que eu era o amor da sua vida? Ah! Mas que burra! Dá zero pra ela! eu sou muito iludida mesmo! Encontrei Carol no hall do elevador, esperando na fila para subir. — Bom dia, como foi ontem?


71 — Bom dia Carol, tudo bem, Junior agora tem o Théo em alta estima. — Mas essa sua cara aí, não é de que a coisa foi “ tudo bem”. Que houve? — O idiota do Junior acenou com os bens que meus pais deixaram pra gente. — Ihh... — Ih né? Bastou pro cara ser o mais fofo e sensível e amoroso dos noivos alugados. — E agora? — Agora nada. Preciso tirar esse cara da minha cabeça! O elevador chegou e entramos, junto com um bando de gente. — Tirar da cabeça é fácil, vou te dar o contrato da locação de área pra você analisar... Théo vai sumir da sua cabeça em menos de uma hora! Mas tirar do seu coração... — Me ajuda, Carol.— implorei. — Como? As coisas não são assim, amiga... senta e chora. E foi exatamente o que fiz, durante toda a manhã e boa parte do nosso almoço e Carol ficou comigo todo o tempo, me dando força, segurando minha mão, contando piada pra distrair... E assim que voltei para o escritório quase caí pra trás. Havia três dúzias de rosas vermelhas em cima da minha mesa! Quase não havia espaço para as minhas coisas! Carol segurou a boca aberta e o pessoal passou elogiando, perguntando se era meu aniversário e eu fiquei sem ação. Carol puxou o cartão. Não havia nada escrito a não ser o nome dele.... Théo. Como eu disse, o mais amoroso, carinhoso e fofo dos noivos alugados. Para minha surpresa, quando cheguei ao meu apartamento, havia comida pronta sobre o fogão, frango com quiabo, e sem baba! Ainda estava morna, mas nem sinal dele. 72


Ao entrar no quarto, meu coração deu uma martelada tão forte que chegou a doer o peito! Não havia um só canto que não estivesse com buquês de rosas vermelhas. Primeiro pensamento: Ai meu Deus eu o amo!! Segundo pensamento: Vou ligar agora pra ele! Celular em punho, euforia renovada. Terceiro pensamento: Nossa, ele está mesmo investindo na minha herança. Celular jogado em cima da mesa, olhos fechados e suspiro pesaroso. Joguei as flores, todas, na caçamba de lixo na praça. Sexta-feira à noite, dia da prova dos vestidos, Théo que habitualmente se importa com o horário das pessoas, simplesmente não me levou, nem apareceu, só uma mensagem curta, “ problemas de última hora, desculpe”. Já estava experimentando quando a mensagem chegou, Luiza escolheu o vestido lilás para mim, apesar de não ser madrinha, ela queria criar uma harmonia no altar, aff... essas decoradoras só pensam nisso... No efeito visual que daria com o meu vestido fechando na cor mais escura. As madrinhas vestiriam tonalidades diferentes de rosa, no início achei de uma breguice fora do comum para uma decoradora, mas quando ela me “ mostrou o layout”, tive que dar a mão à palmatória, ficaria mesmo lindo, as flores eram no tom rosa pálido e branco, em cachos alternados e ficou mesmo deslumbrante a montagem que Luiza fez. Infelizmente, sexta-feira foi minha vez de consolar Carol, estava arrasada ao saber que sua ex futura e novamente ex namorada estava de caso com uma outra e de viagem marcada pra Argentina. Deu uma dó absurda vê-la aos prantos e não me importei nem um pouco quando usou meu cachecol pra secar o ranho de suas


narinas, mas... me lembro de ter fechado os olhos quando ela fez isso na minha seda indiana. Ela precisava de um agito! De uma noitada na Lapa! Mas a cretina só queria se afogar num pote crocante de Haaguen Daz e ficar assistindo E o Vento Levou. Isso foi triste, fui direto para o apartamento dela, não podia deixa-la daquele jeito, arrasada, falando o tempo todo das qualidades da mulher, que havia perdido a 73 única esperança de ser feliz nessa vida, que a mulher era isso, que era aquilo... Puxa, ela ficou mesmo mal. Dormimos abraçadinhas, ela, Todynho, o York da Carol, um monte de lenço de papel emelecado pelos prantos dela e eu. Deixei com que dormisse um pouco mais sossegada, então levei o Todynho pra tosa e deixei um bilhete avisando, assim o cachorro não ficaria latindo e ela poderia descansar. Cheguei em casa um trapo, ansiando por um banho quente e torcendo para que Carol saísse logo daquela fossa, ela era sempre muito alegre e engraçada, mas quando ficava triste, ficava mesmo! Joguei bolsa pra um lado, sapato pro outro, fui tirando a blusa à caminho do quarto, desabotoando a calça social.... Abri a porta e dei de cara com uma bunda redondinha, parcialmente à mostra, de um homem lindo dormindo na minha cama, e do meu lado da cama! Pirei! 74


12. Fiquei paralisada de cara, mas cinco segundos depois só analisando. Sei lá o que me deu, cheguei perto e me abaixei para olhá-lo melhor, estava abraçado ao meu travesseiro, deu vontade de me deitar sobre ele, de beijar suas costas levemente bronzeadas, lisas de pele bem cuidada, reparei na tatuagem pequena próximo ao ombro, um círculo estranho com uma só asa, cheguei a levantar o dedo para tocá-lo, mas me contive. Sai do quarto de mansinho e fui tomar um banho, estava morta de cansada. A água caindo maravilhosamente bem nas minhas costas, o box começava a ficar embaçado pelo vapor, deixei a água cair no meu rosto, precisava de um tempo com meus pensamentos, então comecei a ouvir um barulho e me assustei. Théo estava mijando! (Não tô falando de fazer xixi não! Mijando mesmo! Aquele barulhão de urina caindo na água do vaso o mais ruidoso possível!) Levei um susto tão grande! Ele não fez cerimônia nenhuma! Se balançou, abaixou a tampa, deu descarga e lavou as mãos, será que ele não me viu ali?? Impossível! Voltou da pia e tive minha confirmação, ele havia me visto. Bateu no vidro do box me dando bom dia. — Bom dia. — respondi. Théo resolveu que precisava de um banho! Abriu a porta do box e se enfiou comigo, meu coração sacudia meu peito de tanto nervoso. A escova de dentes estava pendurada na boca, resolveu escovar os dentes no chuveiro, comigo! — Amm... Você percebeu que estou tomando banho? — Percebi. — Então me dá licença! — eu ainda tentava me esconder nas mãos. — Jura que você tá se cobrindo de mim? — perguntou com a boca cheia de espuma. Meu Deus, isso nunca aconteceu comigo e João! Mesmo quando dormíamos juntos, nunca havia ficado assim com ele.


75 — Eu quero que saia! Estou no meu momento! — Nosso momento, porque não vou sair, tenho compromisso e não posso me atrasar e também não vou tomar banho frio. — Você é muito folgado, cara! Esse banheiro é meu! — Segundo nosso acordo, o banheiro é nosso agora, portanto, me dá licença, vai se ensaboar pra lá que é minha vez agora. Ele foi me empurrando para o canto e se enfiou embaixo d’água, eu virei de costas pra ele, as mãos na cintura, indignada! — Théo! Você é um grosso! — Sou é? — de repente ouço ele gargarejando e cuspindo! Que absurdo! — Acho que sou sim. — Por que não apareceu pra experimentar a roupa do casamento? — sério que foi isso o que resolvi dizer?? — Problemas. Você não viu na mensagem? — Vi. Que tipo de problemas uma pessoa como você pode ter? Alguma emergência ginecológica? Ele começou a rir e não parou! Me virei ainda com as mãos na cintura e uma cara bem feia. — Não gosto quando ri de mim! — Então deixa de ser engraçada, ué. — respondeu sorrindo — se bem que... olhando você assim, toda molhadinha, não tenho mais nenhuma vontade de rir... Me virei novamente, mas sentia seus olhos em mim. Ele me abraçou por trás devagarinho e senti um tremelique estranho logo abaixo do umbigo. Fez questão de segurar meus seios, firme nas mãos. — Senti sua falta. Tava na cara que ele podia sentir meus batimentos acelerados. 76 Me puxou para baixo do chuveiro, me virando em seguida para encará-lo, nossos corpos colados debaixo d’água e eu quase convulsionando. A mão dele agora em minhas costas, a outra em meu pescoço, logo abaixo da linha do maxilar, — Também senti a sua. — pronto eu disse, porque era verdade e porque


aquela situação toda estava me matando! Senti seus lábios tocando os meus delicadamente, sua língua macia com gosto de hortelã acariciando a minha enquanto me puxava mais para ele, já estava me vendo sendo levantada por ele no chuveiro, sendo penetrada e fazendo amor. Fazendo amor. Que amor? Não queria parar o beijo, mesmo sabendo que nada daquilo era real. E foi Théo quem nos separou, me deixou embaixo do chuveiro e saiu se enrolando na toalha e sem dizer uma só palavra. Passei a mão no vidro para tirar o vapor e poder vê-lo. — Théo. — não dava pra minha voz sair mais fraca?! — Débora, tenho um compromisso que não posso faltar, te encontro no local do ensaio de casamento. — Tá. — “ tá?”, só isso? Faz ele ficar sua burra! Você precisa dele! Eu preciso dele, eu... — Théo. Ele abriu a porta do box mais uma vez e se inclinou para um beijo. — Quando eu voltar a gente conversa, ok? Assenti, ele saiu do banheiro. Dois minutos depois abriu a porta, já vestido. — À propósito, você é muito gostosa. E se foi. Agora imagine como eu fiquei? Bem por aí... * O espaço alugado por Junior servia perfeitamente para o ensaio. 77 Geovana ainda não havia chegado com Fernando, mas assim que coloquei os pés no salão, João foi a primeira pessoa que vi, senti minhas pernas fraquejarem, não havia sentimento por ele, mas me veio na cabeça aquela cena da boate e pra confirmar todo o nojo que estava sentindo, Letícia surgiu ao lado dele, sorrindo, então me viram parada na porta e pararam de sorrir. Dedos me tocaram a cintura, me puxou para seu lado, Théo. Lindo, calça social risca de giz e camisa social preta, o paletó pendurado no


ombro, perfeito, como um modelo de campanha de perfume importado. Nos olhamos nos olhos, ele sorriu. — Vinte segundos de atraso. Desculpe. — Tudo bem, chegou à tempo de me segurar, estou nervosa. — Não fique, estou aqui. 78


13. Não entramos, ao invés disso ele me puxou porta a fora e me escorou na parede ao lado da entrada, forçando o corpo contra o meu e nos beijamos, um beijo cheio, pleno, de medo e saudade. Às vezes parece que ele gosta de mim. E esse beijo foi um desses momentos. Senti um calafrio na espinha e uma tremedeira muito mais intensa nos joelhos. E seguiu me beijando o queixo, o pescoço, brincando com meu brinco em sua boca, mordendo minha orelha, arfei, inevitavelmente, e ele voltou a beijar meus lábios, língua sobre língua, boca colada, saliva morna e uma tensão sexual crescente. Descolamos nossos lábios em busca de ar, e rimos um pouco da situação. — Seu batom tá todo borrado. — É. Deve estar. — Já disse que adoro esse seu “ é”? — Algumas vezes. — Vai ser bom você entrar com a boca de quem andou beijando. — A sua também tá manchada. — Que bom. Entramos e dessa vez todos nos olharam, não pude evitar sentir prazer ao ver a cara de bunda do João! Théo era maior, mais forte, mais bonito e apesar dele não saber, mais pirocudo também! (o que me fez rir por dentro) Apesar disso ele não pareceu surpreso, claro, Letícia deve ter lhe contado sobre o Théo e provavelmente a fofoca do momento era sobre o “ noivo da Débora”. Limpávamos os lábios quando Luiza veio nos cumprimentar. — Oi gente! Mas vocês não se largam um minuto não é? 79 — Oi Lulu. Aproveita que está aqui e apresenta o Théo para o restante do


pessoal, eu simplesmente não tenho estômago para aqueles dois. — Pode deixar. Junior me alcançou me dando um abraço. — Tudo bem? — Tudo. — Claro que não! Meu ex namorado com minha ex amiga e eu completamente apaixonada pelo Théo. Acho que não estava me sentindo bem, de verdade. O ensaio começou mesmo com Geovana atrasada, dez minutos depois ela chegou toda esbaforida com o irmão, Fernando, que era um dos padrinhos também. Eu estava no “ altar” representando a família do noivo sendo observada por Théo, na cadeira como convidado, e eu sorrindo feito uma retardada toda vez que ele fazia mímica, cada hora falando uma coisa mais louca que a outra, João vez e outra me olhava seguindo meu olhar. Théo moveu os lábios “ quero te chupar”, segurei o riso alto e fingi uma tosse, o pastor estava falando algo sobre Deus ser a terceira presença no matrimônio eo Théo falando bobagens sem parar, me deixando à vontade, me fazendo esquecer que Letícia estava ao meu lado e João na outra ponta. De repente o vi se mover desconfortável, puxou o celular, com uma cara feia e digitou alguma coisa, arrumou o cabelo e vi seus lábios se movendo mais uma vez, pensei que teria de sair e já estava até triste, mas ele quase me fez desmaiar. Seus lábios me disseram sem que saísse um som sequer: “ eu te amo” e sorriu. Me senti pequenininha, meu coração se apertou tão forte, meu olho marejou, tentei não chorar, foi instintivo que lhe respondesse da mesma maneira, “ eu te amo”. Ele me ama. Ele me ama!


80 A lágrima que segurava bravamente escapou pelo rosto e a capturei disfarçadamente. Olhei para frente e percebi João muito sem graça, tomando conta da nossa conversa. Ah. Entendi. Agora sim estava precisando de ar, respirei fundo. Respirei fundo de novo. E de novo... e não deu. Foi só o tempo de pegar minhas coisas sobre uma das cadeiras. E foi a cena mais esdrúxula de todos os tempos, a irmã do noivo saindo correndo do salão, no meio do ensaio de casamento, sem olhar pra trás, chorando feito uma tonta desesperada. Puxei da bolsa as chaves do carro, apertando o botão de destravamento do meu civic, abri a porta correndo e uma mão empurrou o vidro fechando-a com violência. — Que porra é essa, Débora? E a otária aqui em prantos. — Querida... — Não me chame de querida! Eu não sou sua querida! E tira a mão de mim! Meu irmão apareceu na porta, estava longe o suficiente para nos ouvir, mas podia nos ver e Théo me abraçou apertando firme meu corpo. — Seu irmão está olhando. Se acalma. — Não consigo, Théo, não consigo. — eu só sabia chorar e sofrer, a dor no meu peito era tanta, não pensei que me sentiria destroçada com a situação. — Espera aqui, ouviu? Espera! 81 Théo se afastou correndo, entrei no carro disposta a ir embora, mas o vi falando com meu irmão e Junior lhe deu um aperto de mão, Théo voltou correndo e abriu a porta do motorista. — Chega pra lá, Débora. Obedeci e ele arrumou o banco e os espelhos do carro, dando a partida em seguida, e ficava me olhando preocupado, enquanto estava encolhida no


banco, chorando e chorando. O coração em pedaços. — Será que dá pra me dizer o que está acontecendo? Não dá! Não dá pra dizer que eu te amo, seu cretino! De repente ele me olha estranho. — Isso tem a ver com o seu ex namorado ou comigo? Silêncio e lágrimas caindo. — Devo entender seu silêncio como sendo comigo. De repente ele freia o carro e gira o volante seguindo o caminho contrário, e isso me assusta. Ele passa da entrada para o meu apartamento e segue adiante. — Aonde estamos indo? Foi a vez dele ficar calado e isso me matou, de medo, de ansiedade e de repente me deu um estalo de realidade, e se ele for um assassino?? E se for um maníaco do parque?? 82


14. Fiquei mais calma quando não entrou em nenhuma estradinha de terra, mas seguiu com meu carro até o Leblon e parou em frente a um prédio, o vigia se aproximou, ele desceu o vidro e nem precisou falar nada! O homem deu boa noite senhor e nós entramos na garagem. — Que lugar é esse? — Théo continuou sério, de braços cruzados, nem me olhou direito. Descemos do elevador no terceiro andar. Ele tirou as chaves do bolso e abriu a porta. Me entregou as chaves do meu carro e as coloquei no bolso. — Entra. — entrei, era bonito, decoração moderna, toda em preto e branco, sofá de couro preto e cadeiras Barcelona brancas. — Que lugar é esse? Você mora aqui? — Não. Aqui é um apartamento de apoio, sabe o que é isso? — Um lugar onde você leva suas comidinhas. — me dirigi a porta e Théo me segurou pelo pulso. — Espera. — Preciso ir embora, já estou bem, obrigada. — Você sente o que por mim? — Nossa! Que direto! — Não te interessa! — Você me ama? — Você tá louco? Como amaria um garoto de programas? Ele me tomou os lábios com urgência num beijo fora de qualquer controle, com vontade, com tudo. E me arrastou numa onda de inúmeras emoções das mais loucas e imprevisíveis! E senti suas mãos percorrendo meu corpo, me apertando, me querendo, me explorando, e não consegui me desvencilhar de seus braços que me 83 puxavam de encontro ao seu corpo, segurava minha nuca enquanto explorava minha boca, mordia meu pescoço ao ponto de me ferir, eu gritei, ele segurou meus cabelos nas mãos puxando firme meu rosto pra trás, arrancando meu último


suspiro de sanidade. Apertando minha bunda, diminuindo a distância já ínfima entre nós, e eu senti minha cabeça girar e girar enquanto era conduzida por um turbilhão sem fim de desejo, de vontade de amar, praticamente implorando para ser dominada e contida, para ser amada e desejada, querendo que ele fizesse exatamente o que fazia. Segurando meu corpo firme nos braços, mordendo meu maxilar, arrancando os botões da minha roupa sem o menor cuidado, puxando meu sutiã pra baixo, tomando meus seios em sua boca, sugando desesperadamente meus mamilos como quem suga o néctar da vida. Era bom e doloroso. E minhas mãos lhe puxavam os cabelos, e gemia e arfava e implorava por tê-lo em mim, por não saber mais como me segurar, por não conseguir mais frear aquele impulso, e sentir o seu calor, seus beijos cálidos em minha pele, sua saliva, sua língua, seus lábios, seu rosto no meu corpo. Estávamos ofegantes por culpa daquele beijo insano e ele me olhou nos olhos, parecia descontrolado, estava confuso e desesperado e não sei mais como interpretar tanta angustia em seu olhar, mas era assim, e Théo segurou meu rosto, parecia louco e triste. Suas mãos em meu rosto, seus olhos nos meus. Me largou de uma vez, rápido, assustado e eu não sabia o que fazer, o que estava acontecendo, então ele se afastou como se diante dele estivesse o Diabo, como se me temesse, fiquei aturdida, sem saber o que fazer ou o que pensar. — Desculpa, eu não posso. — se virou de costas e eu fugi. Apertei seguidas vezes o botão do elevador e por não aparecer de imediato, desci correndo pelas escadas, mas antes de sair prédio afora, sentei, meus lábios inchados, não sabia o que fazer ou o que estava sentindo ou coisa alguma.


Estava no terceiro degrau. Sem ação, coração à mil. 84 — Meu Deus, que merda é essa? — senti a respiração voltar pouco a pouco ao normal. Olhei meu estado deplorável. Da minha blusa não sobrou um só botão, fiquei sem saber o que pensar, o que estava acontecendo. Ele me ama? Ele me odeia? O quê? Não, espera aí! Isso não pode ficar assim, como que ele me diz, “eu não posso” e eu saio correndo? Mais indignada que corajosa subi novamente aquelas escadas e esmurrei aquela mesma porta branca até que ele a abriu. Estava descabelada, ofegante, cheia de raiva, de dúvidas e de amor. Ele me olhou com o cenho cerrado parecia ter a mesma raiva que eu. Empurrei-o e entrei, a blusa aberta, sutiã de renda preta aparecendo e.... — Eu quero que você me fôda! Ele se aproximou ainda com raiva no olhar. Então prossegui. — Eu paguei por isso! Cumpra a sua parte, michê! Théo parecia ferido e ao mesmo tempo com ódio e arrancou minha roupa em seguida, mordendo meu ombro, beijando, me puxando pelo pulso até o quarto e me jogou na cama com colcha de camurça preta. Bati de qualquer jeito contra o colchão e ele arrancou a própria roupa se jogando em seguida em cima de mim, nu, segurando minhas mãos nas dele, apertando desconfortavelmente meus dedos, meu pulso, tomando minha boca como se fosse morrer se não o fizesse, como se quisesse me matar por ter de fazê-lo. Abriu minhas pernas nas dele e se forçou contra minha calcinha. E então fechou os olhos da maneira mais dolorosa que já havia visto. E isso me machucou. — Théo... Para. — sussurrei e ele parou, me olhando tão terno, de cenho cerrado, e respiração ofegante — Espera. Desculpa. 85


Ele desabou ao meu lado, o braço escondia seu rosto. — Isso não tá dando certo. — ele me deixou confusa com essas palavras. — O que não está dando certo? Você quer romper o acordo? E ele disse as palavras que jamais pensaria ouvir de um profissional do sexo. — Quero. Porque... — Por que... — Porque eu tô apaixonado por você, Débora. 86


15. Meu mundo desacelerou até parar completamente. Eu nem bebi nada hoje e já estou tendo alucinações? Ouvindo coisas? — O quê? — O que o quê? — Por que não pode continuar? — Já disse, não quero que pense que me aproveitei de você. — Peraí, como é que é? — Pra isso, quero romper o acordo, não quero que se sinta seduzida, estuprada ou seja lá o que for. — Você tá de sacanagem? Para tudo! Eu ouvi quando ele disse: eu tô apaixonado por você, Débora, ouvi ou não ouvi? Ouvi? Meu Deus o que eu tô fazendo? Eu tô pirando aqui! Me levantei ainda sem muita reação e fui até a sala catar minhas roupas do chão, Théo veio atrás. — Eu... — Théo, nem pense em romper o acordo, seria a humilhação suprema e você não vai me fazer passar por isso! — Débora... — Nos vemos no segundo ensaio, na semana que vem. E saí. * Dirigi ouvindo a maldita música do Justin Timberlake, mirrors, e chorando e cantando e estacionei na garagem do prédio, chorei tanto que adormeci no carro. Levantei já de madrugada e entrei no apartamento. Haviam trinta ligações no meu celular, cinco da Carol, cinco do Junior e vinte do Théo. 87 Não respondi a ninguém. Passei uma manhã de domingo de merda! Me escondendo do Mundo, enrolada no edredom num puta calor lá fora e eu


com o ar condicionado ligado no máximo do frio. Me acabei num trakinas meio a meio e foi essa minha refeição. Peguei no sono e quando o sol já estava sumindo senti uns dedos no meu cabelo. Despertei assustada, Théo. — O que você tá fazendo aqui? — Recebi uma mensagem da Carol, pra ver o que está acontecendo com você e te encontro assim. — Assim como? — Um lixo. Olhei séria pra ele. — Théo, dá o fora. — Não mesmo. Você tomou banho hoje? — Não. — Claro que não. — Só falta dizer que estou fedendo. — não quis saber de coisa alguma, acho que até queria espantá-lo quando cheirei minhas axilas, mas o invés de ter repulsa, ele riu. — Não tá fedendo não, só está com a mesma roupa de ontem. — Não sei o que me deu. — Você surtou. Colocou pra fora toda a raiva que estava sentindo por tudo que aquele babaca do seu ex te fez passar, só isso. — Me desculpa? — Não tem nada pra ser desculpado. — Théo olhou o pacote de biscoitos sobre a cama — Você comeu, hoje? Comida? Fiz que não. 88 — Imaginei. Observação: enquanto estava largada na cama, Théo preparou talharim ao sugo. (O melhor que já comi) Me levantou da cama e me despiu, isso está se tornando um hábito. Mas a cada vez que me vê nua, sinto-me menos constrangida. Despiu-se também e entrou comigo no chuveiro, esfregou minhas costas com bastante espuma, e começou a conversar sobre um programa bobo de televisão e começamos a comparar com The Big Bang Theory.


Théo passou a esponja em meu abdome, ainda de costas para ele e encostou nossos corpos, fechei os olhos ao senti-lo, apoiei minha cabeça em seu ombro, ele desceu um pouco a esponja até a parte interna da minha coxa e subindo lentamente alcançou meu sexo. A esponja caiu no meu pé, Théo manteve a mão direita sobre mim, levou a mão esquerda do para meu seio. A mão direita se manteve em concha em minha pélvis e me apertava com cuidado rotacionando os dedos sempre que chegava na direção de meu clitóris. Gemi baixinho. — Assim? — me perguntou, não consegui responder — É? — ele insistiu. — É. — respondi gemendo e senti o sorriso se armando em minha orelha. — Nunca quis tanto fazer amor com alguém quanto quero com você. Mais uma vez estava ouvindo coisas, essa falta de sexo anda mexendo demais com meu cérebro. — O que? Théo me virou me abraçando e esperou até que eu abrisse os olhos. — Eu disse que quero fazer amor com você. E de repente minha mente voou como um abutre sobre a carniça e me lembrei do Hyundai e do “ apartamento de apoio”, das roupas e perfumes importados, sapatos italianos, Junior falando dos nossos bens. Mas ele estava me olhando nos olhos, e havia uma tremenda confusão de sentimentos, a mesma confusão que vi no apartamento do Leblon. De repente ele se esqueceu de tudo que havia me dito? Fiquei tão confusa... 89 — Então faz. Faz amor comigo, Théo. — ignorei totalmente meu bom senso. — Não posso. Quero, mas não vou. — ele não ignorou o meu bom senso? E lá estava ele com aquele papo novamente. — Porque... — Porque não posso misturar as coisas. — Que coisas não quer misturar?


— Desculpa, Déb. — voltou a me abraçar e deixou um selinho na minha boca — Vem, vamos comer comida de verdade. — Isso não se faz, você está sendo cruel. Sabe o que ele me respondeu? Nada! Sorriu e me fez um carinho no rosto. Pela segunda vez, esse cara quer me enlouquecer? 90


16. Carol havia se recuperado da dor de cotovelo, hmmm... mais ou menos. E estávamos decidindo no pedra, papel e tesoura entre almoçar no vegetariano ou no galeto. Eu precisava do vegetariano, essas comidas do Théo estavam me engordando! — Ai merda! Caralho! — Que foi, Carol? — Você tá surda? Merda! Pisei numa porcaria de uma merda de cachorro, que ódio! — Relaxa, esfrega o sapato ali no matinho. — Ai que inferno, odeio isso! Se eu pego esse vira-latas do caralho eu colo o cu dele com super bonder! — Você precisa comer, está começando a ficar estressada. — Estressada vou ficar se não comer um galeto! É sério, preciso de um peito assado e batatas coradas! — Aff... vai catar mulher na praia então! Peito assado e batatas coradas. — falei com deboche e ela acabou sorrindo. Eu rindo um pouco mais. Ela jogou pedra, eu papel. — Há! Ganhei! Papel enrola pedra! Otária! — Vou acabar já com essa alegria... A quantas anda você e o Théo? — Putz, acabou mesmo com minha alegria, meu sorriso se apagou imediatamente. — Sei lá... é estranho pra caralho. Desde o domingo que rolou aquele lance no chuveiro e a macarronada que a gente não tem ficado muito tempo sozinhos, sexta-feira é o chá de panelas, você vai né? Porque preciso de carona — Carol respondeu que sim com um aham e seguimos para o vegetariano — Ele ficou de passar lá só pra me buscar e me deixar em casa, sábado tem o último ensaio de casamento e aí sim vamos ficar mais tempo juntos.


— Sei não, pelo que você contou, esse cara tá afim sim de você! — Ou tá me seduzindo pensando na minha grana. 91 — Ou isso, também. — Você já pensou em ir lá no endereço que ele te levou e perguntar sobre o proprietário? — Até pensei, mas aí podem me dizer que é o Paulo Nascimento e eu vou pirar! Outra vez... — Acho que você tá precisando de sexo com urgência... — Você acha? Eu tenho certeza! — Tá mas e aí? Hoje é quarta-feira e ele não apareceu no seu apartamento? — Isso que é o mais estranho, eu chego em casa e sei que ele esteve por lá, deixa janta pra mim, vê se pode?! — É.... por dezoito mil.... ele tem que comparecer com algum tipo de comida né? — Deixa de ser ridícula. — meu celular apitou uma mensagem, puxei pra ver enquanto entrávamos no restaurante — Falando no Diabo... — O que ele quer? — “ Débora, vamos jantar juntos hoje?” — citei a mensagem e fiquei olhando pra Carol com cara de espanto e de boba, ela também me olhava com a mesma cara de boba espantada. — Hmm... promissor. Digitei a resposta que sim, queria mesmo saber o que ele estava planejando. — Se tudo der certo, amanhã estarei com cólicas e não poderei comparecer ao trabalho. — Dei uma fungada e fiz uma cara estranha, olhei pra Carol — Nossa! Que fedô! Carol é você! Carol começou a rir. — Vai se fuder! E não muda de assunto não! Tomara que amanhã você não venha, já estou ficando com nervoso dessa palhaçada de vocês. — Não é palhaçada, o cara é um michê, pelo amor de Deus....


— E isso não te impediu de se apaixonar por ele. 92 — Ele vai me dar um golpe, Carol. — Só se você deixar. E quer saber? — a voz dela soava um tanto irritada — Não acredito que ele vá te ferrar. Acho mesmo que ele está interessado, mas a cada vez que vocês estão juntos você tem que jogar na cara dele que ele faz programas! — Ah! Legal, estou ferindo a autoestima e o orgulho do piranha. Ah, Carol, faça me o favor... — Se desarma um pouco, tá bem? E não surta! Só relaxa... mas não assine nada! O garçom apareceu para anotar os pedidos e de repente fez uma cara de quem tá com nojo, cobri o rosto com o cardápio, ele escreveu bem rapidinho e saiu. Carol colocou o cabo da faca no alto do cardápio e foi abaixando o caderninho até dar de cara comigo segurando o riso. — Nenhuma palavra sobre isso. Eu bem que tentei ficar na minha, mas um colega nosso passou ao lado da nossa mesa assim que chegamos, ele é um viado muito discreto... — Credo, vocês estão sentindo um fedor de merda de cachorro? Ai que nojo! — Não... — Carol respondeu no maior cinismo e saiu apressada pra lavar o sapato no banheiro, não aguentei, tive que rir da cara dela. * Assim que cheguei em casa, estava rolando um clima romantiquinho, velas acesas, música ambiente, mesa posta e Théo, muito bem vestido com as mãos nos bolsos, a roupa social lhe cai perfeitamente bem, ele tem um ar sofisticado, um garoto de programa de luxo, com certeza. — Boa noite, querida. — beijou minha mão tão de leve que mais pareceu um sopro, me olhando nos olhos. — Está linda com esse vestido preto.


— Boa noite, querido. — respondi com a mesma cortesia, mas que mentira, não era só cortesia porra nenhuma. — Você também está demais com essa roupa. 93 Sentamos à mesa e Théo nos serviu um jantar muito diferente, era num pão italiano parecido com uma broa, mas a casca era muito dura e dentro havia um picadinho de carne cremoso, tipo um escondidinho, diz ele que o nome é picadinho fondor, seja qual for o nome, estava uma delícia! Vinho tinto seco, igualmente delicioso. — Vinho muito gostoso! — É italiano, da região da Toscana, meraviglioso! — caraca! O tal erre que ele puxa é italiano! — Que lindo você falando em italiano... Fala mais... — dei uma derretidinha pra ver se ele solta a língua né?! — In tutta la mia vita, non ho mai pensato di trovare una donna come te. — Como é que é? Me comer? Você só sabe falar de sacanagem Théo?? — Fiquei indignada! Ele começou a rir. — Não ragazza, eu disse que em toda a minha vida, nunca pensei em achar uma mulher como você. — Ah. — hmmm abafa... que mico! — E é verdade. Obrigado por jantar comigo hoje. — como assim, hoje? — Estamos comemorando alguma coisa? — Oficialmente meus trinta e quatro anos. — Ah meu Deus! — levei as mãos à boca tentando esconder meu espanto — É seu aniversário! Parabéns! — segurei-lhe a mão e ele apertou meus dedos nos dele. — Obrigado. Nossa, de repente eu fiquei triste, tipo, ele estava comigo e não com a família dele? Que horror, que... triste. — O que foi, Déb?


— Nada, eu só... pensei que... Tem certeza de que é aqui que deveria estar hoje? Tipo, aqui? — indiquei a mesa de jantar e a mim com o dedo. — Apesar de ter de sair daqui a pouco... — ele olhou em volta, depois olhou pra mim — é... exatamente aqui, com você que gostaria de estar, na data de hoje. 94 Portanto sua misericórdia é dispendiosa e desnecessária. Prove essa casquinha do pão com o azeite. 95


17. Revirei a arara novamente, não havia nada do meu gosto, nada que fosse a cara dele. — Recapitulando, ele disse que era com você que queria ter passado o aniversário dele e você não agarrou o cara?! Olha sinceramente Debby, você é uma Deb’il mental isso sim! Gente mais é muito lerda! Muito mesmo! — Não fala assim comigo não... poxa, você não entende? Não é só uma transa, gosto dele, de verdade. — Eu sei que ambos os dois se gostam! Ah! Já entendi isso é tipo um fetiche sexual né? Pra aumentar a libido, dar aquela explosão na hora do prazer... saquei... — irônica e debochada, recebeu em resposta meu dedo médio. — Vamos? Não tem nada aqui pra ele. — Por que... você... não compra uma lingerie bem bonita e amarra uma fita vermelha na cintura com um laçarote? Ou melhor, espera ele chegar só com o laçarote amarrado na cintura. Presentão! Como está sua depilação? Em dia? Tive de rir. — Sim, está em dia, no estilo militar que uma perereca deve ter. Carol riu da minha cara. — Sei, máquina um na testa e zero nas laterais. — Isso aí. Pernas e axilas zeradas. — Se bem que você nunca teve muito pelo nas pernas... — É Deus me ajudou nisso. — Então ajuda Deus também, amiga, mais oportunidade que ele tá dando pra vocês dois não há! No fundo sabia que a Carol estava certa, desejava tanto o Théo e não era possível que estivesse mentindo tão descaradamente pra mim. Eu acho. Mas também já me enganei tanto com as pessoas que... Respirei fundo, repensei bastante em todas as nossas conversas e quando saímos do trabalho fomos a um 96 empório muito bom na zona sul e comprei uma garrafa de vinho tinto


italiano, da região da Toscana, tá, não foi o presente ideal, mas foi bem original. Recebi uma mensagem do Théo na quinta-feira, era bem fofinha, logo de manhã cedo “ acho que o sol se levantou hoje só pra te dar um beijo por mim”. Imagina minha cara? Amei. Assim que cheguei ao trabalho passei o celular pra Carol ver e ela fez um coração com as mãos e olhinhos piscando sem parar, a mensagem instantânea de um sistema do trabalho apitou, Carol, “ love is in the air, baby!” Às dez recebi outra mensagem, “ que dia chato, ainda bem que vamos nos ver amanhã :)”. — Olha, Carol! — Lindinho, responde alguma coisa. — O que? — Qual a primeira coisa que vem na sua cabeça? Sorri diante dos meus pensamentos, mas constatei algo sobre Carol, tinha certa dúvida, mas agora... — Carol, você realmente não pensa antes de fazer as coisas não é?... — E perder a originalidade? Jamais! Acho que ela tá certa. E foi por isso que respondi “ tem razão, o dia tá um saco, queria fugir daqui pra te ver ;)” Nem um minuto e a resposta! “ Sério?”. Ora claro que eu estava falando sério! “ Muito sério, Théo”. Virei o visor pra Carol, que revirou os olhos. — Me dá isso aqui! Vocês... — enquanto falava digitava e me ignorava completamente! — ... são mesmo duas lesmas... Pronto. Toma essa porra e me deixa trabalhar. 97 — Caraca. Caraca. Ai meu Deus! Você não pode ser minha amiga! Você tá louca?? — Ah Débora, vai tomar nesse cu e me deixa trabalhar. Théo não respondeu de imediato e fiquei aflita, não sabia se deveria mandar outra mensagem dizendo que foi a Carol, ou se esperava pra ver no que ia


dar... Comecei a tremer de nervoso. Precisava de uma água. Assim que voltei vi Carol colocando meu celular na mesa, tentando disfarçar e corri pra ver o desfecho. — Você… não é normal, mulher! — Não tem de Que. — E lá estava a Carol se metendo na minha vida mais uma vez... — Mas Deus existe! — mostrei o visor e ela revirou os olhos. “ Que dia chato, ainda bem que vamos nos ver amanhã :)” - T “ Tem razão, o dia tá um saco, queria fugir daqui pra te ver ;)” - D “ Sério?” - T “ Muito sério, Théo”. – D “ Você não percebeu nada ainda???” – D “ Eu? :¹(“ – T “ Chora não :(“ – D “ Te amo, Théo s2” – D *falhou* * Mais uma sessão de ficar me revirando de um lado a outro na cama, não conseguia dormir pensando na mensagem que falhou e o que aconteceria se ele a tivesse recebido. Poderia aceitar bem, poderia aproveitar pra me roubar, ou poderia dizer “ não estou interessado em nada sério”, muita coisa. 98 23H17, meu celular apitando, meu coração disparando, estava me sentindo com dezesseis anos novamente. “ Esqueci de dar boa noite!” – T “ Tô acordada. Não consigo dormir.” – D “ Tô muito longe, ou iria agora mesmo ficar com você!” – T _ Com isso ele me fez sorrir. “ Tá longe quanto?” – D “ Chile :( “ – T _ Me levantei de imediato, Aonde?? Ele tá de sacanagem! “ Tá com mulher? ~~” – D _ Precisava saber!!! “ Ciúme?” – T “ Preocupação. Espero que se lembre do nosso compromisso de amanhã.


Seja Profissional!” – D _ Ai que ódio do Théo!!! “ Sim senhora, conforme acordado. Boa noite.” – T 99


18. Conforme o combinado ele me buscou em seu Hyundai Sonata, vestido elegantemente, como se tivesse acabado de sair do trabalho. Apresentei-o a algumas pessoas, Théo sempre muito educado e diria até, sedutor. Mas assim que entramos no carro, ele mudou completamente. Ficou frio, distante, pensativo, mal nos falamos e aquilo me deixou com uma sensação de vazio enorme. — Não vai conversar comigo, sério isso? — Sobre o que a senhora quer falar? — Para com isso, Théo. — Sim senhora. — e voltou a se calar. Longos minutos se passaram até que o vi quebrar a postura de estátua para balançar a cabeça em negativa. — O que você estava fazendo no Chile? — Trabalhando. — Pensei que havia me dado exclusividade. — Não mesmo. Senhora. — Mulher? — perguntei com uma sobrancelha levantada. Théo me olhou e por um segundo achei ter visto um sorriso atravessar seu rosto. — Mulheres. — Muitas mulheres? — estava ficando irritada, sei que estava. — Oito mulheres e quatro homens. — falou com tamanha naturalidade que me fez abrir a boca espantada! Ele conseguiu encerrar a conversa. Fiquei calada olhando a rua passar. Depois me veio o pensamento: será que ele só falou isso pra me chocar? 100 Por fim ele parou diante do prédio, desceu e abriu a porta pra eu sair. — A senhora precisa de mais alguma coisa? — Não. — Então, boa noite. — mas ao entrar no carro, me lembrei de algo. — Espera! — ele desligou o carro e ficou me olhando — Espera um instante.


Subi apressada e corri até meu quarto, peguei o pacote e desci apressada, mas com cuidado. Théo abaixou o vidro do carona e lhe entreguei o presente. Ficou me olhando intrigado. — Pelo seu aniversário. — Obrigado, não precisava se incomodar. — Não foi incômodo algum. Boa noite. — ah! O cara estava cheio de palhaçada, também não fiquei correndo atrás não, entreguei o presente, dei boa noite e nem esperei ele abrir, pra saber se gostou, dei as costas e já estava para subir quando meu celular tocou. “ Perfeito. Vem comigo, beber esse vinho.” “ Não sei. Você está muito chato.” “ Você é uma mulher difícil!” “ Você é um homem complicado!” Então a voz dele atravessou o hall de entrada... — Vem logo! — o celular ainda estava na mão quando sinalizou impaciente que fosse com ele. E eu fui. Atravessamos novamente a cidade, dessa vez não parou no Leblon, mas atravessamos quase o Rio todo, nossa que exagero, mas atravessamos as praias até quase voltar pra Barra, entramos na Estrada do Joá e ele continuou seguindo. 101 Mas durante o caminho começamos a conversar sobre o chá de panelas, contei sobre os absurdos que aconteceram com Luiza, sobre o gogo boy que as madrinhas contrataram e nessa hora ele tirou a atenção da estrada pra me olhar de cenho cerrado, mas não falou nada. Paramos próximo a uma floresta e Théo apertou um controle preso no quebra luz do carro. O portão de madeira se abriu, revelando uma casa bem grande, com


pedriscos amarelos na entrada e grandes janelas envidraçadas, um jardim lindo cheio de vegetação tropical. — Théo, onde estamos? — eu sei, minha voz soou desconfiada, mas sei lá esse cara é tão enigmático! — Na casa de um amigo. — respondeu secamente. — Amigo? — Amigo. — É aqui que você fica? — Algumas vezes. Vem, vamos colocar esse vinho pra gelar. A casa era mais bonita por dentro que por fora, o piso de tábua corrida em tom marfim, as paredes brancas revestidas de quadros de Romero Britto e Tarsila do Amaral. Théo se antecipou por alguns cômodos, como se estivesse verificando estarmos sozinhos. Isso me preocupou bastante. — Théo, a gente pode estar mesmo aqui? — Sim, fique tranquila, só estou vendo se os cachorros não estão soltos. — tirou os sapatos e os deixou num canto. — Cachorros? Que cachorros? — me apavorei e ele ficou rindo, como sempre, rindo da minha cara! Então sumiu pra dentro da casa com o vinho e voltou com uma garrafa gelada da mesma marca. Foi o que me fez sorrir. 102 — Acertei então? — Em cheio. Achei uma delicadeza da sua parte ter se atentado ao local da fabricação do vinho. — Achei uma delicadeza da sua parte, Nossa. Théo ligou o som baixinho, Jason Mraz cantava ao mesmo tempo sensual e alegre On love, in sadness, enquanto tirava a camisa para fora da calça. Abriu a garrafa e nos serviu. Matamos a primeira taça, rindo e falando amenidades. Sinceramente, estou apaixonada demais por ele pra me importar em como ele ganha a vida. Só de ver aquele sorriso, ver como ele pisca demorado


quando falo alguma coisa que ele não espera ouvir, demorado, não em câmera lenta. E a forma como franze o cenho pensando no que responder. — Você fica linda quando fala de trabalho. — Obrigada, eu... gosto de conversar com você, sobre tudo. Théo sorriu e se aproximou mais de mim, tirando a taça de minha mão para juntar-se à dele sobre a mesa de centro. Seguindo meus lábios com o olhar, sorrindo quando eu sorri, olhando meus olhos, umedecendo os lábios e encostando nossas bocas, eu só queria sentir, nada mais. A suavidade do seu toque, a maciez de seus lábios, o meu sendo devorado pelos seus dentes que me mordiam de leve. A língua que tocou a minha, morna, gosto de uva madura, dançando das papilas à ponta. Senti meu rosto ser tocado por seus dedos que me acariciavam a pele próximo ao pescoço. Sua respiração quente. Outra mão me tocou o ombro apertando-me sutilmente. O beijo interrompido, abri os olhos, ele buscava os meus olhando de um para o outro, boca entreaberta, querendo beijar mais. A respiração se acelerando pouco a pouco, a minha, a dele. Me puxou para seu colo, no sofá, me pondo de frente, enlaçando meu corpo nos braços me levando a ele para colarmos nossos lábios uma vez mais e outra vez nossas línguas se encontraram na fronteira de nossas bocas. O beijo interrompido novamente, abri os olhos mais uma vez para encontrar os de Théo e então ele falou baixinho... — Quer tomar banho comigo? — isso me fez sorrir. 103


19. Nossa, tomar banho? Eu queria tanta coisa com aquele homem, queria tomar banho, andar de mãos dadas pelas ruas, dormir e acordar com ele, comer com ele, ser comida por ele. Tudo com ele. Assenti bem sutilmente e ele me segurou nos braços se levantando comigo no colo, foi me levando por um corredor largo, algumas portas adiante e entramos em um quarto amplo, de poucos móveis, e durante o trajeto não desgrudamos nosso olhar, sorrindo como dois bobos. Théo me deixou sobre a cama e se afastou um tanto, tirando a roupa, primeiro a camisa, depois a calça e ainda de cueca boxer sentou ao meu lado na cama e virei as costas para que pudesse deslizar o fecho da blusa, e o fez lentamente, deixando rastros de um beijo demorado conforme desnudava-me. Por fim libertou-me da blusa e do sutiã em seguida. Os dedos percorriam minhas costas numa carícia suave, me abraçou colando seu peitoral em minha pele, as mãos à frente desceram até o botão da calça, abrindo-a facilmente. Théo foi se inclinando aos poucos para trás, me levando com ele, minha cabeça em seu ombro, minhas costas em seu peito, suas mãos em meu ventre, as minhas subiam para lhe acariciar os cabelos. A braguilha fechada não o impediu de tatear meu sexo nos dedos de sua mão direita, enquanto brincava com o mamilo de meu seio esquerdo. Leve, sutil, com calma. Minha respiração cada vez mais intensa e seus dedos acariciavam preguiçosos meu clitóris, seu membro tomando volume cada vez mais atrás de mim e eu não podia mais medir a intensidade de desejo que havia em mim. — Théo. — gemendo seu nome ele se apiedou de mim.


Tirou as mãos de mim, mudando nossas posições e se pondo em minha frente, tirou minha calça e a calcinha de uma só vez, ainda de cuecas se deitou sobre mim, me fez revirar os olhos quando sua saliva tocou meu seio, senti como o gotejar de algo fervendo, doloroso, tamanho era meu desejo diante da lentidão daquela tortura que ele me impunha. 104 Então fechou os lábios em volta da auréola, sugando e movendo sua língua para cima e para baixo, ao redor, e por fim mordiscou meu mamilo, arrancando um gemido alto de meus lábios que ele não mais ignorou, beijou-me com urgência e vontade. E quando soltou nossos lábios ruidosamente senti seu coração pular. Se levantou respirando fundo e soltando de uma vez pela boca. — O que foi? — perguntei aflita. — Ainda não. Vem. A ducha era gigantesca! Incrível! Parecia banheiro de hotel, maravilhoso! Apesar dos meus olhos escaparem vez e outra para a ereção crescente de Théo, tentei me controlar. Foi inesperado que ele iniciasse uma conversa enquanto pegava o sabonete líquido e fazia uma espuma na esponja. — Ontem, conheci um casal muito interessante. — hmmm... Ai meu Deus, que tipo de conversa teremos?? — Interessante como? — Théo passou a esponja pelo meu braço, segurando minha mão. — Eles eram bem velhinhos mesmo. — Por acaso você não? ... Ele deu uma parada com a esponja e sorriu balançando a cabeça. — Não. Pode tirar essas ideias da cabeça. — Voltou a me ensaboar e se abaixou para seguir pelas minhas pernas — Eles deviam ter mais de oitenta anos,


ih bem mais. — Hã... — Estavam comemorando bodas. — Hmm... Nossa que bom, ainda estavam lúcidos. 105 — Muito lúcidos, achei interessante... O senhor me disse... que a gente só conhece a mulher quando dorme com ela. — Como assim? Théo se levantou, me olhou de um jeito divertido. — Serei fiel às palavras dele. Meu filho, a gente só conhece a mulher quando dorme com ela, aí a gente fica sabendo se ela é espaçosa, se é carinhosa, se ronca ou se solta muito pum. Gargalhei na mesma hora! E Théo riu comigo. — Que loucura! E você decorou direitinho o que ele disse né?! — peguei a esponja das mãos dele por instinto e lhe esfreguei as costas. — Pensei em você. Fim de risadas, apenas um sorriso se apagando aos poucos. — Em mim? — Théo se virou pra me olhar. — Lembrei de quando dormi ao seu lado e você mal se mexeu... só... dormiu. — Ah. — Eu queria tirar a prova. — Tirar a prova? — Dorme comigo, Débora. — Só... dormir? Ele revirou os olhos, balançando a cabeça em negativa. E me puxou para um beijo. Então prendeu minhas mãos contra o azulejo, tocando nossas testas. — Você pode dormir depois de fazer amor comigo. — Parece que estou tendo um déjà vu. Já não tivemos essa conversa antes? Lembro muito bem quando me disse que não queria misturar as coisas. — Continuo não querendo, mas sinceramente... tá foda. 106 Busquei seus lábios e recebi um beijo diferente, ao menos pra mim foi,


havia mais que o Théo profissional naquele beijo, quem me tocava a língua com carinho não era um michê, era um homem que também sente desejo e vontade de se deitar com uma mulher. E eu sabia no momento em que me enrolou na toalha, enxugando a água do meu corpo que era mais do que ele deveria dar como garoto de programas. A forma como me olhou, sorriu, acariciou meu rosto, havia mais dele ali. Eu não estava enlouquecendo, aquilo era real, era o Théo aprofundando nosso beijo, me deitando na cama, beijando cada milímetro do meu corpo. — Eu acho que sei, como você gosta. — Também acho que você sabe. — Quando disse que queria te chupar, não estava brincando. É, ele sabia muito bem ao abraçar minhas coxas e percorrer sua língua úmida em meu sexo, ele quase me enlouqueceu quando fechou os lábios em um beijo intenso no meu clitóris e eu podia sentir seu sorriso em meu sexo e ele podia sentir meu desespero ao mordiscar meu clitóris e continuou naquela loucura, com a textura de sua língua misturada ao calor de sua boca e a umidade de sua saliva, fazia questão de me fazer perder os sentidos soltando a respiração quente em mim. Então inesperadamente puxou os grandes lábios numa chupada e me vi em desespero, tentando me agarrar em algo, e só encontrei seus cabelos, mas foi tão rápido e logo em seguida manteve-se atento em como me fazer quase ter um orgasmo, eu disse quase, porque na hora H ele parou. E arrastou seus beijos até meus seios e novamente um turbilhão de sentimentos, de euforia, de prazer. E mais uma vez estava entorpecida por seus beijos, mas ele parou. — Você.... é.... sádico! — Não sou não. — se inclinou sobre mim e puxou uma camisinha da mesa de cabeceira, rasgou o pacote e começou a desliza-la em seu membro.


— Com certeza é. 107 — Você é dessas que comem a sobremesa antes do prato principal? — Não, mas é que... Nunca... — Você nunca teve um homem de verdade. Deixa eu te mostrar como é que um homem de verdade come uma mulher. Théo levantou um tanto meu corpo nas mãos, segurando minha cintura, me olhou nos olhos deixando o cuspe cair em meu sexo, e senti uma angustia, desejo, eu latejava e ele me olhando com um sorriso safado no rosto. Se deitou sobre mim, senti o peso de seu corpo, mas não era desconfortável, era bom. E seu membro roçando a entrada do meu sexo, brincando comigo, me deixando enlouquecida, e foi se arremetendo para dentro pouco a pouco. Senti algo diferente, me senti plena, ele me preenchia por inteiro e seguia devagar, acho que estava com medo de me machucar, então parou, me olhando, tentando decifrar o que eu estava sentindo e por não conseguir eu lhe disse. — Por favor não pare. Recebi seu sorriso em resposta, mas um sorriso misturado com satisfação, ele fechou os olhos por um segundo, a respiração estava irregular, acho que estava angustiado com toda aquela lentidão, então sei lá por que empurrei meu corpo de encontro ao dele. Théo inspirou de maneira sôfrega, com os olhos fechados, lábios entreabertos e mandíbula cerrada. Foi soltando o ar pouco a pouco, prendendo o lábio nos dentes e se lançando para dentro de mim, ainda que ele nem ao menos se movesse dentro de mim, tenho certeza de que eu gozaria, mas ele fez, fez muito bem feito, apoiando o corpo no antebraço, me beijando vez e outra, me penetrando mais e mais fundo. Deixou um gemido baixo e rouco escapar, então parou. Tirou seu membro de mim virando-me de quatro e me penetrando em seguida. De uma só vez, pude


senti-lo batendo fundo e gritei, um belo e sonoro Ahh! E Théo me encorajou ainda mais... 108 — Isso, grita, grita meu amor, grita porque você tá sendo bem comida. Grita que eu quero ouvir. — e meteu mais fundo — Grita! Porra! E eu obedeci, me deixando levar por cada sensação, da plenitude que seu membro me proporcionava, e de ouvi-lo gemer também quando o apertava por dentro. E Théo foi me entorpecendo, me tirando os sentidos ao se deitar sobre minhas costas, segurando minhas mãos acima da cabeça, mantendo um ritmo firme ao me penetrar, uma, outra, e outra estocada, numa sequência impiedosa, ao mesmo tempo que me acariciava a alma com suas doces palavras sussurradas em meu ouvido... Para ele eu era linda, “ você é linda”, eu era importante, “ tão especial”, apaixonante, “ já estava maluco por você”, que estava sendo bom, “ ai, você é muito apertadinha”, “ nossa...tá com a boceta molhadinha, tô ficando louco”. E pra um homem assim, como não atender quando ele me pede... ”goza pra mim... goza no meu pau”. E foi me conduzindo até que não pudesse mais evitar. Com ele deitado em minhas costas... De lado com ele segurando minha perna no alto... Com meus calcanhares acima de seus ombros... De quatro... Com ele me olhando nos olhos num tranquilo papai e mamãe... E foram tantas as vezes que ele trocou a camisinha que nem sei. Definitivamente, além de saber como fazer, ele tem um apetite incrível. Fui eu quem pediu arrego, estava mole, meu corpo não aguentava mais, então ele sorriu, implicando comigo...


— Fracote. — Não posso mais, Théo, eu tô acabada... — Vem cá. — Théo me puxou em um abraço, senti seu coração pulando feito louco no peito e o encarei de olhos semicerrados. — Você também tá morrendo aí! — Tô nada. — Só uma dúvida... Você tentou recriar nossos momentos no chuveiro? 109 — Achei que estava te devendo isso... — isso foi muito atencioso. — Théo... — acho que já estava quase dormindo quando senti os dedos dele subindo e descendo preguiçosamente em minhas costas — a gente pode dormir aqui? — Pode sim, dorme um pouco... Depois a gente brinca mais. Me abraçou forte e sorriu, beijando meus cabelos. E adormeci. 110


20. “ Você tá falando sério????? ^^” “ Sim!” “ Finalmente! Crê em Deus Pai! E aí??? Bom?” “ Incrível. O melhor até hoje!” “ Rôla Doce, então? kkkkk” “ Pica das Galáxias! Kkkk” — Bom dia. — o som da voz de Théo me assustou um pouco, me virei lhe dando “ bom dia” — Tá fazendo o que? — Duas coisas ao mesmo tempo. Mudando meu status no facebook e trocando mensagem com a Carol. Théo se espreguiçou e me puxou para seu peito, tirando o celular das minhas mãos. Digitou alguma coisa e me devolveu o celular. “ Depois ela te conta, agora ela tá ocupada.” — Como assim, depois ela te conta? — Pica das galáxias é? Gostei disso... As comparações são inevitáveis. Não adianta fingir que não, por que a gente sempre compara... João sempre acordava com um humor péssimo e das vezes que quis transar pela manhã era sempre depois de escovarmos os dentes ou aquela coisa rapidinha e sem graça onde só ele gozava, o Théo nem aí pra nada, não ficamos conversando cara a cara e nem poderia, ele não sei, mas eu com certeza estava com um bafinho. Tá, ele também deveria estar, afinal ele é uma pessoa, não um boneco inflável. Mas... Théo acordou de ótimo humor. 111 Fez amor comigo como se fosse aquela manhã a nossa primeira vez. E vou confessar uma coisa... quando saí da cama, estava andando com certa dificuldade, não consegui fechar as pernas de imediato e precisei de uma ajudinha, isso foi constrangedor...


— Théo, estou sofrendo aqui! — choraminguei. — Sofrendo? Como assim? — Théo se levantou e foi me ver no banheiro. Conforme a água batia eu me arrepiava inteira! E ficava na ponta dos pés, de olhos fechados, e quando os abri, encontrei o Théo me olhando com a mão na frente da boca, tentando esconder o espanto e suas risadas inutilmente! — Débora... Dé... — ele tentava falar, mas estava ocupado demais rindo da minha situação — .... meu amor, me desculpa, eu não fui gentil o bastante... — Gentil? Théo, estou com a boceta pegando fogo! Seu cavalo! Tá ardendo demais... — ele riu mais um pouco antes de pegar um tubinho no armário em baixo do lavatório. — Aqui, amor, passa isso... — ele me entregou... ele me entregou creme vaginal? — Théo por que... Como... O que... — cara, eu nem sabia o que dizer, como formular a frase, como assim gente? — Esquece, prefiro ficar na ignorância e tá doendo pra caralho! — Melhor a gente fuder mais um pouco pra anestesiar. — Hã? — Brincadeira! Vou deixar você tomar seu banho em paz... — ele ainda estava rindo quando saiu do banheiro. Théo não ficou me apressando e ainda preparou um café da manhã maneiríssimo! Ovos mexidos, suco de laranja, café e iogurte natural sobre morangos picados. Simplesmente maravilhoso. Até esqueci o incômodo que estava sentindo. Se bem que a pomada deu um alívio rápido na assadura que ele me causou... 112 Voltando ao papo do banheiro, assim que saí foi a vez de Théo e ele não demorou nada! João além de ir primeiro ao banheiro, demorava pra cacete e nunca se dignou em fazer mais que um café preto! Cara! Sinceramente, já estava começando a ficar feliz da vida por Letícia e


João! — O ensaio é antes do almoço, não é? — Meu Deus! Théo! É daqui a pouco! Caraca! A hora voou! — A hora sempre passa rápido quando estamos nos divertindo e demora muito quando a coisa é chata. — Tem razão. — concordei sorrindo. E dessa vez, fomos nós os atrasados, ainda tive que passar em casa trocar de roupas e voltar, pois o local do ensaio era próximo de onde estávamos, mas foi ótimo chegar com o cabelo ainda úmido, com cara de quem fudeu muito! (cara e corpo né... já que ainda estava andando estranho, não muito, mas uma mancadinha de leve). Também deu pra prestar atenção, bem mesmo, nas caretas que João fazia, acho que ele se sentiria melhor se me visse num desses namoricos sem futuro, ou com um cara feio, ou com um idiota qualquer, mas o Théo, era perfeito para o serviço. E era perfeito pra mim... quer dizer... mais ou menos perfeito né... Foi tudo bem marcadinho, a entrada, a cerimônia, os votos e a troca de aliança, casamento em casa é bem mais complicado que na Igreja, tem a hora do Pastor, tem o Juiz de pais do lado (mas o juiz não foi porque ele cobra por diligência e nunca que o Junior pagaria quatrocentos reais pro homem fingir que o estava casando). O Pastor da Igreja em que Luiza frequenta participou de tudo numa boa, e pra não dizer que saiu de graça, ele pediu que os noivos organizassem juntamente com os presentes de casamento, uma doação em alimentos não perecíveis para as vítimas de desabamento das enxurradas serranas no mês de Junho. Achei isso muito bacana. 113


Ah sim, a parte que mais gostei daquela manhã, João se aproximando para nos cumprimentar! Isso foi perfeito! — Oi Dé, que bom que está tudo bem... — aff... puxando assunto bem na hora que estava abraçada com o Théo. — Hmm, oi João, tá tudo bem sim e você? — Tudo... — A Letícia não veio hoje... — Ela foi fazer essas coisas de mulher, cabelo, unha... essas coisas... — Hmm, que bom pra ela, arrumar tempo pra manter a beleza. — Você também está muito bonita. — essa foi a deixa que esperávamos! — Eu sei, conheceu o Théo? — fiz questão de dizer apenas o nome dele. — É, da outra vez... seu noivo não é?... Tudo bem, cara? — Tudo bem. Cara. — Théo não foi simpático e nem deu muita atenção para o João, continuou me abraçando, mas olhando lá pra fora, achei isso o máximo. — Pensei que fossem apenas namorados... por causa da aliança... Mmmmm.... Verdade! De tudo o que havíamos nos lembrado, foi o mais óbvio que deixamos passar! — Mandamos gravar. — grande Théo! Rápido e inteligente! — A gente se vê... no casamento... — Tchau João. E saiu com cara de coitado! Há! Que se dane ele! — É, eu sei. — não precisei dizer nada! — Vamos resolver as alianças. — Pode ser depois do almoço? Estou azul de fome, Théo. — O que você quer comer? 114 — Sei lá, alguma coisa diferente... — Alguma coisa diferente... — ficou pensativo — Vamos resolver as alianças primeiro, depois preparo algo diferente pra você comer, tá bem? Meus olhos percorreram a vitrine da joalheria, escolhi a aliança mais simples, era fina e dourada, Théo não gostou muito, disse que era muito, como foi a palavra? ... modesto.


Mais é claro que seria modesta! E barata! Afinal eu pagaria! Pedi que gravassem nossos nomes e enquanto o vendedor preenchia o papelzinho da garantia, Théo pagou! Se eu soubesse que ele iria pagar tinha pego uma mais cara! Tô sendo honesta. Voltamos para a tal casa no Joá e Théo nos serviu com um filé de cordeiro e tomates assados. — Théo, você deveria trabalhar como Chefe de Cozinha, isso aqui está dos Deuses! — Querida, ficar enfiado numa cozinha todos os dias... Não obrigado. — Posso te perguntar uma coisa? — precisava perguntar! — Pode perguntar o que quiser, se eu puder responder... — O que... O que você faz quando não está? ... você sabe... — Eu... dirijo. — Dirige? O que? — Frete. — Jura? — Juro. Isso é ruim pra você? — Fiz que não de cenho serrado! E estava sendo verdadeira, não tive preconceito. Théo olhou meu prato vazio — Sobremesa? 115


21. — Como é que é? Frete? — Foi o que ele disse! Cara, fiquei até imaginando ele naquelas Kombis de carroceria... O que me dá certa pena, porque sei que ele tem nível superior... — Isso acontece muito... Mas você já pensou que ele pode gostar da vida dele? — fiquei pensativa — E de quem era a tal casa? — Menina, a casa era um espetáculo! E... Hmm, isso eu não perguntei. — Mais é burra hein! — Ei! Para de me tratar mal.... — Tá, tem razão, afinal, vocês finalmente transaram! E Isso foi muito positivo! Finalmente. — Ai Carol... Estou tão feliz e ao mesmo tempo... tão em pânico! — Pânico? Por quê? Fiz uma cara de “ fala sério” e Carol deu uma risada. — Olha pelo lado bom amiga, seu relacionamento com Théo nunca será monótono! — e caiu na gargalhada — E o que vocês fizeram no domingo? Porque liguei pra cacete e você não atendeu! — Se eu te disser você não vai acreditar. — Eu acredito sim, pode contar. — Théo e eu fomos andar de pedalinho na Lagoa, comer cachorro quente de rua. Fomos ao cinema e depois passamos o final do dia como ele gosta de dizer... brincando. — Já estava melhorzinha da ximbiquinha né taradinha?! Hmm e hoje de manhã? Deixou o príncipe dormindo? — Pra dizer a verdade ele quem me deixou dormindo. Saiu bem cedo. — Pra dirigir um frete? — Acho que sim. E aí? Vamos almoçar? 116 — Com certeza. Com certeza que não! Nosso chefe desprezível nos chamou na sala dele, para nos espinafrar! Não vou ficar gastando linha com aquele filho da puta, mas tipo, saí de lá


muito mal. Carol também, mas ficou menos abatida que eu e da sala daquele miserável saímos dispostas a mandar currículos pra Deus e o Mundo! ... — Alô, oi Théo. — Oi. Que voz é essa? — De quem foi pisoteada. — O corno do seu chefe... — É. — Déb. Por que não procura outro lugar pra trabalhar? O que esse cara faz é assédio moral. — Eu sei, mas como é à portas fechadas... não posso ao menos processálo, viado desgraçado... — Tenho certeza de que com o seu perfil vai ser chamada logo em um lugar melhor, com um patrão decente. — Tomara. E estou aceitando qualquer área, nem precisa ser em plataformas. — Vai dar tudo certo. Liguei mesmo pra saber como é que está, mas tô vendo que não muito bem... — Vai passar, estou indo com a Carol almoçar. — Três da tarde? — Pra você ver.... vamos comer um hambúrguer mesmo. — Hmm, pena que não vou poder te dar uma comida melhor hoje. — ele me fez rir. 117 — Estamos falando de algo que se digere pelo estômago? — Estamos falando do que você quiser. Também liguei pra avisar que... — Théo deu uma parada e então retomou depois de limpar a garganta de um pigarro falso — meu celular vai ficar fora de área por uns dias, mas estará tudo bem, tenho que encerrar umas coisas e.... — Você não vai parar, não é? — acho que minha voz soou decepcionada. — Fica calma, não surta! Quando eu voltar a gente conversa. — E quando você volta? — ele respondeu tão baixo que precisei perguntar


novamente. — Dia seis. — Como é que é? — Não surta! — Como não surta? Seu louco! Marcamos no dia seis de viajar! Olha Théo, se você não aparecer eu vou te matar! Carol, parou assustada, estalando os dedos na frente do meu rosto e só então percebi que estava gritando no meio da rua da Alfândega. — Théo. Théo. — eu já falava entredentes — Presta atenção, é bom você parar essas suas putarias e me levar no dia seis pra Penedo! — Relaxa. Nem me despedi, desliguei o telefone na cara dele! Carol ficou me olhando, chocada e preocupada. — Que foi isso, Jesus? Tá possuída? — Possuída vou ficar se aquele puto não aparecer no dia seis! — Como assim? — Diz ele que precisava encerrar coisas e que voltaria... quando? No dia seis! 118 — Calma, garota, o casamento é no dia sete à tarde, qual o stress? — Cara, o Théo... — Você tá mais P da vida pelo fato dele estar fazendo o que faz do que propriamente pela viagem que vai atrasar. Não é? Eu só balançava a cabeça em negativa, estava furiosa! — Sabe do que mais, você é muito romântica... achou que assim que dormissem juntos ele iria descobrir que só você existia no Mundo e puft! Iria mudar de vida... A realidade é outra chuchu. — Decepcionada. — Só se decepciona quem espera alguma coisa. Você não deveria esperar nada de um homem como o Théo, apenas aproveitar... Já estava com a boca cheia quando o celular apitou. “ Como queira, senhora, vamos no dia seis, mas à noite!” Carol sugava o refrigerante, espiando a tela do celular junto comigo.


— Começou com isso de senhora, novamente. — comentei de boca cheia, jogando o sanduiche para um canto da bochecha — Vamos pegar um puta engarrafamento! — Ei, seja amigável pelo menos, você tá jogando bem pesado com ele. — Como ser amigável? — Me dá essa caralha aqui. Carol digitou por um bom tempo e enviou “ obrigada, só fico preocupada.... não quero que se canse no trânsito, gosto mt de vc”. Fiquei olhando a mensagem enquanto diminuía o tamanho da batata frita que segurava. Por fim, percebi que dessa vez ela não fez nada demais e a mensagem que veio a seguir foi ótima! “ Linda. Também gosto mt de vc, bjs.” Foram as duas semanas mais longas da minha vida! Tudo meio que perdeu a graça de repente, e comecei a duvidar do que ele realmente sentia por mim, foram poucas ligações e poucas mensagens. Comecei a refazer mentalmente tudo o que aconteceu e... 119 — Carol. — pelo meu tom de voz, ela me olhou preocupada — Ele tá me enrolando, Carol. — Hmm, começou de nóia. — Carol, tô achando que ele não sente nada por mim, só queria se divertir mesmo. — Divertir? Como assim? — Você pagou a ele? — Paguei ué, assim que o mês virou, foi esse o combinado, além do mais fiz depósito programado e outra, você não me disse nada que não era pra pagar. — Vou te dizer o que vai acontecer, assim que voltarmos, ele vai receber a última parte e vai sumir. — Pessimismo, assim que voltarmos do casamento, vocês vão sentar e conversar. — Não vamos. Assim que der as costas ele vai se mandar. Tô sentindo isso. — Hmm começaram as previsões catastróficas da Mãe Dé.


— Ele só queria brincar comigo Carol, de repente até por pena mesmo, mas ficar me seduzindo com todo aquele joguinho de ‘não posso’, mas depois pôde... É tudo igual... Carol podia falar o quanto quisesse, pra mim estava claro o que aconteceria, primeiro de tudo, ele nunca disse que me amava, segundo, nunca disse que largaria essa vida, nem nunca me disse seu nome, onde mora, nada. Não sei nada dele.... sempre que estivemos juntos ele me enredou de tal maneira que eu me distraia de tudo e só via aquele homem lindo na minha frente e nada mais! 120


22. Sexta-feira, dia seis de Setembro, vinte e uma hora e oito minutos, Théo abre a porta do meu apartamento, com uma cara de tanto faz, desejando Boa Noite, joga as chaves em cima da mesa e se joga no sofá ao meu lado, ignorando minha cara de raiva e meus braços cruzados. Se vira e me dá um beijo. Que não foi correspondido. — Podemos ir? — perguntei me levantando. — Será que eu posso beber uma água antes? — Apontei para a cozinha com um bico torto. — Vou esperar lá em baixo, por favor traga minha mala. — Mala? Serão quatro dias! — E você quer que eu leve minhas roupas, sapatos, calcinhas, vestido de festa, shampoo, condicionador, chinelo, biquíni, chapéu de sol, cremes hidratantes, aonde? Na bunda? — Nossa, você tá pilhada... Vai descendo que eu levo suas coisas... Soltei o ar de uma vez pela boca, tipo “ que saco!” e desci. ... — Qual o problema, meu amor? Eu não tô aqui? — São nove da noite Théo, que horas vamos chegar lá? — No pior dos casos meia noite. Por quê? Saudades de ver o João? Olhei o Théo, incrédula! Ele falou mesmo isso?? — Como é? — Não tô entendendo esse desespero de chegar cedo! — João não tem nada a ver com isso! Estava preocupada com você! Passei o dia todo sem notícias suas! — Desculpe! Mas não podia ligar, só isso! 121 — Théo que tanto você faz hein?! — Trabalho, pra ganhar dinheiro. E não estou gostando do seu tom de voz, você está falando com quem? Com seu contratado ou com seu namorado? Isso me pegou de surpresa, namorado? Ele acha que a gente tá namorando?


— Namorado. — escolhi uma das opções e deixei pra ver o que ele iria dizer. — Então para de falar comigo como se fosse minha patroa, eu não gosto. Além disso a gente vai chegar na melhor hora do dia. — Melhor hora? ... — Claro. — ele me olhou com cara de safado e isso me quebrou completamente, sorrir foi inevitável — E aí? Como foi seu dia? — Foi médio... passei uns currículos... — Alguma coisa? — Tenho uma entrevista na semana que vem, esqueci o nome da empresa... Um nome diferente... mas é pra cuidar de contratos, então tá tudo certo. — E a Carol? — Sei lá... ela cismou que quer abrir uma loja de bolinho de chuva. — Tá falando sério? — me perguntou com ar divertido. — Sério! Disse que não existe loja de bolinho de chuvas e ela vai abrir uma. — Ela é doidinha... — Somos todos né Théo? Ele parou um pouco pra pensar, me olhou de cenho franzido. — Tá falando isso por quê? — Nada. — ficou um silêncio estranho e eu resolvi abrir a boca — Então, somos namorados? 122 — Bom, tenho pensado muito em você desse jeito, como minha namorada. Você quer ser? Caí na gargalhada e ele ficou ofendido. — Desculpa! Théo! É que... — mais um pouco de risadas — ...parece que voltei pra escola, mas esse seu pedido foi... fofo. — Estou confuso. Isso foi um sim... Um não? ... — Ai Théo, eu também estou bem confusa com relação à você. Ele se fez de desentendido, mas ambos sabíamos do que estávamos falando. — Como assim? — Como assim? Qual seu nome completo? Onde reside? Seu estado civil? Sabe o que você sabe de mim, Théo? Tudo. E o que sei de você? Nada. — Você se prende a cada detalhe...


— Essa é sua resposta? Que isso é detalhe? — Detalhe. Você sabe quem sou e isso é o mais importante, sabe que pode contar comigo quando precisar confirmar uma mentira pra sua família, pros seus amigos, sabe que faço comida pra você não ficar se entupindo de biscoito recheado, que te fodo com vontade, que sou capaz de te dar banho, de conversar, te ouvir. Isso é o importante. — Me diz que essas viagens que você faz não são ilegais. — Não são ilegais. Você tá achando que sou traficante? — fiquei sem graça e foi a vez dele cair na gargalhada. — Nem sei mais o que pensar! — Olha, façamos o seguinte, assim que voltarmos desse casamento, te conto os detalhes da minha vida pra você sossegar essa sua imaginação. — Tá. Mas pelo menos me diz se o seu nome é mesmo esse. — É... é? É. 123 — Isso foi ridículo Théo. E lá estava ele rindo de mim mais uma vez. Não paramos no caminho, fomos direto, estava tão cansada que dormi já na entrada de Itatiaia. Nem percebi o carro parar, olhei para o lado e nada do Théo, pela janela pude vê-lo conversando com um homem, próximo a um restaurante, cheguei a pensar que pedia informação, mas reparando bem no entorno, estávamos tão próximos da pousada, impossível se perder. O homem que conversava com ele era de meia idade, falavam tranquilamente, por fim o homem lhe puxou pelo aperto de mão que se deram e encerrou o cumprimento com um abraço. Eles se conheciam! Nossa! Alguém que conhecia o Théo! Precisava voltar naquele restaurante! Assim que se afastaram, Théo olhou para o carro e eu fechei os olhos com a cabeça de lado, melhor fingir que ainda dormia, o fato do vidro do carro ser escuro


ajudou bastante. Passou em frente ao carro e entrou, continuei paradinha. — Dé. — não respondi e ele seguiu para a pousada. Voltou a me chamar quando entramos pelo portão, ainda aberto. Abri os olhos, fingida que só a porra, fazendo de conta que havia acabado de ser acordada, olhei para o relógio do painel, quase meia noite. Me espreguicei e abri a porta do carro. Théo já estava tirando minha mala do banco de trás. — Ei, acordou de vez ou te levo no colo? — Acordei. — mentira, já estava acordada. Assim que desci do carro minha tia apareceu na varanda com um baita sorriso. Aí foi aquilo de família né? 124 “ Sumida”, “ só assim pra gente se ver”, “ tá sabendo que seu tio vai operar a próstata?”, “ menina seu cabelo tá grande, tá bonito”, “ soube que a Dona Jaciara morreu? Não? Morreu coitada”, “ mas você arrumou um tipão hein minha filha?!” Apresentei o Théo e os constrangimentos seguiram conforme o protocolo familiar... “ e vocês casam quando?”, “ tá se cuidando né?!”, “ não porque bebê tem que planejar”, “ se bem que você tá ficando velha, não pode também passar muito...”. Aff... E foi só minha tia que estava acordada, ainda teríamos de encarar meu tio, meus primos e meus padrinhos, mas... nada a fazer quanto a isso. — O seu chalé. — tia Ana me deu as chaves do meu cantinho preferido sempre que ficava em Penedo. — Obrigada, tia, estou realmente cansada, amanhã de manhã a gente conversa mais tá? — Sim, vão descansar que essa viagem quebra a coluna da gente, te contei que seu tio foi daqui em Mauá e ficou cheio de dor na lombar? — É mesmo tia? Contou não... E ele tá melhor? — É, tive que passar um remédio, mas... Sabe como é velho né?


Olhei para a cara do Théo que parecia se divertir muito com a situação. Por fim conseguimos ir para o chalé. Meu cantinho, meu quartinho, meu... — Ué, cadê a minha lareira? — Como assim? Olha a lareira aí. — Não Théo! Essa aqui é à gás! Quero saber cadê a minha lareira de pedra e lenha!! — Quer voltar lá pra perguntar pra sua tia? — me olhou tentando segurar o riso, debochado. — Melhor não. — Deixa de ser boba, você acha mesmo que vou deixar você com frio? 125 Perfeito. Um abraço perfeitamente colocado, no melhor momento, com as falas certas, na hora certa. E um celular apitando. Carol. — Chegamos agora sim, mas não posso falar. (...) Adivinha? É falta de educação falar de boca cheia. (...) tchau. Théo me olhando e segurando o lábio. — Boca cheia? ... Cheia de que? — Disso. — segurei o pau dele e Théo me beijou. 126


23. Foi a minha vez de foder o Théo. O empurrando devagarinho, vendo o sorriso lindo que ele tinha ao perceber que cairia de costas na cama e deixando. Desabotoei sua camisa de linho cinza, acesso livre ao peitoral trabalhado e seu abdome bem marcado, deslizei meus dedos calmamente de seu pescoço até o umbigo, desci mais um pouco para abrir a calça jeans escura, até então nenhuma resistência, só expectativa. Ele me ajudou com a calça e arrancou o tênis para facilitar, tirei-lhe as meias, não me cansava de olhar seus pés, eram bonitos. Voltei minha atenção para a cueca que ainda permanecia cobrindo seu membro. Mordi levemente, apenas com os lábios, por cima da cueca, foi bom ouvir um gemido curto fugir de seus lábios, mas eu precisava de mais. Tirei minha jaqueta jeans e o vestido longo em seguida, praticamente arranquei as sandálias, me deitei sobre ele tocando nossos lábios, deslizando a língua em seu maxilar, brincando com sua orelha do mesmo jeito que ele fazia comigo, mordendo seu pescoço só pra ouvir aquele “ ai”. Pressionando nossos corpos e esfregando minha pélvis em seu membro, sentindo-o endurecer cada vez mais. E segui beijando-lhe inteiro, soltando-o da cueca e segurando-o delicadamente, umedeci meus lábios, seguindo a língua no corpo de seu membro e levando a cabeça à boca numa chupada intensa. Minha mão subindo e descendo... medindo sua reação, o tanto que seus olhos apertavam quando pressionava um pouco mais próximo à glande. O jeito como seus lábios entreabriam quando tentava engolir o máximo dele.


Ele sabia que eu não poderia enfia-lo inteiro e parecia se divertir com isso, até tentei, (mas pensei que vomitaria então fui disfarçando e puxando-o de volta) até que encontrei um ponto especial, ele contraiu o abdome sutilmente e eu soube, era ali. Ele gostou quando desci uma das mãos até a base, próximo à pélvis enquanto sugava apenas a cabeça de seu pau, deslizando a pontinha da língua para cima e para baixo, segurando seu quadril com a outra mão, vez e outra o forçando para a garganta e voltando a acaricia-lo como se o beijasse de língua, 127 tocando seu membro inteiro num sobe e desce que só fazia aumentar sua vontade. Cada vez mais irrigado, mais excitado até não conseguir mais se conter. Tentou me afastar empurrando meu ombro, mantive-me firme sugando e massageando e gemendo... — ... vou... gozar... Conseguiu dizer com a voz rouca, quase um sussurro e por fim se liberou, derramando seu prazer para que o recebesse em minha boca. Queria agradá-lo, queria surpreende-lo, queria esquecer todos os pudores e deixar de lado tudo o que fosse convencional e tudo o que chamavam de "correto”. Queria me libertar, assim como ele era livre, esquecer os anos de um sexo morno e apático com João, dos envolvimentos casuais e sem emoção que havia experimentado até então... E foi por todos esses motivos, todos esses motivos importantes pra mim que o esperei abrir os olhos e me ver brincando com seu sémen na língua antes de deixar uma parte escorrer pelo canto da boca, descendo preguiçoso e grosso pelo


meu pescoço, uma outra parte descendo alcalino e rápido pela garganta adentro. Théo me olhou surpreso, parecia feliz e muito mais excitado. — Gostoso. — ele sorriu, com os olhos semicerrados. — Ora, ora, o que temos aqui... Déb, me surpreendeu... — Isso é bom. Eu quero a camisinha... — Pra quê? — olhei confusa, será que ele sugeriu não usa-la? — Ainda não vamos precisar dela... — suspendeu-me pela cintura, deitando-me em seguida, — minha vez de retribuir... Muito melhor que da primeira vez! Foi como se me conhecesse já num segundo encontro, sua boca se fechando em meu sexo, querendo me engolir, enfiando sua língua em mim, para dentro com rigidez e ao sair a amolecia aos poucos entrando e saindo dessa maneira. Chupou meu clitóris nos lábios e quase morri de tanto prazer, e continuou um ritmo calmo e intenso. 128 Senti algo novo, algo que nunca havia sentido antes, começava forte, nas paredes da minha vagina e se irradiava pelo meu corpo inteiro e seguia para meu clitóris e se intensificava no baixo ventre e era inexplicável a força com que me tirava a lucidez. A sensação se assemelhava a de um espirro, crescente e crescente e... Meu corpo se convulsionou rápido, Théo não parava um segundo, nem diminuía, nem acelerava, apenas se mantinha naquele ritmo, gemendo, degustando e senti um puxão enorme de dentro de mim, não tem como explicar o que foi aquilo eu apenas explodi e gritei e Théo me soltou aos poucos, estava com a boca molhada, o queixo, o peito, fiquei um tempo tentando assimilar o que havia acontecido. E nesse tempo o vi se abaixar até seu jeans jogado no chão, pegar algo e


voltar. Quando comecei a coordenar meus pensamentos, tudo parou novamente, ele se arremeteu de uma só vez, me penetrou com tudo, tapando minha boca para que não gritasse novamente e me excitou ainda mais vê-lo em cima de mim fazendo que não com a cabeça e seus lábios soltaram um “ tsu,tsu,tsu”. E se lançou mais uma vez sem dó, e meteu fundo, senti um leve incômodo e se lançou novamente, fundo, e fechei os olhos era bom e doloroso ao mesmo tempo, era pleno e cheio, e não havia um só espaço a ser preenchido. E me manteve um bom tempo com a boca tapada na mão, enquanto entrava mais e mais. Se apoiou no antebraço e me beijou, recebendo meus gemidos em sua boca, abafando-o no beijo tão intenso quanto suas estocadas, forte, selvagem, e eu gozei novamente, menos louco que antes, mas igualmente bom. Théo desceu uma das mãos para o meu quadril, me puxando cada vez mais para ele, com a outra mão segurou meu cabelo, e eram duas coisas completamente diferentes, ambíguas, a carícia suave em meus cabelos e o beijo amoroso contrastando com a força com que me penetrava e me puxava para ele cada vez mais. Aumentou o ritmo de repente, seus lábios já não estavam sobre os meus, seu rosto colado ao meu, meus dedos lhe arranhavam as costas e Théo gemia em 129 meu ouvido, era incrível saber que estava se deliciando comigo, em mim, um homem que já teve inúmeras mulheres sob seu corpo e era comigo que ele sentia prazer. Seu carinho era meu e meu coração era dele. Théo parou de repente, me olhando nos olhos, um Oh que nunca seria pronunciado, mudo, e um cenho cerrado e senti seu abdome se contraindo bruscamente uma e duas vezes. Estava gozando tão gostoso, lindo e sincero.


— Cazzo! ... hai appena fatto me cum così, Penso di aver trovato la donna della mia vita... — de verdade? Não compreendi nada que ele disse! Isso foi frustrante, mas ao mesmo tempo foi legal. Dá pra entender?! Apesar de não saber nadinha, achei romântico ele falando italiano no meu ouvido. Achei ter entendido o Donna della mia vita,... melhor confirmar... — “ dona da sua vida”? — Dona da minha vida? Não amore mio, la donna, a mulher. A mulher da vida dele? Foi além do esperado, então me calei, isso me assustou um pouco. Amor platônico e amor real, assim, intenso e perfeito... me deu um medo. Apenas nos aninhamos um nos braços do outro e adormeci com ele me fazendo cafuné. E foi lá pelas tantas da madrugada, um frio do cacete naquele chalé, logo o mais afastado, o meu preferido, o meu chalé! E um frio miserável! Não estava adiantando nada a porra do edredom, Théo acordou comigo praticamente tentando entrar nele. — Quer de novo é?! — Théo, eu tô morrendo de frio! E pelado foi acender a lareira, ou tentar, já que por nada ela pegou! Ele tentou mais umas duas vezes, se levantou, mãos na cintura e constatou o óbvio... — Tá quebrada. — Ah! Tia Ana! Se eu não morrer congelada vou matar aquela velha! 130 — Morrer congelada? Comigo aqui? Vai não... Théo entrou novamente debaixo do edredom, me beijando a boca, o pescoço, falando baixinho... — O jeito é a gente fuder até o amanhecer... Até o amanhecer... Muito bom... 131


24. A primeira pessoa que vi, foi justamente quem queria ver mesmo! Carolina! — Vem cá, vem cá, vem cá! — Ui! Bom dia pra você também, Déb. — Ai Carol! Ele disse que a gente é namorado, que assim que voltarmos vamos conversar sobre o que ele chama de detalhes, que vai me contar tudo! E... — enquanto eu pulava e sacudia a Carol ela ficava rindo com aquela cara de tonta que fazia bem quando estava achando a maior graça da situação. — Vocês passaram a noite toda trepando, né? — Como você sabe? — Você tá andando estranho e com olheiras profundas... — Ah! Pomada e maquiagem resolve! Ai... Carol... — falei melosa mas mudei o tom de voz pra um agressivo louco — O Théo é um cavalo! — Cavalo? Do tipo... — ela fez com a mão indicando o comprimento e eu complementei com as mãos em um círculo grande — Hmm, grande e grosso, parabéns, está em falta no mercado. — Imagina uma cobra comendo um boi. — Uma cobra comendo um boi? ... tô imaginando... — A mandíbula dela. Carol deu uma risada alta. — Nossa, sofrido hein... — Por cima e por baixo. — Não quero nem saber quando esse cara quiser comer teu cu. — Sem chance! Eu não tô afim de dar ponto nas pregas. — Hmm, falemos de outra coisa que o assunto tá vindo aí. 132 — Não conta isso que te disse! Ouviu? Théo tinha umas roupas bem legais, a blusa branca com a manga até o antebraço e gola V estava perfeito naquele peitoral largo, a bermuda jeans azul marinho também lhe caía bem.


— Bom dia, Carol. — Bom dia senhor cavalo. — Vagabunda! Saiu andando na frente. — Senhor cavalo... Débora. — Não falei nada! Você que postou uma foto nu na internet... — Sei... Tudo bem Carol, só me diz se ela deu detalhes ou parou nas preliminares? ... Carol se virou para nos olhar andando abraçados, a mão de Théo em minha cintura, a minha no bolso de trás de sua bermuda. — Vocês ficam lindos juntos. E não, ela não deu detalhes, não deu tempo, você chegou. — É, safada? — Aff... Ele me chamou de safada! Mas em seguida me puxou para um beijo. Sentamos os três para o café da manhã, a pousada estava lotada, mas o bom de ser filha de um dos donos, ainda que falecido, irmã do administrador e noivo, era ter minha mesa reservada no canto, próximo à piscina. — Gente, cadê esse povo? — constatei ao perceber que não havia ninguém da família por perto, apenas os empregados da pousada que passavam por nós me cumprimentando sempre com um “ Bom dia dona Débora”, “ bom dia”, respondia. — Acho que estão fazendo o que deveríamos estar fazendo. — O que? — Arrumando o cabelo. 133 — Hmm, é ruim hein d'eu ir arrumar cabelo... — Por que essa revolta toda? — Théo me perguntou. — Ontem gastei uma grana pra escovar o cabelo e você o destruiu em poucas horas. — Hmm... querem que eu saia daqui? O papo tá ficando meio... intimo. — Ah! Carol, que segredos temos nós três? Até o meu pau você conhece. Carol deu uma gargalhada boa e tocaram as mãos. Gente, como eles se parecem, Théo e Carol, igualmente depravados e desprovidos de um filtro que os impeça de falar besteiras o tempo todo.


Acho que é por se parecerem tanto que os adoro. Finalmente alguém da família apareceu, meu primo com o namorado. Veio andando todo sorridente e feliz da vida ao me ver. — Diva! Debby, minha lindah! — Oi meu amor! — cara como eu estava com saudades do Alessandro, ou Sandro para nós (e Sandrico para o Guilherme, mas só quando meus tios não estavam por perto). Ele é muito divertido! Muito alto astral! Sempre com um sorriso estampado no rosto e uma piada na ponta da língua. Guilherme também era divertido, mas um pouco mais contido e másculo. — San-San, esse é o meu noivo, Théo.... Amor, esse é meu primo Alessandro, e o namorido dele Guilherme. Ao se cumprimentarem Sandro virou o rosto um tanto de lado, com aquela expressão de “ eu conheço você”. — Prazer em conhece-lo. — Eu acho que te conheço. Para tudo rapidinho!: 134 Caraca, ouvi claramente o som da sineta de um ringue de box e o Mundo parou naquele segundo. Meu primo vivia em baladas gays e também em todos esses lugares frequentados por garotos de programas, boates, festinhas, e um tanto de coisas que ele nos contava. Esse meu primo disse “ acho que te conheço”. Fudeu. E de volta a realidade de um tempo que passa por minuto seus sessenta segundos por vez... — É possível, — respondeu Théo simplesmente — mas não sou bom fisionomista, então não saberia dizer de onde. — É, de repente é uma impressão mesmo. O ar saiu de meus pulmões de uma vez, que alívio! Fico de cara com o Théo, como ele é louco e como consegue sair dessas situações sem uma gota de suor na testa! Perito.


Agindo normalmente, sentamos os cinco à mesa, conversando amenidades e vendo o povo dos arranjos chegarem, a van com a comida, o pessoal do serviço, mas nem sinal dos noivos. Julguei que não havia perigo em deixar Théo e Sandro conversando e só com um olhar Carol entendeu tudo e ficou por perto enquanto fui ver meu irmão. Segui pelo corredor até o quarto dele, mas no caminho encontrei vindo na direção contrária, infelizmente, João. — Bom dia, Déb. — Bom dia, João. — e continuei andando, e ele continuou falando. — É sério com aquele cara? — dá pra acreditar nisso? — Muito sério e não é aquele cara, o nome dele é Théo. — Entendi... — dei mais um passo me virando de costas e ele prosseguiu falando — Você tá gostando mesmo dele? 135 Então me aproximei do João, tirando uma coragem sabe Deus de onde para estar a um palmo de distância, arrumei a gola da blusa polo, ele nunca conseguia manter a gola certinha. — Sabe, João, o Théo... como posso explicar? ... é o homem que toda mulher sonha em ter, além de ser um exímio amante, ele é carinhoso, educado, e.... sabe se vestir. Então me afastei, mas parecia que o cara queria discutir uma relação que não existia há tempos! — Você não pensa mais em mim? — Tá brincando?! — dei uma gargalhada debochada — João Vitor, eu penso em você todos os dias! — ele começava a sorrir — Penso que se estivesse contigo, não teria encontrado o homem da minha vida. Obrigada João, obrigada por ser assim.... um cretino, canalha, filho de uma puta, se você fosse um cara decente, eu não saberia o que é gozar de verdade... de melar a boceta inteira


desaguando uma ejaculação feminina numa rôla do tamanho do meu antebraço e na espessura de uma lata de Coca-Cola. — fiz questão de levantar meu braço e fazer um círculo grande e aberto com os dedos. Com isso ele calou a boca e pude seguir até o quarto do meu irmão, deixando-o com o maxilar deslocado, pois ele nunca havia me ouvido falar ou reagir desse jeito. E isso me fez um bem enorme. 136


25. — Que cara é essa? — Bom dia mano. — Bom dia, que cara é essa? — Estou extasiada. Acabei de detonar o seu padrinho de casamento aí no corredor. — João? Como assim? — Disse umas verdades pra ele. Sabe Junior, se não fosse meu irmão, te odiaria. — Me odiaria? Abelhinha, você tem memória seletiva! Quando vocês começaram a sair, o que foi que eu disse? Débora... João não é cara pra namorar... Você me ouviu? Não. E você foi o relacionamento mais longo que ele teve! — Só me diz, nunca tive coragem de perguntar antes, mas agora tenho... Você sabia que ele e Letícia? ... — Tá maluca?? Claro que não! Mas eu te avisei! Avisei! Me joguei na cama e Junior se jogou por cima de mim, me arrancando um suspiro de dor. Cretino! odiava quando ele fazia isso! Então começou aquela porra de cosquinha que ele adorava fazer! Odiava quando se comportava como quando éramos crianças! Quase me mijei de tanto rir! Que absurdo! — Para Junior! Cacete! — mas no final estávamos os dois rindo muito, a realidade bateu e percebi que meu irmãozinho estava se casando, que seria um chefe de família, que se casaria com seu grande amor. — Tô feliz por você. Junior me deu um beijo forte na bochecha que chegou a doer e eu o empurrei para o chão, ele caiu sentado e começamos a rir novamente. Mas sei lá, comecei a chorar feito uma bobona. 137 — Ei... A gente nunca vai perder isso maninha. Nunca! Lembra? — ele


estendeu o dedo mindinho e eu o meu e os apertamos — Amigos para sempre. — Amigos para sempre. — mas as lágrimas não paravam de cair e nós nos abraçamos. — Você também vai casar logo, tenho certeza. — Tem certeza é? — Tenho sim, o cara é gente boa, acho que ele gosta de você. — Acho que sim. —precisava espantar aquela melancolia — Junior, deixa ver suas mãos? — Deixo, pra quê? — virou as mãos para mim e examinei suas unhas. — Hmm... Muito bem, fez as unhas... Ficou bom. — A Carla fez pra mim, tirou só o excesso de cutícula e passou uma base fosca, ficou legal. — É, gostei de ver, se arrumando todo pra Lulu... — Ela merece. — Vocês se amam tanto... Serão muito felizes juntos, muito mesmo. Junior mostrou a roupa arrumada, os sapatos, e as alianças, estava tudo certinho, senti muito orgulho dele, estava fazendo a coisa certa. Tio Bento deu duas batidas curtas e entrou no quarto, finalmente nos vimos. Ele abriu um sorrisão de dentadura que eu achava o máximo! Aquele cabelo grisalho dele estava um charme, e havia emagrecido bastante também. — Tio Bento! Bom dia! — Bom dia Debrinha, minha boneca, você tá linda, acabei de conhecer seu noivo! — Théo. 138 — Théo é diminutivo de Theodoro? Não quis perguntar... vai que ele não gosta do nome de batismo... — Tio, o Théo é Théo, né?! Já tá bom assim.... Théo! Simples, rápido, quando a gente começa a falar o nome... Pah! O nome já acabou. Estamos até... pensando em colocar o nome da nossa filha, se for menina, claro, de Mel... também né?! ... Começa e acaba numa sílaba só... Aquele momento em que a pessoa fica confusa com as coisas que a gente vai dizendo e que provavelmente a gente também não faz muita ideia da


merda que tá falando... — E se for menino pode ser, Léo... pra rimar com o nome do pai, ou Joel, ou Abel ou sei lá... Noel... Ho, Ho, Ho — Junior resolveu fazer graça então resolvi pôr fim a ela. — Ou podemos “ inovar”, — fiz questão de pôr aspas no inovar — quem sabe Eliomárcio Neto... ou Eliomárcio Sobrinho... Que acha Junior? Ele parou de rir rapidinho. — Já disse que isso foi um erro do nosso pai. — ui, ficou sério... — Graças aos avós de vocês... — Tio Bento sempre ria do nome do meu pai, ria com ele vivo, continuou rindo com ele morto. Muito bizarro, mas aconteceu... Vovó Marcia, Vovô Eli, primeiro filho, porre de caninha da roça é igual a Eliomárcio. Papai bêbado, teve um filho homem porra! Mamãe Alice no hospital, igual a Eliomárcio Junior. Foda foi explicar pra minha mãe que ela deveria refazer todos os bordados com o nome de Davi. Isso me faz sorrir sempre. É uma boa arma para uma irmã mais velha que seu irmão marrento, mimado e caçula se chame Eliomárcio, Junior. — Tio Bento... tia Ana disse que o senhor vai operar... o senhor tá legal? — Uma coisinha atoa, parece que é uma cirurgia sem grandes traumas e espero não voltar gay da sala cirúrgica, porque brocha tenho certeza de que vou... a coisa já não anda boa mesmo... É ótimo que meu tio tenha tão bom senso de humor, mesmo diante das dificuldades. 139 — Também espero que não se sinta menos homem tio. — Junior deu um


tapinha no ombro de nosso tio que sorriu em resposta. — É.... mais um viado na família sua tia não aguenta... Mas não foi pra falar de boiolice que vim aqui, foi pra avisar que o Pastor chegou. — Ah que ótimo! Vou cumprimenta-lo. Junior saiu do quarto, tio Bento e eu fomos logo em seguida. — Debrinha, gostei muito do Théo. — Ele é gente boa. — É, melhor que aquele escrotinho do João Vitor. — Ai tio... — no fundo ele estava muito certo e nem sabia, João nunca foi o homem ideal pra ninguém. Alcançamos o pátio de entrada, ainda conversávamos trivialidades e senti um par de olhos sobre mim. Parece que o Mundo deu uma parada de repente tio Bento só mexia os lábios, mas definitivamente só conseguia ver como Théo me olhava, os cotovelos apoiados sobre a mesa, as mãos de dedos entrelaçados encobrindo minha visão de seus lábios, os olhos estreitavam-se e o cenho franzia, eu já sabia, sempre que estava pensando em algo que havia lhe dito, fazia aquela carinha. De repente suas sobrancelhas subiram e desceram muito rapidamente e ele soltou um longo suspiro. Ficou sério, sério demais eu diria. Virei-me para ouvir o que tanto meu tio falava e ao retornar meu olhar para Théo, ele parecia distante, olhando pro nada, segurando o dedo anelar que sustentava aquela nossa aliança, falsa. Daria qualquer coisa por seus pensamentos. Mais uma vez seus olhos me alcançaram, mas então, sei lá acho que percebeu que estava intrigada e sorriu, um sorriso simples, mas sincero. Algumas vezes ele me deixa confusa, mas então dá um sorriso de “ tudo bem” e meu coração se apazigua, muito embora minha mente esteja com aquelas


sirenes de filme que indicam “ evacuação imediata”. 140 Tio Bento já havia percebido que não estava prestando atenção, ele é muito sagaz, não tem a necessidade de matraquear que a tia Ana tem, Tio Bento gosta de conversar, não de falar com estátuas. — Sabe, minha querida, você precisa ter cuidado com esses bichinhos. — Bichinhos? Que bichinhos? — Esses que se instalam em nossos cérebros, corroem nossos melhores pensamentos e colocam ovos que se chocam rápido e então sobram apenas as dúvidas e os medos. — Tá falando de quê, tio? — Das malditas caraminholas, são bichinhos tão nocivos, capazes de destruir até a alma de uma pessoa. — Tio Bento, o senhor tem cada uma... — Fiquei velho Débora, não fiquei burro, nem cego. — Tá muito na cara? — Dos dois. — isso me surpreendeu e Tio Bento sorriu — há tantas dúvidas em você quanto há nele. — De vez em quando a gente se questiona se está tomando o rumo certo... — É.. Isso é saudável... desde que seja de vez em quando, não todo o tempo... Viva um pouco minha filha, você parece mais velha que eu... de vez em quando. — destacou a última parte sutilmente. Andei na direção do jardim, braços cruzados, pensando no conselho do tio Bento, ele tem razão em muitas coisas, mas não sabia exatamente o que estava acontecendo e talvez o Théo estivesse em dúvida entre tentar me dar um golpe ou não... Entre me dizer o que ele chama de detalhe, ou não. Sentei-me na grama, olhando as carpas no lago, estava com o pensamento longe, nem percebi Théo se agachar atrás de mim, sentou-se de maneira que fiquei entre suas pernas abertas, me abraçou e não dissemos nada um ao outro.


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26. Algum tempo em silêncio depois... Eis que Carolina surge e se joga de qualquer maneira ao nosso lado. — Nossa, que animação de vocês! Continuamos em silêncio. — Vocês vão ficar mudos? — silêncio — Estão me ignorando?! Suas porras! Vão tomar no cu vocês dois! — silêncio e sorriso — Ah! Vão se fuder! Carol se levantou indignada e saiu batendo pé, começamos a rir, abraçados, então nos viramos, nos olhamos e nos beijamos. — Sacanagem... Vamos falar com ela. — Théo apenas assentiu estalando mais um beijo em meus lábios. Alcançamos uma Carol bem irritada antes que chegasse à mesa em que estávamos mais cedo, me joguei em suas costas e ela quase me derrubou de raiva, mas depois começou a rir. * Estava eu modelando as pontas do meu cabelo com a pranchinha quando percebi o Théo, parado no meio do chalé, me olhando mais uma vez com aquela cara de quem estava pensando em alguma coisa séria. — O que foi? Por que está me olhando assim? — Assim como? — Assim... — imitei os olhos semicerrados dele e a boca levemente torcida num bico. — Desculpe, não percebi que estava fazendo isso. 142 — Hmm... e estava pensando em que? — No quanto você é linda, fazendo coisas normais. — Obrigada, gentileza sua... Coisas normais... — achei engraçado. — Coisas normais, você é uma pessoa muito... normal. — Isso é bom ou ruim? — Particularmente acho bom, é muito chato estar ao lado de pessoas que tentam impressionar. — Você conhece muitas pessoas... — foi mais uma constatação que uma


pergunta. — Sim, conheço muitas pessoas. — Conhece meu primo, não é? — Acho que o vi uma ou duas vezes. — Seria ruim se ele se lembrasse de onde? — Não seria ruim, mas também não seria o ideal nesse momento. — Nesse momento acho que nada referente a você seria ideal ser exposto. — sorri e ele entendeu. — Tem razão. Débora me diz uma coisa, mudando de assunto... O que mais gosta na sua profissão? — O que mais gosto? Como assim? De fazer ou... — Por que escolheu ser gestora de contratos? — Ah! Sinceramente, não sei. Poderia ficar filosofando aqui, mas a verdade é que não sei. — Mas você gosta do que faz? Você parece ser muito boa nisso... — Gosto, procuro dar o meu melhor, trabalho sempre como se a empresa fosse minha, entende?! ... Acho muito triste a visão separatista funcionário versus patrão, gosto de conduzir tudo bem dentro da Lei, dos 143 procedimentos, sou contra burlar as regras, isso prejudica muito nosso país e as pessoas não se dão conta disso... Cara, conversamos um bom tempo sobre economia, sobre o país, sobre a minha visão, a dele, era bom conversar com o Théo, mesmo quando parecia que ele estava me entrevistando. Devia estar curioso pra saber o que sentia


trabalhando dentro da área em que me formei. Isso me deprime um pouco, por ele. * Luiza estava muito linda em seu vestido branco, um modelo simples, inspirado na Bella da saga Crepúsculo, sinceramente esperava que Junior e ela tivessem um desfecho melhor que os atores na vida real. O buquê foi de Lírio branco, escolhido por conta de uma passagem Bíblica. Junior estava bonito em seu meio fraque de gravata cor de creme, estava nervoso, não parava de massacrar os dedos nas mãos. Ao avistar sua linda noiva, abriu um sorriso enorme e seus olhos marejaram, confesso que os meus também, meu irmãozinho estava se casando. Olhei para Théo, sentado ao lado de Carol, ele sorriu pra mim e meu coração se apertou mais uma vez, sentia que nosso tempo juntos se esvaia como a areia do deserto escorregando em uma ampulheta, aquele pensamento me doeu tanto quanto uma punhalada e senti meu rosto húmido. Théo sorriu pra mim mais uma vez, estava com um semblante piedoso, mas aquela ideia dele me deixando para seguir seu caminho persistia, insistia, me machucava. Carol mandou que eu sorrisse, fazendo mímica, disse algo no ouvido de Théo, ele franziu o cenho e me olhou sério em seguida. O que aquela louca poderia estar lhe dizendo? Logo ele abaixou a cabeça e prendeu os lábios nos dentes, parecia pensativo e voltou a me fitar, como se não fosse nada. Letícia e João não se olhavam, estava claro que aquele amor da vida um do outro estava chegando ao fim, peguei o olhar de João sobre mim duas vezes, primeiro pensei: Bem feito! Quero que se danem! Depois pensei algo como: Espero que ela esteja grávida! ...Mas por último pensei: será que o


casadinho é de doce de leite? Tá me dando uma fome... 144 O discurso do Pastor foi mais bonito que nos ensaios, ele deu uma incrementada de última hora emocionando a todos. Tenho certeza de que meus pais estariam orgulhosos, ou estavam né?! Junior estava fazendo a coisa certa, sabíamos que sim, Luiza e ele foram feitos um para o outro, eram almas gêmeas. Gostaria que Théo fosse a minha alma gêmea. * Comemos, dançamos e rimos e era como se não houvesse mais ninguém na festa. Luiza chamou a todas para jogar o buquê, mas Carol e eu não fomos, ficamos olhando afastadas. — Não vai tentar o buquê? — tia Ana surgiu ao meu lado. Olhei para o Théo que chegava com duas taças de prosecco. — Não... Com certeza um buquê não vai me fazer casar. — Pessimismo, oi, tudo bem? ... — Carol resmungou, mas a ouvi perfeitamente. Luiza jogou o buquê e acompanhamos aqueles lindos lírios brancos voando alto sob o pôr do sol, se o fotógrafo for bom..., lembro-me de ter pensado exatamente isso antes daquelas flores aterrissarem em meus braços cruzados. A mulherada gritou enlouquecida! Sabe aquela brincadeira sem graça: pensa rápido! E jogam um troço na gente? Foi quase isso, quase que as flores foram para o chão, mas as peguei a tempo. Théo deu uma parada com a taça, já estendendo-a em minha direção. Ficou com a mão no ar. Instintivamente olhei para Théo que apesar da expressão surpresa, sorriu e me passou a taça, tilintamos um discreto brinde e bebemos. 145 — A mira da Luiza está perfeita. Não acha tia Ana? — Carol foi puxando


minha tia. Théo e eu ficamos sozinhos. — Você é a próxima, querida. As palavras dele não me fizeram bem, meu peito doeu, pedi licença tirando a mão livre de Théo de minha cintura e fui me afastando aos poucos, de volta para o chalé, precisava de um minuto, um minuto meu, um pouco de paz, tentar colocar aquela confusão toda em ordem. Acendi apenas o abajur ao lado da poltrona de leitura e me sentei, na penumbra, o buquê em meu colo, Théo lá fora e eu, tentando desmanchar aquele nó na garganta nos goles de prosecco. 146


27. Bateram. Não respondi, se fosse o Théo ele apenas entraria não é? Então vieram três batidas em sequência rápida e meu chamou. — Debby — mais três “ toc, toc, toc” e.... — Debby — mais três batidas e meu nome novamente. Théo me obrigou a sorrir com sua gracinha. Virou a maçaneta também sorrindo, contudo ficou sério ao me ver. Apesar do sorriso, as lágrimas me vinham aos olhos. — Ei, o que anda te perturbando tanto, minha morena? — minha morena, primeira vez que ele me chamou assim. — Adoraria mentir e dizer que é por culpa da emoção, mas... — Mas é por minha causa. — ele ficou chateado, deu pra notar. — Não... eu... quando-quando... — respirei pra tentar coordenar os pensamentos — Quando disse: você é a próxima, só me senti mal com isso. —e lá estava eu, que não queria mentir, mentindo. Queria ter dito a ele que o fato de ter ouvido Você ao invés de Nós era a razão da minha tristeza. — Não gosto de te ver chorando sem motivo. Vamos voltar pra festa. — Vir aqui só pra me ver foi... gentil. — Não senhorita, vim trocar a gravata e acabei te encontrando aqui. — Aham... Apesar da brincadeira, trocou mesmo a gravata, colocou a Chanel lilás, combinou com meu vestido. Fiquei reparando como ele dava o nó tão rápido, nem precisou de espelho. — Estamos ótimos, como sempre. Vamos? A falta de modéstia de Théo, me embriagava de uma falsa confiança em mim mesma, me apoiando em seu antebraço como uma dama, representando a patética cena de nossas vidas, a impostora e o garoto de programas, seguimos de volta à festa. 147


* Luiza e Junior saíram de fininho e foram embora sem se despedirem! Achei romântico. Carol estava sumindo a cada dez minutos, deve ter se arranjado com alguém, depois da página virada com a dor de cotovelo, ela estava inteira! Queria ser como ela... E sendo um pouco Carol, me permiti aproveitar meu sapo que ainda era príncipe e minha carruagem que ainda não virara abobora. Dançamos de rosto colado, abraçadinhos, sem nem ao menos mover os pés, apenas nos embalávamos numa música lenta já substituída, sem nos importarmos que todos os outros estivessem pulando e gritando enquanto nossos pés estavam grudados no chão, nossos olhos fechados, a mão de Théo em minhas costas e as minhas acariciando lhe a nuca. — Quer fazer amor comigo? — uma simples pergunta e meu corpo já reagindo àquela voz que sussurrava em meu ouvido. — Quero. Théo me levou pela mão, e fomos andando lentamente do salão de festas ao chalé. Olhando a lua, as estrelas, ouvindo o barulhinho da cigarra competir com o som alto da festa. — Quando era criança, adorava caçar cigarras aqui mesmo, neste gramado. — apenas comentei. — Quando era criança gostava de pescar. — Você não gosta de falar muito da sua infância... — constatei. — Não é que não goste, apenas não há necessidade. — Como não? — Minha necessidade em te conhecer é maior. — Você tá afim de mim? É apenas uma observação! — disse jogando as mãos para cima em rendição. 148 Théo se lembrou do dia em que me disse exatas palavras, aquiesceu e


sorriu. — Muito. — respondeu no instante em que paramos à porta do chalé. Foi um beijo doce aquele que recebi, um abraço apertado e ao mesmo tempo carinhoso, Théo me ajudou com o vestido de fecho lateral, deixandoo aberto enquanto me desfazia de sua gravata e o puxava para mais um beijo, um desses que a gente quase nem beija porque tá sorrindo, a pessoa também e os dentes quase batem. Era muita roupa e Théo começou a ficar impaciente, depois do paletó, gravata, colete, ainda havia a camisa, que ele simplesmente arrancou. Por medo que também destruísse meu vestido alugado, tirei-o com o maior cuidado deixando-o sobre a poltrona, ainda que driblando os beijos e mordidas em minha nuca. O sutiã não teve a mesma sorte, foi eliminado de uma só vez para que Théo acariciasse meus seios, intumescendo meus mamilos em sua saliva morna. Pensei que arrancaria minha calcinha da mesma maneira, não o fez, se afastou para me olhar. — A segunda vez em que vi seus seios foi com certeza a mais excitante. — Muito mais que da primeira vez, quando me deu banho? — Não me satisfaço com mulheres dopadas ou que não saibam o que estão fazendo... E da segunda vez... Você estava exatamente, assim. Você faz ideia do poder de uma cinta liga, não faz? — Talvez... Qual seria esse poder, Théo? — Algo mais ou menos, desse jeito... Théo tocou meus lábios delicadamente, me conduzindo num abraço apertado até a cama, deitando-se sobre mim, me olhando nos olhos enquanto seus dedos passeavam pela minha intimidade. Nossas bocas ainda se tocavam quando me tirou o ar com poucas palavras... — Quero chupar você até que goze na minha boca. — apenas assenti.


149 Théo trilhou meu corpo beijando e mordendo, me fazendo gemer, rir e chorar de prazer e também por medo de que estivesse me dando um adeus com todo aquele sexo perfeito, se despedindo do meu corpo, de mim. Segurou minhas mãos, entrelaçando nossos dedos enquanto me beijava o sexo com lambidas e chupadas em meu clitóris e abaixo dele, com o beijo mais carinhoso do amante mais apaixonado, Théo me arrancou um gemido sôfrego que antecedeu ao momento, como sempre incrível, em que me derramei nele. E eu era inteira quando Théo me tocou e desmontei-me em pedaços sob seus lábios e língua. Desatou minha cinta liga branca e tirou-me a calcinha antes afastada para um lado, jogando-a em um canto qualquer. Olhou-me de um olho a outro seguidas vezes. Seus dedos me acariciaram o rosto. — Veramente bella. — Grazie. — arrisquei um agradecimento em italiano e por resposta obtive seu sorriso. Queria ter dito mais, chama-lo de amore mio, mas aquela frase nunca antes havia saído de minha boca para encontrar-lhe os ouvidos, pois não eram palavras vazias, uma frase bonita pra ser dita quando se espera algo em troca. Eu o amava. Théo me penetrou aos poucos, até quase tocar nossas pélvis fechei os olhos apertando-os um pouco e ele se afastou um tanto e parou. Seus lábios se torceram, chateado, e lhe puxei pelo quadril para que entrasse de uma vez, Théo gemeu, eu também. Segurou em meu quadril para nos embalar em arremetidas intensas e profundas. Levantou minha perna apoiando-a em seu braço, e a cada estocada me sentia mais perdida em meio a tantos sentimentos.


Me arranha, ele pediu ao me ver contida. E deslizei minhas unhas em sua pele, ele dobrou as costas e meteu mais forte, parei, ele pediu que continuasse, Théo mordeu o lábio me penetrando novamente com força, dessa vez não pude conter um grito e lhe enfiei as unhas tão fortes quanto quando me penetrou. Théo parou, me olhando sério e balançando a cabeça em negativa. Morena malvada, foi o que disse puxando minhas mãos para segurá-las ao lado de meu 150 rosto. Théo tirou um pouco de dentro de mim sem sair completamente, arqueando o corpo para me sugar os seios, um, outro e me abriu ainda mais as pernas jogando o quadril para os lados e me conduziu mais uma vez por aquele labirinto de sensações, metendo apenas na entrada do meu sexo, logo mais fundo, me olhando todo o tempo, a mandíbula cerrada. Estava gostoso demais. Não conseguia mais raciocinar, Théo sabia disso pois se inclinou em meu ouvido gemendo rouco e puxando o ar entre os dentes, gemendo mais uma vez e outra e outra, Molha meu pau, morena, quero sentir... Fui me deixando levar por aquela tormenta deliciosa que era Théo dentro de mim e quando percebi, estava apertando-lhe o pau mais e mais por dentro, recebi um beijo apertado na boca. Théo não se moveu por muito mais tempo depois que gozei, puxou o corpo rápido e eu o segurei com as pernas. Não, lhe disse impedindo que saísse. Tô sem camisinha! Respondeu como se eu não houvesse percebido. Não lhe dei a chance de pensar ou perder aquele momento, enlacei-lhe o corpo com mais força, segurando sua nuca em uma das mãos, a outra o puxando para dentro de mim e Théo gemeu alto, soltando o ar de seus pulmões num grande ah! Enquanto seu abdome se contraía seguidas vezes, seus olhos


fechados e apertados, tanto quanto apertava meu corpo nos dedos. — Porra! Você é muito gostosa e muito louca! — a voz dele falhou um pouco e então desabou ao meu lado. — Está tudo bem. — respondi com sinceridade, mas senti um vazio quando saiu de dentro de mim. Esperei que acalmasse a respiração e me deitei em seu peito. Théo me abraçou beijou-me os cabelos seguidas vezes o que me fez sorrir. — Dois minutos para o segundo roud... — Dois minutos? Nada disso seu amigo ainda está bem duro, meio minuto! — Você tá muito fominha, morena... Já que é assim, meio minuto é muito, vem cá, quero te ensinar uma coisinha... 151


28. Soube que o amava, mesmo sem conhece-lo, apenas chamando-o pelo, o que talvez fosse, seu primeiro nome. Eu amava o Théo, sendo ele michê ou um motorista de Kombi que faz frete ou motorista do carro da tapioca, sei lá, no fundo começava a me acostumar com a ideia de amar um homem apenas por amar. Amar o que ele representa na minha vida, não o que faz, amar sem esperar que me amasse, amar o carinho que tinha por mim, me negando em acreditar que ele estava sendo assim pois comprei esse carinho. Minha mente dava voltas e voltas e sempre parava no mesmo ponto, a incerteza de que toda aquela dedicação não era fruto daqueles dezoito mil Reais, nem tampouco por culpa dos bens que possuía. Vendo seu rosto sobre o meu, seus olhos amendoados que me percorriam a alma, precisava me agarrar a um fio de esperança sequer de que aquele homem que estava sendo perfeito, era perfeito pra mim. As carícias de Théo sempre tão cheias de amor, de desejo e cumplicidade, regadas por uma dedicação que me encantava profundamente. Era um amante incrível, e um homem extremamente misterioso, um cara que me é capaz de fazer revirar os olhos com algumas palavras ao pé do ouvido e no mesmo instante, desaparecia, como a névoa densa, prenuncio de um dia ensolarado. Contudo, não esperava por um dia de sol, eu queria a névoa e isso me assustou absurdamente. Senti-lo escorregando para dentro de mim novamente, enquanto suas mãos seguravam meu corpo, mantendo-me o mais junto dele possível, procurando decifrar meus desejos, meus pensamentos, meu querer, ainda que jamais pudesse fazê-lo, pois o que queria era ele, e ele estava ali. Meus devaneios e elucubrações me foram arrancados com um som baixinho


que saiu de seus lábios, e outro e outro, Théo não estava mais me olhando, estava sentindo. Seus olhos fechados, seus lábios entreabertos e ele gemia a cada vez que me estocava. 152 Comprimi o abdome sempre que ele tirava um pouco, sabia que isso faria toda a minha musculatura interna aperta-lo e soltei quando entrou mais fundo, seguidas vezes que ele precisou parar. Apoiou os braços ao lado do meu corpo e me levantou um tanto, nos virando e quando me vi por cima de Théo, foi minha vez de fechar os olhos, meus joelhos sobre a cama, ao lado de seus quadris, precisaria me concentrar nas estocadas para que não me machucasse, e assim foi, uma e outra vez, até que não pude mais suportar e me entreguei apenas às sensações, apenas ao Théo. Meus seios eram tocados tão gentilmente, depois passou as mãos para meus quadris e deslizou até segurar minha bunda, forçando meu corpo a uma entrega segundo o ritmo dele, me conduzindo a ele, e continuei apertando meu ventre ao máximo de minhas forças sem ao menos pensar. Até que aquela sensação conhecida surgiu, entre um gemido e uma respiração acelerada. Não consegui me manter sentada e desabei em seu peito enquanto ele continuou seguindo naquele ritmo com suas mãos em minha bunda, lançando meu corpo para cima e para baixo, mais três ou quatro vezes e pude sentir seus dedos se fechando em minha carne, puxando meu corpo para junto dele e meus ouvidos receberam o som de seu clímax. E estávamos nós, exaustos, de um gozo intenso, a cabeça sem assimilar nada mais complexo que um simples “ muito bom”. Théo acarinhava minhas costas enquanto eu relaxava um pouco em seu peito.


E ficamos ouvindo o inspirar e expirar do outro em busca de uma calmaria momentânea. — Agora sou eu quem quer mais... — a voz de Théo me tocou com intensidade e paixão. — Também quero mais. Me dá mais meio minuto... — ainda estava ofegante ao lhe responder. — Não está cansada? — Acho que não vou me cansar tão cedo... 153 Palavras dúbias vindas de um coração dividido entre a dúvida e a esperança. Os momentos que passei com Théo se alternavam entre o sexo apaixonado, até um pouco violento e o toque sutil de um amor tranquilo. E era quase dia claro quando nos abraçamos, os olhos pesados e o sono veio. * — Debby... — ouvi a voz do Théo tão distante e ouvi mais algumas vezes. Senti sua respiração em minha orelha, e uma mordida leve que me fez sorrir, um braço forte que me puxava de encontro ao seu corpo, um nariz perfeito inspirando o aroma dos meus cabelos, roçando meu pescoço e nuca. Falou-me com o hálito mentolado, sussurrando um bom dia, morena. Esfreguei os olhos para me acostumar com a luz do sol que invadia o chalé. — Esquecemos de fechar o quebra luz... — constatei me sentando na cama. Me virei e Théo me olhava com o rosto apoiado na mão, um sorriso idiota na cara que nem quis saber o motivo, me levantei ainda nua e fui para o banheiro, joguei água no rosto e vi meu reflexo, entendi o motivo do sorriso, meu cabelo parecia um ninho de passarinho e meus olhos estavam borrados de rímel. Filho da mãe. Quando saí do banheiro Théo estava ao telefone, levantou os olhos em minha direção e sorriu entre um aham e mais outro. — ... Eu sei, não tem problema, nos falamos quando eu voltar... Tchau.


Passei por ele já vestida com meu biquíni. — Perdemos o café da manhã, são onze horas... — levei minhas mãos à boca fazendo cara de “ Oh”, num deboche que o fez sorrir. — Fala sério, Théo... Ele fechou um dos olhos, apertando-o em uma careta. 154 — Tem razão, por um instante esqueci que aqui você é a dona Débora. — Sim, sim... Vamos? — vesti um vestido quase transparente, apertando meus cabelos para tomarem volume nas pontas. O telefone de Théo tocou mais uma vez, ficou me olhando... esperando que eu dissesse alguma coisa, mas coloquei os óculos escuros, e saí. Ele veio logo atrás, mantendo uma pequena distância que não me impedia em nada de ouvi-lo falar em italiano, obviamente que não entendi nada! Ele falava tão rápido, as palavras tropeçavam em meus ouvidos num tanto de erres e tes. Parecia um tanto irritado e isso dava pra sentir em seu tom de voz, entretanto falou pausadamente sua última frase antes de desligar. — ... e cosa si aspettano da me? — “ e o que eles esperam de mim?” Foi o que disse! Seriam seus novos parceiros? Será que depois daqui já havia a quem atender? Merda! Ele vai me deixar! Por mais vontade... não iria perguntar nada, ele disse que quando voltássemos me contaria, tentei manter a ansiedade sob controle, era mais um dia de espera apenas... Ah! Mais que Diabo estava pensando? E o homem do restaurante? Precisava escapar até a entrada de Penedo! 155


29. Théo não se despediu, desligou, enfiou o telefone no bolso da bermuda jeans e com três passadas largas me alcançou, eu estava de braços cruzados e ele me abraçou por trás, beijando e beijando minha bochecha. — Desculpe, minha morena linda. — Tudo bem. — Théo nos parou, me virou para ele e encostou as costas da mão em minha testa. — Tá doente? Não vai perguntar nada, logo minha curiosa incurável? — Não e não. Não estou doente e não vou te perguntar nada. — É mesmo? — São detalhes... — minha Nossa quanta mentira! Estava a ponto de ter um treco! Entramos na cozinha pelos fundos, tia Ana e as ajudantes preparavam o almoço, mas ela nos serviu de café, bolo, pão doce e iogurte, ficamos à mesa da cozinha e por algum milagre, tia Ana não sentou-se conosco para trocar informações. Na verdade estava reclamando um bocado, não estavam acertando parte de uma receita nova que ela queria servir no almoço. — Tia Ana, sabe da Carol? — Saiu cedo com a Mônica. — sabia! Mônica era prima da Luiza e era sabido que ela era bissexual. — E meus primos? — Alan ainda não saiu do quarto com a namorada, Alessandro está na piscina com Guilherme, e Rosane foi na rua com a Carol e Mônica. — Tio Bento, tia Emília? ... 156 Tia Emília era irmã de tia Ana e Rosane e Alan, seus filhos, não eram meus primos de sangue, mas era como se fosse. Muito embora Rosane fosse uma dessas periguetes... — Bento não sei, Emília acho que na horta arrumando a tela que despencou. — Hmm... — Mais que droga!! — tia Ana vociferou de um jeito que fez a mim e ao Théo


olharmos espantados. — Tia, que tanto a senhora tenta fazer? — É o molho da caçarola de frutos do mar, não está ficando bom! Théo esticou os olhos na direção dela e sorriu balançando a cabeça. — Que foi, Théo? — A pimenta está errada. — O que disse? — tia Ana tinha um ouvido muito bom! Credo! Théo falou tão baixinho... Se levantou ainda mastigando o bolo de laranja, parou ao lado de tia Ana, caramba, ela era muito pequenininha perto dele, Théo empurrou o bolo para o canto da boca. — Dona Ana, a pimenta branca é muito branda pra este prato. — Muito branda? — Precisa estar... — Théo pensava estalando o dedo — più caldo!... bem... bem ardente! Ardente no final da colherada, capisce? Olha, que porra isso... Sempre que esse homem abre a boca pra se expressar em italiano, quase molho a calcinha... — Tô capiscando, — tia Ana me arrancou uma gargalhada e outra do Théo — mas a receita diz pimenta branca! 157 — Questa ricetta não está bem traduzida, veja tia Ana, isto é Caldeirada Mediterrânea, é um prato muito comum na Toscana, lá chamamos de Caldo... Lá chamamos de caldo, pensava que ele havia aprendido italiano por ter se relacionado com alguém de lá, ou... que se relacionava, afinal... pela vida que tinha... Agora isso me surpreendeu, ele viveu na Itália, talvez até tenha nascido lá... vá saber... Vá saber é o caralho! Levantei-me disfarçadamente enquanto Théo explicava a receita para tia Ana e fui saindo de fininho. Sandro fez uma cara feia, mas não abriu os olhos. — Está bloqueando o meu sol!


— Bom dia. Me empresta a moto? Deu uma risada, ainda de olho fechado. — Mais é claro! Que não. — Rapidinho, preciso ir antes que o Théo dê pela minha falta. — Cadê seu Deus grego? — Na cozinha com sua mãe. Me empresta, San-san! Dois V’s. — Quatro V’s, vai e volta voando viada. — Show! Cadê as chaves? — Guilherme, cadê as chaves da CB? — No bolso da minha calça. Bom dia Déb. 158 — Bom dia Gui. Obrigada, já volto. Desci correndo, peguei a moto e saí realmente voando para a entrada de Penedo. O restaurante em que vi o Théo era logo o primeiro, assim por alto nada do homem com quem ele falou anteriormente, então resolvi entrar e perguntar. Nada. Ninguém conhecia o Théo e o tal homem, que era um dos donos, não estava mais lá. Já estava montada na moto quando um carinha bonitinho veio falar comigo... — Oi... Acho que sei quem está procurando. — acho que era um garçom. — Sério? —Senti minha barriga se apertar e pensei que teria uma diarréia, tamanho nervoso. — Não sei o nome dele mas acho que é um cara que trabalhou aqui...— isso fazia sentido, Théo sabia muito sobre culinária! ... Realmente fui e voltei muito rápido! Triste e um tanto chocada. E apesar da decepção diante do que ouvi, a cena que vi quando estacionei a moto foi digna de aplausos!! Letícia discutindo com João enquanto colocava as malas no carro, João com cara de tédio e ela praticamente berrando. Passei por eles fingindo que não estava interessada, quando na verdade meu radar estava no nível máximo pra ouvir


a discussão. Estavam terminando, ela o estava xingando de filho da puta! Adorei! Passei pelo cantinho e eles nem se importaram em parar com o espetáculo enquanto eu caminhava próximo. Cheguei na piscina com a maior cara de alegria. 159 — Mentira que você já voltou?! — Falei que era rápido. — de repente até me esqueci um momento do Théo — Gente! Barraco master rolando no estacionamento. Letícia e João estão aos berros! — Ih filha, você perdeu, o circo começou de lá de dentro, ainda bem que meu pai saiu, ficaria puto com barraco, mas tia Emília apareceu, falou monte! — Conta mais! — pedi me sentando. — Letícia o xingou de tudo quanto foi nome, não sei o motivo, embora desconfie, mas eles estão mesmo terminando, certeza, homem que é chamado de brocha não volta não... — Desconfia de que? — De que tenha sido por sua causa, meu bem. — adorava aquela gingada de pescoço que ele dava, muito viado. — Minha causa? Ah tá bom... — Debby acorda pra vida princesa, você arrumou outro muito melhor que o João! Ele está se mordendo! Se rasgando! E brochando... — Sandro foi baixando a voz, mas estava tão empolgada que prossegui de onde ele parou, ignorando totalmente o estranho bico que ele fazia. — Apesar de querer que ele se dane... Não nego que estou muito contente! Sabe muito? Muito! — Contente pelo que? — Théo me assustou. — Oi. — totalmente sem graça, olhei de Théo para Sandro e ele virou a cara, acho que aquele bico esquisito estava me indicando o homem se


aproximando. — Letícia foi embora, largou o João. — Guilherme respondeu tão tranquilamente, mas Théo não reagiu muito bem. — E você tá “ muito contente!”, por isso? Aquele momento em que você percebe que a pessoa tá puta, mas está se controlando? Foi este o momento. 160 — É... — ok, esse “ é” foi mesmo uma desculpa, não imaginei que ele fosse ficar com aquela cara de quem comeu comida salgada... pensando em comida... — E o tal prato? — mudei de assunto pra ver se resolvia a situação. — Tudo certo, ficou do jeito que ela esperava. Théo tirou a bermuda e a camisa e mergulhou, acho que precisava esfriar a cabeça, afinal. — Esse homem é tudo, prima. — olhei para Gui, que olhou para Théo, e concordou com a cabeça, bom, eles pelo menos não são ciumentos — Que equipamento... — Ele é tudo sim... — Meio ciumento. — Guilherme comentou — Mas gostoso até o último fio de cabelo. — olhei para meu primo que olhou para Théo saindo da piscina e concordou com a cabeça. Será, por Deus! que até pra sair da água ele tem que agir como se estivesse gravando um comercial desses de perfume que passam na tv a cabo?!?! Passou as mãos nos cabelos, jogando-os para trás, os lábios entreabertos, a água descendo em cascata de seu corpo e ele vindo em minha direção. Meu coração bateu louco no peito. Théo visivelmente mais calmo se inclinou sobre mim na espreguiçadeira, nos beijamos, ele me molhou. 161 — Vou pegar alguma coisa pra gente beber... Vocês aceitam? — perguntou para Sandro e Gui que negaram com a cabeça sem dizer uma só palavra. E lá foi ele com sua sunga boxer preta... Sandro franziu as sobrancelhas e levantou um dedo indicador, recuou o dedo o levando até a boca, olhou para onde Gui tomava sol e apontou para o


Théo... — Eu conheço aquela tatuagem. — ih, fudeu. — Tatuagem é uma coisa tão comum, primo... Eu mesma tenho vontade de fazer uma borboleta no tornozelo, mas dizem que dói né?! Uma estilizada, de repente... — Acho que já sei de onde! ...Ah! — hmmm, fudeu mesmo, fudeu, fudeu, fudeu... ele abriu uma bocona enorme na minha direção, eu tapei o rosto esperando pelo pior... — Sua vadia! Inacreditável! Como assim que você tá noiva! Noivah! Desse homem? — Por favor Alessandro, não comenta isso com ninguém! — pronto, fudeu a porra toda!!!! — Lembrou dele de onde, amor? — Gui perguntou casualmente. — Daquele voo pra Milão! Não sei como não reparei antes! — Cristo! Ele estava sem camisa num voo? — Gente, que tipo de pervertido eu tinha nas mãos? — Ah! Não seja palhaça! Você sabe muito bem do que tô falando. Carol e Mônica se juntaram à nós rindo tanto. De repente Carol parou, séria. — Que cara é essa Debby? Quando eu ia falar... — Descobri de onde conheço o “ Théo”. — fez questão de pôr o nome dele entre aspas. — Ih é.... é? Que coisa... — foi isso que Carol respondeu — Debby, vem cá rapidinho... Mônica só um segundo... 162 Nos afastamos um tanto e Carol coçou o rosto disfarçando. — Fudeu com areia, amiga. — fiz que sim — Onde foi ainda agora? — Cara, desci até o restaurante, falei com um rapaz que me contou, uma coisa, se for mesmo o Théo, bem faz sentido... — Pelo amor de Deus! Contou o que? — Ele falou de uma história de um cara que trabalhou lá quando tinha vinte anos, a história é antiga por lá, parece... ele foi expulso da casa do pai, a madrasta


disse que ele abusou dela. O cara trabalhou um tempo por lá e então se mandou com um gringo, depois disseram que ele roubou as joias da tal madrasta... — Peraí! Peraí! — Carol me interrompeu irritada — Tudo errado! Aquele Théo que conhecemos não me parece capaz disso não! Abusar de uma mulher... Nossa ele poderia ter te estuprado e não fez! Calma lá! Você tem certeza de que era o Théo? — Não sei... mas agora preciso me concentrar em manter Alessandro de boca fechada! 163


30. Voltamos, tensas, e meu querido primo me olhou confuso. — Olha Debbyzinha, você pescou um tubarão com anzol pra sardinha. Não se preocupe o segredo de vocês está seguro, afinal é muito louco estar com um homem como ele não é mesmo? Não vou contar pra ninguém, fique tranquila — Sandro arrumou os óculos escuros estalando a língua no céu da boca — gente excêntrica! — então se levantou puxando Guilherme pela mão e foram para a piscina. Me senti sem chão. Mônica não pareceu se importar com nada da conversa, amarrou os cabelos cacheados em um coque apertado, deu um selinho em Carol e foi também para a piscina. Carol se sentou ao meu lado, a boca envergada para baixo. — Deu merda. — Deu merda. — concordei. — Espero que o Sandro fique de boca fechada. — Eu também... Pelo visto ele sabe das atividades do Théo como garoto de programas. — Estou mais preocupada com você considerar as atividades dele antes, vai com calma, Debby, esse é um terreno desconhecido... * Sandro agiu normalmente, o que foi um grande alívio, mas Théo ficou de conversar com ele antes de irmos embora. Ficou bem surpreso quando disse que o reconheceu pela tatuagem, perguntei se havia feito algum tipo de streep tease no avião e ele além de não responder, caiu na gargalhada! Chegou a jogar a cabeça para trás de tanto rir! Se acalmou aos poucos ao perceber minha cara carrancuda, esfregou os olhos, com a cabeça balançando em negativa. 164


Por fim me olhou demoradamente. — Debby, vamos parar de fantasiar... eu não tenho culpa de ser um cara atraente. — passou a mão no cabelo com um puta olhar convencido, apesar de falar em tom divertido, achei aquele um jogo muito perigoso. — E se eu disser que posso saber de você mais do que imagina? — Então eu diria que você é muito xereta e impaciente. — Théo se aproximou desfazendo meus braços cruzados e os levando para enlaçar seu pescoço — Talvez eu possa ter uma boa explicação pra te dar... Suas mãos deslizaram pela lateral do meu corpo até apertar minha cintura, seu olhar era intenso, deslizou as mãos um pouco mais, não se importando de estarmos no jardim à vista de todos e me apertou a bunda levando-me um pouco de encontro ao seu corpo, colando nossos lábios. * O almoço ficou maravilhoso! Havia como sempre três opções para o cardápio principal, mas o tal Caldo Mediterrâneo foi um sucesso, Théo entendia mesmo de cozinha e caiu nas graças da tia Ana e tio Bento. — Como é que um homem tão bonito sabe tanta coisa de cozinha? — Tia Ana, quando era criança passava férias na casa da minha avó, o passatempo preferido dela era cozinhar... Passei minha infância e boa parte da adolescência na cozinha. Va bene? — no caso de ser uma mentira, foi muito bem contada. Ele sabia como conduzir uma conversa, como desviar dos assuntos que não queria falar, de levar todo mundo no bico, seduzindo todas as mulheres com aquele sorriso e então consegui reparar bem no que fazia... ...Uma timidez fingida, cabeça abaixando um tanto, ainda sorrindo levantava somente os olhos de repente, mirando os da outra pessoa, enquanto seu sorriso se apagava pouco a pouco. Que safado! 165


— — — —

Para com isso. — sussurrei em seu ouvido sutilmente. Parar com o que? — sínico! De seduzir as mulheres à mesa! Não estou fazendo isso... — me apertou o joelho e deixou um selinho

em meus lábios. — É sério, não faz que me irrita. — Mas me diverte. — sussurrou ainda mais em meu ouvido. — Filho da puta. — sussurrei de volta, sorrindo. — Que tanto vocês cochicham — Rosane minha prima (assanhada) perguntou. — Estamos falando sobre a Bíblia, quer participar do assunto? — Bíblia? Não obrigada. Hmpf - não vou nem comentar sobre isso, nem comentar! * Entrei no chalé bufando! Estava furiosa com Théo! Mesmo depois de pedir, ele insistiu em flertar com a Rosane! — Amore mio, você está imaginando coisas! — Théo, de tudo que você é capaz de fazer... com a Rosane não! Ela mal completou os dezoito anos! — Mas como?! Você tá louca! Coloca uma coisa na cabeça e fica com ela, batendo e batendo! Já lhe disse que não fiz nada! — estava se curvando para me encarar, fazendo cara de cachorro que caiu da mudança! 166 — Théo, só me levantei por um minuto pra buscar o suco e quando volto vocês estão tocando na mão um do outro! Eu imaginei isso?? — Posso explicar? Eu.... — Se quiser ficar com ela vai ser apenas pelo sexo, vou te avisando, o pai dela morreu e não deixou um centavo! Théo arrumou a postura de repente, levou as mãos a cintura e negou com a cabeça, cara de insatisfeito, suspirou pesado e então percebi o que havia insinuado e me senti mal por isso. — Está equivocada. Quando você esfriar a cabeça a gente conversa. — respondeu com outro tom de voz, autoritário, arrogante.


Virou-se para sair do chalé, mas eu em minha infinita estupidez prossegui. — Eu não disse que podia sair! — Como é que é? — perguntou-me pausadamente irritado virando o rosto lentamente em minha direção. — Você trabalha pra mim, ainda. Não aceito que vá se esfregar naquela cadela! — E se eu for? Vai desfazer a transferência do meu dinheiro? — estava tão sério. — Dinheiro, no fundo sempre foi pelo maldito dinheiro. Théo cerrou os olhos e saiu do chalé batendo a porta. Eu o magoei. Aquele definitivamente não foi um bom dia. Théo se manteve distante durante toda a tarde e ao cair da noite aproveitei que não havia ninguém na piscina aquecida para relaxar um pouco. De repente Théo estava certo e eu, tão assustada com tudo o que andava sentindo, posso mesmo ter me equivocado. 167 Não sabia bem se confiava ou não no Théo, ao mesmo tempo que sabia que aquele beijo, aquele abraço não poderiam ser encenação, estava morrendo de medo de que ele me trocasse por outra pessoa que pagasse o dobro. Obviamente que não era o caso da Rosane, mas a quem eu tentava enganar? Eu já com trinta anos e ela, estava desabrochando a cada dia. Ouvi o som da água se agitando, mas não me dei o trabalho de abrir os olhos, fosse o Théo teria de me desculpar e ainda não estava preparada pra isso. Senti a respiração dele próxima a mim, mas mantive meu corpo imerso e a cabeça apoiada na borda. O toque de suas mãos em meu rosto estava mais possessivo, me levantando a cabeça para fita-lo, mas me recusava em olhar em seus olhos, eu cederia, eu o amava. Tocou meus lábios e.... Franzi o cenho encarando-o. João!!?? 168


31. — Que nojo!! Sai daqui seu porco! — mergulhei me desvencilhando de seu toque, rapidamente pulei fora da piscina e cuspia e cuspia! Nem mesmo eu imaginei tamanha reação! Me senti suja, esfregava a mão nos lábios tentando arrancar aquele toque de mim. Nojo. — Espera, Dé, vamos conversar... — Conversar? Você é um imundo João Vitor! Eu te odeio! Eu te odeio! — Não é possível que tudo o que sentia por mim acabou! João saiu da água, caminhando em minha direção. Senti tanto asco dele, me enrolei no roupão branco e felpudo, já me dirigia à entrada, quando me segurou. — Por favor, me escuta, eu errei muito! Muito! A Letícia é uma cópia mal feita de você, Dé! Eu fiquei rodando em vazio, no fundo quem eu sempre quis estava ao meu lado! — Para!! Escuta o que você está dizendo! As besteiras que está dizendo! Vocês me humilharam na frente da minha família, dos nossos amigos! Vocês me destruíram, me trataram como uma imbecil, não tiveram a menor consideração, a menor pena de mim! — E eu tô aqui te pedindo perdão! Me deixei levar, me enredar pela vagabunda da Letícia! — Um ano e três meses depois... — neguei com a cabeça estava...nem sei o que senti —Você é mesmo um grande homem, João. Responsabilizar a Letícia por seus erros... é mesmo atitude de um homem de verdade! — Não precisa de ironia. Vai me dizer que em tão pouco tempo você sente mais por aquele cara que sentiu por mim em quase quatro anos? 169 — Recoloque a frase, João. — estava impaciente com aquele imbecil — Em menos de quatro meses aquele cara me fez sentir o que jamais conseguiria sentir


por você nem em uma vida inteira! Eu amo o Théo. Amo! João me puxou apertado e tentou me beijar uma outra vez, mas consegui me soltar de seus braços e lhe virei a mão num sonoro espalmar no lado esquerdo de seu rosto fazendo-o virar a cara com os olhos fechados, puxando o ar com força. Finalmente ele entendeu, recuou e saiu da sala da piscina aquecida sem falar mais nada. Estava tão arrasada com a atitude de João, enojada, não conseguia parar de chorar, aquilo tudo estava sendo demais pra mim! Sentei-me na espreguiçadeira e enterrei as mãos no rosto, abafando aquela sensação horrível que estava me sufocando. Não demorou muito para que Carolina entrasse correndo. — Debby, o que está acontecendo?? O-o-o Théo... — ouvi Carolina gaguejar. Levantei o rosto quando Carol não conseguiu terminar a frase. Seus olhos repletos de angustia e de dúvidas. — Théo? — Vim correndo avisar, ele-ele-ele tá indo embora!! — Que? — minha voz saiu aguda e nervosa. Deixei Carol de lado e corri atrás de Théo, isso não fazia nenhum sentido! Por que estaria indo embora? Por que estava me deixando? Por que... Merda! Fui o mais rápido que pude! Cheguei a tempo apenas de ver o Sonata se afastando pelo portão da pousada. 170 Meu peito doeu tanto, levei minhas mãos à cabeça e andava de um lado a outro sem saber o que fazer, não conseguia pensar em mais nada, ele estava me deixando, estava me deixando! — Théo!!! Todo o ar se esvaiu de meus pulmões, e deixei um grito desesperado sair de mim antecedendo a um choro incomensurável. Carol me segurou, tentando me abraçar e eu tentando tira-la de mim, não


queria ser consolada, queria o Théo, queria o meu Théo, queria o meu amor! Queria matar o João! Empurrei Carol e corri muito! Atravessei o estacionamento, o pátio de entrada, os jardins e a piscina comum, entrei apressada pelo salão e segui para o corredor que levava aos quartos. Acho que empurrei a porta com tanta força atrás de mim que ela voltou a abrir, João me olhou assustado e parti pra cima dele, descontando toda a raiva que estava sentindo dele, dos quase quatro anos que ele jogou fora por nada. De como me traiu porcamente com uma mulher a quem chamei um dia de amiga. Raiva por ele ser um canalha. Raiva de mim, por ter sido tão estúpida em não abrir os olhos e ver que era ele quem havia entrado na piscina. Raiva por ter desconfiado de Théo e Rosane. Raiva! Raiva! Raiva! João se defendia com as mãos enquanto eu lhe dava chutes, tapas e socos. Meu corpo tremia e simplesmente não pude parar de atacá-lo ainda quando Guilherme e Alan me arrastavam para longe de João e eu tentava alveja-lo com mais chutes e pontapés. E eu gritava pra quem quisesse ouvir que eu o odiava, o odiava com todas as minhas forças! Nunca antes senti tanta dor. João me traiu, eu vi. Ainda assim não era nada perto do que estava sentindo. Alguém me deu água com açúcar, mas não queria água com açúcar. Tentei ir embora e não me deixaram, precisava ir até o Théo dizer a ele! Dizer... eu... eu... 171 *** http://grooveshark.com/s/That+I+Would+Be+Good/3f7mbk?src=5 Carol dormia ao meu lado em seu chalé. Eu, fitava a parede pintada de branco... fitava o nada. O travesseiro encharcado pelas lágrimas.


Aquela dor não tinha ido embora. Segurei o celular forte nas mãos, foram tantas as mensagens que deixei, tantas chamadas, todas ignoradas. Carol me contou, contou que Théo e ela conversavam sobre a loja de bolinhos de chuva, que ele adorou a ideia. Contou que estava chateado por eu não acreditar nele, contou que Rosane estava segurando a aliança em sua mão, apenas isso. Foi me procurar, deve ter visto João e eu num canto da piscina. Arrumou sua bolsa de viagem e foi embora. Nem ao menos me questionou. Apenas se foi. E com isso aquela amargura foi se transformando em mais raiva, agora estava com raiva dele, por não ter falado comigo! Por ter pensado que eu pudesse voltar para aquele porco do João. E na mesma proporção em que crescia minha raiva, crescia também meu desespero, não poderia viver sem Théo, não conseguiria. E minhas lembranças me torturavam com a visão do discreto sinalzinho que suspendia acima do lábio e quase sumia quando ele sorria, de como partia o pão em pedaços pequenos e os levava à boca, do aperto de seus abraços, do jeito que amarrava o tênis como uma criança e da maneira desenvolta e totalmente contrária com que dava um nó de gravata e me lembrei de cada coisa boba e trivial. Carol e eu voltamos para o Rio de Janeiro assim que amanheceu, nos despedimos dos meus tios e Tio Bento disse: Nunca vi você querer tanto uma coisa. E sorriu. 172 Sabe o que foi pior? Entrar no apartamento e percebê-lo tão vazio quanto estava meu coração sem o Théo. Andei com medo de meus próprios passos, minha respiração aumentando em desalinho enquanto me aproximava do quarto, parei à porta do banheiro, sobre


a pia não havia mais nada dele. Meu coração martelava o peito da maneira mais dolorosa possível. Nada mais nas gavetas, nada mais em seu lado do guarda-roupas. Levou o tênis, que só serviu para enfeitar o canto da porta. As roupas lavadas ainda amassadas, também as levou. Sentei-me no corredor frio e lá apoiei minha cabeça em meus braços, enlaçando minhas pernas em um abraço, nada mais importava. Nada. 173


32. Terça-feira. O sol estava alto. Eu sem forças para me levantar da cama. Quebra luz e cortinas fechadas, não consegui pregar os olhos, rolando de um lado a outro, estava me sentindo pequena, encolhidinha embaixo dos lençóis. Meu celular apitou uma mensagem e agarrada num fio de esperança o alcancei sobre a mesa de cabeceira. Carol. “ Disse que estava muito doente, mas o chefe tá fulo! Dá notícias por favor!” – C “ Tudo bem. Vou descolar um atestado.” – D Muito a contragosto me levantei. No espelho o reflexo tosco de um rosto inchado de tanto chorar, olheiras fundas e nariz vermelho de tanto fungar. Fechei os olhos, precisava tirar forças e não sabia de onde para resgatar a mim mesma daquele inferno. Praguejei por estar me comportando como uma adolescente, coisa que não era há muito tempo. Primeiro a gente nega, não acredita no que está acontecendo. Depois a gente simplesmente se culpa e começa a culpar o Mundo inteiro por cada passo mal dado. Ainda antes de parar de culpar o Mundo, vem a fase de sentir muita raiva da pessoa que nem ao menos nos deu a chance de explicar. E então vem a auto piedade, misturada com indignação, raiva de si mesmo e uma coragem fingida de querer seguir em frente. Mas foi nessa fase que percebi que ele poderia estar sentindo o mesmo, pois eu, da mesma maneira, não lhe dei a chance de explicar coisa alguma e então sem dúvida ele me viu com João e a coisa seguiu ladeira abaixo. O fato de ter apenas ido embora me dizia que ele pulou todas as etapas e foi direto para o seguir em frente, e o que eu poderia esperar de um cara como ele? Peguei o resto de dignidade que tinha, respirei fundo e segui até uma Unidade de Atendimento 24horas, consegui um atestado de dois dias, inventei


174 uma dor maluca e pronto, mas estava na cara que remédio nenhum poderia curar aquela dor no meu peito. Voltei pra casa com o pensamento nas palavras de tio Bento. “ Nunca vi você querer tanto uma coisa”. Foi com essas palavras em mente que entrei na internet, em busca do Théo, ainda que ele seguisse adiante, eu precisava explicar o que aconteceu. Mas ele havia retirado a página do seu anúncio, no número telefone que tinha, aquela maldita mulher dizendo que o número era inexistente, foi me dando um desespero, medo absurdo de perde-lo pra sempre. Era madrugada quando peguei o carro e fui para o Joá, parei na frente da casa do tal amigo, estava tudo escuro e silencioso, esperei por ele, esperei a madrugada toda, até o sol de quarta-feira me acordar invadindo o meu carro e me chamando pra vida. Apesar do atestado válido para aquele dia, precisava voltar para o escritório, não havia retornado a nenhuma chamada da Carol que foi até meu apartamento e deu de cara na porta. Precisava pensar com clareza, caralho! Eu não era mais uma garotinha que perdeu o namoradinho da escola! Eu sabia de todos os riscos e sabia que estava apaixonada por ele! Precisava me recompor ou a ausência do Théo me consumiria por completo. Carol arregalou os olhos e a boca formou um grande O ao me ver. — Mas que porra é essa? Vem cá! — me arrastou para o banheiro antes mesmo que eu colocasse a bolsa sobre a mesa — Caramba, eu liguei tanto pra você, fui no seu apartamento... aonde você se meteu?? Minha Nossa, que


estrago! Tio Bento me ligou, Sandro me ligou, até o Alan me ligou! Tua família tá louca atrás de você! ... Seria cômico se não fosse trágico, Carol falando muito, tentando me maquiar, e as lágrimas apenas descendo, sem nenhuma lamentação, apenas elas, que saiam copiosas. A recepcionista abriu a porta, levou um tempo pra assimilar a cena e avisou de uma entrega para mim. 175 Primeira coisa que pensei: flores! Théo me procurando para conversarmos! E quão grande foi minha decepção com aquele pequeno envelope pardo com meu nome apenas. Minhas chaves. Afundei na cadeira e o ar apenas se esvaiu. Fiquei com o envelope nas mãos sem saber o que fazer. Não havia um contrato que fizesse sentido, as letras se misturavam e me confundiam ainda mais a mente. Não conseguia ouvir nada que Carol falava, não conseguia ouvir nem a mim mesma. O chefe apareceu na minha frente, falando suas bobagens devidamente ignoradas, se retirou, percebi quando bateu a porta e senti que todos me olhavam. O telefone tocou, no visor seu ramal, mandou que fosse até sua sala. Sinceramente, eu não sei o que aquele boçal falava, só via sua boca se mexendo com arrogância e minha mente só pensava que... eu perdi o Théo, perdi o único homem que amei. O chefe ficou esperando uma resposta e não sei, estava tão sem paciência pra ele... — Se o senhor está tão insatisfeito comigo, por que não me manda embora? * Carol ficou me olhando sem entender a minha cara, era um misto de alívio com as mesmas lágrimas de antes...


— E aí? — Fui demitida. — O que?? — Graças a Deus. Vou pra casa. — Aviso prévio? 176 — Indenizado. Melhor assim, Carol, agora aquele filho da puta pode colocar um parente dele no meu lugar, o que vem querendo fazer há tempos. — Carol me abraçou forte. — Mas você vai ficar em casa? — Vou tentar remarcar uma entrevista pra sexta-feira, estarei bem até lá. — Caralho. — Carol coçou a cabeça, tentando disfarçar sua tristeza e seus olhos marejados. Saí me sentindo livre, tranquila. Já com saudades de ter Carol ao meu lado perturbando minha vida a cada segundo, mas no geral, com toda a dor que a ausência de Théo me causava, me livrar do chefe escroto foi a melhor coisa naquele momento. Precisava apenas resolver uma coisinha... O homem baixinho e barrigudo que atendia pelo nome de Paulo abriu a porta e desanimou em me ver. — A senhorita... — Lembra de mim, né?! — Lembro sim... Como conseguiu entrar? — Deixaram o portão aberto. — Sei... O que você quer? Ver minha identidade novamente? — Não. Quero que por favor, Paulo, diga a ele que o amo. Que foi um malentendido e que o amo. — Ama quem? — ele parecia confuso. — Todo mês entra uma soma em dinheiro na conta da sua empresa. Diga ao homem que faz com que estas somas apareçam que eu o amo, mesmo que ele não queira acreditar que foi um mal-entendido, apenas... diga que o amo, por favor. — enxuguei a lágrima que escapava.


Ele ficou me olhando com piedade e suspirou, balançou a cabeça em negativa e eu fui embora. 177 Dali segui para casa, precisava voltar pra minha cama, dormir no carro não era uma coisa legal para as costas, não mesmo. * Q uinta-feira. Acordei decidida a contratar um detetive particular, sim mais uma de minhas ideias brilhantes, foi o que pensei de mais sensato para encontrar o Théo. Almocei com Carol e contei meu plano, ela não foi contra, sorriu um bocado e estava feliz em me ver aparentemente bem, como ela mesmo disse. Mas não precisei gastar dinheiro para isso. Assim que Carol e eu nos despedimos, segui de carro até Copacabana, parei no sinal fechado e, sabe quando dá uma sensação estranhíssima no peito? Como um aviso? Olhei distraidamente para a minha esquerda, minha boca se abriu e fiquei imóvel, ignorando completamente as buzinas dos carros atrás de mim, um cara me cortou e gritou algo como “ piranha!” Sei lá, acho que foi isso que ele disse, sinceramente não consegui prestar atenção em mais nada, estava paralisada. Théo. Ali adiante, atrás do vidro daquele restaurante caro, sorrindo tranquilamente enquanto entrelaçava seus dedos aos da mulher de cabelos negros e longos, pareciam felizes, ela sorria ainda mais, meus olhos se estreitaram quando ele beijou-lhe os nós dos dedos. Pisei fundo no pedal furando o sinal amarelo, por um segundo até perdi o rumo de onde estava indo e quando dei por mim estava xingando todos os palavrões que haviam no planeta! Que burra! Estúpida! Entrei no salão em busca de uma hidratação, manutenção da minha sobrancelha, uma escova e um novo corte de cabelo. Estava furiosa! Precisava me acalmar! Precisava esquece-lo, afinal para aquele miserável... tudo estava indo


muito bem! Falso! “ ...mulher da minha vida...” Filho da puta! Prostituto desgraçado do caralho! 178 Ainda estava irada, decepcionada e com mais raiva ainda de mim, e ainda pra completar recebi uma mensagem da Carol... * estou indo pra Realengo, ver minha mãe, Chispita comeu veneno de rato e morreu, mamãe está muito triste* Puta merda, eu adorava aquela gata velha. E outra vez a dança das sombras no teto do meu quarto me distraiam, o ir e vir dos carros... uns dando sombras mais rápidas, outras mais lentas. Abracei o travesseiro e tentei dormir. * Sex ta-feira. Quase uma semana sem o Théo, parecia uma eternidade, por mais que agora o odiasse muito, não estava sendo nada fácil. A entrevista de emprego foi numa sala alugada no Centro do Rio, o homem que conversou comigo chamava-se Ricardo, um homem muito elegante e diria até bonito, foi muito educado e elogiou bastante minha roupa, um vestido tubinho da Madame MS, cinza gravite e um cinto fininho vermelho, cheguei a pensar que era gay, mas o jeito como me olhou enquanto conversávamos, não, não era gay. Meus cabelos estavam mais bonitos com o corte reto na altura do ombro, com algumas leves ondulações nas pontas. Maquiei-me com discrição em tons suaves. Fechamos um salário muito próximo ao que recebia anteriormente, mais os benefícios e um cargo muito superior ao que tinha. Saí de lá com a alma lavada! Ricardo, o homem magro de cabelos castanhos bem arrumados e olhos esverdeados elogiou muito minha desenvoltura


e meus conhecimentos, não pestanejou em me contratar, disse que era melhor contratar-me antes que outro o fizesse, gostei disso. Gostei também de saber que começaria tão logo, na terça-feira após o exame admissional, marcado para segunda-feira. Vida nova! Foda-se aquele michê desgraçado dos infernos! Foda-se o João! Fodam-se todos! 179


33. Ainda que não fosse na área de Petróleo e gás, trabalhar naquela empresa, longe pra cacete da minha casa seria algo novo e desafiador, uma multinacional courier.... Na verdade não me lembrava de ter enviado meu currículo para a Battlestar Shipping S/A. , mas estava feliz por recomeçar em tão pouco tempo, a carteira seria assinada tão logo conseguisse homologar a demissão na outra empresa, mas estava me sentindo com um ânimo renovado. Há males que definitivamente vem pra bem, poderia estar naquele instante arrastando corrente por um michê canalha mentiroso e ter perdido essa oportunidade, enquanto ele simplesmente atendia a mais uma mulher. Aquela cena não me saia da cabeça, e foi por isso mesmo que me enfiei num vestido social preto bem marcado com o decote em diagonal, assim que desci do carro tirei a sapatilha baixa e calcei meu salto alto colorido da Charlotte Olympia. Meu primeiro dia na Battlestar e não havia reparado em muita coisa, estava feliz em ter uma sala pequena só pra mim! Ricardo me recebeu muito bem e me levou para conhecer as dependências da empresa, os funcionários foram incrivelmente simpáticos e o ambiente era sempre descontraído estava mais atenta às pessoas que em qualquer outra coisa. Haviam muitos jardins internos que separavam as alas. Minha sala ficava perto da entrada do primeiro andar, era um prédio plano de sede própria, cheguei no meio de uma reforma, o nome e logo da empresa estava sendo trocados e a fachada pintada. Isso foi tudo o que havia reparado num primeiro dia. No dia seguinte, estreei mais um vestido e mantive os saltos agulha, Ricardo elogiou bastante e nos sentamos próximos.


A gerente comercial estava com uma barriga gigante, teria um bebê para logo e estava indicando Ricardo para assumir sua posição, conforme aprovado pelo diretor comercial e um dos sócios da empresa. 180 O diretor daria uma rápida palestra sobre os novos desafios da empresa ao final da reunião e já estava ciente, através do próprio Ricardo, que estaríamos ampliando nosso campo de atuação em mais um país na América do Sul, a Battlestar atuava no transporte multimodal de cargas e equipamentos diversos. Havia também um braço da Battlestar que alugava jatinhos particulares para viagens internacionais. Tamara, a gerente, iniciou a reunião com um vídeo, apresentando as conquistas realizadas pelo setor comercial da companhia, aproveitou também para me apresentar a todos como nova supervisora comercial, reiterando que a parte de contratação estaria sob meu comando e comunicou que estaria ligada diretamente ao novo gerente, Ricardo, e ele se reportaria ao diretor comercial, o senhor Anghelo Di Piazzi. A luz ficou mais fraca para um segundo vídeo, este sim se tratava dos novos desafios. Tamara conversava baixo num canto com algumas pessoas, mas eu estava mais interessada nos índices apresentados e inconformada por não haver luz suficiente para que anotasse aqueles dados. Foi um vídeo rápido de cinco minutos, assim que as luzes se acenderam, puxei rapidamente o bloquinho de papel que havia levado e escrevia o mais rápido possível para não esquecer de nenhuma informação. Um deslocamento de ar ocasionado por algumas pessoas que transitavam pelo corredor a fim de tomar seus lugares me fez lembrar do perfume dele. Então o diretor Anghelo, nos deu Buongiorno já iniciando suas falas e todo o sangue do meu corpo se congelou, deixei a caneta e o bloco caírem


ruidosamente do meu colo tamanha tremedeira que me deu, meu queixo batia de tanto nervoso, a respiração suspensa e meu coração pulando. Relutei em olhar para frente pois havia se instalado um silêncio absoluto, forcei-me a encara-lo ainda que meu salto estalasse seguidamente no piso frio. Théo? Meu olhar encontrou o dele, pensei que desmaiaria. Parado, me olhava fixamente, sério, sem transpassar nenhum sentimento a não ser a surpresa de me ver ali, as sobrancelhas levemente arqueadas. 181 Os vinte colegas que estavam na sala começavam a me olhar e eu pálida, nervosa e lacrimejando. Abaixei-me de repente, quebrando o contato visual, peguei o bloco e a caneta, levantei com um fraco e embargado com licença e saí da sala de vídeo conferência. Fui direto para minha sala, onde finalmente consegui soltar o ar que prendia, estava muito confusa. Por que o Théo...? Não fazia sentido! ... Que loucura! Meu Deus, Meu Deus, Meu Deus! Alessandro. Puxei o telefone discando rapidamente para meu primo que atendeu num segundo toque. — Sandro, oi é Debby, me diz uma coisa, de onde você conhece o Théo? — Ué, não falei? Ele estava no voo fretado pelo meu grupo para Milão. — Mas como assim estava? — Estava com o copiloto, me lembrei pela tatuagem dele, era a mesma pintada no jato. — Você não disse que era um jatinho!! — Ué e fazia diferença? — Obrigada, Sandro, depois a gente se fala... — Espera! Vocês estão bem agora? Não respondi, desliguei imediatamente.


Carol! Ela não atendeu ao meu chamado, liguei para a empresa, ela estava em reunião. Então percebi que havia uma mensagem dela no celular “ precisamos conversar com urgência!”. 182 De repente me dei conta de um monte de coisas. Corri e procurei uma folha de contrato assinado no primeiro arquivo que encontrei, lá estava, Anghelo Theodore Di Piazzi. Théo. Meu novo patrão. O meu Théo. Meu? Que maluquice! Nunca foi meu! Nunca foi de ninguém! Não tinha cara pra voltar para a sala de vídeo conferência, por mais importante que fosse, ainda estava me refazendo do susto. Bebi uns dois copos d’água pensando no que deveria fazer e não cheguei a nenhuma conclusão a não ser desgastar meu salto no carpete, andando de um lado a outro. Mais ou menos dez minutos depois a secretária tocou no meu ramal. — Senhora Débora, o doutor Anghelo pediu que fosse até a sala dele. — tava demorando... — E.... onde fica? — minha voz soou insegura. — Atravesse o primeiro jardim interno e siga até a sala de reunião 2, vire à esquerda e chegará na sala dele. — Obrigada, Edna. — eu respondi ou sussurrei? Foi o que fiz, logo depois de retocar a maquiagem, me olhar no espelho umas cem vezes pra ver se o meu cabelo estava bom e cuspir o chiclete, atual base da minha pirâmide alimentar. Esfreguei as mãos no tubinho verde musgo umas outras centenas de vezes, não sabia o que fazer ou o que falar. Atravessei o lindo jardim interno e segui até a sala de reunião 2, virei para um pequeno corredor à esquerda onde havia gravado na porta dupla Anghelo T. Di Piazzi, Diretor Comercial.


183 O coração batia tão rápido que achei mesmo que enfartaria! Se pelo menos meus joelhos parassem de brigar um com o outro... Como simplesmente entrar na sala dele e dizer tudo que precisava ser dito?? Ele não precisava se prostituir, ele era um completo pervertido! Caralho! O que me falta agora?? Ver macaco em cima do poste?! 184


34. Estalava o clique da caneta seguidas vezes, não acredito que me esqueci completamente de ter recomendado a contratação dela! Agora ela estava há um minuto de distância da minha sala! Não posso simplesmente manda-la embora, isso seria abominável, ainda que aquela traidora mereça! Inacreditável. Aquela cena dela na piscina não saia da minha cabeça. Queria ter ido lá, arrancado aquela cachorra safada da piscina, ter dito tudo o que pensava dela, quebrado a cara daquele magricela! Ela não tinha vergonha na cara! Uma vadia. Me usou perfeitamente para ter o namorado de volta. Ela que faça bom proveito daquele filho da puta! Queria ter feito e dito tanta coisa, mas não fiz. Ela só precisava esperar um dia, uma porra de um dia! Havia preparado uma surpresa linda praquela safada! Mas também... Pra que? Para ouvir pela cara que eu era subordinado a ela? Puta. Mas se não fiz antes, não poderia fazer agora. Maldita Nádia. Por mais que me esforçasse aquela tarde não saia da minha memória, Diabos! ... junho Me olhei no espelho pela décima vez, odiei aquele cabelo castanho, mas enfim, precisava fazer alguma coisa, Nádia estava me irritando profundamente com aquela história de fantasia sexual. Ainda não estava acreditando que ela me fez colocar uma foto parcialmente nu na internet.


Balancei a cabeça mais uma vez ao perceber que estava me comportando como um cordeirinho. Meu relacionamento não estava mais dando certo, essa história de fantasia sexual seria minha última tentativa, já estávamos nos desgastando demais e definitivamente o que eu menos queria era que nos tornássemos inimigos. Nádia era linda, não muito inteligente, mas era educada e sofisticada, embora fosse bastante mau humorada nunca reclamava quando precisava me ausentar mas também não aceitava que eu reclamasse das viagens dela. Era assistente de uma produtora de vídeo e viajava tanto quanto eu para matérias que 185 estavam constantemente no National Geo. Era previsível que depois de um ano e meio estivéssemos caindo numa relação morna e sem graça. Talvez ela tivesse razão, afinal. Assim que os empresários responsáveis pela fabricação dos containers saíram da sala, Paulo escondeu a risada mas meu primo Pietro não. — Dio Santo Anghelo! Que porra de cabelo escroto é esse? — Não ria. Estou numa experiência nova com Nádia. — Meu amigo, você está simplesmente ridículo. — Paulo afrouxou o cinto naquela barriga horrível que estava cultivando nos últimos anos e voltou a escrever em sua agenda. — Vou almoçar. Vamos Paulo, Anghelo? — Uma e meia da tarde? Comer comida remexida no centro do Rio? Não, obrigado. Prefiro um café e um bolinho aqui perto mesmo. — Pois eu vou almoçar, a segunda rodada de negociações será mais dura. Vamos então, Pietro? — Sim, que tal um restaurante que tem aqui na rua primeiro de março? ... Eles seguiram felizes rindo do meu cabelo ridículo e entrei na livraria na rua do Ouvidor, repensei o bolinho, estava sem fome, apenas o café expresso com creme e de repente dar uma volta, ler alguma coisa... Rodei por uns corredores próximo a entrada e ouvi uma risada tão gostosa,


não, estava mais para uma gargalhada, fazia tanto tempo que não ouvia uma risada assim, limpa, sincera, chamou minha atenção. Levantei os olhos para ver a quem pertencia aquela risada, uau! Eram duas mulheres mais ou menos da mesma idade e estatura, a que falava era bem magra de cabelos curtos e lisos, a outra, que ria, tinha um corpo incrível, passou por mim e acompanhei o seu andar, ela podia tentar esconder aquela bunda perfeita por baixo da saia comportada mas não estava conseguindo. A blusa era clara e com a diferença da luz percebi sua silhueta . Veramente bella. 186 Acho que nem pensei direito quando comecei a segui-la pelos corredores, mas ela estava entretida com um livro, parei atrás dela, queria saber o que lia com tanto interesse, mas não deu tempo, ela largou o livro na estante e se virou tão rápido, tentei me virar também para que não percebesse que estava bisbilhotando e acabamos trombando. Me desculpei, ela também se desculpou e então me encarou. Me encarou mesmo. Despois olhou para minha boca e não pude evitar sorrir, ela estava com uma cara engraçada, parece que se assustou comigo. Eu segurava um livro qualquer e então percebi que aquilo estava muito estranho, então me afastei. Quando já estava no caixa percebi que então era ela quem afinal me seguia, ora...ora... estava interessada... entretanto não falou nada, eu também não, a bem dizer estava tentando me concentrar em Nádia, mas aquela mulher era diferente, havia uma vida nela, um jeito... *** Considerei em atender o telefone, olhei novamente, número privado, talvez fizesse parte da palhaçada da Nádia, então atendi. — Alô?


— É... oi... é... eu.. é... — Quer marcar um programa. — É. — Mulher ou homem? — segui o roteiro... — Mu-mulher... mulher! Sorri ao perceber que não era a Nádia, talvez alguém tenha visto o site e estivesse marcando um encontro, ou então Nádia mandou alguém ligar, continuei naquela bobagem. — Tá, uma mulher... várias mulheres... só mulher... — Só eu. 187 — São cento e vinte a hora, vaginal, a posição que você escolher, não faço chuva de cor nenhuma, dourada, negra, e não aceito isso também, nada com sangue, crianças, animais ou árvores... — A mulher me interrompeu. — Moço. Moço! — parei — Sou só eu, sem vaginal, oral ou anal — aí mesmo que ri, caralho, por essa eu não esperava, Nádia estava se superando! Mas de repente.... talvez não fosse a louca da minha namorada... — Isso é trote, moça? Se for, não ligue, não posso ficar ocupando essa linha com besteiras e... — É sério! Só preciso de um acompanhante. Parei pra pensar, melhor verificar, se fosse e eu estragasse tudo, ela encheria a porra do meu saco. — Certo... onde podemos nos encontrar? — Anota o endereço. — Ok, não reconheci o endereço, mas resolvi seguir com a brincadeira. Cheguei rápido até... só não entendia por que ela arrumou um lugar tão longe da minha casa com tantos hotéis e motéis tão mais pertos... Então abriu a porta e eu tive que rir. Dio mio, que merda! A morena gostosa da livraria! Não resisti a curiosidade e resolvi entrar. Ouvi a tudo atento, fiz um esforço enorme para não rir e não desmentir, não ainda, ligaria pra ela e diria que era um engano. Caralho, essa mulher era a mais lindamente maluca que havia conhecido


até então! Contratar um namorado falso? Ela? Qualquer um toparia namorar com ela na hora! Saí do apartamento dela e ao entrar no carro, recebi uma mensagem da Nádia, ela se esqueceu de me avisar que tinha um trabalho novo e sairia da cidade, mais que retardada! Depois mandou uma mensagem dizendo que a gente precisava conversar quando voltasse. Mas é impressionante como ela é! Se viesse com papo de terminar... Certamente nem amizade restaria entre nós, ela fez com que eu pintasse meu cabelo! Ainda assim ligaria para a Débora assim que amanhecesse. E qual foi minha surpresa quando ela ligou e me acordou. 188 * Setembro E se não fosse minha propensão em conhecer mais um pouco sobre aquela mulher linda, louca e muito, muito gostosa, não estaria agora com tanta raiva, uma puta dor de cabeça e totalmente despreparado para ficar perto dela! 189


35. Li e reli, Anghelo T. Di Piazzi – Diretor Comercial. A moça loirinha e miúda que estava sentada próxima à porta pigarreou e me virei para encara-la. As sobrancelhas levemente arqueadas e um sorriso sutil nos lábios rosados, esperando que eu dissesse algo. — Ah! É, Débora Albuquerque, ele me mandou vir. — consegui transparecer uma falsa calma. — Ah sim, senhora Débora, a nova supervisora comercial... Sou Sabrine. Seja bem vinda! — Obrigada. — não por muito tempo, preciso dar o fora desse lugar o quanto antes! — Pode entrar, o senhor Di Piazzi a aguarda. — Senhor Di Piazzi, humpf. Tarado, doente! ...Pelo menos Sabrine era engraçadinha, falava como uma mocinha adolescente. (Mas não do tipo idiota... só... ah! Dá pra entender!). Entrei sem bater. — Com licença Théo, mand... — Sente-se senhora Débora. — me interrompeu. Meu coração batendo na garganta. Théo estava atrás de sua mesa com um monte de papéis na mão, não se parecia em nada com o Théo, na verdade aquele cara de terno grafite e camisa preta era o senhor Anghelo, Nossa, Anghelo... Aquelas roupas que ele usava, eram do trabalho, com a lembrança dele me encontrando pela primeira vez no bar do centro um sorriso debochado escapou pela minha boca. Ainda estava bem nervosa e meus joelhos batiam um no outro com frequência, não sabia o que fazer ou como agir. Era tudo tão estranho e surreal, não conseguia acreditar. Théo levantou os olhos por um instante me encarando, meu peito ardia,


meus joelhos tremiam e minha boca ficou seca. Depois do que pareceu um século, 190 voltou sua atenção aos papéis. Respirou fundo, passou a mão nos olhos com o polegar e o indicador, parecia exausto. — A senhora perdeu a palestra. — merda, senti falta da voz dele, segurei aquele nó estranho na garganta, aquele que antecede o choro — Estes, são os documentos dos contratos que as empresas chilenas enviaram — esticou as mãos para que os pegasse, ele segurou os papéis por mais tempo que o necessário então largou de repente — como pode ver são duas empresas sólidas, entretanto preciso que faça suas considerações sobre os riscos de assinarmos os contratos, assim como estão. — Sim... sim senhor. — não precisava ter me pedido isso, mas se ele queria agir assim... fingindo que nunca me viu antes... faria o mesmo! Por mais que me doesse. — É só. — Com licença. — então me lembrei de uma coisa e me virei já próximo à porta, — Ah! Théo... — freei na mesma hora, ele estava me olhando, respirei fundo e prossegui — desculpe, Anghelo, precisa dessas informações para quando? Ele olhou para o relógio em seu pulso, olhou para a janela enquanto tamborilava o dedo no queixo. — Quarenta minutos. — Quarenta minutos?? — Isso. Tenho certeza da sua capacidade, me surpreenda positivamente, dessa vez. Abri a boca para protestar e ele me indicou a porta com a mão, me negando a chance de falar. Dá pra acreditar nesse cara?? “ me surpreenda positivamente, dessa vez.”


Imbecil. Pervertido. Engoli aquele choro idiota e andei apressada até minha sala e no caminho chamei Ricardo e Gabriele, a quem me foi apresentada como a funcionária mais antiga do setor. 191 Contei a eles que o senhor Anghelo precisava de uma resposta rápida quanto aos riscos de cada contrato. Pedi desculpas ao Ricardo, para que não pensasse que estava passando por cima dele e seguimos com o trabalho. Fiquei com um dos contratos junto com Gabriele e Ricardo assinalando o outro. Discutimos sobre os pontos em cada um e trocamos os contratos, achei mais algumas coisas que não poderiam passar despercebidas e em trinta minutos estávamos com os contratos prontos. Os peguei e praticamente corri até a sala do Théo, então a adorável secretária disse: Ele saiu pra almoçar, assim que voltar lhe chamo. Filho da puta! Voltei pra minha sala e só de sacanagem scaneei os documentos, os compactei e enviei por e-mail. Pronto! Babaca! Cara, ainda estava fora de mim com aquilo tudo, parecia uma piada sem graça! Por que um cara como ele se prostitui ou se prostituía? Essa pergunta não saía da minha cabeça! Um pervertido fetichista! Não havia outra explicação! Segui desnorteada durante todo o dia, tentando me concentrar no que fazia, a cada vez que me lembrava de algo era como montar um quebra cabeças, os compromissos inadiáveis, a viagem ao Chile, falar de DFP! Os telefonemas que o deixavam tenso... Ainda não conseguia entender! Seria tão mais simples que me contasse a verdade de uma vez! ... “— Tá. Mas pelo menos me diz se o seu nome é mesmo esse. — É.... é? É. — Isso foi ridículo Théo.


E lá estava ele rindo de mim mais uma vez.” ... 192 Carol finalmente atendeu ao meu telefonema. — Ô sua piranha! Tô tentando falar com você, cacete! — E eu tô te ligando, porra Carol! Preciso falar com você, mas pessoalmente! — Pessoalmente não tem como, estou indo daqui a três horas resolver pepino na locação de áreas em Curitiba. Também queria falar contigo pessoalmente, mas né... Abre seu e-mail particular, agora! — Está aberto, espera, vou atualizar. Ao abrir o e-mail da Carol, senti meus olhos saltando pra fora da órbita. — Que porra é essa?? — A porra do meu saldo. A Galáctica depositou dezoito mil de volta. Quer por favor me dizer o que está acontecendo?? — como se eu fosse capaz de saber o que se passava na cabeça daquele tarado! — Ainda não Carol, deixa primeiro eu descobrir, você volta quando? — Amanhã à noite. Vou direto do aeroporto pra sua casa! Tive uma conversa com uma pessoa e preciso contar isso em detalhes. — Perfeito, mesmo morrendo de curiosidade, até amanhã Carol. — Até. Juízo! — se até Carol estava me pedindo pra ter juízo é porque a coisa estava feia mesmo. ... Resolvi tomar uma xícara de café, segundo item da minha dieta, depois dos chicletes. Ao retornar da copa, perguntei a Edna, como quem não quer nada, se ela sabia se o Dr. Anghelo morava no Joá. Ela respondeu que sim. Filho da puta! Ele me levou na casa dele! A casa era dele! Dele! Por isso não havia problema em dormirmos lá, usar as coisas do “ amigo” dele, por isso ele sabia da bendita pomada no armário... Andando na frente pra ver os cachorros porra nenhuma! Devia estar escondendo os porta-retratos! Cretino!


193 Como não percebi antes? O nome das duas empresas se correlacionavam! É o nome de um seriado de tv, Battlestar Galáctica! Que absurdo!!! Ai como fui burra! Cara, ele me fez de palhaça! Por quê? Pra quê?? “ Dirijo”, “ Dirige o que?”, “ frete”! Dirijo um frete! Ai que ódio!! Diretor de uma companhia de transporte multimodal. Ele realmente dirige um frete! Maníaco! Caramba! Ele me entrevistou! Aquelas perguntas todas sobre ... Que merda! Caralho! ... Já me preparava para ir embora às dezoito horas quando a secretária mais uma vez passou um chamado do “ Dr. Anghelo”. E lá fui eu com os contratos encadernados, e uma surpresinha para nosso diretor. ... — Sente-se. — nem esperou que dissesse nada — A senhora não participou de toda a reunião e está atrasada horas com sua análise. — fez questão de frisar o horas. — Como é? — Eu disse quarenta minutos, não o dia inteiro. — estava sendo duro e inflexível. — Ridículo. — resmunguei. — O que disse? — ele parecia se divertir com a minha cara. Recostei-me na cadeira, nos encaramos. Não saberia dizer o que se passava pela cabeça dele, mas na minha, estava desesperada para pular sobre ele, arrancar-lhe aquele ar autoritário da cara! Primeiro queria estapear esse doente, traidor, mentiroso, mas quando os lábios dele se moveram com um bico contrariado, me odiei por perceber que queria tirar dele todos os beijos possíveis!


194 Aquele homem mexia absurdamente comigo! E talvez aquela mulher fosse mais uma a satisfazer seus fetiches! Mesmo assim minha vontade era morder seus lábios e arrancar-lhe todo o fôlego, queria mata-lo entre beijos ou morrer em seus braços já que no fim de tudo era ele quem me tirava o fôlego, que me fazia esquecer meu nome e abandonar meu bom senso com um simples olhar. Precisava me comportar e agir... como ele disse certa vez... “ sem misturar as coisas”, então apesar dele me fuzilar com os olhos, desviei os meus para a caneta de inox que vez e outra ele iniciava uma sequência de cliques. — O senhor estava ausente. Por isso lhe enviei a análise por e-mail, para que pudesse acessá-la em qualquer reunião que estivesse. — tentei ser o mais polida e educada, possível. Théo arregalou os olhos sutilmente e desviou-os para a tela do computador, desconfiado, franziu o cenho e me olhou sério. — Como o senhor pode observar a análise lhe foi encaminhada em trinta e oito minutos. — minha educação nada tinha a ver com o pequeno deboche. — O que não significa que esteja correta... — Filho da mãe! Sabrine, a secretária, interrompeu pedindo permissão para ir embora e ele apenas fez um sinal com a mão mandando que fosse. Por favor Deus que não fiquemos à sós ou não conseguirei manter a compostura. Passei-lhe os contratos encadernados, os mesmo que antes vieram em folhas soltas e desorganizadas. Théo estreitou os olhos para as encadernações e suspirou. De repente, sabe-se lá o motivo, abri minha boca só pra terminar de ferrar com tudo. — Théo, o João nã.... — Puta que pariu!! Tem algum João aqui nos contratos que eu te passei? — ele me assustou ao me interromper desse jeito, nunca o tinha visto tão puto,


meu coração quase parou — Eu quero mais que o João se foda e meu pau cresça! Entendi o recado. Me levantei e andei até a porta. 195 — Eu disse que podia sair? — parei com a mão na maçaneta, só então percebi que mais uma vez havia esquecido de tirar aquela merda de aliança falsa! — Você trabalha pra mim, ainda. Sente-se. É sério isso? Ele estava me repetindo em nossa discussão no chalé?? Respirei fundo, voltei e me sentei, queria ver até aonde ele iria com isso. Demorou-se lendo os rabiscos em silêncio. — Não tem apenas a sua letra aqui. — então sorriu maliciosamente. — Não senhor. — respondi naturalmente. — A senhora não é confiável? — quem era ele pra falar em confiança?? — Passou o trabalho que lhe incumbi a outra ou outras pessoas? — Sim senhor. — respondi como se isso fosse lógico e ele estivesse me fazendo uma pergunta idiota. — Por quê? — parecia um tanto irritado, e eu não estava gostando do rumo daquela conversa. — Porque uma das diretrizes da companhia é que se valorize o trabalho em equipe, você pediu urgência, "quarenta minutos", o gerente comercial e a analista Gabriele estiveram presentes para o cumprimento da tarefa. — respondi segura. Théo ficou com a boca entreaberta e negava com a cabeça, por fim passou a mão nervosamente pelo cabelo, despenteando-o e o deixando incrivelmente sexy, novamente respirou fundo soltando o ar de uma só vez. — Eeeu... Vou precisar de mais tempo pra ler suas considerações a respeito dos contratos. — dessa vez falou respeitosamente. Me levantei, ele observava. — Se é tudo, com licença, Doutor Anghelo. — não me respondeu, me encaminhei até a porta, mas então me lembrei de algo — Apenas um adendo, — mais uma vez me viro e o vejo ainda com os olhos em mim — ao final de


cada contrato encontrará páginas a mais, são gráficos indicadores, a cotação dos valores de reajuste anual com a previsão do dólar nos meses críticos e uma cópia do contrato com as alterações já consolidadas a fim de preservar a companhia. Théo se recostou na cadeira e folheou as páginas finais da encadernação que segurava. Parecia impressionado. 196 — Boa noite, senhor. — Por que fez isso? — ele não me deixava ir? — O senhor disse, “ surpreenda-me positivamente”. Agora com licença. — Débora! — Sim. Senhor... — agora deixei um tom de voz descontente no ar. Ficamos um tempo nos olhando e aquilo me machucou bastante, ele parecia querer dizer algo, mas não falava nada só ficava me encarando. Não sei se é possível manter qualquer relacionamento que fosse com aquele homem, não sabendo que ele era... ou, foi, o único que me ouviu de verdade, sem querer só falar de si, pelo contrário, não falou nada de si; a foda mais incrível da minha vida e o melhor macarrão com tomate de todos os tempos. Théo parecia zangado e ao mesmo tempo confuso. — Nada. Boa noite. — a voz era firme e autoritária num simples boa noite. — Boa noite para o senhor também. 197


36. Foi uma longa noite... Não tão boa quanto ela desejou, se bem que pelo tom de voz, sem dúvida estava me desejando que tivesse pesadelos! Insônia dos infernos! Não podia imaginar que me sentiria daquele jeito quando ela entrou na minha sala com aquela merda daquele vestido verde, por que ela não usa nada menos provocante?? Mas que porra! Tudo o que ela veste fica tão... Sorte minha que teria alguns dias longe dela. Mas que merda que eu tô pensando?? Quando já estava me acostumando com ela longe, aquela safada aparece na minha frente, na minha equipe! Com aquele vestido justo no quadril, com aquele decote... emoldurando os seios que eu adoro chupar... Deus! Além de gostosa ela precisava ser tão inteligente? Minuciosa, detalhista! ...aposto que estava usando aquela calcinha fio dental branca... não havia nenhuma marca de calcinha na bunda... Ela usou as diretrizes da empresa contra mim! Vaca! Debochou da minha cara! E ainda por cima usou um salto fino que deixa as pernas dela incrivelmente desejáveis... Aquelas pernas macias...apertavam tão gostoso me empurrando mais fundo naquela bocetinha apertada que ela tem... Bruxa! Desgraçada! Puta que pariu! Eu me recuso a bater umazinha por causa dela! Me recuso! Mas não consigo parar de pensar que esteve aqui na minha cama, no meu chuveiro, no meu sofá, ela se entregou de um jeito... Com tanta vontade... Estávamos sempre tão famintos do corpo do outro... tão molhada, melada, um gosto delicioso, o cheiro da pele dela... o som dos seus gemidos... Aaaaarght!


Puta merda! Eu de pau duro de novo! Não posso ficar pensando nela desse jeito, até sei lá quando talvez fique na empresa. Preciso colocar minha cabeça no lugar. Débora me tira do sério! 198 Não acredito que ainda estivesse usando a nossa aliança! Ela não vale nada! Não peraí, mas o que é que eu tô pensando? Isso não é normal... Como é que ela voltou com o cara e manteve a aliança? Isso é loucura demais até pra ela. ... — Não queria ser desagradável Anghelo, mas você está um trapo. — Obrigado Pietro eu não havia notado que depois de passar a noite sem dormir ficaria assim. — Por causa da tal mulher. — E a Nádia? Acabou mesmo? Vocês sempre voltam, acho que você gosta de ser o tapete da Nádia... — Paulo se manifestou falando lentamente enquanto estacionava o carro no aeroporto — Eu avisei que isso de bancar o Don Juan não daria certo... — Cala a boca, Paulo. — Pior, hein... Pietro... — parou de falar de repente para puxar o freio de mão e nos olhar com uma cara de deboche — que o gênio aqui mandou contratar a moça, começou ontem. A gargalhada de Pietro me cortou os ouvidos! — Diga em nome de Deus que ela pelo menos é boa profissional?! — Você leu as minutas do contrato? — Claro que eu li! — fiquei em silêncio, escorregando os óculos escuros do nariz para olha-lo nos olhos — Hmmmm... Jura?? — Cada projeção... — Espera aí, ela chegou ontem e já pegou tudo? Cara, preciso conhecer essa mulher! — Vamos, por favor? — eles estavam me irritando profundamente. Seguimos para dentro do salão de embarque e durante todo o trajeto desde


que saímos do carro, Pietro simplesmente me enlouqueceu. Paulo colocou bastante lenha na fogueira e eu estava a ponto de ter um troço! 199 Até que finalmente Paulo me parou um pouco antes de entrarmos no jatinho. — Ela esteve na minha casa mais uma vez. Disse que foi um mal-entendido e que te ama. — Ela não fez isso, você tá de sacanagem comigo. — Ah ela fez sim. E tenho certeza de que estava sendo muito honesta. — Como tem tanta certeza? — Depois que depositei o valor na conta da amiga, conforme você pediu... bem, você comentou sobre a viabilidade da tal loja de bolinhos... — Você conversou com a Carol. — não acredito que ele fez isso! Apenas assentiu — E você só me conta isso agora??? — Eu falei com ela e fui trabalhar! Queria o que? Que eu perdesse a embarcação? — fiz um bico, não gostei — E por acaso eu tenho tele transporte pra vir do meio do oceano Atlântico pra cá num piscar de olhos? — nós entramos no jatinho — Eu trabalho na Battlestar não na Enterprise! — Conhece rádio? Telefone? E-mail? Sinal de fumaça! — Ela é bonita? — Pietro se interessou em perguntar, antes que lhe dissesse que não, Paulo se meteu... — Linda! Morena, pele bronzeada, um corpão! — Cala a boca Paulo! — Santo Dio... — Carinha de falsa séria.... Sabe como ela entrou lá no prédio? Disse que era do senso! Pietro gargalhou mais uma vez! — E você acreditou? — Porra, por que não acreditaria? Nunca participei de um senso antes! A danada é esperta feito uma raposa! 200 — Percebi... Se bem que você não mora num lugar muito bom... por que não se muda?


— Porque aquele apartamento foi da minha mãezinha e quero manter minhas raízes lá. Além disso a garota entrou uma segunda vez e disse que o portão estava aberto... deve de ter é esperado alguém subir e foi junto. — Estou ainda mais ansioso pra conhece-la, afinal de contas... Alguém amarrou o “ Théo” ... Cara ainda não acredito que usou nosso sobrenome... Você é uma piada Anghelo. — Vocês estão me irritando. Agora mesmo que não conseguiria viajar em paz! E eu a tratei tão mal. — Sinceramente primo, admita que foi a coisa mais idiota que já fez até agora. — Com certeza não foi a mais idiota, Pietro... — Não deveria ter me precipitado tanto, ela podia ter precisado da minha ajuda com aquele filho da puta na piscina e eu não estava lá. Merda! — E a causadora de tudo isso... tem notícias da Nádia? — Me ligou assim que chegou no Cairo ontem. — Como ela reagiu quando vocês terminaram pela sei lá... vigésima vez? — Pietro perguntou sem muito interesse. — Me desejou boa sorte. — A cara dela... Se bem que desde que você começou essa farsa com a morena que a coisa entre vocês desandou de vez... A verdade é que Nádia não era uma mulher que se prendia por homem, quando nos conhecemos, simplesmente por estarmos no mesmo bar do hotel em Lisboa, ela me pareceu uma pessoa tranquila, mas na verdade aquela nômade era uma mulher fora do comum. O fato de termos namorado, ainda com idas e vindas, para ela era novidade, namorar alguém por tanto tempo quanto ficamos. Totalmente diferente da segurança que Débora me passava, de saber que ela sempre estaria lá, que não me ligaria de repente, com um “ querido mil 201 desculpas, vamos deixar a brincadeira para quando eu voltar”. O trabalho da


Nádia era a vida dela, acho que foi o jeito mais barato que ela arrumou para conhecer o Mundo, se tornando assistente de produção na NatGeo. Ela respirava aquela produtora. Diferente da Debby, que vivia coisas normais, Dio, quando me disse que era passista... na mesma hora a imaginei com aqueles trajes deliciosamente minúsculos. Minha realização foi vê-la naquele chá de panelas, Débora exalava sensualidade e tenho certeza de que ela não faz ideia do quanto me deixa maluco. — Anghelo! — Pietro me gritou — Caspita! Pare de suspirar um minuto e amarre a merda do cinto! Parece um adolescente! Quando o piloto iniciou os procedimentos para a decolagem me dei conta de que cinco dias longe dela era muito. Precisava voltar o quanto antes. 202


37. As caras que Carol fazia eram a melhor parte, segurava a boca, a cabeça, andava de um lado a outro, coçava o rosto, juntava as mãos em prece... — E agora? — Agora não sei, mas gostaria muito de esclarecer as coisas com ele. — Vai com calma, tá? — Com muita calma, não posso perde-lo novamente, Carol, eu morreria. — Bem, ao menos agora você sabe o nome dele todo! Caraca! Anghelo Theodore Di Piazzi. Théo! Isso é muito louco mesmo, parece coisa da Lady Gaga! Gente eu tô chocada que o tal Paulo seja contador do Thé- Anghelo, mas foi bom pra eu dizer o que acho disso tudo! Se bem que... Ih!... pensei numa coisa! Déb, você deu pro seu chefe!... — Era pra ser piada? Conta de novo que eu prometo rir. — Carol fez beicinho debochado e eu mantive a cara de tédio. [...] Sabe quando a gente rola de um lado para o outro ansiosa, porque aquela é a última noite antes das férias? Pois era como estava me sentindo aquela noite. Ansiosa para ver o Théo... Anghelo! Droga. Diferente de ficar duas semanas longe dele sabendo que apesar de distante, era meu, aquela semana tinha sido terrível sem ele, sem suas roupas, a loucura foi tanta que até o perfume dele comprei e borrifei no travesseiro que dormia. Agora, nem sei, estou com a mente dando voltas sem chegar em lugar algum. Não! Agora que cheguei até aqui não vou desistir! Precisava saber o motivo! Saber se em algum momento houve verdade em suas palavras! Precisava saber! * A vida é mesmo uma grande bosta e eu era o vaso sanitário! 203


Dois dias haviam se passado sem que visse o Théo, a cada dia minha esperança se renovava e aquela dor de não tê-lo visto voltava. Começava a achar que não era assim tão boa coisa estarmos no mesmo prédio. Ricardo entrou na minha sala sem bater com uma expressão indecifrável. — Vamos almoçar! — Almoçar? Estou de dieta. — Dieta? Você vai sumir! — Ricardo e eu estávamos mais próximos, era um cara bem legal e me tratava com muito respeito, gostava das minhas ideias e estava sempre disponível. — Preciso perder uns quilos para o carnaval. — Carnaval? Mas estamos em Setembro. — Exatamente por isso. Decidi que no próximo voltarei a desfilar. — Você desfila em escola de samba? — agora ele me olhou diferente... que não estivesse com maus pensamentos, para o bem no nosso relacionamento. — Sim, não desfilei nos últimos dois anos, mas agora quero novamente. — Isso é algo diferente, você é tão... — senti que se refreou. — Tão... — Séria. — Séria? Eu? — precisei rir um pouco do jeito dele, eu séria? Tá, talvez estivesse mesmo me comportando diferente, mas a verdade é que estava sem chão desde que vi o Théo dando Buongiorno. — E então, vamos almoçar? Você pode me contar mais como é essa coisa de escola de samba. Fiquei tamborilando com a tampa da caneta na mesa, pensando em aceitar... — Tá bem, mas por favor, me leve a um lugar onde tenha salada verde. — Conheço um muito agradável, servem uma quiche com salada, muito bom! 204 — Então tá. ... Ricardo Jordão era um homem muito agradável e muito transparente, em poucos minutos soube que era solteiro e que morava no Arpoador, brasileiro,


criado pela mãe até os quinze anos, mas quando começou a ser um adolescente rebelde ela o mandou para viver com o pai, engenheiro, e com a madrasta em Abu Dhabi. ... — O motivo que me fez invadir sua sala e praticamente te arrastar para cá foi o relatório que você concluiu na quarta-feira e entregou ao Anghelo, ele não alterou nada! — Nada? Tem certeza? — Nada! Mandou-me um e-mail hoje, parabenizando a equipe, semana que vem ele deve voltar do Chile... — hmmm então por isso que sumiu... estava no Chile — ... Precisei abrir o arquivo pra saber do que se tratava, você pegou rápido! Achei que os comentários fossem um teste, mas ele não estava blefando! A ideia dos gráficos foi ótima! Fiquei fascinado! Mas hein? Fascinado? Esse cara tá flertando comigo... — Obrigada, Ricardo, desculpe não ter lhe mostrado, mas quando fui procura-lo... — Sim eu saí mais cedo, às quartas estou fazendo um curso de especialização em drawback. — Ah! Legal! Eu fiz esse curso! Muito bom! — Estou gostando bastante... Ele era muito inteligente e simpático também, gostei dele, principalmente pelas piadas, mas precisaria ter um pouco mais de cuidado para não lhe dar falsas esperanças, sempre que possível deixava a aliança à mostra, finalmente ela serviu pra alguma coisa. Entramos na recepção rindo um bocado, chegava a me envergar com as piadas dele! 205


E ainda nos recuperando das risadas, passamos pela porta que separava a recepção do salão e demos de cara com o senhor Di Piazzi. E os risos de Ricardo foram morrendo aos poucos e os meus desapareceram na hora. Estava ele parado feito um dois de paus, com aquela cara de quem mastigou comida salgada. Me olhou dos pés à cabeça, o cumprimentamos e seguimos adiante. Entramos na sala de Ricardo, também uma sala pequena ao lado da minha. Durante o trajeto podia sentir que Théo nos observava. Ricardo abriu o e-mail e dei a volta para lê-lo. Théo foi formal com as palavras, mas deixou registrado sua satisfação em quatro linhas. A porta se abriu sem que se fizesse anunciar. Endireitei minha postura e ele fez uma cara feia. — Ricardo, marquei uma reunião para o fim do dia, já viu o e-mail? — Não senhor, estava mostrando à Débora o.... — Débora, também enviei um e-mail pra senhora, preciso que resolva algumas coisas, rápido. — Claro, eu... Caraca, que mal educado! Fechou, digo, bateu a porta e me deixou falando sozinha! — Acho que algo deu errado nas negociações. Ele só deveria voltar na segunda-feira... — Acho que ele não vai com a minha cara, isso sim. — Não se precipite, ele é estranho mesmo. — Estranho como? — Estranho. Sempre de cara amarrada, tenso... acho que é pela namorada... Mas eu não disse isso! — Sem dúvida que não! É... Ricardo, ele... ele tem namorada? — É difícil dizer se a tem nesse momento, dizem no rádio corredor que eles terminam e voltam com frequência. 206 — E... como é que ela é?... Assim... curiosidade... — Bonita, cabelos escuros, olhos verdes — hmmm odeio essa descrição! — parece uma modelo, esteve na festa da empresa no fim de ano... — “ parece uma modelo”, que inferno! Será que ela sabia que ele fica se realizando como


garoto de programas? Que está com ela e provavelmente com todo o Mundo? — Enfim!... vamos ver o que ele quer... — desgraçado! “ mulher da vida dele”. Infame! ... — O quê? — Sentei-me diante do computador e não havia uma só mensagem além do aviso de reunião! Que palhaçada! Redigi uma mensagem malcriada, enviaria, mas então me lembrei do que a Carol disse, “ com calma”. Ah! Que se foda! Caro senhor Di Piazzi, Por alguma razão o e-mail pelo senhor referido, na tarde de hoje, não consta em meus arquivos. Solicito gentilmente informar a natureza do mesmo e como posso ser útil. Blá, blá, blá e atenciosamente e não sei lá mais o que e enviei. Foi rápida a sua resposta! “ Apenas fique quietinha na sua sala.” Meia dúzia de palavras pra me confundir, ou ele estava me provocando, ou morrendo de ciúmes! Ricardo enviou uma mensagem pelo sistema da empresa “ Edna acabou de me perguntar se estávamos namorando! Estou surpreso!” Como assim? Enviei-lhe uma resposta “ não entendi. Não podemos almoçar? É isso?” Ricardo retornou com um “ não entendi”. Saí para escovar os dentes e retocar a maquiagem, na volta fui até Edna e ela disse que o Senhor Di Piazzi perguntou se Ricardo e eu estávamos namorando. Política da empresa e não sei mais o que... 207 Que bobão! Voltei contrariada para a sala, pensando em como ou o que fazer, já que se simplesmente batesse na porta da sala dele, poderia me dispensar sem nem ao menos olhar pra minha cara.


Foi quando tive uma ideia, mas fui atropelada por uma avalanche de coisas para fazer e logo veio a reunião e nos foi imposto algumas outras considerações sobre os anexos dos contratos e apenas isso, nada de mais, não entendi o motivo de tanto salseiro... Finalmente dispensados, sai antes de todos. Um correio novo enviado por Anghelo T. Di Piazza estava com a sinalização de confidencial. Abri. Comecei a ler, depois reli e ainda assim não estava acreditando. “ Não venha mais para o escritório com esse vestido!” Qual o problema com meu vestido? Um vestido formal, na altura do joelho, um tubinho azul claro, sem decote, não entendi. “ De repente o problema não é o vestido, mas quem está dentro dele.” “ Esse vestido marca demais sua bunda!” — ele me fez rir. Ainda sentia alguma coisa por mim afinal, e eu sabia exatamente como responde-lo. “ Está falando com quem? Sua contratada ou sua namorada?” Demorou um pouco mais e a mensagem chegou. “ Contratada.” “ Exatamente, e como tal, não pode interferir nas minhas roupas! Experimente isso com sua namorada de olhos verdes! Além disso não creio que tenha tempo para ficar prestando atenção no meu guarda-roupas com sua rotina apertada!” Um tanto mais de tempo para responder e nada. Segui com minhas tarefas por quase quatro horas até que Sabrine me ligou, deveria ir imediatamente até a sala do Senhor Di Piazzi. Começou... 208 Atravessei o jardim, segui o corredor e Sabrine com uma cara simpaticamente torta indicou a porta dele com a caneta. — Ele tá bravo. — Novidade... — Não, é sério, ele tá mesmo bravo. Revirei os olhos, duas batidas breves e entrei.


Théo estava de costas, olhando para a janela, braços cruzados. Pela primeira vez reparei bem na sala dele, era espaçosa, havia um lavabo de porta entre aberta, no chão perto da janela um jarro decorativo africano grande, o terno estava pendurado num cabide perto de um sofá de couro preto de dois lugares. — Trouxe os anexos. — Deixa aí em cima da mesa. — para quem estava bravo, falou normalmente e nada de me olhar. Silêncio. Me aproximei um pouco mais, o suficiente para sentir seu perfume amadeirado. — Fiz as correções. Ainda silêncio. Suspirou pesado, se virando para me encarar, os braços ainda cruzados, a camisa com as mangas dobradas um tanto. — Não tinha tanta coisa assim, eu... — Você tá saindo com o Ricardo? — puta merda, a voz dele era baixa e controlada. — Você tem namorada. — afirmei e ele desviou o olhar para minha mão, depois negou com a cabeça. Silêncio mais uma vez. 209 Meu peito já estava doendo com aquela situação, ficarmos nos encarando com o coração martelando no peito, um querer falar sem nada dizer, nem um suspiro pra denunciar, uma gota sequer de um suor como amostra grátis de um nervosismo qualquer. Nada. Estática. Silêncio esmagador. Droga. Virei-me e sai apressada da sala dele. Juntei minhas coisas rapidamente e ao desligar o computador mais uma mensagem. “ É sério, não quero que venha mais com esse vestido, é sexy demais.” Prendi os lábios nos dentes, meus olhos desfocando as letras por culpa das


lágrimas. Parei dois minutos pra pensar. Talvez devesse deixa-lo saber de uma vez por todas o que a palhaçada dele em Penedo resultou na minha vida. Enviei-lhe em resposta, o link de uma música da Laura Pausini, acho que ouvi-la em italiano o faria entender exatamente como estava me sentindo. http://grooveshark.com/s/En+Ausencia+De+Ti/33Mioj?src=5 Não esperei por respostas, fui embora. 210


38. Seria o fim de semana mais longo da minha vida! Duas semanas sem o calor dos braços dele, sem o afeto de Théo e havia ainda aquele silêncio que se perpetuava entre nós. O que fazer? Encher a cara parecia a solução mais óbvia! Recebi duas mensagens; Junior, adorando Fernando de Noronha e Carol, aflita em busca de notícias minhas e marcamos de sair. Paramos em um barzinho em Copacabana e depois de desfiar o rosário ela balançou a cabeça despreocupada. — Ai Carol! Ele está me enlouquecendo! — Ora! Enlouqueça-o também, já que ele adora sua bunda, vá na segundafeira com aquele seu vestido marfim. — Carol esfregava as mãos como quem planeja algo terrível. — Ele vai me demitir! Estou em período de experiência... Além disso, ficou todo irritado por causa de um vestido social! Imagine ir pra lá ao estilo Marilyn Monroe? — E o tal Ricardo? — Você iria gostar de conhece-lo.... de repente marco alguma coisa... — Pena que está tão longe do Centro, né?! — Acho um desperdício logístico trabalhar na Barra da Tijuca se precisamos estar próximos ao terminal na Praça Mauá. — Sugere lá uma mudança... — Parece que o outro sócio, Pietro... Piter... sei lá, ainda não decorei o nome de todos, bem, ele não quer, Ricardo me disse. — E o Ricardo sabe que você e o Théo... — Ninguém sabe, e também não entro muito nesse foco com ele. — Ele já viu que você não tirou a aliança? 211 — Se viu, fingiu que não reparou, não disse nada. ... * Onde estava com a cabeça de levar Carol à sério? Agora estavam todos me


olhando! Certo, a parte de cima do vestido era estilo anos sessenta, bem fechadinho com a gola reta ombro a ombro e meia manga, mas logo abaixo da cintura o vestido se abria em godê até um pouco abaixo do joelho, duas anáguas também rodadas garantiam a não transparência do tecido fino nas saias. Optei por um sapato scarpin nude e uma bolsa tipo carteira preta. Fiz um rabo de cavalo preso na nuca e nenhum acessório além do brinco de pérola e a aliança de ouro. Gabriele me chamou quando passei pelo corredor para elogiar minha roupa e sapato, as outras moças do escritório também eram muito educadas e divertidas, um ambiente bem diferente do que estava acostumada, onde as pessoas mal se falavam e a intriga rolava solta. De repente elas ficaram sérias e Gabriele arregalou um par de olhos, Renata foi de fininho para seu lugar, apesar de imaginar que Théo estava parado nos observando, virei para me certificar. Estava com uma cara horrorosa! As mãos na cintura, o terno aberto e me olhava sério. Ao lado dele um homem muito bonito, loiro de olhos claros, idade próxima a do Théo, parecia se divertir com a cena, chegou a se virar um tanto e tapar a boca, disfarçando um sorriso num falso bocejo. Então o homem deulhe dois tapinhas no ombro, disse um bom dia alto e seguiu na direção contrária. Théo ergueu um dedo indicador na minha direção me chamando, realmente como uma pessoa zangada o faria. Me aproximei e ele saiu andando, fiquei parada, não sabia o que fazer. — Me acompanhe, dona Débora. — disse sem ao menos se virar. 212 Cara, esse não era o Théo. Passou pela secretária dele, olhei para Sabrine ela fez que não com cara de “ prepare-se”.


— Feche a porta. Fechei a porta, ele ficou me olhando de braços cruzados pensativo, uma tromba enorme. — O que foi que falei sobre sua roupa? — abri a boca pra responder e ele continuou — Sabe qual é o comentário dos seus colegas lá na copa? — fiz que não — Que a supervisora é a maior gostosa! Estavam comparando a sua bunda com a dessas mulheres fruta! Segurei os lábios com força para não rir. Ele estava sendo ridículo! — Não estou achando graça, — falou sério — eu digo pra você não vir de um jeito e você faz pior! — Pior? Mas esse vestido é lindo! — debochei um pouco que não sou de ferro... — Esse vestido, — disse pausadamente — marca sua cintura fina e quando você anda, ele... quando... Você fez de sacanagem não é? — Não senhor. — Você viu seus e-mails hoje? — Não senhor. Ele passou a mão no rosto, visivelmente irritado. Sinceramente, eu quem deveria estar irritada! Ele poderia solicitar a análise que quisesse, mas mandar na minha roupa? Ele? Quanta hipocrisia! Ele era um tarado! — Se a sua casa não fosse tão longe, faria você voltar pra trocar de roupa! 213 — Me diz uma coisa, estou realmente muito curiosa... Qual é a sua? Quero dizer, você é pervertido! Não deveria estar feliz de me ver com esse vestido? — ficou confuso, suas sobrancelhas se juntaram e eu prossegui, para provocar mesmo — Não se preocupe que ninguém saberá o que não estou usando por baixo. Arregalou os olhos e sua respiração falhou. — Co-como é? — Já que o senhor se interessa tanto pelas minhas roupas, acho que se interessaria pela falta delas também. — além dos olhos abriu a boca também


e sua postura mudou um pouco. — Não me chame na sua sala pra falar babaquices, Senhor Anghelo Theodore Di Piazzi. Com licença. — Ai Meu Deus! Não acredito que disse isso! Saí apressada e retornei para minha sala marchando, as pessoas me acompanhavam com os olhos, mas nada disseram. Joguei-me na cadeira, respirando fundo. E-mail. Ele respondeu minha mensagem de sexta-feira com um outro link, Celine Dion... torci para que não fosse o tema de Titanic, ou estava certa de que tudo foi por água abaixo... Ouvi atenta. Segurando firme, mas aquela merda de nó se embolava e crescia na minha garganta, segurei os lábios pois as lágrimas, não fui capaz... http://www.kboing.com.br/celine-dion/1-44808/ Meu coração deu um salto louco, me senti gelada. 214 De onde veio aquele sentimento, não sei e sinceramente, já não estava preocupada em cair sobre ele ou que caísse sobre mim! Foi no instante que decidi isso que me vi realmente tirando a calcinha de cetim, enfiando-a em um envelope pardo e retornando para a sala do Diretor Comercial. Sabrine abriu a boca, mas a ignorei e entrei na sala sem bater, Théo apoiava a cabeça nas mãos, parecia ler alguma coisa, levantou o olhar com o som da porta batendo, fechando ruidosamente. Joguei o envelope sobre a mesa, Théo desviou os olhos de mim para o envelope, e do envelope para trás de mim. Naquele instante ouvi um pigarrear e um bom dia. Não sabia onde enfiar a cara, acho que fiquei tão envergonhada por aquela falta de educação que ao invés de ficar vermelha, a cor fugiu da minha face. Virei-


me. — Bom dia. — respondi ao homem loiro que sorria, provavelmente divertido com a cena. — Pietro Theodore. — esticou a mão, o cumprimentei tentando manter a calma que me fugia segundo a segundo. — Débora Albuquerque. — Pietro. — chamou-o com a voz falhando, então limpou a garganta antes de prosseguir — Pode.... nos dar licença um instante? — Claro, continuamos depois. — tentou segurar o sorriso e saiu. Théo estava com o envelope aberto, olhando-o com uma expressão diferente das que eu conhecia. — Você... você... tá usando o que por baixo desse vestido? — foi difícil, mas ele conseguiu perguntar. Eu queria ter-lhe dito: nada. Mas mantive a coragem inicial. Dei a volta na mesa inclinando-me o suficiente para empurrar-lhe a cadeira um tanto, recostei-me na mesa apoiando o salto fino entre suas pernas abertas. Ele me assistia surpreso e ansioso. Subi o tecido do vestido e anáguas até o meio da coxa, ele inclinou o rosto para o lado direito, segurando o lábio inferior nos dentes. Inspirou com força e 215 fechou os olhos, prendendo o ar em seus pulmões, levou um tempo até que o libera aos poucos pela boca. Inclinou o corpo para frente e pude sentir sua rigidez em meu tornozelo. Apertou um botão no telefone. — Sabrine, não estou pra ninguém. — Sim senhor. — respondeu a voz pelo viva voz. Então soltou o botão para acariciar minha panturrilha, deixou um beijo em meu joelho escorregando os lábios para minha coxa, os olhos fechados, respirando em minha pele. De repente segurou-me firme pela perna e cintura, levantando-se e me


deixou sobre a mesa. Sentir os lábios dele sobre os meus ainda de maneira tão urgente foi minha redenção. Suas mãos firmes em meu rosto, massageando minha língua na sua. Puxoume pela perna e deslizei para a beirada da mesa, abriu-me um pouco mais as pernas e enlacei seu quadril sentindo sua virilidade crescente. Como me fez falta aquele calor que saia de seu corpo e me invadia a alma, como me fez falta suas mãos e braços fortes apertando-me de encontro a ele. Quem era eu sem aquele homem? Apenas um receptáculo vazio. Minha vida estava pulsando novamente com o toque de Théo em minha pele, senti-lo apertar o alto da minha coxa acariciando timidamente meu sexo com o polegar. Abafar o gemido que ele me provocou em seus lábios, ouvi-lo arfando ao soltar meus lábios para morder-me o pescoço. Minhas mãos podiam finalmente sentir a textura de seus cabelos mais uma vez, a força de seus ombros e bíceps, seu cheiro, a saliva queimando minha pele, inebriante toque. Reviro os olhos. — Eu ouvi... a música... — sussurrou mordendo-me o maxilar. 216 — hmmm..ahh... eu... eu ouvi... a... sua. — Quero te comer... em cima dessa mesa. — Então me come. 217


39. — Não posso... — puxou meu lábio nos dele. — Por quê? — sussurrando, soltei-lhe o botão da calça. — Porque quero te foder até você gritar. — adoro ouvi-lo quando está excitado. — Quero que me foda até eu gritar... — a braguilha foi de desatando aos poucos. Ele parou com seus beijos e sorriu. — São dez e meia da manhã... — E daí? — ... sou mesmo eu o tarado aqui? — Théo, eu tô muito molhada. — Tem razão: 'e daí?' Beijou-me intensamente e ao finalizar tocou meus lábios com seus dedos e os chupei, logo seus lábios estavam sobre os meus e seus dedos umedecidos deslizavam para dentro de mim e era bom sentir aqueles dois dedos me explorando enquanto mantinha minha nuca segura em sua outra mão. Apoiei minha perna na cadeira para lhe dar melhor acesso. Não sei se Sabrine foi capaz de ouvir as canetas se espalhando pela mesa e chão, o grampeador também caiu e o furador de papel logo em seguida. A saia do meu vestido já totalmente suspensa e eu deitada sobre a mesa, delirando pelo jeito com que me fodia nos dedos. Théo voltou a sentar na cadeira apoiando minhas pernas em seus ombros, tapei minha própria boca ao sentir o calor e a textura de sua língua explorando-me, lambendo, chupando, gemendo contra minha pele, me penetrando com ela, a movendo em círculos dentro de mim... 218 ... arrastando os lábios em meu clitóris e o sugando delicadamente, a cada vez que quase se afastava dele, tocava-o somente com a língua e me arrepiava inteira. Com respiração cada vez mais alterada e desesperada para tê-lo inteiro dentro de mim, não conseguia pensar em nada. Uma pressão se intensificava no


meu sexo, mais e mais, eu sabia o que viria a seguir, permiti que viesse depois de ouvi-lo pedir entre sussurros e gemidos... — Goza na minha boca, goza. Indescritivelmente prazeroso, quente muito quente, intenso sentimento de entrega e de posse. Mantive meus olhos fechados, mas sabia que se preparava para estar dentro de mim, cheguei a sentir a ponta de seu membro roçando em minha entrada e ansiava cada vez mais por aquilo e... O telefone celular apitou um toque absurdamente alto. Abri os olhos com o susto. — Merda! —Théo praguejou. Olhou para o visor do aparelho estreitando os olhos. Tentei me levantar e ele apoiou a mão em meu abdome, forçando-me a ficar naquela posição, fazendo que não com a cabeça. — Fala, seu cretino. (...) Isso é ótimo. (...) Paulo, já sei disso! (...) Mas... Paulo, foi o Pietro quem pediu que ligasse? (...) Filho da Puta! (...) — desligou o telefone com uma cara péssima. — Acho melhor a gente deixar isso pra depois. — forcei-me a levantar arrumando a saia. Ficamos cara a cara — Talvez tenha problemas... Fui silenciada com mais um beijo desses que se perde todo o ar. — Nem pense em me deixar assim! Você quem começou, agora termina. Levantei fazendo-o se sentar na cadeira. Deslizando a mão suavemente em seu membro, me ajoelhei no carpete para retribuir seus beijos tão íntimos. 219 Segurei a base de seu membro deslizando a língua de baixo para cima o mais lento que pude, precisava matar a saudade daquele rosto se alterando a cada lambida, seus lábios entreabrindo e seu cenho cerrando aos poucos. Maravilhoso. Quando envolvi a cabeça de seu sexo na boca, circulando a glande na língua, senti seu corpo retesar sutilmente e então se forçar para frente. Chupei por alguns instantes subindo e descendo-o até onde conseguia engolir e sentindo


que batia na garganta voltava e segui assim ritmado até sentir que segurava meu cabelo firme nas mãos, enrolando o rabo de cavalo nos dedos, controlando a intensidade dos movimentos. Mas eu não queria vê-lo controlado, queria que se perdesse em meus lábios, como eu me perdia nos dele. Concentrei-me na glande, chupando-o delicadamente e eram lábios, língua, beijos e mão. O enfiava tanto quanto podia, gemendo para que soubesse o tamanho do meu desejo por ele. Uma leve mordida na cabeça e ele prendeu a respiração, voltei a chupa-lo, dessa vez vigorosamente e vez e outra o olhava. Não queria perder o contato visual com ele, mas ele o desfez quando os apertou forte, a cabeça se inclinando para trás, as mãos outrora em meus cabelos, agora seguravam firmes os braço da cadeira, apertou os lábios e os soltou de repente, no mesmo instante que seu quadril se congelou e seu abdome contraia seguidas vezes, sim, ele viria pra mim. — Ah! Porra!.... Ahhh... — é, foi tudo o que ele articular, por um bom tempo. Sei lá, mas achei que seria engraçado se simplesmente vestisse a calcinha e saísse, foi o que fiz. Arrumei o cabelo no lavabo e Théo... lá, estático. Arrumei o vestido e ele, ainda parado de olhos fechados, respirando pela boca. Então saí. Sabrine não estava em sua mesa quando passei, isso foi um alívio! Assim que cheguei em minha sala, liguei para Carol e estava a lhe contar tudo, quando o motivo do assunto entrou, aparentemente recuperado, mas o rosto bem corado e os olhos brilhando, parecia gripado. 220 — Um minuto, senhorita... — não queria que soubesse que eu realmente conto tudo pra Carol — Sim, senhor Anghelo? — A senhora tem um horário disponível para uma reunião? — Qual horário seria melhor para o senhor?


— Meio dia, almoço. — Qual assunto devo pôr na ata? — deu pra ouvir a Carol se dobrando de tanto rir, palhaça. — Reunião de esclarecimento. — entreabri os lábios, surpresa, quando ele segurou o próprio membro cerrando o cenho, balançando a cabeça em negativa. — Ok, senhor Anghelo. — aposto que a reunião vai ser na horizontal! Carol estava atenta a cada palavra. Então me lançou um olhar desconfiado e saiu. — Não acredito que estejam se tratando tão formalmente! — a voz de Carol estava bem aguda. — Você queria o quê? O Cara é um dos sócios! — E nem por isso você se furtou de um oralzinho na sala do seu chefe.... — Isso foi um espírito mal que se apossou do meu corpo. — É... o espírito da putaria! — É, mas vou me corrigir. Vou me demitir. — Tá maluca?! — Política da empresa. — minhas risadas se misturavam as dela. Amo a Carol. Entendeu perfeitamente do que eu falava. * Era estranho estar em um lugar público com o Théo, digo, Anghelo, que não fosse um barzinho de Centro da cidade no Rio de Janeiro, pousada em Penedo ou... Ou... 221 — Por que nunca saímos antes? — ele tentava entender a pergunta — Por causa da sua namorada? — complementei, ele ficou ainda mais sério. O maitre nos interrompe trazendo os cardápios e Thé-Anghelo, Anghelo! Desvia o olhar para a lista de pratos e se antecipa em pedir duas taças com água. — Recomendo algo leve. — Pra não ter indigestão com as coisas que vai me dizer? — Não. Para que não passe mal na hora em que estiver te fodendo.


Silêncio. Mas hein? — Não sei responder sua pergunta sobre “ sairmos”. Mas garanto a você que não tem a ver com Nádia. — Nádia. — testei o som do nome estalando-o na língua. — Cabe ressaltar que ela não é mais a minha namorada desde... — Desde... — Uns dias atrás?... — ele meio que fechou os olhos e levantou o cardápio para encobrir o rosto. — Você estava com ela e comigo? — tentei ser o mais controlada possível, mas minha voz denunciou minha irritação, ainda que o fato fosse previsível. — Não surta. — o garçom surge com a água e desaparece com rapidez. — Não vou surtar, e estou até chocada com a minha capacidade de não fazer uma canja com você e te servir no almoço! Ele riu! — Estava com saudade desse seu jeito. — Não estou fazendo graça! 222 — E é por isso mesmo que acho ainda mais engraçado. Você é linda, Débora, muito linda. Silêncio. — Por mais estranho que possa parecer, foi por culpa, ou melhor, por causa da Nádia... Podia sentir minhas expressões se alterando a cada palavra que ele pronunciava. Tentei segurar os olhos nas órbitas e manter a boca fechada, piscava sem parar e ainda sim, não conseguia acreditar que tudo não passava de um engano! — Como você me enganou desse jeito? — Desculpa, mas... eu... só não queria deixar você. — O que acabou acontecendo. — Me desculpa! — Aquilo foi horrível. — Já pedi desculpas. — Você me destruiu! — Eu fui um babaca, Débora, por favor me perdoe! — ele estava bem


irritado, mas no fundo acho que era mais pelo seu feito que por admiti-lo. — Tudo bem, não precisa se alterar! — Não estou alterado! — Sim, está! — Não estou! — Então você está falando assim comigo pra dar um toque especial à nossa reunião? —Você-Você! Às vezes você é muito chata, sabia? 223 — Sabia, mas você gosta mesmo assim. — Eu te amo, sua tapada! Silêncio e... um gole de água. — Eu, acho que vou pedir a salada. * O toque possessivo de seus dedos se fechando em minha carne, me levando de encontro a ele, me abraçando apertado logo que fechou a porta do quarto impessoal atrás de si. — Senti sua falta, Débora, muito. — E eu a sua. O gosto do vinho que bebemos, ainda presente em nossas línguas. A pressão de seus dentes em meu lábio e então se arrastando para meu pescoço, chupando o lóbulo de minha orelha e arfando em seguida, tão somente para me excitar cada vez mais. Despiu-me com cuidado, acho que gostou do vestido, em tempos idos teria simplesmente o arrancado, mas não neste dia. Se ateve em beijar minhas pernas, uma a uma, em uma sequência de toques suaves até alcançar meu sexo e ali se demorar, me fazendo derramar o bom daquele nosso amor. Eu o amo. O toque de sua pele na minha, a respiração, o olhar mirando o meu antes de me virar na cama daquele quarto alugado e arranhar minhas costas com seus dentes, abrindo minhas pernas nas dele, esfregando seu pau em mim, me enlouquecendo, esse era seu dom, me enlouquecer.


— Eu quero meter... espera, vou pegar uma camisinha. — Não posso esperar não... enfia logo... 224 — Não me tente. — Agora, por favor... Apertei os olhos, Théo se enfiou de uma vez com força, agarrei os lençóis nos dedos enquanto ele entrava mais e mais fundo, me arrancando suspiros e gemidos sôfregos e eu queria cada vez mais de tudo aquilo o que sentia, o calor, a pele, o peso do corpo dele sobre o meu. Ouvia sua respiração alterada e seu coração descompassado, apoiado em seu antebraço direito, me penetrando por trás, mordiscando minha orelha... arrastando sua língua até minha nuca, mordendo mais uma vez, segurando firme meu quadril em sua mão esquerda, e estávamos meio de lado, meio de bruços, numa posição louca em que ele podia ver um tanto do meu rosto e eu ouvir seus gemidos. Emaranhou meus cabelos nos dedos levando minha cabeça para trás, aumentou o ritmo de repente, cheguei a pensar que gozaria antes de mim, mas não, nos moveu para uma outra posição maluca em que fiquei de costas para ele, deitada em seu peito, meus pés em suas pernas e tentei me agarrar em alguma coisa, em qualquer coisa... não havia nada, nada que pudesse aliviar aquela tensão crescente por tê-lo apalpando meu seio, beliscando meu mamilo enquanto seus outros dedos brincavam com meu clitóris. Ele fez de tudo para não desgrudar seus lábios de meus ouvidos, me excitando com sua respiração. Mais uma vez mudou-nos de lado, se pôs sentado nos calcanhares entre minhas pernas as puxando para si e me levantando para encara-lo, segurando minhas costas, lábios entreabertos, olhando-me de um olho a outro,


umedecendo os lábios na saliva e me beijando carinhosamente, tão diferente da urgência anterior. Levantou-me um tanto com um dos braços e se posicionou na entrada do meu sexo. — Agora é pra valer, ok? — assenti e Théo largou o peso do meu corpo contra ele. Forçou um tanto mais segurando em meu quadril, bateu fundo, mas não reclamei daquele incômodo, segurei a respiração, ele percebeu, me segurou em 225 ambos os braços num abraço tão delicado e aos poucos me movia, sempre de encontro a ele, sem desgrudar meus seios de seu peitoral. — Você não vai cair que eu não deixo, então olha nos meus olhos e me deixe te amar como você merece. O que dizer? Nada. O que pensar? Nada. Mas sentir... ah.... Havia muito a sentir naquele momento. Foi gostoso, foi muito gostoso, nos beijarmos de olhos abertos, meus braços em seu pescoço, os dele me envolvendo, seus quadris se moviam gentilmente, os meus acompanhavam e absorvemos todo o prazer do corpo do outro. [...] — Não entendo esses filmes. — O que você não entende? — Sei lá, a coisa toda começa do nada... — Débora, isso não é filme pra ver com a namorada. — Não?! — Não me olha assim... e você sabe que estou certo. — Hmm. — Desculpa, sei que é meio tarde pra isso, mas preciso te perguntar uma coisa. — O que?


— Você está tomando pílula? Sorri. Ele franziu o cenho tentando decifrar meu sorriso. — Não tomo pílula, nunca tomei. — Como é que é? 226


40. Não consegui manter-me séria por muito tempo e logo vieram as risadas. — Injeção. Optei por injeção. — expliquei ainda sorrindo. — Susto! — Ohhmm — apertei-lhe a bochecha e ele estreitou os olhos — ficou com medo de ser papai... — Fiquei sim. — de repente se inclinou para me ver ainda com um ar divertido — Mas, pelo visto você não se chateou em ouvir isso, quero dizer, as mulheres geralmente fazem um drama excessivo com relação a.... — Não quero ter filhos. — Não quer? Como assim não quer? Mas eu quero filhos! Não agora, mas quero! — Comigo? — É lógico! — Ah... Bem... é.... acho que teremos tempo pra falar sobre isso — beijeilhe o peito e me levantei rumo ao banheiro — Quase me esqueço. — parei na porta, olhando-o, por pouco não esqueço do que falaria ao vê-lo nu, braços cruzados atrás da cabeça e aquela cara de safado que fazia olhando minha bunda — Amor, eu tô aqui. — apontei meu próprio rosto e ele sorriu mais aberto. — Fala... — Ficamos como? — juntou as sobrancelhas desaparecendo com seu sorriso, entortou a boca um tantinho, estava confuso? — Quero dizer, é política da empresa, namorados não podem... — Ah. — gargalhou e negou revirando os olhos — Não se preocupe com isso, essa regra não nos alcança. Essa regra não nos alcança? Sério isso? ... Ao que voltei para o quarto, o encontro sentado, pernas esticadas e


tornozelos cruzados, pensativo. 227 — Théo, são quase duas e meia... Banho? — Sim, claro... Déb, pega meu celular por favor? — entreguei o aparelho a ele, discou um número... — Sabrine, estarei fora o restante do dia numa reunião com a Sra. Débora, avise ao Ricardo (...) Não, pode transferir sim, menos o Cortez, deixe-o esperar um pouco mais. (...) Certo, obrigado, Sabrine. — me puxou para o seu lado e cai de volta na cama — Prontinho, todo seu. Beijou-me seguidas vezes estalando os lábios nos meus, para se tornar um beijo mais profundo não demorou nada e daquele beijo vieram outros tantos, abraços, pernas entrelaçadas numa cama desarrumada... — Segundo tempo, querida? — Sem dúvida. — Mas depois, temos um assunto pra resolver. [...] * — Aham... (...) Ora, porque não estou no escritório. — Bati na mão dele para que me deixasse quieta — Essa aqui. — apontei para o estojo — Não, tô falando com o Théo. (...) Isso... No shopping... (...) é.... Na vitrine, tantas opções, não sabia qual delas escolher, Carol matraqueava sem parar do outro lado da linha. Théo jogou os lábios para o lado, puxando meu celular. — Carolina, depois ela fala, estamos escolhendo nossa aliança de verdade. (...) Obrigado. (...) Pra você também, tchau. — e desligou! — Poxa, nem dei tchau... — Não dramatiza. Dá uma olhada nessa aqui. — não gostei, muito larga, meus dedos são finos, parece até que estou usando um aro de caminhão — Já vi que não gostou. 228 Nessa brincadeira ficamos quase quarenta minutos, até que no cantinho de


um estojo esquecido, lá estavam elas, um par diferente, uma mais larga e lisa, a outra parecia dupla com um brilhante. Nos olhamos e sorrimos. — É essa aqui. — Théo indicou para a vendedora. Eu adorei. Coisas normais, dividir um milk shake, andar só pra olhar as roupas, ver as novidades literárias... Cinema, se bem que ele saiu umas quatro vezes para anteder o telefone, tomar café, falar sobre tudo, rir de tudo, coisas normais e neste dia, fomos apenas um par de namorados. * Beijos e mais beijos, pernas atrapalhadas, quase caímos, mas não paramos de rir, meu vestido foi suspenso e suas mãos me apertaram contra ele, os dedos seguindo para dentro da calcinha, apertando minha bunda, a camisa dele ficou presa nos braços, ele não me soltava e riamos contra os lábios do outro. Uma vez mais nos amamos, brincando, entre morangos e leite condensado. Nos amamos no sofá, caímos e continuamos a nos amar no tapete. Houve um momento em que tentei chegar ao quarto, fugindo, engatinhando, mas ele me puxou pelo calcanhar, me virou e nos amamos no chão frio do corredor. Já era madrugada quando fomos até a cozinha beber apenas um copo d’água, deveria ser apenas um copo de água! — Você não cansa?! — Fome. Fome de você. E quando dei por mim, estava inclinada com o rosto grudado no balcão azulejado da cozinha, sendo devorada por um homem lindo. Ainda bem que ele ainda tinha aquela bendita pomada ginecológica. Foi muito útil no dia seguinte. 229 * — Meu, bem, por favor, fecha pra mim? — amei o vestido preto que ele me deu, para minha surpresa era um tanto desenhado no corpo, de gola alta e


mangas ¾. Ele deixou a gravata com o nó pela metade e me ajudou, mas percebendo meu jeito, deixou um beijo em meu ombro e me virou para encará-lo. — Que foi? — Eu não sei como te chamar. — Bem, se você me chamar de Anghelo, só eu te respondo. Se me chamar de Théo, corre o risco do Pietro olhar. — Anghelo. Ainda soa estranho, mas vou chama-lo assim agora. Anghelo. Assim que estacionou em sua vaga na Battlestar, ficou parado, pensativo, ainda segurava o volante quando me olhou de lado. — Vamos entrar juntos, como um casal. — Não, Anghelo, não acho prudente. — Por quê? — Porque eu não tenho nem um mês aqui, isso vai dar o que falar. — Pietro é meu sócio, ele sabe de nós. — Quem mais sabe? — Que diferença faz? Você é minha noiva, lembra? — Carol nos noivou, isso não valeu, você sabe disso. — Você quer um pedido formal? — agora sorria, divertido com a situação. — Um pedido formal seria bom. — Tá bom. Então vamos entrar, como minha namorada, juntos. 230 Aquele momento em que a recepcionista fica congelada na mesma posição, nem pisca ao nos ver entrar de mãos dadas. Anghelo tirou os óculos escuros e a cumprimentamos. Pietro foi a segunda pessoa que nos viu. Ofereceu-nos um sorriso largo e bonito. — Sabia que fariam as pazes. — Pietro apertou a mão de Anghelo, e a minha em seguida — cousins. — deixou-nos com essa estranha palavra e saiu. — O que é cousins? — Primos. — voltou a segurar minha mão e seguimos para a copa. É, foi um tremendo falatório, me achei meio que na obrigação de contar para Ricardo que nós havíamos namorado há um tempo e nos reencontramos, não entrei em detalhes, não naquele momento.


E estranhamente não foi algo pejorativo como cheguei a imaginar, afinal eu era nova naquele ambiente, mas não, fui bem acolhida e pareceu-me que todos acharam muito bom que estivesse “ namorando”, o Diretor Comercial. Então naquele fim de expediente aconteceu uma coisa estranha. Ricardo nos acompanhou num jantar simples na casa da Carol. Mônica estava lá, uma outra novidade, Carol não havia me contado, mas as duas estavam em um relacionamento “ seriamente aberto”. Eles se deram super bem! Tá, eu já sabia que eles se dariam bem, afinal, Ricardo tinha excelentes piadas e Carolina adorava rir, era como misturar queijo e goiabada. Ricardo e Mônica também se deram muitíssimo bem, havia muito mais em comum do que poderíamos imaginar. E naquela noite, apesar de acreditar que seria pedida em casamento, não fui. Mas tudo bem, rimos muito, nos beijamos muito, comemos e bebemos. E no final da noite, me levou para meu apartamento e nos despedimos no portão, com um beijo, testa sobre testa um boa noite e um te amo. 231


41. [...] — Ah por favor, Anghelo, ser ridículo tem limites! — Quero fazer isso direito, Pietro. — Vai esperar mais uma semana? Leve de uma vez sua bambina pra jantar e a peça em casamento! — Não. Já está decidido. Junior volta esta semana e haverá um almoço para recebê-los.... e.... preciso me desculpar com todos pela forma com que fui embora. Pietro caiu na gargalhada mais uma vez, tornei-me o motivo de suas piadas. — Melhor mandar buscar a nonna e.... — Trazer toda a família? Não mesmo. — Mas que estúpido! Dio Santo, Anghelo, é desta maneira que quer fazer as coisas certas? — Não é isso, vamos chamar a todos depois, sei lá... num jantar para apresentar nossas famílias. — Está com medo? — e mais uma vez, se pôs a gargalhar — Medo da nonna! Anghelo, não seja tão idiota, claro que todos vão gostar da sua ragazza, Débora é muito bonita e muito educada. Mas tome cuidado com o primo Enzo, ele hmmm, non rispetta... — Teria de estar louco para tentar alguma coisa com a minha bambina, lhe atravesso a cara no murro! — Eu te ajudo, depois jogamos o corpo em alguma vala e pronto. — Tentador. — Acho que tem de se preocupar mais com a nonna não no sentido de gostar da Débora, mas a primeira coisa que vai perguntar será sobre filhos. Já estou até vendo... “ Quando i bambini arrivano?” — era tão palhaço que imitou a voz rouca de nossa avó. — Quando virão as crianças? Se depender da Débora, nunca. — Oh! Isso é mal.... Por quê? Ela não pode? — Não quer.


232 — Hmm... muito mal.... E você? — Deixando as coisas acontecerem, um passo de cada vez. Temos tempo, ainda quero aproveitar muito só com ela. — Entendo... mas de toda forma, avise-a sobre o que terá de enfrentar ou perderá a noiva, namorada, sei lá o que vocês são... Não se esqueça de que o Enzo não pode ter filhos, seria o par ideal para ela... — Soquei lhe o peito, não sei porque ainda conto as coisas pra ele. Pietro era um idiota, irônico e debochado. Fomos criados por uma legião, dizer que foi apenas pela nonna seria mentira, mas desde o falecimento de meus pais e da mãe de Pietro, a família inteira nos abrigou, crescemos juntos, escolhemos faculdades correlatas.... e quando jovens, dividíamos as namoradas, bem, isso antes dos vinte anos. De um batalhão de primos e primas, havia o Enzo, um sujeito desprezível. * Débora estava a cada dia mais linda, sempre que vinha em minha direção sorria tão feliz. Já era costume almoçarmos juntos, estranhamente achei que nos veríamos mais durante o dia, mas ela mal saia da sala e eu da minha, de alguma forma, acredito que estivesse compensando o fato de estarmos juntos sendo uma profissional incrível, a cada dia me convencia mais disso. O único momento que era realmente nosso, era no almoço e nem sempre almoçávamos, de fato, mas era um momento nosso e das três vezes que voltamos do almoço com um pacote de fast food, tivemos a “ sorte” de encontrar Pietro, no estacionamento ou no corredor, sempre nos oferecendo um sorriso irônico. Poderia facilmente me distrair das minhas obrigações, pois Déb. era uma fonte inesgotável de distração, mas ela não permitia que me desviasse, passou a checar minhas reuniões das 14 horas e nunca nos atrasávamos. Era uma companheira em todos os sentidos.


No fim da tarde de sexta, viajamos para Penedo e dessa vez faria diferente. Seguimos viagem nos divertindo muito com as histórias da Carol, falei um pouco mais sobre minha família e fizemos várias paradas no caminho, queria prolongar ao máximo o tempo que ficaríamos à sós. 233 Comecei a reparar em coisas que ela fazia que não havia me atentado antes, claro, estava mais ocupado com seus lábios, seios, pernas e bunda. Débora demora enquanto pisca toda vez em que acha absurdo algo que tenha dito. Tem manias canibais como tentar arrancar uma cutícula imaginária do canto do polegar esquerdo, e sempre faz isso quando está distraída com algum pensamento. Estala as costas a cada vinte minutos e todas as vezes me pergunta num misto de espanto e divertimento “ escutou isso?!”. Claro que eu escutava, não sei como não quebrava a coluna fazendo aquilo. Ela sempre tirava o sapato ao entrar no carro e dobrava as pernas no banco, nunca havia reparado como ela ficava quando relaxada, outra pessoa, mais leve, menos preocupada com tudo, menos insegura. Ou seja, teria de deixá-la sempre relaxada, isso não seria um problema, afinal. E quando olhava para ela, o jeito como enrolava o cabelo pra nada, pois se soltava do coque quase que imediatamente, o modo como sorria cada vez que nosso olhares se encontravam... Quando olhava pra ela, nada mais no Mundo importava e eu só queria apenas olhar pra ela e receber aquele sorriso de volta. ** Quase dez da noite chegamos em Penedo, como de costume precisava cumprimentar um velho amigo de meus pais, o dono do restaurante que servia a melhor truta ao molho de maracujá de toda a região. Foi estranho, Débora


parecia envergonhada quando a apresentei ao Hans. Assim que entramos no carro ela me contou o que havia feito. Primeiro, acho que pisquei os olhos umas cem vezes seguidamente. Depois, fiquei só admirando o jeito dela, cenho franzido e segurando um lado do lábio inferior nos dentes, antes que ela começasse a arrancar os pedaços de seu polegar, balancei a cabeça em negativa e lhe dei um beijo. Ela sorriu. — Não tá com raiva? — Não. Tudo bem, nós dois nos divertimos muito mais do que nos estressamos. — Fale por você. Eu passei o tempo todo uma pilha! 234 — Você é uma boba e eu te amo. — Também te amo. Ela estava certa, no fundo sabia disso, brinquei bastante com fogo e deu no que deu, mas o fogo que realmente valeu a pena me queimar, foi o dela. Nem de longe alguma vez encontrei uma mulher que me complementasse tanto, profissionalmente, como amiga e como amante. * Tia Ana estava acordada e bem falante, buscou todas as informações possíveis sobre o que nos aconteceu, fico impressionado em como a Débora não tem muita paciência com isso e talvez, se torne um problema para nós. Minha família é italiana e não há nada que não partilhemos uns com os outros, querendo ou não. Percebo, ainda quando sorri, que fica muito incomodada com as perguntas da tia Ana. Bem diferente de como age com o tio Bento. — Fico feliz que tenham se acertado. — o velho senhor a abraçou e me dirigiu um sorriso amável. — Obrigada, tio, é muito bom saber que posso contar com o senhor.


— Sempre. E você, rapaz, acabaram-se as dúvidas... pelo visto. — O senhor tem uma boa visão, senhor Bento. — Tem coisas que não se pode esconder. Apenas para que descansem sossegados, tive uma conversa muito séria com João. — Ah... tio... — Disse a ele que era bem-vindo apenas quando chamado pelo Junior, mas depois de contar o que aconteceu ao seu irmão... — O senhor contou? — ela parecia surpresa. — Óbvio que contei! E ele ficou um tanto bravo. — Um tanto bravo não é muito bom. 235 — Como assim? — não entendia do que falavam. Débora me explicou que o irmão certa vez quebrou um bar inteiro num acesso de ira, tempos passados ele classificou o incidente dizendo que estava “ um tanto bravo, naquele dia”. Passamos pelo ritual da tia Ana, jantamos, conversamos até a madrugada nos alcançar com tio Bento e por fim, voltamos ao chalé, que ela disse não ser mais seu preferido. Achei que devia a ela, bons momentos naquele Chalé, para que voltasse a ser seu preferido. — Pensei numa coisa... — disse a ela enquanto lhe esfregava as costas. — No que pensou? — Na verdade pensei em duas coisas. Amanhã, quer dizer, hoje, depois de almoçarmos com seu irmão, que acha de um passeio? — Passeio? Tá bem. E a outra coisa? — A outra coisa... — beijei seu pescoço enquanto a água do chuveiro caia sobre nós — ... pode começar aqui, debaixo d’água ou... se preferir... na cama. — Débora se virou e nos beijamos. — Sexo? — Ahamm... Senti o sorriso dela se formando em meus lábios. Sorri junto. Ela fazia meu corpo reagir tão rápido. Escorreguei minhas mãos por suas


curvas bem desenhadas, sentindo o toque de seus dedos em meus braços, os lábios macios e quentes. Poderíamos ter feito ali mesmo, estávamos muito excitados, mas não. Queria que ela estivesse confortável, então nos enrolamos nas toalhas e a levei para a cama. Era bom olhar em seus olhos enquanto a penetrava. Senti-la por dentro, da maneira incrível como se apertava em meu sexo. Precisava estar atento ao que ela ansiava, que não fosse apenas uma foda gostosa, mas que ela percebesse que me importava em vê-la feliz, em satisfazê-la. O sexo com ela era complicado, exigia muito de minha atenção e controle, era fácil se perder em seu corpo e seria imperdoável que gozasse antes dela. 236


42. Assim que me levantei, percebi que estava sozinha no chalé. Anghelo foi tão mais carinhoso que o de costume e isso é muito importante para uma mulher, era muito importante pra mim. Pensei que o encontraria ao meu lado, mas não, já havia se levantado e acabei por fazer o mesmo, segui para o chuveiro e resolvi tomar um banho rápido e ver o que havia acontecido para que me deixasse sozinha. Vesti um short jeans e uma camiseta azul clara, saí do chalé e fui até o salão onde eram servidas as refeições, não o encontrei. — Bom dia, tia Ana, a senhora viu o Théo? — Ele saiu bem cedo, mas disse que voltava antes do almoço. — Que estranho.... Não me avisou nada... — Homens são todos estranhos, não vê o seu tio Bento? — O que tem o tio Bento? — Também saiu cedo e ainda não trouxe o que eu pedi! — Tia, alguma notícia do Junior? Ele disse se chegava logo? — Devem estar chegando, passaram a noite no Rio de Janeiro, então já devem estar na estrada, daqui a pouco chegam. — O que vai ter no almoço? — Ah, como eles estavam em clima de praia achei melhor não fazer truta, vamos servir um cozido! — Cozido, tia? — sei que minha voz saiu em tom de reclamação e melosa, mas poxa, precisava ser algo tão pesado? — Seu irmão e Lulu adoram. Cozido sim! — Ah tá... mas me dá a opção de frango grelhado... — Vai emagrecer mais o quê daí? Daqui a pouco sobra apenas a bunda e sua caveirinha! 237 Torci um bico contrariada e cruzei os braços. — Ah! Você sabe que sempre coloco opções! Que menina mais chata! Frango com salada, tá bom? Sorri e lhe dei um beijo, tia Ana era uma matraca, adorava partilhar


informações confidenciais ou restritas da vida alheia, queria obrigar-nos a comer só o que ela achava que tinha de ser, mas ela nunca resistiu a um bico que fazia, acho que se recordava da minha infância e acabava me fazendo as vontades. Realmente não queria, ou melhor, não podia engordar, estava decidida a desfilar no carnaval, precisava sentir aquela emoção mais uma vez e se antes era pra espantar a tristeza, naquele momento era pra celebrar minha alegria. Anghelo chegou de carro enquanto me balançava na rede da varanda do chalé principal. Sorriu assim que me avistou e meu coração pulou, estava me sentindo uma garotinha com seu primeiro amor... acho que no fundo era isso mesmo, era uma garota com seu primeiro e verdadeiro amor. — Oi, bom dia! — se inclinou e nos beijamos, agora sim, parece que meu dia estava começando, às onze da manhã. — Bom dia. Foi ver aquele seu amigo? — Hmmm... Não. — Então aonde você foi? — Comprar flores pra você. — Está brincando? — Não. Falo sério, mas agora comprei as flores certas, sei que detesta rosas. — Não que deteste, mas... espera um minuto, deduziu que eu não gosto de rosas? — Bom, mandei algumas para o seu apartamento e todas foram devidamente jogadas no lixo. 238 Hmm... Bateu uma certa vergonha com ele falando daquele jeito. — Não foi bem assim, só achei que estivesse tripudiando de mim... E não quero falar disso! — Certo... — Que flores você comprou?


— Flores do campo. Sorri. Ele acertou, eram minhas favoritas. A mistura das cores alegres me deixavam muito feliz. — Tem razão, minhas favoritas. — Bento me contou. — Você encontrou o tio Bento? — Sim, na verdade ele e eu fomos juntos e no caminho me disse muitas coisas interessantes a seu respeito. — arrumou a rede e se sentou de frente para mim. — Tipo o que? — Coisas que você gosta... que não gosta... Coisas. — Coisas... Tio Bento está me saindo como a tia Ana... — Por falar em tia Ana, tem algo que gostaria de combinar com você. — O que é? — Bem, seu aniversário está chegando e.... gostaria de oferecer uma festa pra comemorarmos. 239 — Comemorarmos minha velhice... Vou adorar! — dei-lhe um beijo apenas colando nossos lábios. — Bem, gostaria que conhecesse minha família nesta ocasião... — Ah! Isto será perfeito! ��� Na verdade... tem um detalhe que acredito, não tenha se apercebido. — Que detalhe? — São muito... como eu digo isso? ...Muito como a tia Ana, mas... pior. Será que havia entendido certo? — Como assim? — Todos somos muito unidos e.... É difícil controlar a participação de cada um em nossa vida. Segurei o riso. — Anghelo, fica tranquilo, não sou nenhuma boba, sei que você vem de uma família de italianos e imagino bem como são, — a essa altura eu já sorria — vou explicar uma coisa, minha questão com a tia Ana é estritamente com ela!


Coisas de família... Já passei situações ruins por ela ouvir coisas que não deveria, interpretar do jeito dela e passar adiante, entende? Me resguardo com ela, pois nunca é como contamos, sempre vira fofoca... — Então, se não é sempre como ela conta... Não foi verdade que caiu no braço com o João? Fiquei estática. Não queria que soubesse desse detalhe absurdo! Isso foi um descontrole da minha parte! Agora deveria estar me achando uma pessoa sem a menor classe! 240 — Calma. Não precisa ficar com essa cara, eu... confesso que sendo verdade, me deixou orgulhoso. E envergonhado. Esse deveria ter sido o meu papel na história. Relaxei visivelmente deixando meus ombros caírem e o ar sendo solto de uma vez dos meus pulmões. — Puxa, eu... nem sei o que dizer... — Sinto-me realmente envergonhado por isso. Agi mal, nem sei o que senti direito... pensei tantas bobagens... — Já foi, Anghelo, deixa isso pra lá. Recebi um beijo delicioso, segurou meu rosto nas mãos, puxando meus lábios nos dele seguidas vezes me fazendo sorrir. A buzina do carro de Junior nos tirou daquele momento de carinho e me jogou na euforia de rever meu irmão. Luiza estava linda! Sorrindo e sacudindo os braços pela janela do carro, estava levemente corada, com um sorriso que não saia do seu rosto por nada! Descemos para recebê-los. Quando meus braços encontraram o abraço de meu irmão, me senti em paz. Me desculpa, ele disse sem que eu pudesse entender num primeiro momento, beijei forte suas bochechas e logo Luiza me arrancou daquele abraço para me dar


outro ainda mais apertado! — Ah! Que ótimo que vocês estão juntos! — Ah! Eu digo o mesmo! Que ótimo que conseguiu aturar o Junior! 241 — Não seja boba. [...] O frango estava delicioso! Por mais vontade que estivesse de comer o cozido, precisava pensar no carnaval. — Prova um pouco do cozido, filha, está perdendo! — Tio Bento insistia. — Não posso, tio. — Aposto que vai voltar a desfilar! — Luiza falou com orgulho em suas palavras e Anghelo se engasgou com o suco de abacaxi. Bati em suas costas enquanto ele tossia e me olhava espantado. — Tá falando em desfilar no carnaval? — estava incrédulo. — É! Qual o problema? Senti que minha família inteira o estava avaliando. — Nã-não, problema nenhum, eu só... eu... Por que não me contou? — Sei lá... Falta de oportunidade... — estava sendo muito sincera, ele pareceu reagir bem, mas ao mesmo tempo, parecia preocupado. — E você vai... ficar... ammm... nua? Todos à mesa caíram na gargalhada, inclusive eu. 242 — Não, com certeza não. Vestirei um biquíni e algo bem pesado nos ombros, fique sossegado. Ele balançava a cabeça e sorria um pouco, divertido com a situação. Menos mal, por um instante achei que daria um ataque, mas não, Anghelo reagiu bem. * Anoitecia quando me chamou para o barquinho a remo atracado às margem do lago artificial da pousada. Assim que avistei o interior do barquinho, sorri, estava cheio de flores do campo! — Que lindo, meu amor! — Venha, entre, vamos passear um pouco. Olhei em volta, o lago era pequeno, alcançamos a outra margem com os


olhos, olhei em volta e achei até graça, passear... Essa foi boa. Enfim, fiz o que me pediu, entrei no barquinho de madeira e ele tirou do bolso de trás da calça jeans um frasco pequeno de spray e começou a borrifar em mim. 243 — É repelente. — resolveu me explicar e tentei ficar de boca fechada, mas não conseguia, e ri e quanto mais eu ria, mais repelente entrava em contato com minha boca (gosto horrível!) e ele não parava de jogar aquela nuvem de spray em nós. Depois nos empurrou para dentro do lago e antes de tocar as calças na água pulou para o interior do barquinho e nos levou até o meio do lago. — Você está muito romântico hoje. — Estou é? Não percebi. — Está sim, o que está aprontando? Vai me contar mais alguma coisa estranha e está me impedindo de fugir? Ele sorriu. — Não mesmo, hoje é noite de lua cheia, pensei em convidá-la pra ver a lua daqui, do meio da água... acho que é mais bonito que lá da margem. — Hmmm... sei... — Tem vontade de conhecer a Itália? — Tenho sim, vai me levar lá? — Sem dúvida, estou pensando em algo especial para a primeira visita. — Especial? Hmmm... O que tem em mente? — Lua-de-mel. — Lua-de-mel, é realmente uma boa coisa pra se fazer na Itália. — É sim... Naquele instante em que o céu perdia suas cores mais claras e dava lugar ao azul arroxeado e a lua cheia começava a se destacar ouvi uma melodia, mas não vinha do som da pousada, era... um violão... http://www.juzp.net/SUaE8Ga5q8vXb 244


Procurei de onde vinha o som, seguindo os olhos pela margem, até encontrar inúmeras lanternas japonesas que eram lançadas no lago, iluminando o caminho que percorriam e no coreto de madeira coberto de madressilvas encontrei o violonista e forçando a vista um violinista! Violão e violino?! Senti meus lábios se abrirem, meu coração disparou, boca seca e mãos geladas. Encontrei os olhos de Anghelo, incrédula quando ele estendeu uma das mãos com a caixinha de veludo que eu conhecia bem. — “ Ela talvez seja o motivo para eu sobreviver. A razão pela qual eu estou vivo. A pessoa que cuidarei através dos difíceis e imediatos anos. Eu, pegarei as risadas e as lágrimas dela e farei delas todas minhas recordações. Para onde ela for, tenho que estar lá. O sentido da minha vida é ela”. — Anghelo... — mal conseguia falar, estava coma voz embargada, uma dorzinha boa no peito e uma leve tontura ao ouvi-lo recitar She. — Débora, quer se casar comigo? Tentei engolir aquele bolo enorme que se formava em minha garganta, mas tive medo de como minha voz sairia, então só balancei a cabeça dizendo que sim. Tocou-me o rosto com a ponta dos dedos e tirou a lágrima que escorregava. Tomou minha mão direita na dele e deslizou a aliança que escolhemos. — Pedi direito? Sorri entre as lágrimas e mais uma vez apenas aquiesci. 245


43. Eu mal conseguia ouvir meus pensamentos, que dirá o que Carol falava. Deus, que loucura estava aquela casa! A ideia dele de uma festa intimista e pequena, contemplava música alta, gente correndo, criança gritando... me sentia dentro de um ensaio geral da Mocidade Independente de Padre Miguel. Saí por um momento para a varanda dos fundos e mais crianças corriam desesperadas, como se o mundo fosse acabar! De repente ouvi uma voz grave e sedutora dirigir-se a mim. — Cousin, que faz si qui, longe de Anghelo? — minha Nossa que sotaque carregado! Até que o cara era bonitinho, tinha olhos e cabelos castanhos e uma barba cerrada, um tipo desses bem altos e com o mesmo nariz europeu do meu noivo, ecco.... Acho que o tal Enzo me encontrou afinal. — Olá, Enzo? — Sì, sabe mio nome. — Ah! Com certeza... Não demorou nem meio minuto para que uma italiana alta de olhos e cabelos claros aparecesse na varanda também acompanhada de Pietro, que amarra o cenho de um jeito estranho. — Cosa stai facendo qui? Riassetto problemi Anghelo? — ela esbravejou mesmo! Ele não respondeu nada, olhou irritado na direção de Pietro, disse um tal de “ permesso” e saiu de perto. A loira seguiu atrás de Enzo e Pietro encostouse no guarda-corpo ao meu lado. — Ele faltou-lhe com o respeito? 246 — Ah, não, apenas se apresentou, nada demais... E quem era ela? Não consigo guardar o nome de todos vocês... — Sophia. Nostra prima. — Vocês tem muitos primos... E o que ela disse a ele? — Perguntou o que fazia aqui e se estava querendo problemas com Anghelo, apenas isso.


— Vocês não gostam mesmo dele... Anghelo me advertiu com relação a ele, não se preocupe... — Na verdade, acho meio difícil do meu primo não se preocupar. — Por que diz isso? — Desculpe, mas ele me contou que não pensa muito em crianças... e Enzo não pode ter filhos... — Ah! Pietro, não acredito que estou ouvindo tamanho absurdo! — Anghelo vai fazer 35 anos, Débora, o tempo passa para ele e o atormenta, ainda mais com a nonna... — O que tem a nonna? Ela por acaso "exige" bisnetos? — Exigir é uma palavra muito forte... Mas exerce certa pressão... venha, vou te mostrar como as coisas funcionam... [...] Assustador. Fiquei abismada, com cara de tonta sem saber o que fazer, enquanto a nonna Rosilda mandava em todos! Inclusive em mim! Na primeira oportunidade corri para o banheiro e lá fiquei, tentando entender aquela loucura que acontecia pela casa inteira! Gritos, música alta, risadas espalhafatosas e era como se houvessem mais de cem pessoas, mas na verdade eram apenas vinte! Breves batidas na porta me lançaram de volta para a realidade. A voz de Carolina era um balsamo para meus ouvidos. 247 Abri a porta e a puxei num solavanco para dentro do banheiro da suíte de Anghelo. — Cara, vou te falar? Sua família nova é maneiríssima! Aquela coroa baixinha é a mais engraçada de todos! — dando-se conta do meu estado de choque, parou de falar por um instante e ficou me analisando — Que foi? Que cara de cu é essa? — Ele me disse que eram assim... bem alegres, mas não me disse que era tanto! Carol gargalhou e lhe segurei a boca com as mãos, ela ficou irada e ainda rindo soltou minha mão e se pôs a cuspir.


— Ai que nojo! Essa mão de banheiro na minha boca! Lavou pelo menos? — Para de loucuras! Não quero que ninguém saiba que estou aqui. — Impossível! Seu irmão acabou de chegar com a Luiza, o Ricardo também chegou e está perguntando por você, daqui a pouco o seu “ Théo”, chega com o tal presente... — Estou apavorada. — Ah! Começou... começou a patricinha... Se joga, amiga! É festa! É seu aniversário! 31 anos, Porra! — Shhhhh!!! Pelo amor de Deus! Estamos nos escondendo! — Ah, não brinca... — Não que eu não goste, mas é que... tem muita gente aqui. — Deveria ter alugado um noivo alemão, não passaria por isso, eles são em sua maioria muito reservados. — Era pra rir? — Não. — Sabe o que a nonna disse? 248 — O que? — Que eu deveria engravidar de uma vez e casar depois! Que o Anghelo está ficando velho demais, que ela está ficando velha demais! Começou a dizer coisas e Pietro traduzindo tudo, escuta essa... Explicou como deveria preparar a comida do seu Anghelo, perguntou sobre a Igreja que frequento.... Eu tô falando... eles são muito loucos! A vontade que me deu de bater na Carol foi enorme. Ela fazia aquela cara que eu odiava! Prendia os lábios nos dentes e juntava as sobrancelhas. — Se você rir te afogo na privada, eu juro sua magricela que se você... As batidas insistentes na porta me interromperam e Carol não pensou duas vezes antes de abrir sem nem ao menos ver quem era. Anghelo. Ficou nos olhando e seu sorriso se apagando pouco a pouco, até que Carol resolveu abrir a boca.


— Ela está enjoada... Acho que foi o ravióli. Então voltou a sorrir e sacudiu a cabeça em negativa. — Ah... Carolina, Carolina, você é mesmo uma boa amiga. — Carol manteve a postura e a cara de “ não sei do que está falando” — Por um segundo achei mesmo que estava passando mal. — olhou em minha direção ainda sorrindo — Carol, pode nos deixar à sós por um instante? — Claro, qualquer coisa, bem... não adiantaria nada mesmo gritar... — sua voz saiu meio resmunguenta e então nos deixou sozinhos no banheiro. Anghelo coçou o rosto, como se a barba o estivesse incomodando. 249 — Minha morena, por um momento achei que estava se sentindo mal, mas então percebi que está se escondendo da minha família. — conforme foi falando, sua voz ia subindo algumas oitavas. — Está chateado, imagino, mas eu... — Tá tudo bem, também me escondo com frequência deles... Me escondo tanto que resolvi ficar por aqui, no Brasil, desde o início da minha fase adulta. — Desculpa, Thé-Anghelo! Anghelo... er... me desculpa, eu só precisava de um tempo. — Não pode dizer que não avisei. — ele me fez sorrir com aquela constatação. — Tem razão, mas é só questão de me acostumar... Minha Nossa, e eu achando que a minha família era barulhenta... Ganhei um beijo apaixonado e intenso, seguido de um lindo sorriso de dentes alvos e alinhados. Acariciei seu rosto e aquele sinalzinho que eu tanto gostava, acima do lábio. — Precisamos mesmo sair daqui, seu irmão chegou. — Junior deve estar deslocado. Assim que cheguei na sala presenciei uma cena que nem em mil anos poderia acreditar, o som alto com a música de Renato Carosone em Tu Vuò Fa’ L’Americano, uma família italiana inteira batendo palmas. Dançando e no


meio deles, Carol, Mônica, Ricardo e o mais feliz dos irmãos com a sua Luiza. http://grooveshark.com/s/Tu+Vuo+Fa+L+Americano/2BICLV?src=5 — Bem se vê o deslocamento do seu irmão... Com essa frase, me deixou um beijo na têmpora e seguiu para o meio deles, disse algo no ouvido de Pietro que sorriu e mexeu no som, logo a versão da 250 música com a voz de Pitbull com Panamericano tomou toda a sala. As crianças adoraram, até a nonna gostou! Junior veio em minha direção e me estalou um beijo demorado no rosto, Luiza me abraçou e também me beijou. — Feliz aniversário mais uma vez, maninha. — Obrigada, Junior. — Muitas felicidades, cunhadinha! — Obrigada, Lulu. De repente, e não sei em que momento, comecei a me sentir muito mais familiarizada com todos e soltava grandes risadas com as primas de Anghelo, as moças eram muito divertidas e falavam um português muito enrolado, pediram que lhes ensinasse o samba, mas elas eram muito duras, não conseguiam rebolar, saia mais como um "quadradinho". Meus olhos e os de Anghelo se cruzaram em vários momentos, ele parecia divertir-se com algum pensamento. Em dado momento, Anghelo me tirou da companhia das mulheres e me conduziu até os fundos da casa. — O que foi? — Presente... — Aqui atrás? O que está aprontando? — Lembrei-me de uma coisa que me contou e... Oh Deus... Um Cocker Spaniel caramelo! Escondi a boca aberta nas mãos e fitei os olhos divertidos de Anghelo com os meus arregalados. Aos poucos me refazendo do susto inicial, juntei as mãos no


251 peito ainda mantendo os lábios entreabertos. Estava sem palavras, emocionada e feliz. — Meu amor... eu... Obrigada! Qual o nome dele? É ele? É ela? Qual a idade?... — me pus a bombardeá-lo de perguntas. — Você me disse um dia que adoraria ter um cão desses, mas que não dava em um apartamento, então... eis o seu cãozinho. O nome dele é você quem vai escolher. — Que lindo! Eu quero pegar! — É seu, vá em frente. Antes de me debruçar no cercado metálico, agarrei Anghelo pelo pescoço num abraço e lhe apertei os lábios com os meus no que deveria ser um beijo e do mesmo jeito que me aproximei, me afastei, ligeira, queria muito segurar o cachorrinho... E ele era tão dócil, veio logo no meu colo abanando o rabo. — Quanto tempo ele tem? — Cinco meses. Pelo visto você gostou. — Tenho gostado de tudo que vem de você Anghelo. Tudo. Gostei do bolo de morango com chantilly, dos docinhos de damasco e da cascata de chocolate. Foi uma festa bem diferente de todas até então e me esqueci completamente da dieta. Era um pouco mais de uma da manhã quando finalmente ficamos sozinhos, o mesmo olhar divertido atravessou seu rosto. — Que cara é essa? — Sabe quando estava ensinando Sophia, Isabella e Fabrízia a sambar? — Sim, o que tem? 252 — Será que consegue... — segurou-me pela cintura — Será que consegue rebolar da mesma maneira comigo... embaixo? Uma risada alta me escapou. — Pode apostar que sim. ...E então... nossa festa particular começou.


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44. Estava num sono tão gostoso quando fui acordado com lambidas frenéticas em meus dedos dos pés, depois de três anos... Débora estava se superando! Puxei os pés irritado e mentalmente todos os palavrões conhecidos e alguns inventados passaram pela minha cabeça. — Filho da Puta! Sai daqui! Sai Fedegoso! Débora!!! — não respondeu, o que me irritou ainda mais! Ela deixou a porta da varanda aberta mais uma vez! Puxei Fedegoso pela coleira para fora do quarto, conduzindo-o até o jardim dos fundos. Era um cão dócil, mas tinha o péssimo hábito de nos acordar e estava sempre sujo, odiava banhos e nos fazia correr pela casa inteira atrás dele sempre que via o carro da pet shop, o nome escolhido pela minha adorada esposa foi simplesmente perfeito. De todos os cães que haviam no canil, de todos os cinco Cocker Spaniels eu escolhi o mais porco! Precisava lavar os dedos do pé e o banho de Debby não acabava nunca! Num contorcionismo lavei os dedos emelecados pela baba de Fedegoso na pia do lavabo. Voltei para o quarto ansiando por um pouco mais de sono, em vão, estava totalmente acordado. Rolei na cama e virando-me de lado logo meus olhos ficaram hipnotizados pela fotografia exposta na cabeceira. Ela estava realmente linda com aquele vestido de noiva, foram dias incríveis, naquele instante me peguei desejando repetir a lua-de-mel, ouvir as risadas despreocupadas dela. Suspirei pesado diante da realidade de dias engolidos pelo trabalho, por um mercado instável e cheio de incertezas. Sorte a minha ainda em tempos mais complicados tê-la comigo. Quinze longos minutos se passaram. Resolvi me levantar e enquanto me espreguiçava, Débora surgiu, enrolada na toalha e com uma cara estranha. O sorriso inicial que ofereci deu lugar pouco a pouco a uma preocupação, ela


sorria com os lábios, mas os olhos me diziam o contrário. — Tudo bem? — Debby cerrou levemente os olhos. — Pensa rápido! Realmente rápido, Débora jogou algo em minha direção e peguei por reflexo. 254 — O que é isso? — referi-me ao bastão branco. — Isso é a noite de sábado ou a manhã de domingo logo após aquelas cervejas no aniversário da Carol. Agora pude vislumbrar um sorriso sincero, veio até mim e puxou o bastão de minhas mãos. — Tá vendo aqui. Uma fitinha azul, significa a escalada em Minas Gerais... Lapinha não é? Em Maio? — fiz que sim, já sabia onde queria chegar — Então, uma fitinha escalada, duas fitinhas grade na piscina e reforma do quarto de hóspedes. Respirei fundo e soltei o ar de uma só vez. — Acho que não vamos escalar. Fui tomado por uma felicidade indescritível, ansiedade, mas nenhum medo. Em meus pensamentos apenas a certeza de que queria conhecê-lo o mais rápido possível. Aquela mulher, a mulher que tanto amava estava me contanto que esperava um filho meu! — Acho mesmo que não vamos escalar... — senti que sua voz estava embargada, abracei seu corpo pela cintura e fechei os olhos, apenas sentindo menos de seu calor e mais da umidade da toalha com perfume de amaciante. Os dedos de Debby me tocaram os cabelos, sempre gostei quando me tocava os cabelos, tão delicada e suave. Desde o primeiro minuto que estivemos juntos, eu sabia, sempre soube que era ela. * E cada detalhe que construí foi pensando em conseguir mais um de seus sorrisos para minha coleção, os detalhes do pedido de casamento... hmmm, bem,


este não foi exatamente um sorriso, logo que a aliança tomou residência em seu anelar, chorou todo o tempo! Já me arrependia da contratação dos músicos e das lanternas de papel no lago, enquanto remava ela ainda chorava, descemos do barco e ela ainda chorava, entramos no living da pousada e ela... Todos nos parabenizavam, naquele instante 255 Debby parou um pouco de chorar, para sorrir, era em fim o sorriso que eu queria, mas logo, Dio Santo... Voltou a verter lágrimas. Começava a me angustiar pensando no tanto que ficaria desidratada, ofereci-lhe um copo d’água, ela finalmente parou de chorar! Seguimos para o chalé que ela adorava, nunca antes havia rezado tanto! Não conseguia mais vê-la daquele jeito, pior a incerteza em saber se havia feito realmente certo o pedido de casamento. Só consegui relaxar quando a tive em meus braços, Déb estava feliz, quem diria... afinal foram tantas lágrimas que já me perguntava onde havia falhado, mas a minha morena havia gostado, não houveram dúvidas depois do abraço apertado que me deu e da maneira urgente com que sua língua invadiu minha boca misturando o gosto de lágrima à minha saliva. * Os últimos três anos da minha vida foram os melhores que vivi, me divertia mais que me aborrecia, ela me mantinha focado no trabalho, assegurava boas e longas risadas com a Carol por perto. Nunca me esquecerei do dia de nosso casamento, Carol, sempre ela... foi a causadora de nossos ataques cardíacos. Senti Débora puxando a manga de meu terno insistentemente, conversava com Pietro naquele momento, virei-me e percebi que estava com ao lábios


entreabertos, segui seu olhar e... é, tinha razão em estar abismada. Carol beijava Ricardo, enquanto seus dedos permaneciam entrelaçados ao de Mônica, que conversava tranquilamente no celular. — Você sabia? — Não, pela primeira vez ela não me contou o que acontecia. — O que isso quer dizer? — Que Carolina deve estar muito feliz. (...) Carol estava feliz pela ocasião de nosso casamento, permaneceu feliz e sem dúvida ficaria extasiada com a notícia que Débora tinha a contar, se bem que... 256 — Preciso te perguntar uma coisa idiota. — Pergunte sua coisa idiota. — Contou pra mim... primeiro? A risada que veio em seguida foi perfeita, alta, limpa e divertida, respondeume com um aceno positivo com a cabeça. Virei-a, agora com o dobro de cuidado e a deixei na cama. — Fique aqui, vou escovar os dentes e tomar um banho rápido. — Ficarei exatamente aqui. * Débora era incapaz de cumprir um simples “ fique aqui”, mas confesso que gostei que não me tivesse esperado, há tempos que ela mesma não preparava um café-da-manhã e lá estava a minha Débora, entrando no quarto carregando a bandeja com suco, pães, geleia e café. Enquanto comíamos, em silêncio, não pude deixar de notar que me olhava de esguelha. — É... preparar o café foi mesmo interessante... O que deseja, senhora Débora Di Piazzi? — Eu? Será que não posso ser gentil com meu maridinho? Que logo significa que tenho algum interesse...? — Não precisa nem tentar... — Ser gentil? — Me enganar. De mais a mais, você não precisa disso. Agora mais que


nunca. Diga o que deseja. — Na verdade não é bem um desejo, é mais uma coisa que gostaria... — O que é? — Que Carol seja madrinha. 257 Foi o pedido mais fácil de se atender e não poderia ser diferente. — Anghelo. — Diga. — Você ficou feliz? — Que pergunta boba, claro que sim! E você? Sei que nós combinamos de tentar mas... — Mas foi muito rápido. — Muito mais do que imaginei. — Pelas minhas contas... do aniversário da Carol... seis... sete semanas, uns dois meses, não é isso? — Não sei, não entendo nada dessas coisas. — Mas vai ter que entender! Você vai me ajudar!... Parecia desesperada, e aqueles olhinhos arregalados combinavam perfeitamente com os lábios presos nos dentes. E ao olhá-la assim... Percebo que as melhores coisas que fiz na vida foram: ter atendido aquele telefonema, me encontrado com ela, ter sido seu noivo de aluguel. 258


45. Os lábios dela eram tão macios, não havia sensação mais gostosa que beijála depois de comermos salada de frutas, era uma mistura de sabores deliciosa, gostava de sentir seus dedos percorrendo meu braço tão de leve que mais parecia querer me provocar cócegas. Nosso relacionamento havia atingido um nível que nunca antes havia conseguido com outra, minhas vontades eram respeitadas, nós nos complementávamos, nós nos admirávamos e foi tão intenso... Até determinado momento no casamento de Junior não tinha a certeza de que seria ela a pessoa certa em minha vida e de repente... não era apenas ela, ou somente ela. Percebo que são eles as pessoas certas em minha vida... e quem poderia prever que me apaixonaria tão cegamente, sem conseguir diferenciar o sentimento que havia por um e por outro... Sentia-me verdadeiramente feliz. Tudo ao meu redor se encaixava perfeitamente, ainda que a Battlestar estivesse passando por momentos mais complicados e a distância por conta das viagens de negociações nos obrigava a estarmos longe... sempre dávamos um jeito de não perdermos aquele sentimento tão especial e tão louco que se perpetuava a cada dia mais intensamente. Débora me deu um gato de presente, um gato de nome Brad, ela mesma escolheu o nome ridículo do gato persa, ela não era boa com nome de bichos, definitivamente não. Minha amada levou as tigelas para a cozinha e Brad foi atrás, o telefone tocou, olhei o número, respirei fundo, pela hora da manhã um telefonema de Ricardo talvez não fosse um bom sinal. — Oi. — Oi.


— Que horas são em Pequim? — Quase vinte horas... — E está tudo bem? — ele me preocupou. 259 — Sinceramente, estou com saudades de casa, da comida, de tudo, da língua portuguesa e da comida... Quando falou duas vezes da comida, precisei me segurar para não rir, a comida era realmente um ponto complicado em Pequim. — Desculpe, estou tentando entender uma coisa, quando você disse comida e depois comida, estava se referindo aos alimentos digeríveis e a sexo, ou apenas alimentos que se mastiga e engole? — Seu senso de humor melhora a cada dia. Refiro-me a comidas comestíveis, mas já que tocou nesse contexto... — Preciso perguntar, você tem ligado para Mônica? — Eu... na verdade não. Isso é muito ruim? — Depende do ponto de vista, se quer mesmo manter um relacionamento a três... — Ah é que tem horas, como agora, que não dá pra contar com as alucinações da Mô. — Aí você me liga, sabendo que tem uma grande chance de sermos interrompidos... — Desculpa! Não era pra ligar? Olha, um telefonema interurbano hoje em dia é praticamente uma prova de amor, imagine um telefonema internacional?! — Você está certo... me perdoe. — fiquei totalmente sem graça com as palavras de Ricardo — Como foram as negociações? — Esmagadoras... A voz da minha querida atravessou as paredes, avisando que sairia por um instante. — Desculpe, agora estamos sozinhos. — Onde ela foi? — Não sei. Não me levantei pra olhar. Escuta, não esquece do que te pedi pra trazer pra Déb. 260


— O que? — Você esqueceu. Puta merda, você não presta atenção em nada que eu falo! — Estava prestando atenção em outra coisa na hora. — Como o que, por exemplo? — No seu corpo, no seu abdome definido, no jeito como você fala, quando não está pirando, é claro. — Isso, foi estranho e lindo ao mesmo tempo. — Fico pensando que as vezes parece que estamos fazendo alguma coisa de errado, pelo simples fato de não poder assumir que te amo porque você já fez isso, com... ela. — Não seja ridículo, Ricardo! Pensei que estava tudo bem, ainda antes de você ligar estava pensando no quanto tudo está perfeito na minha vida e... — Perfeito na sua vida, muito bem colocado. — Estamos em crise? — Não! Eu só... eu... estou com saudades, queria fazer... sinto falta. Já estamos longe há uma semana. — Quer fazer sexo por telefone? — Tá de brincadeira, não é? — Falo sério. Você está deitado? — Es...tou, agora estou. — Então tire a roupa e me imagine por cima, acariciando suas costas... Você gosta do jeito como eu te toco não é Ric. — Sim... eu adoro... pronto tirei a parte de baixo. — Ah sim... isso é bom... gosto de sentir seu pau na minha mão, está sentindo como o seguro firme? — Hmm... sim... você é incrível... deixe-me massagear seu sexo... 261 Naquele mesmo instante desci uma das mãos para me tocar e justo naquele momento fomos interrompidos... — O que você está fazendo? — a pergunta me atingiu com uma voz mais aguda e preocupada, ao menos foi assim que a percebi e quando me preparava para respondê-la, prosseguiu — Eu só fui colocar o lixo pra fora! Não


acredito que estão fazendo isso comigo, quero dizer... sem mim... Mônica sorriu e se aproximou, enquanto Ricardo permanecia mudo desde o instante que ouviu a voz de nossa namorada. — Coloca no viva voz. — resistir pra que? Apertei um botão e logo Mô estava de quatro em cima de mim inclinando-se para o aparelho — Ric, meu amor, serei suas mãos e dedos e língua. — Mônica... minha boneca, também sinto sua falta. — ele era muito carinhoso conosco e me surpreendeu que Mô deixasse de lado sua passividade e assumisse uma postura ativa — Diga-me... Que gosto tem a Carol, esta manhã? Ela sorriu de lado e se abaixou para examinar com sua língua minha intimidade, deslizando sua papila em meu clitóris e sugando-o delicadamente enquanto deixava pequenos gemidos de satisfação se misturarem aos meus de prazer. — É levemente adocicada, meu amor. — respondeu meio rouca antes de retornar sua atenção para meu corpo. Ricardo coordenava cada movimento de Mônica e tudo evoluía de um jeito tão gostoso... — O que está sentindo Carol? — ele quis saber indagando com uma voz que praticamente sussurrava, estava se tocando e podia perceber isso. — Sinto um arrepio percorrer meu corpo e... — foi então que minha mente se desconectou — espera um pouco Mô. Ricardo a mulher do cartão de crédito ligou, disse que era pra você retornar pra tratar de um assunto de seu interesse. — O quê? — mudou o tom de voz no mesmo instante e Mônica se pôs de joelhos na cama, cabeça para um lado e sobrancelhas juntas. — Que foi? Depois eu poderia esquecer! — justifiquei. 262


— Não tô crendo que você parou a minha bronha pra falar da porra do cartão de crédito! — Ricardo, você não pagou a fatura! — Eu pedi pra Mônica pagar! — Não mesmo! — Mônica sentou nos calcanhares gesticulando em negativa — Você disse pra Carol pagar! — Por que não colocou no débito automático? — aquele jogo de empurra estava me irritando. — Eu não vou colocar no débito as despesas de vocês duas, naquele sex shop! — Opa, opa!! — sentei-me, já visivelmente puta! — Você usufruiu bastante dos gastos no sex shop! — Além do mais, — interferiu Mônica — se você nos colocou como dependentes no cartão foi pra que gastássemos! — Vocês querem discutir a fatura, agora? Ok. Vamos lá! Trezentos e vinte e seis reais e quarenta e nove centavos na Soulier... Quatrocentos e dezenove reais no Spa do Pé... — Peraí um minuto! Você tá com a fatura aberta aí? — perguntei abismada. — Não, decorei o tanto de coisa que não fui eu que gastei! — Espera um momento aí! Eu disse que precisava de uma mochila de couro nova e uma sapatilha, e você disse “ vai lá e compra”! — agora Mônica é quem estava fula da vida. — E eu disse que precisaria de um podólogo, não foi minha culpa se estava na promoção a reflexologia podal e a imersão com óleos da Amazônia! E peguei um pacote ótimo no Groupon... — Peraí vocês... enlouqueceram? Meninas, estamos em contenção de despesas, o Mercado não está favorável... — Por falar em mercado, precisamos fazer as compras de mês... — muito bem lembrado por Mônica, a geladeira estava ficando só água, ovo e luz. 263 — Meninas... meninas... — continuamos a recitar as listas de obrigações e por ignorarmos seus chamados, ele gritou — Meninas!!


— O que? — respondemos juntas. — Eu quero fuder! Pode ser? Tô pagando DDI pra falar de cartão de crédito e compra de mês! Cacete, tô brochando aqui! Olhamos uma para a outra, para o telefone e mais uma vez uma para a outra, torcemos a boca numa careta e negamos ao mesmo tempo com a cabeça, a vontade simplesmente passou. Nos desculpamos. Então, enquanto Ricardo voltava com sua narrativa erótica, Mônica nos trouxe duas folhas de papel e duas canetas, sacudimos as mãos e lançamos dedos ao ar, quatro dedos, letra D. A voz de Ricardo atravessava o aparelho “ estou enfiando um dedo na bocetinha de cada uma...” Mônica gemia um “ ahhh” bem alto enquanto eu simplesmente puxava o ar entre os dentes com um sonoro “ shhh” as vezes um “ shhh...aaah...hmmm”. Viramos nossas folhas dobradas para comparar nossas respostas... Homem: Daniel, ela escreveu Danilo. Dez. Mulher: ambas escrevemos Débora e reviramos os olhos ao constatar isso. Cinco. Animal: Dromedário e Dinossauro. Dez. Cor: Dourado... cinco... Às vezes somos tão passivas, dourado é tão passivo. Ricardo continuou narrando nosso sexo por telefone, agitamos as mãos e era a letra H, essa letra não, então jogamos mais uma vez, F, letra F. Mônica resolveu pedir para que ele não parasse naquele sequencial de “ não pare, não pare” sempre seguido por um gemido longo ao final. Escrevia Ferrari e complementava o ela dizia com “ ai, assim... assim... continua, isso, assim”. Mais oito minutos e duas rodadas de adedonha e Mônica começou a gozar pelo telefone, logo eu também e Ricardo em seguida, mas no caso dele sem dúvida havia melado de porra o lençol do hotel chinês. 264 Um tanto mais de palavras doces e melosas e desligamos o telefone com promessas de amor e afirmações de intensas saudades, ele pôde dormir sem dores nas bolas e nós nos levantamos para uma caminhada na praia.


— Carol, ele ficaria muito chateado conosco. — Só se você contar, você vai contar? Eu não vou. — Não, pra que? Puxa... eu o amo tanto... mas o clima simplesmente furou e a culpa foi sua. — Foi nada, ele que continuou o assunto aproveitando pra jogar na nossa cara os gastos. O celular tocou, Mônica o atendeu sorrindo e logo o passou para mim. Débora. — Fala minha irmã. Bom dia. — Bom dia, Carolzita, tá pensando em fazer o que neste lindo feriado? — Caminhar na praia, depois dar uma passada na loja... — Por falar em loja, vem lanchar comigo... e traga uma cesta de bolinhosdechuva recheados. — Recheados variados? — Menos de banana! — Menos do seu preferido, certo... enjoou deles? — Enjoei sim. — Tá legal, nos vemos lá pelas dezesseis horas. Débora comia tanto os bolinhos recheados de banana caramelada que nos últimos dias era um prejuízo quando ela colocava os pés na loja! Ainda que o marido dela fosse meu sócio, não dava pra ignorar o fato de que comia o tempo todo sem pagar... Ah minha Nossa... Estava pegando o pão durismo de Ricardo... Passeamos na praia, Mônica e eu, almoçamos no quiosque e só então fomos para a loja no shopping, esse era definitivamente o lado ruim do comércio, não tinha jeito de fechar pra descanso... todo dia marcávamos ponto por lá, mas 265 no fundo não reclamava, qualquer coisa era melhor que trabalhar onde Déb e eu


trabalhávamos. — Mônica, faz um favor pra mim? Dá uma conferida no livro estoque e compara com o que tem de fato. — Claro, tudo bem. E você o que vai fazer? — Livro caixa, vou conversar com o gerente... — naquele instante avistei uma cobra serpenteando na direção da loja — ...Oh Deus... — Senhor daime paciência, foi o que pedi em meu íntimo. Mônica se virou e soltou um suspiro demorado, depois se retirou. — Boa tarde, Carol. — Boa tarde, Letícia. Em que posso ser útil? — Faz tanto tempo que a gente não se fala, estava aqui com meu namorado e te vi passar... a loja é sua? — É. — Hmm... Legal... e a Débora? Tudo bem com ela? — Tudo bem com ela, comigo, com a Mônica, o Théo, tio Bento, Junior, Luiza, tia Ana, Alex, tudo bem com todo mundo. — sei que fui agressiva naquele momento, mas depois da trepada furada da manhã... paciência era o que eu não tinha! — Desculpa eu... só pensei em te cumprimentar... saber como estão todos... — Já que estamos falando da saúde de todos, e o João... notícias dele? — Nos falamos um tempo depois do casamento, ele estava se sentindo muito sozinho, Junior não queria mais nem olhar pra ele... Mas foram só alguns telefonemas... — E seu namorado, quem é? — Ah o Wagner, ele é professor da academia onde estou fazendo dança... Estiquei os olhos na direção em que Letícia olhava, e que coisa mais horrorosa era aquele homem? Parecia um monstro de tanto músculo e pelo jeito 266 com que ele olhava para as meninas ao redor... Letícia devia ser a mais corna das


namoradas... A justiça tarda mais não falha. *** Quando Déb abriu o portão para me receber, percebi na hora que tinha alguma coisa diferente acontecendo, ela estava com um sorriso tosco, fazia tempo que não a via com aquela cara, desde... desde a primeira vez que transou com o Théo. — Trouxe meus bolinhos? — É lógico e boa tarde pra você também, que mania de não falar direito comigo. — E Mônica? — Ficou na loja, resolvendo umas coisas pra mim... Você não vai acreditar quem perguntou por você? — Quem? Se disser ninguém vou bater em você. — Quase isso... Letícia. Débora parou nos degraus antes de abrir a porta da sala e me olhou desconfiada. — Sério? — A vaca deve estar com a cabeça pesada de tanto chifre! Arrumou um bombadão, parece um corneto, cara esquisito com pernas finas e um nariz... ele me lembrou... — não aguentei, com a lembrança do rosto do homem e cai na gargalhada — ele tinha a cara do Popeye! — Cruzes, que horror. Ah, foda-se. E meus bolinhos? — Aqui. Adorava a casa deles, tudo era tão clarinho e havia tantas plantas e claridade... — Cadê o fedorento? 267 — Conseguimos mandá-lo pro banho e tosa. Sente-se, vamos conversar um pouco. — Sim, sabia que tinha alguma coisa pra me contar. — Tenho um convite pra fazer, na verdade Anghelo e eu temos.


— Por falar nele, cadê o bonitão? — Está no quarto, conversando com a nonna... Ah! Olha ele vindo! Théo se aproximou e nos abraçamos, ele sorria tão feliz, então ficou ao lado de minha melhor amiga e seguravam as mãos. — Falou com a nonna? — Débora perguntou baixinho, parecia tensa. — Tudo certo. — respondeu com um sorriso ainda mais aberto. — Hoje é o dia das ligações internacionais... Ricardo ligou hoje e.... — eu até contaria, mas Théo estava olhando curioso e achei melhor preservar o Ric, acho mesmo que o bonitão não deixaria de sacaneá-lo na primeira oportunidade — deixa pra lá... Mas fala, o que vocês querem? — Lembra do meu aniversário de 31 anos? — Inesquecível! Ficamos um tempo no banheiro... — Lembra do que conversamos um pouco de ir embora? — Ah não vou lembrar.... Refresque a minha memória, mas antes refresque a minha garganta, por favor, cerveja? — Temos. — Débora serviu a bebida em uma taça e a deslizou suavemente para mim. — Não vão me acompanhar? — Não estou com vontade. Olhei para Déb esperando sua resposta, ela sorriu e uma de suas sobrancelhas arqueou levemente. — Gestantes não devem ingerir bebida alcoólica. O Mundo parou. 268 Então um grito enorme explodiu de mim e logo dela! Você será a madrinha! ...seria a madrinha com muito orgulho, meus olhos marejaram e os dela também. Já conseguia me ver ensinando tudo o que realmente valia a pena ser ensinado para aquela criança... Suspirei. Sorri de lado. Às vezes acho que a Débora não pensa muito bem em suas decisões. 269


BONUS Aeroporto do Galeão – Antônio Carlos Jobim / RJ — Diga-me, sempre tive curiosidade em saber... Porque fez a Débora, na verdade eu, pagar os dezoito mil? Era pra dar veracidade na brincadeira? — Não... Quero dizer, num primeiro momento sim... Sei lá! Queria ver até que ponto ela iria por mim... ou por ela, já que estava tão empenhada em aparecer com alguém no casamento do Junior... — Você não é um cara normal. — Não seja tão radical, Carol, eu sou tão normal quanto vocês duas. — Ou seja, você é pirado. Carolina e eu nos encarávamos por intermináveis segundos, tentávamos sustentar um olhar sério, mas de repente ela rasgou no rosto os lábios finos e largos num sorriso amplo, me obrigando a rir também e logo estávamos gargalhando diante das lembranças de minha louca história de amor com sua melhor amiga. — Achei o máximo sua prima Sophia vir ajudar com a Cecília, essa menina já vai nascer cheia de mimo! — Por falar na bebê... acha que a Déb tá bem com o Ricardo e a Mônica? — Com certeza... Desviamos os olhos ao mesmo tempo para o pátio de aviões. Silêncio. Fitamos o cenário de céu azul emoldurado pelas vidraças de esquadria metálica, mas logo voltamos a nos encarar, seriamente preocupados. 270 *** Barrada Tijuca — Você quer água, Debinha? — Não, estou ótima, obrigada. — já não aguentava mais o tanto de coisas que me ofereciam a cada cinco minutos! — Quer... mais uma almofada? — olhei propositalmente para o sofá em que estava aninhada, nele, inúmeras almofadas. — Não. — respondi secamente. Ricardo intencionou abrir a boca e me precipitei em falar antes dele — Estou tentando entender essa mania de ficarem


em cima de mim... — Anghelo foi bem claro, se ela espirrar esteja com um lenço à mão. Revirei os olhos diante daquela imbecilidade e me esforcei para levantar, arrastando a bunda para a beirada do sofá e me apoiando no assento almofadado para me pôr de pé, de repente dois pares de mãos surgem a me amparar. Suspirei irritada. — O que você quer fazer? Quer ir para o quarto? — Ricardo perguntou preocupado quase atropelando as palavras. — Quer deitar um pouco? Quer iogurte? — Hein? Iogurte? Mônica é maluca. — Não! Eu só quero ir ao banheiro. Sozinha! A vontade de Anghelo em ser pai estava alcançando níveis absurdos de cuidados! Havia sim limitações aos oito meses, ou como costumamos contar trinta e seis semanas e dois dias, mas nada que me impedisse de... a menos que... 271 — Ricardo, por que disse que o Anghelo o recomendou mil cuidados comigo? — comecei a perguntar assim que saí do lavabo. — Coisa de pai?! — aquela sobrancelha levantada apenas no topo do nariz me fez espreitar os olhos e cruzar os braços — É que... você-você... está muito... — ele escolhia as palavras enquanto olhava de um lado a outro na sala — sem muita paciência. — por fim decidiu dizer que eu estava neurótica. — Está dizendo que ando nervosa? Irritadiça? Chiliquenta? — não pude conter minhas mãos gesticulando sem um rumo certo. — Nãaaao.... Bem, sim, um pouco. — Ricardo, — com um dedo indicador em punho mostrei a ele que tinha eu todos os motivos do Mundo para estar chateada — Estou pesando quase noventa quilos, desses noventa, trinta e dois não me pertencem! Estou andando pela casa com esse peso numa bola de pilates preso à minha cintura! Eu faço xixi a


cada vinte minutos. — percebi que a última frase foi dita entredentes, então respirei fundo antes de prosseguir — Eu durmo sentada, tenho falta de ar constante, parece que tem uma batalha acontecendo dentro de mim quando ela resolve me chutar! Eu não posso beber uma cerveja nesse calor desgraçado que faz aqui no Rio de Janeiro! Meus pés incham se ficar muito tempo levantada, incham estando muito tempo sentada e incham quando calço um sapato fechado por mais de meia hora! Estou com uma fome do cacete e tenho que permanecer em dieta! Mônica se aproximou instintivamente com a mão em seu abdome achatado e olhando para os pés, como se pudesse sentir o que eu sentia ou talvez se imaginando na minha situação. — E vocês vem me falar que não tenho motivo pra estar irritada? Eu... — naquele instante senti uma fisgada forte, abaixo da costela. Fechei os olhos, tentava inutilmente absorver a dor que veio em seguida. — Débora, tudo bem? — a voz de Mônica falhou um pouco, mas pude ouvila e balancei a cabeça em negativa. Mais uma vez os dois pares de mãos me apoiaram e me levaram para o sofá. 272 *** Aeroporto do Galeão – Antônio Carlos Jobim / RJ Sophia se aproximou a passos largos e um amplo sorriso no rosto, já abrindo os braços. — Que nostalgia de te, cousin! — Sophia! Grazie per averci aiutato voi! — Ah eu adoro ficar de fora da conversa... — esqueci-me de Carol, que não nos entendia muito bem. — Desculpe-me, Carol, apenas agradeci que ela tenha vindo nos ajudar.


— É mesmo, uma pessoa de confiança, da família, é sempre melhor que uma contratada... — Carol entendia perfeitamente os motivos de ter chamado Sophia, Débora se sentiria bem mais tranquila com ela ao invés de uma enfermeira ou babá desconhecida. Sophia fez boa viagem e nos contava todas as novidades da Toscana. Disse-nos que Enzo havia sido preso por três dias! Havia se envolvido com a mulher de um delegado de polícia, era um idiota... Pietro estava lá havia uma semana e foi obrigado pela nonna a ajudar Enzo. A nonna estava sendo... a nonna, pra variar, como uma boa bisavó tricotou inúmeros casacos, mantas e sapatinhos cor de rosa para nossa Cecília. Sophia mostrou o trabalho de nossa avó em inúmeras sacolas, havia até um par de luvas de crochê ou tricô, não sei bem a técnica que ela usou, mas era bonito e certamente inútil, com o calor que fazia no início daquele novembro. Expliquei a minha prima que Débora estava com uma barriga muito grande, mal conseguia se mover sem que soltasse uns suspiros sôfregos. Não menti, contei que estava absurdamente irritada com tudo e que isso piorava a cada dia. Não havia muito o que fazer, jamais poderia imaginar que ficaria tão.... grávida, e ainda assim estava linda, mesmo reclamando, brigando e gritando, estava perfeita. 273 Compreendia que boa parte de sua irritação nada tinha a ver com comida, ou com a lentidão de seus passos, mas era a preocupação com o diagnóstico de arritmia cardíaca de nossa bebê e até que se pudesse realizar os exames em Cecília, não ficaríamos tranquilos. Foram quarenta e seis minutos que nos separaram de risadas sem fim no interior do carro para o desespero de Mônica no portão de minha casa. Mal estacionei, parei o carro atravessado de qualquer maneira no meio fio e


entramos correndo enquanto Mônica nos relatava o estado de Débora... Humpf...Como se fosse preciso... Ainda da porta pude ouvir um dos seus gritos. A cena que me deparei foi... foi... angustiante. Débora estava um tanto deitada um tanto sentada no sofá, Ricardo ao seu lado segurando em sua mão, na mesa de canto água pela metade em um copo e uma cartela de analgésico. — Anghelo!! — ela gritou ao me ver. Tomei o lugar de Ricardo, tentando processar o que se acometia, já que faltava muito para o parto. Houve uma sucessão de vozes ao mesmo tempo, todos falavam, Mônica, no celular, se alternava entre tentar falar comigo e localizar o médico de Débora. Ricardo explicava o que acontecera nas breves duas horas em que estivemos fora. Sophia se esforçava num português forçado gritando de longe o que seriam instruções, até que veio do lavabo com as mãos ainda molhadas e abaixou uma das pernas de Débora, mas ao fazê-lo mais um grito de minha esposa. A testa de Débora já dava os primeiros sinais de suor, Sophia, que havia tido um parto em casa, apalpou a barriga de Déb e arregalou os olhos. “ Muito baixa”, ela nos disse, então num instinto, passei um dos braços por baixo das pernas de minha mulher para levantá-la, precisávamos levá-la ao Hospital! E mais um grito


agudo saiu de seus lábios. 274 — Tente ficar calma, meu amor! — Anghelo. — chamou meu nome entredentes — Olha o que você fez comigo! — Eu? — àquela altura não me importava com nada, mas dizer que era minha culpa?! — Você que passou a gravidez toda comendo bolinho-dechuva escondido! A culpa é da Carol! — Ei! Ela comeu porque quis! E não se nega comida a uma grávida! — Cala a boca, Carolina! — Mônica estava ao telefone — Estou tentando deixar um recado no celular do médico! — Melhor colocar ela na cama! — Carolina interveio mais uma vez. — Melhor levar ela logo pro Hospital! — disse Ricardo assim que largou suas unhas roídas. — Então por que não a levou? Gênio? Nos ligava de lá! — Carolina, cala a boca! Você não sabe que ela não iria a lugar algum sem o Anghelo? — Gente, ela está pesada... — eu juro que não queria ter dito isso, apenas saiu, só queria resolver logo o que fazer e me sentia um idiota por não saber que rumo seguir! Débora me fuzilou com os olhos! — Me leva pra porra do Hospital! Seu filho da puta! — Por favor mantenha a calma, meu amor! — seguimos para o carro. Carol pegou as chaves em meu bolso e entregou a Ricardo, enquanto eu acomodava Débora no banco de trás, Ricardo dava a partida no carro, Carol sentou rapidamente no carona. Mônica e Sophia nos seguiriam em outro carro e antes do final da rua... — Espera! — Carol gritou fazendo Ricardo parar bruscamente o carro. — O que foi?? Caralho!!! — perguntei exaltado enquanto minha mão estava sendo esmagada pelos dedos de Débora. 275


— A malinha delas! — com isso Ricardo voltou um bom pedaço de ré, jogando o carro para a esquerda numa curva fechada e seguindo de volta para a casa. Carol desceu antes do carro parar completamente e correu em direção ao carro de Mônica, pegando as chaves e correndo para o interior da casa. Não demorou nada, sei disso, mas pareceu uma eternidade para mim que encarava o olhar irado de Débora em minha direção. — Tente se acalmar. — Anghelo se me pedir calma mais uma vez.... — ela respirava entre lábios — ... Juro que vou te matar! Tem uma bola de basquete prestes a sair de um buraco onde só passa uma bola de golfe! — Eu sei, eu sei! — Sabe nada!! Deixa eu enfiar uma berinjela no seu cu que você vai saber! Dio Santo! — Rápido, Mônica!!! * Foram os vinte minutos mais terríveis de toda a minha vida! A maternidade na Barra da Tijuca era relativamente próxima, e a cada sinal laranja que se erguia do alto do semáforo, Ricardo nos impulsionava mais veloz pelo trânsito da Avenida das Américas, de repente o estofado de couro já era, uma inundação saiu dentre as pernas de Débora. Entramos na maternidade e logo a enfermeira constatou que ela estava em trabalho de parto, que gênia. Quanto mais Débora segurava a respiração, mais me moía os dedos e mais eu pressionava os lábios nos dentes e mais eu mesmo me machucava! Carol subiu com Débora e a enfermeira enquanto Ricardo tentava localizar o obstetra e eu tratava de uma papelada de internação, confuso com a mistura de sentimentos, estava aliviado pelos meus dedos, mas apreensivo por minhas garotas e nervoso de verdade apenas por Cecília.


276 Foi tenso, quase meia hora havia se passado quando o médico finalmente deu sinal de vida avisando que estava a caminho, mas não sabia se chegaria a tempo. Débora simplesmente trancava os olhos e os lábios numa careta que surgia em espaçamento cada vez mais curtos. Nos preparamos para entrar na sala de cirurgia, eu precisava estar com elas, ainda que estivesse tenso a ponto de quase esmagar a câmera nas mãos. — Anghelo, não quero que me filme! — Foto! Preciso registrar a chegada da nossa princesa. http://grooveshark.com/s/Bonus+Track+number+1/4340l3?src=5 Ela respirava tão rápido... Assim que o médico, que não era o obstetra de Débora entrou na sala de azulejos brancos, sorriu como se não houvesse nada demais acontecendo! Fez umas perguntas, enquanto a equipe médica realizava alguns procedimentos, avaliou rapidamente minha esposa e se colocou entre seus joelhos e foi então que tudo ficou meio escuro e as vozes ao longe... — Anghelo!!! Não desmaie! — a voz desesperada de Débora me fez despertar. — Não pode fazer uma cesariana, doutor? — estava aflito com a expressão de dor em seu rosto. — O bebê já está coroando. Fique calmo pai, a anestesia logo fará efeito, é questão de segundos. — Ainda que ele parecesse saber do que estava falando, não fiquei nada satisfeito em ver a força que Débora fazia. Foram muitos minutos de angustia até que o médico me chamou para fotografar o nascimento de Cecília. Sem dúvida a foto sairia tremida, pois seguiria o curso de minhas mãos. 277 Vi seu rostinho tão redondo e tão pequeno, era linda! Quase não tinha nariz, mas tinha um pulmão incrível! Não fez som algum ao ser tirada, mas logo que uma


médica pediatra mexeu em seu nariz e boca, chorou muito alto, muito forte, era perfeita! Então falei da arritmia e a doutora com um estetoscópio examinava com cuidado enquanto fazia uma cara de que não entendia de que arritmia eu falava. — Ela é perfeita, pai, num primeiro momento te garanto que está muito bem. Deixe-me mostra-la para a mamãe... — Fiquei confuso. A médica embrulhava minha Cecília como se fosse uma boneca. Virei-me para olhar Débora, mas a expressão de dor era crescente em seu rosto mais uma vez, ela não parecia nada bem. Caminhei rapidamente em sua direção segurando uma de suas mãos, o médico ainda estava entre suas pernas, Débora voltava a sentir-se mal. — Doutor! — chamei pelo médico — Déb, meu amor, o que há? — Não se preocupe, pai. Sua esposa só precisa continuar o trabalho, está indo muito bem senhora! Vamos pôr mais um pouco de força! — Mas o que? ... — não consegui entender mais nada, até que o choro de um bebê se confundiu a outro e meu coração parou, congelado naquele instante. — É um menino! — o médico estava entusiasmado e eu pasmo. — Impossível! — Débora praticamente gritou, estava furiosa! — Eu fiz cinco ultrassons e nunca apareceu nenhum menino! — Mas aqui está, o filho de vocês! — Doutor, você não conhece meu marido! Não teria como esconder a piroca de um menino filho dele! Fiquei ainda mais sem ação quando as enfermeiras e a pediatra olharam em minha direção e se entreolharam. — Provavelmente ele ficou escondido, bem escondido eu diria... — Vou processar o meu médico! Tenho um quarto rosa em casa!! Fala alguma coisa Anghelo!


— Eu... eu... amm... er... Tem mais algum filho pra sair daí, doutor? 278 *** Sophia, Mônica, Ricardo e Carol entraram no quarto logo que foi liberada a visita. Carol se aproximou de uma Débora bem mais serena, deixando um beijo em sua testa. — Como você está, amiga? — Tirando o susto, bem. — Vimos seus bebês, eles são lindos! — Mônica falou meio de longe. — Pensou no nome do garotão? — Matteu? — virou-se para mim e concordei, Matteu era um lindo nome. — Ah, então coloca Julliana ao invés de Cecília! Tipo novela Terra Nostra! — Julliana era o nome da minha mãe. — respondi. — Ih! Então melhor não.... Nome de defunto não deve dar muita sorte... — rapidamente Carol mudou sua expressão de pensativa a entusiasmada — Ainda bem que você teve aquela ideia maluca de colocar somente roupinhas brancas na malinha... Ainda assim, vamos precisar sair pra buscar mais roupinhas, mas não se preocupe, vamos trazer todas as rosinhas para a Cecília e o Matteu fica com os conjuntos pagãozinho branco, tudo bem desse jeito? Débora fez que sim e seus olhos se encheram de lágrima, as mesmas que ela simplesmente foi impedida de deixar cair, graças ao Doutor Simão, médico desgraçado, como não percebeu que eram gêmeos, ainda que não aparecesse na ultrassonografia?! Os advogados da Battlestar o fariam uma visita em breve... * Um fato inegável, nossos bebês eram mesmo lindos, com cara de joelho, rosados e cabeludos. 279


Assim que Débora os alimentou nos seios, olhou para mim sem um traço sequer de toda a raiva que sentiu horas antes, sorriu e me agradeceu. — Obrigada. É o melhor presente que poderia ganhar no mês do meu aniversário. — Eu que agradeço, amore mio, estou veramente feliz. — Tu sei... l'uomo della mia vita. — sorri ainda mais, ela andou aprendendo algumas frases em italiano afinal... — Sim correto, sou eu o homem da sua vida. E você a mulher da minha vida. — La Donna della sua vita? — La Donna della mia vita. FIM. 280


Cda aun